sexta-feira, 2 de setembro de 2016

P-107 - O Sistema Azul - K. H. Scheer [Parte 3]

Será que esquecemos alguma coisa? Rhodan fez um esforço desesperado para estabelecer contato telepático com os mutantes que se encontravam a bordo do couraçado. Se a Ironduke ainda se encontrasse no semi-espaço, sua tentativa não poderia ser bem-sucedida. Mas era de se supor que a perfeita visão para a frente, que se verificava durante o vôo linear, tivesse levado o Major Claudrin a acompanhar imediatamente a surpreendente manobra de retorno, realizada pela nave acônida.
Havia todos os recursos técnicos para que uma nave linear, que também se deslocasse pela zona de libração, fizesse a localização instrumental de uma outra. Claudrin não poderia deixar de ter percebido que, subitamente, havíamos modificado nossa posição dimensional.
Agarrei-me à expressão “não poderia deixar de ter percebido”. Mas o que aconteceria se o dispositivo de localização não tivesse funcionado com a necessária precisão, ou se a decisão de interromper o vôo, a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz, não tivesse sido tomada em tempo?
Se Claudrin não houvesse seguido imediatamente o nosso exemplo, a esta hora já se encontraria a muitos anos-luz afastado. Mesmo que nesse lugar penetrasse no espaço normal, não seria fácil reencontrar o pequeno veículo acônida.
Se o tivesse descoberto, haveria necessidade de uma manobra de adaptação extremamente complexa e demorada. Sabia perfeitamente como era difícil aproximar-se de uma nave que se desloca quase à velocidade da luz, com as máquinas normais, e tentar coordenar as rotas. Isso exigia não apenas uma série enorme de cálculos, mas também pressupunha conhecimentos astronáuticos que aqui, nesta área de condensação estelar com suas numerosas influências energéticas, representaria um encargo pesado para os tripulantes da Ironduke.
Por isso fazia votos de que Jefe Claudrin tivesse conseguido adaptar em tempo a sua velocidade à nossa.
Auris de Las-Toor lançou-me um olhar misterioso. Minha tensão cresceu ao infinito. O que pretendia comunicar-me por meio dessa linguagem muda? Seria compaixão ou benevolência?
Esforcei-me para sorrir-lhe. Mas, provavelmente, apenas consegui fazer uma careta. O que mais nos deprimia era o silêncio daquelas pessoas tão frias. Tive a impressão de que se haviam entregue sem mais nem menos a um destino, talvez porque não precisassem lutar.
Afinal, fora dali havia pelo menos cinqüenta cientistas e técnicos altamente qualificados, que deviam conhecer um meio de penetrar na sala de comando.
Se estivesse no lugar deles, tentaria ao menos utilizar o sistema de bombeamento de ar, para introduzir um gás anestesiante no recinto. Era de se supor que a bordo de uma nave expedicionária houvesse esse tipo de produto químico. Além disso, outras possibilidades se mostraram em meu cérebro, que trabalhava febrilmente.
Por que não faziam nada? Era de enlouquecer.
Rhodan também não conseguiu nada. Provavelmente seus dons eram tão fracos e pouco evoluídos que, nestas condições, não lhe permitiam um contato puramente mental. Era possível que a nave de Claudrin estivesse vários dias-luz atrás de nós ou à nossa frente.
Perry desistiu dos seus esforços. Caminhou cambaleante em direção a uma poltrona vazia e deixou-se cair.
Uma ruga acentuada surgiu entre as sobrancelhas de Auris. Teria percebido o que o terrano acabara de tentar?
Lá fora tudo continuava imóvel.. Nem sequer houve qualquer chamado pelo sistema de intercomunicação.
Desligar os propulsores; passar à queda livre — disse Rhodan em voz rouca, que denotava um grande cansaço.
Confirmei com um gesto. Era a única possibilidade de facilitar a manobra de adaptação de Claudrin.
No mesmo instante, iniciou-se um rumorejar no interior da nave acônida. Levantei a cabeça para escutar melhor. Auris voltou a sorrir. Num gesto elegante passou a mão pelo longo cabelo cor de cobre, que refletia em milhares de tonalidades as débeis luzes de controle.
Rhodan levantou-se. Afastou-se lentamente da poltrona. Ao que parecia, desconfiava de alguma coisa.
Não faça nenhuma tolice, Auris! — disse com a voz nervosa. — Vocês estão em meu poder. Chamem os outros oficiais da nave e...
Auris sacudiu a cabeça. Estava muito calma. Mais uma vez notei a expressão de compaixão em seus olhos.
É tarde, excelência — afirmou. — Nenhuma das pessoas a bordo poderá ser responsabilizada pelos acontecimentos que se seguirão. Vossa Excelência se esqueceu de que se encontra num veículo do comando energético acônida. Há de compreender que o nosso transmissor é muito potente. Assim que penetraram na sala de comando, deveriam ter destruído uma das telas que se encontram na mesma. Dessa forma a central não os teria visto, nem poderia ter determinado a posição galáctica da nave. Não; deixem para lá. Agora não adianta mais.
Rhodan baixou a arma. Lançou um olhar furioso para a tela abaulada que, durante o vôo linear, permitia uma visão nítida na direção de deslocamento da nave.
Era uma situação estranha! Sabíamos que, dentro de poucos segundos, aconteceria algo de incompreensível, mas não podíamos fazer nada para impedi-lo. Num gesto de resignação, baixei a arma. Mesmo agora os oficiais acônidas permaneceram frios.
O rumorejar transformou-se num trovejar surdo. Se pudéssemos sair da sala de comando para destruir o transmissor da nave, que por certo começava a funcionar lentamente, tudo estaria bem. Mas, do lado de fora, havia pessoas armadas. Não podíamos fazer mais nada.
Tama Yokida foi o primeiro a guardar a arma no cinto. Compreendera. Sem dizer uma palavra, acomodou-se numa poltrona, mas não tirou os olhos dos acônidas.
