Assim que
Mercant começou a falar, o Coronel Nike Quinto levantou-se e aguçou
o ouvido. Não teve tempo para formular sua pergunta, pois Bell
antecipou-se.
— Será
que isso já faz com que alguém pegue a fita métrica? Para mim, os
acontecimentos destes últimos dias são demais. Por que Perry
arranjou um ativador celular? O que menos compreendo é o Ser de
Peregrino! Por que Ele resolveu entregar um aparelho desses a Perry?
Então, Quinto, qual é sua opinião?
Quinto
sacudiu a cabeça, num gesto comedido.
— Mister
Bell, não se pode dizer nada a este respeito, enquanto o chefe
continuar envolto em silêncio. Mas essa história da fita métrica
não deixa de ser interessante...
— Não é
interessante coisa alguma; é uma loucura! — berrou Bell,
completamente fora de si. Logo se acalmou. — Mercant, não vim até
aqui para bater um papo. Marechal, está na hora de...
Mercant
levantou-se. Compreendeu o que Bell quis dizer. Interrompeu-o de modo
áspero.
— Ainda
é cedo para isso! Falei com meia dúzia de médicos. Não existe o
menor indício de perturbação mental. Mister Bell, acho que o
senhor compreende o que significa isso.
Bell, que
sentia mais intensamente que Mercant e Quinto o conflito entre o
sentimento de fidelidade ao amigo e a noção do seu dever para com o
Império Solar, corria nervosamente de um lado para outro. Parou
abruptamente à frente do marechal solar.
— Mas as
coisas não podem acontecer assim! Se as unidades de nossa frota
continuarem a provocar o Império de Árcon, dentro de dois ou três
dias a Galáxia estará incendiada. Já não existem palavras capazes
de exprimir o que Atlan pensa de nós.
Mercant
fitou-o prolongadamente.
— Mister
Bell, será que o senhor quer depor o chefe, face à simples suspeita
de que poderia estar doente?
Bell
respondeu em tom furioso:
— John
Marshall, que acaba de regressar da missão desempenhada em Árcon,
já me fez a mesma pergunta idiota. Caramba! Eu seria a última
pessoa capaz de trair Perry, mas como colaboradores investidos de
certa responsabilidade não podemos permitir que o Império Solar se
arrebente!
Estas
palavras exprimiam um profundo senso de responsabilidade, aliado à
preocupação com o destino de bilhões de seres humanos. Bell
prosseguiu:
— Procurei
influenciar Marshall. Obriguei-o a penetrar nos pensamentos do chefe.
Já que Perry não possui mais nenhum dom telepático, não existe a
possibilidade de que ele perceba esse tipo de ação. O que acham que
Marshall pôde informar? O chefe pensa para dentro! E ficou firme
nesta afirmativa. Não consegui atinar com o que vem a ser isso.
Sem dizer
uma palavra, Mercant ofereceu-lhe um conhaque. Bell sorveu-o num
gesto automático. Só depois de ter esvaziado o copo, se deu conta
disso.
— Levem
isso daqui! Não quero saber mais de conhaque. Perdi todo o gosto por
essa bebida. Boa noite!
Bell
afastou-se tão repentinamente como entrara. Enquanto os passos do
gorducho ressoavam no aposento, Mercant e Quinto mantiveram-se em
silêncio.
*
* *
Perry
Rhodan sempre fora um madrugador, e Cardif-Rhodan seguia seu exemplo.
Mas hoje de manhã seu despertar não foi nada gostoso.
Não se
sentiu reconfortado pelo sono. A primeira coisa que fez foi pôr a
mão sobre a mesinha-de-cabeceira, onde estava guardada a fita
métrica que, na noite anterior, quase deixara Bell louco. Thomas
Cardif mediu o diâmetro do abdômen. Seus olhos iluminaram-se quando
leu a cifra: 98!
— Já
estava vendo fantasmas — disse com um suspiro de alívio. Soltou
uma risada, deixou cair a fita métrica e espreguiçou-se.
Muito
bem-disposto, entrou no banheiro. Seguindo um hábito de todos os
dias, subiu à balança.
— O
quê...?
Suas mãos
procuraram algo em que pudessem apoiar-se. Os joelhos começaram a
tremer. Aquilo que seus olhos viam não podia ser verdade!
Seu peso
aumentara seiscentos gramas, embora na noite anterior não tivesse
ingerido nenhum alimento ou bebida.
Olhou para
o espelho.
Viu um
rosto estranho, marcado pelo pavor.
Abriu
apressadamente o pijama e viu nitidamente o ativador celular,
incrustado pela metade no peito. Naquele momento o aparelho voltou a
dar suas batidas regulares. Um fluido tranqüilizante penetrou em seu
corpo.
A
expressão de pavor desapareceu de seu rosto.
— Não
fique nervoso, Rhodan! — disse em voz alta e soltou uma risada.
Enquanto
isso sua mão enxugava o suor frio que gotejava em sua testa.
*
* *
Em Saós,
um dia e uma noite duravam 214 horas terranas. No momento em que
Brazo Alkher fora levado ao último interrogatório, durante o qual
se vira colocado frente a frente de Kutlós, o dia estava raiando
naquele mundo desolado. O longo dia de Saós estava começando com o
rugido de um furacão que não se detinha nem mesmo diante da
pirâmide do templo com seus cento e cinqüenta metros de altura,
sacudindo furiosamente a construção. Por uma única vez, durante o
caminho de volta, Brazo Alkher conseguira lançar um ligeiro olhar
para fora. Foi então que viu as massas de poeira, tangidas pelo
furacão, passarem velozmente.
O robô
voltou a colocá-lo no recinto à prova de fuga e o trancou
juntamente com Stana Nolinow. Este estava mergulhado num sono
profundo. Também se deitou. Os pensamentos atropelavam-se em seu
cérebro, mas apesar disso adormeceu.
Teve a
impressão de que estava sonhando.
Viu-se no
meio de uma terrível trovoada. Os relâmpagos desciam
ininterruptamente à terra e o trovão ribombava. O chão começou a
tremer sob seus pés. Alguém sacudiu-o brutalmente.
— Acorde!
Está havendo um ataque! — berrou Stana Nolinow ao seu ouvido.
Brazo
Alkher despertou no mesmo instante.
Ergueu-se
de um salto de sua cama simples.
O chão
tremia sob seus pés. Um barulho infernal atingia seu ouvido.
Certamente
um terrível ataque estava sendo desfechado contra as instalações
industriais.
No mesmo
instante, Brazo lembrou-se das palavras que conseguira ouvir por
ocasião do último interrogatório. Durante a transmissão de uma
mensagem de rádio, Kutlós dissera na sala contígua: “Não
permitiremos que os saltadores exerçam pressão contra nós. O
estabelecimento está em condições de defender-se.”
De repente
os dois terranos que se encontravam no interior da cela foram
atirados ao chão.
— Bombas!
— gritou Alkher, em tom de alarma.
Devia
estar certo, pois era oficial de armamento. E também sabia quem
gostava de atirar bombas nessa parte da Via Láctea: os mercadores
galácticos.
Quer dizer
que os saltadores estavam cumprindo suas ameaças contra os
antimutantes.
O ataque
vindo do espaço acabara de ter início.
O planeta
parecia esfacelar-se.
— Olhe a
porta...! — gritou Brazo. A porta deixara de existir.
Mas será
que o campo energético que existia à frente da mesma também
desmoronara?
Brazo
atirou uma banqueta para o corredor. A mesma quebrou-se de encontro à
parede.
— Vamos
embora, Stana! — gritou.
O ataque
ao estabelecimento tornava-se cada vez mais intenso. Uma grande frota
dos saltadores devia ter surgido sobre a base dos antis, e com todo o
armamento de que dispunha, bombardeava as instalações.
