terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-116 - Duelo Sob o Sol Geminado - K. H. Scheer [Parte 3]

Quando havíamos descido oitenta quilômetros, Alkher deteve a descida do jato espacial. A capital dos antis devia ficar bem adiante. Captamos os primeiros ecos energéticos causados pelo campo defensivo que cobria a cidade.
Fiz um sinal para o piloto. Ao mesmo tempo inclinei o corpo para a esquerda e comprimi a chave mestra de seu traje de combate. O campo defensivo transparente passou a envolver seu corpo. Acionei também meu campo defensivo.
Gucky seguiu meu exemplo. Não disse uma palavra. Havíamos combinado que ele só falaria quando seu sistema goniométrico-parapsicológico mostrasse que nos encontrávamos numa rota errada. Ao que parecia, isso não estava acontecendo.
E nem era de esperar que Cardif tomasse uma rota que não fosse a da cidade. A mesma ainda não recebera nenhum nome. Resolvi chamá-la de Antípolis.
Ainda desenvolvíamos quarenta vezes a velocidade do som. Notei que Brazo tinha de modificar constantemente a posição dos jatos, a fim de conservar o veículo espacial na rota correta. Nossa velocidade era um pouco superior à velocidade de fuga de Thomas. Se não fossem as modificações nos bocais do jato seríamos atirados para o espaço. A gravitação do planeta ainda não podia reter-nos.
Cercados por uma auréola branca e incandescente de massas de gases superaquecidos, corremos velozmente sobre as grandes estepes e florestas. Trakarat era um belo mundo com um céu azul, uma atmosfera agradável e uma distribuição adequada das águas. Seria bom viver por lá.
Era de admirar que os antis não tivessem colonizado todo o planeta. Ao que tudo indicava, a colonização no sentido usual do termo não correspondia às finalidades que tinham em vista. Nossos lógicos haviam chegado à conclusão de que Trakarat era apenas a central de treinamento dos numerosos sacerdotes daquele culto. Parecia ser o centro coordenador que planejava e controlava os acontecimentos.
No horizonte surgiu uma cintilância. Voamos em direção ao sol geminado vermelho, que acabara de nascer sobre Antípolis.
Era um astro estranho. Nunca vira uma estrela geminada de aspecto tão harmonioso. Os dois sóis ficavam muito juntos. A distância entre eles era de apenas algumas semanas-luz. Por isso os dezesseis planetas descreviam órbitas pouco excêntricas em torno deles.
À medida que penetrávamos no envoltório atmosférico e a luz do dia se tornava mais forte, o cintilar das estrelas do centro da Via Láctea, que ficava bem próximo, foi empalidecendo. Mais uma vez estávamos presos a um mundo estranho, mas desta feita perigos sem conta nos aguardavam.
Por alguns segundos ouviu-se o uivo do sistema de propulsão, regulado para o empuxo máximo. Brazo trabalhou com uma potência de 2.500 megawatts. O sistema de absorção de pressão neutralizou as energias produzidas pela inércia.
Quando passamos a descer em mergulho — Gucky acabara de fazer sinal para isso — só desenvolvíamos duas vezes a velocidade do som. Talvez fosse um pouco mais ou um pouco menos, pois até então ninguém se dera ao trabalho de medir a velocidade do som na atmosfera de Trakarat. O que nos interessava era o fato de ser o ar perfeitamente respirável.
Contrariando o que fora combinado, Bell chamou de repente pelo rádio da Ironduke. Seu rosto surgiu na tela.
Cuidado — disse numa calma tão grande que até parecia que estávamos sentados frente a frente. — Um foguete pesado acaba de romper o campo. Explodiu na cidade.
Qual foi a potência energética da carga explosiva? — perguntei em tom preocupado.
Só cinqüenta toneladas. Mas a geração de calor não deve ser nada desprezível. O campo defensivo está balançando. Usamos os canhões de radiações. Tenham muito cuidado. Nos pontos de contato a terra está fervendo. Acontece que os antis ainda permanecem em silêncio. Quais são as instruções? Que tal um ataque maciço com as tropas de desembarque? A cidade está madura para o assalto.
Ainda não. Aguarde mais um pouco. Virei-me para Gucky, que estava recostado na sua poltrona, com os olhos fechados.
Onde está o aparelho?
Os ecos são nítidos e muito fortes. Está descendo. Prepara-se para pousar.
Bell ouvira estas palavras. Apressei-me em dizer.
Nós o seguiremos. Continue a atirar. Utilize cargas químicas. Os antis já dão sinais de fraqueza?
Dão sinais evidentes. Estaríamos em condições de destruir o campo defensivo.
Basta rasgá-lo. Bombardeie alguns projetores periféricos. Preciso apenas de uma abertura limitada. Farei a aproximação do lado norte. Desligo.
Brazo deixou que o jato planasse para baixo. Antípolis ainda ficava a cinqüenta quilômetros. Espantei-me com a debilidade das defesas estacionadas na superfície.
A cidade era cercada por quatro fortalezas guarnecidas por canhões, que neste meio tempo haviam sido destruídos. Essas fortalezas não conseguiram destruir uma única espaçonave.
Por que os sacerdotes não haviam transformado o planeta numa grande fortaleza? Provavelmente nunca contaram com a possibilidade de um ataque maciço. O grande envoltório energético seria capaz de resistir ao bombardeio de milhares de espaçonaves, mas não ao fogo das oito mil unidades terranas, cujos comandantes foram bastante hábeis para disparar simultaneamente. Ninguém seria capaz de vencer os pequenos bárbaros da Terra num vôo em formação.
À medida que nos aproximávamos, os traços de luz que desciam do espaço, tornavam-se cada vez mais nítidos. Era uma filigrana de linhas ultra-azuis, esverdeadas e cor-de-rosa. Todas carregavam a morte.
Os disparos dos oficiais de artilharia terranos eram de uma precisão inacreditável. Muito raramente um dos tiros de radiações não atingia a abóbada energética bastante abaulada, para bater no solo bem a seu lado.
Nos pontos desprotegidos surgiam crateras incandescentes, mas estas não produziam emanações radioativas.
Pus-me a refletir. Evidentemente seria tolice supormos que seríamos recebidos de braços abertos. E era claro que ninguém pensaria em abrir o anteparo energético para o imperador de Árcon, apenas porque este enfiara na cabeça a idéia de que deveria prender um criminoso que fugira.
Portanto, deveria enfrentar tanto o mar de incandescência, situado fora da abóbada energética, como o próprio campo defensivo. Seria impossível ultrapassá-lo, a não ser que fosse rasgado.
Naturalmente permitiriam a entrada de Cardif, se bem que minha lógica me dizia que os sacerdotes não se sentiriam muito felizes com a visita. Enquanto Cardif estava em condições de desempenhar o papel de Rhodan, o renegado era muito precioso para os sacerdotes. Mas agora apenas representava um peso para os antis e servia para testemunhar seus atos condenáveis, isso naturalmente se eles já soubessem que descobríramos a fraude.
