quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-105 - A Frota-Fantasma - Clark Darlton [Parte 2]

2



A Drusus descera em Árcon I, sem nenhum incidente. As naves robotizadas de patrulhamento não fizeram qualquer intimação, a fim de pará-la ou de fazê-la identificar-se. Isto queria dizer simplesmente que qualquer outra nave também podia voar para Árcon e aí aterrissar, sem ser molestada.
Os dois homens estavam sentados frente a frente no Palácio de Cristal. A sede do governo era bem vigiada por oficiais arcônidas de confiança. Aqui não corriam perigo.
A situação — dizia Atlan — é simplesmente desesperadora.
Rhodan protestou, fazendo o possível para não admitir o ponto de vista de seu amigo. Na realidade, era muito difícil não dar razão a Atlan. O grande erro dos arcônidas foi ter confiado todo o peso do governo daquele imenso império ao infalível cérebro positrônico.
Será que este cérebro onisciente e onipresente fora mesmo bloqueado pelos acônidas? Por que motivo não reagiu contra esta violação?
Não vai ficar assim não, Atlan. Vamos atacar e vamos começar por Árcon III. Já obtivemos uma vitória semelhante...
...mas sob condições muito diferentes — acudiu Atlan imediatamente. — Temos que enfrentar agora um adversário, sejamos sinceros, que nos é infinitamente superior. Se os acônidas são realmente os antepassados dos arcônidas e, perante eles, nós não passamos de colonizadores degenerados...
Aí está o ponto onde nós nos enroscamos — interveio Rhodan. — Eles menosprezam vocês do mesmo modo como menosprezam também a nós. É certo que eles dominam uma tecnologia muito mais evoluída que a nossa e não podemos mesmo saber o que aprontaram com o cérebro robotizado. Mas nós possuímos uma coisa que eles não possuem nem conhecem.
Atlan esticou o pescoço para frente.
E o que é?
Nossos mutantes! — disse Rhodan, sorrindo um pouco. — Se nós não o conseguirmos com a Drusus, consegui-lo-emos com os mutantes.
É, mas eles não são super-homens — acrescentou Atlan.
É verdade, mas dispõem de dons que são completamente desconhecidos pelos acônidas.
Quando que você pretende atacar?
Amanhã.
Houve um longo silêncio. Depois Rhodan retomou:
Mas você não vai se preocupar com isto, pois eu creio que terá muita coisa que fazer: a manutenção da ordem. Faça com que, onde estão estacionadas as naves robotizadas, os arcônidas assumam o comando. Principalmente nos pontos-chave, as naves tripuladas devem substituir as robotizadas. Só assim podemos evitar maiores danos. Enquanto o hiper-rádio estiver funcionando, não haverá razão para maior cuidado.
É — disse Atlan, com ironia — não há mesmo motivo para cuidados, muito obrigado.
Bem, meu amigo — disse Rhodan se levantando — arranje-me para amanhã alguns encouraçados. Quero atacar com um bom número de naves. O envoltório de proteção terá de estourar.
Desejo-lhe muita sorte e... tenha cuidado, Perry!
O tom de voz de Atlan exprimia simpatia e um cuidado sincero. Rhodan lhe era grato por isto, embora não o desse a perceber. Houve um aperto de mão e os olhos se cruzaram com firmeza.
Cada um sabia o que tinha a fazer, mas tudo que fizessem só teria um objetivo comum: rechaçar o inimigo e afastar o terrível perigo de uma iminente escravização dos povos de Árcon e da Terra.

* * *

Depois de três ataques fracassados contra o misterioso envoltório energético de Árcon III, Rhodan desistiu. Mandou de volta as naves arcônidas e ordenou a Deringhouse que circunvoasse com a Drusus, a uma boa distância, o planeta bloqueado. Depois reuniu os mutantes para um conselho de guerra na sala de seu setor.
Foram convidados para tomar parte nesta reunião, além dos mutantes, o chefe dos matemáticos da Drusus, Dr. Louis Renner, e o oficial-chefe de segurança, Capitão Marquardt. Mais tarde, chamaram também o Capitão Markowsky, responsável pela central de armamentos.
No fundo, estranhamente calado e encolhido num almofadão, achava-se o rato-castor Gucky. Sabia o que estava para vir e não tinha muita vontade de fazer parte dessa aventura melindrosa. Os acônidas eram para ele seres horríveis. Talvez chegasse a temê-los.
Com um respeitoso aceno de cabeça, Rhodan cumprimentou os homens ali reunidos.
Como vocês sabem, até agora nada conseguimos. Mas temos de romper a barreira. Não nos utilizamos ainda de todas as nossas armas. A violência foi nula; então empregaremos outros meios. Capitão Markowsky, chamei-o para lhe perguntar o seguinte: como está o transmissor fictício?
Markowsky era de constituição franzina. O misterioso transmissor estava sob sua tutela.
Pronto para ser usado. Mas o senhor não vai querer...?
Parou no meio da frase, apavorado. A idéia lhe parecia horrível.
Mais ou menos isto — disse Rhodan adivinhando seu pensamento. — Mas só em caso de necessidade, em última hipótese.
Olhou em volta e seus olhos se detiveram em Ras Tschubai.
Você acha temerário teleportar-se para Árcon III, Ras?
O africano suportou o olhar penetrante de Rhodan. Deu de ombros, e logo depois respondeu:
É difícil dar uma resposta exata. Teria que experimentar...
Era o jeito típico de Ras Tschubai. Naturalmente, sabia, ou ao menos imaginava, quão perigoso devia ser um pulo de encontro a uma muralha energética daquele tipo. Juntava-se a isto o fato de que o próprio Rhodan não acreditava muito no sucesso da operação, pois, do contrário, não indagaria sobre a utilização do transmissor fictício. Este transmissor tinha a peculiaridade de desmaterializar objetos trazidos ao seu campo de ação e rematerializá-los num outro ponto, determinado com exatidão. Por exemplo: podia-se transportar para dentro de uma espaçonave uma bomba atômica, sem se expor ao menor perigo. É claro que também as pessoas poderiam ser transportadas dessa forma.
Não posso, nem devo expor você a um risco tão grande — disse Rhodan, em voz pausada. — Sei que o fará, mas a responsabilidade fica comigo...
Acho que devemos experimentar, do contrário jamais poderemos ter certeza se conseguiremos ou não penetrar nesta muralha misteriosa. Agora, que vamos fazer se não o conseguirmos? — argumentou Markowsky.
