Será que
esquecemos alguma coisa? Rhodan fez um esforço desesperado para
estabelecer contato telepático com os mutantes que se encontravam a
bordo do couraçado. Se a Ironduke ainda se encontrasse no
semi-espaço, sua tentativa não poderia ser bem-sucedida. Mas era de
se supor que a perfeita visão para a frente, que se verificava
durante o vôo linear, tivesse levado o Major Claudrin a acompanhar
imediatamente a surpreendente manobra de retorno, realizada pela nave
acônida.
Havia
todos os recursos técnicos para que uma nave linear, que também se
deslocasse pela zona de libração, fizesse a localização
instrumental de uma outra. Claudrin não poderia deixar de ter
percebido que, subitamente, havíamos modificado nossa posição
dimensional.
Agarrei-me
à expressão “não
poderia deixar de ter percebido”.
Mas o que aconteceria se o dispositivo de localização não tivesse
funcionado com a necessária precisão, ou se a decisão de
interromper o vôo, a uma velocidade milhões de vezes superior à da
luz, não tivesse sido tomada em tempo?
Se
Claudrin não houvesse seguido imediatamente o nosso exemplo, a esta
hora já se encontraria a muitos anos-luz afastado. Mesmo que nesse
lugar penetrasse no espaço normal, não seria fácil reencontrar o
pequeno veículo acônida.
Se o
tivesse descoberto, haveria necessidade de uma manobra de adaptação
extremamente complexa e demorada. Sabia perfeitamente como era
difícil aproximar-se de uma nave que se desloca quase à velocidade
da luz, com as máquinas normais, e tentar coordenar as rotas. Isso
exigia não apenas uma série enorme de cálculos, mas também
pressupunha conhecimentos astronáuticos que aqui, nesta área de
condensação estelar com suas numerosas influências energéticas,
representaria um encargo pesado para os tripulantes da Ironduke.
Por isso
fazia votos de que Jefe Claudrin tivesse conseguido adaptar em tempo
a sua velocidade à nossa.
Auris de
Las-Toor lançou-me um olhar misterioso. Minha tensão cresceu ao
infinito. O que pretendia comunicar-me por meio dessa linguagem muda?
Seria compaixão ou benevolência?
Esforcei-me
para sorrir-lhe. Mas, provavelmente, apenas consegui fazer uma
careta. O que mais nos deprimia era o silêncio daquelas pessoas tão
frias. Tive a impressão de que se haviam entregue sem mais nem menos
a um destino, talvez porque não precisassem lutar.
Afinal,
fora dali havia pelo menos cinqüenta cientistas e técnicos
altamente qualificados, que deviam conhecer um meio de penetrar na
sala de comando.
Se
estivesse no lugar deles, tentaria ao menos utilizar o sistema de
bombeamento de ar, para introduzir um gás anestesiante no recinto.
Era de se supor que a bordo de uma nave expedicionária houvesse esse
tipo de produto químico. Além disso, outras possibilidades se
mostraram em meu cérebro, que trabalhava febrilmente.
Por que
não faziam nada? Era de enlouquecer.
Rhodan
também não conseguiu nada. Provavelmente seus dons eram tão fracos
e pouco evoluídos que, nestas condições, não lhe permitiam um
contato puramente mental. Era possível que a nave de Claudrin
estivesse vários dias-luz atrás de nós ou à nossa frente.
Perry
desistiu dos seus esforços. Caminhou cambaleante em direção a uma
poltrona vazia e deixou-se cair.
Uma ruga
acentuada surgiu entre as sobrancelhas de Auris. Teria percebido o
que o terrano acabara de tentar?
Lá fora
tudo continuava imóvel.. Nem sequer houve qualquer chamado pelo
sistema de intercomunicação.
— Desligar
os propulsores; passar à queda livre — disse Rhodan em voz rouca,
que denotava um grande cansaço.
Confirmei
com um gesto. Era a única possibilidade de facilitar a manobra de
adaptação de Claudrin.
No mesmo
instante, iniciou-se um rumorejar no interior da nave acônida.
Levantei a cabeça para escutar melhor. Auris voltou a sorrir. Num
gesto elegante passou a mão pelo longo cabelo cor de cobre, que
refletia em milhares de tonalidades as débeis luzes de controle.
Rhodan
levantou-se. Afastou-se lentamente da poltrona. Ao que parecia,
desconfiava de alguma coisa.
— Não
faça nenhuma tolice, Auris! — disse com a voz nervosa. — Vocês
estão em meu poder. Chamem os outros oficiais da nave e...
Auris
sacudiu a cabeça. Estava muito calma. Mais uma vez notei a expressão
de compaixão em seus olhos.
— É
tarde, excelência — afirmou. — Nenhuma das pessoas a bordo
poderá ser responsabilizada pelos acontecimentos que se seguirão.
Vossa Excelência se esqueceu de que se encontra num veículo do
comando energético acônida. Há de compreender que o nosso
transmissor é muito potente. Assim que penetraram na sala de
comando, deveriam ter destruído uma das telas que se encontram na
mesma. Dessa forma a central não os teria visto, nem poderia ter
determinado a posição galáctica da nave. Não; deixem para lá.
Agora não adianta mais.
Rhodan
baixou a arma. Lançou um olhar furioso para a tela abaulada que,
durante o vôo linear, permitia uma visão nítida na direção de
deslocamento da nave.
Era uma
situação estranha! Sabíamos que, dentro de poucos segundos,
aconteceria algo de incompreensível, mas não podíamos fazer nada
para impedi-lo. Num gesto de resignação, baixei a arma. Mesmo agora
os oficiais acônidas permaneceram frios.
O
rumorejar transformou-se num trovejar surdo. Se pudéssemos sair da
sala de comando para destruir o transmissor da nave, que por certo
começava a funcionar lentamente, tudo estaria bem. Mas, do lado de
fora, havia pessoas armadas. Não podíamos fazer mais nada.
Tama
Yokida foi o primeiro a guardar a arma no cinto. Compreendera. Sem
dizer uma palavra, acomodou-se numa poltrona, mas não tirou os olhos
dos acônidas.
O trovejar
começou a abalar toda a nave. Neste momento, o corpo de Rhodan
tornou-se rígido. Uma esperança absurda surgiu em mim. Teria
estabelecido contato?
Esforcei-me
para não dar mostras de meu nervosismo, até que a expressão do
rosto de Perry voltasse ao normal. Pelo seu sorriso concluí que os
telepatas a bordo da Ironduke haviam respondido ao seu chamado. A
nave terrana também retornara ao espaço normal. Rhodan não deu
qualquer informação, mas tive certeza de que os mutantes haviam
sido informados sobre os acontecimentos que se seguiriam.
Isso
significava que a Ironduke voltaria imediatamente ao semi-espaço,
onde tentaria reiniciar a viagem em direção ao Sistema Azul. Apesar
de tudo, não estávamos sós.
Antes que
me fosse possível pesar os prós e os contras, a nave acônida foi
atingida por uma força tremenda.
Os
contornos dos presentes começaram a desmanchar-se à frente dos meus
olhos. Rodas vermelhas desenharam-se, e, subitamente, não vi mais
nada. Apenas compreendi que era a desmaterialização mais violenta
pela qual já havia passado.
A central
transmissora acônida devia ter funcionado com um enorme dispêndio
de energia, a fim de desmaterializar a massa nada desprezível da
espaçonave e transmiti-la sob a forma de um impulso
superdimensional.
6
Parecia
que estava despertando de um pesadelo. Uma dor lancinante martirizava
meu corpo. Tama Yokida dava mostras de estar ainda inconsciente.
Rhodan levantava-se com um gemido. Achava-me deitado perto dele.
Não se
haviam dado ao trabalho de nos colocar sobre um leito macio ou numa
confortável poltrona. De repente passaram a adotar atitudes
desagradáveis.
Assim que
consegui enxergar melhor, percebi que já não nos encontrávamos a
bordo da espaçonave. Apesar disso estávamos deitados sobre placas
metálicas não aquecidas. Um frio torturante atravessou meu uniforme
fino e parecia introduzir-se nas articulações já um tanto
endurecidas.
Rhodan
praguejou em termos terranos, com o que acordei de vez. Olhei em
torno, e com isso comecei a espantar-me.
Estávamos
no chão metálico de um corredor coberto por material transparente,
que mais adiante terminava numa eclusa de ar, que também era
transparente.
Pouco além
da eclusa via-se uma espaçonave esférica de pouco menos de
cinqüenta metros de diâmetro. Seus pólos eram achatados e, na
linha equatorial, observava-se uma protuberância muito larga, que
terminava em duas arestas agudas.
Tive
certeza de que fora este veículo que nos seqüestrara. Mas, naquele
momento, a nave espacial não assumia a menor importância. O que
mais me perturbava, chegando até a fascinar-me, era a luminosidade
em forma de arco, de mais de duzentos metros de altura, cuja luz
forte ofuscava meus olhos.
