Autor
KURT
MAHR
Tradução
S.
PEREIRA MAGALHÃES
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Procuravam
10.000 terranos desaparecidos e...
encontraram
o deus das serpentes.
No fim
do século XXI e princípio do século XXII, surgiu uma nova época
na História da Humanidade.
Com o
precioso apoio dos homens, o arcônida Atlan conseguiu alicerçar sua
posição de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar
deu excelentes frutos — especialmente para os terranos, que em
grande número já ocupam cargos de importância no governo do
Império Arcônida. Atlan necessita do auxílio dos terranos, já que
não pode confiar na maioria de seus patrícios.
O
Império Solar se desenvolveu a tal ponto de se tornar a maior
potência comercial da Via Láctea. A partir do século XXII, se pode
falar de uma verdadeira onda emigratória para mundos apropriados
para uma colonização racional. E mesmo em inúmeros planetas
habitados por outras inteligências existem embaixadas e
representações comerciais da Terra.
Mas,
apesar de tudo, não se vive num mar de rosas, pois, como tem
demonstrado a triste experiência, existe na Galáxia uma potência
que não morre de amores nem pelos arcônidas nem pelos terranos: são
os acônidas, do Sistema Azul, que já por duas vezes atacaram
traiçoeiramente.
Mas há
ainda na Galáxia outras potências que vêem no espetacular surto de
progresso da Terra um motivo de hostilidade. Prova disto são os
misteriosos acontecimentos no planeta Passa, colocando em ação
novamente os agentes da Divisão Secreta III.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Ron
Landry
— Major;
homem tremendamente observador.
Larry
Randall
— Destemido
capitão.
Lofty
Patterson
— Velho
colono terrano que vive em Passa.
Ayaa-Oooy
— Ser
vivo ou máquina... seu aspecto é assustador.
1
“Ayaa-Oooy,
vós sois o Ser Supremo e nós louvamos vosso nome. Seguiremos vossa
vontade, Deus e Senhor nosso.”
Andy Lever
se recordava bem claramente que há duas horas atrás não havia
nenhuma árvore neste local. Mas agora, ali estava uma, com mais de
cinco metros de altura, com um tronco que se tornava fino à medida
que se aproximava do solo.
Perplexo,
Andy olhou em volta. Era a hora misteriosa do crepúsculo, o período
entre o ocaso do sol vermelho e o nascer do sol azul, quando o céu
se tingia de tons escuros e arroxeados, surgindo no poente uma imensa
mancha vermelha e no nascente um pequeno clarão azulado.
A região
mergulhava na escuridão e no silêncio, com exceção dos singulares
ruídos provenientes da floresta de vidro, que Andy ouvia com tanta
satisfação, pois eram um sinal evidente de que a maior aventura de
sua vida estava se tornando realidade. Isto é, havia deixado a Terra
e se encontrava agora num mundo estranho, verdadeiramente estranho.
Naquele
lusco-fusco, a casa pequenina adquiria dimensões de imenso bloco
escuro, comprimindo-se contra o chão, como que preparada para um
grande salto de emergência. Às vezes, Andy se admirava da estranha
impressão de que a casa, sua casa, lhe causava. Naquela meia-luz da
tarde, devia lhe inspirar paz e sossego. Mas pensando melhor, chegou
à conclusão de que não seria justo esperar sossego e paz, quando
ele mesmo estava intimamente possuído pela intranqüilidade,
sentindo vibrar em si a ânsia por qualquer iniciativa.
Não, a
casa estava certa.
No céu
escuro, surgiu um pequeno ponto luminoso. Andy o acompanhou com os
olhos e viu como ganhou altura rapidamente, tornando-se mais intensa
sua luminosidade até apagar de repente. Segundos depois, ouviu-se o
ronco ensurdecedor de uma espaçonave que decolava, reboando por toda
a região.
O
solitário terrano respirou com força o ar do campo, voando seus
pensamentos para a cidade de Modessa, em cujas proximidades se
situava o espaçoporto. Não gostaria de viver em Modessa, nem mesmo
na periferia da cidade. Estava muito contente com o lugar onde se
encontrava, a quinhentos quilômetros de Modessa. Os outros o
chamavam de doido, mas preferia realmente ser um doido a ter que
morar numa cidade grande, onde não teria a sensação de viver num
mundo estranho.
Isto puxou
seus pensamentos para as coisas que haviam acontecido hoje — ou
melhor, que não haviam acontecido. As enormes sempre-verdes não
tinham vindo para entregar suas peles. Ou melhor, apenas oito delas
chegaram até o ponto central, onde geralmente se costumavam reunir
em número dez vezes maior. Não que isto tivesse grande importância
para Andy. Tinha um salário fixo. Trabalhava apenas meio dia de
trabalho. O dinheiro era garantido, mesmo se as sempre-verdes não
trouxessem nenhuma pele. Portanto, não era por questão de interesse
monetário. Estava apenas admirado sobre o fato em si.
Depois,
suas divagações voltaram-se para a árvore que há duas horas atrás
não estava ainda naquele lugar. Aproximou-se, mas não conseguia ver
nada nítido devido à escuridão. Teve a prudência de não tocar na
árvore. Sabia do que acontecera a muita gente inexperiente em Passa,
por haverem tocado em coisas de cuja periculosidade desconheciam. Ele
não tinha realmente a menor dúvida de que em Passa uma árvore de
mais de cinco metros de altura, de boa espessura e sem galhos poderia
surgir em menos de duas horas. Já tinha visto muita coisa
maravilhosa naquele planeta. Queria apenas saber do que se tratava.
Ia
voltando para a casa, a fim de pegar uma lanterna. Foi neste momento
que a árvore começou a se mexer, inclinando-se simplesmente para a
frente. Andy ouviu um leve ruído atrás de si e deu um salto para o
lado. Mas não adiantou nada. Aquilo que julgava ser uma árvore se
abateu estrepitosamente sobre seu corpo, atirando-o de encontro ao
solo e o comprimindo com relativa força.
O susto o
deixou paralisado apenas por poucos segundos. Começou então a lutar
desesperadamente para se ver livre do peso da suposta árvore. Mas
suas mãos escorregavam na superfície lisa da mesma, não
conseguindo apoio para se safar. E a “árvore”,
como se a reação de Andy a tivesse provocado, mais ainda o
pressionou contra o chão.
Andy não
conseguia mais respirar. Um fogo cerrado de pequenas mas dolorosas
agulhadas parecia lhe varar as costelas, enquanto seus ouvidos eram
atingidos por um som selvagem. Andy percebeu que jamais conseguiria
libertar-se daquele peso mortífero. Sabia o que estava em cima dele
e sabia também que contra forças tamanhas não lhe restava nenhuma
alternativa.
Começou a
gritar. Não havia, porém, ninguém que o pudesse ouvir. Num fogo de
artifício, que fulminante e estrepitoso estrugia diante de seus
olhos, Andy perdeu os sentidos.
*
* *
Nike
Quinto parecia não ter a menor idéia do que se passava. Estava ali
postado, como que atingido por um raio.
Na
realidade, não se tratava de nenhum milagre.
O Coronel
Quinto era um homem miúdo, barrigudo, bochechudo e de rosto
avermelhado, onde escorria sempre alguma gota de suor, mesmo na
estação mais fria do ano. Acima de seus lábios carnudos sobressaía
um nariz diminuto entre dois olhos também pequenos, separados dos
cabelos louros apenas por uma testa estreita. O fato é que o Coronel
Quinto, em toda a sua vida, jamais conseguira captar simpatia à
primeira vista.
Ron Landry
e Larry Randall aguardaram até que a porta atrás deles se fechasse.
Depois, ao mesmo tempo, fizeram uma continência corretíssima, tão
perfeita que formava um contraste berrante com seus trajes civis de
verão, bem negligenciados.
— Santo
Deus! — exclamou Nike Quinto num tom de voz berrada e desagradável.
— Pedi para me mandarem dois homens escolhidos a dedo entre nossa
gente mais corajosa... e agora chegam vocês! Puxa vida! Parece que o
mundo inteiro se conjurou contra mim, querendo me matar de um colapso
cardíaco. O que posso fazer com vocês? É um caso sério, mas já
que estão aqui... Já se deram ao trabalho de ouvir as fitas
magnéticas? Por amor de Deus! Não sejam tão chatos assim, digam ao
menos sim ou não.
— Sim —
disse Ron, mais descontraído.
— Sim, o
quê?
— Sim,
senhor, já ouvimos as fitas.
— Ah! E
daí?
Ron Landry
pigarreou, tentando fazer um sinal com os olhos para Larry, que havia
se postado ao seu lado. Mas seu companheiro não percebeu nada.
Nike
Quinto continuava de pé atrás de sua mesa de trabalho, aguardando
uma resposta formal à sua pergunta.
— Não
estamos bem certos, senhor — começou Ron, cauteloso — se alguém
não fez aí uma brincadeira de mau gosto.
Por uns
instantes, tinha-se a impressão de que Nike Quinto ia ter um ataque.
Enfiou as duas mãos na cabeleira alourada, inclinou a cabeça para
trás, arregalando os pequenos olhos para o teto. Depois soltou um
longo suspiro, como se estivesse se desfazendo de um sonho cultivado
há muito tempo. Por fim disse algumas palavras:
— Alguém
fazendo uma brincadeira de mau gosto! Comigo? Landry, você é o
verdadeiro amigo-da-onça. Com cada palavra que você fala, minha
pressão sangüínea sobe um por cento — tirou as mãos da cabeça
e fitou Ron diretamente. — Você acha que alguém ousaria fazer uma
brincadeira de mau gosto comigo?
