Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Erguem-se
das sepulturas,
para
atacar a Terra...
Pelo
fim do século vinte e um e começo do século vinte e dois,
iniciou-se uma nova época na história da Humanidade.
Com o
apoio dos terranos, o arcônida Atlan conseguiu firmar sua posição
de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar produziu
bons frutos, especialmente para vários agentes de Rhodan, pois
passaram a ocupar cargos de importância na administração de Árcon.
Atlan não tem outra alternativa senão tolerar esta ingerência
terrana no Grande Império Arcônida, porque a maioria de seus
compatriotas não lhe são de confiança.
O
Império Solar se tornou realmente uma potência comercial de
primeira grandeza ao longo da Via Láctea. Iniciado há 22 anos,
amplia-se cada vez mais um movimento migratório dos terranos para
colonização de outros mundos. Em quase todos os planetas habitados
por seres inteligentes há embaixadas e representações comerciais
do Império Solar.
Apesar
de tudo, porém, a situação não está serena, pois todos sabem que
há na Via Láctea uma potência que não morre de amores nem pelos
arcônidas nem pelos terranos: são os acônidas, do Sistema Azul.
Perry
Rhodan continua preocupado, mesmo depois de, com ingente sacrifício
de todos, ter superado a guerra bacteriológica dos mencionados
acônidas. Todo raciocínio leva à conclusão de que tal povo — os
misteriosos antepassados dos arcônidas — considera os homens como
animais daninhos e assim os trata.
Qual
será agora a próxima iniciativa dos acônidas contra a Terra?
Naves-patrulha percorrem o Sistema Azul para estar a par de qualquer
agressão, mas não podem localizar A Frota-Fantasma.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Geral-Khor
— Um
arcônida consciente de seus deveres.
Major
Bellefjord,
cadete
Rumpus
e sargento
Meister
— Penetram
casualmente no Sistema Azul.
Gucky
— Que
tem uma árdua tarefa...
Reginald
Bell
— Quer
enforcar alguém que nem existe!
Tanor
e Gagolk
— Dois
arcônidas que agem a mando de um soberano morto há quinze mil anos!
1
Em torno
do gigantesco sol azul girava um planeta muito semelhante à Terra,
com a gravidade de 1,1 gravos, uma densa atmosfera de oxigênio e um
céu de um azul claro fora do comum. Os continentes deixavam ver que
ali habitava uma raça inteligente, de alto padrão técnico.
Não era
apenas o sol e não era somente o céu do quinto planeta que
apresentavam aquela coloração de um azul agradável. Em torno de
todo o sistema solar pairava uma camada esférica de um cintilar
azulado, de uma energia quase transparente, que na realidade era um
envoltório de proteção magnética. Foi devido a isto que Rhodan,
quando descobriu o sistema, lhe deu o nome de “O
Sistema Azul do Império Acônida”.
Ao quinto
planeta chamou de “Sphinx”,
e Sphinx tinha duas luas. Uma era pequena, sem maior importância.
Mas a outra era do tamanho de Mercúrio e substituía, por meio de
suas instalações do transmissor fictício, uma frota inteira de
milhares de naves. Em última análise, esta lua não passava de uma
gigantesca estação do transmissor fictício. Era por seu intermédio
que os acônidas transportavam gêneros, qualquer tipo de material,
armas e principalmente a si mesmos para qualquer ponto da Via Láctea,
supondo-se naturalmente que lá houvesse uma estação receptora
correspondente.
Só para
dar um exemplo, se conseguissem montar às escondidas um receptor
destes na Terra, estariam automaticamente em condições de invadir
nosso planeta com a maior facilidade, sem necessitarem de uma só
espaçonave.
Tentaram
uma vez provocar uma peste na Terra, com o que quase levaram a
Humanidade à beira do abismo.
Rhodan
estava convencido de que não iria ficar somente nesta tentativa, mas
sabia também que uma simples defensiva não seria o meio eficiente
para acabar com estes ataques. Tinha-se que, ao invés disso, tirar
os antepassados dos arcônidas de seu bem resguardado Sistema Azul.
Mais de três dúzias de cruzadores leves e pesados da Frota Espacial
patrulhavam o envoltório energético de cintilação azulada,
procurando uma brecha para penetrar. Mas não havia uma só brecha.
Os
terranos não dispunham, portanto, de meios para ficar a par das
tramas urdidas em Sphinx e em sua lua maior, contra os arcônidas e
principalmente contra eles próprios. Ao menos, aparentemente, não
acontecia nada de importante. Na Terra, como em seu satélite, a Lua,
aterrissavam todos os dias centenas e centenas de espaçonaves, sem
que ninguém desse maior importância a este fato.
Os
acônidas dificilmente usavam naves, já que executavam todo
transporte, tanto de mercadoria, como de passageiros, por intermédio
dos transmissores fictícios. Espaçonave só lhes seria útil quando
quisessem instalar uma estação de recepção fictícia em outro
lugar.
Assim
mesmo, na lua do quinto planeta estava uma espaçonave prestes a
decolar. Não era muito grande, tinha o formato costumeiro da antiga
cosmonáutica acônida, isto é, de construção esférica, com os
dois pólos levemente achatados. Os técnicos tomavam as últimas
providências, e com muito mais cautela que os engenheiros terranos.
Não precisavam agir tão detalhadamente, pois tal serviço não
requeria tanta atenção.
Esta nave,
porém, não era um aparelho comum, e sim um artefato especial,
secreto, completamente fora de série.
A
tripulação da tal nave estava reunida em Sphinx, recebendo as
últimas instruções. Toda a operação foi novamente discutida,
colocando-se nas devidas dimensões a importância do sucesso total,
com especial realce do fator surpresa. Este ataque contra Árcon era,
portanto, indiretamente contra a Terra.
— Esta é
a mais ousada das experiências — dissera o instrutor, estirando os
braços para o céu, de tal modo que as palmas das mãos recebiam a
luz direta do sol azul.
Devia ser
uma mistura genial de técnica e de especulação psicológica, que a
vítima somente perceberia quando fosse tarde demais para uma reação.
Formou-se
então a fila, passando os garbosos tripulantes perante os membros do
governo e dos cientistas. Caminharam, depois, em direção ao campo
energético de brilho mais intenso, entrando para um arco flamejante
— portão para o transmissor fictício.
Quando a
primeira leva dos acônidas chegou ao arco chamejante, desapareceu de
um instante para o outro, dando um simples passo para frente. Era
como se o nada os tivesse tragado. A segunda leva, a terceira e a
quarta se sucederam, até que toda a tripulação havia deixado o
planeta de uma forma bastante estranha.
No mesmo
segundo, porém, aquela fila enorme se rematerializava na lua do
planeta. Saiu a primeira leva de um arco flamejante quase idêntico
ao do planeta. Percorreram a grande distância entre o planeta e sua
lua apenas com um passo, em um segundo, ou menos até. Todo o pessoal
foi se aproximando da nave de pólos achatados. Oficiais transmitiam
ordens. Entre a escotilha aberta de embarque e o chão se formou um
cintilante campo antigravitacional. A tripulação foi levada para
bordo.
A vinte ou
trinta horas-luz dali as naves terranas patrulhavam. Nem mesmo seus
instrumentos mais sensíveis podiam captar o que se passava em Sphinx
ou em sua lua. Não conseguiram nem registrar a decolagem da pequena
espaçonave acônida, que, com uma aceleração crescente, se
aproximava dos limites do Sistema Azul, empregando uma técnica, até
então segredo deles, de atravessar o envoltório magnético de
proteção num determinado ponto.
Era este o
momento por que esperavam os terranos. Se uma nave conseguia
atravessar a muralha invisível de proteção num determinado lugar
de dentro para fora, o inverso também devia ser possível!
Nas telas
panorâmicas de três naves terranas de patrulhamento, que estavam
mais à frente, apareceu a sombra rápida do artefato acônida. Antes
de os terranos iniciarem a perseguição da nave esférica ou
localizarem sua direção, o misterioso aparelho ultrapassou a
velocidade da luz e desapareceu no semi-espaço, tornando-se
invisível aos olhos dos observadores.
Tentar uma
perseguição seria mesmo impossível, pois uma nave de transição
jamais poderia alcançar ou ultrapassar um aparelho com tração
linear, no hiperespaço. Mandou-se uma mensagem para a Terra, mas não
lhe deram a atenção que merecia.
Ninguém
suspeitava de que o ataque já fora desencadeado. Um ataque como
nunca houvera antes!
Um grupo
de acônidas partira para abalar os alicerces do grande império.
Através do espaço e do tempo, uma garra invisível do passado
chegava até o presente com força destruidora.
Milênios
e milênios se reduziam a nada.
*
* *
— Consideram-nos
como bichos vagabundos — afirmava Reginald Bell, braço direito de
Rhodan. — O desprezo que os velhos arcônidas nos votavam quando os
encontramos pela primeira vez na Lua, não era nada em comparação
com o destes orgulhosos acônidas.
