Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O grande
golpe dos ladrões cósmicos
— a
subtração de 992 espaçonaves.
A época
desastrosa de Thomas Cardif chegou ao fim.
Perry
Rhodan voltou.
Vinte
dias já se passaram desde o regresso do verdadeiro administrador, e
nestes vinte dias Perry Rhodan praticamente não teve descanso.
As
conferências sucedem-se. Rhodan tem muitos problemas a resolver,
muitas dúvidas a esclarecer, muitos males a reparar. Precisa
corrigir os erros que Cardif, o usurpador, cometeu durante sua
ausência.
Não é
de admirar que, depois de concluído o trabalho e superadas as
canseiras, o administrador entre de férias para descansar.
Mas
acontece que o trabalho parece não estar findo. Uma mensagem de
Atlan arranca Rhodan de seu merecido descanso. O imperador volta a
falar a Perry sobre as mil espaçonaves robotizadas do último tipo
que cedera aos acônidas na época em que Cardif espalhou o
desassossego em toda a Via Láctea.
Perry
Rhodan conhece o perigo que essas naves — entre as quais há vinte
supergigantes da classe Império — podem representar nas mãos dos
acônidas, que são uma raça ativa e inteligente. Por isso elabora,
juntamente com Atlan, o plano que leva à operação denominada Frota
Roubada.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Estanislau
Jakobowski
e Axel
Wiener
— Representantes
do Império Solar no mundo central dos acônidas.
Auris
de
Las-Toor
— Uma
mulher bela e inteligente.
Atlan
— Imperador
de Árcon e amigo de Perry Rhodan.
Perry
Rhodan
— O
administrador que age como ladrão de frotas.
Gucky
e Toureiro
— Um
abandona um monte de cenouras enquanto o outro rouba cápsulas de
comando.
Morkat
— Um
passageiro involuntário que não se lembra das suas experiências.
— ...e
para mim um copo de leite — completou Gucky, o rato-castor, e
sorriu para o garçom de fraque branco, exibindo o dente roedor. —
Quero morno.
O garçom
do Clube de Regatas de Goshun não se abalou nem um pouco diante da
idéia de ter que servir um copo de leite. Sabia quem era Gucky e
conhecia seus hábitos.
— Pois
não — disse e saiu andando em direção ao balcão.
Gucky
parecia radiante. Olhou em torno com uma expressão de triunfo.
— Esse
sujeito é muito educado — constatou, tirando do bolso do uniforme
uma cenoura já roída.
— Mas
você, não — disse Perry Rhodan, numa repreensão fria. — Neste
clube não se aprecia que alguém traga seus próprios alimentos.
Como é que a associação poderia sustentar-se se todos agissem
assim?
Gucky
mordeu gostosamente a cenoura.
— Será
que eu sou igual a todo mundo? — perguntou um tanto chocado e
lançou um olhar sonhador para as velas brancas que singravam a
superfície azul do lago muito próximo.
O hotel do
clube ficava numa elevação que proporcionava uma vista excelente. O
lago salgado que ficava no antigo deserto de Gobi não tinha nada em
comum com as águas que ali existiram em séculos passados. Face à
proximidade de Terrânia, a grande metrópole mundial, o lago salgado
transformara-se num centro de recreação de primeira categoria. Em
suas margens viam-se as casas de fim de semana dos citadinos que
apreciavam a natureza. De noite — e às vezes mesmo de tarde, como
estava acontecendo naquele dia — as pessoas costumavam encontrar-se
no clube.
Aquelas
poucas horas de descanso faziam muito bem a Perry Rhodan. Os últimos
vinte dias poderiam ter sido tudo, menos agradáveis. Tivera de pôr
em ordem a “herança”
de seu filho falecido, Thomas Cardif — e conseguira. Rhodan tivera
de realizar conferências diárias, a fim de ir corrigindo os erros
cometidos pelo traidor enquanto este ocupara seu lugar. A revolta da
Frota Espacial, que já se esboçava, fora abafada no nascedouro
assim que se soubera que toda a série de ordens absurdas, que
abalara a estrutura do Império Solar, não provinha de Rhodan, mas
de seu sósia Cardif.
Os membros
do governo que haviam sido presos foram libertados e os terranos
retirados de Árcon foram reinvestidos em seus cargos. Rhodan expediu
mensagens de rádio dirigidas a todas as inteligências da Galáxia,
a fim de informá-las sobre a seqüência dos acontecimentos trágicos
e sobre a morte de seu filho. Não deixou de mencionar que a
mobilização da Frota, ordenada por Cardif, seria conservada sem
alterações.
E também
se manteve a legislação de emergência, que antes autorizara Cardif
e agora autorizava Rhodan a adotar, segundo seu critério, decisões
da maior importância, sempre que a situação o exigisse.
Os
aspectos mais importantes haviam sido resolvidos. Aquele fim de
semana estava sendo dedicado ao repouso, pois, nos vinte dias
anteriores, Rhodan quase não tivera descanso e muitas vezes sua
presença era exigida para tomar decisões importantíssimas quando
fazia apenas umas poucas horas que se recolhera para dormir. Não
havia melhor local de repouso que o lago de Goshun, que ficava a
poucos quilômetros do centro da Administração do Império Solar.
Um planador gastaria apenas alguns minutos para levar Rhodan a
Terrânia.
Reginald
Bell esticou as pernas. Deleitava-se com as horas em que podia ficar
a sós com seu amigo Rhodan. Era muito raro que o administrador e
chefe de governo da Terra tivesse tempo para dedicar-se a si mesmo e
ao velho amigo. E era inevitável que nessas oportunidades Gucky
também estivesse presente. Afinal, sua casa de fim de semana ficava
bem ao lado da de Bell, e, além disso, era pelo menos o segundo
melhor amigo de Rhodan, embora não fosse um ser humano, mas apenas
um rato-castor.
— Você
deveria passar a consumir legumes mais nobres — disse Bell, em tom
condescendente e viu o resto da cenoura desaparecer pela boca de
Gucky. — Afinal, um feixe de aspargos ficaria melhor à sua posição
de membro mais competente do Exército de Mutantes.
Gucky
bocejou de tédio.
— Os
humanos são criaturas estranhas. Comem alcachofras com ostras porque
acham que isso é elegante. Não é que achem gostoso; nada disso.
Gosto de aspargos, mas não é fácil guardá-los no bolso. E
acontece que me delicio com cenouras. Por isso as como. Então,
gorducho, tem algum argumento a contrapor a isso?
Bell
sentia-se preguiçoso demais para discutir. Deixou-se envolver pelos
raios de sol. E justamente naquele momento o garçom trouxe as
bebidas. Gucky pegou o copo e experimentou o leite. Agradeceu ao
garçom.
— Está
morninho — confirmou e espreguiçou-se de forma pouco distinta.
Rhodan
deleitou-se com a paz daqueles momentos. No clube todos o conheciam,
mas ninguém se interessava por ele. Era um homem como qualquer
outro, e todos respeitavam seu desejo de descansar.
O Sol
caminhava para o oeste, mas o calor continuava; quase chegava a ser
demais. As pessoas que gostavam de tomar banho no lago andavam por
suas margens. A água do lago salgado sustentava os corpos, e até
mesmo a pessoa que não soubesse nadar poderia penetrar sem o menor
risco nos trechos em que as águas eram mais profundas. Não seria
nada fácil morrer afogado por ali, e para praticar o mergulho
precisava-se recorrer a pesados cintos de chumbo.
— Ainda
bem que tudo passou — disse Bell num cansaço agradável e
recostou-se ainda mais, depois de ter tomado um gole de cerveja. —
Tudo se arranjará e as coisas voltarão a ser como antes. Nada está
perdido.
Rhodan
parecia olhar para além disso.
— Isso
mesmo — confirmou. — Nada está perdido. Tenho de fazer de conta
que nunca tive um filho... Na verdade, foi isso mesmo. Ninguém há
de dizer que Cardif parecia ser meu filho. Não há dúvida de que
por fora se parecia comigo. Mas no resto éramos totalmente
diferentes. Cardif também não tinha qualquer semelhança com a mãe.
Dois
jovens oficiais que envergavam o uniforme de passeio da Frota
Espacial passaram e cumprimentaram com uma respeitosa discrição.
Rhodan retribuiu o cumprimento com um gesto amável.
— Atlan
deve sentir-se satisfeito por saber que pode contar novamente conosco
— disse Bell. — O que seria do Império de Árcon se não fosse o
auxílio da Terra?
Rhodan
pôs-se a refletir. Fechou os olhos por um instante e depois fitou o
céu sem nuvens.
— Toda
vez que penso em Atlan tenho a impressão de que nos esquecemos de
alguma coisa. Houve algo com Atlan que tem certa ligação com
Cardif, mas por mais que me esforce não consigo lembrar-me. É bem
possível que se trate de coisa sem importância.