Brazo
Alkher e Stana Nolinow dispararam pelo corredor largo. Era a mesma
galeria pela qual tantas vezes haviam sido levados para serem
submetidos aos interrogatórios.
O corredor
partiu-se bem à sua frente. Uma fenda de três metros abriu-se. No
último instante, Brazo conseguiu segurar o companheiro.
Alkher,
viu a bifurcação. No fim da mesma havia um poço antigravitacional
que talvez poderia representar a salvação, caso não tivesse sido
destruído.
Correram e
admiraram-se por não se encontrarem com nenhum robô. Chegaram ao
poço do elevador antigravitacional. O mesmo ainda estava
funcionando. Saltaram para dentro dele e foram subindo.
Era
impossível comunicar-se por meio de palavras. O fim do mundo parecia
ter chegado ao segundo planeta daquele pequeno sol amarelo, sem nome.
Brazo
sentiu que deveriam sair do poço imediatamente. Deu o empurrão em
Stana, que hesitou por um instante.
— Vamos
para a esquerda! — berrou ao ouvido do mesmo.
Viram dois
robôs à sua frente. Os dois oficiais da Frota Solar atiraram-se ao
solo, pois esperavam alguns disparos de radiações.
Não
aconteceu nada. Os robôs não eram máquinas de guerra, mas
autômatos utilizados na fabricação de campos defensivos
individuais.
Os dois
homens se levantaram e continuaram a correr. Atingiram a fita
transportadora, saltaram sobre a mesma e deixaram que ela os
carregasse.
No momento
em que a fita atravessava um túnel, uma bomba detonou nas
proximidades, provocando um forte abalo e paralisando aquele meio de
transporte.
Felizmente
as luzes continuavam acesas. Os dois terranos avançaram de quatro.
Dali a mais alguns metros, o túnel ia dar num gigantesco pavilhão
onde havia uma série de instalações destinadas ao acabamento dos
campos defensivos individuais. Os robôs trabalhadores corriam de um
lado para outro.
Tinham a
impressão de já estarem fugindo há uma pequena eternidade, mas na
verdade fazia menos de cinco minutos que tinham saído da cela.
Assim que
atingiu a entrada, Alkher soltou um grito. No mesmo instante
desapareceu num recinto cuja porta fora arrancada pelos abalos das
explosões.
Stana
Nolinow seguiu-o de perto.
Encontravam-se
no interior do depósito de trajes espaciais.
Essa
descoberta não fora premeditada pelos antis. Acontecera por puro
acaso, e o fato de encontrarem seus próprios trajes espaciais
representava uma sorte extraordinária.
Levantaram
o pesado conjunto, realizaram num instante os controles, que haviam
aprendido na Academia Espacial Solar, e depois de terem terminado
seus preparativos ao mesmo tempo, sorriram animadamente.
Stana
Nolinow deu o sinal de partida, e prosseguiram em sua caminhada que
deveria levá-los à superfície. O ataque, que ainda estava em pleno
andamento, oferecia-lhes uma chance de escaparem em meio à confusão.
O elevador
antigravitacional mais próximo não estava funcionando. Não
poderiam imaginar que os antis o haviam desligado poucos segundos
antes, para obrigá-los a utilizarem a escada de emergência.
Subiram
correndo. A escada era um artefato suspenso no ar, que levava ao
pavimento térreo. Os dois terranos corriam lado a lado, sem
desconfiar de que os antis os observavam pelo circuito de televisão.
— Fogo
sobre o alvo oito — disse um anti calmamente para dentro do
microfone.
E o alvo
oito foi atingido pelo disparo de uma nave cilíndrica que se
encontrava parada bem em cima do templo.
A porta da
eclusa foi estraçalhada bem à frente de Nolinow e Alkher. Os dois
oficiais sentiram-se ofuscados pela luminosidade do raio que abriu
uma cratera no solo. Antes que a onda de compressão os atingisse,
fecharam os capacetes e colocaram o filtro diante da lâmina do
visor.
Saíram
aos saltos para o ar livre, sem dar atenção ao inferno que rugia em
torno deles. Tiveram de separar-se no momento em que, contrariando a
orientação dos antis, um disparo atingiu em cheio a parede de
sustentação de um edifício baixo, no qual procuravam abrigar-se.
Envolto
numa nuvem de poeira e gás, Brazo Alkher comprimiu-se contra o solo.
Não sabia onde estava Stana. Preferiu não chamá-lo pelo rádio de
capacete.
O furacão
espalhou em todas as direções a nuvem que impedia a visão. De um
salto Brazo pôs-se de pé e, mais uma vez, sentiu que a gravitação
de Saós era 0,3 G superior à da Terra. Estava prestes a sair em
desabalada carreira, quando viu a trinta metros um anti que corria
pela área livre existente entre as construções.
A reação
de Alkher foi instantânea. Notara que se encontrava junto a uma
porta que levava para o interior do edifício baixo. Num movimento
rápido comprimiu a fechadura, abriu a porta e entrou. Naquele
instante, a intensidade do ataque diminuiu um pouco. Alkher, que
agora estava parado entre duas portas de eclusas, procurou calcular o
tempo que o anti levaria para chegar ao outro lado da área livre.
Aproveitaria a pausa para chamar Stana pelo rádio de capacete.
O receptor
começou a funcionar.
Brazo
Alkher não acreditou no que estava ouvindo.
Um
antimutante conversava tranqüilamente com os ocupantes de uma das
naves dos saltadores que participavam do ataque às instalações.
Ouviu o saltador responder em intergaláctico. O anti voltou a falar.
O nome Extan foi pronunciado. Não havia dúvida de que correspondia
a um clã dos mercadores galácticos.
O que
deveria fazer Extan? Avançar a linha de fogo?
Brazo
Alkher não conseguiu ouvir mais que isso. Ficou um pouco triste.
Stana
Nolinow chamou por meio de uma tecla de emergência, e Brazo teve de
mexer nos controles.
Respondeu
em código:
— Direção
da fuga: trezentos metros para a frente. Desligo.
Era a
indicação da posição de Stana.
Para
Brazo, a mensagem representava o sinal de que deveria abandonar seu
abrigo no interior da pequena eclusa. Fê-lo a contragosto. Teria
preferido voltar a regular seu rádio para a faixa em que estivera
antes, a fim de ouvir a palestra entre o saltador e o anti.
“Como
é possível que um anti converse tranqüilamente pelo rádio com um
membro do clã de Extan, dando-lhe o conselho de fazer avançar a
linha de fogo?”,
refletiu.
Acontece
que naquele momento Alkher não tinha tempo para pensar muito sobre
isso. Correu por cima da grande área, em direção a uma maciça
construção aboba-dada que abrigava uma das quatro usinas
energéticas. Mais uma vez o inferno parecia desabar sobre este mundo
de tormentas, vindo da densa camada de nuvens. Esguichos energéticos
saíam do chão à esquerda e à direita de Brazo.
Stana
Nolinow não poderia deixar de ouvir a respiração pesada do
companheiro em seu rádio. Dali a alguns segundos o mesmo apareceu em
meio aos vapores, aos gases e à poeira. Os dois terranos continuaram
a correr lado a lado. Mantinham-se em silêncio e vez por outra
lançavam um ligeiro olhar ao redor, a fim de não serem atingidos
por um disparo de radiações. Quando já haviam passado pela unidade
energética, um raio de desintegrador abriu o chão numa profundidade
de trinta metros, bem à sua frente, na periferia do centro
industrial. Alkher, cujas reações eram muito mais rápidas que as
de Nolinow, virou para a esquerda, arrastando seu companheiro.
Abandonaram
a proteção das instalações templárias e saíram para o fundo do
vale.
