sábado, 3 de setembro de 2016

P-110 - Na Pista dos Antis - Willian Voltz [Parte 3]

Não. Decolarei com a Val I — prosseguiu Valmonze, ao notar que nenhum dos antis se dignava a dar uma resposta. — Decolarei com liquitivo ou sem ele. Não posso perder tempo esperando por aqui, até que alguém tome uma decisão. Sugiro que continuemos a abastecer todos os mundos com o licor.
Cardif sorriu.
Respeito seu tino comercial, meu caro. Acontece que o senhor se esquece que lemos outros planos.
Valmonze era igual aos outros saltadores: estava disposto a lutar ferozmente por qualquer vantagem econômica. Enquanto houvesse possibilidade de continuar a vender o liquitivo, não via por que os fornecimentos deveriam ser suspensos por razões estratégicas.
Tinha bastante senso diplomático para não exprimir abertamente sua opinião. Mas como insistisse em decolar imediatamente com a Val I, obrigava os antis a tomarem uma decisão rápida. Contava com a mentalidade dos sacerdotes, que costumavam refletir bastante antes de realizarem qualquer modificação em seus planos.
Baaran, que era um dos mais velhos entre os antis presentes naquele momento, fez um gesto de assentimento.
O senhor vai decolar — disse em tom frio.
Cardif e o patriarca inclinaram o corpo para a frente.
E levará o liquitivo — acrescentou Baaran. — Por enquanto as remessas não serão suspensas.
Valmonze não se esforçou para disfarçar a sensação de triunfo. Conseguira um bom negócio, e o resto não lhe importava. Cardif fitou o mercador em silêncio, enquanto este esvaziava o copo e passava a mão pelos lábios.
Sua hora também há de chegar, meu jovem — disse em tom condescendente, dirigindo-se a Cardif.
Sem dúvida há de chegar — interveio Hekta-Paalat, em tom zangado. — Dentro em breve decidiremos sobre a suspensão dos fornecimentos.
O filho de Rhodan levantou-se e saiu sem dizer uma palavra. Atravessou um corredor e atingiu a sacada que circundava a abóbada de aço. Aqui em Okul os antis haviam abandonado as construções em forma de pirâmide. As abóbadas de aço eram mais práticas. Do lugar em que se encontrava, Cardif via o oceano, em cujas orlas praieiras começava a selva. Os sacerdotes haviam levantado suas construções num planalto. Destruíram toda a vegetação que lhes representasse um obstáculo.
A Val I estava pousada no espaçoporto ultramoderno. Os saltadores não costumavam pousar com suas gigantescas naves de formato cilíndrico. Utilizavam barcos espaciais auxiliares. Acontece que a Val I levava uma carga de entorpecente que teria de ser transferida para outras naves, e por isso tivera que aterrissar.
As instalações de condicionamento de ar, situadas sob a amurada da sacada, sopravam ar frio para cima de Cardif. Apesar disso, Thomas sentiu o calor abafado da selva próxima.
O mestiço galáctico não poderia imaginar que, dali a pouco, a calma que desfrutava seria perturbada.
Indiretamente a Val I seria responsável por esse fato, mas Cardif nunca saberia disso.

* * *

Muitas vezes o destino se compraz em provocar mudanças cosmopolíticas, devido a fatores aparentemente insignificantes. E Valmonze fora escolhido pelo destino para, através da decolagem de sua nave, desencadear uma série de acontecimentos, cuja evolução futura abalaria os alicerces do Império Solar.
No momento em que a Val I penetrou pela primeira vez no hiperespaço, depois de ter deixado Okul, provocou uma descarga energética superdimensional. Nenhuma das pessoas a bordo da nave saltadora imaginava que havia nas imediações um veículo espacial terrano prestes a iniciar a viagem de regresso. A Val I desapareceu no hiperespaço, com destino desconhecido, mas deixou atrás de si um sinal inconfundível do local de onde iniciou seu salto.
E os rastreadores estruturais da Ironduke registraram esse sinal...

* * *

Foi por puro acaso que o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke, olhava por cima do ombro de Jens Averman no momento exato em que se verificou a reação dos rastreadores estruturais.
O major e Averman gritaram a uma voz:
Pare, sir!
Averman anotou apressadamente a intensidade da reação, a distância e a duração. Rhodan, que acabara de dar ordem para regressar à Terra, avançou e colocou-se à frente do aparelho. Jefe Claudrin, que tinha apenas um metro e sessenta de altura, parecia um barril ao lado de Rhodan. Até Bell tornava-se esbelto ao lado de Jefe.
Carlos Riebsam, o matemático, colocou-se junto ao computador da nave. Certamente imaginava que haveria trabalho para ele.
Gucky foi o único a continuar em sua poltrona, em atitude sonolenta, como se não tivesse nada com aquilo.
Localizamos um salto, sir! — exclamou Averman. — Sem dúvida trata-se de uma espaçonave. Os dados são típicos.
Apurou a distância? — perguntou Rhodan.
Sim senhor. Os dados exatos só podem ser apurados pela calculadora.
Como todos os operadores de rádio, Averman tinha uma aversão instintiva pelas máquinas cibernéticas. Nutria um receio inconsciente de que um dia seu trabalho poderia ser executado por um cérebro positrônico. Dessa forma tornava-se perfeitamente compreensível que desse o nome de calculadora ao computador de bordo, que afinal era um cérebro positrônico, dotado de milhões de variantes.
Se por aqui há espaçonave, também deve haver planeta. Afinal a nave deve ter vindo de um — disse Bell.
Talvez o planeta seja Okul — retumbou a voz de Claudrin. — Aposto que essa nave vem de Okul.
Olhou em torno, como se quisesse verificar se alguém duvidava do que acabava de afirmar.
Não havia ninguém que estivesse disposto a fazer a aposta. Muito tensos, os homens acompanharam os cálculos. Dentro de alguns minutos Carlos Riebsam poderia realizar a primeira programação do computador positrônico. Hunt Krefenbac entregou-lhe os dados apurados por Averman.
Perry Rhodan acompanhava o trabalho do matemático sem dizer uma palavra. Se a suposição do homem de Epsal fosse correta, seria apenas uma questão de tempo encontrarem Okul.
Perry Rhodan sabia perfeitamente que um ataque contra o misterioso planeta poderia representar a morte de seu próprio filho. Sentimentos conflitantes manifestaram-se em seu interior. Não era nenhum segredo que Thomas Cardif procurava a todo custo matar Rhodan, mesmo que esse custo representasse o Império Solar.
Para Rhodan, o inverso era inconcebível. Estava colocando em risco a vida do filho, que constantemente lhe criava terríveis dificuldades. No entanto refletia para encontrar uma possibilidade de destruir os antis sem arriscar a vida do filho.
O administrador sabia perfeitamente que, assim que encontrassem Okul, daria ordem de atacar. A vida do filho não poderia impedi-lo de agir dessa forma. Não era a primeira vez que Rhodan se defrontava com a decisão de sacrificar umas poucas vidas em benefício da Humanidade. E sempre decidira a favor da última.
Nos momentos de tranqüilidade perguntara várias vezes a si mesmo se o plano de conduzir a Humanidade, sã e salva, através de todos os perigos, em direção ao poder galáctico, não se transformara numa obsessão em que se empenhava com a fúria de um louco. Sentia-se aliviado ao cercar-se de homens de cabeça fria, que concordavam com seus planos e os apoiavam sem restrições. Homens como Freyt, Mercant, Bell e Deringhouse não eram sonhadores dispostos a acompanhar um aventureiro político.
Essas reflexões fizeram com que Rhodan tivesse certeza de que estava trilhando o caminho correto. Vez por outra sentia-se torturado pela dúvida. Mas não seria isso apenas uma prova de que estava cônscio das suas responsabilidades e ponderava cuidadosamente os seus atos?
A seita de Baalol estava prestes a colocar a Humanidade no estágio da escravidão. O filho de Perry encontrava-se em suas fileiras, mas isso apenas representava um golpe duro do destino. Quando desse suas ordens, Rhodan se obrigaria a fazer de conta que Thomas Cardif não existia.
A voz fria do Dr. Riebsam soou.
Pronto — disse o matemático. — Sem dúvida havia um pequeno erro nos dados fornecidos pelo Dr. Nearman.
Não procure torturar-nos — advertiu Bell.
Riebsam agitou o cartão perfurado que retirara do computador.
Erramos o alvo por pouco menos de quatro anos-luz — principiou Riebsam. — Isso, naturalmente, se o ponto de imersão da nave desconhecida corresponder a uma posição próxima à de Okul.
Claudrin deslocou-se pesadamente em sua direção. Riebsam podia olhar o comandante de cima para baixo, mas não poderia olhar para além do mesmo. A largura do corpo do Major Claudrin era quase igual à altura.
O matemático entregou-lhe a fita de plástico.
Vamos dirigir-nos a este ponto, sir — sugeriu Claudrin.
Rhodan voltou a ser apenas o homem de raciocínio frio. Balançou a cabeça.
Não, major — disse. — Observaremos, em silêncio, ao menos por duas horas. Afinal, sempre é possível que apareçam outras naves.
Um profundo suspiro fê-lo virar-se abruptamente. Gucky lançou-lhe um olhar de recriminação e apontou sua poltrona incômoda.
Vamos esperar mais ainda? — gemeu. — Já estou com bolhas.
Bolhas, tenente? — perguntou o Major Krefenbac.
O rato-castor fez uma careta. Não suportava ser chamado de tenente. Ergueu-se ligeiramente da poltrona, respirou com dificuldade e lastimou-se terrivelmente.
É horrível — disse.
Dirija-se depressa à enfermaria, Tenente Guck — ordenou Krefenbac com o rosto impassível. — Quero que um caso sério como este seja tratado imediatamente.
O rato-castor não disse uma palavra. Pôs à mostra o dente roedor. Logo agora, que as coisas começaram a ficar interessantes, teria que abandonar a sala de comando?
Acho que agüento mais um pouco — disse com a voz mais tranqüila. Encolheu-se na poltrona.
O que acha do estado do tenente, sir? — perguntou o major, dirigindo-se a Perry, que sorria.
Acho que meus conhecimentos médicos não são suficientes para que eu me responsabilize pelo mesmo — disse Rhodan, em tom sombrio. — Por isso sou de opinião que o Tenente Guck deve ficar sob os cuidados do Dr. Gorsizia.
Muito bem, Guck — disse o Major Krefenbac, em tom enérgico. — Apresente-se ao Dr. Gorsizia.
Gucky apalpou cuidadosamente as costas. Conseguiu esboçar um sorriso alegre.
Desapareceram — piou.
Desapareceram? — perguntou Rhodan, em tom de espanto. — Quem?
As bolhas — respondeu Gucky.
Rhodan não estava em condições de contradizê-lo, pois ele mesmo acabara de afirmar que seus conhecimentos médicos não eram suficientes para formular qualquer juízo sobre a “doença” de Gucky.
Quer dizer que vamos aguardar por algum tempo — repetiu Rhodan. — Enquanto isso vou me comunicar com as diversas unidades. Deverão saber contra quem lutaremos e quanta coisa dependerá do resultado da luta.
Claudrin e Bell afastaram-se, para que Rhodan pudesse tomar lugar à frente do aparelho de intercomunicação.
O discurso do administrador durou doze minutos. Não teve a menor dúvida em oferecer um quadro dramático da seriedade da situação. E informou-os sobre os motivos por que apenas uma nave terrana, a Ironduke, participava da perigosa missão.
Sua voz foi ouvida em todos os cantos da nave.
Rhodan omitiu uma frase. Ansiava por proferi-la, mas dominou seus sentimentos.
Não atirem contra terranos”, foi o que pensou. “Um deles pode ser meu filho.”
Refletia constantemente sobre o problema que o atormentava. Sob o ponto de vista puramente objetivo, Thomas Cardif mereceria a morte.
Acontece que os sentimentos de um pai jamais conseguem ser objetivos, cruéis.