De
qualquer maneira, era espantoso que, apesar de possuir uma memória
que quase chegava a ser fotográfica, Rhodan tivesse esquecido alguma
coisa. Bell tinha certeza de que não se tratava propriamente de um
esquecimento, mas de falta de atenção.
— Se for
uma coisa importante, Atlan não deixará de lembrar-se, Perry. Vamos
velejar um pouco? Meu barco está preparado.
— Que
bom! — exclamou Gucky, muito feliz, e esvaziou seu copo de leite. —
Bell, queira ter a gentileza de pagar a conta.
Rhodan
notou a expressão de perplexidade no rosto do amigo e chamou o
garçom. Dali a alguns minutos levantaram-se e foram descendo em
direção ao lago. O pequeno barco a vela estava guardado no porto. O
vento era muito fraco, mas os dois homens e Gucky bem que gostaram
disso. Queriam velejar para repousar, e não queriam que o barco
corresse perigo de adernar a qualquer momento.
O barco
foi-se afastando lentamente da margem. Rhodan estava estendido na
parte dianteira do convés e deleitava-se com a calma. Bell cuidava
das velas e do leme. Gucky revistou a pequena cabina, à procura de
alguma coisa comestível. O quadro não poderia ser mais tranqüilo.
Gucky saiu
da cabina. Pôs-se a resmungar:
— Não
encontrei nada. Apenas há conservas e bebidas alcoólicas.
Rhodan
levantou os olhos para o céu e soltou um suspiro. Ninguém seria
capaz de imaginar como lhe fazia bem esta hora, durante a qual não
tinha nada a fazer, a não ser manter o equilíbrio em meio aos
balanços leves do barco. Fechava os olhos sempre que o Sol entrava
no campo de visão.
— Vamos
nadar um pouco, baixinho — sugeriu Bell e prendeu o leme. — Vou
tirar estas roupas.
Dali a
cinco minutos os dois amigos brincavam nas águas. Rhodan deitou de
barriga para baixo e olhou-os. Sempre que Gucky mergulhava nas águas
límpidas, com o auxílio do cinto de chumbo, não tinha a menor
dificuldade de acompanhá-lo com a vista. Bell preferiu ficar deitado
sobre a água, deixando-se tostar pelo sol.
De repente
um leve zumbido interrompeu o idílio.
Rhodan
virou-se e levantou o braço. Com a outra mão comprimiu o botão do
pequeno aparelho de múltiplas finalidades.
— Aqui
fala Rhodan. Quem é?
— É de
Terrânia. Recebemos uma mensagem de hiper-rádio. Árcon deseja uma
ligação direta. Quer que transfira a onda, ou prefere comparecer
até a sala de rádio?
Rhodan
refletiu apenas durante dois segundos. Demoraria demais para chegar a
Terrânia. Teria que desistir da imagem, contentando-se com a
transmissão acústica.
— Transfira
a ligação para meu aparelho.
Bell teve
sua atenção despertada. Aproximou-se do barco. Gucky emergiu das
águas. Era telepata e captara os pensamentos de Rhodan mesmo
submerso, motivo por que já sabia do que se tratava.
Rhodan
aumentou o volume do pequeno receptor. Esperou.
— Será
que é Atlan? — perguntou Bell, subindo a bordo.
A água
que lhe escorria do corpo acumulou-se junto aos pés. Dali a pouco
estava dentro duma poça. Gucky continuou boiando e deixou que a
correnteza o carregasse. Não dependia da palavra falada. O vento
parara quase por completo. Era tudo paz e sossego.
— Quem
poderia ser? — disse Rhodan. — O que será que ele quer? Tomara
que não seja nada de sério.
— Aqui
fala Árcon! — disse subitamente a voz que saía do pequeno
aparelho que Rhodan trazia no pulso. — É a central de hiper-rádio
de Árcon. Gonozal VIII deseja falar com Perry Rhodan, Administrador
do Império Solar.
Gonozal
VIII era o nome oficial que Atlan passara a usar desde que se tornara
Imperador de Árcon. Depois de tanto tempo o arcônida imortal, que
vivera quase dez mil anos na Terra sem que ninguém descobrisse sua
identidade, voltara ao seu império estelar, a fim de assumir a
herança dos antepassados. A Terra não poderia desejar um amigo e
aliado melhor que ele.
— Aqui é
Rhodan. Pode fazer a ligação.
O fato de
que as ondas de rádio atravessavam numa fração de segundo a
distância de trinta e quatro mil anos-luz e, reforçadas pelas
estações retransmissoras, faziam sair aquela voz do minúsculo
receptor, mostrava a evolução ocorrida nos últimos tempos.
— Você
me ouve, Perry? Por que sua imagem não aparece na tela?
— Não
estou na sala de rádio, Atlan. Teremos de contentar-nos com o som. O
que houve?
— Na
verdade, não houve nada — respondeu Atlan.
Bell
soltou um suspiro de alívio e voltou para junto do leme, modificando
a rota do barco. Com o vento contrário levariam mais de uma hora
para voltar ao pequeno cais. O sol já tocava as cumeeiras das
montanhas distantes.
— É bom
ouvir sua voz — respondeu Rhodan, que também se sentia aliviado, e
descontraiu-se. Raramente uma hipermensagem tinha um conteúdo
inocente. — Acho que você está interessado em saber o que
aconteceu na Terra nestes últimos tempos.
— Os
terranos que voltaram para cá já me informaram sobre isso. Você
teve sorte por eu ter conseguido libertá-lo e porque Cardif foi
morto. De qualquer maneira, você deve agradecer a ele por estar de
posse do ativador celular. Com isso você se tornou imortal que nem
eu.
— Os
agradecimentos devem ser dirigidos ao Ser de Peregrino — retificou
Rhodan, em tom indiferente. — É bem verdade que sua existência
quase me custou a vida. Mas acho que já está na hora de deixarmos
para trás o passado e pensarmos no que vamos fazer com o futuro. Os
problemas criados por Cardif já foram resolvidos. Afastamos um
grande perigo. Vamos...
— Espere
aí — interrompeu Atlan. Uma ligeira preocupação parecia vibrar
em sua voz. — Nem todos os problemas foram resolvidos. Não se
esqueça dos acônidas.
Rhodan não
compreendeu logo.
— Os
acônidas não representam nenhum problema, Atlan. Afinal, temos um
tratado com eles e instalamos um entreposto comercial em seu planeta
central, chamado Sphinx. Não se atreverão a fazer qualquer coisa
contra mim ou contra você, pois não possuem nenhuma frota espacial,
mas apenas os transmissores de matéria. É bem verdade que são os
ancestrais dos atuais arcônidas, mas nem por isso...
Mais uma
vez Atlan o interrompeu.
— Pois é
aí que está, Rhodan! Você diz que não têm frota espacial. É
claro que os acônidas já possuem sua frota espacial. São
exatamente mil unidades modernas. Tive de entregá-las a Ácon, pois,
diante do procedimento de Cardif, não tive outra alternativa.
Bell
ouvira as palavras de Atlan. Parou em meio ao movimento e olhou para
Rhodan. Teve a impressão de que o bronzeado sadio desaparecia da
face do amigo, dando lugar a uma palidez mortal.
— Mil
naves... meu Deus!
Por alguns
segundos reinou o silêncio. Finalmente Atlan disse:
— Isso
mesmo. E entre elas há vinte gigantes da classe Império. É uma
força nada desprezível, que representa a pior herança que Cardif
nos poderia ter deixado.
— Quase
que me esqueço disso! — observou Rhodan, em tom de
auto-recriminação. Sentia certo alívio porque a busca infindável
em sua memória chegara ao fim. Já sabia o que tanto martirizara seu
subconsciente nesses últimos dias. — O que vamos fazer, Atlan?
— O que
vamos fazer? Em hipótese alguma devemos violar o tratado e recuperar
a frota pela força. Ninguém mais confiaria em nós. Devemos
encontrar outro caminho de pôr fora de ação a frota dos acônidas.
— Vamos
encontrar-nos, Atlan. Traga os dados exatos sobre as naves entregues
aos acônidas. Acharemos um meio de trazê-las de volta sem
desrespeitar o tratado. Daqui a cinco horas meu centro de rádio lhe
fornecerá as coordenadas exatas do local de encontro. Poderíamos
marcá-lo para o dia dez de novembro do calendário terrano.
— Muito
bem, Perry. Estarei lá. Vou levar os dados; é bom que você leve
uma boa idéia.
— Combinado,
Atlan. Felicidades até lá.
A ligação
foi interrompida. Rhodan desligou o receptor e olhou para Bell.
— Receio
que mais uma vez nossas férias estejam chegando ao fim. Temos que
fazer nossos preparativos — olhou para as velas, que pendiam
frouxamente do mastro. — Bem, acho que contra isto não podemos
fazer nada.
— Ainda
bem — piou Gucky em tom satisfeito e mergulhou por baixo do barco,
para voltar à tona do outro lado. — Chegarei ao cais antes que
vocês estejam lá com essa canoa preguiçosa.
