terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-116 - Duelo Sob o Sol Geminado - K. H. Scheer [Parte 1]


Autor
K. H. SCHEER



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN






O MONSTRO ESTÁ EM XEQUE!


Thomas Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan como Administrador do Império Solar. Ninguém, nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan ou os mutantes, desconfia de que o governo vem sendo exercido por um usurpador.
Se o comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era prisioneiro dos antis.
Thomas Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver, mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do abismo...
Mas surge uma pedra em seu caminho. E essa pedra simboliza as ações de Atlan...









= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

AtlanO imperador que sentia uma grave suspeita.

Thomas CardifUm monstro com figura de gente.

Reginald Bell e Allan D. MercantQue pretendem “derrubar” o chefe.

GuckyUm rato-castor que sabe até chorar.

Perry RhodanPrisioneiro dos antis.

Está ficando quente, majestade!
Olhei para o sol amarelo do sistema Saós. Essa estrela insignificante acabara de surgir no horizonte. Realmente iria fazer calor.
O dispositivo automático de meu traje espacial fez com que os anteparos que protegiam contra a luz ultravioleta cobrissem o visor do capacete. De repente os montões de destroços que me cercavam já não pareciam tão desolados, pois seus contornos começaram a apagar-se. Vez por outra tinha a impressão de notar um movimento, mas aquilo não passava de ilusão dos sentidos.
Depois que as espaçonaves terranas e a frota arcônida haviam penetrado no envoltório atmosférico de Saós, o segundo planeta daquele sol catalogado, a vida deixara de existir por lá.
Ocupáramos uma base dos antis e na oportunidade colhemos uma série de informações das quais por enquanto não sabíamos para que serviriam. Os membros do culto de Baalol, que conseguimos aprisionar, não puderam trazer-nos qualquer esclarecimento, pois não sabiam onde ficava o lendário planeta Trakarat.
As indicações mais valiosas nos haviam sido fornecidas por dois mercadores galácticos. No momento estes se encontravam na Terra, onde se procurava verificar a exatidão de suas declarações. Ao que parecia haviam falado apenas a verdade. Provavelmente Trakarat era o mundo natal dos antis.
Não demore aqui fora, majestade.
Confirmei com um aceno de cabeça. A central robotizada de análise planetária reconhecera os perigos. Naquele momento, eu usava um traje de bordo leve, cujo sistema de condicionamento de ar não fora feito para suportar cargas elevadas.
Entrarei dentro de alguns minutos. Existem resultados positivos das operações de localização?
Por enquanto não, majestade.
Meu relógio indicava a décima hora matutina, tempo padrão intergaláctico. Os terranos não estavam sendo pontuais.
Mais uma vez mergulhei em reflexões. Milhares de coisas relativamente pouco perigosas, que podiam ser desculpadas por meio de milhares de alternativas, subitamente haviam perdido a importância, depois que meu amigo Perry Rhodan adoecera.
O fato de estar atrasado bastava para deixar-me nervoso. Há alguns meses atrás uma ninharia como esta não me teria preocupado. Mas agora já me encontrava próximo ao pânico, apenas porque já passavam dez minutos da hora combinada.
Contrariado, sacudi a cabeça, batendo com as têmporas contra o alto-falante embutido no capacete.
Um fato insignificante num trajeto de trinta e três mil anos-luz — informou o setor lógico de minha mente.
Comecei a aborrecer-me comigo mesmo. Era claro que quinze minutos representavam um fator pouco importante. Mesmo que a delegação terrana chegasse com dez horas de atraso não haveria motivo para discussão.
O sol que constava do catálogo sob a designação 41-B-1847-ArqH mergulhou os cumes das montanhas mais próximas numa luminosidade vermelho-escura. Parecia que alguém derramara sangue sobre os picos.
Sangue! Senti um calafrio, muito embora os mostradores do sistema de condicionamento de ar indicassem uma temperatura externa de 21°67’. Saós era um mundo coberto de desertos, cuja atmosfera não era respirável. Era um planeta pertencente ao Grande Império dos arcônidas. Por isso estava submetido ao meu governo.
As pessoas que se encontravam em meu mundo, Árcon I, não sabiam para onde eu tinha voado no cruzador ligeiro robotizado. Estava interessado apenas em trocar idéias com os líderes terranos.
As notícias sobre o estado de saúde de Rhodan eram inquietantes. Não havia dúvida de que a cisão celular explosiva era provocada pelo ativador celular incrustado em seu corpo.
Não havia possibilidade de remover o perigoso aparelho pelos meios cirúrgicos. Não conseguia compreender por que o ativador de Rhodan provocava esse efeito colateral, pois possuía um aparelho idêntico, que durante dez mil anos terranos me havia proporcionado a saúde e o vigor juvenil.
Será que houve algum erro na programação do ativador? Haveria alguma divergência entre os dados em que se baseou o ajustamento individual e as vibrações orgânicas de Rhodan?
Procurei verificar. Sem que o Serviço de Segurança Solar soubesse, dirigi-me ao planeta artificial Peregrino. Pretendia indagar o Ser coletivo a este respeito. Acontece que não consegui falar com a inteligência espiritualizada conhecida como Ele ou Aquilo.
Por isso tive de iniciar a longa viagem de volta sem que estivesse em condições de ajudar Rhodan.
Estava esquentando. O sol subiu acima das cordilheiras e, com sua luz forte, inundou o terreno acidentado. De repente as ruínas da base dos antis pareciam ainda mais desoladas. Aqui os adoradores de ídolos do culto de Baalol haviam tentado conduzir os terranos para uma pista falsa. No entanto, dois jovens oficiais conseguiram desmascarar o jogo fraudulento.
Saós não era o mundo central dos antis. Além disso, não demonstrei temor ao ver as manobras dos terranos. Entretanto, tais manobras eram um perigo sério à minha posição de imperador do reino estelar. Descobri, também, que os antis desejavam provocar um confronto militar entre Árcon e a Terra.
Acontece que nem por isso ficava esclarecido o motivo por que meu amigo se ia transformando aos poucos num monstro. O chefe de segurança do Império Solar, Allan D. Mercant, mandou informar-me de que a divisão celular explosiva causava um crescimento incontrolável. Rhodan cresceria mais ou menos um centímetro por dia.
Fiz meus cálculos. Cinqüenta e um dias já se haviam passado desde nosso último encontro, realizado através da televisão. Naquele momento era 20 de outubro de 2.103 na Terra.
Como seria naquele momento aquele terrano ágil que unira a Humanidade e lhe trouxera a paz? Cinqüenta e um dias representavam um crescimento de igual número de centímetros em altura e... largura. Perry devia estar transformado num colosso.
Com a mão, protegi os olhos ofuscados e fui andando.
O amplo vale em que ficava o estabelecimento dos antis não possuía encantos suficientes para levar-me a demorar mais. Além disso, no estado de ânimo em que me encontrava, não seria bom refletir demais sobre problemas insolúveis.
Não estava em condições de usar o único trunfo que conseguira no curso desses estranhos acontecimentos. Ainda não havia recebido a interpretação final dos dados, realizada pelo computador-regente de Árcon.
Desci lentamente pela encosta íngreme. Tive de cuidar-me para não cair. A gravitação de Saós era de 1,3 G. Era um mundo desagradável. Por isso nunca fora ocupado por colonos arcônidas.
Meu cruzador estava pousado a cem metros do lugar em que me encontrava. Eu era a única criatura viva a bordo. Mas a tripulação de robôs era tão confiável quanto uma tripulação arcônida, talvez mais.
A decadência física e mental dos arcônidas do Grande Império era inegável. Na minha cabeça, habitavam idéias de que os humanos nem desconfiavam. Se não fosse a doença de Rhodan, provavelmente há algumas semanas teria iniciado certas negociações.
Minha vida de soberano absoluto era sombria. Dispunha de uma frota gigantesca, de milhares de mundos coloniais e de alguns milhões de robôs de combate de todos os tipos, mas não tinha verdadeiros amigos nem soldados capazes, que me permitissem tripular as espaçonaves.
As condições reinantes no império estelar eram caóticas. Era muito difícil abafar as sublevações e as revoltas, contando apenas com a frota robotizada, pois nunca conseguia controlar as medidas da central de comando, com a precisão que seria de desejar. Por isso sempre surgiam medidas duras e mal-entendidos, que faziam aumentar ainda mais o ressentimento dos colonos. Há algumas semanas sabia que minha situação se tornara insustentável. Precisava dos terranos comandados por Rhodan. Esse homem talvez fosse capaz de salvar o império cambaleante, se colocasse em ação seus homens muito ativos e bem treinados. Se dispusesse de pessoas desse tipo, nunca teria pensado em capitular. Mas nas condições em que nos encontrávamos, achei que tal atitude melhor correspondia aos interesses dos impérios.
Crest, um cientista falecido há anos, vivia dizendo que os terranos eram os herdeiros naturais do Império de Árcon. Agora chegara a hora em que deveriam assumir essa herança — ou melhor, teria chegado, se não tivesse havido a súbita modificação na personalidade de Perry.
Conhecia os homens há milênios. Rira e sofrerá com eles, e partilhara seus triunfos e suas derrotas. Sua grandeza e arrojo fizeram com que eu mesmo crescesse.
Mas também sabia que os habitantes do terceiro planeta do sistema solar às vezes desanimam e resignam-se muito depressa... Sintomas como estes surgiam principalmente nos tempos em que grassavam doenças graves.
Rhodan, do qual sempre pensara que fosse um homem dotado de senso de disciplina e força de vontade, caíra de um extremo ao outro.
Antes do acidente com o ativador celular fora um homem tolerante, que sabia raciocinar com clareza. Mas agora, pouco depois que o processo mórbido da divisão celular tivera início, transformara-se num ranzinza e numa personalidade colérica, que apresentava traços de caráter bastante desagradáveis.
Costumava maltratar os velhos amigos e aproveitava todas as oportunidades para ofender-me e provocar-me. Sua ação política, que antigamente costumava ser muito bem planejada e executada com grande sensibilidade, transformara-se numa série de exibições grosseiras de seu poderio militar.
Não era mais o Perry Rhodan de outros tempos, em cujas mãos poderia colocar tranqüilamente os destinos do Império de Árcon.
No curso dos acontecimentos mais recentes formulara ameaças tão graves que muito a contragosto me vira obrigado a tomar uma medida que poderia trazer conseqüências drásticas. Mal me atrevia a pensar nisso, mas não havia como voltar atrás na minha promessa.
Sabia que de certa forma atacara a Humanidade pelas costas. Prometera mil espaçonaves do último tipo aos acônidas, pois não vira outro meio de evitar a intervenção militar planejada por Rhodan, que mandara evacuar as bases terranas situadas em Árcon e expedira ordens específicas para que seus funcionários e soldados retornassem à Terra, o que, sob o ponto de vista estratégico, pusera em perigo a organização administrativa que eu montara com tanto trabalho.
Os membros de meu venerável povo não mereciam muita confiança. Poucos arcônidas estavam em condições de tripular espaçonaves. Em toda parte sentia a falta dos humanos. Por isso recorrera aos acônidas, de quem nós somos descendentes diretos.
E os acônidas, que não tinham nenhum motivo para amar Perry Rhodan e a Terra, concordaram imediatamente em ajudar-me, mas exigiram mil naves, já que eles mesmos quase não possuíam mais nenhuma.
Concordei com a exigência. As naves ainda se encontravam em Árcon II, uma vez que o treinamento hipnótico das tripulações acônidas não fora concluído. Retardara propositadamente a entrega dos aparelhos destinados ao ensinamento hipnótico, pois esperava que Rhodan mudasse de idéia. Mas, a julgar pelas notícias mais recentes, seu estado se agravara ainda mais.
Era esta a situação no dia 20 de outubro de 2.103. Reginald Bell, que era o amigo mais íntimo de Rhodan, solicitara uma conferência secreta. Concordara imediatamente, sugerindo que o encontro se realizasse no planeta Saós. E agora estava esperando pelos terranos.
No momento em que alcancei a primeira coluna de apoio de meu cruzador, a sala de controle chamou pelo rádio de capacete.
Fizemos uma localização, majestade. Trata-se de um abalo de transição. Os ecos são inconfundíveis. O objeto voador, que se desloca à velocidade da luz, penetra no sistema. Os ecos energéticos que vêm sendo captados têm a intensidade 17. Trata-se de um cruzador terrano, majestade.
Parei e olhei para cima. Eram eles! Estavam chegando com um atraso de apenas trinta minutos, o que representava um excelente desempenho cosmonáutico.
Não consegui alegrar-me com isso. Afinal, os terranos eram gente que sabia fazer as coisas. Se pudesse dispor de cem milhões de homens de seu tipo, não levaria mais de um ano para pôr sob controle o império desorganizado pelos meus ancestrais.
Resignado, penetrei na eclusa inferior. O pouso demoraria pelo menos meia hora.
Retirei-me para meu camarote e voltei a chamar o regente. Os cálculos aproximavam-se do seu final. Era bem possível que recebesse os resultados antes da chegada dos humanos.
Pus-me a esperar. Dois problemas distintos desafiavam-me.
Primeiro, era necessário ajudar Rhodan, de qualquer maneira. Além disso, teria de explicar a Reginald Bell por que solicitara o auxílio dos acônidas. Era bom que os terranos compreendessem que seria uma leviandade andar provocando o Império de Árcon.
Eles não o ameaçaram, seu idiota! Tudo partiu do doente — avisou o setor lógico de minha mente.
Esforcei-me para não perder o autocontrole. Não me sentia muito à vontade para enfrentar a conferência que se aproximava.