Ron Landry
estava pensando com seus botões que havia realmente ao menos algumas
pessoas, as quais conhecia muito bem, que gostariam muito de pregar
uma boa peça em Nike Quinto. Sua única dúvida era se teriam ou não
sucesso. Depois, respondeu:
— Senhor,
peço-lhe o favor de considerar um pouco a finalidade de nossa missão
aqui. Fomos enviados para um objetivo bem restrito. Perdoe minha
ignorância... mas mesmo com a melhor das intenções não posso
imaginar o que dois agentes especiais têm a fazer num planeta de
florestas virgens, onde os nativos, há uns dias atrás, passaram a
fornecer, ao invés de oitenta peles por dia e por local de coleta,
apenas quatro ou cinco...
— Nenhuma
mais! — corrigiu Quinto. — Este foi o último comunicado.
Ron Landry
fez um gesto de impaciência.
— Que
bonito! Não entregam mais nenhuma pele. E o que se faz com estas
peles? Perfume e couro aromatizado para múltiplos fins. Pode-se
fazer uma espaçonave com isto? Não. Dá para se construir uma arma
energética com tais peles? Não. Pode-se fabricar alguma droga
secreta com elas? Não. Então, por favor, por que vamos nos
preocupar com tais ninharias?
Nike
Quinto estava finalmente mais controlado. Deu um sorriso irônico.
— Quanto
a mim, estou mais para lá do que para cá. Minha pressão alta é
uma coisa que não tem mais jeito. Portanto, Landry, não me faz
maior mal me aborrecer um pouco com vocês. Parece que, para ambos, o
mundo só se interessa por espaçonaves, armas e drogas maravilhosas,
não é? Não levam em consideração que a Terra trava uma guerra
amarga com os saltadores, guerra de comércio vital para nós, pois
estes mercadores galácticos julgam que Deus criou-lhes o comércio.
Para essa raça é completamente indiferente, se em algum mundo
colonial terrano de repente começam a acontecer coisas estranhas,
que, de uma hora para outra, fazem com que a renda, que a Terra
obtinha, com tanto sacrifício, caia praticamente a zero. E qual é
esta renda? Peles bem cheirosas. Pode-se fazer espaçonaves com elas?
Não. Armas? Não. Drogas? Não. Conclusão: não é da nossa conta,
não nos interessa. Há colonizadores terranos neste mundo? Sim.
Quatorze milhões. Puxa vida! Nem me lembrava mais. E dez mil deles
já foram assassinados de maneira misteriosa ou desapareceram nas
florestas de vidro. Que coisa horrível! Mas de colonizadores mortos
também não se pode fazer nada de útil, não é? Nem espaçonaves,
nem drogas, nem...
Ron Landry
se ergueu de repente de sua cadeira.
— Não
sabíamos nada disto, senhor! — disse ele, excitado. — Isto não
consta das fitas magnéticas.
Nike
Quinto fez um gesto de anuência.
— É
verdade. Por este motivo eu os chamei. Os senhores vão entrar agora
no aposento aqui ao lado, para ouvir o que deve ser bem ponderado. Os
senhores têm que anotar tudo muito bem e, amanhã cedo, às sete e
quarenta e oito, hora de Terrânia, pegarão o cargueiro misto e se
dirigirão a Passa.
Ron e
Larry se levantaram. Não chegaram a reparar que Nike Quinto tocara o
botão de ligação de sua mesa de trabalho.
Quando se
viraram, a porta para o aposento ao lado já estava aberta. Sob a luz
avermelhada do crepúsculo, viram os grandes almofadões-sofá e a
grande tela do projetor hipnótico.
— Aliás,
os senhores têm uma idéia — continuou o Coronel Quinto — quanto
tem rendido anualmente o negócio de Passa?
Ron ficou
parado observando Quinto.
— Não
sabemos não senhor.
— Então
vou lhes dizer: quinze bilhões de solares. É uma quantia tão
grande que daria para se construir cem cruzadores pesados para a
Frota Espacial.
*
* *
Passa era
um planeta do sistema duplo de Antares, o nono na ordem comum de
contagem. Era um mundo quente, com oxigênio. Um pouco maior do que a
Terra, porém, de menor gravidade. Havia uma raça nativa de seres
inteligentes. Não eram humanóides e os primeiros terranos, que se
depararam com eles, ficaram com um medo terrível, apesar de estarem
fortemente armados, pois estes inteligentes nativos de Passa não
eram outra coisa senão serpentes de, na média, seis metros de
comprimento, com dois pares de braços, apresentando em confronto com
as serpentes da Terra não apenas a peculiaridade de serem
inteligentes, mas ainda de poderem andar eretas.
Isto é,
não andam propriamente. Apóiam-se na cauda musculosa e flexível,
dando a impressão de estarem de pé e conseguem, com um movimento
esquisito, uma espécie de pequenos saltos, uma coisa aproximada com
o caminhar, aliás rápido e elegante.
Os quatro
braços servem apenas como meios de agarrarem as coisas e também
como instrumento de equilíbrio na posição ereta e no caminhar. O
enorme corpo de serpente termina numa cabeça arredondada de verme,
com uma série de orifícios cujas diversas funções só podem ser
explicadas claramente por um especialista em Galato-Biologia. Os
colonizadores terranos, que viveram em Passa, deram a estas
singulares serpentes o nome de sempre-verdes, devido aos tons
esverdeados que predominam em sua pele.
As
sempre-verdes não eram apenas a inteligência nativa do planeta
Passa, mas principalmente as fornecedoras da mercadoria mais
importante, através da qual o planeta se tornou sobremaneira vital
para a Terra: as peles das serpentes. Estas gigantescas serpentes de
Passa tinham todos os hábitos biológicos das demais espécies de
ofídios, entre eles o da muda da pele. Sabia-se muito pouca coisa,
mesmo nos círculos mais especializados, sobre o mecanismo da troca
de pele e sobre sua freqüência. O que havia de positivo era que as
sempre-verdes podiam fornecer uma enorme quantidade de peles por ano.
Estas
peles ou cascas continham um perfume muito agradável e podiam ser
facilmente adaptadas para a confecção de artigos de couro de maior
luxo. Objetos de couro de Passa obtinham altos preços no Império
Solar e em Árcon, preços estes equiparados a mercadorias de ouro do
mesmo peso. Os perfumes de Passa eram tidos como artigos de refinado
bom gosto, naturalmente de preços altíssimos nos grandes salões de
beleza.
Os
saltadores, raça descendente dos velhos arcônidas — os homens
inquietos, que percorriam sem parar todos os recantos da Galáxia nos
seus grandes aparelhos cilíndricos, e que viviam exclusivamente do
comércio — estavam convencidos de que ninguém no Universo tinha
direito de comprar e vender em grande escala, a não ser eles. É
claro que não demorou muito a chegar-lhes a notícia da grande mina
de dinheiro que os terranos haviam descoberto e estavam explorando em
Passa. Tentavam, naturalmente, obter uma fatia do bolo. Mas a frota
terrana, que vigiava Passa, os mantinha afastados de sua rica
colônia, dando-lhes a entender bem claramente que nenhum saltador
seria bem-vindo ao planeta, a não ser com convite especial.
A evolução
do planeta das serpentes seguiu seu curso normal e pacífico. Em
pouco tempo, surgiram aparelhos apropriados para a transposição da
língua dos ofídios, riquíssima em fonemas vocálicos, quase sem
consoantes, para o inglês e vice-versa. Aos poucos ficou
convencionado que as serpentes, sempre em grupos, se dirigiriam a
determinados pontos diariamente para aí deporem suas peles. A fim de
se descartarem das peles velhas, as sempre-verdes prendiam a cauda
flexível nos galhos de uma árvore alta e com violentos estremeções
do corpo faziam com que a pele escorregasse pela cabeça abaixo. Os
terranos cuidavam, naturalmente, de que houvesse número suficiente
de árvores nos locais convencionados para o encontro das grandes
serpentes, que eram pagas por seu serviço com objetos de uso e
mercadorias de diversos tipos, à sua escolha.
Durante
muitos anos, tudo correu em ordem. Os colonizadores se espalharam por
todo o planeta, um pouco maior que a Terra, sem com isso prejudicarem
a vida e os direitos das sempre-verdes. E não podia mesmo haver
nenhum problema de convivência, pois as serpentes habitavam somente
nas florestas de vidro, isto é, os impenetráveis emaranhados de uma
vegetação semelhante ao bambu-gigante, vegetação esta dura como o
vidro e quase sem ramagem, cujos troncos transparentes chegavam a uma
altura de quase trinta metros.
Os
colonizadores terranos, porém, mantinham-se nas aprazíveis
planícies de capim rasteiro, nas margens dos grandes rios e à beira
dos mares. Não cultivavam relações mais íntimas com as
sempre-verdes, fora da mencionada coleta de peles nos pontos de
encontro. Embora sua língua fosse bem compreendida, as sempre-verdes
pareciam demasiadamente retraídas para falarem alguma coisa de sua
vida nas florestas virgens de vidro. Daí o fato de os terranos não
saberem quase nada das sempre-verdes, a não ser que trocavam de pele
constantemente. A harmonia reinante em Passa era mais a de uma vida
paralela do que de uma convivência propriamente.
Esta
harmonia se desfez de uma hora para a outra. Ninguém sabia como nem
por quê. As sempre-verdes deixaram de aparecer nos pontos de
encontro. Não forneciam mais peles. Alguns colonizadores, que
moravam mais afastados da cidade, foram encontrados mortos perto de
suas casas. Outros achavam-se desaparecidos. Estavam também sumidos
todos os homens que, quando as serpentes deixaram de fornecer as
peles, penetraram nas florestas de vidro para apanharem aquilo que
não lhes era trazido. Os únicos a voltar sãos e salvos não
chegaram a se embrenhar na mata virgem. Regressaram porque não
acharam nada e haviam levado pouco mantimento, ou também porque a
penetração naquele emaranhado de fibras duras e transparentes era
quase impossível.
Era fácil
concluir que os saltadores já estavam atrapalhando o jogo. Ninguém,
fora deles, teria motivo para fazer oposição aos poucos terranos
que viviam em Passa. Mesmo considerando que o planeta rendia
anualmente quinze bilhões de solares para a Terra, não seria de
muita lógica aceitar que os saltadores trocariam este lucro por uma
desavença com a Terra, isto é, com o Império Solar.
