— Será
que você pode explicar a causa de toda essa confusão do chefe? —
perguntou Stana em tom apavorado.
Brazo, que
parecia deprimido pela repreensão injusta que acabara de sofrer, fez
um gesto de indiferença.
— Sei
lá! Olhe! Estão puxando nossa nave com um raio de tração.
Caramba! Por que não acertei exatamente a sala de máquinas dessa
nave pirata?
Por
enquanto não podiam fazer nada para modificar a situação. Sua
única esperança era a Frota Solar, isso se a mensagem de
hiper-rádio ainda tivesse sido expedida pela antena do jato
espacial.
Brazo usou
o dispositivo de emergência para consultar o computador de bordo.
Uma sombra que surgiu à sua direita fê-lo levantar os olhos.
Reconheceu o chefe e ouviu-o perguntar com a voz gelada:
— O que
deseja saber, Alkher?
— Estou
indagando se a mensagem de hiper-rádio ainda chegou a ser expedida,
sir.
— E
então?
Brazo
Alkher conseguiu engolir a grosseria, mas teve de esforçar-se ao
máximo para responder em tom cortês:
— O
pedido de socorro ainda foi transmitido, chefe...
— Acabamos
de chegar! — disse Stana Nolinow como num eco e apontou para a
tela.
Viram que
o jato espacial 1-109 estava sendo recolhido a bordo da nave
cilíndrica por meio de um potente raio de tração.
Cardif-Rhodan
inclinou-se em direção à tela. Estreitou os olhos. Acabara de
notar as avarias no casco da nave dos antis.
— Foi o
senhor quem acertou a nave nesse ponto, Alkher? Abriu fogo contra a
nave?
O tenente
não conseguiu compreender o sentido da última pergunta.
— Naturalmente!
Infelizmente só consegui disparar um único tiro, sir. Afinal, só
dispunha de alguns segundos.
O pequeno
barco espacial sofreu um forte solavanco. O jato espacial 1-109
acabara de entrar no grande hangar da nave desconhecida.
A tela de
visão global escureceu. A única coisa que mostrou foi a grande
eclusa da nave cilíndrica que se fechava. Demorou alguns minutos até
que as luzes do hangar se acendessem.
Nesse meio
tempo deviam ter bombeado ar para dentro do grande pavilhão, pois um
homem sem traje protetor entrou por uma porta.
Thomas
Cardif reconheceu-o ao primeiro relance de olhos.
O
sacerdote Rhabol caminhou em direção ao lugar em que ficava a
eclusa do jato espacial.
Só então
Thomas Cardif compreendeu que subestimara os antis. Não era fácil
enganá-los. A manobra, que acabavam de realizar, frustrara seu
plano, que previa o exercício de certa pressão por meio da retenção
dos ativadores celulares.
— Que
diabo! — praguejou sem o menor autocontrole, e no mesmo instante
recriminou-se asperamente.
Mais uma
vez se comportara como Thomas Cardif e não como Perry Rhodan.
Nolinow e
Alkher sobressaltaram-se.
No mesmo
instante, Cardif disse:
— Abra a
eclusa, Nolinow.
— Sim,
senhor.
— Mais
um detalhe. Caso os antis não tenham percebido a transmissão e
nosso pedido de socorro, em hipótese alguma deverão mencioná-lo.
Este pedido é nossa única chance.
Virou-se e
foi andando. Não queria que houvesse testemunhas de seu encontro com
Rhabol.
— Brazo
— disse Stana ao companheiro, que parecia rijo de espanto no
assento do piloto. — Será que você também está enlouquecendo?
Não basta que o chefe se faça de louco.
Brazo
Alkher balançou a cabeça. Parecia desesperado.
— Stana,
você sabe explicar o que terá deixado o chefe neste estado?
— Só há
uma resposta, Brazo. Foi a doença. Nesta hora estou firmemente
convencido de que Rhodan está muito mais doente do que
desconfiávamos.
Naquele
momento o homem que para eles era o chefe encontrava-se frente a
frente com Rhabol.
Este fez
uma mesura.
— Os
servos de Baalol sentem-se felizes em cumprimentar Perry Rhodan,
Administrador do Império Solar, em sua espaçonave. Queira
acompanhar-me.
Cardif não
saiu do lugar.
— Por
favor, administrador — repetiu, olhou cautelosamente para a
esquerda e para a direita e obrigou Cardif a fazer a mesma coisa.
Mergulhados
na sombra do hangar, num lugar em que mal chegava a luz, uma série
de máquinas de guerra enfileiravam-se. Todos os robôs fitavam o
homem que usava o uniforme simples da administração terrana. As
armas de radiações estavam apontadas para ele.
Assim que
Cardif deu o primeiro passo, Rhabol disse bem baixinho, para que só
ele ouvisse:
— Eu
sabia que chegaríamos a um acordo.
*
* *
Bell ainda
estava a caminho da sala de comando e as sereias da nave continuavam
a uivar, quando a Ironduke levantou vôo.
Os motores
de impulsos rugiram na protuberância equatorial reforçada da nave
esférica. Fora do envoltório esférico, os dois anéis de colunas
telescópicas de apoio desapareceram no casco, enquanto centenas de
homens corriam para seus postos. Perguntavam-se pelo motivo do
alarma.
Ninguém
sabia. Só dois homens imaginavam o que tinha acontecido: Reginald
Bell, o representante de Perry Rhodan, e o Marechal Solar Mercant,
chefe da Segurança Solar.
Bell
correu para a sala de comando.
Mas teve
de esperar tal qual os outros. A decolagem da Ironduke, realizada com
a equipagem de plantão, exigia o máximo de concentração de todos.
Jefe
Claudrin, o epsalense, fez com que sua nave linear se erguesse do
solo. Era um dos melhores comandantes. Parecia ter nascido com uma
disposição toda especial de pilotar naves esféricas.
Transmitiu
suas ordens com a voz trovejante.
Bell
lançou um olhar para o lado quando viu alguém aproximar-se. Era
Mercant.
Um oficial
vindo da sala de rádio entrou na de comando. Ao ver os dois, hesitou
ligeiramente, mas logo correu em direção à poltrona feita
especialmente para Claudrin.
— Obrigado!
— trovejou a voz do epsalense.
O oficial
de rádio voltou. Parou à frente de Bell e Mercant.
— Recebemos
um pedido de socorro do jato espacial 1-109 — anunciou. — É uma
mensagem automática. Infelizmente a indicação das coordenadas não
é completa.
Se havia
alguém, que entendesse o que isso significava, esse alguém era
Reginald Bell.
A
indicação incompleta das coordenadas significava que possivelmente
a nave nunca mais seria localizada.
Algumas
regulagens foram efetuadas no computador positrônico de bordo. Mal
as mesmas foram concluídas, a fita perfurada saiu da fresta.
— Então,
qual é o resultado? — perguntou Claudrin com sua voz trovejante.
Sempre fazia tudo com a maior rapidez, e exigia a mesma rapidez de
seus oficiais, além de boa dose de precisão.
— O
setor espacial em que possivelmente se encontra o jato espacial 1-109
mede cerca de cento e oitenta anos-luz cúbicos, O grau de
probabilidade é de 73,6 por cento — disse o oficial incumbido do
computador, dirigindo-se ao comandante.
Bell
aproximou-se de Claudrin. O epsalense fitou-o ligeiramente, afastou o
microfone, colocando-se bem à frente do representante de Rhodan e
não se interessou mais pelos outros.
Bell disse
para dentro do microfone:
— Mensagem
de rádio dirigida ao quartel-general da Frota Solar. Coloquem em
prontidão o terceiro grupo de cruzadores pesados, a décima oitava,
décima nona e vigésima terceira flotilha de cruzadores ligeiros e
três unidades do grupo de super-couraçados. Destino..