Aquele homem baixo, com a cabeleira dourada rala em torno da calva, mal conseguiu dissimular o espanto. Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar, apertou os dedos com tanta força que fez estalar as juntas.
Estávamos no interior do camarote do comandante do cruzador ligeiro Atlântida.
Reginald Bell mantinha-se em silêncio. Assim que concluí minha exposição, trocou um olhar ligeiro com John Marshall, comandante do Exército de Mutantes.
O professor Eric Manoli guardou o estojo com os filmes. Parecia indeciso. Como médico que era, acabara de explicar o estado de Perry Rhodan.
Mercant pigarreou. O uniforme apertado dava-lhe um aspecto ainda mais insignificante. Mas era uma impressão enganadora. Sem dúvida, Mercant era o homem mais perigoso do Império Solar.
Será que eu o compreendi bem, sir? O senhor prometeu mil espaçonaves aos acônidas? Mil naves do último tipo?
Seus olhos azuis fitavam-me intensamente.
Não tive outra alternativa. As ameaças de Perry equivaliam a uma declaração de guerra. No império não há mais terranos. O senhor conhece meus problemas. Não se trata apenas de enfrentar as medidas de Rhodan. Além disso, vejo-me obrigado a manter sob contole os conflitos que lavram no interior do império. E para isso preciso de uma frota poderosa.
Acontece que o senhor dispõe de aproximadamente cem mil unidades robotizadas, sir.
Limitei-me a fazer um gesto. Mercant sabia perfeitamente que o argumento que acabara de usar não era válido.
É o senhor quem diz. São unidades robotizadas. Meus inimigos já aprenderam a enfrentar as naves guiadas por um comando positrônico. Preciso de tripulações orgânicas de elite.
Bell adiantou-se. Seu rosto largo irradiava indiferença.
Não falemos mais sobre isso — disse em tom resoluto.
Fitou-me com uma expressão pensativa e continuou:
Atlan, o senhor estaria disposto a, em determinadas condições, desfazer sua aliança com os acônidas?
Que condições seriam estas?
John Marshall sentou. Desistira de apalpar meus pensamentos. De qualquer maneira, não o teria conseguido, pois após o pouso das naves terranas eu levantara meu anteparo mental monolítico.
Bell aproximou-se de Manoli e pegou o estojo com os filmes.
Já lhe mostramos como está Rhodan. Ninguém lhe levaria a mal se, em pensamento, o senhor o chamasse de monstro. Devo confessar que por mais de uma vez brinquei com esta idéia.
Quais são as condições? — voltei a perguntar.
O senhor é muito duro, sir — interveio Marshall.
De forma alguma. Enquanto continuar a perguntar e negociar, Roma não estará perdida.
Mercant sorriu. Por certo estava pensando no meu passado. E devia achar engraçado que um imperador arcônida falasse numa cidade terrana antiga.
Acenei com a cabeça. Ao que parecia, o ambiente começava a descontrair-se. Bell guardou o filme.
OK. Vamos mostrar as cartas. Perry está arruinando tudo que construímos, a partir do dia 19 de junho de 1.971. Sob o ponto de vista humano, seu comportamento pode ser desculpado, mas não podemos conformar-nos por mais tempo com o mesmo. Já não aceita conselhos dos velhos amigos. O senhor nem imagina o que sofremos nestas últimas semanas. Tudo começou com a atividade inesperada do ativador celular, que se incrustou no peito de Perry. Este se transformou num homem irritável, intolerante e injusto sob todos os pontos de vista.
É um Rhodan totalmente diferente do que conhecemos — confirmou Manoli, um dos astronautas que em 1.971, pela primeira vez na história da Humanidade, puseram os pés na Lua terrana.
Foi nesse satélite que os quatro homens pertencentes à mesma equipe encontraram os representantes de meu povo, e naquela oportunidade teve início a série de acontecimentos que levou à formação do Império Solar.
Procurei dar uma interpretação coerente à exposição de Bell, mas não tive coragem de encarar as conclusões a que chegaria.
Relatei meu vôo frustrado ao planeta artificial Peregrino, onde Homunc, o biorrobô, me avisara pelo rádio que não poderia falar com o Ser.
Mercant fitou-me prolongadamente e disse:
Sir, esperávamos que o senhor fizesse uma coisa dessas; muito obrigado. Mas poderíamos ter-lhe dito que a tentativa seria inútil. Nossa interpretação lógica revela que o Ser não pode estar interessado em ajudar Rhodan. Ao que parece, o ativador celular, não se sabe como, representa uma espécie de castigo. Não sabemos qual é a infração que Ele lhe atribui.
Tive minha curiosidade despertada. Mercant usara um tom estranho. Fitei-o com uma expressão indagadora, mas Mercant voltou o rosto. Quais seriam as reflexões que passavam pela cabeça desse homem inteligente? Quais seriam as suposições que se formavam em sua mente? Se é que tinha uma suspeita definida, por que não nos comunicava a mesma?
Deixe de dizer tolices, Mercant — disse Bell, em tom áspero. — Que interesse teria o Ser fictício em castigar a pessoa que deve ser a figura mais interessante em seu jogo de enigmas galácticos? E o que devemos entender por castigo? Ficamos refletindo por semanas a fio. Os homens mais inteligentes realizaram pesquisas, durante as quais se utilizaram os computadores de último tipo. Aquilo só pode resultar de uma falha técnica. Ou então... — virou-se abruptamente em minha direção — Atlan, o senhor já notou um defeito semelhante no aparelho que está usando?
Fiquei feliz ao ouvir alguém chamar-me pelo nome. Aquilo soava melhor que Vossa Majestade. Era espantoso que me sentisse tão bem entre estes homens. Cada um deles era uma personalidade fascinante. Senti-me como um deles.
Apalpei meu peito. Havia um abaulamento sob o uniforme fino. Era um ativador oval, que vinha funcionando há dez mil anos terranos, sem a menor falha.
Não, Bell.
Pois então, só podemos supor que seja um acidente.
Bateu com o punho direito na palma da mão esquerda, baixou a cabeça e atravessou o camarote.
Não se esqueça que você está com os nervos arruinados — advertiu o professor Manoli.
Bell interrompeu-o com um gesto violento. Seus cabelos curtos cor de ferrugem estavam desgrenhados em cima do crânio anguloso. Nunca o vira tão exaltado.
Atlan, solicitei esta entrevista porque precisamos que o senhor nos ajude. O senhor compreende? Precisamos da sua ajuda.
Dentro de mim aconteceu algo que não consegui explicar. Os humanos precisavam de mim! Era uma sensação admirável.
Fale, Bell!
Bell soltou uma risada que antes parecia um choro.
Pois não esconderei mais nada, Atlan. Perry transformou-se num tirano. Vários membros do Governo Solar têm sido presos sob acusações extremamente dúbias. Usa a legislação de emergência com a maior esperteza. Oficiais e tripulantes são punidos sem o menor motivo, as inteligências não-humanóides sofrem ofensas e provocações. Estamos à beira do abismo. Em virtude disso, o ambiente começa a esquentar entre a oficialidade da frota. Até mesmo alguns dos mutantes, que são os elementos mais importantes de que dispomos, começam a ficar ressentidos. A revolta parece iminente. Para salvar o Império Solar, se é que isso ainda é possível, Perry Rhodan deverá ser preso imediatamente. O Marechal Solar Freyt, Deringhouse e outros homens importantes pediram-me que lhe transmitisse suas recomendações. Mercant, Marshall e Manoli estão presentes. Atlan, o senhor que é um velho amigo da Humanidade tem de ajudar-nos.
Bell estava na iminência de um colapso nervoso. Manoli fez um gesto de advertência em minha direção, e o telepata mantinha os olhos semicerrados. Ao que parecia, sondava a mente de Bell.
Senti-me abalado. Refleti sobre como encontrar uma saída e olhei para Mercant como quem pede auxílio. Era o elemento de tranqüilidade em meio aos terranos.
Qualquer plano só poderia ser elaborado juntamente com Mercant e Marshall, que tinham atrás de si o Serviço Secreto e o poderoso Exército de Mutantes.
Como pensa realizar a prisão de Rhodan? Deve haver milhões de soldados fielmente dedicados a ele, que não se esqueceram de sua grandeza humana. Provavelmente estes nunca compreenderão que o administrador está profundamente modificado. Será que o estado físico e mental de Perry foi comunicado ao público?
Nem cogitamos disso — respondeu Mercant, em tom seco. — Sir, apenas queremos colocar Perry em segurança. Os médicos galácticos e nossos especialistas trabalham dia e noite para encontrar um remédio contra a cisão ou divisão celular explosiva. Quanto a Rhodan, o mesmo acredita que só os antis poderão ajudá-lo. Sabe que vinte ativadores celulares, dotados de regulagem individual, caíram nas mãos dos sacerdotes. Ao que parece, não se lembra de que vários antis tiveram um fim muito triste em virtude de defeitos no funcionamento de seus aparelhos. Só está interessado numa coisa: quer descobrir o planeta Trakarat. É impossível fazê-lo compreender que por lá não encontrará ajuda. Estou plenamente convencido de que os sacerdotes são impotentes diante do problema. Também não sabem por que os ativadores, que deveriam prolongar a vida, produzem efeitos colaterais tão funestos.
Joguei o meu trunfo, embora ainda não tivesse recebido o resultado da computação. Mas o regente não demoraria a entrar em contato comigo.