Bell não
se impressionou com isso. Prendeu o leme e foi ao lugar em que se
encontrava Rhodan.
— Você
acredita mesmo que os acônidas com suas mil naves poderão
representar um perigo para nós?
Rhodan fez
que sim.
— Com a
avançada tecnologia de que dispõem bem que podem... se nós os
deixarmos em paz. Mas é o que não vamos fazer.
Durante o
resto da confortável viagem envolveu-se num silêncio total.
*
* *
No dia dez
de novembro do ano 2.103, Atlan e Rhodan encontraram-se num planeta
quase desabitado, situado entre a Terra e Árcon. Sentiam-se
satisfeitos por não terem de submeter-se às cerimônias pomposas
que a tradição mandava realizar em Árcon. Aqui estavam
praticamente sós. A base arcônida era guarnecida quase
exclusivamente por robôs, e os nativos não demonstravam o menor
interesse pelos desconhecidos visitantes. As duas naves estavam
pousadas lado a lado no porto espacial provisório. A atmosfera do
planeta era semelhante à de Árcon e da Terra. Por isso os dois
homens saíram de suas naves, acompanhados por dois robôs de
combate, e encontraram-se ao ar livre. Caminharam um pedaço, em
direção ao rio próximo, e sentaram numa colina coberta de capim.
O sol
avermelhado estava quase a pino, mas não fazia muito calor. Uma
brisa agradável soprava do leste. Raras nuvens desfilavam sob o céu
rosado.
Atlan
soltou um suspiro e disse:
— Você
nem imagina como ansiei por uma solidão agradável como esta, Perry.
Um rio, um campo coberto de grama e nada de seres humanos. Em Árcon
nunca se consegue encontrar uma coisa destas. A guarda pessoal não
tira os olhos da gente por um segundo que seja. A gente vive
tropeçando sobre os cortesões e tem de ouvir suas frases feitas.
Mas aqui...
Calou-se e
contemplou o rio. A água deslizava graciosamente. Era límpida e
transparente. Não havia indústrias que a poluíssem. Naquele
planeta não havia uma única fábrica.
— Comigo
as coisas não são tão ruins assim — disse Rhodan, lembrando-se
do lago de Goshun, situado nas proximidades de Terrânia. — Quando
resolvermos encontrar-nos, devemos escolher um lugar como este,
afastado de todas as solenidades. Só então podemos ser aquilo que a
natureza fez de nós: seres humanos, criaturas inteligentes e ligadas
à natureza. Fico-lhe muito grato, Atlan, por ter concordado com a
escolha do lugar de encontro.
— Está
bem. Trouxe os dados. Estão com meu robô. Já pensou sobre a
maneira de levarmos os acônidas a devolver-nos as espaçonaves?
— Andei
pensando sobre isso, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Que
motivo plausível poderíamos apresentar aos acônidas para formular
uma pretensão como esta? Não podemos dizer-lhes que estamos com
medo.
— Vamos
invocar Cardif. Diremos que o tratado foi concluído sob um falso
pressuposto.
Atlan fez
um sinal para o robô que o acompanhara. O monstro metálico
aproximou-se e entregou uma pasta ao arcônida. Depois disso
retirou-se e examinou o terreno. Sua tarefa era esta. Atlan e Rhodan
não poderiam desejar melhor guarda pessoal que a formada pelos dois
robôs.
— Isto é
uma relação das naves fornecidas aos acônidas — disse Atlan,
retirando uma pasta de folha metálica e entregando-a a Rhodan. —
Inclui todos os detalhes técnicos. Poderei fornecer-lhe quaisquer
outros que ainda desejar. Estou muito bem informado sobre o assunto,
pois o mesmo causou-me bastante aborrecimento.
Rhodan
pegou a pasta e abriu-a. Já conhecia os dados técnicos, que não
adiantavam nada. Apesar disso estudou a lista, enquanto Atlan se
deixava cair na grama macia e fechava os olhos. Via-se que precisava
muito desse tipo tão simples de descanso.
Dali a dez
minutos Rhodan fechou o mapa.
— Posso
ficar com isto? — perguntou. Atlan continuou na mesma posição.
— Naturalmente.
Por quê?
Rhodan
também se deitou na grama. Os dois homens mais poderosos do Universo
estavam deitados num prado de um planeta quase desconhecido. Era uma
situação tão estranha que Rhodan não pôde deixar de sorrir; foi
um sorriso alegre e satisfeito.
— Porque
tive uma idéia. Acho que ainda está lembrado do ataque temporal dos
acônidas. Desligaram o centro de computação e com isso quase
conseguiram destruir Árcon. Todas as instalações comandadas pelo
centro de computação entraram em pane, inclusive as frotas
espaciais robotizadas.
— Sei.
Mas o que isso tem que ver com o nosso problema?
— Procure
inverter a situação, Atlan.
Atlan
abriu os olhos. Deitou-se de lado para poder olhar para Rhodan.
— Não
compreendo, Perry.
Rhodan
soltou um suspiro.
— É
simples. Pelo que vi na lista, você enviou aos acônidas uma frota
composta exclusivamente de unidades que antigamente eram tripuladas
por robôs. Em outras palavras, as naves obedeciam ao centro de
computação de Árcon. Correto?
— Se é
o que está na lista, deve ser isso.
— Muito
bem. Acredito que os acônidas saibam disso.
— É
claro que sabem. E fizeram logo suas adaptações.
Rhodan
assustou-se. Ergueu-se sobre os braços.
— Adaptações?
Que adaptações?
— Pois é
simples. Pretendem tripular as naves com seus homens. Por isso certos
comandos robotizados devem ser eliminados. Na verdade não se trata
propriamente de adaptação, mas antes de ligação direta de
diversos sistemas de controle. Os elementos capsulares são retirados
do sistema de acionamento, e com isso os computadores de bordo são
postos fora de ação. Para que estes possam voltar a entrar em
funcionamento, as cápsulas, que são do tamanho de um dedo, devem
ser recolocadas.
— Ah,
então é só isso. — Depois de refletir um pouco, Rhodan
perguntou: — Os acônidas pretendiam fazer outro tipo de adaptação?
— Só
pretendiam servir às adaptações destinadas a tornar as naves mais
confortáveis. É claro que uma nave comandada por robôs não possui
camarotes residenciais e outros luxos desse tipo. Naturalmente os
acônidas não querem dispensar esse tipo de conforto. Há lugar de
sobra para isso.
— E as
cápsulas? Eles as devolveram? Atlan abanou a cabeça.
— É
claro que não. Afinal, não poderíamos fazer nada com elas. Não
sei o que fizeram com isso — fitou Rhodan. — Por que faz estas
perguntas? Tem alguma idéia?
— Tenho,
sim. Como já disse, podemos reconstituir certo acontecimento em
sentido contrário. Há algum tempo os acônidas colocaram-nos fora
de ação porque desligaram nosso centro de computação. Desta vez
nós lhes daremos uma surpresa, acionando suas naves robotizadas.
Compreendeu o que quero dizer?
— Ah —
disse Atlan e sentou-se na grama. De repente sorriu. — A idéia não
é nada má. E mais tarde ninguém saberá como aconteceu. Os
acônidas não sabem lidar com naves robotizadas, não é isso? De
qualquer maneira, nós não teremos a menor culpa se perderem sua
frota porque algum comando automático se descontrolou... No entanto,
não devemos subestimá-los. E como é que pretende preparar toda uma
frota que se encontra em outro planeta? Não se esqueça de que em
Ácon não poderemos mover-nos com a liberdade que seria desejável
para levar avante um plano desses. Seremos mantidos sob observação.
Não tirarão os olhos de nós por um instante. Em todo sistema de
acionamento de cada nave deve ser instalado um microcomando. E isso
só pode ser feito por um especialista, não por um dos seus
teleportadores, se é que você pensa nisso.
— Os
teleportadores poderão levar um especialista para qualquer lugar,
inclusive para dentro de uma nave. Conseguiremos. Mas antes disso
teremos de discutir minuciosamente certas medidas. Tudo tem de ser
feito com a precisão de um minuto. E os acônidas não devem
desconfiar de nada. Devem acreditar que sua frota se descontrolou e
acabou por destruir-se a si mesma. De qualquer maneira, isto será
melhor que pedir-lhes que nos devolvam as naves. Até devemos fazer
de conta que, para nós, é indiferente que possuam uma frota. Não
podemos arriscar complicações políticas, muito menos uma guerra
com os acônidas.
Depois de
discutir mais alguns detalhes, levantaram-se e voltaram para suas
naves. Cada um deles voltaria ao seu planeta: Atlan para Árcon e
Rhodan para a Terra.
O plano
acabara de ser concebido. Sua execução era apenas uma questão de
tempo.
Acontece
que o tempo trabalhava a favor dos acônidas...
*
* *
Bem ao
centro da Via Láctea ficava o gigantesco sol azul denominado Ácon.