O trovejar começou a abalar toda a nave. Neste momento, o corpo de Rhodan tornou-se rígido. Uma esperança absurda surgiu em mim. Teria estabelecido contato?
Esforcei-me para não dar mostras de meu nervosismo, até que a expressão do rosto de Perry voltasse ao normal. Pelo seu sorriso concluí que os telepatas a bordo da Ironduke haviam respondido ao seu chamado. A nave terrana também retornara ao espaço normal. Rhodan não deu qualquer informação, mas tive certeza de que os mutantes haviam sido informados sobre os acontecimentos que se seguiriam.
Isso significava que a Ironduke voltaria imediatamente ao semi-espaço, onde tentaria reiniciar a viagem em direção ao Sistema Azul. Apesar de tudo, não estávamos sós.
Antes que me fosse possível pesar os prós e os contras, a nave acônida foi atingida por uma força tremenda.
Os contornos dos presentes começaram a desmanchar-se à frente dos meus olhos. Rodas vermelhas desenharam-se, e, subitamente, não vi mais nada. Apenas compreendi que era a desmaterialização mais violenta pela qual já havia passado.
A central transmissora acônida devia ter funcionado com um enorme dispêndio de energia, a fim de desmaterializar a massa nada desprezível da espaçonave e transmiti-la sob a forma de um impulso superdimensional.
6



Parecia que estava despertando de um pesadelo. Uma dor lancinante martirizava meu corpo. Tama Yokida dava mostras de estar ainda inconsciente. Rhodan levantava-se com um gemido. Achava-me deitado perto dele.
Não se haviam dado ao trabalho de nos colocar sobre um leito macio ou numa confortável poltrona. De repente passaram a adotar atitudes desagradáveis.
Assim que consegui enxergar melhor, percebi que já não nos encontrávamos a bordo da espaçonave. Apesar disso estávamos deitados sobre placas metálicas não aquecidas. Um frio torturante atravessou meu uniforme fino e parecia introduzir-se nas articulações já um tanto endurecidas.
Rhodan praguejou em termos terranos, com o que acordei de vez. Olhei em torno, e com isso comecei a espantar-me.
Estávamos no chão metálico de um corredor coberto por material transparente, que mais adiante terminava numa eclusa de ar, que também era transparente.
Pouco além da eclusa via-se uma espaçonave esférica de pouco menos de cinqüenta metros de diâmetro. Seus pólos eram achatados e, na linha equatorial, observava-se uma protuberância muito larga, que terminava em duas arestas agudas.
Tive certeza de que fora este veículo que nos seqüestrara. Mas, naquele momento, a nave espacial não assumia a menor importância. O que mais me perturbava, chegando até a fascinar-me, era a luminosidade em forma de arco, de mais de duzentos metros de altura, cuja luz forte ofuscava meus olhos.
Praticamente era formada apenas por duas colunas energéticas da grossura de uma torre, que na parte superior se uniam num arco pontudo. Nesse lugar, o vermelho passava a um violeta muito claro. Entre as colunas energéticas do gigantesco transmissor reinava a noite escura. Tive a impressão de que, por lá, ficava a entrada para o lendário submundo.
A nave esférica achava-se junto a essa abertura. Imaginei que fôramos atirados por essa entrada, pois a pequena nave jazia no campo de pouso e, ao que parecia, sofrerá graves avarias. O lado esquerdo da protuberância equatorial estava amassado e certas peças das máquinas haviam sido atiradas para fora da nave.
Face a isso tive certeza de que o enorme salto pelo universo de cinco dimensões, realizado por nós, não era nada comum. Haviam recorrido a uma solução de emergência, que provavelmente envolvia graves riscos.
Os robôs carregavam vultos imóveis. Reconheci um deles. Era um dos oficiais que se encontravam na sala de comando. Não se via o menor sinal de Auris.
Resistimos a isso melhor que os acônidas — disse Rhodan, em voz baixa.
Virei a cabeça, sem fazer o menor esforço de pôr-me de pé.
Não olhei para os acônidas presentes, que momentos antes nos haviam tocado. Não vira seus rostos. Mas, uma vez que os tripulantes da nave estavam sendo transportados, só podiam ser estranhos.
Segui o olhar de Rhodan. Pela expressão de seu rosto concluí que também se sentia espantado. Quase não deu a menor atenção ao gigantesco arco do transmissor. Já conhecia essa figura. Na verdade, tal aparelho representara o motivo de seu primeiro pouso na maior das luas do planeta Esfinge.
Tinha-se a impressão de que fôramos parar também em alguma lua, mas isso não passava de ilusão dos sentidos. Estávamos deitados no pólo superior achatado de uma estação espacial de dimensões gigantescas.
No primeiro instante pensei que se tratasse de uma espaçonave, mas não podia ser assim. Nunca vira ninguém pousar sobre o envoltório externo de uma espaçonave de qualquer tipo. Estávamos mesmo na superfície de alguma estação espacial.
Bem adiante, a cerca de quinhentos metros, via-se o começo do abaulamento de uma parede esférica. Só consegui ver um pequeno trecho desta, que tinha a forma de anel. A parte interior da parede ficava fora do meu campo de visão.
Enquanto ainda refletia sobre a finalidade dessa figura gigantesca, o arco luminoso do transmissor apagou de repente.
A luz ofuscante desapareceu, e só então reconheci a luminosidade de inúmeras estrelas, concentradas num espaço extremamente limitado, que tinham o aspecto de um tapete brilhando em todas as cores.
É o centro galáctico; a área periférica — cochichou Rhodan. — Estamos no Sistema Azul. Você vê o brilho?
Meus olhos já se haviam recuperado. Em todos os lugares para os quais olhava, via a mesma luminosidade azul.
Atrás de nós, chamejava a bola de fogo de um sol que também era azul. Compreendi por que os tripulantes da primeira nave linear, que ainda continuavam vivos, falavam com tamanho pavor do sistema em que nos encontrávamos.
Apoiei-me sobre os cotovelos, me virei e fiquei deitado por mais algum tempo. Logo depois agachei-me, a fim de espantar o resto da sonolência. Ninguém me ajudou. Levantei-me.
