quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-105 - A Frota-Fantasma - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON




Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Erguem-se das sepulturas,
para atacar a Terra...


Pelo fim do século vinte e um e começo do século vinte e dois, iniciou-se uma nova época na história da Humanidade.
Com o apoio dos terranos, o arcônida Atlan conseguiu firmar sua posição de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu bons frutos, especialmente para vários agentes de Rhodan, pois passaram a ocupar cargos de importância na administração de Árcon. Atlan não tem outra alternativa senão tolerar esta ingerência terrana no Grande Império Arcônida, porque a maioria de seus compatriotas não lhe são de confiança.
O Império Solar se tornou realmente uma potência comercial de primeira grandeza ao longo da Via Láctea. Iniciado há 22 anos, amplia-se cada vez mais um movimento migratório dos terranos para colonização de outros mundos. Em quase todos os planetas habitados por seres inteligentes há embaixadas e representações comerciais do Império Solar.
Apesar de tudo, porém, a situação não está serena, pois todos sabem que há na Via Láctea uma potência que não morre de amores nem pelos arcônidas nem pelos terranos: são os acônidas, do Sistema Azul.
Perry Rhodan continua preocupado, mesmo depois de, com ingente sacrifício de todos, ter superado a guerra bacteriológica dos mencionados acônidas. Todo raciocínio leva à conclusão de que tal povo — os misteriosos antepassados dos arcônidas — considera os homens como animais daninhos e assim os trata.
Qual será agora a próxima iniciativa dos acônidas contra a Terra? Naves-patrulha percorrem o Sistema Azul para estar a par de qualquer agressão, mas não podem localizar A Frota-Fantasma.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Geral-KhorUm arcônida consciente de seus deveres.

Major Bellefjord, cadete Rumpus e sargento MeisterPenetram casualmente no Sistema Azul.

GuckyQue tem uma árdua tarefa...

Reginald BellQuer enforcar alguém que nem existe!

Tanor e GagolkDois arcônidas que agem a mando de um soberano morto há quinze mil anos!
1



Em torno do gigantesco sol azul girava um planeta muito semelhante à Terra, com a gravidade de 1,1 gravos, uma densa atmosfera de oxigênio e um céu de um azul claro fora do comum. Os continentes deixavam ver que ali habitava uma raça inteligente, de alto padrão técnico.
Não era apenas o sol e não era somente o céu do quinto planeta que apresentavam aquela coloração de um azul agradável. Em torno de todo o sistema solar pairava uma camada esférica de um cintilar azulado, de uma energia quase transparente, que na realidade era um envoltório de proteção magnética. Foi devido a isto que Rhodan, quando descobriu o sistema, lhe deu o nome de “O Sistema Azul do Império Acônida”.
Ao quinto planeta chamou de “Sphinx”, e Sphinx tinha duas luas. Uma era pequena, sem maior importância. Mas a outra era do tamanho de Mercúrio e substituía, por meio de suas instalações do transmissor fictício, uma frota inteira de milhares de naves. Em última análise, esta lua não passava de uma gigantesca estação do transmissor fictício. Era por seu intermédio que os acônidas transportavam gêneros, qualquer tipo de material, armas e principalmente a si mesmos para qualquer ponto da Via Láctea, supondo-se naturalmente que lá houvesse uma estação receptora correspondente.
Só para dar um exemplo, se conseguissem montar às escondidas um receptor destes na Terra, estariam automaticamente em condições de invadir nosso planeta com a maior facilidade, sem necessitarem de uma só espaçonave.
Tentaram uma vez provocar uma peste na Terra, com o que quase levaram a Humanidade à beira do abismo.
Rhodan estava convencido de que não iria ficar somente nesta tentativa, mas sabia também que uma simples defensiva não seria o meio eficiente para acabar com estes ataques. Tinha-se que, ao invés disso, tirar os antepassados dos arcônidas de seu bem resguardado Sistema Azul. Mais de três dúzias de cruzadores leves e pesados da Frota Espacial patrulhavam o envoltório energético de cintilação azulada, procurando uma brecha para penetrar. Mas não havia uma só brecha.
Os terranos não dispunham, portanto, de meios para ficar a par das tramas urdidas em Sphinx e em sua lua maior, contra os arcônidas e principalmente contra eles próprios. Ao menos, aparentemente, não acontecia nada de importante. Na Terra, como em seu satélite, a Lua, aterrissavam todos os dias centenas e centenas de espaçonaves, sem que ninguém desse maior importância a este fato.
Os acônidas dificilmente usavam naves, já que executavam todo transporte, tanto de mercadoria, como de passageiros, por intermédio dos transmissores fictícios. Espaçonave só lhes seria útil quando quisessem instalar uma estação de recepção fictícia em outro lugar.
Assim mesmo, na lua do quinto planeta estava uma espaçonave prestes a decolar. Não era muito grande, tinha o formato costumeiro da antiga cosmonáutica acônida, isto é, de construção esférica, com os dois pólos levemente achatados. Os técnicos tomavam as últimas providências, e com muito mais cautela que os engenheiros terranos. Não precisavam agir tão detalhadamente, pois tal serviço não requeria tanta atenção.
Esta nave, porém, não era um aparelho comum, e sim um artefato especial, secreto, completamente fora de série.
A tripulação da tal nave estava reunida em Sphinx, recebendo as últimas instruções. Toda a operação foi novamente discutida, colocando-se nas devidas dimensões a importância do sucesso total, com especial realce do fator surpresa. Este ataque contra Árcon era, portanto, indiretamente contra a Terra.
Esta é a mais ousada das experiências — dissera o instrutor, estirando os braços para o céu, de tal modo que as palmas das mãos recebiam a luz direta do sol azul.
Devia ser uma mistura genial de técnica e de especulação psicológica, que a vítima somente perceberia quando fosse tarde demais para uma reação.
Formou-se então a fila, passando os garbosos tripulantes perante os membros do governo e dos cientistas. Caminharam, depois, em direção ao campo energético de brilho mais intenso, entrando para um arco flamejante — portão para o transmissor fictício.
Quando a primeira leva dos acônidas chegou ao arco chamejante, desapareceu de um instante para o outro, dando um simples passo para frente. Era como se o nada os tivesse tragado. A segunda leva, a terceira e a quarta se sucederam, até que toda a tripulação havia deixado o planeta de uma forma bastante estranha.
No mesmo segundo, porém, aquela fila enorme se rematerializava na lua do planeta. Saiu a primeira leva de um arco flamejante quase idêntico ao do planeta. Percorreram a grande distância entre o planeta e sua lua apenas com um passo, em um segundo, ou menos até. Todo o pessoal foi se aproximando da nave de pólos achatados. Oficiais transmitiam ordens. Entre a escotilha aberta de embarque e o chão se formou um cintilante campo antigravitacional. A tripulação foi levada para bordo.
A vinte ou trinta horas-luz dali as naves terranas patrulhavam. Nem mesmo seus instrumentos mais sensíveis podiam captar o que se passava em Sphinx ou em sua lua. Não conseguiram nem registrar a decolagem da pequena espaçonave acônida, que, com uma aceleração crescente, se aproximava dos limites do Sistema Azul, empregando uma técnica, até então segredo deles, de atravessar o envoltório magnético de proteção num determinado ponto.
Era este o momento por que esperavam os terranos. Se uma nave conseguia atravessar a muralha invisível de proteção num determinado lugar de dentro para fora, o inverso também devia ser possível!
Nas telas panorâmicas de três naves terranas de patrulhamento, que estavam mais à frente, apareceu a sombra rápida do artefato acônida. Antes de os terranos iniciarem a perseguição da nave esférica ou localizarem sua direção, o misterioso aparelho ultrapassou a velocidade da luz e desapareceu no semi-espaço, tornando-se invisível aos olhos dos observadores.
Tentar uma perseguição seria mesmo impossível, pois uma nave de transição jamais poderia alcançar ou ultrapassar um aparelho com tração linear, no hiperespaço. Mandou-se uma mensagem para a Terra, mas não lhe deram a atenção que merecia.
Ninguém suspeitava de que o ataque já fora desencadeado. Um ataque como nunca houvera antes!
Um grupo de acônidas partira para abalar os alicerces do grande império. Através do espaço e do tempo, uma garra invisível do passado chegava até o presente com força destruidora.
Milênios e milênios se reduziam a nada.