Seguiram-se
as coordenadas incompletas incluídas no pedido de socorro do jato
espacial 1-109.
Bell
acrescentou mais uma frase:
— O
administrador desapareceu nesse setor do espaço. Reginald Bell.
A sala de
rádio forneceu a repetição do texto. Bell não prestou atenção.
Olhava para o chão.
— Isso
não vai dar certo para alguém — disse.
— Para
quem, mister Bell? — perguntou Claudrin.
Bell
fitou-o com uma expressão de surpresa. Só agora deu-se conta do que
acabara de dizer.
— Não
sei, Claudrin. Nem sei o que me levou a fazer esta observação.
Quando poderemos mergulhar no semi-espaço?
Além da
Ralph Torsten, que já fora recuperada, a Ironduke era a única
espaçonave equipada com o novo mecanismo de propulsão linear. Não
havia necessidade de transições, com suas desmaterializações e
rematerializações. O conversor de compensação denominado kalup
criava um campo de linhas de força, situado no espaço de seis
dimensões, que compensava as partículas energéticas e materiais de
quatro e cinco dimensões. Só assim um corpo podia deslocar-se no
semi-espaço, localizado entre o universo de quatro e o de cinco
dimensões, alcançando milhões de vezes a velocidade da luz, sem
perder de vista a estrela-destino, que permanecia ininterruptamente
no rastreador de relevo.
Podia-se
dizer, de certa forma, que se tratava de um vôo visual.
O novo
método oferecia, em comparação ao velho sistema das transições,
uma vantagem que não devia ser subestimada.
Em virtude
do sistema de propulsão linear, a Ironduke chegou ao respectivo
setor espacial muito antes dos outros veículos espaciais esféricos
que recorriam aos saltos para transpor abismos de milhares de
anos-luz.
Jefe
Claudrin não deixou que a pergunta de Bell, que quis saber quando
seria ligado o kalup, lhe roubasse a calma.
— Na
mesma hora de sempre, mister Bell. Não assumirei nenhum risco, nem
mesmo quando se trata do chefe.
A resposta
de Claudrin, formulada em termos um tanto ásperos, tinha sua razão
de ser. A catástrofe da Fantasy, que explodira durante o vôo de
regresso do Sistema Azul, ainda não fora esquecida. Para qualquer
comandante, dotado de senso de responsabilidade, esse incidente
serviria de advertência para que não se realizassem experiências
com o novo propulsor.
— OK,
Claudrin — respondeu Bell, que de forma alguma se sentia ofendido
com a ponderação. — Se houver alguma novidade, estarei na
mapoteca.
Pediu a
Allan D. Mercant que o acompanhasse. No caminho, os dois regalaram-se
do silêncio.
Preferiram
não criticar a atuação de Perry Rhodan.
Ao
chegarem à mapoteca, encontraram o Major Lyon, que já se achava
sentado à frente dos mapas.
O Major
Lyon fez menção de ficar em posição de sentido ao reconhecer os
dois homens que acabavam de entrar na sala.
— Deixe
para lá, Lyon — disse Bell. — Vejo que já está estudando os
mapas. Obrigado, estamos vendo muito bem...
Depois
disso apenas soltou uma observação lacônica. A seguir, Bell pegou
um lápis magnético e desenhou um círculo na parte norte do grande
mapa.
— É
aqui que temos de procurar Rhodan — olhou para Mercant. — Não
notou nada, meu caro?
— Notei
duas coisas, mister Bell. Nossos rastreadores estruturais não
registraram nenhum salto.
Isso já
aconteceu antes, quando duas naves entravam em transição
simultaneamente em pontos diversos do espaço. Quando ocorre uma
superposição desse tipo, que é bastante rara, muitas vezes um dos
saltos, que é um pouco mais fraco que o outro, não pode ser
detectado.
— “Bem,
isto é a primeira coisa. A outra é o pedido de socorro que o jato
espacial transmitiu pelo hiper-rádio. No tráfego de hiper-rádio
não existem as perturbações que costumam causar-nos tantas
dificuldades no rádio comum. A mutilação da mensagem no que diz
respeito às coordenadas só tem uma explicação. Aquilo deve ser
obra dos antimutantes.”
— Infelizmente
estamos de acordo — constatou Bell em tom contrariado. — O
círculo que acabo de traçar no mapa assinala o setor do espaço
onde devemos procurar Perry Rhodan. Mas há uma coisa que eu não
entendo. Por que o chefe não iniciou a transição assim que saiu do
planeta Peregrino?
Mercant
resolveu ser cauteloso.
— Talvez
o assalto ocorreu pouco depois de o jato espacial ter decolado de
Peregrino. No momento Só podemos fazer suposições, mister Bell.
Por enquanto não sabemos de nada. O tamanho assustador deste setor
espacial, com seus cento e oitenta anos-luz cúbicos, abre margem a
inúmeras possibilidades.
O Major
Lyon não se atreveu a intervir na palestra. Escutava atentamente.
Bell
soltou um gemido.
— Se
Perry ainda fosse o mesmo de antes, poderíamos constatar exatamente
o que fez depois de ter saído de Peregrino. Mas assim...
Estas
palavras constituíam uma expressão inequívoca da perplexidade de
Bell.
Atirou o
lápis sobre o mapa.
— Está
bem — principiou em tom ligeiramente contrariado. — Cento e
oitenta anos-luz cúbicos representam um espaço muito grande. No
mesmo não existem muitas estrelas, mas sempre teremos pela frente
cerca de dez mil sóis. Se procuro tirar as conseqüências lógicas
desta idéia, sinto náuseas.
— Já
estou sentindo náuseas há muito tempo, mister Bell — respondeu
Mercant em tom seco.
Bell
viu-se dominado pela cólera. Bateu com o punho cerrado sobre a mesa
na qual estava estendido o mapa.
— O que
será que Perry andou pensando? Tenho vontade de mandar para a
Sibéria todos os médicos que participaram da terapia do choque.
Um sorriso
irônico surgiu no rosto de Mercant.
— A
Sibéria transformou-se em área de veraneio. Quando eu me aposentar,
quero passar o resto dos meus dias na tundra. Mr. Bell, será que o
senhor quer recompensar os médicos?
— Quer
dizer que o senhor também está convencido de que a causa de toda a
desgraça é o tratamento de choque mal-sucedido?
— Nem
posso deixar de estar. O senhor encontra outra explicação para o
estranho comportamento de Rhodan? Se penso na morte daquele anti no
entreposto comercial... Não consigo tirar da cabeça a lembrança
desse fato. Dei uma boa olhada no anti. Pois bem..
A maneira
pela qual Mercant concluiu sua fala era estranha. Bell fitou-o.
Esquecera-se de que o Major Lyon se encontrava a seu lado.
— Foi
assassinado? — perguntou. Sua voz revelava medo.
— Até
gostaria de enfeitar esta palavra com um ponto de exclamação,
mister...
Mercant
deu-se conta de que estavam em três. Colocou a mão sobre o ombro do
major e fitou-o prolongadamente, mas não disse uma palavra.
O Major
Lyon enfrentou o olhar de Mercant.
— Acho
que nesta altura não posso deixar de participar da palestra. O que
tenho a dizer é pouca coisa. Sou capaz de jurar que o chefe não
seria capaz de assassinar quem quer que seja. Deve haver um engano.
A mão de
Mercant continuava pousada no ombro do major. Respirava fortemente.
— Lyon,
faço votos de que o senhor tenha razão.
Voltou a
examinar atentamente o mapa. Lembrava-se das coordenadas galácticas
de Peregrino.
