quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-117 - Frota Espacial Roubada - Clark Darlton [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
O grande golpe dos ladrões cósmicos
a subtração de 992 espaçonaves.



A época desastrosa de Thomas Cardif chegou ao fim.
Perry Rhodan voltou.
Vinte dias já se passaram desde o regresso do verdadeiro administrador, e nestes vinte dias Perry Rhodan praticamente não teve descanso.
As conferências sucedem-se. Rhodan tem muitos problemas a resolver, muitas dúvidas a esclarecer, muitos males a reparar. Precisa corrigir os erros que Cardif, o usurpador, cometeu durante sua ausência.
Não é de admirar que, depois de concluído o trabalho e superadas as canseiras, o administrador entre de férias para descansar.
Mas acontece que o trabalho parece não estar findo. Uma mensagem de Atlan arranca Rhodan de seu merecido descanso. O imperador volta a falar a Perry sobre as mil espaçonaves robotizadas do último tipo que cedera aos acônidas na época em que Cardif espalhou o desassossego em toda a Via Láctea.
Perry Rhodan conhece o perigo que essas naves — entre as quais há vinte supergigantes da classe Império — podem representar nas mãos dos acônidas, que são uma raça ativa e inteligente. Por isso elabora, juntamente com Atlan, o plano que leva à operação denominada Frota Roubada.



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Estanislau Jakobowski e Axel WienerRepresentantes do Império Solar no mundo central dos acônidas.

Auris de Las-ToorUma mulher bela e inteligente.

AtlanImperador de Árcon e amigo de Perry Rhodan.

Perry RhodanO administrador que age como ladrão de frotas.

Gucky e ToureiroUm abandona um monte de cenouras enquanto o outro rouba cápsulas de comando.

MorkatUm passageiro involuntário que não se lembra das suas experiências.

