— Não.
Decolarei com a Val I — prosseguiu Valmonze, ao notar que nenhum
dos antis se dignava a dar uma resposta. — Decolarei com liquitivo
ou sem ele. Não posso perder tempo esperando por aqui, até que
alguém tome uma decisão. Sugiro que continuemos a abastecer todos
os mundos com o licor.
Cardif
sorriu.
— Respeito
seu tino comercial, meu caro. Acontece que o senhor se esquece que
lemos outros planos.
Valmonze
era igual aos outros saltadores: estava disposto a lutar ferozmente
por qualquer vantagem econômica. Enquanto houvesse possibilidade de
continuar a vender o liquitivo, não via por que os fornecimentos
deveriam ser suspensos por razões estratégicas.
Tinha
bastante senso diplomático para não exprimir abertamente sua
opinião. Mas como insistisse em decolar imediatamente com a Val I,
obrigava os antis a tomarem uma decisão rápida. Contava com a
mentalidade dos sacerdotes, que costumavam refletir bastante antes de
realizarem qualquer modificação em seus planos.
Baaran,
que era um dos mais velhos entre os antis presentes naquele momento,
fez um gesto de assentimento.
— O
senhor vai decolar — disse em tom frio.
Cardif e o
patriarca inclinaram o corpo para a frente.
— E
levará o liquitivo — acrescentou Baaran. — Por enquanto as
remessas não serão suspensas.
Valmonze
não se esforçou para disfarçar a sensação de triunfo. Conseguira
um bom negócio, e o resto não lhe importava. Cardif fitou o
mercador em silêncio, enquanto este esvaziava o copo e passava a mão
pelos lábios.
— Sua
hora também há de chegar, meu jovem — disse em tom
condescendente, dirigindo-se a Cardif.
— Sem
dúvida há de chegar — interveio Hekta-Paalat, em tom zangado. —
Dentro em breve decidiremos sobre a suspensão dos fornecimentos.
O filho de
Rhodan levantou-se e saiu sem dizer uma palavra. Atravessou um
corredor e atingiu a sacada que circundava a abóbada de aço. Aqui
em Okul os antis haviam abandonado as construções em forma de
pirâmide. As abóbadas de aço eram mais práticas. Do lugar em que
se encontrava, Cardif via o oceano, em cujas orlas praieiras começava
a selva. Os sacerdotes haviam levantado suas construções num
planalto. Destruíram toda a vegetação que lhes representasse um
obstáculo.
A Val I
estava pousada no espaçoporto ultramoderno. Os saltadores não
costumavam pousar com suas gigantescas naves de formato cilíndrico.
Utilizavam barcos espaciais auxiliares. Acontece que a Val I levava
uma carga de entorpecente que teria de ser transferida para outras
naves, e por isso tivera que aterrissar.
As
instalações de condicionamento de ar, situadas sob a amurada da
sacada, sopravam ar frio para cima de Cardif. Apesar disso, Thomas
sentiu o calor abafado da selva próxima.
O mestiço
galáctico não poderia imaginar que, dali a pouco, a calma que
desfrutava seria perturbada.
Indiretamente
a Val I seria responsável por esse fato, mas Cardif nunca saberia
disso.
*
* *
Muitas
vezes o destino se compraz em provocar mudanças cosmopolíticas,
devido a fatores aparentemente insignificantes. E Valmonze fora
escolhido pelo destino para, através da decolagem de sua nave,
desencadear uma série de acontecimentos, cuja evolução futura
abalaria os alicerces do Império Solar.
No momento
em que a Val I penetrou pela primeira vez no hiperespaço, depois de
ter deixado Okul, provocou uma descarga energética superdimensional.
Nenhuma das pessoas a bordo da nave saltadora imaginava que havia nas
imediações um veículo espacial terrano prestes a iniciar a viagem
de regresso. A Val I desapareceu no hiperespaço, com destino
desconhecido, mas deixou atrás de si um sinal inconfundível do
local de onde iniciou seu salto.
E os
rastreadores estruturais da Ironduke registraram esse sinal...
*
* *
Foi por
puro acaso que o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke, olhava
por cima do ombro de Jens Averman no momento exato em que se
verificou a reação dos rastreadores estruturais.
O major e
Averman gritaram a uma voz:
— Pare,
sir!
Averman
anotou apressadamente a intensidade da reação, a distância e a
duração. Rhodan, que acabara de dar ordem para regressar à Terra,
avançou e colocou-se à frente do aparelho. Jefe Claudrin, que tinha
apenas um metro e sessenta de altura, parecia um barril ao lado de
Rhodan. Até Bell tornava-se esbelto ao lado de Jefe.
Carlos
Riebsam, o matemático, colocou-se junto ao computador da nave.
Certamente imaginava que haveria trabalho para ele.
Gucky foi
o único a continuar em sua poltrona, em atitude sonolenta, como se
não tivesse nada com aquilo.
— Localizamos
um salto, sir! — exclamou Averman. — Sem dúvida trata-se de uma
espaçonave. Os dados são típicos.
— Apurou
a distância? — perguntou Rhodan.
— Sim
senhor. Os dados exatos só podem ser apurados pela calculadora.
Como todos
os operadores de rádio, Averman tinha uma aversão instintiva pelas
máquinas cibernéticas. Nutria um receio inconsciente de que um dia
seu trabalho poderia ser executado por um cérebro positrônico.
Dessa forma tornava-se perfeitamente compreensível que desse o nome
de calculadora ao computador de bordo, que afinal era um cérebro
positrônico, dotado de milhões de variantes.
— Se por
aqui há espaçonave, também deve haver planeta. Afinal a nave deve
ter vindo de um — disse Bell.
— Talvez
o planeta seja Okul — retumbou a voz de Claudrin. — Aposto que
essa nave vem de Okul.
Olhou em
torno, como se quisesse verificar se alguém duvidava do que acabava
de afirmar.
Não havia
ninguém que estivesse disposto a fazer a aposta. Muito tensos, os
homens acompanharam os cálculos. Dentro de alguns minutos Carlos
Riebsam poderia realizar a primeira programação do computador
positrônico. Hunt Krefenbac entregou-lhe os dados apurados por
Averman.
Perry
Rhodan acompanhava o trabalho do matemático sem dizer uma palavra.
Se a suposição do homem de Epsal fosse correta, seria apenas uma
questão de tempo encontrarem Okul.
Perry
Rhodan sabia perfeitamente que um ataque contra o misterioso planeta
poderia representar a morte de seu próprio filho. Sentimentos
conflitantes manifestaram-se em seu interior. Não era nenhum segredo
que Thomas Cardif procurava a todo custo matar Rhodan, mesmo que esse
custo representasse o Império Solar.
Para
Rhodan, o inverso era inconcebível. Estava colocando em risco a vida
do filho, que constantemente lhe criava terríveis dificuldades. No
entanto refletia para encontrar uma possibilidade de destruir os
antis sem arriscar a vida do filho.
O
administrador sabia perfeitamente que, assim que encontrassem Okul,
daria ordem de atacar. A vida do filho não poderia impedi-lo de agir
dessa forma. Não era a primeira vez que Rhodan se defrontava com a
decisão de sacrificar umas poucas vidas em benefício da Humanidade.
E sempre decidira a favor da última.
Nos
momentos de tranqüilidade perguntara várias vezes a si mesmo se o
plano de conduzir a Humanidade, sã e salva, através de todos os
perigos, em direção ao poder galáctico, não se transformara numa
obsessão em que se empenhava com a fúria de um louco. Sentia-se
aliviado ao cercar-se de homens de cabeça fria, que concordavam com
seus planos e os apoiavam sem restrições. Homens como Freyt,
Mercant, Bell e Deringhouse não eram sonhadores dispostos a
acompanhar um aventureiro político.
Essas
reflexões fizeram com que Rhodan tivesse certeza de que estava
trilhando o caminho correto. Vez por outra sentia-se torturado pela
dúvida. Mas não seria isso apenas uma prova de que estava cônscio
das suas responsabilidades e ponderava cuidadosamente os seus atos?
A seita de
Baalol estava prestes a colocar a Humanidade no estágio da
escravidão. O filho de Perry encontrava-se em suas fileiras, mas
isso apenas representava um golpe duro do destino. Quando desse suas
ordens, Rhodan se obrigaria a fazer de conta que Thomas Cardif não
existia.
A voz fria
do Dr. Riebsam soou.
— Pronto
— disse o matemático. — Sem dúvida havia um pequeno erro nos
dados fornecidos pelo Dr. Nearman.
— Não
procure torturar-nos — advertiu Bell.