* * *

Consideram-nos como bichos vagabundos — afirmava Reginald Bell, braço direito de Rhodan. — O desprezo que os velhos arcônidas nos votavam quando os encontramos pela primeira vez na Lua, não era nada em comparação com o destes orgulhosos acônidas.
Concordando, o Marechal Solar Freyt fez apenas um aceno com a cabeça, mas não disse nada, deixando o comentário para Rhodan, que estava sentado à cabeceira da mesa. Atrás dele, uma janela bem ampla mostrava uma parte do panorama de Terrânia. A capital da Terra e do Império Solar crescia cada vez mais e sua periferia urbana já atingia o antigo deserto de Gobi.
Mas é isso — disse Rhodan, dando sua opinião. — É verdade, nos desprezam e querem nos tirar de seu caminho, ou mesmo nos destruir. Isto é um sinal evidente de sua presunção e conseqüentemente de sua burrice. Todo aquele que menospreza seu adversário é bobo. Além de tudo, são intolerantes, pois não suportam nossa presença, embora não saibam nada a nosso respeito, como também pouco sabemos a respeito deles. E, intolerância, meus amigos, é também sinal de burrice...
Estamos preparados, Perry — disse Freyt. — Nossas frotas poderão zarpar a qualquer momento, caso sejamos atacados. E os acônidas conhecem a posição galáctica da Terra, pelo menos é o que nós temos que supor...
Se eles atacassem — continuou Rhodan — mas atacassem de fato com naves, aberta e honestamente! Tenho receio, porém, que a próxima operação será tão traiçoeira e às escondidas como a primeira. Têm medo de declarar guerra, mas não temem assassinar friamente. A Drusus já está pronta para partir?
Naturalmente, prontíssima — respondeu Reginald Bell, com seu cabelo vermelho, ouriçado como porco-espinho.
E o Exército de Mutantes?
Já está a bordo.
Deringhouse?
Também anda aí por perto; afinal, é o nosso comandante.
Ótimo, então vamos começar o trabalho logo — disse Rhodan. — Se os acônidas não tomam a iniciativa, nós a tomaremos.
Hesitou um instante.
Ainda uma pergunta, Freyt: Como está caminhando a montagem dos motores de propulsão linear? Já existem algumas naves prontas para entrar em ação?
Algumas estão ainda em vôos experimentais e nos estaleiros da Lua o trabalho é ininterrupto. Se for necessário, podemos utilizar uma nave com esta propulsão muitas vezes superior à velocidade da luz.
Obrigado, é isto que queria saber. Rhodan olhou para Bell, Freyt e para os demais homens.
Querem fazer mais alguma pergunta?
Levantou-se um general.
Tenciona decolar ainda hoje, sir?
Rhodan sorriu.
Não, claro que não. Gosto de saber sempre se posso arrancar a qualquer momento. Isto traz sempre alguma vantagem, além de segurança total. Porém, nossos planos não estão ainda firmes. Mas logo serão informados a respeito. Mais alguma pergunta?
Horas depois, Bell e outros colaboradores estavam reunidos na residência de Rhodan. O rato-castor achava-se deitado numa almofada no canto da sala, parecendo cochilar. John Marshall, chefe do Exército de Mutantes, sentara ao lado de Rhodan. Ras Tschubai, o teleportador africano, conversava com a japonesa Ishy Matsu. Dos alto-falantes embutidos na parede saía uma música suave.
A situação parece idêntica à daquela vez quando nos defrontamos, temerosos, com os arcônidas. Só que estes, apesar de cheios de si, me eram muito mais simpáticos. A gente sabia, ao menos, com quem estava lidando e onde encontrá-los.
É exatamente isto — confirmou Marshall. — Desta vez temos que tatear no escuro como se fôssemos cegos. Os acônidas, antepassados dos nossos arcônidas, são mais misteriosos e mais arrogantes do que estes. Infelizmente, porém, não tão fracos e decadentes. Ainda vão nos dar muita dor de cabeça.
Como se já não tivéssemos bastante — disse Bell mal-humorado, levantando-se e se dirigindo para o canto onde estava Gucky.
O rato-castor, sonolento, lhe deu uma piscadela, mas continuou espichado no almofadão, enquanto seu amigo do peito começava a lhe cocar o pêlo das costas.
Devemos simplesmente ignorá-los — concluiu o gordo.
Não se afasta um perigo, ignorando-o — sentenciou Rhodan. — Pelo contrário, estamos assim incrementando o desassossego.
O que o senhor pretende então? — perguntou Ras Tschubai francamente.
Rhodan lhe dirigiu um largo sorriso.
Você vai sempre direto no assunto, hein, Ras? Mas vou lhe dar uma resposta. Amanhã ou depois de amanhã, faremos algumas transições na direção do Sistema Azul, com uma pequena frota. Lá já estarão à nossa espera umas duzentas unidades. Vamos tentar, numa ação conjunta de maior envergadura, romper a muralha energética que protege o sistema. Se todas as naves fizerem a transição no mesmo instante, talvez o consigamos.
Bell voltou-se para Rhodan e sua mão direita se esqueceu do que estava fazendo.
Como você concebeu tal idéia?! Todos fazerem a transição ao mesmo tempo! Não será...
Calma, Bell — respondeu Rhodan. — A força dos abalos deverá quebrar as barreiras magnéticas. Se isto não acontecer...
Não concluiu o que aconteceria. Bell estava branco como cera, quando disse, excitado:
É um risco desgraçado, Perry.
Não para você, gorducho, pois, desta vez, não irá. Quero que, durante minha ausência, permaneça aqui, atento aos acontecimentos. Tenho um vago pressentimento de que vai acontecer algo que pode ser muito desagradável para todos nós.
Um ataque dos acônidas? — indagou Ras.
Sim, talvez uma invasão.
Silêncio sepulcral.
Todos estavam preocupados com seus pensamentos, enquanto Bell chegava à conclusão de que não havia contra-razões para ele não ficar na Terra. Portanto, calou-se e não disse nada, continuando a cocar o pêlo de seu amigo número um.
No silêncio reinante, a interrupção da música despertou a atenção dos presentes. Seguiu-se um ruído de novo contato. Alguém estava interferindo na ligação. Rhodan olhou automaticamente para o videofone, que estava sobre a mesa principal no outro canto da sala. Mas nada se movia em sua tela, nem em nenhuma outra.
Atenção! Para Perry Rhodan, urgente! Ligação de hiper-rádio com Árcon. Favor avisar... Hiper-rádio de...
Rhodan pulou de sua poltrona e correu para o videofone. Apertou o botão para a ligação com a Central de Rádio de Terrânia, pedindo linha.
Apareceu na tela a pessoa que estava falando pelo rádio.
Perdão, sir, não sabia que o senhor estava em casa, mas em se tratando de urgência fiz o apelo pelo rádio.
Está bem — disse Rhodan um pouco impaciente. — Transfira a ligação do hiper-rádio para cá. Vou falar daqui mesmo.
O homem fez um sinal com a cabeça e desapareceu do videofone. Poucos instantes após, surgiu na tela o rosto de Atlan, Gonozal VIII, imperador de Árcon. Sinais visíveis de terror e de confusão desfiguravam os conhecidos traços fisionômicos do arcônida imortal. Através de trinta e quatro mil anos-luz, seus olhos se fixaram nos de Rhodan.
Que aconteceu? — perguntou Perry. — Pode falar francamente, aqui comigo só estão amigos íntimos.
Que aconteceu? Se eu mesmo soubesse! Aconteceu algo terrível e inimaginável. Alguém penetrou em Árcon, rompeu a muralha de proteção magnética e aterrissou em Árcon III,’ o mundo da guerra, sem que ninguém o pudesse deter, sem que os canhões automáticos disparassem ou fosse dado o alarma.
Rhodan olhava perplexo para Atlan. O que o imperador estava narrando seria em si uma coisa impossível. Não havia nenhuma espaçonave capaz de romper o envoltório de proteção de Árcon. Coisa meramente absurda. Atlan devia estar enganado!
Você não está acreditando no que lhe estou dizendo? — balançou a cabeça, admirado. — Você tem que acreditar em mim, Perry; estou perdido, se não pegarmos este ser misterioso. Ele está em Árcon III e lá localizam-se todos os estaleiros de cosmonaves, os centros de formação técnica... o cérebro robotizado! O cérebro robotizado! Rhodan, imagine se ele for danificado ou cair em mãos estranhas! Sim, sei o que você vai dizer: “Vamos dar um jeito nisso.” Mas como? Pense apenas que o estranho ser rompeu o envoltório de proteção e os canhões não funcionaram. Haverá também de fazer a mesma coisa com o cérebro positrônico...
Que aconteceu com suas esquadrilhas de patrulhamento? Não viram quando o intruso penetrou em seu espaço?
Claro que viram, mas a perseguição foi inútil. Apenas puderam ver que o estranho aterrissou em Árcon III, aí desaparecendo. Quando nossas naves se aproximaram dele, foram recebidas com disparos de canhão, aliás dos nossos próprios canhões!
Houve uma pausa. Rhodan levou uns dez segundos até responder:
Vou partir ainda hoje com a Drusus e mais dez unidades, seguindo diretamente para Árcon. Providencie para que possamos passar sem dificuldade pelo envoltório de proteção.
O semblante de Atlan estava mais aliviado.
Não sei como lhe agradecer, Perry. Quem sabe conseguiremos nos livrar deste monstro? Você o conhece?
Como é que era a nave dele?
Uma nave esférica, com os dois pólos levemente achatados. A propulsão...
Obrigado, basta. São os acônidas. Já tentaram também contra a Terra. Agora procuram fazer a mesma coisa com Árcon. Não há em todo o Universo raça mais perigosa. Espere por mim. Comunique-me qualquer irregularidade que ocorra. O transmissor da Drusus permanecerá ligado para recepção. Você pode falar comigo a qualquer momento.
Mais uma vez, obrigado. Acônidas? Você vai me contar alguma coisa sobre esta raça?
E o que sei? Atlan, preste muita atenção no que está acontecendo em Árcon.
Observe bem o mundo da guerra. Reúna toda a sua frota e cerque Árcon III hermeticamente. Quando a nave estrangeira tentar sair, procure destruí-la, se puder.
Chamá-lo-ei, caso ocorra alguma coisa importante — prometeu Atlan. Depois, a imagem desapareceu e a ligação foi interrompida.
Rhodan voltou a sua poltrona e se sentou. Olhou para seus amigos, todos calados. Gucky despertara de sua soneca e olhava surpreso. Bell não parecia muito feliz. Sabia que a decolagem da Drusus seria antecipada.
Hoje? — perguntou ele.
Agora, imediatamente — respondeu Rhodan. — Os acônidas estão atacando Árcon, sua antiga colônia. Pelo menos há quinze mil anos atrás devia ter sido sua colônia. Se eles souberem da aliança entre nós e Atlan...?
Bell andava nervoso de um lado para o outro.
E o que devo ficar fazendo na Terra? Os acônidas não vão atacar Árcon e a Terra ao mesmo tempo. Vou me sentir completamente supérfluo aqui...
Em que lugar que você não seria supérfluo? — disse o ingrato rato-castor.
Gucky parecia haver esquecido que Bell lhe cocara as costas, e concluiu, enfático:
Ou na Terra, ou a bordo da Drusus, você é sempre supérfluo.
Cale a boca, por favor! — disse Rhodan, com energia.
Gucky teve que engolir a língua. Era uma coisa muito rara quando Rhodan tinha que lhe chamar a atenção.
Magoado, Gucky se desmaterializou e desapareceu diante dos olhos de seus amigos estupefatos. Teleportara-se para o interior da Drusus.
Contrabalançou seu aborrecimento com o triunfo de ser o primeiro a transmitir a grande novidade à tripulação da grande nave.
Rhodan não se interessou pela saída de Gucky.
Partiremos dentro de meia hora — ordenou ele. — Você fica aqui, meu amigo. Quero deixar a Terra sob seu comando firme e competente. E pode acreditar no que lhe estou dizendo: enquanto eu estiver fora, vai acontecer alguma coisa importante.
Não sabia ainda o que ia acontecer, mas sentia-se certo de que suas preocupações tinham razão de ser.