Um problema após outro surgia pela frente. A faculdade da teleportação de Gucky tornara-se inútil. Teve de fazer um esforço extraordinário para captar os impulsos transmitidos pelo ativador celular.
Nas imediações do lugar em que se encontravam os antis, transformava-se naquilo que sugeria seu aspecto exterior: uma criatura pequena e adorável de esqueleto fraco e poucas forças. Sem as capacidades parapsicológicas valia menos, em potencial de combate, que um menino de escola.
Ainda estava dando os últimos remates ao meu plano de ação, quando aconteceu uma coisa na qual só pensara com uma sensação de vago mal-estar. Afinal, os antis não eram tão tolos como supuséramos. — Cuidado! — gritou Brazo Alkher. Puxou violentamente para trás o manche de impulsos e bateu com o polegar na chave de emergência. O propulsor da nave uivou, mas já era tarde.
Notei duas coisas ao mesmo tempo. Três objetos metálicos pequenos surgiam na tela do equipamento de observação da superfície. E as trilhas energéticas ofuscantes, disparadas pelos mesmos, subiram em nossa direção.
No denso envoltório atmosférico do planeta desenvolviam apenas metade da velocidade da luz, motivo por que vi o lampejo uma fração de segundo antes de sua chegada. Mas antes que meu cérebro pudesse processar a impressão ótica, nosso campo defensivo foi atingido.
Duas descargas passaram por nós sem produzir o menor efeito, mas o terceiro disparo da bateria antiespacial móvel atingiu-nos em cheio.
O jato foi arrancado da rota de subida e girou com tamanha violência em torno de seu eixo que o sistema automático de absorção mal conseguia neutralizar as energias. Fortes solavancos comprimiam nossos corpos contra os cintos de segurança. Ao mesmo tempo ouvi um estrondo sob os pés.
Depois de uma explosão que fez com que a chapa de aço de moléculas concentradas do pavimento se abaulasse na incandescência, o mecanismo do propulsor deixou de funcionar. O manto estava caindo.
Não notamos a fumaça densa que nos envolvia. Os campos defensivos dos trajes de combate produziam o efeito de um fecho hermético. Apesar disso não poderíamos continuar no interior do veículo espacial.
Brazo estava ferido. Fora atingido por um jato de gás, expelido pelo plasma do reator altamente concentrado, que rompera seu campo defensivo individual e produzira queimaduras graves em seu corpo. Vi que seu rosto estava desfigurado pela dor. Mas não houve o menor ruído.
Lá fora as massas de ar deslocadas uivavam. Por ocasião do impacto, ainda nos encontrávamos a uns dez quilômetros de altura.
Sem dizer uma palavra, bati com o punho cerrado na chave que acionava a carga explosiva do mecanismo de ejeção da unidade de comando. O dispositivo ainda estava funcionando. Quando a cabina pressurizada foi arrancada dos suportes, ouviu-se um estalo surdo; depois separou-se do jato que caía e foi atirada para longe.
Ainda nos encontrávamos a três mil metros de altura. O banco energético de reserva foi ligado automaticamente, a fim de abastecer o projetor antigravitacional embutido na cabina. Ou melhor, deveria ter entrado em funcionamento automaticamente.
Mas não houve nada disso. Só quando atingimos a altitude de mil metros, Brazo fez explodir a cobertura da cabina e ativou o mecanismo de ignição dos assentos ejetáveis. Mais uma vez fomos atirados para fora dos destroços, mas desta vez não havia nenhum sistema de absorção que reduzisse o choque produzido pela aceleração.
Fui comprimido tão fortemente no meu assento que o ar foi expelido à força dos pulmões. Enquanto me encontrava no ar, olhei em torno. Gucky e Alkher haviam saído sãos e salvos da cabina de comando. O jato espacial bateu no solo bem ao longe. Desfez-se numa explosão atômica cuja onda de compressão atirou para longe as baterias antiespaciais, que agora eram bem perceptíveis.
Retirei os cintos de segurança, liguei o mecanismo de vôo do meu traje de combate e deixei que o dispositivo automático cuidasse do resto.
O campo antigravitacional que se formou amorteceu a queda. A poltrona continuou a cair, até sair do meu campo de visão.
Gucky e Brazo estavam pouco atrás de mim. O sistema de absorção neutralizava a gravitação planetária, que nas proximidades do equador chegava a cerca de 1,08 G.
Fiz um sinal com a mão. Se tentasse o contato pelo rádio, provavelmente haveria interferências. O campo energético dos antis, que estava sendo destruído pelo bombardeio, não se encontrava muito longe.
Descemos à superfície. Meus pés tocaram o chão numa floresta densa. Brazo e o rato-castor seguiram-me.
Aproximei-me do jovem oficial. Este desligou seu campo defensivo individual, e depois disso passei a examinar seus ferimentos. O aspecto do quadril direito não era nada agradável. As queimaduras eram mais graves do que supusera. Brazo gemia.
Gucky esforçou-se em vão para detectar os impulsos cerebrais das inteligências que porventura se aproximassem.
O antis neutralizam tudo — disse em tom queixoso. — Aqui não serei muito útil, Atlan. O que pode fazer um sujeitinho como eu sem os dons parapsicológicos? Afinal, sou apenas um sujeitinho, não sou?
É um sujeitinho muito querido. Procure localizar o ativador.
Já localizei. Cardif aproxima-se da cidade.
Abri a caixa de ataduras de Brazo, que ficava logo embaixo da mochila. Tirei um medicamento que mitigava a dor. A seringa automática chiou quando seu conteúdo foi injetado sob alta pressão no braço de Brazo.
Tudo bem, meu filho. Daqui a três minutos não sentirá mais nada, mas ficará bastante tonto. Espere aqui mesmo por nós.
Não há motivo para isso, sir.
Ora essa! Seria uma irresponsabilidade levá-lo comigo no estado em que se encontra. Aguarde aqui até que chegue o socorro.
Seus olhos castanhos pareciam implorar.
Já estou melhor, sir. Não sinto mais nada. Poderei ao menos cobrir a retaguarda.
O senhor vai ficar. Isto é uma ordem, tenente!
Gucky voltou a pousar. Subira para examinar a área.
Aproximou-se rapidamente sobre suas pernas curtas.
Localizei o jato de Cardif. Está a uns dois quilômetros ao oeste, numa depressão atravessada por um rio.
Sem dizer uma palavra, liguei o equipamento de vôo de Brazo. Estava tão confuso que mal conseguia orientar-se. Alguns minutos depois, alcançamos, num vôo rápido de pequena altitude, o jato espacial de Cardif. Estava intacto, mas Thomas não se encontrava por lá.
Soltei um suspiro de alívio e coloquei Alkher numa das poltronas anatômicas, depois de abaixar o encosto.
O senhor está proibido de decolar. Entendido? Não saia a voar por aí. Os efeitos do entorpecente que lhe foi aplicado não devem ser subestimados. Sua capacidade de reação está reduzida a um mínimo.
Já estou percebendo, sir — balbuciou com a língua pesada.
Passei a mão por seu rosto. Brazo precisava urgentemente de tratamento médico.