Praticamente
era formada apenas por duas colunas energéticas da grossura de uma
torre, que na parte superior se uniam num arco pontudo. Nesse lugar,
o vermelho passava a um violeta muito claro. Entre as colunas
energéticas do gigantesco transmissor reinava a noite escura. Tive a
impressão de que, por lá, ficava a entrada para o lendário
submundo.
A nave
esférica achava-se junto a essa abertura. Imaginei que fôramos
atirados por essa entrada, pois a pequena nave jazia no campo de
pouso e, ao que parecia, sofrerá graves avarias. O lado esquerdo da
protuberância equatorial estava amassado e certas peças das
máquinas haviam sido atiradas para fora da nave.
Face a
isso tive certeza de que o enorme salto pelo universo de cinco
dimensões, realizado por nós, não era nada comum. Haviam recorrido
a uma solução de emergência, que provavelmente envolvia graves
riscos.
Os robôs
carregavam vultos imóveis. Reconheci um deles. Era um dos oficiais
que se encontravam na sala de comando. Não se via o menor sinal de
Auris.
— Resistimos
a isso melhor que os acônidas — disse Rhodan, em voz baixa.
Virei a
cabeça, sem fazer o menor esforço de pôr-me de pé.
Não olhei
para os acônidas presentes, que momentos antes nos haviam tocado.
Não vira seus rostos. Mas, uma vez que os tripulantes da nave
estavam sendo transportados, só podiam ser estranhos.
Segui o
olhar de Rhodan. Pela expressão de seu rosto concluí que também se
sentia espantado. Quase não deu a menor atenção ao gigantesco arco
do transmissor. Já conhecia essa figura. Na verdade, tal aparelho
representara o motivo de seu primeiro pouso na maior das luas do
planeta Esfinge.
Tinha-se a
impressão de que fôramos parar também em alguma lua, mas isso não
passava de ilusão dos sentidos. Estávamos deitados no pólo
superior achatado de uma estação espacial de dimensões
gigantescas.
No
primeiro instante pensei que se tratasse de uma espaçonave, mas não
podia ser assim. Nunca vira ninguém pousar sobre o envoltório
externo de uma espaçonave de qualquer tipo. Estávamos mesmo na
superfície de alguma estação espacial.
Bem
adiante, a cerca de quinhentos metros, via-se o começo do
abaulamento de uma parede esférica. Só consegui ver um pequeno
trecho desta, que tinha a forma de anel. A parte interior da parede
ficava fora do meu campo de visão.
Enquanto
ainda refletia sobre a finalidade dessa figura gigantesca, o arco
luminoso do transmissor apagou de repente.
A luz
ofuscante desapareceu, e só então reconheci a luminosidade de
inúmeras estrelas, concentradas num espaço extremamente limitado,
que tinham o aspecto de um tapete brilhando em todas as cores.
— É o
centro galáctico; a área periférica — cochichou Rhodan. —
Estamos no Sistema Azul. Você vê o brilho?
Meus olhos
já se haviam recuperado. Em todos os lugares para os quais olhava,
via a mesma luminosidade azul.
Atrás de
nós, chamejava a bola de fogo de um sol que também era azul.
Compreendi por que os tripulantes da primeira nave linear, que ainda
continuavam vivos, falavam com tamanho pavor do sistema em que nos
encontrávamos.
Apoiei-me
sobre os cotovelos, me virei e fiquei deitado por mais algum tempo.
Logo depois agachei-me, a fim de espantar o resto da sonolência.
Ninguém me ajudou. Levantei-me.
Três
acônidas lançaram-me olhares hostis.
Não lhes
dei a menor atenção. Esperei que Rhodan se colocasse ao meu lado.
Cuidamos de Tama Yokida, cujo cérebro sensível parecia ainda não
ter vencido o pesado choque. Nunca se sabia como um mutante reagia
face a determinado fenômeno.
Rhodan
tomou seu pulso e fez um gesto para mim.
— OK.
Logo estará recuperado. Notou que nos encontramos sobre a cúpula
polar de uma gigantesca estação espacial?
Respondi
que sim.
— Muito
bem. Será que você sabe explicar por que construíram um monstro
destes na extremidade exterior do sistema?
Não; não
sabia explicar. Não tinha a menor idéia.
— Será
uma fortaleza das linhas de defesa? — indaguei em tom hesitante.
Riu e os
três acônidas pareciam não gostar disso. Um deles, o mais velho,
aproximou-se em atitude indignada.
— Vá
para o inferno — disse Rhodan em tom frio.
Logo
acrescentou em arcônida antigo:
— Não
quero que me dirija a palavra.
O acônida
mudou de cor. Prendi a respiração. Esse terrano tinha nervos de
aço. Rhodan deu-lhe as costas e dirigiu-se a mim como se nada
tivesse acontecido. Voltou a falar em japonês.
— Provavelmente
esta estação abriga uma das numerosas usinas energéticas. Estas
tiveram de ser estacionadas nos limites do sistema para fornecerem a
necessária energia ao campo defensivo azul. Aquelas protuberâncias
— Rhodan apontou para a direita — são projetores. Não gostaria
de chegar perto deles. Ora; parece que ele não quer desistir.
Desta vez
sorriu para o acônida, que parecia perplexo, pensando no que poderia
dizer.
— Sua
Eminência, Gonozal VIII, Imperador de Árcon — disse Rhodan,
apresentando-me. Acho que o senhor já sabe quem sou. Peço-lhe
encarecidamente que nos dê o tratamento a que temos direito. Qual é
seu nome?
De
repente, a expressão do acônida tornou-se sombria. Se possuísse
senso de humor, saberia o que fazer diante das palavras de Rhodan.
Mal consegui reprimir um sorriso. O tratamento que o pequeno bárbaro
dispensava àquele homem, que devia ser um alto representante do povo
dos meus antepassados, não passava de um atrevimento. De qualquer
maneira, as palavras de Perry pareciam ter produzido seu efeito, o
que me deixou espantado. Será que conseguira compreender de forma
puramente intuitiva a mentalidade estranha dessas inteligências?
Rhodan
queria provocar seu interlocutor. Desta vez foi ele quem lançou
olhares frios de desprezo para os dois acônidas, que se mantinham em
ponto mais afastado.
— Diga
seu nome! — repetiu com a voz mais alta e em tom autoritário. —
Estou falando com um oficial comandante ou com um representante do
governo investido dos necessários poderes? Em caso negativo,
peço-lhe que me chame uma pessoa devidamente habilitada.
Aos poucos
comecei a compreender. Rhodan, que até então nunca chegara sequer a
insinuar sua alta posição militar e política, estava agindo
conscientemente.
Por certo
tinha todo motivo para recusar um cumprimento, e mais ainda um
interrogatório realizado por uma pessoa insignificante. No entanto,
senti-me surpreso ao notar que o velho acônida atendia à exigência
de Rhodan, como se aquilo fosse a coisa mais natural deste mundo.
Adaptei meu comportamento a essa circunstância.
— Meu
nome é Lempart de Fere-Khar. Sou chefe do Conselho Governamental de
Ácon e diretor da estação experimental de energia Eretres,
excelência — disse o acônida, a título de apresentação.
Falava em
tom reservado, mas respeitosa Então era assim que se devia falar com
essa gente! Era interessante saber disso, ainda mais que supuséramos
que, apesar de nossa elevada posição, seríamos considerados
simples caciques bárbaros.
Será que
nossa malograda tentativa de libertação, juntamente com a
declaração de guerra formulada por Rhodan, provocara uma
modificação sensível no comportamento dos acônidas? Até parecia
que era assim.
— Exijo
uma explicação sobre o crime cometido por ordem sua — dirigi-me a
ele em tom penetrante.
No momento
em que Lempart começou a falar, senti o fiasco mais decepcionante de
toda minha carreira de almirante e imperador arcônida.
O acônida
gritou em tom arrogante:
— O
senhor não tem que exigir coisa alguma, degenerado. Os colonos de
seu mundo ainda estão submetidos às ordens do Conselho Governante,
muito embora tenham conseguido escapar por algum tempo das nossas
leis. Para nós, o título usurpado pelo senhor é de todo
irrelevante.
Ouvi
Rhodan engolir em seco. Isso fora um remédio amargo para meu orgulho
de arcônida.
Rhodan
merecia certo respeito face à sua qualidade de chefe de estado
estrangeiro, enquanto eu não passava de um descendente de colonos
degenerados. Tive de fazer um grande esforço para controlar-me.
— Queiram
acompanhar-me — disse o membro do Conselho.
Provavelmente
fora incumbido de negociar conosco.
“Com
Perry Rhodan”,
transmitiu meu cérebro adicional num aviso lacônico.
