2
A Drusus
descera em Árcon I, sem nenhum incidente. As naves robotizadas de
patrulhamento não fizeram qualquer intimação, a fim de pará-la ou
de fazê-la identificar-se. Isto queria dizer simplesmente que
qualquer outra nave também podia voar para Árcon e aí aterrissar,
sem ser molestada.
Os dois
homens estavam sentados frente a frente no Palácio de Cristal. A
sede do governo era bem vigiada por oficiais arcônidas de confiança.
Aqui não corriam perigo.
— A
situação — dizia Atlan — é simplesmente desesperadora.
Rhodan
protestou, fazendo o possível para não admitir o ponto de vista de
seu amigo. Na realidade, era muito difícil não dar razão a Atlan.
O grande erro dos arcônidas foi ter confiado todo o peso do governo
daquele imenso império ao infalível cérebro positrônico.
Será que
este cérebro onisciente e onipresente fora mesmo bloqueado pelos
acônidas? Por que motivo não reagiu contra esta violação?
— Não
vai ficar assim não, Atlan. Vamos atacar e vamos começar por Árcon
III. Já obtivemos uma vitória semelhante...
— ...mas
sob condições muito diferentes — acudiu Atlan imediatamente. —
Temos que enfrentar agora um adversário, sejamos sinceros, que nos é
infinitamente superior. Se os acônidas são realmente os
antepassados dos arcônidas e, perante eles, nós não passamos de
colonizadores degenerados...
— Aí
está o ponto onde nós nos enroscamos — interveio Rhodan. — Eles
menosprezam vocês do mesmo modo como menosprezam também a nós. É
certo que eles dominam uma tecnologia muito mais evoluída que a
nossa e não podemos mesmo saber o que aprontaram com o cérebro
robotizado. Mas nós possuímos uma coisa que eles não possuem nem
conhecem.
Atlan
esticou o pescoço para frente.
— E o
que é?
— Nossos
mutantes! — disse Rhodan, sorrindo um pouco. — Se nós não o
conseguirmos com a Drusus, consegui-lo-emos com os mutantes.
— É,
mas eles não são super-homens — acrescentou Atlan.
— É
verdade, mas dispõem de dons que são completamente desconhecidos
pelos acônidas.
— Quando
que você pretende atacar?
— Amanhã.
Houve um
longo silêncio. Depois Rhodan retomou:
— Mas
você não vai se preocupar com isto, pois eu creio que terá muita
coisa que fazer: a manutenção da ordem. Faça com que, onde estão
estacionadas as naves robotizadas, os arcônidas assumam o comando.
Principalmente nos pontos-chave, as naves tripuladas devem substituir
as robotizadas. Só assim podemos evitar maiores danos. Enquanto o
hiper-rádio estiver funcionando, não haverá razão para maior
cuidado.
— É —
disse Atlan, com ironia — não há mesmo motivo para cuidados,
muito obrigado.
— Bem,
meu amigo — disse Rhodan se levantando — arranje-me para amanhã
alguns encouraçados. Quero atacar com um bom número de naves. O
envoltório de proteção terá de estourar.
— Desejo-lhe
muita sorte e... tenha cuidado, Perry!
O tom de
voz de Atlan exprimia simpatia e um cuidado sincero. Rhodan lhe era
grato por isto, embora não o desse a perceber. Houve um aperto de
mão e os olhos se cruzaram com firmeza.
Cada um
sabia o que tinha a fazer, mas tudo que fizessem só teria um
objetivo comum: rechaçar o inimigo e afastar o terrível perigo de
uma iminente escravização dos povos de Árcon e da Terra.
*
* *
Depois de
três ataques fracassados contra o misterioso envoltório energético
de Árcon III, Rhodan desistiu. Mandou de volta as naves arcônidas e
ordenou a Deringhouse que circunvoasse com a Drusus, a uma boa
distância, o planeta bloqueado. Depois reuniu os mutantes para um
conselho de guerra na sala de seu setor.
Foram
convidados para tomar parte nesta reunião, além dos mutantes, o
chefe dos matemáticos da Drusus, Dr. Louis Renner, e o oficial-chefe
de segurança, Capitão Marquardt. Mais tarde, chamaram também o
Capitão Markowsky, responsável pela central de armamentos.
No fundo,
estranhamente calado e encolhido num almofadão, achava-se o
rato-castor Gucky. Sabia o que estava para vir e não tinha muita
vontade de fazer parte dessa aventura melindrosa. Os acônidas eram
para ele seres horríveis. Talvez chegasse a temê-los.
Com um
respeitoso aceno de cabeça, Rhodan cumprimentou os homens ali
reunidos.
— Como
vocês sabem, até agora nada conseguimos. Mas temos de romper a
barreira. Não nos utilizamos ainda de todas as nossas armas. A
violência foi nula; então empregaremos outros meios. Capitão
Markowsky, chamei-o para lhe perguntar o seguinte: como está o
transmissor fictício?
Markowsky
era de constituição franzina. O misterioso transmissor estava sob
sua tutela.
— Pronto
para ser usado. Mas o senhor não vai querer...?
Parou no
meio da frase, apavorado. A idéia lhe parecia horrível.
— Mais
ou menos isto — disse Rhodan adivinhando seu pensamento. — Mas só
em caso de necessidade, em última hipótese.
Olhou em
volta e seus olhos se detiveram em Ras Tschubai.
— Você
acha temerário teleportar-se para Árcon III, Ras?
O africano
suportou o olhar penetrante de Rhodan. Deu de ombros, e logo depois
respondeu:
— É
difícil dar uma resposta exata. Teria que experimentar...
Era o
jeito típico de Ras Tschubai. Naturalmente, sabia, ou ao menos
imaginava, quão perigoso devia ser um pulo de encontro a uma muralha
energética daquele tipo. Juntava-se a isto o fato de que o próprio
Rhodan não acreditava muito no sucesso da operação, pois, do
contrário, não indagaria sobre a utilização do transmissor
fictício. Este transmissor tinha a peculiaridade de desmaterializar
objetos trazidos ao seu campo de ação e rematerializá-los num
outro ponto, determinado com exatidão. Por exemplo: podia-se
transportar para dentro de uma espaçonave uma bomba atômica, sem se
expor ao menor perigo. É claro que também as pessoas poderiam ser
transportadas dessa forma.
— Não
posso, nem devo expor você a um risco tão grande — disse Rhodan,
em voz pausada. — Sei que o fará, mas a responsabilidade fica
comigo...
— Acho
que devemos experimentar, do contrário jamais poderemos ter certeza
se conseguiremos ou não penetrar nesta muralha misteriosa. Agora,
que vamos fazer se não o conseguirmos? — argumentou Markowsky.