Acredito que dentro de alguns minutos poderei dizer-lhes onde fica o sol geminado de Aptut.
Mercant estremeceu. Bell levantou-se de um salto e Marshall arregalou os olhos de espanto. Levantei a mão.
Peço um pouco de paciência. Estou esperando uma mensagem de hiper-rádio. Devemos usar todos os meios que eventualmente possam ser úteis a Perry. Acho que não seria recomendável submetê-lo à prisão preventiva. Deixem-no agir à vontade, mas mantenham-no continuamente sob observação. Posteriormente poderemos afastá-lo do cargo, se necessário. Os senhores não podem arriscar uma revolução apenas porque alguns destacados oficiais começam a inquietar-se. Afinal, a Idade Média terrana já passou.
Bell voltou a sentar-se. Mercant encostou-se ao quadro de uma tela.
Depois de algum tempo, Marshall perguntou com a calma que lhe era peculiar:
Por que acredita ter encontrado o planeta Trakarat?
No meu íntimo suspirei de alívio. Com essa pergunta a palestra foi conduzida a uma trilha mais objetiva. Estava mesmo na hora de abafar a exaltação dos sentimentos.
Os quatro homens que se encontravam à minha frente não eram usurpadores; pelo contrário. Rhodan jamais encontraria amigos mais fiéis que estes. Se estes pensavam em prender Rhodan, a situação da Terra devia ser muito grave.
Mercant lançou-me um olhar indagador.
Por quê, sir?
Um comando terrano conseguiu aprisionar dois saltadores, que trabalhavam na base dos antis, situada neste planeta. O sacerdote Kutlós não chegou a revelar nada sobre a posição do planeta Trakarat, mas os dois saltadores declararam que ouviram conversas dos antis a este respeito. Dessa forma os especialistas terranos conseguiram certas informações. Dizem que Trakarat é um mundo de rara beleza, cercado de dois anéis feitos de micromatéria cósmica. E o corpo celeste gravita em torno de um sol geminado vermelho muito estranho, que possui dezesseis planetas. O senhor me forneceu esses dados há cerca de cinqüenta dias terranos. Na oportunidade prometi examiná-los.
Mercant lembrava-se perfeitamente. Só agora percebi que não viera apenas para conversar sobre a prisão de Perry Rhodan. Tinha outras coisas em vista.
Soltei uma risada. Sentia-me contrariado. Levei bastante tempo para perceber o que ia na mente daquele homem sagaz. Esse homem, que era um semimutante dotado de uma capacidade telepática pouco pronunciada, chegou a fazer uma tentativa de romper meu anteparo mental.
Deixe-se disso, Mercant! — disse em tom de raiva. — Acho que o senhor nunca perderá o hábito de desconfiar dos outros.
Não farei mais isto. Por favor, diga-me o que conseguiu descobrir. Encontrou o nome do planeta em seu banco positrônico de dados?
Não, esse nome é desconhecido tanto ao regente como aos acônidas.
Bell soltou uma praga, mas logo pediu desculpas.
Passei por ele, dirigi-me à galeria de telas de imagem e dei um tapinha em seu ombro.
Tudo bem, meu velho, desabafe. Quando vi que o robô gigante não conseguia encontrar nenhum ponto de referência em sua memória, dirigi-me aos acônidas. Eles sabem que o ataque de Rhodan fez com que o campo defensivo energético azulado fosse removido. Depois que concordei em fornecer-lhes mil espaçonaves, mostraram-se dispostos a franquear os arquivos de Ácon. Nesses arquivos estavam registrados até mesmo os nomes dos homens e das mulheres que há cerca de vinte mil anos fundaram a colônia que se transformou no atual Império Arcônida. Nas minhas pesquisas parti do pressuposto de que era perfeitamente possível que os antis não descendessem dos emigrantes arcônidas; talvez tivessem vindo do mesmo mundo que estes. E as pesquisas confirmaram essa suposição.
Mercant respirou profundamente.
Parabéns! O senhor foi o único que se lembrou dessa possibilidade.
Fiz uma mesura irônica. Era de espantar que ele não se tivesse lembrado.
Pensei que, face à precisão dos registros históricos dos acônidas, talvez houvesse uma possibilidade de encontrar o nome do planeta Trakarat. Não consegui, mas encontrei certos dados sobre um estranho sol geminado. A massa das duas estrelas é quase idêntica. Devemos reconhecer que é um fenômeno extraordinário. Além disso, a estrela geminada possui dezesseis planetas. Era quanto bastava. Entreguei os dados acônidas ao computador-regente, para que o mesmo os processasse. Como já disse, dentro de mais alguns minutos deverei receber o resultado.
Ninguém disse nada. Só se ouvia a respiração pesada de Bell. Mercant voltou a estalar as juntas. Nunca antes notara esse hábito. Concluí que até mesmo esse homem estava nervoso.
Por que o nome do sol vermelho é conhecido, enquanto o do planeta não é?
Isso pode ter várias causas — respondi. — Talvez o nome primitivo tenha sido mudado no curso dos milênios. Quando isso aconteceu, provavelmente já não havia nenhuma ligação com os acônidas. E já sabemos que os antis não descendem do meu povo. São descendentes diretos dos ancestrais comuns, os acônidas. Tenho certeza de que os sacerdotes só obtiveram suas faculdades extraordinárias alguns milênios depois de sua emigração. Depois disso começaram a espalhar-se pelos mundos dos setores conhecidos da Via Láctea. Sabemos por experiência própria que essas inteligências são muito perigosas. Suas anticapacidades parapsicológicas neutralizam as faculdades dos mutantes terranos, Mercant. Não pense que um ataque a Trakarat será fácil.
Criamos algumas armas novas, sir — disse com a maior tranqüilidade.
Agucei o ouvido, e Mercant voltou a sorrir.
Pedirei licença para entregar-lhe um fuzil versátil. A nova arma foi usada pela primeira vez há algumas semanas. Não dormimos no ponto, sir.
Acreditei piamente nisso. Os terranos nunca haviam “dormido no ponto” desde que pela primeira vez se aventuraram pelo espaço. Eram um povo maravilhoso. Sabia perfeitamente que simpatizava mais com os humanos que com os arcônidas.
Comecei a impacientar-me e olhei para o relógio. Meu tempo era escasso. Em Árcon I, o mundo de cristal do império, uma delegação acônida me esperava. Minha excursão ao planeta Saós subvertera o protocolo.
Bell seguiu meu olhar. Lá fora uma máquina começou a zumbir. A sala de comando do cruzador ficava ao lado do camarote do comandante. Uma tela de visão externa mostrava minha nave robotizada. O sol que ia subindo no céu derramava uma luz escaldante sobre os montões de destroços. As últimas sombras desapareceram. Os contornos da pirâmide semidestruída do templo destacavam-se nitidamente contra as montanhas nuas.
Apontei para a tela.
Os senhores fizeram um serviço perfeito. Por quê? Encontraram auxílio para Rhodan?
Talvez — respondeu Marshall. — De qualquer maneira obtivemos algumas informações sobre Trakarat.
É verdade. Vamos admitir que consigamos determinar a posição galáctica desse mundo. O que espera conseguir com o ataque?
As relações diplomáticas entre o Império Solar e o povo dos antis foram rompidas, sir. O prazo do ultimato por nós formulado termina daqui a cinco horas.
Quer dizer que será a guerra?
Sim senhor. Diria que será uma guerra horrível. Até agora essas inteligências sempre conseguiram dissimular seus verdadeiros objetivos. O culto de Baalol é uma organização clandestina, que tem por objetivo exercer influência política sobre todos os povos conhecidos da Galáxia. Em muitos mundos, os antis já alcançaram este objetivo. Está na hora de esclarecermos a situação.
Tudo isso não explica o que espera conseguir com a descoberta do mundo central dos antis. Realmente acredita que por lá existe uma possibilidade de curar a divisão celular explosiva de que sofre Rhodan?
Ele mesmo tem plena certeza disso, sir — disse Mercant. — Vale a pena tentar.
Fitei-o com uma expressão de dúvida. O homem que se encontrava à minha frente era inteligente demais para pensar seriamente num golpe desfechado no vazio.
Acreditamos num entendimento com os antis — disse Bell apressadamente. — Atlan, o senhor conhece as possibilidades desses seres. Nossos telepatas não conseguem penetrar na mente de Rhodan. É possível que os antis consigam. Muitos médicos são de opinião que a atividade desastrosa do ativador celular resulta de um curto-circuito psíquico, que poderia ter produzido uma alteração não mensurável da freqüência individual de Perry. O senhor deve saber que qualquer inexatidão, por menor que seja, representa um perigo. Afinal, usa um ativador.
Lógico — disse meu cérebro adicional e acenei com a cabeça, numa atitude pensativa.
Isso é um raciocínio válido, Bell. O senhor acha que as freqüências cerebrais de Rhodan podem ter sofrido um deslocamento, em virtude do interrogatório paramecânico a que foi submetido.