Tama
Yokida, que já despertara, compreendera a discussão. Seu rosto
indiferente deixou-me ainda mais irritado. Tive a impressão de que
seus olhos escuros riam.
Rhodan
piscou para mim. Acompanhou o velho acônida; ao passar por outros
representantes de seu povo, fez de conta que os mesmos nem existiam.
Para mim seria inútil imitar sua atitude. Naquele momento compreendi
que Perry agira acertadamente ao dar a ordem preventiva de alarma.
Atravessamos
a passagem transparente, que nos protegia contra o vácuo do espaço.
Apesar de
tudo fazia muito frio. Senti-me feliz quando vi à nossa frente a
escotilha aberta de uma eclusa de ar.
Perplexo,
notei que não havia ninguém, além dos três acônidas e dos robôs
que os acompanhavam. Será que a gigantesca usina energética não
era tripulada?
Talvez
fosse isso mesmo.
Voltei a
refletir.
Quem sabe
se os três acônidas não haviam sido enviados ao local unicamente
em virtude de nossa chegada repentina? Com isso também se explicava
por que o homem, que devia ser a autoridade mais importante do
Império de Ácon, viera em pessoa. A essa hora tive certeza de que a
declaração de guerra de Rhodan produzira um efeito bombástico.
Provavelmente estavam convencidos de que o Administrador Solar jamais
poderia arriscar-se a dar um passo como este.
Uma vez
completada a compensação da pressão, atravessamos a eclusa. Atrás
dela existia um elevador antigravitacional, do tipo usado em meus
mundos natais. A tecnologia acônida não poderia ter experimentado
uma modificação muito acentuada. Afinal, havia vinte mil anos que
meus antepassados levaram tudo que seus ancestrais já haviam
descoberto ou criado. E, uma vez amadurecidos, tais inventos não
poderiam sofrer grandes inovações.
Ouvi
imediatamente o zumbido grave de inúmeras máquinas. Concluí que
realmente se tratava de uma usina energética.
Uma vez
chegados às profundidades do corpo oco da esfera, o ruído das
máquinas cresceu, transformando-se num rugido monótono. Lancei um
olhar apressado para o relógio e perguntei ao mutante:
— Quanto
tempo durará o vôo da Ironduke?
— Cerca
de onze horas — cochichou Tama apressadamente, compreendendo o
sentido de minha pergunta.
Dali em
diante compreendi que teríamos de ganhar tempo. Em hipótese alguma
deveríamos sair da unidade energética estacionada nas profundezas
do espaço, antes que chegasse a nave linear terrana.
Se é que
havia uma possibilidade de sermos salvos, isso só poderia acontecer
se os mutantes de Rhodan nos encontrassem num lugar em que havia
pouca gente.
O setor
lógico de minha mente transmitiu-me a única sugestão correta.
Devia tornar-me incapaz de ser transportado. Mesmo que me
considerassem um degenerado e um instigador de rebeliões, que
usurpara o título de soberano, não poderiam deixar de respeitar
minha pessoa. Afinal, dispunha de um poderio enorme. Além disso,
Rhodan compreenderia a situação e exigiria que me dispensassem a
necessária atenção.
Cambaleei,
segurei o crânio com ambas as mãos, soltei um gemido e caí ao
chão.
Tama
soltou um grito e Rhodan virou-se apressadamente. Ainda consegui
lançar-lhe um olhar, mas Rhodan não o compreendeu logo. Quando se
inclinou sobre mim, seu rosto exprimia uma preocupação genuína. As
armas dos robôs, que instantaneamente foram colocadas em posição
de tiro, ameaçaram-nos.
— Ficar
aqui até que a nave chegue — cochichei apressado.
Rhodan
compreendeu a situação. Começou a representar imediatamente;
fiquei inconsciente.
— O
imperador precisa de assistência médica — disse Perry. — Há
uma clínica por aqui?
Prestei
atenção à breve discussão que se seguiu. O chefe do Conselho não
fez o menor esforço para dissimular os fatos. Devia estar muito
nervoso, ou então acreditava que não tinha a menor importância
falar sobre coisas, que por mim teriam sido consideradas como
segredos militares.
A usina
energética volante não era tripulada. Era dirigida por robôs, e
por isso não possuía nenhuma clínica. Cinco técnicos, que eram
revezados constantemente, cuidavam da necessária inspeção das
peças mais importantes das máquinas.
A
informação deixou-nos muito satisfeitos. Em hipótese alguma
deveríamos sair desse lugar. Rhodan continuou a formular perguntas.
Sua linguagem tornou-se cada vez mais penetrante, e Lempart de
Fere-Khar continuava a não fazer o menor esforço em ocultar a
situação. Apavorado, sugeriu levar-me imediatamente ao quinto
planeta do sistema. Seria questão de poucos segundos.
Com muita
habilidade, Rhodan contornou este ponto. Exigiu uma espaçonave
rápida, dotada de todos os requisitos de conforto.
O chefe do
Conselho lamentou. Disse que a técnica avançada dos acônidas não
mais utilizava esse meio primitivo de locomoção. Já sabíamos
disso, mas Rhodan teve oportunidade de formular outra ponderação.
Falou em
tom nervoso:
— Mesmo
que os tripulantes acônidas da espaçonave avariada tenham sido
levados ao quinto mundo por meio de transmissores, não podemos
concordar em que o imperador seja submetido ao mesmo procedimento.
— Excelência,
os homens do comando energético foram atingidos muito mais
intensamente pela onda de choque que...
Rhodan
interrompeu o velho. Sabia-se o que pretendia dizer, e a afirmativa
tinha sua lógica.
— Peço
licença para contestá-lo. O imperador não possui o vigor juvenil
de seus homens. Além disso, o senhor deve saber que o organismo dos
arcônidas, adaptado a outro ambiente, não está em condição de
resistir a esse choque. Peço-lhe encarecidamente que faça
comparecer uma equipe médica com todos os recursos modernos. Por
enquanto o imperador não está em condições de ser transportado.
Em hipótese alguma pode ser submetido a outra desmaterialização.
Para quando poderemos esperar a chegada dos médicos?
Ganhamos a
partida! O chefe do Conselho conferenciou em voz baixa com os outros
acônidas. Estes pareciam desempenhar funções subalternas. Dali a
alguns minutos fui levantado por robôs e levado a um aposento que
provavelmente se destinava aos engenheiros supervisores, destacados
para a usina energética.
Mantive os
olhos cerrados e esforcei-me para respirar o mais debilmente que me
era possível. Ouvi vozes do lado de fora. O timbre da voz de Rhodan
era inconfundível. Naquele momento, Yokida cochichou ao meu ouvido:
— Um dos
técnicos já está saltando por um dos transmissores instalados
aqui. O chefe do Conselho disse que não dispõe de nenhuma nave
transportadora que corresponda às exigências de Rhodan. Todos os
veículos têm sua finalidade específica e estão em ação. Sir,
essa gente realmente não tem nenhuma frota espacial. Já imaginou o
que acontecerá se nossos supercouraçados conseguirem romper o
anteparo azul?
Após
estas palavras minha respiração realmente se tornou ainda mais
débil. Será que os acônidas sabiam o que significava a declaração
oficial de guerra de uma grande potência galáctica como o Império
Solar?
Teriam
alguma idéia do que significava ficarem expostos às salvas de uma
frota de guerra? Seus ancestrais haviam visto a guerra contra os
antigos colonos.
Mas... e
os acônidas que viviam hoje? Estes possuíam uma admirável
supertecnologia. Haviam desenvolvido o vôo espacial não-material e,
ao que parecia, sempre foram favorecidos pela sorte nos seus contatos
com outras inteligências.
Além
disso, davam mostras de terem suficiente habilidade para evitar os
conflitos abertos. Havíamos experimentado na própria carne como
sabiam ser perigosos quando agiam às escondidas, e como sabiam
alcançar resultados fantásticos com os meios mais simples. Não
havia, também, a menor dúvida de que eram orgulhosos e arrojados.
Os vôos arriscados de seus comandos energéticos constituíam a
melhor prova disso.
O que
fariam, porém, se de repente se vissem colocados numa situação
puramente defensiva? Afinal, já acontecera alguma coisa que jamais
teriam julgado possível: criaturas estranhas conseguiram romper, com
o novo propulsor linear, o campo energético azul, até então
considerado impenetrável.
O
seqüestro de Rhodan representava uma vitória de Pirro, embora os
acônidas talvez continuassem a acreditar que possuíam uma
superioridade infinita. Nesse ponto, provavelmente estavam enganados.
A Terra estava prestes a mandar seus filhos para o espaço. Alguns
deles já se encontravam nos limites do Império de Ácon. E, o que
era mais temerário, vinham numa nave linear, cuja tripulação, por
certo, seria capaz de destruir o sistema.