Concordando,
o Marechal Solar Freyt fez apenas um aceno com a cabeça, mas não
disse nada, deixando o comentário para Rhodan, que estava sentado à
cabeceira da mesa. Atrás dele, uma janela bem ampla mostrava uma
parte do panorama de Terrânia. A capital da Terra e do Império
Solar crescia cada vez mais e sua periferia urbana já atingia o
antigo deserto de Gobi.
— Mas é
isso — disse Rhodan, dando sua opinião. — É verdade, nos
desprezam e querem nos tirar de seu caminho, ou mesmo nos destruir.
Isto é um sinal evidente de sua presunção e conseqüentemente de
sua burrice. Todo aquele que menospreza seu adversário é bobo. Além
de tudo, são intolerantes, pois não suportam nossa presença,
embora não saibam nada a nosso respeito, como também pouco sabemos
a respeito deles. E, intolerância, meus amigos, é também sinal de
burrice...
— Estamos
preparados, Perry — disse Freyt. — Nossas frotas poderão zarpar
a qualquer momento, caso sejamos atacados. E os acônidas conhecem a
posição galáctica da Terra, pelo menos é o que nós temos que
supor...
— Se
eles atacassem — continuou Rhodan — mas atacassem de fato com
naves, aberta e honestamente! Tenho receio, porém, que a próxima
operação será tão traiçoeira e às escondidas como a primeira.
Têm medo de declarar guerra, mas não temem assassinar friamente. A
Drusus já está pronta para partir?
— Naturalmente,
prontíssima — respondeu Reginald Bell, com seu cabelo vermelho,
ouriçado como porco-espinho.
— E o
Exército de Mutantes?
— Já
está a bordo.
— Deringhouse?
— Também
anda aí por perto; afinal, é o nosso comandante.
— Ótimo,
então vamos começar o trabalho logo — disse Rhodan. — Se os
acônidas não tomam a iniciativa, nós a tomaremos.
Hesitou um
instante.
— Ainda
uma pergunta, Freyt: Como está caminhando a montagem dos motores de
propulsão linear? Já existem algumas naves prontas para entrar em
ação?
— Algumas
estão ainda em vôos experimentais e nos estaleiros da Lua o
trabalho é ininterrupto. Se for necessário, podemos utilizar uma
nave com esta propulsão muitas vezes superior à velocidade da luz.
— Obrigado,
é isto que queria saber. Rhodan olhou para Bell, Freyt e para os
demais homens.
— Querem
fazer mais alguma pergunta?
Levantou-se
um general.
— Tenciona
decolar ainda hoje, sir?
Rhodan
sorriu.
— Não,
claro que não. Gosto de saber sempre se posso arrancar a qualquer
momento. Isto traz sempre alguma vantagem, além de segurança total.
Porém, nossos planos não estão ainda firmes. Mas logo serão
informados a respeito. Mais alguma pergunta?
Horas
depois, Bell e outros colaboradores estavam reunidos na residência
de Rhodan. O rato-castor achava-se deitado numa almofada no canto da
sala, parecendo cochilar. John Marshall, chefe do Exército de
Mutantes, sentara ao lado de Rhodan. Ras Tschubai, o teleportador
africano, conversava com a japonesa Ishy Matsu. Dos alto-falantes
embutidos na parede saía uma música suave.
— A
situação parece idêntica à daquela vez quando nos defrontamos,
temerosos, com os arcônidas. Só que estes, apesar de cheios de si,
me eram muito mais simpáticos. A gente sabia, ao menos, com quem
estava lidando e onde encontrá-los.
— É
exatamente isto — confirmou Marshall. — Desta vez temos que
tatear no escuro como se fôssemos cegos. Os acônidas, antepassados
dos nossos arcônidas, são mais misteriosos e mais arrogantes do que
estes. Infelizmente, porém, não tão fracos e decadentes. Ainda vão
nos dar muita dor de cabeça.
— Como
se já não tivéssemos bastante — disse Bell mal-humorado,
levantando-se e se dirigindo para o canto onde estava Gucky.
O
rato-castor, sonolento, lhe deu uma piscadela, mas continuou
espichado no almofadão, enquanto seu amigo do peito começava a lhe
cocar o pêlo das costas.
— Devemos
simplesmente ignorá-los — concluiu o gordo.
— Não
se afasta um perigo, ignorando-o — sentenciou Rhodan. — Pelo
contrário, estamos assim incrementando o desassossego.
— O que
o senhor pretende então? — perguntou Ras Tschubai francamente.
Rhodan lhe
dirigiu um largo sorriso.
— Você
vai sempre direto no assunto, hein, Ras? Mas vou lhe dar uma
resposta. Amanhã ou depois de amanhã, faremos algumas transições
na direção do Sistema Azul, com uma pequena frota. Lá já estarão
à nossa espera umas duzentas unidades. Vamos tentar, numa ação
conjunta de maior envergadura, romper a muralha energética que
protege o sistema. Se todas as naves fizerem a transição no mesmo
instante, talvez o consigamos.
Bell
voltou-se para Rhodan e sua mão direita se esqueceu do que estava
fazendo.
— Como
você concebeu tal idéia?! Todos fazerem a transição ao mesmo
tempo! Não será...
— Calma,
Bell — respondeu Rhodan. — A força dos abalos deverá quebrar as
barreiras magnéticas. Se isto não acontecer...
Não
concluiu o que aconteceria. Bell estava branco como cera, quando
disse, excitado:
— É um
risco desgraçado, Perry.
— Não
para você, gorducho, pois, desta vez, não irá. Quero que, durante
minha ausência, permaneça aqui, atento aos acontecimentos. Tenho um
vago pressentimento de que vai acontecer algo que pode ser muito
desagradável para todos nós.
— Um
ataque dos acônidas? — indagou Ras.
— Sim,
talvez uma invasão.
Silêncio
sepulcral.
Todos
estavam preocupados com seus pensamentos, enquanto Bell chegava à
conclusão de que não havia contra-razões para ele não ficar na
Terra. Portanto, calou-se e não disse nada, continuando a cocar o
pêlo de seu amigo número um.
No
silêncio reinante, a interrupção da música despertou a atenção
dos presentes. Seguiu-se um ruído de novo contato. Alguém estava
interferindo na ligação. Rhodan olhou automaticamente para o
videofone, que estava sobre a mesa principal no outro canto da sala.
Mas nada se movia em sua tela, nem em nenhuma outra.
— Atenção!
Para Perry Rhodan, urgente! Ligação de hiper-rádio com Árcon.
Favor avisar... Hiper-rádio de...
Rhodan
pulou de sua poltrona e correu para o videofone. Apertou o botão
para a ligação com a Central de Rádio de Terrânia, pedindo linha.
Apareceu
na tela a pessoa que estava falando pelo rádio.
— Perdão,
sir, não sabia que o senhor estava em casa, mas em se tratando de
urgência fiz o apelo pelo rádio.
— Está
bem — disse Rhodan um pouco impaciente. — Transfira a ligação
do hiper-rádio para cá. Vou falar daqui mesmo.
O homem
fez um sinal com a cabeça e desapareceu do videofone. Poucos
instantes após, surgiu na tela o rosto de Atlan, Gonozal VIII,
imperador de Árcon. Sinais visíveis de terror e de confusão
desfiguravam os conhecidos traços fisionômicos do arcônida
imortal. Através de trinta e quatro mil anos-luz, seus olhos se
fixaram nos de Rhodan.
— Que
aconteceu? — perguntou Perry. — Pode falar francamente, aqui
comigo só estão amigos íntimos.
— Que
aconteceu? Se eu mesmo soubesse! Aconteceu algo terrível e
inimaginável. Alguém penetrou em Árcon, rompeu a muralha de
proteção magnética e aterrissou em Árcon III,’ o mundo da
guerra, sem que ninguém o pudesse deter, sem que os canhões
automáticos disparassem ou fosse dado o alarma.
Rhodan
olhava perplexo para Atlan. O que o imperador estava narrando seria
em si uma coisa impossível. Não havia nenhuma espaçonave capaz de
romper o envoltório de proteção de Árcon. Coisa meramente
absurda. Atlan devia estar enganado!
— Você
não está acreditando no que lhe estou dizendo? — balançou a
cabeça, admirado. — Você tem que acreditar em mim, Perry; estou
perdido, se não pegarmos este ser misterioso. Ele está em Árcon
III e lá localizam-se todos os estaleiros de cosmonaves, os centros
de formação técnica... o cérebro robotizado! O cérebro
robotizado! Rhodan, imagine se ele for danificado ou cair em mãos
estranhas! Sim, sei o que você vai dizer: “Vamos
dar um jeito nisso.”
Mas como? Pense apenas que o estranho ser rompeu o envoltório de
proteção e os canhões não funcionaram. Haverá também de fazer a
mesma coisa com o cérebro positrônico...
— Que
aconteceu com suas esquadrilhas de patrulhamento? Não viram quando o
intruso penetrou em seu espaço?
— Claro
que viram, mas a perseguição foi inútil. Apenas puderam ver que o
estranho aterrissou em Árcon III, aí desaparecendo. Quando nossas
naves se aproximaram dele, foram recebidas com disparos de canhão,
aliás dos nossos próprios canhões!