Era o centro do Sistema Azul, do mundo dos acônidas, dos quais
descendiam os arcônidas.
Ácon
possuía cinco planetas, e o planeta Ácon V era Sphinx, o mundo
misterioso onde os terranos e os acônidas tiveram seu primeiro
encontro. Era o centro de um império não movimentado por meio de
espaçonaves, mas de transmissores de matéria. Em todos os planetas
do sistema havia receptores e transmissores. Com um simples passo
através do arco luminoso, qualquer pessoa podia transportar-se de um
planeta a outro.
O campo
energético azul havia desaparecido. As naves de Rhodan tinham
destruído os satélites que lhe supriam energia. Só mesmo uma nave
dotada do sistema de propulsão linear seria capaz de atravessar esse
campo, que por vários milênios isolara o império dos acônidas do
resto da Galáxia. Agora o isolamento fora rompido, e tanto a Terra
como Árcon possuíam um porto espacial comercial em Ácon V. O
contato fora estabelecido e era garantido por uma série de tratados.
A base que
Rhodan mantinha em Sphinx era pequena. O diâmetro do porto espacial
não ultrapassava cinco quilômetros. Junto ao mesmo havia alguns
edifícios destinados a abrigar os serviços administrativos, além
da residência do representante permanente que a Terra mantinha no
sistema de Ácon. Estanislau Jakobowski não se sentira muito feliz
quando lhe deram este posto, que representava o degredo num mundo
situado a dezenas de milhares de anos-luz de seu lar. Seu assistente
Axel Wiener compartilhava com ele a solidão infinita de uma
civilização que, sob vários pontos de vista, era superior à sua.
Os dois haviam instalado a casa segundo seus gostos pessoais, pois
representava o único local em que poderiam permanecer. A área
situada fora do porto espacial era território proibido. Não podiam
abandonar a base terrana.
Todas as
tentativas de obter algum alívio da situação esbarravam na
teimosia dos acônidas. Estes invocavam o texto dos tratados, nos
quais Perry Rhodan apenas solicitava uma base em Sphinx. Esses
tratados não mencionavam a possibilidade de entrar nas cidades
acônidas.
Estanislau
Jakobowski era um funcionário civil do governo terrano. Tinha
direito a aposentadoria, desde que não deixasse o serviço antes do
tempo. Por isso aceitara sem qualquer objeção a ordem de seus
superiores, segundo as quais deveria dirigir-se
a Ácon a
fim de defender os interesses da Terra.
Um pequeno
hipertransmissor lhe permitia manter contato permanente com Terrânia,
de onde recebia suas instruções. Quase todos os dias pousavam
espaçonaves mercantes vindas da Terra ou dos planetas coloniais.
Traziam mercadorias que eram trocadas com as dos acônidas, bem como
o correio e mantimentos para Jakobowski e Wiener.
Estanislau
afastou-se da janela, que permitia uma visão ampla sobre toda a área
do porto espacial. Não era alto e usava barba no estilo dos
mercadores galácticos.
— Eles
nos mandaram filmes, chefe. São filmes sobre as moças da Terra. E
nós estamos presos em Ácon.
Jakobowski
também não estava nada satisfeito, mas não deixou seu interlocutor
perceber.
— Os
filmes — respondeu — pelo menos provam que não nos esqueceram.
Querem ajudar-nos a espantar o tédio. Se não tivermos vontade, não
os olhamos.
— O quê?
Acha que devemos dispensá-los? — disse Wiener, em tom indignado. —
E logo quando não nos custam nada? Essa não!
Sacudiu a
cabeça e continuou a revirar o conteúdo da mala postal trazida por
uma nave mercante na manhã daquele dia. Havia jornais, revistas,
livros, correspondência particular destinada aos tripulantes das
espaçonaves que pousavam regularmente em Ácon, rolos de filme,
fitas gravadas com música e instruções.
Instruções!
Wiener
tirou da mala um envelope alongado e fitou-o com uma expressão de
espanto. Trazia o nome de Jakobowski e não indicava o remetente.
Wiener
encostou a carta ao nariz.
— Não
há nenhum perfume — disse com um sorriso e balançou a carta. —
Estou curioso para saber quem resolveu escrever ao senhor. Será que
foi sua namorada?
— Não
tenho namorada — disse Jakobowski e pegou a carta. Examinou a letra
sem compreender nada. — Não conheço a letra — disse.
Abriu o
envelope e quase chegou a assustar-se com a enorme folha escrita de
cima até embaixo. Esforçou-se em vão para decifrar o conteúdo. As
letras se enfileiravam, separadas por lacunas e sinais de pontuação.
Mas as palavras eram incompreensíveis. Não conseguiu extrair-lhes
qualquer sentido.
— Então?
— perguntou Wiener, em tom impaciente. — O que estão querendo do
senhor? Será que a moça está com saudades ou...?
— Cale a
boca! — gritou Jakobowski, em tom severo. Entregou-a a Wiener. —
Procure ler esta bobagem.
Wiener
tentou. É claro que também não conseguiu. Perplexo, fitou a carta.
Formulou
sua teoria.
— Alguém
se permitiu uma brincadeira com o senhor, chefe. Mas será que algum
dos seus amigos sabe que o senhor se encontra em Ácon? —
contemplou o selo de alto valor do correio espacial. — Devo dizer
que é uma brincadeira muito cara.
Jakobowski
voltou a pegar a carta.
— Naturalmente
terei de informar meus superiores sobre o incidente — disse em tom
indiferente. — Não se pode admitir que o correio, já
sobrecarregado, seja utilizado para infantilidades deste tipo...
Ouviu-se
um zumbido vindo do teto. Alguém procurava estabelecer contato pelo
hiper-rádio. Provavelmente era uma nave que pretendia anunciar sua
chegada.
— Cuide
disso — ordenou Jakobowski e continuou a examinar a carta.
Finalmente
sacudiu a cabeça e guardou o envelope no bolso. Retirou-se. Sempre
que desejava refletir sobre alguma coisa, costumava dar um passeio.
Em Ácon só podia passear no porto espacial, mas mesmo ali estaria
ao ar puro. Não importava que esse ar fosse aquecido por um sol
azul.
Um sol
azul...?
Depois de
ter percorrido algumas centenas de metros, Jakobowski parou
abruptamente e olhou para cima. Por ali o céu quase sempre era azul,
mas poucas vezes era tão radiante como hoje. Não se via nenhuma
nuvenzinha. Havia apenas o azul maravilhoso e o brilho quase violeta
do gigantesco sol.
Hum...
Jakobowski
lembrou-se de que, no dia anterior, o céu não fora tão azul. Mas
sempre havia certos fatores de que só agora se lembrava. Como por
exemplo, as extraordinárias medidas de segurança dos últimos dias.
Os acônidas haviam colocado guardas armados em torno do porto
espacial. Antigamente achavam que isso não era necessário. Por que
de repente resolveram agir assim?
Prosseguiu
na sua caminhada. Voltou a pensar na estranha carta que acabara de
receber. Quem se teria permitido essa brincadeira? Só podia ser um
dos seus velhos amigos.
Teve a
impressão de que alguém acabara de chamá-lo.
Virou-se
lentamente. Wiener estava parado junto à casa e gesticulava com os
braços. Parecia muito exaltado.
“É
uma pena que não trouxe meu rádio portátil”,
pensou Jakobowski.
— O que
houve? — perguntou em tom áspero quando se encontrava a uma
distância em que podia entender as palavras do outro. — Não grite
desse jeito! Não consigo entender uma palavra.
— É um
chamado de Terrânia — gritou Wiener, sem reduzir o volume da voz.
— É da central.
— Como?
— perguntou Jakobowski, respirando com dificuldade. De repente
pôs-se a correr. — Por que não disse logo?
Passou
rapidamente pelo companheiro, que parecia perplexo. Com alguns saltos
atingiu a pequena sala de rádio e precipitou-se em direção ao
receptor. O rosto de Perry Rhodan contemplava-o da tela.
É claro
que Jakobowski conhecia Rhodan, embora este nunca tivesse entrado em
contato direto com o entreposto comercial. Era um acontecimento tão
extraordinário que por alguns segundos Jakobowski quase perdeu o
autocontrole. Mas era um funcionário muito capaz e logo recuperou-se
da surpresa. Enquanto tomava lugar na poltrona, para que Rhodan, que
se encontrava na Terra, pudesse vê-lo, fez sua apresentação:
— Aqui é
a base de Ácon, sir.
Estanislau
Jakobowski falando.
— O
senhor recebeu minha carta, Jakobowski?
— Sua
carta, sir? — revirou todos os recantos de sua memória, mas não
se lembrou de nenhuma carta. Pelo menos não se lembrou de nenhuma
carta de Perry Rhodan. — Não, sir, não recebi nenhuma mensagem
escrita do senhor.
Rhodan
sorriu como quem compreendia.
