segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-113 - A Flor Milagrosa de Utik - Kurt Mahr [Parte 3]

A instalação sinalizadora consistia apenas num botão iluminado, embutido na ala direita do portão. Kazek comprimiu-o na seqüência breve, longo, longo, breve, breve, breve.
Depois disso batidas de gongo ressoaram na mesma seqüência pelo corredor.
Seguiram-se alguns instantes de extrema tensão. Finalmente o portão emitiu um zumbido. Uma fenda estreita abriu-se no centro, transformou-se numa abertura larga e derramou uma luz ofuscante no corredor.
Ron, Lofty e Meech puseram as armas engatilhadas assim que as vestes do sacerdote se tornaram visíveis.

* * *

Kalal sobressaltou-se.
Estavam chegando. Vinham em grande número, e não se encontravam longe. Se não tivesse ficado entretido por tanto tempo com seus pensamentos, teria notado a presença deles mais cedo.
Levantou-se de um salto e prestou atenção. Captou seus pensamentos, vindos de todas as direções.
Deve estar por aqui. Já olhamos os outros lugares em que poderia esconder-se.
Fiz papel de idiota!”, pensou. “Não devia ter ficado tanto tempo no mesmo lugar. Minha única chance consiste em movimentar-me. Sou obrigado a ir a um lugar onde ainda não me procuraram.
Resolveu concretizar essa idéia, desde que ainda tivesse oportunidade para isso.
Abriu cautelosamente a porta do pequeno recinto em que estivera até então. O corredor estava vazio, O único ruído era o zumbido monótono dos dutos de energia, que corriam sob o teto como se fossem tubos de calefação antiquados. Mas, depois de alguns metros, o corredor descrevia uma curva, tanto à sua direita como à sua esquerda. Kalal sabia que não conseguiria ultrapassar essa curva sem ser visto por seus perseguidores.
Estava encurralado numa armadilha.
Recuou para dentro do pequeno cômodo e fez votos de que não fossem entrar ali.
Sua esperança não se realizou. Menos de um minuto depois de ter fechado a porta sentiu os pensamentos de seus perseguidores lá no corredor. Estavam curiosos. E seus cérebros também se achavam tomados de espanto pelas coisas que fizera lá em cima, no interior do templo, quando Argagal e os outros sacerdotes procuraram matá-lo. Foi só então que descobriu o que acontecera, e seu espanto foi quase igual ao dos homens cujos pensamentos estava captando.
Que força imensa! Matou três deles, e nenhum dos que sobreviveram jamais voltará a ser um sacerdote de quarto grau.
Talvez nem volte a ser sacerdote — afirmou o outro. — Argagal só falou palavras confusas depois de ter recuperado os sentidos. Os médicos acreditam que seu estado é grave.
O que mais me entristece é que isso tenha acontecido justamente com Argagal — foi o que emitiu o primeiro.
O outro manteve-se em silêncio. Passada a primeira confusão, Kalal voltou a raciocinar fria e objetivamente. Constatou que apenas dois dos perseguidores se encontravam do outro lado da porta. Voltou a criar coragem. Deviam estar bem à frente do recinto em que se achava.
Vamos dar uma olhada — sugeriu um deles. — Abrirei a porta. Tome cuidado quando puser os olhos lá dentro.
Não deve estar escondido justamente aqui — disse o outro com certa ingenuidade.
Kalal preparou-se. Encontrava-se a dois metros da porta, de forma tal que não poderia deixar de ver seu perseguidor assim que a mesma se abrisse. Ficariam surpresos e, como eram apenas sacerdotes de nono ou décimo grau, esse momento de surpresa representaria uma grande chance para Kalal.
A porta rangeu enquanto rolava para o lado. Um dos dois sacerdotes inclinou o corpo para a frente, a fim de observar melhor o que havia no interior daquele recinto. Viu Kalal bem à sua frente e recuou com um grito de pavor, o outro continuava no corredor, mas Kalal teve a satisfação de constatar que também empalideceu.
Era o momento pelo qual tinha esperado. A força gerada pelo desespero de seu cérebro potente investiu contra os dois com a fúria de um animal selvagem, atingindo-os no momento em que o pânico era maior. De qualquer maneira, os dois dificilmente estariam em condições de resistir a um sacerdote de segundo grau. A batalha já estava decidida antes de ter começado.
Os dois jovens sacerdotes caíram ao chão entre gemidos e contorções. Kalal viu que até o último instante procuravam resistir ao seu ataque. A vontade deles resistia à submissão; seus pensamentos investiam contra os de Kalal.
Finalmente desistiram. Kalal fez penetrar seu fluxo mental pela brecha criada por seu espírito que tudo devorava. A torrente encheu seus cérebros, fê-los transbordar e rompeu todos os diques.
Kalal só diminuiu sua concentração quando notou que estava desperdiçando suas energias em cérebros mortos. O sumo sacerdote descontraiu-se com um ligeiro suspiro, mas logo percebeu que seu crânio ainda encerrava reservas de energia que lhe permitiriam rechaçar mais dois perseguidores.
Acontece que não havia mais nenhum. Os pensamentos que ainda conseguia notar estavam muito distantes e não pareciam perigosos.
Lançou mais um olhar para os mortos e dirigiu-se para a esquerda. Estacou por um instante junto à curva do corredor e olhou cautelosamente para o outro lado. O caminho estava livre, pois não sentia nenhum pensamento estranho. Caminhou mais alguns metros e viu-se num largo corredor central, que também estava vazio e silencioso. Kalal lembrou-se de ter captado há meia hora uma torrente de pensamentos vinda dessa direção. Concluiu que esse setor das instalações subterrâneas provavelmente já fora revistado, motivo por que ali estaria mais seguro que em qualquer outro lugar.
Por um instante lembrou-se do pedido de socorro que expedira antes de ocultar-se sob a superfície. Perguntou a si mesmo por que os saltadores ainda não haviam chegado.
Será que já haviam pousado no planeta? Será que os sacerdotes que se encontravam lá em cima, no templo, conseguiram convencê-los de que ele, Kalal, não merecia seu auxílio?
Tudo era possível. Só naquele instante Kalal constatou ser provável que os saltadores fossem esclarecidos e mandados de volta com um pedido de desculpas; dificilmente conseguiriam chegar sem dificuldade ao lugar onde se encontrava e o tirariam de lá.
Teria de descobrir outro caminho.
Quase no mesmo instante, ou seja, no momento em que viu a seta luminosa vermelha, grande e ofuscante, que brilhava na parede do corredor, teve outra idéia. No primeiro instante, a mesma lhe parecia absurda. Mas acabou concluindo que era perfeitamente viável, ainda mais que a essa hora ele já tinha certeza absoluta de que o ativador lhe conferia tremendas energias mentais.
Isso mesmo. Agiria assim para abrir caminho em direção à liberdade.

