domingo, 4 de setembro de 2016

P-112 - O Homem de Duas Caras - Kurt Brand [Parte 3]

Será que você pode explicar a causa de toda essa confusão do chefe? — perguntou Stana em tom apavorado.
Brazo, que parecia deprimido pela repreensão injusta que acabara de sofrer, fez um gesto de indiferença.
Sei lá! Olhe! Estão puxando nossa nave com um raio de tração. Caramba! Por que não acertei exatamente a sala de máquinas dessa nave pirata?
Por enquanto não podiam fazer nada para modificar a situação. Sua única esperança era a Frota Solar, isso se a mensagem de hiper-rádio ainda tivesse sido expedida pela antena do jato espacial.
Brazo usou o dispositivo de emergência para consultar o computador de bordo. Uma sombra que surgiu à sua direita fê-lo levantar os olhos. Reconheceu o chefe e ouviu-o perguntar com a voz gelada:
O que deseja saber, Alkher?
Estou indagando se a mensagem de hiper-rádio ainda chegou a ser expedida, sir.
E então?
Brazo Alkher conseguiu engolir a grosseria, mas teve de esforçar-se ao máximo para responder em tom cortês:
O pedido de socorro ainda foi transmitido, chefe...
Acabamos de chegar! — disse Stana Nolinow como num eco e apontou para a tela.
Viram que o jato espacial 1-109 estava sendo recolhido a bordo da nave cilíndrica por meio de um potente raio de tração.
Cardif-Rhodan inclinou-se em direção à tela. Estreitou os olhos. Acabara de notar as avarias no casco da nave dos antis.
Foi o senhor quem acertou a nave nesse ponto, Alkher? Abriu fogo contra a nave?
O tenente não conseguiu compreender o sentido da última pergunta.
Naturalmente! Infelizmente só consegui disparar um único tiro, sir. Afinal, só dispunha de alguns segundos.
O pequeno barco espacial sofreu um forte solavanco. O jato espacial 1-109 acabara de entrar no grande hangar da nave desconhecida.
A tela de visão global escureceu. A única coisa que mostrou foi a grande eclusa da nave cilíndrica que se fechava. Demorou alguns minutos até que as luzes do hangar se acendessem.
Nesse meio tempo deviam ter bombeado ar para dentro do grande pavilhão, pois um homem sem traje protetor entrou por uma porta.
Thomas Cardif reconheceu-o ao primeiro relance de olhos.
O sacerdote Rhabol caminhou em direção ao lugar em que ficava a eclusa do jato espacial.
Só então Thomas Cardif compreendeu que subestimara os antis. Não era fácil enganá-los. A manobra, que acabavam de realizar, frustrara seu plano, que previa o exercício de certa pressão por meio da retenção dos ativadores celulares.
Que diabo! — praguejou sem o menor autocontrole, e no mesmo instante recriminou-se asperamente.
Mais uma vez se comportara como Thomas Cardif e não como Perry Rhodan.
Nolinow e Alkher sobressaltaram-se.
No mesmo instante, Cardif disse:
Abra a eclusa, Nolinow.
Sim, senhor.
Mais um detalhe. Caso os antis não tenham percebido a transmissão e nosso pedido de socorro, em hipótese alguma deverão mencioná-lo. Este pedido é nossa única chance.
Virou-se e foi andando. Não queria que houvesse testemunhas de seu encontro com Rhabol.
Brazo — disse Stana ao companheiro, que parecia rijo de espanto no assento do piloto. — Será que você também está enlouquecendo? Não basta que o chefe se faça de louco.
Brazo Alkher balançou a cabeça. Parecia desesperado.
Stana, você sabe explicar o que terá deixado o chefe neste estado?
Só há uma resposta, Brazo. Foi a doença. Nesta hora estou firmemente convencido de que Rhodan está muito mais doente do que desconfiávamos.
Naquele momento o homem que para eles era o chefe encontrava-se frente a frente com Rhabol.
Este fez uma mesura.
Os servos de Baalol sentem-se felizes em cumprimentar Perry Rhodan, Administrador do Império Solar, em sua espaçonave. Queira acompanhar-me.
Cardif não saiu do lugar.
Por favor, administrador — repetiu, olhou cautelosamente para a esquerda e para a direita e obrigou Cardif a fazer a mesma coisa.
Mergulhados na sombra do hangar, num lugar em que mal chegava a luz, uma série de máquinas de guerra enfileiravam-se. Todos os robôs fitavam o homem que usava o uniforme simples da administração terrana. As armas de radiações estavam apontadas para ele.
Assim que Cardif deu o primeiro passo, Rhabol disse bem baixinho, para que só ele ouvisse:
Eu sabia que chegaríamos a um acordo.

* * *

Bell ainda estava a caminho da sala de comando e as sereias da nave continuavam a uivar, quando a Ironduke levantou vôo.
Os motores de impulsos rugiram na protuberância equatorial reforçada da nave esférica. Fora do envoltório esférico, os dois anéis de colunas telescópicas de apoio desapareceram no casco, enquanto centenas de homens corriam para seus postos. Perguntavam-se pelo motivo do alarma.
Ninguém sabia. Só dois homens imaginavam o que tinha acontecido: Reginald Bell, o representante de Perry Rhodan, e o Marechal Solar Mercant, chefe da Segurança Solar.
Bell correu para a sala de comando.
Mas teve de esperar tal qual os outros. A decolagem da Ironduke, realizada com a equipagem de plantão, exigia o máximo de concentração de todos.
Jefe Claudrin, o epsalense, fez com que sua nave linear se erguesse do solo. Era um dos melhores comandantes. Parecia ter nascido com uma disposição toda especial de pilotar naves esféricas.
Transmitiu suas ordens com a voz trovejante.
Bell lançou um olhar para o lado quando viu alguém aproximar-se. Era Mercant.
Um oficial vindo da sala de rádio entrou na de comando. Ao ver os dois, hesitou ligeiramente, mas logo correu em direção à poltrona feita especialmente para Claudrin.
Obrigado! — trovejou a voz do epsalense.
O oficial de rádio voltou. Parou à frente de Bell e Mercant.
Recebemos um pedido de socorro do jato espacial 1-109 — anunciou. — É uma mensagem automática. Infelizmente a indicação das coordenadas não é completa.
Se havia alguém, que entendesse o que isso significava, esse alguém era Reginald Bell.
A indicação incompleta das coordenadas significava que possivelmente a nave nunca mais seria localizada.
Algumas regulagens foram efetuadas no computador positrônico de bordo. Mal as mesmas foram concluídas, a fita perfurada saiu da fresta.
Então, qual é o resultado? — perguntou Claudrin com sua voz trovejante. Sempre fazia tudo com a maior rapidez, e exigia a mesma rapidez de seus oficiais, além de boa dose de precisão.
O setor espacial em que possivelmente se encontra o jato espacial 1-109 mede cerca de cento e oitenta anos-luz cúbicos, O grau de probabilidade é de 73,6 por cento — disse o oficial incumbido do computador, dirigindo-se ao comandante.
Bell aproximou-se de Claudrin. O epsalense fitou-o ligeiramente, afastou o microfone, colocando-se bem à frente do representante de Rhodan e não se interessou mais pelos outros.