Riebsam
agitou o cartão perfurado que retirara do computador.
— Erramos
o alvo por pouco menos de quatro anos-luz — principiou Riebsam. —
Isso, naturalmente, se o ponto de imersão da nave desconhecida
corresponder a uma posição próxima à de Okul.
Claudrin
deslocou-se pesadamente em sua direção. Riebsam podia olhar o
comandante de cima para baixo, mas não poderia olhar para além do
mesmo. A largura do corpo do Major Claudrin era quase igual à
altura.
O
matemático entregou-lhe a fita de plástico.
— Vamos
dirigir-nos a este ponto, sir — sugeriu Claudrin.
Rhodan
voltou a ser apenas o homem de raciocínio frio. Balançou a cabeça.
— Não,
major — disse. — Observaremos, em silêncio, ao menos por duas
horas. Afinal, sempre é possível que apareçam outras naves.
Um
profundo suspiro fê-lo virar-se abruptamente. Gucky lançou-lhe um
olhar de recriminação e apontou sua poltrona incômoda.
— Vamos
esperar mais ainda? — gemeu. — Já estou com bolhas.
— Bolhas,
tenente? — perguntou o Major Krefenbac.
O
rato-castor fez uma careta. Não suportava ser chamado de tenente.
Ergueu-se ligeiramente da poltrona, respirou com dificuldade e
lastimou-se terrivelmente.
— É
horrível — disse.
— Dirija-se
depressa à enfermaria, Tenente Guck — ordenou Krefenbac com o
rosto impassível. — Quero que um caso sério como este seja
tratado imediatamente.
O
rato-castor não disse uma palavra. Pôs à mostra o dente roedor.
Logo agora, que as coisas começaram a ficar interessantes, teria que
abandonar a sala de comando?
— Acho
que agüento mais um pouco — disse com a voz mais tranqüila.
Encolheu-se na poltrona.
— O que
acha do estado do tenente, sir? — perguntou o major, dirigindo-se a
Perry, que sorria.
— Acho
que meus conhecimentos médicos não são suficientes para que eu me
responsabilize pelo mesmo — disse Rhodan, em tom sombrio. — Por
isso sou de opinião que o Tenente Guck deve ficar sob os cuidados do
Dr. Gorsizia.
— Muito
bem, Guck — disse o Major Krefenbac, em tom enérgico. —
Apresente-se ao Dr. Gorsizia.
Gucky
apalpou cuidadosamente as costas. Conseguiu esboçar um sorriso
alegre.
— Desapareceram
— piou.
— Desapareceram?
— perguntou Rhodan, em tom de espanto. — Quem?
— As
bolhas — respondeu Gucky.
Rhodan não
estava em condições de contradizê-lo, pois ele mesmo acabara de
afirmar que seus conhecimentos médicos não eram suficientes para
formular qualquer juízo sobre a “doença”
de Gucky.
— Quer
dizer que vamos aguardar por algum tempo — repetiu Rhodan. —
Enquanto isso vou me comunicar com as diversas unidades. Deverão
saber contra quem lutaremos e quanta coisa dependerá do resultado da
luta.
Claudrin e
Bell afastaram-se, para que Rhodan pudesse tomar lugar à frente do
aparelho de intercomunicação.
O discurso
do administrador durou doze minutos. Não teve a menor dúvida em
oferecer um quadro dramático da seriedade da situação. E
informou-os sobre os motivos por que apenas uma nave terrana, a
Ironduke, participava da perigosa missão.
Sua voz
foi ouvida em todos os cantos da nave.
Rhodan
omitiu uma frase. Ansiava por proferi-la, mas dominou seus
sentimentos.
“Não
atirem contra terranos”,
foi o que pensou. “Um
deles pode ser meu filho.”
Refletia
constantemente sobre o problema que o atormentava. Sob o ponto de
vista puramente objetivo, Thomas Cardif mereceria a morte.
Acontece
que os sentimentos de um pai jamais conseguem ser objetivos, cruéis.
*
* *
John Emery
apalpou o traje de combate ; arcônida, no qual os técnicos terranos
haviam introduzido muitas melhorias. Agora, seu sistema de propulsão
antigravitacional permitia à pessoa levitar pela atmosfera de um
planeta e modificar à vontade a direção do deslocamento. A
qualquer momento poderia tornar-se invisível por meio do defletor.
Apesar disso Emery tinha um pressentimento nada agradável. Não
sabia se cinco mil homens seriam capazes de conquistar um planeta
ocupado pelos antis.
Afinal, o
que eram cinco mil homens num mundo de tamanho médio?
Só podiam
fazer votos de que os sacerdotes não se tivessem espalhado por todo
o planeta. Só teriam uma chance de vencer se estes estivessem
concentrados numa área reduzida.
Quando foi
acordado por Berker, que chamou sua atenção para a fala de Rhodan,
Emery havia dormido pouco mais de três horas. O fato de que o
administrador, em pessoa, se encontrava a bordo realçava a
importância da missão. A fala de Rhodan foi breve, mas Emery teve a
impressão de senti-la preocupada.
Os homens
ao seu redor estavam acordados. Alvarez e Dreyer jogavam uma partida
de xadrez convencional. Henderson lia e Bowling escrevia uma carta ou
diário. Mas a maior parte dos homens estava deitada de costas,
fitando o teto.
Emery não
teve a menor dificuldade de imaginar o que pensavam os soldados.
Desde tempos imemoriais, toda batalha era precedida da indagação
relativa à sobrevivência. John Emery era soldado profissional; os
raciocínios filosóficos lhe eram estranhos. Apenas vez por outra
experimentava um sopro ligeiro de uma estranha sensação, que lhe
incutia uma repulsa violenta contra qualquer tipo de luta.
— Ainda
bem que o chefe está conosco
— observou
Berker, que se encontrava a seu lado.
O chefe
era Perry Rhodan. Esse homem experimentado, que conduzira
inteligentemente inúmeras batalhas cósmicas, sem dúvida os levaria
à vitória na luta contra os antis.
— Além
disso, temos mutantes a bordo — disse Emery. — Os antis terão
uma surpresa.
A Ironduke
corria vertiginosamente para o destino...
11
Três
planetas gravitavam em torno do sol sem nome. A Ironduke penetrou no
sistema, protegida pelo campo de absorção da sexta dimensão.
Nenhum goniômetro ou rastreador seria capaz de registrar sua
presença.
O segundo
mundo do sistema era Okul.
— Conseguimos
— disse o Major Hunt Krefenbac, que se encontrava na sala de
comando. — Todas as informações fornecidas pelo Dr. Nearman
aplicam-se a este planeta. Se emergimos num ponto errado, isso foi
devido exclusivamente a um erro das coordenadas.
— Colocar
em funcionamento os rastreadores de matéria e de energia — ordenou
Rhodan.
A nave
esférica entrara numa órbita estável em torno de Okul.
— Ordem
cumprida, sir! — exclamou Jens Averman.
— Tentar
a localização goniométrica. — disse a voz de Rhodan.
Averman
começou a manipular seus aparelhos. Okul possuía um movimento de
rotação independente. Por outro lado, os aparelhos de localização
da Ironduke eram capazes de atingir uma área extensa. Por isso
Rhodan conseguiu, num curto espaço de tempo, dados preciosos sobre o
que acontecia na superfície desse mundo.
Depois de
a nave ter contornado o planeta pela segunda vez, o ponteiro do
indicador de massa movimentou-se.
— Localização,
sir! — exclamou Averman. — Parece que há alguma coisa lá
embaixo. Registramos descargas energéticas de intensidade
extraordinária.
— Desça
mais um pouco, major — ordenou Rhodan ao homem de Epsal.
Não teve
necessidade de explicar a Claudrin o que ele deveria fazer. O major
conhecia seu serviço. Dali a dez minutos não havia mais ninguém a
bordo que não soubesse o que fora descoberto.
Em plena
selva, junto de um oceano, havia sessenta e sete abóbadas de aço de
dimensões imensas.
— É uma
cidade! — exclamou Bell, em tom exaltado. — Uma cidade de aço.
Os antis têm senso prático nas suas construções, desde que não
queiram impressionar ninguém.
— Aqui
puderam dedicar-se tranqüilamente às suas atividades criminosas —
disse Rhodan. — Lá embaixo são produzidas quantidades gigantescas
de liquitivo. Acho que já chegou a hora de acabarmos com isso.
Claudrin
perguntou com a voz grave:
— Vamos
atacar, sir?