* * *

Antes que o sacerdote pudesse vê-los, Meech e Ron saltaram ao mesmo tempo. Com um grande pulo passaram por cima da primeira fita, mais lenta, e da fita rápida do centro, puseram os pés na fita lenta do lado oposto e deixaram que esta os transportasse pelos poucos metros que os separavam do sacerdote estarrecido.
A reação de Larry e Lofty foi exatamente a que havia sido combinada. Não houve necessidade de dar ordens. Passando por trás de Ron e do robô, penetraram na claridade que se via além do portão de entrada. Na passagem Larry deu um empurrão no dono do bar, fazendo com que os acompanhasse aos trambolhões.
As suposições de Ron revelaram-se corretas. O portão parecia estar equipado com um mecanismo mental automático, que o sacerdote acionara, consciente ou inconscientemente, com o sentimento de pavor que se apoderara dele. De qualquer maneira, o portão voltou a fechar-se muito mais depressa do que se abrira.
Só agora Ron teve tempo de examinar mais detidamente o sacerdote e o ambiente em que se encontrava. O homem de vestes preciosas e rosto pálido de susto, que viu à sua frente, parecia jovem e inexperiente. Ron resolveu não subestimá-lo. Era um anti, e os antis são indivíduos perigosos.
Na parte do corredor em que se encontravam, não havia outras surpresas. Do lado direito as fitas transportadoras desapareciam no chão, poucos metros atrás do portão, enquanto do lado esquerdo saíam do chão, deslocando-se em sentido oposto. Passando por uma estreita fenda embaixo do portão, corriam para a parte do corredor pela qual Ron Landry e seus companheiros haviam vindo.
Neste meio tempo, o jovem sacerdote já se recuperara do susto. Dirigiu-se a Kazek e esforçou-se para dar um tom de cólera à voz:
Como se atreve a trazer um número maior de pessoas do que combinamos? O senhor penetrou aqui à força. Será apresentado ao sumo sacerdote juntamente com seus companheiros, a fim de receber um castigo adequado.
Ron segurou o ombro trêmulo de Kazek, sem largar a arma, e empurrou-o para o lado.
Fale comigo, meu jovem — disse com um sorriso. — Nosso amigo não tem culpa desta confusão. Nós o obrigamos a trazer-nos para cá.
O sacerdote parecia indiferente a essas palavras.
Isso não altera nada — disse com a voz muito mais firme. — Os senhores penetraram à força no Templo da Verdade, e o sumo sacerdote os responsabilizará por isso.
Ron negou com a cabeça.
Não temos o menor interesse de apresentar-nos ao seu sumo sacerdote, meu jovem — respondeu. — Apenas queremos que o senhor nos mostre as instalações subterrâneas do templo.
Sabia que a reação do sacerdote consistiria num sorriso irônico de superioridade. Fitou os terranos um por um, lançou um olhar para Kazek, que continuava trêmulo, e disse:
Sinto não poder corresponder ao seu desejo. Infelizmente não estamos preparados para fazer demonstrações a visitantes.
Evidentemente estava firmemente decidido a terminar imediatamente aquela conversa inútil. Por isso prosseguiu em tom bem mais áspero:
Agora eu os levarei à presença dos dirigentes do templo, que decidirão o que será feito dos senhores. Sigam-me.
Não esperou para ver a reação de seus interlocutores. Virou-se e foi caminhando pelo corredor.
Ron manteve-se imóvel. Conhecia as faculdades mentais do sacerdote. O elemento que tinham à sua frente era jovem, motivo por que acreditava que pertencia a uma das graduações subalternas e teria ainda um longo caminho a percorrer, antes de adquirir o domínio das múltiplas capacidades parapsicológicas dos antis. Ron teve a impressão de que sabia o que poderia arriscar face a esse jovem.
Notou uma sensação dolorosa no crânio, enquanto o jovem sacerdote prosseguia em sua caminhada. Compreendeu que o anti estava tentando impor sua vontade a ele e aos seus companheiros. Tentava transmitir-lhes um comando hipnótico para que o acompanhassem, sem oferecer resistência ou tentar a fuga. Ron sabia que algum tempo se passaria antes que o sacerdote conseguisse subjugar sua vontade. Apesar disso estava na hora de agir.
Fique onde está! — gritou Ron para o sacerdote. — Há duas armas diferentes apontadas para o senhor.
O sacerdote deu mais alguns passos hesitantes e inseguros. Finalmente parou e virou-se. Lançou um olhar indagador para Ron, mas seu rosto continuava a exprimir uma autoconfiança inabalável.
E daí...? — perguntou, esticando as palavras.
Pensei que o senhor compreendesse — respondeu Ron em tom sério. — Pare de mexer em nossos cérebros e de tentar hipnotizar-nos.
O jovem anti continuou impassível.
Não mexi em coisa alguma. Dei uma ordem, e os senhores obedecerão. Só isso.
No mesmo instante Ron percebeu que a sensação dolorosa no seu crânio se tornava mais intensa. Lançou um olhar rápido para Larry e viu que o rosto do capitão estava desfigurado pela dor. Kazek pôs-se a gemer baixinho.
Está bem! — respondeu Ron. Aquelas palavras pareciam um tiro de pistola disparado no meio do corredor. — Vejo que não quer compreender. Pois eu lhe explicarei o que acontecerá daqui a pouco. Dois de nós estão com armas na mão. Uma delas é uma arma energética, enquanto a outra é um revólver antiquado, que dispara projéteis materiais. Se não cessar dentro de dez segundos as tentativas de influenciar-nos, as duas armas dispararão ao mesmo tempo.
Parudal, o jovem sacerdote, encolheu-se. A superioridade ostensiva foi substituída por um desânimo total. Sentiu-se sacudido pelo medo. Aqueles desconhecidos sabiam do seu segredo. Era, em parte, invulnerável, tal qual todos os sacerdotes, exceto talvez o sumo sacerdote do culto de Baalol. Qualquer sacerdote poderia recorrer às suas faculdades parapsicológicas para envolver-se em dois tipos diferentes de campos defensivos.
Um o protegia contra qualquer influência energética, enquanto o outro repelia os projéteis materiais. Com isso tornava-se praticamente invulnerável, pois em nenhum lugar da Galáxia havia armas que não fossem energéticas ou de projéteis materiais. Só havia uma circunstância que poderia tornar-se fatal a um sacerdote de Baalol.
Não estava em condições de envolver-se com os dois campos defensivos ao mesmo tempo.
Dali resultaria uma sobrecarga do apêndice parapsicológico de seu cérebro, que terminaria em colapso. Poderia proteger-se dos raios de uma arma moderna ou dos projéteis de uma arma antiquada. Além disso, estava em condições de num centésimo de segundo substituir um dos campos defensivos pelo outro. Mas havia uma coisa de que não era capaz: resistir ao impacto simultâneo das duas armas.
Parudal já tivera de engolir uma porção de surpresas depois do momento em que se defrontara com os desconhecidos. Estava convencido de que Kazek e seu amigo desconhecido jamais chegariam ao templo, pois este estava envolto na abóbada das radiações hipnóticas produzidas pelo ativador celular de Kalal. Kazek só recebera permissão para entrar no templo porque os sacerdotes tinham certeza de que, antes de chegarem lá, ele e seu amigo começariam a correr atrás da flor milagrosa violeta em vez do liquitivo.
Evidentemente não se poderia permitir a entrada de um estranho.
No entanto, além de chegarem ao templo, Kazek e seu companheiro haviam trazido mais três pessoas, e ao menos uma dessas pessoas parecia ser um homem que sabia o que queria. Ao que tudo indicava, as emanações do ativador de Kalal não os afetavam. Em suas cabeças viam-se capacetes reluzentes, e estes por certo anulavam o efeito hipnótico.
Parudal tomou conhecimento desses fatos e conseguiu dissimular a surpresa. Mas compreendeu que os desconhecidos à sua frente conheciam outros segredos, além do mais importante de todos, que era o da vulnerabilidade dos sacerdotes de Baalol. Isso fez com que perdesse o autocontrole.
Quem... quem são vocês? — gaguejou, perplexo.

7



Homunc:
Isso tem sua origem no acoplamento entre o ativador e seu cérebro, não tem?
Ele.
Naturalmente. Seus pensamentos recebem do ativador o mesmo reforço dos efeitos mecano-hipnóticos por este gerados. No momento esse homem será capaz de realizar coisas inacreditáveis. Acontece que utilizará seu dom pela forma por mim estabelecida, e o resultado não será nada bom para ele.
Homunc:
Não é um tipo capaz de fazer coisas muito boas com seus dons especiais?
Ele:
Não. É ambicioso e inescrupuloso. E o melhor meio de destruir um homem como este é conferir-lhe forças superiores.

