segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-114 - O Chamado da Eternidade- Kurt Brand [Parte 3]

Assim que Mercant começou a falar, o Coronel Nike Quinto levantou-se e aguçou o ouvido. Não teve tempo para formular sua pergunta, pois Bell antecipou-se.
Será que isso já faz com que alguém pegue a fita métrica? Para mim, os acontecimentos destes últimos dias são demais. Por que Perry arranjou um ativador celular? O que menos compreendo é o Ser de Peregrino! Por que Ele resolveu entregar um aparelho desses a Perry? Então, Quinto, qual é sua opinião?
Quinto sacudiu a cabeça, num gesto comedido.
Mister Bell, não se pode dizer nada a este respeito, enquanto o chefe continuar envolto em silêncio. Mas essa história da fita métrica não deixa de ser interessante...
Não é interessante coisa alguma; é uma loucura! — berrou Bell, completamente fora de si. Logo se acalmou. — Mercant, não vim até aqui para bater um papo. Marechal, está na hora de...
Mercant levantou-se. Compreendeu o que Bell quis dizer. Interrompeu-o de modo áspero.
Ainda é cedo para isso! Falei com meia dúzia de médicos. Não existe o menor indício de perturbação mental. Mister Bell, acho que o senhor compreende o que significa isso.
Bell, que sentia mais intensamente que Mercant e Quinto o conflito entre o sentimento de fidelidade ao amigo e a noção do seu dever para com o Império Solar, corria nervosamente de um lado para outro. Parou abruptamente à frente do marechal solar.
Mas as coisas não podem acontecer assim! Se as unidades de nossa frota continuarem a provocar o Império de Árcon, dentro de dois ou três dias a Galáxia estará incendiada. Já não existem palavras capazes de exprimir o que Atlan pensa de nós.
Mercant fitou-o prolongadamente.
Mister Bell, será que o senhor quer depor o chefe, face à simples suspeita de que poderia estar doente?
Bell respondeu em tom furioso:
John Marshall, que acaba de regressar da missão desempenhada em Árcon, já me fez a mesma pergunta idiota. Caramba! Eu seria a última pessoa capaz de trair Perry, mas como colaboradores investidos de certa responsabilidade não podemos permitir que o Império Solar se arrebente!
Estas palavras exprimiam um profundo senso de responsabilidade, aliado à preocupação com o destino de bilhões de seres humanos. Bell prosseguiu:
Procurei influenciar Marshall. Obriguei-o a penetrar nos pensamentos do chefe. Já que Perry não possui mais nenhum dom telepático, não existe a possibilidade de que ele perceba esse tipo de ação. O que acham que Marshall pôde informar? O chefe pensa para dentro! E ficou firme nesta afirmativa. Não consegui atinar com o que vem a ser isso.
Sem dizer uma palavra, Mercant ofereceu-lhe um conhaque. Bell sorveu-o num gesto automático. Só depois de ter esvaziado o copo, se deu conta disso.
Levem isso daqui! Não quero saber mais de conhaque. Perdi todo o gosto por essa bebida. Boa noite!
Bell afastou-se tão repentinamente como entrara. Enquanto os passos do gorducho ressoavam no aposento, Mercant e Quinto mantiveram-se em silêncio.

* * *

Perry Rhodan sempre fora um madrugador, e Cardif-Rhodan seguia seu exemplo. Mas hoje de manhã seu despertar não foi nada gostoso.
Não se sentiu reconfortado pelo sono. A primeira coisa que fez foi pôr a mão sobre a mesinha-de-cabeceira, onde estava guardada a fita métrica que, na noite anterior, quase deixara Bell louco. Thomas Cardif mediu o diâmetro do abdômen. Seus olhos iluminaram-se quando leu a cifra: 98!
Já estava vendo fantasmas — disse com um suspiro de alívio. Soltou uma risada, deixou cair a fita métrica e espreguiçou-se.
Muito bem-disposto, entrou no banheiro. Seguindo um hábito de todos os dias, subiu à balança.
O quê...?
Suas mãos procuraram algo em que pudessem apoiar-se. Os joelhos começaram a tremer. Aquilo que seus olhos viam não podia ser verdade!
Seu peso aumentara seiscentos gramas, embora na noite anterior não tivesse ingerido nenhum alimento ou bebida.
Olhou para o espelho.
Viu um rosto estranho, marcado pelo pavor.
Abriu apressadamente o pijama e viu nitidamente o ativador celular, incrustado pela metade no peito. Naquele momento o aparelho voltou a dar suas batidas regulares. Um fluido tranqüilizante penetrou em seu corpo.
A expressão de pavor desapareceu de seu rosto.
Não fique nervoso, Rhodan! — disse em voz alta e soltou uma risada.
Enquanto isso sua mão enxugava o suor frio que gotejava em sua testa.