Isto vamos ver ainda — respondeu Rhodan, olhando para Gucky. — Quem sabe, um teleportador, com o auxílio do transmissor fictício, terá mais possibilidade? Não sei, porém, ainda de que maneira o vamos apanhar de volta.
Gucky não fugiu dos olhos de Rhodan, que o examinavam a fundo. Se Ras Tschubai se arriscava, ele não queria ficar atrás.
O campo energético também não deixa passar os impulsos telepáticos — constatou Gucky. — Dá a impressão de não haver nenhum ser pensante em Árcon III, embora não seja este o caso. Mas, mesmo que os impulsos mentais não consigam romper a muralha, um teleportador o poderá fazer, com ou sem o transmissor.
Obrigado, Gucky — disse Rhodan. — Mas antes de mandar você, Ras Tschubai e Tako Kakuta devem experimentar. Os dois juntos.

* * *

E a tentativa fracassou!
Os dois teleportadores se concentraram para o salto, desmaterializaram-se e... um segundo depois, estavam de volta. Durante o salto, chocaram-se contra uma barreira invisível e não identificável e foram rechaçados. Materializaram-se no mesmo local de onde partiram.
Aliás — observou Ras Tschubai, muito transtornado — não sentimos nenhuma dor. Apenas não conseguimos atravessar, e nada mais. Não é um envoltório de proteção no sentido comum. Deve ser outra coisa, bem diferente...
Kakuta confirmou as palavras do africano. Embora não sentisse dor, não tinha coragem de fazer outra tentativa.
Gucky, que ouvira tudo com interesse, disse em voz baixa:
Estou com receio de que agora seja minha vez. O mais importante é que o transmissor fictício seja acionado exatamente no momento em que eu pular. Somente assim podemos obter o efeito desejado.
Depois, olhando para Rhodan:
Não me sinto muito bem nesta experiência.
Rhodan se inclinou para ele.
Compreendo-o, meu amigo. Acredite-me que usaria de outro meio, se existisse. Mas infelizmente não nos resta outra solução. Embora o transmissor funcione, você tem que ir, pois é o único que tem os poderes da telecinese, da telepatia e da teleportação. Se existe alguém, que pode voltar incólume, este alguém é você. Não vamos ter contato um com o outro e só poderá contar consigo mesmo. Muita cautela, cuide-se. Não se esqueça de que nosso destino depende do sucesso de sua missão.
Rhodan coçou suavemente o pelo de Gucky e sua voz mudou de tonalidade, quando lhe sussurrou:
Nossos pensamentos o acompanham e depositamos em você votos de total confiança. E se lhe acontecer alguma coisa...
Todos sabiam que as palavras de Rhodan não iam adiantar muito, se realmente lhe acontecesse algo e o rato-castor não voltasse. Então nada mais haveria, e não somente Árcon, mas também a Terra, estariam perdidos, e com isto, o futuro da Humanidade.
O Capitão Markowsky já aguardava as últimas instruções no transmissor fictício. A Drusus continuava circunvoando Árcon III, tendo se aproximado, porém, um pouco mais do planeta. A misteriosa barragem energética impedia a visão para sua superfície. Parecia que Árcon III estava envolto por um vidro quase opaco.
Ouviu-se a voz do General Deringhouse no alto-falante:
Estaremos atingindo o ponto determinado daqui a vinte segundos.
Rhodan acenou para Gucky:
É isto, meu jovem, muita felicidade, amigo.
Vou precisar mesmo — foram as últimas palavras de Gucky, caminhando com suas pernas curtas para o foco ativo do transmissor.
Portava o uniforme especial e trazia uma pequena arma no cinturão. Fora disso, contava mesmo é com seus dons parapsicológicos.
A mão de Markowsky já se encontrava firme sobre a alavanca de acionamento. Distância e capacidade energética estavam corretas. Bastava apenas que abaixasse a alavanca, para que Gucky fosse lançado à superfície de Árcon III.
Ainda cinco segundos — disse Rhodan levantando a mão. — Quatro... três... dois... um... já!
Três coisas aconteceram no mesmo momento: o braço de Rhodan abaixou, a mão de Markowsky desceu a alavanca e Gucky se teleportou.
Passaram-se dez segundos e Gucky não voltou. Devia ter conseguido.
3



Durante um salto de teleportação, o corpo do respectivo mutante se desmaterializava. Seus átomos se dissolviam para atingir o objetivo distante, através do hiperespaço. Chegando ao destino, “reuniam-se” e tomavam a forma inicial.
Quando se saltava, tudo em volta desaparecia e, quase no mesmo instante, vamos dizer, num décimo de segundo, alcançava-se o ponto determinado. O que ficara entre o ponto de partida e o de chegada não tinha espaço nem tinha tempo. Era o nada.
Desta vez, porém, no campo energético do transmissor fictício, fora tudo diferente. É verdade que ele se desmaterializou como sempre, conservando, porém, a sensibilidade pelo decurso de um pequeno segundo, quando então se chocou contra a barreira energética. Flutuou num nada escuro, sentindo um estranho formigamento em todo o corpo. Mas, antes que pudesse pensar a respeito, o campo energético do transmissor o levou para frente e.... ele se desmaterializou novamente.
Suas pernas dobraram e tocou o chão. Nunca sentiu uma fraqueza tão grande e um desejo louco de morrer ou pelo menos de dormir.
Aos poucos a memória foi voltando e seu instinto de conservação fez com que abrisse os olhos.
Lutando contra o cansaço, arrastou-se uns metros até a sombra de um rochedo e aí se estirou. O sol ia alto no firmamento, iluminando uma paisagem que Gucky jamais imaginara no planeta militar de Árcon. Devia ter descido em algum lugar, o qual ele desconhecia.
Árcon III era o arsenal militar e o centro de formação espaçonáutica do Império Arcônida. Aqui estavam os enormes estaleiros, onde eram fabricados em série os supercouraçados, e os extensos quartéis, com seus estabelecimentos de ensino. Havia ainda a Academia Militar, para a formação de futuros oficiais, e o Instituto de Medicina Espacial.
Gucky se materializara num planalto. Embora estivesse à sombra do rochedo, podia ver lá embaixo a planície que se estendia até o horizonte. Via-se uma enorme extensão de campo, em forma retangular, para as espaçonaves, cercada de grandes construções, porém, de pouca altura. Existiam, também, campos cercados de arame para protegerem os depósitos de material bélico e os galpões baixos. Sentinelas armados iam e vinham em sua ronda. Não dava para Gucky distingui-los. Homens ou máquinas?