— Se
registrássemos a posição de Peregrino neste mapa, o planeta
artificial formaria o centro do círculo que o senhor acaba de
traçar, mister Bell. Se minha hipótese for correta, basta procurar
na linha imaginária que liga Peregrino ao sistema solar, com desvios
de até três anos-luz para todos os lados.
Bell não
prestara atenção a estas palavras.
— O que
havia com o antimutante, Mercant?
O marechal
solar não se sentiu surpreendido com a pergunta.
— O
homem estava desarmado. A posição em que se achava deitado
constitui prova evidente de que não estava atacando quando foi
abatido. A explicação do ataque com o peso de papel, fornecida por
Rhodan, em hipótese alguma pode ser correta, O sangue grudado no
objeto constitui outra prova disso. O ferimento que Rhodan
apresentava no queixo era insignificante e não poderia ter sujado o
peso de sangue. Só no caso de ferimentos graves surgem vestígios de
sangue em objetos contundentes.
— Por
que só me diz isso agora, Mercant? — perguntou Bell com a voz
fria.
Sem que o
percebesse, ia assumindo o papel de Rhodan. Estava prestes a
transformar-se por suas próprias forças no sucessor do amigo, que
parecia incapacitado para o exercício do cargo.
— Porque
só há algumas horas me dei conta disso. Quando voltamos da
enfermaria, não consegui dormir. E quando ouvi o alarma.., bem, acho
que o senhor já compreendeu desde quando eu sei.
Nesse
instante, o Major Lyon soltou uma observação:
— Pois
eu não acredito! O chefe nunca seria capaz de uma coisa dessas!
Estas
palavras foram proferidas num tom de profunda convicção, fazendo
com que Bell e Mercant se sobressaltassem.
— Major
Lyon — disse Reginald Bell. — Se o senhor tiver razão, o
marechal solar e eu já não seremos dignos da amizade de Perry
Rhodan.
*
* *
Stana
Nolinow e Brazo Alkher ouviram os passos pesados de robôs.
Imaginavam o que era aquilo que se aproximava.
— Por
enquanto terminou; talvez para sempre — constatou Nolinow em tom
sarcástico e tirou os cintos.
Brazo
Alkher fez a mesma coisa. Estavam de pé junto aos seus assentos, sem
armas, quando a primeira máquina de guerra entrou, seguida por mais
quatro.
— Venham
conosco! — ordenou um dos robôs positrônicos.
No mesmo
instante, as armas foram apontadas para os dois terranos. Escoltados
por dois robôs, os dois oficiais saíram do jato espacial. A nave em
forma de disco estava cercada por robôs. Uma passagem muito estreita
abriu-se para os terranos. Acompanharam a máquina de guerra que
acabara de dar-lhes a ordem.
Assim que
Stana tentou falar com Brazo, a voz metálica fez-se ouvir:
— Não
permitimos palestras!
Nolinow
manteve-se calado. Um robô sempre age segundo sua programação. E
nessa programação não entra qualquer dose de sentimento. Stana
Nolinow não tinha vocação para o suicídio.
Não
tiveram a menor possibilidade de fugir e esconder-se na nave
cilíndrica. Ao chegarem ao convés principal, viram um grupo de
pessoas que discutia exaltadamente. A inquietação parecia ter
tomado conta da nave. Ouviram-se gritos e falava-se num incêndio que
ainda não pôde ser debelado. Um incêndio na sala de máquinas.
Brazo
Alkher sorriu. Sentia-se satisfeito porque seu tiro triplo causara
tamanho estrago na sala de máquinas da nave cilíndrica. Este fato
melhorava sua situação global. A Frota Solar já devia estar a
caminho do setor espacial em que se encontravam, e não teria nenhum
problema para alcançar a nave semiparalisada dos antimutantes.
Subitamente
um forte solavanco sacudiu a espaçonave de mais de trezentos metros
de comprimento. O chão ainda tremia quando as sereias começaram a
uivar. Os grupos de pessoas na extremidade do convés principal
correram para todas as direções. Os antis que passavam por Alkher e
Nolinow não deram a menor atenção aos dois terranos. Os rostos dos
sacerdotes estavam marcados por uma expressão de pânico.
Um sorriso
largo surgiu no rosto de Stana Nolinow. Seus olhos brilharam ao notar
que, assim que as sereias começaram a uivar, o nervosismo tomou
conta da nave.
Subitamente
um dos robôs segurou-os fortemente. Os dois homens foram empurrados
para dentro de um camarote cuja porta fora aberta pelo homem mecânico
que caminhava à sua frente.
Os dois
caíram. Quando se levantaram, a porta já se fechara atrás deles.
Olharam em torno, perplexos.
— Estes
robôs não têm nenhum senso de humor! — constatou Stana Nolinow e
procurou certificar-se de que realmente estavam sós no camarote.
Um segundo
solavanco, acompanhado de um rangido, sacudiu a nave cilíndrica, mas
desta vez o impacto da explosão foi menos violento. As sereias
continuavam a uivar.
— Parabéns,
meu caro — disse Stana, muito satisfeito. — Você atingiu esta
nave pirata no lugar em que a mesma menos pode suportar uma avaria.
Brazo
recusou o elogio com um gesto de modéstia.
— Este
impacto resultou do acaso, Stana. No momento exato em que disparei o
tiro, a nave realizou uma manobra de alteração de rota. Por isso
não sofreu um impacto frontal, mas foi atingida na sala de máquinas.
— Você
ainda acaba morrendo de modéstia, Brazo — disse Stana e examinou o
camarote bem instalado. — Precisamos de um objeto bem manejável,
que nos permita arrombar a porta. Não está vendo nada por aí?
— Será
que você pretende tentar a fuga sem o chefe? — perguntou Brazo
Alkher em tom de recriminação.
— Se não
houver outro jeito, quero — respondeu Nolinow sem a menor
hesitação.
— Acho
que não deveríamos fazer isso, Stana. Prestaremos um melhor serviço
ao chefe e a nós mesmos se provocarmos mais algumas explosões na
sala de máquinas. Cada minuto que continuamos no mesmo lugar
melhorará nossas chances. Não se esqueça de que irradiamos um
pedido de socorro.
Casualmente
Brazo colocou a mão sobre a maçaneta da porta. Girou-a sem pensar
em nada. Ficou perplexo ao notar que a porta se abriu. Olhou pela
fresta e viu dois antis no corredor, que estavam de costas para eles.
Lançou um olhar ligeiro para Nolinow. Stana piscou. Compreendera as
intenções de Alkher.
Sem dizer
uma palavra, abriu a porta de vez. Agarrou por trás o sacerdote que
se encontrava do lado direito. Nolinow encarregou-se do outro. O
grito dos antimutantes foi abafado pelo uivo das sereias. Em poucos
segundos, dois antimutantes inconscientes foram arrastados para o
interior do camarote. A porta voltou a fechar-se. Stana ajoelhou ao
lado de um dos sacerdotes e Brazo ao lado do outro.
Dali a
cinco minutos os dois servos de Baalol estavam deitados no banheiro,
amarrados e amordaçados. Traziam pouca roupa no corpo. Nolinow e
Alkher se haviam apoderado de quase todas as peças. Seus disfarces
não eram muito bons, mas esperavam que em meio à confusão e
desordem reinante na nave conseguissem avançar até a sala de
máquinas.
As pesadas
armas de radiações, encontradas em poder dos antis, deram-lhes uma
sensação de relativa segurança.
— Pronto?
— perguntou Brazo.
— Podemos
começar, meu chapa — respondeu Nolinow.
Os dois
prisioneiros saíram do camarote. Ninguém desconfiou quando
caminharam pelo convés principal, em direção à sala de máquinas.
