A
instalação sinalizadora consistia apenas num botão iluminado,
embutido na ala direita do portão. Kazek comprimiu-o na seqüência
breve, longo, longo, breve, breve, breve.
Depois
disso batidas de gongo ressoaram na mesma seqüência pelo corredor.
Seguiram-se
alguns instantes de extrema tensão. Finalmente o portão emitiu um
zumbido. Uma fenda estreita abriu-se no centro, transformou-se numa
abertura larga e derramou uma luz ofuscante no corredor.
Ron, Lofty
e Meech puseram as armas engatilhadas assim que as vestes do
sacerdote se tornaram visíveis.
*
* *
Kalal
sobressaltou-se.
Estavam
chegando. Vinham em grande número, e não se encontravam longe. Se
não tivesse ficado entretido por tanto tempo com seus pensamentos,
teria notado a presença deles mais cedo.
Levantou-se
de um salto e prestou atenção. Captou seus pensamentos, vindos de
todas as direções.
— Deve
estar por aqui. Já olhamos os outros lugares em que poderia
esconder-se.
“Fiz
papel de idiota!”,
pensou. “Não
devia ter ficado tanto tempo no mesmo lugar. Minha única chance
consiste em movimentar-me. Sou obrigado a ir a um lugar onde ainda
não me procuraram.”
Resolveu
concretizar essa idéia, desde que ainda tivesse oportunidade para
isso.
Abriu
cautelosamente a porta do pequeno recinto em que estivera até então.
O corredor estava vazio, O único ruído era o zumbido monótono dos
dutos de energia, que corriam sob o teto como se fossem tubos de
calefação antiquados. Mas, depois de alguns metros, o corredor
descrevia uma curva, tanto à sua direita como à sua esquerda. Kalal
sabia que não conseguiria ultrapassar essa curva sem ser visto por
seus perseguidores.
Estava
encurralado numa armadilha.
Recuou
para dentro do pequeno cômodo e fez votos de que não fossem entrar
ali.
Sua
esperança não se realizou. Menos de um minuto depois de ter fechado
a porta sentiu os pensamentos de seus perseguidores lá no corredor.
Estavam curiosos. E seus cérebros também se achavam tomados de
espanto pelas coisas que fizera lá em cima, no interior do templo,
quando Argagal e os outros sacerdotes procuraram matá-lo. Foi só
então que descobriu o que acontecera, e seu espanto foi quase igual
ao dos homens cujos pensamentos estava captando.
— Que
força imensa! Matou três deles, e nenhum dos que sobreviveram
jamais voltará a ser um sacerdote de quarto grau.
— Talvez
nem volte a ser sacerdote — afirmou o outro. — Argagal só falou
palavras confusas depois de ter recuperado os sentidos. Os médicos
acreditam que seu estado é grave.
— O que
mais me entristece é que isso tenha acontecido justamente com
Argagal — foi o que emitiu o primeiro.
O outro
manteve-se em silêncio. Passada a primeira confusão, Kalal voltou a
raciocinar fria e objetivamente. Constatou que apenas dois dos
perseguidores se encontravam do outro lado da porta. Voltou a criar
coragem. Deviam estar bem à frente do recinto em que se achava.
— Vamos
dar uma olhada — sugeriu um deles. — Abrirei a porta. Tome
cuidado quando puser os olhos lá dentro.
— Não
deve estar escondido justamente aqui — disse o outro com certa
ingenuidade.
Kalal
preparou-se. Encontrava-se a dois metros da porta, de forma tal que
não poderia deixar de ver seu perseguidor assim que a mesma se
abrisse. Ficariam surpresos e, como eram apenas sacerdotes de nono ou
décimo grau, esse momento de surpresa representaria uma grande
chance para Kalal.
A porta
rangeu enquanto rolava para o lado. Um dos dois sacerdotes inclinou o
corpo para a frente, a fim de observar melhor o que havia no interior
daquele recinto. Viu Kalal bem à sua frente e recuou com um grito de
pavor, o outro continuava no corredor, mas Kalal teve a satisfação
de constatar que também empalideceu.
Era o
momento pelo qual tinha esperado. A força gerada pelo desespero de
seu cérebro potente investiu contra os dois com a fúria de um
animal selvagem, atingindo-os no momento em que o pânico era maior.
De qualquer maneira, os dois dificilmente estariam em condições de
resistir a um sacerdote de segundo grau. A batalha já estava
decidida antes de ter começado.
Os dois
jovens sacerdotes caíram ao chão entre gemidos e contorções.
Kalal viu que até o último instante procuravam resistir ao seu
ataque. A vontade deles resistia à submissão; seus pensamentos
investiam contra os de Kalal.
Finalmente
desistiram. Kalal fez penetrar seu fluxo mental pela brecha criada
por seu espírito que tudo devorava. A torrente encheu seus cérebros,
fê-los transbordar e rompeu todos os diques.
Kalal só
diminuiu sua concentração quando notou que estava desperdiçando
suas energias em cérebros mortos. O sumo sacerdote descontraiu-se
com um ligeiro suspiro, mas logo percebeu que seu crânio ainda
encerrava reservas de energia que lhe permitiriam rechaçar mais dois
perseguidores.
Acontece
que não havia mais nenhum. Os pensamentos que ainda conseguia notar
estavam muito distantes e não pareciam perigosos.
Lançou
mais um olhar para os mortos e dirigiu-se para a esquerda. Estacou
por um instante junto à curva do corredor e olhou cautelosamente
para o outro lado. O caminho estava livre, pois não sentia nenhum
pensamento estranho. Caminhou mais alguns metros e viu-se num largo
corredor central, que também estava vazio e silencioso. Kalal
lembrou-se de ter captado há meia hora uma torrente de pensamentos
vinda dessa direção. Concluiu que esse setor das instalações
subterrâneas provavelmente já fora revistado, motivo por que ali
estaria mais seguro que em qualquer outro lugar.
Por um
instante lembrou-se do pedido de socorro que expedira antes de
ocultar-se sob a superfície. Perguntou a si mesmo por que os
saltadores ainda não haviam chegado.
Será que
já haviam pousado no planeta? Será que os sacerdotes que se
encontravam lá em cima, no templo, conseguiram convencê-los de que
ele, Kalal, não merecia seu auxílio?
Tudo era
possível. Só naquele instante Kalal constatou ser provável que os
saltadores fossem esclarecidos e mandados de volta com um pedido de
desculpas; dificilmente conseguiriam chegar sem dificuldade ao lugar
onde se encontrava e o tirariam de lá.
Teria de
descobrir outro caminho.
Quase no
mesmo instante, ou seja, no momento em que viu a seta luminosa
vermelha, grande e ofuscante, que brilhava na parede do corredor,
teve outra idéia. No primeiro instante, a mesma lhe parecia absurda.
Mas acabou concluindo que era perfeitamente viável, ainda mais que a
essa hora ele já tinha certeza absoluta de que o ativador lhe
conferia tremendas energias mentais.
Isso
mesmo. Agiria assim para abrir caminho em direção à liberdade.
*
* *
Antes que
o sacerdote pudesse vê-los, Meech e Ron saltaram ao mesmo tempo. Com
um grande pulo passaram por cima da primeira fita, mais lenta, e da
fita rápida do centro, puseram os pés na fita lenta do lado oposto
e deixaram que esta os transportasse pelos poucos metros que os
separavam do sacerdote estarrecido.
A reação
de Larry e Lofty foi exatamente a que havia sido combinada. Não
houve necessidade de dar ordens. Passando por trás de Ron e do robô,
penetraram na claridade que se via além do portão de entrada. Na
passagem Larry deu um empurrão no dono do bar, fazendo com que os
acompanhasse aos trambolhões.
As
suposições de Ron revelaram-se corretas. O portão parecia estar
equipado com um mecanismo mental automático, que o sacerdote
acionara, consciente ou inconscientemente, com o sentimento de pavor
que se apoderara dele. De qualquer maneira, o portão voltou a
fechar-se muito mais depressa do que se abrira.
Só agora
Ron teve tempo de examinar mais detidamente o sacerdote e o ambiente
em que se encontrava. O homem de vestes preciosas e rosto pálido de
susto, que viu à sua frente, parecia jovem e inexperiente. Ron
resolveu não subestimá-lo. Era um anti, e os antis são indivíduos
perigosos.