* * *

John Emery apalpou o traje de combate ; arcônida, no qual os técnicos terranos haviam introduzido muitas melhorias. Agora, seu sistema de propulsão antigravitacional permitia à pessoa levitar pela atmosfera de um planeta e modificar à vontade a direção do deslocamento. A qualquer momento poderia tornar-se invisível por meio do defletor. Apesar disso Emery tinha um pressentimento nada agradável. Não sabia se cinco mil homens seriam capazes de conquistar um planeta ocupado pelos antis.
Afinal, o que eram cinco mil homens num mundo de tamanho médio?
Só podiam fazer votos de que os sacerdotes não se tivessem espalhado por todo o planeta. Só teriam uma chance de vencer se estes estivessem concentrados numa área reduzida.
Quando foi acordado por Berker, que chamou sua atenção para a fala de Rhodan, Emery havia dormido pouco mais de três horas. O fato de que o administrador, em pessoa, se encontrava a bordo realçava a importância da missão. A fala de Rhodan foi breve, mas Emery teve a impressão de senti-la preocupada.
Os homens ao seu redor estavam acordados. Alvarez e Dreyer jogavam uma partida de xadrez convencional. Henderson lia e Bowling escrevia uma carta ou diário. Mas a maior parte dos homens estava deitada de costas, fitando o teto.
Emery não teve a menor dificuldade de imaginar o que pensavam os soldados. Desde tempos imemoriais, toda batalha era precedida da indagação relativa à sobrevivência. John Emery era soldado profissional; os raciocínios filosóficos lhe eram estranhos. Apenas vez por outra experimentava um sopro ligeiro de uma estranha sensação, que lhe incutia uma repulsa violenta contra qualquer tipo de luta.
Ainda bem que o chefe está conosco
observou Berker, que se encontrava a seu lado.
O chefe era Perry Rhodan. Esse homem experimentado, que conduzira inteligentemente inúmeras batalhas cósmicas, sem dúvida os levaria à vitória na luta contra os antis.
Além disso, temos mutantes a bordo — disse Emery. — Os antis terão uma surpresa.
A Ironduke corria vertiginosamente para o destino...
11



Três planetas gravitavam em torno do sol sem nome. A Ironduke penetrou no sistema, protegida pelo campo de absorção da sexta dimensão. Nenhum goniômetro ou rastreador seria capaz de registrar sua presença.
O segundo mundo do sistema era Okul.
Conseguimos — disse o Major Hunt Krefenbac, que se encontrava na sala de comando. — Todas as informações fornecidas pelo Dr. Nearman aplicam-se a este planeta. Se emergimos num ponto errado, isso foi devido exclusivamente a um erro das coordenadas.
Colocar em funcionamento os rastreadores de matéria e de energia — ordenou Rhodan.
A nave esférica entrara numa órbita estável em torno de Okul.
Ordem cumprida, sir! — exclamou Jens Averman.
Tentar a localização goniométrica. — disse a voz de Rhodan.
Averman começou a manipular seus aparelhos. Okul possuía um movimento de rotação independente. Por outro lado, os aparelhos de localização da Ironduke eram capazes de atingir uma área extensa. Por isso Rhodan conseguiu, num curto espaço de tempo, dados preciosos sobre o que acontecia na superfície desse mundo.
Depois de a nave ter contornado o planeta pela segunda vez, o ponteiro do indicador de massa movimentou-se.
Localização, sir! — exclamou Averman. — Parece que há alguma coisa lá embaixo. Registramos descargas energéticas de intensidade extraordinária.
Desça mais um pouco, major — ordenou Rhodan ao homem de Epsal.
Não teve necessidade de explicar a Claudrin o que ele deveria fazer. O major conhecia seu serviço. Dali a dez minutos não havia mais ninguém a bordo que não soubesse o que fora descoberto.
Em plena selva, junto de um oceano, havia sessenta e sete abóbadas de aço de dimensões imensas.
É uma cidade! — exclamou Bell, em tom exaltado. — Uma cidade de aço. Os antis têm senso prático nas suas construções, desde que não queiram impressionar ninguém.
Aqui puderam dedicar-se tranqüilamente às suas atividades criminosas — disse Rhodan. — Lá embaixo são produzidas quantidades gigantescas de liquitivo. Acho que já chegou a hora de acabarmos com isso.
Claudrin perguntou com a voz grave:
Vamos atacar, sir?
Mande todos os homens entrarem em forma, próximos das eclusas. Diga-lhes que vistam os trajes de combate. Devem ligar o propulsor antigravitacional. Explique-lhes como devem usar os diversos tipos de arma. Os campos defensivos individuais dos antis só podem ser atravessados pelos projéteis de plástico.
Bell passou a mão pelo cabelo rebelde. Fez um sinal para os homens da sala de comando.
O espetáculo vai começar — disse à sua maneira pouco convencional.