* * *

Depois da segunda transição, a Drusus se rematerializou nas proximidades da base arcônida, a cerca de vinte mil anos-luz da Terra. E antes que o Major Gorm Nordman, navegador-chefe, pudesse iniciar os preparativos para a terceira transição, ouviu-se o sinal de atenção do receptor de hiper-rádio. O Tenente Fred Jenner se pôs imediatamente em contato com Rhodan e este, pensando se tratar de um urgente pedido de socorro de Atlan, correu para o posto de rádio. Teve uma grande surpresa... Não era o rosto conhecido de Atlan que estava na tela, mas o de uma pessoa desconhecida. Devia ser um arcônida, não havia dúvida. Os cabelos brancos, a testa ampla, os olhos vermelhos e a arrogância mal disfarçada eram uma prova mais do que suficiente. Rhodan mandou fazer a ligação do ramal do videofone, para que seu interlocutor o pudesse ver e ouvir.
Belonave Drusus, do Império Solar — disse de pronto. — Comandante Perry Rhodan, Terra. O senhor nos chamou?
Estava mais do que patente que o arcônida não tinha a menor idéia com quem ele tinha entrado em contato. Havia decepção no seu rosto, seguida logo depois por uma sensação de alívio. Rhodan não sabia como explicar esta mudança de expressão.
Base, comandante Geral-Khor, planeta Salex IV. Minha ligação com Árcon foi interrompida. O senhor poderia transmitir uma importante mensagem para o Imperador Atlan?
Rhodan olhou firme para o arcônida.
Seu hipertransmissor funciona, do contrário o senhor não poderia entrar em contato comigo. Entre nós, a distância é de três meses-luz, tempo da Terra.
A energia de que disponho não é suficiente para chegar até Árcon. Bastou-me para registrar sua transição, localizá-lo e chamá-lo. Mas não podemos vencer a distância até Árcon.
Que que aconteceu?
Havia hesitação nos traços do arcônida.
Não sei se lhes posso contar. Trata-se de um segredo militar.
Rhodan mostrou-se impaciente:
Como o senhor quer impedir que eu fique a par da situação, se tenho que transmiti-la para Árcon?
Mas é claro que vou dar a mensagem cifrada.
Isto não lhe vai adiantar nada, pois possuo a chave do código secreto do Imperador Gonozal VIII, podendo pois decifrar e ler sua mensagem.
Pela primeira vez, o semblante frio do arcônida esboçou um sorriso e Geral-Khor disse:
Era o que estava pensando, mas queria sua confirmação. Está bem, vou lhe contar tudo. O senhor quer aterrissar?
Não, meu tempo é escasso. O imperador está esperando urgentemente pela minha chegada.
É uma coisa importante, terrano, muito importante.
Rhodan olhou para o General Deringhouse, que entrara no posto de rádio. Ouvira o diálogo e tinha no rosto uma expressão confusa.
Está bem — disse Rhodan, finalmente. — Vamos então aterrissar, depois de uma curta transição de três meses-luz. Espere por nós. Dê-nos as coordenadas com exatidão, para pouparmos tempo.
Vinte minutos mais tarde, disparavam com aceleração decrescente para o quarto planeta do sol Salex. Era um mundo pequeno e deserto, de atmosfera respirável e de pouca vegetação. As instalações da base eram subterrâneas e Rhodan calculava que aqueles seus hangares davam para abrigar uma grande frota de encouraçados. Passaram por dezenas de naves-patrulha que circunvoavam o planeta numa órbita determinada e que não responderam ao rádio de simples cumprimento. Deringhouse disse que se tratava de unidades robotizadas.
A única construção, que se via na superfície da base, era uma enorme casamata em forma de cúpula, ao lado do espaçoporto. A antena esférica refletia o sol poente. Enquanto a Drusus, com as turbinas zunindo e com os campos antigravitacionais ligados, descia lentamente, pousando suave na pista de mais de um metro de camada de cimento armado, um único homem saía da fortaleza abobadada, parando à beira do espaçoporto.
A imagem ampliada do videofone permitia reconhecer os traços de Geral-Khor.
Rhodan franziu a testa.
Esquisito, tudo isto — disse ele. — Parece que o homem vive sozinho nesta base.
Deringhouse não respondeu. Estava ocupado demais com a aterrissagem. Seguindo exatamente o regulamento, desligou os diversos grupos de propulsão, examinou todos os instrumentos de controle. Deixou funcionando apenas os campos antigravitacionais, pois não sabia se a camada de cimento armado da pista tinha a espessura necessária para suportar o peso da Drusus, uma esfera de aço de um quilômetro e meio de diâmetro. Somente momentos depois, respondeu à pergunta de Perry.
Sozinho? Um homem sozinho não pode comandar uma base desta.
Por que não? — indagou Rhodan, não compartilhando da opinião do general. — Arcônidas competentes que se conservam ativos são raros e Atlan tem que distribuí-los com cuidado. Esta base é uma das muitas completamente automatizadas. Todas elas são dirigidas pelo cérebro positrônico de Árcon. O mesmo acontece com a frota. Somente que, em certas coisas, o ser humano é insubstituível, razão por que Atlan colocou em toda parte um arcônida de confiança como comandante. Portanto, não me causa nenhuma estranheza o fato de o bom Geral-Khor estar sozinho aqui.
A experimentação do ar foi satisfatória e a temperatura era suportável mesmo sem ser acionado o dispositivo de calefação do uniforme espacial. Rhodan enfiou na cintura uma pistola de raios energéticos. Deu instruções ao telepata e teleportador Gucky para que prestasse atenção em Geral-Khor, para estar à mão, caso fosse necessário. Depois, acompanhado também de John Marshall, igualmente telepata, deixou a Drusus pela escotilha de saída inferior. Levava naturalmente o pequeno transmissor de pulso, de modo que Deringhouse estava em ligação com eles.
John Marshall abriu os braços, respirou profundamente e sorriu feliz:
Como pode um planeta como este ter um ar tão gostoso?
Existem também mares e grandes cinturões de vegetação. Naturalmente sobrepujam a parte desértica e de montanhas áridas — detalhou Rhodan.
Caminhavam no solo firme e plano de cimento, deixando a grande nave para trás. Aquele vulto solitário junto à casamata, vinha lentamente ao encontro dos terranos.
Que está pensando ele? — perguntou Rhodan.
Está intimamente contente e feliz de termos chegado. Pensa, também, numa catástrofe, mas muito obscura e indistintamente, como se ele mesmo não soubesse bem o que vai acontecer. De qualquer maneira, está bastante preocupado, chegando a ter medo.
Muito esquisito — disse Rhodan, olhando para trás e vendo o céu claro e sem nuvens da tarde.
O catálogo sideral lhe informara que este sol tinha um ocaso muito longo, pois um dia de Salex IV durava cinqüenta horas, apesar de o planeta ser menor que Marte.
Quando se encontraram a quinhentos metros da única construção, Geral-Khor estacou. Usava o uniforme de uma alta patente arcônida e portava também uma arma na cintura. No momento em que Rhodan olhou para ele, o arcônida automaticamente curvou a cabeça. Depois esticou a mão para o terrano.
Sinto-me feliz, pois o senhor atendeu minha solicitação, embora tivesse que fazer este pequeno desvio de sua rota. Mas acho que é de suma importância que Gonozal VIII saiba do que se passa aqui.
Rhodan não quis já de início saber dos detalhes e dos possíveis pensamentos de seu interlocutor, dispensando, pois, naquele momento, os serviços do telepata Marshall.
Ia deixar que o arcônida relatasse, como quisesse, os fatos ocorridos. Segurou a mão de Geral-Khor, apresentou Marshall e disse:
Venha para a nossa nave, ou...?
Posso lhe pedir para ser meu hóspede? Creia: eu quase nunca tenho hóspedes aqui. As visitas são quase sempre de robôs, comandantes de frota. Mas, agora...
Interrompeu o que estava dizendo e se encaminhou para o edifício. Marshall fez uma cara de interrogação e fitou Rhodan. Parecia ter detectado algo errado.
Falavam sobre coisas sem importância e Rhodan teve ocasião de apreciar a paciência do arcônida. Qualquer outra pessoa teria logo contado com a novidade sensacional, se é que era mesmo uma novidade e sensacional.
Por aqui, por favor — disse Geral-Khor, conduzindo seus visitantes para uma sala confortável e bem mobiliada.
