Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
O
MONSTRO ESTÁ EM XEQUE!
Thomas
Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan como Administrador
do Império Solar. Ninguém, nem mesmo os amigos mais íntimos de
Perry Rhodan ou os mutantes, desconfia de que o governo vem sendo
exercido por um usurpador.
Se o
comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em
Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por
meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era
prisioneiro dos antis.
Thomas
Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode
dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver,
mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do
abismo...
Mas
surge uma pedra em seu caminho. E essa pedra simboliza as ações de
Atlan...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— O
imperador que sentia uma grave suspeita.
Thomas
Cardif
— Um
monstro com figura de gente.
Reginald
Bell
e Allan
D.
Mercant
— Que
pretendem “derrubar”
o chefe.
Gucky
— Um
rato-castor que sabe até chorar.
Perry
Rhodan
— Prisioneiro
dos antis.
— Está
ficando quente, majestade!
Olhei para
o sol amarelo do sistema Saós. Essa estrela insignificante acabara
de surgir no horizonte. Realmente iria fazer calor.
O
dispositivo automático de meu traje espacial fez com que os
anteparos que protegiam contra a luz ultravioleta cobrissem o visor
do capacete. De repente os montões de destroços que me cercavam já
não pareciam tão desolados, pois seus contornos começaram a
apagar-se. Vez por outra tinha a impressão de notar um movimento,
mas aquilo não passava de ilusão dos sentidos.
Depois que
as espaçonaves terranas e a frota arcônida haviam penetrado no
envoltório atmosférico de Saós, o segundo planeta daquele sol
catalogado, a vida deixara de existir por lá.
Ocupáramos
uma base dos antis e na oportunidade colhemos uma série de
informações das quais por enquanto não sabíamos para que
serviriam. Os membros do culto de Baalol, que conseguimos aprisionar,
não puderam trazer-nos qualquer esclarecimento, pois não sabiam
onde ficava o lendário planeta Trakarat.
As
indicações mais valiosas nos haviam sido fornecidas por dois
mercadores galácticos. No momento estes se encontravam na Terra,
onde se procurava verificar a exatidão de suas declarações. Ao que
parecia haviam falado apenas a verdade. Provavelmente Trakarat era o
mundo natal dos antis.
— Não
demore aqui fora, majestade.
Confirmei
com um aceno de cabeça. A central robotizada de análise planetária
reconhecera os perigos. Naquele momento, eu usava um traje de bordo
leve, cujo sistema de condicionamento de ar não fora feito para
suportar cargas elevadas.
— Entrarei
dentro de alguns minutos. Existem resultados positivos das operações
de localização?
— Por
enquanto não, majestade.
Meu
relógio indicava a décima hora matutina, tempo padrão
intergaláctico. Os terranos não estavam sendo pontuais.
Mais uma
vez mergulhei em reflexões. Milhares de coisas relativamente pouco
perigosas, que podiam ser desculpadas por meio de milhares de
alternativas, subitamente haviam perdido a importância, depois que
meu amigo Perry Rhodan adoecera.
O fato de
estar atrasado bastava para deixar-me nervoso. Há alguns meses atrás
uma ninharia como esta não me teria preocupado. Mas agora já me
encontrava próximo ao pânico, apenas porque já passavam dez
minutos da hora combinada.
Contrariado,
sacudi a cabeça, batendo com as têmporas contra o alto-falante
embutido no capacete.
— Um
fato insignificante num trajeto de trinta e três mil anos-luz —
informou o setor lógico de minha mente.
Comecei a
aborrecer-me comigo mesmo. Era claro que quinze minutos representavam
um fator pouco importante. Mesmo que a delegação terrana chegasse
com dez horas de atraso não haveria motivo para discussão.
O sol que
constava do catálogo sob a designação 41-B-1847-ArqH mergulhou os
cumes das montanhas mais próximas numa luminosidade vermelho-escura.
Parecia que alguém derramara sangue sobre os picos.
Sangue!
Senti um calafrio, muito embora os mostradores do sistema de
condicionamento de ar indicassem uma temperatura externa de 21°67’.
Saós era um mundo coberto de desertos, cuja atmosfera não era
respirável. Era um planeta pertencente ao Grande Império dos
arcônidas. Por isso estava submetido ao meu governo.
As pessoas
que se encontravam em meu mundo, Árcon I, não sabiam para onde eu
tinha voado no cruzador ligeiro robotizado. Estava interessado apenas
em trocar idéias com os líderes terranos.
As
notícias sobre o estado de saúde de Rhodan eram inquietantes. Não
havia dúvida de que a cisão celular explosiva era provocada pelo
ativador celular incrustado em seu corpo.
Não havia
possibilidade de remover o perigoso aparelho pelos meios cirúrgicos.
Não conseguia compreender por que o ativador de Rhodan provocava
esse efeito colateral, pois possuía um aparelho idêntico, que
durante dez mil anos terranos me havia proporcionado a saúde e o
vigor juvenil.
Será que
houve algum erro na programação do ativador? Haveria alguma
divergência entre os dados em que se baseou o ajustamento individual
e as vibrações orgânicas de Rhodan?
Procurei
verificar. Sem que o Serviço de Segurança Solar soubesse, dirigi-me
ao planeta artificial Peregrino. Pretendia indagar o Ser coletivo a
este respeito. Acontece que não consegui falar com a inteligência
espiritualizada conhecida como Ele ou Aquilo.
Por isso
tive de iniciar a longa viagem de volta sem que estivesse em
condições de ajudar Rhodan.
Estava
esquentando. O sol subiu acima das cordilheiras e, com sua luz forte,
inundou o terreno acidentado. De repente as ruínas da base dos antis
pareciam ainda mais desoladas. Aqui os adoradores de ídolos do culto
de Baalol haviam tentado conduzir os terranos para uma pista falsa.
No entanto, dois jovens oficiais conseguiram desmascarar o jogo
fraudulento.
Saós não
era o mundo central dos antis. Além disso, não demonstrei temor ao
ver as manobras dos terranos. Entretanto, tais manobras eram um
perigo sério à minha posição de imperador do reino estelar.
Descobri, também, que os antis desejavam provocar um confronto
militar entre Árcon e a Terra.
Acontece
que nem por isso ficava esclarecido o motivo por que meu amigo se ia
transformando aos poucos num monstro. O chefe de segurança do
Império Solar, Allan D. Mercant, mandou informar-me de que a divisão
celular explosiva causava um crescimento incontrolável. Rhodan
cresceria mais ou menos um centímetro por dia.
Fiz meus
cálculos. Cinqüenta e um dias já se haviam passado desde nosso
último encontro, realizado através da televisão. Naquele momento
era 20 de outubro de 2.103 na Terra.
Como seria
naquele momento aquele terrano ágil que unira a Humanidade e lhe
trouxera a paz? Cinqüenta e um dias representavam um crescimento de
igual número de centímetros em altura e... largura. Perry devia
estar transformado num colosso.
Com a mão,
protegi os olhos ofuscados e fui andando.
O amplo
vale em que ficava o estabelecimento dos antis não possuía encantos
suficientes para levar-me a demorar mais. Além disso, no estado de
ânimo em que me encontrava, não seria bom refletir demais sobre
problemas insolúveis.
Não
estava em condições de usar o único trunfo que conseguira no curso
desses estranhos acontecimentos. Ainda não havia recebido a
interpretação final dos dados, realizada pelo computador-regente de
Árcon.
Desci
lentamente pela encosta íngreme. Tive de cuidar-me para não cair. A
gravitação de Saós era de 1,3 G. Era um mundo desagradável. Por
isso nunca fora ocupado por colonos arcônidas.
Meu
cruzador estava pousado a cem metros do lugar em que me encontrava.
Eu era a única criatura viva a bordo. Mas a tripulação de robôs
era tão confiável quanto uma tripulação arcônida, talvez mais.
A
decadência física e mental dos arcônidas do Grande Império era
inegável. Na minha cabeça, habitavam idéias de que os humanos nem
desconfiavam. Se não fosse a doença de Rhodan, provavelmente há
algumas semanas teria iniciado certas negociações.
Minha vida
de soberano absoluto era sombria. Dispunha de uma frota gigantesca,
de milhares de mundos coloniais e de alguns milhões de robôs de
combate de todos os tipos, mas não tinha verdadeiros amigos nem
soldados capazes, que me permitissem tripular as espaçonaves.
As
condições reinantes no império estelar eram caóticas. Era muito
difícil abafar as sublevações e as revoltas, contando apenas com a
frota robotizada, pois nunca conseguia controlar as medidas da
central de comando, com a precisão que seria de desejar. Por isso
sempre surgiam medidas duras e mal-entendidos, que faziam aumentar
ainda mais o ressentimento dos colonos. Há algumas semanas sabia que
minha situação se tornara insustentável. Precisava dos terranos
comandados por Rhodan. Esse homem talvez fosse capaz de salvar o
império cambaleante, se colocasse em ação seus homens muito ativos
e bem treinados. Se dispusesse de pessoas desse tipo, nunca teria
pensado em capitular. Mas nas condições em que nos encontrávamos,
achei que tal atitude melhor correspondia aos interesses dos
impérios.
Crest, um
cientista falecido há anos, vivia dizendo que os terranos eram os
herdeiros naturais do Império de Árcon. Agora chegara a hora em que
deveriam assumir essa herança — ou melhor, teria chegado, se não
tivesse havido a súbita modificação na personalidade de Perry.
Conhecia
os homens há milênios. Rira e sofrerá com eles, e partilhara seus
triunfos e suas derrotas. Sua grandeza e arrojo fizeram com que eu
mesmo crescesse.
Mas também
sabia que os habitantes do terceiro planeta do sistema solar às
vezes desanimam e resignam-se muito depressa... Sintomas como estes
surgiam principalmente nos tempos em que grassavam doenças graves.
Rhodan, do
qual sempre pensara que fosse um homem dotado de senso de disciplina
e força de vontade, caíra de um extremo ao outro.