Na parte
do corredor em que se encontravam, não havia outras surpresas. Do
lado direito as fitas transportadoras desapareciam no chão, poucos
metros atrás do portão, enquanto do lado esquerdo saíam do chão,
deslocando-se em sentido oposto. Passando por uma estreita fenda
embaixo do portão, corriam para a parte do corredor pela qual Ron
Landry e seus companheiros haviam vindo.
Neste meio
tempo, o jovem sacerdote já se recuperara do susto. Dirigiu-se a
Kazek e esforçou-se para dar um tom de cólera à voz:
— Como
se atreve a trazer um número maior de pessoas do que combinamos? O
senhor penetrou aqui à força. Será apresentado ao sumo sacerdote
juntamente com seus companheiros, a fim de receber um castigo
adequado.
Ron
segurou o ombro trêmulo de Kazek, sem largar a arma, e empurrou-o
para o lado.
— Fale
comigo, meu jovem — disse com um sorriso. — Nosso amigo não tem
culpa desta confusão. Nós o obrigamos a trazer-nos para cá.
O
sacerdote parecia indiferente a essas palavras.
— Isso
não altera nada — disse com a voz muito mais firme. — Os
senhores penetraram à força no Templo da Verdade, e o sumo
sacerdote os responsabilizará por isso.
Ron negou
com a cabeça.
— Não
temos o menor interesse de apresentar-nos ao seu sumo sacerdote, meu
jovem — respondeu. — Apenas queremos que o senhor nos mostre as
instalações subterrâneas do templo.
Sabia que
a reação do sacerdote consistiria num sorriso irônico de
superioridade. Fitou os terranos um por um, lançou um olhar para
Kazek, que continuava trêmulo, e disse:
— Sinto
não poder corresponder ao seu desejo. Infelizmente não estamos
preparados para fazer demonstrações a visitantes.
Evidentemente
estava firmemente decidido a terminar imediatamente aquela conversa
inútil. Por isso prosseguiu em tom bem mais áspero:
— Agora
eu os levarei à presença dos dirigentes do templo, que decidirão o
que será feito dos senhores. Sigam-me.
Não
esperou para ver a reação de seus interlocutores. Virou-se e foi
caminhando pelo corredor.
Ron
manteve-se imóvel. Conhecia as faculdades mentais do sacerdote. O
elemento que tinham à sua frente era jovem, motivo por que
acreditava que pertencia a uma das graduações subalternas e teria
ainda um longo caminho a percorrer, antes de adquirir o domínio das
múltiplas capacidades parapsicológicas dos antis. Ron teve a
impressão de que sabia o que poderia arriscar face a esse jovem.
Notou uma
sensação dolorosa no crânio, enquanto o jovem sacerdote prosseguia
em sua caminhada. Compreendeu que o anti estava tentando impor sua
vontade a ele e aos seus companheiros. Tentava transmitir-lhes um
comando hipnótico para que o acompanhassem, sem oferecer resistência
ou tentar a fuga. Ron sabia que algum tempo se passaria antes que o
sacerdote conseguisse subjugar sua vontade. Apesar disso estava na
hora de agir.
— Fique
onde está! — gritou Ron para o sacerdote. — Há duas armas
diferentes apontadas para o senhor.
O
sacerdote deu mais alguns passos hesitantes e inseguros. Finalmente
parou e virou-se. Lançou um olhar indagador para Ron, mas seu rosto
continuava a exprimir uma autoconfiança inabalável.
— E
daí...? — perguntou, esticando as palavras.
— Pensei
que o senhor compreendesse — respondeu Ron em tom sério. — Pare
de mexer em nossos cérebros e de tentar hipnotizar-nos.
O jovem
anti continuou impassível.
— Não
mexi em coisa alguma. Dei uma ordem, e os senhores obedecerão. Só
isso.
No mesmo
instante Ron percebeu que a sensação dolorosa no seu crânio se
tornava mais intensa. Lançou um olhar rápido para Larry e viu que o
rosto do capitão estava desfigurado pela dor. Kazek pôs-se a gemer
baixinho.
— Está
bem! — respondeu Ron. Aquelas palavras pareciam um tiro de pistola
disparado no meio do corredor. — Vejo que não quer compreender.
Pois eu lhe explicarei o que acontecerá daqui a pouco. Dois de nós
estão com armas na mão. Uma delas é uma arma energética, enquanto
a outra é um revólver antiquado, que dispara projéteis materiais.
Se não cessar dentro de dez segundos as tentativas de
influenciar-nos, as duas armas dispararão ao mesmo tempo.
Parudal, o
jovem sacerdote, encolheu-se. A superioridade ostensiva foi
substituída por um desânimo total. Sentiu-se sacudido pelo medo.
Aqueles desconhecidos sabiam do seu segredo. Era, em parte,
invulnerável, tal qual todos os sacerdotes, exceto talvez o sumo
sacerdote do culto de Baalol. Qualquer sacerdote poderia recorrer às
suas faculdades parapsicológicas para envolver-se em dois tipos
diferentes de campos defensivos.
Um o
protegia contra qualquer influência energética, enquanto o outro
repelia os projéteis materiais. Com isso tornava-se praticamente
invulnerável, pois em nenhum lugar da Galáxia havia armas que não
fossem energéticas ou de projéteis materiais. Só havia uma
circunstância que poderia tornar-se fatal a um sacerdote de Baalol.
Não
estava em condições de envolver-se com os dois campos defensivos ao
mesmo tempo.
Dali
resultaria uma sobrecarga do apêndice parapsicológico de seu
cérebro, que terminaria em colapso. Poderia proteger-se dos raios de
uma arma moderna ou dos projéteis de uma arma antiquada. Além
disso, estava em condições de num centésimo de segundo substituir
um dos campos defensivos pelo outro. Mas havia uma coisa de que não
era capaz: resistir ao impacto simultâneo das duas armas.
Parudal já
tivera de engolir uma porção de surpresas depois do momento em que
se defrontara com os desconhecidos. Estava convencido de que Kazek e
seu amigo desconhecido jamais chegariam ao templo, pois este estava
envolto na abóbada das radiações hipnóticas produzidas pelo
ativador celular de Kalal. Kazek só recebera permissão para entrar
no templo porque os sacerdotes tinham certeza de que, antes de
chegarem lá, ele e seu amigo começariam a correr atrás da flor
milagrosa violeta em vez do liquitivo.
Evidentemente
não se poderia permitir a entrada de um estranho.
No
entanto, além de chegarem ao templo, Kazek e seu companheiro haviam
trazido mais três pessoas, e ao menos uma dessas pessoas parecia ser
um homem que sabia o que queria. Ao que tudo indicava, as emanações
do ativador de Kalal não os afetavam. Em suas cabeças viam-se
capacetes reluzentes, e estes por certo anulavam o efeito hipnótico.
Parudal
tomou conhecimento desses fatos e conseguiu dissimular a surpresa.
Mas compreendeu que os desconhecidos à sua frente conheciam outros
segredos, além do mais importante de todos, que era o da
vulnerabilidade dos sacerdotes de Baalol. Isso fez com que perdesse o
autocontrole.
— Quem...
quem são vocês? — gaguejou, perplexo.
7
Homunc:
— Isso
tem sua origem no acoplamento entre o ativador e seu cérebro, não
tem?
Ele.
— Naturalmente.
Seus pensamentos recebem do ativador o mesmo reforço dos efeitos
mecano-hipnóticos por este gerados. No momento esse homem será
capaz de realizar coisas inacreditáveis. Acontece que utilizará seu
dom pela forma por mim estabelecida, e o resultado não será nada
bom para ele.
Homunc:
— Não
é um tipo capaz de fazer coisas muito boas com seus dons especiais?
Ele:
— Não.
É ambicioso e inescrupuloso. E o melhor meio de destruir um homem
como este é conferir-lhe forças superiores.
*
* *
Kalal
sentiu a redundância produzida pela pulsação rítmica da força
estranha em seu cérebro.
Sabia que
se aproximava do lugar mais perigoso.
Lá
adiante ficava a Sala dos Pensamentos Protetores. Encontrava-se a
apenas trinta ou quarenta metros. Kalal sabia que, se conseguisse
chegar à sala e entrar na mesma, estaria salvo.
E também
sabia que a tentativa poderia custar-lhe a vida.
O lugar de
onde se aproximava representava o coração do templo. O que
acontecia por lá fazia com que o Templo da Verdade fosse o lugar
mais seguro de Utik, da mesma forma que qualquer outro templo de
Baalol era o lugar mais seguro do planeta em que fora construído. Na
Sala dos Pensamentos Protetores era gerado o campo defensivo que
cercava o templo como se fosse uma muralha invisível.