As sereias
continuavam a uivar e os tripulantes corriam nervosamente de um lado
para o outro. Ainda se ouvia o trovejar das explosões na parte
traseira da nave, onde ficavam os propulsores. Ao que parecia, os
antis ainda não haviam conseguido controlar o incêndio.
“Temos
uma sorte inacreditável”,
chegou Stana Nolinow a pensar, quando a surpresa se aproximou sob a
forma de um robô, saído de um dos camarotes.
Thomas
Cardif acreditou que fora abandonado pela sorte quando olhou em torno
e viu os rostos dos sacerdotes fanáticos. Mesmo Rhabol, o supremo
sacerdote, já não tinha nenhum olhar amável para ele.
Colocou-se
de pé à frente de Cardif, que fora o único a ser convidado a
sentar-se no grande camarote. Com a voz fria e ameaçadora, disse:
— Baalol
lhe permitiu que estudasse em Aralon sob o nome de Edmond Hugher. E,
sob o nome de Edmond Hugher, você jurou fidelidade eterna a Baalol.
Foi graças a Baalol que você foi libertado depois de cinqüenta e
oito anos de bloqueio hipnótico, imposto por Árcon, a pedido de seu
pai. Sob o nome de Thomas Cardif, você voltou a jurar eterna
gratidão ao grande Baalol. Foi graças ao nosso auxílio que Perry
Rhodan pôde ser posto de lado, e ainda foi graças ao nosso auxilio
que você passou a ser Perry Rhodan. E como é que você nos
agradece? Procurando lograr-nos.
“Cardif,
basta uma palavra nossa e os terranos lhe arrancarão a máscara. Com
isso seu jogo terá chegado ao fim.
“Revelaremos
sua verdadeira identidade, a não ser que você nos entregue aquilo
que trouxe do planeta invisível. Se tivesse conseguido voltar à
Terra com os ativadores celulares, nós teríamos contado tudo aos
terranos. Será que você realmente acreditava que poderia praticar
chantagem contra nós?”
Estas
palavras atingiram Cardif com a força de marteladas.
— Cardif,
onde estão os ativadores celulares? — perguntou Rhabol em tom de
ameaça, dirigindo a arma hipnótica contra Cardif.
Numa raiva
impotente Thomas reconheceu que qualquer resistência seria inútil.
Mas naquele momento de depressão máxima lembrou-se de que os vinte
ativadores celulares se encontravam envoltos num campo temporal
esférico, que só se abriria quando ele o quisesse.
— Rhabol,
os vinte ativadores estão no meu camarote, no interior do jato
espacial.
Estas
palavras foram proferidas com a voz tranqüila. Numa atitude típica
de Rhodan, Cardif espreguiçou-se. Parecia não enxergar a arma
hipnótica apontada para ele.
Mais de
duas dezenas de antis sobressaltaram-se. A mudança ocorrida com
Cardif era tão pronunciada que não poderia deixar de ser notada. De
repente o filho de Rhodan passara a irradiar o fluido que sempre
distinguira o pai em meio às massas.
— Vá
buscá-los, Rhabol! — disse. — Sei perfeitamente que seu
interesse pelos ativadores celulares é apenas secundário. Afinal, o
que significa a vida eterna? Para vocês não deve significar nada.
Ou será
que significa alguma coisa? Quem de vocês receberá os pequenos
ativadores? Vocês já os rifaram?
Conhecia
os servos de Baalol melhor que qualquer outro terrano.
Numa hábil
manobra psicológica, jogou uns contra os outros. Encontrava-se
diante dos mais influentes dentre os antis. Conhecia todos eles.
Nenhum deles estava livre da ânsia do poder.
Sabia a
que meios cada um havia recorrido para conquistar a posição em que
se encontrava.
Nenhum dos
homens que se achavam à sua frente renunciaria voluntariamente ao
ativador celular.
— Cardif
— advertiu Rhabol em tom insistente. — Você não conseguirá
semear a discórdia entre nós, e muito menos conseguirá
escapar-nos. Não se esqueça de que Perry Rhodan ainda está vivo. E
continuará vivo enquanto você viver, a fim de que sempre possamos
lembrar-lhe que você apenas é seu filho.
Pela
primeira vez os olhos de Cardif chamejaram.
— Antis!
— pronunciou esta palavra em tom de desprezo e fitou cada um deles.
— Vocês não são mais fortes que eu. Pretendem apoderar-se do
Império Solar. Pois experimentem fazê-lo sem a minha colaboração.
Por enquanto a instalação de mais trezentos entrepostos comerciais
dos saltadores não foi autorizada. Como esperam consegui-las, se não
puderem contar comigo? Nem Banavol, agente de vocês, nem o servo de
Baalol em Plutão conseguiram exercer pressão contra mim.
— Você
assassinou Juglun, ou melhor, A-Thol — disse Rhabol.
Cardif
soltou uma risada cínica.
— Custa-me
acreditar que essa acusação tenha saído justamente de sua boca.
Pois bem. Como prosseguiremos na conversa? Na base da igualdade de
direitos? Ou será que vocês ainda acreditam que são a parte mais
forte?
Cardif
aguardou tranqüilamente o que o sumo sacerdote tinha a dizer-lhe.
Rhabol
dirigiu-se a dois antis:
— Tragam
os ativadores celulares que se encontram no jato espacial.
Nesse
instante, uma pancada violenta sacudiu a nave cilíndrica. Cardif
sorriu.
Rhabol
notou o sorriso.
— Vão
logo! — ordenou aos dois sacerdotes, que haviam parado, apavorados.
Depois,
com os olhos chamejantes de cólera, dirigiu-se a Cardif:
— Se a
nave explodir por causa do ataque traiçoeiro de seu jato espacial,
você morrerá conosco.
— Não
posso fazer nada — respondeu Thomas Cardif em tom frio.
Esperaram
o regresso dos dois servos de Baalol. Quando alguém abriu a porta do
lado de fora, todos acreditaram que já estivessem de volta com sua
presa. No entanto, um robô tangeu Brazo Alkher e Stana Nolinow para
dentro do recinto.
— Os
dois terranos dirigiam-se à sala de máquinas — disse a voz
metálica do robô.
Suas
mortíferas armas de radiações continuavam apontadas para Alkher e
Nolinow.
Os dois
tenentes esperaram em vão que o chefe lhes dedicasse um olhar. Mas o
homem que acreditavam ser Rhodan olhava para outro lado, indiferente.
Brazo
ainda viu o anti, que se encontrava à frente do chefe, levantar a
arma hipnótica e puxar o gatilho.
Depois
disso só restou uma hipnose profunda para os dois tenentes da Frota
estelar. Já não sabiam o que estava acontecendo com eles. E não
sentiram nada quando o robô, obedecendo à ordem de Rhabol, os
levantou e os carregou para fora.
Mal a
porta voltou a fechar-se, o intercomunicador chamou, transmitindo uma
notícia importante.
O fogo que
lavrava na sala de máquinas acabara de ser debelado. As três
unidades energéticas de maior potência não poderiam ser reparadas
com os recursos de que se dispunha a bordo da nave. O
engenheiro-chefe da nave cilíndrica não escondeu nada.
— Ainda
poderemos realizar transições, mas acho preferível não realizar
mais que uma. Qualquer solicitação excessiva poderá acarretar o
colapso total das máquinas. Desligo.
Os
sacerdotes discutiram animadamente. Por vários minutos esqueceram-se
de Thomas Cardif.
Finalmente
Rhabol, que tinha nervos de aço, ponderou que não corriam perigo de
vida.
— A
qualquer momento podemos pegar o jato espacial de Cardif e dar o
fora.
Todos
faziam sinais de satisfação e, no mesmo instante, voltaram a
dedicar sua atenção a Cardif.