Bell disse para dentro do microfone:
Mensagem de rádio dirigida ao quartel-general da Frota Solar. Coloquem em prontidão o terceiro grupo de cruzadores pesados, a décima oitava, décima nona e vigésima terceira flotilha de cruzadores ligeiros e três unidades do grupo de super-couraçados. Destino..
Seguiram-se as coordenadas incompletas incluídas no pedido de socorro do jato espacial 1-109.
Bell acrescentou mais uma frase:
O administrador desapareceu nesse setor do espaço. Reginald Bell.
A sala de rádio forneceu a repetição do texto. Bell não prestou atenção. Olhava para o chão.
Isso não vai dar certo para alguém — disse.
Para quem, mister Bell? — perguntou Claudrin.
Bell fitou-o com uma expressão de surpresa. Só agora deu-se conta do que acabara de dizer.
Não sei, Claudrin. Nem sei o que me levou a fazer esta observação. Quando poderemos mergulhar no semi-espaço?
Além da Ralph Torsten, que já fora recuperada, a Ironduke era a única espaçonave equipada com o novo mecanismo de propulsão linear. Não havia necessidade de transições, com suas desmaterializações e rematerializações. O conversor de compensação denominado kalup criava um campo de linhas de força, situado no espaço de seis dimensões, que compensava as partículas energéticas e materiais de quatro e cinco dimensões. Só assim um corpo podia deslocar-se no semi-espaço, localizado entre o universo de quatro e o de cinco dimensões, alcançando milhões de vezes a velocidade da luz, sem perder de vista a estrela-destino, que permanecia ininterruptamente no rastreador de relevo.
Podia-se dizer, de certa forma, que se tratava de um vôo visual.
O novo método oferecia, em comparação ao velho sistema das transições, uma vantagem que não devia ser subestimada.
Em virtude do sistema de propulsão linear, a Ironduke chegou ao respectivo setor espacial muito antes dos outros veículos espaciais esféricos que recorriam aos saltos para transpor abismos de milhares de anos-luz.
Jefe Claudrin não deixou que a pergunta de Bell, que quis saber quando seria ligado o kalup, lhe roubasse a calma.
Na mesma hora de sempre, mister Bell. Não assumirei nenhum risco, nem mesmo quando se trata do chefe.
A resposta de Claudrin, formulada em termos um tanto ásperos, tinha sua razão de ser. A catástrofe da Fantasy, que explodira durante o vôo de regresso do Sistema Azul, ainda não fora esquecida. Para qualquer comandante, dotado de senso de responsabilidade, esse incidente serviria de advertência para que não se realizassem experiências com o novo propulsor.
OK, Claudrin — respondeu Bell, que de forma alguma se sentia ofendido com a ponderação. — Se houver alguma novidade, estarei na mapoteca.
Pediu a Allan D. Mercant que o acompanhasse. No caminho, os dois regalaram-se do silêncio.
Preferiram não criticar a atuação de Perry Rhodan.
Ao chegarem à mapoteca, encontraram o Major Lyon, que já se achava sentado à frente dos mapas.
O Major Lyon fez menção de ficar em posição de sentido ao reconhecer os dois homens que acabavam de entrar na sala.
Deixe para lá, Lyon — disse Bell. — Vejo que já está estudando os mapas. Obrigado, estamos vendo muito bem...
Depois disso apenas soltou uma observação lacônica. A seguir, Bell pegou um lápis magnético e desenhou um círculo na parte norte do grande mapa.
É aqui que temos de procurar Rhodan — olhou para Mercant. — Não notou nada, meu caro?
Notei duas coisas, mister Bell. Nossos rastreadores estruturais não registraram nenhum salto.
Isso já aconteceu antes, quando duas naves entravam em transição simultaneamente em pontos diversos do espaço. Quando ocorre uma superposição desse tipo, que é bastante rara, muitas vezes um dos saltos, que é um pouco mais fraco que o outro, não pode ser detectado.
— “Bem, isto é a primeira coisa. A outra é o pedido de socorro que o jato espacial transmitiu pelo hiper-rádio. No tráfego de hiper-rádio não existem as perturbações que costumam causar-nos tantas dificuldades no rádio comum. A mutilação da mensagem no que diz respeito às coordenadas só tem uma explicação. Aquilo deve ser obra dos antimutantes.”
Infelizmente estamos de acordo — constatou Bell em tom contrariado. — O círculo que acabo de traçar no mapa assinala o setor do espaço onde devemos procurar Perry Rhodan. Mas há uma coisa que eu não entendo. Por que o chefe não iniciou a transição assim que saiu do planeta Peregrino?
Mercant resolveu ser cauteloso.
Talvez o assalto ocorreu pouco depois de o jato espacial ter decolado de Peregrino. No momento Só podemos fazer suposições, mister Bell. Por enquanto não sabemos de nada. O tamanho assustador deste setor espacial, com seus cento e oitenta anos-luz cúbicos, abre margem a inúmeras possibilidades.
O Major Lyon não se atreveu a intervir na palestra. Escutava atentamente.
Bell soltou um gemido.
Se Perry ainda fosse o mesmo de antes, poderíamos constatar exatamente o que fez depois de ter saído de Peregrino. Mas assim...
Estas palavras constituíam uma expressão inequívoca da perplexidade de Bell.
Atirou o lápis sobre o mapa.
Está bem — principiou em tom ligeiramente contrariado. — Cento e oitenta anos-luz cúbicos representam um espaço muito grande. No mesmo não existem muitas estrelas, mas sempre teremos pela frente cerca de dez mil sóis. Se procuro tirar as conseqüências lógicas desta idéia, sinto náuseas.
Já estou sentindo náuseas há muito tempo, mister Bell — respondeu Mercant em tom seco.
Bell viu-se dominado pela cólera. Bateu com o punho cerrado sobre a mesa na qual estava estendido o mapa.
O que será que Perry andou pensando? Tenho vontade de mandar para a Sibéria todos os médicos que participaram da terapia do choque.
Um sorriso irônico surgiu no rosto de Mercant.
A Sibéria transformou-se em área de veraneio. Quando eu me aposentar, quero passar o resto dos meus dias na tundra. Mr. Bell, será que o senhor quer recompensar os médicos?
Quer dizer que o senhor também está convencido de que a causa de toda a desgraça é o tratamento de choque mal-sucedido?
Nem posso deixar de estar. O senhor encontra outra explicação para o estranho comportamento de Rhodan? Se penso na morte daquele anti no entreposto comercial... Não consigo tirar da cabeça a lembrança desse fato. Dei uma boa olhada no anti. Pois bem..
A maneira pela qual Mercant concluiu sua fala era estranha. Bell fitou-o. Esquecera-se de que o Major Lyon se encontrava a seu lado.
Foi assassinado? — perguntou. Sua voz revelava medo.
Até gostaria de enfeitar esta palavra com um ponto de exclamação, mister...
Mercant deu-se conta de que estavam em três. Colocou a mão sobre o ombro do major e fitou-o prolongadamente, mas não disse uma palavra.
O Major Lyon enfrentou o olhar de Mercant.
Acho que nesta altura não posso deixar de participar da palestra. O que tenho a dizer é pouca coisa. Sou capaz de jurar que o chefe não seria capaz de assassinar quem quer que seja. Deve haver um engano.
A mão de Mercant continuava pousada no ombro do major. Respirava fortemente.
Lyon, faço votos de que o senhor tenha razão.
Voltou a examinar atentamente o mapa. Lembrava-se das coordenadas galácticas de Peregrino.