— Mande
todos os homens entrarem em forma, próximos das eclusas. Diga-lhes
que vistam os trajes de combate. Devem ligar o propulsor
antigravitacional. Explique-lhes como devem usar os diversos tipos de
arma. Os campos defensivos individuais dos antis só podem ser
atravessados pelos projéteis de plástico.
Bell
passou a mão pelo cabelo rebelde. Fez um sinal para os homens da
sala de comando.
— O
espetáculo vai começar — disse à sua maneira pouco convencional.
*
* *
Casnan viu
um ponto escuro no céu. Esfregou os olhos com ambas as mãos e
voltou a olhar para cima. Agora eram três pontos. Casnan estava
petrificado. De repente ouviu uma voz exaltada, vinda do outro lado
da sacada. Alguém correu apressadamente sobre o piso gradeado.
Outros
pontos haviam aparecido. Eram centenas. Incrédulo, Casnan fitou o
céu límpido.
Segurou a
manta.
Naquele
instante, uma gigantesca esfera surgiu sobre a cidade abobadada. Era
ela que cuspia os “pontos”
que desciam. Naquele momento, Casnan compreendeu o que havia
acontecido.
Aquela
esfera era uma espaçonave terrana, que se aproximara sem ser notada.
Milhares de homens caíam sobre a reserva dos antis.
— Alarma!
— berrou Casnan, desesperado.
Seu grito
foi abafado pelo uivo das sereias de alarma.
Finalmente,
o pessoal dos postos de vigilância notara a invasão. Casnan
preferiu não lançar outro olhar sobre a desgraça que se
aproximava.
Entrou
apressadamente na abóbada. Viu-se acolhido por um longo corredor.
Outros sacerdotes saíram de várias salas. Todos pareciam muito
perturbados. A maior parte deles nem sequer parecia conhecer o motivo
do alarma.
Naquele
instante, uma voz saída dos alto-falantes, espalhados por todos os
cantos, parecia chicotear o ambiente.
— Estamos
sendo atacados por uma nave terrana. Todos devem dirigir-se
imediatamente aos seus postos. Devemos procurar destruir os
atacantes, antes que consigam pousar.
A confusão
cresceu. Casnan esbarrou em outro sacerdote que se precipitou para o
corredor.
— Terranos?
— fungou. — Quantos são?
Casnan não
perdeu tempo com explicações. Continuou a correr.
— Suas
armas energéticas não conseguem romper nossos campos defensivos
individuais — disse a voz pelos alto-falantes.
Os homens
recuperaram a capacidade de raciocínio. Casnan passou a correr mais
devagar. Era verdade. Os terranos haviam perdido a luta antes de
pousarem. Não poderiam atacar cada um dos sacerdotes, que eram mais
de mil, com os pesados canhões de sua nave. E as armas portáteis de
radiações não eram capazes de romper os campos energéticos dos
antis. A atividade mental dos sacerdotes influenciava a estrutura dos
campos defensivos individuais.
Um sorriso
de triunfo surgiu no rosto de Casnan. Tomou uma decisão. Pegaria uma
arma e sairia para a sacada. Os terranos se ofereciam como ótimos
alvos, enquanto ele mesmo era praticamente invulnerável.
Um chiado
fê-lo virar-se apressadamente. Bem acima de sua cabeça, uma mancha
incandescente branca surgiu no teto amplo. Cresceu rapidamente. O
metal derretido começou a pingar. Casnan soltou um grito. Sentiu o
cheiro do plástico queimado. Atrás dele, um sacerdote começou a
disparar contra a abertura que se formava.
— Já
estão sobre os nossos telhados! — gritou alguém.
“Estão
abrindo buracos na abóboda”,
pensou Casnan, apavorado.
No seu
subconsciente sentiu uma espécie de admiração pelo arrojo dos
terranos. Apesar do êxito inicial, aquilo não passava de uma missão
suicida.
O número
dos buracos aumentou. Casnan continuou a correr. Antes que o primeiro
terrano entrasse na abóboda, queria ter uma arma na mão.
*
* *
Ao lado de
John Emery, pairavam cerca de vinte homens que não pertenciam à sua
unidade. Abaixo, viu o clarão dos primeiros tiros. As construções
em abóbada pareciam tigelas emborcadas. Acima delas, viu uma enorme
sombra ameaçadora.
“É
a Ironduke”,
refletiu o sargento.
Por
enquanto o inimigo não havia revidado. Conseguiram pegar os antis de
surpresa. Emery tomou a direção do telhado mais próximo. Em torno
dele, os homens começavam também a disparar. Segurou firmemente a
arma de radiações e puxou o gatilho. A distância ainda era muito
grande. O ar começou a tremeluzir sob o calor insuportável,
provocado pelo tiro. Em todos os lados viam-se nuvens de fumaça.
— Agora
— disse Emery.
Sem querer
falara em voz alta. Precisava ter cuidado para não ferir nenhum dos
seus soldados. Os primeiros homens já se encontravam em cima do
telhado. Abriam entrada sem dar atenção a nada. Em torno da abóbada
estendia-se uma espécie de sacada.
Emery viu
homens de mantas largas surgirem por lá. Tinham armas e começaram a
disparar contra os terranos que desciam sobre o edifício.
“Então
são estes os antis”,
refletiu.
Emery
perdeu-os de vista quando caiu na cobertura da abóbada. Perto dele
quatro soldados estavam fazendo buracos com suas armas de radiações.
— Atirem
contra os sacerdotes. Usem as carabinas automáticas — gritou
Emery.
Um homem
baixo e magro brandia furiosamente a arma. Seu rosto estava vermelho;
o calor era intenso. Emery correu em direção ao grupo.
— Acho
que já podemos entrar — disse um baixote, apontando para o buraco.
Não
perdeu tempo. Penetrou na abóbada. Emery seguiu-o com os olhos. Era
um homem pequeno e valente. Os corredores achavam-se enxameados de
sacerdotes. Disparou três vezes. Depois foi atingido, e Emery viu-o
inclinar-se para o lado e tombar para a frente. Subitamente caiu como
uma pedra sobre os antis que recuavam.
Emery e os
soldados restantes fitaram-se.
Não
disseram uma palavra. Saltaram para dentro da abertura... um após o
outro.
*
* *
Doze
seres, semelhantes a formigas, moviam-se sobre a superfície
cinzenta. Perry Rhodan fitou a tela com os olhos ardentes. Aqueles
seres do tamanho de insetos eram membros da unidade de elite. Os
pensamentos de Rhodan acompanhavam esses homens intrépidos.
— Nestas
três abóbadas, os sacerdotes estão oferecendo uma resistência
encarniçada — disse Bell em tom deprimido. — Até parece que
dali conseguirão resistir.
Rhodan
teve de confessar para si mesmo que as coisas não estavam correndo
tão bem quanto imaginara. Os antis logo se haviam adaptado à
situação. Quando notaram que não poderiam resguardar todas as
abóbadas ao mesmo tempo, concentraram seus recursos defensivos em
algumas delas. E a partir dali, realizavam investidas bem-sucedidas.
Enquanto
nas outras abóbadas, os terranos eram surpreendidos com escaramuças,
os antis esperavam que, partindo do centro, acabariam por rechaçar o
ataque. Era uma hábil manobra estratégica.
O Major
Krefenbac, que mantinha contato pelo rádio com os chefes dos
diversos destacamentos, estava com a testa enrugada; parecia
preocupado.
— Henderson
informa que se apoderou definitivamente de quatro abóbadas —
falou, dirigindo-se a Rhodan. — Pelo que diz, só há uns poucos
antis nas mesmas, que oferecem uma feroz resistência, enquanto
fogem. Com isso prendem nossos homens no lugar. Temos de arranjar
reforços para essas três abóbadas.
Fez uma
pausa e depois disse, em tom deprimido:
— Pastenaci
não responde mais. A comunicação foi interrompida. As informações
de Sokura Tajamo são semelhantes às que recebemos de Henderson.
Rhodan
dirigiu-se ao Major Claudrin.
— Assuma
a Ironduke — ordenou. — Está na hora de darmos algum apoio aos
homens que se encontram lá embaixo.
Fez um
sinal para Bell, que apoiou as mãos nos quadris. Krefenbac
levantou-se de um salto, mas Rhodan balançou a cabeça.
— Não,
major, aqui sua presença é mais necessária. Bell e eu escolheremos
mais alguns homens que possam ser dispensados por Jefe Claudrin.
Krefenbac
obedeceu a contragosto.
— O
senhor realmente acredita que deve intervir pessoalmente na luta,
sir?
— Acredito
— respondeu Rhodan.