Mais uma
vez, a porta abriu-se. Os dois sacerdotes voltaram. Entre eles
flutuava o campo temporal vermelho-pálido de cinqüenta centímetros
de diâmetro. No interior do mesmo viam-se objetos negros em forma de
ovo; eram os ativadores celulares.
Uma
admiração misturada de respeito desenhou-se naqueles rostos
marcados pelo fanatismo.
Mas a
admiração inspirava-se exclusivamente na cobiça. Diante deles
flutuava a vida eterna, cercada por um envoltório energético
desconhecido.
— Abra a
esfera, Cardif! — disse Rhabol com a voz trêmula.
Thomas
Cardif recostou-se confortavelmente na poltrona.
— Será
que tenho algum motivo para isso? Por que você não abre o
envoltório, Rhabol? — perguntou, fitando-o intensamente.
Não viu
que Rhabol estava regulando a intensidade de sua arma hipnótica. A
pequena roda dentada foi colocada na posição mínima. Sem qualquer
advertência Rhabol ergueu a arma e fez um disparo hipnótico contra
Cardif.
— Cardif
— disse o sumo sacerdote do culto de Baalol, dirigindo-se ao
terrano, que enrijecera em sua poltrona. — Abra a esfera!
Espantados,
os antis ouviram Cardif dizer:
— Quero
que você se abra!
Mas a
esfera luminosa vermelho-pálida continuou fechada.
Afinal, o
que sabiam os antis a respeito do Ser fictício de Peregrino?
Seus
conhecimentos estavam restritos às informações recebidas de
Cardif, e antes de sua visita ao planeta Peregrino essas informações
não poderiam ter sido completas.
— Vamos
cortar isso! — sugeriu um dos sacerdotes, mal conseguindo falar, de
tão nervoso que estava.
Um
desintegrador foi apontado para o envoltório energético. O raio
atingiu o pólo superior da esfera.
A bola
vermelho-pálida balançou ligeiramente, mas continuou intacta,
sempre flutuando no centro do recinto.
— Vamos
tentar com a arma térmica — sugeriu outro servo de Baalol.
— Não!
— protestou Rhabol, que a essa altura já desconfiava de que a
esfera não cederia a qualquer tentativa de abri-la. — Só o
terrano é capaz de abri-la.
— Mas
ele acaba de tentar, Rhabol! — respondeu alguém.
— Enquanto
estiver submetido ao choque hipnótico, o terrano não é ele mesmo —
respondeu o sumo sacerdote em tom impaciente. Encontrava-se perto da
esfera. Com uma expressão de fascínio contemplava os ativadores
celulares, que por enquanto continuavam inatingíveis. Teve de fazer
um esforço sobre-humano para não dar mostras da exaltação
tremenda de que se sentia possuído.
A sua
frente flutuava a vida eterna.
O futuro
abria-se diante dele. O futuro dele e de mais dezenove servos de
Baalol. Tornar-se-iam imortais, tal qual o Imperador Gonozal VIII.
Alguns dos
presentes começaram a recriminar Rhabol, por ter disparado a arma
hipnótica contra Cardif. A ânsia de possuir os ativadores celulares
rompia toda hierarquia. Ninguém considerava o fato de que Rhabol era
seu superior.
Não
queriam esperar mais pela vida eterna. Exigiam os ativadores.
Começaram a proferir ameaças contra Rhabol.
Será que
este já contara com isso?
Virando-se
ligeiramente, o sumo sacerdote gritou em voz alta:
— Robôs!
A porta
que dava para uma sala contígua abriu-se. Quatro máquinas de guerra
entraram, colocaram-se de ambos os lados da porta e ameaçaram os
servos de Baalol com suas armas de radiações.
— Estes
robôs foram especialmente programados para mim — disse Rhabol com
a voz fria. — Qualquer um que tentar sair daqui estará morto.
Thomas
Cardif, que já despertara da ligeira hipnose, soltou uma risada.
Aquilo parecia diverti-lo. Rhabol parecia ter sido mordido por um
bicho. Virando-se, disse:
— Abra
esta esfera, terrano, pois do contrário eu o obrigarei a fazê-lo.
— Palavras
pomposas atrás das quais não há nada — constatou Cardif.
Levantou-se
e afastou o anti. Colocou-se ao lado da esfera e envolveu-a com os
braços.
Ergueu-a
acima de sua cabeça, como se fosse uma bola.
— Olhem
estes ativadores celulares, que poderão dar-lhes a vida eterna.
Vinte aparelhos deste tipo estão à sua espera, mas vocês nunca os
receberão, a não ser que eu emita espontaneamente o comando mental
para que a esfera se abra. Os ativadores estão ocultos atrás do
nosso tempo.
Será que
vocês compreendem? Estão envoltos num campo temporal, e esse campo
temporal permanecerá fechado enquanto eu não ordenar de minha livre
e espontânea vontade que o mesmo se abra. Então, Rhabol, ainda se
atreve a proferir ameaças contra mim?
Soltou a
esfera energética, que continuou a flutuar no mesmo lugar. A
luminosidade vermelho-pálida tinha um efeito tranqüilizador, mas os
antis, extremamente exaltados, não reagiam ao mesmo.
Cardif
voltou a acomodar-se na poltrona, demonstrando uma tranqüilidade
irritante.
— Então,
Rhabol, já está disposto a negociar? Ou ainda acredita que pode dar
ordens?
— Vamos
negociar! Vamos negociar! — gritaram alguns dos antis.
Mas o
anúncio transmitido pelo sistema de intercomunicação superou suas
vozes:
— Rhabol,
uma nave da Frota Solar aproxima-se do ponto em que nos encontramos.
Mais de
duas dezenas de antis ficaram rígidos de pavor.
O homem
que ocupara o lugar de Perry Rhodan no Império Solar praguejou no
seu íntimo.
Imaginava
que o nome da nave que se aproximava era Ironduke. E sabia que com o
aparecimento da nave linear sua situação piorara consideravelmente.
Os antis
voltariam a ameaçá-lo; o denunciariam como um impostor e o
entregariam à Frota Solar caso não lhes desse imediatamente os
vinte ativadores celulares.
Levantou a
cabeça. Rhabol estava de pé à sua frente. Um sorriso de triunfo
brincava no rosto do anti.
— Então?
— perguntou, dirigindo-se a Cardif. — Então, Cardif?
*
* *
O
rastreador de relevo da Ironduke não só registrara a presença de
uma espaçonave, mas até mostrara o formato do veículo estelar na
tela especial. Enquanto isso, a Ironduke corria velozmente para seu
destino, deslocando-se pelo semi-espaço.
Bell
aguardara esse acontecimento há meia hora. O rastreador de relevo
fora sua única esperança.
Esse
sistema de localização pelo rádio de grau superior baseava-se na
compensação paraestável de um campo envolvente, que protegia o
raio de eco contra os efeitos de distorção da quarta e da quinta
dimensão.
Uma vez
que, à medida que aumentava a distância, o raio de eco se tornava
cada vez mais amplo, produzindo um efeito de leque acompanhado pelo
campo isolador da nave, havia possibilidade de ver o espaço de
quatro dimensões que se estendia à frente da nave.
— São
antis! — constatou Reginald Bell.
Jefe
Claudrin ouvira estas palavras.
— Sir,
dentro de seis a sete minutos estaremos junto ao costado da nave.
Naquele
instante, o estranho rugido do kalup cessou. Claudrin desligara o
propulsor linear. Não queria que a Ironduke passasse em disparada
pela nave que acabara de ser localizada.