* * *

Casnan viu um ponto escuro no céu. Esfregou os olhos com ambas as mãos e voltou a olhar para cima. Agora eram três pontos. Casnan estava petrificado. De repente ouviu uma voz exaltada, vinda do outro lado da sacada. Alguém correu apressadamente sobre o piso gradeado.
Outros pontos haviam aparecido. Eram centenas. Incrédulo, Casnan fitou o céu límpido.
Segurou a manta.
Naquele instante, uma gigantesca esfera surgiu sobre a cidade abobadada. Era ela que cuspia os “pontos” que desciam. Naquele momento, Casnan compreendeu o que havia acontecido.
Aquela esfera era uma espaçonave terrana, que se aproximara sem ser notada. Milhares de homens caíam sobre a reserva dos antis.
Alarma! — berrou Casnan, desesperado.
Seu grito foi abafado pelo uivo das sereias de alarma.
Finalmente, o pessoal dos postos de vigilância notara a invasão. Casnan preferiu não lançar outro olhar sobre a desgraça que se aproximava.
Entrou apressadamente na abóbada. Viu-se acolhido por um longo corredor. Outros sacerdotes saíram de várias salas. Todos pareciam muito perturbados. A maior parte deles nem sequer parecia conhecer o motivo do alarma.
Naquele instante, uma voz saída dos alto-falantes, espalhados por todos os cantos, parecia chicotear o ambiente.
Estamos sendo atacados por uma nave terrana. Todos devem dirigir-se imediatamente aos seus postos. Devemos procurar destruir os atacantes, antes que consigam pousar.
A confusão cresceu. Casnan esbarrou em outro sacerdote que se precipitou para o corredor.
Terranos? — fungou. — Quantos são?
Casnan não perdeu tempo com explicações. Continuou a correr.
Suas armas energéticas não conseguem romper nossos campos defensivos individuais — disse a voz pelos alto-falantes.
Os homens recuperaram a capacidade de raciocínio. Casnan passou a correr mais devagar. Era verdade. Os terranos haviam perdido a luta antes de pousarem. Não poderiam atacar cada um dos sacerdotes, que eram mais de mil, com os pesados canhões de sua nave. E as armas portáteis de radiações não eram capazes de romper os campos energéticos dos antis. A atividade mental dos sacerdotes influenciava a estrutura dos campos defensivos individuais.
Um sorriso de triunfo surgiu no rosto de Casnan. Tomou uma decisão. Pegaria uma arma e sairia para a sacada. Os terranos se ofereciam como ótimos alvos, enquanto ele mesmo era praticamente invulnerável.
Um chiado fê-lo virar-se apressadamente. Bem acima de sua cabeça, uma mancha incandescente branca surgiu no teto amplo. Cresceu rapidamente. O metal derretido começou a pingar. Casnan soltou um grito. Sentiu o cheiro do plástico queimado. Atrás dele, um sacerdote começou a disparar contra a abertura que se formava.
Já estão sobre os nossos telhados! — gritou alguém.
Estão abrindo buracos na abóboda”, pensou Casnan, apavorado.
No seu subconsciente sentiu uma espécie de admiração pelo arrojo dos terranos. Apesar do êxito inicial, aquilo não passava de uma missão suicida.
O número dos buracos aumentou. Casnan continuou a correr. Antes que o primeiro terrano entrasse na abóboda, queria ter uma arma na mão.

* * *

Ao lado de John Emery, pairavam cerca de vinte homens que não pertenciam à sua unidade. Abaixo, viu o clarão dos primeiros tiros. As construções em abóbada pareciam tigelas emborcadas. Acima delas, viu uma enorme sombra ameaçadora.
É a Ironduke”, refletiu o sargento.
Por enquanto o inimigo não havia revidado. Conseguiram pegar os antis de surpresa. Emery tomou a direção do telhado mais próximo. Em torno dele, os homens começavam também a disparar. Segurou firmemente a arma de radiações e puxou o gatilho. A distância ainda era muito grande. O ar começou a tremeluzir sob o calor insuportável, provocado pelo tiro. Em todos os lados viam-se nuvens de fumaça.
Agora — disse Emery.
Sem querer falara em voz alta. Precisava ter cuidado para não ferir nenhum dos seus soldados. Os primeiros homens já se encontravam em cima do telhado. Abriam entrada sem dar atenção a nada. Em torno da abóbada estendia-se uma espécie de sacada.
Emery viu homens de mantas largas surgirem por lá. Tinham armas e começaram a disparar contra os terranos que desciam sobre o edifício.
Então são estes os antis”, refletiu.
Emery perdeu-os de vista quando caiu na cobertura da abóbada. Perto dele quatro soldados estavam fazendo buracos com suas armas de radiações.
Atirem contra os sacerdotes. Usem as carabinas automáticas — gritou Emery.
Um homem baixo e magro brandia furiosamente a arma. Seu rosto estava vermelho; o calor era intenso. Emery correu em direção ao grupo.
Acho que já podemos entrar — disse um baixote, apontando para o buraco.
Não perdeu tempo. Penetrou na abóbada. Emery seguiu-o com os olhos. Era um homem pequeno e valente. Os corredores achavam-se enxameados de sacerdotes. Disparou três vezes. Depois foi atingido, e Emery viu-o inclinar-se para o lado e tombar para a frente. Subitamente caiu como uma pedra sobre os antis que recuavam.
Emery e os soldados restantes fitaram-se.
Não disseram uma palavra. Saltaram para dentro da abertura... um após o outro.

* * *

Doze seres, semelhantes a formigas, moviam-se sobre a superfície cinzenta. Perry Rhodan fitou a tela com os olhos ardentes. Aqueles seres do tamanho de insetos eram membros da unidade de elite. Os pensamentos de Rhodan acompanhavam esses homens intrépidos.
Nestas três abóbadas, os sacerdotes estão oferecendo uma resistência encarniçada — disse Bell em tom deprimido. — Até parece que dali conseguirão resistir.
Rhodan teve de confessar para si mesmo que as coisas não estavam correndo tão bem quanto imaginara. Os antis logo se haviam adaptado à situação. Quando notaram que não poderiam resguardar todas as abóbadas ao mesmo tempo, concentraram seus recursos defensivos em algumas delas. E a partir dali, realizavam investidas bem-sucedidas.
Enquanto nas outras abóbadas, os terranos eram surpreendidos com escaramuças, os antis esperavam que, partindo do centro, acabariam por rechaçar o ataque. Era uma hábil manobra estratégica.
O Major Krefenbac, que mantinha contato pelo rádio com os chefes dos diversos destacamentos, estava com a testa enrugada; parecia preocupado.
Henderson informa que se apoderou definitivamente de quatro abóbadas — falou, dirigindo-se a Rhodan. — Pelo que diz, só há uns poucos antis nas mesmas, que oferecem uma feroz resistência, enquanto fogem. Com isso prendem nossos homens no lugar. Temos de arranjar reforços para essas três abóbadas.
Fez uma pausa e depois disse, em tom deprimido:
Pastenaci não responde mais. A comunicação foi interrompida. As informações de Sokura Tajamo são semelhantes às que recebemos de Henderson.
Rhodan dirigiu-se ao Major Claudrin.
Assuma a Ironduke — ordenou. — Está na hora de darmos algum apoio aos homens que se encontram lá embaixo.
Fez um sinal para Bell, que apoiou as mãos nos quadris. Krefenbac levantou-se de um salto, mas Rhodan balançou a cabeça.
Não, major, aqui sua presença é mais necessária. Bell e eu escolheremos mais alguns homens que possam ser dispensados por Jefe Claudrin.
Krefenbac obedeceu a contragosto.
O senhor realmente acredita que deve intervir pessoalmente na luta, sir?
Acredito — respondeu Rhodan.
Bell trouxe dois trajes de combate. Gucky caminhava nervosamente entre Rhodan e o gorducho. Via-se que gostaria de acompanhá-los.
Não, pequeno — disse Rhodan. —Você terá de esperar mais um pouco.
O rato-castor voltou ao seu lugar. Parecia decepcionado.
Boa sorte, sir — disse Claudrin em tom sombrio, assim que Rhodan e Bell estavam prontos para partir.
Dali a alguns minutos, quando os dois desciam sobre a cidade de aço, viram um quadro caótico. A maior parte das abóbadas estava com os telhados parcialmente destruídos. Nuvens de fumaça saíam das aberturas.
Rhodan fez um sinal para que os sete homens, que o acompanhavam, permanecessem bem próximos um do outro. Dali de cima viam-se perfeitamente as três abóbadas, em torno das quais a luta era mais feroz. Por lá ainda havia uma intensa troca de tiros, enquanto nos outros lugares, só vez por outra, se via o lampejo produzido por um tiro de radiações ou se ouvia o estampido seco de uma carabina automática.
A essa hora, os antis já deviam ter notado que seus campos defensivos, mentalmente reforçados, não os protegiam contra os projéteis antimagnéticos.
Rhodan viu os soldados agitarem os braços sobre os telhados.
Não ouvia o que gritavam. Só quando chegou mais perto entendeu suas palavras. Festejavam sua presença em meio ao cerrado tiroteio. Dali a um minuto não havia um único soldado que não soubesse que Rhodan estava participando ativamente da luta.
O chefe! — gritaram os homens. — Perry Rhodan está chegando!
Dali a uma hora, o quadro estava modificado. Os terranos, que envergavam trajes de batalha arcônida, avançavam firmemente. À frente deles, combatia um homem alto e esbelto. Os sacerdotes arregalavam os olhos ao avistá-lo, pois acreditavam que aquele homem fosse Thomas Cardif.