Houve uma
pausa. Rhodan levou uns dez segundos até responder:
— Vou
partir ainda hoje com a Drusus e mais dez unidades, seguindo
diretamente para Árcon. Providencie para que possamos passar sem
dificuldade pelo envoltório de proteção.
O
semblante de Atlan estava mais aliviado.
— Não
sei como lhe agradecer, Perry. Quem sabe conseguiremos nos livrar
deste monstro? Você o conhece?
— Como é
que era a nave dele?
— Uma
nave esférica, com os dois pólos levemente achatados. A
propulsão...
— Obrigado,
basta. São os acônidas. Já tentaram também contra a Terra. Agora
procuram fazer a mesma coisa com Árcon. Não há em todo o Universo
raça mais perigosa. Espere por mim. Comunique-me qualquer
irregularidade que ocorra. O transmissor da Drusus permanecerá
ligado para recepção. Você pode falar comigo a qualquer momento.
— Mais
uma vez, obrigado. Acônidas? Você vai me contar alguma coisa sobre
esta raça?
— E o
que sei? Atlan, preste muita atenção no que está acontecendo em
Árcon.
Observe
bem o mundo da guerra. Reúna toda a sua frota e cerque Árcon III
hermeticamente. Quando a nave estrangeira tentar sair, procure
destruí-la, se puder.
— Chamá-lo-ei,
caso ocorra alguma coisa importante — prometeu Atlan. Depois, a
imagem desapareceu e a ligação foi interrompida.
Rhodan
voltou a sua poltrona e se sentou. Olhou para seus amigos, todos
calados. Gucky despertara de sua soneca e olhava surpreso. Bell não
parecia muito feliz. Sabia que a decolagem da Drusus seria
antecipada.
— Hoje?
— perguntou ele.
— Agora,
imediatamente — respondeu Rhodan. — Os acônidas estão atacando
Árcon, sua antiga colônia. Pelo menos há quinze mil anos atrás
devia ter sido sua colônia. Se eles souberem da aliança entre nós
e Atlan...?
Bell
andava nervoso de um lado para o outro.
— E o
que devo ficar fazendo na Terra? Os acônidas não vão atacar Árcon
e a Terra ao mesmo tempo. Vou me sentir completamente supérfluo
aqui...
— Em que
lugar que você não seria supérfluo? — disse o ingrato
rato-castor.
Gucky
parecia haver esquecido que Bell lhe cocara as costas, e concluiu,
enfático:
— Ou na
Terra, ou a bordo da Drusus, você é sempre supérfluo.
— Cale a
boca, por favor! — disse Rhodan, com energia.
Gucky teve
que engolir a língua. Era uma coisa muito rara quando Rhodan tinha
que lhe chamar a atenção.
Magoado,
Gucky se desmaterializou e desapareceu diante dos olhos de seus
amigos estupefatos. Teleportara-se para o interior da Drusus.
Contrabalançou
seu aborrecimento com o triunfo de ser o primeiro a transmitir a
grande novidade à tripulação da grande nave.
Rhodan não
se interessou pela saída de Gucky.
— Partiremos
dentro de meia hora — ordenou ele. — Você fica aqui, meu amigo.
Quero deixar a Terra sob seu comando firme e competente. E pode
acreditar no que lhe estou dizendo: enquanto eu estiver fora, vai
acontecer alguma coisa importante.
Não sabia
ainda o que ia acontecer, mas sentia-se certo de que suas
preocupações tinham razão de ser.
*
* *
Depois da
segunda transição, a Drusus se rematerializou nas proximidades da
base arcônida, a cerca de vinte mil anos-luz da Terra. E antes que o
Major Gorm Nordman, navegador-chefe, pudesse iniciar os preparativos
para a terceira transição, ouviu-se o sinal de atenção do
receptor de hiper-rádio. O Tenente Fred Jenner se pôs imediatamente
em contato com Rhodan e este, pensando se tratar de um urgente pedido
de socorro de Atlan, correu para o posto de rádio. Teve uma grande
surpresa... Não era o rosto conhecido de Atlan que estava na tela,
mas o de uma pessoa desconhecida. Devia ser um arcônida, não havia
dúvida. Os cabelos brancos, a testa ampla, os olhos vermelhos e a
arrogância mal disfarçada eram uma prova mais do que suficiente.
Rhodan mandou fazer a ligação do ramal do videofone, para que seu
interlocutor o pudesse ver e ouvir.
— Belonave
Drusus, do Império Solar — disse de pronto. — Comandante Perry
Rhodan, Terra. O senhor nos chamou?
Estava
mais do que patente que o arcônida não tinha a menor idéia com
quem ele tinha entrado em contato. Havia decepção no seu rosto,
seguida logo depois por uma sensação de alívio. Rhodan não sabia
como explicar esta mudança de expressão.
— Base,
comandante Geral-Khor, planeta Salex IV. Minha ligação com Árcon
foi interrompida. O senhor poderia transmitir uma importante mensagem
para o Imperador Atlan?
Rhodan
olhou firme para o arcônida.
— Seu
hipertransmissor funciona, do contrário o senhor não poderia entrar
em contato comigo. Entre nós, a distância é de três meses-luz,
tempo da Terra.
— A
energia de que disponho não é suficiente para chegar até Árcon.
Bastou-me para registrar sua transição, localizá-lo e chamá-lo.
Mas não podemos vencer a distância até Árcon.
— Que
que aconteceu?
Havia
hesitação nos traços do arcônida.
— Não
sei se lhes posso contar. Trata-se de um segredo militar.
Rhodan
mostrou-se impaciente:
— Como o
senhor quer impedir que eu fique a par da situação, se tenho que
transmiti-la para Árcon?
— Mas é
claro que vou dar a mensagem cifrada.
— Isto
não lhe vai adiantar nada, pois possuo a chave do código secreto do
Imperador Gonozal VIII, podendo pois decifrar e ler sua mensagem.
Pela
primeira vez, o semblante frio do arcônida esboçou um sorriso e
Geral-Khor disse:
— Era o
que estava pensando, mas queria sua confirmação. Está bem, vou lhe
contar tudo. O senhor quer aterrissar?
— Não,
meu tempo é escasso. O imperador está esperando urgentemente pela
minha chegada.
— É uma
coisa importante, terrano, muito importante.
Rhodan
olhou para o General Deringhouse, que entrara no posto de rádio.
Ouvira o diálogo e tinha no rosto uma expressão confusa.
— Está
bem — disse Rhodan, finalmente. — Vamos então aterrissar, depois
de uma curta transição de três meses-luz. Espere por nós. Dê-nos
as coordenadas com exatidão, para pouparmos tempo.
Vinte
minutos mais tarde, disparavam com aceleração decrescente para o
quarto planeta do sol Salex. Era um mundo pequeno e deserto, de
atmosfera respirável e de pouca vegetação. As instalações da
base eram subterrâneas e Rhodan calculava que aqueles seus hangares
davam para abrigar uma grande frota de encouraçados. Passaram por
dezenas de naves-patrulha que circunvoavam o planeta numa órbita
determinada e que não responderam ao rádio de simples cumprimento.
Deringhouse disse que se tratava de unidades robotizadas.
A única
construção, que se via na superfície da base, era uma enorme
casamata em forma de cúpula, ao lado do espaçoporto. A antena
esférica refletia o sol poente. Enquanto a Drusus, com as turbinas
zunindo e com os campos antigravitacionais ligados, descia
lentamente, pousando suave na pista de mais de um metro de camada de
cimento armado, um único homem saía da fortaleza abobadada, parando
à beira do espaçoporto.
A imagem
ampliada do videofone permitia reconhecer os traços de Geral-Khor.
Rhodan
franziu a testa.
— Esquisito,
tudo isto — disse ele. — Parece que o homem vive sozinho nesta
base.
Deringhouse
não respondeu. Estava ocupado demais com a aterrissagem. Seguindo
exatamente o regulamento, desligou os diversos grupos de propulsão,
examinou todos os instrumentos de controle. Deixou funcionando apenas
os campos antigravitacionais, pois não sabia se a camada de cimento
armado da pista tinha a espessura necessária para suportar o peso da
Drusus, uma esfera de aço de um quilômetro e meio de diâmetro.
Somente momentos depois, respondeu à pergunta de Perry.
— Sozinho?
Um homem sozinho não pode comandar uma base desta.
— Por
que não? — indagou Rhodan, não compartilhando da opinião do
general. — Arcônidas competentes que se conservam ativos são
raros e Atlan tem que distribuí-los com cuidado. Esta base é uma
das muitas completamente automatizadas. Todas elas são dirigidas
pelo cérebro positrônico de Árcon. O mesmo acontece com a frota.
Somente que, em certas coisas, o ser humano é insubstituível, razão
por que Atlan colocou em toda parte um arcônida de confiança como
comandante. Portanto, não me causa nenhuma estranheza o fato de o
bom Geral-Khor estar sozinho aqui.