Bell
trouxe dois trajes de combate. Gucky caminhava nervosamente entre
Rhodan e o gorducho. Via-se que gostaria de acompanhá-los.
— Não,
pequeno — disse Rhodan. —Você terá de esperar mais um pouco.
O
rato-castor voltou ao seu lugar. Parecia decepcionado.
— Boa
sorte, sir — disse Claudrin em tom sombrio, assim que Rhodan e Bell
estavam prontos para partir.
Dali a
alguns minutos, quando os dois desciam sobre a cidade de aço, viram
um quadro caótico. A maior parte das abóbadas estava com os
telhados parcialmente destruídos. Nuvens de fumaça saíam das
aberturas.
Rhodan fez
um sinal para que os sete homens, que o acompanhavam, permanecessem
bem próximos um do outro. Dali de cima viam-se perfeitamente as três
abóbadas, em torno das quais a luta era mais feroz. Por lá ainda
havia uma intensa troca de tiros, enquanto nos outros lugares, só
vez por outra, se via o lampejo produzido por um tiro de radiações
ou se ouvia o estampido seco de uma carabina automática.
A essa
hora, os antis já deviam ter notado que seus campos defensivos,
mentalmente reforçados, não os protegiam contra os projéteis
antimagnéticos.
Rhodan viu
os soldados agitarem os braços sobre os telhados.
Não ouvia
o que gritavam. Só quando chegou mais perto entendeu suas palavras.
Festejavam sua presença em meio ao cerrado tiroteio. Dali a um
minuto não havia um único soldado que não soubesse que Rhodan
estava participando ativamente da luta.
— O
chefe! — gritaram os homens. — Perry Rhodan está chegando!
Dali a uma
hora, o quadro estava modificado. Os terranos, que envergavam trajes
de batalha arcônida, avançavam firmemente. À frente deles,
combatia um homem alto e esbelto. Os sacerdotes arregalavam os olhos
ao avistá-lo, pois acreditavam que aquele homem fosse Thomas Cardif.
*
* *
— Isso é
traição! — gritou Thomas Cardif com o rosto desfigurado. —
Alguém nos traiu. Se não fosse assim, Rhodan não poderia ter
encontrado este mundo. Quem são os traidores que se encontram nas
fileiras dos antis?
Falava com
os punhos cerrados. A cada palavra que proferia, esmurrava a mesa.
Seus olhos exprimiam ódio. Mais uma derrota começou a desenhar-se
diante de si. Já soubera que seu pai fizera as unidades terranas
avançar sobre as três abóbadas, nas quais até então os antis
haviam sido bem-sucedidos na sua defesa.
Nessas
abóbadas ficavam as instalações de purificação da matéria-prima
do liquitivo. Os sacerdotes haviam decidido que estas deveriam ser
salvas de qualquer maneira.
E agora o
êxito desse plano parecia tão duvidoso. Nenhum dos antis teve uma
visão mais trágica da situação que Cardif.
— Entre
nós não existe nenhum traidor — respondeu Hekta-Paalat, em tom
tranqüilo.
A manta do
anti fora chamuscada pelo tiro de uma arma de radiações. Seguira o
exemplo da maior parte dos membros de sua raça: desistira de manter
ativado seu campo defensivo individual, pois também percebera que os
projéteis antimagnéticos, disparados pelas armas terranas, eram
capazes de atravessar o mesmo.
— É
possível que em outras raças exista — acrescentou, numa alusão
evidente a Cardif.
— Conseguiremos
defender as abóbadas? — perguntou gritando o filho de Rhodan.
— Não —
respondeu Rhabol, que se encontrava do lado oposto da mesa.
Os olhos
do terrano chamejavam. Contornou a mesa e agarrou a manta do
sacerdote.
— Temos
que defendê-las. Há um único couraçado sobre Okul. Dessa nave
dificilmente podem ter desembarcado mais de cinco mil homens. Exijo
que o comando da batalha seja transferido a mim. Ao lado dos
sobreviventes, poderei salvar as instalações.
Os olhares
dos antis que se encontravam presentes exprimiam uma rejeição
sombria.
O choque,
que haviam sofrido, ao saberem que as armas dos terranos eram capazes
de romper seus campos defensivos individuais, minara o moral dos
sacerdotes. Se não fosse assim, o resultado da batalha só poderia
ser-lhes favorável.
— Fugiremos
— disse Baaran em tom tranqüilo.
Cardif
soltou uma risada sarcástica. Cruzou os braços sobre o peito e fez
um aceno de cabeça em direção às telas que mostravam as abóbadas
queimadas.
— Pretende
fugir? — perguntou de modo irônico. — Para onde, meu velho? Para
a selva? Os homens de Rhodan disparam contra qualquer pessoa que
apareça lá fora.
— Para o
mar — respondeu Baaran, ainda tranqüilo.
Ao que
parecia, não se impressionava nem um pouco com o fato de que, a
algumas centenas de metros do lugar em que se encontrava, seus
confrades iam cessando um após o outro na resistência aos soldados
terranos, que penetravam na abóbada.
A voz
sarcástica de Cardif ainda revelava ironia, quando perguntou:
— Será
que teremos de nadar?
Ninguém
lhe deu resposta. Baaran e Rhabol voltaram-se para as telas, pois
desejavam acompanhar o estágio final da batalha.
*
* *
Durante
todo esse tempo, o sargento John Emery sentira-se incapaz de conceber
uma idéia clara. Numa atitude puramente automática disparara contra
os sacerdotes que se interpunham em seu caminho. Outros homens
lutavam a seu lado. Emery não percebeu que o número de seus
soldados diminuía constantemente.
Os olhos
de Emery estavam quase fechados devido ao suor. Os pulmões não
queriam aceitar o ar aquecido, carregado de fumaça. Sentado no fim
de um longo corredor, o sargento disparava contra três dos antis,
que se haviam abrigado num pequeno estrado.
Por toda a
abóbada rugiam lutas violentas. Um tiro de radiações chiou acima
de Emery e chamuscou suas costas. Apoiando-se sobre os cotovelos,
disparou a carabina automática e... conseguiu acertar!
Emery
resmungou, satisfeito.
O inimigo
parecia imobilizado. Pela primeira vez o sargento resolveu olhar para
trás. Era o único terrano que se encontrava naquele corredor! Não
tinha tempo para pensar nisso. Dedicava sua atenção aos três
antis, cujo silêncio o deixava desconfiado.
Disparou
três vezes, mas o inimigo não respondeu ao fogo.
Emery
passou a língua pelos lábios ressequidos. O silêncio tomou conta
de toda a abóbada. Até parecia que alguém havia ordenado um cessar
fogo imediato.
Emery
ergueu-se cautelosamente. Era arriscado oferecer um alvo exposto aos
antis. Mas por outro lado, não poderia ficar deitado ali, para todo
o sempre. Percebeu que alguma coisa tinha mudado. A batalha parecia
ter sido decidida. Emery não conseguiu reprimir uma sensação de
medo.
Será que
o ataque de surpresa malograra? Seria ele um dos poucos
sobreviventes?
Levantou-se.
Permaneceu ereto no corredor. Olhou para seu corpo. O aspecto que
oferecia não inspirava muita confiança. Seu uniforme estava
queimado em vários lugares. Era duvidoso que o traje de batalha
ainda estivesse em pleno funcionamento.
Bem; seria
fácil verificar. Enquanto ligava o propulsor antigravitacional, o
sargento mostrava-se zangado. Deixou que o aparelho o levasse ao
estrado, que já fora abandonado pelos antis.
Emery
pousou são e salvo. Olhou em torno. Dali enxergava todo o corredor.
Viu o lugar em que antes se encontrara. Sentiu um calafrio descer-lhe
pela espinha. Lutara contra os sacerdotes praticamente sem a menor
proteção.
Emery
continuou a avançar de arma em punho. Viu-se em outro corredor: uma
descida. Alguns passos adiante deparou-se com um vulto que jazia
imóvel no chão. Era um anti. Estava gravemente ferido, mas ainda
estava vivo.
Assim que
ouviu os passos de Emery, virou-se. O sargento apontou a carabina
automática. O ferido fitou-o tranqüilamente. Emery parou a três
metros do moribundo.
— O que
está esperando? — perguntou o anti, num intergaláctico impecável.
— Acha que Casnan tem medo de morrer?
— Não —
disse Emery, mas sua boca apenas conseguiu expelir um grasnado.
— O que
pretende fazer? — perguntou Casnan.
— Quero
seguir adiante — respondeu Emery, em tom áspero.
