Quando
havíamos descido oitenta quilômetros, Alkher deteve a descida do
jato espacial. A capital dos antis devia ficar bem adiante. Captamos
os primeiros ecos energéticos causados pelo campo defensivo que
cobria a cidade.
Fiz um
sinal para o piloto. Ao mesmo tempo inclinei o corpo para a esquerda
e comprimi a chave mestra de seu traje de combate. O campo defensivo
transparente passou a envolver seu corpo. Acionei também meu campo
defensivo.
Gucky
seguiu meu exemplo. Não disse uma palavra. Havíamos combinado que
ele só falaria quando seu sistema goniométrico-parapsicológico
mostrasse que nos encontrávamos numa rota errada. Ao que parecia,
isso não estava acontecendo.
E nem era
de esperar que Cardif tomasse uma rota que não fosse a da cidade. A
mesma ainda não recebera nenhum nome. Resolvi chamá-la de
Antípolis.
Ainda
desenvolvíamos quarenta vezes a velocidade do som. Notei que Brazo
tinha de modificar constantemente a posição dos jatos, a fim de
conservar o veículo espacial na rota correta. Nossa velocidade era
um pouco superior à velocidade de fuga de Thomas. Se não fossem as
modificações nos bocais do jato seríamos atirados para o espaço.
A gravitação do planeta ainda não podia reter-nos.
Cercados
por uma auréola branca e incandescente de massas de gases
superaquecidos, corremos velozmente sobre as grandes estepes e
florestas. Trakarat era um belo mundo com um céu azul, uma atmosfera
agradável e uma distribuição adequada das águas. Seria bom viver
por lá.
Era de
admirar que os antis não tivessem colonizado todo o planeta. Ao que
tudo indicava, a colonização no sentido usual do termo não
correspondia às finalidades que tinham em vista. Nossos lógicos
haviam chegado à conclusão de que Trakarat era apenas a central de
treinamento dos numerosos sacerdotes daquele culto. Parecia ser o
centro coordenador que planejava e controlava os acontecimentos.
No
horizonte surgiu uma cintilância. Voamos em direção ao sol
geminado vermelho, que acabara de nascer sobre Antípolis.
Era um
astro estranho. Nunca vira uma estrela geminada de aspecto tão
harmonioso. Os dois sóis ficavam muito juntos. A distância entre
eles era de apenas algumas semanas-luz. Por isso os dezesseis
planetas descreviam órbitas pouco excêntricas em torno deles.
À medida
que penetrávamos no envoltório atmosférico e a luz do dia se
tornava mais forte, o cintilar das estrelas do centro da Via Láctea,
que ficava bem próximo, foi empalidecendo. Mais uma vez estávamos
presos a um mundo estranho, mas desta feita perigos sem conta nos
aguardavam.
Por alguns
segundos ouviu-se o uivo do sistema de propulsão, regulado para o
empuxo máximo. Brazo trabalhou com uma potência de 2.500 megawatts.
O sistema de absorção de pressão neutralizou as energias
produzidas pela inércia.
Quando
passamos a descer em mergulho — Gucky acabara de fazer sinal para
isso — só desenvolvíamos duas vezes a velocidade do som. Talvez
fosse um pouco mais ou um pouco menos, pois até então ninguém se
dera ao trabalho de medir a velocidade do som na atmosfera de
Trakarat. O que nos interessava era o fato de ser o ar perfeitamente
respirável.
Contrariando
o que fora combinado, Bell chamou de repente pelo rádio da Ironduke.
Seu rosto surgiu na tela.
— Cuidado
— disse numa calma tão grande que até parecia que estávamos
sentados frente a frente. — Um foguete pesado acaba de romper o
campo. Explodiu na cidade.
— Qual
foi a potência energética da carga explosiva? — perguntei em tom
preocupado.
— Só
cinqüenta toneladas. Mas a geração de calor não deve ser nada
desprezível. O campo defensivo está balançando. Usamos os canhões
de radiações. Tenham muito cuidado. Nos pontos de contato a terra
está fervendo. Acontece que os antis ainda permanecem em silêncio.
Quais são as instruções? Que tal um ataque maciço com as tropas
de desembarque? A cidade está madura para o assalto.
— Ainda
não. Aguarde mais um pouco. Virei-me para Gucky, que estava
recostado na sua poltrona, com os olhos fechados.
— Onde
está o aparelho?
— Os
ecos são nítidos e muito fortes. Está descendo. Prepara-se para
pousar.
Bell
ouvira estas palavras. Apressei-me em dizer.
— Nós o
seguiremos. Continue a atirar. Utilize cargas químicas. Os antis já
dão sinais de fraqueza?
— Dão
sinais evidentes. Estaríamos em condições de destruir o campo
defensivo.
— Basta
rasgá-lo. Bombardeie alguns projetores periféricos. Preciso apenas
de uma abertura limitada. Farei a aproximação do lado norte.
Desligo.
Brazo
deixou que o jato planasse para baixo. Antípolis ainda ficava a
cinqüenta quilômetros. Espantei-me com a debilidade das defesas
estacionadas na superfície.
A cidade
era cercada por quatro fortalezas guarnecidas por canhões, que neste
meio tempo haviam sido destruídos. Essas fortalezas não conseguiram
destruir uma única espaçonave.
Por que os
sacerdotes não haviam transformado o planeta numa grande fortaleza?
Provavelmente nunca contaram com a possibilidade de um ataque maciço.
O grande envoltório energético seria capaz de resistir ao
bombardeio de milhares de espaçonaves, mas não ao fogo das oito mil
unidades terranas, cujos comandantes foram bastante hábeis para
disparar simultaneamente. Ninguém seria capaz de vencer os pequenos
bárbaros da Terra num vôo em formação.
À medida
que nos aproximávamos, os traços de luz que desciam do espaço,
tornavam-se cada vez mais nítidos. Era uma filigrana de linhas
ultra-azuis, esverdeadas e cor-de-rosa. Todas carregavam a morte.
Os
disparos dos oficiais de artilharia terranos eram de uma precisão
inacreditável. Muito raramente um dos tiros de radiações não
atingia a abóbada energética bastante abaulada, para bater no solo
bem a seu lado.
Nos pontos
desprotegidos surgiam crateras incandescentes, mas estas não
produziam emanações radioativas.
Pus-me a
refletir. Evidentemente seria tolice supormos que seríamos recebidos
de braços abertos. E era claro que ninguém pensaria em abrir o
anteparo energético para o imperador de Árcon, apenas porque este
enfiara na cabeça a idéia de que deveria prender um criminoso que
fugira.
Portanto,
deveria enfrentar tanto o mar de incandescência, situado fora da
abóbada energética, como o próprio campo defensivo. Seria
impossível ultrapassá-lo, a não ser que fosse rasgado.
Naturalmente
permitiriam a entrada de Cardif, se bem que minha lógica me dizia
que os sacerdotes não se sentiriam muito felizes com a visita.
Enquanto Cardif estava em condições de desempenhar o papel de
Rhodan, o renegado era muito precioso para os sacerdotes. Mas agora
apenas representava um peso para os antis e servia para testemunhar
seus atos condenáveis, isso naturalmente se eles já soubessem que
descobríramos a fraude.
Um
problema após outro surgia pela frente. A faculdade da teleportação
de Gucky tornara-se inútil. Teve de fazer um esforço extraordinário
para captar os impulsos transmitidos pelo ativador celular.