Na Galáxia
existiam outros campos defensivos, maiores e mais altos, que
provocavam o orgulho de seus construtores. Mas não havia um único
cuja potência pudesse comparar-se com o do campo defensivo de um
templo de Baalol. Nenhum gerador era capaz de reunir a energia,
produzida por via mecânica e mental, de forma tão eficiente como se
fazia na Sala dos Pensamentos Protetores.
Evidentemente
a sala em que se gerava o campo defensivo era cercada por potentes
campos de indução. Kalal foi abrindo caminho pela área desses
campos. A cada segundo que passava tinha de forçar mais intensamente
o cérebro, precisava concentrar-se mais fortemente no objetivo que
tinha pela frente. Teve de fechar os olhos, a fim de que a visão dos
objetos que o cercavam não desviasse sua atenção.
Sua
liberdade estava em jogo. O objetivo que pretendia alcançar com seus
esforços valia o preço.
*
* *
Meech
Hannigan fez uma localização cuidadosa.
Seu
cérebro mecânico experimentou a sensação do espanto ao notar o
que se passava em algum lugar, abaixo dele e à sua frente. As
emanações produzidas pelo sacerdote que, segundo suspeitava,
constituía a causa do tumulto hipnótico verificado junto às
muralhas do templo, haviam experimentado um crescimento notável. Ao
mesmo tempo surgiram outros efeitos, dos quais até então Meech só
tivera uma percepção secundária. E esses efeitos pareciam crescer
na mesma proporção das irradiações do cérebro do sacerdote.
Meech teve a impressão de que havia certo tipo de ressonância entre
os pensamentos do sacerdote e as outras vibrações que, segundo
parecia, não eram produzidas por nenhum cérebro orgânico. Acontece
que Meech não conhecia mais da natureza das coisas que os cientistas
humanos que o haviam criado, e por isso só podia fazer suposições.
Comunicou
ambas as coisas a Ron
Landry: a
observação e a suposição.
— De
onde vêm as vibrações localizadas? — limitou-se Ron a perguntar.
— Da
frente e de baixo — respondeu Meech. — O ângulo de declive é de
cerca de sessenta graus.
Ron
virou-se sobre os calcanhares. A pergunta dirigida ao jovem sacerdote
foi disparada com a força de um tiro:
— Quem é
a pessoa que está lá embaixo?
Parudal
balançou a cabeça e mordeu os lábios. Ron apontou a arma para ele,
e Meech, que não tirava os olhos de seu superior, seguiu-lhe o
movimento.
Parudal
voltou a abanar a cabeça.
— O
senhor pode pela força obrigar-me a levá-lo à presença do sumo
sacerdote — respondeu. — Mas não conseguirá transformar-me num
traidor.
Ron baixou
a arma.
— Seu
fanatismo seria digno de uma causa mais justa — disse em tom frio e
dirigiu-se a Lofty. — Você já sabe qual é a direção. Procure
encontrar um caminho que leve para lá.
Puseram-se
em movimento. Mais adiante havia portas de ambos os lados do
corredor. Este prosseguia em linha reta. Não tiveram a menor
dificuldade em abri-las, mas atrás delas apenas descobriram
depósitos recheados de armações sobre as quais se viam todos os
objetos imagináveis. Provavelmente era por ali que ficava o depósito
de liquitivo do qual Kazek teria recebido suprimento, se as coisas
tivessem corrido conforme previra.
Lofty
franziu a testa e balançou a cabeça.
— Por
aqui não há nenhum caminho que possa levar-nos adiante — disse. —
Teremos de procurar em outro lugar.
Num
minuto, Meech calculou a direção da qual vinham as emanações
mentais na posição em que agora se encontrava. Teve a impressão de
que o sacerdote, até agora não identificado, praticamente não saía
do lugar, de que cada passo que davam mais os aproximava do mesmo. A
posição indicada por Meech aproximava-se cada vez mais.
Finalmente
viram-se bem em cima do lugar de onde provinham as radiações.
Lofty
parecia estar de olho em tudo que se passava em torno dele. Ron notou
que muitas vezes fitava ligeiramente Parudal, o jovem sacerdote, de
tal forma que este não o percebia. Lofty parecia possuir a estranha
faculdade de ler os pensamentos nos rostos das pessoas. Tal modo de
observar representava e equivalia ao dom da telepatia. Depois de
certificar-se com mais um olhar para o sacerdote, Lofty bateu com o
pé no chão e disse:
— Se o
acesso aos pavimentos inferiores não ficar num raio de dez metros,
estarei disposto a nadar pelo espaço até a Terra.
Parecia
ter certeza do que dizia. Puseram-se a procurar, e Ron notou que a
expressão do rosto de Parudal se tornava cada vez mais insegura e
assustada. Por certo as impressões dos últimos minutos foram demais
para o jovem sacerdote, que já não conseguia dissimular a
inquietação.
Ele
acreditou que pelos meios normais, não conseguiria impedir a
descoberta da passagem secreta. De repente Ron voltou a sentir a
interferência em seu cérebro, que desta vez foi tão forte que,
segundo parecia, Parudal empenhara todas as suas forças para demover
os intrusos do seu intento.
Num gesto
lento e comedido voltou-se para o sacerdote e apontou-lhe o revólver.
O cano da arma térmica de Meech acompanhou o movimento como se fosse
uma sombra mecânica.
— Se
tentar mais uma vez — advertiu Ron com a voz baixa e perigosamente
tranqüila — o senhor poderá considerar-se um homem morto. Não
permitirei que o senhor me detenha.
A dor
cessou imediatamente. Parudal reconheceu sua impotência. Parecia tão
triste e abatido que Ron se sentiu seguro. Dali em diante o sacerdote
não criaria mais problemas.
Lofty não
notara o incidente. Estivera à procura da passagem. No momento em
que Ron deu as costas ao sacerdote, Lofty soltou um grito de triunfo.
Chamou os companheiros com a mão direita, enquanto a esquerda
apontava para a parede do corredor.
— Olhem
— exclamou. — Há uma fenda muito fina, quase imperceptível, que
corre em linha reta. Provavelmente... isso mesmo, aqui há outra
fenda vertical. É a porta!
Ron lançou
um olhar ligeiro para Parudal e, pela expressão do rosto deste,
concluiu que Lofty estava com a razão.
Procuraram
abrir a porta. Ao contrário do que esperavam, conseguiram logo. O
fato de a porta ter sido embutida na parede de forma tal que era
quase imperceptível provavelmente representava proteção
suficiente. Isto na opinião dos sacerdotes de Baalol. O mecanismo de
abertura era o mesmo de todas as outras portas.
Larry foi
o primeiro que se dispôs a entrar no recinto. Deu um passo para a
frente, soltou um grito de pavor e atirou-se para trás. Conseguiu
recuperar o equilíbrio. Girou algumas vezes em torno do próprio
eixo. Finalmente olhou de lado, com uma expressão de perplexidade,
para o buraco escassamente iluminado que se abria atrás da porta.
Sem dizer
uma palavra, Ron tirou uma bala de revólver e atirou-a na abertura.
Aconteceu aquilo que esperara. A peça de metal foi descendo
lentamente, como se tivesse de abrir caminho em meio a uma massa
viscosa.
— É um
elevador antigravitacional! — constatou Ron. — Vamos logo! Não
podemos perder tempo.
Meech foi
o primeiro a entrar no poço. Foi seguido de perto por Ron, que
arrastava o sacerdote atrás de si. Atrás do sacerdote vieram Lofty,
Kazek, que de tanto medo ainda não sabia o que estava acontecendo, e
finalmente Larry. A porta que dava para o corredor voltou a fechar-se
assim que Larry passou pela soleira e entrou no elevador.
Quando
tinham descido uns cinqüenta metros, Meech disse que estava
localizando o objeto que emitia os sinais. Agora achavam-se no mesmo
andar do emissor.
— As
radiações adquiriram uma força tremenda — acrescentou com a voz
preocupada.
Acompanhado
por Ron, deslocou-se em direção à parede do poço. Do lado de
dentro não havia a menor dificuldade em descobrir as frestas que
cercavam a porta. Esta, segundo tudo indicava, levava para um andar
inferior das instalações subterrâneas.