— Isto
vamos ver ainda — respondeu Rhodan, olhando para Gucky. — Quem
sabe, um teleportador, com o auxílio do transmissor fictício, terá
mais possibilidade? Não sei, porém, ainda de que maneira o vamos
apanhar de volta.
Gucky não
fugiu dos olhos de Rhodan, que o examinavam a fundo. Se Ras Tschubai
se arriscava, ele não queria ficar atrás.
— O
campo energético também não deixa passar os impulsos telepáticos
— constatou Gucky. — Dá a impressão de não haver nenhum ser
pensante em Árcon III, embora não seja este o caso. Mas, mesmo que
os impulsos mentais não consigam romper a muralha, um teleportador o
poderá fazer, com ou sem o transmissor.
— Obrigado,
Gucky — disse Rhodan. — Mas antes de mandar você, Ras Tschubai e
Tako Kakuta devem experimentar. Os dois juntos.
*
* *
E a
tentativa fracassou!
Os dois
teleportadores se concentraram para o salto, desmaterializaram-se
e... um segundo depois, estavam de volta. Durante o salto,
chocaram-se contra uma barreira invisível e não identificável e
foram rechaçados. Materializaram-se no mesmo local de onde partiram.
— Aliás
— observou Ras Tschubai, muito transtornado — não sentimos
nenhuma dor. Apenas não conseguimos atravessar, e nada mais. Não é
um envoltório de proteção no sentido comum. Deve ser outra coisa,
bem diferente...
Kakuta
confirmou as palavras do africano. Embora não sentisse dor, não
tinha coragem de fazer outra tentativa.
Gucky, que
ouvira tudo com interesse, disse em voz baixa:
— Estou
com receio de que agora seja minha vez. O mais importante é que o
transmissor fictício seja acionado exatamente no momento em que eu
pular. Somente assim podemos obter o efeito desejado.
Depois,
olhando para Rhodan:
— Não
me sinto muito bem nesta experiência.
Rhodan se
inclinou para ele.
— Compreendo-o,
meu amigo. Acredite-me que usaria de outro meio, se existisse. Mas
infelizmente não nos resta outra solução. Embora o transmissor
funcione, você tem que ir, pois é o único que tem os poderes da
telecinese, da telepatia e da teleportação. Se existe alguém, que
pode voltar incólume, este alguém é você. Não vamos ter contato
um com o outro e só poderá contar consigo mesmo. Muita cautela,
cuide-se. Não se esqueça de que nosso destino depende do sucesso de
sua missão.
Rhodan
coçou suavemente o pelo de Gucky e sua voz mudou de tonalidade,
quando lhe sussurrou:
— Nossos
pensamentos o acompanham e depositamos em você votos de total
confiança. E se lhe acontecer alguma coisa...
Todos
sabiam que as palavras de Rhodan não iam adiantar muito, se
realmente lhe acontecesse algo e o rato-castor não voltasse. Então
nada mais haveria, e não somente Árcon, mas também a Terra,
estariam perdidos, e com isto, o futuro da Humanidade.
O Capitão
Markowsky já aguardava as últimas instruções no transmissor
fictício. A Drusus continuava circunvoando Árcon III, tendo se
aproximado, porém, um pouco mais do planeta. A misteriosa barragem
energética impedia a visão para sua superfície. Parecia que Árcon
III estava envolto por um vidro quase opaco.
Ouviu-se a
voz do General Deringhouse no alto-falante:
— Estaremos
atingindo o ponto determinado daqui a vinte segundos.
Rhodan
acenou para Gucky:
— É
isto, meu jovem, muita felicidade, amigo.
— Vou
precisar mesmo — foram as últimas palavras de Gucky, caminhando
com suas pernas curtas para o foco ativo do transmissor.
Portava o
uniforme especial e trazia uma pequena arma no cinturão. Fora disso,
contava mesmo é com seus dons parapsicológicos.
A mão de
Markowsky já se encontrava firme sobre a alavanca de acionamento.
Distância e capacidade energética estavam corretas. Bastava apenas
que abaixasse a alavanca, para que Gucky fosse lançado à superfície
de Árcon III.
— Ainda
cinco segundos — disse Rhodan levantando a mão. — Quatro...
três... dois... um... já!
Três
coisas aconteceram no mesmo momento: o braço de Rhodan abaixou, a
mão de Markowsky desceu a alavanca e Gucky se teleportou.
Passaram-se
dez segundos e Gucky não voltou. Devia ter conseguido.
3
Durante um
salto de teleportação, o corpo do respectivo mutante se
desmaterializava. Seus átomos se dissolviam para atingir o objetivo
distante, através do hiperespaço. Chegando ao destino, “reuniam-se”
e tomavam a forma inicial.
Quando se
saltava, tudo em volta desaparecia e, quase no mesmo instante, vamos
dizer, num décimo de segundo, alcançava-se o ponto determinado. O
que ficara entre o ponto de partida e o de chegada não tinha espaço
nem tinha tempo. Era o nada.
Desta vez,
porém, no campo energético do transmissor fictício, fora tudo
diferente. É verdade que ele se desmaterializou como sempre,
conservando, porém, a sensibilidade pelo decurso de um pequeno
segundo, quando então se chocou contra a barreira energética.
Flutuou num nada escuro, sentindo um estranho formigamento em todo o
corpo. Mas, antes que pudesse pensar a respeito, o campo energético
do transmissor o levou para frente e.... ele se desmaterializou
novamente.
Suas
pernas dobraram e tocou o chão. Nunca sentiu uma fraqueza tão
grande e um desejo louco de morrer ou pelo menos de dormir.
Aos poucos
a memória foi voltando e seu instinto de conservação fez com que
abrisse os olhos.
Lutando
contra o cansaço, arrastou-se uns metros até a sombra de um rochedo
e aí se estirou. O sol ia alto no firmamento, iluminando uma
paisagem que Gucky jamais imaginara no planeta militar de Árcon.
Devia ter descido em algum lugar, o qual ele desconhecia.
Árcon III
era o arsenal militar e o centro de formação espaçonáutica do
Império Arcônida. Aqui estavam os enormes estaleiros, onde eram
fabricados em série os supercouraçados, e os extensos quartéis,
com seus estabelecimentos de ensino. Havia ainda a Academia Militar,
para a formação de futuros oficiais, e o Instituto de Medicina
Espacial.
Gucky se
materializara num planalto. Embora estivesse à sombra do rochedo,
podia ver lá embaixo a planície que se estendia até o horizonte.
Via-se uma enorme extensão de campo, em forma retangular, para as
espaçonaves, cercada de grandes construções, porém, de pouca
altura. Existiam, também, campos cercados de arame para protegerem
os depósitos de material bélico e os galpões baixos. Sentinelas
armados iam e vinham em sua ronda. Não dava para Gucky
distingui-los. Homens ou máquinas?