...e para mim um copo de leite — completou Gucky, o rato-castor, e sorriu para o garçom de fraque branco, exibindo o dente roedor. — Quero morno.
O garçom do Clube de Regatas de Goshun não se abalou nem um pouco diante da idéia de ter que servir um copo de leite. Sabia quem era Gucky e conhecia seus hábitos.
Pois não — disse e saiu andando em direção ao balcão.
Gucky parecia radiante. Olhou em torno com uma expressão de triunfo.
Esse sujeito é muito educado — constatou, tirando do bolso do uniforme uma cenoura já roída.
Mas você, não — disse Perry Rhodan, numa repreensão fria. — Neste clube não se aprecia que alguém traga seus próprios alimentos. Como é que a associação poderia sustentar-se se todos agissem assim?
Gucky mordeu gostosamente a cenoura.
Será que eu sou igual a todo mundo? — perguntou um tanto chocado e lançou um olhar sonhador para as velas brancas que singravam a superfície azul do lago muito próximo.
O hotel do clube ficava numa elevação que proporcionava uma vista excelente. O lago salgado que ficava no antigo deserto de Gobi não tinha nada em comum com as águas que ali existiram em séculos passados. Face à proximidade de Terrânia, a grande metrópole mundial, o lago salgado transformara-se num centro de recreação de primeira categoria. Em suas margens viam-se as casas de fim de semana dos citadinos que apreciavam a natureza. De noite — e às vezes mesmo de tarde, como estava acontecendo naquele dia — as pessoas costumavam encontrar-se no clube.
Aquelas poucas horas de descanso faziam muito bem a Perry Rhodan. Os últimos vinte dias poderiam ter sido tudo, menos agradáveis. Tivera de pôr em ordem a “herança” de seu filho falecido, Thomas Cardif — e conseguira. Rhodan tivera de realizar conferências diárias, a fim de ir corrigindo os erros cometidos pelo traidor enquanto este ocupara seu lugar. A revolta da Frota Espacial, que já se esboçava, fora abafada no nascedouro assim que se soubera que toda a série de ordens absurdas, que abalara a estrutura do Império Solar, não provinha de Rhodan, mas de seu sósia Cardif.
Os membros do governo que haviam sido presos foram libertados e os terranos retirados de Árcon foram reinvestidos em seus cargos. Rhodan expediu mensagens de rádio dirigidas a todas as inteligências da Galáxia, a fim de informá-las sobre a seqüência dos acontecimentos trágicos e sobre a morte de seu filho. Não deixou de mencionar que a mobilização da Frota, ordenada por Cardif, seria conservada sem alterações.
E também se manteve a legislação de emergência, que antes autorizara Cardif e agora autorizava Rhodan a adotar, segundo seu critério, decisões da maior importância, sempre que a situação o exigisse.
Os aspectos mais importantes haviam sido resolvidos. Aquele fim de semana estava sendo dedicado ao repouso, pois, nos vinte dias anteriores, Rhodan quase não tivera descanso e muitas vezes sua presença era exigida para tomar decisões importantíssimas quando fazia apenas umas poucas horas que se recolhera para dormir. Não havia melhor local de repouso que o lago de Goshun, que ficava a poucos quilômetros do centro da Administração do Império Solar. Um planador gastaria apenas alguns minutos para levar Rhodan a Terrânia.
Reginald Bell esticou as pernas. Deleitava-se com as horas em que podia ficar a sós com seu amigo Rhodan. Era muito raro que o administrador e chefe de governo da Terra tivesse tempo para dedicar-se a si mesmo e ao velho amigo. E era inevitável que nessas oportunidades Gucky também estivesse presente. Afinal, sua casa de fim de semana ficava bem ao lado da de Bell, e, além disso, era pelo menos o segundo melhor amigo de Rhodan, embora não fosse um ser humano, mas apenas um rato-castor.
Você deveria passar a consumir legumes mais nobres — disse Bell, em tom condescendente e viu o resto da cenoura desaparecer pela boca de Gucky. — Afinal, um feixe de aspargos ficaria melhor à sua posição de membro mais competente do Exército de Mutantes.
Gucky bocejou de tédio.
Os humanos são criaturas estranhas. Comem alcachofras com ostras porque acham que isso é elegante. Não é que achem gostoso; nada disso. Gosto de aspargos, mas não é fácil guardá-los no bolso. E acontece que me delicio com cenouras. Por isso as como. Então, gorducho, tem algum argumento a contrapor a isso?
Bell sentia-se preguiçoso demais para discutir. Deixou-se envolver pelos raios de sol. E justamente naquele momento o garçom trouxe as bebidas. Gucky pegou o copo e experimentou o leite. Agradeceu ao garçom.
Está morninho — confirmou e espreguiçou-se de forma pouco distinta.
Rhodan deleitou-se com a paz daqueles momentos. No clube todos o conheciam, mas ninguém se interessava por ele. Era um homem como qualquer outro, e todos respeitavam seu desejo de descansar.
O Sol caminhava para o oeste, mas o calor continuava; quase chegava a ser demais. As pessoas que gostavam de tomar banho no lago andavam por suas margens. A água do lago salgado sustentava os corpos, e até mesmo a pessoa que não soubesse nadar poderia penetrar sem o menor risco nos trechos em que as águas eram mais profundas. Não seria nada fácil morrer afogado por ali, e para praticar o mergulho precisava-se recorrer a pesados cintos de chumbo.
Ainda bem que tudo passou — disse Bell num cansaço agradável e recostou-se ainda mais, depois de ter tomado um gole de cerveja. — Tudo se arranjará e as coisas voltarão a ser como antes. Nada está perdido.
Rhodan parecia olhar para além disso.
Isso mesmo — confirmou. — Nada está perdido. Tenho de fazer de conta que nunca tive um filho... Na verdade, foi isso mesmo. Ninguém há de dizer que Cardif parecia ser meu filho. Não há dúvida de que por fora se parecia comigo. Mas no resto éramos totalmente diferentes. Cardif também não tinha qualquer semelhança com a mãe.
Dois jovens oficiais que envergavam o uniforme de passeio da Frota Espacial passaram e cumprimentaram com uma respeitosa discrição. Rhodan retribuiu o cumprimento com um gesto amável.
Atlan deve sentir-se satisfeito por saber que pode contar novamente conosco — disse Bell. — O que seria do Império de Árcon se não fosse o auxílio da Terra?
Rhodan pôs-se a refletir. Fechou os olhos por um instante e depois fitou o céu sem nuvens.
Toda vez que penso em Atlan tenho a impressão de que nos esquecemos de alguma coisa. Houve algo com Atlan que tem certa ligação com Cardif, mas por mais que me esforce não consigo lembrar-me. É bem possível que se trate de coisa sem importância.
De qualquer maneira, era espantoso que, apesar de possuir uma memória que quase chegava a ser fotográfica, Rhodan tivesse esquecido alguma coisa. Bell tinha certeza de que não se tratava propriamente de um esquecimento, mas de falta de atenção.
Se for uma coisa importante, Atlan não deixará de lembrar-se, Perry. Vamos velejar um pouco? Meu barco está preparado.
Que bom! — exclamou Gucky, muito feliz, e esvaziou seu copo de leite. — Bell, queira ter a gentileza de pagar a conta.
Rhodan notou a expressão de perplexidade no rosto do amigo e chamou o garçom. Dali a alguns minutos levantaram-se e foram descendo em direção ao lago. O pequeno barco a vela estava guardado no porto. O vento era muito fraco, mas os dois homens e Gucky bem que gostaram disso. Queriam velejar para repousar, e não queriam que o barco corresse perigo de adernar a qualquer momento.
O barco foi-se afastando lentamente da margem. Rhodan estava estendido na parte dianteira do convés e deleitava-se com a calma. Bell cuidava das velas e do leme. Gucky revistou a pequena cabina, à procura de alguma coisa comestível. O quadro não poderia ser mais tranqüilo.
Gucky saiu da cabina. Pôs-se a resmungar:
Não encontrei nada. Apenas há conservas e bebidas alcoólicas.
Rhodan levantou os olhos para o céu e soltou um suspiro. Ninguém seria capaz de imaginar como lhe fazia bem esta hora, durante a qual não tinha nada a fazer, a não ser manter o equilíbrio em meio aos balanços leves do barco. Fechava os olhos sempre que o Sol entrava no campo de visão.
Vamos nadar um pouco, baixinho — sugeriu Bell e prendeu o leme. — Vou tirar estas roupas.
Dali a cinco minutos os dois amigos brincavam nas águas. Rhodan deitou de barriga para baixo e olhou-os. Sempre que Gucky mergulhava nas águas límpidas, com o auxílio do cinto de chumbo, não tinha a menor dificuldade de acompanhá-lo com a vista. Bell preferiu ficar deitado sobre a água, deixando-se tostar pelo sol.
De repente um leve zumbido interrompeu o idílio.
Rhodan virou-se e levantou o braço. Com a outra mão comprimiu o botão do pequeno aparelho de múltiplas finalidades.
Aqui fala Rhodan. Quem é?
É de Terrânia. Recebemos uma mensagem de hiper-rádio. Árcon deseja uma ligação direta. Quer que transfira a onda, ou prefere comparecer até a sala de rádio?
Rhodan refletiu apenas durante dois segundos. Demoraria demais para chegar a Terrânia. Teria que desistir da imagem, contentando-se com a transmissão acústica.
Transfira a ligação para meu aparelho.
Bell teve sua atenção despertada. Aproximou-se do barco. Gucky emergiu das águas. Era telepata e captara os pensamentos de Rhodan mesmo submerso, motivo por que já sabia do que se tratava.
Rhodan aumentou o volume do pequeno receptor. Esperou.
Será que é Atlan? — perguntou Bell, subindo a bordo.
A água que lhe escorria do corpo acumulou-se junto aos pés. Dali a pouco estava dentro duma poça. Gucky continuou boiando e deixou que a correnteza o carregasse. Não dependia da palavra falada. O vento parara quase por completo. Era tudo paz e sossego.
Quem poderia ser? — disse Rhodan. — O que será que ele quer? Tomara que não seja nada de sério.
Aqui fala Árcon! — disse subitamente a voz que saía do pequeno aparelho que Rhodan trazia no pulso. — É a central de hiper-rádio de Árcon. Gonozal VIII deseja falar com Perry Rhodan, Administrador do Império Solar.
Gonozal VIII era o nome oficial que Atlan passara a usar desde que se tornara Imperador de Árcon. Depois de tanto tempo o arcônida imortal, que vivera quase dez mil anos na Terra sem que ninguém descobrisse sua identidade, voltara ao seu império estelar, a fim de assumir a herança dos antepassados. A Terra não poderia desejar um amigo e aliado melhor que ele.
Aqui é Rhodan. Pode fazer a ligação.
O fato de que as ondas de rádio atravessavam numa fração de segundo a distância de trinta e quatro mil anos-luz e, reforçadas pelas estações retransmissoras, faziam sair aquela voz do minúsculo receptor, mostrava a evolução ocorrida nos últimos tempos.
Você me ouve, Perry? Por que sua imagem não aparece na tela?
Não estou na sala de rádio, Atlan. Teremos de contentar-nos com o som. O que houve?
Na verdade, não houve nada — respondeu Atlan.
Bell soltou um suspiro de alívio e voltou para junto do leme, modificando a rota do barco. Com o vento contrário levariam mais de uma hora para voltar ao pequeno cais. O sol já tocava as cumeeiras das montanhas distantes.
É bom ouvir sua voz — respondeu Rhodan, que também se sentia aliviado, e descontraiu-se. Raramente uma hipermensagem tinha um conteúdo inocente. — Acho que você está interessado em saber o que aconteceu na Terra nestes últimos tempos.
Os terranos que voltaram para cá já me informaram sobre isso. Você teve sorte por eu ter conseguido libertá-lo e porque Cardif foi morto. De qualquer maneira, você deve agradecer a ele por estar de posse do ativador celular. Com isso você se tornou imortal que nem eu.
Os agradecimentos devem ser dirigidos ao Ser de Peregrino — retificou Rhodan, em tom indiferente. — É bem verdade que sua existência quase me custou a vida. Mas acho que já está na hora de deixarmos para trás o passado e pensarmos no que vamos fazer com o futuro. Os problemas criados por Cardif já foram resolvidos. Afastamos um grande perigo. Vamos...
Espere aí — interrompeu Atlan. Uma ligeira preocupação parecia vibrar em sua voz. — Nem todos os problemas foram resolvidos. Não se esqueça dos acônidas.
Rhodan não compreendeu logo.
Os acônidas não representam nenhum problema, Atlan. Afinal, temos um tratado com eles e instalamos um entreposto comercial em seu planeta central, chamado Sphinx. Não se atreverão a fazer qualquer coisa contra mim ou contra você, pois não possuem nenhuma frota espacial, mas apenas os transmissores de matéria. É bem verdade que são os ancestrais dos atuais arcônidas, mas nem por isso...
Mais uma vez Atlan o interrompeu.
Pois é aí que está, Rhodan! Você diz que não têm frota espacial. É claro que os acônidas já possuem sua frota espacial. São exatamente mil unidades modernas. Tive de entregá-las a Ácon, pois, diante do procedimento de Cardif, não tive outra alternativa.
Bell ouvira as palavras de Atlan. Parou em meio ao movimento e olhou para Rhodan. Teve a impressão de que o bronzeado sadio desaparecia da face do amigo, dando lugar a uma palidez mortal.
Mil naves... meu Deus!
Por alguns segundos reinou o silêncio. Finalmente Atlan disse:
Isso mesmo. E entre elas há vinte gigantes da classe Império. É uma força nada desprezível, que representa a pior herança que Cardif nos poderia ter deixado.
Quase que me esqueço disso! — observou Rhodan, em tom de auto-recriminação. Sentia certo alívio porque a busca infindável em sua memória chegara ao fim. Já sabia o que tanto martirizara seu subconsciente nesses últimos dias. — O que vamos fazer, Atlan?
O que vamos fazer? Em hipótese alguma devemos violar o tratado e recuperar a frota pela força. Ninguém mais confiaria em nós. Devemos encontrar outro caminho de pôr fora de ação a frota dos acônidas.
Vamos encontrar-nos, Atlan. Traga os dados exatos sobre as naves entregues aos acônidas. Acharemos um meio de trazê-las de volta sem desrespeitar o tratado. Daqui a cinco horas meu centro de rádio lhe fornecerá as coordenadas exatas do local de encontro. Poderíamos marcá-lo para o dia dez de novembro do calendário terrano.
Muito bem, Perry. Estarei lá. Vou levar os dados; é bom que você leve uma boa idéia.
Combinado, Atlan. Felicidades até lá.
A ligação foi interrompida. Rhodan desligou o receptor e olhou para Bell.
Receio que mais uma vez nossas férias estejam chegando ao fim. Temos que fazer nossos preparativos — olhou para as velas, que pendiam frouxamente do mastro. — Bem, acho que contra isto não podemos fazer nada.
Ainda bem — piou Gucky em tom satisfeito e mergulhou por baixo do barco, para voltar à tona do outro lado. — Chegarei ao cais antes que vocês estejam lá com essa canoa preguiçosa.
Bell não se impressionou com isso. Prendeu o leme e foi ao lugar em que se encontrava Rhodan.
Você acredita mesmo que os acônidas com suas mil naves poderão representar um perigo para nós?
Rhodan fez que sim.
Com a avançada tecnologia de que dispõem bem que podem... se nós os deixarmos em paz. Mas é o que não vamos fazer.
Durante o resto da confortável viagem envolveu-se num silêncio total.