Isso mesmo — confirmou o telepata. — O chefe foi prisioneiro de seu filho. Ficamos sabendo de que maneira foi interrogado. Depois de libertado arranjou o ativador mas, ao que parecia, nem desconfiava de que seu psiquismo fora afetado. Por enquanto esta é a única explicação que encontramos. E não existem elementos para refutá-la. Ajude-nos a descobrir Trakarat. Os antis deverão estar em condições de informar que tipo de aparelho foi utilizado durante o interrogatório. Ao que parece, neste meio tempo Perry já compreendeu o que aconteceu com ele. Por isso compreendemos perfeitamente que queira encontrar Trakarat e, se necessário, atacar esse mundo. Sob o ponto de vista legal, um chefe de Estado foi prejudicado por atos ilícitos de violência. E, uma vez que esses danos ameaçam trazer a ruína do Império Solar, o Marechal Freyt formalizará a declaração de guerra. Estamos dispostos a negociar, mas desejamos que os cientistas dos sacerdotes nos prestem toda colaboração de que são capazes. Procure compreender que Rhodan representa a Terra.
Compreendi perfeitamente. Se Rhodan morresse, a existência do Império Solar estaria em perigo. Para os homens, isso representava um motivo suficiente para adotar sérias medidas.
Dali a alguns segundos recebi um chamado da sala de comando do cruzador robotizado. A sala de rádio da Atlântida transferiu a ligação para o camarote. O regente acabara de chamar.
Mandei que se estabelecesse uma ligação direta. As linhas características do regente apareceram na tela.
A transmissão foi curta. Para o maior centro de computação da Galáxia, era totalmente indiferente qual fosse a finalidade de determinada informação. Sempre cumpria sua tarefa segundo as diretrizes do comando que lhe fora transmitido.
Aqui fala o regente — disse a voz saída dos alto-falantes. — Esta transmissão diz respeito à programação IP-60-157, relativa à conversão de dados acônidas para o fator cosmonáutico da Terra e do Grande Império. A interpretação é a seguinte: O sol geminado de Aptut, com dezesseis planetas, fica a 38.439 anos-luz da Terra. As coordenadas do salto serão transmitidas em forma de gráfico. A posição galáctica foi apurada com cem por cento de certeza. A estrela geminada Aptut pertence ao chamado setor do Agulheiro, no décimo quarto braço central da Galáxia, segundo o catálogo arcônida. Face aos dados introduzidos no mecanismo pode-se admitir com noventa e nove por cento de probabilidade que o planeta Trakarat seja o sexto mundo do sistema Aptut.
Confirmei a recepção dessa informação resumida por meio de um impulso codificado do meu aparelho de comando. Só depois disso transmiti os dados ao regente. A indicação do setor do Agulheiro e do décimo quarto braço central da Galáxia não nos serviria para muita coisa. Segundo os meus cálculos, teríamos de revistar trezentos mil sóis.
Aguardamos até que a nave robotizada decifrasse os dados codificados e os projetasse em linguagem clara nas telas registradoras do cruzador terrano.
Demorou mais de uma hora até que tivéssemos em mãos as folhas de plástico com a série de coordenadas.
Mercant parecia muito nervoso. Reginald Bell, que era o único cosmonauta em meio à alta oficialidade, pediu as respectivas microfichas do catálogo armazenado no computador. Imaginei que naquela hora não seria mais possível falar com ele.
O oficial de plantão ajudou-me a colocar o traje espacial. Não havia muita coisa para ser dita. Tinha de voltar.
Quando me despedi, o professor Manoli pediu com a voz exaltada:
Sir, peço-lhe que guarde sigilo absoluto sobre o encontro que tivemos. Perry não foi informado sobre o mesmo. No estado de ânimo em que se encontra, interpretaria a conferência como uma forma de contato com o inimigo e um ato de traição.
O médico não disse mais que isso, mas suas palavras foram suficientes para que me convencesse de que Rhodan se transformara num tirano.
Dali a alguns minutos planei da eclusa polar para o solo. Marshall acompanhou-me até minha nave, juntamente com três tripulantes do cruzador.
Assim que cheguei ao meu camarote, liguei o aparelho de observação externa. John Marshall, o terrano alto, de sorriso simpático, voltou a acenar com a mão. Parecia imaginar que naquele instante eu fixava ansiosamente as telas.
Os quatro homens desapareceram. Logo me vi só com minhas preocupações e angústias.
“— Você não passa de um cão miserável, imperador!” — dissera Rhodan por ocasião de nosso último encontro.
Nunca mais nos havíamos encontrado. Tive a impressão de que, depois da experiência que passara ao lado de Thomas Cardif, preferira não me ver à sua frente. Nossas palestras pelo telecomunicador eram pouco interessantes e ultimamente até se haviam tornado bastante desagradáveis.
Procurei lembrar-me disso enquanto me esforçava ao máximo para não ser dominado pela melancolia. Era um homem poderoso, mas também era um homem solitário. Meus amigos decolariam dentro de alguns minutos.
Lá em casa a delegação dos acônidas me esperava. O quadro das perturbações políticas desenhava-se à minha frente. Só me restava fazer votos de que os terranos conseguissem fazer o estado de Rhodan voltar ao normal. Para mim, a idéia de atacar a Terra era inconcebível. Ninguém gosta de atirar numa coisa profundamente ligada ao seu coração, à qual pode agarrar-se nas horas de solidão. E minhas horas de solidão, durante as quais as recordações inundavam meu espírito, eram muito numerosas. As lembranças eram a única coisa bela que me restara.
Levei muito tempo para vencer a depressão. Finalmente entrei na sala de comando do cruzador. Não havia ninguém além de mim, pois os robôs não chegam a ser alguém.
Quando pela primeira vez fui chamado de imperador, alguma coisa se revoltou dentro de mim. Por que não me tratavam simplesmente como Atlan, ou sir? Para os homens isso era muito natural.
Berrei para as máquinas, mas estas limitaram-se a exibir seu sorriso estereotipado.
Vossa Majestade precisa de repouso — disse um robô-médico, revestido de plástico, feito especialmente para cuidar de minha saúde.
Brindei-o com alguns palavrões terranos, que ouvira pela primeira vez ao tempo do Rei Barba-Roxa. Minha memória fotográfica não permitira que me esquecesse dessas palavras.
Viajara com Barba-Roxa até os Alpes e tentara convencê-lo a desistir de suas ambições políticas na Itália. Depois da batalha de Tusculum recorri às minhas provisões minguadas de antibióticos arcônidas, mas não consegui deter a moléstia desastrosa. No ano de 1.177, o tratado de paz fora firmado em Veneza, com Alexandre II. Na oportunidade acreditava que com esses dois homens poderia fundar um império mundial, mas os humanos ainda não estavam maduros para isso.
Alguém cutucou-me. Despertei das meditações. Por pouco meu cérebro adicional me domina. Levei alguns segundos para perceber onde estava. A sala de comando de uma nave robotizada arcônida não combinava muito bem com o Imperador Barba-Roxa!
O robô-comandante recuou um passo quando me aproximei com um gesto furioso.
Uma mensagem de hipercomunicação urgentíssima, majestade — disse a máquina.
Só então ouvi o som estridente do sistema de chamada. Corri para a divisão de rádio e entrei em recepção. O regente falou de imediato.
Sua Excelência Administrativa, Perry Rhodan, deseja falar urgentemente com Vossa Majestade. Que resposta devo dar-lhe?
Era uma pergunta breve. Mas seu conteúdo tão extenso que o cérebro tornava-se incapaz de assimilá-lo.
Refleti apressadamente. Minha tensão cresceu. O que queria o terrano? Até então sempre preferira não me pedir conselhos. Na verdade, foi só graças à resolução de Bell que certa vez consegui comunicar-me com Perry pelo hiper-rádio.
Atenção, imperador dirigindo-se ao regente. Peça ao administrador que tenha um pouco de paciência. Diga-lhe que estou a bordo de um cruzador robotizado, num vôo de patrulhamento. Voltarei a chamar.
Entendido, majestade. Ficarei em recepção.
O traçado das linhas projetadas na tela modificou-se. Vi um triângulo. Poderia confiar na máquina.
Chamei Allan D. Mercant pela faixa comum. Parecia espantado. A Atlântida estava pronta para decolar.
Não faça perguntas, Mercant. Rhodan quer falar comigo. Adie a partida e ouça o que tem a dizer.
O quê? Perry? — gritou alguém que não consegui ver até que o rosto de Bell aparecesse na tela do meu receptor.
Chamou? — perguntou Mercant, em tom apressado. — Não é possível! O que aconteceu?
Ainda não sei. Mandei transmitir a informação de que por enquanto o regente não conseguiu entrar em contato comigo. Rhodan está esperando. Ao que parece está usando a estação de Terrânia. Fique em recepção. Transmitir-lhe-ei a palestra de hiper-rádio pela faixa normal.
Rhodan não deve saber que estamos aqui — disse Bell.
Confirmei com um aceno de cabeça e afastei-me da objetiva. O centro de computação moveu alguns controles. Os tripulantes da Atlântida poderiam acompanhar nossa conversa.
Ordenei ao computador-regente que captasse a transmissão vinda da Terra, a decifrasse e, depois de reforçá-la, a irradiasse para meu cruzador. Não poderia haver melhor estação retransmissora que esta. Apesar da distância relativamente pequena que nos separava do sistema de Árcon, o computador transmitia com uma potência efetiva de dez milhões de quilowatts.
A mensagem não foi transmitida em código — informou o regente antes que eu desligasse.