No espaçoporto, destacavam-se as grandes naves, geralmente com a tradicional forma cilíndrica, preferida pelos arcônidas. Todo o centro do espaçoporto vibrava, com um movimento desusado. Pequenos flutuadores, operando à base de colchão de ar, riscavam as pistas de um canto para o outro, levando armas e outros materiais para as naves. Por toda parte havia uma pilha de coisas ao lado de cada nave. Todas essas coisas eram transportadas pelos elevadores antigravitacionais para o bojo insaciável das belonaves, prestes a partir. Estava mais do que evidente que a frota se preparava para uma importante ação.
Gucky se sentia ainda muito fraco. Por ora não tentaria uma teleportação. Não tinha fome, mas estava com muita sede.
Quem sabe haveria água aqui por cima?
Depois de observar que não havia ninguém nas proximidades, foi saindo do seu esconderijo à sombra. Por uns instantes ficou pensativo, estranhando muito que ainda houvesse terra inculta em Árcon III. Recordava-se de que cada metro quadrado era bem aproveitado, não restando quase nada da natureza primitiva...
A menos de duzentos metros de onde estava, descobriu um pequeno regato de água fresca, serpenteando ao longo de uma floresta. Mergulhou feliz a cabeça na água e bebeu até quase estourar. Lavou-se e começou a se sentir melhor. Agora nada mais o impediria de executar sua missão. Só mais um pequeno repouso e estaria apto para saltar. Mas talvez fosse melhor ouvir um pouco o pensamento do pessoal lá embaixo. Caso ouvisse o que estavam comentando, poderia deduzir alguma coisa sobre os acônidas.
Voltou para o rochedo que lhe oferecia uma posição melhor. Depois se concentrou para captar os pensamentos lá de baixo. Não conseguiu nada. Eram tão fracos que não chegavam a fazer sentido. Já estava ali tentando há uns dez minutos e não valia a pena insistir mais. Talvez fosse bom dormir algumas horas. O esforço para penetrar na terrível muralha de proteção o desgastara tanto, que a parte telepática do seu cérebro não estava funcionando bem. Provavelmente não conseguiria se teleportar e, muito menos ainda, teria força para uma operação de telecinese.
Achou um bom local no rochedo e se enroscou.

* * *

Só pôde saber quanto tempo dormira, consultando o relógio: cinco horas.
Desceu mais uma vez até o regato e bebeu à vontade, voltando depois para a beira do planalto. A situação no espaçoporto permanecia a mesma. As naves continuavam a receber carregamento e verdadeiros exércitos penetravam no seu bojo. Tudo indicava uma operação de grande envergadura.
Esquisito! Será que os arcônidas não davam a menor importância à aterrissagem da nave acônida em seu solo? Será que nem perceberam mais haver ligação com Árcon I?
Ou...?
Este “ou” veio desencadear uma reação diferente em Gucky.
Quem estava dando as ordens agora eram os acônidas!”, pensou. “E quem sabe estavam ordenando aos próprios arcônidas que atacassem Árcon I e Árcon II?
E prosseguiu mentalmente:
Para que então seriam necessários os grandes suprimentos? Alguma coisa não estava dando certo!
Desistiu de ficar ali esperando fragmentos de pensamentos quase imperceptíveis. Concentrou-se para atingir um edifício mais alto ao lado do espaçoporto. Edifício este com um telhado plano, tendo, porém, muitas saliências em forma de pequenas torres. Excelente esconderijo.
O salto foi bem-sucedido.
Uns passos mais e o rato-castor estava bem protegido contra olhares curiosos.
Mas quem é que iria olhar para o teto de um edifício de administração? Alguns helicópteros estavam na outra extremidade. Eram bem diferentes dos deslizadores de colchão de ar que Gucky estava acostumado a ver nos espaçoportos arcônidas. Ou será que os acônidas...? Mas isto era ridículo! Por que razão trariam eles seus próprios helicópteros?
Gucky se julgava bem protegido no telhado do edifício. Mesmo com um bom binóculo seria difícil localizá-lo. Sob seus pés, no interior daquele casarão, deviam estar algumas centenas de pessoas. Não era fácil coordenar a corrente de pensamentos que dali emanava. A confusão fazia lembrar um enorme salão onde todos falam ao mesmo tempo, sendo impossível separar as vozes.
Depois de muito esforço, conseguiu selecionar alguns impulsos que pareciam ter algum nexo. Provavelmente eram três ou quatro pessoas conversando, pois o assunto tinha coerência. Deviam estar alguns andares abaixo, um pouco à sua esquerda. Em caso de necessidade, podia fazer o posicionamento exato do local e se teleportar para lá. Mas, para quê?
Continuou onde estava e tentou ouvir.
... a frota partirá para duas voltas em torno de Árcon, alteza, não podemos perder tempo. Proponho, pois, que as naves partam hoje mesmo.
O imperador sou eu e eu é que vou determinar a hora da partida, Gagolk. Como é que você se atreve a querer me dar ordens? Você é o comandante da frota porque eu o nomeei. Partiremos, pois, somente dentro de dois dias, está bem claro?
Uma outra voz disse:
O imperador tem sempre razão, Gagolk, embora sentimentalmente eu esteja com você. O tempo é a coisa mais importante para nós. Nossa maior força está no fator surpresa. Por outro lado, como podem os novos-ricos deste mundo tão distante chegar à idéia de que nós sabemos de sua existência? Acho, pois, que podemos confiar em Metzat III.
Por mim! — era a voz do tal Gagolk. — Você já fez suas experiências com raças menos desenvolvidas. Tomara que o comandante das colônias tenha dito a verdade. Seu relatório me parece meio confuso.
E por que razões haveria ele de dar dados falsos? — perguntou Metzat III, que se intitulava imperador.
Imperador? Imperador de onde? Gucky ficou quebrando a cabeça com estas interrogações e não conseguia compreender. Havia só um imperador em Árcon, e este era Atlan, Gonozal VIII. Mas isto, ele ia ainda pôr em pratos limpos. Mais tarde.
...nunca as razões, alteza. Os dados estão certos, eu me responsabilizo por isto. Vamos supor que os colonizadores se modificaram e hoje apresentam meramente semelhanças físicas conosco, mas não podemos nos esquecer de que eles foram vítimas, durante centenas e centenas de gerações, de influências do meio ambiente. Sabemos que, depois de cinco ou seis gerações, podem surgir raças bem diferentes da primeira.