Antes do
acidente com o ativador celular fora um homem tolerante, que sabia
raciocinar com clareza. Mas agora, pouco depois que o processo
mórbido da divisão celular tivera início, transformara-se num
ranzinza e numa personalidade colérica, que apresentava traços de
caráter bastante desagradáveis.
Costumava
maltratar os velhos amigos e aproveitava todas as oportunidades para
ofender-me e provocar-me. Sua ação política, que antigamente
costumava ser muito bem planejada e executada com grande
sensibilidade, transformara-se numa série de exibições grosseiras
de seu poderio militar.
Não era
mais o Perry Rhodan de outros tempos, em cujas mãos poderia colocar
tranqüilamente os destinos do Império de Árcon.
No curso
dos acontecimentos mais recentes formulara ameaças tão graves que
muito a contragosto me vira obrigado a tomar uma medida que poderia
trazer conseqüências drásticas. Mal me atrevia a pensar nisso, mas
não havia como voltar atrás na minha promessa.
Sabia que
de certa forma atacara a Humanidade pelas costas. Prometera mil
espaçonaves do último tipo aos acônidas, pois não vira outro meio
de evitar a intervenção militar planejada por Rhodan, que mandara
evacuar as bases terranas situadas em Árcon e expedira ordens
específicas para que seus funcionários e soldados retornassem à
Terra, o que, sob o ponto de vista estratégico, pusera em perigo a
organização administrativa que eu montara com tanto trabalho.
Os membros
de meu venerável povo não mereciam muita confiança. Poucos
arcônidas estavam em condições de tripular espaçonaves. Em toda
parte sentia a falta dos humanos. Por isso recorrera aos acônidas,
de quem nós somos descendentes diretos.
E os
acônidas, que não tinham nenhum motivo para amar Perry Rhodan e a
Terra, concordaram imediatamente em ajudar-me, mas exigiram mil
naves, já que eles mesmos quase não possuíam mais nenhuma.
Concordei
com a exigência. As naves ainda se encontravam em Árcon II, uma vez
que o treinamento hipnótico das tripulações acônidas não fora
concluído. Retardara propositadamente a entrega dos aparelhos
destinados ao ensinamento hipnótico, pois esperava que Rhodan
mudasse de idéia. Mas, a julgar pelas notícias mais recentes, seu
estado se agravara ainda mais.
Era esta a
situação no dia 20 de outubro de 2.103. Reginald Bell, que era o
amigo mais íntimo de Rhodan, solicitara uma conferência secreta.
Concordara imediatamente, sugerindo que o encontro se realizasse no
planeta Saós. E agora estava esperando pelos terranos.
No momento
em que alcancei a primeira coluna de apoio de meu cruzador, a sala de
controle chamou pelo rádio de capacete.
— Fizemos
uma localização, majestade. Trata-se de um abalo de transição. Os
ecos são inconfundíveis. O objeto voador, que se desloca à
velocidade da luz, penetra no sistema. Os ecos energéticos que vêm
sendo captados têm a intensidade 17. Trata-se de um cruzador
terrano, majestade.
Parei e
olhei para cima. Eram eles! Estavam chegando com um atraso de apenas
trinta minutos, o que representava um excelente desempenho
cosmonáutico.
Não
consegui alegrar-me com isso. Afinal, os terranos eram gente que
sabia fazer as coisas. Se pudesse dispor de cem milhões de homens de
seu tipo, não levaria mais de um ano para pôr sob controle o
império desorganizado pelos meus ancestrais.
Resignado,
penetrei na eclusa inferior. O pouso demoraria pelo menos meia hora.
Retirei-me
para meu camarote e voltei a chamar o regente. Os cálculos
aproximavam-se do seu final. Era bem possível que recebesse os
resultados antes da chegada dos humanos.
Pus-me a
esperar. Dois problemas distintos desafiavam-me.
Primeiro,
era necessário ajudar Rhodan, de qualquer maneira. Além disso,
teria de explicar a Reginald Bell por que solicitara o auxílio dos
acônidas. Era bom que os terranos compreendessem que seria uma
leviandade andar provocando o Império de Árcon.
— Eles
não o ameaçaram, seu idiota! Tudo partiu do doente
— avisou o setor lógico de minha mente.
Esforcei-me
para não perder o autocontrole. Não me sentia muito à vontade para
enfrentar a conferência que se aproximava.
Aquele
homem baixo, com a cabeleira dourada rala em torno da calva, mal
conseguiu dissimular o espanto. Allan D. Mercant, chefe do Serviço
de Segurança Solar, apertou os dedos com tanta força que fez
estalar as juntas.
Estávamos
no interior do camarote do comandante do cruzador ligeiro Atlântida.
Reginald
Bell mantinha-se em silêncio. Assim que concluí minha exposição,
trocou um olhar ligeiro com John Marshall, comandante do Exército de
Mutantes.
O
professor Eric Manoli guardou o estojo com os filmes. Parecia
indeciso. Como médico que era, acabara de explicar o estado de Perry
Rhodan.
Mercant
pigarreou. O uniforme apertado dava-lhe um aspecto ainda mais
insignificante. Mas era uma impressão enganadora. Sem dúvida,
Mercant era o homem mais perigoso do Império Solar.
— Será
que eu o compreendi bem, sir? O senhor prometeu mil espaçonaves aos
acônidas? Mil naves do último tipo?
Seus olhos
azuis fitavam-me intensamente.
— Não
tive outra alternativa. As ameaças de Perry equivaliam a uma
declaração de guerra. No império não há mais terranos. O senhor
conhece meus problemas. Não se trata apenas de enfrentar as medidas
de Rhodan. Além disso, vejo-me obrigado a manter sob contole os
conflitos que lavram no interior do império. E para isso preciso de
uma frota poderosa.
— Acontece
que o senhor dispõe de aproximadamente cem mil unidades robotizadas,
sir.
Limitei-me
a fazer um gesto. Mercant sabia perfeitamente que o argumento que
acabara de usar não era válido.
— É o
senhor quem diz. São unidades robotizadas. Meus inimigos já
aprenderam a enfrentar as naves guiadas por um comando positrônico.
Preciso de tripulações orgânicas de elite.
Bell
adiantou-se. Seu rosto largo irradiava indiferença.
— Não
falemos mais sobre isso — disse em tom resoluto.
Fitou-me
com uma expressão pensativa e continuou:
— Atlan,
o senhor estaria disposto a, em determinadas condições, desfazer
sua aliança com os acônidas?
— Que
condições seriam estas?
John
Marshall sentou. Desistira de apalpar meus pensamentos. De qualquer
maneira, não o teria conseguido, pois após o pouso das naves
terranas eu levantara meu anteparo mental monolítico.
Bell
aproximou-se de Manoli e pegou o estojo com os filmes.
— Já
lhe mostramos como está Rhodan. Ninguém lhe levaria a mal se, em
pensamento, o senhor o chamasse de monstro. Devo confessar que por
mais de uma vez brinquei com esta idéia.
— Quais
são as condições? — voltei a perguntar.
— O
senhor é muito duro, sir — interveio Marshall.
— De
forma alguma. Enquanto continuar a perguntar e negociar, Roma não
estará perdida.
Mercant
sorriu. Por certo estava pensando no meu passado. E devia achar
engraçado que um imperador arcônida falasse numa cidade terrana
antiga.
Acenei com
a cabeça. Ao que parecia, o ambiente começava a descontrair-se.
Bell guardou o filme.
— OK.
Vamos mostrar as cartas. Perry está arruinando tudo que construímos,
a partir do dia 19 de junho de 1.971. Sob o ponto de vista humano,
seu comportamento pode ser desculpado, mas não podemos conformar-nos
por mais tempo com o mesmo. Já não aceita conselhos dos velhos
amigos. O senhor nem imagina o que sofremos nestas últimas semanas.
Tudo começou com a atividade inesperada do ativador celular, que se
incrustou no peito de Perry. Este se transformou num homem irritável,
intolerante e injusto sob todos os pontos de vista.
— É um
Rhodan totalmente diferente do que conhecemos — confirmou Manoli,
um dos astronautas que em 1.971, pela primeira vez na história da
Humanidade, puseram os pés na Lua terrana.
Foi nesse
satélite que os quatro homens pertencentes à mesma equipe
encontraram os representantes de meu povo, e naquela oportunidade
teve início a série de acontecimentos que levou à formação do
Império Solar.
Procurei
dar uma interpretação coerente à exposição de Bell, mas não
tive coragem de encarar as conclusões a que chegaria.
Relatei
meu vôo frustrado ao planeta artificial Peregrino, onde Homunc, o
biorrobô, me avisara pelo rádio que não poderia falar com o Ser.
Mercant
fitou-me prolongadamente e disse:
— Sir,
esperávamos que o senhor fizesse uma coisa dessas; muito obrigado.
Mas poderíamos ter-lhe dito que a tentativa seria inútil. Nossa
interpretação lógica revela que o Ser não pode estar interessado
em ajudar Rhodan. Ao que parece, o ativador celular, não se sabe
como, representa uma espécie de castigo. Não sabemos qual é a
infração que Ele lhe atribui.
Tive minha
curiosidade despertada. Mercant usara um tom estranho. Fitei-o com
uma expressão indagadora, mas Mercant voltou o rosto. Quais seriam
as reflexões que passavam pela cabeça desse homem inteligente?
Quais seriam as suposições que se formavam em sua mente? Se é que
tinha uma suspeita definida, por que não nos comunicava a mesma?
— Deixe
de dizer tolices, Mercant — disse Bell, em tom áspero. — Que
interesse teria o Ser fictício em castigar a pessoa que deve ser a
figura mais interessante em seu jogo de enigmas galácticos? E o que
devemos entender por castigo? Ficamos refletindo por semanas a fio.
Os homens mais inteligentes realizaram pesquisas, durante as quais se
utilizaram os computadores de último tipo. Aquilo só pode resultar
de uma falha técnica. Ou então... — virou-se abruptamente em
minha direção — Atlan, o senhor já notou um defeito semelhante
no aparelho que está usando?