Três acônidas lançaram-me olhares hostis.
Não lhes dei a menor atenção. Esperei que Rhodan se colocasse ao meu lado. Cuidamos de Tama Yokida, cujo cérebro sensível parecia ainda não ter vencido o pesado choque. Nunca se sabia como um mutante reagia face a determinado fenômeno.
Rhodan tomou seu pulso e fez um gesto para mim.
OK. Logo estará recuperado. Notou que nos encontramos sobre a cúpula polar de uma gigantesca estação espacial?
Respondi que sim.
Muito bem. Será que você sabe explicar por que construíram um monstro destes na extremidade exterior do sistema?
Não; não sabia explicar. Não tinha a menor idéia.
Será uma fortaleza das linhas de defesa? — indaguei em tom hesitante.
Riu e os três acônidas pareciam não gostar disso. Um deles, o mais velho, aproximou-se em atitude indignada.
Vá para o inferno — disse Rhodan em tom frio.
Logo acrescentou em arcônida antigo:
Não quero que me dirija a palavra.
O acônida mudou de cor. Prendi a respiração. Esse terrano tinha nervos de aço. Rhodan deu-lhe as costas e dirigiu-se a mim como se nada tivesse acontecido. Voltou a falar em japonês.
Provavelmente esta estação abriga uma das numerosas usinas energéticas. Estas tiveram de ser estacionadas nos limites do sistema para fornecerem a necessária energia ao campo defensivo azul. Aquelas protuberâncias — Rhodan apontou para a direita — são projetores. Não gostaria de chegar perto deles. Ora; parece que ele não quer desistir.
Desta vez sorriu para o acônida, que parecia perplexo, pensando no que poderia dizer.
Sua Eminência, Gonozal VIII, Imperador de Árcon — disse Rhodan, apresentando-me. Acho que o senhor já sabe quem sou. Peço-lhe encarecidamente que nos dê o tratamento a que temos direito. Qual é seu nome?
De repente, a expressão do acônida tornou-se sombria. Se possuísse senso de humor, saberia o que fazer diante das palavras de Rhodan. Mal consegui reprimir um sorriso. O tratamento que o pequeno bárbaro dispensava àquele homem, que devia ser um alto representante do povo dos meus antepassados, não passava de um atrevimento. De qualquer maneira, as palavras de Perry pareciam ter produzido seu efeito, o que me deixou espantado. Será que conseguira compreender de forma puramente intuitiva a mentalidade estranha dessas inteligências?
Rhodan queria provocar seu interlocutor. Desta vez foi ele quem lançou olhares frios de desprezo para os dois acônidas, que se mantinham em ponto mais afastado.
Diga seu nome! — repetiu com a voz mais alta e em tom autoritário. — Estou falando com um oficial comandante ou com um representante do governo investido dos necessários poderes? Em caso negativo, peço-lhe que me chame uma pessoa devidamente habilitada.
Aos poucos comecei a compreender. Rhodan, que até então nunca chegara sequer a insinuar sua alta posição militar e política, estava agindo conscientemente.
Por certo tinha todo motivo para recusar um cumprimento, e mais ainda um interrogatório realizado por uma pessoa insignificante. No entanto, senti-me surpreso ao notar que o velho acônida atendia à exigência de Rhodan, como se aquilo fosse a coisa mais natural deste mundo. Adaptei meu comportamento a essa circunstância.
Meu nome é Lempart de Fere-Khar. Sou chefe do Conselho Governamental de Ácon e diretor da estação experimental de energia Eretres, excelência — disse o acônida, a título de apresentação.
Falava em tom reservado, mas respeitosa Então era assim que se devia falar com essa gente! Era interessante saber disso, ainda mais que supuséramos que, apesar de nossa elevada posição, seríamos considerados simples caciques bárbaros.
Será que nossa malograda tentativa de libertação, juntamente com a declaração de guerra formulada por Rhodan, provocara uma modificação sensível no comportamento dos acônidas? Até parecia que era assim.
Exijo uma explicação sobre o crime cometido por ordem sua — dirigi-me a ele em tom penetrante.
No momento em que Lempart começou a falar, senti o fiasco mais decepcionante de toda minha carreira de almirante e imperador arcônida.
O acônida gritou em tom arrogante:
O senhor não tem que exigir coisa alguma, degenerado. Os colonos de seu mundo ainda estão submetidos às ordens do Conselho Governante, muito embora tenham conseguido escapar por algum tempo das nossas leis. Para nós, o título usurpado pelo senhor é de todo irrelevante.
Ouvi Rhodan engolir em seco. Isso fora um remédio amargo para meu orgulho de arcônida.
Rhodan merecia certo respeito face à sua qualidade de chefe de estado estrangeiro, enquanto eu não passava de um descendente de colonos degenerados. Tive de fazer um grande esforço para controlar-me.
Queiram acompanhar-me — disse o membro do Conselho.
Provavelmente fora incumbido de negociar conosco.
Com Perry Rhodan”, transmitiu meu cérebro adicional num aviso lacônico.
Tama Yokida, que já despertara, compreendera a discussão. Seu rosto indiferente deixou-me ainda mais irritado. Tive a impressão de que seus olhos escuros riam.
Rhodan piscou para mim. Acompanhou o velho acônida; ao passar por outros representantes de seu povo, fez de conta que os mesmos nem existiam. Para mim seria inútil imitar sua atitude. Naquele momento compreendi que Perry agira acertadamente ao dar a ordem preventiva de alarma.
Atravessamos a passagem transparente, que nos protegia contra o vácuo do espaço.
Apesar de tudo fazia muito frio. Senti-me feliz quando vi à nossa frente a escotilha aberta de uma eclusa de ar.
Perplexo, notei que não havia ninguém, além dos três acônidas e dos robôs que os acompanhavam. Será que a gigantesca usina energética não era tripulada?
Talvez fosse isso mesmo.
Voltei a refletir.