De
qualquer modo, esta suposição, mesmo confirmada, não resolveria o
mistério: de que maneira teriam os saltadores conseguido influenciar
os nativos, isto é, as sempre-verdes? Como chegaram a Passa sem
terem sido notados pela frota terrana de vigilância? Não podiam de
maneira alguma ter chegado a Passa com uma grande frota. O máximo
que poderia ter passado despercebido do serviço de vigilância seria
a aterrissagem de um ou dois aparelhos. E como seria possível, com
uma força tão pequena, mudar de uma hora para a outra a boa
disposição de toda a população primitiva de um grande planeta,
fazendo-a ver, nos terranos, terríveis inimigos?
Este era o
enigma. E muitas coisas, talvez mesmo a existência da Colônia de
Passa, estavam dependendo de sua solução rápida.
*
* *
Eram estas
as informações que o Major Landry e o Capitão Randall receberam,
quando na madrugada de 7 de outubro de 2.102 embarcaram no cargueiro
misto Laramie com destino a Passa. Não viajaram como incógnitos,
pois todos na Terra, e muita gente fora do Império Solar, conheciam
o Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, sendo mais do que
natural que esta organização mandasse um ou mais agentes para lá,
pois Passa, conforme a linguagem oficial do Ministério das Colônias,
não era um “protetorado”
ainda plenamente desenvolvido. O que ninguém sabia, porém, era que
dentro do quadro geral do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento existia uma Divisão III, que tinha incumbências que
extrapolavam em muito os limites de uma assistência comercial.
Ninguém
sabia também que Ron Landry e Larry Randall pertenciam à hierarquia
militar.
Os dois,
Landry e Randall, estavam bem informados sobre o âmbito de suas
atribuições, como também sobre o que se desenrolara na Colônia de
Passa, desde os seus primeiros dias até, principalmente, os últimos
acontecimentos. Tudo isto jamais se apagaria de suas memórias, a não
ser que fatos especiais justificassem medidas extraordinárias, pois
estas informações foram “embutidas”
em sua memória por um curso-relâmpago de hipnose e criaram raízes
firmes em seu subconsciente.
2
“Admirável
Ayaa-Oooy! Nossos tubos vibram em vossa homenagem e vos trazemos
vítimas que nunca foram vistas neste mundo, desde sua criação,
através de Vós, grande Ayaa-Oooy.”
Froyd
Coleman percebeu que ia ter muito aborrecimento. Não aborrecimento
propriamente dito, e sim trabalho. Mas haveria alguma diferença?
O edifício
dos escritórios de Coleman situava-se no lado sul do amplo
espaçoporto. Quem tivesse, que resolver qualquer tipo de
formalidade, antes de sair da área do aeroporto para entrar na zona
da soberania alfandegária da Colônia Passa, tinha que se haver
primeiro com Froyd Coleman.
Geralmente
Froyd se contentava em ouvir o caso, encaminhando-o depois a qualquer
um de seus auxiliares. Era de convicção de que um bom inspetor não
devia perder tempo ouvindo detalhes de pouca importância. Bastava
conservar uma visão e um controle geral das coisas.
Froyd
Coleman estava nos seus quarenta e seis anos. No correr de sua vida
de funcionário público, engordara bastante, devido à vida pacata
que levava. Portava com muita dignidade uma calvície central,
rodeada por uma coroa de cabelos cor de fogo, e durante as longas
horas do dia sua atividade se limitava a olhar para fora da grande
janela, para as pistas e para a rampa de embarque dos táxis de
Passa.
Foi por
esta janela que viu os dois homens chegarem. Não foi a aparência
dos dois que chamou a atenção de Froyd, mas sim o modo como
andavam, como olhavam em redor e a seriedade com que falavam entre
si. Por estas observações, Froyd percebeu que as coisas iriam
engrossar para seu lado.
Deu um
longo suspiro, levantou-se e vestiu o dólmã do uniforme. Pois, de
acordo com as prescrições, todo funcionário do Império Solar
tinha que portar uniforme completo em serviço, valendo isto para
todas as categorias uniformizadas. E durante noventa e nove por cento
de seu tempo de serviço, Froyd conseguiu se livrar desta prescrição.
Sabia, por
longa experiência, que lhe convinha observar rigorosamente o que
estava prescrito.
*
* *
— O
senhor está em dificuldades? “Como
ele pode perguntar isto assim, à queima-roupa?”,
pensava Froyd. “Como
que um tiro disparado de supetão!”
Aquelas
haviam sido as primeiras palavras pronunciadas pelo estranho, alto e
louro, logo após a saudação.
Froyd
concordou suspirando:
— Acho
que sim. Mais dificuldades do que podemos suportar.
— Que
quer dizer com isto...?
Froyd
arregalou os olhos.
— Quero
dizer que neste meio tempo perdemos dez mil homens. Não podemos
continuar perdendo...
— A que
o senhor atribui estas dificuldades? — queria saber o homem louro,
que se chamava Ron Landry.
— Aos
nativos — foi a pronta resposta de Froyd.
Landry
sorriu.
— Bem,
mas por que motivo os nativos passaram a se comportar de repente, de
maneira tão esquisita?
Froyd
deixou-se cair em sua poltrona, olhando para seu interlocutor, sem
saber o que dizer.
— Ah!
Isto não sei não.
“Que
querem propriamente estes dois?”,
perguntou ele a si mesmo. “Desde
quando o Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento se preocupa
com tais coisas?”
De
repente, o louro mudou de assunto:
— O
senhor é o funcionário mais graduado da cidade de Modessa, não é
verdade, senhor Coleman?
— Sim —
respondeu simplesmente.
— Isto
não é um inquérito — explicou Landry, sorrindo. — Gostaríamos
apenas de saber que medidas foram tomadas até então, para ficarmos
senhores da situação e podermos proteger os colonos.
Froyd
contraiu o semblante.
— O
senhor tem todo o direito de me fazer perguntas. Vamos responder
primeiro a segunda: avisei a todos os colonos que moram na periferia
para que se transferissem para cá. A cidade oferece mais segurança;
só no interior do planeta foi que desapareceu muita gente. Modessa
não é uma cidade de turistas, há só dois hotéis. Não tínhamos
camas para todos. Abrigamos os colonos em igrejas e salões de
boliche e aos poucos está chegando material de emergência da Terra.
Espero que também a Laramie tenha trazido alguma coisa.
“Os
colonos obedeceram ao nosso apelo, depois de verem o que ocorreu lá
fora. Modessa é normalmente uma cidade de trezentos mil habitantes,
agora está com setecentos ou oitocentos mil. Mas todo o interior
está vazio e pelo menos não precisamos mais nos preocupar tanto com
a vida humana.
“Quanto
à primeira pergunta: enviei uma expedição ontem para investigar o
paradeiro dos nativos nas florestas de vidro e lhes dar uma lição.
Se não conseguirmos impor respeito, as sempre-verdes continuarão
fazendo o que fizeram até agora.”
Quando
Froyd mencionou a expedição que iria punir as serpentes
inteligentes, os dois agentes se entreolharam. Landry perguntou
imediatamente:
— O
pessoal da expedição já atingiu seu objetivo?
Froyd deu
um sorriso malicioso:
— Não,
naturalmente que não. Partiram com deslizadores. Com um deslizador
voa-se até cem quilômetros por hora. As florestas de vidro distam
mais ou menos quinhentos quilômetros daqui, isto é, o início da
mata virgem. O pessoal deve ter acampado ontem à beira da floresta e
hoje de manhã todo o grupo deve ter tentado abrir um caminho. A
matéria que compõe este tal bambu de vidro é tão dura e
resistente, que até mesmo uma arma de raios térmicos precisa de
alguns segundos para amolecê-la. Acho que não podem caminhar mais
do que três quilômetros por hora... e as sempre-verdes não são
tão ingênuas para se esconderem logo na parte externa da floresta.
Landry
concordou. Depois, fez um rápido movimento com a mão direita,
levando-a para o bolso inferior do paletó. Froyd não prestou muita
importância ao movimento. Ficou, porém, muito curioso quando viu
algo cintilante na mão de Landry. Arregalou os olhos e observou
detidamente.
Foi um
verdadeiro choque para ele. Conhecia todas as medalhas existentes,
desde as verdes mais simples da polícia administrativa, as vermelhas
da polícia criminal da Galáxia, até as prateadas do Serviço
Militar de Segurança. Todas elas tinham o mesmo modelo: uma pequena
esfera terrestre e no verso as duas letras I e S. A cor de cada
medalha determinava a proporção de deferência e atendimento que
seu portador podia esperar das autoridades. A prateada era a mais
importante, que Froyd, aliás, jamais tivera o prazer de ver. Não
estava muito disposto a acreditar que existia uma medalha roxa, muito
superior à de prata, embora já tivesse ouvido falar a respeito.
E o que
Landry tinha na mão era de fato uma medalha roxa.
— Está
vendo isto, Coleman — disse ele bem sério. — Esta medalha aqui —
continuou, recolocando-a novamente no bolso — pode ser examinada
quando você quiser. Mas antes disso, chame de volta imediatamente
sua expedição. Deve regressar pelo caminho mais curto e rápido
para Modessa.
*
* *
— Ali
está ele — disse Froyd, apontando para dentro do ambiente saturado
de fumaça.
Ron Landry
ficou imaginando surpreso, pois ninguém iria esperar encontrar num
mundo novo uma cantina malcheirosa e enfumaçada. Mas ali estava de
fato uma deste tipo.
Ron Landry
e Larry Randall vieram parar neste local em companhia de Froyd
Coleman, porque este último, após uma conversa no escritório do
oficial da frota terrana, garantira que o homem que mais entendia de
florestas de vidro era Lofty Patterson e que o melhor meio de
encontrá-lo era na Cantina Fianos.