Fiquei
feliz ao ouvir alguém chamar-me pelo nome. Aquilo soava melhor que
Vossa Majestade. Era espantoso que me sentisse tão bem entre estes
homens. Cada um deles era uma personalidade fascinante. Senti-me como
um deles.
Apalpei
meu peito. Havia um abaulamento sob o uniforme fino. Era um ativador
oval, que vinha funcionando há dez mil anos terranos, sem a menor
falha.
— Não,
Bell.
— Pois
então, só podemos supor que seja um acidente.
Bateu com
o punho direito na palma da mão esquerda, baixou a cabeça e
atravessou o camarote.
— Não
se esqueça que você está com os nervos arruinados — advertiu o
professor Manoli.
Bell
interrompeu-o com um gesto violento. Seus cabelos curtos cor de
ferrugem estavam desgrenhados em cima do crânio anguloso. Nunca o
vira tão exaltado.
— Atlan,
solicitei esta entrevista porque precisamos que o senhor nos ajude. O
senhor compreende? Precisamos da sua ajuda.
Dentro de
mim aconteceu algo que não consegui explicar. Os humanos precisavam
de mim! Era uma sensação admirável.
— Fale,
Bell!
Bell
soltou uma risada que antes parecia um choro.
— Pois
não esconderei mais nada, Atlan. Perry transformou-se num tirano.
Vários membros do Governo Solar têm sido presos sob acusações
extremamente dúbias. Usa a legislação de emergência com a maior
esperteza. Oficiais e tripulantes são punidos sem o menor motivo, as
inteligências não-humanóides sofrem ofensas e provocações.
Estamos à beira do abismo. Em virtude disso, o ambiente começa a
esquentar entre a oficialidade da frota. Até mesmo alguns dos
mutantes, que são os elementos mais importantes de que dispomos,
começam a ficar ressentidos. A revolta parece iminente. Para salvar
o Império Solar, se é que isso ainda é possível, Perry Rhodan
deverá ser preso imediatamente. O Marechal Solar Freyt, Deringhouse
e outros homens importantes pediram-me que lhe transmitisse suas
recomendações. Mercant, Marshall e Manoli estão presentes. Atlan,
o senhor que é um velho amigo da Humanidade tem de ajudar-nos.
Bell
estava na iminência de um colapso nervoso. Manoli fez um gesto de
advertência em minha direção, e o telepata mantinha os olhos
semicerrados. Ao que parecia, sondava a mente de Bell.
Senti-me
abalado. Refleti sobre como encontrar uma saída e olhei para Mercant
como quem pede auxílio. Era o elemento de tranqüilidade em meio aos
terranos.
Qualquer
plano só poderia ser elaborado juntamente com Mercant e Marshall,
que tinham atrás de si o Serviço Secreto e o poderoso Exército de
Mutantes.
— Como
pensa realizar a prisão de Rhodan? Deve haver milhões de soldados
fielmente dedicados a ele, que não se esqueceram de sua grandeza
humana. Provavelmente estes nunca compreenderão que o administrador
está profundamente modificado. Será que o estado físico e mental
de Perry foi comunicado ao público?
— Nem
cogitamos disso — respondeu Mercant, em tom seco. — Sir, apenas
queremos colocar Perry em segurança. Os médicos galácticos e
nossos especialistas trabalham dia e noite para encontrar um remédio
contra a cisão ou divisão celular explosiva. Quanto a Rhodan, o
mesmo acredita que só os antis poderão ajudá-lo. Sabe que vinte
ativadores celulares, dotados de regulagem individual, caíram nas
mãos dos sacerdotes. Ao que parece, não se lembra de que vários
antis tiveram um fim muito triste em virtude de defeitos no
funcionamento de seus aparelhos. Só está interessado numa coisa:
quer descobrir o planeta Trakarat. É impossível fazê-lo
compreender que por lá não encontrará ajuda. Estou plenamente
convencido de que os sacerdotes são impotentes diante do problema.
Também não sabem por que os ativadores, que deveriam prolongar a
vida, produzem efeitos colaterais tão funestos.
Joguei o
meu trunfo, embora ainda não tivesse recebido o resultado da
computação. Mas o regente não demoraria a entrar em contato
comigo.
— Acredito
que dentro de alguns minutos poderei dizer-lhes onde fica o sol
geminado de Aptut.
Mercant
estremeceu. Bell levantou-se de um salto e Marshall arregalou os
olhos de espanto. Levantei a mão.
— Peço
um pouco de paciência. Estou esperando uma mensagem de hiper-rádio.
Devemos usar todos os meios que eventualmente possam ser úteis a
Perry. Acho que não seria recomendável submetê-lo à prisão
preventiva. Deixem-no agir à vontade, mas mantenham-no continuamente
sob observação. Posteriormente poderemos afastá-lo do cargo, se
necessário. Os senhores não podem arriscar uma revolução apenas
porque alguns destacados oficiais começam a inquietar-se. Afinal, a
Idade Média terrana já passou.
Bell
voltou a sentar-se. Mercant encostou-se ao quadro de uma tela.
Depois de
algum tempo, Marshall perguntou com a calma que lhe era peculiar:
— Por
que acredita ter encontrado o planeta Trakarat?
No meu
íntimo suspirei de alívio. Com essa pergunta a palestra foi
conduzida a uma trilha mais objetiva. Estava mesmo na hora de abafar
a exaltação dos sentimentos.
Os quatro
homens que se encontravam à minha frente não eram usurpadores; pelo
contrário. Rhodan jamais encontraria amigos mais fiéis que estes.
Se estes pensavam em prender Rhodan, a situação da Terra devia ser
muito grave.
Mercant
lançou-me um olhar indagador.
— Por
quê, sir?
— Um
comando terrano conseguiu aprisionar dois saltadores, que trabalhavam
na base dos antis, situada neste planeta. O sacerdote Kutlós não
chegou a revelar nada sobre a posição do planeta Trakarat, mas os
dois saltadores declararam que ouviram conversas dos antis a este
respeito. Dessa forma os especialistas terranos conseguiram certas
informações. Dizem que Trakarat é um mundo de rara beleza, cercado
de dois anéis feitos de micromatéria cósmica. E o corpo celeste
gravita em torno de um sol geminado vermelho muito estranho, que
possui dezesseis planetas. O senhor me forneceu esses dados há cerca
de cinqüenta dias terranos. Na oportunidade prometi examiná-los.
Mercant
lembrava-se perfeitamente. Só agora percebi que não viera apenas
para conversar sobre a prisão de Perry Rhodan. Tinha outras coisas
em vista.
Soltei uma
risada. Sentia-me contrariado. Levei bastante tempo para perceber o
que ia na mente daquele homem sagaz. Esse homem, que era um
semimutante dotado de uma capacidade telepática pouco pronunciada,
chegou a fazer uma tentativa de romper meu anteparo mental.
— Deixe-se
disso, Mercant! — disse em tom de raiva. — Acho que o senhor
nunca perderá o hábito de desconfiar dos outros.
— Não
farei mais isto. Por favor, diga-me o que conseguiu descobrir.
Encontrou o nome do planeta em seu banco positrônico de dados?
— Não,
esse nome é desconhecido tanto ao regente como aos acônidas.
Bell
soltou uma praga, mas logo pediu desculpas.
Passei por
ele, dirigi-me à galeria de telas de imagem e dei um tapinha em seu
ombro.
— Tudo
bem, meu velho, desabafe. Quando vi que o robô gigante não
conseguia encontrar nenhum ponto de referência em sua memória,
dirigi-me aos acônidas. Eles sabem que o ataque de Rhodan fez com
que o campo defensivo energético azulado fosse removido. Depois que
concordei em fornecer-lhes mil espaçonaves, mostraram-se dispostos a
franquear os arquivos de Ácon. Nesses arquivos estavam registrados
até mesmo os nomes dos homens e das mulheres que há cerca de vinte
mil anos fundaram a colônia que se transformou no atual Império
Arcônida. Nas minhas pesquisas parti do pressuposto de que era
perfeitamente possível que os antis não descendessem dos emigrantes
arcônidas; talvez tivessem vindo do mesmo mundo que estes. E as
pesquisas confirmaram essa suposição.
Mercant
respirou profundamente.
— Parabéns!
O senhor foi o único que se lembrou dessa possibilidade.
Fiz uma
mesura irônica. Era de espantar que ele não se tivesse lembrado.
— Pensei
que, face à precisão dos registros históricos dos acônidas,
talvez houvesse uma possibilidade de encontrar o nome do planeta
Trakarat. Não consegui, mas encontrei certos dados sobre um estranho
sol geminado. A massa das duas estrelas é quase idêntica. Devemos
reconhecer que é um fenômeno extraordinário. Além disso, a
estrela geminada possui dezesseis planetas. Era quanto bastava.
Entreguei os dados acônidas ao computador-regente, para que o mesmo
os processasse. Como já disse, dentro de mais alguns minutos deverei
receber o resultado.
Ninguém
disse nada. Só se ouvia a respiração pesada de Bell. Mercant
voltou a estalar as juntas. Nunca antes notara esse hábito. Concluí
que até mesmo esse homem estava nervoso.
— Por
que o nome do sol vermelho é conhecido, enquanto o do planeta não
é?
— Isso
pode ter várias causas — respondi. — Talvez o nome primitivo
tenha sido mudado no curso dos milênios. Quando isso aconteceu,
provavelmente já não havia nenhuma ligação com os acônidas. E já
sabemos que os antis não descendem do meu povo. São descendentes
diretos dos ancestrais comuns, os acônidas. Tenho certeza de que os
sacerdotes só obtiveram suas faculdades extraordinárias alguns
milênios depois de sua emigração. Depois disso começaram a
espalhar-se pelos mundos dos setores conhecidos da Via Láctea.