* * *

Kalal sentiu a redundância produzida pela pulsação rítmica da força estranha em seu cérebro.
Sabia que se aproximava do lugar mais perigoso.
Lá adiante ficava a Sala dos Pensamentos Protetores. Encontrava-se a apenas trinta ou quarenta metros. Kalal sabia que, se conseguisse chegar à sala e entrar na mesma, estaria salvo.
E também sabia que a tentativa poderia custar-lhe a vida.
O lugar de onde se aproximava representava o coração do templo. O que acontecia por lá fazia com que o Templo da Verdade fosse o lugar mais seguro de Utik, da mesma forma que qualquer outro templo de Baalol era o lugar mais seguro do planeta em que fora construído. Na Sala dos Pensamentos Protetores era gerado o campo defensivo que cercava o templo como se fosse uma muralha invisível.
Na Galáxia existiam outros campos defensivos, maiores e mais altos, que provocavam o orgulho de seus construtores. Mas não havia um único cuja potência pudesse comparar-se com o do campo defensivo de um templo de Baalol. Nenhum gerador era capaz de reunir a energia, produzida por via mecânica e mental, de forma tão eficiente como se fazia na Sala dos Pensamentos Protetores.
Evidentemente a sala em que se gerava o campo defensivo era cercada por potentes campos de indução. Kalal foi abrindo caminho pela área desses campos. A cada segundo que passava tinha de forçar mais intensamente o cérebro, precisava concentrar-se mais fortemente no objetivo que tinha pela frente. Teve de fechar os olhos, a fim de que a visão dos objetos que o cercavam não desviasse sua atenção.
Sua liberdade estava em jogo. O objetivo que pretendia alcançar com seus esforços valia o preço.

* * *

Meech Hannigan fez uma localização cuidadosa.
Seu cérebro mecânico experimentou a sensação do espanto ao notar o que se passava em algum lugar, abaixo dele e à sua frente. As emanações produzidas pelo sacerdote que, segundo suspeitava, constituía a causa do tumulto hipnótico verificado junto às muralhas do templo, haviam experimentado um crescimento notável. Ao mesmo tempo surgiram outros efeitos, dos quais até então Meech só tivera uma percepção secundária. E esses efeitos pareciam crescer na mesma proporção das irradiações do cérebro do sacerdote. Meech teve a impressão de que havia certo tipo de ressonância entre os pensamentos do sacerdote e as outras vibrações que, segundo parecia, não eram produzidas por nenhum cérebro orgânico. Acontece que Meech não conhecia mais da natureza das coisas que os cientistas humanos que o haviam criado, e por isso só podia fazer suposições.
Comunicou ambas as coisas a Ron
Landry: a observação e a suposição.
De onde vêm as vibrações localizadas? — limitou-se Ron a perguntar.
Da frente e de baixo — respondeu Meech. — O ângulo de declive é de cerca de sessenta graus.
Ron virou-se sobre os calcanhares. A pergunta dirigida ao jovem sacerdote foi disparada com a força de um tiro:
Quem é a pessoa que está lá embaixo?
Parudal balançou a cabeça e mordeu os lábios. Ron apontou a arma para ele, e Meech, que não tirava os olhos de seu superior, seguiu-lhe o movimento.
Parudal voltou a abanar a cabeça.
O senhor pode pela força obrigar-me a levá-lo à presença do sumo sacerdote — respondeu. — Mas não conseguirá transformar-me num traidor.
Ron baixou a arma.
Seu fanatismo seria digno de uma causa mais justa — disse em tom frio e dirigiu-se a Lofty. — Você já sabe qual é a direção. Procure encontrar um caminho que leve para lá.
Puseram-se em movimento. Mais adiante havia portas de ambos os lados do corredor. Este prosseguia em linha reta. Não tiveram a menor dificuldade em abri-las, mas atrás delas apenas descobriram depósitos recheados de armações sobre as quais se viam todos os objetos imagináveis. Provavelmente era por ali que ficava o depósito de liquitivo do qual Kazek teria recebido suprimento, se as coisas tivessem corrido conforme previra.
Lofty franziu a testa e balançou a cabeça.
Por aqui não há nenhum caminho que possa levar-nos adiante — disse. — Teremos de procurar em outro lugar.
Num minuto, Meech calculou a direção da qual vinham as emanações mentais na posição em que agora se encontrava. Teve a impressão de que o sacerdote, até agora não identificado, praticamente não saía do lugar, de que cada passo que davam mais os aproximava do mesmo. A posição indicada por Meech aproximava-se cada vez mais.
Finalmente viram-se bem em cima do lugar de onde provinham as radiações.
Lofty parecia estar de olho em tudo que se passava em torno dele. Ron notou que muitas vezes fitava ligeiramente Parudal, o jovem sacerdote, de tal forma que este não o percebia. Lofty parecia possuir a estranha faculdade de ler os pensamentos nos rostos das pessoas. Tal modo de observar representava e equivalia ao dom da telepatia. Depois de certificar-se com mais um olhar para o sacerdote, Lofty bateu com o pé no chão e disse:
Se o acesso aos pavimentos inferiores não ficar num raio de dez metros, estarei disposto a nadar pelo espaço até a Terra.
Parecia ter certeza do que dizia. Puseram-se a procurar, e Ron notou que a expressão do rosto de Parudal se tornava cada vez mais insegura e assustada. Por certo as impressões dos últimos minutos foram demais para o jovem sacerdote, que já não conseguia dissimular a inquietação.
Ele acreditou que pelos meios normais, não conseguiria impedir a descoberta da passagem secreta. De repente Ron voltou a sentir a interferência em seu cérebro, que desta vez foi tão forte que, segundo parecia, Parudal empenhara todas as suas forças para demover os intrusos do seu intento.
Num gesto lento e comedido voltou-se para o sacerdote e apontou-lhe o revólver. O cano da arma térmica de Meech acompanhou o movimento como se fosse uma sombra mecânica.
Se tentar mais uma vez — advertiu Ron com a voz baixa e perigosamente tranqüila — o senhor poderá considerar-se um homem morto. Não permitirei que o senhor me detenha.
A dor cessou imediatamente. Parudal reconheceu sua impotência. Parecia tão triste e abatido que Ron se sentiu seguro. Dali em diante o sacerdote não criaria mais problemas.
Lofty não notara o incidente. Estivera à procura da passagem. No momento em que Ron deu as costas ao sacerdote, Lofty soltou um grito de triunfo. Chamou os companheiros com a mão direita, enquanto a esquerda apontava para a parede do corredor.
Olhem — exclamou. — Há uma fenda muito fina, quase imperceptível, que corre em linha reta. Provavelmente... isso mesmo, aqui há outra fenda vertical. É a porta!
Ron lançou um olhar ligeiro para Parudal e, pela expressão do rosto deste, concluiu que Lofty estava com a razão.
Procuraram abrir a porta. Ao contrário do que esperavam, conseguiram logo. O fato de a porta ter sido embutida na parede de forma tal que era quase imperceptível provavelmente representava proteção suficiente. Isto na opinião dos sacerdotes de Baalol. O mecanismo de abertura era o mesmo de todas as outras portas.
Larry foi o primeiro que se dispôs a entrar no recinto. Deu um passo para a frente, soltou um grito de pavor e atirou-se para trás. Conseguiu recuperar o equilíbrio. Girou algumas vezes em torno do próprio eixo. Finalmente olhou de lado, com uma expressão de perplexidade, para o buraco escassamente iluminado que se abria atrás da porta.
Sem dizer uma palavra, Ron tirou uma bala de revólver e atirou-a na abertura. Aconteceu aquilo que esperara. A peça de metal foi descendo lentamente, como se tivesse de abrir caminho em meio a uma massa viscosa.
É um elevador antigravitacional! — constatou Ron. — Vamos logo! Não podemos perder tempo.
Meech foi o primeiro a entrar no poço. Foi seguido de perto por Ron, que arrastava o sacerdote atrás de si. Atrás do sacerdote vieram Lofty, Kazek, que de tanto medo ainda não sabia o que estava acontecendo, e finalmente Larry. A porta que dava para o corredor voltou a fechar-se assim que Larry passou pela soleira e entrou no elevador.
Quando tinham descido uns cinqüenta metros, Meech disse que estava localizando o objeto que emitia os sinais. Agora achavam-se no mesmo andar do emissor.
As radiações adquiriram uma força tremenda — acrescentou com a voz preocupada.
Acompanhado por Ron, deslocou-se em direção à parede do poço. Do lado de dentro não havia a menor dificuldade em descobrir as frestas que cercavam a porta. Esta, segundo tudo indicava, levava para um andar inferior das instalações subterrâneas.
Ron abriu a porta. Do lado oposto surgiu um corredor perfeitamente igual àquele pelo qual haviam vindo.
Deram ordem ao sacerdote para que saísse do poço do elevador. Enquanto Kazek, Lofty e Larry seguiram-no, Meech fez outra localização e apontou para a parede do corredor que ficava do lado oposto do elevador antigravitacional. Por lá havia uma série de portas, e Ron teve certeza quase absoluta de que atrás de uma dessas começava o caminho que os levaria ao destino.
Quando se preparava para abrir a primeira porta, Parudal, o jovem sacerdote, que se encontrava às costas de Ron, subitamente soltou um grito abafado. Ron virou-se abruptamente. Antes que compreendesse o que havia acontecido, Parudal jazia imóvel no solo e seus olhos arregalados fitavam o teto.
Ron ajoelhou a seu lado e o examinou. Constatou uma fraca atividade respiratória, quase imperceptível. Concluiu que Parudal ainda estava vivo. Certamente o desmaio fora causado por um forte espasmo, pois, do contrário, os olhos não ficariam fitando o teto com uma horrível rigidez.
Ron não sabia explicar o acontecido. Supunha que o desmaio de Parudal devia ter sua origem nas fortes radiações registradas ininterruptamente pelo receptor de Meech, mas não havia nenhuma prova de que realmente fosse assim.
Resolveu deixar Parudal onde estava e prosseguir sem ele. Deu-lhe as costas e fez mais uma tentativa de abrir a porta. Naquele instante, o subterrâneo foi sacudido por um estrondo. Ron sentiu o chão tremer sob os pés e teve de esforçar-se para não perder o equilíbrio. Do teto caíam pedras e poeira.
Lofty, que fora atirado para o lado, voltou a levantar-se, apoiando as costas na parede. Parecia espantado. Kazek choramingava que nem uma criança. Larry lançou um olhar tenso para dentro do corredor.
Meech foi o único que conservou a calma.
A intensidade continua a aumentar. — Disse em tom tranqüilo, e acrescentou como quem quer fazer uma observação apenas técnica: — Não sei como isso acabará, se as coisas continuarem assim. Quantidades enormes de energia estão sendo consumidas.
Ron interrompeu-o com um gesto.
Tanto faz — disse. — Tentaremos avançar mais. O sujeito que procuramos só pode estar lá na frente.
Tentou pela terceira vez e conseguiu abrir a porta. Viu à sua frente um corredor largo e bem iluminado, que quase chegava a ser um salão. Ron teve a impressão de ver sombras que se moviam em meio à claridade. Segurou a arma e gritou
Está lá na frente! Vamos, minha gente!
No mesmo instante os subterrâneos voltaram a ser sacudidos por uma explosão. Ron e seus companheiros já haviam penetrado no corredor que acabara de ser descoberto. Quando os ribombos cessaram, ouviram que, do lado de fora, uma parede desabava e perceberam o chiado produzido pela terra que escorregava pela abertura.
Talvez estejamos presos”, pensou Ron.