Nas
imediações do lugar em que se encontravam os antis, transformava-se
naquilo que sugeria seu aspecto exterior: uma criatura pequena e
adorável de esqueleto fraco e poucas forças. Sem as capacidades
parapsicológicas valia menos, em potencial de combate, que um menino
de escola.
Ainda
estava dando os últimos remates ao meu plano de ação, quando
aconteceu uma coisa na qual só pensara com uma sensação de vago
mal-estar. Afinal, os antis não eram tão tolos como supuséramos. —
Cuidado! — gritou Brazo Alkher. Puxou violentamente para trás o
manche de impulsos e bateu com o polegar na chave de emergência. O
propulsor da nave uivou, mas já era tarde.
Notei duas
coisas ao mesmo tempo. Três objetos metálicos pequenos surgiam na
tela do equipamento de observação da superfície. E as trilhas
energéticas ofuscantes, disparadas pelos mesmos, subiram em nossa
direção.
No denso
envoltório atmosférico do planeta desenvolviam apenas metade da
velocidade da luz, motivo por que vi o lampejo uma fração de
segundo antes de sua chegada. Mas antes que meu cérebro pudesse
processar a impressão ótica, nosso campo defensivo foi atingido.
Duas
descargas passaram por nós sem produzir o menor efeito, mas o
terceiro disparo da bateria antiespacial móvel atingiu-nos em cheio.
O jato foi
arrancado da rota de subida e girou com tamanha violência em torno
de seu eixo que o sistema automático de absorção mal conseguia
neutralizar as energias. Fortes solavancos comprimiam nossos corpos
contra os cintos de segurança. Ao mesmo tempo ouvi um estrondo sob
os pés.
Depois de
uma explosão que fez com que a chapa de aço de moléculas
concentradas do pavimento se abaulasse na incandescência, o
mecanismo do propulsor deixou de funcionar. O manto estava caindo.
Não
notamos a fumaça densa que nos envolvia. Os campos defensivos dos
trajes de combate produziam o efeito de um fecho hermético. Apesar
disso não poderíamos continuar no interior do veículo espacial.
Brazo
estava ferido. Fora atingido por um jato de gás, expelido pelo
plasma do reator altamente concentrado, que rompera seu campo
defensivo individual e produzira queimaduras graves em seu corpo. Vi
que seu rosto estava desfigurado pela dor. Mas não houve o menor
ruído.
Lá fora
as massas de ar deslocadas uivavam. Por ocasião do impacto, ainda
nos encontrávamos a uns dez quilômetros de altura.
Sem dizer
uma palavra, bati com o punho cerrado na chave que acionava a carga
explosiva do mecanismo de ejeção da unidade de comando. O
dispositivo ainda estava funcionando. Quando a cabina pressurizada
foi arrancada dos suportes, ouviu-se um estalo surdo; depois
separou-se do jato que caía e foi atirada para longe.
Ainda nos
encontrávamos a três mil metros de altura. O banco energético de
reserva foi ligado automaticamente, a fim de abastecer o projetor
antigravitacional embutido na cabina. Ou melhor, deveria ter entrado
em funcionamento automaticamente.
Mas não
houve nada disso. Só quando atingimos a altitude de mil metros,
Brazo fez explodir a cobertura da cabina e ativou o mecanismo de
ignição dos assentos ejetáveis. Mais uma vez fomos atirados para
fora dos destroços, mas desta vez não havia nenhum sistema de
absorção que reduzisse o choque produzido pela aceleração.
Fui
comprimido tão fortemente no meu assento que o ar foi expelido à
força dos pulmões. Enquanto me encontrava no ar, olhei em torno.
Gucky e Alkher haviam saído sãos e salvos da cabina de comando. O
jato espacial bateu no solo bem ao longe. Desfez-se numa explosão
atômica cuja onda de compressão atirou para longe as baterias
antiespaciais, que agora eram bem perceptíveis.
Retirei os
cintos de segurança, liguei o mecanismo de vôo do meu traje de
combate e deixei que o dispositivo automático cuidasse do resto.
O campo
antigravitacional que se formou amorteceu a queda. A poltrona
continuou a cair, até sair do meu campo de visão.
Gucky e
Brazo estavam pouco atrás de mim. O sistema de absorção
neutralizava a gravitação planetária, que nas proximidades do
equador chegava a cerca de 1,08 G.
Fiz um
sinal com a mão. Se tentasse o contato pelo rádio, provavelmente
haveria interferências. O campo energético dos antis, que estava
sendo destruído pelo bombardeio, não se encontrava muito longe.
Descemos à
superfície. Meus pés tocaram o chão numa floresta densa. Brazo e o
rato-castor seguiram-me.
Aproximei-me
do jovem oficial. Este desligou seu campo defensivo individual, e
depois disso passei a examinar seus ferimentos. O aspecto do quadril
direito não era nada agradável. As queimaduras eram mais graves do
que supusera. Brazo gemia.
Gucky
esforçou-se em vão para detectar os impulsos cerebrais das
inteligências que porventura se aproximassem.
— O
antis neutralizam tudo — disse em tom queixoso. — Aqui não serei
muito útil, Atlan. O que pode fazer um sujeitinho como eu sem os
dons parapsicológicos? Afinal, sou apenas um sujeitinho, não sou?
— É um
sujeitinho muito querido. Procure localizar o ativador.
— Já
localizei. Cardif aproxima-se da cidade.
Abri a
caixa de ataduras de Brazo, que ficava logo embaixo da mochila. Tirei
um medicamento que mitigava a dor. A seringa automática chiou quando
seu conteúdo foi injetado sob alta pressão no braço de Brazo.
— Tudo
bem, meu filho. Daqui a três minutos não sentirá mais nada, mas
ficará bastante tonto. Espere aqui mesmo por nós.
— Não
há motivo para isso, sir.
— Ora
essa! Seria uma irresponsabilidade levá-lo comigo no estado em que
se encontra. Aguarde aqui até que chegue o socorro.
Seus olhos
castanhos pareciam implorar.
— Já
estou melhor, sir. Não sinto mais nada. Poderei ao menos cobrir a
retaguarda.
— O
senhor vai ficar. Isto é uma ordem, tenente!
Gucky
voltou a pousar. Subira para examinar a área.
Aproximou-se
rapidamente sobre suas pernas curtas.
— Localizei
o jato de Cardif. Está a uns dois quilômetros ao oeste, numa
depressão atravessada por um rio.
Sem dizer
uma palavra, liguei o equipamento de vôo de Brazo. Estava tão
confuso que mal conseguia orientar-se. Alguns minutos depois,
alcançamos, num vôo rápido de pequena altitude, o jato espacial de
Cardif. Estava intacto, mas Thomas não se encontrava por lá.
Soltei um
suspiro de alívio e coloquei Alkher numa das poltronas anatômicas,
depois de abaixar o encosto.
— O
senhor está proibido de decolar. Entendido? Não saia a voar por aí.
Os efeitos do entorpecente que lhe foi aplicado não devem ser
subestimados. Sua capacidade de reação está reduzida a um mínimo.
— Já
estou percebendo, sir — balbuciou com a língua pesada.
Passei a
mão por seu rosto. Brazo precisava urgentemente de tratamento
médico.
Dali a
alguns segundos liguei o rádio potente da pequena nave e chamei a
Frota. A Ironduke respondeu imediatamente. Bell estava no aparelho.