Sabemos por experiência própria que essas inteligências são muito
perigosas. Suas anticapacidades parapsicológicas neutralizam as
faculdades dos mutantes terranos, Mercant. Não pense que um ataque a
Trakarat será fácil.
— Criamos
algumas armas novas, sir — disse com a maior tranqüilidade.
Agucei o
ouvido, e Mercant voltou a sorrir.
— Pedirei
licença para entregar-lhe um fuzil versátil. A nova arma foi usada
pela primeira vez há algumas semanas. Não dormimos no ponto, sir.
Acreditei
piamente nisso. Os terranos nunca haviam “dormido
no ponto”
desde que pela primeira vez se aventuraram pelo espaço. Eram um povo
maravilhoso. Sabia perfeitamente que simpatizava mais com os humanos
que com os arcônidas.
Comecei a
impacientar-me e olhei para o relógio. Meu tempo era escasso. Em
Árcon I, o mundo de cristal do império, uma delegação acônida me
esperava. Minha excursão ao planeta Saós subvertera o protocolo.
Bell
seguiu meu olhar. Lá fora uma máquina começou a zumbir. A sala de
comando do cruzador ficava ao lado do camarote do comandante. Uma
tela de visão externa mostrava minha nave robotizada. O sol que ia
subindo no céu derramava uma luz escaldante sobre os montões de
destroços. As últimas sombras desapareceram. Os contornos da
pirâmide semidestruída do templo destacavam-se nitidamente contra
as montanhas nuas.
Apontei
para a tela.
— Os
senhores fizeram um serviço perfeito. Por quê? Encontraram auxílio
para Rhodan?
— Talvez
— respondeu Marshall. — De qualquer maneira obtivemos algumas
informações sobre Trakarat.
— É
verdade. Vamos admitir que consigamos determinar a posição
galáctica desse mundo. O que espera conseguir com o ataque?
— As
relações diplomáticas entre o Império Solar e o povo dos antis
foram rompidas, sir. O prazo do ultimato por nós formulado termina
daqui a cinco horas.
— Quer
dizer que será a guerra?
— Sim
senhor. Diria que será uma guerra horrível. Até agora essas
inteligências sempre conseguiram dissimular seus verdadeiros
objetivos. O culto de Baalol é uma organização clandestina, que
tem por objetivo exercer influência política sobre todos os povos
conhecidos da Galáxia. Em muitos mundos, os antis já alcançaram
este objetivo. Está na hora de esclarecermos a situação.
— Tudo
isso não explica o que espera conseguir com a descoberta do mundo
central dos antis. Realmente acredita que por lá existe uma
possibilidade de curar a divisão celular explosiva de que sofre
Rhodan?
— Ele
mesmo tem plena certeza disso, sir — disse Mercant. — Vale a pena
tentar.
Fitei-o
com uma expressão de dúvida. O homem que se encontrava à minha
frente era inteligente demais para pensar seriamente num golpe
desfechado no vazio.
— Acreditamos
num entendimento com os antis — disse Bell apressadamente. —
Atlan, o senhor conhece as possibilidades desses seres. Nossos
telepatas não conseguem penetrar na mente de Rhodan. É possível
que os antis consigam. Muitos médicos são de opinião que a
atividade desastrosa do ativador celular resulta de um curto-circuito
psíquico, que poderia ter produzido uma alteração não mensurável
da freqüência individual de Perry. O senhor deve saber que qualquer
inexatidão, por menor que seja, representa um perigo. Afinal, usa um
ativador.
— Lógico
— disse meu cérebro adicional e acenei com a cabeça, numa atitude
pensativa.
— Isso é
um raciocínio válido, Bell. O senhor acha que as freqüências
cerebrais de Rhodan podem ter sofrido um deslocamento, em virtude do
interrogatório paramecânico a que foi submetido.
— Isso
mesmo — confirmou o telepata. — O chefe foi prisioneiro de seu
filho. Ficamos sabendo de que maneira foi interrogado. Depois de
libertado arranjou o ativador mas, ao que parecia, nem desconfiava de
que seu psiquismo fora afetado. Por enquanto esta é a única
explicação que encontramos. E não existem elementos para
refutá-la. Ajude-nos a descobrir Trakarat. Os antis deverão estar
em condições de informar que tipo de aparelho foi utilizado durante
o interrogatório. Ao que parece, neste meio tempo Perry já
compreendeu o que aconteceu com ele. Por isso compreendemos
perfeitamente que queira encontrar Trakarat e, se necessário, atacar
esse mundo. Sob o ponto de vista legal, um chefe de Estado foi
prejudicado por atos ilícitos de violência. E, uma vez que esses
danos ameaçam trazer a ruína do Império Solar, o Marechal Freyt
formalizará a declaração de guerra. Estamos dispostos a negociar,
mas desejamos que os cientistas dos sacerdotes nos prestem toda
colaboração de que são capazes. Procure compreender que Rhodan
representa a Terra.
Compreendi
perfeitamente. Se Rhodan morresse, a existência do Império Solar
estaria em perigo. Para os homens, isso representava um motivo
suficiente para adotar sérias medidas.
Dali a
alguns segundos recebi um chamado da sala de comando do cruzador
robotizado. A sala de rádio da Atlântida transferiu a ligação
para o camarote. O regente acabara de chamar.
Mandei que
se estabelecesse uma ligação direta. As linhas características do
regente apareceram na tela.
A
transmissão foi curta. Para o maior centro de computação da
Galáxia, era totalmente indiferente qual fosse a finalidade de
determinada informação. Sempre cumpria sua tarefa segundo as
diretrizes do comando que lhe fora transmitido.
— Aqui
fala o regente — disse a voz saída dos alto-falantes. — Esta
transmissão diz respeito à programação IP-60-157, relativa à
conversão de dados acônidas para o fator cosmonáutico da Terra e
do Grande Império. A interpretação é a seguinte: O sol geminado
de Aptut, com dezesseis planetas, fica a 38.439 anos-luz da Terra. As
coordenadas do salto serão transmitidas em forma de gráfico. A
posição galáctica foi apurada com cem por cento de certeza. A
estrela geminada Aptut pertence ao chamado setor do Agulheiro, no
décimo quarto braço central da Galáxia, segundo o catálogo
arcônida. Face aos dados introduzidos no mecanismo pode-se admitir
com noventa e nove por cento de probabilidade que o planeta Trakarat
seja o sexto mundo do sistema Aptut.
Confirmei
a recepção dessa informação resumida por meio de um impulso
codificado do meu aparelho de comando. Só depois disso transmiti os
dados ao regente. A indicação do setor do Agulheiro e do décimo
quarto braço central da Galáxia não nos serviria para muita coisa.
Segundo os meus cálculos, teríamos de revistar trezentos mil sóis.
Aguardamos
até que a nave robotizada decifrasse os dados codificados e os
projetasse em linguagem clara nas telas registradoras do cruzador
terrano.
Demorou
mais de uma hora até que tivéssemos em mãos as folhas de plástico
com a série de coordenadas.
Mercant
parecia muito nervoso. Reginald Bell, que era o único cosmonauta em
meio à alta oficialidade, pediu as respectivas microfichas do
catálogo armazenado no computador. Imaginei que naquela hora não
seria mais possível falar com ele.
O oficial
de plantão ajudou-me a colocar o traje espacial. Não havia muita
coisa para ser dita. Tinha de voltar.
Quando me
despedi, o professor Manoli pediu com a voz exaltada:
— Sir,
peço-lhe que guarde sigilo absoluto sobre o encontro que tivemos.
Perry não foi informado sobre o mesmo. No estado de ânimo em que se
encontra, interpretaria a conferência como uma forma de contato com
o inimigo e um ato de traição.
O médico
não disse mais que isso, mas suas palavras foram suficientes para
que me convencesse de que Rhodan se transformara num tirano.
Dali a
alguns minutos planei da eclusa polar para o solo. Marshall
acompanhou-me até minha nave, juntamente com três tripulantes do
cruzador.
Assim que
cheguei ao meu camarote, liguei o aparelho de observação externa.
John Marshall, o terrano alto, de sorriso simpático, voltou a acenar
com a mão. Parecia imaginar que naquele instante eu fixava
ansiosamente as telas.
Os quatro
homens desapareceram. Logo me vi só com minhas preocupações e
angústias.
“— Você
não passa de um cão miserável, imperador!”
— dissera Rhodan por ocasião de nosso último encontro.
Nunca mais
nos havíamos encontrado. Tive a impressão de que, depois da
experiência que passara ao lado de Thomas Cardif, preferira não me
ver à sua frente. Nossas palestras pelo telecomunicador eram pouco
interessantes e ultimamente até se haviam tornado bastante
desagradáveis.
Procurei
lembrar-me disso enquanto me esforçava ao máximo para não ser
dominado pela melancolia. Era um homem poderoso, mas também era um
homem solitário. Meus amigos decolariam dentro de alguns minutos.
Lá em
casa a delegação dos acônidas me esperava. O quadro das
perturbações políticas desenhava-se à minha frente. Só me
restava fazer votos de que os terranos conseguissem fazer o estado de
Rhodan voltar ao normal. Para mim, a idéia de atacar a Terra era
inconcebível. Ninguém gosta de atirar numa coisa profundamente
ligada ao seu coração, à qual pode agarrar-se nas horas de
solidão. E minhas horas de solidão, durante as quais as recordações
inundavam meu espírito, eram muito numerosas. As lembranças eram a
única coisa bela que me restara.
Levei
muito tempo para vencer a depressão. Finalmente entrei na sala de
comando do cruzador. Não havia ninguém além de mim, pois os robôs
não chegam a ser alguém.
Quando
pela primeira vez fui chamado de imperador, alguma coisa se revoltou
dentro de mim. Por que não me tratavam simplesmente como Atlan, ou
sir? Para os homens isso era muito natural.
Berrei
para as máquinas, mas estas limitaram-se a exibir seu sorriso
estereotipado.
— Vossa
Majestade precisa de repouso — disse um robô-médico, revestido de
plástico, feito especialmente para cuidar de minha saúde.