* * *

Em Saós, um dia e uma noite duravam 214 horas terranas. No momento em que Brazo Alkher fora levado ao último interrogatório, durante o qual se vira colocado frente a frente de Kutlós, o dia estava raiando naquele mundo desolado. O longo dia de Saós estava começando com o rugido de um furacão que não se detinha nem mesmo diante da pirâmide do templo com seus cento e cinqüenta metros de altura, sacudindo furiosamente a construção. Por uma única vez, durante o caminho de volta, Brazo Alkher conseguira lançar um ligeiro olhar para fora. Foi então que viu as massas de poeira, tangidas pelo furacão, passarem velozmente.
O robô voltou a colocá-lo no recinto à prova de fuga e o trancou juntamente com Stana Nolinow. Este estava mergulhado num sono profundo. Também se deitou. Os pensamentos atropelavam-se em seu cérebro, mas apesar disso adormeceu.
Teve a impressão de que estava sonhando.
Viu-se no meio de uma terrível trovoada. Os relâmpagos desciam ininterruptamente à terra e o trovão ribombava. O chão começou a tremer sob seus pés. Alguém sacudiu-o brutalmente.
Acorde! Está havendo um ataque! — berrou Stana Nolinow ao seu ouvido.
Brazo Alkher despertou no mesmo instante.
Ergueu-se de um salto de sua cama simples.
O chão tremia sob seus pés. Um barulho infernal atingia seu ouvido.
Certamente um terrível ataque estava sendo desfechado contra as instalações industriais.
No mesmo instante, Brazo lembrou-se das palavras que conseguira ouvir por ocasião do último interrogatório. Durante a transmissão de uma mensagem de rádio, Kutlós dissera na sala contígua: “Não permitiremos que os saltadores exerçam pressão contra nós. O estabelecimento está em condições de defender-se.”
De repente os dois terranos que se encontravam no interior da cela foram atirados ao chão.
Bombas! — gritou Alkher, em tom de alarma.
Devia estar certo, pois era oficial de armamento. E também sabia quem gostava de atirar bombas nessa parte da Via Láctea: os mercadores galácticos.
Quer dizer que os saltadores estavam cumprindo suas ameaças contra os antimutantes.
O ataque vindo do espaço acabara de ter início.
O planeta parecia esfacelar-se.
Olhe a porta...! — gritou Brazo. A porta deixara de existir.
Mas será que o campo energético que existia à frente da mesma também desmoronara?
Brazo atirou uma banqueta para o corredor. A mesma quebrou-se de encontro à parede.
Vamos embora, Stana! — gritou.
O ataque ao estabelecimento tornava-se cada vez mais intenso. Uma grande frota dos saltadores devia ter surgido sobre a base dos antis, e com todo o armamento de que dispunha, bombardeava as instalações.
Brazo Alkher e Stana Nolinow dispararam pelo corredor largo. Era a mesma galeria pela qual tantas vezes haviam sido levados para serem submetidos aos interrogatórios.
O corredor partiu-se bem à sua frente. Uma fenda de três metros abriu-se. No último instante, Brazo conseguiu segurar o companheiro.
Alkher, viu a bifurcação. No fim da mesma havia um poço antigravitacional que talvez poderia representar a salvação, caso não tivesse sido destruído.
Correram e admiraram-se por não se encontrarem com nenhum robô. Chegaram ao poço do elevador antigravitacional. O mesmo ainda estava funcionando. Saltaram para dentro dele e foram subindo.
Era impossível comunicar-se por meio de palavras. O fim do mundo parecia ter chegado ao segundo planeta daquele pequeno sol amarelo, sem nome.
Brazo sentiu que deveriam sair do poço imediatamente. Deu o empurrão em Stana, que hesitou por um instante.
Vamos para a esquerda! — berrou ao ouvido do mesmo.
Viram dois robôs à sua frente. Os dois oficiais da Frota Solar atiraram-se ao solo, pois esperavam alguns disparos de radiações.
Não aconteceu nada. Os robôs não eram máquinas de guerra, mas autômatos utilizados na fabricação de campos defensivos individuais.
Os dois homens se levantaram e continuaram a correr. Atingiram a fita transportadora, saltaram sobre a mesma e deixaram que ela os carregasse.
No momento em que a fita atravessava um túnel, uma bomba detonou nas proximidades, provocando um forte abalo e paralisando aquele meio de transporte.
Felizmente as luzes continuavam acesas. Os dois terranos avançaram de quatro. Dali a mais alguns metros, o túnel ia dar num gigantesco pavilhão onde havia uma série de instalações destinadas ao acabamento dos campos defensivos individuais. Os robôs trabalhadores corriam de um lado para outro.
Tinham a impressão de já estarem fugindo há uma pequena eternidade, mas na verdade fazia menos de cinco minutos que tinham saído da cela.
Assim que atingiu a entrada, Alkher soltou um grito. No mesmo instante desapareceu num recinto cuja porta fora arrancada pelos abalos das explosões.
Stana Nolinow seguiu-o de perto.
Encontravam-se no interior do depósito de trajes espaciais.
Essa descoberta não fora premeditada pelos antis. Acontecera por puro acaso, e o fato de encontrarem seus próprios trajes espaciais representava uma sorte extraordinária.
Levantaram o pesado conjunto, realizaram num instante os controles, que haviam aprendido na Academia Espacial Solar, e depois de terem terminado seus preparativos ao mesmo tempo, sorriram animadamente.
Stana Nolinow deu o sinal de partida, e prosseguiram em sua caminhada que deveria levá-los à superfície. O ataque, que ainda estava em pleno andamento, oferecia-lhes uma chance de escaparem em meio à confusão.
O elevador antigravitacional mais próximo não estava funcionando. Não poderiam imaginar que os antis o haviam desligado poucos segundos antes, para obrigá-los a utilizarem a escada de emergência.
Subiram correndo. A escada era um artefato suspenso no ar, que levava ao pavimento térreo. Os dois terranos corriam lado a lado, sem desconfiar de que os antis os observavam pelo circuito de televisão.
Fogo sobre o alvo oito — disse um anti calmamente para dentro do microfone.
E o alvo oito foi atingido pelo disparo de uma nave cilíndrica que se encontrava parada bem em cima do templo.
A porta da eclusa foi estraçalhada bem à frente de Nolinow e Alkher. Os dois oficiais sentiram-se ofuscados pela luminosidade do raio que abriu uma cratera no solo. Antes que a onda de compressão os atingisse, fecharam os capacetes e colocaram o filtro diante da lâmina do visor.
Saíram aos saltos para o ar livre, sem dar atenção ao inferno que rugia em torno deles. Tiveram de separar-se no momento em que, contrariando a orientação dos antis, um disparo atingiu em cheio a parede de sustentação de um edifício baixo, no qual procuravam abrigar-se.
Envolto numa nuvem de poeira e gás, Brazo Alkher comprimiu-se contra o solo. Não sabia onde estava Stana. Preferiu não chamá-lo pelo rádio de capacete.
O furacão espalhou em todas as direções a nuvem que impedia a visão. De um salto Brazo pôs-se de pé e, mais uma vez, sentiu que a gravitação de Saós era 0,3 G superior à da Terra. Estava prestes a sair em desabalada carreira, quando viu a trinta metros um anti que corria pela área livre existente entre as construções.
A reação de Alkher foi instantânea. Notara que se encontrava junto a uma porta que levava para o interior do edifício baixo. Num movimento rápido comprimiu a fechadura, abriu a porta e entrou. Naquele instante, a intensidade do ataque diminuiu um pouco. Alkher, que agora estava parado entre duas portas de eclusas, procurou calcular o tempo que o anti levaria para chegar ao outro lado da área livre. Aproveitaria a pausa para chamar Stana pelo rádio de capacete.
O receptor começou a funcionar.
Brazo Alkher não acreditou no que estava ouvindo.
Um antimutante conversava tranqüilamente com os ocupantes de uma das naves dos saltadores que participavam do ataque às instalações. Ouviu o saltador responder em intergaláctico. O anti voltou a falar. O nome Extan foi pronunciado. Não havia dúvida de que correspondia a um clã dos mercadores galácticos.
O que deveria fazer Extan? Avançar a linha de fogo?
Brazo Alkher não conseguiu ouvir mais que isso. Ficou um pouco triste.
Stana Nolinow chamou por meio de uma tecla de emergência, e Brazo teve de mexer nos controles.
Respondeu em código:
Direção da fuga: trezentos metros para a frente. Desligo.
Era a indicação da posição de Stana.
Para Brazo, a mensagem representava o sinal de que deveria abandonar seu abrigo no interior da pequena eclusa. Fê-lo a contragosto. Teria preferido voltar a regular seu rádio para a faixa em que estivera antes, a fim de ouvir a palestra entre o saltador e o anti.
Como é possível que um anti converse tranqüilamente pelo rádio com um membro do clã de Extan, dando-lhe o conselho de fazer avançar a linha de fogo?”, refletiu.
Acontece que naquele momento Alkher não tinha tempo para pensar muito sobre isso. Correu por cima da grande área, em direção a uma maciça construção aboba-dada que abrigava uma das quatro usinas energéticas. Mais uma vez o inferno parecia desabar sobre este mundo de tormentas, vindo da densa camada de nuvens. Esguichos energéticos saíam do chão à esquerda e à direita de Brazo.
Stana Nolinow não poderia deixar de ouvir a respiração pesada do companheiro em seu rádio. Dali a alguns segundos o mesmo apareceu em meio aos vapores, aos gases e à poeira. Os dois terranos continuaram a correr lado a lado. Mantinham-se em silêncio e vez por outra lançavam um ligeiro olhar ao redor, a fim de não serem atingidos por um disparo de radiações. Quando já haviam passado pela unidade energética, um raio de desintegrador abriu o chão numa profundidade de trinta metros, bem à sua frente, na periferia do centro industrial. Alkher, cujas reações eram muito mais rápidas que as de Nolinow, virou para a esquerda, arrastando seu companheiro.
Abandonaram a proteção das instalações templárias e saíram para o fundo do vale.