Dali a alguns segundos liguei o rádio potente da pequena nave e chamei a Frota. A Ironduke respondeu imediatamente. Bell estava no aparelho.
Até que enfim — disse em tom de alívio. — Vimos a queda. Onde está?
No jato de Cardif. Ele já deve estar na cidade. Não conseguimos atingi-lo em tempo. Irei para lá com Gucky.
Será que o senhor ficou louco? — gritou Bell, indignado. — Serão caçados que nem coelhos. Já basta que essa gente tem um refém.
Como? Já tem certeza de que Rhodan está aqui?
Há cinco minutos recebi a resposta ao meu ultimato. Os antis solicitam um armistício. Querem um prazo de reflexão. Perry está na cidade. São e salvo.
As últimas palavras foram proferidas em tom muito alegre. Também eu me senti exultante. Tudo estava bem.
Prossiga, Bell.
Pois bem. Eles exigirão muita coisa em troca da libertação de Perry. Não disseram uma única palavra sobre a fraude cometida por Cardif. Qual é sua sugestão?
Desembarque imediatamente uma divisão espacial. Cerque a cidade. Brazo precisa de auxílio. Tome as necessárias providências.
OK. Mais alguma coisa?
Como está a abóbada energética?
Foi rompida em sete pontos. O setor norte está livre. Os antis não poderão reconstituir o campo energético, já que os projetores não estão funcionando. Ande depressa. Receio que tenham em mente algo que ainda não conseguimos descobrir!
Desembarque os homens. Ao que suponho, antes de mais nada querem entrar em contato com Cardif. Talvez esperem que ele lhes possa fornecer informações úteis.
Avise-me imediatamente se houver algum imprevisto. Outra coisa. Informe imediatamente todos os tripulantes da Frota. É bem possível que Cardif volte a fazer uma das suas. Se conseguir colocar em funcionamento as emissoras locais, com o auxílio dos antis, suas mensagens serão captadas em qualquer lugar. Talvez pense em caluniar o senhor, a mim e todo o estado-maior. Se os soldados chegarem a acreditar que iniciamos uma revolta não gostarei de cair nas mãos deles. Tenha cuidado, Bell. Não subestime nem Cardif nem os antis. A trégua não foi solicitada em vão. Assim que eu der o sinal, abra fogo cerrado contra o hemisfério sul daquilo que resta do campo energético. Não desvie o fogo para o norte. Gucky e eu penetraremos na cidade por lá. Entendido?
Bell resmungou. Desliguei. Brazo ainda estava acordado.
Alkher, será que o senhor é capaz de exercer a função de estação retransmissora das mensagens que venham a ser recebidas? Receio que meu rádio de pulso não alcance a Frota.
OK, sir. Confie em mim. Ergueu-se. Havia uma expressão dura em seu rosto estreito.
Eram homens de verdade! Mais uma vez desejei ter alguns milhões deles sob o meu comando. Mas não havia tempo para pensar nisso. Gucky e eu nos preparamos.
As novas armas versáteis haviam sido perdidas na queda do jato espacial, motivo por que dependíamos das armas normais. Ou melhor, Gucky teria de aproveitar da melhor forma a sua arma.
Eu mesmo não trazia nenhuma arma de impulsos no coldre. Antes da partida, Mercant me dera uma arma portátil que era considerada a criação mais recente dos engenheiros terranos, antes que surgissem as armas energéticas.
Tratava-se de uma pistola automática russa calibre 7,63 milímetros. A pistola Tpeff disparava pequenos projéteis-foguete, cuja força de impacto chegava a 836 quilogramas por metro. No magasin duplo cabiam dezoito projéteis capazes de romper blindagens.
A arma era regulável para a utilização da carga explosiva ou do projétil comum.

Há três minutos a Ironduke e os supercouraçados Barbarossa e Drusus tinham iniciado o fogo concentrado. Tratava-se do tiro pontual mais preciso que já vira. Mesmo ao tempo em que fora almirante e chefe de um grupo da frota arcônida, julgaria impossível tamanha centralização do fogo.
Os supergigantes atacavam a metade sul do campo abobadado apenas com canhões de efeito térmico. A Ironduke utilizava canhões de ultra-som, cujas vibrações destruidoras de células, de alta freqüência, vez por outra já rompiam o campo dos antis, provocando um estado de profunda desorientação entre os sacerdotes.
Antes que surgisse o bombardeio vindo das profundezas do espaço, recebera novas notícias.
Ao que parecia, o chefe dos sacerdotes de Trakarat não tinha nome específico. Era chamado de Grande Baalol. Procurara retardar a ação dos dirigentes da frota terrana. Provavelmente planejava alguma coisa que afinal só poderia prejudicar-nos. Ao que tudo indicava, Rhodan realmente se encontrava nesse mundo central, o que não constituía nenhuma surpresa para mim. Tudo indicava que estivesse. Neste ponto, o procedimento dos antis fora tão lógico que seria fácil de adivinhar.
O estado de guerra declarado voltara a reinar. Uma das conseqüências do bombardeio cerrado seria fatalmente a ameaça de fazer algum mal a Perry Rhodan.
Estava na hora de agir!
Gucky e eu planamos a quinhentos metros de altitude, acima do anel externo norte. Os projetores enterrados no chão haviam sido destruídos. Nem se poderia pensar num reparo rápido. Apesar disso grande parte do campo energético continuava de pé.
Não podíamos descer mais, pois, nos pontos de impacto, o terreno brilhava numa incandescência vermelha. Vez por outra viam-se crateras que atiravam bolhas. Delas saíam vapores venenosos e perigosas ondas de calor.
Uma tempestade começou a rugir. Tínhamos de esforçar-nos para continuar no ar. Pouco antes do ataque de Bell, a calma reinara na cidade. Vimos muitos seres inteligentes que, pelo aspecto exterior, poderiam perfeitamente ser humanos ou arcônidas.
Quando o primeiro disparo atingiu a cidade, notamos os primeiros sinais de pânico.
Agora, que alguns minutos se tinham passado, muitos antis corriam totalmente desorientados pelas ruas largas da cidade suntuosa. Muitas das construções típicas em forma de pirâmide haviam desmoronado. No local em que explodira o primeiro foguete, continuava a lavrar um incêndio de grandes proporções.
Nestas condições não era de admirar que a influência paramecânica exercida pelos antis diminuísse. Provavelmente muitos deles tinham outra coisa a fazer que ficar parados no mesmo lugar e unir seus dons espirituais aos dos outros antis. Só assim se explicaria uma paracarga tão intensa do campo energético abobadado.
Esperei mais um pouco e chamei Gucky. Apesar do dispositivo de visualização ótica mal conseguia vê-lo, uma vez que tinha ligado o campo defletor do traje de combate. Aos olhos normais, deveríamos ser invisíveis. Ao que supunha, as faculdades dos sacerdotes de Baalol não seriam capazes de sobrepor-se aos efeitos puramente mecânicos. Tudo indicava que realmente não estávamos sendo vistos.