Brindei-o
com alguns palavrões terranos, que ouvira pela primeira vez ao tempo
do Rei Barba-Roxa. Minha memória fotográfica não permitira que me
esquecesse dessas palavras.
Viajara
com Barba-Roxa até os Alpes e tentara convencê-lo a desistir de
suas ambições políticas na Itália. Depois da batalha de Tusculum
recorri às minhas provisões minguadas de antibióticos arcônidas,
mas não consegui deter a moléstia desastrosa. No ano de 1.177, o
tratado de paz fora firmado em Veneza, com Alexandre II. Na
oportunidade acreditava que com esses dois homens poderia fundar um
império mundial, mas os humanos ainda não estavam maduros para
isso.
Alguém
cutucou-me. Despertei das meditações. Por pouco meu cérebro
adicional me domina. Levei alguns segundos para perceber onde estava.
A sala de comando de uma nave robotizada arcônida não combinava
muito bem com o Imperador Barba-Roxa!
O
robô-comandante recuou um passo quando me aproximei com um gesto
furioso.
— Uma
mensagem de hipercomunicação urgentíssima, majestade — disse a
máquina.
Só então
ouvi o som estridente do sistema de chamada. Corri para a divisão de
rádio e entrei em recepção. O regente falou de imediato.
— Sua
Excelência Administrativa, Perry Rhodan, deseja falar urgentemente
com Vossa Majestade. Que resposta devo dar-lhe?
Era uma
pergunta breve. Mas seu conteúdo tão extenso que o cérebro
tornava-se incapaz de assimilá-lo.
Refleti
apressadamente. Minha tensão cresceu. O que queria o terrano? Até
então sempre preferira não me pedir conselhos. Na verdade, foi só
graças à resolução de Bell que certa vez consegui comunicar-me
com Perry pelo hiper-rádio.
— Atenção,
imperador dirigindo-se ao regente. Peça ao administrador que tenha
um pouco de paciência. Diga-lhe que estou a bordo de um cruzador
robotizado, num vôo de patrulhamento. Voltarei a chamar.
— Entendido,
majestade. Ficarei em recepção.
O traçado
das linhas projetadas na tela modificou-se. Vi um triângulo. Poderia
confiar na máquina.
Chamei
Allan D. Mercant pela faixa comum. Parecia espantado. A Atlântida
estava pronta para decolar.
— Não
faça perguntas, Mercant. Rhodan quer falar comigo. Adie a partida e
ouça o que tem a dizer.
— O quê?
Perry? — gritou alguém que não consegui ver até que o rosto de
Bell aparecesse na tela do meu receptor.
— Chamou?
— perguntou Mercant, em tom apressado. — Não é possível! O que
aconteceu?
— Ainda
não sei. Mandei transmitir a informação de que por enquanto o
regente não conseguiu entrar em contato comigo. Rhodan está
esperando. Ao que parece está usando a estação de Terrânia. Fique
em recepção. Transmitir-lhe-ei a palestra de hiper-rádio pela
faixa normal.
— Rhodan
não deve saber que estamos aqui — disse Bell.
Confirmei
com um aceno de cabeça e afastei-me da objetiva. O centro de
computação moveu alguns controles. Os tripulantes da Atlântida
poderiam acompanhar nossa conversa.
Ordenei ao
computador-regente que captasse a transmissão vinda da Terra, a
decifrasse e, depois de reforçá-la, a irradiasse para meu cruzador.
Não poderia haver melhor estação retransmissora que esta. Apesar
da distância relativamente pequena que nos separava do sistema de
Árcon, o computador transmitia com uma potência efetiva de dez
milhões de quilowatts.
— A
mensagem não foi transmitida em código — informou o regente antes
que eu desligasse.
Essa
informação não era nada tranqüilizante. Sabia que Perry Rhodan
era cauteloso e inteligente, motivo por que nunca transmitira sem
intercalar o distorçor e recorrer ao código de condensação, mesmo
que se tratasse de uma mensagem pouco importante.
E, ao que
parecia, desta vez tratava-se de algo mais que um cumprimento
amistoso transmitido por uma distância de trinta e quatro mil
anos-luz.
Procurei
concentrar-me. Sentei na poltrona que ficava à frente do painel de
controle central.
Os
contornos de uma figura humana surgiram na tela. Esperei que o
regente tornasse os contornos mais nítidos e precisos. Depois disso
vi um setor da grande estação terrana com tamanha nitidez que até
parecia estar no interior da respectiva sala.
Não
conhecia a pessoa uniformizada que via diante de mim. Pediu-me que
esperasse um momento, pois o administrador ainda estava ocupado.
— Pois
não, major — respondi.
Virei a
cabeça e fitei outra tela, na qual se viam os rostos de Mercant e
Bell. Cumprimentaram-me com um gesto, sem dizer uma palavra. Ao que
parecia, ouviam muito bem.
— Essa
transmissão é muitíssimo importante — avisou o setor lógico de
minha mente.
Senti-me
contrariado. Era claro que a quantidade de energia consumida na troca
de mensagens não seria nada barata.
Dali a
alguns minutos ouvi ruídos estranhos. Parecia o estertor de um
animal ferido, ou então — sim, era isso mesmo — o fungar de um
dos monstros supersaturados que eu costumava caçar em certos mundos
primitivos.
Meus olhos
começaram a lacrimejar, o que era um sinal de forte nervosismo.
Sabia que não deveria fazer qualquer gesto que revelasse minha
emoção. Obriguei-me a esboçar um sorriso e examinei-o numa tela
reflexiva dos elementos de comando. Resolvi que não abandonaria esse
sorriso, houvesse o que houvesse.
Um vulto
disforme surgiu no campo de visão da objetiva de ângulo largo.
Fechei os olhos, mas logo os arregalei.
Vi um
monstro, uma figura de tamanho inacreditável que dificilmente
poderia ser considerada humana. Reconheci um rosto balofo. A única
coisa normal que restava naquela criatura eram os olhos.
Os mesmos
não estavam inchados nem se haviam transformado numa massa esponjosa
como o resto do corpo.
Mas eram
olhos terríveis; não eram mais os olhos que eu conhecia e amara.
Haviam perdido a tonalidade verde-cinza e o brilho irônico. Eram
amarelentos e tinham a expressão de um lobo — claros, fugazes e
sem o menor sentimento.
O dono
desses olhos era Perry Rhodan!
Ao que
parecia, os microfones da estação terrana eram muito sensíveis.
Ouvi o ruído surdo do corpo que caiu numa poltrona. Um par de mãos
enormes, que também estavam deformadas e apresentavam um aspecto
poroso, surgiu no campo de visão.
Então
este era meu amigo! Era o homem que sabia apreciar tanto como eu a
dureza das batalhas. Agora via nele apenas um monstro que se
aproximava da dissolução.
— Alô —
disse a voz saída dos meus alto-falantes. — É você, Atlan? Não
é nenhuma imitação?
— Não
sou nenhuma imitação, pequeno bárbaro — respondi em tom
inseguro.
Seu rosto
ficou desfigurado e sem o menor motivo gritou alguns palavrões.
— Não
tolerarei esse tratamento insolente. Vamos esclarecer logo quem de
nós é o mais forte, seu rei dos robôs. Será que você tem algo a
apresentar além dessas máquinas? Vamos logo! Mostre o peito. Não
ouviu? Quero que me mostre seu ativador celular.
Pronunciou
as últimas palavras tal qual um louco furioso. Cerrou os punhos.
Dali a pouco só via estes, pois parecia que sua raiva insensata o
fazia bater na objetiva.
Fiquei
estarrecido. Não imaginava que a decadência mental de Rhodan
tivesse chegado a este ponto, embora Manoli me tivesse dito que devia
preparar-me para um grande susto.
Procurei
convencer a mim mesmo de que já não havia motivo para ter qualquer
consideração com este homem. Este só poderia ser domado por meio
de palavras duras e ameaças pesadas.
Mas logo
me dei conta de que isso seria um erro. Que me ofendesse à vontade,
que soltasse sua fúria. Por enquanto ainda via uma possibilidade de
ajudá-lo.
Abri o
fecho magnético de meu uniforme e rasguei o tecido. Depois disso
Rhodan deveria estar em condições de ver o ativador celular que
trazia ao peito.
Calou-se
imediatamente. Os punhos desapareceram. O rosto desfigurado voltou a
surgir na tela.
Fitou o
aparelho, perplexo. Os lábios grossos tremiam.
— Esse...
esse realmente é seu ativador?
— Sim,
amigo, é este.
— Como é
que ele funciona perfeitamente em você? Por que não está inchando?
Não
consegui conservar o sorriso. Rhodan, que ainda há pouco parecia um
louco furioso, soluçou e descansou a cabeça nos braços. Senti-me
martirizado ao vê-lo nesse estado. Por isso resolvi que não me
envolveria em qualquer discussão.
Há poucos
segundos pretendia dizer-lhe em tom enérgico que não era a maior
criatura do Universo. Mas agora preferi falar logo, para não
deixá-lo ainda mais irritado.
— Está
procurando o planeta Trakarat, amigo? Calma! Eu o encontrei...
Nunca
ouvira um grito como o que ressoou agora; nunca vira nos olhos de
ninguém uma esperança tão angustiada. E olhe que já vi muita
gente sofrer e morrer.
Rhodan
ergueu-se. Com o queixo caído e as mãos disformes entrelaçadas sob
o queixo, parecia querer entrar na tela.
— Onde...
onde poderei encontrá-lo?
— Assim
que tivermos concluído nossa palestra, o regente lhe fornecerá os
dados. Estou conferindo os dados fornecidos pelos acônidas.
Controle-se e preste atenção! Não foi nenhuma traição. Só os
acônidas poderiam saber onde fica o sol geminado de Aptut.
— Tanto
faz — gritou. — As coordenadas estão certas? Não estou
interessado em saber onde você as arranjou. São corretas? Responda
logo, homem!