Quem sabe se os três acônidas não haviam sido enviados ao local unicamente em virtude de nossa chegada repentina? Com isso também se explicava por que o homem, que devia ser a autoridade mais importante do Império de Ácon, viera em pessoa. A essa hora tive certeza de que a declaração de guerra de Rhodan produzira um efeito bombástico. Provavelmente estavam convencidos de que o Administrador Solar jamais poderia arriscar-se a dar um passo como este.
Uma vez completada a compensação da pressão, atravessamos a eclusa. Atrás dela existia um elevador antigravitacional, do tipo usado em meus mundos natais. A tecnologia acônida não poderia ter experimentado uma modificação muito acentuada. Afinal, havia vinte mil anos que meus antepassados levaram tudo que seus ancestrais já haviam descoberto ou criado. E, uma vez amadurecidos, tais inventos não poderiam sofrer grandes inovações.
Ouvi imediatamente o zumbido grave de inúmeras máquinas. Concluí que realmente se tratava de uma usina energética.
Uma vez chegados às profundidades do corpo oco da esfera, o ruído das máquinas cresceu, transformando-se num rugido monótono. Lancei um olhar apressado para o relógio e perguntei ao mutante:
Quanto tempo durará o vôo da Ironduke?
Cerca de onze horas — cochichou Tama apressadamente, compreendendo o sentido de minha pergunta.
Dali em diante compreendi que teríamos de ganhar tempo. Em hipótese alguma deveríamos sair da unidade energética estacionada nas profundezas do espaço, antes que chegasse a nave linear terrana.
Se é que havia uma possibilidade de sermos salvos, isso só poderia acontecer se os mutantes de Rhodan nos encontrassem num lugar em que havia pouca gente.
O setor lógico de minha mente transmitiu-me a única sugestão correta. Devia tornar-me incapaz de ser transportado. Mesmo que me considerassem um degenerado e um instigador de rebeliões, que usurpara o título de soberano, não poderiam deixar de respeitar minha pessoa. Afinal, dispunha de um poderio enorme. Além disso, Rhodan compreenderia a situação e exigiria que me dispensassem a necessária atenção.
Cambaleei, segurei o crânio com ambas as mãos, soltei um gemido e caí ao chão.
Tama soltou um grito e Rhodan virou-se apressadamente. Ainda consegui lançar-lhe um olhar, mas Rhodan não o compreendeu logo. Quando se inclinou sobre mim, seu rosto exprimia uma preocupação genuína. As armas dos robôs, que instantaneamente foram colocadas em posição de tiro, ameaçaram-nos.
Ficar aqui até que a nave chegue — cochichei apressado.
Rhodan compreendeu a situação. Começou a representar imediatamente; fiquei inconsciente.
O imperador precisa de assistência médica — disse Perry. — Há uma clínica por aqui?
Prestei atenção à breve discussão que se seguiu. O chefe do Conselho não fez o menor esforço para dissimular os fatos. Devia estar muito nervoso, ou então acreditava que não tinha a menor importância falar sobre coisas, que por mim teriam sido consideradas como segredos militares.
A usina energética volante não era tripulada. Era dirigida por robôs, e por isso não possuía nenhuma clínica. Cinco técnicos, que eram revezados constantemente, cuidavam da necessária inspeção das peças mais importantes das máquinas.
A informação deixou-nos muito satisfeitos. Em hipótese alguma deveríamos sair desse lugar. Rhodan continuou a formular perguntas. Sua linguagem tornou-se cada vez mais penetrante, e Lempart de Fere-Khar continuava a não fazer o menor esforço em ocultar a situação. Apavorado, sugeriu levar-me imediatamente ao quinto planeta do sistema. Seria questão de poucos segundos.
Com muita habilidade, Rhodan contornou este ponto. Exigiu uma espaçonave rápida, dotada de todos os requisitos de conforto.
O chefe do Conselho lamentou. Disse que a técnica avançada dos acônidas não mais utilizava esse meio primitivo de locomoção. Já sabíamos disso, mas Rhodan teve oportunidade de formular outra ponderação.
Falou em tom nervoso:
Mesmo que os tripulantes acônidas da espaçonave avariada tenham sido levados ao quinto mundo por meio de transmissores, não podemos concordar em que o imperador seja submetido ao mesmo procedimento.
Excelência, os homens do comando energético foram atingidos muito mais intensamente pela onda de choque que...
Rhodan interrompeu o velho. Sabia-se o que pretendia dizer, e a afirmativa tinha sua lógica.
Peço licença para contestá-lo. O imperador não possui o vigor juvenil de seus homens. Além disso, o senhor deve saber que o organismo dos arcônidas, adaptado a outro ambiente, não está em condição de resistir a esse choque. Peço-lhe encarecidamente que faça comparecer uma equipe médica com todos os recursos modernos. Por enquanto o imperador não está em condições de ser transportado. Em hipótese alguma pode ser submetido a outra desmaterialização. Para quando poderemos esperar a chegada dos médicos?
Ganhamos a partida! O chefe do Conselho conferenciou em voz baixa com os outros acônidas. Estes pareciam desempenhar funções subalternas. Dali a alguns minutos fui levantado por robôs e levado a um aposento que provavelmente se destinava aos engenheiros supervisores, destacados para a usina energética.
Mantive os olhos cerrados e esforcei-me para respirar o mais debilmente que me era possível. Ouvi vozes do lado de fora. O timbre da voz de Rhodan era inconfundível. Naquele momento, Yokida cochichou ao meu ouvido:
Um dos técnicos já está saltando por um dos transmissores instalados aqui. O chefe do Conselho disse que não dispõe de nenhuma nave transportadora que corresponda às exigências de Rhodan. Todos os veículos têm sua finalidade específica e estão em ação. Sir, essa gente realmente não tem nenhuma frota espacial. Já imaginou o que acontecerá se nossos supercouraçados conseguirem romper o anteparo azul?
Após estas palavras minha respiração realmente se tornou ainda mais débil. Será que os acônidas sabiam o que significava a declaração oficial de guerra de uma grande potência galáctica como o Império Solar?