Lofty
Patterson, ainda para Ron e Larry no momento uma figura pequena e
magra, mergulhada na fumaça e no barulho, era realmente o melhor
conhecedor do planeta, o único sobrevivente da primeira leva de
colonizadores, chegada a Passa há quarenta e cinco anos atrás.
Ron fez um
gesto de quase ordem e Froyd se encaminhou para dentro do ambiente
enfumaçado. Larry e o próprio Ron permaneceram de fora, de pé
junto à porta. O Major Landry viu quando Froyd deu um toque no ombro
do velho colonizador e conversou um pouco com ele. Lofty balançou a
cabeça diversas vezes e Froyd apontou finalmente para a porta. Os
dois saíram juntos.
Ron abriu
a porta para Lofty passar e naquele instante em que o velho cruzava à
sua frente, o estudou a fundo. O rosto de Lofty, sulcado por milhares
de rugas, era um misto de jovialidade e de uma maliciosa esperteza.
Seus olhos brilhavam de contentamento, com as mãos metidas nos
bolsos e uma roupa que não podia ser mais nova do que ele. Conforme
os cálculos de Ron, devia estar entre sessenta a sessenta e cinco
anos. Devia ser bem jovem quando chegou a Passa.
Ficaram
parados lá fora na calçada. O carro, que a administração da
cidade havia cedido a Ron e Larry, estava estacionado junto ao
meio-fio.
— Froyd
está falando pelo senhor, não? — comentou Lofty, com um tom de
voz que combinava muito bem com sua cara alegre. — Isto já inspira
mais confiança. Então... Do que se trata?
— Vamos
conversar a respeito em outro lugar — disse Ron, taxativo. —
Froyd não lhe disse isto?
— Disse
sim. Mas...
— No
escritório do Major Bushnell, não é melhor assim?
— É
claro, não há dúvida.
*
* *
— Por
que o senhor não foi com a expedição? — perguntou Ron Landry.
O
escritório do Major Bushnell era grande, mas desconfortável. O
próprio Major Bushnell, oficial da frota terrana em Passa, não
estava presente. Ron Landry já lhe havia comunicado que este assunto
estava fora de sua jurisdição. Bushnell concordou totalmente em
colocar seu escritório à disposição para todas as investigações.
Isto era muito importante para Ron e Larry. Suas paredes possuíam a
grande vantagem de comunicarem imediatamente a um sistema central de
controle quaisquer tentativas de todo tipo de alteração — como,
por exemplo, instalação de microfones ou coisas semelhantes.
Dava a
impressão de que Lofty não se sentia muito à vontade neste
ambiente.
Percorreu
o salão com os olhos, antes de responder:
— Porque
eu sabia que não ia ter nenhum resultado.
— O
senhor não disse isto aos homens?
— Claro
que disse. Mas caçoaram de mim. Sempre estão me gozando, achando
que estou velho demais. No entanto, nada conseguiram.
Ron ouvia
com muita atenção.
— Por
que acha o senhor que a expedição não vai ter nenhum êxito?
Lofty deu
uma gargalhada mais estridente:
— Muito
simples. Pule na água e tente nadar atrás de um tubarão. O que vai
acontecer?
— Nada,
Lofty. Isto é mais do que óbvio. O senhor quer dizer o seguinte:
sendo as florestas de vidro o habitat natural das sempre-verdes, elas
sabem como se mexer naquele terrível emaranhado, enquanto que nossa
gente fica em grande desvantagem. Bem, isto parece claro. Acredito
nas suas palavras. Mas por que os outros caçoaram do senhor?
— Continuemos
com o exemplo do tubarão — propôs Lofty. — Pensavam que o
tubarão fosse atacá-los e assim teriam alguma chance.
— Mas
isto está errado, não é?
Lofty
concordou.
— Naturalmente.
Só quando se sentem completamente garantidas, as sempre-verdes
atacam. Em toda a minha vida, nunca vi uma sempre-verde que tivesse a
coragem de correr um risco, por menor que fosse. Portanto, quando
percebem que a expedição é forte demais para elas, simplesmente
correm e se embrenham pela floresta, até que o pessoal se canse e
volte para casa.
Por uns
instantes, Ron parou pensativo.
— Lofty,
o senhor teria a coragem de penetrar na floresta conosco? —
perguntou finalmente.
O velho
colono abaixou os olhos por um momento e finalmente falou:
— Os
senhores me dão uma impressão de prudência. Sim, com os senhores
eu iria.
Neste
exato momento, Froyd Coleman pareceu ter levado um grande susto.
Ergueu o braço esquerdo e com a mão direita apontava para um
pequeno aparelho que portava no pulso. Ron acenou para ele, pois
ouvia um ruído no minúsculo receptor.
Froyd
levou o braço esquerdo para a altura da cabeça e se apresentou. A
voz do outro lado estava tão fraca e com tão pouca nitidez que não
dava para Ron entender nada. Notou, porém, quando os lábios de
Froyd juntaram-se e sua testa enrugou-se.
Froyd
falou pouco. Parece que o principal havia sido um comunicado do outro
lado. Finalmente, deixou cair o braço esquerdo e olhou espantado
para cada um dos três homens.
— As
sempre-verdes dão mostras de estarem senhoras da situação —
disse em tom amargo.
— Que
quer dizer isto? — insistiu Ron com energia.
A voz de
Froyd estava pesada e lenta.
— Quer
dizer que, de cento e vinte homens que enviamos, quinze ainda estão
vivos e se encontram em fuga desesperada, de volta para Modessa.
*
* *
A
estratégia utilizada pelas sempre-verdes foi a mais primitiva
possível: conseguiram dividir a expedição, deixando rastros em
muitas direções e obrigando, assim, os terranos a se separarem em
diversos grupos. Finalmente, os dez deslizadores, lotados com doze
homens cada um, estavam separados, entregues à própria sorte.
Como
relataram três sobreviventes de um desses veículos, foi quando o
aparelho pousou e os homens saltaram em terra que as sempre-verdes se
precipitaram sobre eles. Não esperavam um ataque naquele momento,
nem tiveram tempo de usar das armas de que dispunham para tentar
equilibrar o combate. O ataque das gigantescas serpentes foi em
grande escala, com um grupo de mais ou menos duzentas. Deveriam ter
vindo em grande velocidade de todos os lados, pois o piloto do
aparelho, quando procurava espaço para pousar, não viu nem sinal de
sempre-verdes.
Na
confusão da sangrenta batalha, os três sobreviventes conseguiram
escapar rastejando para dentro do emaranhado da floresta.
Não foram
apenas os três sobreviventes que conseguiram escapar das serpentes.
Um deslizador, cujo piloto havia sido suficientemente inteligente
para não tentar descer em qualquer lugar da floresta, foi totalmente
poupado da morte.
Os três
sobreviventes viram muitas vezes tal deslizador de longe, até que,
chegando mais perto, o piloto deste veículo viu os sinais
desesperados dos três, baixou o máximo possível e os puxou para
cima por meio de uma corda. Assim que chegaram a bordo do deslizador,
dois deles desmaiaram. O terceiro contou da maneira que pôde o
terrível destino de seus colegas.
O piloto
deste último deslizador, que saiu incólume, devia ser um homem
muito ponderado. A narrativa da carnificina não o assustou a ponto
de sair fugindo da terrível floresta e procurar a garantia da
cidade. Embora soubesse que qualquer pane nos motores significaria a
morte dele e de toda sua gente nas garras das sempre-verdes, ainda
teve tempo e coragem para sobrevoar a selva à procura dos outros
grupos. Já há muito tempo que perdera todo contato de rádio com
estes e, antes de içar os três sobreviventes, tinha mesmo a
convicção de que os outros aparelhos haviam aterrissado e suas
tripulações haviam descido para perseguir o adversário a pé.
Depois de
um vôo de cinco horas sobre as florestas de vidro, encontrou os
destroços de nove aparelhos. Mas, por mais que ele e seus homens
investigassem, não conseguiram ver o menor sinal de um só dos
infelizes tripulantes. As serpentes deviam ter levado todos como
prisioneiros, ou os assassinado. Por que razão, ninguém sabia. Pelo
menos havia uma esperança de ainda se poder salvar os que tinham
caído nas mãos delas.
Só depois
desta longa pesquisa e depois de chegar a esta triste constatação,
foi que o único deslizador tomou o rumo de casa. Muito antes de
aportarem em Modessa, já haviam feito um relatório sucinto sobre o
fracasso da expedição.
A primeira
providência de Ron Landry: impediu a publicação deste insucesso.
Para isto teve que lutar contra a oposição sistemática de Froyd
Coleman.
Froyd
conhecia boa parte dos homens que participaram da expedição e
haviam deixado a família na cidade.
“Não
se pode pôr as mulheres e filhos”,
pensava ele, “na
incerteza.”
Ron
Landry, no entanto, era de opinião de que a notícia sobre o malogro
da expedição haveria de provocar a revolta dos colonizadores contra
as sempre-verdes e provavelmente levá-los a organizar novas
expedições de vingança, mesmo sem a aprovação das autoridades.
— Isto
não pode acontecer de maneira alguma — repetiu Ron com firmeza. —
Vocês tiveram que aceitar a perda de dez mil homens sem fazer muito
escândalo. Devem também agora suportar a perda de mais cem, sem
atitudes descabidas que poderiam provocar a desgraça total do
planeta Passa. Não poderá haver nenhuma expedição punitiva contra
os nativos. A única expedição que vai tratar deste assunto será
composta de três homens: Larry, Lofty e eu.
Froyd
acabou cedendo. Concordou em tomar todas as providências para os
preparativos da nova expedição. Mas Ron foi mais objetivo com ele:
— Não
haverá nenhum preparativo. Partimos amanhã cedo, assim que o sol
raiar.
3
“Travamos
uma grande batalha em vossa homenagem, Altíssimo Senhor. Grande é a
oferenda que vos trazemos, para continuarmos sob a vossa proteção,
Ayaa-Oooy.”
— Aqui
está a casa de Andy Lever — disse Lofty triste. — Pobre rapaz.