Voltou a
comportar-se como um louco furioso e eu fiquei ainda mais
intranqüilo.
— São
corretas. O regente está realizando uma interpretação dupla dos
dados acônidas, uma em termos terranos e outra destinada a mim.
— Quanto
tempo demorará? Face à nossa aliança, exijo que você me dê apoio
com todas as unidades de sua frota. Quando chegarão os dados?
Decolarei imediatamente.
— Se não
quiser fazer o ataque sozinho terá de aguardar notícias minhas —
respondi em tom mais áspero do que pretendera.
Rhodan
começou a esbravejar de novo. Nunca conseguiria esquecer a expressão
traiçoeira de seu olhar. Finalmente chegou mesmo a sorrir e fechou
os olhos.
— Não
estou muito bonito, estou?
— No
momento isso não importa. Precisarei de aproximadamente vinte e
quatro horas, para colocar em movimento a frota arcônida. Com a
melhor boa vontade não poderei fazê-lo antes. Até lá você terá
recebido as coordenadas de um local de encontro. Qual das espaçonaves
será sua nave capitania?
— A
Ironduke. Exijo que você compareça a bordo. Quero mantê-lo sob
controle.
Soltou uma
risada de escárnio. Muito emocionado, desliguei depois de voltar a
afirmar por várias vezes que os dados eram corretos.
No fim
chegou a ameaçar-me, abertamente, de destruir sem a menor
contemplação “meu
Estado podre com seu rei dos robôs adoentado”,
caso eu tencionasse enganá-lo.
Soltei um
gemido e cobri o rosto com as mãos. O robô-médico não tardou a
aparecer. Afastei-o com um gesto enérgico. Olhei para outra tela.
— Peço
desculpas pelo que ele fez, sir — disse Mercant, em tom deprimido.
— Acho que a esta hora o senhor já começa a compreender o que
está acontecendo na Terra. O senhor teve até um tratamento muito
suave...
Interrompi-o
com um gesto e fechei o uniforme.
— Esqueça,
Mercant.
— Posso
fazer uma sugestão?
Limitei-me
a confirmar com um aceno de cabeça. Naquele momento não encontrava
palavras para exprimir o que sentia. Como era possível que um homem
sofresse uma modificação tão profunda?
— Uma
vez que o senhor informou Rhodan sobre o planeta Trakarat, não
poderemos transmitir-lhe os dados. Desconfiaria imediatamente.
Regressaremos à Terra e aguardaremos a chegada dos dados oficiais.
Concorda?
Voltei a
acenar com a cabeça. Bell entrou na palestra.
— Atlan,
o senhor realmente está disposto a ficar a bordo da Ironduke? Ele o
ofenderá.
— Não
importa. Não quero que ninguém diga que abandonei um amigo numa
situação difícil. Apenas peço que os oficiais e tripulantes do
couraçado espacial sejam esclarecidos.
— Esclarecidos
a respeito de quê?
— Como
direi? Diga-lhes que não devem intervir em eventuais discussões
entre mim e Rhodan. Se o fizerem, o azar será deles. Saberei cuidar
de mim. Tem mais alguma coisa a dizer? Não disponho de muito tempo.
— Não;
é só. Por enquanto, muito obrigado! Não se esqueça das
coordenadas do ponto de encontro. Nossa declaração de guerra aos
antis será transmitida por uma mensagem de rádio em intergaláctico.
Dali a dez
minutos ouvi o trovejar dos propulsores da nave terrana. A Atlântida,
que levava o nome do continente terrano por mim colonizado, rompeu a
atmosfera do planeta Saós e desapareceu no espaço.
Decolei
pouco depois. Esforcei-me em vão para não pensar em Perry Rhodan.
Constantemente via seu rosto desfigurado à minha frente.
No momento
em que o dispositivo robotizado realizou a transição e a dor da
desmaterialização fustigou meu corpo, lembrei-me de que Mercant
ainda não me dera a arma mais recente. Bem, depois cuidaria disso.
23
de outubro de 2.103, tempo terrano. Fazia vinte horas que as
primeiras unidades da frota arcônida robotizada haviam saído do
hiperespaço. Naquele momento as diversas frotas entravam em formação
no ponto de encontro denominado Destination, cujo centro era marcado
por um supergigante azul sem sistema planetário.
Era uma
estrela que ficava na periferia do chamado setor do Agulheiro.
Localizava-se a apenas 418,253.678 anos-luz do sol geminado vermelho
chamado Aptut.
O vôo
para a área de operações foi realizado sob o maior sigilo. Nenhum
oficial ou funcionário arcônida havia sido informado sobre minha
missão.
Fora
difícil introduzir a programação correspondente no robô-regente.
Não podia recorrer ao auxílio de quem quer que fosse. Por isso
vi-me obrigado a passar dia e noite na sala de comando, a fim de
bater as teclas que introduzissem as respectivas ordens na memória
positrônica.
Em virtude
disso, a decolagem de minha frota sofrerá um atraso, e dali
resultará a necessidade de transmitir várias mensagens à Terra.
Evidentemente Rhodan ficara furioso.
A Frota
Solar, comandada por ele, mergulhara no hiperespaço, assim que o
regente transmitira as coordenadas do ponto de encontro. Foi por isso
que, quando meus grupos de cruzadores chegaram ao local, os terranos
já haviam entrado em formação.
Tive de
esperar até o último instante. Ao que parecia, Rhodan não
compreendia os problemas políticos com que me defrontava no meu
império.
Naturalmente
as decolagens em massa não deixaram de ser notadas. Esquivei-me às
perguntas dos membros desconfiados do Grande Conselho, aludindo
vagamente às manobras da frota. Os almirantes receberam respostas
ásperas, proferidas em tom autoritário, nas quais fiz referência à
incapacidade dos oficiais e tripulantes.
Isso me
rendera novas inimizades. De qualquer maneira, não poderia assumir o
risco de dizer uma palavra que fosse sobre a operação Destination.
Os espiões
dos sacerdotes do culto de Baalol andavam por toda parte. Poderia
confiar no robô gigante, mas não nos descendentes longínquos dos
arcônidas, que haviam construído aquele gigantesco centro de
computação. Isso me deixava bastante deprimido.
Vinte
minutos depois da decolagem das unidades leves decolei, também, com
as naves pesadas. Antes disso tive que pedir a Reginald Bell, numa
mensagem condensada ultra-secreta, que impedisse as chamadas de
Rhodan, que de tão impaciente parecia não perceber que as
constantes indagações poderiam trair-nos.
Bell
conseguiu fazer com que Rhodan falasse diante de microfones
desligados. Dessa forma consegui fazer meus preparativos sem que
ninguém me perturbasse.
A tarefa
de, em menos de cinqüenta horas, pôr em movimento uma frota de dez
mil espaçonaves, era bastante difícil para um único programador.
Não dispunha de comandantes que pudessem ser informados numa
conferência em que se examinassem os planos. Tinha muitos robôs a
meu serviço. Estes eram capazes de desenvolver um raciocínio
autônomo e tomar decisões acertadas, desde que neles tivesse sido
introduzida uma programação adequada. Se não dispusesse dos
elementos de concentração e de distribuição do
computador-regente, a tarefa teria sido impossível. O grande centro
de computação fornecia instruções às tripulações robotizadas
de dez mil naves ao mesmo tempo.
Escolhera
a Teparo, uma supernave de mil e quinhentos metros de diâmetro, para
servir de capitania. Era a única criatura viva a bordo do gigante.
Depois que entrei no gigantesco veículo espacial e vi um grupo após
o outro desaparecer no céu azul que cobria Árcon III, compreendi o
quanto era paradoxal a minha situação.
Dez mil
espaçonaves poderosas e modernas, e um único soldado! Seria loucura
esperar que os homens de meu venerando povo ainda conseguiriam reunir
energias para repetir os grandes feitos dos antepassados.
No curso
dos últimos decênios tivera de recorrer em escala cada vez maior às
tripulações robotizadas. A decadência cada vez mais acentuada dos
arcônidas frustrara todas as minhas esperanças.
As leis
naturais são implacáveis. Os acônidas, povo do qual descendemos,
mantiveram a saúde e o arrojo. Nós, que descendíamos de antigos
colonizadores de Ácon, havíamos sucumbido ao processo de adaptação
ao ambiente. Há muito tempo os cientistas dos povos astronautas
sabiam que os emigrantes interestelares fatalmente perdiam no curso
dos milênios a capacidade técnica e a maturidade mental que haviam
trazido de seus mundos.
Sacudido
por amargas sensações, entrei em transição com meus três mil
couraçados e supercouraçados.
Apesar das
tristes experiências que fizera com os povos submetidos aos
arcônidas, destaquei três cruzadores tripulados por seres vivos
para acompanhar o grupo. As tripulações eram formadas por zalitas.
Depois do primeiro hipersalto, realizado a uma distância de apenas
quatro mil anos-luz, tive de mandar para casa os três comandantes.
Como de
costume, haviam realizado manobras erradas, considerando
“desprezíveis” as últimas casas decimais dos cálculos de
transição. Em virtude disso haviam sofrido desvios de cem anos-luz!
O
comandante Felicete comunicara-me pelo hiper-rádio que um dos
reatores que alimentavam o sistema de propulsão estava com defeito.
Disse que se esforçaria para reparar o aparelhamento automático
sincronizado principal dos termostatos do sistema de refrigeração
do ambiente... Esperei duas horas. Depois disso os termostatos foram
substituídos, mas os refrigeradores continuavam a esquentar demais.
Nem tiveram a idéia de verificar as bombas de circulação. Em vez
disso os termostatos voltaram a ser retirados e recolocados.
Era um
exemplo de falta de preparo e preguiça mental. Com uma equipe dessas
não poderia arriscar nenhum ataque. As três naves regressaram antes
que as minhas entrassem em transição.
Os
engenheiros terranos certamente removeriam o defeito insignificante
numa questão de minutos.
Vinte e
quatro horas depois da chegada dos meus grupos de unidades ligeiras,
finalmente cheguei com as unidades pesadas no setor de encontro
denominado Destination.