Arrisquei-me
a abrir os olhos por um instante. Rhodan estava fechando a porta
atrás de si. Havia um sorriso indefinível em seu rosto.
— Realmente
pretende atacá-los? — cochichei, indagando.
— Apenas
receberão uma pequena lição — disse Rhodan, esquivando-se. —
Os médicos levarão algumas horas para chegar; talvez menos.
Prepare-se. O homem que se encontra por aqui é o chefe do Conselho
Governamental. Já começaram a ficar nervosos.
— Já,
sir? — perguntou Tama Yokida, em tom hesitante.
— Eles
nos têm nas mãos — observei apressadamente. — Assim que um
canhão de radiações terrano disparar o primeiro tiro, estaremos
liquidados.
— Não
tenha tanta certeza disso — contestou Rhodan. — Desempenhe
corretamente o seu papel. Quando for disparado o primeiro tiro, já
estaremos a bordo da Ironduke. Se eles querem seqüestrar estadistas
pela força das armas, devem agir mais discretamente. O Serviço de
Defesa Solar teria feito um trabalho melhor.
De repente
soltou uma risada. Compreendi que, para ele, a situação não era
tão trágica. Sendo assim, a essa hora não gostaria de estar no
couro dos acônidas, isso naturalmente caso os terranos conseguissem
romper o campo energético. Se tal não fosse possível, Rhodan
perderia a vontade de rir. Mais uma vez, esse bárbaro incorrigível
julgava seus homens capazes de muita coisa. Se o Major Jefe Claudrin
cometesse qualquer erro, por menor que fosse, os acônidas seriam
donos da situação.
Tudo
dependia desse homem nascido em Epsal. Continuei a fingir-me de
doente, o que era um papel nada dignificante para o soberano de um
gigantesco império estelar.
Rhodan
acariciou meu rosto. Eu notei que, nesse momento, um sorriso
desavergonhado brincava no seu.
— Afinal
você não passa mesmo de um pobre cachorro, imperador. Os acônidas
gostariam de atirá-lo à prisão mais próxima, por usurpação de
funções, rebelião ou sei lá o quê. De qualquer maneira seria por
atos praticados, na área colonial do grupo estelar M-13, contra a
segurança do Estado.
7
Voltara
para salvar o que ainda pudesse ser salvo. Era esta, talvez, a
intenção de Auris de Las-Toor. Mas ela poderia ser a única a ter
tal intenção?
Bela e
inteligente — qualidades que eu mais prezava em sua pessoa. Quem
sabe se sua ciência a tinha inspirado para observar a situação
também sob o nosso ângulo?
Juntou-se
aos dois médicos, incumbidos de pôr-me de pé. Por enquanto nem
pensava em renunciar ao meu papel.
Rhodan
apoiou-me na execução da tática de retardamento. A todo instante
queixava-se do equipamento dos médicos.
Opôs-se
energicamente ao uso da terapia hipnomecânica. Disse que meu cérebro
degenerado de colono não a suportaria.
Dessa
forma já havíamos conseguido doze horas, mas a Ironduke,
ansiosamente esperada, ainda não chegara. Ao menos, os telepatas a
bordo ainda não haviam chamado, por mais atentamente que Rhodan
procurasse ouvir com seus fracos sentidos parapsicológicos.
A situação
tornara-se perigosa. Um dos médicos já nos ameaçara, muito
indignado, de partir imediatamente, caso continuassem a impedi-lo de
usar as medidas que julgasse acertadas. Naturalmente não poderia
arriscar-me a um exame detalhado.
Rhodan fez
o papel do estadista muito ocupado. No espaço de apenas doze horas,
participou de sete encontros. Devido a estes, ficamos sabendo qual
era a finalidade do seqüestro.
Os
acônidas exigiam todos os dados relativos ao mecanismo de propulsão
linear terrano e um aparelho em condições de ser usado, que seria
por eles examinado.
Não
queriam mais que isso. Porém Rhodan mostrou-se muito indignado,
ainda mais que seu parceiro de negociações se obstinava em afirmar
que a violação das fronteiras estatais, ocorrida durante o vôo
experimental de Rhodan, habilitava Fere-Khar a exigir uma compensação
a ser fixada através de negociações.
Os ataques
à Terra e ao Império Arcônida foram negados, embora estivéssemos
em condições de provar que tanto o monstro de plasma como o
deslocamento do tempo ocorrido em Árcon III provinham inegavelmente
de comandos acônidas.
Em seu
conjunto, as explicações dadas pelo representante do Conselho
Governamental tinham fundamentos muito fracos. Não havia desculpa
para nosso seqüestro.
A
explicação para essa medida sumamente antidiplomática apenas
provocou um sorriso de compaixão em Rhodan. Lempart alegou que o
Conselho não tivera outra alternativa, já que, apesar de numerosas
mensagens de rádio, o Administrador do Império Solar não se
dignara a comparecer a uma conferência dos chefes de Estado.
Essas
notas, que alegou terem sido transmitidas pelo hiper-rádio, jamais
foram registradas em Terrânia. Os acônidas nunca haviam
estabelecido tal tipo de contato, muito embora neste meio tempo já
deveriam ter reconhecido que sua atuação era fundamentalmente
errada.
A
exigência acônida — o fornecimento de dados técnicos — era tão
absurda como as alegações formuladas pelo representante do Conselho
Governamental, quando tentara explicar o porquê do seqüestro.
Sabíamos
o que essa gente realmente pretendia conseguir por meio de seus atos.
O vôo de Rhodan os havia arrancado da segurança milenar. De
repente, um estranho conseguira romper seu potente campo energético.
Numa conclusão absolutamente lógica, resolvera-se eliminar o
visitante indesejável, tanto no terreno militar como no político,
ou então se tentaria aperfeiçoar a estrutura energética do campo
defensivo. Mas, antes disso, seria necessário saber como funcionava
o mecanismo do propulsor linear da Terra e quais as leis hiperfísicas
que o regiam.
Era esta a
finalidade da ação. Desejavam voltar à segurança a que o Sistema
Azul estava acostumado, sem correr o risco de serem surpreendidos por
algum terrano.
A
tentativa de destruir a Terra não fora bem-sucedida. Agíramos com
excessiva rapidez e precisão. E os acônidas, que há muito não
dispunham de uma frota poderosa, não poderiam arriscar um ataque
frontal.
Por isso
providenciaram para que numerosos comandos energéticos escutassem e
decifrassem minhas mensagens dirigidas a Rhodan. Finalmente
realizaram o seqüestro, que a essa hora já lhes parecia causar
certo mal-estar. Na verdade, a declaração de guerra formulada por
Rhodan produzira de fato um efeito bombástico, mas nem por isso o
Conselho de Governo se sentiu impedido de continuar a exigir a
entrega do sistema de propulsão linear.
Nas
últimas horas, o tom da fala dos acônidas tornara-se mais áspero,
conforme Tama Yokida me comunicara com certa preocupação. Naquela
oportunidade, Auris entrara em contato conosco pela primeira vez,
depois de nossa chegada ao local.
Salvo nas
horas de conferência, Rhodan e Tama permaneciam ininterruptamente a
meu lado. Diziam que não podiam deixar a sós um aliado tão
importante como eu.
Auris
voltara a aparecer há três minutos, desta vez como enviada,
devidamente autorizada, do Conselho de Ácon.
*
* *
Imediatamente
me fingi de inconsciente. Há trinta minutos um médico me aplicara
duas injeções de efeitos estimulantes. Meu coração batia
aceleradamente. Sentia-me bem e disposto como raramente me sentia
durante a vida.
Até mesmo
para um ator profissional seria difícil fazer o papel da pessoa
fraca e desamparada, que, no momento, eu representava.
Auris veio
só. Arrisquei-me a lançar um olhar ligeiro para ela. Não gostei
nem um pouco do sorriso com que cumprimentou Rhodan.
Voltei a
observá-la. De pé, ao lado de Rhodan, fitava os olhos cinzentos
deste, que de repente deixaram de emitir o brilho frio e reservado
que estava acostumado a ver neles, desde o momento do seqüestro.
Gemendo
terrivelmente, virei-me para o outro lado. Por que Auris nunca me
olhava desse jeito?
Tama
Yokida pigarreou a título de advertência, e voltei a ficar quieto.
— Se
estivesse no seu lugar, não me esforçaria tanto — disse Auris.
Fiquei
gelado de susto. Estaria falando comigo? Será que essa moça
inteligente notara aquilo que os médicos não haviam percebido?
Rhodan deu
a resposta. Era inteligente demais para querer continuar a enganar
Auris.
— Pode
abrir os olhos, meu caro; estamos a sós.
“Já
sabem que estou fingindo!”,
transmitiu meu cérebro adicional.
Para
chegar a essa conclusão, não precisaria de qualquer impulso do
setor lógico de minha mente.