*
* *
Sem que
ninguém o convidasse, Allan D. Mercant sentou. Nem sequer levantou
os olhos quando Bell grunhiu em tom ameaçador.
— Não
me lembro de tê-lo convidado a comparecer à minha presença,
Mercant.
Mercant
remexeu nos papéis. Bell cutucou-o no ombro.
— Mercant,
acho que me exprimi com suficiente clareza.
Finalmente
o chefe da Segurança Solar levantou os olhos. A expressão de seu
rosto era indiferente. Não havia o menor sinal de que passara duas
noites sem dormir.
— Mister
Bell — disse com a voz tranqüila. — Poderemos conversar sobre
isso depois que o senhor tiver lido este papel.
Obrigou
seu interlocutor a pegar um documento. Bell aceitou-o com certa
relutância, sem desconfiar de nada.
— Tratado
secreto entre o Grande Conselho de Ácon e o Imperador Gonozal VIII —
leu Bell.
Ficou
sabendo que, nos termos do tratado, Atlan colocara à disposição do
Sistema Azul mil espaçonaves esféricas do último tipo. Ainda leu
que três naves haviam levado um equipamento completo de ensinamento
hipnótico para Drorah. Com isso seria possível transformar, num
brevíssimo espaço de tempo, os ancestrais dos arcônidas em
astronautas experimentados.
Bell fitou
o marechal solar. Estava pálido.
— O
chefe sabe disso? — perguntou muito confuso.
— Sabe.
Bell explodiu.
— Não
espere que lhe arranquem as palavras da boca, Mercant. O que foi que
o chefe disse?
— O que
poderia ter dito, mister...
Bell bateu
com a palma da mão na mesa. Mercant não se impressionou.
— O que
é que Perry pode ter dito? — perguntou Bell, em tom exaltado. —
Por certo disse a mesma coisa que eu direi, Mercant. O que Atlan
acaba de fazer é uma infâmia. É uma... é... O que foi mesmo que
Perry disse?
Bell fitou
seu interlocutor com certa consciência de culpa.
Sem dizer
uma palavra, Mercant tirou o documento das mãos do homem exaltado à
sua frente e voltou a colocá-lo numa pasta. Mercant bateu no maço
para tirar um cigarro, enfiou-o entre os lábios e acendeu-o. Deu
duas tragadas e só então dispôs-se a falar.
— Mister
Bell, o chefe não disse nada a este respeito, mas durante os quinze
minutos que estive com ele subiu quatro vezes à balança e se
pesou...
— O que
foi que Perry fez? Será que ouvi bem, Mercant? Ele se pesou? Quatro
vezes em quinze minutos?
Seguiu-se
o silêncio.
Esse
silêncio durou alguns minutos. Finalmente foi rompido por Bell.
— Está
doido? — perguntou sem rebuços.
— Não —
respondeu o marechal solar. — Apenas sente-se fustigado pelo medo.
— Isso
tem algo a ver com as pesagens?
— Talvez.
Como é que eu poderia saber? Será que ainda existe alguém a quem o
chefe faça confidencias? Desde o tempo em que realizamos a operação
em Okul não tem mais confidentes. Até parece que o chefe é uma das
vítimas daquele maldito entorpecente.
— Acho
que o senhor quer dizer que Perry Rhodan se tornou vítima de seu
filho Thomas Cardif. Seu Serviço de Segurança ainda não descobriu
onde anda esse sujeito, Mercant?
— Thomas
Cardif desapareceu em meio às estrelas, tal qual o arcônida
Banavol.
— Quem é
este?
— O
senhor já se esqueceu? Certo dia alguém deu ao chefe uma dica de
que um anti se havia introduzido no estabelecimento comercial dos
saltadores em Plutão. Segundo informou Perry, essa dica lhe foi dada
por Banavol. Tentei localizar esse Banavol. A Segurança não
conseguiu encontrá-lo. Desapareceu durante um vôo da Terra para
M-13.
— Mercant,
não foi por simples coincidência que o senhor voltou a este assunto
tão velho. Fale logo!
Mercant
levantou a mão, num gesto de recusa.
— É
claro que estou agindo com uma ação bem definida, mister Bell.
Nestes últimos tempos, quase todos que têm estado a sós com Rhodan
desaparecem tal qual fantasmas!
Bell
saltou da poltrona. Com largas passadas colocou-se junto à janela.
Parou e apoiou os cotovelos no peitoril. Manteve-se imóvel.
Mercant
esperou até que Reginald Bell reencetasse a conversa. Dali a pouco
ouviu-o dizer a si mesmo:
— Banavol
aparece e desaparece. Um anti encontra-se com o chefe no
estabelecimento de Plutão e morre. Stana e Alkher voam para
Peregrino com o chefe, e este volta sem os dois oficiais. E, se
examinarmos o assunto com mais cuidado, chegaremos à conclusão de
que isso teve início em Okul. Foi lá que pai e filho se encontraram
pela primeira vez a sós, depois de muito tempo afastados. E não foi
depois disso que Thomas Cardif desapareceu sem deixar o menor
vestígio, Mercant?
Mercant
respondeu em tom contrariado:
— Suas
especulações são um tanto levianas, mister Bell.
Bell
virou-se para o visitante, mas continuou parado junto à janela.
— O
senhor não pode negar que tudo começou em Okul.
— O que
quer dizer com isso, mister Bell? — perguntou Mercant, em tom
cauteloso.
— Os
antis não poderiam ter influenciado o chefe? Não poderiam ter
recorrido a um método que nossos médicos não conhecem, e talvez
nem mesmo os aras?
— Queira
exprimir-se com maior clareza, mister Bell.
Bell
cruzou os braços à frente do peito.
— Pois
não — disse, respirando pesadamente. — Talvez tenha havido
alguma forma de influência hipnótica ou sugestiva. Não consigo
livrar-me dessa idéia desde que John Marshall me disse que o chefe
pensa para dentro. Mercant, já começo a acreditar que as
modificações assustadoras que constatamos em Rhodan não foram
causadas exclusivamente pelo tratamento de choque. O senhor nem
imagina como estou nervoso depois que Perry foi buscar um ativador
celular em Peregrino... e esse aparelho está enterrado até a metade
em seu tórax. Todos sabemos que Ele tem um senso de humor quase
incompreensível para um ser humano, mas não o julgo capaz de fazer
uma brincadeira macabra. Mercant, será que Ele quer chamar nossa
atenção para alguma coisa, ou será que quer obrigar Rhodan a
manter-se dentro de certos limites? Será que, em Peregrino, Perry
fez alguma coisa de que nunca seria capaz se ainda estivesse de posse
das faculdades mentais de que era dotado antigamente?
— Bell,
o senhor voltou a aludir à possibilidade de que Perry esteja louco.
Se ele tiver conhecimento disso, o senhor poderá ter problemas —
disse o chefe de segurança, em tom de advertência.
Bell
soltou uma risada contrariada.
— O
senhor nem imagina como eu gostaria disso. Acontece que não ficarei
parado por muito tempo. A hora em que terei de agir aproxima-se
inexoravelmente. E quando essa hora chegar, Mercant, agirei a favor
de Perry, meu amigo doente, e não contra ele. Entendido?
— Nem
haveria necessidade de dizer isso, Bell. Sei perfeitamente o que o
chefe lhe representa, apesar de tudo que aconteceu. Só tenho medo de
que o senhor vá chocá-lo muito cedo...
O gorducho
interrompeu o inteligente Mercant num tom furioso:
— O
senhor acha que é cedo, no momento em que dois impérios correm
perigo de desmoronar? Quando Atlan pensa em aliar-se aos acônidas?