Rhodan
reunira um contingente de oito mil naves, no qual se incluíam todas
as espaçonaves pesadas de que dispunha.
Quando vi
aquela armada, comecei a recear pela sorte do império. Aos poucos
comecei a compreender do que eram capazes seus novos estaleiros
lunares. A quantidade de belonaves ainda não me preocupava. Por
enquanto poderia enfrentá-las com uma superioridade numérica de
doze para um.
Mas se
pensava nos homens que serviam naquelas oito mil unidades, logo
desanimava. Eram os melhores soldados da Galáxia. Cada um era uma
sumidade, um especialista dotado de formação tão ampla que poderia
ser utilizado em três ou quatro postos diferentes.
Eram
homens que numa situação difícil não perdiam tempo para esperar
ordens. Sempre sabiam o que fazer. Talvez não tivesse inveja de
Perry Rhodan, mas o fato é que me sentiria feliz se pudesse contar
com os combatentes de que ele dispunha.
Ainda não
superara a dor da rematerialização quando Rhodan chamou. Atirou-me
insultos grosseiros por causa do atraso.
Antes que
pudesse proferir outras ameaças, eu o interrompi. As coisas não
poderiam continuar assim.
*
* *
A luz
verde da escotilha interna da eclusa acendeu-se. Esperei mais alguns
segundos, até que cessasse o chiado do ar que encheu o vácuo.
Comprimi um botão e a porta blindada abriu-se.
O
destróier terrano fora atingido por um raio de tração que o
conduzira para o hangar XXVII da Teparo.
Rhodan não
perdera tempo. Uma vez que o destróier já chegara, só poderia ter
saído do hangar-eclusa da Ironduke, instantes depois de minha nave
mergulhar no hiperespaço.
Mais uma
vez fiquei só. Mandei que os robôs que vigiavam a eclusa voltassem.
Dali em diante meu aparelho de hipercomando me manteria em contato
com as estações re transmissoras.
Um corpo
prateado esguio com a proa negra descansava sobre os trilhos largos
do campo magnético. Era um barco espacial, destinado a combates a
pouca distância. Os canhões de impulso montados em seu interior
impunham respeito. Já aprendera por experiência própria o enorme
perigo que esses barcos pequenos podiam representar até mesmo para
as naves de grandes dimensões.
Aproximei-me,
procurando escapar à onda de calor que saía da popa. Uma escotilha
estreita abriu-se atrás da carlinga transparente. Não me surpreendi
ao ver o rosto de Reginald Bell na abertura.
— Bem-vindo
ao setor de formação Destination, Atlan. Tudo pronto?
Comprimi o
corpo contra o envoltório polido e dei um salto para a frente. Uma
mão robusta puxou-me para dentro da eclusa apertada.
— O
círculo de bocais está bem quente, não é? Bem, realizamos uma
manobra de frenagem um tanto amalucada. Não trouxe bagagem?
— Nunca
usei bagagem, nem quando saí para lutar com Rhodan. Quem é o
piloto?
— O
Tenente Brazo Alkher. O senhor já o conhece.
Conforme
ouvira falar, Brazo desempenhara, juntamente com outro oficial jovem,
um papel importante na obtenção dos ativadores celulares.
Esgueirei-me
junto a Bell, que voltou a fechar a eclusa. Mais adiante, pouco atrás
da sala de conversão com o fecho do canhão energético, um homem
alto levantou-se do assento do piloto.
Brazo
Alkher não mudara nem um pouco. Fez uma continência impecável. Ao
que parecia, teve de fazer um grande esforço para fitar meus olhos.
Quando, seguindo o costume terrano, estendi-lhe a mão, mostrou-se
embaraçado.
— Como
vai, sir? — perguntou em tom apressado.
Sorri para
ele.
— Conforme
permitem as circunstâncias, Brazo. Quer dizer que você me levará à
Ironduke?
— Sim,
senhor. Mas eu me recuso, se é que permite que use esta palavra, a
fazer outro vôo tão louco.
Tive minha
curiosidade aguçada. Bell apontou para a poltrona do manipulador dos
instrumentos de localização, que ficava atrás dele, à direita. A
cabina era pequena e apertada.
— O que
quer dizer? Arriscou demais?
— Tivemos
de arriscar — resmungou Bell. — Perry achou que estávamos
andando muito devagar. Fomos lançados para fora da eclusa antes que
a escotilha interna se fechasse. Disparou-nos do tubo de lançamento
com uma força de pelo menos 100 G. O neutralizador ainda não estava
funcionando a toda potência. Ficamos expostos a cerca de 20 G. No
momento eu me encontrava de pé, junto à escotilha, sem desconfiar
de nada. Acho que a esta hora minhas costas estão cobertas de sangue
e carne inchada. Mas está tudo bem. Não se preocupe.
Tive a
impressão de que Bell ainda não dissera tudo. Brazo Alkher, que era
um oficial muito digno da Frota Solar, parecia indignado.
Ainda não
trazia na cabeça nenhuma idéia relativa a um motim, mas quando um
homem do seu tipo começa a refletir sobre se determinada ordem é
sensata ou insensata, a situação começa a tornar-se crítica.
Estava na hora de falar seriamente com Rhodan. Afinal, ele não
mandava em mim, e, além disso, podia confiar em nossa velha amizade.
Enquanto
Brazo manipulava os controles, observei-o. Seu rosto suave de rapaz
alterou-se. Os olhos pareciam despertos e atentos.
O
equipamento de absorção da aceleração e as telas das câmaras de
reação entraram em funcionamento.
— Tudo
preparado para a manobra de catapultagem, sir.
Levantei o
braço esquerdo, aproximei o microfone da boca e transmiti a ordem
correspondente à estação central de comando de minha nave
capitania. O grande robô estacionário confirmou o recebimento.
Ouvimos o
chiado das turbo bombas. A pressão externa diminuía rapidamente.
Alguns segundos depois, as luzes verdes se acenderam. A tampa do
tubo, embutida na parede blindada externa, foi recuando lentamente.
Vi um setor do espaço.
Aqui, nas
proximidades do centro da Galáxia, a aglomeração de estrelas era
ainda mais compacta que no grupo estelar M-13. Vi diante de mim uma
profusão de pontos luminosos de várias cores, que, a pouca
distância do lugar em que me encontrava, se adensavam num todo
indissolúvel.
— Comandante
chamando Sua Majestade. Nave capitania da frota terrana aproxima-se a
alta velocidade. Instruções...
Bell
cerrou os dentes, fazendo-os ranger fortemente. Franzi a testa e
olhei para Brazo, que parecia esforçar-se para não dar sinais do
nervosismo que se apoderara dele.
— Que
idiotice! — disse Bell em tom áspero. Suas mãos seguravam
fortemente a braçadeira da poltrona. — Ele não desiste mesmo.
Sabe lá o que terei de ouvir daqui a pouco? Atlan, quero dar-lhe um
bom conselho. Fique aqui; desista de ir para bordo da Ironduke. Eu o
conheço! Não vamos fingir um para o outro. Por mais que se esforce
para ser tolerante e condescendente, o senhor perderá o autocontrole
o mais tardar com a quinta ofensa que lhe for atirada.
Estava
falando sério; eu sentia! Acontece que eu tomara minha decisão.
Desejava e precisava ver o homem que dentro de poucos meses se
transformara num déspota. Não saberia dizer exatamente por que
fazia tanta questão disso. Devia ser uma questão de sentimento.
— Muito
obrigado. Irei.
— O
senhor arrisca mais do que pensa — mais uma vez Bell tentava fazer
com que eu mudasse de idéia. — Ao que supomos, o senhor pretende
valer-se da sua posição de soberano. Talvez acredite que conseguirá
exercer certa pressão sobre Perry. No entanto, é bom que não se
esqueça que a esta hora ele já sabe onde fica Trakarat. O senhor
não deveria ter revelado tão cedo a posição galáctica do
planeta. Com isso largou um trunfo.
— É
verdade — confirmei com a voz tranqüila. — Larguei-o para
favorecer o senhor, meu caro. Queria tranqüilizar Perry e desviar
sua atenção. Provavelmente consegui.
— Pagou
um preço muito elevado por isso, sir — disse Brazo, em voz baixa.
— Permite que eu decole?
Confirmei
com um aceno de cabeça e reclinei-me na poltrona. O mecanismo de
absorção de pressão começou a uivar. Dali a alguns segundos o
robô-comandante emitiu o impulso que provocaria a catapultagem.
O campo
magnético arrastou a máquina esguia pelos trilhos.
Ficamos
apenas expostos a pressões insignificantes. O dispositivo automático
pôs em movimento os propulsores. Os mostra-dores descreveram
movimentos pendulares em cima das escalas. O destróier desenvolveu
uma aceleração muito elevada ao sair para o vácuo interestelar.
Os
desenhos angulosos, projetados sobre as telas de controle do sistema
de localização de matéria, executaram uma dança louca. Havia
milhares de naves nas imediações. Não se tinha como realizar uma
interpretação precisa. Brazo guiou-se pelos impulsos vetores
transmitidos pela nave capitania. Dali a três minutos o sistema de
telepilotagem cuidou do destróier. Saíramos do rumo por um décimo
de grau, no setor vertical vermelho.
Quando o
mecanismo propulsor começou a rugir, Bell pôs-se a praguejar. O
veículo espacial foi arrancado da rota pelos bocais de jato,
colocados em ângulo agudo, e apanhado com tamanha violência pelo
raio de tração que o mecanismo de absorção de aceleração mal
conseguiu neutralizar as energias liberadas pela inércia. O que
faziam conosco era uma irresponsabilidade.
Num
movimento rápido apertei a chave do fecho instantâneo de meu traje
espacial arcônida e ativei o campo defensivo individual.