Virei-me
devagar. Abri as pálpebras e fitei o rosto pálido e cansado da
moça. Os dedos crispados seguravam a aba da capa que cobria seus
ombros. Rhodan estava parado a seu lado; parecia tranqüilo.
— Os
médicos foram embora — disse a moça. — Descobriram que o senhor
não está doente. Por que procurou enganá-los? O que esperam
conseguir com isso? Fui incumbida para informá-los de que...
— Informar-nos
de quê? — interrompeu Rhodan.
Auris fez
como se não tivesse ouvido a interrupção.
— ...de
que dentro de uma hora, aproximadamente, serão transportados para
Drorah pelo transmissor de matéria.
Yokida
fitou-a atentamente. Por certo procurava descobrir alguma arma que
trouxesse sob a capa. Não possuía nenhuma.
Esqueci-me
da minha súbita simpatia por Auris. Estava muito mais interessado no
seu relógio.
“Isso
não é sinal de verdadeiro amor”,
transmitiu o setor lógico de minha mente.
Contrariado,
balancei a cabeça. Auris recuou, assustada.
Onde
estaria a Ironduke, cuja chegada já nos fora anunciada? Será que
alguma coisa saíra errado? Talvez Jefe Claudrin não tivesse
conseguido romper o campo energético. Seria impossível repetir
aquilo que, por ocasião da primeira experiência com a nave linear
Fantasy, fora realizado com certa facilidade? Em que ponto Rhodan
teria errado nos seus cálculos?
Mais uma
vez, Rhodan exibiu seu sorriso indiferente, mas seu cérebro estava
trabalhando. Naturalmente estava ocupado em reflexões idênticas às
minhas.
Desconfiei
de que a expressão do meu rosto revelava meus sentimentos numa
extensão que não me era agradável. Sentia-me como se fosse um
pobre cachorro!
Estávamos
todos numa difícil situação. Encontrávamo-nos num navio que de
repente começara a fazer água. Face à tecnologia avançada dos
acônidas, tornava-se praticamente impossível que os mutantes nos
libertassem, depois de nossa chegada ao planeta central. Nesse caso,
qualquer ataque da frota seria sufocado no nascedouro, pois os
terranos com certeza não estariam dispostos a atirar contra seu
venerado administrador.
“Nem
em você!”,
revelou o setor lógico de minha mente.
— Por
que procuraram enganá-los? — voltou a indagar Auris.
Logo
depois acrescentou em tom um tanto queixoso:
— De
qualquer maneira eu sabia, assim que recebi o aviso, que os senhores
não poderiam estar doentes nem cansados.
— E
apesar disso ficou calada? — perguntou Rhodan.
Auris fez
um gesto de desprezo.
— Ponderei
perante os membros do Conselho de Governo que o seqüestro foi um
erro. Não me quiseram dar crédito. Lembrei a grande guerra entre os
arcônidas e os acônidas. Acham que o assunto está liquidado, mas
ainda não se esqueceram de todo... A situação de Atlan será
bastante difícil.
— Reservo-me
o direito de adotar medidas militares — respondi.
Pensativa,
Auris confirmou com um gesto.
— Sem
dúvida. Dentro em breve, o senhor também formulará a declaração
de guerra, usando os poderes que lhe cabem como soberano absoluto.
Meu povo terá de vencer ou desaparecer.
Auris
desconfiava de alguma coisa. E parecia saber que não se podia
brincar com os impérios aliados. Abatida, deu-nos as costas e fez
com que a porta se abrisse. Atrás desta havia três robôs de guerra
de quatro braços, de tipo muito semelhante aos usados pelo regente
positrônico de Árcon.
— Os
robôs foram regulados para suas vibrações individuais — disse em
tom de advertência. — Peço-lhes que não façam tolices. Eu
ficaria muito triste.
— Por
quê?
Um sorriso
indiferente continuava a brincar no rosto de Rhodan. Auris fitou-o
atentamente.
— Não
sei.
Acontece
que eu sabia. Resignado, constatei que seu coração pertencia ao
grande terrano de olhos cinzentos.
— Venham
— pediu em voz baixa.
Rhodan
continuou parado no lugar em que se encontrava. Tama Yokida
contemplou os três robôs. Ao que tudo indicava, não haviam julgado
necessário destacar um número maior de máquinas. Será que, por
ocasião de nossa frustrada tentativa de libertação, não haviam
percebido que foram usadas forças invisíveis? De qualquer maneira,
ninguém parecia desconfiar de que nosso competente telecineta não
teria a menor dificuldade em livrar-nos das máquinas de guerra.
Bastava atirá-los violentamente contra a parede de aço mais
próxima, e as funções precisas de seus cérebros mecânicos
deixariam de existir.
Auris
demonstrou uma indiferença altamente suspeita face ao mutante. Uma
desconfiança começou a germinar em minha mente.
Estaria
Auris já sabendo das perigosas faculdades de Yokida? Teria ficado
calada de propósito, a fim de dar-nos uma chance? Não; isso era uma
conclusão forçada. Apesar de toda a tolerância, ela nunca seria
capaz de trair seu povo. Provavelmente não sabia ao certo o que
pensar do mutante.
— A
senhora acaba de aludir a um planeta, Auris — disse Rhodan. —
Falou em Drorah, se não me engano. Trata-se do mesmo mundo que por
nós foi batizado com o nome de Esfinge, ou seja, do quinto planeta
do sistema?
Auris fez
que sim.
Finalmente
saímos. Os funcionários do governo acônida haviam desaparecido.
Apenas se achavam presentes os cinco engenheiros supervisores, que
costumavam guarnecer a usina energética, e mais dois oficiais
pertencentes a um comando energético, que, segundo tudo indicava,
estavam submetidos a Auris.
Os
técnicos não estavam armados. Já os oficiais traziam armas que,
segundo me pareceu, eram radiadores de impulsos térmicos. Além
deles havia os três robôs.
Era uma
força considerável. Se não fosse o mutante, não haveria como
dominá-la. Restava saber se valeria a pena tentar um ataque de
surpresa.
Se o
couraçado terrano não se encontrasse nas proximidades, tornar-se-ia
inútil alcançar a liberdade. Esta seria provisória.
Parei. À
nossa frente abria-se o corredor, que descrevia uma curva ligeira e
levava ao elevador antigravitacional. Encontrávamo-nos cerca de
trezentos metros abaixo da cúpula polar da usina energética
espacial, que, segundo soube de Rhodan, teria nada menos de onze
quilômetros de diâmetro.
Considerando
esse diâmetro, podia-se imaginar as dimensões gigantescas das
máquinas ali instaladas. Então se podia tirar conclusões sobre o
consumo de energia do campo defensivo, que envolvia o gigantesco
sistema solar.
“A
amplitude é de, aproximadamente, cinqüenta bilhões de
quilômetros”, disse o setor lógico de minha mente.
Uma vez
que o sistema tinha dezoito planetas, aquela amplitude era
provavelmente bem maior. Quais seriam as leis que regiam os
movimentos de translação dos planetas do sol central?
Prestei
atenção ao rugido surdo e monótono que parecia sair de todos os
cantos. Quantas usinas energéticas, estacionadas, em órbitas
estáveis, seriam necessárias para suprir o campo azul
ininterruptamente com a energia de que precisava? Quantos bilhões de
megawatts consumiria? Será que realmente eram apenas bilhões?
Ao fazer
essas reflexões, dei-me conta do que os acônidas haviam realizado
ao criar o gigantesco campo esférico. Geravam um volume de energia
equivalente ao de um pequeno sol, apenas para isolar-se
hermeticamente.
Balançando
a cabeça, segui Rhodan e a moça. Tama caminhava às minhas costas.
Atrás dele vinham os robôs. Os dois oficiais iam ao nosso lado.
Com a
maior facilidade, eu poderia dominar um deles. Mas para que faria uma
coisa dessas? O que poderíamos fazer com a liberdade puramente
ilusória que conquistássemos por essa forma?
Além
disso, Auris acabara de dizer que seríamos transportados dentro de
uma hora, aproximadamente. Por que não permitia que ficássemos no
pequeno aposento que ocupávamos?
As
perguntas iam-se amontoando em minha mente.
Dali a dez
minutos soubemos por que nos haviam levado. Pretendiam aplicar-nos
injeções estabilizadoras da circulação. As seringas automáticas
estavam preparadas. Um dos técnicos da usina energética disse que
era médico nas horas vagas. Que volume de saber não devia dominar
esse homem! Numa era tecnológica em que os diversos setores haviam
sido subdivididos milhares de vezes, para que uma pessoa pudesse
conhecer bem cada subdivisão, esse homem “era
médico nas horas vagas”!
Desnudei a
parte superior do corpo. A injeção seria aplicada nos músculos do
tórax, pouco acima do coração.