* * *

Sem que ninguém o convidasse, Allan D. Mercant sentou. Nem sequer levantou os olhos quando Bell grunhiu em tom ameaçador.
Não me lembro de tê-lo convidado a comparecer à minha presença, Mercant.
Mercant remexeu nos papéis. Bell cutucou-o no ombro.
Mercant, acho que me exprimi com suficiente clareza.
Finalmente o chefe da Segurança Solar levantou os olhos. A expressão de seu rosto era indiferente. Não havia o menor sinal de que passara duas noites sem dormir.
Mister Bell — disse com a voz tranqüila. — Poderemos conversar sobre isso depois que o senhor tiver lido este papel.
Obrigou seu interlocutor a pegar um documento. Bell aceitou-o com certa relutância, sem desconfiar de nada.
Tratado secreto entre o Grande Conselho de Ácon e o Imperador Gonozal VIII — leu Bell.
Ficou sabendo que, nos termos do tratado, Atlan colocara à disposição do Sistema Azul mil espaçonaves esféricas do último tipo. Ainda leu que três naves haviam levado um equipamento completo de ensinamento hipnótico para Drorah. Com isso seria possível transformar, num brevíssimo espaço de tempo, os ancestrais dos arcônidas em astronautas experimentados.
Bell fitou o marechal solar. Estava pálido.
O chefe sabe disso? — perguntou muito confuso.
Sabe. Bell explodiu.
Não espere que lhe arranquem as palavras da boca, Mercant. O que foi que o chefe disse?
O que poderia ter dito, mister...
Bell bateu com a palma da mão na mesa. Mercant não se impressionou.
O que é que Perry pode ter dito? — perguntou Bell, em tom exaltado. — Por certo disse a mesma coisa que eu direi, Mercant. O que Atlan acaba de fazer é uma infâmia. É uma... é... O que foi mesmo que Perry disse?
Bell fitou seu interlocutor com certa consciência de culpa.
Sem dizer uma palavra, Mercant tirou o documento das mãos do homem exaltado à sua frente e voltou a colocá-lo numa pasta. Mercant bateu no maço para tirar um cigarro, enfiou-o entre os lábios e acendeu-o. Deu duas tragadas e só então dispôs-se a falar.
Mister Bell, o chefe não disse nada a este respeito, mas durante os quinze minutos que estive com ele subiu quatro vezes à balança e se pesou...
O que foi que Perry fez? Será que ouvi bem, Mercant? Ele se pesou? Quatro vezes em quinze minutos?
Seguiu-se o silêncio.
Esse silêncio durou alguns minutos. Finalmente foi rompido por Bell.
Está doido? — perguntou sem rebuços.
Não — respondeu o marechal solar. — Apenas sente-se fustigado pelo medo.
Isso tem algo a ver com as pesagens?
Talvez. Como é que eu poderia saber? Será que ainda existe alguém a quem o chefe faça confidencias? Desde o tempo em que realizamos a operação em Okul não tem mais confidentes. Até parece que o chefe é uma das vítimas daquele maldito entorpecente.
Acho que o senhor quer dizer que Perry Rhodan se tornou vítima de seu filho Thomas Cardif. Seu Serviço de Segurança ainda não descobriu onde anda esse sujeito, Mercant?
Thomas Cardif desapareceu em meio às estrelas, tal qual o arcônida Banavol.
Quem é este?
O senhor já se esqueceu? Certo dia alguém deu ao chefe uma dica de que um anti se havia introduzido no estabelecimento comercial dos saltadores em Plutão. Segundo informou Perry, essa dica lhe foi dada por Banavol. Tentei localizar esse Banavol. A Segurança não conseguiu encontrá-lo. Desapareceu durante um vôo da Terra para M-13.
Mercant, não foi por simples coincidência que o senhor voltou a este assunto tão velho. Fale logo!
Mercant levantou a mão, num gesto de recusa.
É claro que estou agindo com uma ação bem definida, mister Bell. Nestes últimos tempos, quase todos que têm estado a sós com Rhodan desaparecem tal qual fantasmas!
Bell saltou da poltrona. Com largas passadas colocou-se junto à janela. Parou e apoiou os cotovelos no peitoril. Manteve-se imóvel.
Mercant esperou até que Reginald Bell reencetasse a conversa. Dali a pouco ouviu-o dizer a si mesmo:
Banavol aparece e desaparece. Um anti encontra-se com o chefe no estabelecimento de Plutão e morre. Stana e Alkher voam para Peregrino com o chefe, e este volta sem os dois oficiais. E, se examinarmos o assunto com mais cuidado, chegaremos à conclusão de que isso teve início em Okul. Foi lá que pai e filho se encontraram pela primeira vez a sós, depois de muito tempo afastados. E não foi depois disso que Thomas Cardif desapareceu sem deixar o menor vestígio, Mercant?
Mercant respondeu em tom contrariado:
Suas especulações são um tanto levianas, mister Bell.
Bell virou-se para o visitante, mas continuou parado junto à janela.
O senhor não pode negar que tudo começou em Okul.
O que quer dizer com isso, mister Bell? — perguntou Mercant, em tom cauteloso.
Os antis não poderiam ter influenciado o chefe? Não poderiam ter recorrido a um método que nossos médicos não conhecem, e talvez nem mesmo os aras?
Queira exprimir-se com maior clareza, mister Bell.
Bell cruzou os braços à frente do peito.
Pois não — disse, respirando pesadamente. — Talvez tenha havido alguma forma de influência hipnótica ou sugestiva. Não consigo livrar-me dessa idéia desde que John Marshall me disse que o chefe pensa para dentro. Mercant, já começo a acreditar que as modificações assustadoras que constatamos em Rhodan não foram causadas exclusivamente pelo tratamento de choque. O senhor nem imagina como estou nervoso depois que Perry foi buscar um ativador celular em Peregrino... e esse aparelho está enterrado até a metade em seu tórax. Todos sabemos que Ele tem um senso de humor quase incompreensível para um ser humano, mas não o julgo capaz de fazer uma brincadeira macabra. Mercant, será que Ele quer chamar nossa atenção para alguma coisa, ou será que quer obrigar Rhodan a manter-se dentro de certos limites? Será que, em Peregrino, Perry fez alguma coisa de que nunca seria capaz se ainda estivesse de posse das faculdades mentais de que era dotado antigamente?
Bell, o senhor voltou a aludir à possibilidade de que Perry esteja louco. Se ele tiver conhecimento disso, o senhor poderá ter problemas — disse o chefe de segurança, em tom de advertência.
Bell soltou uma risada contrariada.
O senhor nem imagina como eu gostaria disso. Acontece que não ficarei parado por muito tempo. A hora em que terei de agir aproxima-se inexoravelmente. E quando essa hora chegar, Mercant, agirei a favor de Perry, meu amigo doente, e não contra ele. Entendido?
Nem haveria necessidade de dizer isso, Bell. Sei perfeitamente o que o chefe lhe representa, apesar de tudo que aconteceu. Só tenho medo de que o senhor vá chocá-lo muito cedo...
O gorducho interrompeu o inteligente Mercant num tom furioso:
O senhor acha que é cedo, no momento em que dois impérios correm perigo de desmoronar? Quando Atlan pensa em aliar-se aos acônidas? Isso é a mesma coisa que colocar a corda em torno do próprio pescoço. E olhe que, por ocasião de nossa palestra, deixei bem claro que jamais acontecerá aquilo que ele receia, face à penetração de nossa frota do Império de Árcon.
Mercant respondeu em tom indiferente:
A Segurança dispõe de provas de que sua palestra com Atlan, na qual o senhor lhe forneceu certas garantias, foi ouvida pelo chefe.
Bell nem pestanejou.
Tanto faz! Não tenho nada a esconder, mas não compreendo Atlan.
Pois eu compreendo, Bell — disse Mercant. — Certa vez Atlan me disse que nos dez mil anos que permaneceu na Terra encontrou vários amigos, mas só um amigo de verdade. E não se esqueça que, em muitos pontos, Atlan pensa como um homem, não como um arcônida.
Ele não tem um cérebro adicional conhecido como o setor lógico? — falou Bell em tom furioso, e com o rosto desfigurado fitou o videofone, que emitiu um sinal. — O que será desta vez?
A Clínica Central de Terrânia anunciou:
Há poucos minutos Perry Rhodan, o administrador, chegou à clínica de Terrânia. Não se dispõe de qualquer informação sobre o motivo do internamento.