Isso é a mesma coisa que colocar a corda em torno do próprio
pescoço. E olhe que, por ocasião de nossa palestra, deixei bem
claro que jamais acontecerá aquilo que ele receia, face à
penetração de nossa frota do Império de Árcon.
Mercant
respondeu em tom indiferente:
— A
Segurança dispõe de provas de que sua palestra com Atlan, na qual o
senhor lhe forneceu certas garantias, foi ouvida pelo chefe.
Bell nem
pestanejou.
— Tanto
faz! Não tenho nada a esconder, mas não compreendo Atlan.
— Pois
eu compreendo, Bell — disse Mercant. — Certa vez Atlan me disse
que nos dez mil anos que permaneceu na Terra encontrou vários
amigos, mas só um amigo de verdade. E não se esqueça que, em
muitos pontos, Atlan pensa como um homem, não como um arcônida.
— Ele
não tem um cérebro adicional conhecido como o setor lógico? —
falou Bell em tom furioso, e com o rosto desfigurado fitou o
videofone, que emitiu um sinal. — O que será desta vez?
A Clínica
Central de Terrânia anunciou:
— Há
poucos minutos Perry Rhodan, o administrador, chegou à clínica de
Terrânia. Não se dispõe de qualquer informação sobre o motivo do
internamento.
Brazo
Alkher e Stana Nolinow pousaram no platô, situado a trezentos metros
acima do fundo do vale e a mais de cinco quilômetros do templo. Em
meio ao mortífero bombardeio de radiações acabara por
transformar-se em realidade aquilo que já não ousavam esperar.
Encontravam-se em relativa segurança e tinham motivos para supor que
os antis acreditavam que estivessem mortos.
Brazo e
Stana nem desconfiavam de que o bombardeio de radiações
literalmente os tangera para esse platô, e de que os antis os
mantiveram sob observação ininterrupta por meio de seu equipamento
de televisão. Principalmente Stana de nada desconfiava, pois este
não tinha ouvido o diálogo entre o anti e o mercador.
Encolhidos
num minúsculo nicho de pedra, os dois oficiais da Frota Solar
procuraram restabelecer-se das canseiras da fuga. Sabiam que
facilmente uma palestra pelo rádio de capacete poderia ser escutada,
motivo por que haviam desligado esse meio de comunicação.
Nesse
momento, Brazo Alkher lembrou-se de ter escutado a palestra
radiofônica entre um anti e um dos saltadores que atacavam as
instalações, durante a qual o mercador galáctico recebeu em sua
nave cilíndrica uma solicitação de fazer avançar a linha de fogo.
Esteve prestes a ligar novamente seu rádio de capacete, mas no
último instante deu-se conta do risco que isso representaria. Por
Stana Nolinow não ter ligado, durante a fuga, seu rádio de
capacete, não teve conhecimento do fato. Poucos instantes depois nem
mesmo Brazo se lembrava mais desse acontecimento, pois os saltadores
iniciaram outro ataque contra as instalações dos antis.
Stana
sentiu através do traje espacial a mão de Brazo que o apertava.
Olharam-se e piscaram um para o outro. Alkher foi saindo do nicho de
pedra, fez algumas regulagens em seu traje de guerra, a fim de
enfrentar as fúrias do tufão, e rastejou até a beira do platô.
Queria
saber o que restara das instalações depois do tremendo ataque.
Um oceano
de nuvens impenetráveis surgiu diante dos seus olhos. Não viu o
menor sinal do templo de Baalol.
Brazo
Alkher ligou os microfones externos para o volume máximo. O ribombar
das explosões que rugiam no fundo do vale quase lhe arrebentou os
tímpanos, mas não se incomodou com isso. Virou a cabeça, que se
encontrava coberta pelo capacete de visão total, e passou a fitar as
nuvens acima dele.
Vez por
outra ouvia o trovejar inconfundível de potentes propulsores a jato.
Uma grande frota de espaçonaves cilíndricas devia circular acima do
vale. Naquele instante, as suspeitas de Brazo obtiveram mais um
reforço.
“Será
que essa multidão de naves armadas já não devia ter concluído há
tempo a obra de destruição das instalações industriais?”,
refletiu. “Será
que o ataque desfechado contra o templo não é uma farsa?”
Mas
naquele instante uma terrível língua de fogo abriu-se nas
profundezas do vale, fazendo com que por pouco Brazo Alkher não
enterrasse suas suspeitas. Ao mar de chamas que se expandiu para
todos os lados, seguiu um ribombo que deixou Brazo surdo por alguns
minutos.
Subitamente
viu uma sombra à direita. Tratava-se de uma nave auxiliar
balouçante, do tipo que os saltadores levavam em suas naves
cilíndricas, para poderem salvar-se num caso de emergência.
E o barco
espacial pousou cem metros atrás dele, a uma distância não
superior a trinta metros do esconderijo onde Stana aguardava sua
volta.
Brazo
resolveu arriscar tudo. Ligou o rádio de capacete.
— Stana...
Stana já
aguardava o chamado.
— Está
bem, irmão — disse. — Verei o que posso fazer.
Na Frota
Solar já se sabia do que o Tenente Stana Nolinow era capaz quando
usava esse tipo de linguagem. Observara o barco espacial e,
desconfiado, piscara os olhos embaixo do capacete. Ficou sem saber se
o balouçar do barco era genuíno, ou se era um blefe para atraí-los
a uma armadilha. Procurou em vão qualquer sinal de avaria no casco.
Surpreendeu-se ao ver a escotilha abrir-se e dois saltadores
aparentemente feridos saírem do barco. Um dos dois mal conseguia
mover-se. O outro arrastava-o para a popa.
Stana
Nolinow, que se mantinha à espreita, gostaria de saber se os dois
saltadores que acabavam de sair representavam toda a tripulação do
veículo espacial, ou se havia outros mercadores a bordo. Os dois
terranos não possuíam nenhuma arma, e por isso tinham de agir com
uma cautela toda especial.
— Bem,
veremos! — disse Stana para si mesmo.
Observou
os dois saltadores, que examinavam o setor do barco onde ficavam os
propulsores.
Nolinow
aproveitou uma nuvem baixa vinda do vale, que foi tangida pelo platô
em direção ao barco, e saiu correndo.
Levou duas
quedas, e só mesmo o resistente traje espacial evitou que se
ferisse. Apesar da gravitação de 1,3 G conseguiu alcançar a
escotilha com apenas um salto. Com outro colocou-se no centro da sala
e suspirou aliviado.
O barco
espacial estava vazio.
Stana
conhecia esse tipo de veículo. Sabia onde ficava o armário em que
eram guardadas as armas. Com três passos colocou-se à frente do
mesmo, abriu-o apressadamente e viu uma porção de armas à sua
frente.
Stana
Nolinow serviu-se à vontade, mas não se esqueceu de verificar os
indicadores de potência. Enquanto guardava a terceira arma, sorriu
de alegria. O saltador encarregado das armas devia ser um sujeito
muito cuidadoso, pois todas as armas energéticas estavam carregadas
ao máximo de sua capacidade.
Nolinow
examinou o barco. Havia um sinal insignificante de impacto no
costado. Por acaso lançou os olhos para o chão. A poça de sangue
falava uma linguagem inconfundível. Removeu as últimas
desconfianças de Stana Nolinow. Não poderia imaginar que aquilo que
tinha diante de si era o conteúdo de uma conserva de sangue, e que o
pouso daquele barco espacial representara parte do plano dos antis.
De repente
a voz de Brazo berrou em seu alto-falante de capacete.
— Stana,
eu os agarrei. Os dois.
Com um
salto Nolinow saiu da pequena nave. Segurava uma arma em cada uma das
mãos.
Correu
para o ponto onde ficava o propulsor do barco. Naquele momento a
visibilidade sobre o platô era excelente. As nuvens mais próximas
eram tangidas pelo furacão a uma altitude de cem metros.