* * *

Isso é traição! — gritou Thomas Cardif com o rosto desfigurado. — Alguém nos traiu. Se não fosse assim, Rhodan não poderia ter encontrado este mundo. Quem são os traidores que se encontram nas fileiras dos antis?
Falava com os punhos cerrados. A cada palavra que proferia, esmurrava a mesa. Seus olhos exprimiam ódio. Mais uma derrota começou a desenhar-se diante de si. Já soubera que seu pai fizera as unidades terranas avançar sobre as três abóbadas, nas quais até então os antis haviam sido bem-sucedidos na sua defesa.
Nessas abóbadas ficavam as instalações de purificação da matéria-prima do liquitivo. Os sacerdotes haviam decidido que estas deveriam ser salvas de qualquer maneira.
E agora o êxito desse plano parecia tão duvidoso. Nenhum dos antis teve uma visão mais trágica da situação que Cardif.
Entre nós não existe nenhum traidor — respondeu Hekta-Paalat, em tom tranqüilo.
A manta do anti fora chamuscada pelo tiro de uma arma de radiações. Seguira o exemplo da maior parte dos membros de sua raça: desistira de manter ativado seu campo defensivo individual, pois também percebera que os projéteis antimagnéticos, disparados pelas armas terranas, eram capazes de atravessar o mesmo.
É possível que em outras raças exista — acrescentou, numa alusão evidente a Cardif.
Conseguiremos defender as abóbadas? — perguntou gritando o filho de Rhodan.
Não — respondeu Rhabol, que se encontrava do lado oposto da mesa.
Os olhos do terrano chamejavam. Contornou a mesa e agarrou a manta do sacerdote.
Temos que defendê-las. Há um único couraçado sobre Okul. Dessa nave dificilmente podem ter desembarcado mais de cinco mil homens. Exijo que o comando da batalha seja transferido a mim. Ao lado dos sobreviventes, poderei salvar as instalações.
Os olhares dos antis que se encontravam presentes exprimiam uma rejeição sombria.
O choque, que haviam sofrido, ao saberem que as armas dos terranos eram capazes de romper seus campos defensivos individuais, minara o moral dos sacerdotes. Se não fosse assim, o resultado da batalha só poderia ser-lhes favorável.
Fugiremos — disse Baaran em tom tranqüilo.
Cardif soltou uma risada sarcástica. Cruzou os braços sobre o peito e fez um aceno de cabeça em direção às telas que mostravam as abóbadas queimadas.
Pretende fugir? — perguntou de modo irônico. — Para onde, meu velho? Para a selva? Os homens de Rhodan disparam contra qualquer pessoa que apareça lá fora.
Para o mar — respondeu Baaran, ainda tranqüilo.
Ao que parecia, não se impressionava nem um pouco com o fato de que, a algumas centenas de metros do lugar em que se encontrava, seus confrades iam cessando um após o outro na resistência aos soldados terranos, que penetravam na abóbada.
A voz sarcástica de Cardif ainda revelava ironia, quando perguntou:
Será que teremos de nadar?
Ninguém lhe deu resposta. Baaran e Rhabol voltaram-se para as telas, pois desejavam acompanhar o estágio final da batalha.

* * *

Durante todo esse tempo, o sargento John Emery sentira-se incapaz de conceber uma idéia clara. Numa atitude puramente automática disparara contra os sacerdotes que se interpunham em seu caminho. Outros homens lutavam a seu lado. Emery não percebeu que o número de seus soldados diminuía constantemente.
Os olhos de Emery estavam quase fechados devido ao suor. Os pulmões não queriam aceitar o ar aquecido, carregado de fumaça. Sentado no fim de um longo corredor, o sargento disparava contra três dos antis, que se haviam abrigado num pequeno estrado.
Por toda a abóbada rugiam lutas violentas. Um tiro de radiações chiou acima de Emery e chamuscou suas costas. Apoiando-se sobre os cotovelos, disparou a carabina automática e... conseguiu acertar!
Emery resmungou, satisfeito.
O inimigo parecia imobilizado. Pela primeira vez o sargento resolveu olhar para trás. Era o único terrano que se encontrava naquele corredor! Não tinha tempo para pensar nisso. Dedicava sua atenção aos três antis, cujo silêncio o deixava desconfiado.
Disparou três vezes, mas o inimigo não respondeu ao fogo.
Emery passou a língua pelos lábios ressequidos. O silêncio tomou conta de toda a abóbada. Até parecia que alguém havia ordenado um cessar fogo imediato.
Emery ergueu-se cautelosamente. Era arriscado oferecer um alvo exposto aos antis. Mas por outro lado, não poderia ficar deitado ali, para todo o sempre. Percebeu que alguma coisa tinha mudado. A batalha parecia ter sido decidida. Emery não conseguiu reprimir uma sensação de medo.
Será que o ataque de surpresa malograra? Seria ele um dos poucos sobreviventes?
Levantou-se. Permaneceu ereto no corredor. Olhou para seu corpo. O aspecto que oferecia não inspirava muita confiança. Seu uniforme estava queimado em vários lugares. Era duvidoso que o traje de batalha ainda estivesse em pleno funcionamento.
Bem; seria fácil verificar. Enquanto ligava o propulsor antigravitacional, o sargento mostrava-se zangado. Deixou que o aparelho o levasse ao estrado, que já fora abandonado pelos antis.
Emery pousou são e salvo. Olhou em torno. Dali enxergava todo o corredor. Viu o lugar em que antes se encontrara. Sentiu um calafrio descer-lhe pela espinha. Lutara contra os sacerdotes praticamente sem a menor proteção.
Emery continuou a avançar de arma em punho. Viu-se em outro corredor: uma descida. Alguns passos adiante deparou-se com um vulto que jazia imóvel no chão. Era um anti. Estava gravemente ferido, mas ainda estava vivo.
Assim que ouviu os passos de Emery, virou-se. O sargento apontou a carabina automática. O ferido fitou-o tranqüilamente. Emery parou a três metros do moribundo.
O que está esperando? — perguntou o anti, num intergaláctico impecável. — Acha que Casnan tem medo de morrer?
Não — disse Emery, mas sua boca apenas conseguiu expelir um grasnado.
O que pretende fazer? — perguntou Casnan.
Quero seguir adiante — respondeu Emery, em tom áspero.
Um sorriso martirizado surgiu no rosto do sacerdote. Conseguiu erguer um pouco o corpo e segurar a arma de radiações, que jazia no chão. Fitou-a com uma expressão pensativa.
Nada de truques — preveniu Emery. — Guarde isso.
Não sei por quê, mas o fato é que ele procura deter-me”, pensou o sargento.
Aproximou-se de Casnan. Este rolou para o lado e fez pontaria para Emery, que soltou uma praga e deu um enorme salto para a frente. O raio escaldante da morte chiou acima de sua cabeça. As pernas do terrano atravessaram o ar e atingiram o anti, que soltou um grito. Com movimento lerdo, ele ainda moveu a arma em direção de Emery.
Desta vez, o sargento estava prevenido. Um golpe com a quina da mão fez com que o anti deixasse cair a arma. Emery apoderou-se da pistola.
Pronto! — exclamou. — Agora vamos ver o que está sendo escondido por aqui.
Casnan estremeceu. O sargento viu nisso uma prova de que estava na pista certa.
Se prosseguir, o senhor morrerá — ameaçou o sacerdote que, exausto, desfaleceu.
Emery não lhe deu mais nenhuma atenção. Desceu correndo. Seus passos produziram um eco trovejante. O corredor descreveu uma curva fechada e, de repente, Emery se viu diante de um poço envolto numa tremenda escuridão. Deixou-se cair no chão e aguçou o ouvido.
Estaria enganado, ou realmente ouvia o borbulhar da água? O que haveria no fundo desse poço? Tirou a lanterna do cinto do traje de batalha e ligou-a. As paredes atingidas pelo feixe de luz eram totalmente lisas. Emery refletiu intensamente. A luminosidade da lanterna não era suficiente para atingir o fundo do poço.
Lembrou-se da advertência do sacerdote moribundo.
Será que realmente havia um perigo misterioso que o espreitava?
Num gesto resoluto, Emery cerrou os dentes. Deixou-se cair no poço com o auxílio de seu traje de batalha.