Brazo Alkher e Stana Nolinow pousaram no platô, situado a trezentos metros acima do fundo do vale e a mais de cinco quilômetros do templo. Em meio ao mortífero bombardeio de radiações acabara por transformar-se em realidade aquilo que já não ousavam esperar. Encontravam-se em relativa segurança e tinham motivos para supor que os antis acreditavam que estivessem mortos.
Brazo e Stana nem desconfiavam de que o bombardeio de radiações literalmente os tangera para esse platô, e de que os antis os mantiveram sob observação ininterrupta por meio de seu equipamento de televisão. Principalmente Stana de nada desconfiava, pois este não tinha ouvido o diálogo entre o anti e o mercador.
Encolhidos num minúsculo nicho de pedra, os dois oficiais da Frota Solar procuraram restabelecer-se das canseiras da fuga. Sabiam que facilmente uma palestra pelo rádio de capacete poderia ser escutada, motivo por que haviam desligado esse meio de comunicação.
Nesse momento, Brazo Alkher lembrou-se de ter escutado a palestra radiofônica entre um anti e um dos saltadores que atacavam as instalações, durante a qual o mercador galáctico recebeu em sua nave cilíndrica uma solicitação de fazer avançar a linha de fogo. Esteve prestes a ligar novamente seu rádio de capacete, mas no último instante deu-se conta do risco que isso representaria. Por Stana Nolinow não ter ligado, durante a fuga, seu rádio de capacete, não teve conhecimento do fato. Poucos instantes depois nem mesmo Brazo se lembrava mais desse acontecimento, pois os saltadores iniciaram outro ataque contra as instalações dos antis.
Stana sentiu através do traje espacial a mão de Brazo que o apertava. Olharam-se e piscaram um para o outro. Alkher foi saindo do nicho de pedra, fez algumas regulagens em seu traje de guerra, a fim de enfrentar as fúrias do tufão, e rastejou até a beira do platô.
Queria saber o que restara das instalações depois do tremendo ataque.
Um oceano de nuvens impenetráveis surgiu diante dos seus olhos. Não viu o menor sinal do templo de Baalol.
Brazo Alkher ligou os microfones externos para o volume máximo. O ribombar das explosões que rugiam no fundo do vale quase lhe arrebentou os tímpanos, mas não se incomodou com isso. Virou a cabeça, que se encontrava coberta pelo capacete de visão total, e passou a fitar as nuvens acima dele.
Vez por outra ouvia o trovejar inconfundível de potentes propulsores a jato. Uma grande frota de espaçonaves cilíndricas devia circular acima do vale. Naquele instante, as suspeitas de Brazo obtiveram mais um reforço.
Será que essa multidão de naves armadas já não devia ter concluído há tempo a obra de destruição das instalações industriais?”, refletiu. “Será que o ataque desfechado contra o templo não é uma farsa?
Mas naquele instante uma terrível língua de fogo abriu-se nas profundezas do vale, fazendo com que por pouco Brazo Alkher não enterrasse suas suspeitas. Ao mar de chamas que se expandiu para todos os lados, seguiu um ribombo que deixou Brazo surdo por alguns minutos.
Subitamente viu uma sombra à direita. Tratava-se de uma nave auxiliar balouçante, do tipo que os saltadores levavam em suas naves cilíndricas, para poderem salvar-se num caso de emergência.
E o barco espacial pousou cem metros atrás dele, a uma distância não superior a trinta metros do esconderijo onde Stana aguardava sua volta.
Brazo resolveu arriscar tudo. Ligou o rádio de capacete.
Stana...
Stana já aguardava o chamado.
Está bem, irmão — disse. — Verei o que posso fazer.
Na Frota Solar já se sabia do que o Tenente Stana Nolinow era capaz quando usava esse tipo de linguagem. Observara o barco espacial e, desconfiado, piscara os olhos embaixo do capacete. Ficou sem saber se o balouçar do barco era genuíno, ou se era um blefe para atraí-los a uma armadilha. Procurou em vão qualquer sinal de avaria no casco. Surpreendeu-se ao ver a escotilha abrir-se e dois saltadores aparentemente feridos saírem do barco. Um dos dois mal conseguia mover-se. O outro arrastava-o para a popa.
Stana Nolinow, que se mantinha à espreita, gostaria de saber se os dois saltadores que acabavam de sair representavam toda a tripulação do veículo espacial, ou se havia outros mercadores a bordo. Os dois terranos não possuíam nenhuma arma, e por isso tinham de agir com uma cautela toda especial.
Bem, veremos! — disse Stana para si mesmo.
Observou os dois saltadores, que examinavam o setor do barco onde ficavam os propulsores.
Nolinow aproveitou uma nuvem baixa vinda do vale, que foi tangida pelo platô em direção ao barco, e saiu correndo.
Levou duas quedas, e só mesmo o resistente traje espacial evitou que se ferisse. Apesar da gravitação de 1,3 G conseguiu alcançar a escotilha com apenas um salto. Com outro colocou-se no centro da sala e suspirou aliviado.
O barco espacial estava vazio.
Stana conhecia esse tipo de veículo. Sabia onde ficava o armário em que eram guardadas as armas. Com três passos colocou-se à frente do mesmo, abriu-o apressadamente e viu uma porção de armas à sua frente.
Stana Nolinow serviu-se à vontade, mas não se esqueceu de verificar os indicadores de potência. Enquanto guardava a terceira arma, sorriu de alegria. O saltador encarregado das armas devia ser um sujeito muito cuidadoso, pois todas as armas energéticas estavam carregadas ao máximo de sua capacidade.
Nolinow examinou o barco. Havia um sinal insignificante de impacto no costado. Por acaso lançou os olhos para o chão. A poça de sangue falava uma linguagem inconfundível. Removeu as últimas desconfianças de Stana Nolinow. Não poderia imaginar que aquilo que tinha diante de si era o conteúdo de uma conserva de sangue, e que o pouso daquele barco espacial representara parte do plano dos antis.
De repente a voz de Brazo berrou em seu alto-falante de capacete.
Stana, eu os agarrei. Os dois.
Com um salto Nolinow saiu da pequena nave. Segurava uma arma em cada uma das mãos.
Correu para o ponto onde ficava o propulsor do barco. Naquele momento a visibilidade sobre o platô era excelente. As nuvens mais próximas eram tangidas pelo furacão a uma altitude de cem metros.
Viu Brazo ajoelhado sobre um dos saltadores, enquanto o outro jazia imóvel no chão.
Um deles está ferido, Brazo! — gritou Stana pelo rádio.
Era o que eu imaginava — respondeu Brazo. — Os dois caíram antes que eu pusesse as mãos neles de verdade...
Stana Nolinow chegou ao lugar em que estava o companheiro. Virou de costas o saltador que jazia imóvel. Viu um rosto barbudo cujo lado direito estava sujo de sangue. Ao que tudo indicava aquele homem estava inconsciente.
O que vamos fazer com eles? — perguntou apressadamente.