Se registrássemos a posição de Peregrino neste mapa, o planeta artificial formaria o centro do círculo que o senhor acaba de traçar, mister Bell. Se minha hipótese for correta, basta procurar na linha imaginária que liga Peregrino ao sistema solar, com desvios de até três anos-luz para todos os lados.
Bell não prestara atenção a estas palavras.
O que havia com o antimutante, Mercant?
O marechal solar não se sentiu surpreendido com a pergunta.
O homem estava desarmado. A posição em que se achava deitado constitui prova evidente de que não estava atacando quando foi abatido. A explicação do ataque com o peso de papel, fornecida por Rhodan, em hipótese alguma pode ser correta, O sangue grudado no objeto constitui outra prova disso. O ferimento que Rhodan apresentava no queixo era insignificante e não poderia ter sujado o peso de sangue. Só no caso de ferimentos graves surgem vestígios de sangue em objetos contundentes.
Por que só me diz isso agora, Mercant? — perguntou Bell com a voz fria.
Sem que o percebesse, ia assumindo o papel de Rhodan. Estava prestes a transformar-se por suas próprias forças no sucessor do amigo, que parecia incapacitado para o exercício do cargo.
Porque só há algumas horas me dei conta disso. Quando voltamos da enfermaria, não consegui dormir. E quando ouvi o alarma.., bem, acho que o senhor já compreendeu desde quando eu sei.
Nesse instante, o Major Lyon soltou uma observação:
Pois eu não acredito! O chefe nunca seria capaz de uma coisa dessas!
Estas palavras foram proferidas num tom de profunda convicção, fazendo com que Bell e Mercant se sobressaltassem.
Major Lyon — disse Reginald Bell. — Se o senhor tiver razão, o marechal solar e eu já não seremos dignos da amizade de Perry Rhodan.

* * *

Stana Nolinow e Brazo Alkher ouviram os passos pesados de robôs. Imaginavam o que era aquilo que se aproximava.
Por enquanto terminou; talvez para sempre — constatou Nolinow em tom sarcástico e tirou os cintos.
Brazo Alkher fez a mesma coisa. Estavam de pé junto aos seus assentos, sem armas, quando a primeira máquina de guerra entrou, seguida por mais quatro.
Venham conosco! — ordenou um dos robôs positrônicos.
No mesmo instante, as armas foram apontadas para os dois terranos. Escoltados por dois robôs, os dois oficiais saíram do jato espacial. A nave em forma de disco estava cercada por robôs. Uma passagem muito estreita abriu-se para os terranos. Acompanharam a máquina de guerra que acabara de dar-lhes a ordem.
Assim que Stana tentou falar com Brazo, a voz metálica fez-se ouvir:
Não permitimos palestras!
Nolinow manteve-se calado. Um robô sempre age segundo sua programação. E nessa programação não entra qualquer dose de sentimento. Stana Nolinow não tinha vocação para o suicídio.
Não tiveram a menor possibilidade de fugir e esconder-se na nave cilíndrica. Ao chegarem ao convés principal, viram um grupo de pessoas que discutia exaltadamente. A inquietação parecia ter tomado conta da nave. Ouviram-se gritos e falava-se num incêndio que ainda não pôde ser debelado. Um incêndio na sala de máquinas.
Brazo Alkher sorriu. Sentia-se satisfeito porque seu tiro triplo causara tamanho estrago na sala de máquinas da nave cilíndrica. Este fato melhorava sua situação global. A Frota Solar já devia estar a caminho do setor espacial em que se encontravam, e não teria nenhum problema para alcançar a nave semiparalisada dos antimutantes.
Subitamente um forte solavanco sacudiu a espaçonave de mais de trezentos metros de comprimento. O chão ainda tremia quando as sereias começaram a uivar. Os grupos de pessoas na extremidade do convés principal correram para todas as direções. Os antis que passavam por Alkher e Nolinow não deram a menor atenção aos dois terranos. Os rostos dos sacerdotes estavam marcados por uma expressão de pânico.
Um sorriso largo surgiu no rosto de Stana Nolinow. Seus olhos brilharam ao notar que, assim que as sereias começaram a uivar, o nervosismo tomou conta da nave.
Subitamente um dos robôs segurou-os fortemente. Os dois homens foram empurrados para dentro de um camarote cuja porta fora aberta pelo homem mecânico que caminhava à sua frente.
Os dois caíram. Quando se levantaram, a porta já se fechara atrás deles. Olharam em torno, perplexos.
Estes robôs não têm nenhum senso de humor! — constatou Stana Nolinow e procurou certificar-se de que realmente estavam sós no camarote.
Um segundo solavanco, acompanhado de um rangido, sacudiu a nave cilíndrica, mas desta vez o impacto da explosão foi menos violento. As sereias continuavam a uivar.
Parabéns, meu caro — disse Stana, muito satisfeito. — Você atingiu esta nave pirata no lugar em que a mesma menos pode suportar uma avaria.
Brazo recusou o elogio com um gesto de modéstia.
Este impacto resultou do acaso, Stana. No momento exato em que disparei o tiro, a nave realizou uma manobra de alteração de rota. Por isso não sofreu um impacto frontal, mas foi atingida na sala de máquinas.
Você ainda acaba morrendo de modéstia, Brazo — disse Stana e examinou o camarote bem instalado. — Precisamos de um objeto bem manejável, que nos permita arrombar a porta. Não está vendo nada por aí?
Será que você pretende tentar a fuga sem o chefe? — perguntou Brazo Alkher em tom de recriminação.
Se não houver outro jeito, quero — respondeu Nolinow sem a menor hesitação.
Acho que não deveríamos fazer isso, Stana. Prestaremos um melhor serviço ao chefe e a nós mesmos se provocarmos mais algumas explosões na sala de máquinas. Cada minuto que continuamos no mesmo lugar melhorará nossas chances. Não se esqueça de que irradiamos um pedido de socorro.
Casualmente Brazo colocou a mão sobre a maçaneta da porta. Girou-a sem pensar em nada. Ficou perplexo ao notar que a porta se abriu. Olhou pela fresta e viu dois antis no corredor, que estavam de costas para eles. Lançou um olhar ligeiro para Nolinow. Stana piscou. Compreendera as intenções de Alkher.
Sem dizer uma palavra, abriu a porta de vez. Agarrou por trás o sacerdote que se encontrava do lado direito. Nolinow encarregou-se do outro. O grito dos antimutantes foi abafado pelo uivo das sereias. Em poucos segundos, dois antimutantes inconscientes foram arrastados para o interior do camarote. A porta voltou a fechar-se. Stana ajoelhou ao lado de um dos sacerdotes e Brazo ao lado do outro.
Dali a cinco minutos os dois servos de Baalol estavam deitados no banheiro, amarrados e amordaçados. Traziam pouca roupa no corpo. Nolinow e Alkher se haviam apoderado de quase todas as peças. Seus disfarces não eram muito bons, mas esperavam que em meio à confusão e desordem reinante na nave conseguissem avançar até a sala de máquinas.
As pesadas armas de radiações, encontradas em poder dos antis, deram-lhes uma sensação de relativa segurança.
Pronto? — perguntou Brazo.
Podemos começar, meu chapa — respondeu Nolinow.
Os dois prisioneiros saíram do camarote. Ninguém desconfiou quando caminharam pelo convés principal, em direção à sala de máquinas.