— Até
que enfim — disse em tom de alívio. — Vimos a queda. Onde está?
— No
jato de Cardif. Ele já deve estar na cidade. Não conseguimos
atingi-lo em tempo. Irei para lá com Gucky.
— Será
que o senhor ficou louco? — gritou Bell, indignado. — Serão
caçados que nem coelhos. Já basta que essa gente tem um refém.
— Como?
Já tem certeza de que Rhodan está aqui?
— Há
cinco minutos recebi a resposta ao meu ultimato. Os antis solicitam
um armistício. Querem um prazo de reflexão. Perry está na cidade.
São e salvo.
As últimas
palavras foram proferidas em tom muito alegre. Também eu me senti
exultante. Tudo estava bem.
— Prossiga,
Bell.
— Pois
bem. Eles exigirão muita coisa em troca da libertação de Perry.
Não disseram uma única palavra sobre a fraude cometida por Cardif.
Qual é sua sugestão?
— Desembarque
imediatamente uma divisão espacial. Cerque a cidade. Brazo precisa
de auxílio. Tome as necessárias providências.
— OK.
Mais alguma coisa?
— Como
está a abóbada energética?
— Foi
rompida em sete pontos. O setor norte está livre. Os antis não
poderão reconstituir o campo energético, já que os projetores não
estão funcionando. Ande depressa. Receio que tenham em mente algo
que ainda não conseguimos descobrir!
— Desembarque
os homens. Ao que suponho, antes de mais nada querem entrar em
contato com Cardif. Talvez esperem que ele lhes possa fornecer
informações úteis.
Avise-me
imediatamente se houver algum imprevisto. Outra coisa. Informe
imediatamente todos os tripulantes da Frota. É bem possível que
Cardif volte a fazer uma das suas. Se conseguir colocar em
funcionamento as emissoras locais, com o auxílio dos antis, suas
mensagens serão captadas em qualquer lugar. Talvez pense em caluniar
o senhor, a mim e todo o estado-maior. Se os soldados chegarem a
acreditar que iniciamos uma revolta não gostarei de cair nas mãos
deles. Tenha cuidado, Bell. Não subestime nem Cardif nem os antis. A
trégua não foi solicitada em vão. Assim que eu der o sinal, abra
fogo cerrado contra o hemisfério sul daquilo que resta do campo
energético. Não desvie o fogo para o norte. Gucky e eu penetraremos
na cidade por lá. Entendido?
Bell
resmungou. Desliguei. Brazo ainda estava acordado.
— Alkher,
será que o senhor é capaz de exercer a função de estação
retransmissora das mensagens que venham a ser recebidas? Receio que
meu rádio de pulso não alcance a Frota.
— OK,
sir. Confie em mim. Ergueu-se. Havia uma expressão dura em seu rosto
estreito.
Eram
homens de verdade! Mais uma vez desejei ter alguns milhões deles sob
o meu comando. Mas não havia tempo para pensar nisso. Gucky e eu nos
preparamos.
As novas
armas versáteis haviam sido perdidas na queda do jato espacial,
motivo por que dependíamos das armas normais. Ou melhor, Gucky teria
de aproveitar da melhor forma a sua arma.
Eu mesmo
não trazia nenhuma arma de impulsos no coldre. Antes da partida,
Mercant me dera uma arma portátil que era considerada a criação
mais recente dos engenheiros terranos, antes que surgissem as armas
energéticas.
Tratava-se
de uma pistola automática russa calibre 7,63 milímetros. A pistola
Tpeff
disparava pequenos projéteis-foguete, cuja força de impacto chegava
a 836 quilogramas por metro. No magasin duplo cabiam dezoito
projéteis capazes de romper blindagens.
A arma era
regulável para a utilização da carga explosiva ou do projétil
comum.
Há três
minutos a Ironduke e os supercouraçados Barbarossa e Drusus tinham
iniciado o fogo concentrado. Tratava-se do tiro pontual mais preciso
que já vira. Mesmo ao tempo em que fora almirante e chefe de um
grupo da frota arcônida, julgaria impossível tamanha centralização
do fogo.
Os
supergigantes atacavam a metade sul do campo abobadado apenas com
canhões de efeito térmico. A Ironduke utilizava canhões de
ultra-som, cujas vibrações destruidoras de células, de alta
freqüência, vez por outra já rompiam o campo dos antis, provocando
um estado de profunda desorientação entre os sacerdotes.
Antes que
surgisse o bombardeio vindo das profundezas do espaço, recebera
novas notícias.
Ao que
parecia, o chefe dos sacerdotes de Trakarat não tinha nome
específico. Era chamado de Grande Baalol. Procurara retardar a ação
dos dirigentes da frota terrana. Provavelmente planejava alguma coisa
que afinal só poderia prejudicar-nos. Ao que tudo indicava, Rhodan
realmente se encontrava nesse mundo central, o que não constituía
nenhuma surpresa para mim. Tudo indicava que estivesse. Neste ponto,
o procedimento dos antis fora tão lógico que seria fácil de
adivinhar.
O estado
de guerra declarado voltara a reinar. Uma das conseqüências do
bombardeio cerrado seria fatalmente a ameaça de fazer algum mal a
Perry Rhodan.
Estava na
hora de agir!
Gucky e eu
planamos a quinhentos metros de altitude, acima do anel externo
norte. Os projetores enterrados no chão haviam sido destruídos. Nem
se poderia pensar num reparo rápido. Apesar disso grande parte do
campo energético continuava de pé.
Não
podíamos descer mais, pois, nos pontos de impacto, o terreno
brilhava numa incandescência vermelha. Vez por outra viam-se
crateras que atiravam bolhas. Delas saíam vapores venenosos e
perigosas ondas de calor.
Uma
tempestade começou a rugir. Tínhamos de esforçar-nos para
continuar no ar. Pouco antes do ataque de Bell, a calma reinara na
cidade. Vimos muitos seres inteligentes que, pelo aspecto exterior,
poderiam perfeitamente ser humanos ou arcônidas.
Quando o
primeiro disparo atingiu a cidade, notamos os primeiros sinais de
pânico.
Agora, que
alguns minutos se tinham passado, muitos antis corriam totalmente
desorientados pelas ruas largas da cidade suntuosa. Muitas das
construções típicas em forma de pirâmide haviam desmoronado. No
local em que explodira o primeiro foguete, continuava a lavrar um
incêndio de grandes proporções.
Nestas
condições não era de admirar que a influência paramecânica
exercida pelos antis diminuísse. Provavelmente muitos deles tinham
outra coisa a fazer que ficar parados no mesmo lugar e unir seus dons
espirituais aos dos outros antis. Só assim se explicaria uma
paracarga tão intensa do campo energético abobadado.
Esperei
mais um pouco e chamei Gucky. Apesar do dispositivo de visualização
ótica mal conseguia vê-lo, uma vez que tinha ligado o campo
defletor do traje de combate. Aos olhos normais, deveríamos ser
invisíveis. Ao que supunha, as faculdades dos sacerdotes de Baalol
não seriam capazes de sobrepor-se aos efeitos puramente mecânicos.
Tudo indicava que realmente não estávamos sendo vistos.
Naquele
momento não tinha condições de descobrir se a mesma coisa
acontecia com os instrumentos de localização que deveriam estar
presentes. Por certo nossa presença não fora detectada, pois, do
contrário, não estaríamos mais vivos. Dificilmente poderia haver
prova melhor.