— A
carta não indica o remetente e o senhor deve ter quebrado a cabeça
com o conteúdo da mesma. Achei que este seria o melhor meio de
transmitir-lhe minhas instruções. Mesmo que usemos o código,
sempre existe o perigo de que alguém consiga decifrar nossas
mensagens de hiper-rádio. Preste atenção, Jakobowski. Quando
receber uma carta sem indicação de remetente, formada por uma série
aparentemente desconexa de letras e...
— Sir! —
interrrompeu Jakobowski. — Recebi a carta há meia hora. Queira
desculpar.
— Excelente!
— disse Rhodan. — Leia a carta com toda calma e responda dentro
de três dias. Tenha cuidado. Daqui a três dias escreva suas
respostas e comentários. Use o mesmo método que eu usei ao escrever
a carta. Expeça a mensagem sob a forma de carta comum. Um comandante
de nave mercante chamado Samuel Graybound entrará em contato com o
senhor e lhe perguntará se tem alguma correspondência para a Terra.
É a ele que deve entregar a carta.
— Sir! —
exclamou Jakobowski antes que a ligação fosse cortada. — Como
faço para ler a carta? Deve estar codificada.
Rhodan
riu.
— É
simples. Use o código 20A. Espero notícias suas daqui a três dias.
Confio no senhor.
A tela
apagou-se.
Mais uma
vez Jakobowski viu-se a sós, mas apenas por dois segundos. Wiener
logo entrou na sala de rádio.
— Então,
chefe? Alguma novidade? Vão revezar-nos?
Jakobowski
sacudiu a cabeça, levantou-se e foi tirando do bolso a misteriosa
carta. Contemplou-a com uma expressão que era um misto de veneração
e repugnância. Abriu o envelope e pôs-se a decifrar o conjunto
caótico de letras, segundo o indicado por Rhodan.
0 texto da
carta era o seguinte:
Para
Estanislau Jakobowski:
Preciso
que o senhor me dê resposta às seguintes perguntas:
1 —
Onde estão estacionadas as mil espaçonaves que os acônidas
receberam de Árcon? Que tipo de trabalho foi realizado nas mesmas?
Qual é a vigilância a que estão submetidas?
2 —
Houve alguma modificação do comportamento dos acônidas, face aos
terranos nestes últimos vinte dias?
3 —
Foram notadas medidas especiais destinadas a evitar que os terranos
saiam da base?
4 —
Notou mais alguma coisa?
5 — O
senhor poderia receber em sua casa cerca de dez pessoas, sem que haja
necessidade de modificações na construção?
Preste
atenção aos seguintes detalhes: Na mesma nave em que foi
transportada esta carta enviamos um traje de combate arcônida. Tal
traje encontra-se numa caixa marcada com a palavra Conservas. Faça
tudo que for necessário para responder às cinco perguntas que acabo
de formular.
Ass.:
Rhodan.
*
* *
Wiener
devolveu a carta e lançou um olhar indagador para Jakobowski.
— É uma
tarefa estranha, se permite que use esta linguagem. Será que somos
representantes da administração comercial ou agentes do Império
Solar? Se os acônidas nos pegarem fazendo espionagem, torcerão
nosso pescoço.
— Não
será bem assim! — conjeturou Jakobowski. — Mas de qualquer
maneira seria muito desagradável. Afinal, Rhodan enviou-nos um traje
de combate. Se não me engano, ele torna a pessoa invisível. Quer
dizer que poderemos penetrar tranqüilamente na área proibida e
procurar a resposta às perguntas formuladas por Rhodan. O senhor se
prestaria muito bem a isso, Wiener. Quase diria que é um espião
nato...
— Obrigado!
— respondeu Wiener. — Não aprecio os acônidas e não tenho
vontade de deixar-me pegar por eles. Mesmo que eu me torne invisível,
sempre haverá a possibilidade de que isso aconteça. Com eles tudo é
possível.
Jakobowski
soltou um suspiro.
— Está
bem. Eu irei. Será preferível que seja assim.
Um traje
de combate arcônida tornava quase inviolável a pessoa que o usava.
Os campos antigravitacionais permitiam a adaptação a qualquer força
de gravidade e até tornavam possível o vôo. O campo de deflexão
proporcionava a invisibilidade. Havia um aparelho que permitia a
qualquer tempo envolver o traje num campo energético que protegia
contra um ataque, caso este não fosse muito forte. Em sua embalagem
o traje parecia inofensivo e não pesava mais que um dos leves trajes
espaciais, destinados a uma permanência não muito prolongada no
vácuo. Os aparelhos, instrumentos e chaves de controle estavam
embutidos no cinto largo, onde era fácil alcançá-los.
Jakobowski
contemplou o traje. Teve uma sensação estranha e leu cuidadosamente
a descrição que o acompanhava. Finalmente colocou-o e se dispôs a
cumprir as ordens de Rhodan.
Ligou o
defletor e a expressão de perplexidade que via no rosto de Wiener
mostrou-lhe que se tornara invisível. Sentiu-se dominado pela
vontade de experimentar. Deu alguns passos cautelosos e, passando
junto ao seu auxiliar, saiu para o ar livre. Wiener continuava a
olhar fixamente para o lugar em que o chefe acabara de desaparecer.
— Estou
aqui, Axel! Ora essa, não se assuste. Como vê, isto funciona muito
bem. Os acônidas não me descobrirão. Farei logo minhas
experiências.
— Leve
uma arma — pediu Wiener, avançando em direção a Jakobowski com
os braços estendidos.
— Para
quê? Mesmo que me descubram, devo evitar toda e qualquer violência.
A reação só produziria complicações diplomáticas, que por certo
não seriam apreciadas por Rhodan. Além disso, não permitirei que
me peguem. Até logo mais.
Saiu da
casa e, empolgado por uma sensação de leveza que nunca antes
experimentara, caminhou em direção à fronteira bem próxima da
base. Com uns poucos movimentos da mão regulou a gravitação
artificial. Passou a pesar não mais de cinco quilos. Com isso um
salto de cinqüenta metros não representava nenhum problema. Poderia
superar qualquer obstáculo.
E não
teve de esperar muito para dar uma prova dessa capacidade.
Os
acônidas haviam colocado estacas de cerca de três metros de altura
em torno do porto comercial. Essas estacas distavam cinqüenta metros
uma da outra, e estavam ligadas por um único fio.
Quando
atingiu o obstáculo aparentemente inofensivo Jakobowski parou,
perplexo. Uns quinhentos metros à sua esquerda havia um acônida,
que não parecia uma sentinela muito atenta. E deveria prestar
atenção, pois aquela cerca de arame não dava a impressão de ser
capaz de impedir que alguém saísse da base.
“Os
acônidas são inteligentes, muito inteligentes”,
pensou Jakobowski sem sair do lugar. “Nunca
seriam capazes de subestimar os terranos...”
Jakobowski
logo se deu conta de que aquele fio era uma armadilha.
Manteve-se
imóvel e pôs-se a refletir:
“Por
que o fio foi estendido justamente numa altura tal que normalmente
não se pode saltar por cima dele, enquanto é fácil passar por
baixo? O perigo, ou seja, a barreira, deve ficar embaixo do fio, não
acima do mesmo.”
Por acaso
Jakobowski contemplou naquele instante o céu e voltou a refletir
sobre a intensa coloração azul que este apresentava. Baixou os
olhos e quando fitou o lugar em que o fio parecia separar o céu em
duas partes, notou que embaixo dele o azul era diferente. Parecia
mais pálido e um tanto apagado. Tinha-se a impressão de que estava
coberto por um véu invisível.
Era um véu
que enchia o espaço que ficava entre o fio e o chão.
Compreendeu
imediatamente. O fio emitia raios, dirigidos exclusivamente para
baixo. Gerava um campo de radiações que se estendia em torno do
porto espacial tal qual uma cortina invisível e se mostraria mais
eficiente que uma muralha sólida, evitando, assim, que alguém
abandonasse a área.
O caráter
traiçoeiro da barreira deixou Jakobowski ainda mais aborrecido. Se
não tivesse sido tão desconfiado, teria prosseguido na caminhada e
o passo seguinte talvez lhe tivesse custado a vida. Era possível que
o choque energético apenas o deixasse inconsciente, mas não se
podia afirmar que não fosse mortal.
Antes de
vencer o obstáculo num salto, resolveu verificar os efeitos da
cortina de radiações. Olhou em torno, à procura de uma pedra de
tamanho adequado, quando o acaso veio em seu auxílio. Um grande
besouro de Berol, do tamanho de um pardal, voou pelo campo, pouco
acima do pavimento de concreto, e tomou a direção da barreira. Voou
muito devagar, conforme costumavam fazer esses insetos nativos de
Ácon, mudou de direção por várias vezes e finalmente, quando se
encontrava a menos de dez metros do lugar em que estava Jakobowski,
tentou passar por baixo do fio.
Não houve
a descarga energética que Jakobowski esperava. Tinha certeza de que
veria uma luminosidade. Mas o que aconteceu foi muito mais
assustador. O besouro desapareceu!