Essa informação não era nada tranqüilizante. Sabia que Perry Rhodan era cauteloso e inteligente, motivo por que nunca transmitira sem intercalar o distorçor e recorrer ao código de condensação, mesmo que se tratasse de uma mensagem pouco importante.
E, ao que parecia, desta vez tratava-se de algo mais que um cumprimento amistoso transmitido por uma distância de trinta e quatro mil anos-luz.
Procurei concentrar-me. Sentei na poltrona que ficava à frente do painel de controle central.
Os contornos de uma figura humana surgiram na tela. Esperei que o regente tornasse os contornos mais nítidos e precisos. Depois disso vi um setor da grande estação terrana com tamanha nitidez que até parecia estar no interior da respectiva sala.
Não conhecia a pessoa uniformizada que via diante de mim. Pediu-me que esperasse um momento, pois o administrador ainda estava ocupado.
Pois não, major — respondi.
Virei a cabeça e fitei outra tela, na qual se viam os rostos de Mercant e Bell. Cumprimentaram-me com um gesto, sem dizer uma palavra. Ao que parecia, ouviam muito bem.
Essa transmissão é muitíssimo importante — avisou o setor lógico de minha mente.
Senti-me contrariado. Era claro que a quantidade de energia consumida na troca de mensagens não seria nada barata.
Dali a alguns minutos ouvi ruídos estranhos. Parecia o estertor de um animal ferido, ou então — sim, era isso mesmo — o fungar de um dos monstros supersaturados que eu costumava caçar em certos mundos primitivos.
Meus olhos começaram a lacrimejar, o que era um sinal de forte nervosismo. Sabia que não deveria fazer qualquer gesto que revelasse minha emoção. Obriguei-me a esboçar um sorriso e examinei-o numa tela reflexiva dos elementos de comando. Resolvi que não abandonaria esse sorriso, houvesse o que houvesse.
Um vulto disforme surgiu no campo de visão da objetiva de ângulo largo. Fechei os olhos, mas logo os arregalei.
Vi um monstro, uma figura de tamanho inacreditável que dificilmente poderia ser considerada humana. Reconheci um rosto balofo. A única coisa normal que restava naquela criatura eram os olhos.
Os mesmos não estavam inchados nem se haviam transformado numa massa esponjosa como o resto do corpo.
Mas eram olhos terríveis; não eram mais os olhos que eu conhecia e amara. Haviam perdido a tonalidade verde-cinza e o brilho irônico. Eram amarelentos e tinham a expressão de um lobo — claros, fugazes e sem o menor sentimento.
O dono desses olhos era Perry Rhodan!
Ao que parecia, os microfones da estação terrana eram muito sensíveis. Ouvi o ruído surdo do corpo que caiu numa poltrona. Um par de mãos enormes, que também estavam deformadas e apresentavam um aspecto poroso, surgiu no campo de visão.
Então este era meu amigo! Era o homem que sabia apreciar tanto como eu a dureza das batalhas. Agora via nele apenas um monstro que se aproximava da dissolução.
Alô — disse a voz saída dos meus alto-falantes. — É você, Atlan? Não é nenhuma imitação?
Não sou nenhuma imitação, pequeno bárbaro — respondi em tom inseguro.
Seu rosto ficou desfigurado e sem o menor motivo gritou alguns palavrões.
Não tolerarei esse tratamento insolente. Vamos esclarecer logo quem de nós é o mais forte, seu rei dos robôs. Será que você tem algo a apresentar além dessas máquinas? Vamos logo! Mostre o peito. Não ouviu? Quero que me mostre seu ativador celular.
Pronunciou as últimas palavras tal qual um louco furioso. Cerrou os punhos. Dali a pouco só via estes, pois parecia que sua raiva insensata o fazia bater na objetiva.
Fiquei estarrecido. Não imaginava que a decadência mental de Rhodan tivesse chegado a este ponto, embora Manoli me tivesse dito que devia preparar-me para um grande susto.
Procurei convencer a mim mesmo de que já não havia motivo para ter qualquer consideração com este homem. Este só poderia ser domado por meio de palavras duras e ameaças pesadas.
Mas logo me dei conta de que isso seria um erro. Que me ofendesse à vontade, que soltasse sua fúria. Por enquanto ainda via uma possibilidade de ajudá-lo.
Abri o fecho magnético de meu uniforme e rasguei o tecido. Depois disso Rhodan deveria estar em condições de ver o ativador celular que trazia ao peito.
Calou-se imediatamente. Os punhos desapareceram. O rosto desfigurado voltou a surgir na tela.
Fitou o aparelho, perplexo. Os lábios grossos tremiam.
Esse... esse realmente é seu ativador?
Sim, amigo, é este.
Como é que ele funciona perfeitamente em você? Por que não está inchando?
Não consegui conservar o sorriso. Rhodan, que ainda há pouco parecia um louco furioso, soluçou e descansou a cabeça nos braços. Senti-me martirizado ao vê-lo nesse estado. Por isso resolvi que não me envolveria em qualquer discussão.
Há poucos segundos pretendia dizer-lhe em tom enérgico que não era a maior criatura do Universo. Mas agora preferi falar logo, para não deixá-lo ainda mais irritado.
Está procurando o planeta Trakarat, amigo? Calma! Eu o encontrei...
Nunca ouvira um grito como o que ressoou agora; nunca vira nos olhos de ninguém uma esperança tão angustiada. E olhe que já vi muita gente sofrer e morrer.
Rhodan ergueu-se. Com o queixo caído e as mãos disformes entrelaçadas sob o queixo, parecia querer entrar na tela.
Onde... onde poderei encontrá-lo?
Assim que tivermos concluído nossa palestra, o regente lhe fornecerá os dados. Estou conferindo os dados fornecidos pelos acônidas. Controle-se e preste atenção! Não foi nenhuma traição. Só os acônidas poderiam saber onde fica o sol geminado de Aptut.
Tanto faz — gritou. — As coordenadas estão certas? Não estou interessado em saber onde você as arranjou. São corretas? Responda logo, homem!
Voltou a comportar-se como um louco furioso e eu fiquei ainda mais intranqüilo.
São corretas. O regente está realizando uma interpretação dupla dos dados acônidas, uma em termos terranos e outra destinada a mim.
Quanto tempo demorará? Face à nossa aliança, exijo que você me dê apoio com todas as unidades de sua frota. Quando chegarão os dados? Decolarei imediatamente.
Se não quiser fazer o ataque sozinho terá de aguardar notícias minhas — respondi em tom mais áspero do que pretendera.
Rhodan começou a esbravejar de novo. Nunca conseguiria esquecer a expressão traiçoeira de seu olhar. Finalmente chegou mesmo a sorrir e fechou os olhos.
Não estou muito bonito, estou?
No momento isso não importa. Precisarei de aproximadamente vinte e quatro horas, para colocar em movimento a frota arcônida. Com a melhor boa vontade não poderei fazê-lo antes. Até lá você terá recebido as coordenadas de um local de encontro. Qual das espaçonaves será sua nave capitania?
A Ironduke. Exijo que você compareça a bordo. Quero mantê-lo sob controle.
Soltou uma risada de escárnio. Muito emocionado, desliguei depois de voltar a afirmar por várias vezes que os dados eram corretos.
No fim chegou a ameaçar-me, abertamente, de destruir sem a menor contemplação “meu Estado podre com seu rei dos robôs adoentado”, caso eu tencionasse enganá-lo.
Soltei um gemido e cobri o rosto com as mãos. O robô-médico não tardou a aparecer. Afastei-o com um gesto enérgico. Olhei para outra tela.
Peço desculpas pelo que ele fez, sir — disse Mercant, em tom deprimido. — Acho que a esta hora o senhor já começa a compreender o que está acontecendo na Terra. O senhor teve até um tratamento muito suave...
Interrompi-o com um gesto e fechei o uniforme.
Esqueça, Mercant.
Posso fazer uma sugestão?
Limitei-me a confirmar com um aceno de cabeça. Naquele momento não encontrava palavras para exprimir o que sentia. Como era possível que um homem sofresse uma modificação tão profunda?
Uma vez que o senhor informou Rhodan sobre o planeta Trakarat, não poderemos transmitir-lhe os dados. Desconfiaria imediatamente. Regressaremos à Terra e aguardaremos a chegada dos dados oficiais. Concorda?
Voltei a acenar com a cabeça. Bell entrou na palestra.
Atlan, o senhor realmente está disposto a ficar a bordo da Ironduke? Ele o ofenderá.
Não importa. Não quero que ninguém diga que abandonei um amigo numa situação difícil. Apenas peço que os oficiais e tripulantes do couraçado espacial sejam esclarecidos.
Esclarecidos a respeito de quê?
Como direi? Diga-lhes que não devem intervir em eventuais discussões entre mim e Rhodan. Se o fizerem, o azar será deles. Saberei cuidar de mim. Tem mais alguma coisa a dizer? Não disponho de muito tempo.
Não; é só. Por enquanto, muito obrigado! Não se esqueça das coordenadas do ponto de encontro. Nossa declaração de guerra aos antis será transmitida por uma mensagem de rádio em intergaláctico.
Dali a dez minutos ouvi o trovejar dos propulsores da nave terrana. A Atlântida, que levava o nome do continente terrano por mim colonizado, rompeu a atmosfera do planeta Saós e desapareceu no espaço.
Decolei pouco depois. Esforcei-me em vão para não pensar em Perry Rhodan. Constantemente via seu rosto desfigurado à minha frente.
No momento em que o dispositivo robotizado realizou a transição e a dor da desmaterialização fustigou meu corpo, lembrei-me de que Mercant ainda não me dera a arma mais recente. Bem, depois cuidaria disso.