As sereias continuavam a uivar e os tripulantes corriam nervosamente de um lado para o outro. Ainda se ouvia o trovejar das explosões na parte traseira da nave, onde ficavam os propulsores. Ao que parecia, os antis ainda não haviam conseguido controlar o incêndio.
Temos uma sorte inacreditável”, chegou Stana Nolinow a pensar, quando a surpresa se aproximou sob a forma de um robô, saído de um dos camarotes.
Thomas Cardif acreditou que fora abandonado pela sorte quando olhou em torno e viu os rostos dos sacerdotes fanáticos. Mesmo Rhabol, o supremo sacerdote, já não tinha nenhum olhar amável para ele.
Colocou-se de pé à frente de Cardif, que fora o único a ser convidado a sentar-se no grande camarote. Com a voz fria e ameaçadora, disse:
Baalol lhe permitiu que estudasse em Aralon sob o nome de Edmond Hugher. E, sob o nome de Edmond Hugher, você jurou fidelidade eterna a Baalol. Foi graças a Baalol que você foi libertado depois de cinqüenta e oito anos de bloqueio hipnótico, imposto por Árcon, a pedido de seu pai. Sob o nome de Thomas Cardif, você voltou a jurar eterna gratidão ao grande Baalol. Foi graças ao nosso auxílio que Perry Rhodan pôde ser posto de lado, e ainda foi graças ao nosso auxilio que você passou a ser Perry Rhodan. E como é que você nos agradece? Procurando lograr-nos.
Cardif, basta uma palavra nossa e os terranos lhe arrancarão a máscara. Com isso seu jogo terá chegado ao fim.
Revelaremos sua verdadeira identidade, a não ser que você nos entregue aquilo que trouxe do planeta invisível. Se tivesse conseguido voltar à Terra com os ativadores celulares, nós teríamos contado tudo aos terranos. Será que você realmente acreditava que poderia praticar chantagem contra nós?”
Estas palavras atingiram Cardif com a força de marteladas.
Cardif, onde estão os ativadores celulares? — perguntou Rhabol em tom de ameaça, dirigindo a arma hipnótica contra Cardif.
Numa raiva impotente Thomas reconheceu que qualquer resistência seria inútil. Mas naquele momento de depressão máxima lembrou-se de que os vinte ativadores celulares se encontravam envoltos num campo temporal esférico, que só se abriria quando ele o quisesse.
Rhabol, os vinte ativadores estão no meu camarote, no interior do jato espacial.
Estas palavras foram proferidas com a voz tranqüila. Numa atitude típica de Rhodan, Cardif espreguiçou-se. Parecia não enxergar a arma hipnótica apontada para ele.
Mais de duas dezenas de antis sobressaltaram-se. A mudança ocorrida com Cardif era tão pronunciada que não poderia deixar de ser notada. De repente o filho de Rhodan passara a irradiar o fluido que sempre distinguira o pai em meio às massas.
Vá buscá-los, Rhabol! — disse. — Sei perfeitamente que seu interesse pelos ativadores celulares é apenas secundário. Afinal, o que significa a vida eterna? Para vocês não deve significar nada.
Ou será que significa alguma coisa? Quem de vocês receberá os pequenos ativadores? Vocês já os rifaram?
Conhecia os servos de Baalol melhor que qualquer outro terrano.
Numa hábil manobra psicológica, jogou uns contra os outros. Encontrava-se diante dos mais influentes dentre os antis. Conhecia todos eles. Nenhum deles estava livre da ânsia do poder.
Sabia a que meios cada um havia recorrido para conquistar a posição em que se encontrava.
Nenhum dos homens que se achavam à sua frente renunciaria voluntariamente ao ativador celular.
Cardif — advertiu Rhabol em tom insistente. — Você não conseguirá semear a discórdia entre nós, e muito menos conseguirá escapar-nos. Não se esqueça de que Perry Rhodan ainda está vivo. E continuará vivo enquanto você viver, a fim de que sempre possamos lembrar-lhe que você apenas é seu filho.
Pela primeira vez os olhos de Cardif chamejaram.
Antis! — pronunciou esta palavra em tom de desprezo e fitou cada um deles. — Vocês não são mais fortes que eu. Pretendem apoderar-se do Império Solar. Pois experimentem fazê-lo sem a minha colaboração. Por enquanto a instalação de mais trezentos entrepostos comerciais dos saltadores não foi autorizada. Como esperam consegui-las, se não puderem contar comigo? Nem Banavol, agente de vocês, nem o servo de Baalol em Plutão conseguiram exercer pressão contra mim.
Você assassinou Juglun, ou melhor, A-Thol — disse Rhabol.
Cardif soltou uma risada cínica.
Custa-me acreditar que essa acusação tenha saído justamente de sua boca. Pois bem. Como prosseguiremos na conversa? Na base da igualdade de direitos? Ou será que vocês ainda acreditam que são a parte mais forte?
Cardif aguardou tranqüilamente o que o sumo sacerdote tinha a dizer-lhe.
Rhabol dirigiu-se a dois antis:
Tragam os ativadores celulares que se encontram no jato espacial.
Nesse instante, uma pancada violenta sacudiu a nave cilíndrica. Cardif sorriu.
Rhabol notou o sorriso.
Vão logo! — ordenou aos dois sacerdotes, que haviam parado, apavorados.
Depois, com os olhos chamejantes de cólera, dirigiu-se a Cardif:
Se a nave explodir por causa do ataque traiçoeiro de seu jato espacial, você morrerá conosco.
Não posso fazer nada — respondeu Thomas Cardif em tom frio.
Esperaram o regresso dos dois servos de Baalol. Quando alguém abriu a porta do lado de fora, todos acreditaram que já estivessem de volta com sua presa. No entanto, um robô tangeu Brazo Alkher e Stana Nolinow para dentro do recinto.
Os dois terranos dirigiam-se à sala de máquinas — disse a voz metálica do robô.
Suas mortíferas armas de radiações continuavam apontadas para Alkher e Nolinow.
Os dois tenentes esperaram em vão que o chefe lhes dedicasse um olhar. Mas o homem que acreditavam ser Rhodan olhava para outro lado, indiferente.
Brazo ainda viu o anti, que se encontrava à frente do chefe, levantar a arma hipnótica e puxar o gatilho.
Depois disso só restou uma hipnose profunda para os dois tenentes da Frota estelar. Já não sabiam o que estava acontecendo com eles. E não sentiram nada quando o robô, obedecendo à ordem de Rhabol, os levantou e os carregou para fora.
Mal a porta voltou a fechar-se, o intercomunicador chamou, transmitindo uma notícia importante.
O fogo que lavrava na sala de máquinas acabara de ser debelado. As três unidades energéticas de maior potência não poderiam ser reparadas com os recursos de que se dispunha a bordo da nave. O engenheiro-chefe da nave cilíndrica não escondeu nada.
Ainda poderemos realizar transições, mas acho preferível não realizar mais que uma. Qualquer solicitação excessiva poderá acarretar o colapso total das máquinas. Desligo.
Os sacerdotes discutiram animadamente. Por vários minutos esqueceram-se de Thomas Cardif.
Finalmente Rhabol, que tinha nervos de aço, ponderou que não corriam perigo de vida.
A qualquer momento podemos pegar o jato espacial de Cardif e dar o fora.
Todos faziam sinais de satisfação e, no mesmo instante, voltaram a dedicar sua atenção a Cardif.