Naquele momento não tinha condições de descobrir se a mesma coisa acontecia com os instrumentos de localização que deveriam estar presentes. Por certo nossa presença não fora detectada, pois, do contrário, não estaríamos mais vivos. Dificilmente poderia haver prova melhor.
Voamos rapidamente através da larga fenda que se abrira no campo energético. À nossa direita e à nossa esquerda surgiam cogumelos ofuscantes, produzidos pelas descargas do campo.
Pousamos na cobertura plana de um edifício. Lá embaixo reinava o caos. Os antis gritavam uns para os outros, enquanto alguns procuravam abandonar a cidade em seus veículos achatados.
Estão brigando — gritou Gucky. — Para nós, é a melhor coisa que poderia acontecer.
Estava com a razão. Notavam-se perfeitamente os sinais de sérias divergências. Vez por outra via grupos que entravam em luta.
Os antis também eram seres vivos dotados do instinto de conservação. Seria estranho caso não se revoltassem contra o destino, que, vindo do espaço, desabava sobre eles.
As camadas dirigentes por certo se encontravam há horas em abrigos subterrâneos relativamente seguros. Estas observações eram secundárias. O que realmente importava era apenas Thomas Cardif.
Até aqui, Gucky conseguira acompanhá-lo muito bem. Embora seus dons parapsicológicos se tivessem apagado, ainda estava em condições de detectar os estranhos impulsos energéticos do ativador celular. Disse que os mesmos soavam como um canto distante, abafado vez por outra por uma forte gargalhada.
Desconfiei de que aquilo representava o início do último estágio. Naquela altura Cardif devia sentir-se desesperado, ainda mais que os antis tinham certeza de que sua atuação no papel de Perry Rhodan chegara ao fim.
Será que ainda valia alguma coisa? O que estariam dispostos a arriscar por ele?
Nada! — disse o setor lógico de minha mente. — É possível que façam mais uma tentativa com ele. Se a experiência falhar, eles o abandonarão.
Pessoalmente era da mesma opinião. Restava saber o que procurariam conseguir por intermédio de Cardif. Por enquanto não estava acontecendo nada. Gucky podia prosseguir no seu caminho. Encontrava-se no centro da cidade.
Continuamos nosso vôo. A pequena criatura segurara minha mão para orientar a rota. O dispositivo antigravitacional, que neutralizava nosso peso, funcionava perfeitamente. Só quando éramos atingidos pelas ondas de pressão, havia problemas.
Passamos por cima de edifícios em chamas. Acima de nós soava um rugido ininterrupto. Mais ao sul, a uns nove ou dez quilômetros, continuavam os impactos energéticos dos supercouraçados. Até nós sentimos as hiperondas produzidas pelos outros canhões.
O rato-castor falava pouco. Parou acima de uma grande área aberta, cercada de parques e de belos edifícios. Desta vez pousamos na cobertura redonda de uma construção abobadada muito grande.
Está bem embaixo de nós! — gritou Gucky. — Provavelmente está sendo recebido pelos antis, mas quanto a isto não tenho muita certeza. Apenas sinto as emanações do aparelho.
Era quanto bastava! Olhei para baixo. Na grande praça não havia quase ninguém. Bell não transmitiu outras notícias. Será que os dirigentes do culto de Baalol ainda confiavam no campo energético semidestruído? Será que esperavam que Perry Rhodan — ou Thomas Cardif — lhes proporcionasse um milagre? Comecei a inquietar-me.
Agora podemos pegá-lo — gritou Gucky, em tom impaciente.
Via apenas os contornos dele. Os campos defletores eram excelentes.
Não; não é isso que importa. Só atacaremos quando estiver perto de Rhodan.
Será que vão levá-lo para junto de Perry?
É muito provável que sim.
O que pretende fazer?
Expliquei em poucas palavras. Tudo dependia de não sermos descobertos e de acompanharmos a pista de Cardif. Lá embaixo vários veículos cheios de pessoas uniformizadas atravessavam a praça. Então esses cavalheiros do perigoso culto de Baalol também tinham seus soldados! Mas era possível que fossem policiais. Não podia dizer com certeza.
Havia outra descoberta muito mais importante: aqueles homens armados não traziam campos defensivos individuais. Senti-me espantado. Logo comecei a refletir.
A solução encontrada foi simples e convincente. Trakarat era o mundo central dos antis. Aqui não estavam sujeitos a perigos ou incômodos... até que nós surgíssemos do hiperespaço.
Por isso não julgaram necessário equipar a população permanente com projetores individuais. Além de supérflua, tal medida teria sido muito dispendiosa.
Apesar disso os personagens mais importantes poderiam dispor desses aparelhos. Nunca seria demais andar vigilante.
Examinamos o equipamento dos trajes de combate nada elegantes. Nas condições gravitacionais reinantes na Terra seu peso era pouco superior a cem quilos. O equipamento de absorção gravitacional, embutido nos mesmos, tinha de ser regulado de maneira a garantir-nos alguma mobilidade. Se esse equipamento falhasse estaríamos indefesos.
OK — gritei para Gucky.
O ribombar dos impactos energéticos tornara-se ainda mais forte. Mal conseguíamos comunicar-nos. Uma tormenta atômica desabou sobre a parte sul da abóbada energética. Não gostaria de estar por lá.
Massas escuras surgiram nas ruas que levavam para o sul. Eram fugitivos que procuravam colocar-se em segurança em outras partes da cidade.
Carros velozes, cheios de homens armados, dirigiam-se para o norte. Isso provava que os antis sabiam raciocinar logicamente.
O fogo concentrado levava a certas conclusões. Ao que parecia, contava-se com um ataque vindo do norte.
Chamei Brazo Alkher, que respondeu imediatamente. As interferências eram tão fortes que mal consegui comunicar-me.
Brazo, transmita uma mensagem à nave capitania. A operação pode ser iniciada. Diga-lhes que devem prosseguir no bombardeio.
Entendido.
Desliguei. Fizera tudo que poderia ser feito. Tudo levava a crer que os antis não haviam localizado nem Gucky nem a mim. Provavelmente nem pensavam na possibilidade de que dois estranhos poderiam atrever-se, sem qualquer proteção militar, a penetrar na cidade.
Cardif começou a deslocar-se! — gritou Gucky.
Já estava na hora.
Passamos cautelosamente por cima da cobertura abaulada, contornamos algumas antenas altas e descemos à superfície.
Gucky segurava meu pé esquerdo. Procurei encontrar uma entrada. Em certas partes as paredes estavam rachadas. Não foi difícil encontrar uma abertura na altura do pavimento térreo. Penetramos num pavilhão suntuoso, do qual subiam vários elevadores antigravitacionais.
O rugido dos impactos energéticos tornou-se mais suave. Isso fazia bem aos ouvidos.
Abriguei-me atrás de uma coluna sextavada feita de material fluorescente e puxei o pequeno Gucky para perto.
Voe na frente — disse em voz baixa. — Lá adiante há gente. Tenha cuidado! Consegue localizar o ativador?
Melhor que antes. Cardif está descendo.
O quê? Vai para os subterrâneos? Será que os mesmos existem por aqui?