23 de outubro de 2.103, tempo terrano. Fazia vinte horas que as primeiras unidades da frota arcônida robotizada haviam saído do hiperespaço. Naquele momento as diversas frotas entravam em formação no ponto de encontro denominado Destination, cujo centro era marcado por um supergigante azul sem sistema planetário.
Era uma estrela que ficava na periferia do chamado setor do Agulheiro. Localizava-se a apenas 418,253.678 anos-luz do sol geminado vermelho chamado Aptut.
O vôo para a área de operações foi realizado sob o maior sigilo. Nenhum oficial ou funcionário arcônida havia sido informado sobre minha missão.
Fora difícil introduzir a programação correspondente no robô-regente. Não podia recorrer ao auxílio de quem quer que fosse. Por isso vi-me obrigado a passar dia e noite na sala de comando, a fim de bater as teclas que introduzissem as respectivas ordens na memória positrônica.
Em virtude disso, a decolagem de minha frota sofrerá um atraso, e dali resultará a necessidade de transmitir várias mensagens à Terra. Evidentemente Rhodan ficara furioso.
A Frota Solar, comandada por ele, mergulhara no hiperespaço, assim que o regente transmitira as coordenadas do ponto de encontro. Foi por isso que, quando meus grupos de cruzadores chegaram ao local, os terranos já haviam entrado em formação.
Tive de esperar até o último instante. Ao que parecia, Rhodan não compreendia os problemas políticos com que me defrontava no meu império.
Naturalmente as decolagens em massa não deixaram de ser notadas. Esquivei-me às perguntas dos membros desconfiados do Grande Conselho, aludindo vagamente às manobras da frota. Os almirantes receberam respostas ásperas, proferidas em tom autoritário, nas quais fiz referência à incapacidade dos oficiais e tripulantes.
Isso me rendera novas inimizades. De qualquer maneira, não poderia assumir o risco de dizer uma palavra que fosse sobre a operação Destination.
Os espiões dos sacerdotes do culto de Baalol andavam por toda parte. Poderia confiar no robô gigante, mas não nos descendentes longínquos dos arcônidas, que haviam construído aquele gigantesco centro de computação. Isso me deixava bastante deprimido.
Vinte minutos depois da decolagem das unidades leves decolei, também, com as naves pesadas. Antes disso tive que pedir a Reginald Bell, numa mensagem condensada ultra-secreta, que impedisse as chamadas de Rhodan, que de tão impaciente parecia não perceber que as constantes indagações poderiam trair-nos.
Bell conseguiu fazer com que Rhodan falasse diante de microfones desligados. Dessa forma consegui fazer meus preparativos sem que ninguém me perturbasse.
A tarefa de, em menos de cinqüenta horas, pôr em movimento uma frota de dez mil espaçonaves, era bastante difícil para um único programador. Não dispunha de comandantes que pudessem ser informados numa conferência em que se examinassem os planos. Tinha muitos robôs a meu serviço. Estes eram capazes de desenvolver um raciocínio autônomo e tomar decisões acertadas, desde que neles tivesse sido introduzida uma programação adequada. Se não dispusesse dos elementos de concentração e de distribuição do computador-regente, a tarefa teria sido impossível. O grande centro de computação fornecia instruções às tripulações robotizadas de dez mil naves ao mesmo tempo.
Escolhera a Teparo, uma supernave de mil e quinhentos metros de diâmetro, para servir de capitania. Era a única criatura viva a bordo do gigante. Depois que entrei no gigantesco veículo espacial e vi um grupo após o outro desaparecer no céu azul que cobria Árcon III, compreendi o quanto era paradoxal a minha situação.
Dez mil espaçonaves poderosas e modernas, e um único soldado! Seria loucura esperar que os homens de meu venerando povo ainda conseguiriam reunir energias para repetir os grandes feitos dos antepassados.
No curso dos últimos decênios tivera de recorrer em escala cada vez maior às tripulações robotizadas. A decadência cada vez mais acentuada dos arcônidas frustrara todas as minhas esperanças.
As leis naturais são implacáveis. Os acônidas, povo do qual descendemos, mantiveram a saúde e o arrojo. Nós, que descendíamos de antigos colonizadores de Ácon, havíamos sucumbido ao processo de adaptação ao ambiente. Há muito tempo os cientistas dos povos astronautas sabiam que os emigrantes interestelares fatalmente perdiam no curso dos milênios a capacidade técnica e a maturidade mental que haviam trazido de seus mundos.
Sacudido por amargas sensações, entrei em transição com meus três mil couraçados e supercouraçados.
Apesar das tristes experiências que fizera com os povos submetidos aos arcônidas, destaquei três cruzadores tripulados por seres vivos para acompanhar o grupo. As tripulações eram formadas por zalitas. Depois do primeiro hipersalto, realizado a uma distância de apenas quatro mil anos-luz, tive de mandar para casa os três comandantes.
Como de costume, haviam realizado manobras erradas, considerando “desprezíveis” as últimas casas decimais dos cálculos de transição. Em virtude disso haviam sofrido desvios de cem anos-luz!
O comandante Felicete comunicara-me pelo hiper-rádio que um dos reatores que alimentavam o sistema de propulsão estava com defeito. Disse que se esforçaria para reparar o aparelhamento automático sincronizado principal dos termostatos do sistema de refrigeração do ambiente... Esperei duas horas. Depois disso os termostatos foram substituídos, mas os refrigeradores continuavam a esquentar demais. Nem tiveram a idéia de verificar as bombas de circulação. Em vez disso os termostatos voltaram a ser retirados e recolocados.
Era um exemplo de falta de preparo e preguiça mental. Com uma equipe dessas não poderia arriscar nenhum ataque. As três naves regressaram antes que as minhas entrassem em transição.
Os engenheiros terranos certamente removeriam o defeito insignificante numa questão de minutos.
Vinte e quatro horas depois da chegada dos meus grupos de unidades ligeiras, finalmente cheguei com as unidades pesadas no setor de encontro denominado Destination.
Rhodan reunira um contingente de oito mil naves, no qual se incluíam todas as espaçonaves pesadas de que dispunha.
Quando vi aquela armada, comecei a recear pela sorte do império. Aos poucos comecei a compreender do que eram capazes seus novos estaleiros lunares. A quantidade de belonaves ainda não me preocupava. Por enquanto poderia enfrentá-las com uma superioridade numérica de doze para um.
Mas se pensava nos homens que serviam naquelas oito mil unidades, logo desanimava. Eram os melhores soldados da Galáxia. Cada um era uma sumidade, um especialista dotado de formação tão ampla que poderia ser utilizado em três ou quatro postos diferentes.
Eram homens que numa situação difícil não perdiam tempo para esperar ordens. Sempre sabiam o que fazer. Talvez não tivesse inveja de Perry Rhodan, mas o fato é que me sentiria feliz se pudesse contar com os combatentes de que ele dispunha.
Ainda não superara a dor da rematerialização quando Rhodan chamou. Atirou-me insultos grosseiros por causa do atraso.
Antes que pudesse proferir outras ameaças, eu o interrompi. As coisas não poderiam continuar assim.

