quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-106 - O Deus Falso - Kurt Mahr [Parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
S. PEREIRA MAGALHÃES




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Procuravam 10.000 terranos desaparecidos e...
encontraram o deus das serpentes.



No fim do século XXI e princípio do século XXII, surgiu uma nova época na História da Humanidade.
Com o precioso apoio dos homens, o arcônida Atlan conseguiu alicerçar sua posição de imperador. A aliança entre Árcon e o Império Solar deu excelentes frutos — especialmente para os terranos, que em grande número já ocupam cargos de importância no governo do Império Arcônida. Atlan necessita do auxílio dos terranos, já que não pode confiar na maioria de seus patrícios.
O Império Solar se desenvolveu a tal ponto de se tornar a maior potência comercial da Via Láctea. A partir do século XXII, se pode falar de uma verdadeira onda emigratória para mundos apropriados para uma colonização racional. E mesmo em inúmeros planetas habitados por outras inteligências existem embaixadas e representações comerciais da Terra.
Mas, apesar de tudo, não se vive num mar de rosas, pois, como tem demonstrado a triste experiência, existe na Galáxia uma potência que não morre de amores nem pelos arcônidas nem pelos terranos: são os acônidas, do Sistema Azul, que já por duas vezes atacaram traiçoeiramente.
Mas há ainda na Galáxia outras potências que vêem no espetacular surto de progresso da Terra um motivo de hostilidade. Prova disto são os misteriosos acontecimentos no planeta Passa, colocando em ação novamente os agentes da Divisão Secreta III.





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Ron LandryMajor; homem tremendamente observador.

Larry RandallDestemido capitão.

Lofty PattersonVelho colono terrano que vive em Passa.

Ayaa-OooySer vivo ou máquina... seu aspecto é assustador.
1



Ayaa-Oooy, vós sois o Ser Supremo e nós louvamos vosso nome. Seguiremos vossa vontade, Deus e Senhor nosso.”

Andy Lever se recordava bem claramente que há duas horas atrás não havia nenhuma árvore neste local. Mas agora, ali estava uma, com mais de cinco metros de altura, com um tronco que se tornava fino à medida que se aproximava do solo.
Perplexo, Andy olhou em volta. Era a hora misteriosa do crepúsculo, o período entre o ocaso do sol vermelho e o nascer do sol azul, quando o céu se tingia de tons escuros e arroxeados, surgindo no poente uma imensa mancha vermelha e no nascente um pequeno clarão azulado.
A região mergulhava na escuridão e no silêncio, com exceção dos singulares ruídos provenientes da floresta de vidro, que Andy ouvia com tanta satisfação, pois eram um sinal evidente de que a maior aventura de sua vida estava se tornando realidade. Isto é, havia deixado a Terra e se encontrava agora num mundo estranho, verdadeiramente estranho.
Naquele lusco-fusco, a casa pequenina adquiria dimensões de imenso bloco escuro, comprimindo-se contra o chão, como que preparada para um grande salto de emergência. Às vezes, Andy se admirava da estranha impressão de que a casa, sua casa, lhe causava. Naquela meia-luz da tarde, devia lhe inspirar paz e sossego. Mas pensando melhor, chegou à conclusão de que não seria justo esperar sossego e paz, quando ele mesmo estava intimamente possuído pela intranqüilidade, sentindo vibrar em si a ânsia por qualquer iniciativa.
Não, a casa estava certa.
No céu escuro, surgiu um pequeno ponto luminoso. Andy o acompanhou com os olhos e viu como ganhou altura rapidamente, tornando-se mais intensa sua luminosidade até apagar de repente. Segundos depois, ouviu-se o ronco ensurdecedor de uma espaçonave que decolava, reboando por toda a região.
O solitário terrano respirou com força o ar do campo, voando seus pensamentos para a cidade de Modessa, em cujas proximidades se situava o espaçoporto. Não gostaria de viver em Modessa, nem mesmo na periferia da cidade. Estava muito contente com o lugar onde se encontrava, a quinhentos quilômetros de Modessa. Os outros o chamavam de doido, mas preferia realmente ser um doido a ter que morar numa cidade grande, onde não teria a sensação de viver num mundo estranho.
Isto puxou seus pensamentos para as coisas que haviam acontecido hoje — ou melhor, que não haviam acontecido. As enormes sempre-verdes não tinham vindo para entregar suas peles. Ou melhor, apenas oito delas chegaram até o ponto central, onde geralmente se costumavam reunir em número dez vezes maior. Não que isto tivesse grande importância para Andy. Tinha um salário fixo. Trabalhava apenas meio dia de trabalho. O dinheiro era garantido, mesmo se as sempre-verdes não trouxessem nenhuma pele. Portanto, não era por questão de interesse monetário. Estava apenas admirado sobre o fato em si.
Depois, suas divagações voltaram-se para a árvore que há duas horas atrás não estava ainda naquele lugar. Aproximou-se, mas não conseguia ver nada nítido devido à escuridão. Teve a prudência de não tocar na árvore. Sabia do que acontecera a muita gente inexperiente em Passa, por haverem tocado em coisas de cuja periculosidade desconheciam. Ele não tinha realmente a menor dúvida de que em Passa uma árvore de mais de cinco metros de altura, de boa espessura e sem galhos poderia surgir em menos de duas horas. Já tinha visto muita coisa maravilhosa naquele planeta. Queria apenas saber do que se tratava.
Ia voltando para a casa, a fim de pegar uma lanterna. Foi neste momento que a árvore começou a se mexer, inclinando-se simplesmente para a frente. Andy ouviu um leve ruído atrás de si e deu um salto para o lado. Mas não adiantou nada. Aquilo que julgava ser uma árvore se abateu estrepitosamente sobre seu corpo, atirando-o de encontro ao solo e o comprimindo com relativa força.
O susto o deixou paralisado apenas por poucos segundos. Começou então a lutar desesperadamente para se ver livre do peso da suposta árvore. Mas suas mãos escorregavam na superfície lisa da mesma, não conseguindo apoio para se safar. E a “árvore”, como se a reação de Andy a tivesse provocado, mais ainda o pressionou contra o chão.
Andy não conseguia mais respirar. Um fogo cerrado de pequenas mas dolorosas agulhadas parecia lhe varar as costelas, enquanto seus ouvidos eram atingidos por um som selvagem. Andy percebeu que jamais conseguiria libertar-se daquele peso mortífero. Sabia o que estava em cima dele e sabia também que contra forças tamanhas não lhe restava nenhuma alternativa.
Começou a gritar. Não havia, porém, ninguém que o pudesse ouvir. Num fogo de artifício, que fulminante e estrepitoso estrugia diante de seus olhos, Andy perdeu os sentidos.