Foi um dos primeiros que elas pegaram.
Larry
pousou o deslizador bem perto da porta da casa baixa e espaçosa. Ron
ficou olhando da pequena abertura de sua cabina.
— Estamos
bem longe, não? — perguntou ele. — Logo ali começa a floresta.
— É
verdade — disse Lofty. — Chamei a atenção dele mais de uma vez.
Mas não queria acreditar. Sentia-se bem aqui e pensava que jamais
lhe aconteceria alguma coisa.
— Você
chamou a atenção dele, por quê? Você supunha que as serpentes iam
ficar irritadas com isso?
Lofty
olhou surpreso para ele.
— Não,
claro que não. Mas o negócio é o seguinte: Quem vive isolado aqui
fora está totalmente entregue às sempre-verdes. Vivem aos milhares,
talvez mesmo aos milhões nestas florestas. E mesmo com as melhores
armas, não se pode fazer muita coisa contra elas. Pois bem, as
serpentes foram sempre pacíficas e boas. Mas o espeto é que ninguém
sabe o que elas pensam. Não sabemos se existe uma moral entre elas e
se esta moral se assemelha à nossa. Não sabemos nem se nos
consideram amigos ou inimigos ou se lhes somos completamente
indiferentes. Não sabemos propriamente nada a seu respeito, a não
ser que possuem uma pele muito odorífera, da qual se desfazem
freqüentemente. Não haverá de fato uma temeridade em se aproximar
tanto assim delas, sem maior proteção? Foi com estes argumentos que
tentei dissuadir Andy Lever de querer morar tão afastado assim.
Ron acenou
com a cabeça.
— Foi
encontrado morto, não é?
— Infelizmente.
Houve um
profundo silêncio depois. Lofty gostaria de saber o que ele estava
pensando agora. Mas, nas doze horas que já estava convivendo com
eles, aprendera a renunciar a muita pergunta supérflua.
Larry
Randall, até então calado, contemplando a casa baixa, deu seu
palpite.
— Quer
dizer que as sempre-verdes mudaram de tática no correr dos últimos
dias.
— Exatamente.
E mudaram bastante. Só queria saber o que vão fazer com os mortos
que carregaram.
— E a
mim interessa muito saber por que mudaram de tática — disse Larry.
Ron
começou a rir de repente.
— Conforme
o que disse Lofty, não temos muita chance de compreender jamais a
lógica das serpentes. Por que vamos quebrar a cabeça sobre essa
questão? Talvez a única resposta cabível seja esta: as
sempre-verdes pensam diferente de nós. E mesmo se não for assim,
nunca saberemos como será.
Larry não
disse nada.
— Que
aconteceu com Andy? — perguntou Ron.
— Os
vizinhos o enterraram — respondeu Lofty. — Sua sepultura é ali
atrás da casa.
— Não
houve autópsia ou qualquer declaração médica?
— Não,
para que fim? Uma sempre-verde caiu sobre ele ou se atirou contra
ele, como percebemos mais tarde. As pegadas da serpente estavam
nítidas demais. E o peito de Andy... nem é bom falar. Acho que não
houve a menor dúvida de que estava morto.
Lofty
acionou um botão ao lado do espaldar da poltrona, onde estava
assentado, e uma das janelas laterais se abriu.
Ron
virou-se imediatamente para o lado:
— Pode
parecer ridículo, Lofty — disse ele — mas pediria que você não
fizesse mais isto, sem antes me avisar. Aqui no campo, ainda pode ser
uma coisa sem importância. Mas lá na floresta, nossa vida pode
depender do fato de abrirmos ou não abrirmos a janela. Entendeu?
Lofty
aceitou o aviso, sentindo-se culpado.
— É
claro. O senhor tem plena razão. Devia ter pensado nisto antes.
Talvez seja porque eu...
Neste
momento Lofty se voltou para o lado oposto, sem olhar mais para Ron,
com quem estava falando. Virou o rosto para o lado da janela, ficando
um instante como que petrificado, depois meteu a cabeça para fora.
— O que
houve? — perguntou Ron, em voz baixa.
— Uma
delas está aqui perto — disse Lofty, excitado.
— Uma
delas... quem?
— Uma
sempre-verde — disse Lofty. — Estou ainda sentindo seu cheiro.
E
voltou-se novamente para a janela.
— Ali ao
lado — disse, apontando para a floresta.
Pela
primeira vez, Ron dedicou mais atenção à cintilante orla da mata
virgem de vidro. O sol azul, oferecendo agora um branco ofuscante,
estava já bem além do zênite. Havia cintilação no ar em cima da
floresta, quase impenetrável. Calor intenso e silêncio de morte. O
ciciar da mata não se ouvia mais.
Os troncos
de algumas árvores da floresta atingiam dois metros de diâmetro.
Eram formações interessantes, permitindo às vezes a passagem da
luz, outras refletindo-a com intensidade. Para quem não olhasse com
mais atenção, a floresta dava a impressão de um bloco de vidro
gigantesco, sulcado por milhares e milhares de finas rachaduras. A
infinidade de reflexos fornecia um quadro confuso de luz e meia
sombra. Os olhos não podiam ver com nitidez os objetos, depois de
manterem-se algum tempo no reflexo vivo do vidro.
O ar lá
fora tinha muitos odores e a maioria deles era bem agradável. Ron
não podia distinguir qual deles provinha das peles das serpentes,
que Lofty já estava sentindo há mais tempo. Deram-lhe um pouco de
perfume das sempre-verdes de Passa para cheirar, mas era mesmo
impossível reconhecê-lo no meio de tantos outros cheiros que se
desprendiam da floresta.
Ron
passeou o olhar ao longo da orla da floresta, tentando descobrir onde
se encontrava a sempre-verde. Não viu nada, porém, nenhuma sombra,
nenhum movimento. Começou a pensar que tudo não passava de um
engano de Lofty. Apesar disso não diminuiu sua curiosidade. Chegou
até a apalpar a arma que trazia na cintura.
Lofty
continuava impassível. Larry parecia alheio a tudo, como se nada
daquilo lhe dissesse respeito. Não perdia de vista o painel dos
instrumentos e sua mão se mantinha firme ao volante.
Os minutos
foram passando.
De
repente, Lofty se afastou bruscamente da janela.
— Lá
vem ela — sussurrou ele. — Olhe para o lado direito da casa, que
o senhor poderá vê-la.
Deixou o
lugar à janela para Ron, que numa excitação febril começou a
investigar a direção indicada. Fixou o olhar na cintilação e no
tremeluzir da floresta de vidro, tentando descobrir algo. Mas quanto
mais forçava a vista, mais rapidamente desaparecia a imagem de seus
olhos, transformando-se num brilho único e homogêneo, onde não se
podia mais falar em detalhes.
Ron fechou
os olhos por uns instantes para poder enxergar melhor. Logo depois se
arrependeu do que fez, pois, quando os abriu, a sempre-verde estava
diante da muralha de vidro da floresta, de pé, com os quatro braços
abertos para lhe servir de equilíbrio.
Teve tempo
de observá-la. Um calafrio lhe percorreu as costas. Viu a imensa e
redonda cabeça de verme com os muitos orifícios pretos, cabeça
esta maior que a espessura do tronco. Viu o corpo de cobra, ágil e
cintilante, cuja pele resplandecia num verde-metálico, com trechos
mais claros, cobertos de manchas vermelhas, amarelas e azuis. Os
braços pareciam sem vida. Os quatro dedos ou garras — compridos e
finos — estavam bem esticados.
O corpo
alongado se estreitava para baixo. Mas mesmo no ponto em que se
apoiava no chão por meio da cauda, conservava o mesmo colorido
maravilhoso.
E neste
instante, Ron começou a sentir o indescritível perfume que o
estranho ser exalava. Um odor agradabilíssimo, superior a tudo o que
havia na Galáxia.
Agora que
o inimigo havia aparecido, Ron voltou à sua calma costumeira. A mão
foi até a cintura e apanhou a arma. Com muito cuidado, para não
espantar a serpente, Ron colocou o cano da arma no canto da janela,
agachou-se e ficou aguardando...
Atrás
dele estava Lofty, suspirando nervoso.
Ron
apertou o gatilho. Pela fração de um segundo, ouviu-se o estampido,
mas não se notou nenhum raio luminoso e a sempre-verde nem se mexeu.
Horrorizado, Lofty deu outro suspiro. Ron se levantou.
— Tudo
certo, Larry — disse ele com calma. — Dê uma olhada em volta.
Ficaremos alguns instantes aqui.
Neste
momento, a sempre-verde começou a se mexer. De repente, seu corpo
poderoso e comprido se projetou a mais de um metro para o alto.
Quando caiu, apoiando-se no solo com a cauda musculosa, já estava
três metros mais para frente e já se preparava para o segundo
salto.
Lofty
perdeu a calma.
— Atire,
atire logo — gritava ele. — Pegue outra arma. A serpente vai nos
matar.
Ron
segurou o homem pelo ombro e, sem se virar, o puxou para mais perto
da janela.
— Um
pouco de calma, meu caro! Não vai acontecer nada.
Notou que
Lofty tremia muito. Larry Randall deixara seu lugar na direção do
aparelho, dirigindo-se também para a janela. Acompanhou com vivo
interesse os elegantes saltos, através dos quais a serpente mais se
aproximava.
Chegou até
cinco metros do deslizador. Depois, dobrou de repente seu enorme
corpo. Mais de dois terços dela achava-se agora no chão, e o resto
permanecia imóvel e ereto no ar, estando alguns dos orifícios
negros da cabeça virados para o aparelho.
— Meu
Deus! — balbuciou Lofty. — É esta a posição que elas tomam
quando querem conversar conosco. Ela deseja falar conosco. Como é
que você conseguiu isto, Landry?
*
* *
Ron fez a
porta correr para o lado. Já havia colocado na cintura há muito
tempo a tal arma misteriosa, que, aparentemente, não fora capaz de
disparar um tiro. Desceu do aparelho e foi de encontro à
sempre-verde, ficando bem rente a ela.