Voamos
rapidamente através da larga fenda que se abrira no campo
energético. À nossa direita e à nossa esquerda surgiam cogumelos
ofuscantes, produzidos pelas descargas do campo.
Pousamos
na cobertura plana de um edifício. Lá embaixo reinava o caos. Os
antis gritavam uns para os outros, enquanto alguns procuravam
abandonar a cidade em seus veículos achatados.
— Estão
brigando — gritou Gucky. — Para nós, é a melhor coisa que
poderia acontecer.
Estava com
a razão. Notavam-se perfeitamente os sinais de sérias divergências.
Vez por outra via grupos que entravam em luta.
Os antis
também eram seres vivos dotados do instinto de conservação. Seria
estranho caso não se revoltassem contra o destino, que, vindo do
espaço, desabava sobre eles.
As camadas
dirigentes por certo se encontravam há horas em abrigos subterrâneos
relativamente seguros. Estas observações eram secundárias. O que
realmente importava era apenas Thomas Cardif.
Até aqui,
Gucky conseguira acompanhá-lo muito bem. Embora seus dons
parapsicológicos se tivessem apagado, ainda estava em condições de
detectar os estranhos impulsos energéticos do ativador celular.
Disse que os mesmos soavam como um canto distante, abafado vez por
outra por uma forte gargalhada.
Desconfiei
de que aquilo representava o início do último estágio. Naquela
altura Cardif devia sentir-se desesperado, ainda mais que os antis
tinham certeza de que sua atuação no papel de Perry Rhodan chegara
ao fim.
Será que
ainda valia alguma coisa? O que estariam dispostos a arriscar por
ele?
— Nada!
— disse o setor lógico de minha mente. — É possível que façam
mais uma tentativa com ele. Se a experiência falhar, eles o
abandonarão.
Pessoalmente
era da mesma opinião. Restava saber o que procurariam conseguir por
intermédio de Cardif. Por enquanto não estava acontecendo nada.
Gucky podia prosseguir no seu caminho. Encontrava-se no centro da
cidade.
Continuamos
nosso vôo. A pequena criatura segurara minha mão para orientar a
rota. O dispositivo antigravitacional, que neutralizava nosso peso,
funcionava perfeitamente. Só quando éramos atingidos pelas ondas de
pressão, havia problemas.
Passamos
por cima de edifícios em chamas. Acima de nós soava um rugido
ininterrupto. Mais ao sul, a uns nove ou dez quilômetros,
continuavam os impactos energéticos dos supercouraçados. Até nós
sentimos as hiperondas produzidas pelos outros canhões.
O
rato-castor falava pouco. Parou acima de uma grande área aberta,
cercada de parques e de belos edifícios. Desta vez pousamos na
cobertura redonda de uma construção abobadada muito grande.
— Está
bem embaixo de nós! — gritou Gucky. — Provavelmente está sendo
recebido pelos antis, mas quanto a isto não tenho muita certeza.
Apenas sinto as emanações do aparelho.
Era quanto
bastava! Olhei para baixo. Na grande praça não havia quase ninguém.
Bell não transmitiu outras notícias. Será que os dirigentes do
culto de Baalol ainda confiavam no campo energético semidestruído?
Será que esperavam que Perry Rhodan — ou Thomas Cardif — lhes
proporcionasse um milagre? Comecei a inquietar-me.
— Agora
podemos pegá-lo — gritou Gucky, em tom impaciente.
Via apenas
os contornos dele. Os campos defletores eram excelentes.
— Não;
não é isso que importa. Só atacaremos quando estiver perto de
Rhodan.
— Será
que vão levá-lo para junto de Perry?
— É
muito provável que sim.
— O que
pretende fazer?
Expliquei
em poucas palavras. Tudo dependia de não sermos descobertos e de
acompanharmos a pista de Cardif. Lá embaixo vários veículos cheios
de pessoas uniformizadas atravessavam a praça. Então esses
cavalheiros do perigoso culto de Baalol também tinham seus soldados!
Mas era possível que fossem policiais. Não podia dizer com certeza.
Havia
outra descoberta muito mais importante: aqueles homens armados não
traziam campos defensivos individuais. Senti-me espantado. Logo
comecei a refletir.
A solução
encontrada foi simples e convincente. Trakarat era o mundo central
dos antis. Aqui não estavam sujeitos a perigos ou incômodos... até
que nós surgíssemos do hiperespaço.
Por isso
não julgaram necessário equipar a população permanente com
projetores individuais. Além de supérflua, tal medida teria sido
muito dispendiosa.
Apesar
disso os personagens mais importantes poderiam dispor desses
aparelhos. Nunca seria demais andar vigilante.
Examinamos
o equipamento dos trajes de combate nada elegantes. Nas condições
gravitacionais reinantes na Terra seu peso era pouco superior a cem
quilos. O equipamento de absorção gravitacional, embutido nos
mesmos, tinha de ser regulado de maneira a garantir-nos alguma
mobilidade. Se esse equipamento falhasse estaríamos indefesos.
— OK —
gritei para Gucky.
O ribombar
dos impactos energéticos tornara-se ainda mais forte. Mal
conseguíamos comunicar-nos. Uma tormenta atômica desabou sobre a
parte sul da abóbada energética. Não gostaria de estar por lá.
Massas
escuras surgiram nas ruas que levavam para o sul. Eram fugitivos que
procuravam colocar-se em segurança em outras partes da cidade.
Carros
velozes, cheios de homens armados, dirigiam-se para o norte. Isso
provava que os antis sabiam raciocinar logicamente.
O fogo
concentrado levava a certas conclusões. Ao que parecia, contava-se
com um ataque vindo do norte.
Chamei
Brazo Alkher, que respondeu imediatamente. As interferências eram
tão fortes que mal consegui comunicar-me.
— Brazo,
transmita uma mensagem à nave capitania. A operação pode ser
iniciada. Diga-lhes que devem prosseguir no bombardeio.
— Entendido.
Desliguei.
Fizera tudo que poderia ser feito. Tudo levava a crer que os antis
não haviam localizado nem Gucky nem a mim. Provavelmente nem
pensavam na possibilidade de que dois estranhos poderiam atrever-se,
sem qualquer proteção militar, a penetrar na cidade.
— Cardif
começou a deslocar-se! — gritou Gucky.
Já estava
na hora.
Passamos
cautelosamente por cima da cobertura abaulada, contornamos algumas
antenas altas e descemos à superfície.
Gucky
segurava meu pé esquerdo. Procurei encontrar uma entrada. Em certas
partes as paredes estavam rachadas. Não foi difícil encontrar uma
abertura na altura do pavimento térreo. Penetramos num pavilhão
suntuoso, do qual subiam vários elevadores antigravitacionais.
O rugido
dos impactos energéticos tornou-se mais suave. Isso fazia bem aos
ouvidos.
Abriguei-me
atrás de uma coluna sextavada feita de material fluorescente e puxei
o pequeno Gucky para perto.
— Voe na
frente — disse em voz baixa. — Lá adiante há gente. Tenha
cuidado! Consegue localizar o ativador?
— Melhor
que antes. Cardif está descendo.
— O quê?
Vai para os subterrâneos? Será que os mesmos existem por aqui?
— Está
descendo. Acredite em mim.