Viu Brazo
ajoelhado sobre um dos saltadores, enquanto o outro jazia imóvel no
chão.
— Um
deles está ferido, Brazo! — gritou Stana pelo rádio.
— Era o
que eu imaginava — respondeu Brazo. — Os dois caíram antes que
eu pusesse as mãos neles de verdade...
Stana
Nolinow chegou ao lugar em que estava o companheiro. Virou de costas
o saltador que jazia imóvel. Viu um rosto barbudo cujo lado direito
estava sujo de sangue. Ao que tudo indicava aquele homem estava
inconsciente.
— O que
vamos fazer com eles? — perguntou apressadamente.
De repente
o chão parecia arder sob seus pés. Se conseguissem decolar com a
pequena nave, e se o propulsor não tivesse sofrido avarias mais
sérias, dali a algumas horas poderiam estar trabalhando novamente a
bordo da Ironduke.
— Vamos
deixá-los aqui mesmo! — decidiu Brazo. — Daqui a pouco, meu caro
saltador, estará bem de novo, e daqui até o templo não é muito
longe. Além disso, há muitos barcos cilíndricos passando por aqui.
Este barco está em condições de decolar?
Sem dizer
uma palavra, Brazo pegou as armas portáteis que Nolinow lhe
entregou. Lançaram mais um olhar para o mercador que jazia no chão
e correram em direção à escotilha do barco.
Assim que
se encontravam no interior do barco, Stana mostrou ao companheiro o
local do impacto no costado da nave.
Brazo
pensou: “Isto
foi feito de propósito.”
Naquele
momento, mais uma vez lembrou-se de que um anti conversara
amavelmente com o saltador Extan, que participava do ataque, a fim de
pedir-lhe que fizesse avançar a linha de fogo.
— Feche
a eclusa e abra o ar, Stana!
Com um
salto Brazo acomodou-se na poltrona do piloto.
Stana
Nolinow aceitou sem a menor objeção o comando do companheiro.
Assim que
a escotilha se fechou, acionou as bombas que expeliam a atmosfera de
Saós. Sem sair da poltrona do piloto, Brazo fez um exame acurado do
propulsor.
— Isso é
pura tapeação!... — ouviu Stana no seu capacete.
Não tinha
a menor idéia do que Brazo quis dizer com isso, mas não formulou
nenhuma pergunta. Qualquer demora poderia ser fatal para os dois
oficiais.
Não
poderiam imaginar que, naquele instante, Kutlós esfregava as mãos
de satisfação, sem tirar os olhos da tela que exibia um pequeno
barco auxiliar dos saltadores, pousado num platô de rocha.
Mas da
mesma forma que os dois terranos não sabiam que estavam sendo
vigiados, Kutlós nem desconfiava de que o plano tão dispendioso por
meio do qual se pretendia transformar Saós no planeta Trakarat
praticamente já podia ser considerado um fracasso.
Um jovem
oficial da frota terrana, que parecia um adolescente, estava prestes
a desmascarar o plano dos antis.
— Mas é
claro! — disse a voz furiosa de Brazo, saída do alto-falante do
capacete de Stana. — Como está o ar?
— Daqui
a pouco atingirá a pressão de uma atmosfera, Brazo! — disse Stana
depois de lançar um olhar para o manômetro.
O corpo da
nave auxiliar começou a vibrar. Brazo colocou em funcionamento o
mecanismo propulsor. Não houve necessidade de deixá-lo trabalhar em
ponto morto. Todos os aparelhos que exigiam aquecimento já se
encontravam na temperatura normal de funcionamento.
— O ar
está bom! — anunciou Nolinow.
Abriu o
capacete, e Alkher seguiu seu exemplo.
O barco
espacial subiu que nem um torpedo. Brazo fê-lo descrever uma curva
junto a uma encosta rochosa. Stana Nolinow acomodou-se na poltrona do
co-piloto. Deu uma olhada para os instrumentos e constatou que Brazo
voava para o norte e fazia descer violentamente a pequena nave.
— Vai
cortar a ponta da pirâmide? — perguntou em tom exaltado.
— Não;
quero ver quantas espaçonaves estão pousadas junto ao templo para
cumprimentar os antis.
— Até
que você tem senso de humor! — constatou Stana em tom de espanto.
— Por que não faz tudo para sairmos daqui quanto antes?
— Porque
quero saber se eles tentaram enganar-nos e... Olhe! Está vendo as
naves?
Essas
palavras foram gritadas por Brazo. As nuvens abriram-se, permitindo a
visão sobre o templo. O mesmo deveria ter sido reduzido a escombros,
mas na verdade praticamente não fora danificado. Mas o que mais
chamava a atenção era o fato de que sete ou oito espaçonaves
cilíndricas estavam pousadas no pequeno porto espacial, mostrando as
escotilhas de carga abertas.
— Fogo
da esquerda! — gritou Stana Nolinow em tom áspero.
O disparo
de radiações feito por um posto de defesa dos antis veio com um
atraso de fração de segundo. Brazo fez o barco descrever uma curva
fechada para a esquerda, submetendo seu casco a uma tensão tremenda.
Valeu a pena assumir o risco. O disparo passou a mais de um
quilômetro do barco.
— Será
que isso também foi de propósito? — resmungou Brazo com um olhar
indagador para o companheiro.
— Você
é um otimista incorrigível! — objetou Stana, que ainda não
aceitara a teoria de Brazo. — Apenas tivemos sorte. Acontece que
você procura virar tudo de pernas para o ar e até é capaz de
afirmar que os antis nos mandaram este barco...
— Mandaram
mesmo, Stana, mandaram mesmo. O próprio ataque dos mercadores
galácticos não passa de um blefe. Queriam enganar-nos com isso.
Querem que escapemos aos queridos servos de Baalol para contar ao
chefe, logo após nosso regresso à Terra, que estivemos em Saós, um
planeta que os antis chamam de Trakarat. Por pouco não caio nessa.
Ainda bem que ouvi essa palestra pelo rádio. Olhe para a
localização, Stana. Você vê qualquer nave que nos persegue?
— Não.
E isso me deixou surpreso durante todo o tempo que você gastou para
fazer seu discurso. Com a frota enorme de que eles dispõem teria
sido fácil pegar-nos. Mas o que foi que você ouviu? Uma palestra
pelo rádio?
Enquanto o
pequeno barco subia cada vez mais, deixando Saós para trás, Brazo
relatou a experiência pela qual passara.
No fim
Stana soltou um assobio. Lançou um olhar de admiração para Brazo.
Não teve dúvida em confessar:
— Não
sei se eu teria notado isso. Você já tinha ouvido falar em
Trakarat?
— Nunca.
Mas sou capaz de jurar que esse mundo de Trakarat assume uma
importância extraordinária para os antis. Stana, redija a mensagem
que vamos transmitir pelo hiper-rádio. Tenho a impressão de que
quanto mais cedo avisarmos o chefe, melhor.
— OK.
Vou esquentar o transmissor.
Dali a
alguns minutos, Nolinow tinha o texto à sua frente e o codificou
segundo o modelo simplificado. O barco não possuía o equipamento de
condensação e distorção de mensagens. Mas dispunha de um pequeno
computador positrônico. Stana Nolinow acoplou o hiper-rádio ao
mesmo. Graças ao seu funcionamento ultra-rápido, o aparelho só
levou alguns segundos para transmitir o texto codificado por meio de
sinais positrônicos.
Dali a
trinta segundos receberam a resposta:
Texto
incompreensível. Repitam.
Stana e
Brazo sorriram.