Subitamente
o rosto do acônida assumiu uma expressão tensa. Parecia ter um
interesse tremendo por meu ativador celular. Auris também se
aproximou.
— É um
viking supermusculoso, não é? — disse Rhodan.
Indignado,
virei a cabeça. O rosto de Rhodan permanecia impassível.
— Um
viking? — perguntou Auris, em tom de espanto.
— A
senhora, que é socióloga, deve estar interessada em saber que este
arcônida teve uma influência decisiva no desenvolvimento de certos
povos do planeta Terra.
— É
mesmo?
— Olhe
as cicatrizes que apresenta no abdômen. Estas feridas foram
produzidas pela extração, realizada pelos meios mais primitivos, do
ativador celular que fora engolido por Atlan.
A
respiração do médico tornou-se ainda mais rápida. Esteve a ponto
de formular uma pergunta, mas Auris lançou-lhe um olhar de
advertência, motivo por que preferiu ficar calado.
Por que
Rhodan resolvera entoar esses cânticos de louvor? De início
supusera que pretendia divertir-se à minha custa. Mas os
esclarecimentos não demoraram.
— Auris
de Las-Toor, dê uma olhada neste descendente de colonos, que seu
povo considera degenerado. Acha que foi acertado seqüestrar o homem
que governa alguns bilhões de outros desse tipo?
Auris ia
responder. Provavelmente iria aludir à lei natural da
degenerescência e acrescentaria em tom irônico que restavam poucos
arcônidas desse tipo. Mas não teve tempo de formular essas
considerações.
Mesmo que
tivesse falado, as sereias de alarma da usina energética teriam
superado sua voz.
O barulho
infernal fez com que eu me encolhesse. O bocal de alta pressão
escorregou de meu peito e a fina névoa do medicamento espalhou-se
pelo recinto, sem produzir o menor efeito.
De
repente, as fúrias do inferno pareciam estar soltas. Os dois
oficiais levantaram as armas, correram á porta e assumiram posição
de combate. O fato de não soltarem pragas nem formularem ameaças
dava mostras do excelente treinamento que esses homens haviam
recebido. Num movimento reflexo assumiram a posição de tiro; e foi
só. E, para nós, era quanto bastava, pois os três robôs assumiram
atitudes semelhantes.
O técnico,
que nas horas vagas era médico, saiu correndo. Lá fora,
provavelmente se reuniria aos quatro colegas. Sem dúvida ocupariam
os postos de manobras para os quais haviam sido designados, e que,
conforme as circunstâncias, também poderiam ser postos de combate.
Fazia
votos de que Jefe Claudrin contasse com isso. Não havia dúvida de
que a Ironduke acabara de romper o campo energético e penetrara no
Sistema Azul. A situação começava a ficar séria. O significado do
alarma só poderia ser este, pois, do contrário, os guardas não
teriam tomado as atitudes que tomaram.
O rosto de
Rhodan descontraiu-se. Tinha-se a impressão de que precisava
refletir muito, antes de dar as respostas. Sabia que entrara em
contato com os telepatas que se encontravam a bordo do couraçado.
— Infelizmente,
os senhores terão de dispensar as injeções — disse Auris em tom
nervoso, assim que o barulho das sereias cessou. — Peço-lhes que
se dirijam imediatamente ao grande transmissor.
A essa
hora passara a ser exclusivamente uma moça acônida, decidida a agir
exclusivamente no interesse de seu povo.
Dei as
respostas adequadas, e senti-me satisfeito porque, face às
circunstâncias, a ausência mental de Rhodan não foi notada. Perry
tinha de manter contato com os mutantes, a fim de que estes pudessem
dirigir-se à estação espacial em que nos encontrávamos. Eu
calculava haver muitas estações desse tipo.
Fomos
andando. Desta vez, as armas de nossos acompanhantes orgânicos e
inorgânicos encontravam-se em posição de tiro.
Cochichei
algumas instruções em francês ao ouvido de Tama Yokida. Era
possível que, neste meio tempo, tivessem aprendido a traduzir o
japonês. Preferia não assumir nenhum risco.
Yokida
compreendeu. Aguardava meu sinal. Mas ainda não estava na hora.
8
Gastamos
doze minutos e vinte e três segundos para chegar à ampla sala
abobadada.
Era ali
que estavam instalados os transmissores que, segundo tudo indicava,
se destinavam ao transporte de pessoas e mercadorias.
Não havia
aparelhos de dimensões gigantescas, como o que vira na face externa
da estação espacial. Ainda assim tratava-se de aparelhos
gigantescos, que permitiam a desmaterialização de objetos do
tamanho de uma casa e sua irradiação para o aparelho receptor, sob
a forma de impulsos concentrados de categoria superior.
Era uma
tecnologia admirável, mas naquele momento não poderíamos
interessar-nos por este ponto.
No que
dizia respeito ao aspecto prático da situação, os acônidas
estavam fugindo da Ironduke, que se aproximava a alta velocidade, e
que evidentemente já fora localizada e identificada. Era muito
duvidoso conseguir encontrar uma nave que de alguma forma estivesse
em condições de enfrentar o gigante terrano de oitocentos metros de
diâmetro.
Quando
chegamos à sala dos transmissores, estávamos ofegantes. Não se via
o menor sinal dos cinco técnicos da estação espacial. Apenas um
deles aparecia numa grande tela. Por certo era responsável pelos
controles que se tornavam necessários.
Um arco de
transmissão de dez metros de altura ergueu-se à nossa frente. O
zumbido de reatores invisíveis de alta potência atingiu meu ouvido.
O trovejar tornou-se cada vez mais forte e profundo, até que se
estabilizou. No mesmo momento, o arco completou-se. Entre suas
colunas vermelho-reluzentes de apoio começava a escuridão vazia,
que representava a porta de entrada para o “aparelho”
de transporte.
Já não
podíamos contar com Rhodan. Auris já notara sua distração, mas ao
que parecia nem imaginava o que o terrano fazia naqueles segundos.
Tama e eu teríamos que agir sozinhos. Perry não poderia ser
perturbado nas suas transmissões telepáticas.
Não
esperamos mais. Dei o sinal para Tama.
Este
parou. Seus olhos assumiram uma expressão rígida. As armas foram
arrancadas das mãos dos oficiais acônidas com tamanha força que os
dois soltaram um grito de dor.
O momento
de susto, que talvez durou um décimo de segundo, bastou para que o
capaz telecineta erguesse do chão os três robôs e os fizesse subir
rapidamente para o teto, onde passaram a descrever movimentos de
rotação. Desta forma podia controlar melhor suas energias mentais.
Quando os
robôs, que giravam cada vez mais rapidamente, apareciam como
círculos reluzentes, Tama libertou-os de sua influência. A força
centrífuga fez os três corpos voarem em direções diferentes. O
terrível impacto foi quase simultâneo.
Viraram
destroços. Mas não dei muita atenção à cena. Assim que Tama
iniciou sua ação, saltei sobre o primeiro acônida e derrubei-o com
um golpe.
Passei a
lutar com o segundo acônida, que fez um esforço desesperado para
pegar a arma que se encontrava no soalho. Não teve sorte, pois fui
mais rápido que ele.
Não
precisava preocupar-me com o homem que fora derrubado no início da
luta. Tama estava cuidando dele, e ao mesmo tempo controlava Auris,
para que ela não pudesse chegar até as armas jogadas ao chão.
Saltei
para onde estavam os radiadores de impulsos, peguei-os e atirei um
deles para o mutante. Tama não perdeu tempo. Levantou os corpos dos
acônidas inconscientes e atirou-os para dentro do transmissor
preparado para o transporte.
Os homens
desapareceram no interior do fenômeno luminoso e cintilante, para no
mesmo instante se rematerializarem no quinto planeta do sistema.
Tudo isso
acontecera sem o menor ruído. Ninguém dissera uma única palavra.
Tama arrastou Auris pelos pulsos. Levei Rhodan para a porta e para a
eclusa de ar, que ficava à frente da mesma, e abriguei-me no
respectivo batente de aço.
Naquele
momento ouviram-se os primeiros ruídos. O acônida, que aparecia na
tela, disse algumas palavras incompreensíveis.
— O
transmissor, sir — disse Yokida, muito calmo. — Se resolverem
enviar reforços...
Sabia onde
ficava a fonte do perigo. Levantei lentamente a arma estranha,
procurei o gatilho e estive a ponto de apertá-lo, quando Auris
começou a gritar:
— Não
atire! O senhor fará explodir a estação. Pare!
Imediatamente
retirei o dedo do gatilho e virei a cabeça.
— Auris,
será que isso não é um truque?
— É
verdade — exclamou, tremendo que nem vara verde. — O raio
disparado pela arma daria causa a um carregamento incontrolável dos
campos de força, transmitidos sem fio. Não atire!