* * *

No dia dez de novembro do ano 2.103, Atlan e Rhodan encontraram-se num planeta quase desabitado, situado entre a Terra e Árcon. Sentiam-se satisfeitos por não terem de submeter-se às cerimônias pomposas que a tradição mandava realizar em Árcon. Aqui estavam praticamente sós. A base arcônida era guarnecida quase exclusivamente por robôs, e os nativos não demonstravam o menor interesse pelos desconhecidos visitantes. As duas naves estavam pousadas lado a lado no porto espacial provisório. A atmosfera do planeta era semelhante à de Árcon e da Terra. Por isso os dois homens saíram de suas naves, acompanhados por dois robôs de combate, e encontraram-se ao ar livre. Caminharam um pedaço, em direção ao rio próximo, e sentaram numa colina coberta de capim.
O sol avermelhado estava quase a pino, mas não fazia muito calor. Uma brisa agradável soprava do leste. Raras nuvens desfilavam sob o céu rosado.
Atlan soltou um suspiro e disse:
Você nem imagina como ansiei por uma solidão agradável como esta, Perry. Um rio, um campo coberto de grama e nada de seres humanos. Em Árcon nunca se consegue encontrar uma coisa destas. A guarda pessoal não tira os olhos da gente por um segundo que seja. A gente vive tropeçando sobre os cortesões e tem de ouvir suas frases feitas. Mas aqui...
Calou-se e contemplou o rio. A água deslizava graciosamente. Era límpida e transparente. Não havia indústrias que a poluíssem. Naquele planeta não havia uma única fábrica.
Comigo as coisas não são tão ruins assim — disse Rhodan, lembrando-se do lago de Goshun, situado nas proximidades de Terrânia. — Quando resolvermos encontrar-nos, devemos escolher um lugar como este, afastado de todas as solenidades. Só então podemos ser aquilo que a natureza fez de nós: seres humanos, criaturas inteligentes e ligadas à natureza. Fico-lhe muito grato, Atlan, por ter concordado com a escolha do lugar de encontro.
Está bem. Trouxe os dados. Estão com meu robô. Já pensou sobre a maneira de levarmos os acônidas a devolver-nos as espaçonaves?
Andei pensando sobre isso, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Que motivo plausível poderíamos apresentar aos acônidas para formular uma pretensão como esta? Não podemos dizer-lhes que estamos com medo.
Vamos invocar Cardif. Diremos que o tratado foi concluído sob um falso pressuposto.
Atlan fez um sinal para o robô que o acompanhara. O monstro metálico aproximou-se e entregou uma pasta ao arcônida. Depois disso retirou-se e examinou o terreno. Sua tarefa era esta. Atlan e Rhodan não poderiam desejar melhor guarda pessoal que a formada pelos dois robôs.
Isto é uma relação das naves fornecidas aos acônidas — disse Atlan, retirando uma pasta de folha metálica e entregando-a a Rhodan. — Inclui todos os detalhes técnicos. Poderei fornecer-lhe quaisquer outros que ainda desejar. Estou muito bem informado sobre o assunto, pois o mesmo causou-me bastante aborrecimento.
Rhodan pegou a pasta e abriu-a. Já conhecia os dados técnicos, que não adiantavam nada. Apesar disso estudou a lista, enquanto Atlan se deixava cair na grama macia e fechava os olhos. Via-se que precisava muito desse tipo tão simples de descanso.
Dali a dez minutos Rhodan fechou o mapa.
Posso ficar com isto? — perguntou. Atlan continuou na mesma posição.
Naturalmente. Por quê?
Rhodan também se deitou na grama. Os dois homens mais poderosos do Universo estavam deitados num prado de um planeta quase desconhecido. Era uma situação tão estranha que Rhodan não pôde deixar de sorrir; foi um sorriso alegre e satisfeito.
Porque tive uma idéia. Acho que ainda está lembrado do ataque temporal dos acônidas. Desligaram o centro de computação e com isso quase conseguiram destruir Árcon. Todas as instalações comandadas pelo centro de computação entraram em pane, inclusive as frotas espaciais robotizadas.
Sei. Mas o que isso tem que ver com o nosso problema?
Procure inverter a situação, Atlan.
Atlan abriu os olhos. Deitou-se de lado para poder olhar para Rhodan.
Não compreendo, Perry.
Rhodan soltou um suspiro.
É simples. Pelo que vi na lista, você enviou aos acônidas uma frota composta exclusivamente de unidades que antigamente eram tripuladas por robôs. Em outras palavras, as naves obedeciam ao centro de computação de Árcon. Correto?
Se é o que está na lista, deve ser isso.
Muito bem. Acredito que os acônidas saibam disso.
É claro que sabem. E fizeram logo suas adaptações.
Rhodan assustou-se. Ergueu-se sobre os braços.
Adaptações? Que adaptações?
Pois é simples. Pretendem tripular as naves com seus homens. Por isso certos comandos robotizados devem ser eliminados. Na verdade não se trata propriamente de adaptação, mas antes de ligação direta de diversos sistemas de controle. Os elementos capsulares são retirados do sistema de acionamento, e com isso os computadores de bordo são postos fora de ação. Para que estes possam voltar a entrar em funcionamento, as cápsulas, que são do tamanho de um dedo, devem ser recolocadas.
Ah, então é só isso. — Depois de refletir um pouco, Rhodan perguntou: — Os acônidas pretendiam fazer outro tipo de adaptação?
Só pretendiam servir às adaptações destinadas a tornar as naves mais confortáveis. É claro que uma nave comandada por robôs não possui camarotes residenciais e outros luxos desse tipo. Naturalmente os acônidas não querem dispensar esse tipo de conforto. Há lugar de sobra para isso.
E as cápsulas? Eles as devolveram? Atlan abanou a cabeça.
É claro que não. Afinal, não poderíamos fazer nada com elas. Não sei o que fizeram com isso — fitou Rhodan. — Por que faz estas perguntas? Tem alguma idéia?
Tenho, sim. Como já disse, podemos reconstituir certo acontecimento em sentido contrário. Há algum tempo os acônidas colocaram-nos fora de ação porque desligaram nosso centro de computação. Desta vez nós lhes daremos uma surpresa, acionando suas naves robotizadas. Compreendeu o que quero dizer?
Ah — disse Atlan e sentou-se na grama. De repente sorriu. — A idéia não é nada má. E mais tarde ninguém saberá como aconteceu. Os acônidas não sabem lidar com naves robotizadas, não é isso? De qualquer maneira, nós não teremos a menor culpa se perderem sua frota porque algum comando automático se descontrolou... No entanto, não devemos subestimá-los. E como é que pretende preparar toda uma frota que se encontra em outro planeta? Não se esqueça de que em Ácon não poderemos mover-nos com a liberdade que seria desejável para levar avante um plano desses. Seremos mantidos sob observação. Não tirarão os olhos de nós por um instante. Em todo sistema de acionamento de cada nave deve ser instalado um microcomando. E isso só pode ser feito por um especialista, não por um dos seus teleportadores, se é que você pensa nisso.
Os teleportadores poderão levar um especialista para qualquer lugar, inclusive para dentro de uma nave. Conseguiremos. Mas antes disso teremos de discutir minuciosamente certas medidas. Tudo tem de ser feito com a precisão de um minuto. E os acônidas não devem desconfiar de nada. Devem acreditar que sua frota se descontrolou e acabou por destruir-se a si mesma. De qualquer maneira, isto será melhor que pedir-lhes que nos devolvam as naves. Até devemos fazer de conta que, para nós, é indiferente que possuam uma frota. Não podemos arriscar complicações políticas, muito menos uma guerra com os acônidas.
Depois de discutir mais alguns detalhes, levantaram-se e voltaram para suas naves. Cada um deles voltaria ao seu planeta: Atlan para Árcon e Rhodan para a Terra.
O plano acabara de ser concebido. Sua execução era apenas uma questão de tempo.
Acontece que o tempo trabalhava a favor dos acônidas...