— Não
faremos nada disso — decidiu Stana. — Nem pensamos em enviar uma
mensagem em texto claro, fazendo com que os antis saibam que
descobrimos o logro que quiseram passar-nos. Vamos é irradiar um
pedido de socorro. Só quando respirar um ar puro de bordo, me
sentirei bem, mas...
Ficou
calado.
— Mas o
quê? — insistiu Brazo, cuja mão esquerda transmitia ao computador
positrônico de bordo o comando de preparar a transição.
— Quando
penso no chefe, Brazo, não me sinto nada feliz em voltar à Terra.
Isto não parece uma loucura?
— Se é
uma loucura, também sou louco, Stana. Não consigo ficar contente.
Até chego a ter medo do encontro com Perry. Durante o vôo de
regresso do planeta Peregrino e a bordo da Baa-Lo, fiquei apavorado
com ele.
*
* *
Kutlós,
que estava sentado entre o televisor e o hiper-rádio, viu o barco
romper as linhas das naves cilíndricas e correr em direção ao
espaço. Em seu interior estavam os terranos.
— Esta
nave não deve ser perseguida — disse Kutlós ao operador de rádio.
O agente
que mantivera contato com Thomas Cardif na Terra manifestou suas
dúvidas.
— O
barco voou muito baixo sobre o templo, Kutlós. Os terranos devem ter
visto as naves cilíndricas pousadas por aqui.
— E daí?
— perguntou Kutlós em tom áspero. — Estas naves não podem ter
sido surpreendidas pelo ataque dos saltadores? Levamos o plano a um
ponto em que não podemos voltar atrás. Apenas devemos apressar-nos
para desmontar e remover as instalações industriais antes que um
grupo de naves da Frota Terrana apareça nos céus de Saós.
O agente
ainda tinha suas dúvidas.
— Tomara
que tudo corra segundo os preparativos e as expectativas, Kutlós.
Quando me lembro desses terranos muito jovens, começo a duvidar do
êxito da operação. Quando estive na Terra pedi informações sobre
esses homens. O tenente de aspecto tão inofensivo é o melhor
oficial de armamento da Frota Solar!
Um sorriso
largo surgiu no rosto de Kutlós.
— Tanto
melhor. Neste caso as informações desse terrano pesarão mais nas
decisões do comando da frota. Mas por que só agora sou informado
sobre a importância desse homem?
O sorriso
de Kutlós desmanchou-se. Seus olhos chamejavam de raiva.
O receptor
de hiper-rádio do templo captou a primeira mensagem que Alkher e
Nolinow enviaram às naves da Frota Solar.
— Está
codificada, senhor — disse o radioperador. — Dentro de poucos
minutos teremos o texto em linguagem clara.
Cumpriu a
promessa. A decifradora positrônica não teve a menor dificuldade em
decifrar o código simplificado. Mas a sorte dos antis de Saós não
foi melhor que a dos tripulantes do cruzador que enviara esta
resposta:
Texto
incompreensível. Repita.
O agente,
que falava o terrano como sua língua materna, franziu a testa
enquanto repetia a leitura do texto decodificado. Depois de algum
tempo confessou em tom resignado:
— Não
compreendo!
Kutlós
não estava muito interessado em saber o que o agente não
compreendia. Apenas queria saber se a palavra Trakarat aparecia na
mensagem.
— Há
duas alusões ao planeta, Kutlós, mas o nome não é mencionado. A
palavra estabelecimento aparece uma vez, mas o restante do texto é
incompreensível...
Viu-se
interrompido pelo recebimento de outra mensagem de hiper-rádio.
Imediatamente o agente fez a tradução. Para ele apenas assumiam
certa importância as três palavras nas quais um cruzador da Frota
Solar, que se encontrava no grupo estelar M-13, pedia aos dois
oficiais do barco espacial que repetissem a mensagem.
De repente
o rosto de Kutlós descontraiu-se. Foi-se levantando devagar.
— Podemos
dar-nos por satisfeitos — disse, dirigindo-se ao agente. — Os
terranos engoliram a isca. O plano vai correndo muito bem.
*
* *
A nave
Ganges, um cruzador da classe Estado pertencente à sexta
esquadrilha, captou a mensagem de hiper-rádio expedida pelos dois
oficiais que acabavam de fugir de Saós. O comandante só teve
conhecimento da mesma quando já tinha sido expedida a ordem de
repeti-la. Ao ouvir os nomes Alkher e Nolinow, entrou em pânico.
Falou asperamente ao seu oficial da equipe de rádio:
— Será
que estes nomes não significam nada para o senhor? São os oficiais
que levaram o chefe para Peregrino e ficaram presos na nave
cilíndrica Baa-Lo, enquanto Perry foi libertado. E olhe que todos
acreditavam que estivessem mortos. Tenente Bilk, não me olhe desse
jeito. Expeça uma mensagem destinada à Segurança Solar e ao chefe.
Transmita o texto de Alkher tal qual o recebemos. Espero que cumpra
esta ordem dentro de três minutos.
Mal o
comandante acabou de falar, os rastreadores estruturais do cruzador
constataram o hipersalto do barco espacial no qual Alkher e Nolinow
haviam fugido de Saós.
— Quero
as coordenadas! — disse.
A chave
sincronizada fixou-se em certa posição. Os jatos da Ganges
começaram a trabalhar com a potência máxima. A nave esférica
daria um salto pelo semi-espaço, que a faria sair nas proximidades
do barco espacial, a fim de recolher os dois oficiais.
O grande
computador positrônico já estava trabalhando para preparar o salto.
*
* *
Os médicos
não permitiram que Reginald Bell e Allan D. Mercant entrassem na
sala em que o chefe estava sendo examinado. Os dois conformaram-se
com isso, mas não saíram da ante-sala.
O médico,
ao qual coubera a tarefa nada agradável de detê-los, falou com toda
franqueza.
— Não
poderemos fornecer-lhes qualquer informação sobre o resultado do
exame, a não ser que o chefe nos dispense expressamente do dever de
guardar o sigilo profissional.
— Pois o
chefe os dispensará! — afirmou Bell em tom convicto, fingindo uma
segurança que não sentia.
O médico
despediu-se e os dois viram-se a sós.
Do outro
lado da porta, Cardif-Rhodan estava sendo examinado. O computador
positrônico fornecera todos os dados médicos a respeito de sua
pessoa. Tais dados não comportavam qualquer dúvida, e viram-se
confirmados pelo exame que estava sendo realizado.
— Sir —
disse Bock, um médico residente. — Sob o ponto de vista orgânico,
o senhor é completamente sadio.
Cardif-Rhodan
interrompeu-o em tom áspero.
— Isso
não me interessa. Explique como engordei mais de oitocentos gramas,
explique como pude crescer mais de um centímetro e como minha
cintura aumentou três centímetros. Foi por isso que vim para cá.
Quero que o senhor me dê respostas para estas perguntas.
Não se
importou com o fato de que os médicos não se sentiram nada
encantados com seus modos arrogantes.
— Sir,
não temos explicação para isso, mas se o senhor faz questão de
que descubramos as causas dos três fenômenos teremos de realizar
certos exames que exigirão sua permanência na clínica.
— O que
quer dizer com isso? Faça o favor de exprimir-se com maior clareza,
doutor! — gritou Cardif-Rhodan, e o pânico voltou a tomar conta
dele.
Sentia-se
muito bem: o ativador celular estava funcionando, e toda vez que o
fluido emanado desse aparelho penetrava em seu corpo tinha a
impressão de ser banhado por uma fonte da juventude. No entanto, o
fato de que, além de engordar, também crescera em altura, fizera
com que se sentisse tomado de pânico e corresse apressadamente para
a clínica.