No
espaçoporto, destacavam-se as grandes naves, geralmente com a
tradicional forma cilíndrica, preferida pelos arcônidas. Todo o
centro do espaçoporto vibrava, com um movimento desusado. Pequenos
flutuadores, operando à base de colchão de ar, riscavam as pistas
de um canto para o outro, levando armas e outros materiais para as
naves. Por toda parte havia uma pilha de coisas ao lado de cada nave.
Todas essas coisas eram transportadas pelos elevadores
antigravitacionais para o bojo insaciável das belonaves, prestes a
partir. Estava mais do que evidente que a frota se preparava para uma
importante ação.
Gucky se
sentia ainda muito fraco. Por ora não tentaria uma teleportação.
Não tinha fome, mas estava com muita sede.
Quem sabe
haveria água aqui por cima?
Depois de
observar que não havia ninguém nas proximidades, foi saindo do seu
esconderijo à sombra. Por uns instantes ficou pensativo, estranhando
muito que ainda houvesse terra inculta em Árcon III. Recordava-se de
que cada metro quadrado era bem aproveitado, não restando quase nada
da natureza primitiva...
A menos de
duzentos metros de onde estava, descobriu um pequeno regato de água
fresca, serpenteando ao longo de uma floresta. Mergulhou feliz a
cabeça na água e bebeu até quase estourar. Lavou-se e começou a
se sentir melhor. Agora nada mais o impediria de executar sua missão.
Só mais um pequeno repouso e estaria apto para saltar. Mas talvez
fosse melhor ouvir um pouco o pensamento do pessoal lá embaixo. Caso
ouvisse o que estavam comentando, poderia deduzir alguma coisa sobre
os acônidas.
Voltou
para o rochedo que lhe oferecia uma posição melhor. Depois se
concentrou para captar os pensamentos lá de baixo. Não conseguiu
nada. Eram tão fracos que não chegavam a fazer sentido. Já estava
ali tentando há uns dez minutos e não valia a pena insistir mais.
Talvez fosse bom dormir algumas horas. O esforço para penetrar na
terrível muralha de proteção o desgastara tanto, que a parte
telepática do seu cérebro não estava funcionando bem.
Provavelmente não conseguiria se teleportar e, muito menos ainda,
teria força para uma operação de telecinese.
Achou um
bom local no rochedo e se enroscou.
*
* *
Só pôde
saber quanto tempo dormira, consultando o relógio: cinco horas.
Desceu
mais uma vez até o regato e bebeu à vontade, voltando depois para a
beira do planalto. A situação no espaçoporto permanecia a mesma.
As naves continuavam a receber carregamento e verdadeiros exércitos
penetravam no seu bojo. Tudo indicava uma operação de grande
envergadura.
Esquisito!
Será que os arcônidas não davam a menor importância à
aterrissagem da nave acônida em seu solo? Será que nem perceberam
mais haver ligação com Árcon I?
Ou...?
Este “ou”
veio desencadear uma reação diferente em Gucky.
“Quem
estava dando as ordens agora eram os acônidas!”,
pensou. “E
quem sabe estavam ordenando aos próprios arcônidas que atacassem
Árcon I e Árcon II?”
E
prosseguiu mentalmente:
“Para
que então seriam necessários os grandes suprimentos? Alguma coisa
não estava dando certo!”
Desistiu
de ficar ali esperando fragmentos de pensamentos quase
imperceptíveis. Concentrou-se para atingir um edifício mais alto ao
lado do espaçoporto. Edifício este com um telhado plano, tendo,
porém, muitas saliências em forma de pequenas torres. Excelente
esconderijo.
O salto
foi bem-sucedido.
Uns passos
mais e o rato-castor estava bem protegido contra olhares curiosos.
Mas quem é
que iria olhar para o teto de um edifício de administração? Alguns
helicópteros estavam na outra extremidade. Eram bem diferentes dos
deslizadores de colchão de ar que Gucky estava acostumado a ver nos
espaçoportos arcônidas. Ou será que os acônidas...? Mas isto era
ridículo! Por que razão trariam eles seus próprios helicópteros?
Gucky se
julgava bem protegido no telhado do edifício. Mesmo com um bom
binóculo seria difícil localizá-lo. Sob seus pés, no interior
daquele casarão, deviam estar algumas centenas de pessoas. Não era
fácil coordenar a corrente de pensamentos que dali emanava. A
confusão fazia lembrar um enorme salão onde todos falam ao mesmo
tempo, sendo impossível separar as vozes.
Depois de
muito esforço, conseguiu selecionar alguns impulsos que pareciam ter
algum nexo. Provavelmente eram três ou quatro pessoas conversando,
pois o assunto tinha coerência. Deviam estar alguns andares abaixo,
um pouco à sua esquerda. Em caso de necessidade, podia fazer o
posicionamento exato do local e se teleportar para lá. Mas, para
quê?
Continuou
onde estava e tentou ouvir.
— ...
a frota partirá para duas voltas em torno de Árcon, alteza, não
podemos perder tempo. Proponho, pois, que as naves partam hoje mesmo.
— O
imperador sou eu e eu é que vou determinar a hora da partida,
Gagolk. Como é que você se atreve a querer me dar ordens? Você é
o comandante da frota porque eu o nomeei. Partiremos, pois, somente
dentro de dois dias, está bem claro?
Uma outra
voz disse:
— O
imperador tem sempre razão, Gagolk, embora sentimentalmente eu
esteja com você. O tempo é a coisa mais importante para nós. Nossa
maior força está no fator surpresa. Por outro lado, como podem os
novos-ricos deste mundo tão distante chegar à idéia de que nós
sabemos de sua existência? Acho, pois, que podemos confiar em Metzat
III.
— Por
mim!
— era a voz do tal Gagolk. — Você
já fez suas experiências com raças menos desenvolvidas. Tomara que
o comandante das colônias tenha dito a verdade. Seu relatório me
parece meio confuso.
— E
por que razões haveria ele de dar dados falsos?
— perguntou Metzat III, que se intitulava imperador.
Imperador?
Imperador de onde? Gucky ficou quebrando a cabeça com estas
interrogações e não conseguia compreender. Havia só um imperador
em Árcon, e este era Atlan, Gonozal VIII. Mas isto, ele ia ainda pôr
em pratos limpos. Mais tarde.
— ...nunca
as razões, alteza. Os dados estão certos, eu me responsabilizo por
isto. Vamos supor que os colonizadores se modificaram e hoje
apresentam meramente semelhanças físicas conosco, mas não podemos
nos esquecer de que eles foram vítimas, durante centenas e centenas
de gerações, de influências do meio ambiente. Sabemos que, depois
de cinco ou seis gerações, podem surgir raças bem diferentes da
primeira.