* * *

De repente os “pensamentos protetores” não se moviam com a mesma rapidez e facilidade de antes. Havia algum obstáculo.
Outras freqüências estavam provocando uma interferência. Em certos pontos os “pensamentos protetores” eram neutralizados, não conseguindo produzir o menor efeito.
Naturalmente os cérebros, nos quais se originavam os pensamentos, perceberam o fenômeno. Acontece que também não tinham nenhuma explicação e nem dispunham de tempo para preocupar-se com isso. Tinham de cuidar, juntamente com as máquinas que os cercavam na Sala dos Pensamentos Protetores, para que o templo continuasse intacto, e qualquer falta de concentração, por menor que fosse, poderia prejudicar esse objetivo.
Por isso os “pensamentos protetores” continuaram no seu fluxo. Conformaram-se com o fato de serem apagados em certos trechos.
De qualquer maneira ainda preencheriam integralmente a sua função quando chegassem à superfície.
Não compreenderam que o elemento perturbador que tinham pela frente consistia nos pensamentos gerados em outro cérebro; num cérebro inimigo.

* * *

Para Kalal, o mundo estava transformado numa esfera incandescente. Já fechara os olhos, mas a imagem continuava a formar-se por sob suas pálpebras e o calor gerado pela mesma consumia seu cérebro.
Ansiava por uma pausa. Teve vontade de deixar-se cair e descansar. Mas havia um canto remoto de sua inteligência em que ainda restava um pouco de capacidade de raciocínio, e ali uma voz interior lhe dizia que estaria morto no momento em que diminuísse seus esforços.
Teria de avançar, se quisesse alcançar a liberdade.
Obrigou seus pensamentos a firmar imagens dos objetos existentes lá adiante, na Sala dos Pensamentos Protetores. Obrigou-os a enxergarem através das paredes e distinguirem os gigantescos aparelhos que geravam o campo protetor, bem como os conversores, que processavam os “pensamentos protetores” de tal forma que podiam ser utilizados para apoiar e reforçar o campo defensivo.
Teria de ficar de olho em tudo isso. Teria de enxergar essas coisas atrás da esfera incandescente que surgira sob as suas pálpebras, a fim de que seus pensamentos pudessem forçar o acesso aos conversores. Se tivessem bastante força, impediriam a atividade desses aparelhos e fariam com que os “pensamentos protetores” retornassem aos cérebros que os haviam gerado.
Sentiu o mundo balançar em torno dele. Sabia que tremendas forças se defrontavam por aqui, e também sabia que, quando a luta chegasse ao clímax, essas forças se manifestariam mecanicamente, abalando as paredes do corredor e fazendo ruir os tetos.
Não receava esse fato. Pretendia sair vitorioso na luta; se não saísse, pouco lhe importava a maneira de morrer.
Kalal parou, a fim de que por um instante seu cérebro fosse liberado do esforço de comandar os movimentos das pernas. Dessa forma concentrou-o exclusivamente para a tarefa que se propusera. O êxito foi imediato. A esfera incandescente que surgira diante de seus olhos empalideceu. Via nitidamente as máquinas que havia na Sala dos Pensamentos Protetores.
E viu outra coisa...
Viu os rostos dos cinco sacerdotes sentados na sala, que deixavam fluir seus pensamentos para dentro dos conversores, a fim de que contribuíssem para transformar o campo defensivo do templo num obstáculo realmente impenetrável.

* * *

O mais velho dentre os cinco “protetores” foi o único que mais tarde, nos momentos em que o estado de confusão mental se iluminava ligeiramente, lembrava o curso da catástrofe.
Evidentemente houvera a interferência daquelas vibrações, que todos haviam notado, mas com as quais ninguém se preocupara, já que pensavam que em hipótese alguma deveriam descuidar-se da tarefa de proteger o templo.
Mesmo quando os pensamentos estranhos se tornaram tão poderosos que apagavam quase que por completo os pensamentos dos “protetores” e neutralizavam seus efeitos, continuaram a manter-se em silêncio.
Foi seu grande erro. Deveriam ter interrompido o fluxo de seus pensamentos a fim de procurar a causa da interferência. Se tivessem agido assim, provavelmente os conversores não deixariam de funcionar de repente.
Isso aconteceu entre um pensamento e outro. Os outros não se lembravam de mais nada.
Dentro de um milésimo de segundo morreram ou ficaram inconscientes. Só o cérebro de Okarol, o mais velho do grupo, possuía forças para resistir pelo menos por alguns segundos à interferência assassina.
Reconheceu os pensamentos que investiam contra seu cérebro. Eram os mesmos que pouco antes haviam passado pelo cérebro dele e de seus companheiros, e que os conversores se recusaram a aceitar:
Estamos reforçando o campo defensivo. Estamos protegendo o Templo da Verdade.
A compenetração com que esses pensamentos foram concebidos era tamanha que seu conteúdo energético, transformado pelos conversores, tornava-se suficiente para multiplicar por mil a potência do campo defensivo gerado pela aparelhagem mecânica.
E agora estes pensamentos estavam sendo refletidos para os cérebros de que provinham. Sua potência seria suficiente para repelir o inimigo mais poderoso que se aproximasse do templo.
E essa mesma potência era capaz de destroçar os cérebros que os haviam concebido.
Okarol compreendeu que uma coisa horrível devia ter acontecido.
Foi a última idéia transmitida à sua mente.