Mais uma vez, a porta abriu-se. Os dois sacerdotes voltaram. Entre eles flutuava o campo temporal vermelho-pálido de cinqüenta centímetros de diâmetro. No interior do mesmo viam-se objetos negros em forma de ovo; eram os ativadores celulares.
Uma admiração misturada de respeito desenhou-se naqueles rostos marcados pelo fanatismo.
Mas a admiração inspirava-se exclusivamente na cobiça. Diante deles flutuava a vida eterna, cercada por um envoltório energético desconhecido.
Abra a esfera, Cardif! — disse Rhabol com a voz trêmula.
Thomas Cardif recostou-se confortavelmente na poltrona.
Será que tenho algum motivo para isso? Por que você não abre o envoltório, Rhabol? — perguntou, fitando-o intensamente.
Não viu que Rhabol estava regulando a intensidade de sua arma hipnótica. A pequena roda dentada foi colocada na posição mínima. Sem qualquer advertência Rhabol ergueu a arma e fez um disparo hipnótico contra Cardif.
Cardif — disse o sumo sacerdote do culto de Baalol, dirigindo-se ao terrano, que enrijecera em sua poltrona. — Abra a esfera!
Espantados, os antis ouviram Cardif dizer:
Quero que você se abra!
Mas a esfera luminosa vermelho-pálida continuou fechada.
Afinal, o que sabiam os antis a respeito do Ser fictício de Peregrino?
Seus conhecimentos estavam restritos às informações recebidas de Cardif, e antes de sua visita ao planeta Peregrino essas informações não poderiam ter sido completas.
Vamos cortar isso! — sugeriu um dos sacerdotes, mal conseguindo falar, de tão nervoso que estava.
Um desintegrador foi apontado para o envoltório energético. O raio atingiu o pólo superior da esfera.
A bola vermelho-pálida balançou ligeiramente, mas continuou intacta, sempre flutuando no centro do recinto.
Vamos tentar com a arma térmica — sugeriu outro servo de Baalol.
Não! — protestou Rhabol, que a essa altura já desconfiava de que a esfera não cederia a qualquer tentativa de abri-la. — Só o terrano é capaz de abri-la.
Mas ele acaba de tentar, Rhabol! — respondeu alguém.
Enquanto estiver submetido ao choque hipnótico, o terrano não é ele mesmo — respondeu o sumo sacerdote em tom impaciente. Encontrava-se perto da esfera. Com uma expressão de fascínio contemplava os ativadores celulares, que por enquanto continuavam inatingíveis. Teve de fazer um esforço sobre-humano para não dar mostras da exaltação tremenda de que se sentia possuído.
A sua frente flutuava a vida eterna.
O futuro abria-se diante dele. O futuro dele e de mais dezenove servos de Baalol. Tornar-se-iam imortais, tal qual o Imperador Gonozal VIII.
Alguns dos presentes começaram a recriminar Rhabol, por ter disparado a arma hipnótica contra Cardif. A ânsia de possuir os ativadores celulares rompia toda hierarquia. Ninguém considerava o fato de que Rhabol era seu superior.
Não queriam esperar mais pela vida eterna. Exigiam os ativadores. Começaram a proferir ameaças contra Rhabol.
Será que este já contara com isso?
Virando-se ligeiramente, o sumo sacerdote gritou em voz alta:
Robôs!
A porta que dava para uma sala contígua abriu-se. Quatro máquinas de guerra entraram, colocaram-se de ambos os lados da porta e ameaçaram os servos de Baalol com suas armas de radiações.
Estes robôs foram especialmente programados para mim — disse Rhabol com a voz fria. — Qualquer um que tentar sair daqui estará morto.
Thomas Cardif, que já despertara da ligeira hipnose, soltou uma risada. Aquilo parecia diverti-lo. Rhabol parecia ter sido mordido por um bicho. Virando-se, disse:
Abra esta esfera, terrano, pois do contrário eu o obrigarei a fazê-lo.
Palavras pomposas atrás das quais não há nada — constatou Cardif.
Levantou-se e afastou o anti. Colocou-se ao lado da esfera e envolveu-a com os braços.
Ergueu-a acima de sua cabeça, como se fosse uma bola.
Olhem estes ativadores celulares, que poderão dar-lhes a vida eterna. Vinte aparelhos deste tipo estão à sua espera, mas vocês nunca os receberão, a não ser que eu emita espontaneamente o comando mental para que a esfera se abra. Os ativadores estão ocultos atrás do nosso tempo.
Será que vocês compreendem? Estão envoltos num campo temporal, e esse campo temporal permanecerá fechado enquanto eu não ordenar de minha livre e espontânea vontade que o mesmo se abra. Então, Rhabol, ainda se atreve a proferir ameaças contra mim?
Soltou a esfera energética, que continuou a flutuar no mesmo lugar. A luminosidade vermelho-pálida tinha um efeito tranqüilizador, mas os antis, extremamente exaltados, não reagiam ao mesmo.
Cardif voltou a acomodar-se na poltrona, demonstrando uma tranqüilidade irritante.
Então, Rhabol, já está disposto a negociar? Ou ainda acredita que pode dar ordens?
Vamos negociar! Vamos negociar! — gritaram alguns dos antis.
Mas o anúncio transmitido pelo sistema de intercomunicação superou suas vozes:
Rhabol, uma nave da Frota Solar aproxima-se do ponto em que nos encontramos.
Mais de duas dezenas de antis ficaram rígidos de pavor.
O homem que ocupara o lugar de Perry Rhodan no Império Solar praguejou no seu íntimo.
Imaginava que o nome da nave que se aproximava era Ironduke. E sabia que com o aparecimento da nave linear sua situação piorara consideravelmente.
Os antis voltariam a ameaçá-lo; o denunciariam como um impostor e o entregariam à Frota Solar caso não lhes desse imediatamente os vinte ativadores celulares.
Levantou a cabeça. Rhabol estava de pé à sua frente. Um sorriso de triunfo brincava no rosto do anti.
Então? — perguntou, dirigindo-se a Cardif. — Então, Cardif?

* * *

O rastreador de relevo da Ironduke não só registrara a presença de uma espaçonave, mas até mostrara o formato do veículo estelar na tela especial. Enquanto isso, a Ironduke corria velozmente para seu destino, deslocando-se pelo semi-espaço.
Bell aguardara esse acontecimento há meia hora. O rastreador de relevo fora sua única esperança.
Esse sistema de localização pelo rádio de grau superior baseava-se na compensação paraestável de um campo envolvente, que protegia o raio de eco contra os efeitos de distorção da quarta e da quinta dimensão.
Uma vez que, à medida que aumentava a distância, o raio de eco se tornava cada vez mais amplo, produzindo um efeito de leque acompanhado pelo campo isolador da nave, havia possibilidade de ver o espaço de quatro dimensões que se estendia à frente da nave.
São antis! — constatou Reginald Bell.
Jefe Claudrin ouvira estas palavras.
Sir, dentro de seis a sete minutos estaremos junto ao costado da nave.
Naquele instante, o estranho rugido do kalup cessou. Claudrin desligara o propulsor linear. Não queria que a Ironduke passasse em disparada pela nave que acabara de ser localizada.