De repente o chão parecia arder sob seus pés. Se conseguissem decolar com a pequena nave, e se o propulsor não tivesse sofrido avarias mais sérias, dali a algumas horas poderiam estar trabalhando novamente a bordo da Ironduke.
Vamos deixá-los aqui mesmo! — decidiu Brazo. — Daqui a pouco, meu caro saltador, estará bem de novo, e daqui até o templo não é muito longe. Além disso, há muitos barcos cilíndricos passando por aqui. Este barco está em condições de decolar?
Sem dizer uma palavra, Brazo pegou as armas portáteis que Nolinow lhe entregou. Lançaram mais um olhar para o mercador que jazia no chão e correram em direção à escotilha do barco.
Assim que se encontravam no interior do barco, Stana mostrou ao companheiro o local do impacto no costado da nave.
Brazo pensou: “Isto foi feito de propósito.”
Naquele momento, mais uma vez lembrou-se de que um anti conversara amavelmente com o saltador Extan, que participava do ataque, a fim de pedir-lhe que fizesse avançar a linha de fogo.
Feche a eclusa e abra o ar, Stana!
Com um salto Brazo acomodou-se na poltrona do piloto.
Stana Nolinow aceitou sem a menor objeção o comando do companheiro.
Assim que a escotilha se fechou, acionou as bombas que expeliam a atmosfera de Saós. Sem sair da poltrona do piloto, Brazo fez um exame acurado do propulsor.
Isso é pura tapeação!... — ouviu Stana no seu capacete.
Não tinha a menor idéia do que Brazo quis dizer com isso, mas não formulou nenhuma pergunta. Qualquer demora poderia ser fatal para os dois oficiais.
Não poderiam imaginar que, naquele instante, Kutlós esfregava as mãos de satisfação, sem tirar os olhos da tela que exibia um pequeno barco auxiliar dos saltadores, pousado num platô de rocha.
Mas da mesma forma que os dois terranos não sabiam que estavam sendo vigiados, Kutlós nem desconfiava de que o plano tão dispendioso por meio do qual se pretendia transformar Saós no planeta Trakarat praticamente já podia ser considerado um fracasso.
Um jovem oficial da frota terrana, que parecia um adolescente, estava prestes a desmascarar o plano dos antis.
Mas é claro! — disse a voz furiosa de Brazo, saída do alto-falante do capacete de Stana. — Como está o ar?
Daqui a pouco atingirá a pressão de uma atmosfera, Brazo! — disse Stana depois de lançar um olhar para o manômetro.
O corpo da nave auxiliar começou a vibrar. Brazo colocou em funcionamento o mecanismo propulsor. Não houve necessidade de deixá-lo trabalhar em ponto morto. Todos os aparelhos que exigiam aquecimento já se encontravam na temperatura normal de funcionamento.
O ar está bom! — anunciou Nolinow.
Abriu o capacete, e Alkher seguiu seu exemplo.
O barco espacial subiu que nem um torpedo. Brazo fê-lo descrever uma curva junto a uma encosta rochosa. Stana Nolinow acomodou-se na poltrona do co-piloto. Deu uma olhada para os instrumentos e constatou que Brazo voava para o norte e fazia descer violentamente a pequena nave.
Vai cortar a ponta da pirâmide? — perguntou em tom exaltado.
Não; quero ver quantas espaçonaves estão pousadas junto ao templo para cumprimentar os antis.
Até que você tem senso de humor! — constatou Stana em tom de espanto. — Por que não faz tudo para sairmos daqui quanto antes?
Porque quero saber se eles tentaram enganar-nos e... Olhe! Está vendo as naves?
Essas palavras foram gritadas por Brazo. As nuvens abriram-se, permitindo a visão sobre o templo. O mesmo deveria ter sido reduzido a escombros, mas na verdade praticamente não fora danificado. Mas o que mais chamava a atenção era o fato de que sete ou oito espaçonaves cilíndricas estavam pousadas no pequeno porto espacial, mostrando as escotilhas de carga abertas.
Fogo da esquerda! — gritou Stana Nolinow em tom áspero.
O disparo de radiações feito por um posto de defesa dos antis veio com um atraso de fração de segundo. Brazo fez o barco descrever uma curva fechada para a esquerda, submetendo seu casco a uma tensão tremenda. Valeu a pena assumir o risco. O disparo passou a mais de um quilômetro do barco.
Será que isso também foi de propósito? — resmungou Brazo com um olhar indagador para o companheiro.
Você é um otimista incorrigível! — objetou Stana, que ainda não aceitara a teoria de Brazo. — Apenas tivemos sorte. Acontece que você procura virar tudo de pernas para o ar e até é capaz de afirmar que os antis nos mandaram este barco...
Mandaram mesmo, Stana, mandaram mesmo. O próprio ataque dos mercadores galácticos não passa de um blefe. Queriam enganar-nos com isso. Querem que escapemos aos queridos servos de Baalol para contar ao chefe, logo após nosso regresso à Terra, que estivemos em Saós, um planeta que os antis chamam de Trakarat. Por pouco não caio nessa. Ainda bem que ouvi essa palestra pelo rádio. Olhe para a localização, Stana. Você vê qualquer nave que nos persegue?
Não. E isso me deixou surpreso durante todo o tempo que você gastou para fazer seu discurso. Com a frota enorme de que eles dispõem teria sido fácil pegar-nos. Mas o que foi que você ouviu? Uma palestra pelo rádio?
Enquanto o pequeno barco subia cada vez mais, deixando Saós para trás, Brazo relatou a experiência pela qual passara.
No fim Stana soltou um assobio. Lançou um olhar de admiração para Brazo. Não teve dúvida em confessar:
Não sei se eu teria notado isso. Você já tinha ouvido falar em Trakarat?
Nunca. Mas sou capaz de jurar que esse mundo de Trakarat assume uma importância extraordinária para os antis. Stana, redija a mensagem que vamos transmitir pelo hiper-rádio. Tenho a impressão de que quanto mais cedo avisarmos o chefe, melhor.
OK. Vou esquentar o transmissor.
Dali a alguns minutos, Nolinow tinha o texto à sua frente e o codificou segundo o modelo simplificado. O barco não possuía o equipamento de condensação e distorção de mensagens. Mas dispunha de um pequeno computador positrônico. Stana Nolinow acoplou o hiper-rádio ao mesmo. Graças ao seu funcionamento ultra-rápido, o aparelho só levou alguns segundos para transmitir o texto codificado por meio de sinais positrônicos.
Dali a trinta segundos receberam a resposta:
Texto incompreensível. Repitam.
Stana e Brazo sorriram.
Não faremos nada disso — decidiu Stana. — Nem pensamos em enviar uma mensagem em texto claro, fazendo com que os antis saibam que descobrimos o logro que quiseram passar-nos. Vamos é irradiar um pedido de socorro. Só quando respirar um ar puro de bordo, me sentirei bem, mas...
Ficou calado.
Mas o quê? — insistiu Brazo, cuja mão esquerda transmitia ao computador positrônico de bordo o comando de preparar a transição.
Quando penso no chefe, Brazo, não me sinto nada feliz em voltar à Terra. Isto não parece uma loucura?
Se é uma loucura, também sou louco, Stana. Não consigo ficar contente. Até chego a ter medo do encontro com Perry. Durante o vôo de regresso do planeta Peregrino e a bordo da Baa-Lo, fiquei apavorado com ele.