Ron abriu
a porta. Do lado oposto surgiu um corredor perfeitamente igual àquele
pelo qual haviam vindo.
Deram
ordem ao sacerdote para que saísse do poço do elevador. Enquanto
Kazek, Lofty e Larry seguiram-no, Meech fez outra localização e
apontou para a parede do corredor que ficava do lado oposto do
elevador antigravitacional. Por lá havia uma série de portas, e Ron
teve certeza quase absoluta de que atrás de uma dessas começava o
caminho que os levaria ao destino.
Quando se
preparava para abrir a primeira porta, Parudal, o jovem sacerdote,
que se encontrava às costas de Ron, subitamente soltou um grito
abafado. Ron virou-se abruptamente. Antes que compreendesse o que
havia acontecido, Parudal jazia imóvel no solo e seus olhos
arregalados fitavam o teto.
Ron
ajoelhou a seu lado e o examinou. Constatou uma fraca atividade
respiratória, quase imperceptível. Concluiu que Parudal ainda
estava vivo. Certamente o desmaio fora causado por um forte espasmo,
pois, do contrário, os olhos não ficariam fitando o teto com uma
horrível rigidez.
Ron não
sabia explicar o acontecido. Supunha que o desmaio de Parudal devia
ter sua origem nas fortes radiações registradas ininterruptamente
pelo receptor de Meech, mas não havia nenhuma prova de que realmente
fosse assim.
Resolveu
deixar Parudal onde estava e prosseguir sem ele. Deu-lhe as costas e
fez mais uma tentativa de abrir a porta. Naquele instante, o
subterrâneo foi sacudido por um estrondo. Ron sentiu o chão tremer
sob os pés e teve de esforçar-se para não perder o equilíbrio. Do
teto caíam pedras e poeira.
Lofty, que
fora atirado para o lado, voltou a levantar-se, apoiando as costas na
parede. Parecia espantado. Kazek choramingava que nem uma criança.
Larry lançou um olhar tenso para dentro do corredor.
Meech foi
o único que conservou a calma.
— A
intensidade continua a aumentar. — Disse em tom tranqüilo, e
acrescentou como quem quer fazer uma observação apenas técnica: —
Não sei como isso acabará, se as coisas continuarem assim.
Quantidades enormes de energia estão sendo consumidas.
Ron
interrompeu-o com um gesto.
— Tanto
faz — disse. — Tentaremos avançar mais. O sujeito que procuramos
só pode estar lá na frente.
Tentou
pela terceira vez e conseguiu abrir a porta. Viu à sua frente um
corredor largo e bem iluminado, que quase chegava a ser um salão.
Ron teve a impressão de ver sombras que se moviam em meio à
claridade. Segurou a arma e gritou
— Está
lá na frente! Vamos, minha gente!
No mesmo
instante os subterrâneos voltaram a ser sacudidos por uma explosão.
Ron e seus companheiros já haviam penetrado no corredor que acabara
de ser descoberto. Quando os ribombos cessaram, ouviram que, do lado
de fora, uma parede desabava e perceberam o chiado produzido pela
terra que escorregava pela abertura.
“Talvez
estejamos presos”,
pensou Ron.
*
* *
De repente
os “pensamentos
protetores”
não se moviam com a mesma rapidez e facilidade de antes. Havia algum
obstáculo.
Outras
freqüências estavam provocando uma interferência. Em certos pontos
os “pensamentos
protetores”
eram neutralizados, não conseguindo produzir o menor efeito.
Naturalmente
os cérebros, nos quais se originavam os pensamentos, perceberam o
fenômeno. Acontece que também não tinham nenhuma explicação e
nem dispunham de tempo para preocupar-se com isso. Tinham de cuidar,
juntamente com as máquinas que os cercavam na Sala dos Pensamentos
Protetores, para que o templo continuasse intacto, e qualquer falta
de concentração, por menor que fosse, poderia prejudicar esse
objetivo.
Por isso
os “pensamentos
protetores”
continuaram no seu fluxo. Conformaram-se com o fato de serem apagados
em certos trechos.
De
qualquer maneira ainda preencheriam integralmente a sua função
quando chegassem à superfície.
Não
compreenderam que o elemento perturbador que tinham pela frente
consistia nos pensamentos gerados em outro cérebro; num cérebro
inimigo.
*
* *
Para
Kalal, o mundo estava transformado numa esfera incandescente. Já
fechara os olhos, mas a imagem continuava a formar-se por sob suas
pálpebras e o calor gerado pela mesma consumia seu cérebro.
Ansiava
por uma pausa. Teve vontade de deixar-se cair e descansar. Mas havia
um canto remoto de sua inteligência em que ainda restava um pouco de
capacidade de raciocínio, e ali uma voz interior lhe dizia que
estaria morto no momento em que diminuísse seus esforços.
Teria de
avançar, se quisesse alcançar a liberdade.
Obrigou
seus pensamentos a firmar imagens dos objetos existentes lá adiante,
na Sala dos Pensamentos Protetores. Obrigou-os a enxergarem através
das paredes e distinguirem os gigantescos aparelhos que geravam o
campo protetor, bem como os conversores, que processavam os
“pensamentos
protetores”
de tal forma que podiam ser utilizados para apoiar e reforçar o
campo defensivo.
Teria de
ficar de olho em tudo isso. Teria de enxergar essas coisas atrás da
esfera incandescente que surgira sob as suas pálpebras, a fim de que
seus pensamentos pudessem forçar o acesso aos conversores. Se
tivessem bastante força, impediriam a atividade desses aparelhos e
fariam com que os “pensamentos
protetores”
retornassem aos cérebros que os haviam gerado.
Sentiu o
mundo balançar em torno dele. Sabia que tremendas forças se
defrontavam por aqui, e também sabia que, quando a luta chegasse ao
clímax, essas forças se manifestariam mecanicamente, abalando as
paredes do corredor e fazendo ruir os tetos.
Não
receava esse fato. Pretendia sair vitorioso na luta; se não saísse,
pouco lhe importava a maneira de morrer.
Kalal
parou, a fim de que por um instante seu cérebro fosse liberado do
esforço de comandar os movimentos das pernas. Dessa forma
concentrou-o exclusivamente para a tarefa que se propusera. O êxito
foi imediato. A esfera incandescente que surgira diante de seus olhos
empalideceu. Via nitidamente as máquinas que havia na Sala dos
Pensamentos Protetores.
E viu
outra coisa...
Viu os
rostos dos cinco sacerdotes sentados na sala, que deixavam fluir seus
pensamentos para dentro dos conversores, a fim de que contribuíssem
para transformar o campo defensivo do templo num obstáculo realmente
impenetrável.
*
* *
O mais
velho dentre os cinco “protetores”
foi o único que mais tarde, nos momentos em que o estado de confusão
mental se iluminava ligeiramente, lembrava o curso da catástrofe.
Evidentemente
houvera a interferência daquelas vibrações, que todos haviam
notado, mas com as quais ninguém se preocupara, já que pensavam que
em hipótese alguma deveriam descuidar-se da tarefa de proteger o
templo.
Mesmo
quando os pensamentos estranhos se tornaram tão poderosos que
apagavam quase que por completo os pensamentos dos “protetores”
e neutralizavam seus efeitos, continuaram a manter-se em silêncio.
Foi seu
grande erro. Deveriam ter interrompido o fluxo de seus pensamentos a
fim de procurar a causa da interferência. Se tivessem agido assim,
provavelmente os conversores não deixariam de funcionar de repente.
Isso
aconteceu entre um pensamento e outro. Os outros não se lembravam de
mais nada.
Dentro de
um milésimo de segundo morreram ou ficaram inconscientes. Só o
cérebro de Okarol, o mais velho do grupo, possuía forças para
resistir pelo menos por alguns segundos à interferência assassina.
Reconheceu
os pensamentos que investiam contra seu cérebro. Eram os mesmos que
pouco antes haviam passado pelo cérebro dele e de seus companheiros,
e que os conversores se recusaram a aceitar:
— Estamos
reforçando o campo defensivo. Estamos protegendo o Templo da
Verdade.
A
compenetração com que esses pensamentos foram concebidos era
tamanha que seu conteúdo energético, transformado pelos
conversores, tornava-se suficiente para multiplicar por mil a
potência do campo defensivo gerado pela aparelhagem mecânica.
E agora
estes pensamentos estavam sendo refletidos para os cérebros de que
provinham. Sua potência seria suficiente para repelir o inimigo mais
poderoso que se aproximasse do templo.