— Não
estou duvidando da origem destes colonizadores
— respondeu Metzat secamente e com muita incerteza. — Apenas
me pergunto o que eles pretendem fazer, se falaram a verdade. Não
demora e vamos saber de tudo isto, se estão mentindo ou não. Mas,
de qualquer maneira, a frota só partirá depois de amanhã. A nova
raça, que acabamos de descobrir, será dominada ou aniquilada. Esta
é a minha ordem, Gagolk.
— Saberei
cumpri-la, majestade.
Gucky se
desprendeu daquele emaranhado de vozes e mergulhou nos seus próprios
pensamentos.
O que
acabara de ouvir tinha aparentemente algum nexo, mas não deixava de
ser uma grande besteira. Não havia nenhum imperador com o nome de
Metzat III! Colonizadores também não haviam chegado nos últimos
tempos, nem se podia falar numa nova raça que a gente devia dominar
ou aniquilar. Além disso, Árcon III estava isolado por um forte
campo de proteção, pelo acônidas. Portanto, eram eles, os
acônidas, que estavam encenando toda esta comédia.
— Mas
por quê? — indagou a si mesmo.
Além de
tudo, Gucky podia constatar com cem por cento de certeza que aqueles
homens eram arcônidas e não acônidas.
O que que
estava se passando aqui?
Onde é
que ele, Gucky, se encontrava mesmo?
Isto aqui
não era o espaçoporto que ele conhecia de sua última viagem a
Árcon III. Era maior e mais moderno. Até as espaçonaves eram
diferentes.
Aí foi
que Gucky voltou sua atenção para as naves. Possuíam o mesmo
tamanho e a mesma conformação esférica. Mas só agora reparava que
o rebordo central dos conjuntos de propulsão era bem menor do que
nos outros aparelhos, como, por exemplo, na Drusus. Também não
havia os vãos livres para as peças de artilharia retrateis, e os
apoios telescópicos eram de outro tipo de construção, parecendo
mais pesados e mais fortes.
Gucky
reconheceu que, à primeira vista, estas naves podiam ser confundidas
facilmente com os pesados cruzadores dos arcônidas.
Mas com
isto, o mistério ainda não estava desvendado.
Antes de
prosseguir em suas investigações, queria dar uma olhada em Árcon
III. Podia muito bem ser que ele havia saltado exatamente sobre um
instituto militar, onde se estudavam manobras simuladas, com naves
mais antigas, de construção desconhecida para ele.
Concentrou-se
para um salto de milhares de quilômetros e se rematerializou num
terreno cercado com arame, entre pilhas de caixas e depósitos de
acessórios mecânicos. Sentinelas armados faziam a ronda. Gucky se
escondeu depressa num canto apropriado. Dali começou suas
investigações.
Primeiramente
se preocupou com os pensamentos dos guardas. Não percebeu nada de
extraordinário, a não ser que todos eles estavam com a idéia fixa
de uma campanha iminente. O Império Arcônida tinha que ser
ampliado. Surgira um novo adversário que era necessário eliminar.
Uma nova raça que ainda estava desenvolvendo a Cosmonáutica. Dentro
de dois dias a frota zarparia para subjugar o planeta-pátrio daquele
povo.
Gucky
balançou a cabeça horrorizado. Não entendia quase nada. Que
estaria acontecendo? Será que todos estavam loucos? Se houvesse uma
campanha contra alguma coisa, Atlan seria o primeiro a saber e Rhodan
também. Uma nova raça? Quem seriam eles?
Deu mais
um salto de teleportação, atingindo o lado noturno de Árcon III.
Desta vez, rematerializou-se entre duas naves esféricas, que
iluminadas por possantes holofotes estavam recebendo carga. Gucky
estranhou que a maioria dos trabalhos era feita por arcônidas e não
por robôs.
Por
arcônidas? Desde quando os arcônidas trabalhavam, pois quem fazia
tudo para eles eram povos subjugados? Desde quando começaram eles a
poupar seus robôs? Ou será que também aqui o cérebro
positrônico...?
Onde é
que se localizava mesmo o cérebro eletrônico?
O
inteligente animal procurou se orientar. Encontrava-se agora na parte
escura, em um espaçoporto jamais visto, embora acreditasse conhecer
bem Árcon III. Foi mais do que por acaso que levantou os olhos para
o céu estrelado, neste momento. Não conhecia bem as constelações,
mas alguns agrupamentos de estrelas ele guardara de cor. Vistas de
Árcon I, pareciam iguais. O mais familiar para Gucky era o círculo
polar. Como acontecia com a estrela Polar da Terra, estava quase no
zênite de Árcon I. Vista de Árcon III, ela devia encontrar-se bem
próxima do horizonte sul. Sua forma era inconfundível. Mesmo agora.
Mas quando
a localizou no armamento, Gucky se assustou. Não sabia a razão do
susto, mas a estrela lhe pareceu diferente. O círculo das cinco
principais estrelas parecia mais estreito e, ao menos aparentemente,
mais brilhante. Infelizmente não podia fazer comparações com
outros pontos luminosos ou constelações, por não tê-las bem
claras na cabeça. Mas bastava o círculo polar para lhe provocar
muitas dúvidas, tão fantásticas e doidas que acabou desistindo de
fazer conjeturas com as estrelas.
De
qualquer maneira chegara a uma conclusão: tinha de executar sua
missão com mais cautela e mais ceticismo, do que até então.
Usando de
sua boa memória, teleportou-se para o local onde devia estar o
cérebro robotizado.
Ao se
rematerializar, pensou ter cometido algum engano. Estava de novo
naquele lugar onde havia descido a primeira vez, ao sair da Drusus. A
poucos metros atrás dele, estava o rochedo, sob cuja proteção ele
dormira cinco horas. Havia só uma diferença: o sol caminhara mais
para frente, caindo para o horizonte.
Gucky
reconheceu que havia calculado mal seu salto. O cérebro positrônico
não poderia estar escondido sob o solo. Sentia também a falta do
envoltório de proteção, e o próprio espaçoporto estava muito
diferente. Aquilo que se via lá próximo da planície era apenas uma
amostra do verdadeiro campo de pouso.
Planície?
Nas imediações do cérebro robotizado não havia nenhuma elevação.
O
rato-castor começou a lamentar não ter nenhuma ligação com a
Drusus. Não tinha ninguém a quem pedir uma informação ou um
conselho. Estava sozinho, só podendo contar com as próprias forças.
Enfrentava uma situação onde não podia fazer nada.
Sentiu, de
repente, impulsos de pensamento que se avolumavam e, instintivamente,
se agachou. Uma sombra rápida varreu a paisagem árida da rocha. Era
um pequeno avião, e — como Gucky observou — só com o piloto.
Gucky
levou somente um segundo para se decidir. Concentrou-se no arcônida
sentado na direção e o obrigou a descer. Pela própria mente do
homem, ficou a par do painel de instrumentos, podendo manejá-los.