* * *

Nike Quinto parecia não ter a menor idéia do que se passava. Estava ali postado, como que atingido por um raio.
Na realidade, não se tratava de nenhum milagre.
O Coronel Quinto era um homem miúdo, barrigudo, bochechudo e de rosto avermelhado, onde escorria sempre alguma gota de suor, mesmo na estação mais fria do ano. Acima de seus lábios carnudos sobressaía um nariz diminuto entre dois olhos também pequenos, separados dos cabelos louros apenas por uma testa estreita. O fato é que o Coronel Quinto, em toda a sua vida, jamais conseguira captar simpatia à primeira vista.
Ron Landry e Larry Randall aguardaram até que a porta atrás deles se fechasse. Depois, ao mesmo tempo, fizeram uma continência corretíssima, tão perfeita que formava um contraste berrante com seus trajes civis de verão, bem negligenciados.
Santo Deus! — exclamou Nike Quinto num tom de voz berrada e desagradável. — Pedi para me mandarem dois homens escolhidos a dedo entre nossa gente mais corajosa... e agora chegam vocês! Puxa vida! Parece que o mundo inteiro se conjurou contra mim, querendo me matar de um colapso cardíaco. O que posso fazer com vocês? É um caso sério, mas já que estão aqui... Já se deram ao trabalho de ouvir as fitas magnéticas? Por amor de Deus! Não sejam tão chatos assim, digam ao menos sim ou não.
Sim — disse Ron, mais descontraído.
Sim, o quê?
Sim, senhor, já ouvimos as fitas.
Ah! E daí?
Ron Landry pigarreou, tentando fazer um sinal com os olhos para Larry, que havia se postado ao seu lado. Mas seu companheiro não percebeu nada.
Nike Quinto continuava de pé atrás de sua mesa de trabalho, aguardando uma resposta formal à sua pergunta.
Não estamos bem certos, senhor — começou Ron, cauteloso — se alguém não fez aí uma brincadeira de mau gosto.
Por uns instantes, tinha-se a impressão de que Nike Quinto ia ter um ataque. Enfiou as duas mãos na cabeleira alourada, inclinou a cabeça para trás, arregalando os pequenos olhos para o teto. Depois soltou um longo suspiro, como se estivesse se desfazendo de um sonho cultivado há muito tempo. Por fim disse algumas palavras:
Alguém fazendo uma brincadeira de mau gosto! Comigo? Landry, você é o verdadeiro amigo-da-onça. Com cada palavra que você fala, minha pressão sangüínea sobe um por cento — tirou as mãos da cabeça e fitou Ron diretamente. — Você acha que alguém ousaria fazer uma brincadeira de mau gosto comigo?
Ron Landry estava pensando com seus botões que havia realmente ao menos algumas pessoas, as quais conhecia muito bem, que gostariam muito de pregar uma boa peça em Nike Quinto. Sua única dúvida era se teriam ou não sucesso. Depois, respondeu:
Senhor, peço-lhe o favor de considerar um pouco a finalidade de nossa missão aqui. Fomos enviados para um objetivo bem restrito. Perdoe minha ignorância... mas mesmo com a melhor das intenções não posso imaginar o que dois agentes especiais têm a fazer num planeta de florestas virgens, onde os nativos, há uns dias atrás, passaram a fornecer, ao invés de oitenta peles por dia e por local de coleta, apenas quatro ou cinco...
Nenhuma mais! — corrigiu Quinto. — Este foi o último comunicado.
Ron Landry fez um gesto de impaciência.
Que bonito! Não entregam mais nenhuma pele. E o que se faz com estas peles? Perfume e couro aromatizado para múltiplos fins. Pode-se fazer uma espaçonave com isto? Não. Dá para se construir uma arma energética com tais peles? Não. Pode-se fabricar alguma droga secreta com elas? Não. Então, por favor, por que vamos nos preocupar com tais ninharias?
Nike Quinto estava finalmente mais controlado. Deu um sorriso irônico.
Quanto a mim, estou mais para lá do que para cá. Minha pressão alta é uma coisa que não tem mais jeito. Portanto, Landry, não me faz maior mal me aborrecer um pouco com vocês. Parece que, para ambos, o mundo só se interessa por espaçonaves, armas e drogas maravilhosas, não é? Não levam em consideração que a Terra trava uma guerra amarga com os saltadores, guerra de comércio vital para nós, pois estes mercadores galácticos julgam que Deus criou-lhes o comércio. Para essa raça é completamente indiferente, se em algum mundo colonial terrano de repente começam a acontecer coisas estranhas, que, de uma hora para outra, fazem com que a renda, que a Terra obtinha, com tanto sacrifício, caia praticamente a zero. E qual é esta renda? Peles bem cheirosas. Pode-se fazer espaçonaves com elas? Não. Armas? Não. Drogas? Não. Conclusão: não é da nossa conta, não nos interessa. Há colonizadores terranos neste mundo? Sim. Quatorze milhões. Puxa vida! Nem me lembrava mais. E dez mil deles já foram assassinados de maneira misteriosa ou desapareceram nas florestas de vidro. Que coisa horrível! Mas de colonizadores mortos também não se pode fazer nada de útil, não é? Nem espaçonaves, nem drogas, nem...
Ron Landry se ergueu de repente de sua cadeira.
Não sabíamos nada disto, senhor! — disse ele, excitado. — Isto não consta das fitas magnéticas.
Nike Quinto fez um gesto de anuência.
É verdade. Por este motivo eu os chamei. Os senhores vão entrar agora no aposento aqui ao lado, para ouvir o que deve ser bem ponderado. Os senhores têm que anotar tudo muito bem e, amanhã cedo, às sete e quarenta e oito, hora de Terrânia, pegarão o cargueiro misto e se dirigirão a Passa.
Ron e Larry se levantaram. Não chegaram a reparar que Nike Quinto tocara o botão de ligação de sua mesa de trabalho.
Quando se viraram, a porta para o aposento ao lado já estava aberta. Sob a luz avermelhada do crepúsculo, viram os grandes almofadões-sofá e a grande tela do projetor hipnótico.
Aliás, os senhores têm uma idéia — continuou o Coronel Quinto — quanto tem rendido anualmente o negócio de Passa?
Ron ficou parado observando Quinto.
Não sabemos não senhor.
Então vou lhes dizer: quinze bilhões de solares. É uma quantia tão grande que daria para se construir cem cruzadores pesados para a Frota Espacial.

* * *

Passa era um planeta do sistema duplo de Antares, o nono na ordem comum de contagem. Era um mundo quente, com oxigênio. Um pouco maior do que a Terra, porém, de menor gravidade. Havia uma raça nativa de seres inteligentes. Não eram humanóides e os primeiros terranos, que se depararam com eles, ficaram com um medo terrível, apesar de estarem fortemente armados, pois estes inteligentes nativos de Passa não eram outra coisa senão serpentes de, na média, seis metros de comprimento, com dois pares de braços, apresentando em confronto com as serpentes da Terra não apenas a peculiaridade de serem inteligentes, mas ainda de poderem andar eretas.
Isto é, não andam propriamente. Apóiam-se na cauda musculosa e flexível, dando a impressão de estarem de pé e conseguem, com um movimento esquisito, uma espécie de pequenos saltos, uma coisa aproximada com o caminhar, aliás rápido e elegante.
Os quatro braços servem apenas como meios de agarrarem as coisas e também como instrumento de equilíbrio na posição ereta e no caminhar. O enorme corpo de serpente termina numa cabeça arredondada de verme, com uma série de orifícios cujas diversas funções só podem ser explicadas claramente por um especialista em Galato-Biologia. Os colonizadores terranos, que viveram em Passa, deram a estas singulares serpentes o nome de sempre-verdes, devido aos tons esverdeados que predominam em sua pele.
As sempre-verdes não eram apenas a inteligência nativa do planeta Passa, mas principalmente as fornecedoras da mercadoria mais importante, através da qual o planeta se tornou sobremaneira vital para a Terra: as peles das serpentes. Estas gigantescas serpentes de Passa tinham todos os hábitos biológicos das demais espécies de ofídios, entre eles o da muda da pele. Sabia-se muito pouca coisa, mesmo nos círculos mais especializados, sobre o mecanismo da troca de pele e sobre sua freqüência. O que havia de positivo era que as sempre-verdes podiam fornecer uma enorme quantidade de peles por ano.
Estas peles ou cascas continham um perfume muito agradável e podiam ser facilmente adaptadas para a confecção de artigos de couro de maior luxo. Objetos de couro de Passa obtinham altos preços no Império Solar e em Árcon, preços estes equiparados a mercadorias de ouro do mesmo peso. Os perfumes de Passa eram tidos como artigos de refinado bom gosto, naturalmente de preços altíssimos nos grandes salões de beleza.
Os saltadores, raça descendente dos velhos arcônidas — os homens inquietos, que percorriam sem parar todos os recantos da Galáxia nos seus grandes aparelhos cilíndricos, e que viviam exclusivamente do comércio — estavam convencidos de que ninguém no Universo tinha direito de comprar e vender em grande escala, a não ser eles. É claro que não demorou muito a chegar-lhes a notícia da grande mina de dinheiro que os terranos haviam descoberto e estavam explorando em Passa. Tentavam, naturalmente, obter uma fatia do bolo. Mas a frota terrana, que vigiava Passa, os mantinha afastados de sua rica colônia, dando-lhes a entender bem claramente que nenhum saltador seria bem-vindo ao planeta, a não ser com convite especial.
A evolução do planeta das serpentes seguiu seu curso normal e pacífico. Em pouco tempo, surgiram aparelhos apropriados para a transposição da língua dos ofídios, riquíssima em fonemas vocálicos, quase sem consoantes, para o inglês e vice-versa. Aos poucos ficou convencionado que as serpentes, sempre em grupos, se dirigiriam a determinados pontos diariamente para aí deporem suas peles. A fim de se descartarem das peles velhas, as sempre-verdes prendiam a cauda flexível nos galhos de uma árvore alta e com violentos estremeções do corpo faziam com que a pele escorregasse pela cabeça abaixo. Os terranos cuidavam, naturalmente, de que houvesse número suficiente de árvores nos locais convencionados para o encontro das grandes serpentes, que eram pagas por seu serviço com objetos de uso e mercadorias de diversos tipos, à sua escolha.
Durante muitos anos, tudo correu em ordem. Os colonizadores se espalharam por todo o planeta, um pouco maior que a Terra, sem com isso prejudicarem a vida e os direitos das sempre-verdes. E não podia mesmo haver nenhum problema de convivência, pois as serpentes habitavam somente nas florestas de vidro, isto é, os impenetráveis emaranhados de uma vegetação semelhante ao bambu-gigante, vegetação esta dura como o vidro e quase sem ramagem, cujos troncos transparentes chegavam a uma altura de quase trinta metros.
Os colonizadores terranos, porém, mantinham-se nas aprazíveis planícies de capim rasteiro, nas margens dos grandes rios e à beira dos mares. Não cultivavam relações mais íntimas com as sempre-verdes, fora da mencionada coleta de peles nos pontos de encontro. Embora sua língua fosse bem compreendida, as sempre-verdes pareciam demasiadamente retraídas para falarem alguma coisa de sua vida nas florestas virgens de vidro. Daí o fato de os terranos não saberem quase nada das sempre-verdes, a não ser que trocavam de pele constantemente. A harmonia reinante em Passa era mais a de uma vida paralela do que de uma convivência propriamente.
Esta harmonia se desfez de uma hora para a outra. Ninguém sabia como nem por quê. As sempre-verdes deixaram de aparecer nos pontos de encontro. Não forneciam mais peles. Alguns colonizadores, que moravam mais afastados da cidade, foram encontrados mortos perto de suas casas. Outros achavam-se desaparecidos. Estavam também sumidos todos os homens que, quando as serpentes deixaram de fornecer as peles, penetraram nas florestas de vidro para apanharem aquilo que não lhes era trazido. Os únicos a voltar sãos e salvos não chegaram a se embrenhar na mata virgem. Regressaram porque não acharam nada e haviam levado pouco mantimento, ou também porque a penetração naquele emaranhado de fibras duras e transparentes era quase impossível.
Era fácil concluir que os saltadores já estavam atrapalhando o jogo. Ninguém, fora deles, teria motivo para fazer oposição aos poucos terranos que viviam em Passa. Mesmo considerando que o planeta rendia anualmente quinze bilhões de solares para a Terra, não seria de muita lógica aceitar que os saltadores trocariam este lucro por uma desavença com a Terra, isto é, com o Império Solar.
De qualquer modo, esta suposição, mesmo confirmada, não resolveria o mistério: de que maneira teriam os saltadores conseguido influenciar os nativos, isto é, as sempre-verdes? Como chegaram a Passa sem terem sido notados pela frota terrana de vigilância? Não podiam de maneira alguma ter chegado a Passa com uma grande frota. O máximo que poderia ter passado despercebido do serviço de vigilância seria a aterrissagem de um ou dois aparelhos. E como seria possível, com uma força tão pequena, mudar de uma hora para a outra a boa disposição de toda a população primitiva de um grande planeta, fazendo-a ver, nos terranos, terríveis inimigos?
Este era o enigma. E muitas coisas, talvez mesmo a existência da Colônia de Passa, estavam dependendo de sua solução rápida.