Está descendo. Acredite em mim.
A situação começava a tornar-se ainda mais problemática. Se naquele edifício havia abrigos subterrâneos, dificilmente seria possível penetrar no prédio sem ser notado. Até mesmo um campo de deflexão tinha sua limitação. Ainda éramos invisíveis, mas até quando?
Gucky saiu voando. Atingimos um elevador antigravitacional e assumimos o risco de entrar. Enquanto descíamos só nos encontramos com um único anti, vindo de um poço secundário. O mesmo também estava descendo.
Vimos diante de nós um pavilhão de eclusas. Mantivemo-nos atrás do homem uniformizado que estava armado com um radiador energético, mas não usava nenhum campo defensivo individual.
Gucky puxou a manga do meu uniforme. Esperamos que as escotilhas blindadas se abrissem e entramos juntamente com o desconhecido. Atrás das escotilhas vimos um quadro apavorante. Milhares de antis, todos eles em trajes amplos e ondeantes, estavam agachados e olhavam para as paredes.
Mais adiante havia outro pavilhão. Vimos outra massa de homens vestidos de amarelo. Compreendi que se tratava do exército psicológico dos sacerdotes. Cabia-lhes reforçar o campo defensivo por meio de suas energias mentais.
Por enquanto continuavam firmes. Caminhei cautelosamente e olhei o rosto de um dos homens bem de perto. Estava tenso, com a boca contorcida e coberto de suor.
Já sabia o que queria!
As energias paramecânicas daquelas criaturas medonhas estavam chegando ao fim. Não se poderia mesmo esperar de qualquer ser vivo que rechaçasse por horas a fio o bombardeio nuclear despejado por milhares de peças de artilharia. Em dado momento deveriam atingir o limite de suas forças.
Gucky fez um sinal. Apenas vi uma sombra fugaz. Retirei-me de perto do exército silencioso.
Vamos depressa! Cardif está descendo mais. Sinto dores.
Dores? Por quê?
As vibrações do ativador estão ficando muito fortes, E constantemente ouço aquela gargalhada. Aquilo que habita Peregrino costumava rir assim. Isso dói.
O homem de uniforme já chegara à outra extremidade do pavilhão. Saltamos atrás dele. Avistamos outra eclusa, que atravessamos com a maior facilidade. As escotilhas abriram-se e fecharam-se muito devagar. Tivemos tempo de sobra.
O segundo poço de elevador possuía uma caçamba movida por meios mecânicos. Ao que parecia, estávamos nos aproximando da central subterrânea. Qualquer povo da Via Láctea prefere não montar aparelhos muito sofisticados nos lugares em que os riscos são maiores. Se as unidades energéticas falhassem, um poço antigravitacional não serviria para nada. Mas uma caçamba pendurada a cabos ou presa a uma engrenagem ainda poderia ser movida com uma pequena unidade energética de emergência. Um motor elétrico só consome uma fração da energia que se torna necessária ao funcionamento de um elevador antigravitacional.
As portas gradeadas abriram-se. O homem armado que caminhava à nossa frente parecia ser um oficial. Estava com pressa.
Conseguiu entrar no elevador, mas lá dentro Gucky esbarrou nele. Com isso, o jogo de esconder chegara ao fim. Agi imediatamente.
O anti estremeceu. Olhou em torno, muito assustado, mas logo encostei o braço em sua garganta. Puxei aquele homem alto para trás. As mãos do anti subiram, à busca de apoio.
Encostei o cano da pistola em seu corpo. Antes disso desliguei meu campo defensivo individual. Usei a língua arcônida antiga, que era o acônida, idioma usado em Trakarat.
Que tal se morresse agora? — cochichei ao seu ouvido.
O elevador começou a descer.
Seus movimentos defensivos cessaram. Compreendera! E, ao que parecia, dera-se conta logo de que um ser invisível nem sempre é um fantasma. Provavelmente conhecia os campos defletores arcônidas.
Afrouxei a pressão na garganta. O oficial respirou apressadamente.
Seja razoável. Não estou interessado no senhor.
Deixei-o respirar ainda mais à vontade, e o homem ergueu-se um pouco. Gucky tirou a arma energética que o anti trazia no cinto. Não gostei disso. Numa situação como essa, um oficial desarmado poderia despertar a atenção dos demais.
O que desejam? — perguntou com uma calma espantosa. Nem sequer olhou para trás.
Por aqui há um terrano chamado Thomas Cardif. Quero encontrá-lo. É só. Caminhe à minha frente e abra as portas.
Não sei onde poderá encontrá-lo.
Pouco importa. Não se esqueça da arma que trago na mão. Não hesitarei em usá-la.
É claro que não — disse, sem fazer qualquer tentativa de melhorar sua situação.
Aquele anti sabia pensar. Dois seres invisíveis sempre possuíam certa superioridade... mesmo que dali a pouco fossem descobertos!
O elevador parou. Mais uma vez encostei o cano da arma no anti.
O funcionamento desta arma é silencioso — menti. — Além disso o senhor não deve esquecer que há dezoito mil espaçonaves nos céus de Trakarat. A esta hora já deve compreender que o senhor fará um grande bem se contribuir para esclarecer a situação. Nem terá necessidade de pedir licença ao Grande Baalol.
Desta vez perdeu o autocontrole. Olhou rapidamente para trás. Parecia confuso. Ao que parecia, só agora estava compreendendo a gravidade da situação.
Caminhou à nossa frente. Entramos numa central de comando recheada de equipamentos técnicos. Havia umas cinqüenta pessoas uniformizadas. Gucky segurou meu cinto e caminhou atrás de mim.
Vamos para a direita — cochichou. — Estou captando perfeitamente os sinais.
Transmiti a instrução ao anti. Este hesitou um pouco e logo depois atravessou uma passagem em arco.
Alguém chamou-o. Esquivou-se com algumas palavras indiferentes. Peguei seu braço e puxei-o para baixo, para que o coldre da arma ficasse coberto pela mão.
Atravessamos a sala sem que ninguém nos perturbasse. Vez por outra, Gucky soltava um gemido. Cardif devia estar muito perto.
Um corredor abobadado abriu-se à nossa frente. Ouvimos o zumbido de máquinas. Mais adiante começava uma escada. No degrau superior vi uma guarita com dois guardas uniformizados.
O senhor pode atravessar a barreira? Diga logo!
Não.
Apesar disso tentei. Um dos oficiais saiu da guarita. Chamou o homem que ia à nossa frente. Paramos.
Cardif está bem perto. Há gente com ele. Agora estou sentindo — cochichou Gucky.
Pus a mão no cinto e tirei um cartucho pressurizado com gás anestésico de ação rápida. A situação começava a tornar-se perigosa. O outro anti também saiu da guarita. O oficial que ia à nossa frente manteve-se imóvel no meio do corredor. Não poderia deixar de sentir a pressão de minha arma.
Aonde vai? — perguntou o outro oficial, em tom áspero.
Parecia que já estava desconfiando. Naquele instante apertei o fecho da válvula e a cápsula foi projetada para a frente. Dali a três segundos afastei o anti e liguei meu campo defensivo individual. A ação do gás era muito rápida.