Não estou duvidando da origem destes colonizadores — respondeu Metzat secamente e com muita incerteza. — Apenas me pergunto o que eles pretendem fazer, se falaram a verdade. Não demora e vamos saber de tudo isto, se estão mentindo ou não. Mas, de qualquer maneira, a frota só partirá depois de amanhã. A nova raça, que acabamos de descobrir, será dominada ou aniquilada. Esta é a minha ordem, Gagolk.
Saberei cumpri-la, majestade.
Gucky se desprendeu daquele emaranhado de vozes e mergulhou nos seus próprios pensamentos.
O que acabara de ouvir tinha aparentemente algum nexo, mas não deixava de ser uma grande besteira. Não havia nenhum imperador com o nome de Metzat III! Colonizadores também não haviam chegado nos últimos tempos, nem se podia falar numa nova raça que a gente devia dominar ou aniquilar. Além disso, Árcon III estava isolado por um forte campo de proteção, pelo acônidas. Portanto, eram eles, os acônidas, que estavam encenando toda esta comédia.
Mas por quê? — indagou a si mesmo.
Além de tudo, Gucky podia constatar com cem por cento de certeza que aqueles homens eram arcônidas e não acônidas.
O que que estava se passando aqui?
Onde é que ele, Gucky, se encontrava mesmo?
Isto aqui não era o espaçoporto que ele conhecia de sua última viagem a Árcon III. Era maior e mais moderno. Até as espaçonaves eram diferentes.
Aí foi que Gucky voltou sua atenção para as naves. Possuíam o mesmo tamanho e a mesma conformação esférica. Mas só agora reparava que o rebordo central dos conjuntos de propulsão era bem menor do que nos outros aparelhos, como, por exemplo, na Drusus. Também não havia os vãos livres para as peças de artilharia retrateis, e os apoios telescópicos eram de outro tipo de construção, parecendo mais pesados e mais fortes.
Gucky reconheceu que, à primeira vista, estas naves podiam ser confundidas facilmente com os pesados cruzadores dos arcônidas.
Mas com isto, o mistério ainda não estava desvendado.
Antes de prosseguir em suas investigações, queria dar uma olhada em Árcon III. Podia muito bem ser que ele havia saltado exatamente sobre um instituto militar, onde se estudavam manobras simuladas, com naves mais antigas, de construção desconhecida para ele.
Concentrou-se para um salto de milhares de quilômetros e se rematerializou num terreno cercado com arame, entre pilhas de caixas e depósitos de acessórios mecânicos. Sentinelas armados faziam a ronda. Gucky se escondeu depressa num canto apropriado. Dali começou suas investigações.
Primeiramente se preocupou com os pensamentos dos guardas. Não percebeu nada de extraordinário, a não ser que todos eles estavam com a idéia fixa de uma campanha iminente. O Império Arcônida tinha que ser ampliado. Surgira um novo adversário que era necessário eliminar. Uma nova raça que ainda estava desenvolvendo a Cosmonáutica. Dentro de dois dias a frota zarparia para subjugar o planeta-pátrio daquele povo.
Gucky balançou a cabeça horrorizado. Não entendia quase nada. Que estaria acontecendo? Será que todos estavam loucos? Se houvesse uma campanha contra alguma coisa, Atlan seria o primeiro a saber e Rhodan também. Uma nova raça? Quem seriam eles?
Deu mais um salto de teleportação, atingindo o lado noturno de Árcon III. Desta vez, rematerializou-se entre duas naves esféricas, que iluminadas por possantes holofotes estavam recebendo carga. Gucky estranhou que a maioria dos trabalhos era feita por arcônidas e não por robôs.
Por arcônidas? Desde quando os arcônidas trabalhavam, pois quem fazia tudo para eles eram povos subjugados? Desde quando começaram eles a poupar seus robôs? Ou será que também aqui o cérebro positrônico...?
Onde é que se localizava mesmo o cérebro eletrônico?
O inteligente animal procurou se orientar. Encontrava-se agora na parte escura, em um espaçoporto jamais visto, embora acreditasse conhecer bem Árcon III. Foi mais do que por acaso que levantou os olhos para o céu estrelado, neste momento. Não conhecia bem as constelações, mas alguns agrupamentos de estrelas ele guardara de cor. Vistas de Árcon I, pareciam iguais. O mais familiar para Gucky era o círculo polar. Como acontecia com a estrela Polar da Terra, estava quase no zênite de Árcon I. Vista de Árcon III, ela devia encontrar-se bem próxima do horizonte sul. Sua forma era inconfundível. Mesmo agora.
Mas quando a localizou no armamento, Gucky se assustou. Não sabia a razão do susto, mas a estrela lhe pareceu diferente. O círculo das cinco principais estrelas parecia mais estreito e, ao menos aparentemente, mais brilhante. Infelizmente não podia fazer comparações com outros pontos luminosos ou constelações, por não tê-las bem claras na cabeça. Mas bastava o círculo polar para lhe provocar muitas dúvidas, tão fantásticas e doidas que acabou desistindo de fazer conjeturas com as estrelas.
De qualquer maneira chegara a uma conclusão: tinha de executar sua missão com mais cautela e mais ceticismo, do que até então.
Usando de sua boa memória, teleportou-se para o local onde devia estar o cérebro robotizado.
Ao se rematerializar, pensou ter cometido algum engano. Estava de novo naquele lugar onde havia descido a primeira vez, ao sair da Drusus. A poucos metros atrás dele, estava o rochedo, sob cuja proteção ele dormira cinco horas. Havia só uma diferença: o sol caminhara mais para frente, caindo para o horizonte.
Gucky reconheceu que havia calculado mal seu salto. O cérebro positrônico não poderia estar escondido sob o solo. Sentia também a falta do envoltório de proteção, e o próprio espaçoporto estava muito diferente. Aquilo que se via lá próximo da planície era apenas uma amostra do verdadeiro campo de pouso.
Planície? Nas imediações do cérebro robotizado não havia nenhuma elevação.
O rato-castor começou a lamentar não ter nenhuma ligação com a Drusus. Não tinha ninguém a quem pedir uma informação ou um conselho. Estava sozinho, só podendo contar com as próprias forças. Enfrentava uma situação onde não podia fazer nada.
Sentiu, de repente, impulsos de pensamento que se avolumavam e, instintivamente, se agachou. Uma sombra rápida varreu a paisagem árida da rocha. Era um pequeno avião, e — como Gucky observou — só com o piloto.
Gucky levou somente um segundo para se decidir. Concentrou-se no arcônida sentado na direção e o obrigou a descer. Pela própria mente do homem, ficou a par do painel de instrumentos, podendo manejá-los. Telecineticamente, e fazendo uso de toda essa força, conseguiu mover o braço e a mão do piloto conforme sua vontade.