* * *

Eram estas as informações que o Major Landry e o Capitão Randall receberam, quando na madrugada de 7 de outubro de 2.102 embarcaram no cargueiro misto Laramie com destino a Passa. Não viajaram como incógnitos, pois todos na Terra, e muita gente fora do Império Solar, conheciam o Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, sendo mais do que natural que esta organização mandasse um ou mais agentes para lá, pois Passa, conforme a linguagem oficial do Ministério das Colônias, não era um “protetorado” ainda plenamente desenvolvido. O que ninguém sabia, porém, era que dentro do quadro geral do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento existia uma Divisão III, que tinha incumbências que extrapolavam em muito os limites de uma assistência comercial.
Ninguém sabia também que Ron Landry e Larry Randall pertenciam à hierarquia militar.
Os dois, Landry e Randall, estavam bem informados sobre o âmbito de suas atribuições, como também sobre o que se desenrolara na Colônia de Passa, desde os seus primeiros dias até, principalmente, os últimos acontecimentos. Tudo isto jamais se apagaria de suas memórias, a não ser que fatos especiais justificassem medidas extraordinárias, pois estas informações foram “embutidas” em sua memória por um curso-relâmpago de hipnose e criaram raízes firmes em seu subconsciente.
2



Admirável Ayaa-Oooy! Nossos tubos vibram em vossa homenagem e vos trazemos vítimas que nunca foram vistas neste mundo, desde sua criação, através de Vós, grande Ayaa-Oooy.”

Froyd Coleman percebeu que ia ter muito aborrecimento. Não aborrecimento propriamente dito, e sim trabalho. Mas haveria alguma diferença?
O edifício dos escritórios de Coleman situava-se no lado sul do amplo espaçoporto. Quem tivesse, que resolver qualquer tipo de formalidade, antes de sair da área do aeroporto para entrar na zona da soberania alfandegária da Colônia Passa, tinha que se haver primeiro com Froyd Coleman.
Geralmente Froyd se contentava em ouvir o caso, encaminhando-o depois a qualquer um de seus auxiliares. Era de convicção de que um bom inspetor não devia perder tempo ouvindo detalhes de pouca importância. Bastava conservar uma visão e um controle geral das coisas.
Froyd Coleman estava nos seus quarenta e seis anos. No correr de sua vida de funcionário público, engordara bastante, devido à vida pacata que levava. Portava com muita dignidade uma calvície central, rodeada por uma coroa de cabelos cor de fogo, e durante as longas horas do dia sua atividade se limitava a olhar para fora da grande janela, para as pistas e para a rampa de embarque dos táxis de Passa.
Foi por esta janela que viu os dois homens chegarem. Não foi a aparência dos dois que chamou a atenção de Froyd, mas sim o modo como andavam, como olhavam em redor e a seriedade com que falavam entre si. Por estas observações, Froyd percebeu que as coisas iriam engrossar para seu lado.
Deu um longo suspiro, levantou-se e vestiu o dólmã do uniforme. Pois, de acordo com as prescrições, todo funcionário do Império Solar tinha que portar uniforme completo em serviço, valendo isto para todas as categorias uniformizadas. E durante noventa e nove por cento de seu tempo de serviço, Froyd conseguiu se livrar desta prescrição.
Sabia, por longa experiência, que lhe convinha observar rigorosamente o que estava prescrito.

* * *

O senhor está em dificuldades? “Como ele pode perguntar isto assim, à queima-roupa?”, pensava Froyd. “Como que um tiro disparado de supetão!
Aquelas haviam sido as primeiras palavras pronunciadas pelo estranho, alto e louro, logo após a saudação.
Froyd concordou suspirando:
Acho que sim. Mais dificuldades do que podemos suportar.
Que quer dizer com isto...?
Froyd arregalou os olhos.
Quero dizer que neste meio tempo perdemos dez mil homens. Não podemos continuar perdendo...
A que o senhor atribui estas dificuldades? — queria saber o homem louro, que se chamava Ron Landry.
Aos nativos — foi a pronta resposta de Froyd.
Landry sorriu.
Bem, mas por que motivo os nativos passaram a se comportar de repente, de maneira tão esquisita?
Froyd deixou-se cair em sua poltrona, olhando para seu interlocutor, sem saber o que dizer.
Ah! Isto não sei não.
Que querem propriamente estes dois?”, perguntou ele a si mesmo. “Desde quando o Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento se preocupa com tais coisas?
De repente, o louro mudou de assunto:
O senhor é o funcionário mais graduado da cidade de Modessa, não é verdade, senhor Coleman?
Sim — respondeu simplesmente.
Isto não é um inquérito — explicou Landry, sorrindo. — Gostaríamos apenas de saber que medidas foram tomadas até então, para ficarmos senhores da situação e podermos proteger os colonos.
Froyd contraiu o semblante.
O senhor tem todo o direito de me fazer perguntas. Vamos responder primeiro a segunda: avisei a todos os colonos que moram na periferia para que se transferissem para cá. A cidade oferece mais segurança; só no interior do planeta foi que desapareceu muita gente. Modessa não é uma cidade de turistas, há só dois hotéis. Não tínhamos camas para todos. Abrigamos os colonos em igrejas e salões de boliche e aos poucos está chegando material de emergência da Terra. Espero que também a Laramie tenha trazido alguma coisa.
Os colonos obedeceram ao nosso apelo, depois de verem o que ocorreu lá fora. Modessa é normalmente uma cidade de trezentos mil habitantes, agora está com setecentos ou oitocentos mil. Mas todo o interior está vazio e pelo menos não precisamos mais nos preocupar tanto com a vida humana.
Quanto à primeira pergunta: enviei uma expedição ontem para investigar o paradeiro dos nativos nas florestas de vidro e lhes dar uma lição. Se não conseguirmos impor respeito, as sempre-verdes continuarão fazendo o que fizeram até agora.”
Quando Froyd mencionou a expedição que iria punir as serpentes inteligentes, os dois agentes se entreolharam. Landry perguntou imediatamente:
O pessoal da expedição já atingiu seu objetivo?
Froyd deu um sorriso malicioso:
Não, naturalmente que não. Partiram com deslizadores. Com um deslizador voa-se até cem quilômetros por hora. As florestas de vidro distam mais ou menos quinhentos quilômetros daqui, isto é, o início da mata virgem. O pessoal deve ter acampado ontem à beira da floresta e hoje de manhã todo o grupo deve ter tentado abrir um caminho. A matéria que compõe este tal bambu de vidro é tão dura e resistente, que até mesmo uma arma de raios térmicos precisa de alguns segundos para amolecê-la. Acho que não podem caminhar mais do que três quilômetros por hora... e as sempre-verdes não são tão ingênuas para se esconderem logo na parte externa da floresta.
Landry concordou. Depois, fez um rápido movimento com a mão direita, levando-a para o bolso inferior do paletó. Froyd não prestou muita importância ao movimento. Ficou, porém, muito curioso quando viu algo cintilante na mão de Landry. Arregalou os olhos e observou detidamente.
Foi um verdadeiro choque para ele. Conhecia todas as medalhas existentes, desde as verdes mais simples da polícia administrativa, as vermelhas da polícia criminal da Galáxia, até as prateadas do Serviço Militar de Segurança. Todas elas tinham o mesmo modelo: uma pequena esfera terrestre e no verso as duas letras I e S. A cor de cada medalha determinava a proporção de deferência e atendimento que seu portador podia esperar das autoridades. A prateada era a mais importante, que Froyd, aliás, jamais tivera o prazer de ver. Não estava muito disposto a acreditar que existia uma medalha roxa, muito superior à de prata, embora já tivesse ouvido falar a respeito.
E o que Landry tinha na mão era de fato uma medalha roxa.
Está vendo isto, Coleman — disse ele bem sério. — Esta medalha aqui — continuou, recolocando-a novamente no bolso — pode ser examinada quando você quiser. Mas antes disso, chame de volta imediatamente sua expedição. Deve regressar pelo caminho mais curto e rápido para Modessa.