E essa
mesma potência era capaz de destroçar os cérebros que os haviam
concebido.
Okarol
compreendeu que uma coisa horrível devia ter acontecido.
Foi a
última idéia transmitida à sua mente.
*
* *
Ron saltou
para o lado quando a parede mais próxima desabou ruidosamente,
caindo no corredor. Ofegante, parou junto aos destroços, que cobriam
o chão, e ajudou Meech, cujos pés haviam sido arrastados para o
lado.
A terra
foi saindo da parede e encheu o corredor. Ron gritou pelos amigos:
— Larry!
Lofty!...
Mas não
ouviu nenhum ruído além do farfalhar da terra. Larry e Lofty haviam
ficado do outro lado do desabamento, juntamente com Kazec, ou então
estavam soterrados.
Naquele
momento Ron não saberia o que fazer. Acontece que Meech Hannigan
estava com ele, e todas as atenções do robô dirigiam-se
exclusivamente ao cumprimento mais rápido da tarefa que lhe fora
proposta.
— Olhe!
— exclamou Meech. — Deve ser ele. É um homem só.
Ron
virou-se abruptamente. A claridade que enchia o corredor, mais
adiante, ofuscava a vista, e por isso concorria antes para ocultar as
coisas que para revelá-las. Mas viu-se perfeitamente o vulto confuso
de um homem solitário que cambaleava em meio à claridade como se
estivesse embriagado.
— O
ponto máximo da intensidade das radiações já foi ultrapassado,
sir — informou Meech em tom objetivo. — Acredito que a maior
parte das fontes de radiações deixou de existir. Só restam as que
provêm desse homem.
Com isso
Ron voltou a raciocinar. De qualquer maneira Lofty e Larry deviam
estar salvos, ou então nada poderia fazer sem ferramentas, mesmo que
contasse com o auxílio de Meech.
Este já
se colocara em movimento. Avançou a passos largos pela parte intacta
do corredor, e Ron o seguiu o mais depressa que pôde.
O corredor
terminava numa sala onde se viam cinco homens atirados no chão. Seus
corpos davam sinais de estranhas contorções.
Deviam
estar mortos ou inconscientes. Todos trajavam as vestes suntuosas dos
sacerdotes do culto de Baalol. Uma série de máquinas enfileirava-se
junto às paredes. Naquele momento Ron não sabia qual era a
finalidade desses aparelhos.
Fitou os
rostos enrijecidos e os olhos muito arregalados dos sacerdotes.
Lançou um olhar indagador para Meech. Este balançou a cabeça.
— Não,
sir, não é nenhum deles. Suponho que isto seja obra de outro
alguém. A localização vem de fora.
Apontou
para a parede oposta.
— Então
vamos andando! — ordenou Ron.
O estranho
ambiente deixava-o irritado.
Não sabia
explicar por que de repente as paredes desabavam, a terra deslizava e
havia gente morta ou inconsciente pelo chão. Por ali aconteciam
coisas que ficavam além de sua capacidade de raciocínio. Isso
deixou-o nervoso. Não possuía a frieza de Meech, que era capaz de
armazenar num banco de dados de alta capacidade as coisas que não
compreendia e ali os deixava até que alguém lhe fornecesse uma
explicação.
Para ele
só havia aquele homem que se encontrava mais adiante. Caçar um
homem e agarrá-lo representava um objetivo concreto, que se
conseguia compreender. Ron agarrou-se a esta idéia. Com um salto
colocou-se junto à porta e abriu-a. Queria sair. Não suportava mais
a visão daqueles rostos enrijecidos com os olhos muito arregalados.
A porta
rolou para o lado. Ron não conseguiu enxergar o que havia à sua
frente. Alguma coisa levantou-o e envolveu-o numa claridade
ofuscante, que lhe doía os olhos.
Ron pôs-se
a gritar.
*
* *
Percebeu
que estava sendo perseguido. De inicio acreditara que fosse apenas um
homem, pois só captava os impulsos de um cérebro. Ao notar de
repente que havia duas pessoas no seu encalço, quase perdera o
autocontrole. Sabia que teria de livrar-se deles. Teria de esperá-los
e eliminá-los. Acontece que a súbita aparição de um homem, cujos
pensamentos não conseguia identificar, deixara-o confuso. Depois da
luta com os cinco “protetores”
mal e mal possuía forças para concentrar-se.
Apesar
disso resolveu arriscar. Escondeu-se atrás da porta que saía da
sala e esperou que seus perseguidores a abrissem. A proximidade do
perigo deixou-o um pouco mais tranqüilo.
Depois de
algum tempo conseguiu reunir a concentração necessária a
eliminação de dois inimigos muito ativos.
A porta
rolou para o lado, e Kalal deu vazão às suas energias. Uma dor
lancinante atravessou seu cérebro. Percebeu que, quando conseguisse
conquistar a liberdade, teria de descansar um pouco.
Percebeu,
também, que o espírito de um dos homens recuou diante do ataque
violento e fugiu. Mas subitamente sentiu-se gelado de pavor.
O outro
homem não mostrou a menor reação. Ao menos não reagiu ao ataque
de Kalal. Viu outra coisa. Kalal sentiu-se ameaçado.
*
* *
Meech
Hannigan compreendeu a situação mais depressa do que qualquer
cérebro orgânico seria capaz de concebê-la em pensamento. Ouviu o
grito de Ron e viu-o cambalear.
Vislumbrou
a figura imóvel na penumbra. Sabia o que devia fazer.
Ron caiu.
O revólver escapou de sua mão. Num movimento instantâneo Meech
abaixou-se e pegou-o. Sua arma pessoal, que era um pesado radiador
térmico, ainda estava preparada para disparar. Menos de um segundo
se passou desde o momento em que Kalal deu livre jogo ao seu
espírito, tentando livrar-se dos perseguidores, até o instante em
que Meech disparou o primeiro tiro.
Ouviu-se a
descarga ruidosa do revólver, uma, duas e três vezes. E quase
simultaneamente, o som cantante provocado pelo raio incandescente da
arma térmica. Meech ouviu um grito selvagem e soltou a tecla do
radiador. A ofuscante descarga energética não afetou seus olhos
mecânicos. Viu a sombra que se esgueirava mais adiante, no corredor,
e ouviu os passos arrastados de Kalal, que saía correndo.
Meech
cuidou de Ron. Este ergueu-se sobre os cotovelos e lançou um olhar
de espanto para o robô.
— O
que... o que houve? — perguntou com a voz rouca.
— Ele
nos esperou aqui — respondeu Meech. — Provavelmente queria dar
cabo de nós. Eu o espantei.
Ao que
parecia, o incidente não afetara a capacidade de raciocínio de Ron.
— Vamos
atrás dele! — disse, falando entre os dentes. — Se não nos
cuidarmos, acabará escapando.
Meech
saltou à frente de Ron. A velocidade com que se deslocava esse
corpo, feito quase exclusivamente de peças metálicas, e que tinha
um peso muito superior ao de um homem, era verdadeiramente espantosa.
Ron teve
de esforçar-se para manter-se atrás dele.
Levaram
muito tempo sem encontrar o menor vestígio do sacerdote que fugia
deles. Na opinião de Meech, devia estar ferido.
Mas,
apesar disso, parecia capaz de deslocar-se mais depressa que o robô.
Finalmente
a extensão do corredor e o silêncio nele reinante começaram a
provocar suspeitas em Ron. Lembrou-se do elevador antigravitacional
que ficara para trás, e que Lofty só conseguira descobrir depois de
uma busca muito cuidadosa. Será que de tanta pressa tinham passado
por outro elevador como este?
Comunicou
suas suspeitas a Meech, e este logo manifestou a opinião de que
deveriam voltar e examinar as paredes do corredor.
Levaram
uns dez minutos para descobrir a porta do elevador antigravitacional.
Subiram
rapidamente pelo elevador que ficava atrás da porta. Ron sabia
perfeitamente que estavam para chegar à parte do templo situada além
da superfície, que era a mais perigosa.
Dali a
pouco viram uma mancha luminosa acima deles. Quando ainda se
encontrava bem distante desta, Meech percebeu que naquele lugar o
elevador conduzia ao ar livre, e que a luminosidade provinha do sol
de Utik, que nesse meio tempo voltara a nascer. No entanto, nem mesmo
Meech era capaz de formular uma previsão sobre aquilo que
encontrariam quando chegassem lá em cima, provavelmente num dos
pátios do templo.