A
experimentação do ar foi satisfatória e a temperatura era
suportável mesmo sem ser acionado o dispositivo de calefação do
uniforme espacial. Rhodan enfiou na cintura uma pistola de raios
energéticos. Deu instruções ao telepata e teleportador Gucky para
que prestasse atenção em Geral-Khor, para estar à mão, caso fosse
necessário. Depois, acompanhado também de John Marshall, igualmente
telepata, deixou a Drusus pela escotilha de saída inferior. Levava
naturalmente o pequeno transmissor de pulso, de modo que Deringhouse
estava em ligação com eles.
John
Marshall abriu os braços, respirou profundamente e sorriu feliz:
— Como
pode um planeta como este ter um ar tão gostoso?
— Existem
também mares e grandes cinturões de vegetação. Naturalmente
sobrepujam a parte desértica e de montanhas áridas — detalhou
Rhodan.
Caminhavam
no solo firme e plano de cimento, deixando a grande nave para trás.
Aquele vulto solitário junto à casamata, vinha lentamente ao
encontro dos terranos.
— Que
está pensando ele? — perguntou Rhodan.
— Está
intimamente contente e feliz de termos chegado. Pensa, também, numa
catástrofe, mas muito obscura e indistintamente, como se ele mesmo
não soubesse bem o que vai acontecer. De qualquer maneira, está
bastante preocupado, chegando a ter medo.
— Muito
esquisito — disse Rhodan, olhando para trás e vendo o céu claro e
sem nuvens da tarde.
O catálogo
sideral lhe informara que este sol tinha um ocaso muito longo, pois
um dia de Salex IV durava cinqüenta horas, apesar de o planeta ser
menor que Marte.
Quando se
encontraram a quinhentos metros da única construção, Geral-Khor
estacou. Usava o uniforme de uma alta patente arcônida e portava
também uma arma na cintura. No momento em que Rhodan olhou para ele,
o arcônida automaticamente curvou a cabeça. Depois esticou a mão
para o terrano.
— Sinto-me
feliz, pois o senhor atendeu minha solicitação, embora tivesse que
fazer este pequeno desvio de sua rota. Mas acho que é de suma
importância que Gonozal VIII saiba do que se passa aqui.
Rhodan não
quis já de início saber dos detalhes e dos possíveis pensamentos
de seu interlocutor, dispensando, pois, naquele momento, os serviços
do telepata Marshall.
Ia deixar
que o arcônida relatasse, como quisesse, os fatos ocorridos. Segurou
a mão de Geral-Khor, apresentou Marshall e disse:
— Venha
para a nossa nave, ou...?
— Posso
lhe pedir para ser meu hóspede? Creia: eu quase nunca tenho hóspedes
aqui. As visitas são quase sempre de robôs, comandantes de frota.
Mas, agora...
Interrompeu
o que estava dizendo e se encaminhou para o edifício. Marshall fez
uma cara de interrogação e fitou Rhodan. Parecia ter detectado algo
errado.
Falavam
sobre coisas sem importância e Rhodan teve ocasião de apreciar a
paciência do arcônida. Qualquer outra pessoa teria logo contado com
a novidade sensacional, se é que era mesmo uma novidade e
sensacional.
— Por
aqui, por favor — disse Geral-Khor, conduzindo seus visitantes para
uma sala confortável e bem mobiliada.
A janela
grande e muito baixa permitia a visão total do espaçoporto. A
Drusus refulgia numa coloração rosa do sol poente. A visão daquele
gigante produzia uma sensação de tranqüilidade e, ao mesmo tempo,
assustava.
Sentaram-se.
— Então,
meu amigo, desembuche o que tem a dizer — falou Rhodan que, notando
a expressão de espanto do arcônida, acrescentou: — Desculpe, é
uma expressão usada muito entre nós, com o simples sentido de: pode
iniciar seu relatório.
O sorriso
de Geral-Khor foi apenas protocolar.
— O
senhor vai voar daqui diretamente para Árcon?
— Gonozal
VIII me pediu que assim o fizesse.
— Ótimo!
Então comunique-lhe que a base Salex IV está paralisada. A frota
robotizada está desligada e não obedece mais aos impulsos de
comando. Com os aparelhos de escuta constatei que não estamos mais
recebendo impulsos de Árcon e assim, sem estes impulsos do grande
cérebro positrônico, a frota que é de controle robotizado está
praticamente morta. As naves, que estavam paradas nos hangares,
continuam lá, sem se poderem mover. As escotilhas permanecem
fechadas e ninguém as consegue abrir. As unidades, que estavam
patrulhando, permanecem dando voltas no planeta, como se esperassem
por alguma coisa. E o que será que elas estão esperando, Perry?
Rhodan
tinha uma idéia muito vaga e não a queria expor, exatamente por ser
mera hipótese. Uma frota robotizada podia ficar desligada — e isso
nada tinha de alarmante e também não significava que estava
acontecendo a mesma coisa em outras partes do Império Arcônida.
Podia ser até um mero acaso. Por exemplo, uma falha no relê nos
comandos receptores...
— E o
que aconteceu com os robôs de serviço? — perguntou Perry.
— Os
robôs de serviço? São comandados diretamente pela central e esta,
por sua vez, está em ligação direta com o cérebro de Árcon.
Estão todos parados. Não há nada que os faça se mover, nem para
dar um passo. Em toda esta base, eu sou o único que não ficou
parado como um idiota. Mas também, não sou robô, não é?
Rhodan
estava percebendo toda a situação e ficou apavorado. Notou que
havia um nexo entre o que Atlan lhe contara e os acontecimentos em
Salex IV. Estava mais do que na hora de comunicar isto ao imperador.
— Proponho
que o senhor mesmo exponha isto diretamente ao Imperador Gonozal. Lá
de nossa nave. Ficará então sabendo que medidas deve tomar. Com
isto, o senhor e o império pouparão muito tempo, decisivo em tais
circunstâncias. Suponho que o imperador vai lhe dar algumas
instruções.
— Boa
idéia — disse o arcônida, agradecendo. — Já havia pensado
nisto, não queria, porém, incomodá-lo... Sim, sei que Terra e
Árcon são aliados, mas apesar disso...
Rhodan
sorria.
— Mais
tarde, vou dar uma olhada nas naves do hangar. Suponho que as
entradas não estejam também bloqueadas.
— Felizmente,
não! São de controle manual, do contrário...
Ouviu-se
de repente um leve zumbido na sala. Rhodan, levantando a mão, disse:
— Deringhouse?
Pode falar calmamente.
— Hiper-rádio,
senhor. Atlan quer falar com o senhor. É urgente, acho eu.
— Diga-lhe
que espere um pouco, estarei lá em poucos minutos.
Olhou para
Geral-Khor:
— Mais
cedo do que imaginávamos, o senhor vai poder falar com o imperador.
Vamos embora. Acho que não devemos mais perder tempo.
Se o
chamado de Atlan foi uma surpresa para o comandante da base, pelo
menos não o deu a entender. Levantou-se na mesma hora e caminhou
para a porta. Rhodan e Marshall o seguiram. Como não houvesse uma
única viatura à disposição, o remédio era ir a pé, o mais
depressa que podiam.
Chegaram
pelo elevador antigravitacional ao posto de rádio, em menos de três
minutos. Fred Jenner estava mantendo a ligação com Árcon.
— Estou
sabendo que você se encontra em Salex IV, Perry. Por que motivo?
Rhodan lhe
explicou em poucas palavras e pôde presenciar a grande surpresa e
perplexidade de Atlan.
— Você
está certo, bárbaro. A pane é geral. De início pensei que fosse
mero acidente, restrito a um raio de alguns anos-luz. Mas a
explicação é mais simples: as instalações do hiper-rádio não
funcionam e, assim, as notícias alarmantes não chegaram até mim.
— Que
aconteceu? — perguntou Rhodan com insistência.
Atlan
começou a falar:
— Toda
ligação com o cérebro de Árcon III foi interrompida. Não há
mais nenhuma comunicação. Concomitantemente, todas as naves
robotizadas estão paralisadas. A mesma coisa acontece com todos os
robôs de combate e de serviço e com todas as instalações dos
estaleiros de cosmonáutica.
“A
administração de Árcon está à beira de um colapso geral, pois a
maior parte dos serviços são executados por robôs, que o grande
cérebro eletrônico controla. O perfeccionismo da total
automatização positiva-se agora como prejudicial, já que o
principal falhou. Todo o reforço para as unidades da frota
comandadas por arcônidas fracassou. É a mesma coisa como se nunca
tivesse existido o cérebro positrônico. Aliás, destruiu-se toda
comunicação por rádio com tudo que está localizado em Árcon III,
seja robô ou não.
“O
planeta da defesa bélica se encontra coberto por um estranho campo
magnético de um tipo desconhecido e de proporções gigantescas!
Nada consegue penetrá-lo, nem ondas de rádio, nem matéria. Desta
feita, o cérebro robotizado está isolado. São catastróficas as
conseqüências desse isolamento...”
Geral-Khor
empalideceu, olhando perplexo para seu imperador e deixando-se cair
numa cadeira, como se as pernas não o agüentassem mais. Não disse
uma palavra.