A situação
começava a tornar-se ainda mais problemática. Se naquele edifício
havia abrigos subterrâneos, dificilmente seria possível penetrar no
prédio sem ser notado. Até mesmo um campo de deflexão tinha sua
limitação. Ainda éramos invisíveis, mas até quando?
Gucky saiu
voando. Atingimos um elevador antigravitacional e assumimos o risco
de entrar. Enquanto descíamos só nos encontramos com um único
anti, vindo de um poço secundário. O mesmo também estava descendo.
Vimos
diante de nós um pavilhão de eclusas. Mantivemo-nos atrás do homem
uniformizado que estava armado com um radiador energético, mas não
usava nenhum campo defensivo individual.
Gucky
puxou a manga do meu uniforme. Esperamos que as escotilhas blindadas
se abrissem e entramos juntamente com o desconhecido. Atrás das
escotilhas vimos um quadro apavorante. Milhares de antis, todos eles
em trajes amplos e ondeantes, estavam agachados e olhavam para as
paredes.
Mais
adiante havia outro pavilhão. Vimos outra massa de homens vestidos
de amarelo. Compreendi que se tratava do exército psicológico dos
sacerdotes. Cabia-lhes reforçar o campo defensivo por meio de suas
energias mentais.
Por
enquanto continuavam firmes. Caminhei cautelosamente e olhei o rosto
de um dos homens bem de perto. Estava tenso, com a boca contorcida e
coberto de suor.
Já sabia
o que queria!
As
energias paramecânicas daquelas criaturas medonhas estavam chegando
ao fim. Não se poderia mesmo esperar de qualquer ser vivo que
rechaçasse por horas a fio o bombardeio nuclear despejado por
milhares de peças de artilharia. Em dado momento deveriam atingir o
limite de suas forças.
Gucky fez
um sinal. Apenas vi uma sombra fugaz. Retirei-me de perto do exército
silencioso.
— Vamos
depressa! Cardif está descendo mais. Sinto dores.
— Dores?
Por quê?
— As
vibrações do ativador estão ficando muito fortes, E constantemente
ouço aquela gargalhada. Aquilo que habita Peregrino costumava rir
assim. Isso dói.
O homem de
uniforme já chegara à outra extremidade do pavilhão. Saltamos
atrás dele. Avistamos outra eclusa, que atravessamos com a maior
facilidade. As escotilhas abriram-se e fecharam-se muito devagar.
Tivemos tempo de sobra.
O segundo
poço de elevador possuía uma caçamba movida por meios mecânicos.
Ao que parecia, estávamos nos aproximando da central subterrânea.
Qualquer povo da Via Láctea prefere não montar aparelhos muito
sofisticados nos lugares em que os riscos são maiores. Se as
unidades energéticas falhassem, um poço antigravitacional não
serviria para nada. Mas uma caçamba pendurada a cabos ou presa a uma
engrenagem ainda poderia ser movida com uma pequena unidade
energética de emergência. Um motor elétrico só consome uma fração
da energia que se torna necessária ao funcionamento de um elevador
antigravitacional.
As portas
gradeadas abriram-se. O homem armado que caminhava à nossa frente
parecia ser um oficial. Estava com pressa.
Conseguiu
entrar no elevador, mas lá dentro Gucky esbarrou nele. Com isso, o
jogo de esconder chegara ao fim. Agi imediatamente.
O anti
estremeceu. Olhou em torno, muito assustado, mas logo encostei o
braço em sua garganta. Puxei aquele homem alto para trás. As mãos
do anti subiram, à busca de apoio.
Encostei o
cano da pistola em seu corpo. Antes disso desliguei meu campo
defensivo individual. Usei a língua arcônida antiga, que era o
acônida, idioma usado em Trakarat.
— Que
tal se morresse agora? — cochichei ao seu ouvido.
O elevador
começou a descer.
Seus
movimentos defensivos cessaram. Compreendera! E, ao que parecia,
dera-se conta logo de que um ser invisível nem sempre é um
fantasma. Provavelmente conhecia os campos defletores arcônidas.
Afrouxei a
pressão na garganta. O oficial respirou apressadamente.
— Seja
razoável. Não estou interessado no senhor.
Deixei-o
respirar ainda mais à vontade, e o homem ergueu-se um pouco. Gucky
tirou a arma energética que o anti trazia no cinto. Não gostei
disso. Numa situação como essa, um oficial desarmado poderia
despertar a atenção dos demais.
— O que
desejam? — perguntou com uma calma espantosa. Nem sequer olhou para
trás.
— Por
aqui há um terrano chamado Thomas Cardif. Quero encontrá-lo. É só.
Caminhe à minha frente e abra as portas.
— Não
sei onde poderá encontrá-lo.
— Pouco
importa. Não se esqueça da arma que trago na mão. Não hesitarei
em usá-la.
— É
claro que não — disse, sem fazer qualquer tentativa de melhorar
sua situação.
Aquele
anti sabia pensar. Dois seres invisíveis sempre possuíam certa
superioridade... mesmo que dali a pouco fossem descobertos!
O elevador
parou. Mais uma vez encostei o cano da arma no anti.
— O
funcionamento desta arma é silencioso — menti. — Além disso o
senhor não deve esquecer que há dezoito mil espaçonaves nos céus
de Trakarat. A esta hora já deve compreender que o senhor fará um
grande bem se contribuir para esclarecer a situação. Nem terá
necessidade de pedir licença ao Grande Baalol.
Desta vez
perdeu o autocontrole. Olhou rapidamente para trás. Parecia confuso.
Ao que parecia, só agora estava compreendendo a gravidade da
situação.
Caminhou à
nossa frente. Entramos numa central de comando recheada de
equipamentos técnicos. Havia umas cinqüenta pessoas uniformizadas.
Gucky segurou meu cinto e caminhou atrás de mim.
— Vamos
para a direita — cochichou. — Estou captando perfeitamente os
sinais.
Transmiti
a instrução ao anti. Este hesitou um pouco e logo depois atravessou
uma passagem em arco.
Alguém
chamou-o. Esquivou-se com algumas palavras indiferentes. Peguei seu
braço e puxei-o para baixo, para que o coldre da arma ficasse
coberto pela mão.
Atravessamos
a sala sem que ninguém nos perturbasse. Vez por outra, Gucky soltava
um gemido. Cardif devia estar muito perto.
Um
corredor abobadado abriu-se à nossa frente. Ouvimos o zumbido de
máquinas. Mais adiante começava uma escada. No degrau superior vi
uma guarita com dois guardas uniformizados.
— O
senhor pode atravessar a barreira? Diga logo!
— Não.
Apesar
disso tentei. Um dos oficiais saiu da guarita. Chamou o homem que ia
à nossa frente. Paramos.
— Cardif
está bem perto. Há gente com ele. Agora estou sentindo —
cochichou Gucky.
Pus a mão
no cinto e tirei um cartucho pressurizado com gás anestésico de
ação rápida. A situação começava a tornar-se perigosa. O outro
anti também saiu da guarita. O oficial que ia à nossa frente
manteve-se imóvel no meio do corredor. Não poderia deixar de sentir
a pressão de minha arma.
— Aonde
vai? — perguntou o outro oficial, em tom áspero.
Parecia
que já estava desconfiando. Naquele instante apertei o fecho da
válvula e a cápsula foi projetada para a frente. Dali a três
segundos afastei o anti e liguei meu campo defensivo individual. A
ação do gás era muito rápida.