Depois de
alguns minutos de silêncio, ouviu-se o bramido dos motores de
impulsos. Uma vez desligado o kalup, a Ironduke saiu do semi-espaço
e passou a desenvolver 0,9 por cento da velocidade da luz. Mas nem
mesmo esta velocidade foi conservada, O velocímetro indicava cifras
cada vez menores.
Ao que
parecia, Claudrin apertara alguns botões de alarma. Os hangares,
onde estavam guardados os jatos espaciais, anunciaram que os mesmos
estavam prontos para entrar em ação.
A central
de comando de fogo, que costumava ser dirigida por Brazo Alkher,
anunciou:
— Estamos
preparados para abrir fogo!
A sala de
rádio chamou.
Claudrin
pegou o microfone.
— Avise
as outras naves. Transmita as coordenadas e outros detalhes.
— Sim
senhor — disse a voz saída do alto-falante. — Dentro de alguns
segundos avisaremos o cumprimento da ordem.
Bell não
saía de junto das telas do sistema de rastreamento de relevo. A nave
cilíndrica de pontas achatadas desenhava-se cada vez mais
nitidamente.
O sistema
de rádio-localização, acoplado ao grande computador de bordo, já
fornecera os primeiros dados para os cálculos. A partir do momento
em que a Ironduke voltou a penetrar no universo normal, o computador
positrônico recebia, a cada segundo, cento e oitenta grupos de dados
que mudavam constantemente. O cérebro não tinha a menor dificuldade
em digeri-los.
Embora
ainda desenvolvesse metade da velocidade da luz, o couraçado parecia
aproximar-se de forma quase imperceptível da nave cilíndrica. Bell
esteve a ponto de pedir esclarecimentos sobre este ponto, quando o
oficial de serviço junto ao computador anunciou:
— Nave
desconhecida aumentando velocidade!
Jefe
Claudrin agiu imediatamente.
Os motores
de impulso voltaram a rugir fortemente. O corpo esférico da nave
começou a trovejar.
Por alguns
segundos ninguém entendia o que o outro falava, mas o rugido cessou
tão subitamente como começara.
— Consegui
uma vantagem de pelo menos um minuto — cochichou Jefe Claudrin.
— Quanto
tempo levaremos para alcançar a distância de tiro, Claudrin? —
perguntou Bell, que se achava perto das telas de imagem do
rastreador.
— Cavalheiro
que se encontra junto ao computador: quer fazer o favor de fornecer a
indicação de tempo a Mr. Bell? Depois que pousarmos em Terrânia
voltaremos a conversar, tenente!
Jefe
Claudrin, que geralmente era um tipo de bonachão, não brincava em
serviço. Quando ameaçou o oficial de serviço junto ao computador,
devia ser levado a sério.
— Sir —
disse o homem, dirigindo-se a Bell. — Alcançaremos a distância de
tiro entre cento e trinta e cento e quarenta segundos, caso a nave
cilíndrica não entre em transição. Há vinte segundos ela está
acelerando fortemente.
Bell não
estava interessado numa informação tão precisa. Também receava
que a nave ainda conseguisse escapar. Via perfeitamente na tela do
rastreador que a mesma acelerava tremendamente.
Mais uma
vez a voz de Claudrin fez-se ouvir.
— Atenção,
sala de rádio. Mensagem à nave desconhecida. Parar para fins de
controle. Diga que abriremos fogo se não obedecerem.
Mercant
estava de pé à direita de Bell. O marechal solar só olhava vez por
outra para a tela. Em compensação olhava constantemente para seu
cronógrafo.
Cem
segundos já se haviam passado, desde o momento em que o oficial da
computação fornecera a indicação de tempo.
— Já se
passaram cem, mister Bell...
Não
conseguiu prosseguir.
A sala de
rádio da Ironduke transmitiu uma notícia apavorante.
— Nave
Baa-Lo ameaça matar Perry Rhodan se a ordem de parada não for
retirada imediatamente. Formularam ultimato. Prazo do ultimato
termina em dezessete segundos.
Bell
praguejou em altas vozes.
— Esses
malditos antimutantes nem nos deixam tempo para pensar. Sala de
rádio, aqui fala Reginald Bell. Transmitam imediatamente uma
mensagem. Ordem de parada suspensa. Prometemos não chegar à
distância de tiro. Estamos interessados em negociar.
Claudrin
sabia o que devia fazer.
O
couraçado modificou sua rota. Ao mesmo tempo freou fortemente a nave
esférica. O dispositivo de absorção de pressão, situado nas
profundezas da nave, começou a uivar subitamente com o aumento de
carga. Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando deu
a menor atenção ao fato. Não se pronunciou uma única palavra
supérflua. Todos aguardavam as palavras que nos próximos segundos
seriam transmitidas pelo alto-falante.
A espera
transformou-se numa eternidade.
Mercant
não tirava os olhos do cronógrafo.
— Já se
passaram cem segundos. Cento e cinco, cento e...
Finalmente
chegou a notícia tão ansiada:
— Aceitamos
proposta. Estamos dispostos a negociar, mas Perry Rhodan morrerá se
houver um único incidente. Rhabol.
— Rhabol!
— exclamou Bell e enxugou o suor da testa.
Jamais
esqueceria o nome desse homem.
*
* *
O sumo
sacerdote Rhabol provou que não usava seu título em vão. Agiu com
uma tremenda rapidez e coerência ao receber a notícia da
aproximação de uma nave de guerra do Império Solar. Fez questão
de que Thomas Cardif ficasse perto dele e ouvisse todas as decisões
que tomaria.
Rhabol
compreendeu que teria de agir numa questão de segundos, se quisesse
evitar que ele e seus companheiros perecessem na nave cilíndrica
avariada. Neste setor da Galáxia sabia-se há decênios como as
naves terranas costumavam golpear quando a situação o exigisse.
Antes que
se dirigisse a Cardif, colocou em estado de prontidão todos os
sacerdotes que se encontravam no interior da nave cilíndrica e
ordenou-lhes que recorressem às suas energias individuais para
reforçar o campo defensivo da Baa-Lo.
Por
ocasião da fuga de Lepso haviam constatado que nem mesmo os raios
dos supercouraçados, cuja espessura atingia vários metros, eram
capazes de romper o campo defensivo de uma nave, reforçado pelas
energias mentais dos antis.
No momento
sua única desvantagem, que era muito grande, consistia nas graves
avarias das máquinas, que permitiriam no máximo uma transição.
Sem dizer
uma palavra, o sumo sacerdote fitou o homem que, usando o nome Edmond
Hugher, servira ao culto de Baalol quase cinco decênios. Durante
esse tempo estivera submetido a um bloqueio hipnótico. O que era
mais importante, descobrira nas glândulas do fura-lama o hormônio
que era um agente rejuvenescedor muito potente, embora limitado no
tempo, mas transformava-se no corpo humano num entorpecente de alto
grau de toxicidade. Milhões de terranos e arcônidas foram vitimados
por esse veneno disfarçado sob a capa de um preparado
rejuvenescedor, conhecido pelo nome intergaláctico de liquitivo.
E agora o
anti e Cardif, que durante decênios haviam sido sócios,
defrontavam-se como inimigos: o chantagista via-se diante de sua
vítima.
— Sua
vida depende de você, Cardif! — limitou-se Rhabol a dizer.
— E os
ativadores celulares? Será que não contam? — perguntou Thomas
Cardif, muito nervoso.
— Você
poderia explicar de que eles servem numa situação como esta? —
ironizou Rhabol.
Depois
apontou para a tela. Um ponto minúsculo e brilhante destacava-se no
negrume do espaço. Era a Ironduke, que se mantinha em posição de
espera. A nave linear ligara todos os holofotes, dando a entender aos
antis que se encontravam na Baa-Lo que o comando da nave estava
disposto a entrar em negociações.