Telecineticamente, e fazendo uso de toda essa força, conseguiu mover
o braço e a mão do piloto conforme sua vontade.
O homem
aterrissou sem saber o que estava fazendo. Gucky ficou esperando em
seu esconderijo até que o rapaz saiu da pequena cabina e começou a
olhar de todos os lados para o avião, sem compreender o que
acontecera. Ao que tudo indicava, não estava entendendo o que o
obrigara a descer. Gucky lia seus pensamentos e ficou inclusive
sabendo que se tratava de uma alta patente da frota de Árcon.
O
rato-castor deixou seu esconderijo e se aproximou do piloto
estupefato. Certamente poderia admitir a presença de um animal no
planeta militar, mas nunca a presença de um animal fardado. Sua mão
foi veloz para a coronha de uma arma de raios energéticos. Mas Gucky
fez mais um truque, usando suas poderosas forças telecinéticas.
Antes que a mão do arcônida atingisse a arma, esta voou para longe,
caindo a uns cem metros de distância, no meio de grosso cascalho. O
arcônida olhou na direção onde caiu sua arma, mas não se mexeu.
Sua mão voltou lentamente para a posição normal e, espantado,
começou a olhar Gucky.
— Você
não está percebendo nada? — perguntou, confiando no fato de que
era conhecido por quase toda a Galáxia. — Desde quando se
cumprimenta um aliado com a arma na mão? Ah! Você está preocupado
por causa do pequeno avião? Não tenha medo, eu levo você lá para
baixo.
O arcônida
continuava imóvel, entendendo cada palavra que Gucky estava dizendo.
Mas sua cabeça se negava a aceitar aquele animal como um ser
inteligente. Os arcônidas conheciam Gucky, mas este aqui, não.
— Conte-me
agora tudo que se passou em Árcon III, depois que os acônidas
desceram. Vamos, solte a língua. Queremos apenas ajudá-los. O
Imperador Gonozal VIII anda muito preocupado, desde que as ligações
com o planeta militar foram...
O arcônida
exclamou, excitado:
— Gonozal...?
Gucky
ficou muito admirado. Seria o cúmulo que um oficial da frota
arcônida não conhecesse o nome de seu imperador.
— Gonozal,
o imperador — repetiu Gucky.
— Não
sei de quem você está falando; também não sei quem você é —
disse o oficial, dando uma olhada para sua arma que cintilava entre
as pedras. — Quem é Gonozal?
As dúvidas
de Gucky foram tomando corpo.
Será que
os acônidas conseguiram destruir toda a memória dos arcônidas
estacionados em Árcon III? Quem sabe o estranho envoltório de
proteção tinha alguma coisa com isto? Então, o pobre oficial não
era responsável pelo seu comportamento. E automaticamente se
explicavam outros fenômenos.
Gucky não
podia saber como estava enganado e que surpresas ainda viriam sobre
ele.
— Gonozal
VIII é o Sereníssimo Imperador de Árcon — disse com muita
cautela. — Há uns dias atrás, aterrissou neste planeta uma
espaçonave esférica estrangeira, de pólos achatados. Sua
tripulação armou um envoltório energético impenetrável em torno
do planeta, destruindo, desde então, toda ligação com o império.
Supomos que os acônidas querem isolar Árcon III, depois de
paralisarem as funções do cérebro eletrônico.
— Cérebro
eletrônico? — repetiu o oficial, admirado.
Gucky
estava sentindo as incríveis proporções da amnésia dos arcônidas.
Esqueceram até o cérebro eletrônico, também chamado de regente
robotizado! Resolveu não se aprofundar muito nestas coisas, para
melhor penetrar na linha central de suas observações.
— Mais
tarde, vou lhe explicar quem sou eu e quem me mandou para cá.
Responda-me primeiro umas perguntas. Quero saber que tipo de campanha
está sendo preparada. Que raça é esta que foi descoberta há pouco
tempo e que tem de ser destruída? Onde fica seu sistema pátrio?
O arcônida
estava hesitante. Gucky então lançou mão de um truque comprovado e
seguro. Por meio de seus dons telecinéticos bloqueou a circulação
do sangue para o centro da vontade de seu quase prisioneiro. A partir
daí, o arcônida iria pensar com clareza, mas não teria mais o
controle sobre sua vontade e falaria francamente o que estivesse
pensando.
— Uma
espaçonave de colonizadores, uma destas de pólos achatados, nos
falou de uma raça humanóide, terrivelmente guerreira. As belonaves
desta raça chegaram até Árcon e são o maior perigo para nós.
Temos de dominá-los, ou melhor, aniquilá-los. Não sei com exatidão
as coordenadas deste sistema inimigo, mas sei que se trata do
terceiro planeta de um pequeno sol.
Podia ser
mera coincidência, mas um sentimento inexplicável dizia a Gucky que
este terceiro planeta era a Terra.
Mas a
Terra não tinha sido descoberta tão recentemente assim! Os contatos
entre Terra e Árcon datavam de quase cento e cinqüenta anos. No
entanto...
— Quem é
Metzat?
O oficial
inclinou a cabeça automaticamente e respondeu em tom solene:
— Metzat
III é o Sereníssimo Imperador de Árcon. Governa sábia e
honestamente, e suas decisões são tão infalíveis que...
— Bobagem!
— interrompeu-o Gucky. — Imperador de Árcon é Gonozal VIII e
nenhum outro.
O oficial
olhou espantado.
— Não
pode haver dois imperadores para uma mesma nação.
— Isto
mesmo — disse Gucky, dando-lhe razão.
E começou
a pensar que, com este oficial, não ia conseguir muita coisa, pois
não sabia mesmo quase nada. Gucky não chegara ainda à pergunta
vital, que seria a chave de tudo.
— Quem é
você? — perguntou finalmente o arcônida. — A que raça pertence
você?
— Sou
Gucky, do Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Nunca ouviu falar
destes nomes?
— Não!
— respondeu com toda sinceridade o oficial.
Gucky se
resignou:
— Dê-me
sua mão que eu vou levá-lo até o espaçoporto. Se você for
andando, ficará com os pés cheios de bolhas. Seu avião não voa
mais. Vamos! A teleportação não é coisa confusa!
O arcônida
não estava muito claro. Pelo menos já tinha ouvido falar em
teleportação. Seus pensamentos a respeito eram muito confusos. E o
rato-castor certificou-se disto, quando pegou a mão dele e pulou.
Rematerializaram-se
no mesmo edifício onde Gucky já estiver a ouvindo o que se passava
em seu interior. Com mais um salto, levou-o para o recinto onde
estavam aqueles três ou quatro oficiais conversando. Infelizmente,
no momento, o local estava vazio. Aquele grupinho, que falava
entusiasmado a favor do Imperador Metzat ou do comandante da frota,
Gagolk, já o havia deixado há algum tempo.
O piloto,
horrorizado, largou a mão de Gucky.