* * *

Kutlós, que estava sentado entre o televisor e o hiper-rádio, viu o barco romper as linhas das naves cilíndricas e correr em direção ao espaço. Em seu interior estavam os terranos.
Esta nave não deve ser perseguida — disse Kutlós ao operador de rádio.
O agente que mantivera contato com Thomas Cardif na Terra manifestou suas dúvidas.
O barco voou muito baixo sobre o templo, Kutlós. Os terranos devem ter visto as naves cilíndricas pousadas por aqui.
E daí? — perguntou Kutlós em tom áspero. — Estas naves não podem ter sido surpreendidas pelo ataque dos saltadores? Levamos o plano a um ponto em que não podemos voltar atrás. Apenas devemos apressar-nos para desmontar e remover as instalações industriais antes que um grupo de naves da Frota Terrana apareça nos céus de Saós.
O agente ainda tinha suas dúvidas.
Tomara que tudo corra segundo os preparativos e as expectativas, Kutlós. Quando me lembro desses terranos muito jovens, começo a duvidar do êxito da operação. Quando estive na Terra pedi informações sobre esses homens. O tenente de aspecto tão inofensivo é o melhor oficial de armamento da Frota Solar!
Um sorriso largo surgiu no rosto de Kutlós.
Tanto melhor. Neste caso as informações desse terrano pesarão mais nas decisões do comando da frota. Mas por que só agora sou informado sobre a importância desse homem?
O sorriso de Kutlós desmanchou-se. Seus olhos chamejavam de raiva.
O receptor de hiper-rádio do templo captou a primeira mensagem que Alkher e Nolinow enviaram às naves da Frota Solar.
Está codificada, senhor — disse o radioperador. — Dentro de poucos minutos teremos o texto em linguagem clara.
Cumpriu a promessa. A decifradora positrônica não teve a menor dificuldade em decifrar o código simplificado. Mas a sorte dos antis de Saós não foi melhor que a dos tripulantes do cruzador que enviara esta resposta:
Texto incompreensível. Repita.
O agente, que falava o terrano como sua língua materna, franziu a testa enquanto repetia a leitura do texto decodificado. Depois de algum tempo confessou em tom resignado:
Não compreendo!
Kutlós não estava muito interessado em saber o que o agente não compreendia. Apenas queria saber se a palavra Trakarat aparecia na mensagem.
Há duas alusões ao planeta, Kutlós, mas o nome não é mencionado. A palavra estabelecimento aparece uma vez, mas o restante do texto é incompreensível...
Viu-se interrompido pelo recebimento de outra mensagem de hiper-rádio. Imediatamente o agente fez a tradução. Para ele apenas assumiam certa importância as três palavras nas quais um cruzador da Frota Solar, que se encontrava no grupo estelar M-13, pedia aos dois oficiais do barco espacial que repetissem a mensagem.
De repente o rosto de Kutlós descontraiu-se. Foi-se levantando devagar.
Podemos dar-nos por satisfeitos — disse, dirigindo-se ao agente. — Os terranos engoliram a isca. O plano vai correndo muito bem.

* * *

A nave Ganges, um cruzador da classe Estado pertencente à sexta esquadrilha, captou a mensagem de hiper-rádio expedida pelos dois oficiais que acabavam de fugir de Saós. O comandante só teve conhecimento da mesma quando já tinha sido expedida a ordem de repeti-la. Ao ouvir os nomes Alkher e Nolinow, entrou em pânico. Falou asperamente ao seu oficial da equipe de rádio:
Será que estes nomes não significam nada para o senhor? São os oficiais que levaram o chefe para Peregrino e ficaram presos na nave cilíndrica Baa-Lo, enquanto Perry foi libertado. E olhe que todos acreditavam que estivessem mortos. Tenente Bilk, não me olhe desse jeito. Expeça uma mensagem destinada à Segurança Solar e ao chefe. Transmita o texto de Alkher tal qual o recebemos. Espero que cumpra esta ordem dentro de três minutos.
Mal o comandante acabou de falar, os rastreadores estruturais do cruzador constataram o hipersalto do barco espacial no qual Alkher e Nolinow haviam fugido de Saós.
Quero as coordenadas! — disse.
A chave sincronizada fixou-se em certa posição. Os jatos da Ganges começaram a trabalhar com a potência máxima. A nave esférica daria um salto pelo semi-espaço, que a faria sair nas proximidades do barco espacial, a fim de recolher os dois oficiais.
O grande computador positrônico já estava trabalhando para preparar o salto.