A janela grande e muito baixa permitia a visão total do espaçoporto. A Drusus refulgia numa coloração rosa do sol poente. A visão daquele gigante produzia uma sensação de tranqüilidade e, ao mesmo tempo, assustava.
Sentaram-se.
Então, meu amigo, desembuche o que tem a dizer — falou Rhodan que, notando a expressão de espanto do arcônida, acrescentou: — Desculpe, é uma expressão usada muito entre nós, com o simples sentido de: pode iniciar seu relatório.
O sorriso de Geral-Khor foi apenas protocolar.
O senhor vai voar daqui diretamente para Árcon?
Gonozal VIII me pediu que assim o fizesse.
Ótimo! Então comunique-lhe que a base Salex IV está paralisada. A frota robotizada está desligada e não obedece mais aos impulsos de comando. Com os aparelhos de escuta constatei que não estamos mais recebendo impulsos de Árcon e assim, sem estes impulsos do grande cérebro positrônico, a frota que é de controle robotizado está praticamente morta. As naves, que estavam paradas nos hangares, continuam lá, sem se poderem mover. As escotilhas permanecem fechadas e ninguém as consegue abrir. As unidades, que estavam patrulhando, permanecem dando voltas no planeta, como se esperassem por alguma coisa. E o que será que elas estão esperando, Perry?
Rhodan tinha uma idéia muito vaga e não a queria expor, exatamente por ser mera hipótese. Uma frota robotizada podia ficar desligada — e isso nada tinha de alarmante e também não significava que estava acontecendo a mesma coisa em outras partes do Império Arcônida. Podia ser até um mero acaso. Por exemplo, uma falha no relê nos comandos receptores...
E o que aconteceu com os robôs de serviço? — perguntou Perry.
Os robôs de serviço? São comandados diretamente pela central e esta, por sua vez, está em ligação direta com o cérebro de Árcon. Estão todos parados. Não há nada que os faça se mover, nem para dar um passo. Em toda esta base, eu sou o único que não ficou parado como um idiota. Mas também, não sou robô, não é?
Rhodan estava percebendo toda a situação e ficou apavorado. Notou que havia um nexo entre o que Atlan lhe contara e os acontecimentos em Salex IV. Estava mais do que na hora de comunicar isto ao imperador.
Proponho que o senhor mesmo exponha isto diretamente ao Imperador Gonozal. Lá de nossa nave. Ficará então sabendo que medidas deve tomar. Com isto, o senhor e o império pouparão muito tempo, decisivo em tais circunstâncias. Suponho que o imperador vai lhe dar algumas instruções.
Boa idéia — disse o arcônida, agradecendo. — Já havia pensado nisto, não queria, porém, incomodá-lo... Sim, sei que Terra e Árcon são aliados, mas apesar disso...
Rhodan sorria.
Mais tarde, vou dar uma olhada nas naves do hangar. Suponho que as entradas não estejam também bloqueadas.
Felizmente, não! São de controle manual, do contrário...
Ouviu-se de repente um leve zumbido na sala. Rhodan, levantando a mão, disse:
Deringhouse? Pode falar calmamente.
Hiper-rádio, senhor. Atlan quer falar com o senhor. É urgente, acho eu.
Diga-lhe que espere um pouco, estarei lá em poucos minutos.
Olhou para Geral-Khor:
Mais cedo do que imaginávamos, o senhor vai poder falar com o imperador. Vamos embora. Acho que não devemos mais perder tempo.
Se o chamado de Atlan foi uma surpresa para o comandante da base, pelo menos não o deu a entender. Levantou-se na mesma hora e caminhou para a porta. Rhodan e Marshall o seguiram. Como não houvesse uma única viatura à disposição, o remédio era ir a pé, o mais depressa que podiam.
Chegaram pelo elevador antigravitacional ao posto de rádio, em menos de três minutos. Fred Jenner estava mantendo a ligação com Árcon.
Estou sabendo que você se encontra em Salex IV, Perry. Por que motivo?
Rhodan lhe explicou em poucas palavras e pôde presenciar a grande surpresa e perplexidade de Atlan.
Você está certo, bárbaro. A pane é geral. De início pensei que fosse mero acidente, restrito a um raio de alguns anos-luz. Mas a explicação é mais simples: as instalações do hiper-rádio não funcionam e, assim, as notícias alarmantes não chegaram até mim.
Que aconteceu? — perguntou Rhodan com insistência.
Atlan começou a falar:
Toda ligação com o cérebro de Árcon III foi interrompida. Não há mais nenhuma comunicação. Concomitantemente, todas as naves robotizadas estão paralisadas. A mesma coisa acontece com todos os robôs de combate e de serviço e com todas as instalações dos estaleiros de cosmonáutica.
A administração de Árcon está à beira de um colapso geral, pois a maior parte dos serviços são executados por robôs, que o grande cérebro eletrônico controla. O perfeccionismo da total automatização positiva-se agora como prejudicial, já que o principal falhou. Todo o reforço para as unidades da frota comandadas por arcônidas fracassou. É a mesma coisa como se nunca tivesse existido o cérebro positrônico. Aliás, destruiu-se toda comunicação por rádio com tudo que está localizado em Árcon III, seja robô ou não.
O planeta da defesa bélica se encontra coberto por um estranho campo magnético de um tipo desconhecido e de proporções gigantescas! Nada consegue penetrá-lo, nem ondas de rádio, nem matéria. Desta feita, o cérebro robotizado está isolado. São catastróficas as conseqüências desse isolamento...”
Geral-Khor empalideceu, olhando perplexo para seu imperador e deixando-se cair numa cadeira, como se as pernas não o agüentassem mais. Não disse uma palavra.
O próprio Rhodan ficou muito sério, quando disse:
Os acônidas atacaram e são uma potência que dispõe de meios desconhecidos. Com uma única nave, conseguiram destruir o Império de Árcon. Estão instalados no coração do império, seguros e inatingíveis. Que devemos fazer?
Era isto que ia lhe perguntar — respondeu Atlan, perturbado. — Não sei realmente o que possa fazer.
Rhodan não respondeu. O silêncio era angustiante.
Não temos nada mais a fazer aqui em Salex IV. Geral-Khor, você não acha bom ir conosco ou quer ficar aqui?
Atlan foi quem decidiu:
Ele deve regressar a Árcon, pois, caso o cérebro eletrônico volte a funcionar, a base pode recomeçar seu trabalho sem ele. Geral-Khor retornará a Salex mais tarde.
Obrigado, majestade — disse Geral-Khor aliviado.
A idéia de permanecer entre as naves paralisadas de repente, naquela solidão, não lhe era nada agradável.
Pode nos esperar para daqui algumas horas, Atlan — disse Rhodan. — Espero apenas que o envoltório de proteção não nos detenha. Ou melhor: espero que os acônidas não consigam controlar o cérebro positrônico. Acho que o máximo que conseguirão é desligá-lo e, com isto, não me poderão atrapalhar. Portanto, Atlan, a situação não é ainda desesperadora. Temos alguma esperança.
Mas muito pequena — respondeu Atlan.
Não, amigo. Esperança é esperança. E não se esqueça de que já passamos por coisas muito piores e sempre conseguimos vencer.
Mas nunca por uma situação tão drástica como esta — replicou pessimista.
Rhodan sabia que, no fundo, o arcônida tinha razão.
Assim que a tela apagou, o grande aliado de Atlan perguntou:
Uma visita ao hangar das naves robotizadas se torna assim completamente desnecessária, Geral-Khor. Podemos decolar imediatamente? Ou o senhor ainda tem que apanhar alguma coisa na base, coisas particulares, penso eu?
Quando a existência do império está em jogo, não há interesses particulares — respondeu Geral-Khor com muita dignidade.
Não precisava dizer mais nada. Rhodan acenou, concordando, e continuou:
O Império de Árcon nunca estará perdido enquanto Atlan-Gonozal tiver oficiais do seu gabarito — disse, estendendo a mão ao arcônida. — John Marshall vai levá-lo à sua cabina.
Encaminhou-se para a central de comando, onde Deringhouse já havia posto no computador os dados para a transição.
Dez minutos após, a maior nave da Terra, com o rugido cavernoso de suas turbinas, se desprendia do solo, mergulhando no céu, já escuro, de Salex IV e passando ao lado de naves-patrulha arcônidas, que circunvoavam sem sentido o planeta militar. Meia hora depois entrava em transição.