Com mais dois saltos coloquei-me ao lado de Gucky. Peguei-o pelo braço e arrastei-o para a frente. Nosso auxiliar involuntário não teve tempo de fornecer explicações. Caiu ao chão juntamente com os dois soldados.
Descemos correndo pela escada. Não encontramos outras sentinelas.
De repente ouvimos vozes. Distinguia-se perfeitamente a voz rouca de Cardif. Gritou alguma coisa que não entendi.
Passamos por uma curva e avistamos uma sala redonda de teto abobadado. Vários antis trajados de amarelo encontravam-se à frente do corpo monstruoso de Cardif. Não havia o menor traço de compaixão em seus olhares.
...conseguirei convencê-lo disso -disse o criminoso naquele momento. Segurava o pescoço com ambas as mãos. Provavelmente sentia falta de ar.
Gucky e eu retiramo-nos para um canto, embaixo da escada. Teríamos de aguardar mais um pouco.
O senhor falhou — disse um anti de estatura alta, que trajava um robe violeta com símbolos coloridos. — Achamos impossível que seu pai concorde mais uma vez com sua idéia. Quais são suas possibilidades de exercer alguma influência sobre os tripulantes das espaçonaves terranas?
Vocês não permitiram que eu usasse seus transmissores — queixou-se Cardif. — Ainda poderia tê-los convencido.
Não é verdade. Captamos uma mensagem dirigida a todos os comandantes e tripulantes. A esta hora todos já sabem que o senhor não é Perry Rhodan. Faça outra proposta. Não podemos perder tempo. O campo defensivo está desmoronando.
Contei cinco antis, que provavelmente pertenciam à camada dirigente desse mundo.
Três deles estavam uniformizados e armados. Tentei refletir friamente sobre a situação.
Aqueles cinco homens influentes usavam campos protetores individuais, que no momento não estavam ligados. Os soldados ou policiais — ainda não descobrira a qual das duas classes pertenciam — haviam ativado seus aparelhos. Como naquele momento não se sentissem ameaçados, os campos individuais não traziam nenhuma carga mental. Por isso não poderiam ser rompidos pelos projéteis de minha arma. A arma térmica de Gucky era um exemplar pequeno fabricado especialmente para ele. Não podia lidar com as armas comuns, em virtude do peso e do tamanho das mesmas. Na minha opinião seria impossível que, com a pistola do rato-castor, conseguisse romper os potentes campos defensivos individuais dos antis.
Se as coisas começassem a ficar sérias, teríamos de levar os antis a realizar modificações estruturais parapsicológicas. Só depois disso seriam vulneráveis aos projéteis antimagnéticos de minha arma.
A hora para isso ainda não chegara, muito embora esperasse que a qualquer momento fosse dado o alarma. Os três homens inconscientes não demorariam a ser encontrados. Era impossível que isso não acontecesse.
Cardif começou a implorar com a voz chorosa. Notei que, de cada vez que falava, dava um passo cambaleante para trás. Quando isso acontecia, arregalava os olhos numa expressão de pavor, como se tivesse visto uma coisa terrível.
Gucky cochichou ao meu ouvido que nesses momentos soavam as gargalhadas do Ser de Peregrino. Aquilo parecia acompanhar os acontecimentos na condição de espectador invisível.
Dentro de vinte minutos, tempo padrão, termina o prazo do ultimato — disse outro sacerdote.
Falarei com ele — gritou Cardif, em tom de desespero. — Levem-me para onde está. Colocá-lo-ei diante do aparelho de telecomunicação mais próximo. Os oficiais terranos obedecerão às suas ordens. Não se esqueçam de que sua vida está em jogo.
A nossa também — observou o Grande Baalol em tom frio.
Supus que aquele velho era o chefe do governo local.
Poderemos chegar a um acordo. Convencerei Rhodan de que será inútil destruir Trakarat. Poderemos enganá-lo mais uma vez.
Como?
Finalmente Cardif disse as palavras que, segundo parecia, já preparara durante a fuga. Só pensava em sua vida e saúde.
Tentem remover o ativador do meu peito. Coloquem outro aparelho em Rhodan; pode ser um dos vinte que foram roubados. O ativador provocará imediatamente uma reação idêntica ao meu, já que todos os aparelhos estão sujeitos a um controle paralelo. Uma vez removido o aparelho, voltarei ao normal. Por outro lado, Rhodan deverá apresentar sinais de deformação ou coisa que o valha. Só se trata de ganhar um pouco de tempo. Eu preciso recuperar a saúde, e ele terá de fazer coisas que o comprometam. Se isso acontecer, não terei a menor dificuldade em voltar a desempenhar o papel de Perry Rhodan. Quem acreditaria em sua identidade se, de repente, ele apresentasse alguma anomalia, enquanto eu me apresentasse sob meu aspecto normal?
Era um plano simples e por isso mesmo genial. A maldade profunda daquele homem me fez estremecer. Nunca dizia “meu pai”, apenas se referia a Perry Rhodan.
O plano de Cardif teria o êxito garantido, desde que fossem preenchidas três condições: Primeiro, os sacerdotes deviam ser capazes de remover o ativador que se encontrava em seu corpo. Além disso, Rhodan teria de esboçar alguma reação que o comprometesse. Naquele momento Cardif ainda não pensava no terceiro ponto, que era eu.
Mas quando encontrassem os homens inconscientes, seria eu quem correria perigo!
No momento em que minhas reflexões chegaram a este ponto, soou o alarma. Para mim, apesar de tudo, representou um alívio. Era martirizante esperá-lo a cada segundo que passava.
Mantivemo-nos imóveis. Os dirigentes antis pediam explicações em tom exaltado. Um dos três homens uniformizados subiu a escada correndo, quando já estava sendo interpelado em altas vozes por quem se encontrava em cima.
Depois disso o oficial voltou. Parecia ter compreendido a situação.
Liguem seus campos defensivos! — gritou. — Alguém entrou sem ninguém perceber.
Vi o sacerdote mover as mãos. Agora todos estavam protegidos, mas eu ainda não sabia onde devia procurar Rhodan. Dois homens apareceram na escada. Carregavam um aparelho de aspecto perigoso.
É um localizador de campos defletores — disse Gucky. — Estão desconfiando de alguma coisa. E agora?
A resposta foi dada por Cardif. Vi-o sair a passos combaleantes e abrir uma porta que ficava do lado oposto da sala. Os cinco antis seguiram-no. Os soldados ficaram encostados à parede, de armas na mão.
Não se via mais nada de Cardif. Ouvi uma discussão violenta. Mas ao que parecia, ele conseguia impor-se.
Vamos voar para lá. Depressa!
Gucky compreendeu. Ativei o equipamento de vôo e, planando junto ao chão, dirigi-me à porta.
Chegamos sãos e salvos. Isso aconteceu no momento em que os homens colocavam o aparelho de localização no chão. A escada foi bloqueada por outros soldados.
Não hesitei mais. Pouco importava que nos detectassem.