* * *

Os médicos não permitiram que Reginald Bell e Allan D. Mercant entrassem na sala em que o chefe estava sendo examinado. Os dois conformaram-se com isso, mas não saíram da ante-sala.
O médico, ao qual coubera a tarefa nada agradável de detê-los, falou com toda franqueza.
Não poderemos fornecer-lhes qualquer informação sobre o resultado do exame, a não ser que o chefe nos dispense expressamente do dever de guardar o sigilo profissional.
Pois o chefe os dispensará! — afirmou Bell em tom convicto, fingindo uma segurança que não sentia.
O médico despediu-se e os dois viram-se a sós.
Do outro lado da porta, Cardif-Rhodan estava sendo examinado. O computador positrônico fornecera todos os dados médicos a respeito de sua pessoa. Tais dados não comportavam qualquer dúvida, e viram-se confirmados pelo exame que estava sendo realizado.
Sir — disse Bock, um médico residente. — Sob o ponto de vista orgânico, o senhor é completamente sadio.
Cardif-Rhodan interrompeu-o em tom áspero.
Isso não me interessa. Explique como engordei mais de oitocentos gramas, explique como pude crescer mais de um centímetro e como minha cintura aumentou três centímetros. Foi por isso que vim para cá. Quero que o senhor me dê respostas para estas perguntas.
Não se importou com o fato de que os médicos não se sentiram nada encantados com seus modos arrogantes.
Sir, não temos explicação para isso, mas se o senhor faz questão de que descubramos as causas dos três fenômenos teremos de realizar certos exames que exigirão sua permanência na clínica.
O que quer dizer com isso? Faça o favor de exprimir-se com maior clareza, doutor! — gritou Cardif-Rhodan, e o pânico voltou a tomar conta dele.
Sentia-se muito bem: o ativador celular estava funcionando, e toda vez que o fluido emanado desse aparelho penetrava em seu corpo tinha a impressão de ser banhado por uma fonte da juventude. No entanto, o fato de que, além de engordar, também crescera em altura, fizera com que se sentisse tomado de pânico e corresse apressadamente para a clínica.
Teve de esforçar-se muito para não trair-se em virtude de seus conhecimentos médicos. Compreendia todos os termos técnicos usados em sua presença, pois, ao mesmo tempo em que usara o nome Hugher, fora um dos médicos mais conhecidos. Teve de enfrentar dificuldades medonhas para, em meio à psicose do medo, desempenhar o papel de leigo. E os esforços que teve de realizar foram tamanhos que perdeu todo o autocontrole.
Por que não dizem nada? — perguntou em tom enérgico, fitando os médicos um por um.
Já tinha um pressentimento dos motivos que o fizeram crescer e engordar. Afinal, possuía seus conhecimentos médicos. No entanto, preferia afastar esse pressentimento. Seu ser revoltava-se contra tal pessimismo. Além de mentir a si mesmo, queria que os médicos mais importantes do Império Solar também lhe contassem mentiras. Queria que descobrissem qualquer motivo para as alterações que sofrerá nas últimas horas, mas não queria que descobrissem o motivo que lhe infundia um terrível pavor.
Bock exprimiu-se com a maior cautela.
Sir, talvez haja necessidade de intervenção cirúrgica.
Na situação política tensa em que nos encontramos? — objetou Cardif-Rhodan. — Acham que isso pode ser feito?
O professor Manoli, que até então se mantivera em silêncio, sentiu-se na obrigação de prosseguir na palestra com Perry Rhodan.
Sir, posso garantir que as intervenções previstas não o prenderão ao leito por mais de três horas. Sugiro que por enquanto permita que realizemos uma análise do tecido celular, que praticamente não lhe causará nenhum incômodo, mas poderá fornecer-nos esclarecimentos preciosos.
O professor Manoli não compreendeu por que o chefe o fitava com os olhos cintilantes de um homem acossado pelo medo, que já não sabia o que fazer. Também viu os pingos de suor na testa de Rhodan e notou que os lábios tremiam. E agora ouviu a voz do homem, que num trabalho incansável construíra o Império Solar:
Realizem a análise do meu tecido celular.
Os preparativos já haviam sido tomados. A coleta do material não demorou mais que um minuto. O remédio ara, aplicado em forma de spray, fez que a pequena ferida no antebraço de Cardif-Rhodan desaparecesse imediatamente, cicatrizando dentro de três horas sem deixar o menor vestígio.
O exame do tecido foi iniciado. O chefe, que voltara a vestir-se, estava parado junto à janela que dava para o pátio interno.
Não conseguia encarar os médicos. Sabia que seu rosto estava marcado pelo pavor. Temia o resultado do exame como nunca temera nada em sua vida.
A voz cochichante que ouvia dentro de si, e que pretendia dizer-lhe qual era o mal que o abatia, tornava-se cada vez mais forte. Dali a pouco não teria mais forças para reprimi-la.
De repente minha cintura aumentou três centímetros”, pensou e sentiu as palmas da mão úmidas de suor, mas não pôde deixar de levar este pensamento até o fim. O medo fê-lo proceder assim contra sua vontade.
Em poucos dias cresci um centímetro. O uniforme começou a ficar apertado em tudo quanto é lugar e já é um pouco curto”, voltou a refletir.
Por alguns segundos as batidas fortes do ativador celular interromperam seus pensamentos. Um fluido, que provocou uma sensação refrescante, atravessou seu corpo e deu-lhe forças para empertigar-se de repente. Com o desespero do náufrago agarrou-se á idéia fixa de que o ativador celular lhe dava sempre uma porção de vida eterna.
Uma porta fechou-se atrás dele. Três médicos acabavam de entrar na grande sala de exames e aproximavam-se do lugar em que se encontrava. Mais uma vez sentiu-se dominado pelo pânico, mas num esforço admirável conseguiu dominar-se. Virou-se e perguntou com a voz tranqüila:
O que é?
Sir — principiou o professor Redstone. — Cabe-me desempenhar a tarefa bastante desagradável de informá-lo de que o senhor sofre de cisão celular explosiva.
Naquele instante Thomas Cardif teve a impressão de ouvir a voz do Ser fictício de Peregrino:
Perry Rhodan, desfaça-se do ativador celular, senão você ficará grande e forte demais.
Só agora compreendia estas palavras. Só agora compreendia por que, durante cinqüenta dias, o Ser coletivo o prevenira constantemente. Ele sempre o chamara de Perry Rhodan. Mas na verdade Aquilo pretendia lembrá-lo de que não era Perry Rhodan.
E ele, Cardif, não quisera compreender a advertência.
Cisão celular explosiva!”, repetiu mentalmente.
Cardif sabia o que significava isso. Em seu organismo, o processo normal de cisão celular atingira um estágio explosivo permanente. E o fato era causado pelo ativador celular, que se integrara organicamente em seu tórax.
Sir — ouviu a voz do professor Redstone, que parecia vir de longe. — Salvo engano, podemos afirmar que o processo de cisão celular não é de natureza maligna.
Mas por enquanto não sabemos qual é a causa da divisão ultra-rápida das células.
Thomas Cardif teve de controlar-se ao máximo para reter o seguinte pensamento desesperado: “A causa da divisão de minhas células está incrustada em meu tórax. Este aparelho, que deveria proporcionar-me a vida eterna, me traz a morte.”
Limitou-se a dizer em voz débil:
Obrigado.
O professor Redstone foi de opinião que devia dizer-lhe algumas palavras a título de consolo.
Sir — disse. — Temos certeza de que dentro de poucos dias conseguiremos deter este processo de divisão das células.
Nem imaginava que estava dirigindo estas palavras a um médico que, como todo e qualquer médico, sabia que não havia remédio contra isso. Era o primeiro ser da Galáxia que padecia de cisão celular explosiva.
Até então essa doença não surgira na Terra.
Obrigado, professor — voltou a dizer Cardif-Rhodan.
Depois estacou em meio ao passo e aguçou o ouvido.
A grande estação de hiper-rádio de Terrânia acabara de receber uma notícia importante para o chefe.
O cruzador ligeiro Ganges, que operava no império estelar dos arcônidas juntamente com as demais unidades da Frota do Império Solar, anunciou que estava a caminho para recolher os tenentes Stana Nolinow e Brazo Alkher. A seguir transmitiu o texto da mensagem expedida pelos dois oficiais que se encontravam no barco espacial.
Cardif-Rhodan ouviu o nome dos dois oficiais que abandonara vergonhosamente a bordo da nave Baa-Lo e compreendeu a mensagem enviada por eles. No mesmo instante lembrou-se das últimas palavras proferidas pelo antimutante agonizante, no planeta de Utik. Este aludira ao planeta Trakarat.
Uma esperança absurda alvoroçou sua mente. Com a coragem do desespero agarrou-se à idéia de que os antimutantes deveriam ser capazes de, com o saber de que dispunham, dominar o processo de cisão celular.
Devia ir a Saós o mais rápido possível!
Cardif-Rhodan esquecera-se de que estava cercado por médicos, que o observavam constantemente.
Naquele instante estava elaborado o plano que levaria os antis a ajudá-lo. Contou com a possibilidade de que não se dispusessem a fazer qualquer coisa por ele. Nesse caso as instalações de Saós seriam destruídas juntamente com o planeta.
Quero que me levem de volta!
Estas palavras, pronunciadas em tom áspero, surpreenderam os médicos, que se entreolharam e balançaram levemente a cabeça.