Com mais
dois saltos coloquei-me ao lado de Gucky. Peguei-o pelo braço e
arrastei-o para a frente. Nosso auxiliar involuntário não teve
tempo de fornecer explicações. Caiu ao chão juntamente com os dois
soldados.
Descemos
correndo pela escada. Não encontramos outras sentinelas.
De repente
ouvimos vozes. Distinguia-se perfeitamente a voz rouca de Cardif.
Gritou alguma coisa que não entendi.
Passamos
por uma curva e avistamos uma sala redonda de teto abobadado. Vários
antis trajados de amarelo encontravam-se à frente do corpo
monstruoso de Cardif. Não havia o menor traço de compaixão em seus
olhares.
— ...conseguirei
convencê-lo disso -disse o criminoso naquele momento. Segurava o
pescoço com ambas as mãos. Provavelmente sentia falta de ar.
Gucky e eu
retiramo-nos para um canto, embaixo da escada. Teríamos de aguardar
mais um pouco.
— O
senhor falhou — disse um anti de estatura alta, que trajava um robe
violeta com símbolos coloridos. — Achamos impossível que seu pai
concorde mais uma vez com sua idéia. Quais são suas possibilidades
de exercer alguma influência sobre os tripulantes das espaçonaves
terranas?
— Vocês
não permitiram que eu usasse seus transmissores — queixou-se
Cardif. — Ainda poderia tê-los convencido.
— Não é
verdade. Captamos uma mensagem dirigida a todos os comandantes e
tripulantes. A esta hora todos já sabem que o senhor não é Perry
Rhodan. Faça outra proposta. Não podemos perder tempo. O campo
defensivo está desmoronando.
Contei
cinco antis, que provavelmente pertenciam à camada dirigente desse
mundo.
Três
deles estavam uniformizados e armados. Tentei refletir friamente
sobre a situação.
Aqueles
cinco homens influentes usavam campos protetores individuais, que no
momento não estavam ligados. Os soldados ou policiais — ainda não
descobrira a qual das duas classes pertenciam — haviam ativado seus
aparelhos. Como naquele momento não se sentissem ameaçados, os
campos individuais não traziam nenhuma carga mental. Por isso não
poderiam ser rompidos pelos projéteis de minha arma. A arma térmica
de Gucky era um exemplar pequeno fabricado especialmente para ele.
Não podia lidar com as armas comuns, em virtude do peso e do tamanho
das mesmas. Na minha opinião seria impossível que, com a pistola do
rato-castor, conseguisse romper os potentes campos defensivos
individuais dos antis.
Se as
coisas começassem a ficar sérias, teríamos de levar os antis a
realizar modificações estruturais parapsicológicas. Só depois
disso seriam vulneráveis aos projéteis antimagnéticos de minha
arma.
A hora
para isso ainda não chegara, muito embora esperasse que a qualquer
momento fosse dado o alarma. Os três homens inconscientes não
demorariam a ser encontrados. Era impossível que isso não
acontecesse.
Cardif
começou a implorar com a voz chorosa. Notei que, de cada vez que
falava, dava um passo cambaleante para trás. Quando isso acontecia,
arregalava os olhos numa expressão de pavor, como se tivesse visto
uma coisa terrível.
Gucky
cochichou ao meu ouvido que nesses momentos soavam as gargalhadas do
Ser de Peregrino. Aquilo parecia acompanhar os acontecimentos na
condição de espectador invisível.
— Dentro
de vinte minutos, tempo padrão, termina o prazo do ultimato —
disse outro sacerdote.
— Falarei
com ele — gritou Cardif, em tom de desespero. — Levem-me para
onde está. Colocá-lo-ei diante do aparelho de telecomunicação
mais próximo. Os oficiais terranos obedecerão às suas ordens. Não
se esqueçam de que sua vida está em jogo.
— A
nossa também — observou o Grande Baalol em tom frio.
Supus que
aquele velho era o chefe do governo local.
— Poderemos
chegar a um acordo. Convencerei Rhodan de que será inútil destruir
Trakarat. Poderemos enganá-lo mais uma vez.
— Como?
Finalmente
Cardif disse as palavras que, segundo parecia, já preparara durante
a fuga. Só pensava em sua vida e saúde.
— Tentem
remover o ativador do meu peito. Coloquem outro aparelho em Rhodan;
pode ser um dos vinte que foram roubados. O ativador provocará
imediatamente uma reação idêntica ao meu, já que todos os
aparelhos estão sujeitos a um controle paralelo. Uma vez removido o
aparelho, voltarei ao normal. Por outro lado, Rhodan deverá
apresentar sinais de deformação ou coisa que o valha. Só se trata
de ganhar um pouco de tempo. Eu preciso recuperar a saúde, e ele
terá de fazer coisas que o comprometam. Se isso acontecer, não
terei a menor dificuldade em voltar a desempenhar o papel de Perry
Rhodan. Quem acreditaria em sua identidade se, de repente, ele
apresentasse alguma anomalia, enquanto eu me apresentasse sob meu
aspecto normal?
Era um
plano simples e por isso mesmo genial. A maldade profunda daquele
homem me fez estremecer. Nunca dizia “meu
pai”,
apenas se referia a Perry Rhodan.
O plano de
Cardif teria o êxito garantido, desde que fossem preenchidas três
condições: Primeiro, os sacerdotes deviam ser capazes de remover o
ativador que se encontrava em seu corpo. Além disso, Rhodan teria de
esboçar alguma reação que o comprometesse. Naquele momento Cardif
ainda não pensava no terceiro ponto, que era eu.
Mas quando
encontrassem os homens inconscientes, seria eu quem correria perigo!
No momento
em que minhas reflexões chegaram a este ponto, soou o alarma. Para
mim, apesar de tudo, representou um alívio. Era martirizante
esperá-lo a cada segundo que passava.
Mantivemo-nos
imóveis. Os dirigentes antis pediam explicações em tom exaltado.
Um dos três homens uniformizados subiu a escada correndo, quando já
estava sendo interpelado em altas vozes por quem se encontrava em
cima.
Depois
disso o oficial voltou. Parecia ter compreendido a situação.
— Liguem
seus campos defensivos! — gritou. — Alguém entrou sem ninguém
perceber.
Vi o
sacerdote mover as mãos. Agora todos estavam protegidos, mas eu
ainda não sabia onde devia procurar Rhodan. Dois homens apareceram
na escada. Carregavam um aparelho de aspecto perigoso.
— É um
localizador de campos defletores — disse Gucky. — Estão
desconfiando de alguma coisa. E agora?
A resposta
foi dada por Cardif. Vi-o sair a passos combaleantes e abrir uma
porta que ficava do lado oposto da sala. Os cinco antis seguiram-no.
Os soldados ficaram encostados à parede, de armas na mão.
Não se
via mais nada de Cardif. Ouvi uma discussão violenta. Mas ao que
parecia, ele conseguia impor-se.
— Vamos
voar para lá. Depressa!
Gucky
compreendeu. Ativei o equipamento de vôo e, planando junto ao chão,
dirigi-me à porta.
Chegamos
sãos e salvos. Isso aconteceu no momento em que os homens colocavam
o aparelho de localização no chão. A escada foi bloqueada por
outros soldados.
Não
hesitei mais. Pouco importava que nos detectassem.
Gucky
preparou-se para saltar quando abri a porta. No mesmo instante soaram
os gritos de advertência.