Finalmente,
Rhodan começou a mexer-se. Seu rosto contraído voltou ao normal. No
mesmo instante ouvi um trovejar surdo, que sacudiu todas as juntas da
enorme construção. Forcei o ouvido. Ninguém apareceu no
transmissor que continuava ligado, nem mesmo um robô.
— São
canhões energéticos, sir. A Ironduke está atacando.
Fiz um
sinal para Tama, que há alguns minutos vigiava atentamente o
corredor que começava junto à eclusa. Não se via o menor sinal dos
técnicos. Seria realmente tão simples assim fugir da estranha
prisão em que nos encontrávamos?
Mais dez
minutos se passaram num silêncio tenso e enervante. Auris voltara a
acalmar-se e, ao que parecia, Rhodan estabelecera contato de novo.
Quando
pretendia verificar a situação, saindo alguns metros pelo corredor,
Rhodan disse com uma estranha indiferença:
— Daqui
a pouco os teleportadores saltarão. Cuidado!
Ainda não
acabara de falar quando três seres materializaram-se simultaneamente
do nada. Eram Gucky, o rato-castor, e os teleportadores Tako Kakuta e
Ras Tschubai.
Estes
seres, que provavelmente eram os membros mais competentes do Exército
de Mutantes terrano, não perderam tempo. Não disseram uma única
palavra inútil:
— Claudrin
voltará dentro de trinta segundos. É a quarta aproximação —
disse a voz estridente do rato-castor. — Pegarei você e Perry,
Tako pegará a moça e Ras se encarregará de Tama. Estão
preparados? Coloquem os braços em torno de meu pescoço. Terei que
dar um salto muito grande.
Rhodan
despertara do transe. Puxou-me violentamente, segurou minhas mãos e,
no mesmo instante, aconteceu aquilo que minha inteligência nunca
conseguiria compreender.
As imensas
energias teleportadoras de Gucky representavam o equivalente daquilo
que os acônidas faziam com o auxílio de gigantescos transmissores.
No entanto, o pequeno ser tinha a vantagem de poder dispensar um
aparelho receptor.
Alguma
coisa parecia explodir no interior do meu crânio. Senti uma dor
aguda, mas antes que compreendesse do que se tratava, os contornos
voltaram a iluminar-se à minha frente.
A figura
maciça de Jefe Claudrin surgiu no meu campo de visão. O major
cumprimentou-me com um gesto ligeiro, como se apenas tivesse voltado
à sala de comando, depois de ter ido buscar um copo de água.
Logo atrás
de nós, apareceram os outros teleportadores com Auris, que estava
totalmente perplexa, e Tama Yokida, que se dirigiu imediatamente ao
seu posto de combate.
Rhodan
saiu correndo e logo começou a dar suas ordens.
Gucky saiu
arrastando-se sobre suas pernas curtas. Brindou-me apenas com um
sorriso amável.
— Isto
foi uma atuação de primeira, não foi? Cem mil quilômetros! Que
joguinho, meu velho!
Esta
expressão fez com que eu me lembrasse da tendência lúdica do
rato-castor, que constituía uma de suas características. Quase
chegava a esquecer que constantemente assistira às ações arrojadas
dessa inteligência delicada.
Fiquei
sentado no chão, exausto. Auris pôs-se lentamente de joelhos.
Estava pálida como um cadáver. Lançou-me um olhar de súplica, e
eu me esforcei para sorrir.
Pretendi
dizer-lhe algumas palavras amáveis, falando-lhe que o fato de nossa
fuga ter sido bem-sucedida e que o súbito aparecimento da Ironduke
não eram tão apavorantes como poderia supor, mas naquele momento as
campainhas de alarma começaram a soar.
— O
chefe está assumindo — disse a voz metálica, saída de todos os
alto-falantes de bordo.
Rhodan
estava sentado na poltrona de comando. Jefe Claudrin encontrava-se a
seu lado.
As
informações da sala de máquinas e da central de comando de
armamentos começaram a chegar. Um rastreador estrutural passou a
trovejar. A curva achatada indicava um abalo insignificante da
estrutura espacial.
— Localização
para comandante. A estação espacial ativou um transmissor. É de se
supor que os tripulantes se tenham colocado em segurança. Fim da
mensagem.
Sabia que
era isso mesmo. Os cinco técnicos só haviam esperado até que
fôssemos embora. Agora não havia mais nada que segurasse Rhodan.
Auris sentou-se no chão, chorando. Ninguém nos deu atenção. Todos
aqueles soldados do planeta Terra estavam muito ocupados.
Quase não
tinham dado a menor atenção ao chefe que acabara de voltar. Vez por
outra, eu notava um olhar ligeiro, uma olhadela de soslaio ou
escutava uma risada alegre. Mas era apenas isso. O que lhes importava
era que ele estivesse novamente a bordo.
As
máquinas da Ironduke trovejaram. Dali a alguns segundos, as
primeiras salvas da estação espacial atingiram os potentes campos
defensivos do couraçado mais moderno da Terra.
A Ironduke
enfrentou facilmente os tiros. A superposição tripla só foi
solicitada no setor externo até oitenta por cento de sua capacidade
de absorção.
Uma
máquina de guerra, que funcionava com uma precisão tremenda,
entrara em atividade. Ninguém gritou uma ordem, ninguém falava mais
alto do que era necessário. Tudo foi feito na maior calma e
disciplina. Para os terranos, era perfeitamente natural aproximar-se
de uma estação espacial não tripulada. Agiam como se estivessem
realizando uma manobra.
— Costado
vermelho. Fogo! — disse Rhodan para dentro dos microfones.
A Ironduke
transformou-se num monstro que cuspia fogo. O recuo dos canhões do
lado vermelho atirou-me ao solo; as placas blindadas vibravam como se
fossem uma peneira.
O trovejar
e o rumorejar das salvas rápidas dos canhões do costado pareciam
esfacelar a nave. Tive a impressão de que teria de suportar o
barulho por uma eternidade, mas os disparos não demoraram mais de
três segundos.
Depois
disso, a Ironduke, que desenvolvia metade da velocidade da luz, já
havia passado pela estação espacial. Esta deixara de ser uma
maravilha técnica.
As telas
de popa iluminaram-se depois de quarenta e oito segundos. Fora o
tempo que a luz levara para alcançar-nos.
Já
assistira à explosão de muitas espaçonaves, mas o que se formou à
nossa retaguarda foi um pequeno sol. Uma bola incandescente
ultraforte afastou a cintilância do anteparo energético que
envolvia o sistema. De repente uma enorme abertura surgiu por lá.
Desta vez
gritaram de entusiasmo, pois, de repente, a luminosidade azul foi
substituída pelo negrume do espaço propriamente dito, salpicado de
inúmeras estrelas.
Auris
soluçou e cobriu o rosto com as mãos. Fiquei sem saber o que fazer.
Rhodan
olhou para o grande relógio de bordo: zero hora e trinta e dois,
tempo de Terrânia!
— Onde
fica a próxima estação, Major Claudrin? — perguntou Rhodan, em
tom frio. — Espero que tenha localizado outras unidades. E onde
está estacionada a frota?
O nativo
de Epsal respondeu em palavras rápidas. Cinco mil unidades terranas,
que por sua vez abrigavam quatro mil caças e destróieres rápidos,
encontravam-se em posição de salto junto ao anteparo azul.
Só
esperavam que surgisse uma fenda. E esta acabara de surgir.
Dali a
dezoito minutos a próxima usina energética volante foi derrubada. A
abertura no envoltório do sistema tornou-se cada vez mais larga.
Dali a
pouco foi captado o chamado de Reginald Bell, representante de Rhodan
e, no momento, comandante supremo da esquadra normal de salto. Estava
penetrando no Sistema Azul com quatorze supercouraçados terranos da
classe Império.
Bell
também não perdeu tempo. Foi objetivo e disfarçou o alívio e a
alegria causados pela salvação de Rhodan.
— Em
hipótese alguma deverão ser atacados planetas ou outros astros do
sistema — ordenou Rhodan pelo hiper-rádio. — No entanto, todas
as estações espaciais que forem localizadas, e que sejam usinas
energéticas destinadas a alimentar o campo energético azul, deverão
ser destruídas. As usinas não são tripuladas. Os poucos ocupantes
poderão colocar-se em segurança a qualquer momento por meio dos
transmissores. As naves inimigas, que nos atacarem, deverão ser
rechaçadas. Repitam.
Dali a
oito minutos, os primeiros gigantes esféricos terranos penetraram no
sistema solar de Ácon, que subitamente ficara desprotegido. Atrás
deles vieram as esquadrilhas de cruzadores, seguidas pelas pequenas
naves da classe Estado.