Thomas
Cardif respirava pesadamente.
Sentia-se
possuído por uma raiva impotente. Teve de controlar-se ao máximo.
Compreendia
as intenções de Rhabol. O anti não queria dar nada pelos vinte
ativadores celulares.
— Decida,
Cardif. Não é apenas sua vida que repousa em suas mãos, mas a vida
de todos nós. Mas só lhe darei o direito de tomar uma decisão
depois que você nos tiver entregue os vinte ativadores.
A esfera
vermelho-pálida, que cingia um campo temporal, flutuava ao lado dos
dois.
A recepção
chamou. A voz de Reginald Bell saiu do alto-falante. Na Baa-Lo estava
ligada apenas a transmissão de som. A transmissão de imagem fora
desligada, O fato de a tela continuar apagada constituía um meio de
pressionar Thomas Cardif mais fortemente. Se a situação exigisse,
Rhabol estaria disposto a ligar inesperadamente a transmissão de
imagem, para mostrar aos homens da Ironduke uma cena que se passava a
bordo da Baa-Lo, e que forçosamente os faria ficar bastante
desconfiados em relação ao chefe.
— Cardif,
você ouviu as exigências de Reginald Bell, seu representante e
sucessor eventual. Queremos que as negociações logo cheguem ao fim.
Então, o que diz de minha exigência de entregar os ativadores? Se
você recusar, os servos de Baalol morrerão com você. Se resolver
entregá-los, não impediremos que se retire desta nave. Caso saia,
não se esqueça de que dentro de três dias, no máximo, deverá ser
concedida a permissão para a instalação de mais trezentos
entrepostos dos mercadores galácticos. Se recusar, infelizmente não
teremos outra alternativa senão causar-lhe problemas.
Mais uma
vez a recepção soou em meio às suas palavras. E mais uma vez a voz
de Bell saiu do alto-falante.
— Chamando
espaçonave Baa-Lo. Aqui fala Reginald Bell, representante do
administrador. Quero avisá-los de que uma grande frota se aproxima
do ponto em que nos encontramos. Face ao grande número de naves,
haverá a possibilidade de um incidente. Para evitar este elemento de
risco, sugiro o inicio imediato das negociações. Aguardo
confirmação. Desligo.
Três
robôs de guerra mantinham-se nos fundos da sala de rádio. Sua
vigilância dirigia-se exclusivamente a Thomas Cardif. Os outros
cinco sacerdotes que se encontravam presentes já se haviam acalmado.
Aguardavam as instruções de Rhabol.
— Vou
abrir! — Cardif resolvera ceder.
— Não
se esqueça de nos mostrar como se deve fazer a regulagem dos
ativadores celulares para adaptá-los às vibrações individuais de
cada um — lembrou Rhabol.
Thomas
Cardif cerrou os lábios.
Sentou-se.
A esfera flutuava acima de seu colo. Depois de algum tempo disse em
tom insistente:
— Abra-se!
A esfera
vermelho-pálida não se abriu.
Desapareceu
sem o menor ruído. Transportou-se para o nada, liberando vinte
objetos em forma de ovo que caíram no colo de Cardif.
O sumo
sacerdote pegou dezenove desses objetos e guardou-os num bolso. O
outro ativador foi entregue a Cardif.
— Mostre-nos
como se faz a regulagem, Cardif!
A voz de
Rhabol parecia muito tranqüila. Os olhos de Thomas Cardif chamejavam
de ódio. Mas o filho de Rhodan logo mostrou ao sumo sacerdote como
era simples ajustar o ativador celular para as vibrações de seu
futuro portador.
Rhabol
pegou também o vigésimo ativador e guardou-o no bolso.
— Chame
a Ironduke, Cardif, e anuncie sua chegada. Não se esqueça de dar
ordem para que nos deixem partir em paz. Será que você acredita se
eu lhe disser que nos sentimos muito felizes por tê-lo a bordo da
Baa-Lo?
Thomas
Cardif deu-lhe as costas, colocou-se à frente do rádio, ligou a
imagem e esperou até que os contornos se estabilizassem na tela.
O rosto de
Reginald Bell, marcado pela tensão e pela preocupação, surgiu na
mesma.
— Pegarei
o jato espacial e irei à Ironduke, Bell. Ordene às unidades da
frota que se aproximam para não impedirem a viagem da Baa-Lo, depois
que eu tiver saído da nave dos antis. Desligo.
Enquanto
falava, colocara instintivamente a mão direita sobre o peito. Os
dedos sentiram o objeto em forma de ovo que trazia junto à pele. Era
o vigésimo primeiro ativador celular, uma maravilha vinda de um
mundo superior, que fizera dele mais um imortal.
E foi
baseado nessa imortalidade que naqueles segundos elaborou um plano.
Plano este por meio do qual pretendia quebrar o poder dos antis,
eliminar Perry Rhodan e destituir o Imperador Gonozal VIII.
Thomas
Cardif era terrano e arcônida. Queria ser o soberano de ambos os
impérios.
*
* *
O jato
espacial corria velozmente em direção à Ironduke. Os propulsores
trabalhavam ao máximo de sua potência. O vulto esférico da nave
linear adquiria contornos cada vez mais nítidos. Cardif mantinha
contato de rádio permanente com a Ironduke. Naquele instante estava
abandonando a zona, só fixável por estimativa, que correspondia ao
alcance da artilharia da Baa-Lo.
Foi quando
gritou para dentro do microfone:
— Ataquem
a nave cilíndrica! Alarmem as unidades da frota que se aproximam!
Quero a destruição total!
Sua voz
tonitroava. A ordem era irrevogável.
Jefe
Claudrin reagiu imediatamente. Cardif já começava a exultar, quando
viu que a Ironduke, uma nave de oitocentos metros de diâmetro,
deixou de deslocar-se em queda livre e passou a acelerar com uma
rapidez tremenda.
A sombra
da nave esférica passou a menos de cinqüenta quilômetros do Jato
espacial. Thomas Cardif viu a torre polar da nave linear abrir fogo
com todas as peças. Quase no mesmo instante, o rastreador estrutural
do jato espacial deu um sinal.
Apesar das
avarias na sala de máquinas, a Baa-Lo abandonara a queda livre e
entrara em transição.
Cardif
estudou a escala do rastreador estrutural. Em vão procurou o
resultado das medições. A indicação numérica estava na posição
zero.
Compreendeu
instantaneamente: os antis haviam recorrido às suas energias mentais
para desaparecer no hiperespaço sem deixar o menor vestígio.
A
estrutura espaço-temporal não reagiu diante da manobra de imersão
da Baa-Lo, quando a nave retornou ao universo normal, em algum ponto
situado entre as estrelas distantes.
Dali a
meia hora, o jato espacial 1-109 entrava no hangar da Ironduke.
Alguns
minutos depois, Cardif-Rhodan entrou na sala de comando.
— Perry!
— exclamou Bell em tom de alívio.
Suas mãos
remexeram o cabelo ruivo cortado à escovinha. Tinha de dar vazão ao
sentimento de euforia.
— Ainda
bem que o senhor está conosco de novo, sir! — disse Allan D.
Mercant, e seus olhos brilhavam.
Jefe
Claudrin também manifestou suas congratulações, mas logo passou a
praguejar porque a nave cilíndrica lhe escapara.
Sem pensar
em nada, Reginald Bell perguntou depois de algum tempo:
— Nolinow
e Alkher dirigiram-se aos seus postos, Perry?
Cardif-Rhodan
já esperava a pergunta desde o momento em que entrara na sala de
comando.
— Não —
disse, balançando a cabeça.
— Os
dois tenentes não vieram comigo. Acredito que estejam mortos.