* * *

Mais ou menos na mesma hora, em Terrânia, o pequeno computador do Instituto de Reciclagem para Cosmonáutica perfurava outra ficha com minúsculos quadrículos. A ficha azulada foi puxada pelo aparelho seletor para uma pequena esteira rolante e levada para um arquivo.
Um minuto mais tarde, um certo Major Rammbüggl, Ludwig Rammbüggl, diretor do Instituto, estava com a ficha na mão.
Oba! — fez ele, depois de passar rapidamente a vista na ficha. — Puxa! Um major da Frota Espacial, Heinrich Bellefjord, se apresentou para a reciclagem e foi aprovado. Pelo menos mais um oficial que já serve na Frota!
E olhando para seu secretário:
Pierre, traga imediatamente os papéis deste oficial. Depressa! Precisamos de tripulações experientes para as novas naves experimentais de propulsão linear. Este Bellefjord, nome cômico, não é? Deve ser destacado imediatamente para a Lua.
Pierre fez a continência e desapareceu.
Meia hora depois, o Major Rammbüggl foi informado de que Bellefjord estava em operação com o cruzador leve Kenia. Mas isto não o impediu de entrar em contato imediatamente com o Supremo Comando e tomar as respectivas providências. Duas horas depois, chegava uma ordem por hiper-rádio à linha de frente do Sistema Azul.