Depois que
tinham mergulhado nas instalações subterrâneas do templo, várias
coisas haviam acontecido na superfície de Utik.
8
Homunc:
— O
senhor mantém contato permanente com o que acontece em Utik?
Aquilo:
— Naturalmente.
Senão eu não me divertiria com isso. O ativador é um excelente
aparelho de comunicação.
Pausa.
Aquilo:
— Mas
pelo que vejo, isso não serve exclusivamente ao meu prazer.
Homunc:
— O
senhor me deixa curioso.
Aquilo:
— Isso
confirma mais uma vez a tese de que a herança do Império de Árcon
deverá caber aos terranos. Não demorarão a dominar a Galáxia. A
maneira pela qual quatro indivíduos arrojados se impõem face às
paracapacidades dos sacerdotes de Baalol representa um espetáculo
nunca visto.
Seguiu-se
uma gargalhada.
Aquilo:
— Está
vendo as dificuldades que o chefe enfrenta neste momento?
Homunc:
— Não.
Recebo as imagens com certo atraso. Será que o senhor...
Aquilo:
— Está
tentando livrar-se dos braços de uma mulher que implora que ele lhe
diga onde está escondida a flor violeta milagrosa.
*
* *
O grande
pátio estava abarrotado de gente. O choro e os gritos enchiam o ar.
Os sacerdotes haviam desaparecido. A massa que se comprimia no pátio
era formada por utikenses. Eram homens e mulheres.
Meech e
Ron mal e mal conseguiram sair do poço do elevador. Algumas pessoas
viram-nos sair de lá. Dirigiram-se a eles e os assediavam com
perguntas. Gritavam todos ao mesmo tempo. A única coisa que Ron
compreendia era que estavam preocupados com a flor milagrosa,
desaparecida sem que ninguém soubesse por quê.
— O
campo defensivo deve ter desaparecido — gritou Ron para o robô. —
Penetraram no templo, e o sacerdote fugiu bem diante de seu nariz.
Meech
levantou a cabeça e examinou o céu. Ron compreendeu seu raciocínio.
Sem dúvida havia no templo carros automáticos ou máquinas voadoras
ainda mais velozes. O sacerdote aproveitara a confusão para
apoderar-se de um desses veículos e fugir.
— Há
alguns pontos no ar, lá adiante — disse Meech depois de algum
tempo, enquanto as pessoas que formulavam perguntas empurravam Ron de
um lado para outro. — Esses pontos afastam-se em alta velocidade na
direção norte. Talvez um desses seja ele. Provavelmente os outros
pontos são veículos de Utik, pilotados por homens empenhados em
salvar a flor.
Com um
movimento resoluto, Ron afastou a massa ululante.
— Temos
de segui-lo — gritou para Meech. — Não é possível que no
templo haja apenas um veículo.
Precisamos
encontrar outro.
Meech fez
que sim.
— Tomara
que não o percamos de vista — respondeu em voz alta. — Mal e mal
consigo captar suas irradiações.
Colocou-se
à frente de Ron e começou a abrir caminho por entre a multidão.
Atravessaram o pátio. Uma mulher precipitou-se sobre Ron e, em meio
a uma série de soluços histéricos, perguntou-lhe se não sabia
informar para onde fora levada a flor milagrosa. Agarrava-se a ele.
Ron não
quis machucá-la, e por isso perdeu alguns segundos preciosos antes
de livrar-se dela.
Atravessaram
um estreito corredor situado entre dois edifícios sem janela, em
forma de caixote, e atingiram outro pátio.
Lá se
depararam com o mesmo quadro. Os homens e mulheres comprimiam-se e
gritavam que nem possessos. Também aqui não viram o menor sinal dos
sacerdotes de Baalol, que por certo haviam fugido para dentro dos
edifícios do templo a fim de escapar ao tumulto.
Havia
apenas uma diferença entre o pátio em que se encontravam e aquele
em que haviam estado antes. Acima das cabeças dos homens viam-se
vários carros automáticos. Esses carros achavam-se vazios. Pareciam
esperar apenas que os dois terranos escolhessem um deles para iniciar
a perseguição.
Uma vez
nesse pátio, Meech só teve de utilizar seus dons especiais até que
tivessem atingido a metade da área. Quando chegaram lá, uma coisa
estranha aconteceu.
Os gritos
cessaram.
De repente
o silêncio passou a reinar por ali. Apenas se ouvia o som de muitos
pés. As pessoas já não se empurravam e comprimiam. Mantinham-se
calmas e fitavam-se perplexas.
Ron levou
apenas um segundo para compreender o que havia acontecido. A área de
ação da influência hipnótica Irradiada por aquele estranho
sacerdote tinha um raio de vinte e cinco quilômetros. No momento em
que o sacerdote ultrapassou a distância crítica, os homens deixaram
de gritar. As pessoas ficaram livres. Em compensação outras, que se
encontravam na área norte da cidade, estariam sujeitas à influência
hipnótica.
Ron e
Meech aproveitaram a oportunidade. Passaram a caminhar pelo pátio
ainda mais rapidamente que antes. Atingiram a fileira de veículos e
entraram no que se encontrava mais próximo.
Ron soltou
um suspiro de alívio ao notar que se tratava de um carro que,
segundo tudo Indicava, os antis haviam adquirido em Utik. Entendia
seu mecanismo de funcionamento. Fez o veículo subir. Enquanto lá
embaixo os telhados do templo se afastavam, espiava atentamente para
o norte.
Conhecia
os promontórios da cadeia de montanhas que se estendia ao norte da
cidade, atrás da linha do horizonte. Lembrou-se daquilo que
aprendera da geografia de Utik, antes de sair da Terra. Ao norte
ficava o enorme deserto, que se estendia até o litoral situado do
lado oposto do continente. Era uma extensão imensa de areia, leitos
de rios secos e montanhas desoladas.
O
esconderijo escolhido pelo sacerdote não era nada mau.
*
* *
O
sacerdote não conseguiu sentir-se aliviado.
A ferida
causada pelo medonho desconhecido não era muito perigosa, mas
bastante dolorosa.
Mas o fato
de que aquele desconhecido sabia que para defender-se de um sacerdote
de Baalol tornava-se necessário atirar simultaneamente com uma arma
de projéteis e uma de radiações dava-lhe o que pensar.
Evidentemente
os dois homens que o haviam perseguido eram terranos.
“Será
que os terranos já conhecem todos os segredos do culto de Baalol?”,
indagou-se.
Acabou
afastando este pensamento, pois, de qualquer maneira, não teria como
dar resposta a esta pergunta. Teria de olhar para a frente. Estava a
caminho do deserto.
Conseguira
livrar-se dos perseguidores possuídos pela hipnose, que haviam
ficado à espreita em seus carros automáticos, acima do templo.
Ali estava
ele. O deserto estendia-se sob seu veículo. A sua frente erguiam-se
as montanhas. Se conseguisse esconder-se por alguns dias nas grutas
inacessíveis, o povo de Massenock se acalmaria e ele poderia
encontrar um caminho que o levasse em definitivo para a segurança.
Fez seu
veículo, entregue ao piloto automático, subir mais um pouco, a fim
de ampliar seu raio de visão. Naquele instante um brilho reluzente
penetrou em seus olhos. Ficou apavorado ao virar-se e descobrir um
minúsculo ponto fulgurante. Era um veículo desconhecido, que se
encontrava bem à sua frente. Isto é, em sua rota, e aparentemente
se mantinha suspenso no ar, completamente imóvel.
Sentiu-se
dominado pelo pânico. Sabia que estava indefeso. Seu cérebro já
não possuía forças suficientes para gerar um campo defensivo
eficaz. E o carro automático não tinha o equipamento necessário à
produção de um campo defensivo mecânico, que pudesse ser reforçado
com suas energias mentais.
Só lhe
restava a fuga.
Fez o
carro descer bruscamente. As montanhas aproximaram-se numa velocidade
estonteante. Uma gruta escura abriu-se à sua frente. Kalal chegou à
conclusão de que não poderia haver melhor lugar para esconder-se
que aquela fenda negra.
Precipitou-se
sobre ela. Segurou a direção e lançou um olhar atento para cima.
Quando notou que nesse meio tempo o veículo desconhecido se havia
aproximado a tal ponto que reconhecia as cabeças dos dois ocupantes
pelo pára-brisa, seu coração quase parou. O veículo dos seus
perseguidores também se precipitava para o solo, e isso num ângulo
tão íngreme que penetraria na gruta antes do de Kalal, num ponto
situado mais ao norte.