Depois de alguns minutos de silêncio, ouviu-se o bramido dos motores de impulsos. Uma vez desligado o kalup, a Ironduke saiu do semi-espaço e passou a desenvolver 0,9 por cento da velocidade da luz. Mas nem mesmo esta velocidade foi conservada, O velocímetro indicava cifras cada vez menores.
Ao que parecia, Claudrin apertara alguns botões de alarma. Os hangares, onde estavam guardados os jatos espaciais, anunciaram que os mesmos estavam prontos para entrar em ação.
A central de comando de fogo, que costumava ser dirigida por Brazo Alkher, anunciou:
Estamos preparados para abrir fogo!
A sala de rádio chamou.
Claudrin pegou o microfone.
Avise as outras naves. Transmita as coordenadas e outros detalhes.
Sim senhor — disse a voz saída do alto-falante. — Dentro de alguns segundos avisaremos o cumprimento da ordem.
Bell não saía de junto das telas do sistema de rastreamento de relevo. A nave cilíndrica de pontas achatadas desenhava-se cada vez mais nitidamente.
O sistema de rádio-localização, acoplado ao grande computador de bordo, já fornecera os primeiros dados para os cálculos. A partir do momento em que a Ironduke voltou a penetrar no universo normal, o computador positrônico recebia, a cada segundo, cento e oitenta grupos de dados que mudavam constantemente. O cérebro não tinha a menor dificuldade em digeri-los.
Embora ainda desenvolvesse metade da velocidade da luz, o couraçado parecia aproximar-se de forma quase imperceptível da nave cilíndrica. Bell esteve a ponto de pedir esclarecimentos sobre este ponto, quando o oficial de serviço junto ao computador anunciou:
Nave desconhecida aumentando velocidade!
Jefe Claudrin agiu imediatamente.
Os motores de impulso voltaram a rugir fortemente. O corpo esférico da nave começou a trovejar.
Por alguns segundos ninguém entendia o que o outro falava, mas o rugido cessou tão subitamente como começara.
Consegui uma vantagem de pelo menos um minuto — cochichou Jefe Claudrin.
Quanto tempo levaremos para alcançar a distância de tiro, Claudrin? — perguntou Bell, que se achava perto das telas de imagem do rastreador.
Cavalheiro que se encontra junto ao computador: quer fazer o favor de fornecer a indicação de tempo a Mr. Bell? Depois que pousarmos em Terrânia voltaremos a conversar, tenente!
Jefe Claudrin, que geralmente era um tipo de bonachão, não brincava em serviço. Quando ameaçou o oficial de serviço junto ao computador, devia ser levado a sério.
Sir — disse o homem, dirigindo-se a Bell. — Alcançaremos a distância de tiro entre cento e trinta e cento e quarenta segundos, caso a nave cilíndrica não entre em transição. Há vinte segundos ela está acelerando fortemente.
Bell não estava interessado numa informação tão precisa. Também receava que a nave ainda conseguisse escapar. Via perfeitamente na tela do rastreador que a mesma acelerava tremendamente.
Mais uma vez a voz de Claudrin fez-se ouvir.
Atenção, sala de rádio. Mensagem à nave desconhecida. Parar para fins de controle. Diga que abriremos fogo se não obedecerem.
Mercant estava de pé à direita de Bell. O marechal solar só olhava vez por outra para a tela. Em compensação olhava constantemente para seu cronógrafo.
Cem segundos já se haviam passado, desde o momento em que o oficial da computação fornecera a indicação de tempo.
Já se passaram cem, mister Bell...
Não conseguiu prosseguir.
A sala de rádio da Ironduke transmitiu uma notícia apavorante.
Nave Baa-Lo ameaça matar Perry Rhodan se a ordem de parada não for retirada imediatamente. Formularam ultimato. Prazo do ultimato termina em dezessete segundos.
Bell praguejou em altas vozes.
Esses malditos antimutantes nem nos deixam tempo para pensar. Sala de rádio, aqui fala Reginald Bell. Transmitam imediatamente uma mensagem. Ordem de parada suspensa. Prometemos não chegar à distância de tiro. Estamos interessados em negociar.
Claudrin sabia o que devia fazer.
O couraçado modificou sua rota. Ao mesmo tempo freou fortemente a nave esférica. O dispositivo de absorção de pressão, situado nas profundezas da nave, começou a uivar subitamente com o aumento de carga. Nenhuma das pessoas que se encontravam na sala de comando deu a menor atenção ao fato. Não se pronunciou uma única palavra supérflua. Todos aguardavam as palavras que nos próximos segundos seriam transmitidas pelo alto-falante.
A espera transformou-se numa eternidade.
Mercant não tirava os olhos do cronógrafo.
Já se passaram cem segundos. Cento e cinco, cento e...
Finalmente chegou a notícia tão ansiada:
Aceitamos proposta. Estamos dispostos a negociar, mas Perry Rhodan morrerá se houver um único incidente. Rhabol.
Rhabol! — exclamou Bell e enxugou o suor da testa.
Jamais esqueceria o nome desse homem.

* * *

O sumo sacerdote Rhabol provou que não usava seu título em vão. Agiu com uma tremenda rapidez e coerência ao receber a notícia da aproximação de uma nave de guerra do Império Solar. Fez questão de que Thomas Cardif ficasse perto dele e ouvisse todas as decisões que tomaria.
Rhabol compreendeu que teria de agir numa questão de segundos, se quisesse evitar que ele e seus companheiros perecessem na nave cilíndrica avariada. Neste setor da Galáxia sabia-se há decênios como as naves terranas costumavam golpear quando a situação o exigisse.
Antes que se dirigisse a Cardif, colocou em estado de prontidão todos os sacerdotes que se encontravam no interior da nave cilíndrica e ordenou-lhes que recorressem às suas energias individuais para reforçar o campo defensivo da Baa-Lo.
Por ocasião da fuga de Lepso haviam constatado que nem mesmo os raios dos supercouraçados, cuja espessura atingia vários metros, eram capazes de romper o campo defensivo de uma nave, reforçado pelas energias mentais dos antis.
No momento sua única desvantagem, que era muito grande, consistia nas graves avarias das máquinas, que permitiriam no máximo uma transição.
Sem dizer uma palavra, o sumo sacerdote fitou o homem que, usando o nome Edmond Hugher, servira ao culto de Baalol quase cinco decênios. Durante esse tempo estivera submetido a um bloqueio hipnótico. O que era mais importante, descobrira nas glândulas do fura-lama o hormônio que era um agente rejuvenescedor muito potente, embora limitado no tempo, mas transformava-se no corpo humano num entorpecente de alto grau de toxicidade. Milhões de terranos e arcônidas foram vitimados por esse veneno disfarçado sob a capa de um preparado rejuvenescedor, conhecido pelo nome intergaláctico de liquitivo.
E agora o anti e Cardif, que durante decênios haviam sido sócios, defrontavam-se como inimigos: o chantagista via-se diante de sua vítima.
Sua vida depende de você, Cardif! — limitou-se Rhabol a dizer.
E os ativadores celulares? Será que não contam? — perguntou Thomas Cardif, muito nervoso.
Você poderia explicar de que eles servem numa situação como esta? — ironizou Rhabol.
Depois apontou para a tela. Um ponto minúsculo e brilhante destacava-se no negrume do espaço. Era a Ironduke, que se mantinha em posição de espera. A nave linear ligara todos os holofotes, dando a entender aos antis que se encontravam na Baa-Lo que o comando da nave estava disposto a entrar em negociações.