O próprio
Rhodan ficou muito sério, quando disse:
— Os
acônidas atacaram e são uma potência que dispõe de meios
desconhecidos. Com uma única nave, conseguiram destruir o Império
de Árcon. Estão instalados no coração do império, seguros e
inatingíveis. Que devemos fazer?
— Era
isto que ia lhe perguntar — respondeu Atlan, perturbado. — Não
sei realmente o que possa fazer.
Rhodan não
respondeu. O silêncio era angustiante.
— Não
temos nada mais a fazer aqui em Salex IV. Geral-Khor, você não acha
bom ir conosco ou quer ficar aqui?
Atlan foi
quem decidiu:
— Ele
deve regressar a Árcon, pois, caso o cérebro eletrônico volte a
funcionar, a base pode recomeçar seu trabalho sem ele. Geral-Khor
retornará a Salex mais tarde.
— Obrigado,
majestade — disse Geral-Khor aliviado.
A idéia
de permanecer entre as naves paralisadas de repente, naquela solidão,
não lhe era nada agradável.
— Pode
nos esperar para daqui algumas horas, Atlan — disse Rhodan. —
Espero apenas que o envoltório de proteção não nos detenha. Ou
melhor: espero que os acônidas não consigam controlar o cérebro
positrônico. Acho que o máximo que conseguirão é desligá-lo e,
com isto, não me poderão atrapalhar. Portanto, Atlan, a situação
não é ainda desesperadora. Temos alguma esperança.
— Mas
muito pequena — respondeu Atlan.
— Não,
amigo. Esperança é esperança. E não se esqueça de que já
passamos por coisas muito piores e sempre conseguimos vencer.
— Mas
nunca por uma situação tão drástica como esta — replicou
pessimista.
Rhodan
sabia que, no fundo, o arcônida tinha razão.
Assim que
a tela apagou, o grande aliado de Atlan perguntou:
— Uma
visita ao hangar das naves robotizadas se torna assim completamente
desnecessária, Geral-Khor. Podemos decolar imediatamente? Ou o
senhor ainda tem que apanhar alguma coisa na base, coisas
particulares, penso eu?
— Quando
a existência do império está em jogo, não há interesses
particulares — respondeu Geral-Khor com muita dignidade.
Não
precisava dizer mais nada. Rhodan acenou, concordando, e continuou:
— O
Império de Árcon nunca estará perdido enquanto Atlan-Gonozal tiver
oficiais do seu gabarito — disse, estendendo a mão ao arcônida. —
John Marshall vai levá-lo à sua cabina.
Encaminhou-se
para a central de comando, onde Deringhouse já havia posto no
computador os dados para a transição.
Dez
minutos após, a maior nave da Terra, com o rugido cavernoso de suas
turbinas, se desprendia do solo, mergulhando no céu, já escuro, de
Salex IV e passando ao lado de naves-patrulha arcônidas, que
circunvoavam sem sentido o planeta militar. Meia hora depois entrava
em transição.
*
* *
Mais ou
menos na mesma hora, em Terrânia, o pequeno computador do Instituto
de Reciclagem para Cosmonáutica perfurava outra ficha com minúsculos
quadrículos. A ficha azulada foi puxada pelo aparelho seletor para
uma pequena esteira rolante e levada para um arquivo.
Um minuto
mais tarde, um certo Major Rammbüggl, Ludwig Rammbüggl, diretor do
Instituto, estava com a ficha na mão.
— Oba! —
fez ele, depois de passar rapidamente a vista na ficha. — Puxa! Um
major da Frota Espacial, Heinrich Bellefjord, se apresentou para a
reciclagem e foi aprovado. Pelo menos mais um oficial que já serve
na Frota!
E olhando
para seu secretário:
— Pierre,
traga imediatamente os papéis deste oficial. Depressa! Precisamos de
tripulações experientes para as novas naves experimentais de
propulsão linear. Este Bellefjord, nome cômico, não é? Deve ser
destacado imediatamente para a Lua.
Pierre fez
a continência e desapareceu.
Meia hora
depois, o Major Rammbüggl foi informado de que Bellefjord estava em
operação com o cruzador leve Kenia. Mas isto não o impediu de
entrar em contato imediatamente com o Supremo Comando e tomar as
respectivas providências. Duas horas depois, chegava uma ordem por
hiper-rádio à linha de frente do Sistema Azul.
*
* *
Juntamente
com outras unidades da Frota, ali estava também o cruzador Kenia
patrulhando as fronteiras do Sistema Azul.
As
primeiras tentativas para romper o envoltório de proteção com
truques técnicos já haviam sido realizadas. Três cruzadores
pesados fizeram no mesmo instante uma pequena transição, na
esperança de romper a cúpula energética acônida. Pura ilusão, a
tentativa fracassou, sem contudo prejudicar ninguém. As três naves
foram apenas rechaçadas por uma força invisível, mas de grande
potência. Os campos antigravitacionais absorveram o grande choque.
O
comandante, Major Heinrich Bellefjord, não podia supor que, neste
momento, estava terminando sua missão por ali e que tinha sido
escolhido pelo destino, ou se preferirmos, por um computador, para
desempenhar um papel muito importante nos acontecimentos que estavam
por vir.
Até era
bom que não soubesse disso, pois talvez seu ânimo empreendedor
teria arrefecido.
De
repente, percebeu quando uma pequena nave acônida surgiu nas
profundezas do espaço e desapareceu.
Com dois
pulos rápidos, já estava na cabina de rádio.
— Ligação
para o Major Kalígula, depressa!
Antes que
o radiotelegrafista pudesse responder, já tinha voltado ao posto de
comando. O piloto, um africano, virou-se para ele.
— Sargento,
vá até o local de onde saiu aquela nave, lá no envoltório de
proteção. O que eles podem, nós também podemos. Você viu bem de
onde ela saiu?
O africano
fez que sim. Como piloto do cruzador leve, estava sentado bem ao lado
das telas e dos instrumentos de orientação. Quando surgiu a
espaçonave estrangeira, ele apertou o botão da gravação
fotográfica e goniométrica. Desta feita se pôde reconstituir com
exatidão a rota da nave desaparecida.
— Nossa
direção está agora certa — disse o piloto, depois de uma pequena
correção. — Estamos voando exatamente para o ponto assinalado na
tela.
— Ótimo.
Sargento Omola, a distância?
— Dois
minutos-luz.
— E a
velocidade?
— Zero
vírgula noventa e oito por cento da luz.
— Conserve-a.
Estarei de volta num instante.
Bellefjord
dirigiu-se à cabina de rádio, o mais depressa que pôde.
— Como
vai o negócio, cadete? Já conseguiu a ligação?
Gerald
Rumpus deu um salto, oferecendo o lugar ao superior.
— O
Major Kalígula está esperando, senhor.
Bellefjord
passou entre a cadeira pregada no chão e os muitos instrumentos à
sua frente. Com algum esforço, conseguiu sentar. A menos de um
metro, emergia da tela o semblante do outro oficial.
— Que
que há de novo, Bellefjord?
— Venho
pedir autorização para penetrar no Sistema Azul...
— Autorização?
— pelo tom de Kalígula, devia estar muito admirado. — Nós
estamos tentando isto há muitos dias, e não conseguimos. E o senhor
vem me pedir autorização para penetrar? Como posso compreender
isto, major?
— Tenho
uma idéia, senhor!
— Prazer
em ouvir isto. E qual é ela?
Bellefjord
quase engasgou de tão nervoso que estava. Não podia perder tempo.
— Estou,
com a nossa Kenia, próximo do lugar onde a nave acônida atravessou
o envoltório energético de proteção. Suponho, senhor, que
conseguiremos entrar pelo mesmo lugar do qual ela saiu.
O major
parecia muito apreensivo.
— O
risco é muito grande, Major Bellefjord. Caso a fenda se feche, os
senhores não poderão mais voltar e nós também não os podemos
ajudar. Só poderão contar com os próprios recursos. Não sei se
lhe posso dar autorização, sem antes consultar a Terra.
— Não
temos mais do que um minuto, senhor! Nossa Kenia se atira com quase a
velocidade da luz na direção da fenda de passagem. É mesmo um
buraco, senhor, onde até a cintilação azulada já esmaeceu.
O Major
Kalígula, comandante geral dos cruzadores nos limites do Sistema
Azul, hesitou por mais um segundo. Depois concordou:
— Está
bem, major, dou-lhe a autorização, mas o senhor está ciente do
risco que corre. Procure manter contato conosco pelo rádio.
— Está
certo, senhor, e... muito obrigado.
Levantou-se
e foi correndo para a central de comando, enquanto o telegrafista
Rumpus assumia de novo seu lugar.
A imagem
da tela desapareceu, mas a ligação continuou.
A nave
Kenia penetrara no misterioso envoltório de proteção, que separava
o mundo fantástico dos acônidas do resto do Universo. A ligação
do rádio cessou completamente. A Kenia e todos os terranos, que nela
se achavam, estavam isolados do resto do mundo.
Bellefjord
tocou o alarma.
O
primeiro-oficial veio correndo para a cabina de comando. Era o antigo
tenente, agora promovido a capitão, Benno Raldini, um sujeito muito
vivo, de cabelos escuros.