* * *

Ali está ele — disse Froyd, apontando para dentro do ambiente saturado de fumaça.
Ron Landry ficou imaginando surpreso, pois ninguém iria esperar encontrar num mundo novo uma cantina malcheirosa e enfumaçada. Mas ali estava de fato uma deste tipo.
Ron Landry e Larry Randall vieram parar neste local em companhia de Froyd Coleman, porque este último, após uma conversa no escritório do oficial da frota terrana, garantira que o homem que mais entendia de florestas de vidro era Lofty Patterson e que o melhor meio de encontrá-lo era na Cantina Fianos.
Lofty Patterson, ainda para Ron e Larry no momento uma figura pequena e magra, mergulhada na fumaça e no barulho, era realmente o melhor conhecedor do planeta, o único sobrevivente da primeira leva de colonizadores, chegada a Passa há quarenta e cinco anos atrás.
Ron fez um gesto de quase ordem e Froyd se encaminhou para dentro do ambiente enfumaçado. Larry e o próprio Ron permaneceram de fora, de pé junto à porta. O Major Landry viu quando Froyd deu um toque no ombro do velho colonizador e conversou um pouco com ele. Lofty balançou a cabeça diversas vezes e Froyd apontou finalmente para a porta. Os dois saíram juntos.
Ron abriu a porta para Lofty passar e naquele instante em que o velho cruzava à sua frente, o estudou a fundo. O rosto de Lofty, sulcado por milhares de rugas, era um misto de jovialidade e de uma maliciosa esperteza. Seus olhos brilhavam de contentamento, com as mãos metidas nos bolsos e uma roupa que não podia ser mais nova do que ele. Conforme os cálculos de Ron, devia estar entre sessenta a sessenta e cinco anos. Devia ser bem jovem quando chegou a Passa.
Ficaram parados lá fora na calçada. O carro, que a administração da cidade havia cedido a Ron e Larry, estava estacionado junto ao meio-fio.
Froyd está falando pelo senhor, não? — comentou Lofty, com um tom de voz que combinava muito bem com sua cara alegre. — Isto já inspira mais confiança. Então... Do que se trata?
Vamos conversar a respeito em outro lugar — disse Ron, taxativo. — Froyd não lhe disse isto?
Disse sim. Mas...
No escritório do Major Bushnell, não é melhor assim?
É claro, não há dúvida.

* * *

Por que o senhor não foi com a expedição? — perguntou Ron Landry.
O escritório do Major Bushnell era grande, mas desconfortável. O próprio Major Bushnell, oficial da frota terrana em Passa, não estava presente. Ron Landry já lhe havia comunicado que este assunto estava fora de sua jurisdição. Bushnell concordou totalmente em colocar seu escritório à disposição para todas as investigações. Isto era muito importante para Ron e Larry. Suas paredes possuíam a grande vantagem de comunicarem imediatamente a um sistema central de controle quaisquer tentativas de todo tipo de alteração — como, por exemplo, instalação de microfones ou coisas semelhantes.
Dava a impressão de que Lofty não se sentia muito à vontade neste ambiente.
Percorreu o salão com os olhos, antes de responder:
Porque eu sabia que não ia ter nenhum resultado.
O senhor não disse isto aos homens?
Claro que disse. Mas caçoaram de mim. Sempre estão me gozando, achando que estou velho demais. No entanto, nada conseguiram.
Ron ouvia com muita atenção.
Por que acha o senhor que a expedição não vai ter nenhum êxito?
Lofty deu uma gargalhada mais estridente:
Muito simples. Pule na água e tente nadar atrás de um tubarão. O que vai acontecer?
Nada, Lofty. Isto é mais do que óbvio. O senhor quer dizer o seguinte: sendo as florestas de vidro o habitat natural das sempre-verdes, elas sabem como se mexer naquele terrível emaranhado, enquanto que nossa gente fica em grande desvantagem. Bem, isto parece claro. Acredito nas suas palavras. Mas por que os outros caçoaram do senhor?
Continuemos com o exemplo do tubarão — propôs Lofty. — Pensavam que o tubarão fosse atacá-los e assim teriam alguma chance.
Mas isto está errado, não é?
Lofty concordou.
Naturalmente. Só quando se sentem completamente garantidas, as sempre-verdes atacam. Em toda a minha vida, nunca vi uma sempre-verde que tivesse a coragem de correr um risco, por menor que fosse. Portanto, quando percebem que a expedição é forte demais para elas, simplesmente correm e se embrenham pela floresta, até que o pessoal se canse e volte para casa.
Por uns instantes, Ron parou pensativo.
Lofty, o senhor teria a coragem de penetrar na floresta conosco? — perguntou finalmente.
O velho colono abaixou os olhos por um momento e finalmente falou:
Os senhores me dão uma impressão de prudência. Sim, com os senhores eu iria.
Neste exato momento, Froyd Coleman pareceu ter levado um grande susto. Ergueu o braço esquerdo e com a mão direita apontava para um pequeno aparelho que portava no pulso. Ron acenou para ele, pois ouvia um ruído no minúsculo receptor.
Froyd levou o braço esquerdo para a altura da cabeça e se apresentou. A voz do outro lado estava tão fraca e com tão pouca nitidez que não dava para Ron entender nada. Notou, porém, quando os lábios de Froyd juntaram-se e sua testa enrugou-se.
Froyd falou pouco. Parece que o principal havia sido um comunicado do outro lado. Finalmente, deixou cair o braço esquerdo e olhou espantado para cada um dos três homens.
As sempre-verdes dão mostras de estarem senhoras da situação — disse em tom amargo.
Que quer dizer isto? — insistiu Ron com energia.
A voz de Froyd estava pesada e lenta.
Quer dizer que, de cento e vinte homens que enviamos, quinze ainda estão vivos e se encontram em fuga desesperada, de volta para Modessa.

* * *

A estratégia utilizada pelas sempre-verdes foi a mais primitiva possível: conseguiram dividir a expedição, deixando rastros em muitas direções e obrigando, assim, os terranos a se separarem em diversos grupos. Finalmente, os dez deslizadores, lotados com doze homens cada um, estavam separados, entregues à própria sorte.
Como relataram três sobreviventes de um desses veículos, foi quando o aparelho pousou e os homens saltaram em terra que as sempre-verdes se precipitaram sobre eles. Não esperavam um ataque naquele momento, nem tiveram tempo de usar das armas de que dispunham para tentar equilibrar o combate. O ataque das gigantescas serpentes foi em grande escala, com um grupo de mais ou menos duzentas. Deveriam ter vindo em grande velocidade de todos os lados, pois o piloto do aparelho, quando procurava espaço para pousar, não viu nem sinal de sempre-verdes.
Na confusão da sangrenta batalha, os três sobreviventes conseguiram escapar rastejando para dentro do emaranhado da floresta.
Não foram apenas os três sobreviventes que conseguiram escapar das serpentes. Um deslizador, cujo piloto havia sido suficientemente inteligente para não tentar descer em qualquer lugar da floresta, foi totalmente poupado da morte.
Os três sobreviventes viram muitas vezes tal deslizador de longe, até que, chegando mais perto, o piloto deste veículo viu os sinais desesperados dos três, baixou o máximo possível e os puxou para cima por meio de uma corda. Assim que chegaram a bordo do deslizador, dois deles desmaiaram. O terceiro contou da maneira que pôde o terrível destino de seus colegas.
O piloto deste último deslizador, que saiu incólume, devia ser um homem muito ponderado. A narrativa da carnificina não o assustou a ponto de sair fugindo da terrível floresta e procurar a garantia da cidade. Embora soubesse que qualquer pane nos motores significaria a morte dele e de toda sua gente nas garras das sempre-verdes, ainda teve tempo e coragem para sobrevoar a selva à procura dos outros grupos. Já há muito tempo que perdera todo contato de rádio com estes e, antes de içar os três sobreviventes, tinha mesmo a convicção de que os outros aparelhos haviam aterrissado e suas tripulações haviam descido para perseguir o adversário a pé.
Depois de um vôo de cinco horas sobre as florestas de vidro, encontrou os destroços de nove aparelhos. Mas, por mais que ele e seus homens investigassem, não conseguiram ver o menor sinal de um só dos infelizes tripulantes. As serpentes deviam ter levado todos como prisioneiros, ou os assassinado. Por que razão, ninguém sabia. Pelo menos havia uma esperança de ainda se poder salvar os que tinham caído nas mãos delas.
Só depois desta longa pesquisa e depois de chegar a esta triste constatação, foi que o único deslizador tomou o rumo de casa. Muito antes de aportarem em Modessa, já haviam feito um relatório sucinto sobre o fracasso da expedição.
A primeira providência de Ron Landry: impediu a publicação deste insucesso. Para isto teve que lutar contra a oposição sistemática de Froyd Coleman.
Froyd conhecia boa parte dos homens que participaram da expedição e haviam deixado a família na cidade.
Não se pode pôr as mulheres e filhos”, pensava ele, “na incerteza.”
Ron Landry, no entanto, era de opinião de que a notícia sobre o malogro da expedição haveria de provocar a revolta dos colonizadores contra as sempre-verdes e provavelmente levá-los a organizar novas expedições de vingança, mesmo sem a aprovação das autoridades.
Isto não pode acontecer de maneira alguma — repetiu Ron com firmeza. — Vocês tiveram que aceitar a perda de dez mil homens sem fazer muito escândalo. Devem também agora suportar a perda de mais cem, sem atitudes descabidas que poderiam provocar a desgraça total do planeta Passa. Não poderá haver nenhuma expedição punitiva contra os nativos. A única expedição que vai tratar deste assunto será composta de três homens: Larry, Lofty e eu.
Froyd acabou cedendo. Concordou em tomar todas as providências para os preparativos da nova expedição. Mas Ron foi mais objetivo com ele:
Não haverá nenhum preparativo. Partimos amanhã cedo, assim que o sol raiar.
3



Travamos uma grande batalha em vossa homenagem, Altíssimo Senhor. Grande é a oferenda que vos trazemos, para continuarmos sob a vossa proteção, Ayaa-Oooy.”