O homem aterrissou sem saber o que estava fazendo. Gucky ficou esperando em seu esconderijo até que o rapaz saiu da pequena cabina e começou a olhar de todos os lados para o avião, sem compreender o que acontecera. Ao que tudo indicava, não estava entendendo o que o obrigara a descer. Gucky lia seus pensamentos e ficou inclusive sabendo que se tratava de uma alta patente da frota de Árcon.
O rato-castor deixou seu esconderijo e se aproximou do piloto estupefato. Certamente poderia admitir a presença de um animal no planeta militar, mas nunca a presença de um animal fardado. Sua mão foi veloz para a coronha de uma arma de raios energéticos. Mas Gucky fez mais um truque, usando suas poderosas forças telecinéticas. Antes que a mão do arcônida atingisse a arma, esta voou para longe, caindo a uns cem metros de distância, no meio de grosso cascalho. O arcônida olhou na direção onde caiu sua arma, mas não se mexeu. Sua mão voltou lentamente para a posição normal e, espantado, começou a olhar Gucky.
Você não está percebendo nada? — perguntou, confiando no fato de que era conhecido por quase toda a Galáxia. — Desde quando se cumprimenta um aliado com a arma na mão? Ah! Você está preocupado por causa do pequeno avião? Não tenha medo, eu levo você lá para baixo.
O arcônida continuava imóvel, entendendo cada palavra que Gucky estava dizendo. Mas sua cabeça se negava a aceitar aquele animal como um ser inteligente. Os arcônidas conheciam Gucky, mas este aqui, não.
Conte-me agora tudo que se passou em Árcon III, depois que os acônidas desceram. Vamos, solte a língua. Queremos apenas ajudá-los. O Imperador Gonozal VIII anda muito preocupado, desde que as ligações com o planeta militar foram...
O arcônida exclamou, excitado:
Gonozal...?
Gucky ficou muito admirado. Seria o cúmulo que um oficial da frota arcônida não conhecesse o nome de seu imperador.
Gonozal, o imperador — repetiu Gucky.
Não sei de quem você está falando; também não sei quem você é — disse o oficial, dando uma olhada para sua arma que cintilava entre as pedras. — Quem é Gonozal?
As dúvidas de Gucky foram tomando corpo.
Será que os acônidas conseguiram destruir toda a memória dos arcônidas estacionados em Árcon III? Quem sabe o estranho envoltório de proteção tinha alguma coisa com isto? Então, o pobre oficial não era responsável pelo seu comportamento. E automaticamente se explicavam outros fenômenos.
Gucky não podia saber como estava enganado e que surpresas ainda viriam sobre ele.
Gonozal VIII é o Sereníssimo Imperador de Árcon — disse com muita cautela. — Há uns dias atrás, aterrissou neste planeta uma espaçonave esférica estrangeira, de pólos achatados. Sua tripulação armou um envoltório energético impenetrável em torno do planeta, destruindo, desde então, toda ligação com o império. Supomos que os acônidas querem isolar Árcon III, depois de paralisarem as funções do cérebro eletrônico.
Cérebro eletrônico? — repetiu o oficial, admirado.
Gucky estava sentindo as incríveis proporções da amnésia dos arcônidas. Esqueceram até o cérebro eletrônico, também chamado de regente robotizado! Resolveu não se aprofundar muito nestas coisas, para melhor penetrar na linha central de suas observações.
Mais tarde, vou lhe explicar quem sou eu e quem me mandou para cá. Responda-me primeiro umas perguntas. Quero saber que tipo de campanha está sendo preparada. Que raça é esta que foi descoberta há pouco tempo e que tem de ser destruída? Onde fica seu sistema pátrio?
O arcônida estava hesitante. Gucky então lançou mão de um truque comprovado e seguro. Por meio de seus dons telecinéticos bloqueou a circulação do sangue para o centro da vontade de seu quase prisioneiro. A partir daí, o arcônida iria pensar com clareza, mas não teria mais o controle sobre sua vontade e falaria francamente o que estivesse pensando.
Uma espaçonave de colonizadores, uma destas de pólos achatados, nos falou de uma raça humanóide, terrivelmente guerreira. As belonaves desta raça chegaram até Árcon e são o maior perigo para nós. Temos de dominá-los, ou melhor, aniquilá-los. Não sei com exatidão as coordenadas deste sistema inimigo, mas sei que se trata do terceiro planeta de um pequeno sol.
Podia ser mera coincidência, mas um sentimento inexplicável dizia a Gucky que este terceiro planeta era a Terra.
Mas a Terra não tinha sido descoberta tão recentemente assim! Os contatos entre Terra e Árcon datavam de quase cento e cinqüenta anos. No entanto...
Quem é Metzat?
O oficial inclinou a cabeça automaticamente e respondeu em tom solene:
Metzat III é o Sereníssimo Imperador de Árcon. Governa sábia e honestamente, e suas decisões são tão infalíveis que...
Bobagem! — interrompeu-o Gucky. — Imperador de Árcon é Gonozal VIII e nenhum outro.
O oficial olhou espantado.
Não pode haver dois imperadores para uma mesma nação.
Isto mesmo — disse Gucky, dando-lhe razão.
E começou a pensar que, com este oficial, não ia conseguir muita coisa, pois não sabia mesmo quase nada. Gucky não chegara ainda à pergunta vital, que seria a chave de tudo.
Quem é você? — perguntou finalmente o arcônida. — A que raça pertence você?
Sou Gucky, do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Nunca ouviu falar destes nomes?
Não! — respondeu com toda sinceridade o oficial.
Gucky se resignou:
Dê-me sua mão que eu vou levá-lo até o espaçoporto. Se você for andando, ficará com os pés cheios de bolhas. Seu avião não voa mais. Vamos! A teleportação não é coisa confusa!
O arcônida não estava muito claro. Pelo menos já tinha ouvido falar em teleportação. Seus pensamentos a respeito eram muito confusos. E o rato-castor certificou-se disto, quando pegou a mão dele e pulou.
Rematerializaram-se no mesmo edifício onde Gucky já estiver a ouvindo o que se passava em seu interior. Com mais um salto, levou-o para o recinto onde estavam aqueles três ou quatro oficiais conversando. Infelizmente, no momento, o local estava vazio. Aquele grupinho, que falava entusiasmado a favor do Imperador Metzat ou do comandante da frota, Gagolk, já o havia deixado há algum tempo.
O piloto, horrorizado, largou a mão de Gucky.