Teve de
esforçar-se muito para não trair-se em virtude de seus
conhecimentos médicos. Compreendia todos os termos técnicos usados
em sua presença, pois, ao mesmo tempo em que usara o nome Hugher,
fora um dos médicos mais conhecidos. Teve de enfrentar dificuldades
medonhas para, em meio à psicose do medo, desempenhar o papel de
leigo. E os esforços que teve de realizar foram tamanhos que perdeu
todo o autocontrole.
— Por
que não dizem nada? — perguntou em tom enérgico, fitando os
médicos um por um.
Já tinha
um pressentimento dos motivos que o fizeram crescer e engordar.
Afinal, possuía seus conhecimentos médicos. No entanto, preferia
afastar esse pressentimento. Seu ser revoltava-se contra tal
pessimismo. Além de mentir a si mesmo, queria que os médicos mais
importantes do Império Solar também lhe contassem mentiras. Queria
que descobrissem qualquer motivo para as alterações que sofrerá
nas últimas horas, mas não queria que descobrissem o motivo que lhe
infundia um terrível pavor.
Bock
exprimiu-se com a maior cautela.
— Sir,
talvez haja necessidade de intervenção cirúrgica.
— Na
situação política tensa em que nos encontramos? — objetou
Cardif-Rhodan. — Acham que isso pode ser feito?
O
professor Manoli, que até então se mantivera em silêncio,
sentiu-se na obrigação de prosseguir na palestra com Perry Rhodan.
— Sir,
posso garantir que as intervenções previstas não o prenderão ao
leito por mais de três horas. Sugiro que por enquanto permita que
realizemos uma análise do tecido celular, que praticamente não lhe
causará nenhum incômodo, mas poderá fornecer-nos esclarecimentos
preciosos.
O
professor Manoli não compreendeu por que o chefe o fitava com os
olhos cintilantes de um homem acossado pelo medo, que já não sabia
o que fazer. Também viu os pingos de suor na testa de Rhodan e notou
que os lábios tremiam. E agora ouviu a voz do homem, que num
trabalho incansável construíra o Império Solar:
— Realizem
a análise do meu tecido celular.
Os
preparativos já haviam sido tomados. A coleta do material não
demorou mais que um minuto. O remédio ara, aplicado em forma de
spray, fez que a pequena ferida no antebraço de Cardif-Rhodan
desaparecesse imediatamente, cicatrizando dentro de três horas sem
deixar o menor vestígio.
O exame do
tecido foi iniciado. O chefe, que voltara a vestir-se, estava parado
junto à janela que dava para o pátio interno.
Não
conseguia encarar os médicos. Sabia que seu rosto estava marcado
pelo pavor. Temia o resultado do exame como nunca temera nada em sua
vida.
A voz
cochichante que ouvia dentro de si, e que pretendia dizer-lhe qual
era o mal que o abatia, tornava-se cada vez mais forte. Dali a pouco
não teria mais forças para reprimi-la.
“De
repente minha cintura aumentou três centímetros”,
pensou e sentiu as palmas da mão úmidas de suor, mas não pôde
deixar de levar este pensamento até o fim. O medo fê-lo proceder
assim contra sua vontade.
“Em
poucos dias cresci um centímetro. O uniforme começou a ficar
apertado em tudo quanto é lugar e já é um pouco curto”,
voltou a refletir.
Por alguns
segundos as batidas fortes do ativador celular interromperam seus
pensamentos. Um fluido, que provocou uma sensação refrescante,
atravessou seu corpo e deu-lhe forças para empertigar-se de repente.
Com o desespero do náufrago agarrou-se á idéia fixa de que o
ativador celular lhe dava sempre uma porção de vida eterna.
Uma porta
fechou-se atrás dele. Três médicos acabavam de entrar na grande
sala de exames e aproximavam-se do lugar em que se encontrava. Mais
uma vez sentiu-se dominado pelo pânico, mas num esforço admirável
conseguiu dominar-se. Virou-se e perguntou com a voz tranqüila:
— O que
é?
— Sir —
principiou o professor Redstone. — Cabe-me desempenhar a tarefa
bastante desagradável de informá-lo de que o senhor sofre de cisão
celular explosiva.
Naquele
instante Thomas Cardif teve a impressão de ouvir a voz do Ser
fictício de Peregrino:
— Perry
Rhodan, desfaça-se do ativador celular, senão você ficará grande
e forte demais.
Só agora
compreendia estas palavras. Só agora compreendia por que, durante
cinqüenta dias, o Ser coletivo o prevenira constantemente. Ele
sempre o chamara de Perry Rhodan. Mas na verdade Aquilo pretendia
lembrá-lo de que não era Perry Rhodan.
E ele,
Cardif, não quisera compreender a advertência.
“Cisão
celular explosiva!”,
repetiu mentalmente.
Cardif
sabia o que significava isso. Em seu organismo, o processo normal de
cisão celular atingira um estágio explosivo permanente. E o fato
era causado pelo ativador celular, que se integrara organicamente em
seu tórax.
— Sir —
ouviu a voz do professor Redstone, que parecia vir de longe. —
Salvo engano, podemos afirmar que o processo de cisão celular não é
de natureza maligna.
Mas por
enquanto não sabemos qual é a causa da divisão ultra-rápida das
células.
Thomas
Cardif teve de controlar-se ao máximo para reter o seguinte
pensamento desesperado: “A
causa da divisão de minhas células está incrustada em meu tórax.
Este aparelho, que deveria proporcionar-me a vida eterna, me traz a
morte.”
Limitou-se
a dizer em voz débil:
— Obrigado.
O
professor Redstone foi de opinião que devia dizer-lhe algumas
palavras a título de consolo.
— Sir —
disse. — Temos certeza de que dentro de poucos dias conseguiremos
deter este processo de divisão das células.
Nem
imaginava que estava dirigindo estas palavras a um médico que, como
todo e qualquer médico, sabia que não havia remédio contra isso.
Era o primeiro ser da Galáxia que padecia de cisão celular
explosiva.
Até então
essa doença não surgira na Terra.
— Obrigado,
professor — voltou a dizer Cardif-Rhodan.
Depois
estacou em meio ao passo e aguçou o ouvido.
A grande
estação de hiper-rádio de Terrânia acabara de receber uma notícia
importante para o chefe.
O cruzador
ligeiro Ganges, que operava no império estelar dos arcônidas
juntamente com as demais unidades da Frota do Império Solar,
anunciou que estava a caminho para recolher os tenentes Stana Nolinow
e Brazo Alkher. A seguir transmitiu o texto da mensagem expedida
pelos dois oficiais que se encontravam no barco espacial.
Cardif-Rhodan
ouviu o nome dos dois oficiais que abandonara vergonhosamente a bordo
da nave Baa-Lo e compreendeu a mensagem enviada por eles. No mesmo
instante lembrou-se das últimas palavras proferidas pelo antimutante
agonizante, no planeta de Utik. Este aludira ao planeta Trakarat.
Uma
esperança absurda alvoroçou sua mente. Com a coragem do desespero
agarrou-se à idéia de que os antimutantes deveriam ser capazes de,
com o saber de que dispunham, dominar o processo de cisão celular.
Devia ir a
Saós o mais rápido possível!
Cardif-Rhodan
esquecera-se de que estava cercado por médicos, que o observavam
constantemente.
Naquele
instante estava elaborado o plano que levaria os antis a ajudá-lo.
Contou com a possibilidade de que não se dispusessem a fazer
qualquer coisa por ele. Nesse caso as instalações de Saós seriam
destruídas juntamente com o planeta.
— Quero
que me levem de volta!
Estas
palavras, pronunciadas em tom áspero, surpreenderam os médicos, que
se entreolharam e balançaram levemente a cabeça.
*
* *
Os dois
homens que se encontravam na ante-sala, à espera de Rhodan, também
ouviram a mensagem, já que segundo as ordens do comandante da Ganges
a notícia não fora enviada apenas ao chefe, mas também ao Marechal
Solar Mercant.