Jakobowski
compreendeu. A cortina de radiações não constituía uma barreira
energética, mas uma versão simplificada de um transmissor de
matéria. Qualquer objeto que entrasse no campo de radiações era
desmaterializado, para rematerializar-se em outro lugar. Isso podia
acontecer num ponto bem próximo, ou então a cem quilômetros de
distância.
O acônida
que se encontrava a quinhentos metros não esboçou o menor gesto.
Parecia não ter notado o fenômeno. Talvez o besouro fosse muito
pequeno para acionar o alarma que por conseguinte existia por ali.
Enquanto Jakobowski ainda refletia, viu outro besouro que se
aproximava. Um tanto curioso, seguiu o vôo irregular do inseto, até
que este fosse desmaterializado mais à direita pela terrível
barreira. Vira perfeitamente que a asa esquerda do inseto estava
ferida. Por isso seu vôo fora irregular.
Quando já
estava decidido a arriscar o salto sobre o fio, ouviu outro besouro
que se aproximava. Vinha de trás!
Jakobowski
não acreditou no que seus olhos viam.
— Não é
possível!
Era o
mesmo besouro de antes. A asa esquerda era um pouco mais curta que a
direita, motivo por que o vôo era inseguro e sinuoso. Com a
obstinação característica dos insetos, o besouro voltou a
dirigir-se ao obstáculo invisível e desapareceu pela terceira vez.
Jakobowski
agiu imediatamente, como que por instinto. Virou-se e olhou na
direção da qual tinham vindo os besouros — ou o besouro. Teve
sorte. Um pequeno ponto escuro, vindo do nada, surgiu a menos de
cinqüenta metros. Era o besouro! Desta vez, naturalmente por pura
coincidência, voou numa altura tal que passaria por cima do fio.
Passou menos de vinte centímetros acima do obstáculo, e desta vez
não aconteceu nada. Para Jakobowski, isso representava a prova final
de que a transmissão só funcionava embaixo do fio.
Concluiu
que os acônidas preferiram não criar uma barreira mortal. Qualquer
terrano que tentasse passar por baixo do fio seria levado de volta
uns cinqüenta metros. Apenas isso. Era um processo inofensivo, mas
muito eficiente.
Empurrou-se
fortemente com o pé e subiu lentamente a vinte metros de altura.
Deixou-se cair obliquamente por cima do fio. Não sentiu nada
enquanto passava por cima do obstáculo. Pousou suavemente na grama
rala, ignorou o acônida, que não desconfiava de nada, e ligou o
campo gravitacional para zero. O minúsculo propulsor fornecia empuxo
suficiente para que voasse pouco acima do solo sem ser visto.
Durante
trinta minutos seguiu a rota aérea larga pela qual se desenvolvia
todo o tráfego entre a base terrana e os acônidas. Sempre que
pousava uma espaçonave, as mercadorias a serem trocadas eram
trazidas por essa rota e os artigos vindos da Terra eram
transportados pela mesma. Hoje essa via estava deserta e abandonada.
À sua
direita a silhueta da cidade começou a desenhar-se no horizonte, mas
Jakobowski não se interessou muito por ela, pois à sua esquerda
surgiu o grande porto espacial dos acônidas. O que havia de estranho
nesse porto espacial era o fato de que este só voltara a entrar em
atividade há poucos meses. De certa forma os acônidas já haviam
superado a fase da navegação espacial. Seus transmissores de
matéria possibilitavam uma comunicação mais rápida e segura entre
os planetas. Mas em certa altura haviam aparecido os terranos e os
arcônidas, que lhes provaram de forma inequívoca que nem sempre a
conquista de um futuro perfeito representa a derrota do passado menos
perfeito. Depois da destruição do campo energético defensivo que
envolvia seu planeta, os acônidas precisavam de uma frota espacial
potente, a fim de poderem defender-se das raças de astronautas. Por
isso resolveram recuperar o velho porto espacial.
E nesse
porto espacial estavam pousadas mil naves.
Jakobowski
viu como elas se destacavam contra o horizonte iluminado e de repente
compreendeu que perigo representavam, se os acônidas voltassem a
aprender como usá-las. Começou a compreender por que Rhodan
formulara as perguntas que deveria responder.
Reduziu a
velocidade e subiu um pouco. O perigo de uma descoberta casual por
meio dos aparelhos de localização não era grande, pois os acônidas
certamente confiavam na barreira transmissora. E não se sabia se
conheciam os trajes de combate arcônidas.
Ninguém
deixaria de notar a presença da frota. Os vinte couraçados da
classe Império ocupavam uma área superior à de uma grande cidade.
As gigantescas esferas espaciais cercavam o grosso da frota, formado
por unidades de outro tipo. Jakobowski reconheceu cruzadores ligeiros
e pesados e couraçados. Ao que parecia, só haviam entregue veículos
espaciais esféricos aos acônidas, pois Jakobowski não viu nenhuma
gazela ou destróier.
Jakobowski
sobrevoou o conjunto por duas vezes, antes de decidir-se a pousar no
pólo superior de um cruzador ligeiro, que ocupava uma posição
central e, com seus cem metros, não podia ser considerado muito
alto.
Enquanto
se aproximava, notou a atividade febril que se realizava nas naves.
Exércitos de técnicos estavam ocupados no descarregamento de
comboios. As caixas com os materiais eram levadas para as escotilhas.
Os elevadores gravitacionais trabalhavam ininterruptamente, levando
máquinas e instalações para o interior das naves, onde eram
recebidas por equipes de trabalhadores.
Com isso
já tinha a resposta à primeira das perguntas formuladas por Rhodan.
A frota continuava no mesmo lugar em que fora estacionada no
princípio; as naves estavam recebendo equipamento novo, já que
antes ofereciam pouco conforto a tripulações humanas; a vigilância
não era muito rigorosa porque os acônidas não contavam com a
possibilidade de que alguém pudesse atravessar a barreira que
cercava a área da missão comercial terrana.
E a
segunda pergunta também podia ser respondida tranqüilamente com um
sim. Os acônidas haviam modificado sua atitude face aos terranos.
Depois da derrota voltaram a tornar-se mais confiantes e arrogantes.
Formularam suas exigências e passaram a reforçá-las por meio de
atitudes concretas.
Também já
tinha a resposta à terceira pergunta. Os acônidas haviam descoberto
um novo método de impedir que os terranos saíssem da área que lhes
fora reservada. Jakobowski até conseguira descobrir de que tipo era
a barreira.
A quarta
pergunta ainda continuava em aberto, enquanto a resposta à quinta
também consistia num sim. Naturalmente seria possível receber mais
dez pessoas na casa residencial, sem que houvesse necessidade de
realizar modificações na sua estrutura.
Ora, a
quarta pergunta! Havia algo de extraordinário? Para descobrir isso,
consumiria os dois dias que lhe restavam. Não sabia exatamente o que
Rhodan queria dizer com isso, mas resolveu registrar toda e qualquer
conduta estranha dos acônidas e transmiti-la a Rhodan.
Jakobowski
resolveu fazer um exame mais demorado dos trabalhos que se realizavam
no interior das naves. Olhou cautelosamente em torno. Um pouco abaixo
do “horizonte” da pequena espaçonave as escotilhas dos
compartimentos de carga estavam bem abertas. Naquele momento não
havia nenhum acônida por perto. Aqui devia ser menos perigoso entrar
em uma nave, e era o que tinha de fazer se quisesse descobrir quais
as modificações que estavam sendo realizadas em seu interior.
Deslocou-se
cautelosamente em direção à escotilha. Uma queda dessa altura não
representaria nenhum perigo para ele, mas preferia fazer o possível
para evitá-la. Era possível que por acaso um aparelho de
localização estivesse dirigido sobre ele e, sendo assim, a queda
seria notada.
Entrou num
corredor vazio, cujo estilo puramente finalista não tinha nada de
humano. Os camarotes que se enfileiravam de ambos os lados do
corredor também estavam vazios e não tinham qualquer tipo de
instalação. Os construtores das naves não haviam feito qualquer
diferença entre as unidades tripuladas e as dirigidas por robôs, já
que as mesmas eram fabricadas em linhas de montagem. Era fácil
transformá-las de um tipo em outro.
Jakobowski
ouviu passos que se aproximavam.
Parou e
pôs-se a esperar. Dois acônidas dobraram a curva mais próxima.
Carregavam uma caixa alongada, que em virtude dos campos
gravitacionais ligados era muito mais leve que fora da nave. Passaram
a poucos centímetros de Jakobowski, que conteve a respiração de
susto e só se sentiu aliviado quando haviam passado. Empurraram a
caixa para dentro de um camarote e puseram-se a esvaziá-la. Continha
peças de plástico, destinadas à montagem de uma cama.
As naves
estavam sendo adaptadas para serem tripuladas por seres humanos.