Aproximamo-nos
numa velocidade que aumentava acima dos limites permitidos da nave
capitania, cujos contornos ficavam cada vez mais nítidos. A
Ironduke, que era a nave mais moderna da Frota Solar, encontrava-se a
cerca de quatro milhões de quilômetros da Teparo.
A manobra
de frenagem lembrava o primeiro exercício de vôo individual de um
astronauta principiante. O destróier girou rapidamente em torno de
seu eixo curto, a popa foi atirada violentamente para um lado e, com
a mesma violência, voltou à posição primitiva. Pouco antes do
campo de repulsão ficamos expostos a cerca de 15 G. Os cintos de
segurança cortavam dolorosamente a carne de nossos corpos atirados
para a frente. A elasticidade do material era bastante reduzida. Com
uma manobra dessas, tal elasticidade tornou-se por demais sensível.
Fomos, então, atirados violentamente para dentro das poltronas assim
que a pressão cessou.
Bell
continuava a praguejar. Quanto a mim, fiquei quieto, embora não
compreendesse por que os homens que manipulavam o equipamento de
telepilotagem se deixavam levar a executar manobras desse tipo.
Mesmo que
tivessem recebido ordens de levar-nos para bordo o mais cedo
possível, não haveria necessidade de realizar manobras tão
violentas. Só mais tarde fiquei sabendo que Rhodan em pessoa
manipulara os controles.
E esse
homem já perdera todo o senso!
A viagem
tresloucada terminou numa das eclusas do couraçado. Quando saí do
barco espacial sentia dores por todo o corpo.
Meus
amigos já me aguardavam. O Major Jefe Claudrin, comandante da
Ironduke, também se encontrava presente. Ninguém deixaria de notar
seu corpo gigantesco. Ao lado daquele homem nascido em Epsal, Allan
D. Mercant parecia uma criança.
Cumprimentei-os
em palavras rápidas. Já sabiam de tudo.
John
Marshall limitou-se a acenar-me. Gucky, a inteligência extraterrena
dotada de espantosas faculdades parapsicológicas, mantinha-se
tristemente sentado num canto. Via-se um brilho apagado nos
gigantescos olhos do rato-castor.
Aproximei-me
dele e fiquei de cócoras. Nessa posição podia fitar melhor aquele
rosto de camundongo.
— Como
vai, pequeno?
Gucky
passou a mão delicada pelo nariz. Ouvi um suspiro profundo.
— Nem
queira saber! Vou mal — piou. — Perry não gosta mais de mim. Já
imaginou?
— O que
é isso?
Gucky
acenou fortemente com a cabeça. O brilho dos olhos tornou-se mais
intenso.
— Pois é
o que acabo de dizer. Não gosta mais de mim. Faz algumas semanas que
não acaricia meu pêlo. E olhe que ele sabe quanto gosto disso! Por
aqui todo mundo ficou maluco. Será que você pode fazer alguma coisa
por nós?
Segurei-o
por baixo dos braços e levantei-o. Tinha um pouco mais de um metro e
era muito leve. Aquele ser pequeno sentia-se desesperado.
— Faremos
o possível, Gucky. O que acha da situação?
— Estou
com medo — confessou. — Não é por mim, mas por Perry. Não
consigo penetrar em sua mente. Colocou um tremendo bloqueio
monolítico. Quem dera que ele o abrisse ao menos uma vez. Se isso
acontecesse, talvez poderíamos ajudá-lo. Pelo que dizem os médicos,
suas freqüências individuais se deslocaram. Ao que tudo indica, é
este o motivo por que o ativador celular não produz os efeitos
programados.
Será que
você poderia convencer Perry de que deve relaxar um pouco e deixar
que eu trabalhe? Não pretendo apoderar-me de nenhum dos seus
pensamentos.
Olhei para
trás. Os oficiais mantiveram-se em silêncio. Gucky dissera tudo o
que havia a dizer sobre isso.
— O
chefe está à sua espera, sir — disse a voz retumbante de
Claudrin.
Como de
costume, Jefe trazia consigo um pequeno gerador de força
gravitacional, que lhe proporcionava a gravitação de seu mundo
natal. Para ele, uma gravitação de 2,1G era normal.
Coloquei
Gucky no chão e acariciei o pêlo sedoso de sua nuca. Com isso
voltou a rir. As coisas deveriam estar muito ruins, pois esse
rato-castor, geralmente tão animado, tinha se transformado numa
criatura apática. O que estaria acontecendo no cérebro de Rhodan?
Tirei o
traje espacial e pedi a Brazo Alkher que me desse a braçadeira de
imperador. Quando comecei a caminhar em direção ao elevador central
da nave, os terranos fizeram continência.
Mercant
caminhou a meu lado. Cochichou apressadamente ao meu ouvido:
— Sir,
peço-lhe que não o deixe perceber nada quando estiver olhando para
ele. No momento tem 2,38 m de altura e a largura dos ombros aumentou
na mesma proporção. Em comparação, o aumento do peso é mínimo.
O tecido cujo volume aumenta com a cisão celular explosiva torna-se
menos consistente. À medida que se dilata, torna-se mais leve. Perry
sabe disso, mas sua imaginação doentia faz com que acredite que o
aumento de tamanho trouxe consigo um aumento correspondente de força.
Constantemente procura provar suas forças. Quero pedir-lhe um favor.
Quando o cumprimentar com um aperto de mão, dobre o corpo e faça
aparecer uma expressão de dor no rosto. Na verdade, Rhodan está
mais fraco do que nunca. Ficará à espreita da sua reação. É a
única expressão que se pode usar para designar a atitude
desconfiada de observador em que se mantém.
— Vejo
que o senhor continua a ser um excelente psicólogo, Mercant.
— Ainda
bem — respondeu aquele homem inteligente em tom amargo. — Afinal,
o senhor conhece os seres humanos ainda melhor que eu. Pouco importa
o que Rhodan diga ou faça. Em todas as situações, o senhor deve
imaginar que é um psicoterapeuta. Dessa forma será mais fácil
suportá-lo.
Tomei uma
decisão firme de que veria os atos de Perry não com os olhos do
estadista, mas com os do amigo. Se considerasse suas atitudes sob o
ponto de vista do imperador, não poderia deixar de tomar minhas
providências. Mas como amigo poderia enganar-me a mim mesmo,
procurando convencer-me de que esta ou aquela palavra fora proferida
numa intenção diferente.
Quando
subíamos pelo elevador antigravitacional, os berros de Rhodan
começaram a sair dos alto-falantes do sistema de chamada geral.
Exigiu que
os traidores dorminhocos se apressassem, fazendo questão de dizer
que se dirigia principalmente ao cacique degenerado dos arcônidas!
As
palavras com que me contemplava eram bem fortes. Naquele momento
entendi como seria difícil manter a atitude do amigo que compreende
tudo...
Rhodan
esperou-me na sala de comando do couraçado. Sua atitude era a de um
tirano que tem o poder de decidir sobre a vida e a morte dos outros.
Nos olhos de lobo lia-se muita coisa, menos qualquer expressão de
calor humano.
O olhar
era penetrante, traiçoeiro e desconfiado. Será que ainda era o
mesmo que já fora o grande homem da Terra?
Seu corpo
tinha dimensões colossais. Um uniforme especial, de tecido de fibra
artificial muito elástico, fora fabricado para Rhodan. O material
cedia até o ponto de ruptura, mas via-se que o traje já estava
apertado nos ombros.
Um gigante
de 2,38 m cambaleou em minha direção. Aquele homem enfermo perdera
toda a esportividade dos movimentos.
Suas mãos
se haviam transformado em patas inchadas. Ao que parecia, não tinham
mais o menor sentimento. Poucos minutos antes, Mercant me dissera que
Rhodan guiara pessoalmente a manobra de ingresso do destróier na
eclusa da nave.
Agora, que
via essas mãos bem de perto, já não me sentia surpreso com as
perigosas manobras realizadas pelas mesmas. Estava plenamente
disposto a perdoá-lo por isso. Talvez suas intenções não tivessem
sido más. Apenas sua obstinação não lhe permitia confessar que
estava incapacitado de fazer essas coisas na prática. Por que não
se restringia às funções de comando? Por que não procurava
controlar-se e depositava todas as esperanças na missão que
tínhamos pela frente, e que muito provavelmente lhe traria auxílio?
Cheguei à
conclusão de que os antis que se encontravam em Trakarat refletiriam
bastante diante da alternativa de serem destruídos sob o bombardeio
atômico ou salvar o terrano que tanto haviam prejudicado.
Continuou
a caminhar desajeitadamente em minha direção. Senti-me apavorado
diante do aspecto terrível daqueles olhos. Naquele rosto desfigurado
mal se descobriam vestígios dos traços tão conhecidos.
Quando se
encontrava à minha frente, tive de inclinar a cabeça para trás.
Sua voz não mudara. Talvez estivesse um pouco mais rouca. Mas, ao
que parecia, o processo de divisão celular ainda não afetara
gravemente os órgãos vocais.
Sorri para
ele. Procurei exprimir nesse sorriso tudo que sentia por aquele
homem.
— É bom
que você saiba que a bordo da minha nave capitania reina disciplina,
arcônida — gritou.
— O quê?
— Por
aqui reina disciplina — repetiu em tom ainda mais áspero.
O brilho
da cólera misturada com a loucura começou a surgir em seus olhos.
Ao que parecia perdia o autocontrole com muita facilidade.
— Não
sei se o compreendo, amigo.
— Aqui
não se costuma rir — gritou. Perdi a vontade de rir. Olhei em
torno, perplexo. Os tripulantes da sala de comando mantinham-se em
posição rígida nos seus postos. Até mesmo o comandante, Bell e
Mercant permaneceram imóveis.
Senti-me
apavorado. Rhodan devia ter enlouquecido. Sem que quisesse, fitei-o
com uma expressão irônica. As reações do subconsciente derrubaram
minhas boas intenções muito mais depressa do que eu imaginara.
— Eu não
estava rindo; apenas sorri de alegria. Será que você não imagina
que me sinto alegre por revê-lo depois de tanto tempo?

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