A última
sílaba ainda ressoava nos ouvidos dos homens, quando Mercant, com um
nervosismo que era raro em sua pessoa, pediu a Reginald Bell que o
acompanhasse.
O
planador-relâmpago aguardava junto à entrada. Num instante levou-os
ao quartel-general da Segurança. Durante a viagem, Mercant
imediatamente começou a transmitir suas instruções. Assim que
chegou ao seu gabinete, acompanhado de Bell, os preparativos mais
importantes já haviam sido concluídos.
Seguiu-se
uma ligeira conferência, do tipo que antigamente Rhodan costumava
realizar.
— Senhores
— disse Mercant aos cinco colaboradores que se encontravam em seu
gabinete. — Precisamos descobrir a posição galáctica do planeta
Trakarat. Se não me engano, a mensagem de Alkher diz que em Saós
existem antis que podem dar-nos informações a este respeito. Os
senhores sabem quando ouvimos falar pela primeira vez no mundo
Trakarat. É o lugar de origem dos antis, ou o lugar em que
atualmente se encontra sua sede central. Recomendo-lhes
encarecidamente guardar o maior sigilo. Quaisquer informações serão
fornecidas exclusivamente a mim ou a mister Bell. Entendido? Podem
retirar-se. Um momento, vamos aguardar esta mensagem...
A tela do
videofone iluminou-se.
O rosto do
epsalense Jefe Claudrin apareceu. O comandante da nave linear
Ironduke viu na tela a pequena conferência realizada no gabinete de
Mercant. Logo tirou suas conclusões.
— Marechal
solar — trovejou sua voz. — Acabo de receber do chefe uma ordem
para decolar às 15:10 h, com destino ao sistema de Saós, situado no
grupo estelar M-13. Também ouvi o chefe colocar em estado de
prontidão vários grupos de unidades de nossa frota que, até então
eram mantidos em reserva. O senhor também deverá ir a Saós. O
chefe subirá a bordo às 14:50 h.
Mercant
acenou com a cabeça para Jefe Claudrin e desligou. Fitou
intensamente os colaboradores que se encontravam em seu gabinete.
— Os
senhores estão tão bem informados quanto eu. Se precisarem de
auxiliares, levem homens que mereçam confiança irrestrita. Não
tenho mais nada a dizer sobre este caso. Encontrar-nos-emos às 14:30
h, a bordo da Ironduke. Os senhores dispõem de vinte minutos para
concluir seus preparativos. Bom dia.
Bell e
Mercant viram-se a sós.
— O
senhor pensou em todas as conseqüências? — perguntou Bell.
— Sei o
que quer dizer, mister Bell. Está pensando em Atlan. Se o imperador
descobrir que outras unidades estão penetrando no sistema M-13,
interpretará isso como um ato de hostilidade. Sua reação poderá
consistir numa declaração de guerra formal. Mister Bell, o senhor é
a única pessoa capaz de evitar a catástrofe. Atlan ainda tem um
pouco de confiança no senhor. Eu...
Ouviu-se
uma batida. A porta abriu-se e o professor Manoli entrou. Foi
recebido em silêncio.
As
palavras que proferiu causaram uma estranha impressão:
— Nenhuma
pessoa que possa estar interessada nisso deve saber que estou aqui. O
chefe está acometido de um processo de cisão celular explosiva. A
responsabilidade de que me acho investido obriga-me a informá-los
sobre isto.
Bell e
Mercant fitaram-se sem dizer uma palavra. O nome da doença não lhes
dizia nada.
Sem que o
pedissem, Manoli explicou o estado de Perry. Enquanto falava, o rosto
de Bell tornava-se cada vez mais pálido.
— Terá
de morrer? — perguntou em tom apavorado.
— Não
tenho nenhuma esperança. Alguns dos meus colegas são de outra
opinião. Talvez eu esteja errado. Por enquanto ninguém pode afirmar
nada. É a primeira vez que esta doença surge na Terra.
— Será
que a doença foi provocada pelo ativador celular? — perguntou Bell
em tom exaltado.
Manoli
respondeu com outra pergunta.
— O
senhor julga o Ser capaz duma coisa dessas, mister Bell?
Os três
homens que se encontravam no gabinete já haviam recebido várias
aplicações da ducha celular do planeta artificial e conheciam o Ser
fictício.
— Não!
— respondeu Bell em tom enérgico.
— Então...
— retrucou Manoli. — Se é assim, a causa da doença do chefe
deve ser outra. Acontece que não a conhecemos; ainda não.
— O
senhor ainda tem esperanças? — perguntou Mercant, com um brilho
fugaz nos olhos.
Um sorriso
triste surgiu no rosto de Manoli.
— Afinal,
somos criaturas humanas que vivem da esperança... Conservamos a
esperança até o último instante. Portanto, esperemos que o chefe
seja curado por um milagre, pois, do contrário, poderá
transformar-se num monstro.
As últimas
palavras foram proferidas em voz tão baixa que Bell e Mercant quase
não conseguiram entendê-las.
Bell
refletiu.
— Professor,
será que o senhor se zanga se eu voltar a aludir ao tratamento de
choque?
— Não,
mister Bell. Também vivo pensando nisto. No entanto, também é
possível que a doença de Rhodan tenha sido causada pelos antis. Não
devemos esquecer-nos de que, em Okul, o chefe ficou nas mãos deles
por muitas horas.
Bell
lançou um olhar penetrante para Mercant. O marechal solar acenou com
a cabeça.
— Compreendi,
Bell. Isso nos impõe mais uma tarefa. Devemos descobrir se a doença
pode ser atribuída aos antimutantes. Em caso afirmativo, nós os
obrigaremos a curá-lo.
— Isto é
muito mais fácil de dizer que fazer. Mas não podemos deixar de
tentar.
Bell
ergueu-se abruptamente e lançou um olhar para o relógio.
— Está
na hora. Professor, será que o senhor quer acompanhar-nos no vôo da
Ironduke para o planeta Saós?
Manoli fez
que não.
— Todos
conhecem as alterações que o chefe sofreu nestas últimas semanas.
Se eu aparecer na Ironduke, poderei provocar suspeitas nele. E os
senhores terão melhores condições de vigiá-lo se o deixarmos na
crença de que não sabem que está doente.
O rugido
de centenas de propulsores tornou impossível qualquer forma de
palestra. Os três homens foram à janela e viram um grande grupo de
naves da classe Estado disparar em direção ao céu. Tomavam o rumo
do planeta Saós, situado no grupo estelar M-13.
— Vamos
andando — disse Bell, quando o barulho diminuiu um pouco.
Assim que
chegaram à porta, despediram-se do professor Manoli. O
planador-relâmpago levou-os ao lugar em que se encontrava a nave
linear Ironduke, um veículo espacial esférico de oitocentos metros
de diâmetro. Entraram pela eclusa C. Bell deu uma ordem ao oficial
de serviço junto à eclusa:
— Não
anuncie nossa chegada. Se houver problemas, pode dizer que eu dei a
ordem.
Fez como
se não visse o rosto espantado do experimentado oficial. Bell teve a
impressão de que não poderia agir de outra forma.
Dirigiram-se
ao camarote em que Mercant costumava ficar. Através do sistema de
intercomunicação de bordo ficaram sabendo que o chefe comparecera
pontualmente. A Ironduke decolou no momento exato.
Acelerou
mais fortemente que de costume. Cardif-Rhodan dera ordens para isso.
O medo de morrer fazia com que ansiasse por chegar logo a Saós...
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O
Imperador e o Monstro,
é este o título do próximo volume, que contém uma história cheia
de drama e tensão.

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