* * *

Juntamente com outras unidades da Frota, ali estava também o cruzador Kenia patrulhando as fronteiras do Sistema Azul.
As primeiras tentativas para romper o envoltório de proteção com truques técnicos já haviam sido realizadas. Três cruzadores pesados fizeram no mesmo instante uma pequena transição, na esperança de romper a cúpula energética acônida. Pura ilusão, a tentativa fracassou, sem contudo prejudicar ninguém. As três naves foram apenas rechaçadas por uma força invisível, mas de grande potência. Os campos antigravitacionais absorveram o grande choque.
O comandante, Major Heinrich Bellefjord, não podia supor que, neste momento, estava terminando sua missão por ali e que tinha sido escolhido pelo destino, ou se preferirmos, por um computador, para desempenhar um papel muito importante nos acontecimentos que estavam por vir.
Até era bom que não soubesse disso, pois talvez seu ânimo empreendedor teria arrefecido.
De repente, percebeu quando uma pequena nave acônida surgiu nas profundezas do espaço e desapareceu.
Com dois pulos rápidos, já estava na cabina de rádio.
Ligação para o Major Kalígula, depressa!
Antes que o radiotelegrafista pudesse responder, já tinha voltado ao posto de comando. O piloto, um africano, virou-se para ele.
Sargento, vá até o local de onde saiu aquela nave, lá no envoltório de proteção. O que eles podem, nós também podemos. Você viu bem de onde ela saiu?
O africano fez que sim. Como piloto do cruzador leve, estava sentado bem ao lado das telas e dos instrumentos de orientação. Quando surgiu a espaçonave estrangeira, ele apertou o botão da gravação fotográfica e goniométrica. Desta feita se pôde reconstituir com exatidão a rota da nave desaparecida.
Nossa direção está agora certa — disse o piloto, depois de uma pequena correção. — Estamos voando exatamente para o ponto assinalado na tela.
Ótimo. Sargento Omola, a distância?
Dois minutos-luz.
E a velocidade?
Zero vírgula noventa e oito por cento da luz.
Conserve-a. Estarei de volta num instante.
Bellefjord dirigiu-se à cabina de rádio, o mais depressa que pôde.
Como vai o negócio, cadete? Já conseguiu a ligação?
Gerald Rumpus deu um salto, oferecendo o lugar ao superior.
O Major Kalígula está esperando, senhor.
Bellefjord passou entre a cadeira pregada no chão e os muitos instrumentos à sua frente. Com algum esforço, conseguiu sentar. A menos de um metro, emergia da tela o semblante do outro oficial.
Que que há de novo, Bellefjord?
Venho pedir autorização para penetrar no Sistema Azul...
Autorização? — pelo tom de Kalígula, devia estar muito admirado. — Nós estamos tentando isto há muitos dias, e não conseguimos. E o senhor vem me pedir autorização para penetrar? Como posso compreender isto, major?
Tenho uma idéia, senhor!
Prazer em ouvir isto. E qual é ela?
Bellefjord quase engasgou de tão nervoso que estava. Não podia perder tempo.
Estou, com a nossa Kenia, próximo do lugar onde a nave acônida atravessou o envoltório energético de proteção. Suponho, senhor, que conseguiremos entrar pelo mesmo lugar do qual ela saiu.
O major parecia muito apreensivo.
O risco é muito grande, Major Bellefjord. Caso a fenda se feche, os senhores não poderão mais voltar e nós também não os podemos ajudar. Só poderão contar com os próprios recursos. Não sei se lhe posso dar autorização, sem antes consultar a Terra.
Não temos mais do que um minuto, senhor! Nossa Kenia se atira com quase a velocidade da luz na direção da fenda de passagem. É mesmo um buraco, senhor, onde até a cintilação azulada já esmaeceu.
O Major Kalígula, comandante geral dos cruzadores nos limites do Sistema Azul, hesitou por mais um segundo. Depois concordou:
Está bem, major, dou-lhe a autorização, mas o senhor está ciente do risco que corre. Procure manter contato conosco pelo rádio.
Está certo, senhor, e... muito obrigado.
Levantou-se e foi correndo para a central de comando, enquanto o telegrafista Rumpus assumia de novo seu lugar.
A imagem da tela desapareceu, mas a ligação continuou.
A nave Kenia penetrara no misterioso envoltório de proteção, que separava o mundo fantástico dos acônidas do resto do Universo. A ligação do rádio cessou completamente. A Kenia e todos os terranos, que nela se achavam, estavam isolados do resto do mundo.
Bellefjord tocou o alarma.
O primeiro-oficial veio correndo para a cabina de comando. Era o antigo tenente, agora promovido a capitão, Benno Raldini, um sujeito muito vivo, de cabelos escuros.
Alarma, senhor?
Bellefjord apontou para a tela panorâmica que ainda estava funcionando, espelhando fielmente tudo que havia em torno da Kenia. Com poucas palavras, explicou a Raldini o que acontecera. E concluiu:
Não tive tempo de disparar o alarma antes. Kalígula deu autorização para a operação. Não posso explicar como me veio de repente a idéia de que a nave dos acônidas, que estava rompendo a muralha de proteção, devia deixar um buraco na barreira energética. O fato é que minha idéia foi feliz. Estamos no Sistema Azul.
O comandante dirigiu-se ao intercomunicador e deu algumas instruções à tripulação. Em caso de emergência, teria que cuidar da defesa. Deu ordem para que as baterias de raios térmicos e energéticos ficassem de prontidão e a cúpula de proteção continuasse ligada. Os pequenos aparelhos salva-vidas também deviam estar de alerta, para decolarem instantaneamente em caso de uma catástrofe.
Naturalmente, todos tinham que estar com o uniforme espacial.
Proponho também, senhor — disse Raldini depois de desligar o intercomunicador — que também nós vistamos o uniforme espacial. Mais tarde, talvez, não teremos mais tempo.
Bellefjord concordou.
O piloto, sargento Wari Omola, reduziu a velocidade da Kenia e se dirigiu no sentido do sexto planeta, que estava entre eles e o sol azul. Sphinx, o quinto planeta e centro principal dos acônidas, estava à direita do disco solar. Bellefjord não se julgava com direito de entrar em ligação com os acônidas. O fato de ter penetrado no Sistema Azul, foi quase que mero acaso. Queria aproveitar a ocasião para estudar melhor a constituição daquele misterioso envoltório de proteção, que isolava o sistema do resto da Via Láctea. Mas não tinha nenhuma vontade de se deixar prender pelos antepassados dos arcônidas.
Depois de ligar o piloto automático, Omola foi examinar todo o registro de sua rota. Por meio do robô navegador, conseguiu determinar a posição exata da fenda. Uma estrela, na proa da nave, visível numa tela especial, servia de ponto de referência. Esta estrela estava próxima da muralha de proteção.
Dentro do sistema, as distâncias são pequenas demais para produzir um desvio no alinhamento, senhor — concluiu convincente o piloto. — Assim que o senhor precisar, acharemos de novo o local.
Depois, olhando para as telas à sua frente:
Acha válido aterrissar? Bellefjord não respondeu logo. Sabia o que havia acontecido, quando o planeta, aliás, quando o Sistema Azul fora descoberto. O relatório de Rhodan foi distribuído para todos os comandantes da Frota. Os acônidas trataram Rhodan e sua gente com o maior pouco-caso. Naturalmente, isto não queria dizer que o procedimento deles hoje seria o mesmo. Os acônidas chegaram depois à conclusão de que os terranos não eram os arcônidas, seus descendentes mais próximos, contra os quais os habitantes do Sistema Azul também cultivavam uma tremenda antipatia, que se aproximava do desprezo. Quem sabe tratariam os terranos de maneira mais amiga?
Primeiro dê umas voltas em torno do planeta! — ordenou ele.
Os aparelhos de radiogoniometria não assinalaram a presença de nenhuma outra nave no Sistema Azul. Quem sabe se aquela pequena nave, que rompera a muralha de proteção, era a única restante em todo aquele esquisito sistema, onde vivia uma raça que a todo custo queria se isolar do resto do Universo? Neste caso, esta raça não contaria com outras para se defender. Era uma coisa em que Bellefjord não pensara ainda.
Desça mais! — ordenou de novo.
A Kenia penetrou nas camadas superiores da atmosfera, diminuindo ainda mais a velocidade. Por um momento, Bellefjord começou a imaginar o que ocorreria, se não encontrassem a fenda para saírem daquele sistema. Ou, pior ainda, se entrementes aquela abertura se fechasse. Poderia acontecer muita coisa. Principalmente, uma impiedosa perseguição por parte dos acônidas, caso ainda tivessem outras naves. Ou aprisionamento, caso aterrissassem em Sphinx. Em ambas as situações, nenhuma possibilidade de voltar à Terra.