* * *

Ron saltou para o lado quando a parede mais próxima desabou ruidosamente, caindo no corredor. Ofegante, parou junto aos destroços, que cobriam o chão, e ajudou Meech, cujos pés haviam sido arrastados para o lado.
A terra foi saindo da parede e encheu o corredor. Ron gritou pelos amigos:
Larry! Lofty!...
Mas não ouviu nenhum ruído além do farfalhar da terra. Larry e Lofty haviam ficado do outro lado do desabamento, juntamente com Kazec, ou então estavam soterrados.
Naquele momento Ron não saberia o que fazer. Acontece que Meech Hannigan estava com ele, e todas as atenções do robô dirigiam-se exclusivamente ao cumprimento mais rápido da tarefa que lhe fora proposta.
Olhe! — exclamou Meech. — Deve ser ele. É um homem só.
Ron virou-se abruptamente. A claridade que enchia o corredor, mais adiante, ofuscava a vista, e por isso concorria antes para ocultar as coisas que para revelá-las. Mas viu-se perfeitamente o vulto confuso de um homem solitário que cambaleava em meio à claridade como se estivesse embriagado.
O ponto máximo da intensidade das radiações já foi ultrapassado, sir — informou Meech em tom objetivo. — Acredito que a maior parte das fontes de radiações deixou de existir. Só restam as que provêm desse homem.
Com isso Ron voltou a raciocinar. De qualquer maneira Lofty e Larry deviam estar salvos, ou então nada poderia fazer sem ferramentas, mesmo que contasse com o auxílio de Meech.
Este já se colocara em movimento. Avançou a passos largos pela parte intacta do corredor, e Ron o seguiu o mais depressa que pôde.
O corredor terminava numa sala onde se viam cinco homens atirados no chão. Seus corpos davam sinais de estranhas contorções.
Deviam estar mortos ou inconscientes. Todos trajavam as vestes suntuosas dos sacerdotes do culto de Baalol. Uma série de máquinas enfileirava-se junto às paredes. Naquele momento Ron não sabia qual era a finalidade desses aparelhos.
Fitou os rostos enrijecidos e os olhos muito arregalados dos sacerdotes. Lançou um olhar indagador para Meech. Este balançou a cabeça.
Não, sir, não é nenhum deles. Suponho que isto seja obra de outro alguém. A localização vem de fora.
Apontou para a parede oposta.
Então vamos andando! — ordenou Ron.
O estranho ambiente deixava-o irritado.
Não sabia explicar por que de repente as paredes desabavam, a terra deslizava e havia gente morta ou inconsciente pelo chão. Por ali aconteciam coisas que ficavam além de sua capacidade de raciocínio. Isso deixou-o nervoso. Não possuía a frieza de Meech, que era capaz de armazenar num banco de dados de alta capacidade as coisas que não compreendia e ali os deixava até que alguém lhe fornecesse uma explicação.
Para ele só havia aquele homem que se encontrava mais adiante. Caçar um homem e agarrá-lo representava um objetivo concreto, que se conseguia compreender. Ron agarrou-se a esta idéia. Com um salto colocou-se junto à porta e abriu-a. Queria sair. Não suportava mais a visão daqueles rostos enrijecidos com os olhos muito arregalados.
A porta rolou para o lado. Ron não conseguiu enxergar o que havia à sua frente. Alguma coisa levantou-o e envolveu-o numa claridade ofuscante, que lhe doía os olhos.
Ron pôs-se a gritar.

* * *

Percebeu que estava sendo perseguido. De inicio acreditara que fosse apenas um homem, pois só captava os impulsos de um cérebro. Ao notar de repente que havia duas pessoas no seu encalço, quase perdera o autocontrole. Sabia que teria de livrar-se deles. Teria de esperá-los e eliminá-los. Acontece que a súbita aparição de um homem, cujos pensamentos não conseguia identificar, deixara-o confuso. Depois da luta com os cinco “protetores” mal e mal possuía forças para concentrar-se.
Apesar disso resolveu arriscar. Escondeu-se atrás da porta que saía da sala e esperou que seus perseguidores a abrissem. A proximidade do perigo deixou-o um pouco mais tranqüilo.
Depois de algum tempo conseguiu reunir a concentração necessária a eliminação de dois inimigos muito ativos.
A porta rolou para o lado, e Kalal deu vazão às suas energias. Uma dor lancinante atravessou seu cérebro. Percebeu que, quando conseguisse conquistar a liberdade, teria de descansar um pouco.
Percebeu, também, que o espírito de um dos homens recuou diante do ataque violento e fugiu. Mas subitamente sentiu-se gelado de pavor.
O outro homem não mostrou a menor reação. Ao menos não reagiu ao ataque de Kalal. Viu outra coisa. Kalal sentiu-se ameaçado.

* * *

Meech Hannigan compreendeu a situação mais depressa do que qualquer cérebro orgânico seria capaz de concebê-la em pensamento. Ouviu o grito de Ron e viu-o cambalear.
Vislumbrou a figura imóvel na penumbra. Sabia o que devia fazer.
Ron caiu. O revólver escapou de sua mão. Num movimento instantâneo Meech abaixou-se e pegou-o. Sua arma pessoal, que era um pesado radiador térmico, ainda estava preparada para disparar. Menos de um segundo se passou desde o momento em que Kalal deu livre jogo ao seu espírito, tentando livrar-se dos perseguidores, até o instante em que Meech disparou o primeiro tiro.
Ouviu-se a descarga ruidosa do revólver, uma, duas e três vezes. E quase simultaneamente, o som cantante provocado pelo raio incandescente da arma térmica. Meech ouviu um grito selvagem e soltou a tecla do radiador. A ofuscante descarga energética não afetou seus olhos mecânicos. Viu a sombra que se esgueirava mais adiante, no corredor, e ouviu os passos arrastados de Kalal, que saía correndo.
Meech cuidou de Ron. Este ergueu-se sobre os cotovelos e lançou um olhar de espanto para o robô.
O que... o que houve? — perguntou com a voz rouca.
Ele nos esperou aqui — respondeu Meech. — Provavelmente queria dar cabo de nós. Eu o espantei.
Ao que parecia, o incidente não afetara a capacidade de raciocínio de Ron.
Vamos atrás dele! — disse, falando entre os dentes. — Se não nos cuidarmos, acabará escapando.
Meech saltou à frente de Ron. A velocidade com que se deslocava esse corpo, feito quase exclusivamente de peças metálicas, e que tinha um peso muito superior ao de um homem, era verdadeiramente espantosa.
Ron teve de esforçar-se para manter-se atrás dele.
Levaram muito tempo sem encontrar o menor vestígio do sacerdote que fugia deles. Na opinião de Meech, devia estar ferido.
Mas, apesar disso, parecia capaz de deslocar-se mais depressa que o robô.
Finalmente a extensão do corredor e o silêncio nele reinante começaram a provocar suspeitas em Ron. Lembrou-se do elevador antigravitacional que ficara para trás, e que Lofty só conseguira descobrir depois de uma busca muito cuidadosa. Será que de tanta pressa tinham passado por outro elevador como este?
Comunicou suas suspeitas a Meech, e este logo manifestou a opinião de que deveriam voltar e examinar as paredes do corredor.
Levaram uns dez minutos para descobrir a porta do elevador antigravitacional.
Subiram rapidamente pelo elevador que ficava atrás da porta. Ron sabia perfeitamente que estavam para chegar à parte do templo situada além da superfície, que era a mais perigosa.
Dali a pouco viram uma mancha luminosa acima deles. Quando ainda se encontrava bem distante desta, Meech percebeu que naquele lugar o elevador conduzia ao ar livre, e que a luminosidade provinha do sol de Utik, que nesse meio tempo voltara a nascer. No entanto, nem mesmo Meech era capaz de formular uma previsão sobre aquilo que encontrariam quando chegassem lá em cima, provavelmente num dos pátios do templo.
Depois que tinham mergulhado nas instalações subterrâneas do templo, várias coisas haviam acontecido na superfície de Utik.