Teriam alguma idéia do que significava ficarem expostos às salvas de uma frota de guerra? Seus ancestrais haviam visto a guerra contra os antigos colonos.
Mas... e os acônidas que viviam hoje? Estes possuíam uma admirável supertecnologia. Haviam desenvolvido o vôo espacial não-material e, ao que parecia, sempre foram favorecidos pela sorte nos seus contatos com outras inteligências.
Além disso, davam mostras de terem suficiente habilidade para evitar os conflitos abertos. Havíamos experimentado na própria carne como sabiam ser perigosos quando agiam às escondidas, e como sabiam alcançar resultados fantásticos com os meios mais simples. Não havia, também, a menor dúvida de que eram orgulhosos e arrojados. Os vôos arriscados de seus comandos energéticos constituíam a melhor prova disso.
O que fariam, porém, se de repente se vissem colocados numa situação puramente defensiva? Afinal, já acontecera alguma coisa que jamais teriam julgado possível: criaturas estranhas conseguiram romper, com o novo propulsor linear, o campo energético azul, até então considerado impenetrável.
O seqüestro de Rhodan representava uma vitória de Pirro, embora os acônidas talvez continuassem a acreditar que possuíam uma superioridade infinita. Nesse ponto, provavelmente estavam enganados. A Terra estava prestes a mandar seus filhos para o espaço. Alguns deles já se encontravam nos limites do Império de Ácon. E, o que era mais temerário, vinham numa nave linear, cuja tripulação, por certo, seria capaz de destruir o sistema.
Arrisquei-me a abrir os olhos por um instante. Rhodan estava fechando a porta atrás de si. Havia um sorriso indefinível em seu rosto.
Realmente pretende atacá-los? — cochichei, indagando.
Apenas receberão uma pequena lição — disse Rhodan, esquivando-se. — Os médicos levarão algumas horas para chegar; talvez menos. Prepare-se. O homem que se encontra por aqui é o chefe do Conselho Governamental. Já começaram a ficar nervosos.
Já, sir? — perguntou Tama Yokida, em tom hesitante.
Eles nos têm nas mãos — observei apressadamente. — Assim que um canhão de radiações terrano disparar o primeiro tiro, estaremos liquidados.
Não tenha tanta certeza disso — contestou Rhodan. — Desempenhe corretamente o seu papel. Quando for disparado o primeiro tiro, já estaremos a bordo da Ironduke. Se eles querem seqüestrar estadistas pela força das armas, devem agir mais discretamente. O Serviço de Defesa Solar teria feito um trabalho melhor.
De repente soltou uma risada. Compreendi que, para ele, a situação não era tão trágica. Sendo assim, a essa hora não gostaria de estar no couro dos acônidas, isso naturalmente caso os terranos conseguissem romper o campo energético. Se tal não fosse possível, Rhodan perderia a vontade de rir. Mais uma vez, esse bárbaro incorrigível julgava seus homens capazes de muita coisa. Se o Major Jefe Claudrin cometesse qualquer erro, por menor que fosse, os acônidas seriam donos da situação.
Tudo dependia desse homem nascido em Epsal. Continuei a fingir-me de doente, o que era um papel nada dignificante para o soberano de um gigantesco império estelar.
Rhodan acariciou meu rosto. Eu notei que, nesse momento, um sorriso desavergonhado brincava no seu.
Afinal você não passa mesmo de um pobre cachorro, imperador. Os acônidas gostariam de atirá-lo à prisão mais próxima, por usurpação de funções, rebelião ou sei lá o quê. De qualquer maneira seria por atos praticados, na área colonial do grupo estelar M-13, contra a segurança do Estado.
7



Voltara para salvar o que ainda pudesse ser salvo. Era esta, talvez, a intenção de Auris de Las-Toor. Mas ela poderia ser a única a ter tal intenção?
Bela e inteligente — qualidades que eu mais prezava em sua pessoa. Quem sabe se sua ciência a tinha inspirado para observar a situação também sob o nosso ângulo?
Juntou-se aos dois médicos, incumbidos de pôr-me de pé. Por enquanto nem pensava em renunciar ao meu papel.
Rhodan apoiou-me na execução da tática de retardamento. A todo instante queixava-se do equipamento dos médicos.
Opôs-se energicamente ao uso da terapia hipnomecânica. Disse que meu cérebro degenerado de colono não a suportaria.
Dessa forma já havíamos conseguido doze horas, mas a Ironduke, ansiosamente esperada, ainda não chegara. Ao menos, os telepatas a bordo ainda não haviam chamado, por mais atentamente que Rhodan procurasse ouvir com seus fracos sentidos parapsicológicos.
A situação tornara-se perigosa. Um dos médicos já nos ameaçara, muito indignado, de partir imediatamente, caso continuassem a impedi-lo de usar as medidas que julgasse acertadas. Naturalmente não poderia arriscar-me a um exame detalhado.
Rhodan fez o papel do estadista muito ocupado. No espaço de apenas doze horas, participou de sete encontros. Devido a estes, ficamos sabendo qual era a finalidade do seqüestro.
Os acônidas exigiam todos os dados relativos ao mecanismo de propulsão linear terrano e um aparelho em condições de ser usado, que seria por eles examinado.
Não queriam mais que isso. Porém Rhodan mostrou-se muito indignado, ainda mais que seu parceiro de negociações se obstinava em afirmar que a violação das fronteiras estatais, ocorrida durante o vôo experimental de Rhodan, habilitava Fere-Khar a exigir uma compensação a ser fixada através de negociações.
Os ataques à Terra e ao Império Arcônida foram negados, embora estivéssemos em condições de provar que tanto o monstro de plasma como o deslocamento do tempo ocorrido em Árcon III provinham inegavelmente de comandos acônidas.
Em seu conjunto, as explicações dadas pelo representante do Conselho Governamental tinham fundamentos muito fracos. Não havia desculpa para nosso seqüestro.