Aqui está a casa de Andy Lever — disse Lofty triste. — Pobre rapaz. Foi um dos primeiros que elas pegaram.
Larry pousou o deslizador bem perto da porta da casa baixa e espaçosa. Ron ficou olhando da pequena abertura de sua cabina.
Estamos bem longe, não? — perguntou ele. — Logo ali começa a floresta.
É verdade — disse Lofty. — Chamei a atenção dele mais de uma vez. Mas não queria acreditar. Sentia-se bem aqui e pensava que jamais lhe aconteceria alguma coisa.
Você chamou a atenção dele, por quê? Você supunha que as serpentes iam ficar irritadas com isso?
Lofty olhou surpreso para ele.
Não, claro que não. Mas o negócio é o seguinte: Quem vive isolado aqui fora está totalmente entregue às sempre-verdes. Vivem aos milhares, talvez mesmo aos milhões nestas florestas. E mesmo com as melhores armas, não se pode fazer muita coisa contra elas. Pois bem, as serpentes foram sempre pacíficas e boas. Mas o espeto é que ninguém sabe o que elas pensam. Não sabemos se existe uma moral entre elas e se esta moral se assemelha à nossa. Não sabemos nem se nos consideram amigos ou inimigos ou se lhes somos completamente indiferentes. Não sabemos propriamente nada a seu respeito, a não ser que possuem uma pele muito odorífera, da qual se desfazem freqüentemente. Não haverá de fato uma temeridade em se aproximar tanto assim delas, sem maior proteção? Foi com estes argumentos que tentei dissuadir Andy Lever de querer morar tão afastado assim.
Ron acenou com a cabeça.
Foi encontrado morto, não é?
Infelizmente.
Houve um profundo silêncio depois. Lofty gostaria de saber o que ele estava pensando agora. Mas, nas doze horas que já estava convivendo com eles, aprendera a renunciar a muita pergunta supérflua.
Larry Randall, até então calado, contemplando a casa baixa, deu seu palpite.
Quer dizer que as sempre-verdes mudaram de tática no correr dos últimos dias.
Exatamente. E mudaram bastante. Só queria saber o que vão fazer com os mortos que carregaram.
E a mim interessa muito saber por que mudaram de tática — disse Larry.
Ron começou a rir de repente.
Conforme o que disse Lofty, não temos muita chance de compreender jamais a lógica das serpentes. Por que vamos quebrar a cabeça sobre essa questão? Talvez a única resposta cabível seja esta: as sempre-verdes pensam diferente de nós. E mesmo se não for assim, nunca saberemos como será.
Larry não disse nada.
Que aconteceu com Andy? — perguntou Ron.
Os vizinhos o enterraram — respondeu Lofty. — Sua sepultura é ali atrás da casa.
Não houve autópsia ou qualquer declaração médica?
Não, para que fim? Uma sempre-verde caiu sobre ele ou se atirou contra ele, como percebemos mais tarde. As pegadas da serpente estavam nítidas demais. E o peito de Andy... nem é bom falar. Acho que não houve a menor dúvida de que estava morto.
Lofty acionou um botão ao lado do espaldar da poltrona, onde estava assentado, e uma das janelas laterais se abriu.
Ron virou-se imediatamente para o lado:
Pode parecer ridículo, Lofty — disse ele — mas pediria que você não fizesse mais isto, sem antes me avisar. Aqui no campo, ainda pode ser uma coisa sem importância. Mas lá na floresta, nossa vida pode depender do fato de abrirmos ou não abrirmos a janela. Entendeu?
Lofty aceitou o aviso, sentindo-se culpado.
É claro. O senhor tem plena razão. Devia ter pensado nisto antes. Talvez seja porque eu...
Neste momento Lofty se voltou para o lado oposto, sem olhar mais para Ron, com quem estava falando. Virou o rosto para o lado da janela, ficando um instante como que petrificado, depois meteu a cabeça para fora.
O que houve? — perguntou Ron, em voz baixa.
Uma delas está aqui perto — disse Lofty, excitado.
Uma delas... quem?
Uma sempre-verde — disse Lofty. — Estou ainda sentindo seu cheiro.
E voltou-se novamente para a janela.
Ali ao lado — disse, apontando para a floresta.
Pela primeira vez, Ron dedicou mais atenção à cintilante orla da mata virgem de vidro. O sol azul, oferecendo agora um branco ofuscante, estava já bem além do zênite. Havia cintilação no ar em cima da floresta, quase impenetrável. Calor intenso e silêncio de morte. O ciciar da mata não se ouvia mais.
Os troncos de algumas árvores da floresta atingiam dois metros de diâmetro. Eram formações interessantes, permitindo às vezes a passagem da luz, outras refletindo-a com intensidade. Para quem não olhasse com mais atenção, a floresta dava a impressão de um bloco de vidro gigantesco, sulcado por milhares e milhares de finas rachaduras. A infinidade de reflexos fornecia um quadro confuso de luz e meia sombra. Os olhos não podiam ver com nitidez os objetos, depois de manterem-se algum tempo no reflexo vivo do vidro.
O ar lá fora tinha muitos odores e a maioria deles era bem agradável. Ron não podia distinguir qual deles provinha das peles das serpentes, que Lofty já estava sentindo há mais tempo. Deram-lhe um pouco de perfume das sempre-verdes de Passa para cheirar, mas era mesmo impossível reconhecê-lo no meio de tantos outros cheiros que se desprendiam da floresta.
Ron passeou o olhar ao longo da orla da floresta, tentando descobrir onde se encontrava a sempre-verde. Não viu nada, porém, nenhuma sombra, nenhum movimento. Começou a pensar que tudo não passava de um engano de Lofty. Apesar disso não diminuiu sua curiosidade. Chegou até a apalpar a arma que trazia na cintura.
Lofty continuava impassível. Larry parecia alheio a tudo, como se nada daquilo lhe dissesse respeito. Não perdia de vista o painel dos instrumentos e sua mão se mantinha firme ao volante.
Os minutos foram passando.
De repente, Lofty se afastou bruscamente da janela.
Lá vem ela — sussurrou ele. — Olhe para o lado direito da casa, que o senhor poderá vê-la.
Deixou o lugar à janela para Ron, que numa excitação febril começou a investigar a direção indicada. Fixou o olhar na cintilação e no tremeluzir da floresta de vidro, tentando descobrir algo. Mas quanto mais forçava a vista, mais rapidamente desaparecia a imagem de seus olhos, transformando-se num brilho único e homogêneo, onde não se podia mais falar em detalhes.
Ron fechou os olhos por uns instantes para poder enxergar melhor. Logo depois se arrependeu do que fez, pois, quando os abriu, a sempre-verde estava diante da muralha de vidro da floresta, de pé, com os quatro braços abertos para lhe servir de equilíbrio.
Teve tempo de observá-la. Um calafrio lhe percorreu as costas. Viu a imensa e redonda cabeça de verme com os muitos orifícios pretos, cabeça esta maior que a espessura do tronco. Viu o corpo de cobra, ágil e cintilante, cuja pele resplandecia num verde-metálico, com trechos mais claros, cobertos de manchas vermelhas, amarelas e azuis. Os braços pareciam sem vida. Os quatro dedos ou garras — compridos e finos — estavam bem esticados.
O corpo alongado se estreitava para baixo. Mas mesmo no ponto em que se apoiava no chão por meio da cauda, conservava o mesmo colorido maravilhoso.
E neste instante, Ron começou a sentir o indescritível perfume que o estranho ser exalava. Um odor agradabilíssimo, superior a tudo o que havia na Galáxia.
Agora que o inimigo havia aparecido, Ron voltou à sua calma costumeira. A mão foi até a cintura e apanhou a arma. Com muito cuidado, para não espantar a serpente, Ron colocou o cano da arma no canto da janela, agachou-se e ficou aguardando...
Atrás dele estava Lofty, suspirando nervoso.
Ron apertou o gatilho. Pela fração de um segundo, ouviu-se o estampido, mas não se notou nenhum raio luminoso e a sempre-verde nem se mexeu. Horrorizado, Lofty deu outro suspiro. Ron se levantou.
Tudo certo, Larry — disse ele com calma. — Dê uma olhada em volta. Ficaremos alguns instantes aqui.
Neste momento, a sempre-verde começou a se mexer. De repente, seu corpo poderoso e comprido se projetou a mais de um metro para o alto. Quando caiu, apoiando-se no solo com a cauda musculosa, já estava três metros mais para frente e já se preparava para o segundo salto.
Lofty perdeu a calma.
Atire, atire logo — gritava ele. — Pegue outra arma. A serpente vai nos matar.
Ron segurou o homem pelo ombro e, sem se virar, o puxou para mais perto da janela.
Um pouco de calma, meu caro! Não vai acontecer nada.
Notou que Lofty tremia muito. Larry Randall deixara seu lugar na direção do aparelho, dirigindo-se também para a janela. Acompanhou com vivo interesse os elegantes saltos, através dos quais a serpente mais se aproximava.
Chegou até cinco metros do deslizador. Depois, dobrou de repente seu enorme corpo. Mais de dois terços dela achava-se agora no chão, e o resto permanecia imóvel e ereto no ar, estando alguns dos orifícios negros da cabeça virados para o aparelho.
Meu Deus! — balbuciou Lofty. — É esta a posição que elas tomam quando querem conversar conosco. Ela deseja falar conosco. Como é que você conseguiu isto, Landry?