8

Homunc:
O senhor mantém contato permanente com o que acontece em Utik?
Aquilo:
Naturalmente. Senão eu não me divertiria com isso. O ativador é um excelente aparelho de comunicação.
Pausa.
Aquilo:
Mas pelo que vejo, isso não serve exclusivamente ao meu prazer.
Homunc:
O senhor me deixa curioso.
Aquilo:
Isso confirma mais uma vez a tese de que a herança do Império de Árcon deverá caber aos terranos. Não demorarão a dominar a Galáxia. A maneira pela qual quatro indivíduos arrojados se impõem face às paracapacidades dos sacerdotes de Baalol representa um espetáculo nunca visto.
Seguiu-se uma gargalhada.
Aquilo:
Está vendo as dificuldades que o chefe enfrenta neste momento?
Homunc:
Não. Recebo as imagens com certo atraso. Será que o senhor...
Aquilo:
Está tentando livrar-se dos braços de uma mulher que implora que ele lhe diga onde está escondida a flor violeta milagrosa.

* * *

O grande pátio estava abarrotado de gente. O choro e os gritos enchiam o ar. Os sacerdotes haviam desaparecido. A massa que se comprimia no pátio era formada por utikenses. Eram homens e mulheres.
Meech e Ron mal e mal conseguiram sair do poço do elevador. Algumas pessoas viram-nos sair de lá. Dirigiram-se a eles e os assediavam com perguntas. Gritavam todos ao mesmo tempo. A única coisa que Ron compreendia era que estavam preocupados com a flor milagrosa, desaparecida sem que ninguém soubesse por quê.
O campo defensivo deve ter desaparecido — gritou Ron para o robô. — Penetraram no templo, e o sacerdote fugiu bem diante de seu nariz.
Meech levantou a cabeça e examinou o céu. Ron compreendeu seu raciocínio. Sem dúvida havia no templo carros automáticos ou máquinas voadoras ainda mais velozes. O sacerdote aproveitara a confusão para apoderar-se de um desses veículos e fugir.
Há alguns pontos no ar, lá adiante — disse Meech depois de algum tempo, enquanto as pessoas que formulavam perguntas empurravam Ron de um lado para outro. — Esses pontos afastam-se em alta velocidade na direção norte. Talvez um desses seja ele. Provavelmente os outros pontos são veículos de Utik, pilotados por homens empenhados em salvar a flor.
Com um movimento resoluto, Ron afastou a massa ululante.
Temos de segui-lo — gritou para Meech. — Não é possível que no templo haja apenas um veículo.
Precisamos encontrar outro.
Meech fez que sim.
Tomara que não o percamos de vista — respondeu em voz alta. — Mal e mal consigo captar suas irradiações.
Colocou-se à frente de Ron e começou a abrir caminho por entre a multidão. Atravessaram o pátio. Uma mulher precipitou-se sobre Ron e, em meio a uma série de soluços histéricos, perguntou-lhe se não sabia informar para onde fora levada a flor milagrosa. Agarrava-se a ele.
Ron não quis machucá-la, e por isso perdeu alguns segundos preciosos antes de livrar-se dela.
Atravessaram um estreito corredor situado entre dois edifícios sem janela, em forma de caixote, e atingiram outro pátio.
Lá se depararam com o mesmo quadro. Os homens e mulheres comprimiam-se e gritavam que nem possessos. Também aqui não viram o menor sinal dos sacerdotes de Baalol, que por certo haviam fugido para dentro dos edifícios do templo a fim de escapar ao tumulto.
Havia apenas uma diferença entre o pátio em que se encontravam e aquele em que haviam estado antes. Acima das cabeças dos homens viam-se vários carros automáticos. Esses carros achavam-se vazios. Pareciam esperar apenas que os dois terranos escolhessem um deles para iniciar a perseguição.
Uma vez nesse pátio, Meech só teve de utilizar seus dons especiais até que tivessem atingido a metade da área. Quando chegaram lá, uma coisa estranha aconteceu.
Os gritos cessaram.
De repente o silêncio passou a reinar por ali. Apenas se ouvia o som de muitos pés. As pessoas já não se empurravam e comprimiam. Mantinham-se calmas e fitavam-se perplexas.
Ron levou apenas um segundo para compreender o que havia acontecido. A área de ação da influência hipnótica Irradiada por aquele estranho sacerdote tinha um raio de vinte e cinco quilômetros. No momento em que o sacerdote ultrapassou a distância crítica, os homens deixaram de gritar. As pessoas ficaram livres. Em compensação outras, que se encontravam na área norte da cidade, estariam sujeitas à influência hipnótica.
Ron e Meech aproveitaram a oportunidade. Passaram a caminhar pelo pátio ainda mais rapidamente que antes. Atingiram a fileira de veículos e entraram no que se encontrava mais próximo.
Ron soltou um suspiro de alívio ao notar que se tratava de um carro que, segundo tudo Indicava, os antis haviam adquirido em Utik. Entendia seu mecanismo de funcionamento. Fez o veículo subir. Enquanto lá embaixo os telhados do templo se afastavam, espiava atentamente para o norte.
Conhecia os promontórios da cadeia de montanhas que se estendia ao norte da cidade, atrás da linha do horizonte. Lembrou-se daquilo que aprendera da geografia de Utik, antes de sair da Terra. Ao norte ficava o enorme deserto, que se estendia até o litoral situado do lado oposto do continente. Era uma extensão imensa de areia, leitos de rios secos e montanhas desoladas.
O esconderijo escolhido pelo sacerdote não era nada mau.

* * *

O sacerdote não conseguiu sentir-se aliviado.
A ferida causada pelo medonho desconhecido não era muito perigosa, mas bastante dolorosa.
Mas o fato de que aquele desconhecido sabia que para defender-se de um sacerdote de Baalol tornava-se necessário atirar simultaneamente com uma arma de projéteis e uma de radiações dava-lhe o que pensar.
Evidentemente os dois homens que o haviam perseguido eram terranos.
Será que os terranos já conhecem todos os segredos do culto de Baalol?”, indagou-se.
Acabou afastando este pensamento, pois, de qualquer maneira, não teria como dar resposta a esta pergunta. Teria de olhar para a frente. Estava a caminho do deserto.
Conseguira livrar-se dos perseguidores possuídos pela hipnose, que haviam ficado à espreita em seus carros automáticos, acima do templo.
Ali estava ele. O deserto estendia-se sob seu veículo. A sua frente erguiam-se as montanhas. Se conseguisse esconder-se por alguns dias nas grutas inacessíveis, o povo de Massenock se acalmaria e ele poderia encontrar um caminho que o levasse em definitivo para a segurança.
Fez seu veículo, entregue ao piloto automático, subir mais um pouco, a fim de ampliar seu raio de visão. Naquele instante um brilho reluzente penetrou em seus olhos. Ficou apavorado ao virar-se e descobrir um minúsculo ponto fulgurante. Era um veículo desconhecido, que se encontrava bem à sua frente. Isto é, em sua rota, e aparentemente se mantinha suspenso no ar, completamente imóvel.
Sentiu-se dominado pelo pânico. Sabia que estava indefeso. Seu cérebro já não possuía forças suficientes para gerar um campo defensivo eficaz. E o carro automático não tinha o equipamento necessário à produção de um campo defensivo mecânico, que pudesse ser reforçado com suas energias mentais.
Só lhe restava a fuga.
Fez o carro descer bruscamente. As montanhas aproximaram-se numa velocidade estonteante. Uma gruta escura abriu-se à sua frente. Kalal chegou à conclusão de que não poderia haver melhor lugar para esconder-se que aquela fenda negra.
Precipitou-se sobre ela. Segurou a direção e lançou um olhar atento para cima. Quando notou que nesse meio tempo o veículo desconhecido se havia aproximado a tal ponto que reconhecia as cabeças dos dois ocupantes pelo pára-brisa, seu coração quase parou. O veículo dos seus perseguidores também se precipitava para o solo, e isso num ângulo tão íngreme que penetraria na gruta antes do de Kalal, num ponto situado mais ao norte.
Kalal procurou avaliar a distância. Chegou a acreditar que ainda teria uma chance de atingir o esconderijo antes do outro. Mas acabou reconhecendo que o desconhecido era muito mais veloz do que acreditara. Viu que o veículo descia sobre o seu em linha oblíqua.
Vinha exatamente na sua direção! Naquele instante percebeu as intenções do inimigo.
Eles querem me abalroar!”, refletiu.
Kalal recuperou parte do sangue-frio. Conservou a rota de seu veículo até o último instante.
Poucos segundos antes do impacto, puxou a direção para trás. Um terrível solavanco sacudiu o veículo. A carroçaria gemeu como se quisesse desmanchar-se. Mas o veículo obedeceu. A popa ergueu-se e Kalal disparou acima do desconhecido.
Acontece que não avaliara corretamente os planos do inimigo. Dedicara sua atenção exclusivamente ao veículo que se aproximava, e por isso não viu a saliência da rocha que se estendia à sua direita. O inimigo contara com sua manobra. Por um ou dois segundos o carro de Kalal continuou a subir velozmente. De repente o sacerdote percebeu a sombra negra que parecia descer sobre ele. Quis fazer mais um jogo de direção, mas naquele instante o carro bateu ruidosamente contra a saliência da rocha.
A velocidade do veículo fora bastante elevada. A carroçaria esfacelou-se e caiu na gruta, juntamente com o pesado chassi.
Kalal, que perdeu os sentidos, teve mais sorte. Também rolou pela encosta íngreme. Mas antes que caísse na gruta, foi detido por uma reentrância que se estendia na beira do precipício. E ficou por lá.
O segundo impacto também foi muito forte. Mas não custaria a vida de Kalal.