Naquele
instante, a frieza do espaço cósmico parecia invadir a sala de
comando da Ironduke.
— Você
acredita que estejam mortos, Perry? Quer dizer que não tem certeza?
— gaguejou Bell, aproximando-se do amigo. — Perry, não devo ter
ouvido bem. Pelo amor de Deus, Perry, o que você estava pensando no
momento em que deu ordem para que a nave cilíndrica fosse destruída?
— Pensei
exatamente aquilo que acabo de dizer, Bell — respondeu
Cardif-Rhodan em tom áspero, e um brilho feroz surgiu em seus olhos.
Todas as
pessoas na sala de comando prenderam a respiração.
Só viam
um homem: o chefe.
Mas não
tinham diante de si um Perry Rhodan que lhes era totalmente estranho?
Será que
alguma vez Rhodan já abandonara um homem pertencente às suas
fileiras? Será que o chefe jamais dera ordem para abrir fogo contra
uma nave na qual se encontrasse um só companheiro que ainda
estivesse vivo?
— Perry!
— a voz de Bell estava marcada pelo desespero, mas Cardif-Rhodan
interrompeu sua fala.
— Você
acredita que não lamento a morte dos dois? Vi-os serem levados por
um robô. Pareciam mortos. Infelizmente os antis não me deram
qualquer informação quando perguntei por Nolinow e Alkher.
Portanto, poderia perfeitamente ter respondido à sua pergunta: os
dois pareciam mortos. Se tivesse agido assim, teria evitado qualquer
mal-entendido.
— Perry,
antigamente você não pensava nem agia dessa forma — disse Bell,
profundamente abalado. — Não o entendo mais. Compreendo
perfeitamente a ação desenvolvida em Plutão. Banavol avisou-o de
que havia um anti na base dos saltadores. Mas não compreendo por que
você se empenhou pessoalmente em descobrir se a notícia transmitida
pelo agente era ou não verdadeira. Afinal, para que serve a
Segurança Solar?
Cardif-Rhodan
interrompeu-o.
— Pois
chegou a hora de a Segurança Solar mostrar se continua a ser aquilo
que sempre foi no curso dos decênios! — lançou um olhar
provocador para Allan D. Mercant.
— O que
quer dizer com isso? — esbravejou Bell em tom contrariado.
O fato de
a discussão se travar na sala de comando da Ironduke deixou-o
nervoso.
— O que
quero dizer com Isto, Bell? — perguntou Cardif-Rhodan com uma
ironia mordaz. — Você logo descobrirá. Sem dúvida será
interessante sabermos por que os antis resolveram atacar-me, e como
souberam de que eu havia voado para o planeta Peregrino. Não desejo
sabê-lo, Bell: faço questão de saber. E agora permita que lhe dê
um conselho. Procure controlar-se quando eu manifestar minhas
suspeitas.
“Stana
Nolinow, ou Brazo Alkher, ou ambos, devem ter informado os antis
sobre minha viagem ao planeta Peregrino. E a única possibilidade,
pois os antis deram a entender perfeitamente que ficaram à espreita
do jato espacial.”
Alguém
pigarreou atrás de Cardif-Rhodan. Era Jefe Claudrin, comandante da
Ironduke e superior hierárquico imediato dos dois homens contra os
quais se dirigiam as pesadas acusações do chefe.
— Sir...
— disse com a voz trovejante, mas Cardif-Rhodan Interrompeu-o.
— Não
pedi sua opinião, Claudrin! — berrou de volta. — Mercant, exijo
que, dentro de um prazo brevíssimo, seu Serviço de Segurança
descubra em que lugar pousou a Baa-Lo, o destino que tomaram os
antis, e se Alkher e Nolinow estão mortos ou não. Quero uma
resposta cabal a estas perguntas dentro de uma semana.
O rosto de
Mercant parecia indiferente. Ignorou o olhar significativo de Bell. O
marechal solar não se lembrava de que o chefe já lhe tivesse dado
uma ordem nesse tom. Nunca antes o chefe duvidara da capacidade da
Segurança Solar.
— Sir —
ponderou Mercant tranqüilamente. — O senhor quase chega a exigir o
impossível da Segurança Solar.
O gesto
autoritário de Cardif-Rhodan falava por si.
— Impossível
para cá, impossível para lá, Mercant. No presente caso não estou
interessado em saber se a tarefa é impossível ou não, O senhor
sabe o que está em jogo? Sabe lá do que os antis conseguiram
apoderar-se graças à traição de um ou de dois oficiais da Frota
Solar? E sabe por que os antis me libertaram sem formular outras
exigências?
“Conseguiram
apoderar-se de vinte ativadores celulares. São aparelhos de um tipo
que por enquanto só Atlan possuía!”
Essa
notícia fez com que até Allan D. Mercant tivesse de calar-se.
Bell mal e
mal conseguia respirar. Os oficiais que se encontravam na sala de
comando enxugavam o suor da testa. O epsalense já se esquecera da
advertência grosseira que recebera do chefe.
Cardif-Rhodan
mantinha-se em atitude de triunfo a frente de todos eles, e perguntou
em meio ao silêncio geral:
— Será
que a esta hora os senhores já conseguem compreender por que dei
ordem de abrir fogo?
Thomas
Cardif exultava no seu íntimo ao notar que até mesmo o Marechal
Solar Allan D. Mercant o fitava com um ligeiro sentimento de culpa.
Sua jogada
infame, através da qual atirou a pecha de traidores contra dois
oficiais de reputação ilibada, estava produzindo seus frutos.
Havia uma
única pessoa que não se deixava demover de sua opinião. Jefe
Claudrin voltou a objetar com sua voz trovejante:
— Queira
desculpar, sir, mas não posso acreditar que Alkher ou Nolinow, ou
ambos, o tenham traído para entregá-lo aos antis. Se fosse assim,
ver-me-ia forçado a renunciar à fé que deposito na Humanidade.
Nesse caso eu cometeria uma traição contra o senhor e o Império
Solar.
Cardif-Rhodan
deixou que o comandante da Ironduke concluísse sua fala.
Aproximou-se do epsalense. Num gesto genuinamente rhodaniano,
colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Claudrin
— disse. — Se é assim, como se explica que os antis soubessem do
meu vôo para Peregrino? Será que minha acusação contra os dois
tenentes é injusta? Será que o traidor ou os traidores ainda se
encontram nesta nave? Existe outro detalhe, Claudrin. Como se explica
que os sacerdotes de Baalol perguntassem pelos ativadores celulares
quando me aprisionaram em sua nave?
O
comandante fitou o chefe com os olhos muito abertos. Balançou
lentamente a cabeça ampla.
— Sinto
muito, sir, mas apesar de tudo não julgo os dois oficiais capazes de
uma traição. Deve haver outros fatores, dos quais nem desconfiamos.
Talvez a Segurança Solar consiga fornecer a resposta.
Cardif-Rhodan
não teve tempo de responder. Mercant, que se encontrava num ponto
mais afastado, interveio na palestra:
— Claudrin,
eu lhe juro uma coisa. A Defesa Solar esclarecerá este caso, ou
então não quero chamar-me mais de Allan D. Mercant.
*
* *
*
*
*
Thomas
Cardif, o renegado, exulta por dentro, pois está de posse de um dos
lendários ativadores celulares. E acredita que nem mesmo o Ser
espiritual de Peregrino descobriu seu disfarce...
Também
os antis, que julgam poder pressionar Cardif à vontade, com a ameaça
de desmascará-lo, acreditam que seus desejos foram cumpridos. Nem
desconfiam das brincadeiras cruéis que Aquilo fará com eles.
No
próximo volume da série, intitulado A
Flor Milagrosa de Utik,
lances indescritíveis acontecem...

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