— Meu
Deus! Aqui é o conselho de guerra de Sua Majestade! Se entrarmos sem
permissão expressa, seremos punidos severamente. Não sei não...
— O que
você sabe então? — perguntou Gucky, enquanto contemplava o grande
mapa sideral na parede.
Tal mapa,
feito por meio de uma infinidade de espelhos complicados, dava uma
visão em 3D, facilitando muito a orientação no espaço. Via-se
muito distintamente o sistema arcônida, uma aglomeração de
estrelas refulgentes. Depois havia um espaço vazio, poucas estrelas.
Gucky estava procurando a Terra ou pelo menos o nosso Sol.
Pouco
sabia de Astronomia, mas por meio dos sistemas, que já conhecia de
tantas viagens com Perry Rhodan, foi tomando a direção certa. Deu
com o nosso Sol, facilmente reconhecível pela presença dos nove
planetas. O terceiro planeta estava assinalado com uma seta vermelha.
Gucky
ficou parado, contemplando o mapa gigantesco. Fixava-se
principalmente na pequena Terra. O oficial arcônida, cujos
pensamentos Gucky estava controlando, aproximou-se. Seguindo o olhar
de Gucky, disse de repente, com muito entusiasmo, como se lembrasse
subitamente de algo esquecido:
— Aí
está ele! Este é o planeta, objetivo de nosso empreendimento.
Dentro de dois dias, nós o subjugaremos ou destruiremos toda sua
população.
Gucky não
tinha mais dúvidas a respeito, mas de qualquer maneira a confirmação
ingênua do oficial arcônida lhe causou um impacto.
Que coisa
inaudita! Os arcônidas, aliados do Império Solar, iriam atacar seus
amigos. E o pior, iriam fazê-lo inconscientemente. A memória deles
havia sido substituída por uma outra totalmente artificial.
Ou será
que havia outra explicação?
Virou-se
para ele:
— Muito
bem, então é aquele pequeno planeta, não é?
Sabia que
era inútil dizer a verdade àquele oficial. No estado em que estava,
não iria aceitá-la.
— Você
pode dizer onde se encontra a nave dos colonizadores que lhes falaram
a respeito desta raça recém-descoberta?
— Está
aqui no hangar subterrâneo — foi a pronta resposta, talvez contra
a própria vontade do arcônida.
— Seu
nome é Tanor, como posso ler no seu pensamento — não deu maior
importância ao rosto admirado do jovem oficial. — Descreva-me bem
o hangar para que eu o possa achar. Você virá comigo.
— Não!
É proibido se aproximar desta nave e, além disso, está envolta num
manto de proteção energética.
— Vamos
tentar — insistiu Gucky. Começou a cismar: acontecera algo muito
mais complicado do que até então imaginara. Não havia dúvida de
que não somente os arcônidas, mas todo o planeta sofrerá uma
terrível alteração. Neste local é que estava antigamente o
cérebro positrônico. E agora, o que havia aqui? Instalações de um
miserável espaçoporto que não tinha nenhuma comparação com o que
existia antes.
— Dê-me
sua mão!
A
descrição de Tanor fora perfeita. Rematerializaram-se num amplo
corredor, a mais de duzentos metros abaixo do solo.
Em longas
filas, em compartimentos fechados, alinhavam-se naves pequenas e
médias. Não restava nenhuma dúvida de que todas elas estavam
preparadas para partir. Não estavam ainda abertas as grandes
comportas do teto da galeria, por onde as naves sairiam para atingir
a atmosfera de Árcon III. Por toda parte se viam equipes técnicas.
Gucky, então, puxou o oficial para sob uma nave esférica, cujas
escotilhas acabavam de se fechar.
— Onde
estão os colonizadores?
— Mais
para frente. Ainda não se vê a barreira daqui.
— Então
vamos. E se alguém nos detiver, invente uma boa desculpa. Diga a
eles que eu sou o embaixador de Xerxes IV e que não sei onde fica o
país deles. Diga também que estamos aqui a serviço especial do
imperador.
Tanor não
discordou. Mas Gucky “sentiu”
que ele estava aguardando a primeira oportunidade para se descartar
de companhia tão esquisita. Isto não teria maior significado, pois
Gucky já recuperara cem por cento as suas faculdades
parapsicológicas e se achava em forma para escapar sem ajuda. O que
lhe interessava mesmo era saber o que se tramava aqui.
Encontraram
outros arcônidas, mas todos de hierarquia mais baixa e não foram
molestados. É verdade que os olhares curiosos se detinham neles, mas
ninguém ousava falar com Tanor, que, pelo tipo de uniforme, devia
ser major. Sem serem detidos uma só vez, chegaram, depois de uma
virada para a esquerda, aos grandes acumuladores de energia dos
“colonizadores”.
Diante da
barreira energética estavam dois guardas com armas pesadas. Gucky
percebeu logo de estalo que eram acônidas, muito parecidos, aliás,
com os arcônidas. Não tinham, porém, os cabelos esbranquiçados e
os olhos avermelhados. A expressão do rosto era de descontração e
de um orgulho sereno. No fundo, um tanto velada pelo envoltório de
proteção, jazia a misteriosa nave, de pólos levemente achatados.
Gucky
puxou Tanor para um dos boxes. Daí, podia observar os dois guardas,
sem ser observado. Antes de começar a conversar com eles, iria
tentar “escutar”
tudo que havia de útil na cabeça deles. Tanor mostrava-se nervoso.
— Estão
me esperando já há muito tempo. O que será se notarem meu
desaparecimento ou se encontrarem o avião abandonado?
Gucky
pensou um pouco. Não ia precisar mais do oficial.
— Você
pode ir embora, mas será bom que não mencione minha presença,
ouviu?
O
rato-castor fez-lhe um gesto de despedida. Estava tranqüilo de que
não seria traído.
Aliviado
por ter atingido, depois de tanto sacrifício, seu objetivo,
deitou-se no chão para captar o fluxo mental dos dois guardas
acônidas.
Seus
impulsos eram fortes e por isto fáceis de serem recebidos. No
entanto pareciam formar um caos, com o que Gucky não sabia o que
fazer. Os dois não tinham bons conceitos sobre os arcônidas,
julgando-os uma raça de aventureiros. Um deles começou a pensar
intensamente em se alimentar, o que fez com que Gucky se lembrasse de
que não comia há mais de um dia. Aqui embaixo, não seria difícil
conseguir alimento, pois havia bastante material estocado para
embarque. Mas não era isto que o preocupava no momento.