* * *

Depois de trinta minutos, Meech anunciou que os sinais irradiados pelo sacerdote estavam sendo captados com mais nitidez.
Ron esteve a ponto de responder, mas antes que abrisse a boca ouviu o zumbido do pequeno receptor Implantado sob a pele, atrás do ouvido.
Ergueu-se como se tivesse levado um choque. Levantou o braço esquerdo e falou para dentro do microfone:
Gafanhoto! Quem está falando?
Aqui também é o gafanhoto — respondeu a voz de Larry Randall. — Estamos vendo vocês.
Larry...! — gritou Ron com a voz rouca. — Como conseguiram livrar-se daquela confusão? Será que Lofty...?
Estão todos a bordo — respondeu Larry com a voz alegre. — Lofty está sentado a meu lado, e Kazek está jogado no chão, pois não se agüenta de medo. Depois contaremos tudo com minúcias. No momento temos coisa mais importante a fazer. O sujeito está bem à nossa frente.
Deve avistar-nos a qualquer momento.
Que sujeito?
O anti!
Detenham-no. Iremos o mais depressa que pudermos.
Muito bem. Meu plano era exatamente este. É preferível que até lá não usemos o rádio. É possível que o anti possua algum aparelho que lhe permita captar nossas transmissões.
De acordo. Desligo.
Meech olhou em torno. Descobriu o veículo de Larry, que se destacava bem no alto contra o azul do céu. Dali a pouco, também viu a mancha escura formada pelo veículo do anti à face das montanhas. Meech pôde acompanhar parte da manobra de que Larry se valeu para deter o fugitivo. Mas só quando Larry voltou a chamar e lhes apresentou seu relato, Ron e o robô ficaram sabendo do que realmente aconteceu. Concluiu com estas palavras:
Estamos bem acima do lugar em que caiu o carro. Esse sujeito deve ter parte com o demônio. Ainda se mexe.

* * *

Pouco acima do lugar em que o veículo de Kalal batera na rocha, Ron encontrou uma pequena área em que pôde pousar seu carro. Durante o vôo vira a abertura em forma de chaminé que descia quase verticalmente da saliência, formando um acesso bastante confortável à gruta. Ron sabia que teria que descer por lá se quisesse salvar o sacerdote. E pretendia salvá-lo para que pudesse esclarecer as coisas estranhas que tinham acontecido em Utik nesses últimos dias.
Larry manteve o carro suspenso no ar. Colocou-se bem acima da gruta, para poder ficar de olho no sacerdote e no veículo de Ron. Deixou que Meech descesse em primeiro lugar e certificou-se de que o carro estava seguramente estacionado na pequena saliência. Atravessaram-na e chegaram ao lugar em que a rocha descia fortemente, levando à beira do precipício. Uma vez chegado á parte inferior da entrada em forma de chaminé, Meech aguardou que Ron o alcançasse.
O sol já ia alto. Seus raios quentes fustigavam a rocha nua. O ar tremeluzia num calor quase insuportável. Ron cobriu os olhos com a mão a fim de enxergar melhor. Lá embaixo, a menos de quinze metros do lugar em que se encontrava, o anti estava deitado sobre a pequena saliência em forma de cocho que o detivera na queda. Suas vestes preciosas estavam rasgadas e empoeiradas. O rosto, ensangüentado. Parecia ter fraturado um dos braços, que se mantinha em posição estranha.
Mas aquele homem ainda estava vivo. Ron viu-o erguer-se, apoiar-se sobre os joelhos e olhar para cima. Não sabia qual seria o comportamento do anti. Era possível que seu espírito combativo continuasse intacto. Ron esteve a ponto de gritar que viera para ajudar. Mas não teve tempo.
Alguma coisa precipitou-se sobre ele. Não a viu, mas pôde senti-la perfeitamente. Vinha da frente, e investia com uma força tremenda, aos gritos. Fê-lo perder o equilíbrio. Cambaleou, para trás, mas as pernas perderam o apoio. Caiu de costas e escorregou encosta abaixo. Num susto impotente percebeu que não haveria mais nada que pudesse deter sua queda no abismo.
Passaria pelo anti e cairia por cima da saliência.

* * *

Kalal não tinha nenhuma impressão nítida. Não sabia se ainda valeria a pena entreter alguma esperança. Estava furioso. Viu os dois desconhecidos — os mesmos do templo — surgirem na chaminé. Notou os capacetes reluzentes em suas cabeças e, de repente, compreendeu que estes os protegiam contra a influência hipnótica irradiada por seu ativador.
Odiou-os. Queria derrotar o Grande Baalol e transformar-se no próprio Baalol.
Estes dois haviam frustrado seus planos.
Teria de matá-los, nem que também morresse.
Concentrou-se pela última vez em sua vida e... desferiu seu golpe.

* * *

Meech saltou.
Foi um salto desesperado, que o fez percorrer mais de três quartas partes do paredão que tinha à sua frente. De qualquer forma, passou por cima de Ron Landry, que caía, interpôs-se em seu caminho e segurou-o.
Dois metros abaixo do lugar em que se encontravam, estendia-se o negrume do precipício.
Meech não se contentou com a salvação de seu superior. Percebeu o perigo que continuava a ameaçá-los naquela saliência de rocha e agiu imediatamente.
Segurou sua arma na mão direita, enquanto que com a esquerda pegou o revólver de Ron.
Atirou.
Desta vez não se contentou com três tiros. A arma havia sido recarregada. Esvaziou o tambor do revólver antiquado e viu o sacerdote voltar à posição original. Não se mexia mais, mas Meech teve a impressão de que ainda estava vivo.
Ron começou a mover-se.
Este patife — disse entre os dentes. — Por pouco não me quebra o pescoço.
Voltou a colocar-se de pé. Acompanhado por Meech, foi até a saliência em que estava deitado o anti.
Um dos tiros disparados por Meech o atingira no peito.
Mas havia outra coisa, uma saliência entre as costelas. Até parecia que uma operação fora feita sob a pele. Ron apalpou o lugar, mas quando Kalal começou a gemer de dor, tirou a mão.
O anti abriu os olhos. Estavam cobertos por uma névoa, como se não enxergasse bem. Fez um esforço para erguer-se, manteve-se imóvel por um instante e voltou a descansar no chão.
Maldito seja o Grande Baalol em Trakarat! — disse num gemido.
Foram suas últimas palavras. Dali a alguns segundos estava morto.