* * *

Bem ao centro da Via Láctea ficava o gigantesco sol azul denominado Ácon. Era o centro do Sistema Azul, do mundo dos acônidas, dos quais descendiam os arcônidas.
Ácon possuía cinco planetas, e o planeta Ácon V era Sphinx, o mundo misterioso onde os terranos e os acônidas tiveram seu primeiro encontro. Era o centro de um império não movimentado por meio de espaçonaves, mas de transmissores de matéria. Em todos os planetas do sistema havia receptores e transmissores. Com um simples passo através do arco luminoso, qualquer pessoa podia transportar-se de um planeta a outro.
O campo energético azul havia desaparecido. As naves de Rhodan tinham destruído os satélites que lhe supriam energia. Só mesmo uma nave dotada do sistema de propulsão linear seria capaz de atravessar esse campo, que por vários milênios isolara o império dos acônidas do resto da Galáxia. Agora o isolamento fora rompido, e tanto a Terra como Árcon possuíam um porto espacial comercial em Ácon V. O contato fora estabelecido e era garantido por uma série de tratados.
A base que Rhodan mantinha em Sphinx era pequena. O diâmetro do porto espacial não ultrapassava cinco quilômetros. Junto ao mesmo havia alguns edifícios destinados a abrigar os serviços administrativos, além da residência do representante permanente que a Terra mantinha no sistema de Ácon. Estanislau Jakobowski não se sentira muito feliz quando lhe deram este posto, que representava o degredo num mundo situado a dezenas de milhares de anos-luz de seu lar. Seu assistente Axel Wiener compartilhava com ele a solidão infinita de uma civilização que, sob vários pontos de vista, era superior à sua. Os dois haviam instalado a casa segundo seus gostos pessoais, pois representava o único local em que poderiam permanecer. A área situada fora do porto espacial era território proibido. Não podiam abandonar a base terrana.
Todas as tentativas de obter algum alívio da situação esbarravam na teimosia dos acônidas. Estes invocavam o texto dos tratados, nos quais Perry Rhodan apenas solicitava uma base em Sphinx. Esses tratados não mencionavam a possibilidade de entrar nas cidades acônidas.
Estanislau Jakobowski era um funcionário civil do governo terrano. Tinha direito a aposentadoria, desde que não deixasse o serviço antes do tempo. Por isso aceitara sem qualquer objeção a ordem de seus superiores, segundo as quais deveria dirigir-se
a Ácon a fim de defender os interesses da Terra.
Um pequeno hipertransmissor lhe permitia manter contato permanente com Terrânia, de onde recebia suas instruções. Quase todos os dias pousavam espaçonaves mercantes vindas da Terra ou dos planetas coloniais. Traziam mercadorias que eram trocadas com as dos acônidas, bem como o correio e mantimentos para Jakobowski e Wiener.
Estanislau afastou-se da janela, que permitia uma visão ampla sobre toda a área do porto espacial. Não era alto e usava barba no estilo dos mercadores galácticos.
Eles nos mandaram filmes, chefe. São filmes sobre as moças da Terra. E nós estamos presos em Ácon.
Jakobowski também não estava nada satisfeito, mas não deixou seu interlocutor perceber.
Os filmes — respondeu — pelo menos provam que não nos esqueceram. Querem ajudar-nos a espantar o tédio. Se não tivermos vontade, não os olhamos.
O quê? Acha que devemos dispensá-los? — disse Wiener, em tom indignado. — E logo quando não nos custam nada? Essa não!
Sacudiu a cabeça e continuou a revirar o conteúdo da mala postal trazida por uma nave mercante na manhã daquele dia. Havia jornais, revistas, livros, correspondência particular destinada aos tripulantes das espaçonaves que pousavam regularmente em Ácon, rolos de filme, fitas gravadas com música e instruções.
Instruções!
Wiener tirou da mala um envelope alongado e fitou-o com uma expressão de espanto. Trazia o nome de Jakobowski e não indicava o remetente.
Wiener encostou a carta ao nariz.
Não há nenhum perfume — disse com um sorriso e balançou a carta. — Estou curioso para saber quem resolveu escrever ao senhor. Será que foi sua namorada?
Não tenho namorada — disse Jakobowski e pegou a carta. Examinou a letra sem compreender nada. — Não conheço a letra — disse.
Abriu o envelope e quase chegou a assustar-se com a enorme folha escrita de cima até embaixo. Esforçou-se em vão para decifrar o conteúdo. As letras se enfileiravam, separadas por lacunas e sinais de pontuação. Mas as palavras eram incompreensíveis. Não conseguiu extrair-lhes qualquer sentido.
Então? — perguntou Wiener, em tom impaciente. — O que estão querendo do senhor? Será que a moça está com saudades ou...?
Cale a boca! — gritou Jakobowski, em tom severo. Entregou-a a Wiener. — Procure ler esta bobagem.
Wiener tentou. É claro que também não conseguiu. Perplexo, fitou a carta.
Formulou sua teoria.
Alguém se permitiu uma brincadeira com o senhor, chefe. Mas será que algum dos seus amigos sabe que o senhor se encontra em Ácon? — contemplou o selo de alto valor do correio espacial. — Devo dizer que é uma brincadeira muito cara.
Jakobowski voltou a pegar a carta.
Naturalmente terei de informar meus superiores sobre o incidente — disse em tom indiferente. — Não se pode admitir que o correio, já sobrecarregado, seja utilizado para infantilidades deste tipo...
Ouviu-se um zumbido vindo do teto. Alguém procurava estabelecer contato pelo hiper-rádio. Provavelmente era uma nave que pretendia anunciar sua chegada.
Cuide disso — ordenou Jakobowski e continuou a examinar a carta.
Finalmente sacudiu a cabeça e guardou o envelope no bolso. Retirou-se. Sempre que desejava refletir sobre alguma coisa, costumava dar um passeio. Em Ácon só podia passear no porto espacial, mas mesmo ali estaria ao ar puro. Não importava que esse ar fosse aquecido por um sol azul.
Um sol azul...?
Depois de ter percorrido algumas centenas de metros, Jakobowski parou abruptamente e olhou para cima. Por ali o céu quase sempre era azul, mas poucas vezes era tão radiante como hoje. Não se via nenhuma nuvenzinha. Havia apenas o azul maravilhoso e o brilho quase violeta do gigantesco sol.
Hum...
Jakobowski lembrou-se de que, no dia anterior, o céu não fora tão azul. Mas sempre havia certos fatores de que só agora se lembrava. Como por exemplo, as extraordinárias medidas de segurança dos últimos dias. Os acônidas haviam colocado guardas armados em torno do porto espacial. Antigamente achavam que isso não era necessário. Por que de repente resolveram agir assim?
Prosseguiu na sua caminhada. Voltou a pensar na estranha carta que acabara de receber. Quem se teria permitido essa brincadeira? Só podia ser um dos seus velhos amigos.
Teve a impressão de que alguém acabara de chamá-lo.
Virou-se lentamente. Wiener estava parado junto à casa e gesticulava com os braços. Parecia muito exaltado.
É uma pena que não trouxe meu rádio portátil”, pensou Jakobowski.
O que houve? — perguntou em tom áspero quando se encontrava a uma distância em que podia entender as palavras do outro. — Não grite desse jeito! Não consigo entender uma palavra.
É um chamado de Terrânia — gritou Wiener, sem reduzir o volume da voz. — É da central.
Como? — perguntou Jakobowski, respirando com dificuldade. De repente pôs-se a correr. — Por que não disse logo?
Passou rapidamente pelo companheiro, que parecia perplexo. Com alguns saltos atingiu a pequena sala de rádio e precipitou-se em direção ao receptor. O rosto de Perry Rhodan contemplava-o da tela.
É claro que Jakobowski conhecia Rhodan, embora este nunca tivesse entrado em contato direto com o entreposto comercial. Era um acontecimento tão extraordinário que por alguns segundos Jakobowski quase perdeu o autocontrole. Mas era um funcionário muito capaz e logo recuperou-se da surpresa. Enquanto tomava lugar na poltrona, para que Rhodan, que se encontrava na Terra, pudesse vê-lo, fez sua apresentação:
Aqui é a base de Ácon, sir.
Estanislau Jakobowski falando.
O senhor recebeu minha carta, Jakobowski?
Sua carta, sir? — revirou todos os recantos de sua memória, mas não se lembrou de nenhuma carta. Pelo menos não se lembrou de nenhuma carta de Perry Rhodan. — Não, sir, não recebi nenhuma mensagem escrita do senhor.
Rhodan sorriu como quem compreendia.
A carta não indica o remetente e o senhor deve ter quebrado a cabeça com o conteúdo da mesma. Achei que este seria o melhor meio de transmitir-lhe minhas instruções. Mesmo que usemos o código, sempre existe o perigo de que alguém consiga decifrar nossas mensagens de hiper-rádio. Preste atenção, Jakobowski. Quando receber uma carta sem indicação de remetente, formada por uma série aparentemente desconexa de letras e...
Sir! — interrrompeu Jakobowski. — Recebi a carta há meia hora. Queira desculpar.
Excelente! — disse Rhodan. — Leia a carta com toda calma e responda dentro de três dias. Tenha cuidado. Daqui a três dias escreva suas respostas e comentários. Use o mesmo método que eu usei ao escrever a carta. Expeça a mensagem sob a forma de carta comum. Um comandante de nave mercante chamado Samuel Graybound entrará em contato com o senhor e lhe perguntará se tem alguma correspondência para a Terra. É a ele que deve entregar a carta.
Sir! — exclamou Jakobowski antes que a ligação fosse cortada. — Como faço para ler a carta? Deve estar codificada.
Rhodan riu.
É simples. Use o código 20A. Espero notícias suas daqui a três dias. Confio no senhor.
A tela apagou-se.
Mais uma vez Jakobowski viu-se a sós, mas apenas por dois segundos. Wiener logo entrou na sala de rádio.
Então, chefe? Alguma novidade? Vão revezar-nos?
Jakobowski sacudiu a cabeça, levantou-se e foi tirando do bolso a misteriosa carta. Contemplou-a com uma expressão que era um misto de veneração e repugnância. Abriu o envelope e pôs-se a decifrar o conjunto caótico de letras, segundo o indicado por Rhodan.
0 texto da carta era o seguinte:

Para Estanislau Jakobowski:

Preciso que o senhor me dê resposta às seguintes perguntas:

1 — Onde estão estacionadas as mil espaçonaves que os acônidas receberam de Árcon? Que tipo de trabalho foi realizado nas mesmas? Qual é a vigilância a que estão submetidas?

2 — Houve alguma modificação do comportamento dos acônidas, face aos terranos nestes últimos vinte dias?

3 — Foram notadas medidas especiais destinadas a evitar que os terranos saiam da base?

4 — Notou mais alguma coisa?

5 — O senhor poderia receber em sua casa cerca de dez pessoas, sem que haja necessidade de modificações na construção?

Preste atenção aos seguintes detalhes: Na mesma nave em que foi transportada esta carta enviamos um traje de combate arcônida. Tal traje encontra-se numa caixa marcada com a palavra Conservas. Faça tudo que for necessário para responder às cinco perguntas que acabo de formular.

Ass.: Rhodan.

* * *

Wiener devolveu a carta e lançou um olhar indagador para Jakobowski.
É uma tarefa estranha, se permite que use esta linguagem. Será que somos representantes da administração comercial ou agentes do Império Solar? Se os acônidas nos pegarem fazendo espionagem, torcerão nosso pescoço.
Não será bem assim! — conjeturou Jakobowski. — Mas de qualquer maneira seria muito desagradável. Afinal, Rhodan enviou-nos um traje de combate. Se não me engano, ele torna a pessoa invisível. Quer dizer que poderemos penetrar tranqüilamente na área proibida e procurar a resposta às perguntas formuladas por Rhodan. O senhor se prestaria muito bem a isso, Wiener. Quase diria que é um espião nato...
Obrigado! — respondeu Wiener. — Não aprecio os acônidas e não tenho vontade de deixar-me pegar por eles. Mesmo que eu me torne invisível, sempre haverá a possibilidade de que isso aconteça. Com eles tudo é possível.
Jakobowski soltou um suspiro.
Está bem. Eu irei. Será preferível que seja assim.
Um traje de combate arcônida tornava quase inviolável a pessoa que o usava. Os campos antigravitacionais permitiam a adaptação a qualquer força de gravidade e até tornavam possível o vôo. O campo de deflexão proporcionava a invisibilidade. Havia um aparelho que permitia a qualquer tempo envolver o traje num campo energético que protegia contra um ataque, caso este não fosse muito forte. Em sua embalagem o traje parecia inofensivo e não pesava mais que um dos leves trajes espaciais, destinados a uma permanência não muito prolongada no vácuo. Os aparelhos, instrumentos e chaves de controle estavam embutidos no cinto largo, onde era fácil alcançá-los.
Jakobowski contemplou o traje. Teve uma sensação estranha e leu cuidadosamente a descrição que o acompanhava. Finalmente colocou-o e se dispôs a cumprir as ordens de Rhodan.
Ligou o defletor e a expressão de perplexidade que via no rosto de Wiener mostrou-lhe que se tornara invisível. Sentiu-se dominado pela vontade de experimentar. Deu alguns passos cautelosos e, passando junto ao seu auxiliar, saiu para o ar livre. Wiener continuava a olhar fixamente para o lugar em que o chefe acabara de desaparecer.
Estou aqui, Axel! Ora essa, não se assuste. Como vê, isto funciona muito bem. Os acônidas não me descobrirão. Farei logo minhas experiências.
Leve uma arma — pediu Wiener, avançando em direção a Jakobowski com os braços estendidos.
Para quê? Mesmo que me descubram, devo evitar toda e qualquer violência. A reação só produziria complicações diplomáticas, que por certo não seriam apreciadas por Rhodan. Além disso, não permitirei que me peguem. Até logo mais.
Saiu da casa e, empolgado por uma sensação de leveza que nunca antes experimentara, caminhou em direção à fronteira bem próxima da base. Com uns poucos movimentos da mão regulou a gravitação artificial. Passou a pesar não mais de cinco quilos. Com isso um salto de cinqüenta metros não representava nenhum problema. Poderia superar qualquer obstáculo.
E não teve de esperar muito para dar uma prova dessa capacidade.
Os acônidas haviam colocado estacas de cerca de três metros de altura em torno do porto comercial. Essas estacas distavam cinqüenta metros uma da outra, e estavam ligadas por um único fio.
Quando atingiu o obstáculo aparentemente inofensivo Jakobowski parou, perplexo. Uns quinhentos metros à sua esquerda havia um acônida, que não parecia uma sentinela muito atenta. E deveria prestar atenção, pois aquela cerca de arame não dava a impressão de ser capaz de impedir que alguém saísse da base.
Os acônidas são inteligentes, muito inteligentes”, pensou Jakobowski sem sair do lugar. “Nunca seriam capazes de subestimar os terranos...”
Jakobowski logo se deu conta de que aquele fio era uma armadilha.
Manteve-se imóvel e pôs-se a refletir:
Por que o fio foi estendido justamente numa altura tal que normalmente não se pode saltar por cima dele, enquanto é fácil passar por baixo? O perigo, ou seja, a barreira, deve ficar embaixo do fio, não acima do mesmo.”
Por acaso Jakobowski contemplou naquele instante o céu e voltou a refletir sobre a intensa coloração azul que este apresentava. Baixou os olhos e quando fitou o lugar em que o fio parecia separar o céu em duas partes, notou que embaixo dele o azul era diferente. Parecia mais pálido e um tanto apagado. Tinha-se a impressão de que estava coberto por um véu invisível.
Era um véu que enchia o espaço que ficava entre o fio e o chão.
Compreendeu imediatamente. O fio emitia raios, dirigidos exclusivamente para baixo. Gerava um campo de radiações que se estendia em torno do porto espacial tal qual uma cortina invisível e se mostraria mais eficiente que uma muralha sólida, evitando, assim, que alguém abandonasse a área.
O caráter traiçoeiro da barreira deixou Jakobowski ainda mais aborrecido. Se não tivesse sido tão desconfiado, teria prosseguido na caminhada e o passo seguinte talvez lhe tivesse custado a vida. Era possível que o choque energético apenas o deixasse inconsciente, mas não se podia afirmar que não fosse mortal.
Antes de vencer o obstáculo num salto, resolveu verificar os efeitos da cortina de radiações. Olhou em torno, à procura de uma pedra de tamanho adequado, quando o acaso veio em seu auxílio. Um grande besouro de Berol, do tamanho de um pardal, voou pelo campo, pouco acima do pavimento de concreto, e tomou a direção da barreira. Voou muito devagar, conforme costumavam fazer esses insetos nativos de Ácon, mudou de direção por várias vezes e finalmente, quando se encontrava a menos de dez metros do lugar em que estava Jakobowski, tentou passar por baixo do fio.
Não houve a descarga energética que Jakobowski esperava. Tinha certeza de que veria uma luminosidade. Mas o que aconteceu foi muito mais assustador. O besouro desapareceu!
Jakobowski compreendeu. A cortina de radiações não constituía uma barreira energética, mas uma versão simplificada de um transmissor de matéria. Qualquer objeto que entrasse no campo de radiações era desmaterializado, para rematerializar-se em outro lugar. Isso podia acontecer num ponto bem próximo, ou então a cem quilômetros de distância.
O acônida que se encontrava a quinhentos metros não esboçou o menor gesto. Parecia não ter notado o fenômeno. Talvez o besouro fosse muito pequeno para acionar o alarma que por conseguinte existia por ali. Enquanto Jakobowski ainda refletia, viu outro besouro que se aproximava. Um tanto curioso, seguiu o vôo irregular do inseto, até que este fosse desmaterializado mais à direita pela terrível barreira. Vira perfeitamente que a asa esquerda do inseto estava ferida. Por isso seu vôo fora irregular.
Quando já estava decidido a arriscar o salto sobre o fio, ouviu outro besouro que se aproximava. Vinha de trás!
Jakobowski não acreditou no que seus olhos viam.
Não é possível!
Era o mesmo besouro de antes. A asa esquerda era um pouco mais curta que a direita, motivo por que o vôo era inseguro e sinuoso. Com a obstinação característica dos insetos, o besouro voltou a dirigir-se ao obstáculo invisível e desapareceu pela terceira vez.
Jakobowski agiu imediatamente, como que por instinto. Virou-se e olhou na direção da qual tinham vindo os besouros — ou o besouro. Teve sorte. Um pequeno ponto escuro, vindo do nada, surgiu a menos de cinqüenta metros. Era o besouro! Desta vez, naturalmente por pura coincidência, voou numa altura tal que passaria por cima do fio. Passou menos de vinte centímetros acima do obstáculo, e desta vez não aconteceu nada. Para Jakobowski, isso representava a prova final de que a transmissão só funcionava embaixo do fio.
Concluiu que os acônidas preferiram não criar uma barreira mortal. Qualquer terrano que tentasse passar por baixo do fio seria levado de volta uns cinqüenta metros. Apenas isso. Era um processo inofensivo, mas muito eficiente.
Empurrou-se fortemente com o pé e subiu lentamente a vinte metros de altura. Deixou-se cair obliquamente por cima do fio. Não sentiu nada enquanto passava por cima do obstáculo. Pousou suavemente na grama rala, ignorou o acônida, que não desconfiava de nada, e ligou o campo gravitacional para zero. O minúsculo propulsor fornecia empuxo suficiente para que voasse pouco acima do solo sem ser visto.
Durante trinta minutos seguiu a rota aérea larga pela qual se desenvolvia todo o tráfego entre a base terrana e os acônidas. Sempre que pousava uma espaçonave, as mercadorias a serem trocadas eram trazidas por essa rota e os artigos vindos da Terra eram transportados pela mesma. Hoje essa via estava deserta e abandonada.
À sua direita a silhueta da cidade começou a desenhar-se no horizonte, mas Jakobowski não se interessou muito por ela, pois à sua esquerda surgiu o grande porto espacial dos acônidas. O que havia de estranho nesse porto espacial era o fato de que este só voltara a entrar em atividade há poucos meses. De certa forma os acônidas já haviam superado a fase da navegação espacial. Seus transmissores de matéria possibilitavam uma comunicação mais rápida e segura entre os planetas. Mas em certa altura haviam aparecido os terranos e os arcônidas, que lhes provaram de forma inequívoca que nem sempre a conquista de um futuro perfeito representa a derrota do passado menos perfeito. Depois da destruição do campo energético defensivo que envolvia seu planeta, os acônidas precisavam de uma frota espacial potente, a fim de poderem defender-se das raças de astronautas. Por isso resolveram recuperar o velho porto espacial.