Kalal
procurou avaliar a distância. Chegou a acreditar que ainda teria uma
chance de atingir o esconderijo antes do outro. Mas acabou
reconhecendo que o desconhecido era muito mais veloz do que
acreditara. Viu que o veículo descia sobre o seu em linha oblíqua.
Vinha
exatamente na sua direção! Naquele instante percebeu as intenções
do inimigo.
“Eles
querem me abalroar!”,
refletiu.
Kalal
recuperou parte do sangue-frio. Conservou a rota de seu veículo até
o último instante.
Poucos
segundos antes do impacto, puxou a direção para trás. Um terrível
solavanco sacudiu o veículo. A carroçaria gemeu como se quisesse
desmanchar-se. Mas o veículo obedeceu. A popa ergueu-se e Kalal
disparou acima do desconhecido.
Acontece
que não avaliara corretamente os planos do inimigo. Dedicara sua
atenção exclusivamente ao veículo que se aproximava, e por isso
não viu a saliência da rocha que se estendia à sua direita. O
inimigo contara com sua manobra. Por um ou dois segundos o carro de
Kalal continuou a subir velozmente. De repente o sacerdote percebeu a
sombra negra que parecia descer sobre ele. Quis fazer mais um jogo de
direção, mas naquele instante o carro bateu ruidosamente contra a
saliência da rocha.
A
velocidade do veículo fora bastante elevada. A carroçaria
esfacelou-se e caiu na gruta, juntamente com o pesado chassi.
Kalal, que
perdeu os sentidos, teve mais sorte. Também rolou pela encosta
íngreme. Mas antes que caísse na gruta, foi detido por uma
reentrância que se estendia na beira do precipício. E ficou por lá.
O segundo
impacto também foi muito forte. Mas não custaria a vida de Kalal.
*
* *
Depois de
trinta minutos, Meech anunciou que os sinais irradiados pelo
sacerdote estavam sendo captados com mais nitidez.
Ron esteve
a ponto de responder, mas antes que abrisse a boca ouviu o zumbido do
pequeno receptor Implantado sob a pele, atrás do ouvido.
Ergueu-se
como se tivesse levado um choque. Levantou o braço esquerdo e falou
para dentro do microfone:
— Gafanhoto!
Quem está falando?
— Aqui
também é o gafanhoto — respondeu a voz de Larry Randall. —
Estamos vendo vocês.
— Larry...!
— gritou Ron com a voz rouca. — Como conseguiram livrar-se
daquela confusão? Será que Lofty...?
— Estão
todos a bordo — respondeu Larry com a voz alegre. — Lofty está
sentado a meu lado, e Kazek está jogado no chão, pois não se
agüenta de medo. Depois contaremos tudo com minúcias. No momento
temos coisa mais importante a fazer. O sujeito está bem à nossa
frente.
Deve
avistar-nos a qualquer momento.
— Que
sujeito?
— O
anti!
— Detenham-no.
Iremos o mais depressa que pudermos.
— Muito
bem. Meu plano era exatamente este. É preferível que até lá não
usemos o rádio. É possível que o anti possua algum aparelho que
lhe permita captar nossas transmissões.
— De
acordo. Desligo.
Meech
olhou em torno. Descobriu o veículo de Larry, que se destacava bem
no alto contra o azul do céu. Dali a pouco, também viu a mancha
escura formada pelo veículo do anti à face das montanhas. Meech
pôde acompanhar parte da manobra de que Larry se valeu para deter o
fugitivo. Mas só quando Larry voltou a chamar e lhes apresentou seu
relato, Ron e o robô ficaram sabendo do que realmente aconteceu.
Concluiu com estas palavras:
— Estamos
bem acima do lugar em que caiu o carro. Esse sujeito deve ter parte
com o demônio. Ainda se mexe.
*
* *
Pouco
acima do lugar em que o veículo de Kalal batera na rocha, Ron
encontrou uma pequena área em que pôde pousar seu carro. Durante o
vôo vira a abertura em forma de chaminé que descia quase
verticalmente da saliência, formando um acesso bastante confortável
à gruta. Ron sabia que teria que descer por lá se quisesse salvar o
sacerdote. E pretendia salvá-lo para que pudesse esclarecer as
coisas estranhas que tinham acontecido em Utik nesses últimos dias.
Larry
manteve o carro suspenso no ar. Colocou-se bem acima da gruta, para
poder ficar de olho no sacerdote e no veículo de Ron. Deixou que
Meech descesse em primeiro lugar e certificou-se de que o carro
estava seguramente estacionado na pequena saliência. Atravessaram-na
e chegaram ao lugar em que a rocha descia fortemente, levando à
beira do precipício. Uma vez chegado á parte inferior da entrada em
forma de chaminé, Meech aguardou que Ron o alcançasse.
O sol já
ia alto. Seus raios quentes fustigavam a rocha nua. O ar tremeluzia
num calor quase insuportável. Ron cobriu os olhos com a mão a fim
de enxergar melhor. Lá embaixo, a menos de quinze metros do lugar em
que se encontrava, o anti estava deitado sobre a pequena saliência
em forma de cocho que o detivera na queda. Suas vestes preciosas
estavam rasgadas e empoeiradas. O rosto, ensangüentado. Parecia ter
fraturado um dos braços, que se mantinha em posição estranha.
Mas aquele
homem ainda estava vivo. Ron viu-o erguer-se, apoiar-se sobre os
joelhos e olhar para cima. Não sabia qual seria o comportamento do
anti. Era possível que seu espírito combativo continuasse intacto.
Ron esteve a ponto de gritar que viera para ajudar. Mas não teve
tempo.
Alguma
coisa precipitou-se sobre ele. Não a viu, mas pôde senti-la
perfeitamente. Vinha da frente, e investia com uma força tremenda,
aos gritos. Fê-lo perder o equilíbrio. Cambaleou, para trás, mas
as pernas perderam o apoio. Caiu de costas e escorregou encosta
abaixo. Num susto impotente percebeu que não haveria mais nada que
pudesse deter sua queda no abismo.
Passaria
pelo anti e cairia por cima da saliência.
*
* *
Kalal não
tinha nenhuma impressão nítida. Não sabia se ainda valeria a pena
entreter alguma esperança. Estava furioso. Viu os dois desconhecidos
— os mesmos do templo — surgirem na chaminé. Notou os capacetes
reluzentes em suas cabeças e, de repente, compreendeu que estes os
protegiam contra a influência hipnótica irradiada por seu ativador.
Odiou-os.
Queria derrotar o Grande Baalol e transformar-se no próprio Baalol.
Estes dois
haviam frustrado seus planos.
Teria de
matá-los, nem que também morresse.
Concentrou-se
pela última vez em sua vida e... desferiu seu golpe.
*
* *
Meech
saltou.
Foi um
salto desesperado, que o fez percorrer mais de três quartas partes
do paredão que tinha à sua frente. De qualquer forma, passou por
cima de Ron Landry, que caía, interpôs-se em seu caminho e
segurou-o.
Dois
metros abaixo do lugar em que se encontravam, estendia-se o negrume
do precipício.
Meech não
se contentou com a salvação de seu superior. Percebeu o perigo que
continuava a ameaçá-los naquela saliência de rocha e agiu
imediatamente.
Segurou
sua arma na mão direita, enquanto que com a esquerda pegou o
revólver de Ron.
Atirou.
Desta vez
não se contentou com três tiros. A arma havia sido recarregada.
Esvaziou o tambor do revólver antiquado e viu o sacerdote voltar à
posição original. Não se mexia mais, mas Meech teve a impressão
de que ainda estava vivo.
Ron
começou a mover-se.
— Este
patife — disse entre os dentes. — Por pouco não me quebra o
pescoço.
Voltou a
colocar-se de pé. Acompanhado por Meech, foi até a saliência em
que estava deitado o anti.
Um dos
tiros disparados por Meech o atingira no peito.
Mas havia
outra coisa, uma saliência entre as costelas. Até parecia que uma
operação fora feita sob a pele. Ron apalpou o lugar, mas quando
Kalal começou a gemer de dor, tirou a mão.
O anti
abriu os olhos. Estavam cobertos por uma névoa, como se não
enxergasse bem. Fez um esforço para erguer-se, manteve-se imóvel
por um instante e voltou a descansar no chão.