Meu Deus! Aqui é o conselho de guerra de Sua Majestade! Se entrarmos sem permissão expressa, seremos punidos severamente. Não sei não...
O que você sabe então? — perguntou Gucky, enquanto contemplava o grande mapa sideral na parede.
Tal mapa, feito por meio de uma infinidade de espelhos complicados, dava uma visão em 3D, facilitando muito a orientação no espaço. Via-se muito distintamente o sistema arcônida, uma aglomeração de estrelas refulgentes. Depois havia um espaço vazio, poucas estrelas. Gucky estava procurando a Terra ou pelo menos o nosso Sol.
Pouco sabia de Astronomia, mas por meio dos sistemas, que já conhecia de tantas viagens com Perry Rhodan, foi tomando a direção certa. Deu com o nosso Sol, facilmente reconhecível pela presença dos nove planetas. O terceiro planeta estava assinalado com uma seta vermelha.
Gucky ficou parado, contemplando o mapa gigantesco. Fixava-se principalmente na pequena Terra. O oficial arcônida, cujos pensamentos Gucky estava controlando, aproximou-se. Seguindo o olhar de Gucky, disse de repente, com muito entusiasmo, como se lembrasse subitamente de algo esquecido:
Aí está ele! Este é o planeta, objetivo de nosso empreendimento. Dentro de dois dias, nós o subjugaremos ou destruiremos toda sua população.
Gucky não tinha mais dúvidas a respeito, mas de qualquer maneira a confirmação ingênua do oficial arcônida lhe causou um impacto.
Que coisa inaudita! Os arcônidas, aliados do Império Solar, iriam atacar seus amigos. E o pior, iriam fazê-lo inconscientemente. A memória deles havia sido substituída por uma outra totalmente artificial.
Ou será que havia outra explicação?
Virou-se para ele:
Muito bem, então é aquele pequeno planeta, não é?
Sabia que era inútil dizer a verdade àquele oficial. No estado em que estava, não iria aceitá-la.
Você pode dizer onde se encontra a nave dos colonizadores que lhes falaram a respeito desta raça recém-descoberta?
Está aqui no hangar subterrâneo — foi a pronta resposta, talvez contra a própria vontade do arcônida.
Seu nome é Tanor, como posso ler no seu pensamento — não deu maior importância ao rosto admirado do jovem oficial. — Descreva-me bem o hangar para que eu o possa achar. Você virá comigo.
Não! É proibido se aproximar desta nave e, além disso, está envolta num manto de proteção energética.
Vamos tentar — insistiu Gucky. Começou a cismar: acontecera algo muito mais complicado do que até então imaginara. Não havia dúvida de que não somente os arcônidas, mas todo o planeta sofrerá uma terrível alteração. Neste local é que estava antigamente o cérebro positrônico. E agora, o que havia aqui? Instalações de um miserável espaçoporto que não tinha nenhuma comparação com o que existia antes.
Dê-me sua mão!
A descrição de Tanor fora perfeita. Rematerializaram-se num amplo corredor, a mais de duzentos metros abaixo do solo.
Em longas filas, em compartimentos fechados, alinhavam-se naves pequenas e médias. Não restava nenhuma dúvida de que todas elas estavam preparadas para partir. Não estavam ainda abertas as grandes comportas do teto da galeria, por onde as naves sairiam para atingir a atmosfera de Árcon III. Por toda parte se viam equipes técnicas. Gucky, então, puxou o oficial para sob uma nave esférica, cujas escotilhas acabavam de se fechar.
Onde estão os colonizadores?
Mais para frente. Ainda não se vê a barreira daqui.
Então vamos. E se alguém nos detiver, invente uma boa desculpa. Diga a eles que eu sou o embaixador de Xerxes IV e que não sei onde fica o país deles. Diga também que estamos aqui a serviço especial do imperador.
Tanor não discordou. Mas Gucky “sentiu” que ele estava aguardando a primeira oportunidade para se descartar de companhia tão esquisita. Isto não teria maior significado, pois Gucky já recuperara cem por cento as suas faculdades parapsicológicas e se achava em forma para escapar sem ajuda. O que lhe interessava mesmo era saber o que se tramava aqui.
Encontraram outros arcônidas, mas todos de hierarquia mais baixa e não foram molestados. É verdade que os olhares curiosos se detinham neles, mas ninguém ousava falar com Tanor, que, pelo tipo de uniforme, devia ser major. Sem serem detidos uma só vez, chegaram, depois de uma virada para a esquerda, aos grandes acumuladores de energia dos “colonizadores”.
Diante da barreira energética estavam dois guardas com armas pesadas. Gucky percebeu logo de estalo que eram acônidas, muito parecidos, aliás, com os arcônidas. Não tinham, porém, os cabelos esbranquiçados e os olhos avermelhados. A expressão do rosto era de descontração e de um orgulho sereno. No fundo, um tanto velada pelo envoltório de proteção, jazia a misteriosa nave, de pólos levemente achatados.
Gucky puxou Tanor para um dos boxes. Daí, podia observar os dois guardas, sem ser observado. Antes de começar a conversar com eles, iria tentar “escutar” tudo que havia de útil na cabeça deles. Tanor mostrava-se nervoso.
Estão me esperando já há muito tempo. O que será se notarem meu desaparecimento ou se encontrarem o avião abandonado?
Gucky pensou um pouco. Não ia precisar mais do oficial.
Você pode ir embora, mas será bom que não mencione minha presença, ouviu?
O rato-castor fez-lhe um gesto de despedida. Estava tranqüilo de que não seria traído.
Aliviado por ter atingido, depois de tanto sacrifício, seu objetivo, deitou-se no chão para captar o fluxo mental dos dois guardas acônidas.
Seus impulsos eram fortes e por isto fáceis de serem recebidos. No entanto pareciam formar um caos, com o que Gucky não sabia o que fazer. Os dois não tinham bons conceitos sobre os arcônidas, julgando-os uma raça de aventureiros. Um deles começou a pensar intensamente em se alimentar, o que fez com que Gucky se lembrasse de que não comia há mais de um dia. Aqui embaixo, não seria difícil conseguir alimento, pois havia bastante material estocado para embarque. Mas não era isto que o preocupava no momento.