Thomas Cardif respirava pesadamente.
Sentia-se possuído por uma raiva impotente. Teve de controlar-se ao máximo.
Compreendia as intenções de Rhabol. O anti não queria dar nada pelos vinte ativadores celulares.
Decida, Cardif. Não é apenas sua vida que repousa em suas mãos, mas a vida de todos nós. Mas só lhe darei o direito de tomar uma decisão depois que você nos tiver entregue os vinte ativadores.
A esfera vermelho-pálida, que cingia um campo temporal, flutuava ao lado dos dois.
A recepção chamou. A voz de Reginald Bell saiu do alto-falante. Na Baa-Lo estava ligada apenas a transmissão de som. A transmissão de imagem fora desligada, O fato de a tela continuar apagada constituía um meio de pressionar Thomas Cardif mais fortemente. Se a situação exigisse, Rhabol estaria disposto a ligar inesperadamente a transmissão de imagem, para mostrar aos homens da Ironduke uma cena que se passava a bordo da Baa-Lo, e que forçosamente os faria ficar bastante desconfiados em relação ao chefe.
Cardif, você ouviu as exigências de Reginald Bell, seu representante e sucessor eventual. Queremos que as negociações logo cheguem ao fim. Então, o que diz de minha exigência de entregar os ativadores? Se você recusar, os servos de Baalol morrerão com você. Se resolver entregá-los, não impediremos que se retire desta nave. Caso saia, não se esqueça de que dentro de três dias, no máximo, deverá ser concedida a permissão para a instalação de mais trezentos entrepostos dos mercadores galácticos. Se recusar, infelizmente não teremos outra alternativa senão causar-lhe problemas.
Mais uma vez a recepção soou em meio às suas palavras. E mais uma vez a voz de Bell saiu do alto-falante.
Chamando espaçonave Baa-Lo. Aqui fala Reginald Bell, representante do administrador. Quero avisá-los de que uma grande frota se aproxima do ponto em que nos encontramos. Face ao grande número de naves, haverá a possibilidade de um incidente. Para evitar este elemento de risco, sugiro o inicio imediato das negociações. Aguardo confirmação. Desligo.
Três robôs de guerra mantinham-se nos fundos da sala de rádio. Sua vigilância dirigia-se exclusivamente a Thomas Cardif. Os outros cinco sacerdotes que se encontravam presentes já se haviam acalmado. Aguardavam as instruções de Rhabol.
Vou abrir! — Cardif resolvera ceder.
Não se esqueça de nos mostrar como se deve fazer a regulagem dos ativadores celulares para adaptá-los às vibrações individuais de cada um — lembrou Rhabol.
Thomas Cardif cerrou os lábios.
Sentou-se. A esfera flutuava acima de seu colo. Depois de algum tempo disse em tom insistente:
Abra-se!
A esfera vermelho-pálida não se abriu.
Desapareceu sem o menor ruído. Transportou-se para o nada, liberando vinte objetos em forma de ovo que caíram no colo de Cardif.
O sumo sacerdote pegou dezenove desses objetos e guardou-os num bolso. O outro ativador foi entregue a Cardif.
Mostre-nos como se faz a regulagem, Cardif!
A voz de Rhabol parecia muito tranqüila. Os olhos de Thomas Cardif chamejavam de ódio. Mas o filho de Rhodan logo mostrou ao sumo sacerdote como era simples ajustar o ativador celular para as vibrações de seu futuro portador.
Rhabol pegou também o vigésimo ativador e guardou-o no bolso.
Chame a Ironduke, Cardif, e anuncie sua chegada. Não se esqueça de dar ordem para que nos deixem partir em paz. Será que você acredita se eu lhe disser que nos sentimos muito felizes por tê-lo a bordo da Baa-Lo?
Thomas Cardif deu-lhe as costas, colocou-se à frente do rádio, ligou a imagem e esperou até que os contornos se estabilizassem na tela.
O rosto de Reginald Bell, marcado pela tensão e pela preocupação, surgiu na mesma.
Pegarei o jato espacial e irei à Ironduke, Bell. Ordene às unidades da frota que se aproximam para não impedirem a viagem da Baa-Lo, depois que eu tiver saído da nave dos antis. Desligo.
Enquanto falava, colocara instintivamente a mão direita sobre o peito. Os dedos sentiram o objeto em forma de ovo que trazia junto à pele. Era o vigésimo primeiro ativador celular, uma maravilha vinda de um mundo superior, que fizera dele mais um imortal.
E foi baseado nessa imortalidade que naqueles segundos elaborou um plano. Plano este por meio do qual pretendia quebrar o poder dos antis, eliminar Perry Rhodan e destituir o Imperador Gonozal VIII.
Thomas Cardif era terrano e arcônida. Queria ser o soberano de ambos os impérios.

* * *

O jato espacial corria velozmente em direção à Ironduke. Os propulsores trabalhavam ao máximo de sua potência. O vulto esférico da nave linear adquiria contornos cada vez mais nítidos. Cardif mantinha contato de rádio permanente com a Ironduke. Naquele instante estava abandonando a zona, só fixável por estimativa, que correspondia ao alcance da artilharia da Baa-Lo.
Foi quando gritou para dentro do microfone:
Ataquem a nave cilíndrica! Alarmem as unidades da frota que se aproximam! Quero a destruição total!
Sua voz tonitroava. A ordem era irrevogável.
Jefe Claudrin reagiu imediatamente. Cardif já começava a exultar, quando viu que a Ironduke, uma nave de oitocentos metros de diâmetro, deixou de deslocar-se em queda livre e passou a acelerar com uma rapidez tremenda.
A sombra da nave esférica passou a menos de cinqüenta quilômetros do Jato espacial. Thomas Cardif viu a torre polar da nave linear abrir fogo com todas as peças. Quase no mesmo instante, o rastreador estrutural do jato espacial deu um sinal.
Apesar das avarias na sala de máquinas, a Baa-Lo abandonara a queda livre e entrara em transição.
Cardif estudou a escala do rastreador estrutural. Em vão procurou o resultado das medições. A indicação numérica estava na posição zero.
Compreendeu instantaneamente: os antis haviam recorrido às suas energias mentais para desaparecer no hiperespaço sem deixar o menor vestígio.
A estrutura espaço-temporal não reagiu diante da manobra de imersão da Baa-Lo, quando a nave retornou ao universo normal, em algum ponto situado entre as estrelas distantes.
Dali a meia hora, o jato espacial 1-109 entrava no hangar da Ironduke.
Alguns minutos depois, Cardif-Rhodan entrou na sala de comando.
Perry! — exclamou Bell em tom de alívio.
Suas mãos remexeram o cabelo ruivo cortado à escovinha. Tinha de dar vazão ao sentimento de euforia.
Ainda bem que o senhor está conosco de novo, sir! — disse Allan D. Mercant, e seus olhos brilhavam.
Jefe Claudrin também manifestou suas congratulações, mas logo passou a praguejar porque a nave cilíndrica lhe escapara.
Sem pensar em nada, Reginald Bell perguntou depois de algum tempo:
Nolinow e Alkher dirigiram-se aos seus postos, Perry?
Cardif-Rhodan já esperava a pergunta desde o momento em que entrara na sala de comando.
Não — disse, balançando a cabeça.
Os dois tenentes não vieram comigo. Acredito que estejam mortos.
Naquele instante, a frieza do espaço cósmico parecia invadir a sala de comando da Ironduke.