Não
consegui apurar quantas naves ligeiras participaram da obra de
destruição. Apenas me lembro de que fui cambaleando, quase
inconsciente, em direção ao hipercomunicador, a fim de chamar o
almirante que comandava a esquadra robotizada de Árcon.
Não
acreditei no que ouvia, mas o fato é que o regente deslocara trinta
mil unidades pesadas e superpesadas, a fim de livrar o Imperador
Gonozal VIII da situação difícil em que se encontrava.
Trinta mil
naves! Era inacreditável.
Mandei que
a frota arcônida também penetrasse no sistema e coloquei-a no setor
espacial de onde o inimigo fora expulso. Por lá, ela ficaria em
posição de espera. Era só o que eu podia fazer para que a situação
se acalmasse.
As naves
terranas sofreram um total de dezoito ataques desfechados por
unidades acônidas. Só podia tratar-se das poucas espaçonaves dos
comandos energéticos, que o Conselho lançara numa luta sem
esperança.
Em Ácon
V, no planeta Esfinge ou Drorah, todos pareciam desesperados. De
outra forma não haveria explicação para a atuação tresloucada
das naves acônidas.
Ao se
aproximarem das usinas energéticas que iam sendo localizadas,
realizando manobras cada vez mais complicadas e derrubando-as, os
comandantes de Rhodan fizeram como se estivessem praticando um
esporte. Dali a seis horas, três mil quatrocentas e sete usinas
gigantescas haviam desaparecido num inferno atômico. O antigo
Sistema Azul passara a ser um sistema normal como qualquer outro, com
a única diferença de que possuía uns três mil sóis artificiais
situados pouco além da órbita do último planeta. Tais sóis não
se extinguiam em virtude de um avançadíssimo processo de catalise
do carbono.
Dali a dez
horas mandei que a frota arcônida avançasse. As naves penetraram no
sistema, desenvolvendo a velocidade da luz e, cumprindo as ordens que
lhes haviam sido dadas, bloquearam os planetas habitados. Com isso a
espada de Dâmocles, que assumia a forma das frotas unidas, ficou bem
acima dos centros vitais do sistema.
Bastaria
uma ordem mal interpretada... um pequeno engano...
Saí da
sala de rádio e fui à procura de Rhodan. A Ironduke descrevia uma
órbita estreita em torno do quinto planeta. Rhodan estava sentado em
sua poltrona de encosto alto e fitava atentamente a gigantesca tela
panorâmica.
Os membros
femininos do Exército de Mutantes cuidaram de Auris de Las-Toor.
Os
oficiais terranos fizeram continência. Senti-me exausto e vazio por
dentro. As últimas horas haviam sido extenuantes.
Sem dizer
uma palavra, fitei as telas. Nada aconteceu. Ao que tudo indicava, as
fortalezas de superfície que deviam existir no sistema não
receberam ordem para abrir fogo. Por enquanto nenhum acônida fora
sacrificado, com exceção dos poucos homens que realizaram vôos
suicidas por ordem do governo acônida. As estações espaciais
estavam vazias, conforme demonstravam os ecos estruturais provocados
pela ativação dos transmissores, que captáramos constantemente.
No
entanto, se houvesse novas hostilidades, assistiríamos à explosão
não só de grandes quantidades de materiais, mas também de
gigantescos planetas e luas.
Procurei o
olhar de Rhodan. Entreolhamo-nos prolongadamente, até que Rhodan
sorriu de repente. Auris aparecera atrás de nós. Seu rosto estava
banhado de lágrimas.
— Poderíamos
tê-los matado — gaguejou, numa tentativa de fazer-nos mudar de
idéia.
Tive de
explicar-lhe que não havia motivo para fazer-nos mudar de idéia,
pois não pretendíamos atacar os mundos propriamente ditos. Na
Galáxia devia haver muitos seres inteligentes que, numa situação
como naquela em que nos encontrávamos, não se teriam abstido desse
ataque, a fim de eliminar de vez um inimigo que não devia ser
subestimado.
Rhodan
falou calmamente, acentuando as palavras. Só disse o absolutamente
necessário.
— Auris
de Las-Toor, agradeça ao Criador porque seu chefe não se deixou
levar a matar Atlan e a mim. Se o tivesse feito, o Império de Ácon
já teria deixado de existir. Um oficial levá-la-á ao quinto
planeta numa nave auxiliar. Exijo a capitulação. Diga aos membros
do Conselho de Governo que me dou por satisfeito por ter destruído a
fonte de sua arrogância sem limites, que são as usinas energéticas
volantes. Exijo garantias de que vocês nunca mais nos atacarão à
traição. Além disso, exijo uma liberdade de comércio total entre
os sistemas e a entrega dos dados sobre o sistema acônida de
propulsão linear. É só. A senhora partirá dentro de dez minutos.
Auris
pôs-se de pé e olhou para o terrano que estava sentado. Perry
invertera a situação. Agora era ele quem exigia os dados do
superaparelho, cuja construção era muito mais simples que a versão
terrana.
Auris
chegou mesmo a sorrir. Provavelmente sentia o lado tragicômico da
situação.
— É só,
excelência?
Rhodan
limitou-se a fazer um gesto afirmativo e saiu. O acompanhante de
Auris era o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke.
Ele levou
a moça ao quinto planeta. Voaram num jato espacial.
*
* *
Aguardamos
durante sete horas, que aproveitei para tirar um bom sono.
O governo
acônida pedira um armistício.
Neste meio
tempo formulara minhas exigências, na qualidade de Imperador de
Árcon.
Exigi o
reconhecimento do império, a confirmação oficial de meu título e
a renúncia definitiva às pretensões de domínio de Ácon, que,
mais do que nunca, se haviam tornado ilusórias. Além disso também
exigi os dados do propulsor linear acônida.
Rhodan
fitou-me com a testa enrugada, mas acabou não dizendo nada. Apenas o
Major Claudrin soltou uma gostosa risada. Compreendera. Por que só
os terranos iriam possuir esses maravilhosos aparelhos? Estava
convencido de que conseguiria adaptar rapidamente as linhas de
montagem de Árcon III, para reproduzi-los em série.
Dali a
pouco Krefenbac chamou pelo sistema de comunicação audiovisual.
Anunciou o pronunciamento do Conselho de Governo. Concordava com
todas as condições, menos com a entrega dos dados sobre o propulsor
linear.
Recusamos
friamente e formulamos um ultimato de três horas, tempo terrano.
Pouco
antes do fim do prazo, recebemos a concordância. Nossas condições
foram aceitas. Pouco depois quatro membros plenipotenciários do
Conselho vieram no jato espacial terrano. Rhodan e eu os recebemos
com uma cortesia fria. Nunca vira enviados tão perplexos e abatidos.
Os
tratados foram redigidos e assinados. Auris presenciou tudo.
Assim que
liquidamos o assunto, as primeiras espaçonaves terranas e arcônidas
pousaram no mundo dos meus verdadeiros antepassados. Encontrava-me no
lugar em que os antigos emigrantes haviam iniciado a grande viagem.
Rhodan
examinou pessoalmente o terreno destinado ao entreposto comercial por
ele exigido, entreposto este que evidentemente se transformaria
dentro de pouco tempo numa base da frota, situada no centro da Via
Láctea.
De
qualquer maneira, não seria nada mau ficar de olho nos acônidas.
Dali a poucas horas retirei-me. Não estava interessado na recepção
oferecida pelo Conselho de Governo.
Quando
Rhodan saiu de bordo, voltara a usar o uniforme simples. Chamei uma
nave auxiliar da nave capitania acônida e mandei que me levasse para
o espaço.
O Sistema
Azul de Ácon inclinava-se para a linha do horizonte. O planeta V era
um belo mundo, semelhante à Terra. Uma vez na eclusa, apertei a mão
de Rhodan. O administrador disse em tom pensativo:
— Quer
saber uma coisa, amigo? É uma bela sensação sabermos que
conseguimos a vitória sem derramamento de sangue. Será que essa
gente já compreendeu que não somos quem eles pensam?
Retirou-se,
rindo. Segui-o com os olhos injetados. Afinal, eu não passava de um
imperador arcônida para o qual já estavam preparadas as amarras do
cerimonial.
Fui
entrando no meu barco. Senti que realmente não passava de um pobre
cachorro.
*
* *
*
*
*
O
Sistema Azul capitulou, pois com a destruição das estações
espaciais que forneciam energia para o grande campo energético, este
se desfez e o sistema ficou desprotegido.
No
futuro os acônidas saberão respeitar a paz, por simples instinto de
auto-conservação, não há a menor dúvida.
Mas
também não existe a menor dúvida de que na turbulência dos
acontecimentos dos últimos tempos os antis não receberam a atenção
que lhes deveria ter sido dispensada. No momento em que os agentes da
Divisão III partem para O
Deserto da Morte
— é este o título do próximo volume — o plano dos antis já
estava prestes a ser executado!

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