* * *

Ron fez a porta correr para o lado. Já havia colocado na cintura há muito tempo a tal arma misteriosa, que, aparentemente, não fora capaz de disparar um tiro. Desceu do aparelho e foi de encontro à sempre-verde, ficando bem rente a ela.
Lofty, assustado, contemplava a cena com os olhos arregalados.
Isto... ele não devia fazer — gaguejou ele. — Não pode saber se...
Larry Randall também saltou. Carregava um pequeno aparelho em cuja tampa estavam afixados dois pequenos microfones. Lofty já conhecia este tipo de aparelho. Eram os transdutores, aqueles instrumentos maravilhosos que realizavam conversões lingüísticas.
Larry mostrou tanto respeito pela sempre-verde, como já antes demonstrara seu colega Ron. Colocou o transdutor em frente a ela no chão, pegou um dos microfones ligado num longo fio e o fixou bem rente da cabeça da serpente. Ron segurava com a mão direita o segundo microfone.
Lofty, de tanta curiosidade, perdeu o medo e desceu também do deslizador.
Nós a cumprimentamos — disse Ron no seu microfone.
A sempre-verde produziu um longo som cantarolado. Em todo ele, parecia haver somente um fonema consonantal. Logo depois o transdutor se manifestou:
Oh! Não, hoje não. Tenho que voltar logo para casa.
Ron olhou primeiro para o microfone e depois para a serpente.
Estamos alegres por encontrá-la aqui — disse Ron.
E a sempre-verde, com um som sibilante e modulado seguido de três sons grasnados, respondeu:
Se não estivesse tão desgraçadamente frio teria feito hoje boa colheita.
Lofty estava rindo.
Qual é o motivo da risada? — perguntou Ron meio zangado, virando-se para trás, depois de haver desligado o microfone.
Que besteira é esta que ela está falando?
Lofty continuou a rir com mais prazer.
É o costume delas — explicou ele. — Antes de chegarem ao próprio tema da conversa, costumam falar sobre coisas totalmente sem importância. Vale para elas como sinal de educação. Cada uma fala o que lhe vem à cabeça, sem prestar atenção no que diz seu interlocutor.
Ron franziu a testa.
E como que a gente põe um fim nisto?
Não o aconselho a fazer isto. Ela o tomaria por um grande grosseiro. Fale mais qualquer coisa com ela, pelo menos umas três ou quatro vezes. Depois termine assim: as suas frases bobas me causaram grande prazer... e ela voltará ao seu assunto.
As rugas na testa de Ron ficaram mais profundas.
Lofty — disse em tom ameaçador — se você me está fazendo de bobo, vai ter uma surpresa muito desagradável.
Realmente não se trata de brincadeira, Ron. É o único meio certo que você tem para agir.
Ron ligou novamente o microfone e o trouxe à altura da boca.
Em geral, as casas são quadradas — disse muito seriamente — mas podemos construí-las também redondas.
E a serpente respondeu:
Exatamente, e se eu tivesse mais algumas folhas, daria uma excelente salada.
Exatamente ontem, por estas horas, estava caindo do céu.
Nem me pergunte — respondeu a sempre-verde. — Já faz três anos que não vejo uma praia de mar.
É isso — continuou Ron — se não houvesse os casulos, não haveria borboletas.
A maior desgraça são as árvores podres. Quando a gente se encosta nelas, elas caem.
Ron estava contando as frases. Sabia que já dissera muita besteira, para não parecer descortês à sempre-verde.
Sua conversa boba me proporcionou muita alegria — disse ele, como Lofty havia previsto e sugerido, e a serpente respondeu rápida e bem-humorada:
A sua também, meu amigo, sou-lhe muito grato por isso.
Por que vocês estão atacando os colonizadores e não fornecem mais peles? — perguntou Ron e percebia-se pela dureza da voz que queria o quanto antes chegar ao seu objetivo.
O Ser Supremo chegou — respondeu a sempre-verde. — O Sssst... Fazemos uma festa em sua homenagem. O Ser Supremo nos dá ordens e nós as seguimos.
Os fonemas sibilantes e o dental no meio da frase — Sssst — significavam que o termo não tinha tradução. Ou porque na linguagem dos terranos não havia palavra correspondente ou porque o vocabulário do transdutor idiomático não era suficiente.
Ron ficou imaginando o que podia ser o tal “Sssst”.
De onde que ele veio?
A serpente balançou a enorme cabeça:
Como posso saber de onde veio o... Sssst? Ele é onipresente. Quando lhe apraz, fica por algum tempo em qualquer lugar.
Como é que ele é?
Onipotente e Senhor Absoluto. Sua majestade ofusca nossos olhos.
E onde vive ele?
Lá na floresta. Além da montanha do... Sssst, nas cavernas de... Sssst. Nós o adoramos lá.
Ron parecia um tanto desanimado. De que lhe adiantavam todos os esforços até então, se o transdutor não assinalava exatamente o termo mais importante?
O que vocês fazem com os prisioneiros?
Nós os oferecemos ao... Sssst — respondeu a sempre-verde, com toda naturalidade.
E com os terranos mortos?
Nós os mostramos ao... Sssst para que ele saiba que mesmo lutando nós pensamos nele.
Ron sentiu o corpo gelado.
Onde é que vive o Ser Supremo? — disse ele, terminando seu interrogatório.
A serpente apontou para a floresta. O gesto cobria um ângulo de cerca de trinta graus. Conforme os cálculos dos terranos: do nordeste para o leste.
Mais ou menos ali — respondeu o ser estranho.
E em termos gerais, a informação não era pior do que o que já havia ouvido.
Muito antes de iniciar este diálogo, Ron confeccionara uma lista das perguntas que desejava fazer à primeira sempre-verde que encontrasse. Já fizera uma parte delas, mas chegou à conclusão de que não valia a pena prosseguir. Deixara de considerar duas coisas capitais: o modo totalmente estranho de pensar das serpentes e o fato de que os colonizadores de Passa não se deram jamais ao trabalho de obter informações mais exatas sobre o ambiente e os costumes, em que viviam os habitantes primitivos do planeta.
Expressou sua gratidão à serpente e em seguida disse algo que deixou Lofty Patterson boquiaberto:
Você vai ficar agora deitada aí — explicou ele — até que o sol desapareça atrás do telhado daquela casa. Depois, pode se levantar e ir para onde quiser. Mas haverá de esquecer que se encontrou conosco e de que lhe fiz algumas perguntas. E...
Interrompeu-se de repente. Alguns segundos depois, ainda dava a impressão de querer dizer alguma coisa. Mas virou-se para Lofty e Larry, ordenando-lhes:
Vamos continuar a viagem.
Quando Larry já estava sentado à direção, Lofty entrou, ainda meio perplexo. Ron tomou lugar ao lado dele. Larry deixou o aparelho subir um pouco acima da altura da casa, onde há dois dias atrás ainda vivia Andy Lever, e, depois de dar uma volta em torno dela, tomou o rumo da floresta de vidro.
Lofty ficou olhando para trás. Lá embaixo, estava deitada a serpente, com os dois primeiros metros de seu corpo em posição ereta, sem se mexer.
Como é que o senhor conseguiu isto? — perguntou Lofty, curioso.
E Ron explicou com a maior naturalidade.
Nossa técnica terrana dispõe de uma grande série de armas. Entre elas, as que influenciam a massa cefálica ou a substância do pensamento, fazendo com que o influenciado fique sob a vontade do influenciador. Chamamos tais armas de raios psíquicos. O efeito por elas produzido recebe o nome de hipnose mecânica. Não estava muito seguro sobre se este princípio funcionaria bem num cérebro tão estranho como o de uma serpente... mas os senhores viram que funcionou. Quando aquela criatura lá embaixo voltar a si daqui a uma hora ou mais, haverá de ter esquecido nosso encontro. Lofty ouvia tudo maravilhado:
O senhor ainda queria lhe dizer alguma coisa, não é verdade? — perguntou Lofty, depois de longa pausa. — Interrompeu a frase com um e...
Ron sorriu.
Você observou bem, Lofty. Sim, eu ainda lhe queria dizer que ela jamais tocasse num terrano daqui para frente, muito menos o prendesse ou matasse.
Seria uma ótima idéia — acudiu Lofty. — Por que não lhe disse isto?
Ron levou mais tempo para responder.
O Sssst deve ser uma criatura inteligente. Ficará certamente desconfiado se um de seus súditos deixar de repente de lhe trazer terranos como vítimas. E queremos evitar esta desconfiança, pelo menos até que tenhamos em mãos este espírito do mal.
4



Não vos irriteis conosco, ó Altíssimo. As vítimas estão diminuindo e nossos guerreiros mal as conseguem pegar. Não vos irriteis conosco, Ser Supremo, lutaremos para vos trazer novas vítimas. Tende piedade de nós, invencível Ayaa-Oooy!”