Gucky
estava ficando impaciente. Por que razão não estavam pensando no
que tramaram com os arcônidas? Se eles continuassem pensando só em
coisinhas supérfluas, teria que mudar de tática, mesmo que fosse
obrigado a se mostrar... Gucky tomou então uma decisão! Fez uma
cara de inocente e saiu de seu esconderijo. Usou a telecinese nas
travas dos dois fuzis: as armas não iam disparar. Ao mesmo tempo,
ficou atento aos impulsos mentais dos dois acônidas, que se voltaram
em sua direção. Não viam nele nenhuma ameaça. A grande nave
continuava resguardada sob o manto cintilante de proteção, que era
interrompido somente atrás dos dois sentinelas.
Gucky
ouviu passos às suas costas. Deviam ser os arcônidas ultimando os
preparativos para a decolagem. A sensação de fome aumentou em
Gucky.
Tinha que
provocar os acônidas a pensar em suas intenções, do contrário não
conseguiria nada. Uma conversa direta parecia sem sentido, porque
acabaria mostrando seus dons parapsíquicos. Os acônidas eram
inteligentes demais para se deixarem levar por pequenos truques. Uma
palavra a mais e estaria tudo perdido.
— Vim
aqui enviado pelo Major Tanor — disse num arcônida cristalino,
mantendo-se a uma boa distância dos dois acônidas. — Manda
perguntar se os senhores desejam alguma coisa.
Um dos
guardas baixou a arma, olhou um pouco enfastiado para o rato-castor,
sem lhe dar nenhuma atenção. Gucky, lendo sua mente, soube que ele
o julgava um simples criado ou servente — como era uso nas casas
dos arcônidas mais ricos; um animal doméstico inteligente era mais
interessante do que um robô. O outro pensava a mesma coisa, mas pelo
menos se dignou dirigir-lhe a palavra:
— Se
tivermos algum desejo especial, o seu major poderá saber através do
imperador. Pode ir embora.
Depois de
fazer uma estranha reverência, Gucky se retirou. Agachou-se no boxe
mais próximo e se concentrou para captar todos os impulsos. Os dois
sentinelas, levados pelo incidente, começaram a conversar em voz
baixa. Mas mesmo que não tivessem falado, os pensamentos
revelariam...
Assim foi
que nos próximos trinta minutos Gucky ficou sabendo de tudo. A
verdade foi-lhe chocante. Ficou paralisado no seu esconderijo,
esquecendo-se de onde estava e não sentindo mais a fome que o
atormentava. Sabia agora do que era composta a barreira energética,
que circundava o planeta Árcon III. Compreendeu, então, a repentina
e absurda alteração sofrida pelos arcônidas e sua intenção
estúpida de atacar ou destruir a Terra.
Começou a
perceber a fabulosa técnica que os acônidas haviam desenvolvido e
com que determinação perseguiam seu objetivo. Consideravam a
Humanidade altamente perigosa e daninha, tendo, pois, que ser
aniquilada. Só uma coisa Gucky não chegou a esclarecer bem: por que
motivo a Humanidade era tão perigosa assim?
A nave dos
acônidas abrigava um gerador que produzia um plano temporal
regulável. Este plano ou campo temporal envolvia todo o planeta e o
transpunha para qualquer época do passado. Os cientistas acônidas
trabalharam muitos séculos nesta invenção, mas jamais conseguiram
fazer com que este campo temporal fosse transposto para o futuro. No
entanto, o passado era muito fácil de ser atingido.
Aquela
nave acônida era um transformador do tempo. Por meio deste invento
diabólico, os acônidas recuaram o planeta Árcon III por quinze mil
anos. Não era portanto, de se estranhar que o cérebro positrônico
não mais funcionasse, pois há quinze milênios ele, simplesmente,
ainda não existia. O planeta militar já era habitado por arcônidas
capacitados e ambiciosos que tinham apenas um objetivo: aumentar cada
vez mais seu império, afastando do caminho todos os possíveis
inimigos.
A idéia
era pois muito simples. Os acônidas transpuseram Árcon III para
quinze mil anos atrás. Naquele tempo reinava o Imperador Metzat III.
Apresentando-se como colonizadores dos arcônidas, justificando assim
a pequena diferença racial, falaram do descobrimento de uma nova
raça de humanóides: os terranos. Não lhes foi assim difícil
convencer Metzat do enorme perigo que representava a nova raça
terrana. O imperador determinou, então, atacar a Terra, como o teria
feito há quinze milênios atrás, caso estivesse diante das mesmas
circunstâncias. Ordenou a seus oficiais que preparassem a frota.
Dentro de dois dias, aproximadamente trinta mil unidades, grandes e
pequenas, haveriam de cercar a Terra, obrigando a população a
desistir de qualquer resistência e... destruiriam assim seu inimigo
número um, podendo depois viver em paz.
Rhodan
tinha de ser posto a par desses fatos imediatamente. Mas como?
O campo
temporal que circundava Árcon III parecia fazer uma distinção
palpável entre luz e matéria. Da superfície do planeta se podia
ver o sol, mas do espaço não se via a superfície. Nenhuma matéria
conseguiria, pois, penetrar do espaço para o planeta.
A questão
agora era: como seria o contrário? Será que ele, Gucky, podia se
teleportar de Árcon III para a Drusus? Não contaria com o apoio do
transmissor fictício, não havia possibilidade de comunicação. Até
mesmo os impulsos mentais eram detidos pela barreira temporal.
Gucky
estava preocupado. Como se daria a partida da grande frota? Se os
acônidas desligassem o campo temporal por algum tempo, o planeta
voltaria para o presente? Caso não desligassem, nenhuma nave podia
abandonar a superfície de Árcon III, sem se espatifar contra o
envoltório de proteção.
Havia
ainda muitas outras perguntas. Mas quem as responderia?
Não, não
teria nenhum sentido procurar se encontrar com Metzat III. Como é
que ele, Gucky, poderia explicar toda aquela complicação ao
imperador? Para Metzat, o passado era o seu presente, a realidade do
momento. De que maneira iria ele aceitar os fatos reais, se realmente
já estava morto há milênios?
Seria
também inútil querer, sozinho e sem auxílio, interromper o
funcionamento do transformador do tempo. Gucky sabia não possuir os
conhecimentos técnicos suficientes para isto. Uma alteração
multidimensional do tempo era algo grande demais para a simples razão
compreender. Além disso, o processo devia estar sujeito a certas
limitações, do contrário os acônidas tê-lo-iam experimentado
diretamente na Terra, procurando aplicar por lá o recuo do tempo.
Provavelmente, a nave portadora do transformador do tempo teria que
aterrissar no respectivo planeta para aí operar. E isto seria
praticamente impossível acontecer na Terra, sem imediatamente chamar
a atenção de todos.
Por fim,
Gucky tomou sua resolução. Teleportar-se-ia para a superfície,
isto é, para o prédio da administração, onde residia Metzat III.
Depois de procurar um pouco, encontrou o recinto com o gigantesco
mapa sideral. Estava fechado e por isso achou o lugar seguro. Se
entrasse alguém, teria tempo de fugir.