— Alarma,
senhor?
Bellefjord
apontou para a tela panorâmica que ainda estava funcionando,
espelhando fielmente tudo que havia em torno da Kenia. Com poucas
palavras, explicou a Raldini o que acontecera. E concluiu:
— Não
tive tempo de disparar o alarma antes. Kalígula deu autorização
para a operação. Não posso explicar como me veio de repente a
idéia de que a nave dos acônidas, que estava rompendo a muralha de
proteção, devia deixar um buraco na barreira energética. O fato é
que minha idéia foi feliz. Estamos no Sistema Azul.
O
comandante dirigiu-se ao intercomunicador e deu algumas instruções
à tripulação. Em caso de emergência, teria que cuidar da defesa.
Deu ordem para que as baterias de raios térmicos e energéticos
ficassem de prontidão e a cúpula de proteção continuasse ligada.
Os pequenos aparelhos salva-vidas também deviam estar de alerta,
para decolarem instantaneamente em caso de uma catástrofe.
Naturalmente,
todos tinham que estar com o uniforme espacial.
— Proponho
também, senhor — disse Raldini depois de desligar o
intercomunicador — que também nós vistamos o uniforme espacial.
Mais tarde, talvez, não teremos mais tempo.
Bellefjord
concordou.
O piloto,
sargento Wari Omola, reduziu a velocidade da Kenia e se dirigiu no
sentido do sexto planeta, que estava entre eles e o sol azul. Sphinx,
o quinto planeta e centro principal dos acônidas, estava à direita
do disco solar. Bellefjord não se julgava com direito de entrar em
ligação com os acônidas. O fato de ter penetrado no Sistema Azul,
foi quase que mero acaso. Queria aproveitar a ocasião para estudar
melhor a constituição daquele misterioso envoltório de proteção,
que isolava o sistema do resto da Via Láctea. Mas não tinha nenhuma
vontade de se deixar prender pelos antepassados dos arcônidas.
Depois de
ligar o piloto automático, Omola foi examinar todo o registro de sua
rota. Por meio do robô navegador, conseguiu determinar a posição
exata da fenda. Uma estrela, na proa da nave, visível numa tela
especial, servia de ponto de referência. Esta estrela estava próxima
da muralha de proteção.
— Dentro
do sistema, as distâncias são pequenas demais para produzir um
desvio no alinhamento, senhor — concluiu convincente o piloto. —
Assim que o senhor precisar, acharemos de novo o local.
Depois,
olhando para as telas à sua frente:
— Acha
válido aterrissar? Bellefjord não respondeu logo. Sabia o que havia
acontecido, quando o planeta, aliás, quando o Sistema Azul fora
descoberto. O relatório de Rhodan foi distribuído para todos os
comandantes da Frota. Os acônidas trataram Rhodan e sua gente com o
maior pouco-caso. Naturalmente, isto não queria dizer que o
procedimento deles hoje seria o mesmo. Os acônidas chegaram depois à
conclusão de que os terranos não eram os arcônidas, seus
descendentes mais próximos, contra os quais os habitantes do Sistema
Azul também cultivavam uma tremenda antipatia, que se aproximava do
desprezo. Quem sabe tratariam os terranos de maneira mais amiga?
— Primeiro
dê umas voltas em torno do planeta! — ordenou ele.
Os
aparelhos de radiogoniometria não assinalaram a presença de nenhuma
outra nave no Sistema Azul. Quem sabe se aquela pequena nave, que
rompera a muralha de proteção, era a única restante em todo aquele
esquisito sistema, onde vivia uma raça que a todo custo queria se
isolar do resto do Universo? Neste caso, esta raça não contaria com
outras para se defender. Era uma coisa em que Bellefjord não pensara
ainda.
— Desça
mais! — ordenou de novo.
A Kenia
penetrou nas camadas superiores da atmosfera, diminuindo ainda mais a
velocidade. Por um momento, Bellefjord começou a imaginar o que
ocorreria, se não encontrassem a fenda para saírem daquele sistema.
Ou, pior ainda, se entrementes aquela abertura se fechasse. Poderia
acontecer muita coisa. Principalmente, uma impiedosa perseguição
por parte dos acônidas, caso ainda tivessem outras naves. Ou
aprisionamento, caso aterrissassem em Sphinx. Em ambas as situações,
nenhuma possibilidade de voltar à Terra.
O sexto
planeta dava a impressão de ser desabitado, não se levando em conta
algumas estações de transmissores fictícios e algumas bases. A
maior parte da superfície era desértica. Apenas, em torno do único
mar, havia uma paisagem que lembrava um pouco as estepes da Terra.
Vegetação densa, não havia em nenhum lugar. Somente campos e
árvores desgalhadas.
Depois que
a Kenia sobrevoou duas vezes o planeta, o comandante Bellefjord deu
ordem para aterrissar.
O Capitão
Raldini olhou assustado para a tela panorâmica.
— Com o
perdão da pergunta, senhor, mas qual é seu plano? Se os acônidas
nos...
— Temos
que arriscar, capitão. Está vendo ali o arco chamejante? Sim, bem
perto da pequena construção. Quero saber para onde a gente vai,
entrando por aquele arco.
— É uma
estação de transmissor fictício?
— Ao
menos, parece. Com mais dois tripulantes vou fazer uma tentativa de
entrar em contato com os acônidas. O senhor assumirá o comando da
Kenia. Se eu não voltar até um determinado tempo, o senhor deve
partir. Estamos entendidos?
— É
claro, mas...
— Nada
de mas! Decolará e procurará alcançar o Major Kalígula.
A Kenia
aterrissou não longe da praia. Os arcos chamejantes do transmissor
pareciam sair do chão em dois lugares distintos. Bem ao centro das
duas colunas de fogo, os jatos se uniam em arco, a mais ou menos dez
metros de altura. Originava-se, então, uma espécie de pórtico
luminoso. O que havia atrás dele, não se podia ver. Mas, de
qualquer maneira, não era a superfície monótona do planeta.
Bellefjord
ligou o intercomunicador. Expôs à tripulação sua intenção de
inspecionar a superfície do planeta e pediu ao laboratório que lhe
fornecesse os dados necessários. Além disso, solicitou dois
voluntários. Fez questão de frisar o risco inerente ao
empreendimento.
Dos
acônidas, que externamente não se diferenciavam muito dos homens, a
não ser pela formação óssea, muito semelhante à dos arcônidas,
não se via nem sinal. Aquela única construção baixa e abandonada
parecia perdida no meio da estepe de capim ralo. Os microfones
externos da Kenia não captavam o menor ruído. Parecia que nem mesmo
animais existiam por ali. Bem alto no céu, estava o sol azul, e a
coloração da atmosfera deixava prever uma excelente camada de ar.
Entraram,
então, os resultados das pesquisas do laboratório. O ar era
respirável, não havia bactérias nem qualquer radiatividade.
Portanto, nenhum perigo para o ser humano.
Os dois
homens se apresentaram. Entre os muitos que se ofereceram, o Capitão
Raldini selecionou dois. Bellefjord os conhecia, como aliás conhecia
a cada um dos tripulantes da Kenia.
— Sargento
Meister e cadete Rumpus se apresentam para o empreendimento.
— Rumpus?
Você? — Bellefjord gaguejou. — Você tem que ficar nos seus
instrumentos.
— Todas
as comunicações estão interrompidas e, além disto, já
providenciei substituto. Gostaria imensamente de ir com o senhor, se
o permitir.
Bellefjord
sorriu.
— Muito
bem, cadete. Acho que você pretende, nesta missão, a promoção
para tenente, não é? Talvez esta incursão no planeta lhe dê a
oportunidade. O primeiro-oficial lhe forneceu as armas?
— Estão
na escotilha de saída, senhor.
Bellefjord
acenou para Raldini, que estava entrando. Deu-lhe, ainda, algumas
instruções e deixou a central de comando com seus dois voluntários,
encaminhando-se para a escotilha de saída. Para falar sinceramente,
Bellefjord não estava se sentindo muito bem, pois, embora tivesse
obtido autorização do Major Kalígula, não podia ter certeza se
nesta autorização achava-se incluída uma aterrissagem espontânea
no sexto planeta, e se isto iria de encontro a alguma determinação
de Rhodan.
A
escotilha se abriu lentamente, depois de terem vestido os trajes de
proteção. Não se tratava dos pesados uniformes espaciais, mas dos
trajes mais leves de operação de emergência, que incluíam o
dispositivo de calefação, o filtro de respiração e o
neutralizador de irradiações. Neste planeta parecido com Marte, era
o suficiente. O gravômetro acusava 0,9. A voz de Bellefjord parecia
meio abafada, quando disse:
— Vamos
até o arco chamejante. Enquanto estivermos lá, vocês examinam toda
a instalação. Fiquem sempre com a arma pronta para atirar, mas só
podem abrir fogo quando eu mandar. Não podemos de maneira alguma
cometer arbitrariedades ou violências. Só nos cabe o direito de
defesa. Está bem claro?