Este deslizador não era como os demais. A espaçonave Laramie o trouxera da Terra. Com seu potente gerador, podia criar em torno de si um envoltório de proteção quase que invulnerável. Talvez só não resistiria a um ataque simultâneo de dez ou mais bocas-de-fogo de grande calibre.
Até o pôr do sol, a pequena expedição já ultrapassara a entrada da floresta por mais de trezentos quilômetros.
Lofty mostrou que tinha boa memória, apontando, mesmo antes de alcançarem, os menores detalhes da topografia. Era de fato admirável, pois fazia mais de dez anos que o velho não voltava à selva virgem. E neste local onde estava agora, sua última visita fora há mais de vinte anos.
Deveríamos ver um rio por aqui — disse ele, quando o sol azul estava quase se escondendo no poente. — Direção nordeste para sudoeste, não muito ampla. Em muitos pontos, as grandes árvores das duas margens chegam a entrelaçar suas copas em cima da água.
Ron concordou sorrindo.
Bem, é lá que vamos aterrissar. Lofty se remexia meio nervoso em sua poltrona:
O senhor tem certeza de que o envoltório de proteção é super-resistente?
Naturalmente. Por quê?
É cisma minha. Pequenos insetos, como os percevejos de Passa, não conseguirão passar através dele?
Ron abanou a cabeça.
Não passa nem mesmo uma molécula de ar. Está mais tranqüilo agora?
Claro que estou. Fico, às vezes, preocupado com o pensamento de que o senhor não avalie bem os perigos que nos cercam. Vive aqui uma quantidade espantosa de animais de toda espécie. Alguns são tão pequenos que a gente tem a impressão de que não podem fazer nada contra nós, até que penetrem em nossa pele e comecem a andar pelo corpo a fora. Então a gente tem que se dar por feliz caso encontre um médico que entenda alguma coisa da medicina de Passa... Do contrário, está tudo perdido.
Ron não respondeu nada. Um pouco mais para frente, surgiu o mencionado rio, como uma linha escura na cintilação azulada da floresta. O branco ofuscante do dia já desaparecera, um disco azulado pendia no horizonte, mergulhando aquele mundo numa luz quase irreal. No lado oposto, porém, onde devia começar a noite, desenhava-se no firmamento uma mancha roxa, que a cada minuto ia ficando mais clara, enriquecendo a escala de cores com novas tonalidades. Era o prenuncio do gigantesco sol vermelho que iria surgir, depois que fizesse mais ou menos uma hora que o azul desaparecesse no horizonte.
Larry subiu um pouco com o deslizador para ter uma visão melhor do local. Alguns minutos depois, o pequeno rio estava bem embaixo do aparelho, uma linha estreita e sinuosa, de água escura, no meio daquela fantástica reverberação azul.
Ron escolheu uma espécie de península, formada nas muitas dobras do rio, como local para o pouso. Larry Randall trouxe o aparelho numa descida tão íngreme que Lofty começou a resmungar e a protestar. No exato momento em que o sol azul atingiu o horizonte, começou a funcionar o aparelho de raios térmicos com que estava equipado o deslizador, destruindo tudo que havia daquelas estranhas plantas de vidro no trecho da quase península, até deixar uma área livre e plana, onde podia pousar sem dificuldade.
A primeira preocupação de Lofty, depois de descer e esticar um pouco as pernas, foi examinar a eficácia do envoltório de proteção, em que realmente não acreditava muito. Naquele ar quente ao lado do rio, zumbiam verdadeiros enxames de insetos miudinhos e, quando naquele lusco-fusco se acendia uma luz, todos esses acorriam para ela, como é próprio dos insetos. A apreensão de Lofty desfez-se quando reparou como aqueles minúsculos bichinhos eram detidos em seu vôo por algo invisível. Ficavam um instante como que dopados, dançando de um lado para o outro, tentando depois um outro ataque. Porém, estacavam, pois uma muralha invisível os detinha. Mesmo assim, Lofty ergueu as mãos, tentando alcançar o algo invisível.
Formidável — disse ele. — Um meio de proteção assim é uma invenção fantástica.
Larry estava preparando uma espécie de jantar. Apanhou uma porção de latas de conservas. Quando eram abertas, tais latas se aqueciam automaticamente, espalhando um cheiro tentador.
Alimentaram-se bem e com calma. Na extremidade da península, murmurava o rio e o ar — ainda quente — estava envolto numa penumbra macia e pardacenta, enquanto o sol azul sumia no horizonte e o vermelho começava a se levantar.
A floresta os cercava e o espaço além do rio estava cheio de ruídos misteriosos. Larry levou um susto e se escondeu quando, como disse, ouviu de repente um forte gargalhar atrás de si. Com os olhos arregalados de contentamento, Lofty começou a rir do colega inexperiente, explicando-lhe depois:
Isto é a “gargalhada da floresta”. Você ficaria ainda mais admirado quando a visse frontalmente. Não é maior do que minha mão, mas é tão feia, que Deus não poderia ter criado coisa mais horrenda: é um sapo mesclado com gafanhoto. Naturalmente não produz este ruído todo com a boca, mas esfregando uma na outra suas patas dianteiras.
Momentos mais tarde, vibrou no ar quente um ronco cavernoso como se ali por perto estivesse passando um possante avião a jato. Conforme a informação de Lofty, tratava-se simplesmente de um grito de guerra de um búfalo de vidro, que, conforme Lofty dissera, apesar de seu nome pomposo, não era maior do que um coelho.
Podia-se ficar ocupado horas inteiras em ouvir os ruídos da selva e deixando que Lofty os fosse explicando.
De repente, porém, os tambores começaram a tocar.
Aliás, ninguém a não ser Lofty estava em condições de identificar o ruído. Começou por um zumbido baixo, profundo, como se ao longe estivesse vibrando o som de um grande sino. Lofty ouvia com muita atenção.
Larry lhe quis perguntar alguma coisa, mas o velho, com um gesto de mão, o obrigou a silenciar.
O zumbido aumentou, mudando depois de tonalidade, soando mais agudamente. Depois abaixou o volume e o tom, sem porém voltar ao que era antes. E continuou assim. Aumentava ou diminuía a intensidade e alternava a tonalidade a espaços irregulares.
Toda a atenção de Lofty continuava ainda ocupada pelo estranho toque de tambor. O ruído cessou. Porém voltou logo depois, com menor intensidade, aparentemente de local mais afastado. Lofty estava agora em condições de explicar todo o assunto.
As sempre-verdes estão se comunicando e dando seus sinais. Usam para isto uma espécie de tambor que na realidade não é outra coisa do que troncos ocos de vidro colocados em cima de cavaletes. Entendo um pouquinho da linguagem de seus tambores. Conceitos importantes são expressos por tonalidades diferentes e também por volume diferente. É claro que se trata de uma linguagem primitiva. Não se pode dizer muita coisa a respeito. Mas para elas, é suficiente.
Ron concordou.
Mas então, Lofty, o que você entendeu de tudo isto?
Lofty cocou a cabeça.
Se não tivesse escutado com meus próprios ouvidos e uma outra pessoa me dissesse, eu o chamaria de louco. Mas as serpentes parecem realmente ter encontrado uma espécie de deus ou de ídolo, que estão adorando no interior das selvas. Os tambores dizem que este deus não deve perder a paciência, mas sim permanecer com eles. Dizem também que haverão de conseguir mais vítimas para oferecer a ele.
Ron e Larry não ficaram muito surpresos com a explicação.
Agora sabemos quem é o “Sssst” — comentou Larry.
Terá ele algum outro nome? — perguntou Ron.
Isto não lhe posso dizer — respondeu Lofty. — A linguagem dos tambores é muito diferente da que as serpentes falam. Por exemplo, o que normalmente se chama “üüüchi”, aqui é simplesmente um zumbido. Pode-se compreender os conceitos, mas não as palavras.
Uma outra pergunta — interveio Larry. — Será que as sempre-verdes mencionariam alguma coisa a nosso respeito em sua mensagem dos tambores, se soubessem que estamos penetrando em suas florestas?
A resposta de Lofty veio sem demora:
Certamente que sim.
Já que não dizem nada sobre, isto significa que não sabem nada de nós.
Também estou certo disso.
Isto é muito bom — continuou Larry, contente. — Não gostaria que a atenção deste deus esquisito se voltasse muito cedo para nós. Poderia nos causar muito aborrecimento.
Olhou com ar malandro para Ron, e Lofty teve a impressão de que havia algum segredo entre os dois.
Qual seria?

* * *

A sempre-verde com quem Ron conversara estava ainda deitada no chão, atrás da casa de Andy Lever, quando o sol azul já desaparecera há muito no ocaso e o vermelho já iniciara sua ascensão.
A grande cobra não tinha o menor sentido pela beleza de seu mundo, naquele momento em que a luz fraca e avermelhada do sol maior se espalhava sobre o planeta e o grande disco, mais parecido com uma lua do que com um sol, subia lento no céu. Primeiro, estava acostumada a este espetáculo diário, pois Passa era sua terra e, durante toda a sua vida, fora do sol azul, não vira outro a não ser este gigante vermelho, com o céu amarelado por detrás. Segundo, ela estava quebrando a cabeça com alguma coisa.
Tinha que fazer alguma coisa de que não conseguia se lembrar. Tinha que se levantar e ir embora.
Por que não o fazia? Tentou levantar-se, mas não conseguiu. Alguma coisa não estava certo. Devia ter-se esquecido de alguma coisa. E o que seria?