— Maldito
seja o Grande Baalol em Trakarat! — disse num gemido.
Foram suas
últimas palavras. Dali a alguns segundos estava morto.
*
* *
O Coronel
Nike Quinto parecia não ter pressa. Voltou a discutir calmamente com
seus homens a operação desenvolvida em Utik — isso depois que o
caso fora resolvido.
— Dos
resultados do interrogatório dos cinco prisioneiros capturados pelo
sargento Hannigan, quando ele penetrou pela primeira vez na área
submetida ao efeito hipnótico — principiou Nike Quinto — e do
exame do sacerdote morto, conclui-se, sem a menor sombra de dúvida,
que o ativador celular, que provavelmente é um dos vinte que o
administrador solar obteve há pouco em Peregrino, é responsável
por essa confusão. Conforme se depreende do próprio nome, um
ativador celular deveria ativar as células e tornar indestrutível a
vida de quem o traz no corpo.
Não
sabemos por que motivo este aparelho desandou por completo. É
possível que isso tenha alguma relação com o estranho senso de
humor de que é dotado o Ser de Peregrino, mas também é possível
que apenas se trate de um defeito de construção. Saberemos mais a
esse respeito quando descobrirmos o que está acontecendo com os
outros dezenove homens que receberam ativadores celulares.
Fez uma
pausa e lançou um olhar para as anotações sobre a mesa. Fungava
fortemente, como se tivesse de fazer um esforço enorme para
orientar-se, e o suor porejava em seu rosto. Numa ligeira observação
ressaltou que uma preleção tão prolongada representava uma carga
excessiva para ele e sua pressão sanguínea, mas finalmente sua voz
aguda voltou a assumir um tom mais tranqüilo:
— Até
mesmo o estranho fenômeno das pessoas inconscientes ou mortas
encontradas no salão subterrâneo do templo pôde ser explicado
graças à boa vontade dos prisioneiros. Ainda não conseguimos
desvendar os segredos propriamente ditos. Os templos dos sacerdotes
de Baalol são cercados por um campo defensivo gerado por meio de um
equipamento mecânico. Acontece que não consideram suficiente esse
tipo de proteção, e por isso esse campo defensivo é reforçado
através a energia de seus cérebros que, como se sabe, são dotados
de intensas capacidades parapsicológicas. Por isso o templo mantém
um grupo de guardas permanentes, cuja tarefa consiste exclusivamente
em projetar sobre o campo defensivo aquilo que eles chamam de
“pensamentos
protetores”.
Pela forma desajeitada que me exprimo os senhores já devem ter
notado que não entendo muito dessas coisas.
“Kalal,
que os senhores acabaram por abater, provavelmente estava fugindo de
sua própria gente. Não sabemos por quê. Talvez quisessem
eliminá-lo por causa do perigo que ele representava para o templo, e
ele não concordasse com isso. É apenas uma suposição. De qualquer
maneira foi para baixo da superfície e eliminou os cinco homens que
projetavam os “pensamentos
protetores”.
Deve ter sido um combate telepático de proporções inimagináveis.
Os
senhores tiveram oportunidade de sentir as energias mecânicas
desencadeadas pelas forças mentais durante o combate.
“Kalal
conseguiu fugir quando, depois da desativação do campo defensivo, a
massa enfurecida tomou de assalto as áreas do templo. Acontece que
depois disso os senhores ainda conseguiram caçá-lo.”
Passou a
mão pela testa suada, como se tivesse dificuldade de recordar algum
detalhe.
— Pois
é... Por pouco o caso não se complica ainda mais. Ao que parece, um
dos sacerdotes de Baalol chamou uma divisão da frota dos saltadores.
É que, pouco depois da fuga de Kalal, trinta naves saltadoras
apareceram sobre Utik. Acontece que, nesse meio tempo, as unidades da
frota arcônida haviam iniciado o bloqueio do planeta, motivo por que
os saltadores tiveram de retirar-se sem conseguirem nada.
“Com
isso o caso de Utik está encerrado para nós. Não haverá
conseqüências diplomáticas. Por enquanto o administrador nem
sequer ouviu falar nisso. Não temos mais nenhum motivo para
preocupar-nos com o templo de Baalol em Utik. Aquela gente terá
muito que fazer para reparar os danos causados nas instalações,
motivo por que não tentará qualquer ação perigosa. Os cinco
prisioneiros, que já se tornaram acessíveis a qualquer forma de
tratamento mental, serão libertados depois que sua memória tiver
sido devidamente bloqueada. Mais alguma pergunta?”
— Tenho
uma, sir — disse Ron Landry.
— Gostaria
de saber como o Capitão Randall conseguiu sair do corredor
destruído. Até aqui andávamos tão nervosos que nem podíamos
pensar nisso.
Nike
Quinto ergueu o dedo.
— Conte,
capitão!
— Não
tenho muita coisa para contar — principiou Larry. — A galeria
desabou à nossa frente, e em momento algum corremos qualquer perigo.
Por momentos fiquei sem saber o que fazer. Mas Lofty teve uma idéia
— lançou um olhar respeitoso para o velho de barba grisalha. —
Disse que, se quisesse fugir, procuraria subir, e que o homem que
estivera à nossa frente provavelmente também agiria assim. Por isso
voltamos pelo mesmo corredor e dirigimo-nos ao elevador.
“Levamos
apenas alguns minutos para chegar à superfície. O elevador dava num
pátio. Chegamos no momento exato em que as massas desvairadas
tomavam o templo de assalto. Escondemo-nos para não sermos
arrastados naquela confusão. De repente Lofty notou que o tumulto se
concentrava em determinado lugar, num dos pátios. Saímos do
esconderijo e fomos olhar de perto. O sacerdote estava cercado de
gente que o regava, acariciava e fazia outras coisas absurdas. Mas ao
que parecia o sacerdote tinha uma idéia bem definida. Em meio à
água e às carícias avançava resolutamente em direção aos
veículos estacionados no pátio.
“Chegamos
lá antes dele. Conseguimos decolar sem que ele o percebesse, pois
havia muitos veículos no ar, acima do pátio, e os olhos do
sacerdote deviam estar cheios de água... O resto da história os
senhores já conhecem.”
Nike
Quinto confirmou com um aceno de cabeça.
— O que
é feito de Kazek? — perguntou.
— Largamo-lo
em seu restaurante — disse Larry com uma risada. — Falou que
nunca mais vai querer nada com os terranos ou com o liquitivo.
Nike
Quinto soltou uma risadinha.
— Está
bem. Mais alguma pergunta?
Fitou os
quatro homens.
— Pois
vão para casa e procurem descansar — recomendou Nike Quinto. —
Isso fará bem à nossa pressão, embora para os senhores este
problema não seja tão grave como para mim. Não ria, sargento
Hannigan, interprete meu conselho como uma recomendação para cuidar
do plasma de seus geradores.
Fez um
sinal com a mão, dando a entender que a palestra estava concluída.
Ron Landry e seus companheiros levantaram-se, cumprimentaram e
dirigiram-se à porta. Mas seu superior não seria Nike Quinto se não
fossem detidos mais uma vez com estas palavras:
— Aliás,
há um ponto que ainda não foi esclarecido. É bem possível que um
belo dia nós tenhamos de esclarecê-lo: Quem é o Grande Baalol... e
onde fica Trakarat?
*
* *
Homunc:
— Quer
dizer que o caso Utik está encerrado, senhor?
Aquilo:
— Sim,
é claro que o caso Utik está encerrado. Acontece que entregamos
vinte e um ativadores celulares.
Homunc:
— Quer
dizer que teremos outras oportunidades para divertir-nos?
Aquilo:
— Naturalmente.
Veja por exemplo o caso onde um sumo sacerdote do culto de Baalol sai
por aí para pregar a colaboração fraternal com Perry. Aposto que
criará uma confusão terrível entre aquela gente...!
*
* *
*
*
*
As
brincadeiras macabras do Imortal de Peregrino já são bastante
conhecidas... A Flor Milagrosa de Utik foi uma dessas brincadeiras,
que trouxe conseqüências trágicas.
Acontece
que o destino do sacerdote de Baalol não pode ser comparado com
aquele que aguarda Cardif, o usurpador... De qualquer maneira, o
Imortal tem a decência de agir...
Em O
Chamado da Eternidade,
título do próximo volume, Cardif terá uma surpresa... uma triste
surpresa!

Nenhum comentário:
Postar um comentário