A explicação para essa medida sumamente antidiplomática apenas provocou um sorriso de compaixão em Rhodan. Lempart alegou que o Conselho não tivera outra alternativa, já que, apesar de numerosas mensagens de rádio, o Administrador do Império Solar não se dignara a comparecer a uma conferência dos chefes de Estado.
Essas notas, que alegou terem sido transmitidas pelo hiper-rádio, jamais foram registradas em Terrânia. Os acônidas nunca haviam estabelecido tal tipo de contato, muito embora neste meio tempo já deveriam ter reconhecido que sua atuação era fundamentalmente errada.
A exigência acônida — o fornecimento de dados técnicos — era tão absurda como as alegações formuladas pelo representante do Conselho Governamental, quando tentara explicar o porquê do seqüestro.
Sabíamos o que essa gente realmente pretendia conseguir por meio de seus atos. O vôo de Rhodan os havia arrancado da segurança milenar. De repente, um estranho conseguira romper seu potente campo energético. Numa conclusão absolutamente lógica, resolvera-se eliminar o visitante indesejável, tanto no terreno militar como no político, ou então se tentaria aperfeiçoar a estrutura energética do campo defensivo. Mas, antes disso, seria necessário saber como funcionava o mecanismo do propulsor linear da Terra e quais as leis hiperfísicas que o regiam.
Era esta a finalidade da ação. Desejavam voltar à segurança a que o Sistema Azul estava acostumado, sem correr o risco de serem surpreendidos por algum terrano.
A tentativa de destruir a Terra não fora bem-sucedida. Agíramos com excessiva rapidez e precisão. E os acônidas, que há muito não dispunham de uma frota poderosa, não poderiam arriscar um ataque frontal.
Por isso providenciaram para que numerosos comandos energéticos escutassem e decifrassem minhas mensagens dirigidas a Rhodan. Finalmente realizaram o seqüestro, que a essa hora já lhes parecia causar certo mal-estar. Na verdade, a declaração de guerra formulada por Rhodan produzira de fato um efeito bombástico, mas nem por isso o Conselho de Governo se sentiu impedido de continuar a exigir a entrega do sistema de propulsão linear.
Nas últimas horas, o tom da fala dos acônidas tornara-se mais áspero, conforme Tama Yokida me comunicara com certa preocupação. Naquela oportunidade, Auris entrara em contato conosco pela primeira vez, depois de nossa chegada ao local.
Salvo nas horas de conferência, Rhodan e Tama permaneciam ininterruptamente a meu lado. Diziam que não podiam deixar a sós um aliado tão importante como eu.
Auris voltara a aparecer há três minutos, desta vez como enviada, devidamente autorizada, do Conselho de Ácon.

* * *

Imediatamente me fingi de inconsciente. Há trinta minutos um médico me aplicara duas injeções de efeitos estimulantes. Meu coração batia aceleradamente. Sentia-me bem e disposto como raramente me sentia durante a vida.
Até mesmo para um ator profissional seria difícil fazer o papel da pessoa fraca e desamparada, que, no momento, eu representava.
Auris veio só. Arrisquei-me a lançar um olhar ligeiro para ela. Não gostei nem um pouco do sorriso com que cumprimentou Rhodan.
Voltei a observá-la. De pé, ao lado de Rhodan, fitava os olhos cinzentos deste, que de repente deixaram de emitir o brilho frio e reservado que estava acostumado a ver neles, desde o momento do seqüestro.
Gemendo terrivelmente, virei-me para o outro lado. Por que Auris nunca me olhava desse jeito?
Tama Yokida pigarreou a título de advertência, e voltei a ficar quieto.
Se estivesse no seu lugar, não me esforçaria tanto — disse Auris.
Fiquei gelado de susto. Estaria falando comigo? Será que essa moça inteligente notara aquilo que os médicos não haviam percebido?
Rhodan deu a resposta. Era inteligente demais para querer continuar a enganar Auris.
Pode abrir os olhos, meu caro; estamos a sós.
Já sabem que estou fingindo!”, transmitiu meu cérebro adicional.
Para chegar a essa conclusão, não precisaria de qualquer impulso do setor lógico de minha mente.
Virei-me devagar. Abri as pálpebras e fitei o rosto pálido e cansado da moça. Os dedos crispados seguravam a aba da capa que cobria seus ombros. Rhodan estava parado a seu lado; parecia tranqüilo.
Os médicos foram embora — disse a moça. — Descobriram que o senhor não está doente. Por que procurou enganá-los? O que esperam conseguir com isso? Fui incumbida para informá-los de que...
Informar-nos de quê? — interrompeu Rhodan.
Auris fez como se não tivesse ouvido a interrupção.
...de que dentro de uma hora, aproximadamente, serão transportados para Drorah pelo transmissor de matéria.
Yokida fitou-a atentamente. Por certo procurava descobrir alguma arma que trouxesse sob a capa. Não possuía nenhuma.
Esqueci-me da minha súbita simpatia por Auris. Estava muito mais interessado no seu relógio.
Isso não é sinal de verdadeiro amor”, transmitiu o setor lógico de minha mente.
Contrariado, balancei a cabeça. Auris recuou, assustada.
Onde estaria a Ironduke, cuja chegada já nos fora anunciada? Será que alguma coisa saíra errado? Talvez Jefe Claudrin não tivesse conseguido romper o campo energético. Seria impossível repetir aquilo que, por ocasião da primeira experiência com a nave linear Fantasy, fora realizado com certa facilidade? Em que ponto Rhodan teria errado nos seus cálculos?
Mais uma vez, Rhodan exibiu seu sorriso indiferente, mas seu cérebro estava trabalhando. Naturalmente estava ocupado em reflexões idênticas às minhas.
Desconfiei de que a expressão do meu rosto revelava meus sentimentos numa extensão que não me era agradável. Sentia-me como se fosse um pobre cachorro!
Estávamos todos numa difícil situação. Encontrávamo-nos num navio que de repente começara a fazer água. Face à tecnologia avançada dos acônidas, tornava-se praticamente impossível que os mutantes nos libertassem, depois de nossa chegada ao planeta central. Nesse caso, qualquer ataque da frota seria sufocado no nascedouro, pois os terranos com certeza não estariam dispostos a atirar contra seu venerado administrador.