E nesse porto espacial estavam pousadas mil naves.
Jakobowski viu como elas se destacavam contra o horizonte iluminado e de repente compreendeu que perigo representavam, se os acônidas voltassem a aprender como usá-las. Começou a compreender por que Rhodan formulara as perguntas que deveria responder.
Reduziu a velocidade e subiu um pouco. O perigo de uma descoberta casual por meio dos aparelhos de localização não era grande, pois os acônidas certamente confiavam na barreira transmissora. E não se sabia se conheciam os trajes de combate arcônidas.
Ninguém deixaria de notar a presença da frota. Os vinte couraçados da classe Império ocupavam uma área superior à de uma grande cidade. As gigantescas esferas espaciais cercavam o grosso da frota, formado por unidades de outro tipo. Jakobowski reconheceu cruzadores ligeiros e pesados e couraçados. Ao que parecia, só haviam entregue veículos espaciais esféricos aos acônidas, pois Jakobowski não viu nenhuma gazela ou destróier.
Jakobowski sobrevoou o conjunto por duas vezes, antes de decidir-se a pousar no pólo superior de um cruzador ligeiro, que ocupava uma posição central e, com seus cem metros, não podia ser considerado muito alto.
Enquanto se aproximava, notou a atividade febril que se realizava nas naves. Exércitos de técnicos estavam ocupados no descarregamento de comboios. As caixas com os materiais eram levadas para as escotilhas. Os elevadores gravitacionais trabalhavam ininterruptamente, levando máquinas e instalações para o interior das naves, onde eram recebidas por equipes de trabalhadores.
Com isso já tinha a resposta à primeira das perguntas formuladas por Rhodan. A frota continuava no mesmo lugar em que fora estacionada no princípio; as naves estavam recebendo equipamento novo, já que antes ofereciam pouco conforto a tripulações humanas; a vigilância não era muito rigorosa porque os acônidas não contavam com a possibilidade de que alguém pudesse atravessar a barreira que cercava a área da missão comercial terrana.
E a segunda pergunta também podia ser respondida tranqüilamente com um sim. Os acônidas haviam modificado sua atitude face aos terranos. Depois da derrota voltaram a tornar-se mais confiantes e arrogantes. Formularam suas exigências e passaram a reforçá-las por meio de atitudes concretas.
Também já tinha a resposta à terceira pergunta. Os acônidas haviam descoberto um novo método de impedir que os terranos saíssem da área que lhes fora reservada. Jakobowski até conseguira descobrir de que tipo era a barreira.
A quarta pergunta ainda continuava em aberto, enquanto a resposta à quinta também consistia num sim. Naturalmente seria possível receber mais dez pessoas na casa residencial, sem que houvesse necessidade de realizar modificações na sua estrutura.
Ora, a quarta pergunta! Havia algo de extraordinário? Para descobrir isso, consumiria os dois dias que lhe restavam. Não sabia exatamente o que Rhodan queria dizer com isso, mas resolveu registrar toda e qualquer conduta estranha dos acônidas e transmiti-la a Rhodan.
Jakobowski resolveu fazer um exame mais demorado dos trabalhos que se realizavam no interior das naves. Olhou cautelosamente em torno. Um pouco abaixo do “horizonte” da pequena espaçonave as escotilhas dos compartimentos de carga estavam bem abertas. Naquele momento não havia nenhum acônida por perto. Aqui devia ser menos perigoso entrar em uma nave, e era o que tinha de fazer se quisesse descobrir quais as modificações que estavam sendo realizadas em seu interior.
Deslocou-se cautelosamente em direção à escotilha. Uma queda dessa altura não representaria nenhum perigo para ele, mas preferia fazer o possível para evitá-la. Era possível que por acaso um aparelho de localização estivesse dirigido sobre ele e, sendo assim, a queda seria notada.
Entrou num corredor vazio, cujo estilo puramente finalista não tinha nada de humano. Os camarotes que se enfileiravam de ambos os lados do corredor também estavam vazios e não tinham qualquer tipo de instalação. Os construtores das naves não haviam feito qualquer diferença entre as unidades tripuladas e as dirigidas por robôs, já que as mesmas eram fabricadas em linhas de montagem. Era fácil transformá-las de um tipo em outro.
Jakobowski ouviu passos que se aproximavam.
Parou e pôs-se a esperar. Dois acônidas dobraram a curva mais próxima. Carregavam uma caixa alongada, que em virtude dos campos gravitacionais ligados era muito mais leve que fora da nave. Passaram a poucos centímetros de Jakobowski, que conteve a respiração de susto e só se sentiu aliviado quando haviam passado. Empurraram a caixa para dentro de um camarote e puseram-se a esvaziá-la. Continha peças de plástico, destinadas à montagem de uma cama.
As naves estavam sendo adaptadas para serem tripuladas por seres humanos.
Jakobowski criou coragem e foi avançando. Notou que, na sala de comando, os controles robotizados continuavam no mesmo lugar. Haviam sido cobertos por placas de plástico. De resto estavam inalterados. As naves poderiam ser adaptadas novamente ao controle robotizado.
Jakobowski não era técnico, motivo por que teve que dar-se por satisfeito com o que acabara de observar. E Rhodan também ficaria satisfeito com isso, pois, do contrário, teria solicitado outros detalhes ou enviado um técnico.
Três acônidas estavam examinando os controles. Falavam pelo intercomunicador com os colegas que se encontravam na sala de máquinas. Jakobowski compreendeu perfeitamente o que diziam, embora o arcônida moderno fosse mais objetivo e menos prolixo que o primitivo. Os elementos fundamentais das duas línguas provinham da mesma fonte e eram bastante semelhantes. Do texto da palestra, o terrano concluiu que todos os comandos robotizados já haviam sido desativados. As microcápsulas estavam depositadas num arsenal, do qual poderiam ser retiradas a qualquer tempo.
Jakobowski teve a impressão de que, para aquele dia, já descobrira o suficiente. Sua autoconfiança cresceu ainda mais quando passou bem no meio de um grupo de técnicos sem que ninguém percebesse sua presença. Naturalmente tinha de evitar toda e qualquer forma de contato direto, pois não se desmaterializara. Não podiam vê-lo, mas seriam capazes de senti-lo...
Entretanto a pane só aconteceu quando voltou à base comercial!
Pousou suavemente na grama macia, a vinte metros da sentinela. O acônida, que era um homem de estatura mediana e trazia uma arma portátil de radiações, olhou bem em sua direção. Jakobowski sentiu um ligeiro mal-estar, mas logo disse a si mesmo que não passava de um idiota. O acônida não podia vê-lo. Era por puro acaso que olhava para o lugar em que se encontrava.
Acontece que o acônida olhou exatamente em sua direção e foi levantando a arma. Os dedos da mão direita seguraram o gatilho. Um brilho ameaçador surgiu nos olhos pálidos, enquanto o cano da arma subia cada vez mais.
Jakobowski não pôde evitar uma sensação desagradável. Tinha a impressão de que o acônida fitava seus olhos. Será que seu traje de combate não estava funcionando? Estaria ficando visível?
Olhou para seu corpo, mas não notou nada de anormal.
Num movimento instintivo ligou seu campo defensivo individual. E ele o fez no momento exato.
Sei onde você está, mesmo que se tenha tornado invisível — disse o acônida com a voz insegura. Sua mão direita tremia de tão fortemente que segurava a arma. — Fique onde está. No momento em que um pedacinho de grama se levantar, disparo.
Então era isso. Jakobowski compreendeu que subestimara bastante aquele acônida. Ele devia ter notado a marca do pé quando olhara por acaso em sua direção. E não era só isso. Sabia perfeitamente qual seria a posição do homem invisível. No momento em que Jakobowski desse um passo, a grama voltaria a levantar-se, revelando seus movimentos. Não poderiam fazer-lhe nada, mas o acônida já conhecia seu segredo. Não poderia realizar outras expedições, pois a descoberta seria inevitável.
Praguejou contra a leviandade que acabara de cometer. Rhodan não ficaria nada satisfeito, mesmo que obtivesse resposta às suas perguntas.
Fez outro movimento e ligou o equipamento de vôo. Subiu rapidamente. A grama voltou a erguer-se, mas devagar demais, pelo menos para o acônida. Quando este atirou, Jakobowski já se encontrava a vinte metros de altura. O raio energético perdeu-se no ar e logo se apagou. Mas com isso os acônidas logo descobririam que o inimigo invisível sabia voar, e tal coisa só podia acontecer com quem usasse um traje de combate arcônida — isso naturalmente se os ancestrais dos arcônidas conhecessem esse tipo de traje.
Jakobowski voou por cima da barreira e aterrissou à frente de sua residência. Só desligou os aparelhos e voltou a tornar-se visível depois de ter entrado na casa. Wiener saiu da sala de rádio.
Já está de volta, chefe? Duas naves acabam de anunciar sua chegada. Deverão pousar ainda hoje, antes do pôr do Sol. Já avisei a administração espacial acônida, conforme manda o regulamento. A permissão de pousar foi concedida.
Jakobowski já tirara o traje de combate e o guardara na caixa, depois de dobrá-lo cuidadosamente. Ainda se sentia meio paralisado pelo susto proveniente da quase-descoberta.
Duas naves? Qual é a carga?
A de sempre. Equipamento técnico e máquinas agrícolas. Os acônidas anunciaram que têm carga de retorno. Se me permite esta observação, tenho a impressão de que todo este comércio de troca não passa de um gesto de cortesia. Trata-se de um pretexto para a manutenção do entreposto comercial neste planeta.
Jakobowski confirmou com um gesto.
É bem possível que o senhor tenha razão, Wiener. Talvez não demoraremos a descobrir. Tenho esta impressão.
Naquele momento nem desconfiava de que suas sensações e pressentimentos se confirmariam muito depressa.