Um sorriso
martirizado surgiu no rosto do sacerdote. Conseguiu erguer um pouco o
corpo e segurar a arma de radiações, que jazia no chão. Fitou-a
com uma expressão pensativa.
— Nada
de truques — preveniu Emery. — Guarde isso.
“Não
sei por quê, mas o fato é que ele procura deter-me”,
pensou o sargento.
Aproximou-se
de Casnan. Este rolou para o lado e fez pontaria para Emery, que
soltou uma praga e deu um enorme salto para a frente. O raio
escaldante da morte chiou acima de sua cabeça. As pernas do terrano
atravessaram o ar e atingiram o anti, que soltou um grito. Com
movimento lerdo, ele ainda moveu a arma em direção de Emery.
Desta vez,
o sargento estava prevenido. Um golpe com a quina da mão fez com que
o anti deixasse cair a arma. Emery apoderou-se da pistola.
— Pronto!
— exclamou. — Agora vamos ver o que está sendo escondido por
aqui.
Casnan
estremeceu. O sargento viu nisso uma prova de que estava na pista
certa.
— Se
prosseguir, o senhor morrerá — ameaçou o sacerdote que, exausto,
desfaleceu.
Emery não
lhe deu mais nenhuma atenção. Desceu correndo. Seus passos
produziram um eco trovejante. O corredor descreveu uma curva fechada
e, de repente, Emery se viu diante de um poço envolto numa tremenda
escuridão. Deixou-se cair no chão e aguçou o ouvido.
Estaria
enganado, ou realmente ouvia o borbulhar da água? O que haveria no
fundo desse poço? Tirou a lanterna do cinto do traje de batalha e
ligou-a. As paredes atingidas pelo feixe de luz eram totalmente
lisas. Emery refletiu intensamente. A luminosidade da lanterna não
era suficiente para atingir o fundo do poço.
Lembrou-se
da advertência do sacerdote moribundo.
Será que
realmente havia um perigo misterioso que o espreitava?
Num gesto
resoluto, Emery cerrou os dentes. Deixou-se cair no poço com o
auxílio de seu traje de batalha.
*
* *
Perry
Rhodan levantou o braço.
As três
abóbadas, em torno das quais se travavam combates violentos, haviam
caído. Em todos os lados, os robôs de guerra estavam destruindo os
últimos focos de resistência, para o que usavam suas armas pesadas.
A cidade abobadada, com seus sessenta e sete edifícios, estava
praticamente destruída.
Um dos
combatentes, que se reunira em torno de Rhodan, disse com a voz
exausta:
— Gostaria
de saber onde eles se meteram, sir.
De um
instante para outro, os sacerdotes haviam abandonado seus postos no
interior dessa abóbada, que, segundo tudo indicava, era muito
importante para eles. Até parecia que se dissolveram no ar.
Rhodan
calculava que pelo menos duzentos sacerdotes tinham fugido para um
local ignorado. Sem dúvida, Thomas Cardif era um dos fugitivos.
A abóbada
estava completamente fechada. Para onde teriam ido os antis? Haveria
alguma passagem subterrânea?
Rhodan
chamou um soldado que trazia um aparelho de rádio.
— Entre
em contato com a Ironduke — ordenou.
Dali a
alguns segundos ouviram a voz trovejante do Major Claudrin:
— Meus
parabéns, sir. Vejo que conseguiu.
Claudrin,
que via da sala de comando da nave toda a área do estabelecimento,
devia ter uma idéia exata da derrota sofrida pelos antis. Era ao
menos o que se deduzia do tom de triunfo que vibrava em sua voz.
— Um
grupo considerável conseguiu escapar, major — disse Rhodan, com a
voz cansada. — Provavelmente existe alguma passagem secreta. Para o
senhor, será muito mais fácil verificar se os antis aparecem em
algum lugar.
— A
Ironduke vai lhes proporcionar uma recepção bem quente —
asseverou Claudrin. O tom de sua voz revelava um evidente
aborrecimento; sentia-se chateado porque até então só figurara
como espectador.
Rhodan
passou os olhos pelos soldados reunidos em torno dele. Eram algumas
centenas. Os outros encontravam-se nas diversas abóbadas. Sem dúvida
já estavam revistando tudo, sob a direção de competentes oficiais.
O
administrador também iria executar essa tarefa.
— Vamos
dar uma olhada por aí — gritou para seus homens. — Vasculharemos
detalhadamente um recinto após o outro. Tudo que possa fornecer
alguma indicação sobre a fabricação do entorpecente deverá ser
apreendido.
Antes que
pudesse prosseguir, notou-se um movimento entre os soldados.
Ouviram-se alguns gritos. O grupamento abriu alas, e dois homem
conduziram um anti à presença de Rhodan. O administrador notou
imediatamente que o sacerdote estava ferido. Os dois homens fizeram
continência.
— Pegamos
oito antis — disse um deles. — Sete são tagarelas que nem um
toco de pau. Este jovem amigo é o único que parece disposto a
contar-nos uma história.
O anti
ferido era relativamente jovem.
— Eles
nos deixaram para trás — gritou para Rhodan. — Quando viram que
a coisa começava a ficar perigosa, fugiram...
Sem
dúvida, sua indignação dirigia-se contra os sacerdotes que haviam
fugido, e em cuja companhia se devia encontrar Thomas Cardif.
— Não
se exalte — disse Rhodan. — Nem por isso deixaremos de
prendê-los.
O anti
soltou uma risada sarcástica. Ao que parecia, não acreditava na
afirmação de Rhodan.
— Suponho
que estejam interessados em nosso produto denominado liquitivo.
Rhodan
pensou nas preciosas vidas humanas que custara a conquista de Okul.
Para dispensar um tratamento decente àquele anti, teve de
esforçar-se ao máximo.
— Fale —
pediu com a voz embaraçada.
O
sacerdote fitou-o atentamente.
— O
senhor é igualzinho àquele traidor chamado Cardif — disse,
bastante impressionado.
— É
possível — admitiu Rhodan, com a maior tranqüilidade. — Afinal,
ele é meu filho.
O anti
recuou instintivamente. Os olhos frios e cinzentos pareciam
perfurá-lo.
— Nestas
abóbadas estava instalado o equipamento de purificação do
entorpecente — disse o anti com a voz apressada, tentando fugir do
assunto.
— De que
tipo de planta é extraído o tóxico? — perguntou Bell.
— De que
planta? — repetiu o membro da seita de Baalol, franzindo a testa,
espantado. — O tóxico não é nenhum produto vegetal. É extraído
da secreção das glândulas de animais que vivem neste planeta.
— De
animais? — espantou-se Rhodan. — Faça o favor de explicar-se
melhor.
— Trata-se
de lagartas, cobertas de córneas, que medem dois metros de
comprimento e quarenta centímetros de espessura. Locomovem-se sobre
inúmeros pés muito pequenos. São encontradas principalmente nas
áreas pantanosas da selva. Na sua cabeça redonda, coberta de uma
blindagem córnea, existe um círculo cortante de quinze centímetros
de diâmetro, que lhes permite revolver a terra. Costumamos chamar
estes animais de fura-lama. O círculo perfurador é movimentado por
um estranho órgão, que reúne ar comprimido numa espécie de câmara
de compressão. Este ar comprimido movimenta o círculo cortante.
Essas lagartas possuem uma série de glândulas peculiares, das quais
é extraída a substância ativa do liquitivo.
A voz do
anti tornava-se cada vez mais fraca. Ao que parecia, os ferimentos
enfraqueciam-no bastante. Rhodan fez um sinal, e os soldados levaram
o sacerdote.
— Pois
bem — observou Bell. — Então é isso. Basta pegar alguns desses
animais e examiná-los.
— Acho
que seu otimismo é prematuro — respondeu Rhodan. — É bem
possível que tenhamos surpresas bem desagradáveis pela frente.
Deu outras
ordens. Os homens dividiram-se, para revistar as abóbadas, quase
totalmente destruídas.
*
* *
O ruído
da água tornava-se cada vez mais forte. Enquanto planava pela
escuridão compacta, Emery conteve a respiração. Desligara a
lanterna. Desceu muito devagar, para poder fazer meia-volta, assim
que surgisse algum perigo.
Teve a
impressão de ouvir o ruído de uma máquina, mas talvez fosse
engano. O ar frio subia das profundezas. Emery pensou que talvez se
encontrasse no interior de um elevador antigravitacional.
Subitamente
sentiu chão firme sob os pés. Bem à sua frente, uma luz forte
atravessava uma fresta na parede. O sargento enfiou os dedos na
brecha. Ficou espantado ao notar que a fenda se alargou.