* * *

Perry Rhodan levantou o braço.
As três abóbadas, em torno das quais se travavam combates violentos, haviam caído. Em todos os lados, os robôs de guerra estavam destruindo os últimos focos de resistência, para o que usavam suas armas pesadas. A cidade abobadada, com seus sessenta e sete edifícios, estava praticamente destruída.
Um dos combatentes, que se reunira em torno de Rhodan, disse com a voz exausta:
Gostaria de saber onde eles se meteram, sir.
De um instante para outro, os sacerdotes haviam abandonado seus postos no interior dessa abóbada, que, segundo tudo indicava, era muito importante para eles. Até parecia que se dissolveram no ar.
Rhodan calculava que pelo menos duzentos sacerdotes tinham fugido para um local ignorado. Sem dúvida, Thomas Cardif era um dos fugitivos.
A abóbada estava completamente fechada. Para onde teriam ido os antis? Haveria alguma passagem subterrânea?
Rhodan chamou um soldado que trazia um aparelho de rádio.
Entre em contato com a Ironduke — ordenou.
Dali a alguns segundos ouviram a voz trovejante do Major Claudrin:
Meus parabéns, sir. Vejo que conseguiu.
Claudrin, que via da sala de comando da nave toda a área do estabelecimento, devia ter uma idéia exata da derrota sofrida pelos antis. Era ao menos o que se deduzia do tom de triunfo que vibrava em sua voz.
Um grupo considerável conseguiu escapar, major — disse Rhodan, com a voz cansada. — Provavelmente existe alguma passagem secreta. Para o senhor, será muito mais fácil verificar se os antis aparecem em algum lugar.
A Ironduke vai lhes proporcionar uma recepção bem quente — asseverou Claudrin. O tom de sua voz revelava um evidente aborrecimento; sentia-se chateado porque até então só figurara como espectador.
Rhodan passou os olhos pelos soldados reunidos em torno dele. Eram algumas centenas. Os outros encontravam-se nas diversas abóbadas. Sem dúvida já estavam revistando tudo, sob a direção de competentes oficiais.
O administrador também iria executar essa tarefa.
Vamos dar uma olhada por aí — gritou para seus homens. — Vasculharemos detalhadamente um recinto após o outro. Tudo que possa fornecer alguma indicação sobre a fabricação do entorpecente deverá ser apreendido.
Antes que pudesse prosseguir, notou-se um movimento entre os soldados. Ouviram-se alguns gritos. O grupamento abriu alas, e dois homem conduziram um anti à presença de Rhodan. O administrador notou imediatamente que o sacerdote estava ferido. Os dois homens fizeram continência.
Pegamos oito antis — disse um deles. — Sete são tagarelas que nem um toco de pau. Este jovem amigo é o único que parece disposto a contar-nos uma história.
O anti ferido era relativamente jovem.
Eles nos deixaram para trás — gritou para Rhodan. — Quando viram que a coisa começava a ficar perigosa, fugiram...
Sem dúvida, sua indignação dirigia-se contra os sacerdotes que haviam fugido, e em cuja companhia se devia encontrar Thomas Cardif.
Não se exalte — disse Rhodan. — Nem por isso deixaremos de prendê-los.
O anti soltou uma risada sarcástica. Ao que parecia, não acreditava na afirmação de Rhodan.
Suponho que estejam interessados em nosso produto denominado liquitivo.
Rhodan pensou nas preciosas vidas humanas que custara a conquista de Okul. Para dispensar um tratamento decente àquele anti, teve de esforçar-se ao máximo.
Fale — pediu com a voz embaraçada.
O sacerdote fitou-o atentamente.
O senhor é igualzinho àquele traidor chamado Cardif — disse, bastante impressionado.
É possível — admitiu Rhodan, com a maior tranqüilidade. — Afinal, ele é meu filho.
O anti recuou instintivamente. Os olhos frios e cinzentos pareciam perfurá-lo.
Nestas abóbadas estava instalado o equipamento de purificação do entorpecente — disse o anti com a voz apressada, tentando fugir do assunto.
De que tipo de planta é extraído o tóxico? — perguntou Bell.
De que planta? — repetiu o membro da seita de Baalol, franzindo a testa, espantado. — O tóxico não é nenhum produto vegetal. É extraído da secreção das glândulas de animais que vivem neste planeta.
De animais? — espantou-se Rhodan. — Faça o favor de explicar-se melhor.
Trata-se de lagartas, cobertas de córneas, que medem dois metros de comprimento e quarenta centímetros de espessura. Locomovem-se sobre inúmeros pés muito pequenos. São encontradas principalmente nas áreas pantanosas da selva. Na sua cabeça redonda, coberta de uma blindagem córnea, existe um círculo cortante de quinze centímetros de diâmetro, que lhes permite revolver a terra. Costumamos chamar estes animais de fura-lama. O círculo perfurador é movimentado por um estranho órgão, que reúne ar comprimido numa espécie de câmara de compressão. Este ar comprimido movimenta o círculo cortante. Essas lagartas possuem uma série de glândulas peculiares, das quais é extraída a substância ativa do liquitivo.
A voz do anti tornava-se cada vez mais fraca. Ao que parecia, os ferimentos enfraqueciam-no bastante. Rhodan fez um sinal, e os soldados levaram o sacerdote.
Pois bem — observou Bell. — Então é isso. Basta pegar alguns desses animais e examiná-los.
Acho que seu otimismo é prematuro — respondeu Rhodan. — É bem possível que tenhamos surpresas bem desagradáveis pela frente.
Deu outras ordens. Os homens dividiram-se, para revistar as abóbadas, quase totalmente destruídas.