* * *

A luz verde da escotilha interna da eclusa acendeu-se. Esperei mais alguns segundos, até que cessasse o chiado do ar que encheu o vácuo. Comprimi um botão e a porta blindada abriu-se.
O destróier terrano fora atingido por um raio de tração que o conduzira para o hangar XXVII da Teparo.
Rhodan não perdera tempo. Uma vez que o destróier já chegara, só poderia ter saído do hangar-eclusa da Ironduke, instantes depois de minha nave mergulhar no hiperespaço.
Mais uma vez fiquei só. Mandei que os robôs que vigiavam a eclusa voltassem. Dali em diante meu aparelho de hipercomando me manteria em contato com as estações re transmissoras.
Um corpo prateado esguio com a proa negra descansava sobre os trilhos largos do campo magnético. Era um barco espacial, destinado a combates a pouca distância. Os canhões de impulso montados em seu interior impunham respeito. Já aprendera por experiência própria o enorme perigo que esses barcos pequenos podiam representar até mesmo para as naves de grandes dimensões.
Aproximei-me, procurando escapar à onda de calor que saía da popa. Uma escotilha estreita abriu-se atrás da carlinga transparente. Não me surpreendi ao ver o rosto de Reginald Bell na abertura.
Bem-vindo ao setor de formação Destination, Atlan. Tudo pronto?
Comprimi o corpo contra o envoltório polido e dei um salto para a frente. Uma mão robusta puxou-me para dentro da eclusa apertada.
O círculo de bocais está bem quente, não é? Bem, realizamos uma manobra de frenagem um tanto amalucada. Não trouxe bagagem?
Nunca usei bagagem, nem quando saí para lutar com Rhodan. Quem é o piloto?
O Tenente Brazo Alkher. O senhor já o conhece.
Conforme ouvira falar, Brazo desempenhara, juntamente com outro oficial jovem, um papel importante na obtenção dos ativadores celulares.
Esgueirei-me junto a Bell, que voltou a fechar a eclusa. Mais adiante, pouco atrás da sala de conversão com o fecho do canhão energético, um homem alto levantou-se do assento do piloto.
Brazo Alkher não mudara nem um pouco. Fez uma continência impecável. Ao que parecia, teve de fazer um grande esforço para fitar meus olhos. Quando, seguindo o costume terrano, estendi-lhe a mão, mostrou-se embaraçado.
Como vai, sir? — perguntou em tom apressado.
Sorri para ele.
Conforme permitem as circunstâncias, Brazo. Quer dizer que você me levará à Ironduke?
Sim, senhor. Mas eu me recuso, se é que permite que use esta palavra, a fazer outro vôo tão louco.
Tive minha curiosidade aguçada. Bell apontou para a poltrona do manipulador dos instrumentos de localização, que ficava atrás dele, à direita. A cabina era pequena e apertada.
O que quer dizer? Arriscou demais?
Tivemos de arriscar — resmungou Bell. — Perry achou que estávamos andando muito devagar. Fomos lançados para fora da eclusa antes que a escotilha interna se fechasse. Disparou-nos do tubo de lançamento com uma força de pelo menos 100 G. O neutralizador ainda não estava funcionando a toda potência. Ficamos expostos a cerca de 20 G. No momento eu me encontrava de pé, junto à escotilha, sem desconfiar de nada. Acho que a esta hora minhas costas estão cobertas de sangue e carne inchada. Mas está tudo bem. Não se preocupe.
Tive a impressão de que Bell ainda não dissera tudo. Brazo Alkher, que era um oficial muito digno da Frota Solar, parecia indignado.
Ainda não trazia na cabeça nenhuma idéia relativa a um motim, mas quando um homem do seu tipo começa a refletir sobre se determinada ordem é sensata ou insensata, a situação começa a tornar-se crítica. Estava na hora de falar seriamente com Rhodan. Afinal, ele não mandava em mim, e, além disso, podia confiar em nossa velha amizade.
Enquanto Brazo manipulava os controles, observei-o. Seu rosto suave de rapaz alterou-se. Os olhos pareciam despertos e atentos.
O equipamento de absorção da aceleração e as telas das câmaras de reação entraram em funcionamento.
Tudo preparado para a manobra de catapultagem, sir.
Levantei o braço esquerdo, aproximei o microfone da boca e transmiti a ordem correspondente à estação central de comando de minha nave capitania. O grande robô estacionário confirmou o recebimento.
Ouvimos o chiado das turbo bombas. A pressão externa diminuía rapidamente. Alguns segundos depois, as luzes verdes se acenderam. A tampa do tubo, embutida na parede blindada externa, foi recuando lentamente. Vi um setor do espaço.
Aqui, nas proximidades do centro da Galáxia, a aglomeração de estrelas era ainda mais compacta que no grupo estelar M-13. Vi diante de mim uma profusão de pontos luminosos de várias cores, que, a pouca distância do lugar em que me encontrava, se adensavam num todo indissolúvel.
Comandante chamando Sua Majestade. Nave capitania da frota terrana aproxima-se a alta velocidade. Instruções...
Bell cerrou os dentes, fazendo-os ranger fortemente. Franzi a testa e olhei para Brazo, que parecia esforçar-se para não dar sinais do nervosismo que se apoderara dele.
Que idiotice! — disse Bell em tom áspero. Suas mãos seguravam fortemente a braçadeira da poltrona. — Ele não desiste mesmo. Sabe lá o que terei de ouvir daqui a pouco? Atlan, quero dar-lhe um bom conselho. Fique aqui; desista de ir para bordo da Ironduke. Eu o conheço! Não vamos fingir um para o outro. Por mais que se esforce para ser tolerante e condescendente, o senhor perderá o autocontrole o mais tardar com a quinta ofensa que lhe for atirada.
Estava falando sério; eu sentia! Acontece que eu tomara minha decisão. Desejava e precisava ver o homem que dentro de poucos meses se transformara num déspota. Não saberia dizer exatamente por que fazia tanta questão disso. Devia ser uma questão de sentimento.
Muito obrigado. Irei.
O senhor arrisca mais do que pensa — mais uma vez Bell tentava fazer com que eu mudasse de idéia. — Ao que supomos, o senhor pretende valer-se da sua posição de soberano. Talvez acredite que conseguirá exercer certa pressão sobre Perry. No entanto, é bom que não se esqueça que a esta hora ele já sabe onde fica Trakarat. O senhor não deveria ter revelado tão cedo a posição galáctica do planeta. Com isso largou um trunfo.
É verdade — confirmei com a voz tranqüila. — Larguei-o para favorecer o senhor, meu caro. Queria tranqüilizar Perry e desviar sua atenção. Provavelmente consegui.
Pagou um preço muito elevado por isso, sir — disse Brazo, em voz baixa. — Permite que eu decole?
Confirmei com um aceno de cabeça e reclinei-me na poltrona. O mecanismo de absorção de pressão começou a uivar. Dali a alguns segundos o robô-comandante emitiu o impulso que provocaria a catapultagem.
O campo magnético arrastou a máquina esguia pelos trilhos.
Ficamos apenas expostos a pressões insignificantes. O dispositivo automático pôs em movimento os propulsores. Os mostra-dores descreveram movimentos pendulares em cima das escalas. O destróier desenvolveu uma aceleração muito elevada ao sair para o vácuo interestelar.
Os desenhos angulosos, projetados sobre as telas de controle do sistema de localização de matéria, executaram uma dança louca. Havia milhares de naves nas imediações. Não se tinha como realizar uma interpretação precisa. Brazo guiou-se pelos impulsos vetores transmitidos pela nave capitania. Dali a três minutos o sistema de telepilotagem cuidou do destróier. Saíramos do rumo por um décimo de grau, no setor vertical vermelho.
Quando o mecanismo propulsor começou a rugir, Bell pôs-se a praguejar. O veículo espacial foi arrancado da rota pelos bocais de jato, colocados em ângulo agudo, e apanhado com tamanha violência pelo raio de tração que o mecanismo de absorção de aceleração mal conseguiu neutralizar as energias liberadas pela inércia. O que faziam conosco era uma irresponsabilidade.
Num movimento rápido apertei a chave do fecho instantâneo de meu traje espacial arcônida e ativei o campo defensivo individual.
Aproximamo-nos numa velocidade que aumentava acima dos limites permitidos da nave capitania, cujos contornos ficavam cada vez mais nítidos. A Ironduke, que era a nave mais moderna da Frota Solar, encontrava-se a cerca de quatro milhões de quilômetros da Teparo.
A manobra de frenagem lembrava o primeiro exercício de vôo individual de um astronauta principiante. O destróier girou rapidamente em torno de seu eixo curto, a popa foi atirada violentamente para um lado e, com a mesma violência, voltou à posição primitiva. Pouco antes do campo de repulsão ficamos expostos a cerca de 15 G. Os cintos de segurança cortavam dolorosamente a carne de nossos corpos atirados para a frente. A elasticidade do material era bastante reduzida. Com uma manobra dessas, tal elasticidade tornou-se por demais sensível. Fomos, então, atirados violentamente para dentro das poltronas assim que a pressão cessou.
Bell continuava a praguejar. Quanto a mim, fiquei quieto, embora não compreendesse por que os homens que manipulavam o equipamento de telepilotagem se deixavam levar a executar manobras desse tipo.
Mesmo que tivessem recebido ordens de levar-nos para bordo o mais cedo possível, não haveria necessidade de realizar manobras tão violentas. Só mais tarde fiquei sabendo que Rhodan em pessoa manipulara os controles.
E esse homem já perdera todo o senso!
A viagem tresloucada terminou numa das eclusas do couraçado. Quando saí do barco espacial sentia dores por todo o corpo.
Meus amigos já me aguardavam. O Major Jefe Claudrin, comandante da Ironduke, também se encontrava presente. Ninguém deixaria de notar seu corpo gigantesco. Ao lado daquele homem nascido em Epsal, Allan D. Mercant parecia uma criança.
Cumprimentei-os em palavras rápidas. Já sabiam de tudo.
John Marshall limitou-se a acenar-me. Gucky, a inteligência extraterrena dotada de espantosas faculdades parapsicológicas, mantinha-se tristemente sentado num canto. Via-se um brilho apagado nos gigantescos olhos do rato-castor.
Aproximei-me dele e fiquei de cócoras. Nessa posição podia fitar melhor aquele rosto de camundongo.
Como vai, pequeno?
Gucky passou a mão delicada pelo nariz. Ouvi um suspiro profundo.
Nem queira saber! Vou mal — piou. — Perry não gosta mais de mim. Já imaginou?
O que é isso?
Gucky acenou fortemente com a cabeça. O brilho dos olhos tornou-se mais intenso.
Pois é o que acabo de dizer. Não gosta mais de mim. Faz algumas semanas que não acaricia meu pêlo. E olhe que ele sabe quanto gosto disso! Por aqui todo mundo ficou maluco. Será que você pode fazer alguma coisa por nós?
Segurei-o por baixo dos braços e levantei-o. Tinha um pouco mais de um metro e era muito leve. Aquele ser pequeno sentia-se desesperado.
Faremos o possível, Gucky. O que acha da situação?
Estou com medo — confessou. — Não é por mim, mas por Perry. Não consigo penetrar em sua mente. Colocou um tremendo bloqueio monolítico. Quem dera que ele o abrisse ao menos uma vez. Se isso acontecesse, talvez poderíamos ajudá-lo. Pelo que dizem os médicos, suas freqüências individuais se deslocaram. Ao que tudo indica, é este o motivo por que o ativador celular não produz os efeitos programados.
Será que você poderia convencer Perry de que deve relaxar um pouco e deixar que eu trabalhe? Não pretendo apoderar-me de nenhum dos seus pensamentos.
Olhei para trás. Os oficiais mantiveram-se em silêncio. Gucky dissera tudo o que havia a dizer sobre isso.
O chefe está à sua espera, sir — disse a voz retumbante de Claudrin.
Como de costume, Jefe trazia consigo um pequeno gerador de força gravitacional, que lhe proporcionava a gravitação de seu mundo natal. Para ele, uma gravitação de 2,1G era normal.
Coloquei Gucky no chão e acariciei o pêlo sedoso de sua nuca. Com isso voltou a rir. As coisas deveriam estar muito ruins, pois esse rato-castor, geralmente tão animado, tinha se transformado numa criatura apática. O que estaria acontecendo no cérebro de Rhodan?
Tirei o traje espacial e pedi a Brazo Alkher que me desse a braçadeira de imperador. Quando comecei a caminhar em direção ao elevador central da nave, os terranos fizeram continência.
Mercant caminhou a meu lado. Cochichou apressadamente ao meu ouvido:
Sir, peço-lhe que não o deixe perceber nada quando estiver olhando para ele. No momento tem 2,38 m de altura e a largura dos ombros aumentou na mesma proporção. Em comparação, o aumento do peso é mínimo. O tecido cujo volume aumenta com a cisão celular explosiva torna-se menos consistente. À medida que se dilata, torna-se mais leve. Perry sabe disso, mas sua imaginação doentia faz com que acredite que o aumento de tamanho trouxe consigo um aumento correspondente de força. Constantemente procura provar suas forças. Quero pedir-lhe um favor. Quando o cumprimentar com um aperto de mão, dobre o corpo e faça aparecer uma expressão de dor no rosto. Na verdade, Rhodan está mais fraco do que nunca. Ficará à espreita da sua reação. É a única expressão que se pode usar para designar a atitude desconfiada de observador em que se mantém.
Vejo que o senhor continua a ser um excelente psicólogo, Mercant.
Ainda bem — respondeu aquele homem inteligente em tom amargo. — Afinal, o senhor conhece os seres humanos ainda melhor que eu. Pouco importa o que Rhodan diga ou faça. Em todas as situações, o senhor deve imaginar que é um psicoterapeuta. Dessa forma será mais fácil suportá-lo.
Tomei uma decisão firme de que veria os atos de Perry não com os olhos do estadista, mas com os do amigo. Se considerasse suas atitudes sob o ponto de vista do imperador, não poderia deixar de tomar minhas providências. Mas como amigo poderia enganar-me a mim mesmo, procurando convencer-me de que esta ou aquela palavra fora proferida numa intenção diferente.
Quando subíamos pelo elevador antigravitacional, os berros de Rhodan começaram a sair dos alto-falantes do sistema de chamada geral.
Exigiu que os traidores dorminhocos se apressassem, fazendo questão de dizer que se dirigia principalmente ao cacique degenerado dos arcônidas!
As palavras com que me contemplava eram bem fortes. Naquele momento entendi como seria difícil manter a atitude do amigo que compreende tudo...