Nem em você!”, revelou o setor lógico de minha mente.
Por que procuraram enganá-los? — voltou a indagar Auris.
Logo depois acrescentou em tom um tanto queixoso:
De qualquer maneira eu sabia, assim que recebi o aviso, que os senhores não poderiam estar doentes nem cansados.
E apesar disso ficou calada? — perguntou Rhodan.
Auris fez um gesto de desprezo.
Ponderei perante os membros do Conselho de Governo que o seqüestro foi um erro. Não me quiseram dar crédito. Lembrei a grande guerra entre os arcônidas e os acônidas. Acham que o assunto está liquidado, mas ainda não se esqueceram de todo... A situação de Atlan será bastante difícil.
Reservo-me o direito de adotar medidas militares — respondi.
Pensativa, Auris confirmou com um gesto.
Sem dúvida. Dentro em breve, o senhor também formulará a declaração de guerra, usando os poderes que lhe cabem como soberano absoluto. Meu povo terá de vencer ou desaparecer.
Auris desconfiava de alguma coisa. E parecia saber que não se podia brincar com os impérios aliados. Abatida, deu-nos as costas e fez com que a porta se abrisse. Atrás desta havia três robôs de guerra de quatro braços, de tipo muito semelhante aos usados pelo regente positrônico de Árcon.
Os robôs foram regulados para suas vibrações individuais — disse em tom de advertência. — Peço-lhes que não façam tolices. Eu ficaria muito triste.
Por quê?
Um sorriso indiferente continuava a brincar no rosto de Rhodan. Auris fitou-o atentamente.
Não sei.
Acontece que eu sabia. Resignado, constatei que seu coração pertencia ao grande terrano de olhos cinzentos.
Venham — pediu em voz baixa.
Rhodan continuou parado no lugar em que se encontrava. Tama Yokida contemplou os três robôs. Ao que tudo indicava, não haviam julgado necessário destacar um número maior de máquinas. Será que, por ocasião de nossa frustrada tentativa de libertação, não haviam percebido que foram usadas forças invisíveis? De qualquer maneira, ninguém parecia desconfiar de que nosso competente telecineta não teria a menor dificuldade em livrar-nos das máquinas de guerra. Bastava atirá-los violentamente contra a parede de aço mais próxima, e as funções precisas de seus cérebros mecânicos deixariam de existir.
Auris demonstrou uma indiferença altamente suspeita face ao mutante. Uma desconfiança começou a germinar em minha mente.
Estaria Auris já sabendo das perigosas faculdades de Yokida? Teria ficado calada de propósito, a fim de dar-nos uma chance? Não; isso era uma conclusão forçada. Apesar de toda a tolerância, ela nunca seria capaz de trair seu povo. Provavelmente não sabia ao certo o que pensar do mutante.
A senhora acaba de aludir a um planeta, Auris — disse Rhodan. — Falou em Drorah, se não me engano. Trata-se do mesmo mundo que por nós foi batizado com o nome de Esfinge, ou seja, do quinto planeta do sistema?
Auris fez que sim.
Finalmente saímos. Os funcionários do governo acônida haviam desaparecido. Apenas se achavam presentes os cinco engenheiros supervisores, que costumavam guarnecer a usina energética, e mais dois oficiais pertencentes a um comando energético, que, segundo tudo indicava, estavam submetidos a Auris.
Os técnicos não estavam armados. Já os oficiais traziam armas que, segundo me pareceu, eram radiadores de impulsos térmicos. Além deles havia os três robôs.
Era uma força considerável. Se não fosse o mutante, não haveria como dominá-la. Restava saber se valeria a pena tentar um ataque de surpresa.
Se o couraçado terrano não se encontrasse nas proximidades, tornar-se-ia inútil alcançar a liberdade. Esta seria provisória.
Parei. À nossa frente abria-se o corredor, que descrevia uma curva ligeira e levava ao elevador antigravitacional. Encontrávamo-nos cerca de trezentos metros abaixo da cúpula polar da usina energética espacial, que, segundo soube de Rhodan, teria nada menos de onze quilômetros de diâmetro.
Considerando esse diâmetro, podia-se imaginar as dimensões gigantescas das máquinas ali instaladas. Então se podia tirar conclusões sobre o consumo de energia do campo defensivo, que envolvia o gigantesco sistema solar.
A amplitude é de, aproximadamente, cinqüenta bilhões de quilômetros”, disse o setor lógico de minha mente.
Uma vez que o sistema tinha dezoito planetas, aquela amplitude era provavelmente bem maior. Quais seriam as leis que regiam os movimentos de translação dos planetas do sol central?
Prestei atenção ao rugido surdo e monótono que parecia sair de todos os cantos. Quantas usinas energéticas, estacionadas, em órbitas estáveis, seriam necessárias para suprir o campo azul ininterruptamente com a energia de que precisava? Quantos bilhões de megawatts consumiria? Será que realmente eram apenas bilhões?
Ao fazer essas reflexões, dei-me conta do que os acônidas haviam realizado ao criar o gigantesco campo esférico. Geravam um volume de energia equivalente ao de um pequeno sol, apenas para isolar-se hermeticamente.
Balançando a cabeça, segui Rhodan e a moça. Tama caminhava às minhas costas. Atrás dele vinham os robôs. Os dois oficiais iam ao nosso lado.
Com a maior facilidade, eu poderia dominar um deles. Mas para que faria uma coisa dessas? O que poderíamos fazer com a liberdade puramente ilusória que conquistássemos por essa forma?
Além disso, Auris acabara de dizer que seríamos transportados dentro de uma hora, aproximadamente. Por que não permitia que ficássemos no pequeno aposento que ocupávamos?
As perguntas iam-se amontoando em minha mente.