“É
uma porta de correr dupla”,
pensou Emery.
Enfiou a
cabeça na abertura e olhou para o interior do recinto.
Viu um
ancoradouro subterrâneo!
Um
estranho barco estava encostado ao cais. Vários antis
movimentavam-se sobre a embarcação. O pavilhão era iluminado por
uma fonte de luz artificial. Os sacerdotes pareciam ter pressa. Foram
desaparecendo no interior do barco.
Subitamente,
Perry Rhodan apareceu na frente de um grupo.
Por pouco
Emery não solta um grito. Aquele homem não era Rhodan; era o filho
de Perry. Ao ver Cardif entrar no barco, Emery manteve-se imóvel.
Seria insensato arriscar-se a atacar o barco sozinho. De qualquer
maneira, Rhodan teria de ser avisado imediatamente.
Assim que
o último sacerdote desapareceu em seu interior, o barco foi saindo
lentamente em direção ao centro do ancoradouro. E, também
lentamente, afundou na água.
“É
um submarino”,
pensou Emery. “Estão
mergulhando por baixo da abóbada.”
O mar
ficava bem próximo. Ao que tudo indicava, havia um canal subterrâneo
que levava diretamente da abóbada para o oceano.
Emery não
perdeu mais tempo. Subiu o mais rápido possível por aquele poço
apertado.
*
* *
Thomas
Cardif aproximou-se do periscópio, para lançar mais um olhar sobre
a cidade destruída. Conseguira escapar mais uma vez de seu pai e da
Frota Solar. Porém a idéia de que sofrerá outra derrota, reduzia o
contentamento que sentia por isso.
— Recolher
o periscópio! — ordenou Hekta-Paalat.
Cardif
encostou as barras de direção. Dirigiu-se aos sacerdotes.
— Preparar
a imersão — gritou Baaran.
— Vamos
nos esconder que nem uns animais! — exclamou Cardif, em tom
amargurado. — Mas enquanto tiver forças, não descansarei sem ver
meu plano executado.
— Mais
dia menos dia, Rhodan descobrirá o porto — disse Rhabol. —
Quando isso acontecer, saberá onde procurar-nos. Acredito que
encontrará um meio de continuar a acossar-nos. Nossa situação não
é muito animadora. Por isso sugiro que, por enquanto, fiquemos
quietos. Baaran, acho que, por ora, as profundezas do oceano são o
lugar mais seguro para nós.
Cardif
também sabia perfeitamente que, na situação atual, não tinham a
menor chance de agir contra os terranos. Só podiam fazer votos de
que o tempo trouxesse uma reviravolta. O prejuízo tremendo, que a
destruição do estabelecimento de Okul representava para a seita de
Baalol, sem dúvida não contribuiria para estimular as atividades
dos sacerdotes.
De repente
um sorriso sarcástico surgiu no rosto de Cardif.
— Será
que o senhor teve mais uma das suas excelentes idéias? — perguntou
Rhabol.
Cardif fez
que sim. Se os pesquisadores terranos não conseguissem encontrar um
antídoto para o entorpecente, a vitória que Rhodan alcançaria em
Okul lhe sairia muito cara.
— Acabo
de pensar em Valmonze — disse Cardif.
Os antis
fitaram-no como quem não entendia nada.
— O
patriarca recebeu o último liquitivo que tínhamos — disse. —
Não estamos em condições de continuar a produzir a matéria-prima.
As respectivas instalações foram destruídas.
— Isso
significa que o governo do Império Solar se defrontará com milhões
de viciados, que serão levados a desencadear uma revolta, em virtude
da inesperada privação do entorpecente — completou Hekta-Paalat,
parecendo satisfeito por ter compreendido o raciocínio de Cardif.
— A não
ser que na Terra seja encontrado um antídoto eficaz — objetou
Baaran.
— O
tempo de que os cientistas dispõem para isso não é ilimitado —
ponderou Cardif. — Se quiserem ser bem-sucedidos na cura de todos
os viciados, terão de andar muito depressa.
Vista sob
este ângulo, a derrota já não parecia tão trágica a Cardif. Os
contornos pouco nítidos de um fantástico plano começaram a surgir
em seu cérebro.
Quanto
mais refletia sobre sua idéia arrojada, maiores lhe pareciam as
possibilidades de transformá-la em realidade.
12
O antigo
estabelecimento dos antis era a própria imagem da destruição. Das
sessenta e sete abóbadas haviam sido destruídas mais de cinqüenta.
E as restantes encontravam-se num estado tal que sua utilização
futura parecia pouco recomendável. Os velhos lança-foguetes da
Ironduke haviam aberto brechas com seus projéteis antimagnéticos,
sempre que nenhum terrano corresse o risco de ser ferido pelas cargas
atômicas.
O Major
Krefenbac fez o jato espacial descrever uma curva ampla sobre a
cidade estorricada de aço. Em todos os lugares, as nuvens de fumaça
subiam ao céu. Constantemente se viam grupos de busca em meio às
ruínas. Os corpos metálicos dos robôs de guerra, equipados com
armas pesadas, garantiam os flancos dos diversos grupos. Qualquer
ataque desfechado por antis ocultos seria rechaçado com uma fúria
devastadora. Mas era inconcebível que ainda houvesse alguém capaz
de oferecer resistência. Rhodan ordenara aos homens que prestassem
muita atenção a eventuais elementos que pudessem fornecer
indicações sobre a produção de entorpecentes.
— Dentro
de alguns anos, a selva voltará a tomar conta deste lugar, sir —
disse o Major Krefenbac. — Sem dúvida esta elevação era coberta
pela mata.
— Os
sacerdotes devem ter tido um motivo para escolher este lugar, pois
está situado nas proximidades do oceano — disse Rhodan, em tom
pensativo. — Por que não construíram mais para o interior?
— Minha
pergunta é muito mais interessante — interveio Bell. — Os antis,
que nos criaram tamanhos problemas nas três abóbadas principais,
desapareceram sem deixar vestígio. Thomas Cardif deve estar com
eles. Onde será que se esconderam?
Krefenbac
refletiu intensamente.
— Talvez
disponham de transmissores de matéria — disse. — Ainda não
revistamos todos os edifícios.
— Isso é
impossível — objetou Rhodan. — A bordo da Ironduke existem
aparelhos de localização extremamente sensíveis, que sem dúvida
teriam registrado uma descarga energética de quinta dimensão.
Acontece que Claudrin não nos forneceu nenhuma informação a este
respeito. Os antis devem ter fugido por outro caminho, Krefenbac.
O major
fez o jato espacial descrever mais uma curva e desceu.
— Neste
caso só resta a selva — respondeu.
Antes que
Rhodan tivesse tempo de responder, o aparelho de rádio chamou. O
rosto largo de Jefe Claudrin apareceu na tela do videofone.
— Desculpe,
sir — trovejou sua voz. — Infelizmente vejo-me obrigado a
interromper seu vôo de inspeção.
— Tem
alguma novidade, major?
Claudrin
fez que sim.
— Um dos
homens que voltou para a nave diz ter descoberto um porto
subterrâneo. Afirma que os antis e Thomas Cardif fugiram pelo tal
porto num submarino.
Bell
estalou os dedos. Apontou para o mar.
— O
oceano! — exclamou. — Quer dizer que mergulharam lá.
— Vamos
voltar para a Ironduke, Krefenbac — ordenou Rhodan e voltou a
dirigir-se a Claudrin. — Iremos ao hangar, major. Quero falar
pessoalmente com o homem. Organize um grupo bem armado, com o qual
possamos penetrar no porto.
Claudrin
confirmou e seu rosto empalideceu na tela. Bell passou a mão pelos
cabelos rebeldes.
— Agora
só falta uma isca para fazer com que o peixe morda o anzol —
disse.
— Não
sei, mas tenho a impressão de que por enquanto nem sequer temos um
anzol — respondeu Rhodan, pensativo. — A Frota Solar não dispõe,
no momento, de naves anfíbias.
Bell
parecia indignado. Não gostava que seu otimismo fosse abafado.
— Quer
dizer que percorremos muitos anos-luz — disse em tom exaltado —
para fracassar diante de uma poça d’água como esta.
*
* *
O sargento
John Emery mantinha-se garboso na sala de comando da Ironduke. Via-se
que não recuara diante da luta. Depois de algumas tentativas inúteis
desistiu de prender os farrapos que pendiam de seu traje de batalha.
Sempre que Claudrin levantava a voz, encolhia-se. Nunca vira os
homens célebres tão de perto.
— O jato
espacial acaba de pousar no hangar — anunciou Averman. — Rhodan
deverá chegar num instante.