Entramos e
fechei a porta com o pé, olhei em torno e levantei a arma.
Nos fundos
da sala via-se um homem magro e alto de olhos cinzentos, com um
sorriso irônico nos lábios. Cardif cambaleou em sua direção.
No momento
em que levantei a pistola Cardif estava prestes a disparar. Ouvi o
grito de pavor dos sacerdotes que pareciam desconfiar das intenções
do criminoso.
Atirei uma
fração de segundo antes dele. A pistola automática produziu uma
pancada aguda. Seguiram-se algumas línguas de fogo que, orientadas
pelos gases do disparo, foram encaminhadas na direção do tiro.
Na
luminosidade perfeitamente reconhecível que saiu de meu campo de
deflexão, vi o corpo titânico de Cardif cair ao chão. Seu grito
foi abafado pelo ruído provocado pela expansão dos gases.
Fora
atingido no braço direito, na altura do ombro. Gemia e contorcia-se
no chão. A boca estava desfigurada e os olhos muito arregalados.
Quatro dos
antis recuaram até a parede. Só o que trajava o robe violeta
mantinha-se bem ereto no centro da sala. Olhou em torno com o rosto
indiferente.
Ouviram-se
gritos vindos de fora. Não se arriscaram a entrar ou disparar
através da porta. Cardif continuava a gritar. O ferimento devia ser
muito doloroso.
— Quem
está aí?
Quando
ouvi sua voz, comecei a engolir em seco. Perry estava calmo e
controlado, como sempre estivera nos momentos de perigo. Apenas
estava com o rosto um pouco tenso.
Gucky
chamou-o. Olhei para o lado. Um dos quatro sacerdotes tirara uma
pequena arma que trazia nas vestes. Atirei imediatamente. Ele
carregara seu campo defensivo individual. Antes que compreendesse que
tipo de microcorpo fogoso rompia seu campo defensivo, estava morto.
Seu corpo amoleceu e tombou.
O rosto do
velho continuou impassível. Olhou para o homem que acabara de ser
morto como se aquilo não lhe interessasse.
— Vocês
estão confundindo uma guerra declarada com um jogo, Grande Baalol —
disse em voz alta. — Recomendo-lhe encarecidamente que instrua os
homens que se encontram lá fora a guardarem as armas. Vocês
perderam a batalha. Tropas terranas acabam de ser desembarcadas.
Neste instante, dez mil naves robotizadas estão entrando em posição
de ataque. São comandadas pelo regente de Árcon. Se não decidirem
logo, este mundo será destruído. Já devem ter notado que, até
agora, só bombardeamos seu campo energético.
O velho
hesitou. Finalmente passou muito empertigado perto de mim e abriu a
porta. Dei alguns saltos e fiquei ao lado de Rhodan, que acabara de
pegar a arma energética de Cardif.
— Obrigado
— limitou-se a dizer. Em poucos segundos o velho restabeleceu a
ordem. Voltou, mas a porta continuou aberta. As pessoas que se
encontravam do lado de fora chegaram a montar um canhão energético
portátil.
Ninguém
se interessou por Cardif, que se arrastou pela sala até poder
apoiar-se numa parede. Ergueu o corpo até ficar sentado. Desliguei
meu defletor. Não adiantaria continuar invisível.
Gucky
estava ao lado de Perry. A pequena criatura chorava. Nunca acreditara
que um rato-castor pudesse chorar.
Ao que
parecia, o Grande Baalol tomara sua decisão.
— Suponho
que a pessoa que vejo à minha frente seja Sua Majestade, o Imperador
Gonozal VIII — principiou.
Parecia
não se interessar pelo morto e pelo ferido.
— Certo.
— Conduza
as negociações — cochichou Perry, sem mover os lábios.
Preferiu
não olhar para o filho que choramingava.
Um sorriso
amável surgiu no rosto do anti. Aquele homem parecia não ter
nervos.
— Permita
que lembre Vossa Majestade de que um ataque fulminante de sua frota
também colocará em perigo sua vida.
— Sei
disso desde o momento em que entrei neste edifício — respondi em
tom frio.
Minha arma
continuava a ameaçá-lo. Olhava com uma expressão de indiferença
para o bocal de formato estranho.
— Vossa
Majestade não preza muito a própria saúde.
— Se
ficar retido aqui por mais de duas horas, minhas ordens não poderão
ser mais revogadas. Acho que o senhor já conhece a lógica fria do
computador-regente.
— Tem
alguma proposta específica?
— Minha
proposta é simples. O culto de Baalol será proibido imediatamente
em todos os territórios submetidos à soberania do Grande Império.
Qualquer violação desta proibição será prontamente punida com a
morte. Thomas Cardif será submetido à jurisdição terrana. O
administrador e eu seremos libertados.
— O que
Vossa Majestade nos oferece em troca?
— A
retirada das frotas unidas. Os prejuízos resultantes da operação
ficarão a cargo do tesouro público de Trakarat. O senhor terá que
dar-me sua decisão dentro de trinta minutos.
Um oficial
entrou. Mostrava sinais evidentes de pânico. No momento em que
cochichava alguma coisa ao ouvido do velho, compreendi que a divisão
de embarque espacial estava atacando. Antes que o anti pudesse dar
qualquer resposta, acrescentei as seguintes palavras:
— O
senhor não deve aceitar a proposta de Cardif, relativa à remoção
do ativador. O comando da frota terrana já foi avisado pelo rádio.
Cardif
brindou-me com alguns palavrões. Não lhe dei atenção. O Grande
Baalol pôs-se a refletir. Finalmente pediu um prazo de reflexão de
dez minutos.
— Está
bem. Mande que seus soldados se retirem.
No momento
em que ia retirar-se, aconteceu uma coisa que ninguém esperara. De
repente Cardif voltou a ficar furioso, mas nunca se mostrara tão
selvagem como desta vez.
Em nossos
cérebros ressoou uma estrondosa gargalhada. Tornou-se tão alta que
até tive a impressão de que meu crânio iria arrebentar.
Os antis
também a ouviram, embora fosse imperceptível ao ouvido normal.
Cardif
levantou-se abruptamente. Depois voltou a cair, contorcendo-se nas
placas de pedra polida, soltando gritos terríveis.
— Não;
isso não! — disse Perry.
O uniforme
especial de Cardif começou a rasgar-se no peito. Seus gritos
tornaram-
se mais
fortes. Seu peito ficou visível, e dele se desprendeu um objeto
oval.
Por um
instante o mesmo flutuou no ar, muito luminoso. Finalmente
deslocou-se lentamente em direção a Perry Rhodan, que segurou
fortemente o meu braço. Senti-me fascinado.
A
gargalhada parapsicológica cessou.
Em
compensação ouvi algumas palavras.
— Cardif
cometeu um erro. Não deveria mandar regular o aparelho para os
impulsos individuais do pai.
Depois
disso, a gargalhada voltou a soar.
O ativador
bateu no peito de Rhodan, onde ficou grudado, bem perceptível. Por
um momento o rosto de Perry ficou desfigurado, mas logo olhou em
torno, tranqüilo.
Os gritos
de Cardif cessaram abruptamente. Quando me aproximei dele, já estava
morto. Fui guardando a arma. Ninguém disse uma palavra. O Grande
Baalol estava muito pálido.
— Foi um
castigo terrível — observei em voz baixa. — Retiro o pedido de
extradição.