* * *

Os dois homens que se encontravam na ante-sala, à espera de Rhodan, também ouviram a mensagem, já que segundo as ordens do comandante da Ganges a notícia não fora enviada apenas ao chefe, mas também ao Marechal Solar Mercant.
A última sílaba ainda ressoava nos ouvidos dos homens, quando Mercant, com um nervosismo que era raro em sua pessoa, pediu a Reginald Bell que o acompanhasse.
O planador-relâmpago aguardava junto à entrada. Num instante levou-os ao quartel-general da Segurança. Durante a viagem, Mercant imediatamente começou a transmitir suas instruções. Assim que chegou ao seu gabinete, acompanhado de Bell, os preparativos mais importantes já haviam sido concluídos.
Seguiu-se uma ligeira conferência, do tipo que antigamente Rhodan costumava realizar.
Senhores — disse Mercant aos cinco colaboradores que se encontravam em seu gabinete. — Precisamos descobrir a posição galáctica do planeta Trakarat. Se não me engano, a mensagem de Alkher diz que em Saós existem antis que podem dar-nos informações a este respeito. Os senhores sabem quando ouvimos falar pela primeira vez no mundo Trakarat. É o lugar de origem dos antis, ou o lugar em que atualmente se encontra sua sede central. Recomendo-lhes encarecidamente guardar o maior sigilo. Quaisquer informações serão fornecidas exclusivamente a mim ou a mister Bell. Entendido? Podem retirar-se. Um momento, vamos aguardar esta mensagem...
A tela do videofone iluminou-se.
O rosto do epsalense Jefe Claudrin apareceu. O comandante da nave linear Ironduke viu na tela a pequena conferência realizada no gabinete de Mercant. Logo tirou suas conclusões.
Marechal solar — trovejou sua voz. — Acabo de receber do chefe uma ordem para decolar às 15:10 h, com destino ao sistema de Saós, situado no grupo estelar M-13. Também ouvi o chefe colocar em estado de prontidão vários grupos de unidades de nossa frota que, até então eram mantidos em reserva. O senhor também deverá ir a Saós. O chefe subirá a bordo às 14:50 h.
Mercant acenou com a cabeça para Jefe Claudrin e desligou. Fitou intensamente os colaboradores que se encontravam em seu gabinete.
Os senhores estão tão bem informados quanto eu. Se precisarem de auxiliares, levem homens que mereçam confiança irrestrita. Não tenho mais nada a dizer sobre este caso. Encontrar-nos-emos às 14:30 h, a bordo da Ironduke. Os senhores dispõem de vinte minutos para concluir seus preparativos. Bom dia.
Bell e Mercant viram-se a sós.
O senhor pensou em todas as conseqüências? — perguntou Bell.
Sei o que quer dizer, mister Bell. Está pensando em Atlan. Se o imperador descobrir que outras unidades estão penetrando no sistema M-13, interpretará isso como um ato de hostilidade. Sua reação poderá consistir numa declaração de guerra formal. Mister Bell, o senhor é a única pessoa capaz de evitar a catástrofe. Atlan ainda tem um pouco de confiança no senhor. Eu...
Ouviu-se uma batida. A porta abriu-se e o professor Manoli entrou. Foi recebido em silêncio.
As palavras que proferiu causaram uma estranha impressão:
Nenhuma pessoa que possa estar interessada nisso deve saber que estou aqui. O chefe está acometido de um processo de cisão celular explosiva. A responsabilidade de que me acho investido obriga-me a informá-los sobre isto.
Bell e Mercant fitaram-se sem dizer uma palavra. O nome da doença não lhes dizia nada.
Sem que o pedissem, Manoli explicou o estado de Perry. Enquanto falava, o rosto de Bell tornava-se cada vez mais pálido.
Terá de morrer? — perguntou em tom apavorado.
Não tenho nenhuma esperança. Alguns dos meus colegas são de outra opinião. Talvez eu esteja errado. Por enquanto ninguém pode afirmar nada. É a primeira vez que esta doença surge na Terra.
Será que a doença foi provocada pelo ativador celular? — perguntou Bell em tom exaltado.
Manoli respondeu com outra pergunta.
O senhor julga o Ser capaz duma coisa dessas, mister Bell?
Os três homens que se encontravam no gabinete já haviam recebido várias aplicações da ducha celular do planeta artificial e conheciam o Ser fictício.
Não! — respondeu Bell em tom enérgico.
Então... — retrucou Manoli. — Se é assim, a causa da doença do chefe deve ser outra. Acontece que não a conhecemos; ainda não.
O senhor ainda tem esperanças? — perguntou Mercant, com um brilho fugaz nos olhos.
Um sorriso triste surgiu no rosto de Manoli.
Afinal, somos criaturas humanas que vivem da esperança... Conservamos a esperança até o último instante. Portanto, esperemos que o chefe seja curado por um milagre, pois, do contrário, poderá transformar-se num monstro.
As últimas palavras foram proferidas em voz tão baixa que Bell e Mercant quase não conseguiram entendê-las.
Bell refletiu.
Professor, será que o senhor se zanga se eu voltar a aludir ao tratamento de choque?
Não, mister Bell. Também vivo pensando nisto. No entanto, também é possível que a doença de Rhodan tenha sido causada pelos antis. Não devemos esquecer-nos de que, em Okul, o chefe ficou nas mãos deles por muitas horas.
Bell lançou um olhar penetrante para Mercant. O marechal solar acenou com a cabeça.
Compreendi, Bell. Isso nos impõe mais uma tarefa. Devemos descobrir se a doença pode ser atribuída aos antimutantes. Em caso afirmativo, nós os obrigaremos a curá-lo.
Isto é muito mais fácil de dizer que fazer. Mas não podemos deixar de tentar.
Bell ergueu-se abruptamente e lançou um olhar para o relógio.
Está na hora. Professor, será que o senhor quer acompanhar-nos no vôo da Ironduke para o planeta Saós?
Manoli fez que não.
Todos conhecem as alterações que o chefe sofreu nestas últimas semanas. Se eu aparecer na Ironduke, poderei provocar suspeitas nele. E os senhores terão melhores condições de vigiá-lo se o deixarmos na crença de que não sabem que está doente.
O rugido de centenas de propulsores tornou impossível qualquer forma de palestra. Os três homens foram à janela e viram um grande grupo de naves da classe Estado disparar em direção ao céu. Tomavam o rumo do planeta Saós, situado no grupo estelar M-13.
Vamos andando — disse Bell, quando o barulho diminuiu um pouco.
Assim que chegaram à porta, despediram-se do professor Manoli. O planador-relâmpago levou-os ao lugar em que se encontrava a nave linear Ironduke, um veículo espacial esférico de oitocentos metros de diâmetro. Entraram pela eclusa C. Bell deu uma ordem ao oficial de serviço junto à eclusa:
Não anuncie nossa chegada. Se houver problemas, pode dizer que eu dei a ordem.
Fez como se não visse o rosto espantado do experimentado oficial. Bell teve a impressão de que não poderia agir de outra forma.
Dirigiram-se ao camarote em que Mercant costumava ficar. Através do sistema de intercomunicação de bordo ficaram sabendo que o chefe comparecera pontualmente. A Ironduke decolou no momento exato.
Acelerou mais fortemente que de costume. Cardif-Rhodan dera ordens para isso. O medo de morrer fazia com que ansiasse por chegar logo a Saós...





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O Imperador e o Monstro, é este o título do próximo volume, que contém uma história cheia de drama e tensão.

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