Rhodan esperou-me na sala de comando do couraçado. Sua atitude era a de um tirano que tem o poder de decidir sobre a vida e a morte dos outros. Nos olhos de lobo lia-se muita coisa, menos qualquer expressão de calor humano.
O olhar era penetrante, traiçoeiro e desconfiado. Será que ainda era o mesmo que já fora o grande homem da Terra?
Seu corpo tinha dimensões colossais. Um uniforme especial, de tecido de fibra artificial muito elástico, fora fabricado para Rhodan. O material cedia até o ponto de ruptura, mas via-se que o traje já estava apertado nos ombros.
Um gigante de 2,38 m cambaleou em minha direção. Aquele homem enfermo perdera toda a esportividade dos movimentos.
Suas mãos se haviam transformado em patas inchadas. Ao que parecia, não tinham mais o menor sentimento. Poucos minutos antes, Mercant me dissera que Rhodan guiara pessoalmente a manobra de ingresso do destróier na eclusa da nave.
Agora, que via essas mãos bem de perto, já não me sentia surpreso com as perigosas manobras realizadas pelas mesmas. Estava plenamente disposto a perdoá-lo por isso. Talvez suas intenções não tivessem sido más. Apenas sua obstinação não lhe permitia confessar que estava incapacitado de fazer essas coisas na prática. Por que não se restringia às funções de comando? Por que não procurava controlar-se e depositava todas as esperanças na missão que tínhamos pela frente, e que muito provavelmente lhe traria auxílio?
Cheguei à conclusão de que os antis que se encontravam em Trakarat refletiriam bastante diante da alternativa de serem destruídos sob o bombardeio atômico ou salvar o terrano que tanto haviam prejudicado.
Continuou a caminhar desajeitadamente em minha direção. Senti-me apavorado diante do aspecto terrível daqueles olhos. Naquele rosto desfigurado mal se descobriam vestígios dos traços tão conhecidos.
Quando se encontrava à minha frente, tive de inclinar a cabeça para trás. Sua voz não mudara. Talvez estivesse um pouco mais rouca. Mas, ao que parecia, o processo de divisão celular ainda não afetara gravemente os órgãos vocais.
Sorri para ele. Procurei exprimir nesse sorriso tudo que sentia por aquele homem.
É bom que você saiba que a bordo da minha nave capitania reina disciplina, arcônida — gritou.
O quê?
Por aqui reina disciplina — repetiu em tom ainda mais áspero.
O brilho da cólera misturada com a loucura começou a surgir em seus olhos. Ao que parecia perdia o autocontrole com muita facilidade.
Não sei se o compreendo, amigo.
Aqui não se costuma rir — gritou. Perdi a vontade de rir. Olhei em torno, perplexo. Os tripulantes da sala de comando mantinham-se em posição rígida nos seus postos. Até mesmo o comandante, Bell e Mercant permaneceram imóveis.
Senti-me apavorado. Rhodan devia ter enlouquecido. Sem que quisesse, fitei-o com uma expressão irônica. As reações do subconsciente derrubaram minhas boas intenções muito mais depressa do que eu imaginara.
Eu não estava rindo; apenas sorri de alegria. Será que você não imagina que me sinto alegre por revê-lo depois de tanto tempo?

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