* * *

Na manhã seguinte, ainda antes do nascer do sol azul, o deslizador se levantou da pequena península, desta vez dirigido por Ron. Lofty deu a entender que jamais fora além deste rio e que se encontravam agora numa região onde jamais penetrara um terrano.
Além do rio também não existiam mais nomes. O rio chamava-se Windside. Por que, ninguém sabia. Era, no lado do leste, o último acidente geográfico assinalado com um nome terrano, o que provava que os terranos, no correr dos longos anos de colonização de Passa, não conseguiram chegar até ali por outro meio que não fosse um deslizador cômodo e seguro.
Mais para o leste, era-lhes tudo terra nova e virgem. As montanhas que após uma hora de vôo surgiram no horizonte não tinham nenhum nome. Há cinqüenta e quatro anos, a equipe de medição da frota terrana se contentara em sobrevoá-las, assinalando-as no mapa geral do planeta. O seu batismo seria deixado para os colonizadores. Mas estes não chegaram a tanto...
As explicações de Lofty fizeram com que Ron Landry chegasse a outros pensamentos no tocante à expedição. Ainda tinha na memória as palavras de Nike Quinto: Os saltadores haviam se fixado em Passa e estavam levando os nativos, com algum de seus truques, que não eram poucos, a desfazer a amizade e o bom entendimento reinantes até então entre eles e os terranos.
Se a situação fosse mesmo esta, eles, os três terranos no deslizador, teriam de se haver com adversários de alta categoria, assim que chegassem ao seu objetivo.
Quando estivessem além das montanhas, se encontrariam a mais de mil quilômetros de Modessa, a cidade mais próxima. É claro que a distância não significava tudo, em se tratando de enviar um pedido de socorro. Froyd Coleman e o Major Bushnell, em Modessa, haveriam de ser logo informados do que se passava no trecho das florestas inexploradas. Mas o Major Bushnell ainda estava ocupado em reorganizar uma frota de vigilância, para que pudesse reservar uma parte dela para prestação de socorro urgente. Talvez, dentro de cinco ou seis dias, estivesse em condições de poder enviar um cruzador para prestar socorro, caso Ron o solicitasse. Até então só podiam mesmo contar com as poucas forças de Froyd Coleman. E isto não ia além de vinte ou trinta deslizadores, com duzentos ou trezentos homens, que levariam dia e meio até alcançá-los, e talvez alguns aviões que, num terreno muito acidentado e montanhoso, pouco ou quase nada poderiam fazer.
Esperar até que Bushnell tivesse reagrupado todas as forças, seria impossível. Cada dia que passasse inutilmente daria mais tempo aos saltadores para resguardarem suas posições. Tinham que atacar o mais depressa possível.
Além disso, os recursos de Bushnell e seus rápidos destróieres deviam ser utilizados somente em última hipótese, pois não se devia de maneira alguma assustar os nativos. Um ponto vital da psicologia colonial era a exigência de jamais mostrar aos nativos a superioridade da técnica terrana no sentido de destruição. A experiência havia demonstrado que a partir deste momento, eles teriam mais medo dos terranos, porém, nenhuma amizade mais.
Por qualquer ângulo que se olhasse, as perspectivas não eram nada encorajadoras. Contavam apenas com uma única vantagem que lhes podia servir de consolo: o deus das serpentes, que provavelmente devia ser qualquer criação dos saltadores, não tinha a menor noção de que os terranos estavam a caminho.
Quem sabe, o fator surpresa poderia ajudá-los a resolver o problema mais rapidamente?

* * *

Quando o sol azul surgiu novamente no céu, a sempre-verde continuava ainda no mesmo lugar em que Ron Landry a deixara. A coitada sentia fome e sede e a pele começava a lhe comichar, por já estar no tempo de mudá-la. Não podia, porém, fazê-lo, pois para isto necessitava dependurar-se no galho de uma árvore, com a cauda enrolada neste e a cabeça pendendo para o chão. Como podia fazer isto num lugar onde não se podia mover?
Quebrava a cabeça para descobrir o que esquecera de fazer e por que seus músculos não mais lhe obedeciam. Uma sensação de pânico se apoderou dela, quando se apercebeu de que poderia morrer de fome e de sede naquele local ou mesmo abafada pela própria pele, caso não lhe ocorresse logo o que havia de errado. Mas este pânico em nada a vinha ajudar. Seus pensamentos se embaralhavam, girando confusamente em torno do estado angustioso em que se achava e tentando em vão descobrir do que se esquecera. Sofria muito.
E o que seria?

* * *

Após sobrevoarem as montanhas, Ron Landry ligou o transdutor e começou a ouvir a gravação da conversa que tivera com a serpente ao lado da casa de Andy. No ponto em que a serpente dizia: “Lá na floresta. Além da montanha do... Sssst...” Ron parou a fita. Fez com que o seletor apagasse o fonema sibilante e no lugar dele falou num dos microfones a palavra “interior”. Depois fez a fita voltar e tocar de novo. E desta vez, disse a voz gravada: “Lá na floresta. Além da montanha do interior.”
Finalmente Larry Randall assinalou no mapa, onde havia somente o percurso da cadeia de montanhas, o novo nome, enriquecendo assim a geografia de Passa com mais um dado. Futuramente, ninguém mais que conversasse com uma sempre-verde sobre as montanhas do interior, iria ter dúvidas quanto à sua localização, pois os transdutores existentes em Passa eram aferidos anualmente para o confronto de novas expressões. E Ron haveria de cuidar para que o nome fosse oficialmente registrado nos mapas.
O nome “interior” não fora nenhuma escolha arbitrária. A julgar pelo mapa, a cadeia de montanhas estava de fato no coração do grande continente equatorial.
Ron manteve o veículo sempre bem rente das escarpas e dos grotões da montanha. Somente assim lhe era possível penetrar mais para o leste, sem ser percebido pelos saltadores. A floresta de vidro atingia alturas assustadoras. Até cinco mil metros ainda vicejava firme a mata impenetrável. O interessante é que depois desta altura, não havia uma zona de transição, que passasse de plantas menores e mais fracas até a solidão das rochas dos altos píncaros. Não, o cascalho e a rocha tocavam diretamente a orla da mata virgem.
Fora disso, o quadro não mudara. O que viam abaixo de si era sempre o mesmo teto de vidro. Neste longo dia, o deslizador penetrou até as quebradas do outro lado do maciço central. Mas desta vez, não foi tão simples conseguir um ponto bom para aterrissarem. O uso dos raios térmicos, que limpavam o chão dos arbustos maiores, devia ser evitado a todo custo, pois qualquer tipo de ruído haveria de chamar a atenção das serpentes, que tinham um ouvido sensibilíssimo, como explicara Lofty. Por exemplo, o som de uma palavra falada com toda calma, elas podiam ouvir nitidamente a duzentos metros de distância.
Por isso, Ron rodou bastante, até encontrar no meio da brenha um ponto onde a vegetação parecia menos crescida. Cauteloso, foi descendo com o aparelho, desviando-se lentamente dos galhos das árvores.
Finalmente mergulharam sob a copa das árvores, onde reinava uma quase penumbra. Só então, com muita cautela e constantes interrupções, fizeram uso dos raios térmicos. Levaram quase uma hora para deixar o local limpo de plantas maiores, a fim de poderem se instalar com calma.
Nesta noite não tiveram tempo nem disposição para apreciar o romantismo da natureza selvagem, como na noite anterior na enseada do rio. Achavam-se no termo de sua jornada e o inimigo devia estar rondando em torno. Apenas não se sabia quando atacaria...

* * *

Ao se aproximar a hora do crepúsculo, a sempre-verde ainda estava perdida em seus pensamentos. Porém, agora, estes versavam quase somente sobre o triste quadro de sua realidade, do que a aguardava, quando seu enorme corpo, debilitado pela fome e pela sede, acabasse desfalecendo e a pele, em fase de troca, acabasse sufocando seus poros. Não se preocupava mais com o fato de ter esquecido alguma coisa importante que a poderia salvar. Parecia mesmo aceitar seu destino.
Foi neste estado que a encontraram três homens, pouco antes do nascer do sol vermelho. Vieram por sobre a floresta num deslizador que muito se assemelhava ao usado por Ron Landry. Não foi de maneira alguma por acaso que chegaram até aqui. Sabiam que um dos grupos das sempre-verdes do interior da mata estava sentindo a falta de uma das suas componentes. Encontraram-na extraviada atrás da casa de Andy Lever.
Os homens eram altos e espadaúdos. Falavam muito alto e com voz reboante e sempre com tanta convicção como se o mundo todo lhes estivesse aos pés. Riam muito. Chegaram mesmo a dar gargalhada quando viram a pobre serpente naquele estado.
Possuíam um aparelho que funcionava mais ou menos como um tradutor. Perguntaram à infeliz por que ali estava, por que não se movia e quem foi que lhe dissera para deitar ali e não sair mais. As respostas que receberam foram confusas e sem nexo. Tentaram forçar a serpente a se mover, mas não o conseguiram. A única coisa que conseguiram fazer foi içá-la para bordo de seu aparelho, usando uma espécie de empilhadeira. Tomaram depois o caminho de volta para a floresta.
Deviam ter uma idéia bem clara do que havia acontecido com a sempre-verde e esta idéia não podia ser nada agradável, pois seu riso constante desaparecera. Acreditavam naturalmente que, com os meios e medicamentos de que dispunham em algum recanto da floresta, estavam em condições de lhe fazer voltar a memória e que mais tarde saberiam dela quem a deixara neste estado.
Mas a natureza agiu diferentemente. Sem que os homens o notassem, a serpente começou a troca de pele durante a viagem. A pele de fora, semi-solta, impedia-lhe a respiração. Quando afinal o aparelho aterrissou na floresta, os homens prepotentes de gargalhada estrondosa estavam de posse apenas de uma pele muito cheirosa e preciosa e de um cadáver de serpente de pouco ou nenhum preço.
Um pobre ser inteligente do planeta Passa havia morrido pelo fato de não saber o que era uma casa.
Você vai ficar agora deitada aí”, assim soava a ordem, “até que o sol desapareça atrás do telhado daquela casa...
Por não saber o que era uma casa — e não tinha mesmo possibilidade de compreender — também não podia saber quando seria a hora de se levantar e ir embora. E assim ficou ali deitada até que a fome e a sede a extenuaram e sua pele começou a se soltar. Morreu devido à sua própria ignorância.

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