Gucky preparou-se para saltar quando abri a porta. No mesmo instante soaram os gritos de advertência.
Entramos e fechei a porta com o pé, olhei em torno e levantei a arma.
Nos fundos da sala via-se um homem magro e alto de olhos cinzentos, com um sorriso irônico nos lábios. Cardif cambaleou em sua direção.
No momento em que levantei a pistola Cardif estava prestes a disparar. Ouvi o grito de pavor dos sacerdotes que pareciam desconfiar das intenções do criminoso.
Atirei uma fração de segundo antes dele. A pistola automática produziu uma pancada aguda. Seguiram-se algumas línguas de fogo que, orientadas pelos gases do disparo, foram encaminhadas na direção do tiro.
Na luminosidade perfeitamente reconhecível que saiu de meu campo de deflexão, vi o corpo titânico de Cardif cair ao chão. Seu grito foi abafado pelo ruído provocado pela expansão dos gases.
Fora atingido no braço direito, na altura do ombro. Gemia e contorcia-se no chão. A boca estava desfigurada e os olhos muito arregalados.
Quatro dos antis recuaram até a parede. Só o que trajava o robe violeta mantinha-se bem ereto no centro da sala. Olhou em torno com o rosto indiferente.
Ouviram-se gritos vindos de fora. Não se arriscaram a entrar ou disparar através da porta. Cardif continuava a gritar. O ferimento devia ser muito doloroso.
Quem está aí?
Quando ouvi sua voz, comecei a engolir em seco. Perry estava calmo e controlado, como sempre estivera nos momentos de perigo. Apenas estava com o rosto um pouco tenso.
Gucky chamou-o. Olhei para o lado. Um dos quatro sacerdotes tirara uma pequena arma que trazia nas vestes. Atirei imediatamente. Ele carregara seu campo defensivo individual. Antes que compreendesse que tipo de microcorpo fogoso rompia seu campo defensivo, estava morto. Seu corpo amoleceu e tombou.
O rosto do velho continuou impassível. Olhou para o homem que acabara de ser morto como se aquilo não lhe interessasse.
Vocês estão confundindo uma guerra declarada com um jogo, Grande Baalol — disse em voz alta. — Recomendo-lhe encarecidamente que instrua os homens que se encontram lá fora a guardarem as armas. Vocês perderam a batalha. Tropas terranas acabam de ser desembarcadas. Neste instante, dez mil naves robotizadas estão entrando em posição de ataque. São comandadas pelo regente de Árcon. Se não decidirem logo, este mundo será destruído. Já devem ter notado que, até agora, só bombardeamos seu campo energético.
O velho hesitou. Finalmente passou muito empertigado perto de mim e abriu a porta. Dei alguns saltos e fiquei ao lado de Rhodan, que acabara de pegar a arma energética de Cardif.
Obrigado — limitou-se a dizer. Em poucos segundos o velho restabeleceu a ordem. Voltou, mas a porta continuou aberta. As pessoas que se encontravam do lado de fora chegaram a montar um canhão energético portátil.
Ninguém se interessou por Cardif, que se arrastou pela sala até poder apoiar-se numa parede. Ergueu o corpo até ficar sentado. Desliguei meu defletor. Não adiantaria continuar invisível.
Gucky estava ao lado de Perry. A pequena criatura chorava. Nunca acreditara que um rato-castor pudesse chorar.
Ao que parecia, o Grande Baalol tomara sua decisão.
Suponho que a pessoa que vejo à minha frente seja Sua Majestade, o Imperador Gonozal VIII — principiou.
Parecia não se interessar pelo morto e pelo ferido.
Certo.
Conduza as negociações — cochichou Perry, sem mover os lábios.
Preferiu não olhar para o filho que choramingava.
Um sorriso amável surgiu no rosto do anti. Aquele homem parecia não ter nervos.
Permita que lembre Vossa Majestade de que um ataque fulminante de sua frota também colocará em perigo sua vida.
Sei disso desde o momento em que entrei neste edifício — respondi em tom frio.
Minha arma continuava a ameaçá-lo. Olhava com uma expressão de indiferença para o bocal de formato estranho.
Vossa Majestade não preza muito a própria saúde.
Se ficar retido aqui por mais de duas horas, minhas ordens não poderão ser mais revogadas. Acho que o senhor já conhece a lógica fria do computador-regente.
Tem alguma proposta específica?
Minha proposta é simples. O culto de Baalol será proibido imediatamente em todos os territórios submetidos à soberania do Grande Império. Qualquer violação desta proibição será prontamente punida com a morte. Thomas Cardif será submetido à jurisdição terrana. O administrador e eu seremos libertados.
O que Vossa Majestade nos oferece em troca?
A retirada das frotas unidas. Os prejuízos resultantes da operação ficarão a cargo do tesouro público de Trakarat. O senhor terá que dar-me sua decisão dentro de trinta minutos.
Um oficial entrou. Mostrava sinais evidentes de pânico. No momento em que cochichava alguma coisa ao ouvido do velho, compreendi que a divisão de embarque espacial estava atacando. Antes que o anti pudesse dar qualquer resposta, acrescentei as seguintes palavras:
O senhor não deve aceitar a proposta de Cardif, relativa à remoção do ativador. O comando da frota terrana já foi avisado pelo rádio.
Cardif brindou-me com alguns palavrões. Não lhe dei atenção. O Grande Baalol pôs-se a refletir. Finalmente pediu um prazo de reflexão de dez minutos.
Está bem. Mande que seus soldados se retirem.
No momento em que ia retirar-se, aconteceu uma coisa que ninguém esperara. De repente Cardif voltou a ficar furioso, mas nunca se mostrara tão selvagem como desta vez.
Em nossos cérebros ressoou uma estrondosa gargalhada. Tornou-se tão alta que até tive a impressão de que meu crânio iria arrebentar.
Os antis também a ouviram, embora fosse imperceptível ao ouvido normal.
Cardif levantou-se abruptamente. Depois voltou a cair, contorcendo-se nas placas de pedra polida, soltando gritos terríveis.
Não; isso não! — disse Perry.
O uniforme especial de Cardif começou a rasgar-se no peito. Seus gritos tornaram-
se mais fortes. Seu peito ficou visível, e dele se desprendeu um objeto oval.
Por um instante o mesmo flutuou no ar, muito luminoso. Finalmente deslocou-se lentamente em direção a Perry Rhodan, que segurou fortemente o meu braço. Senti-me fascinado.
A gargalhada parapsicológica cessou.
Em compensação ouvi algumas palavras.
Cardif cometeu um erro. Não deveria mandar regular o aparelho para os impulsos individuais do pai.
Depois disso, a gargalhada voltou a soar.
O ativador bateu no peito de Rhodan, onde ficou grudado, bem perceptível. Por um momento o rosto de Perry ficou desfigurado, mas logo olhou em torno, tranqüilo.
Os gritos de Cardif cessaram abruptamente. Quando me aproximei dele, já estava morto. Fui guardando a arma. Ninguém disse uma palavra. O Grande Baalol estava muito pálido.