O sargento
Meister balançou a cabeça, meio confuso. Dava a impressão de estar
arrependido de se ter apresentado tão precipitadamente. Podia ser
também conseqüência da tensão nervosa.
Em
compensação, Rumpus tinha um ar de completa tranqüilidade. Parecia
não ter medo de nada. Bellefjord estava surpreso com a transformação
súbita que se processava no competente telegrafista, mas até então
um jovem de aparência tímida. Talvez estivesse se controlando...
Podia ser esta a explicação da repentina frieza do jovem cadete.
E quanto a
ele mesmo?
Bellefjord
confessou intimamente não ter nenhum sentimento especial. Não
sentia medo, mas não deixava de ter uma sensação desagradável.
Quem sabe se o que o impulsionava para este empreendimento era apenas
curiosidade?
Estacaram
a poucos metros do arco de fogo, ou melhor, do arco de luz. O
sargento Meister foi na frente e contornou duas vezes a construção,
antes de entrar numa porta que estava apenas encostada.
Dava a
impressão de ser uma armadilha bem camuflada. Desapareceu,
aparecendo dez segundos depois.
— Nada,
meu senhor! Parece uma sala de espera, com bancos, uma mesa e uma
espécie de bilheteria. Será possível que o transporte pelo
transmissor fictício só se realize em horas determinadas, e os
passageiros tenham que esperar aqui?
Bellefjord
ficou devendo a resposta. Olhava com alguma cautela para o fosso
debaixo do arco de luz. Era de fato um buraco. Ao invés de uma
continuação da estepe, Bellefjord viu um redemoinho de uma
coloração azul-escura, uma matéria não identificada. Talvez nem
fosse mesmo matéria, mas um tipo de energia, onde se caía quando se
desejava ser transportado.
“Para
onde serei transportado, caso entre no transmissor?”,
indagou-se o major.
Tentou
dominar suas dúvidas, e só agora respondeu ao sargento:
— Pode
ser muito bem que se trate de uma sala de espera. Mas não há dúvida
de que o transmissor está funcionando. Não precisamos, pois,
esperar.
A nave
Kenia encontrava-se a cem metros. Bellefjord olhou para ela e ergueu
o braço esquerdo. Era o sinal combinado com o Capitão Raldini. O
primeiro-oficial iria agora consultar o relógio e contar exatamente
cinco horas. Esgotado este tempo, conforme as instruções que
recebera, tentaria sair do Sistema Azul.
— Quer
dizer que isto é um transmissor de matéria e de passageiros,
senhor? — perguntou Rumpus, de súbito. — Nunca vi um assim. As
gaiolas de ferro trançado, que andei estudando no laboratório de
pesquisas de Terrânia, não têm nada em comum com esta instalação.
— Este
tipo aqui se baseia em outros princípios — disse-lhe Bellefjord,
embora ele mesmo não compreendesse bem. — Quando se penetra no
foco do arco de luz, a pessoa ou o objeto se desintegram nos seus
componentes atômicos, através de todo o percurso determinado e fora
das leis do tempo e do espaço. São transportados pelo hiperespaço,
ou quinta dimensão, para finalmente serem recompostos num receptor.
É o tipo ideal de transporte. Um dia, também no nosso sistema
solar, todas as naves serão substituídas por aparelhos iguais a
este.
Rumpus
nada comentou. Sua mão segurava a coronha da arma que ainda estava
travada na cintura. O sargento Meister contemplava absorto o
redemoinho energético no arco de luz. Estaria pensando como um homem
poderia ficar incólume num inferno daquele.
Bellefjord
olhou mais uma vez para o relógio.
— Não
temos mais tempo a perder. Dêem-me suas mãos, meus senhores. Vamos
entrar juntos no transmissor. Assim que perceberem alguma coisa
diferente em volta, fujam e estejam prontos para fazer fogo, para se
defenderem. Então? Prontos?
Meister e
Rumpus concordaram com um aceno de cabeça.
Bellefjord
encheu os pulmões de ar, que lhe pareceu quente e asfixiante demais.
E começou a caminhar, andando os três numa linha reta, na direção
do arco luminoso e... desapareceram.
Não
sentiram absolutamente nada durante a desmaterialização. Não
perceberam, não viram nem ouviram nada.
Deram um
passo, mais outro. Mas após o segundo já não se encontravam ali,
próximos da nave Kenia, e sim em outro mundo.
*
* *
Capitão
Raldini não despregava os olhos do arco luminoso. Mergulhado em seus
pensamentos, perguntava a si mesmo como pudera acontecer aquilo tão
rapidamente.
“Este
velho major tem realmente nervos de aço! Dirigiu-se, como que
passeando, para o transmissor, sem se preocupar com o lugar para onde
ia...”,
refletia Raldini.
O major,
de fato, agiu como devia.
Quando é
que uma nave terrana teria outra oportunidade de penetrar no Sistema
Azul? Talvez fossem eles os últimos.
Também
não houve tempo para se tomar maiores medidas de precaução ou para
fazer pesquisas sempre úteis.
Quem
poderia saber por quanto tempo permaneceria aberta a brecha no
terrível envoltório de proteção? Se fechasse, adeus esperança de
voltar!
Com a
idéia fixa de poder ou não voltar para seu próprio Universo,
Raldini olhava nervoso para o relógio.
— Puxa
vida! Mal faz cinco minutos que os três desapareceram... Será que o
tempo também parou? — balbuciou apreensivo.
Não
podia, porém, imaginar que, para os três, este tempo corria
depressa demais.
*
* *
Um frio
intenso foi a primeira coisa que Bellefjord sentiu. Instintivamente
levou a mão ao botão do aparelho de calefação. Notou então que
já era noite, não havia mais sol, milhares de estrelas cintilavam
no céu. O ar, terrivelmente frio, era respirável. Provavelmente
estavam no lado escuro do sexto planeta. Mas, no mesmo momento, achou
que tal hipótese era falha. A gravidade era bem mais forte, pelo
menos 1,4 gravos. O conteúdo de oxigênio daquele ar gelado era
muito menor do que há poucos segundos atrás...
Deviam,
pois, estar em outro planeta!
Aos
poucos, foram se habituando à quase total escuridão. A mão de
Rumpus continuava firme na coronha de sua arma. A mão direita do
sargento Meister soltou-se da de Bellefjord, certamente a fim de
preparar-se para qualquer eventualidade.
— Onde
estamos? — perguntou Rumpus. — Isto não parece ser Sphinx.
— Deve
ser outro planeta mais afastado do sol azul ou alguma lua — disse
Bellefjord, apontando para frente, onde começavam a surgir traços
diferentes contra a claridade que estava aumentando. — Se não
estou enganado, ali está de novo uma sala de espera. Vamos dar uma
chegada até lá.
Saiu na
frente, seguido pelos companheiros. A respiração não estava fácil.
Não iam poder agüentar muito tempo por ali. Algumas horas, talvez.
Desta vez,
a porta estava fechada, mas não lhes foi difícil abri-la.
Acendeu-se uma lâmpada atrás deles.
— Talvez,
à noite, a lâmpada acenda automaticamente com a abertura da porta —
disse Bellefjord, na sua mania de querer achar sempre uma explicação
lógica para tudo. — Gostaria de saber por que motivo os
transmissores estão sempre ligados, se não há ninguém para
usá-los. Verdadeiro desperdício de energia e desgaste inútil das
instalações!
Já haviam
fechado a porta e, através de um corredor estreito, onde se sentia
menos frio, chegaram a outra sala de espera. A segunda porta se abriu
automaticamente.
Três
acônidas, agasalhados por grossas peles, olhavam surpresos para
eles!
Bellefjord
perdeu a fala e respirava com dificuldade. Mas os três acônidas
pareciam muito pacíficos. Deviam ser trabalhadores ou engenheiros
terminando seu turno de serviço, esperando sua condução. Havia
realmente admiração nos seus olhos, mas tinham um domínio
formidável sobre si mesmos, de maneira que os terranos nada notavam.
— Boa
noite! — balbuciou o cadete Rumpus, quase sem querer, utilizando-se
instintivamente da linguagem comum da Galáxia, que todos os povos
dominavam relativamente bem. — Desculpem-me...
Os três
rostos viraram, quase ao mesmo tempo, para o outro lado. Não havia
neles nenhuma expressão de desprezo, de ira ou de ódio. O que os
movia era de fato uma grande indiferença. Faziam lembrar certo tipo
de pessoas que, quando alguém lhes pede um favor, se descartam
simplesmente com gestos negativos.
Bellefjord
olhou em torno e descobriu um banco livre e algumas cadeiras. Naquele
local, a temperatura era suportável. Estava com muito frio e não
queria sair dali, antes de descobrir alguma coisa. Não pretendia
aparecer perante o Major Kalígula sem nenhuma informação útil.
— Vamos
sentar um pouco — disse para seus acompanhantes. — O calor só
nos pode fazer bem. E, além de tudo, a condução parece que não é
para já.
O sargento
Meister sorriu, mas continuava com a mão na coronha da arma.
Enquanto que o cadete Rumpus parecia ter chegado à conclusão de que
estavam lidando com criaturas inofensivas. Sentou-se, remexendo seus
bolsos à procura de um cigarro.