Lofty,
assustado, contemplava a cena com os olhos arregalados.
— Isto...
ele não devia fazer — gaguejou ele. — Não pode saber se...
Larry
Randall também saltou. Carregava um pequeno aparelho em cuja tampa
estavam afixados dois pequenos microfones. Lofty já conhecia este
tipo de aparelho. Eram os transdutores, aqueles instrumentos
maravilhosos que realizavam conversões lingüísticas.
Larry
mostrou tanto respeito pela sempre-verde, como já antes demonstrara
seu colega Ron. Colocou o transdutor em frente a ela no chão, pegou
um dos microfones ligado num longo fio e o fixou bem rente da cabeça
da serpente. Ron segurava com a mão direita o segundo microfone.
Lofty, de
tanta curiosidade, perdeu o medo e desceu também do deslizador.
— Nós a
cumprimentamos — disse Ron no seu microfone.
A
sempre-verde produziu um longo som cantarolado. Em todo ele, parecia
haver somente um fonema consonantal. Logo depois o transdutor se
manifestou:
— Oh!
Não, hoje não. Tenho que voltar logo para casa.
Ron olhou
primeiro para o microfone e depois para a serpente.
— Estamos
alegres por encontrá-la aqui — disse Ron.
E a
sempre-verde, com um som sibilante e modulado seguido de três sons
grasnados, respondeu:
— Se não
estivesse tão desgraçadamente frio teria feito hoje boa colheita.
Lofty
estava rindo.
— Qual é
o motivo da risada? — perguntou Ron meio zangado, virando-se para
trás, depois de haver desligado o microfone.
— Que
besteira é esta que ela está falando?
Lofty
continuou a rir com mais prazer.
— É o
costume delas — explicou ele. — Antes de chegarem ao próprio
tema da conversa, costumam falar sobre coisas totalmente sem
importância. Vale para elas como sinal de educação. Cada uma fala
o que lhe vem à cabeça, sem prestar atenção no que diz seu
interlocutor.
Ron
franziu a testa.
— E como
que a gente põe um fim nisto?
— Não o
aconselho a fazer isto. Ela o tomaria por um grande grosseiro. Fale
mais qualquer coisa com ela, pelo menos umas três ou quatro vezes.
Depois termine assim: as suas frases bobas me causaram grande
prazer... e ela voltará ao seu assunto.
As rugas
na testa de Ron ficaram mais profundas.
— Lofty
— disse em tom ameaçador — se você me está fazendo de bobo,
vai ter uma surpresa muito desagradável.
— Realmente
não se trata de brincadeira, Ron. É o único meio certo que você
tem para agir.
Ron ligou
novamente o microfone e o trouxe à altura da boca.
— Em
geral, as casas são quadradas — disse muito seriamente — mas
podemos construí-las também redondas.
E a
serpente respondeu:
— Exatamente,
e se eu tivesse mais algumas folhas, daria uma excelente salada.
— Exatamente
ontem, por estas horas, estava caindo do céu.
— Nem me
pergunte — respondeu a sempre-verde. — Já faz três anos que não
vejo uma praia de mar.
— É
isso — continuou Ron — se não houvesse os casulos, não haveria
borboletas.
— A
maior desgraça são as árvores podres. Quando a gente se encosta
nelas, elas caem.
Ron estava
contando as frases. Sabia que já dissera muita besteira, para não
parecer descortês à sempre-verde.
— Sua
conversa boba me proporcionou muita alegria — disse ele, como Lofty
havia previsto e sugerido, e a serpente respondeu rápida e
bem-humorada:
— A sua
também, meu amigo, sou-lhe muito grato por isso.
— Por
que vocês estão atacando os colonizadores e não fornecem mais
peles? — perguntou Ron e percebia-se pela dureza da voz que queria
o quanto antes chegar ao seu objetivo.
— O Ser
Supremo chegou — respondeu a sempre-verde. — O Sssst... Fazemos
uma festa em sua homenagem. O Ser Supremo nos dá ordens e nós as
seguimos.
Os fonemas
sibilantes e o dental no meio da frase — Sssst — significavam que
o termo não tinha tradução. Ou porque na linguagem dos terranos
não havia palavra correspondente ou porque o vocabulário do
transdutor idiomático não era suficiente.
Ron ficou
imaginando o que podia ser o tal “Sssst”.
— De
onde que ele veio?
A serpente
balançou a enorme cabeça:
— Como
posso saber de onde veio o... Sssst? Ele é onipresente. Quando lhe
apraz, fica por algum tempo em qualquer lugar.
— Como é
que ele é?
— Onipotente
e Senhor Absoluto. Sua majestade ofusca nossos olhos.
— E onde
vive ele?
— Lá na
floresta. Além da montanha do... Sssst, nas cavernas de... Sssst.
Nós o adoramos lá.
Ron
parecia um tanto desanimado. De que lhe adiantavam todos os esforços
até então, se o transdutor não assinalava exatamente o termo mais
importante?
— O que
vocês fazem com os prisioneiros?
— Nós
os oferecemos ao... Sssst — respondeu a sempre-verde, com toda
naturalidade.
— E com
os terranos mortos?
— Nós
os mostramos ao... Sssst para que ele saiba que mesmo lutando nós
pensamos nele.
Ron sentiu
o corpo gelado.
— Onde é
que vive o Ser Supremo? — disse ele, terminando seu interrogatório.
A serpente
apontou para a floresta. O gesto cobria um ângulo de cerca de trinta
graus. Conforme os cálculos dos terranos: do nordeste para o leste.
— Mais
ou menos ali — respondeu o ser estranho.
E em
termos gerais, a informação não era pior do que o que já havia
ouvido.
Muito
antes de iniciar este diálogo, Ron confeccionara uma lista das
perguntas que desejava fazer à primeira sempre-verde que
encontrasse. Já fizera uma parte delas, mas chegou à conclusão de
que não valia a pena prosseguir. Deixara de considerar duas coisas
capitais: o modo totalmente estranho de pensar das serpentes e o fato
de que os colonizadores de Passa não se deram jamais ao trabalho de
obter informações mais exatas sobre o ambiente e os costumes, em
que viviam os habitantes primitivos do planeta.
Expressou
sua gratidão à serpente e em seguida disse algo que deixou Lofty
Patterson boquiaberto:
— Você
vai ficar agora deitada aí — explicou ele — até que o sol
desapareça atrás do telhado daquela casa. Depois, pode se levantar
e ir para onde quiser. Mas haverá de esquecer que se encontrou
conosco e de que lhe fiz algumas perguntas. E...
Interrompeu-se
de repente. Alguns segundos depois, ainda dava a impressão de querer
dizer alguma coisa. Mas virou-se para Lofty e Larry, ordenando-lhes:
— Vamos
continuar a viagem.
Quando
Larry já estava sentado à direção, Lofty entrou, ainda meio
perplexo. Ron tomou lugar ao lado dele. Larry deixou o aparelho subir
um pouco acima da altura da casa, onde há dois dias atrás ainda
vivia Andy Lever, e, depois de dar uma volta em torno dela, tomou o
rumo da floresta de vidro.
Lofty
ficou olhando para trás. Lá embaixo, estava deitada a serpente, com
os dois primeiros metros de seu corpo em posição ereta, sem se
mexer.
— Como é
que o senhor conseguiu isto? — perguntou Lofty, curioso.
E Ron
explicou com a maior naturalidade.
— Nossa
técnica terrana dispõe de uma grande série de armas. Entre elas,
as que influenciam a massa cefálica ou a substância do pensamento,
fazendo com que o influenciado fique sob a vontade do influenciador.
Chamamos tais armas de raios psíquicos. O efeito por elas produzido
recebe o nome de hipnose mecânica. Não estava muito seguro sobre se
este princípio funcionaria bem num cérebro tão estranho como o de
uma serpente... mas os senhores viram que funcionou. Quando aquela
criatura lá embaixo voltar a si daqui a uma hora ou mais, haverá de
ter esquecido nosso encontro. Lofty ouvia tudo maravilhado:
— O
senhor ainda queria lhe dizer alguma coisa, não é verdade? —
perguntou Lofty, depois de longa pausa. — Interrompeu a frase com
um e...
Ron
sorriu.
— Você
observou bem, Lofty. Sim, eu ainda lhe queria dizer que ela jamais
tocasse num terrano daqui para frente, muito menos o prendesse ou
matasse.
— Seria
uma ótima idéia — acudiu Lofty. — Por que não lhe disse isto?
Ron levou
mais tempo para responder.
— O
Sssst deve ser uma criatura inteligente. Ficará certamente
desconfiado se um de seus súditos deixar de repente de lhe trazer
terranos como vítimas. E queremos evitar esta desconfiança, pelo
menos até que tenhamos em mãos este espírito do mal.
4
“Não
vos irriteis conosco, ó Altíssimo. As vítimas estão diminuindo e
nossos guerreiros mal as conseguem pegar. Não vos irriteis conosco,
Ser Supremo, lutaremos para vos trazer novas vítimas. Tende piedade
de nós, invencível Ayaa-Oooy!”
Este
deslizador não era como os demais. A espaçonave Laramie o trouxera
da Terra. Com seu potente gerador, podia criar em torno de si um
envoltório de proteção quase que invulnerável. Talvez só não
resistiria a um ataque simultâneo de dez ou mais bocas-de-fogo de
grande calibre.
Até o pôr
do sol, a pequena expedição já ultrapassara a entrada da floresta
por mais de trezentos quilômetros.
Lofty
mostrou que tinha boa memória, apontando, mesmo antes de alcançarem,
os menores detalhes da topografia. Era de fato admirável, pois fazia
mais de dez anos que o velho não voltava à selva virgem. E neste
local onde estava agora, sua última visita fora há mais de vinte
anos.
— Deveríamos
ver um rio por aqui — disse ele, quando o sol azul estava quase se
escondendo no poente. — Direção nordeste para sudoeste, não
muito ampla. Em muitos pontos, as grandes árvores das duas margens
chegam a entrelaçar suas copas em cima da água.