— Os
aliados de vocês são muito poderosos — disse o velho. —
Concordo com suas condições, mas quero continuar a manter o culto
nos mundos que não estejam submetidos à sua soberania.
— A
proibição também se aplica ao Império Solar — disse Perry
Rhodan, intervindo pela primeira vez nas negociações.
O anti
respondeu com um aceno de cabeça. Não havia muita coisa a dizer.
Só nesse
momento, tive tempo para cumprimentar Rhodan. Ele agradeceu em
palavras ligeiras, cuja cordialidade comoveu mais que um longo
discurso bem estudado.
Gucky
apalpou-o dos pés à cabeça.
— Ainda
bem — disse em tom satisfeito. — Desta vez é você mesmo. Como
foi que conseguiram prendê-lo em Okul?
Seu rosto
assumiu uma expressão sombria. Preferiu não olhar para o morto.
— Comportei-me
como um idiota. A plataforma de pedra desceu. Isso bastou para que eu
estivesse perdido. Minha memória foi transferida para Cardif. Com
isso ficou habilitado a desempenhar meu papel. Durante seu exílio
alcançara maior amadurecimento psíquico. Era igualzinho a mim.
Dotado do meu saber, poderia arriscar a sua grande jogada.
— Não
aprendeu tudo — objetei. — Você se lembra do duelo que travamos
no deserto Porta do Inferno?
Rhodan
sorriu.
— Naturalmente!
Até me lembrei dele no momento em que colocaram o capacete hipnótico
sobre minha cabeça, no interior da base submarina. Durante a
transferência consegui ocultar certas coisas. Cardif foi informado
sobre a luta, mas não sobre certos detalhes aparentemente
insignificantes, que para outras pessoas podiam ser muito
importantes.
Compreendi.
Era uma atitude típica de Perry Rhodan. Até mesmo no momento em que
o perigo era mais grave, fizera seus planos e chegara a agir.
— Lembrou-se
do nosso verso da água?
— Isso
mesmo. Ainda apaguei alguns detalhes do nosso encontro no Museu de
Vênus. Pensei numa espada leve, não num gládio. Os dados realmente
importantes, necessários ao desempenho do papel que Cardif resolvera
assumir, não poderiam ser apagados. Quando chegava a hora da
transferência dos mesmos, os antis intervinham imediatamente. Por
isso tive de agir com muito cuidado, limitando-me a alguns detalhes
ridículos. Escolhi certas coisas que apenas você e eu sabíamos.
— Esperava
que interrogasse Cardif a este respeito?
— Mais
ou menos isso. Seu caráter apresentava traços extremamente
negativos. Imaginei que conseguiria enganar Bell, Mercant e os outros
amigos. Mas pensei que com você isso não seria possível. Além
disso, acreditei que surgiriam acontecimentos que fariam com que você
ficasse desconfiado.
— Pois
foi isso mesmo.
— Era o
que eu imaginava. Você o interrogou sobre os detalhes?
— Ele
mesmo se traiu. Resolveu falar no museu. Compreendo que agiu assim
num estado de pânico. Durante meses fizera tudo para evitar um
encontro direto comigo. Quando nos vimos frente a frente, sentiu o
perigo que eu representava para ele. Por isso tentou imediatamente
convencer-me da identidade, rememorando uma experiência que tivemos
no tempo em que começamos a travar conhecimento. Falou numa espada
leve. Depois disso cantei o verso da água para ele. Não o conhecia.
Com isso fiquei sabendo bastante... Tal fato, aliado ao seu
comportamento, representava para mim uma série completa de provas.
Conversamos
durante quinze minutos sobre a prisão de Rhodan. De Okul fora levado
diretamente para Trakarat, onde lhe fora dispensado um tratamento bem
humano.
Não falei
sobre seus conflitos íntimos. Imaginava como esse grande homem devia
ter sofrido.
— Como
estão as coisas no sistema solar?
— Está
na hora de você aparecer por lá. Cardif foi um desastre.
— Era o
que eu imaginava. Teremos de reparar muita coisas.
O Grande
Baalol entrou. Foi seguido por alguns membros da divisão terrana de
desembarque espacial. Finalmente apareceu Bell. Quando viu Rhodan,
cobriu o rosto com as mãos.
*
* *
Dali a uma
hora partimos num jato espacial. Rhodan teve uma recepção que eu
nunca teria imaginado. O entusiasmo dos homens não tinha limite.
Mandei que
a frota robotizada voltasse para casa. Assim que os ânimos esfriaram
um pouco, Rhodan concluiu as negociações com o Grande Baalol.
A cidade
de Antípolis sofrerá grandes devastações no setor sul. Trakarat
era o planeta em que os antepassados dos antis haviam pousado há
vinte mil anos.
Depois que
os descendentes perceberam suas faculdades, causadas pelo ambiente,
preferiram não colonizar aquele mundo. Elaboraram um plano a longo
prazo. Um plano de dez mil anos! Os templos construídos em todos os
mundos em desenvolvimento da Galáxia atraíram as multidões!
O culto de
Baalol se transformara numa potência econômica respeitável, e
acabavam de participar do grande jogo da política galáctica, em
cujo âmbito Cardif representou o ponto alto.
Mas nesse
jogo o plano deles não fora bem-sucedido. Na minha opinião os
sacerdotes não representavam mais nenhum perigo. Já conhecíamos
seus objetivos e métodos. Dispúnhamos de armas especiais para
combatê-los. E os chefes desse estranho povo sabiam disso.
Rhodan
informou-nos de que Trakarat era habitado por cento e cinqüenta mil
seres inteligentes. O planeta era a sede do treinamento. Uma vez
aprovados no exame final, os antis eram enviados aos pontos em que
deveriam desenvolver sua ação. Os casamentos eram celebrados
somente em Trakarat, e exclusivamente entre seres da mesma raça.
Quando
sabemos muita coisa a respeito do inimigo, este deixa de ser
perigoso.
*
* *
Levamos
Thomas Cardif. Depois de um ligeiro culto celebrado pelo capelão de
bordo, o cadáver foi entregue ao espaço interestelar. Para mim,
aquilo era muito deprimente. Rhodan fez continência como estadista e
comandante da frota. Apenas podia imaginar o que pensara como pai.
Não falamos sobre isso.
Levou-me
ao sistema de Árcon na Ironduke.
Quando nos
despedimos sabíamos perfeitamente que a herança desastrosa de
Cardif representaria um obstáculo nada fácil.
Rhodan
apertou minha mão. Olhei para o peito, onde estava o ativador
celular que lhe conservaria a vida. Desde o início destinara-se a
ele, e agora acabara de recebê-lo.
— Um dia
destes terei de chamá-lo — disse em tom de desânimo. — Tome
cuidado com esse aparelho. A Galáxia ainda precisa de você. O
Império de Árcon precisa de auxílio...
Fitou-me
com uma expressão séria. Logo compreendeu.
— É só
marcar dia e hora, imperador. Quando não souber mais o que fazer,
sempre estaremos presentes.
A Ironduke
rugiu em direção ao céu. Mais uma vez vi-me só. Rhodan tinha
muita coisa a fazer. Quanto a mim, só me restava esperar.
*
* *
*
*
*
Em Frota
Espacial Roubada,
próximo volume da série, será narrada mais uma surpreendente
aventura...

Nenhum comentário:
Postar um comentário