Gucky estava ficando impaciente. Por que razão não estavam pensando no que tramaram com os arcônidas? Se eles continuassem pensando só em coisinhas supérfluas, teria que mudar de tática, mesmo que fosse obrigado a se mostrar... Gucky tomou então uma decisão! Fez uma cara de inocente e saiu de seu esconderijo. Usou a telecinese nas travas dos dois fuzis: as armas não iam disparar. Ao mesmo tempo, ficou atento aos impulsos mentais dos dois acônidas, que se voltaram em sua direção. Não viam nele nenhuma ameaça. A grande nave continuava resguardada sob o manto cintilante de proteção, que era interrompido somente atrás dos dois sentinelas.
Gucky ouviu passos às suas costas. Deviam ser os arcônidas ultimando os preparativos para a decolagem. A sensação de fome aumentou em Gucky.
Tinha que provocar os acônidas a pensar em suas intenções, do contrário não conseguiria nada. Uma conversa direta parecia sem sentido, porque acabaria mostrando seus dons parapsíquicos. Os acônidas eram inteligentes demais para se deixarem levar por pequenos truques. Uma palavra a mais e estaria tudo perdido.
Vim aqui enviado pelo Major Tanor — disse num arcônida cristalino, mantendo-se a uma boa distância dos dois acônidas. — Manda perguntar se os senhores desejam alguma coisa.
Um dos guardas baixou a arma, olhou um pouco enfastiado para o rato-castor, sem lhe dar nenhuma atenção. Gucky, lendo sua mente, soube que ele o julgava um simples criado ou servente — como era uso nas casas dos arcônidas mais ricos; um animal doméstico inteligente era mais interessante do que um robô. O outro pensava a mesma coisa, mas pelo menos se dignou dirigir-lhe a palavra:
Se tivermos algum desejo especial, o seu major poderá saber através do imperador. Pode ir embora.
Depois de fazer uma estranha reverência, Gucky se retirou. Agachou-se no boxe mais próximo e se concentrou para captar todos os impulsos. Os dois sentinelas, levados pelo incidente, começaram a conversar em voz baixa. Mas mesmo que não tivessem falado, os pensamentos revelariam...
Assim foi que nos próximos trinta minutos Gucky ficou sabendo de tudo. A verdade foi-lhe chocante. Ficou paralisado no seu esconderijo, esquecendo-se de onde estava e não sentindo mais a fome que o atormentava. Sabia agora do que era composta a barreira energética, que circundava o planeta Árcon III. Compreendeu, então, a repentina e absurda alteração sofrida pelos arcônidas e sua intenção estúpida de atacar ou destruir a Terra.
Começou a perceber a fabulosa técnica que os acônidas haviam desenvolvido e com que determinação perseguiam seu objetivo. Consideravam a Humanidade altamente perigosa e daninha, tendo, pois, que ser aniquilada. Só uma coisa Gucky não chegou a esclarecer bem: por que motivo a Humanidade era tão perigosa assim?
A nave dos acônidas abrigava um gerador que produzia um plano temporal regulável. Este plano ou campo temporal envolvia todo o planeta e o transpunha para qualquer época do passado. Os cientistas acônidas trabalharam muitos séculos nesta invenção, mas jamais conseguiram fazer com que este campo temporal fosse transposto para o futuro. No entanto, o passado era muito fácil de ser atingido.
Aquela nave acônida era um transformador do tempo. Por meio deste invento diabólico, os acônidas recuaram o planeta Árcon III por quinze mil anos. Não era portanto, de se estranhar que o cérebro positrônico não mais funcionasse, pois há quinze milênios ele, simplesmente, ainda não existia. O planeta militar já era habitado por arcônidas capacitados e ambiciosos que tinham apenas um objetivo: aumentar cada vez mais seu império, afastando do caminho todos os possíveis inimigos.
A idéia era pois muito simples. Os acônidas transpuseram Árcon III para quinze mil anos atrás. Naquele tempo reinava o Imperador Metzat III. Apresentando-se como colonizadores dos arcônidas, justificando assim a pequena diferença racial, falaram do descobrimento de uma nova raça de humanóides: os terranos. Não lhes foi assim difícil convencer Metzat do enorme perigo que representava a nova raça terrana. O imperador determinou, então, atacar a Terra, como o teria feito há quinze milênios atrás, caso estivesse diante das mesmas circunstâncias. Ordenou a seus oficiais que preparassem a frota. Dentro de dois dias, aproximadamente trinta mil unidades, grandes e pequenas, haveriam de cercar a Terra, obrigando a população a desistir de qualquer resistência e... destruiriam assim seu inimigo número um, podendo depois viver em paz.
Rhodan tinha de ser posto a par desses fatos imediatamente. Mas como?
O campo temporal que circundava Árcon III parecia fazer uma distinção palpável entre luz e matéria. Da superfície do planeta se podia ver o sol, mas do espaço não se via a superfície. Nenhuma matéria conseguiria, pois, penetrar do espaço para o planeta.
A questão agora era: como seria o contrário? Será que ele, Gucky, podia se teleportar de Árcon III para a Drusus? Não contaria com o apoio do transmissor fictício, não havia possibilidade de comunicação. Até mesmo os impulsos mentais eram detidos pela barreira temporal.
Gucky estava preocupado. Como se daria a partida da grande frota? Se os acônidas desligassem o campo temporal por algum tempo, o planeta voltaria para o presente? Caso não desligassem, nenhuma nave podia abandonar a superfície de Árcon III, sem se espatifar contra o envoltório de proteção.
Havia ainda muitas outras perguntas. Mas quem as responderia?
Não, não teria nenhum sentido procurar se encontrar com Metzat III. Como é que ele, Gucky, poderia explicar toda aquela complicação ao imperador? Para Metzat, o passado era o seu presente, a realidade do momento. De que maneira iria ele aceitar os fatos reais, se realmente já estava morto há milênios?
Seria também inútil querer, sozinho e sem auxílio, interromper o funcionamento do transformador do tempo. Gucky sabia não possuir os conhecimentos técnicos suficientes para isto. Uma alteração multidimensional do tempo era algo grande demais para a simples razão compreender. Além disso, o processo devia estar sujeito a certas limitações, do contrário os acônidas tê-lo-iam experimentado diretamente na Terra, procurando aplicar por lá o recuo do tempo. Provavelmente, a nave portadora do transformador do tempo teria que aterrissar no respectivo planeta para aí operar. E isto seria praticamente impossível acontecer na Terra, sem imediatamente chamar a atenção de todos.
Por fim, Gucky tomou sua resolução. Teleportar-se-ia para a superfície, isto é, para o prédio da administração, onde residia Metzat III. Depois de procurar um pouco, encontrou o recinto com o gigantesco mapa sideral. Estava fechado e por isso achou o lugar seguro. Se entrasse alguém, teria tempo de fugir.