— O
senhor está aguardando alguma coisa? — perguntou ele ao Major
Bellefjord, depois de dez minutos.
Tivera,
entrementes, tempo para observar todo o ambiente. Notara que os três
acônidas quase sempre olhavam para um painel de ligação, colocado
no alto da parede, logo abaixo do forro. Eram apenas dois botões, um
dos quais, de coloração amarelada, estava comprimido. O outro,
preto, estava para fora. Quem quisesse alcançar os dois botões
tinha que arranjar um tamborete ou uma cadeira para subir.
Só mais
tarde é que os terranos concluíram que isto era a maneira mais
simples de proteger o painel do transmissor fictício das
brincadeiras das crianças, sem impedir o uso normal pelos adultos.
Aqueles
dois botões ligavam o transmissor para despachar ou para receber.
Normalmente este trabalho era feito por uma central, localizada na
lua do quinto planeta. Mas em todas as salas de espera havia destes
painéis manuais, para uso individual.
Um dos
acônidas levantou-se e subiu numa cadeira, apertando o botão preto,
sendo que simultaneamente o amarelo saltou. Continuou de pé na
cadeira, enquanto os outros dois deixaram a sala de espera e foram
embora.
Dois
minutos depois, o acônida, ainda de pé na cadeira, apertou o botão
amarelo, fazendo com que o preto voltasse à antiga posição.
Colocou a cadeira no seu lugar e sentou-se, sem qualquer expressão
no rosto.
O sargento
Meister balançou a cabeça.
— Que
significará mais esta bobagem? — perguntou em inglês.
Bellefjord
também não sabia, mas pressentia algo desagradável. Começou a
quebrar a cabeça sobre que função poderiam ter aqueles dois
botões, tão bem protegidos lá no alto da parede. Não tinha
sentido ficar ali perdendo tempo. Levantou-se resoluto e se
encaminhou para o único acônida que ali ficara. Disse alto e claro:
— Se os
senhores preferem nos tratar como selvagens ou como animais daninhos,
não temos nada que ver com isto. Mas não estranhem se começarmos a
reagir com a mesma moeda. Então, vai ou não vai falar conosco?
Os traços
fisionômicos do acônida refletiam tanto orgulho que Bellefjord
estava quase perdendo as estribeiras. A muito custo se controlou. Mas
quando o acônida, com um ar de desprezo, deu um sorriso irônico,
sem nem sequer olhar para ele, como se não existisse, o major o
pegou pelos ombros, sacudiu energicamente. Depois, limpou as mãos no
uniforme e disse:
— Imundo!
Havia algo
semelhante a cólera no rosto do acônida, mas podia ser também um
engano, pois antes de Bellefjord virar-se de costas para ele, notou
no rosto do acônida traços de contentamento.
Contentamento...?
Contentamento com o quê? Onde estavam os dois colegas daquele tipo
pretensioso e cabeçudo? Será...?
De repente
Bellefjord compreendeu tudo. O transmissor! Tinham-no ligado para
transmissão e foram buscar reforço. Simultaneamente com esta idéia,
lhe passou pela cabeça que, se eles tinham alterado o sentido do
transmissor, apertando o botão, ele também podia fazer o mesmo. E
por que não?
— Sargento,
atenção! Cadete, os “rapazes”
foram buscar reforço. Certamente querem nos surpreender e prender.
Em poucas
palavras lhes explicou o funcionamento dos dois botões e ordenou:
— Rumpus!
Suba na cadeira e aperte o botão preto. O preto quer dizer
transmitir, pois foi com o preto que os dois desapareceram. Nós
chegamos com o amarelo, que naturalmente deve indicar chegada. Desta
maneira, os dois botões nunca podem estar ligados ao mesmo tempo. Se
apertarmos o preto, transmitir, ninguém nos vai surpreender...
Rumpus
executou a ordem. Subiu e comprimiu o botão preto.
O acônida
se levantou para impedi-lo, mas o sargento Meister o obrigou a
sentar-se. Bellefjord disse em arcônida:
— Que
aconteceu com a nave que há uma hora deixou seu sistema, acônida?
Por favor, fale, não nos obrigue a usar de outros meios
desagradáveis. Você deve saber, pois são raros os aparelhos que
saem daqui. Cada decolagem deve ser, portanto, um grande
acontecimento.
O acônida
não deu a menor atenção. Os lábios se comprimiam com energia e os
olhos continuavam impassíveis. Houve um estalo no alto da parede. O
botão preto pulara para fora!
O
transmissor agora estava sendo manobrado pela central.
Rumpus não
compreendeu de pronto o que representava aquilo.
— Não
fui eu, não, senhor — disse se desculpando.
— Ligue
de novo! — gritou Bellefjord, que sabia o que estava acontecendo. —
Depressa!
Rumpus
levantou o braço e apertou de novo o botão preto.
Tudo isto
não levou mais do que uns dez segundos. Ouviram-se passos no
corredor.
— Tarde
demais! — exclamou Bellefjord, sacando da arma. — Escondam-se nos
cantos e estejam preparados para fazer fogo, esperando, porém, por
minha ordem.
Rumpus
pulou da cadeira como um raio e se postou ao lado do sargento Meister
com a arma na mão e de cara fechada. O acônida estava de mãos para
o alto.
A porta da
sala se abriu com um forte estalo e, sem o menor sinal de medo, cinco
acônidas entraram. Um deles, Bellefjord já conhecia. Os outros
quatro estavam uniformizados e bem armados.
Quando um
dos uniformizados abriu a boca e começou a falar, com um leve
sotaque, a linguagem intergaláctica, Bellefjord sentiu uma espécie
de alívio e de estupefação.
— Os
senhores invadiram este sistema, tornando-se assim passíveis de
castigo. Tenho ordens de prendê-los. Entreguem-nos suas armas.
“Seis
contra três”,
pensou Bellefjord rapidamente. “Mas
só quatro deles estão armados. Já melhora a situação. Mas, quem
sabe, dá para se evitar uma luta armada?”
— Nós
não invadimos nenhum sistema, se o senhor me permite — disse,
abaixando o braço com a arma. — Sua espaçonave foi que rompeu o
envoltório de proteção, abrindo assim uma entrada. Apenas
continuamos voando, é tudo. Também não temos intenção de ficar
aqui. A prisão seria, pois, um ato de injustiça.
— Isto
não sou eu quem vai resolver. Estrangeiros, entreguem suas armas.
— Nunca!
Deixe-nos sair daqui!
O acônida
estava indeciso. Depois achou uma solução.
— Bem,
vou comunicar o ocorrido. Os senhores afirmam e confirmam não
haverem rompido a cúpula de proteção energética?
— Sim!
Parece que
esta declaração os tranqüilizou. Bellefjord procurava entender o
pensamento dos acônidas, enquanto um deles fora enviado não sabia
para onde.
“Provavelmente”,
calculava o major, “a
única preocupação deles é nos manter isolados. Devem estar
pensando que descobrimos um meio de romper seu envoltório de
proteção. Se eu conseguir lhes provar que isto não aconteceu,
certamente vão nos deixar livres. Para eles, realmente, nós pouco
significamos. Não perdem nada com a nossa saída.”
Depois de
dez minutos, voltou o mensageiro. Segredou alguma coisa no ouvido do
chefe dos policiais, que se virou para Bellefjord:
— Damos-lhes
uma hora do seu tempo para deixarem nosso sistema. Os senhores
entraram aqui, realmente, por um mero acaso, como atestam nossos
cientistas. Podem ir agora.
O velho
major tinha ainda muitas perguntas para fazer, mas seu instinto lhe
dizia que qualquer outra atividade, mesmo perguntas, seria arriscada.
Fez um
sinal aos seus companheiros para que guardassem as armas. Não lhes
seriam mais necessárias. Os acônidas eram orgulhosos demais para
querer tirar proveito de um truque menos honesto. Sem nenhuma
complicação, saíram da sala de espera e chegaram até o arco
luminoso, desapareceram no transmissor fictício e, no mesmo
instante, ficaram a cem metros da Kenia.
Cinco
minutos depois, o cruzador leve decolou, rumo à estrela que ficava
bem próxima da brecha do envoltório. Podia-se ver ainda aquele
local de cintilação instável, embora sua coloração não fosse
agora tão diferente do resto do firmamento. A Kenia atravessou a
passagem com velocidade bem reduzida. Notava-se que a fenda se
estreitava cada vez mais.
Quando,
mais tarde, Bellefjord fazia seu relato ao Major Kaligula, soube que
tinha sido transferido para a Lua. É claro que não sabia o motivo
de sua remoção. De qualquer maneira, recebeu a ordem de partir
imediatamente e de se apresentar ao comandante da Frota Lunar. O
sargento Omola fez os cálculos necessários à próxima transição.
Foi com o
coração pesado que Bellefjord olhou o manto azulado que envolvia o
sistema, pensando que sua aventura fora apenas o início de uma ação
muito importante. Fora a introdução para se desvendar um importante
segredo, cujo véu começara a se levantar com a saída da nave
acônida.

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