* * *

O Coronel Nike Quinto parecia não ter pressa. Voltou a discutir calmamente com seus homens a operação desenvolvida em Utik — isso depois que o caso fora resolvido.
Dos resultados do interrogatório dos cinco prisioneiros capturados pelo sargento Hannigan, quando ele penetrou pela primeira vez na área submetida ao efeito hipnótico — principiou Nike Quinto — e do exame do sacerdote morto, conclui-se, sem a menor sombra de dúvida, que o ativador celular, que provavelmente é um dos vinte que o administrador solar obteve há pouco em Peregrino, é responsável por essa confusão. Conforme se depreende do próprio nome, um ativador celular deveria ativar as células e tornar indestrutível a vida de quem o traz no corpo.
Não sabemos por que motivo este aparelho desandou por completo. É possível que isso tenha alguma relação com o estranho senso de humor de que é dotado o Ser de Peregrino, mas também é possível que apenas se trate de um defeito de construção. Saberemos mais a esse respeito quando descobrirmos o que está acontecendo com os outros dezenove homens que receberam ativadores celulares.
Fez uma pausa e lançou um olhar para as anotações sobre a mesa. Fungava fortemente, como se tivesse de fazer um esforço enorme para orientar-se, e o suor porejava em seu rosto. Numa ligeira observação ressaltou que uma preleção tão prolongada representava uma carga excessiva para ele e sua pressão sanguínea, mas finalmente sua voz aguda voltou a assumir um tom mais tranqüilo:
Até mesmo o estranho fenômeno das pessoas inconscientes ou mortas encontradas no salão subterrâneo do templo pôde ser explicado graças à boa vontade dos prisioneiros. Ainda não conseguimos desvendar os segredos propriamente ditos. Os templos dos sacerdotes de Baalol são cercados por um campo defensivo gerado por meio de um equipamento mecânico. Acontece que não consideram suficiente esse tipo de proteção, e por isso esse campo defensivo é reforçado através a energia de seus cérebros que, como se sabe, são dotados de intensas capacidades parapsicológicas. Por isso o templo mantém um grupo de guardas permanentes, cuja tarefa consiste exclusivamente em projetar sobre o campo defensivo aquilo que eles chamam de “pensamentos protetores”. Pela forma desajeitada que me exprimo os senhores já devem ter notado que não entendo muito dessas coisas.
Kalal, que os senhores acabaram por abater, provavelmente estava fugindo de sua própria gente. Não sabemos por quê. Talvez quisessem eliminá-lo por causa do perigo que ele representava para o templo, e ele não concordasse com isso. É apenas uma suposição. De qualquer maneira foi para baixo da superfície e eliminou os cinco homens que projetavam os “pensamentos protetores”. Deve ter sido um combate telepático de proporções inimagináveis.
Os senhores tiveram oportunidade de sentir as energias mecânicas desencadeadas pelas forças mentais durante o combate.
Kalal conseguiu fugir quando, depois da desativação do campo defensivo, a massa enfurecida tomou de assalto as áreas do templo. Acontece que depois disso os senhores ainda conseguiram caçá-lo.”
Passou a mão pela testa suada, como se tivesse dificuldade de recordar algum detalhe.
Pois é... Por pouco o caso não se complica ainda mais. Ao que parece, um dos sacerdotes de Baalol chamou uma divisão da frota dos saltadores. É que, pouco depois da fuga de Kalal, trinta naves saltadoras apareceram sobre Utik. Acontece que, nesse meio tempo, as unidades da frota arcônida haviam iniciado o bloqueio do planeta, motivo por que os saltadores tiveram de retirar-se sem conseguirem nada.
Com isso o caso de Utik está encerrado para nós. Não haverá conseqüências diplomáticas. Por enquanto o administrador nem sequer ouviu falar nisso. Não temos mais nenhum motivo para preocupar-nos com o templo de Baalol em Utik. Aquela gente terá muito que fazer para reparar os danos causados nas instalações, motivo por que não tentará qualquer ação perigosa. Os cinco prisioneiros, que já se tornaram acessíveis a qualquer forma de tratamento mental, serão libertados depois que sua memória tiver sido devidamente bloqueada. Mais alguma pergunta?”
Tenho uma, sir — disse Ron Landry.
Gostaria de saber como o Capitão Randall conseguiu sair do corredor destruído. Até aqui andávamos tão nervosos que nem podíamos pensar nisso.
Nike Quinto ergueu o dedo.
Conte, capitão!
Não tenho muita coisa para contar — principiou Larry. — A galeria desabou à nossa frente, e em momento algum corremos qualquer perigo. Por momentos fiquei sem saber o que fazer. Mas Lofty teve uma idéia — lançou um olhar respeitoso para o velho de barba grisalha. — Disse que, se quisesse fugir, procuraria subir, e que o homem que estivera à nossa frente provavelmente também agiria assim. Por isso voltamos pelo mesmo corredor e dirigimo-nos ao elevador.
Levamos apenas alguns minutos para chegar à superfície. O elevador dava num pátio. Chegamos no momento exato em que as massas desvairadas tomavam o templo de assalto. Escondemo-nos para não sermos arrastados naquela confusão. De repente Lofty notou que o tumulto se concentrava em determinado lugar, num dos pátios. Saímos do esconderijo e fomos olhar de perto. O sacerdote estava cercado de gente que o regava, acariciava e fazia outras coisas absurdas. Mas ao que parecia o sacerdote tinha uma idéia bem definida. Em meio à água e às carícias avançava resolutamente em direção aos veículos estacionados no pátio.
Chegamos lá antes dele. Conseguimos decolar sem que ele o percebesse, pois havia muitos veículos no ar, acima do pátio, e os olhos do sacerdote deviam estar cheios de água... O resto da história os senhores já conhecem.”
Nike Quinto confirmou com um aceno de cabeça.
O que é feito de Kazek? — perguntou.
Largamo-lo em seu restaurante — disse Larry com uma risada. — Falou que nunca mais vai querer nada com os terranos ou com o liquitivo.
Nike Quinto soltou uma risadinha.
Está bem. Mais alguma pergunta?
Fitou os quatro homens.
Pois vão para casa e procurem descansar — recomendou Nike Quinto. — Isso fará bem à nossa pressão, embora para os senhores este problema não seja tão grave como para mim. Não ria, sargento Hannigan, interprete meu conselho como uma recomendação para cuidar do plasma de seus geradores.
Fez um sinal com a mão, dando a entender que a palestra estava concluída. Ron Landry e seus companheiros levantaram-se, cumprimentaram e dirigiram-se à porta. Mas seu superior não seria Nike Quinto se não fossem detidos mais uma vez com estas palavras:
Aliás, há um ponto que ainda não foi esclarecido. É bem possível que um belo dia nós tenhamos de esclarecê-lo: Quem é o Grande Baalol... e onde fica Trakarat?

* * *

Homunc:
Quer dizer que o caso Utik está encerrado, senhor?
Aquilo:
Sim, é claro que o caso Utik está encerrado. Acontece que entregamos vinte e um ativadores celulares.
Homunc:
Quer dizer que teremos outras oportunidades para divertir-nos?
Aquilo:
Naturalmente. Veja por exemplo o caso onde um sumo sacerdote do culto de Baalol sai por aí para pregar a colaboração fraternal com Perry. Aposto que criará uma confusão terrível entre aquela gente...!





* * *
* *
*











As brincadeiras macabras do Imortal de Peregrino já são bastante conhecidas... A Flor Milagrosa de Utik foi uma dessas brincadeiras, que trouxe conseqüências trágicas.
Acontece que o destino do sacerdote de Baalol não pode ser comparado com aquele que aguarda Cardif, o usurpador... De qualquer maneira, o Imortal tem a decência de agir...
Em O Chamado da Eternidade, título do próximo volume, Cardif terá uma surpresa... uma triste surpresa!

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