O sexto planeta dava a impressão de ser desabitado, não se levando em conta algumas estações de transmissores fictícios e algumas bases. A maior parte da superfície era desértica. Apenas, em torno do único mar, havia uma paisagem que lembrava um pouco as estepes da Terra. Vegetação densa, não havia em nenhum lugar. Somente campos e árvores desgalhadas.
Depois que a Kenia sobrevoou duas vezes o planeta, o comandante Bellefjord deu ordem para aterrissar.
O Capitão Raldini olhou assustado para a tela panorâmica.
Com o perdão da pergunta, senhor, mas qual é seu plano? Se os acônidas nos...
Temos que arriscar, capitão. Está vendo ali o arco chamejante? Sim, bem perto da pequena construção. Quero saber para onde a gente vai, entrando por aquele arco.
É uma estação de transmissor fictício?
Ao menos, parece. Com mais dois tripulantes vou fazer uma tentativa de entrar em contato com os acônidas. O senhor assumirá o comando da Kenia. Se eu não voltar até um determinado tempo, o senhor deve partir. Estamos entendidos?
É claro, mas...
Nada de mas! Decolará e procurará alcançar o Major Kalígula.
A Kenia aterrissou não longe da praia. Os arcos chamejantes do transmissor pareciam sair do chão em dois lugares distintos. Bem ao centro das duas colunas de fogo, os jatos se uniam em arco, a mais ou menos dez metros de altura. Originava-se, então, uma espécie de pórtico luminoso. O que havia atrás dele, não se podia ver. Mas, de qualquer maneira, não era a superfície monótona do planeta.
Bellefjord ligou o intercomunicador. Expôs à tripulação sua intenção de inspecionar a superfície do planeta e pediu ao laboratório que lhe fornecesse os dados necessários. Além disso, solicitou dois voluntários. Fez questão de frisar o risco inerente ao empreendimento.
Dos acônidas, que externamente não se diferenciavam muito dos homens, a não ser pela formação óssea, muito semelhante à dos arcônidas, não se via nem sinal. Aquela única construção baixa e abandonada parecia perdida no meio da estepe de capim ralo. Os microfones externos da Kenia não captavam o menor ruído. Parecia que nem mesmo animais existiam por ali. Bem alto no céu, estava o sol azul, e a coloração da atmosfera deixava prever uma excelente camada de ar.
Entraram, então, os resultados das pesquisas do laboratório. O ar era respirável, não havia bactérias nem qualquer radiatividade. Portanto, nenhum perigo para o ser humano.
Os dois homens se apresentaram. Entre os muitos que se ofereceram, o Capitão Raldini selecionou dois. Bellefjord os conhecia, como aliás conhecia a cada um dos tripulantes da Kenia.
Sargento Meister e cadete Rumpus se apresentam para o empreendimento.
Rumpus? Você? — Bellefjord gaguejou. — Você tem que ficar nos seus instrumentos.
Todas as comunicações estão interrompidas e, além disto, já providenciei substituto. Gostaria imensamente de ir com o senhor, se o permitir.
Bellefjord sorriu.
Muito bem, cadete. Acho que você pretende, nesta missão, a promoção para tenente, não é? Talvez esta incursão no planeta lhe dê a oportunidade. O primeiro-oficial lhe forneceu as armas?
Estão na escotilha de saída, senhor.
Bellefjord acenou para Raldini, que estava entrando. Deu-lhe, ainda, algumas instruções e deixou a central de comando com seus dois voluntários, encaminhando-se para a escotilha de saída. Para falar sinceramente, Bellefjord não estava se sentindo muito bem, pois, embora tivesse obtido autorização do Major Kalígula, não podia ter certeza se nesta autorização achava-se incluída uma aterrissagem espontânea no sexto planeta, e se isto iria de encontro a alguma determinação de Rhodan.
A escotilha se abriu lentamente, depois de terem vestido os trajes de proteção. Não se tratava dos pesados uniformes espaciais, mas dos trajes mais leves de operação de emergência, que incluíam o dispositivo de calefação, o filtro de respiração e o neutralizador de irradiações. Neste planeta parecido com Marte, era o suficiente. O gravômetro acusava 0,9. A voz de Bellefjord parecia meio abafada, quando disse:
Vamos até o arco chamejante. Enquanto estivermos lá, vocês examinam toda a instalação. Fiquem sempre com a arma pronta para atirar, mas só podem abrir fogo quando eu mandar. Não podemos de maneira alguma cometer arbitrariedades ou violências. Só nos cabe o direito de defesa. Está bem claro?
O sargento Meister balançou a cabeça, meio confuso. Dava a impressão de estar arrependido de se ter apresentado tão precipitadamente. Podia ser também conseqüência da tensão nervosa.
Em compensação, Rumpus tinha um ar de completa tranqüilidade. Parecia não ter medo de nada. Bellefjord estava surpreso com a transformação súbita que se processava no competente telegrafista, mas até então um jovem de aparência tímida. Talvez estivesse se controlando... Podia ser esta a explicação da repentina frieza do jovem cadete.
E quanto a ele mesmo?
Bellefjord confessou intimamente não ter nenhum sentimento especial. Não sentia medo, mas não deixava de ter uma sensação desagradável. Quem sabe se o que o impulsionava para este empreendimento era apenas curiosidade?
Estacaram a poucos metros do arco de fogo, ou melhor, do arco de luz. O sargento Meister foi na frente e contornou duas vezes a construção, antes de entrar numa porta que estava apenas encostada.
Dava a impressão de ser uma armadilha bem camuflada. Desapareceu, aparecendo dez segundos depois.
Nada, meu senhor! Parece uma sala de espera, com bancos, uma mesa e uma espécie de bilheteria. Será possível que o transporte pelo transmissor fictício só se realize em horas determinadas, e os passageiros tenham que esperar aqui?
Bellefjord ficou devendo a resposta. Olhava com alguma cautela para o fosso debaixo do arco de luz. Era de fato um buraco. Ao invés de uma continuação da estepe, Bellefjord viu um redemoinho de uma coloração azul-escura, uma matéria não identificada. Talvez nem fosse mesmo matéria, mas um tipo de energia, onde se caía quando se desejava ser transportado.
Para onde serei transportado, caso entre no transmissor?”, indagou-se o major.
Tentou dominar suas dúvidas, e só agora respondeu ao sargento:
Pode ser muito bem que se trate de uma sala de espera. Mas não há dúvida de que o transmissor está funcionando. Não precisamos, pois, esperar.
A nave Kenia encontrava-se a cem metros. Bellefjord olhou para ela e ergueu o braço esquerdo. Era o sinal combinado com o Capitão Raldini. O primeiro-oficial iria agora consultar o relógio e contar exatamente cinco horas. Esgotado este tempo, conforme as instruções que recebera, tentaria sair do Sistema Azul.
Quer dizer que isto é um transmissor de matéria e de passageiros, senhor? — perguntou Rumpus, de súbito. — Nunca vi um assim. As gaiolas de ferro trançado, que andei estudando no laboratório de pesquisas de Terrânia, não têm nada em comum com esta instalação.
Este tipo aqui se baseia em outros princípios — disse-lhe Bellefjord, embora ele mesmo não compreendesse bem. — Quando se penetra no foco do arco de luz, a pessoa ou o objeto se desintegram nos seus componentes atômicos, através de todo o percurso determinado e fora das leis do tempo e do espaço. São transportados pelo hiperespaço, ou quinta dimensão, para finalmente serem recompostos num receptor. É o tipo ideal de transporte. Um dia, também no nosso sistema solar, todas as naves serão substituídas por aparelhos iguais a este.
Rumpus nada comentou. Sua mão segurava a coronha da arma que ainda estava travada na cintura. O sargento Meister contemplava absorto o redemoinho energético no arco de luz. Estaria pensando como um homem poderia ficar incólume num inferno daquele.
Bellefjord olhou mais uma vez para o relógio.
Não temos mais tempo a perder. Dêem-me suas mãos, meus senhores. Vamos entrar juntos no transmissor. Assim que perceberem alguma coisa diferente em volta, fujam e estejam prontos para fazer fogo, para se defenderem. Então? Prontos?
Meister e Rumpus concordaram com um aceno de cabeça.
Bellefjord encheu os pulmões de ar, que lhe pareceu quente e asfixiante demais. E começou a caminhar, andando os três numa linha reta, na direção do arco luminoso e... desapareceram.
Não sentiram absolutamente nada durante a desmaterialização. Não perceberam, não viram nem ouviram nada.
Deram um passo, mais outro. Mas após o segundo já não se encontravam ali, próximos da nave Kenia, e sim em outro mundo.