Ron
concordou sorrindo.
— Bem, é
lá que vamos aterrissar. Lofty se remexia meio nervoso em sua
poltrona:
— O
senhor tem certeza de que o envoltório de proteção é
super-resistente?
— Naturalmente.
Por quê?
— É
cisma minha. Pequenos insetos, como os percevejos de Passa, não
conseguirão passar através dele?
Ron abanou
a cabeça.
— Não
passa nem mesmo uma molécula de ar. Está mais tranqüilo agora?
— Claro
que estou. Fico, às vezes, preocupado com o pensamento de que o
senhor não avalie bem os perigos que nos cercam. Vive aqui uma
quantidade espantosa de animais de toda espécie. Alguns são tão
pequenos que a gente tem a impressão de que não podem fazer nada
contra nós, até que penetrem em nossa pele e comecem a andar pelo
corpo a fora. Então a gente tem que se dar por feliz caso encontre
um médico que entenda alguma coisa da medicina de Passa... Do
contrário, está tudo perdido.
Ron não
respondeu nada. Um pouco mais para frente, surgiu o mencionado rio,
como uma linha escura na cintilação azulada da floresta. O branco
ofuscante do dia já desaparecera, um disco azulado pendia no
horizonte, mergulhando aquele mundo numa luz quase irreal. No lado
oposto, porém, onde devia começar a noite, desenhava-se no
firmamento uma mancha roxa, que a cada minuto ia ficando mais clara,
enriquecendo a escala de cores com novas tonalidades. Era o prenuncio
do gigantesco sol vermelho que iria surgir, depois que fizesse mais
ou menos uma hora que o azul desaparecesse no horizonte.
Larry
subiu um pouco com o deslizador para ter uma visão melhor do local.
Alguns minutos depois, o pequeno rio estava bem embaixo do aparelho,
uma linha estreita e sinuosa, de água escura, no meio daquela
fantástica reverberação azul.
Ron
escolheu uma espécie de península, formada nas muitas dobras do
rio, como local para o pouso. Larry Randall trouxe o aparelho numa
descida tão íngreme que Lofty começou a resmungar e a protestar.
No exato momento em que o sol azul atingiu o horizonte, começou a
funcionar o aparelho de raios térmicos com que estava equipado o
deslizador, destruindo tudo que havia daquelas estranhas plantas de
vidro no trecho da quase península, até deixar uma área livre e
plana, onde podia pousar sem dificuldade.
A primeira
preocupação de Lofty, depois de descer e esticar um pouco as
pernas, foi examinar a eficácia do envoltório de proteção, em que
realmente não acreditava muito. Naquele ar quente ao lado do rio,
zumbiam verdadeiros enxames de insetos miudinhos e, quando naquele
lusco-fusco se acendia uma luz, todos esses acorriam para ela, como é
próprio dos insetos. A apreensão de Lofty desfez-se quando reparou
como aqueles minúsculos bichinhos eram detidos em seu vôo por algo
invisível. Ficavam um instante como que dopados, dançando de um
lado para o outro, tentando depois um outro ataque. Porém,
estacavam, pois uma muralha invisível os detinha. Mesmo assim, Lofty
ergueu as mãos, tentando alcançar o algo invisível.
— Formidável
— disse ele. — Um meio de proteção assim é uma invenção
fantástica.
Larry
estava preparando uma espécie de jantar. Apanhou uma porção de
latas de conservas. Quando eram abertas, tais latas se aqueciam
automaticamente, espalhando um cheiro tentador.
Alimentaram-se
bem e com calma. Na extremidade da península, murmurava o rio e o ar
— ainda quente — estava envolto numa penumbra macia e pardacenta,
enquanto o sol azul sumia no horizonte e o vermelho começava a se
levantar.
A floresta
os cercava e o espaço além do rio estava cheio de ruídos
misteriosos. Larry levou um susto e se escondeu quando, como disse,
ouviu de repente um forte gargalhar atrás de si. Com os olhos
arregalados de contentamento, Lofty começou a rir do colega
inexperiente, explicando-lhe depois:
— Isto é
a “gargalhada
da floresta”.
Você ficaria ainda mais admirado quando a visse frontalmente. Não é
maior do que minha mão, mas é tão feia, que Deus não poderia ter
criado coisa mais horrenda: é um sapo mesclado com gafanhoto.
Naturalmente não produz este ruído todo com a boca, mas esfregando
uma na outra suas patas dianteiras.
Momentos
mais tarde, vibrou no ar quente um ronco cavernoso como se ali por
perto estivesse passando um possante avião a jato. Conforme a
informação de Lofty, tratava-se simplesmente de um grito de guerra
de um búfalo de vidro, que, conforme Lofty dissera, apesar de seu
nome pomposo, não era maior do que um coelho.
Podia-se
ficar ocupado horas inteiras em ouvir os ruídos da selva e deixando
que Lofty os fosse explicando.
De
repente, porém, os tambores começaram a tocar.
Aliás,
ninguém a não ser Lofty estava em condições de identificar o
ruído. Começou por um zumbido baixo, profundo, como se ao longe
estivesse vibrando o som de um grande sino. Lofty ouvia com muita
atenção.
Larry lhe
quis perguntar alguma coisa, mas o velho, com um gesto de mão, o
obrigou a silenciar.
O zumbido
aumentou, mudando depois de tonalidade, soando mais agudamente.
Depois abaixou o volume e o tom, sem porém voltar ao que era antes.
E continuou assim. Aumentava ou diminuía a intensidade e alternava a
tonalidade a espaços irregulares.
Toda a
atenção de Lofty continuava ainda ocupada pelo estranho toque de
tambor. O ruído cessou. Porém voltou logo depois, com menor
intensidade, aparentemente de local mais afastado. Lofty estava agora
em condições de explicar todo o assunto.
— As
sempre-verdes estão se comunicando e dando seus sinais. Usam para
isto uma espécie de tambor que na realidade não é outra coisa do
que troncos ocos de vidro colocados em cima de cavaletes. Entendo um
pouquinho da linguagem de seus tambores. Conceitos importantes são
expressos por tonalidades diferentes e também por volume diferente.
É claro que se trata de uma linguagem primitiva. Não se pode dizer
muita coisa a respeito. Mas para elas, é suficiente.
Ron
concordou.
— Mas
então, Lofty, o que você entendeu de tudo isto?
Lofty
cocou a cabeça.
— Se não
tivesse escutado com meus próprios ouvidos e uma outra pessoa me
dissesse, eu o chamaria de louco. Mas as serpentes parecem realmente
ter encontrado uma espécie de deus ou de ídolo, que estão adorando
no interior das selvas. Os tambores dizem que este deus não deve
perder a paciência, mas sim permanecer com eles. Dizem também que
haverão de conseguir mais vítimas para oferecer a ele.
Ron e
Larry não ficaram muito surpresos com a explicação.
— Agora
sabemos quem é o “Sssst”
— comentou Larry.
— Terá
ele algum outro nome? — perguntou Ron.
— Isto
não lhe posso dizer — respondeu Lofty. — A linguagem dos
tambores é muito diferente da que as serpentes falam. Por exemplo, o
que normalmente se chama “üüüchi”,
aqui é simplesmente um zumbido. Pode-se compreender os conceitos,
mas não as palavras.
— Uma
outra pergunta — interveio Larry. — Será que as sempre-verdes
mencionariam alguma coisa a nosso respeito em sua mensagem dos
tambores, se soubessem que estamos penetrando em suas florestas?
A resposta
de Lofty veio sem demora:
— Certamente
que sim.
— Já
que não dizem nada sobre, isto significa que não sabem nada de nós.
— Também
estou certo disso.
— Isto é
muito bom — continuou Larry, contente. — Não gostaria que a
atenção deste deus esquisito se voltasse muito cedo para nós.
Poderia nos causar muito aborrecimento.
Olhou com
ar malandro para Ron, e Lofty teve a impressão de que havia algum
segredo entre os dois.
Qual
seria?
*
* *
A
sempre-verde com quem Ron conversara estava ainda deitada no chão,
atrás da casa de Andy Lever, quando o sol azul já desaparecera há
muito no ocaso e o vermelho já iniciara sua ascensão.
A grande
cobra não tinha o menor sentido pela beleza de seu mundo, naquele
momento em que a luz fraca e avermelhada do sol maior se espalhava
sobre o planeta e o grande disco, mais parecido com uma lua do que
com um sol, subia lento no céu. Primeiro, estava acostumada a este
espetáculo diário, pois Passa era sua terra e, durante toda a sua
vida, fora do sol azul, não vira outro a não ser este gigante
vermelho, com o céu amarelado por detrás. Segundo, ela estava
quebrando a cabeça com alguma coisa.
Tinha que
fazer alguma coisa de que não conseguia se lembrar. Tinha que se
levantar e ir embora.
Por que
não o fazia? Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Alguma coisa
não estava certo. Devia ter-se esquecido de alguma coisa. E o que
seria?
*
* *
Na manhã
seguinte, ainda antes do nascer do sol azul, o deslizador se levantou
da pequena península, desta vez dirigido por Ron. Lofty deu a
entender que jamais fora além deste rio e que se encontravam agora
numa região onde jamais penetrara um terrano.
Além do
rio também não existiam mais nomes. O rio chamava-se Windside. Por
que, ninguém sabia. Era, no lado do leste, o último acidente
geográfico assinalado com um nome terrano, o que provava que os
terranos, no correr dos longos anos de colonização de Passa, não
conseguiram chegar até ali por outro meio que não fosse um
deslizador cômodo e seguro.
Mais para
o leste, era-lhes tudo terra nova e virgem. As montanhas que após
uma hora de vôo surgiram no horizonte não tinham nenhum nome. Há
cinqüenta e quatro anos, a equipe de medição da frota terrana se
contentara em sobrevoá-las, assinalando-as no mapa geral do planeta.