* * *

O ruído da água tornava-se cada vez mais forte. Enquanto planava pela escuridão compacta, Emery conteve a respiração. Desligara a lanterna. Desceu muito devagar, para poder fazer meia-volta, assim que surgisse algum perigo.
Teve a impressão de ouvir o ruído de uma máquina, mas talvez fosse engano. O ar frio subia das profundezas. Emery pensou que talvez se encontrasse no interior de um elevador antigravitacional.
Subitamente sentiu chão firme sob os pés. Bem à sua frente, uma luz forte atravessava uma fresta na parede. O sargento enfiou os dedos na brecha. Ficou espantado ao notar que a fenda se alargou.
É uma porta de correr dupla”, pensou Emery.
Enfiou a cabeça na abertura e olhou para o interior do recinto.
Viu um ancoradouro subterrâneo!
Um estranho barco estava encostado ao cais. Vários antis movimentavam-se sobre a embarcação. O pavilhão era iluminado por uma fonte de luz artificial. Os sacerdotes pareciam ter pressa. Foram desaparecendo no interior do barco.
Subitamente, Perry Rhodan apareceu na frente de um grupo.
Por pouco Emery não solta um grito. Aquele homem não era Rhodan; era o filho de Perry. Ao ver Cardif entrar no barco, Emery manteve-se imóvel. Seria insensato arriscar-se a atacar o barco sozinho. De qualquer maneira, Rhodan teria de ser avisado imediatamente.
Assim que o último sacerdote desapareceu em seu interior, o barco foi saindo lentamente em direção ao centro do ancoradouro. E, também lentamente, afundou na água.
É um submarino”, pensou Emery. “Estão mergulhando por baixo da abóbada.”
O mar ficava bem próximo. Ao que tudo indicava, havia um canal subterrâneo que levava diretamente da abóbada para o oceano.
Emery não perdeu mais tempo. Subiu o mais rápido possível por aquele poço apertado.

* * *

Thomas Cardif aproximou-se do periscópio, para lançar mais um olhar sobre a cidade destruída. Conseguira escapar mais uma vez de seu pai e da Frota Solar. Porém a idéia de que sofrerá outra derrota, reduzia o contentamento que sentia por isso.
Recolher o periscópio! — ordenou Hekta-Paalat.
Cardif encostou as barras de direção. Dirigiu-se aos sacerdotes.
Preparar a imersão — gritou Baaran.
Vamos nos esconder que nem uns animais! — exclamou Cardif, em tom amargurado. — Mas enquanto tiver forças, não descansarei sem ver meu plano executado.
Mais dia menos dia, Rhodan descobrirá o porto — disse Rhabol. — Quando isso acontecer, saberá onde procurar-nos. Acredito que encontrará um meio de continuar a acossar-nos. Nossa situação não é muito animadora. Por isso sugiro que, por enquanto, fiquemos quietos. Baaran, acho que, por ora, as profundezas do oceano são o lugar mais seguro para nós.
Cardif também sabia perfeitamente que, na situação atual, não tinham a menor chance de agir contra os terranos. Só podiam fazer votos de que o tempo trouxesse uma reviravolta. O prejuízo tremendo, que a destruição do estabelecimento de Okul representava para a seita de Baalol, sem dúvida não contribuiria para estimular as atividades dos sacerdotes.
De repente um sorriso sarcástico surgiu no rosto de Cardif.
Será que o senhor teve mais uma das suas excelentes idéias? — perguntou Rhabol.
Cardif fez que sim. Se os pesquisadores terranos não conseguissem encontrar um antídoto para o entorpecente, a vitória que Rhodan alcançaria em Okul lhe sairia muito cara.
Acabo de pensar em Valmonze — disse Cardif.
Os antis fitaram-no como quem não entendia nada.
O patriarca recebeu o último liquitivo que tínhamos — disse. — Não estamos em condições de continuar a produzir a matéria-prima. As respectivas instalações foram destruídas.
Isso significa que o governo do Império Solar se defrontará com milhões de viciados, que serão levados a desencadear uma revolta, em virtude da inesperada privação do entorpecente — completou Hekta-Paalat, parecendo satisfeito por ter compreendido o raciocínio de Cardif.
A não ser que na Terra seja encontrado um antídoto eficaz — objetou Baaran.
O tempo de que os cientistas dispõem para isso não é ilimitado — ponderou Cardif. — Se quiserem ser bem-sucedidos na cura de todos os viciados, terão de andar muito depressa.
Vista sob este ângulo, a derrota já não parecia tão trágica a Cardif. Os contornos pouco nítidos de um fantástico plano começaram a surgir em seu cérebro.
Quanto mais refletia sobre sua idéia arrojada, maiores lhe pareciam as possibilidades de transformá-la em realidade.
12



O antigo estabelecimento dos antis era a própria imagem da destruição. Das sessenta e sete abóbadas haviam sido destruídas mais de cinqüenta. E as restantes encontravam-se num estado tal que sua utilização futura parecia pouco recomendável. Os velhos lança-foguetes da Ironduke haviam aberto brechas com seus projéteis antimagnéticos, sempre que nenhum terrano corresse o risco de ser ferido pelas cargas atômicas.
O Major Krefenbac fez o jato espacial descrever uma curva ampla sobre a cidade estorricada de aço. Em todos os lugares, as nuvens de fumaça subiam ao céu. Constantemente se viam grupos de busca em meio às ruínas. Os corpos metálicos dos robôs de guerra, equipados com armas pesadas, garantiam os flancos dos diversos grupos. Qualquer ataque desfechado por antis ocultos seria rechaçado com uma fúria devastadora. Mas era inconcebível que ainda houvesse alguém capaz de oferecer resistência. Rhodan ordenara aos homens que prestassem muita atenção a eventuais elementos que pudessem fornecer indicações sobre a produção de entorpecentes.
Dentro de alguns anos, a selva voltará a tomar conta deste lugar, sir — disse o Major Krefenbac. — Sem dúvida esta elevação era coberta pela mata.
Os sacerdotes devem ter tido um motivo para escolher este lugar, pois está situado nas proximidades do oceano — disse Rhodan, em tom pensativo. — Por que não construíram mais para o interior?
Minha pergunta é muito mais interessante — interveio Bell. — Os antis, que nos criaram tamanhos problemas nas três abóbadas principais, desapareceram sem deixar vestígio. Thomas Cardif deve estar com eles. Onde será que se esconderam?
Krefenbac refletiu intensamente.
Talvez disponham de transmissores de matéria — disse. — Ainda não revistamos todos os edifícios.
Isso é impossível — objetou Rhodan. — A bordo da Ironduke existem aparelhos de localização extremamente sensíveis, que sem dúvida teriam registrado uma descarga energética de quinta dimensão. Acontece que Claudrin não nos forneceu nenhuma informação a este respeito. Os antis devem ter fugido por outro caminho, Krefenbac.
O major fez o jato espacial descrever mais uma curva e desceu.
Neste caso só resta a selva — respondeu.
Antes que Rhodan tivesse tempo de responder, o aparelho de rádio chamou. O rosto largo de Jefe Claudrin apareceu na tela do videofone.
Desculpe, sir — trovejou sua voz. — Infelizmente vejo-me obrigado a interromper seu vôo de inspeção.
Tem alguma novidade, major?
Claudrin fez que sim.
Um dos homens que voltou para a nave diz ter descoberto um porto subterrâneo. Afirma que os antis e Thomas Cardif fugiram pelo tal porto num submarino.
Bell estalou os dedos. Apontou para o mar.
O oceano! — exclamou. — Quer dizer que mergulharam lá.
Vamos voltar para a Ironduke, Krefenbac — ordenou Rhodan e voltou a dirigir-se a Claudrin. — Iremos ao hangar, major. Quero falar pessoalmente com o homem. Organize um grupo bem armado, com o qual possamos penetrar no porto.
Claudrin confirmou e seu rosto empalideceu na tela. Bell passou a mão pelos cabelos rebeldes.
Agora só falta uma isca para fazer com que o peixe morda o anzol — disse.
Não sei, mas tenho a impressão de que por enquanto nem sequer temos um anzol — respondeu Rhodan, pensativo. — A Frota Solar não dispõe, no momento, de naves anfíbias.
Bell parecia indignado. Não gostava que seu otimismo fosse abafado.
Quer dizer que percorremos muitos anos-luz — disse em tom exaltado — para fracassar diante de uma poça d’água como esta.