Foi um castigo terrível — observei em voz baixa. — Retiro o pedido de extradição.
Os aliados de vocês são muito poderosos — disse o velho. — Concordo com suas condições, mas quero continuar a manter o culto nos mundos que não estejam submetidos à sua soberania.
A proibição também se aplica ao Império Solar — disse Perry Rhodan, intervindo pela primeira vez nas negociações.
O anti respondeu com um aceno de cabeça. Não havia muita coisa a dizer.
Só nesse momento, tive tempo para cumprimentar Rhodan. Ele agradeceu em palavras ligeiras, cuja cordialidade comoveu mais que um longo discurso bem estudado.
Gucky apalpou-o dos pés à cabeça.
Ainda bem — disse em tom satisfeito. — Desta vez é você mesmo. Como foi que conseguiram prendê-lo em Okul?
Seu rosto assumiu uma expressão sombria. Preferiu não olhar para o morto.
Comportei-me como um idiota. A plataforma de pedra desceu. Isso bastou para que eu estivesse perdido. Minha memória foi transferida para Cardif. Com isso ficou habilitado a desempenhar meu papel. Durante seu exílio alcançara maior amadurecimento psíquico. Era igualzinho a mim. Dotado do meu saber, poderia arriscar a sua grande jogada.
Não aprendeu tudo — objetei. — Você se lembra do duelo que travamos no deserto Porta do Inferno?
Rhodan sorriu.
Naturalmente! Até me lembrei dele no momento em que colocaram o capacete hipnótico sobre minha cabeça, no interior da base submarina. Durante a transferência consegui ocultar certas coisas. Cardif foi informado sobre a luta, mas não sobre certos detalhes aparentemente insignificantes, que para outras pessoas podiam ser muito importantes.
Compreendi. Era uma atitude típica de Perry Rhodan. Até mesmo no momento em que o perigo era mais grave, fizera seus planos e chegara a agir.
Lembrou-se do nosso verso da água?
Isso mesmo. Ainda apaguei alguns detalhes do nosso encontro no Museu de Vênus. Pensei numa espada leve, não num gládio. Os dados realmente importantes, necessários ao desempenho do papel que Cardif resolvera assumir, não poderiam ser apagados. Quando chegava a hora da transferência dos mesmos, os antis intervinham imediatamente. Por isso tive de agir com muito cuidado, limitando-me a alguns detalhes ridículos. Escolhi certas coisas que apenas você e eu sabíamos.
Esperava que interrogasse Cardif a este respeito?
Mais ou menos isso. Seu caráter apresentava traços extremamente negativos. Imaginei que conseguiria enganar Bell, Mercant e os outros amigos. Mas pensei que com você isso não seria possível. Além disso, acreditei que surgiriam acontecimentos que fariam com que você ficasse desconfiado.
Pois foi isso mesmo.
Era o que eu imaginava. Você o interrogou sobre os detalhes?
Ele mesmo se traiu. Resolveu falar no museu. Compreendo que agiu assim num estado de pânico. Durante meses fizera tudo para evitar um encontro direto comigo. Quando nos vimos frente a frente, sentiu o perigo que eu representava para ele. Por isso tentou imediatamente convencer-me da identidade, rememorando uma experiência que tivemos no tempo em que começamos a travar conhecimento. Falou numa espada leve. Depois disso cantei o verso da água para ele. Não o conhecia. Com isso fiquei sabendo bastante... Tal fato, aliado ao seu comportamento, representava para mim uma série completa de provas.
Conversamos durante quinze minutos sobre a prisão de Rhodan. De Okul fora levado diretamente para Trakarat, onde lhe fora dispensado um tratamento bem humano.
Não falei sobre seus conflitos íntimos. Imaginava como esse grande homem devia ter sofrido.
Como estão as coisas no sistema solar?
Está na hora de você aparecer por lá. Cardif foi um desastre.
Era o que eu imaginava. Teremos de reparar muita coisas.
O Grande Baalol entrou. Foi seguido por alguns membros da divisão terrana de desembarque espacial. Finalmente apareceu Bell. Quando viu Rhodan, cobriu o rosto com as mãos.

* * *

Dali a uma hora partimos num jato espacial. Rhodan teve uma recepção que eu nunca teria imaginado. O entusiasmo dos homens não tinha limite.
Mandei que a frota robotizada voltasse para casa. Assim que os ânimos esfriaram um pouco, Rhodan concluiu as negociações com o Grande Baalol.
A cidade de Antípolis sofrerá grandes devastações no setor sul. Trakarat era o planeta em que os antepassados dos antis haviam pousado há vinte mil anos.
Depois que os descendentes perceberam suas faculdades, causadas pelo ambiente, preferiram não colonizar aquele mundo. Elaboraram um plano a longo prazo. Um plano de dez mil anos! Os templos construídos em todos os mundos em desenvolvimento da Galáxia atraíram as multidões!
O culto de Baalol se transformara numa potência econômica respeitável, e acabavam de participar do grande jogo da política galáctica, em cujo âmbito Cardif representou o ponto alto.
Mas nesse jogo o plano deles não fora bem-sucedido. Na minha opinião os sacerdotes não representavam mais nenhum perigo. Já conhecíamos seus objetivos e métodos. Dispúnhamos de armas especiais para combatê-los. E os chefes desse estranho povo sabiam disso.
Rhodan informou-nos de que Trakarat era habitado por cento e cinqüenta mil seres inteligentes. O planeta era a sede do treinamento. Uma vez aprovados no exame final, os antis eram enviados aos pontos em que deveriam desenvolver sua ação. Os casamentos eram celebrados somente em Trakarat, e exclusivamente entre seres da mesma raça.
Quando sabemos muita coisa a respeito do inimigo, este deixa de ser perigoso.

* * *

Levamos Thomas Cardif. Depois de um ligeiro culto celebrado pelo capelão de bordo, o cadáver foi entregue ao espaço interestelar. Para mim, aquilo era muito deprimente. Rhodan fez continência como estadista e comandante da frota. Apenas podia imaginar o que pensara como pai. Não falamos sobre isso.
Levou-me ao sistema de Árcon na Ironduke.
Quando nos despedimos sabíamos perfeitamente que a herança desastrosa de Cardif representaria um obstáculo nada fácil.
Rhodan apertou minha mão. Olhei para o peito, onde estava o ativador celular que lhe conservaria a vida. Desde o início destinara-se a ele, e agora acabara de recebê-lo.
Um dia destes terei de chamá-lo — disse em tom de desânimo. — Tome cuidado com esse aparelho. A Galáxia ainda precisa de você. O Império de Árcon precisa de auxílio...
Fitou-me com uma expressão séria. Logo compreendeu.
É só marcar dia e hora, imperador. Quando não souber mais o que fazer, sempre estaremos presentes.
A Ironduke rugiu em direção ao céu. Mais uma vez vi-me só. Rhodan tinha muita coisa a fazer. Quanto a mim, só me restava esperar.




* * *
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Em Frota Espacial Roubada, próximo volume da série, será narrada mais uma surpreendente aventura...

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