Sentiu novamente uma fome terrível, lembrando-se de que fazia muito tempo que não se alimentava. A sede também era grande. Mas o problema de entrar em contato com Rhodan era muito mais premente. Lentamente começou a fazer a triagem daquela multidão de impulsos que estava recebendo, deixando de lado os mais fracos, já que sua origem devia ser muito distante. Os mais fortes vinham certamente do próprio edifício. Não lhe foi difícil descobrir as vibrações do Major Tanor e das pessoas que conversavam com ele.
Para surpresa de Gucky, os interlocutores de Tanor não era nem Metzat, nem Gagolk, mas um outro major, comandante de um pequeno aparelho de telerreconhecimento. Tanor lhe estava dando uma ordem e acrescentava:
...não se esqueça de que é preciso agirmos rapidamente. Você vai partir daqui a dez horas, tentando estar de volta amanhã. E nos informe se há de fato um planeta com humanóides que tencionam atacar Árcon e conquistá-lo.
Fique tranqüilo, major, estou ciente de minha missão.
Seguiram-se alguns fragmentos de pensamentos, dando a entender que o major já havia se retirado do recinto, pára se ocupar com a partida iminente de seu aparelho.
Os acônidas não tinham, pois, nada contra que Metzat enviasse uma de suas naves para se convencer da existência da Terra e de suas intenções. Isto era de fato interessante, ao mesmo tempo lógico e compreensível. Os esforços de Metzat aumentariam, quando sentisse, pela comprovação dos fatos, a necessidade de sua cooperação.
Gucky localizou mentalmente a posição de Tanor e se teleportou. O major arcônida levou um grande susto, quando viu materializar-se diante dele o rato-castor. Sua mão correu para a cartucheira. Mas se lembrou de que deixara a arma no planalto. Gucky foi logo dizendo:
Que pensa o imperador? Vai mandar mesmo uma nave de reconhecimento?
Ele quer averiguar se os colonizadores estão falando a verdade.
Gucky sabia que Metzat não podia agir de outra maneira. Teria feito a mesma coisa há quinze mil anos atrás, se estivesse nas mesmas circunstâncias. Seria igualmente sem sentido dizer a verdade a Tanor. O melhor que podia fazer era sair dali o quanto antes. Mas como? E a muralha energética...
De repente, a venda como que lhe caiu dos olhos. E ali estava ele procurando uma saída, sem perceber que tal saída já estava pronta há mais tempo.
A nave de reconhecimento! Era este o caminho! Quando ela decolasse, tinha que romper a barreira de proteção. Certamente os acônidas a abririam pelo tempo necessário. Quem é que o notaria? Os arcônidas, que nem perceberiam estes poucos segundos? Ou os acônidas que viviam presos ao verdadeiro presente?
Gucky desistiu de continuar com seus pensamentos. Sabia que não havia resposta para todas estas perguntas.
Desapareceu antes que o boquiaberto major se tivesse recuperado do susto inicial e pudesse responder. Rematerializou-se bem no meio dos depósitos de gêneros sortidos, que estavam sendo embarcados nas unidades da frota, mais ou menos a cem quilômetros do transformador do tempo.
Com toda calma, começou a revirar o grande estoque de víveres até encontrar verduras enlatadas. Não comeu com muito apetite, pois preferia sempre coisas frescas. Descobriu depois umas garrafas bojudas. Bebeu um pouco, era uma espécie de vinho. Após consultar o relógio, ainda tomou mais um gole. Acabou “esvaziando” a garrafa...
4



Já há algumas horas, a Drusus estava parada no espaço, seguindo a rotação de Árcon III. Dirigia seus instrumentos para o local da superfície do planeta, onde fora construído o cérebro positrônico.
De Árcon I chegaram outras notícias nada alentadoras. Atlan informava a Rhodan que uma das colônias mais fiéis de Árcon aproveitara a ocasião para atacar e destruir os robôs indefesos.
O império está ameaçado de um caos total, se não pudermos agir imediatamente — sentenciou o Imperador Gonozal VIII.
Rhodan tentou acalmar Atlan, dizendo-lhe que Gucky não demoraria a voltar de sua missão e esclarecer tudo. Então se saberia o que estava se passando em Árcon e por que razão o cérebro positrônico deixara de funcionar.
Mas Gucky estava demorando muito, e Rhodan não podia adivinhar que residia nesta longa espera a salvação de todos.
O General Deringhouse passara o comando ao Major Gorm Nordman e fora dormir. Rhodan continuava ainda na central de comando. Não estava cansado, apenas muito preocupado. A seu lado, encontrava-se o telepata John Marshall, que tentara infrutiferamente entrar em contato com Gucky.
Nada, senhor! Absolutamente nada! — dizia Marshall, balançando a cabeça desesperado. — Nenhum impulso de pensamento sai de Árcon III. O envoltório de proteção não deixa nada passar. Nem podemos saber se Gucky realmente chegou lá.
Rhodan consultou o relógio.
Vamos esperar ainda meia hora, depois faremos outra tentativa com o transmissor fictício. Desta vez mandaremos uma câmara automática de televisão para Árcon III. Temos que saber o que se passa por lá.
Nordman apontou de repente com o máximo de excitação para a tela panorâmica.
Uma nave, sir, passou através do envoltório energético!
Percebia-se a pequena nave esférica que penetrava no espaço com velocidade relativamente pequena. Não restava dúvida de que se tratava de uma nave arcônida, do tipo comum, mas havia pequenos detalhes que provocavam qualquer confusão. O próprio Rhodan não sabia como explicar o pequeno rebordo central dos motores de propulsão. Achava-os pequenos demais. Mas não havia tempo para se pensar nisto agora.
Identificação pelo rádio! — gritou ele para o radiotelegrafista de serviço. — Depressa, por favor!
Depois, se dirigindo a Nordman:
Siga a nave e não a perca de vista. Parece que fugiu e deve ter rompido a barreira de proteção. Temos que saber como isto foi feito.
Nordman corrigiu a rota da Drusus, mas antes de ter iniciado a perseguição da nave estranha, que não reagia aos contatos pelo rádio, Gucky se rematerializou no posto de comando.
Deixe-a ir embora! — disse ofegante. Pulou para o sofá para se encostar um pouco e descansar.
Poupem este trabalho, é apenas um peixinho insignificante que não vale a pena ser pescado. Os grandes peixes estão ainda parados em Árcon III, por exemplo os acônidas e o Sereníssimo Imperador Metzat III, cujos planos ousados vão deixar vocês de boca aberta.

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