A Odin era um couraçado de quinhentos metros de diâmetro, equipado com propulsores de hipersalto. Sendo assim não podia realizar o vôo visual a velocidade superior à da luz. Dependia das transições. O Major Scott, comandante da nave, quase teve um ataque quando soube que o administrador em pessoa pretendia fazer uma verificação na nave. Depois disso, tudo foi muito rápido.
Cinco mutantes e alguns oficiais do Serviço de Segurança Solar subiram a bordo juntamente com Rhodan. Várias caixas com equipamentos vieram atrás deles. Só no momento em que a nave saía do sistema solar, Rhodan explicou ao Major Scott qual era a missão que tinham pela frente.
Depois de realizados os cálculos das transições, a Odin iniciou a longa viagem que a conduziria por várias etapas através do hiperespaço de cinco dimensões. Levariam vinte e quatro horas para chegar ao Sistema Azul.
Uma última conferência foi realizada no camarote de Rhodan, pouco antes da pausa para dormir. Gucky também estava presente. Sentado numa grande poltrona, pôs as orelhas de pé, embora não tivesse necessidade disso, já que possuía o dom da telepatia. John Marshall, chefe do Exército de Mutantes, estava sentado a seu lado. Além de Wuriu Sengu, o espia, estavam presentes dois teleportadores: Ras Tschubai e Tako Kakuta. Ainda se encontravam ali o Tenente Groeder, do Serviço de Segurança, e o Tenente Jenner, especialista em positrônica e cibernética.
Já sabem o que está em jogo — disse Rhodan, pondo a mão no bolso do paletó. — O relatório de nosso representante Jakobowski diz claramente que as instalações de controle robotizado não foram retiradas das naves. Por isso não será muito difícil instalar as cápsulas. Dispomos de três teleportadores, e cada um deles será acompanhado por um especialista. Tenente Jenner, o senhor tem certeza de que pode confiar em seus dois homens?
Certeza absoluta — disse o jovem oficial de cabelo escuro. — Recebemos nosso treinamento ao mesmo tempo, em Terrânia, e além disso passamos por um processo de ensino hipnótico relativo aos controles com que teremos de contar.
Muito bem — respondeu Rhodan. — Amanhã pousaremos em Ácon e esperaremos dois dias. As cápsulas de comando serão enviadas depois. Poderíamos ter retardado nossa chegada por mais dois dias, mas se eu chegar a Ácon com uma única nave não provocarei tantas suspeitas. Para os acônidas, os vôos das naves transportadoras que se seguirão serão considerados de rotina. Além disso, disporemos de dois dias para nos familiarizarmos com a situação. Pelo que diz Jakobowski, a vigilância foi reforçada depois que quase o pegaram. Caberá a mim transformar o incidente numa bagatela e explicar que se trata de um acontecimento sem importância.
Rhodan olhou em torno.
Mais alguma pergunta? Nenhuma? Muito bem. Nesse caso está tudo esclarecido. O êxito de nossa missão dependerá mais da sorte que da capacidade dos especialistas e teleportadores. Se os acônidas tiverem a menor desconfiança da finalidade real de nossa visita, nossa presença aumentará suas suspeitas. E não podemos permitir que isso aconteça.
Assim que Rhodan se viu só, bloqueou seus pensamentos contra os telepatas e voltou a examinar a carta que recebera de Jakobowski. Havia um detalhe insignificante que lhe chamara a atenção, mas ainda não estava na hora de preocupar-se com isso.