Jakobowski
criou coragem e foi avançando. Notou que, na sala de comando, os
controles robotizados continuavam no mesmo lugar. Haviam sido
cobertos por placas de plástico. De resto estavam inalterados. As
naves poderiam ser adaptadas novamente ao controle robotizado.
Jakobowski
não era técnico, motivo por que teve que dar-se por satisfeito com
o que acabara de observar. E Rhodan também ficaria satisfeito com
isso, pois, do contrário, teria solicitado outros detalhes ou
enviado um técnico.
Três
acônidas estavam examinando os controles. Falavam pelo
intercomunicador com os colegas que se encontravam na sala de
máquinas. Jakobowski compreendeu perfeitamente o que diziam, embora
o arcônida moderno fosse mais objetivo e menos prolixo que o
primitivo. Os elementos fundamentais das duas línguas provinham da
mesma fonte e eram bastante semelhantes. Do texto da palestra, o
terrano concluiu que todos os comandos robotizados já haviam sido
desativados. As microcápsulas estavam depositadas num arsenal, do
qual poderiam ser retiradas a qualquer tempo.
Jakobowski
teve a impressão de que, para aquele dia, já descobrira o
suficiente. Sua autoconfiança cresceu ainda mais quando passou bem
no meio de um grupo de técnicos sem que ninguém percebesse sua
presença. Naturalmente tinha de evitar toda e qualquer forma de
contato direto, pois não se desmaterializara. Não podiam vê-lo,
mas seriam capazes de senti-lo...
Entretanto
a pane só aconteceu quando voltou à base comercial!
Pousou
suavemente na grama macia, a vinte metros da sentinela. O acônida,
que era um homem de estatura mediana e trazia uma arma portátil de
radiações, olhou bem em sua direção. Jakobowski sentiu um ligeiro
mal-estar, mas logo disse a si mesmo que não passava de um idiota. O
acônida não podia vê-lo. Era por puro acaso que olhava para o
lugar em que se encontrava.
Acontece
que o acônida olhou exatamente em sua direção e foi levantando a
arma. Os dedos da mão direita seguraram o gatilho. Um brilho
ameaçador surgiu nos olhos pálidos, enquanto o cano da arma subia
cada vez mais.
Jakobowski
não pôde evitar uma sensação desagradável. Tinha a impressão de
que o acônida fitava seus olhos. Será que seu traje de combate não
estava funcionando? Estaria ficando visível?
Olhou para
seu corpo, mas não notou nada de anormal.
Num
movimento instintivo ligou seu campo defensivo individual. E ele o
fez no momento exato.
— Sei
onde você está, mesmo que se tenha tornado invisível — disse o
acônida com a voz insegura. Sua mão direita tremia de tão
fortemente que segurava a arma. — Fique onde está. No momento em
que um pedacinho de grama se levantar, disparo.
Então era
isso. Jakobowski compreendeu que subestimara bastante aquele acônida.
Ele devia ter notado a marca do pé quando olhara por acaso em sua
direção. E não era só isso. Sabia perfeitamente qual seria a
posição do homem invisível. No momento em que Jakobowski desse um
passo, a grama voltaria a levantar-se, revelando seus movimentos. Não
poderiam fazer-lhe nada, mas o acônida já conhecia seu segredo. Não
poderia realizar outras expedições, pois a descoberta seria
inevitável.
Praguejou
contra a leviandade que acabara de cometer. Rhodan não ficaria nada
satisfeito, mesmo que obtivesse resposta às suas perguntas.
Fez outro
movimento e ligou o equipamento de vôo. Subiu rapidamente. A grama
voltou a erguer-se, mas devagar demais, pelo menos para o acônida.
Quando este atirou, Jakobowski já se encontrava a vinte metros de
altura. O raio energético perdeu-se no ar e logo se apagou. Mas com
isso os acônidas logo descobririam que o inimigo invisível sabia
voar, e tal coisa só podia acontecer com quem usasse um traje de
combate arcônida — isso naturalmente se os ancestrais dos
arcônidas conhecessem esse tipo de traje.
Jakobowski
voou por cima da barreira e aterrissou à frente de sua residência.
Só desligou os aparelhos e voltou a tornar-se visível depois de ter
entrado na casa. Wiener saiu da sala de rádio.
— Já
está de volta, chefe? Duas naves acabam de anunciar sua chegada.
Deverão pousar ainda hoje, antes do pôr do Sol. Já avisei a
administração espacial acônida, conforme manda o regulamento. A
permissão de pousar foi concedida.
Jakobowski
já tirara o traje de combate e o guardara na caixa, depois de
dobrá-lo cuidadosamente. Ainda se sentia meio paralisado pelo susto
proveniente da quase-descoberta.
— Duas
naves? Qual é a carga?
— A de
sempre. Equipamento técnico e máquinas agrícolas. Os acônidas
anunciaram que têm carga de retorno. Se me permite esta observação,
tenho a impressão de que todo este comércio de troca não passa de
um gesto de cortesia. Trata-se de um pretexto para a manutenção do
entreposto comercial neste planeta.
Jakobowski
confirmou com um gesto.
— É bem
possível que o senhor tenha razão, Wiener. Talvez não demoraremos
a descobrir. Tenho esta impressão.
Naquele
momento nem desconfiava de que suas sensações e pressentimentos se
confirmariam muito depressa.
A Odin era
um couraçado de quinhentos metros de diâmetro, equipado com
propulsores de hipersalto. Sendo assim não podia realizar o vôo
visual a velocidade superior à da luz. Dependia das transições. O
Major Scott, comandante da nave, quase teve um ataque quando soube
que o administrador em pessoa pretendia fazer uma verificação na
nave. Depois disso, tudo foi muito rápido.
Cinco
mutantes e alguns oficiais do Serviço de Segurança Solar subiram a
bordo juntamente com Rhodan. Várias caixas com equipamentos vieram
atrás deles. Só no momento em que a nave saía do sistema solar,
Rhodan explicou ao Major Scott qual era a missão que tinham pela
frente.
Depois de
realizados os cálculos das transições, a Odin iniciou a longa
viagem que a conduziria por várias etapas através do hiperespaço
de cinco dimensões. Levariam vinte e quatro horas para chegar ao
Sistema Azul.
Uma última
conferência foi realizada no camarote de Rhodan, pouco antes da
pausa para dormir. Gucky também estava presente. Sentado numa grande
poltrona, pôs as orelhas de pé, embora não tivesse necessidade
disso, já que possuía o dom da telepatia. John Marshall, chefe do
Exército de Mutantes, estava sentado a seu lado. Além de Wuriu
Sengu, o espia, estavam presentes dois teleportadores: Ras Tschubai e
Tako Kakuta. Ainda se encontravam ali o Tenente Groeder, do Serviço
de Segurança, e o Tenente Jenner, especialista em positrônica e
cibernética.
— Já
sabem o que está em jogo — disse Rhodan, pondo a mão no bolso do
paletó. — O relatório de nosso representante Jakobowski diz
claramente que as instalações de controle robotizado não foram
retiradas das naves. Por isso não será muito difícil instalar as
cápsulas. Dispomos de três teleportadores, e cada um deles será
acompanhado por um especialista. Tenente Jenner, o senhor tem certeza
de que pode confiar em seus dois homens?
— Certeza
absoluta — disse o jovem oficial de cabelo escuro. — Recebemos
nosso treinamento ao mesmo tempo, em Terrânia, e além disso
passamos por um processo de ensino hipnótico relativo aos controles
com que teremos de contar.
— Muito
bem — respondeu Rhodan. — Amanhã pousaremos em Ácon e
esperaremos dois dias. As cápsulas de comando serão enviadas
depois. Poderíamos ter retardado nossa chegada por mais dois dias,
mas se eu chegar a Ácon com uma única nave não provocarei tantas
suspeitas. Para os acônidas, os vôos das naves transportadoras que
se seguirão serão considerados de rotina. Além disso, disporemos
de dois dias para nos familiarizarmos com a situação. Pelo que diz
Jakobowski, a vigilância foi reforçada depois que quase o pegaram.
Caberá a mim transformar o incidente numa bagatela e explicar que se
trata de um acontecimento sem importância.
Rhodan
olhou em torno.
— Mais
alguma pergunta? Nenhuma? Muito bem. Nesse caso está tudo
esclarecido. O êxito de nossa missão dependerá mais da sorte que
da capacidade dos especialistas e teleportadores. Se os acônidas
tiverem a menor desconfiança da finalidade real de nossa visita,
nossa presença aumentará suas suspeitas. E não podemos permitir
que isso aconteça.
Assim que
Rhodan se viu só, bloqueou seus pensamentos contra os telepatas e
voltou a examinar a carta que recebera de Jakobowski. Havia um
detalhe insignificante que lhe chamara a atenção, mas ainda não
estava na hora de preocupar-se com isso.
*
* *
O sistema
de neutralização de vibrações da Odin não foi ligado, e assim a
transição podia ser registrada e acompanhada por qualquer sistema
de rastreamento estrutural situado na Galáxia. Rhodan não queria
que a chegada da Odin surpreendesse os acônidas.