* * *

Capitão Raldini não despregava os olhos do arco luminoso. Mergulhado em seus pensamentos, perguntava a si mesmo como pudera acontecer aquilo tão rapidamente.
Este velho major tem realmente nervos de aço! Dirigiu-se, como que passeando, para o transmissor, sem se preocupar com o lugar para onde ia...”, refletia Raldini.
O major, de fato, agiu como devia.
Quando é que uma nave terrana teria outra oportunidade de penetrar no Sistema Azul? Talvez fossem eles os últimos.
Também não houve tempo para se tomar maiores medidas de precaução ou para fazer pesquisas sempre úteis.
Quem poderia saber por quanto tempo permaneceria aberta a brecha no terrível envoltório de proteção? Se fechasse, adeus esperança de voltar!
Com a idéia fixa de poder ou não voltar para seu próprio Universo, Raldini olhava nervoso para o relógio.
Puxa vida! Mal faz cinco minutos que os três desapareceram... Será que o tempo também parou? — balbuciou apreensivo.
Não podia, porém, imaginar que, para os três, este tempo corria depressa demais.

* * *

Um frio intenso foi a primeira coisa que Bellefjord sentiu. Instintivamente levou a mão ao botão do aparelho de calefação. Notou então que já era noite, não havia mais sol, milhares de estrelas cintilavam no céu. O ar, terrivelmente frio, era respirável. Provavelmente estavam no lado escuro do sexto planeta. Mas, no mesmo momento, achou que tal hipótese era falha. A gravidade era bem mais forte, pelo menos 1,4 gravos. O conteúdo de oxigênio daquele ar gelado era muito menor do que há poucos segundos atrás...
Deviam, pois, estar em outro planeta!
Aos poucos, foram se habituando à quase total escuridão. A mão de Rumpus continuava firme na coronha de sua arma. A mão direita do sargento Meister soltou-se da de Bellefjord, certamente a fim de preparar-se para qualquer eventualidade.
Onde estamos? — perguntou Rumpus. — Isto não parece ser Sphinx.
Deve ser outro planeta mais afastado do sol azul ou alguma lua — disse Bellefjord, apontando para frente, onde começavam a surgir traços diferentes contra a claridade que estava aumentando. — Se não estou enganado, ali está de novo uma sala de espera. Vamos dar uma chegada até lá.
Saiu na frente, seguido pelos companheiros. A respiração não estava fácil. Não iam poder agüentar muito tempo por ali. Algumas horas, talvez.
Desta vez, a porta estava fechada, mas não lhes foi difícil abri-la. Acendeu-se uma lâmpada atrás deles.
Talvez, à noite, a lâmpada acenda automaticamente com a abertura da porta — disse Bellefjord, na sua mania de querer achar sempre uma explicação lógica para tudo. — Gostaria de saber por que motivo os transmissores estão sempre ligados, se não há ninguém para usá-los. Verdadeiro desperdício de energia e desgaste inútil das instalações!
Já haviam fechado a porta e, através de um corredor estreito, onde se sentia menos frio, chegaram a outra sala de espera. A segunda porta se abriu automaticamente.
Três acônidas, agasalhados por grossas peles, olhavam surpresos para eles!
Bellefjord perdeu a fala e respirava com dificuldade. Mas os três acônidas pareciam muito pacíficos. Deviam ser trabalhadores ou engenheiros terminando seu turno de serviço, esperando sua condução. Havia realmente admiração nos seus olhos, mas tinham um domínio formidável sobre si mesmos, de maneira que os terranos nada notavam.
Boa noite! — balbuciou o cadete Rumpus, quase sem querer, utilizando-se instintivamente da linguagem comum da Galáxia, que todos os povos dominavam relativamente bem. — Desculpem-me...
Os três rostos viraram, quase ao mesmo tempo, para o outro lado. Não havia neles nenhuma expressão de desprezo, de ira ou de ódio. O que os movia era de fato uma grande indiferença. Faziam lembrar certo tipo de pessoas que, quando alguém lhes pede um favor, se descartam simplesmente com gestos negativos.
Bellefjord olhou em torno e descobriu um banco livre e algumas cadeiras. Naquele local, a temperatura era suportável. Estava com muito frio e não queria sair dali, antes de descobrir alguma coisa. Não pretendia aparecer perante o Major Kalígula sem nenhuma informação útil.
Vamos sentar um pouco — disse para seus acompanhantes. — O calor só nos pode fazer bem. E, além de tudo, a condução parece que não é para já.
O sargento Meister sorriu, mas continuava com a mão na coronha da arma. Enquanto que o cadete Rumpus parecia ter chegado à conclusão de que estavam lidando com criaturas inofensivas. Sentou-se, remexendo seus bolsos à procura de um cigarro.
O senhor está aguardando alguma coisa? — perguntou ele ao Major Bellefjord, depois de dez minutos.
Tivera, entrementes, tempo para observar todo o ambiente. Notara que os três acônidas quase sempre olhavam para um painel de ligação, colocado no alto da parede, logo abaixo do forro. Eram apenas dois botões, um dos quais, de coloração amarelada, estava comprimido. O outro, preto, estava para fora. Quem quisesse alcançar os dois botões tinha que arranjar um tamborete ou uma cadeira para subir.
Só mais tarde é que os terranos concluíram que isto era a maneira mais simples de proteger o painel do transmissor fictício das brincadeiras das crianças, sem impedir o uso normal pelos adultos.
Aqueles dois botões ligavam o transmissor para despachar ou para receber. Normalmente este trabalho era feito por uma central, localizada na lua do quinto planeta. Mas em todas as salas de espera havia destes painéis manuais, para uso individual.
Um dos acônidas levantou-se e subiu numa cadeira, apertando o botão preto, sendo que simultaneamente o amarelo saltou. Continuou de pé na cadeira, enquanto os outros dois deixaram a sala de espera e foram embora.
Dois minutos depois, o acônida, ainda de pé na cadeira, apertou o botão amarelo, fazendo com que o preto voltasse à antiga posição. Colocou a cadeira no seu lugar e sentou-se, sem qualquer expressão no rosto.
O sargento Meister balançou a cabeça.
Que significará mais esta bobagem? — perguntou em inglês.
Bellefjord também não sabia, mas pressentia algo desagradável. Começou a quebrar a cabeça sobre que função poderiam ter aqueles dois botões, tão bem protegidos lá no alto da parede. Não tinha sentido ficar ali perdendo tempo. Levantou-se resoluto e se encaminhou para o único acônida que ali ficara. Disse alto e claro:
Se os senhores preferem nos tratar como selvagens ou como animais daninhos, não temos nada que ver com isto. Mas não estranhem se começarmos a reagir com a mesma moeda. Então, vai ou não vai falar conosco?
Os traços fisionômicos do acônida refletiam tanto orgulho que Bellefjord estava quase perdendo as estribeiras. A muito custo se controlou. Mas quando o acônida, com um ar de desprezo, deu um sorriso irônico, sem nem sequer olhar para ele, como se não existisse, o major o pegou pelos ombros, sacudiu energicamente. Depois, limpou as mãos no uniforme e disse:
Imundo!
Havia algo semelhante a cólera no rosto do acônida, mas podia ser também um engano, pois antes de Bellefjord virar-se de costas para ele, notou no rosto do acônida traços de contentamento.
Contentamento...? Contentamento com o quê? Onde estavam os dois colegas daquele tipo pretensioso e cabeçudo? Será...?
De repente Bellefjord compreendeu tudo. O transmissor! Tinham-no ligado para transmissão e foram buscar reforço. Simultaneamente com esta idéia, lhe passou pela cabeça que, se eles tinham alterado o sentido do transmissor, apertando o botão, ele também podia fazer o mesmo. E por que não?
Sargento, atenção! Cadete, os “rapazes” foram buscar reforço. Certamente querem nos surpreender e prender.
Em poucas palavras lhes explicou o funcionamento dos dois botões e ordenou:
Rumpus! Suba na cadeira e aperte o botão preto. O preto quer dizer transmitir, pois foi com o preto que os dois desapareceram. Nós chegamos com o amarelo, que naturalmente deve indicar chegada. Desta maneira, os dois botões nunca podem estar ligados ao mesmo tempo. Se apertarmos o preto, transmitir, ninguém nos vai surpreender...
Rumpus executou a ordem. Subiu e comprimiu o botão preto.
O acônida se levantou para impedi-lo, mas o sargento Meister o obrigou a sentar-se. Bellefjord disse em arcônida:
Que aconteceu com a nave que há uma hora deixou seu sistema, acônida? Por favor, fale, não nos obrigue a usar de outros meios desagradáveis. Você deve saber, pois são raros os aparelhos que saem daqui. Cada decolagem deve ser, portanto, um grande acontecimento.
O acônida não deu a menor atenção. Os lábios se comprimiam com energia e os olhos continuavam impassíveis. Houve um estalo no alto da parede. O botão preto pulara para fora!
O transmissor agora estava sendo manobrado pela central.
Rumpus não compreendeu de pronto o que representava aquilo.
Não fui eu, não, senhor — disse se desculpando.
Ligue de novo! — gritou Bellefjord, que sabia o que estava acontecendo. — Depressa!
Rumpus levantou o braço e apertou de novo o botão preto.
Tudo isto não levou mais do que uns dez segundos. Ouviram-se passos no corredor.
Tarde demais! — exclamou Bellefjord, sacando da arma. — Escondam-se nos cantos e estejam preparados para fazer fogo, esperando, porém, por minha ordem.
Rumpus pulou da cadeira como um raio e se postou ao lado do sargento Meister com a arma na mão e de cara fechada. O acônida estava de mãos para o alto.
A porta da sala se abriu com um forte estalo e, sem o menor sinal de medo, cinco acônidas entraram. Um deles, Bellefjord já conhecia. Os outros quatro estavam uniformizados e bem armados.
Quando um dos uniformizados abriu a boca e começou a falar, com um leve sotaque, a linguagem intergaláctica, Bellefjord sentiu uma espécie de alívio e de estupefação.
Os senhores invadiram este sistema, tornando-se assim passíveis de castigo. Tenho ordens de prendê-los. Entreguem-nos suas armas.
Seis contra três”, pensou Bellefjord rapidamente. “Mas só quatro deles estão armados. Já melhora a situação. Mas, quem sabe, dá para se evitar uma luta armada?
Nós não invadimos nenhum sistema, se o senhor me permite — disse, abaixando o braço com a arma. — Sua espaçonave foi que rompeu o envoltório de proteção, abrindo assim uma entrada. Apenas continuamos voando, é tudo. Também não temos intenção de ficar aqui. A prisão seria, pois, um ato de injustiça.
Isto não sou eu quem vai resolver. Estrangeiros, entreguem suas armas.
Nunca! Deixe-nos sair daqui!
O acônida estava indeciso. Depois achou uma solução.
Bem, vou comunicar o ocorrido. Os senhores afirmam e confirmam não haverem rompido a cúpula de proteção energética?
Sim!
Parece que esta declaração os tranqüilizou. Bellefjord procurava entender o pensamento dos acônidas, enquanto um deles fora enviado não sabia para onde.
Provavelmente”, calculava o major, “a única preocupação deles é nos manter isolados. Devem estar pensando que descobrimos um meio de romper seu envoltório de proteção. Se eu conseguir lhes provar que isto não aconteceu, certamente vão nos deixar livres. Para eles, realmente, nós pouco significamos. Não perdem nada com a nossa saída.
Depois de dez minutos, voltou o mensageiro. Segredou alguma coisa no ouvido do chefe dos policiais, que se virou para Bellefjord:
Damos-lhes uma hora do seu tempo para deixarem nosso sistema. Os senhores entraram aqui, realmente, por um mero acaso, como atestam nossos cientistas. Podem ir agora.
O velho major tinha ainda muitas perguntas para fazer, mas seu instinto lhe dizia que qualquer outra atividade, mesmo perguntas, seria arriscada.
Fez um sinal aos seus companheiros para que guardassem as armas. Não lhes seriam mais necessárias. Os acônidas eram orgulhosos demais para querer tirar proveito de um truque menos honesto. Sem nenhuma complicação, saíram da sala de espera e chegaram até o arco luminoso, desapareceram no transmissor fictício e, no mesmo instante, ficaram a cem metros da Kenia.
Cinco minutos depois, o cruzador leve decolou, rumo à estrela que ficava bem próxima da brecha do envoltório. Podia-se ver ainda aquele local de cintilação instável, embora sua coloração não fosse agora tão diferente do resto do firmamento. A Kenia atravessou a passagem com velocidade bem reduzida. Notava-se que a fenda se estreitava cada vez mais.
Quando, mais tarde, Bellefjord fazia seu relato ao Major Kaligula, soube que tinha sido transferido para a Lua. É claro que não sabia o motivo de sua remoção. De qualquer maneira, recebeu a ordem de partir imediatamente e de se apresentar ao comandante da Frota Lunar. O sargento Omola fez os cálculos necessários à próxima transição.
Foi com o coração pesado que Bellefjord olhou o manto azulado que envolvia o sistema, pensando que sua aventura fora apenas o início de uma ação muito importante. Fora a introdução para se desvendar um importante segredo, cujo véu começara a se levantar com a saída da nave acônida.

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