Sentiu
novamente uma fome terrível, lembrando-se de que fazia muito tempo
que não se alimentava. A sede também era grande. Mas o problema de
entrar em contato com Rhodan era muito mais premente. Lentamente
começou a fazer a triagem daquela multidão de impulsos que estava
recebendo, deixando de lado os mais fracos, já que sua origem devia
ser muito distante. Os mais fortes vinham certamente do próprio
edifício. Não lhe foi difícil descobrir as vibrações do Major
Tanor e das pessoas que conversavam com ele.
Para
surpresa de Gucky, os interlocutores de Tanor não era nem Metzat,
nem Gagolk, mas um outro major, comandante de um pequeno aparelho de
telerreconhecimento. Tanor lhe estava dando uma ordem e acrescentava:
— ...não
se esqueça de que é preciso agirmos rapidamente. Você vai partir
daqui a dez horas, tentando estar de volta amanhã. E nos informe se
há de fato um planeta com humanóides que tencionam atacar Árcon e
conquistá-lo.
— Fique
tranqüilo, major, estou ciente de minha missão.
Seguiram-se
alguns fragmentos de pensamentos, dando a entender que o major já
havia se retirado do recinto, pára se ocupar com a partida iminente
de seu aparelho.
Os
acônidas não tinham, pois, nada contra que Metzat enviasse uma de
suas naves para se convencer da existência da Terra e de suas
intenções. Isto era de fato interessante, ao mesmo tempo lógico e
compreensível. Os esforços de Metzat aumentariam, quando sentisse,
pela comprovação dos fatos, a necessidade de sua cooperação.
Gucky
localizou mentalmente a posição de Tanor e se teleportou. O major
arcônida levou um grande susto, quando viu materializar-se diante
dele o rato-castor. Sua mão correu para a cartucheira. Mas se
lembrou de que deixara a arma no planalto. Gucky foi logo dizendo:
— Que
pensa o imperador? Vai mandar mesmo uma nave de reconhecimento?
— Ele
quer averiguar se os colonizadores estão falando a verdade.
Gucky
sabia que Metzat não podia agir de outra maneira. Teria feito a
mesma coisa há quinze mil anos atrás, se estivesse nas mesmas
circunstâncias. Seria igualmente sem sentido dizer a verdade a
Tanor. O melhor que podia fazer era sair dali o quanto antes. Mas
como? E a muralha energética...
De
repente, a venda como que lhe caiu dos olhos. E ali estava ele
procurando uma saída, sem perceber que tal saída já estava pronta
há mais tempo.
A nave de
reconhecimento! Era este o caminho! Quando ela decolasse, tinha que
romper a barreira de proteção. Certamente os acônidas a abririam
pelo tempo necessário. Quem é que o notaria? Os arcônidas, que nem
perceberiam estes poucos segundos? Ou os acônidas que viviam presos
ao verdadeiro presente?
Gucky
desistiu de continuar com seus pensamentos. Sabia que não havia
resposta para todas estas perguntas.
Desapareceu
antes que o boquiaberto major se tivesse recuperado do susto inicial
e pudesse responder. Rematerializou-se bem no meio dos depósitos de
gêneros sortidos, que estavam sendo embarcados nas unidades da
frota, mais ou menos a cem quilômetros do transformador do tempo.
Com toda
calma, começou a revirar o grande estoque de víveres até encontrar
verduras enlatadas. Não comeu com muito apetite, pois preferia
sempre coisas frescas. Descobriu depois umas garrafas bojudas. Bebeu
um pouco, era uma espécie de vinho. Após consultar o relógio,
ainda tomou mais um gole. Acabou “esvaziando”
a garrafa...
4
Já há
algumas horas, a Drusus estava parada no espaço, seguindo a rotação
de Árcon III. Dirigia seus instrumentos para o local da superfície
do planeta, onde fora construído o cérebro positrônico.
De Árcon
I chegaram outras notícias nada alentadoras. Atlan informava a
Rhodan que uma das colônias mais fiéis de Árcon aproveitara a
ocasião para atacar e destruir os robôs indefesos.
— O
império está ameaçado de um caos total, se não pudermos agir
imediatamente — sentenciou o Imperador Gonozal VIII.
Rhodan
tentou acalmar Atlan, dizendo-lhe que Gucky não demoraria a voltar
de sua missão e esclarecer tudo. Então se saberia o que estava se
passando em Árcon e por que razão o cérebro positrônico deixara
de funcionar.
Mas Gucky
estava demorando muito, e Rhodan não podia adivinhar que residia
nesta longa espera a salvação de todos.
O General
Deringhouse passara o comando ao Major Gorm Nordman e fora dormir.
Rhodan continuava ainda na central de comando. Não estava cansado,
apenas muito preocupado. A seu lado, encontrava-se o telepata John
Marshall, que tentara infrutiferamente entrar em contato com Gucky.
— Nada,
senhor! Absolutamente nada! — dizia Marshall, balançando a cabeça
desesperado. — Nenhum impulso de pensamento sai de Árcon III. O
envoltório de proteção não deixa nada passar. Nem podemos saber
se Gucky realmente chegou lá.
Rhodan
consultou o relógio.
— Vamos
esperar ainda meia hora, depois faremos outra tentativa com o
transmissor fictício. Desta vez mandaremos uma câmara automática
de televisão para Árcon III. Temos que saber o que se passa por lá.
Nordman
apontou de repente com o máximo de excitação para a tela
panorâmica.
— Uma
nave, sir, passou através do envoltório energético!
Percebia-se
a pequena nave esférica que penetrava no espaço com velocidade
relativamente pequena. Não restava dúvida de que se tratava de uma
nave arcônida, do tipo comum, mas havia pequenos detalhes que
provocavam qualquer confusão. O próprio Rhodan não sabia como
explicar o pequeno rebordo central dos motores de propulsão.
Achava-os pequenos demais. Mas não havia tempo para se pensar nisto
agora.
— Identificação
pelo rádio! — gritou ele para o radiotelegrafista de serviço. —
Depressa, por favor!
Depois, se
dirigindo a Nordman:
— Siga a
nave e não a perca de vista. Parece que fugiu e deve ter rompido a
barreira de proteção. Temos que saber como isto foi feito.
Nordman
corrigiu a rota da Drusus, mas antes de ter iniciado a perseguição
da nave estranha, que não reagia aos contatos pelo rádio, Gucky se
rematerializou no posto de comando.
— Deixe-a
ir embora! — disse ofegante. Pulou para o sofá para se encostar um
pouco e descansar.
— Poupem
este trabalho, é apenas um peixinho insignificante que não vale a
pena ser pescado. Os grandes peixes estão ainda parados em Árcon
III, por exemplo os acônidas e o Sereníssimo Imperador Metzat III,
cujos planos ousados vão deixar vocês de boca aberta.

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