Você acredita que estejam mortos, Perry? Quer dizer que não tem certeza? — gaguejou Bell, aproximando-se do amigo. — Perry, não devo ter ouvido bem. Pelo amor de Deus, Perry, o que você estava pensando no momento em que deu ordem para que a nave cilíndrica fosse destruída?
Pensei exatamente aquilo que acabo de dizer, Bell — respondeu Cardif-Rhodan em tom áspero, e um brilho feroz surgiu em seus olhos.
Todas as pessoas na sala de comando prenderam a respiração.
Só viam um homem: o chefe.
Mas não tinham diante de si um Perry Rhodan que lhes era totalmente estranho?
Será que alguma vez Rhodan já abandonara um homem pertencente às suas fileiras? Será que o chefe jamais dera ordem para abrir fogo contra uma nave na qual se encontrasse um só companheiro que ainda estivesse vivo?
Perry! — a voz de Bell estava marcada pelo desespero, mas Cardif-Rhodan interrompeu sua fala.
Você acredita que não lamento a morte dos dois? Vi-os serem levados por um robô. Pareciam mortos. Infelizmente os antis não me deram qualquer informação quando perguntei por Nolinow e Alkher. Portanto, poderia perfeitamente ter respondido à sua pergunta: os dois pareciam mortos. Se tivesse agido assim, teria evitado qualquer mal-entendido.
Perry, antigamente você não pensava nem agia dessa forma — disse Bell, profundamente abalado. — Não o entendo mais. Compreendo perfeitamente a ação desenvolvida em Plutão. Banavol avisou-o de que havia um anti na base dos saltadores. Mas não compreendo por que você se empenhou pessoalmente em descobrir se a notícia transmitida pelo agente era ou não verdadeira. Afinal, para que serve a Segurança Solar?
Cardif-Rhodan interrompeu-o.
Pois chegou a hora de a Segurança Solar mostrar se continua a ser aquilo que sempre foi no curso dos decênios! — lançou um olhar provocador para Allan D. Mercant.
O que quer dizer com isso? — esbravejou Bell em tom contrariado.
O fato de a discussão se travar na sala de comando da Ironduke deixou-o nervoso.
O que quero dizer com Isto, Bell? — perguntou Cardif-Rhodan com uma ironia mordaz. — Você logo descobrirá. Sem dúvida será interessante sabermos por que os antis resolveram atacar-me, e como souberam de que eu havia voado para o planeta Peregrino. Não desejo sabê-lo, Bell: faço questão de saber. E agora permita que lhe dê um conselho. Procure controlar-se quando eu manifestar minhas suspeitas.
Stana Nolinow, ou Brazo Alkher, ou ambos, devem ter informado os antis sobre minha viagem ao planeta Peregrino. E a única possibilidade, pois os antis deram a entender perfeitamente que ficaram à espreita do jato espacial.”
Alguém pigarreou atrás de Cardif-Rhodan. Era Jefe Claudrin, comandante da Ironduke e superior hierárquico imediato dos dois homens contra os quais se dirigiam as pesadas acusações do chefe.
Sir... — disse com a voz trovejante, mas Cardif-Rhodan Interrompeu-o.
Não pedi sua opinião, Claudrin! — berrou de volta. — Mercant, exijo que, dentro de um prazo brevíssimo, seu Serviço de Segurança descubra em que lugar pousou a Baa-Lo, o destino que tomaram os antis, e se Alkher e Nolinow estão mortos ou não. Quero uma resposta cabal a estas perguntas dentro de uma semana.
O rosto de Mercant parecia indiferente. Ignorou o olhar significativo de Bell. O marechal solar não se lembrava de que o chefe já lhe tivesse dado uma ordem nesse tom. Nunca antes o chefe duvidara da capacidade da Segurança Solar.
Sir — ponderou Mercant tranqüilamente. — O senhor quase chega a exigir o impossível da Segurança Solar.
O gesto autoritário de Cardif-Rhodan falava por si.
Impossível para cá, impossível para lá, Mercant. No presente caso não estou interessado em saber se a tarefa é impossível ou não, O senhor sabe o que está em jogo? Sabe lá do que os antis conseguiram apoderar-se graças à traição de um ou de dois oficiais da Frota Solar? E sabe por que os antis me libertaram sem formular outras exigências?
Conseguiram apoderar-se de vinte ativadores celulares. São aparelhos de um tipo que por enquanto só Atlan possuía!”
Essa notícia fez com que até Allan D. Mercant tivesse de calar-se.
Bell mal e mal conseguia respirar. Os oficiais que se encontravam na sala de comando enxugavam o suor da testa. O epsalense já se esquecera da advertência grosseira que recebera do chefe.
Cardif-Rhodan mantinha-se em atitude de triunfo a frente de todos eles, e perguntou em meio ao silêncio geral:
Será que a esta hora os senhores já conseguem compreender por que dei ordem de abrir fogo?
Thomas Cardif exultava no seu íntimo ao notar que até mesmo o Marechal Solar Allan D. Mercant o fitava com um ligeiro sentimento de culpa.
Sua jogada infame, através da qual atirou a pecha de traidores contra dois oficiais de reputação ilibada, estava produzindo seus frutos.
Havia uma única pessoa que não se deixava demover de sua opinião. Jefe Claudrin voltou a objetar com sua voz trovejante:
Queira desculpar, sir, mas não posso acreditar que Alkher ou Nolinow, ou ambos, o tenham traído para entregá-lo aos antis. Se fosse assim, ver-me-ia forçado a renunciar à fé que deposito na Humanidade. Nesse caso eu cometeria uma traição contra o senhor e o Império Solar.
Cardif-Rhodan deixou que o comandante da Ironduke concluísse sua fala. Aproximou-se do epsalense. Num gesto genuinamente rhodaniano, colocou-lhe a mão sobre o ombro.
Claudrin — disse. — Se é assim, como se explica que os antis soubessem do meu vôo para Peregrino? Será que minha acusação contra os dois tenentes é injusta? Será que o traidor ou os traidores ainda se encontram nesta nave? Existe outro detalhe, Claudrin. Como se explica que os sacerdotes de Baalol perguntassem pelos ativadores celulares quando me aprisionaram em sua nave?
O comandante fitou o chefe com os olhos muito abertos. Balançou lentamente a cabeça ampla.
Sinto muito, sir, mas apesar de tudo não julgo os dois oficiais capazes de uma traição. Deve haver outros fatores, dos quais nem desconfiamos. Talvez a Segurança Solar consiga fornecer a resposta.
Cardif-Rhodan não teve tempo de responder. Mercant, que se encontrava num ponto mais afastado, interveio na palestra:
Claudrin, eu lhe juro uma coisa. A Defesa Solar esclarecerá este caso, ou então não quero chamar-me mais de Allan D. Mercant.









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Thomas Cardif, o renegado, exulta por dentro, pois está de posse de um dos lendários ativadores celulares. E acredita que nem mesmo o Ser espiritual de Peregrino descobriu seu disfarce...
Também os antis, que julgam poder pressionar Cardif à vontade, com a ameaça de desmascará-lo, acreditam que seus desejos foram cumpridos. Nem desconfiam das brincadeiras cruéis que Aquilo fará com eles.
No próximo volume da série, intitulado A Flor Milagrosa de Utik, lances indescritíveis acontecem...

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