* * *

O sargento John Emery mantinha-se garboso na sala de comando da Ironduke. Via-se que não recuara diante da luta. Depois de algumas tentativas inúteis desistiu de prender os farrapos que pendiam de seu traje de batalha. Sempre que Claudrin levantava a voz, encolhia-se. Nunca vira os homens célebres tão de perto.
O jato espacial acaba de pousar no hangar — anunciou Averman. — Rhodan deverá chegar num instante.
Emery contemplou seu uniforme. Sentia-se triste por ter de apresentar-se ao administrador com uma vestimenta destas. Muito triste, lembrou-se de seu depósito de Terrânia, onde guardava os trajes de velhos príncipes. Com uma roupa dessas, sem dúvida causaria uma impressão muito “forte” em Rhodan.
Rhodan, Bell e o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke, entraram na sala de comando. Emery ficou em posição de sentido.
O homem é este, sir — disse a voz retumbante de Claudrin.
O sargento engoliu em seco.
Sargento John Emery, sir — disse a título de apresentação. — Pertenço ao destacamento de Henderson.
Rhodan fitou-o em silêncio. Ao notar um sorriso irônico no rosto de Bell, Emery ficou apavorado.
Desculpe minha apresentação, sir — gaguejou Emery. — Infelizmente não pude evitar alguns ferimentos durante a batalha.
Pelo que vejo, esses ferimentos atingiram principalmente seu traje de batalha — disse Rhodan com um sorriso. — Faça o favor de contar o que descobriu.
Emery relatou suas experiências e manifestou a opinião de que havia um canal subterrâneo que levava diretamente ao oceano.
O senhor acha que é capaz de encontrar novamente esse lugar? — perguntou Rhodan.
Quando quiser, sir.
Muito bem. Seu nome foi anotado na lista de promoções, sargento. No entanto, o senhor levará um grupo até o porto. Quero que tudo seja cuidadosamente revistado. Mande verificar se existe alguma indicação quanto ao lugar em que se refugiou o submarino. Se encontrar outras embarcações, as mesmas deverão ser apreendidas imediatamente.
Sim, senhor — disse Emery em tom resoluto.
O Major Krefenbac levou Emery para junto do grupo de soldados que acompanharia o sargento.
Temos mais um problema pela frente — disse Bell. — Devemos encontrar um meio de prender os antis que fugiram.
John Marshall, chefe dos mutantes, disse:
Talvez os sacerdotes tenham uma espaçonave guardada em algum lugar deste planeta. Quem sabe se estão se dirigindo para lá?
Rhodan fez um gesto de assentimento. Não tinha meio de verificar a profundidade dos oceanos.
Está na hora de termos uma boa idéia — resmungou Gucky, com sua voz aguda.
O rato-castor sentia-se visivelmente contrariado porque não lhe haviam dado possibilidade de participar da ação.
Não podemos suportar pelo resto da vida o desconforto da Ironduke.
Ninguém deu atenção à sua reclamação. Gucky parecia ofendido.
Devemos evitar de qualquer maneira que os antis saiam de Okul — disse Rhodan, em tom pensativo. — Conhecemos a posição aproximada de seu submarino. Quanto mais esperarmos, mais difícil se tornará descobrir o paradeiro dos sacerdotes. Eles não poderão ficar para sempre no fundo do mar. Terão de emergir certa hora. Quando isso acontecer, deveremos dispor de um número suficiente de naves para exercer uma vigilância total sobre Okul. Não devemos esquecer-nos da possibilidade de os sacerdotes receberem reforços vindos do espaço. Nem mesmo a Ironduke estaria em condições de resistir a um ataque maciço de grandes unidades.
É verdade, sir — concordou Claudrin, com sua voz potente.
Rhodan apresentou seu plano aos oficiais.

* * *

O General Deringhouse tirou as pernas compridas da cama e observou, com uma expressão contrariada, o desenho da parede diante de si. Durante as últimas horas passara a maior parte do tempo nessa posição. O cadete Oscar Hardin, que fora nomeado seu ordenança, fitou-o de modo inseguro. Compreendia perfeitamente a impaciência do general.
Se a Ironduke não entrar em contato conosco nas próximas horas, agirei por conta própria — disse Deringhouse, dirigindo-se a Hardin, que o ouvia atentamente. — O prazo fixado esgotou-se há muito tempo.
Sem dúvida o administrador teria entrado em contato com a Frota, se a nave linear se defrontasse com um perigo mais sério, sir — atreveu-se a objetar o cadete.
Deringhouse bateu com a palma da mão na armação da cama. Esta lhe parecia um objeto supérfluo, pois ele mal a usava, a não ser para sentar-se na mesma. No entanto, Hardin mostrava uma dedicação pior que uma galinha choca. Parecia treinado para adivinhar os desejos de seu superior. Deringhouse nem se arriscava a fazer qualquer movimento que pudesse ser interpretado como uma manifestação de cansaço. O cadete correria imediatamente em direção à cama, alisaria os lençóis e exclamaria em voz de tenor:
Posso servir-lhe um café, sir?
Deringhouse sabia perfeitamente que o jovem apenas cumpria seu dever. Mas, por mais que amasse a disciplina e a meticulosidade, não precisaria mostrar-se tão solícito no cumprimento das normas de trabalho.
De qualquer maneira, o general não tinha outra alternativa senão contemplar o desenho simples, que via na parede, e comportar-se de modo a não provocar suspeitas de que se sentisse cansado.
Não se esqueça da Fantasy — disse. — A Ironduke também não está livre de um naufrágio espacial.
Hardin balançou a cabeça. Parecia pensativo. Ao que supunha Deringhouse, o cadete refletia desesperadamente sobre como deveria tratar um oficial numa situação daquelas.
Sem dúvida, sir — disse Hardin, revelando senso diplomático.
Deringhouse levantou-se e abriu os braços. No último instante conseguiu reprimir um bocejo. Hardin fitou-o com uma expressão preocupada.
O alto-falante veio em auxílio de Deringhouse, salvando-o de novas investidas do cadete.
Sala de comando chamando o General Deringhouse! Sala de comando chamando o General Deringhouse!
Deringhouse ligou o aparelho de intercomunicação. Assim que respondeu ao chamado, uma voz desconhecida disse:
Estabelecemos contato com a Ironduke, sir. O administrador quer falar com o senhor.
Deringhouse achou que seria desnecessário dar uma resposta a essas palavras. Atravessou o camarote a passos largos e saiu correndo. Hardin fitou-o com uma expressão desolada.
Assim que chegou à sala de comando, o general reconheceu o rosto de Rhodan na tela do aparelho de telecomunicação. Deringhouse ouviu seu próprio suspiro de alívio.
Espero que tenha boas notícias, sir — disse Deringhouse, enquanto cumprimentava os dois radioperadores com um gesto de cabeça.
Os dois homens de serviço na sala de rádio retiraram-se sem dizer uma palavra. O rosto de Rhodan parecia sério.
Apoderamo-nos de Okul. Conseguimos destruir o estabelecimento dos antis. Mas alguns deles conseguiram fugir num submarino para as profundezas de um dos numerosos mares deste mundo — o rosto que aparecia na tela assumiu uma expressão dura. — Uma das pessoas que fugiram é Cardif.
Descobriu alguma coisa sobre o entorpecente? — perguntou Deringhouse, em tom preocupado.
Descobrimos — respondeu Rhodan. — Mas, no momento, não é isto que importa. Quero evitar que os antis e Cardif saiam de Okul, ou que sejam libertados por alguém que lhes traga auxílio do espaço.
O oficial experimentado inclinou o corpo para a frente. Parecia muito tenso. Já sabia quais seriam as ordens de Rhodan.
Qual é sua sugestão, sir?
A Frota Solar está de prontidão — disse Rhodan. — Cinco mil unidades dirigir-se-ão imediatamente a Okul, a fim de bloquear o planeta.
As naves estão prontas para decolar, sir! — exclamou Deringhouse com os olhos chamejantes.
Finalmente o tempo de espera chegara ao fim. O general sabia que os tripulantes de todas as naves aguardavam a ordem de entrar em ação.
O administrador fez um gesto de assentimento.
Está bem, general. Todos os supercouraçados entrarão em transição, juntamente com outras unidades pesadas e leves. Okul nos pertence, e não haverá mais nada que possa modificar essa situação.
Não tenha a menor dúvida — disse Deringhouse, em tom resoluto.