Emery
contemplou seu uniforme. Sentia-se triste por ter de apresentar-se ao
administrador com uma vestimenta destas. Muito triste, lembrou-se de
seu depósito de Terrânia, onde guardava os trajes de velhos
príncipes. Com uma roupa dessas, sem dúvida causaria uma impressão
muito “forte”
em Rhodan.
Rhodan,
Bell e o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke, entraram na sala
de comando. Emery ficou em posição de sentido.
— O
homem é este, sir — disse a voz retumbante de Claudrin.
O sargento
engoliu em seco.
— Sargento
John Emery, sir — disse a título de apresentação. — Pertenço
ao destacamento de Henderson.
Rhodan
fitou-o em silêncio. Ao notar um sorriso irônico no rosto de Bell,
Emery ficou apavorado.
— Desculpe
minha apresentação, sir — gaguejou Emery. — Infelizmente não
pude evitar alguns ferimentos durante a batalha.
— Pelo
que vejo, esses ferimentos atingiram principalmente seu traje de
batalha — disse Rhodan com um sorriso. — Faça o favor de contar
o que descobriu.
Emery
relatou suas experiências e manifestou a opinião de que havia um
canal subterrâneo que levava diretamente ao oceano.
— O
senhor acha que é capaz de encontrar novamente esse lugar? —
perguntou Rhodan.
— Quando
quiser, sir.
— Muito
bem. Seu nome foi anotado na lista de promoções, sargento. No
entanto, o senhor levará um grupo até o porto. Quero que tudo seja
cuidadosamente revistado. Mande verificar se existe alguma indicação
quanto ao lugar em que se refugiou o submarino. Se encontrar outras
embarcações, as mesmas deverão ser apreendidas imediatamente.
— Sim,
senhor — disse Emery em tom resoluto.
O Major
Krefenbac levou Emery para junto do grupo de soldados que
acompanharia o sargento.
— Temos
mais um problema pela frente — disse Bell. — Devemos encontrar um
meio de prender os antis que fugiram.
John
Marshall, chefe dos mutantes, disse:
— Talvez
os sacerdotes tenham uma espaçonave guardada em algum lugar deste
planeta. Quem sabe se estão se dirigindo para lá?
Rhodan fez
um gesto de assentimento. Não tinha meio de verificar a profundidade
dos oceanos.
— Está
na hora de termos uma boa idéia — resmungou Gucky, com sua voz
aguda.
O
rato-castor sentia-se visivelmente contrariado porque não lhe haviam
dado possibilidade de participar da ação.
— Não
podemos suportar pelo resto da vida o desconforto da Ironduke.
Ninguém
deu atenção à sua reclamação. Gucky parecia ofendido.
— Devemos
evitar de qualquer maneira que os antis saiam de Okul — disse
Rhodan, em tom pensativo. — Conhecemos a posição aproximada de
seu submarino. Quanto mais esperarmos, mais difícil se tornará
descobrir o paradeiro dos sacerdotes. Eles não poderão ficar para
sempre no fundo do mar. Terão de emergir certa hora. Quando isso
acontecer, deveremos dispor de um número suficiente de naves para
exercer uma vigilância total sobre Okul. Não devemos esquecer-nos
da possibilidade de os sacerdotes receberem reforços vindos do
espaço. Nem mesmo a Ironduke estaria em condições de resistir a um
ataque maciço de grandes unidades.
— É
verdade, sir — concordou Claudrin, com sua voz potente.
Rhodan
apresentou seu plano aos oficiais.
*
* *
O General
Deringhouse tirou as pernas compridas da cama e observou, com uma
expressão contrariada, o desenho da parede diante de si. Durante as
últimas horas passara a maior parte do tempo nessa posição. O
cadete Oscar Hardin, que fora nomeado seu ordenança, fitou-o de modo
inseguro. Compreendia perfeitamente a impaciência do general.
— Se a
Ironduke não entrar em contato conosco nas próximas horas, agirei
por conta própria — disse Deringhouse, dirigindo-se a Hardin, que
o ouvia atentamente. — O prazo fixado esgotou-se há muito tempo.
— Sem
dúvida o administrador teria entrado em contato com a Frota, se a
nave linear se defrontasse com um perigo mais sério, sir —
atreveu-se a objetar o cadete.
Deringhouse
bateu com a palma da mão na armação da cama. Esta lhe parecia um
objeto supérfluo, pois ele mal a usava, a não ser para sentar-se na
mesma. No entanto, Hardin mostrava uma dedicação pior que uma
galinha choca. Parecia treinado para adivinhar os desejos de seu
superior. Deringhouse nem se arriscava a fazer qualquer movimento que
pudesse ser interpretado como uma manifestação de cansaço. O
cadete correria imediatamente em direção à cama, alisaria os
lençóis e exclamaria em voz de tenor:
— Posso
servir-lhe um café, sir?
Deringhouse
sabia perfeitamente que o jovem apenas cumpria seu dever. Mas, por
mais que amasse a disciplina e a meticulosidade, não precisaria
mostrar-se tão solícito no cumprimento das normas de trabalho.
De
qualquer maneira, o general não tinha outra alternativa senão
contemplar o desenho simples, que via na parede, e comportar-se de
modo a não provocar suspeitas de que se sentisse cansado.
— Não
se esqueça da Fantasy — disse. — A Ironduke também não está
livre de um naufrágio espacial.
Hardin
balançou a cabeça. Parecia pensativo. Ao que supunha Deringhouse, o
cadete refletia desesperadamente sobre como deveria tratar um oficial
numa situação daquelas.
— Sem
dúvida, sir — disse Hardin, revelando senso diplomático.
Deringhouse
levantou-se e abriu os braços. No último instante conseguiu
reprimir um bocejo. Hardin fitou-o com uma expressão preocupada.
O
alto-falante veio em auxílio de Deringhouse, salvando-o de novas
investidas do cadete.
— Sala
de comando chamando o General Deringhouse! Sala de comando chamando o
General Deringhouse!
Deringhouse
ligou o aparelho de intercomunicação. Assim que respondeu ao
chamado, uma voz desconhecida disse:
— Estabelecemos
contato com a Ironduke, sir. O administrador quer falar com o senhor.
Deringhouse
achou que seria desnecessário dar uma resposta a essas palavras.
Atravessou o camarote a passos largos e saiu correndo. Hardin fitou-o
com uma expressão desolada.
Assim que
chegou à sala de comando, o general reconheceu o rosto de Rhodan na
tela do aparelho de telecomunicação. Deringhouse ouviu seu próprio
suspiro de alívio.
— Espero
que tenha boas notícias, sir — disse Deringhouse, enquanto
cumprimentava os dois radioperadores com um gesto de cabeça.
Os dois
homens de serviço na sala de rádio retiraram-se sem dizer uma
palavra. O rosto de Rhodan parecia sério.
— Apoderamo-nos
de Okul. Conseguimos destruir o estabelecimento dos antis. Mas alguns
deles conseguiram fugir num submarino para as profundezas de um dos
numerosos mares deste mundo — o rosto que aparecia na tela assumiu
uma expressão dura. — Uma das pessoas que fugiram é Cardif.
— Descobriu
alguma coisa sobre o entorpecente? — perguntou Deringhouse, em tom
preocupado.
— Descobrimos
— respondeu Rhodan. — Mas, no momento, não é isto que importa.
Quero evitar que os antis e Cardif saiam de Okul, ou que sejam
libertados por alguém que lhes traga auxílio do espaço.
O oficial
experimentado inclinou o corpo para a frente. Parecia muito tenso. Já
sabia quais seriam as ordens de Rhodan.
— Qual é
sua sugestão, sir?
— A
Frota Solar está de prontidão — disse Rhodan. — Cinco mil
unidades dirigir-se-ão imediatamente a Okul, a fim de bloquear o
planeta.
— As
naves estão prontas para decolar, sir! — exclamou Deringhouse com
os olhos chamejantes.
Finalmente
o tempo de espera chegara ao fim. O general sabia que os tripulantes
de todas as naves aguardavam a ordem de entrar em ação.
O
administrador fez um gesto de assentimento.
— Está
bem, general. Todos os supercouraçados entrarão em transição,
juntamente com outras unidades pesadas e leves. Okul nos pertence, e
não haverá mais nada que possa modificar essa situação.
— Não
tenha a menor dúvida — disse Deringhouse, em tom resoluto.