O seu batismo seria deixado para os colonizadores. Mas estes não
chegaram a tanto...
As
explicações de Lofty fizeram com que Ron Landry chegasse a outros
pensamentos no tocante à expedição. Ainda tinha na memória as
palavras de Nike Quinto: Os saltadores haviam se fixado em Passa e
estavam levando os nativos, com algum de seus truques, que não eram
poucos, a desfazer a amizade e o bom entendimento reinantes até
então entre eles e os terranos.
Se a
situação fosse mesmo esta, eles, os três terranos no deslizador,
teriam de se haver com adversários de alta categoria, assim que
chegassem ao seu objetivo.
Quando
estivessem além das montanhas, se encontrariam a mais de mil
quilômetros de Modessa, a cidade mais próxima. É claro que a
distância não significava tudo, em se tratando de enviar um pedido
de socorro. Froyd Coleman e o Major Bushnell, em Modessa, haveriam de
ser logo informados do que se passava no trecho das florestas
inexploradas. Mas o Major Bushnell ainda estava ocupado em
reorganizar uma frota de vigilância, para que pudesse reservar uma
parte dela para prestação de socorro urgente. Talvez, dentro de
cinco ou seis dias, estivesse em condições de poder enviar um
cruzador para prestar socorro, caso Ron o solicitasse. Até então só
podiam mesmo contar com as poucas forças de Froyd Coleman. E isto
não ia além de vinte ou trinta deslizadores, com duzentos ou
trezentos homens, que levariam dia e meio até alcançá-los, e
talvez alguns aviões que, num terreno muito acidentado e montanhoso,
pouco ou quase nada poderiam fazer.
Esperar
até que Bushnell tivesse reagrupado todas as forças, seria
impossível. Cada dia que passasse inutilmente daria mais tempo aos
saltadores para resguardarem suas posições. Tinham que atacar o
mais depressa possível.
Além
disso, os recursos de Bushnell e seus rápidos destróieres deviam
ser utilizados somente em última hipótese, pois não se devia de
maneira alguma assustar os nativos. Um ponto vital da psicologia
colonial era a exigência de jamais mostrar aos nativos a
superioridade da técnica terrana no sentido de destruição. A
experiência havia demonstrado que a partir deste momento, eles
teriam mais medo dos terranos, porém, nenhuma amizade mais.
Por
qualquer ângulo que se olhasse, as perspectivas não eram nada
encorajadoras. Contavam apenas com uma única vantagem que lhes podia
servir de consolo: o deus das serpentes, que provavelmente devia ser
qualquer criação dos saltadores, não tinha a menor noção de que
os terranos estavam a caminho.
Quem sabe,
o fator surpresa poderia ajudá-los a resolver o problema mais
rapidamente?
*
* *
Quando o
sol azul surgiu novamente no céu, a sempre-verde continuava ainda no
mesmo lugar em que Ron Landry a deixara. A coitada sentia fome e sede
e a pele começava a lhe comichar, por já estar no tempo de mudá-la.
Não podia, porém, fazê-lo, pois para isto necessitava
dependurar-se no galho de uma árvore, com a cauda enrolada neste e a
cabeça pendendo para o chão. Como podia fazer isto num lugar onde
não se podia mover?
Quebrava a
cabeça para descobrir o que esquecera de fazer e por que seus
músculos não mais lhe obedeciam. Uma sensação de pânico se
apoderou dela, quando se apercebeu de que poderia morrer de fome e de
sede naquele local ou mesmo abafada pela própria pele, caso não lhe
ocorresse logo o que havia de errado. Mas este pânico em nada a
vinha ajudar. Seus pensamentos se embaralhavam, girando confusamente
em torno do estado angustioso em que se achava e tentando em vão
descobrir do que se esquecera. Sofria muito.
E o que
seria?
*
* *
Após
sobrevoarem as montanhas, Ron Landry ligou o transdutor e começou a
ouvir a gravação da conversa que tivera com a serpente ao lado da
casa de Andy. No ponto em que a serpente dizia: “Lá
na floresta. Além da montanha do... Sssst...”
Ron parou a fita. Fez com que o seletor apagasse o fonema sibilante e
no lugar dele falou num dos microfones a palavra “interior”.
Depois fez a fita voltar e tocar de novo. E desta vez, disse a voz
gravada: “Lá
na floresta. Além da montanha do interior.”
Finalmente
Larry Randall assinalou no mapa, onde havia somente o percurso da
cadeia de montanhas, o novo nome, enriquecendo assim a geografia de
Passa com mais um dado. Futuramente, ninguém mais que conversasse
com uma sempre-verde sobre as montanhas do interior, iria ter dúvidas
quanto à sua localização, pois os transdutores existentes em Passa
eram aferidos anualmente para o confronto de novas expressões. E Ron
haveria de cuidar para que o nome fosse oficialmente registrado nos
mapas.
O nome
“interior”
não fora nenhuma escolha arbitrária. A julgar pelo mapa, a cadeia
de montanhas estava de fato no coração do grande continente
equatorial.
Ron
manteve o veículo sempre bem rente das escarpas e dos grotões da
montanha. Somente assim lhe era possível penetrar mais para o leste,
sem ser percebido pelos saltadores. A floresta de vidro atingia
alturas assustadoras. Até cinco mil metros ainda vicejava firme a
mata impenetrável. O interessante é que depois desta altura, não
havia uma zona de transição, que passasse de plantas menores e mais
fracas até a solidão das rochas dos altos píncaros. Não, o
cascalho e a rocha tocavam diretamente a orla da mata virgem.
Fora
disso, o quadro não mudara. O que viam abaixo de si era sempre o
mesmo teto de vidro. Neste longo dia, o deslizador penetrou até as
quebradas do outro lado do maciço central. Mas desta vez, não foi
tão simples conseguir um ponto bom para aterrissarem. O uso dos
raios térmicos, que limpavam o chão dos arbustos maiores, devia ser
evitado a todo custo, pois qualquer tipo de ruído haveria de chamar
a atenção das serpentes, que tinham um ouvido sensibilíssimo, como
explicara Lofty. Por exemplo, o som de uma palavra falada com toda
calma, elas podiam ouvir nitidamente a duzentos metros de distância.
Por isso,
Ron rodou bastante, até encontrar no meio da brenha um ponto onde a
vegetação parecia menos crescida. Cauteloso, foi descendo com o
aparelho, desviando-se lentamente dos galhos das árvores.
Finalmente
mergulharam sob a copa das árvores, onde reinava uma quase penumbra.
Só então, com muita cautela e constantes interrupções, fizeram
uso dos raios térmicos. Levaram quase uma hora para deixar o local
limpo de plantas maiores, a fim de poderem se instalar com calma.
Nesta
noite não tiveram tempo nem disposição para apreciar o romantismo
da natureza selvagem, como na noite anterior na enseada do rio.
Achavam-se no termo de sua jornada e o inimigo devia estar rondando
em torno. Apenas não se sabia quando atacaria...
*
* *
Ao se
aproximar a hora do crepúsculo, a sempre-verde ainda estava perdida
em seus pensamentos. Porém, agora, estes versavam quase somente
sobre o triste quadro de sua realidade, do que a aguardava, quando
seu enorme corpo, debilitado pela fome e pela sede, acabasse
desfalecendo e a pele, em fase de troca, acabasse sufocando seus
poros. Não se preocupava mais com o fato de ter esquecido alguma
coisa importante que a poderia salvar. Parecia mesmo aceitar seu
destino.
Foi neste
estado que a encontraram três homens, pouco antes do nascer do sol
vermelho. Vieram por sobre a floresta num deslizador que muito se
assemelhava ao usado por Ron Landry. Não foi de maneira alguma por
acaso que chegaram até aqui. Sabiam que um dos grupos das
sempre-verdes do interior da mata estava sentindo a falta de uma das
suas componentes. Encontraram-na extraviada atrás da casa de Andy
Lever.
Os homens
eram altos e espadaúdos. Falavam muito alto e com voz reboante e
sempre com tanta convicção como se o mundo todo lhes estivesse aos
pés. Riam muito. Chegaram mesmo a dar gargalhada quando viram a
pobre serpente naquele estado.
Possuíam
um aparelho que funcionava mais ou menos como um tradutor.
Perguntaram à infeliz por que ali estava, por que não se movia e
quem foi que lhe dissera para deitar ali e não sair mais. As
respostas que receberam foram confusas e sem nexo. Tentaram forçar a
serpente a se mover, mas não o conseguiram. A única coisa que
conseguiram fazer foi içá-la para bordo de seu aparelho, usando uma
espécie de empilhadeira. Tomaram depois o caminho de volta para a
floresta.
Deviam ter
uma idéia bem clara do que havia acontecido com a sempre-verde e
esta idéia não podia ser nada agradável, pois seu riso constante
desaparecera. Acreditavam naturalmente que, com os meios e
medicamentos de que dispunham em algum recanto da floresta, estavam
em condições de lhe fazer voltar a memória e que mais tarde
saberiam dela quem a deixara neste estado.
Mas a
natureza agiu diferentemente. Sem que os homens o notassem, a
serpente começou a troca de pele durante a viagem. A pele de fora,
semi-solta, impedia-lhe a respiração. Quando afinal o aparelho
aterrissou na floresta, os homens prepotentes de gargalhada
estrondosa estavam de posse apenas de uma pele muito cheirosa e
preciosa e de um cadáver de serpente de pouco ou nenhum preço.
Um pobre
ser inteligente do planeta Passa havia morrido pelo fato de não
saber o que era uma casa.
“Você
vai ficar agora deitada aí”,
assim soava a ordem, “até
que o sol desapareça atrás do telhado daquela casa...”
Por não
saber o que era uma casa — e não tinha mesmo possibilidade de
compreender — também não podia saber quando seria a hora de se
levantar e ir embora. E assim ficou ali deitada até que a fome e a
sede a extenuaram e sua pele começou a se soltar. Morreu devido à
sua própria ignorância.

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