* * *

O sistema de neutralização de vibrações da Odin não foi ligado, e assim a transição podia ser registrada e acompanhada por qualquer sistema de rastreamento estrutural situado na Galáxia. Rhodan não queria que a chegada da Odin surpreendesse os acônidas.
Quando a nave saiu da última transição e se aproximava do Sistema Azul, tudo correu conforme se esperara. O campo energético azul que antigamente cercara o sistema não existia mais. O mesmo protegera o império dos acônidas por vários milênios contra quaisquer intrusos, até que a frota de Rhodan destruiu as unidades energéticas montadas em satélites. Atualmente penetrava-se livremente no sistema.
Alguns dos dezoito planetas foram avistados e ficaram para trás, enquanto a Odin reduzia a velocidade. Sphinx, o quinto planeta, entrou no campo de visão. Rhodan, que se encontrava na sala de comando, ao lado do Major Scott, notou o globo azul. Estremeceu e lembrou-se das linhas escritas por Jakobowski. Será que havia alguma relação entre as observações deste e aquilo que Rhodan via com os próprios olhos?
A atmosfera que envolvia o planeta Sphinx possuía um brilho azul que em hipótese alguma podia ser natural. Sua transparência acompanhada da capacidade de reflexão lembrava demasiadamente o campo energético que antigamente envolvera e protegera todo o sistema. Acontece que desta vez o brilho envolvia somente o planeta Sphinx, e ficava tão próximo à superfície que qualquer tentativa de romper o campo com uma nave linear estaria condenada ao fracasso. A nave se despedaçaria na superfície muito próxima. E, como os geradores do campo energético estavam instalados em Sphinx, seria impossível destruí-los.
Os acônidas haviam aproveitado o tempo. E conseguiram tirar proveito do fator surpresa. Haviam criado às escondidas uma nova arma defensiva, que lhes possibilitava impedir o pouso de qualquer nave espacial em seu mundo central.
Rhodan dirigiu-se ao comandante.
Entre em órbita, major. Vamos tentar estabelecer contato com eles e perguntar-lhes o que significa essa bobagem. Afinal, devem saber que uma nave se aproxima de seu planeta.
O Tenente Groeder, do Serviço de Segurança, apontou para uma tela lateral.
É uma nave, sir. Uma nave acônida. Naquele mesmo instante o radioperador chamou pelo sistema de intercomunicação:
Temos uma comunicação de rádio, sir. Pedem que nos identifiquemos. O que devo responder?
Rhodan correu para a sala de rádio. O rosto presunçoso de um oficial acônida o contemplava da tela. E a expressão desse rosto não se modificou, nem mesmo quando Rhodan se colocou à frente da câmera.
Nave terrana Odin — disse Rhodan, fitando os olhos frios do acônida. — Pedimos permissão para pousar.
Qual é a carga?
Rhodan sorriu.
O Administrador do Império Solar, isto é, minha insignificante pessoa.
Parecia que os cantos da boca do acônida tremiam um pouco, mas talvez fosse engano. Sua voz continuou inalterada.
Permissão concedida. O porto comercial terrano foi liberado. Quando chegar lá, aguarde novas instruções. Desligo.
Antes que Rhodan tivesse tempo de dar qualquer resposta, a tela apagou-se. Hesitou um pouco e voltou à sala de comando. O Major Scott fitou-o com uma expressão indagadora.
Quais são as ordens, sir?
Pousaremos conforme já havíamos previsto. Acredito que daqui a pouco desligarão o campo energético. Vejo que a barreira serve principalmente para fortalecer-lhes a autoconfiança. Talvez devamos dizer-lhes que de nossa parte não temos nenhuma objeção contra o tal campo. Isso os deixará confusos — apontou para a tela lateral. — A nave acônida voltou a afastar-se. Acredito que seu comandante informará o Grande Conselho de Ácon sobre a identidade do visitante. É bom que procurem matar suas charadas.
O campo energético azul representa uma surpresa nada agradável — disse o Tenente Groeder. — Mas não deixa de ter seu lado bom.
Ah, é? — disse Rhodan e esperou que o oficial lhe comunicasse a conclusão a que chegara.
Não tenha a menor dúvida, sir. Os acônidas acreditarão que viemos por causa desse campo e se orientarão por essa crença. E nós deixaremos que eles a conservem, enquanto os mutantes e os especialistas ativarem a frota com toda tranqüilidade.
Rhodan acenou com a cabeça. Um sorriso de aprovação surgiu em seu rosto.
A conclusão não deixa de ser inteligente, tenente. Quer dizer que em sua opinião os acônidas cairão na cilada que nós lhes armarmos? Bem, veremos — voltou a olhar para o Major Scott. — Prepare o pouso, major. Desça e aguarde até que o campo azul se apague. Quando isso acontecer, pouse imediatamente — mais uma vez dirigiu-se a Groeder. — Venha comigo, tenente. Os acônidas não são melhores que os arcônidas. Os dois povos dão mais importância às tradições e à exibição. Pois façamos-lhes o favor e acompanhemos seu jogo.
Aconteceu exatamente aquilo que Rhodan previra. No momento em que a Odin descia em direção ao pequeno campo de pouso, o campo energético azul apagou-se. O colosso pousou sem problemas. Estanislau Jakobowski veio apressadamente com o planador de colchão de ar, a fim de receber seus hóspedes.
Logo no início constatou-se que o campo energético em torno de Sphinx só fora ativado há um dia. As observações de Jakobowski, que haviam sido comunicadas a Rhodan, aparentemente só se relacionavam com experiências no solo. De qualquer maneira os acônidas se surpreenderiam ao notar que os terranos foram informados tão depressa e mais uma vez desconfiariam de que a base comercial do planeta Terra não era apenas um espaçoporto comercial.
Axel Wiener preparara tudo para abrigar os hóspedes. A Odin voltaria a decolar dentro de pouco tempo e ficaria à espera na periferia do sistema, onde manteria contato com Bell, que não estaria muito longe.
Mal se haviam instalado, um grande planador dos acônidas pousou sem aviso. Rhodan sentiu-se um tanto contrariado com o fato de que ele mesmo precisava de uma permissão especial para pousar, enquanto os acônidas não se preocupavam com esse tipo de formalidade.
Afinal Sphinx é o planeta deles”, pensou Perry. “Os terranos por aqui apenas são tolerados como visitantes. Este deve ser ao menos o ponto de vista dos acônidas.”
Três oficiais de alta patente desceram do veículo e dirigiram-se à casa residencial. Ignoraram a Odin; faziam de conta que a mesma nem existia. Rhodan caminhou na direção deles alguns metros e parou. Esperou que os acônidas se aproximassem o suficiente.
Estamos falando com o administrador da Terra?
Rhodan fitou o oficial pelo menos por dez segundos e retificou:
Estão falando com o Administrador do Império Solar, para sermos mais exatos. Trazem alguma mensagem para mim?
O Grande Conselho de Ácon pede-lhe que nos acompanhe. Prepararam uma recepção de chefe de Estado. O Conselho supõe que o senhor tenha vindo numa missão definida e está disposto a fornecer-lhe algumas explicações.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
Queira aguardar um momento. Daqui a pouco irei com os senhores.
Deixou que os oficiais continuassem de pé e voltou para dentro da casa.
Pretende acompanhá-los? — perguntou Groeder, em tom preocupado. — Sozinho e sem qualquer proteção?
Não se preocupe — disse Rhodan em tom tranqüilizador. — Nada me acontecerá. Os acônidas podem ser muito convencidos, mas não são bobos. Sabem aprender com a experiência. Além disso, estarão interessados em descobrir qual é a minha opinião sobre o campo energético deles. Fique tranqüilo, tenente. Voltarei dentro de algumas horas.
Gucky entrou balançando o corpo.
Posso ir com você, Perry. Ninguém dará atenção a uma criatura como eu.
Pois darão mais atenção a você que a qualquer outra pessoa — interrompeu Rhodan, em tom resoluto. — Você vai ficar aqui, mas poderá manter contato telepático comigo. Se houver algum imprevisto, tome suas providências.
Não tenha a menor dúvida — prometeu Gucky, muito satisfeito.
O rato-castor não gostava de ser deixado de lado, mas não era o que estava acontecendo.
Rhodan vestiu o uniforme simples verde-pálido, igual ao usado por todos os oficiais da Frota. A arma de radiações que trazia no cinto não era nenhuma contrafação; era verdadeira. Quando voltou a reunir-se aos três oficiais acônidas que o esperavam, sentiu-se como um pardal em meio a um bando de papagaios, mas esse fato não prejudicou sua autoconfiança nem melhorou a dos acônidas.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html