*
* *
A
estrutura espácio-temporal parecia arrebentar no momento em que o
grupo de naves da Frota Solar irrompeu do hiperespaço. As descargas
provocadas pela transição das gigantescas espaçonaves esféricas
criaram terríveis ondas de choque. Os efeitos atingiram o pequeno
sistema ao qual pertencia o planeta Okul. Houve uma série de
terremotos e inundações.
Esses
efeitos colaterais da navegação espacial podiam ser evitados com o
uso das modernas naves lineares. A Ironduke podia chegar sem o menor
risco às imediações de qualquer planeta, deslocando-se pelo
semi-espaço. Os saltos pelo hiperespaço sempre exigiam certo
cuidado. Se toda a Frota Solar entrasse em transição nas imediações
da Terra — o que evidentemente representa apenas uma hipótese —
haveria um deslocamento da órbita do planeta, com todas as
conseqüências resultantes do mesmo.
Perry
Rhodan, que se encontrava na sala de comando da Ironduke, acompanhava
a aparição das naves.
— É um
espetáculo impressionante — confessou Bell que, embora já tivesse
assistido muitas vezes ao fenômeno, nunca deixava de sentir-se
fascinado pelo acontecimento.
As
espaçonaves ali reunidas seriam capazes de bloquear Okul de tal
maneira que, para usarmos uma hipérbole, nem mesmo um inseto
conseguiria decolar do planeta ou nele pousar sem ser notado.
Milhares de goniômetros e aparelhos de localização vasculhariam a
superfície do planeta e o espaço adjacente.
— Velhas
naves, boas e confortáveis — piou Gucky. — Terei muito prazer em
teleportar-me para bordo da Drusus, a fim de tirar um cochilo.
Olhou em
torno com uma expressão de desprezo e concluiu em tom azedo:
— O
Capitão Graybound tem razão... Ninguém consegue impressionar-me
com esses veículos-molezas.
Rhodan
estava ocupado com os contatos mantidos com os comandantes das naves
que chegavam. Apesar disso teve tempo para ordenar a Gucky:
— O
senhor permanecerá a bordo da Ironduke, Tenente Guck.
O
administrador entrou em contato pelo rádio com os comandantes das
naves, a fim de colocá-los a par da situação. Aqueles oficiais
experimentados, compreenderam imediatamente. Não demorou uma hora, e
Okul ficou totalmente bloqueado.
— Muito
bem — disse Rhodan, satisfeito. — De qualquer maneira, nossos
amigos estão presos. Terão que inventar uma coisa muito especial se
quiserem escapar.
Jefe
Claudrin colocou a Ironduke numa órbita estável em torno de Okul. A
velocidade elevada tornava-a apta para essa missão. Os
lança-foguetes ameaçavam a superfície do planeta. Um manto
impenetrável passara a envolver Okul.
Os
oficiais mais categorizados encontraram-se na sala de comando da
Ironduke, a fim de discutir a situação.
Rhodan
sabia perfeitamente que por enquanto sua ação não produziria
nenhum resultado. As naves estavam praticamente imobilizadas. A única
coisa a fazer seria aguardar que o misterioso submarino aparecesse na
superfície.
O
administrador voltou a entrar em contato com Terrânia. Falou com o
Dr. Topezzi e o Dr. Whitman. Informou-os sobre a descoberta dos
fura-lamas. Os médicos, que eram os coordenadores do programa de
pesquisas destinado ao combate dos efeitos do entorpecente, sugeriram
que algumas naves de pesquisa e naves-laboratório fossem destacadas
para Okul.
— É o
que faremos — concordou Rhodan. — Por enquanto procuraremos
capturar os fura-lamas encontrados em toda parte. Quando os
especialistas chegarem, poderão começar a trabalhar imediatamente.
Com isso evitaremos qualquer demora.
— Estou
plenamente convencido de que, com isso, conseguiremos encontrar um
antídoto — disse o Dr. Whitman, com a voz segura. — Afinal, já
dispomos de todos os requisitos técnicos para isso. Sabemos qual é
a natureza da toxina segregada pelas glândulas dos animais e
conhecemos o processo de produção da mesma.
— Faço
votos de que seu otimismo tenha fundamento, doutor — disse Rhodan,
dando fim à palestra.
Desligou.
Ao virar-se, viu o rosto sorridente de Bell. A expressão fria
abandonou os olhos cinzentos do grande homem. Virou-se para os
oficiais, que estavam reunidos na sala de comando, e começou a falar
com a foz firme.
EPÍLOGO
A
enfermeira passa lentamente entre as fileiras de camas brancas.
Dirige seu olhar para os pacientes que jazem imóveis. A luz do Sol
penetra pelas amplas janelas. A sala parece limpa e alegre. A
enfermeira chega à última cama. Sorri para o homem que ocupa o
leito. Mas o rosto rígido do doente não mostra a menor reação.
— Venha
— diz a enfermeira, em tom suave.
O homem
continua imóvel. Parece olhar para o infinito. Não há o menor
brilho em seus olhos. Aquele rosto não revela nenhuma tristeza,
nenhuma dor, nenhum sofrimento. Parece completamente insensível. A
enfermeira inclina-se sobre o doente e puxa-o lentamente pelo braço.
O paciente executa movimentos desajeitados, cedendo à pressão
exercida pela mão da enfermeira.
— Tenha
cuidado — diz esta.
Sabe que o
sentido de suas palavras não é compreendido pelo doente. Nenhum dos
pacientes a compreende. Às vezes, a enfermeira tem a impressão de
encontrar-se numa câmara mortuária.
O homem
pôs-se de pé junto à cama. Não parece notar nada do que existe em
redor dele. Outra enfermeira leva-o pelo longo corredor. Nenhum dos
pacientes diz alguma coisa; nenhuma cabeça move-se na direção da
enfermeira.
— Será
um dia lindo — diz a mulher. Chegam a outro corredor.
Ela entra
com seu mudo acompanhante cuidadosamente no elevador.
Dali a
pouco alcançam o grande parque que cerca o hospital. As aves
gorjeiam nas árvores. Os bancos estão ocupados por homens e
mulheres. Os pacientes acham-se acompanhados por enfermeiras. Em
todos nota-se o terrível olhar vazio. Ficam sentados imóveis, como
se fossem bonecos.
— Vamos
para lá — diz a enfermeira.
O homem
segue-a prontamente. Não sabe mais nada deste mundo. Talvez o mesmo
já tenha deixado de existir para ele. Aquele homem e seus
companheiros de sofrimento levam uma vida apagada.
São
vítimas do liquitivo. Encontram-se num estado de obnubilação
mental. Estão irremediavelmente perdidos.
A
enfermeira passeia durante meia hora com o paciente. Depois leva-o de
volta à sua cama. Todos os doentes têm de ser levados a passear. Os
médicos insistem nesse ponto, mas a enfermeira não acredita que
isso adiante alguma coisa. Sabe que o estado dos doentes se mantém
inalterado até que sobrevenha a morte. E a morte vem muito depressa.
Os doentes
abandonam a existência neste mundo, sem oferecer a menor
resistência.
— Foi um
belo passeio, não foi? — pergunta a enfermeira.
Não obtém
resposta. Nunca obterá. Apesar disso, vez por outra tem de dizer
algumas palavras, pois, do contrário, também acabará
enlouquecendo. Seu trabalho consiste em ajudar essa gente, mas muitas
vezes pergunta a si mesma qual será a finalidade preenchida pela
ação que desenvolve junto a esses pacientes.
O primeiro
passeio daquela manhã chegou ao fim. A enfermeira leva o paciente de
volta à sala dos cadáveres-vivos. Passam pelas longas fileiras de
camas.
Reina o
silêncio. O ruído dos pássaros mal penetra na sala. As ajudantes
arrumaram a cama do doente.
Na
cabeceira vê-se uma pequena placa. Nela está escrita, em letras
negras, o nome do homem que a ocupa; é um nome que ele mesmo já não
consegue ler.
O olhar da
enfermeira não se prende à placa. As palavras escritas ali nada
significam, tanto para ela como para o doente. É bem verdade que há
um destino ligado a este nome, mas o nome em si só interessa aos
registros da instituição.
Na placa
que está presa àquela cama lê-se HENRY MULVANEY.
*
* *
*
*
*
A pista
dos antis levou-os para Okul: um planeta selvático, situado a mais
de quarenta mil anos-luz da Terra.
Acontece
que os oceanos desse mundo guardam um segredo que poderá
transformar-se numa armadilha mortífera para Perry Rhodan,
Administrador do Império Solar.
No
próximo volume da série Perry Rhodan, intitulado Sob
Uma Falsa Bandeira,
será narrada uma das mais dramáticas aventuras...

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