* * *

A estrutura espácio-temporal parecia arrebentar no momento em que o grupo de naves da Frota Solar irrompeu do hiperespaço. As descargas provocadas pela transição das gigantescas espaçonaves esféricas criaram terríveis ondas de choque. Os efeitos atingiram o pequeno sistema ao qual pertencia o planeta Okul. Houve uma série de terremotos e inundações.
Esses efeitos colaterais da navegação espacial podiam ser evitados com o uso das modernas naves lineares. A Ironduke podia chegar sem o menor risco às imediações de qualquer planeta, deslocando-se pelo semi-espaço. Os saltos pelo hiperespaço sempre exigiam certo cuidado. Se toda a Frota Solar entrasse em transição nas imediações da Terra — o que evidentemente representa apenas uma hipótese — haveria um deslocamento da órbita do planeta, com todas as conseqüências resultantes do mesmo.
Perry Rhodan, que se encontrava na sala de comando da Ironduke, acompanhava a aparição das naves.
É um espetáculo impressionante — confessou Bell que, embora já tivesse assistido muitas vezes ao fenômeno, nunca deixava de sentir-se fascinado pelo acontecimento.
As espaçonaves ali reunidas seriam capazes de bloquear Okul de tal maneira que, para usarmos uma hipérbole, nem mesmo um inseto conseguiria decolar do planeta ou nele pousar sem ser notado. Milhares de goniômetros e aparelhos de localização vasculhariam a superfície do planeta e o espaço adjacente.
Velhas naves, boas e confortáveis — piou Gucky. — Terei muito prazer em teleportar-me para bordo da Drusus, a fim de tirar um cochilo.
Olhou em torno com uma expressão de desprezo e concluiu em tom azedo:
O Capitão Graybound tem razão... Ninguém consegue impressionar-me com esses veículos-molezas.
Rhodan estava ocupado com os contatos mantidos com os comandantes das naves que chegavam. Apesar disso teve tempo para ordenar a Gucky:
O senhor permanecerá a bordo da Ironduke, Tenente Guck.
O administrador entrou em contato pelo rádio com os comandantes das naves, a fim de colocá-los a par da situação. Aqueles oficiais experimentados, compreenderam imediatamente. Não demorou uma hora, e Okul ficou totalmente bloqueado.
Muito bem — disse Rhodan, satisfeito. — De qualquer maneira, nossos amigos estão presos. Terão que inventar uma coisa muito especial se quiserem escapar.
Jefe Claudrin colocou a Ironduke numa órbita estável em torno de Okul. A velocidade elevada tornava-a apta para essa missão. Os lança-foguetes ameaçavam a superfície do planeta. Um manto impenetrável passara a envolver Okul.
Os oficiais mais categorizados encontraram-se na sala de comando da Ironduke, a fim de discutir a situação.
Rhodan sabia perfeitamente que por enquanto sua ação não produziria nenhum resultado. As naves estavam praticamente imobilizadas. A única coisa a fazer seria aguardar que o misterioso submarino aparecesse na superfície.
O administrador voltou a entrar em contato com Terrânia. Falou com o Dr. Topezzi e o Dr. Whitman. Informou-os sobre a descoberta dos fura-lamas. Os médicos, que eram os coordenadores do programa de pesquisas destinado ao combate dos efeitos do entorpecente, sugeriram que algumas naves de pesquisa e naves-laboratório fossem destacadas para Okul.
É o que faremos — concordou Rhodan. — Por enquanto procuraremos capturar os fura-lamas encontrados em toda parte. Quando os especialistas chegarem, poderão começar a trabalhar imediatamente. Com isso evitaremos qualquer demora.
Estou plenamente convencido de que, com isso, conseguiremos encontrar um antídoto — disse o Dr. Whitman, com a voz segura. — Afinal, já dispomos de todos os requisitos técnicos para isso. Sabemos qual é a natureza da toxina segregada pelas glândulas dos animais e conhecemos o processo de produção da mesma.
Faço votos de que seu otimismo tenha fundamento, doutor — disse Rhodan, dando fim à palestra.
Desligou. Ao virar-se, viu o rosto sorridente de Bell. A expressão fria abandonou os olhos cinzentos do grande homem. Virou-se para os oficiais, que estavam reunidos na sala de comando, e começou a falar com a foz firme.
EPÍLOGO



A enfermeira passa lentamente entre as fileiras de camas brancas. Dirige seu olhar para os pacientes que jazem imóveis. A luz do Sol penetra pelas amplas janelas. A sala parece limpa e alegre. A enfermeira chega à última cama. Sorri para o homem que ocupa o leito. Mas o rosto rígido do doente não mostra a menor reação.
Venha — diz a enfermeira, em tom suave.
O homem continua imóvel. Parece olhar para o infinito. Não há o menor brilho em seus olhos. Aquele rosto não revela nenhuma tristeza, nenhuma dor, nenhum sofrimento. Parece completamente insensível. A enfermeira inclina-se sobre o doente e puxa-o lentamente pelo braço. O paciente executa movimentos desajeitados, cedendo à pressão exercida pela mão da enfermeira.
Tenha cuidado — diz esta.
Sabe que o sentido de suas palavras não é compreendido pelo doente. Nenhum dos pacientes a compreende. Às vezes, a enfermeira tem a impressão de encontrar-se numa câmara mortuária.
O homem pôs-se de pé junto à cama. Não parece notar nada do que existe em redor dele. Outra enfermeira leva-o pelo longo corredor. Nenhum dos pacientes diz alguma coisa; nenhuma cabeça move-se na direção da enfermeira.
Será um dia lindo — diz a mulher. Chegam a outro corredor.
Ela entra com seu mudo acompanhante cuidadosamente no elevador.
Dali a pouco alcançam o grande parque que cerca o hospital. As aves gorjeiam nas árvores. Os bancos estão ocupados por homens e mulheres. Os pacientes acham-se acompanhados por enfermeiras. Em todos nota-se o terrível olhar vazio. Ficam sentados imóveis, como se fossem bonecos.
Vamos para lá — diz a enfermeira.
O homem segue-a prontamente. Não sabe mais nada deste mundo. Talvez o mesmo já tenha deixado de existir para ele. Aquele homem e seus companheiros de sofrimento levam uma vida apagada.
São vítimas do liquitivo. Encontram-se num estado de obnubilação mental. Estão irremediavelmente perdidos.
A enfermeira passeia durante meia hora com o paciente. Depois leva-o de volta à sua cama. Todos os doentes têm de ser levados a passear. Os médicos insistem nesse ponto, mas a enfermeira não acredita que isso adiante alguma coisa. Sabe que o estado dos doentes se mantém inalterado até que sobrevenha a morte. E a morte vem muito depressa.
Os doentes abandonam a existência neste mundo, sem oferecer a menor resistência.
Foi um belo passeio, não foi? — pergunta a enfermeira.
Não obtém resposta. Nunca obterá. Apesar disso, vez por outra tem de dizer algumas palavras, pois, do contrário, também acabará enlouquecendo. Seu trabalho consiste em ajudar essa gente, mas muitas vezes pergunta a si mesma qual será a finalidade preenchida pela ação que desenvolve junto a esses pacientes.
O primeiro passeio daquela manhã chegou ao fim. A enfermeira leva o paciente de volta à sala dos cadáveres-vivos. Passam pelas longas fileiras de camas.
Reina o silêncio. O ruído dos pássaros mal penetra na sala. As ajudantes arrumaram a cama do doente.
Na cabeceira vê-se uma pequena placa. Nela está escrita, em letras negras, o nome do homem que a ocupa; é um nome que ele mesmo já não consegue ler.
O olhar da enfermeira não se prende à placa. As palavras escritas ali nada significam, tanto para ela como para o doente. É bem verdade que há um destino ligado a este nome, mas o nome em si só interessa aos registros da instituição.
Na placa que está presa àquela cama lê-se HENRY MULVANEY.






* * *
* *
*







A pista dos antis levou-os para Okul: um planeta selvático, situado a mais de quarenta mil anos-luz da Terra.
Acontece que os oceanos desse mundo guardam um segredo que poderá transformar-se numa armadilha mortífera para Perry Rhodan, Administrador do Império Solar.
No próximo volume da série Perry Rhodan, intitulado Sob Uma Falsa Bandeira, será narrada uma das mais dramáticas aventuras...

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