Quando a
nave saiu da última transição e se aproximava do Sistema Azul,
tudo correu conforme se esperara. O campo energético azul que
antigamente cercara o sistema não existia mais. O mesmo protegera o
império dos acônidas por vários milênios contra quaisquer
intrusos, até que a frota de Rhodan destruiu as unidades energéticas
montadas em satélites. Atualmente penetrava-se livremente no
sistema.
Alguns dos
dezoito planetas foram avistados e ficaram para trás, enquanto a
Odin reduzia a velocidade. Sphinx, o quinto planeta, entrou no campo
de visão. Rhodan, que se encontrava na sala de comando, ao lado do
Major Scott, notou o globo azul. Estremeceu e lembrou-se das linhas
escritas por Jakobowski. Será que havia alguma relação entre as
observações deste e aquilo que Rhodan via com os próprios olhos?
A
atmosfera que envolvia o planeta Sphinx possuía um brilho azul que
em hipótese alguma podia ser natural. Sua transparência acompanhada
da capacidade de reflexão lembrava demasiadamente o campo energético
que antigamente envolvera e protegera todo o sistema. Acontece que
desta vez o brilho envolvia somente o planeta Sphinx, e ficava tão
próximo à superfície que qualquer tentativa de romper o campo com
uma nave linear estaria condenada ao fracasso. A nave se despedaçaria
na superfície muito próxima. E, como os geradores do campo
energético estavam instalados em Sphinx, seria impossível
destruí-los.
Os
acônidas haviam aproveitado o tempo. E conseguiram tirar proveito do
fator surpresa. Haviam criado às escondidas uma nova arma defensiva,
que lhes possibilitava impedir o pouso de qualquer nave espacial em
seu mundo central.
Rhodan
dirigiu-se ao comandante.
— Entre
em órbita, major. Vamos tentar estabelecer contato com eles e
perguntar-lhes o que significa essa bobagem. Afinal, devem saber que
uma nave se aproxima de seu planeta.
O Tenente
Groeder, do Serviço de Segurança, apontou para uma tela lateral.
— É uma
nave, sir. Uma nave acônida. Naquele mesmo instante o radioperador
chamou pelo sistema de intercomunicação:
— Temos
uma comunicação de rádio, sir. Pedem que nos identifiquemos. O que
devo responder?
Rhodan
correu para a sala de rádio. O rosto presunçoso de um oficial
acônida o contemplava da tela. E a expressão desse rosto não se
modificou, nem mesmo quando Rhodan se colocou à frente da câmera.
— Nave
terrana Odin — disse Rhodan, fitando os olhos frios do acônida. —
Pedimos permissão para pousar.
— Qual é
a carga?
Rhodan
sorriu.
— O
Administrador do Império Solar, isto é, minha insignificante
pessoa.
Parecia
que os cantos da boca do acônida tremiam um pouco, mas talvez fosse
engano. Sua voz continuou inalterada.
— Permissão
concedida. O porto comercial terrano foi liberado. Quando chegar lá,
aguarde novas instruções. Desligo.
Antes que
Rhodan tivesse tempo de dar qualquer resposta, a tela apagou-se.
Hesitou um pouco e voltou à sala de comando. O Major Scott fitou-o
com uma expressão indagadora.
— Quais
são as ordens, sir?
— Pousaremos
conforme já havíamos previsto. Acredito que daqui a pouco
desligarão o campo energético. Vejo que a barreira serve
principalmente para fortalecer-lhes a autoconfiança. Talvez devamos
dizer-lhes que de nossa parte não temos nenhuma objeção contra o
tal campo. Isso os deixará confusos — apontou para a tela lateral.
— A nave acônida voltou a afastar-se. Acredito que seu comandante
informará o Grande Conselho de Ácon sobre a identidade do
visitante. É bom que procurem matar suas charadas.
— O
campo energético azul representa uma surpresa nada agradável —
disse o Tenente Groeder. — Mas não deixa de ter seu lado bom.
— Ah, é?
— disse Rhodan e esperou que o oficial lhe comunicasse a conclusão
a que chegara.
— Não
tenha a menor dúvida, sir. Os acônidas acreditarão que viemos por
causa desse campo e se orientarão por essa crença. E nós
deixaremos que eles a conservem, enquanto os mutantes e os
especialistas ativarem a frota com toda tranqüilidade.
Rhodan
acenou com a cabeça. Um sorriso de aprovação surgiu em seu rosto.
— A
conclusão não deixa de ser inteligente, tenente. Quer dizer que em
sua opinião os acônidas cairão na cilada que nós lhes armarmos?
Bem, veremos — voltou a olhar para o Major Scott. — Prepare o
pouso, major. Desça e aguarde até que o campo azul se apague.
Quando isso acontecer, pouse imediatamente — mais uma vez
dirigiu-se a Groeder. — Venha comigo, tenente. Os acônidas não
são melhores que os arcônidas. Os dois povos dão mais importância
às tradições e à exibição. Pois façamos-lhes o favor e
acompanhemos seu jogo.
Aconteceu
exatamente aquilo que Rhodan previra. No momento em que a Odin descia
em direção ao pequeno campo de pouso, o campo energético azul
apagou-se. O colosso pousou sem problemas. Estanislau Jakobowski veio
apressadamente com o planador de colchão de ar, a fim de receber
seus hóspedes.
Logo no
início constatou-se que o campo energético em torno de Sphinx só
fora ativado há um dia. As observações de Jakobowski, que haviam
sido comunicadas a Rhodan, aparentemente só se relacionavam com
experiências no solo. De qualquer maneira os acônidas se
surpreenderiam ao notar que os terranos foram informados tão
depressa e mais uma vez desconfiariam de que a base comercial do
planeta Terra não era apenas um espaçoporto comercial.
Axel
Wiener preparara tudo para abrigar os hóspedes. A Odin voltaria a
decolar dentro de pouco tempo e ficaria à espera na periferia do
sistema, onde manteria contato com Bell, que não estaria muito
longe.
Mal se
haviam instalado, um grande planador dos acônidas pousou sem aviso.
Rhodan sentiu-se um tanto contrariado com o fato de que ele mesmo
precisava de uma permissão especial para pousar, enquanto os
acônidas não se preocupavam com esse tipo de formalidade.
“Afinal
Sphinx é o planeta deles”,
pensou Perry. “Os
terranos por aqui apenas são tolerados como visitantes. Este deve
ser ao menos o ponto de vista dos acônidas.”
Três
oficiais de alta patente desceram do veículo e dirigiram-se à casa
residencial. Ignoraram a Odin; faziam de conta que a mesma nem
existia. Rhodan caminhou na direção deles alguns metros e parou.
Esperou que os acônidas se aproximassem o suficiente.
— Estamos
falando com o administrador da Terra?
Rhodan
fitou o oficial pelo menos por dez segundos e retificou:
— Estão
falando com o Administrador do Império Solar, para sermos mais
exatos. Trazem alguma mensagem para mim?
— O
Grande Conselho de Ácon pede-lhe que nos acompanhe. Prepararam uma
recepção de chefe de Estado. O Conselho supõe que o senhor tenha
vindo numa missão definida e está disposto a fornecer-lhe algumas
explicações.
Rhodan
confirmou com um aceno de cabeça.
— Queira
aguardar um momento. Daqui a pouco irei com os senhores.
Deixou que
os oficiais continuassem de pé e voltou para dentro da casa.
— Pretende
acompanhá-los? — perguntou Groeder, em tom preocupado. — Sozinho
e sem qualquer proteção?
— Não
se preocupe — disse Rhodan em tom tranqüilizador. — Nada me
acontecerá. Os acônidas podem ser muito convencidos, mas não são
bobos. Sabem aprender com a experiência. Além disso, estarão
interessados em descobrir qual é a minha opinião sobre o campo
energético deles. Fique tranqüilo, tenente. Voltarei dentro de
algumas horas.
Gucky
entrou balançando o corpo.
— Posso
ir com você, Perry. Ninguém dará atenção a uma criatura como eu.
— Pois
darão mais atenção a você que a qualquer outra pessoa —
interrompeu Rhodan, em tom resoluto. — Você vai ficar aqui, mas
poderá manter contato telepático comigo. Se houver algum
imprevisto, tome suas providências.
— Não
tenha a menor dúvida — prometeu Gucky, muito satisfeito.
O
rato-castor não gostava de ser deixado de lado, mas não era o que
estava acontecendo.
Rhodan
vestiu o uniforme simples verde-pálido, igual ao usado por todos os
oficiais da Frota. A arma de radiações que trazia no cinto não era
nenhuma contrafação; era verdadeira. Quando voltou a reunir-se aos
três oficiais acônidas que o esperavam, sentiu-se como um pardal em
meio a um bando de papagaios, mas esse fato não prejudicou sua
autoconfiança nem melhorou a dos acônidas.

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