Dali a dez minutos soubemos por que nos haviam levado. Pretendiam aplicar-nos injeções estabilizadoras da circulação. As seringas automáticas estavam preparadas. Um dos técnicos da usina energética disse que era médico nas horas vagas. Que volume de saber não devia dominar esse homem! Numa era tecnológica em que os diversos setores haviam sido subdivididos milhares de vezes, para que uma pessoa pudesse conhecer bem cada subdivisão, esse homem “era médico nas horas vagas”!
Desnudei a parte superior do corpo. A injeção seria aplicada nos músculos do tórax, pouco acima do coração.
Subitamente o rosto do acônida assumiu uma expressão tensa. Parecia ter um interesse tremendo por meu ativador celular. Auris também se aproximou.
É um viking supermusculoso, não é? — disse Rhodan.
Indignado, virei a cabeça. O rosto de Rhodan permanecia impassível.
Um viking? — perguntou Auris, em tom de espanto.
A senhora, que é socióloga, deve estar interessada em saber que este arcônida teve uma influência decisiva no desenvolvimento de certos povos do planeta Terra.
É mesmo?
Olhe as cicatrizes que apresenta no abdômen. Estas feridas foram produzidas pela extração, realizada pelos meios mais primitivos, do ativador celular que fora engolido por Atlan.
A respiração do médico tornou-se ainda mais rápida. Esteve a ponto de formular uma pergunta, mas Auris lançou-lhe um olhar de advertência, motivo por que preferiu ficar calado.
Por que Rhodan resolvera entoar esses cânticos de louvor? De início supusera que pretendia divertir-se à minha custa. Mas os esclarecimentos não demoraram.
Auris de Las-Toor, dê uma olhada neste descendente de colonos, que seu povo considera degenerado. Acha que foi acertado seqüestrar o homem que governa alguns bilhões de outros desse tipo?
Auris ia responder. Provavelmente iria aludir à lei natural da degenerescência e acrescentaria em tom irônico que restavam poucos arcônidas desse tipo. Mas não teve tempo de formular essas considerações.
Mesmo que tivesse falado, as sereias de alarma da usina energética teriam superado sua voz.
O barulho infernal fez com que eu me encolhesse. O bocal de alta pressão escorregou de meu peito e a fina névoa do medicamento espalhou-se pelo recinto, sem produzir o menor efeito.
De repente, as fúrias do inferno pareciam estar soltas. Os dois oficiais levantaram as armas, correram á porta e assumiram posição de combate. O fato de não soltarem pragas nem formularem ameaças dava mostras do excelente treinamento que esses homens haviam recebido. Num movimento reflexo assumiram a posição de tiro; e foi só. E, para nós, era quanto bastava, pois os três robôs assumiram atitudes semelhantes.
O técnico, que nas horas vagas era médico, saiu correndo. Lá fora, provavelmente se reuniria aos quatro colegas. Sem dúvida ocupariam os postos de manobras para os quais haviam sido designados, e que, conforme as circunstâncias, também poderiam ser postos de combate.
Fazia votos de que Jefe Claudrin contasse com isso. Não havia dúvida de que a Ironduke acabara de romper o campo energético e penetrara no Sistema Azul. A situação começava a ficar séria. O significado do alarma só poderia ser este, pois, do contrário, os guardas não teriam tomado as atitudes que tomaram.
O rosto de Rhodan descontraiu-se. Tinha-se a impressão de que precisava refletir muito, antes de dar as respostas. Sabia que entrara em contato com os telepatas que se encontravam a bordo do couraçado.
Infelizmente, os senhores terão de dispensar as injeções — disse Auris em tom nervoso, assim que o barulho das sereias cessou. — Peço-lhes que se dirijam imediatamente ao grande transmissor.
A essa hora passara a ser exclusivamente uma moça acônida, decidida a agir exclusivamente no interesse de seu povo.
Dei as respostas adequadas, e senti-me satisfeito porque, face às circunstâncias, a ausência mental de Rhodan não foi notada. Perry tinha de manter contato com os mutantes, a fim de que estes pudessem dirigir-se à estação espacial em que nos encontrávamos. Eu calculava haver muitas estações desse tipo.
Fomos andando. Desta vez, as armas de nossos acompanhantes orgânicos e inorgânicos encontravam-se em posição de tiro.
Cochichei algumas instruções em francês ao ouvido de Tama Yokida. Era possível que, neste meio tempo, tivessem aprendido a traduzir o japonês. Preferia não assumir nenhum risco.
Yokida compreendeu. Aguardava meu sinal. Mas ainda não estava na hora.
8



Gastamos doze minutos e vinte e três segundos para chegar à ampla sala abobadada.
Era ali que estavam instalados os transmissores que, segundo tudo indicava, se destinavam ao transporte de pessoas e mercadorias.
Não havia aparelhos de dimensões gigantescas, como o que vira na face externa da estação espacial. Ainda assim tratava-se de aparelhos gigantescos, que permitiam a desmaterialização de objetos do tamanho de uma casa e sua irradiação para o aparelho receptor, sob a forma de impulsos concentrados de categoria superior.
Era uma tecnologia admirável, mas naquele momento não poderíamos interessar-nos por este ponto.
No que dizia respeito ao aspecto prático da situação, os acônidas estavam fugindo da Ironduke, que se aproximava a alta velocidade, e que evidentemente já fora localizada e identificada. Era muito duvidoso conseguir encontrar uma nave que de alguma forma estivesse em condições de enfrentar o gigante terrano de oitocentos metros de diâmetro.
Quando chegamos à sala dos transmissores, estávamos ofegantes. Não se via o menor sinal dos cinco técnicos da estação espacial. Apenas um deles aparecia numa grande tela. Por certo era responsável pelos controles que se tornavam necessários.
Um arco de transmissão de dez metros de altura ergueu-se à nossa frente. O zumbido de reatores invisíveis de alta potência atingiu meu ouvido. O trovejar tornou-se cada vez mais forte e profundo, até que se estabilizou. No mesmo momento, o arco completou-se. Entre suas colunas vermelho-reluzentes de apoio começava a escuridão vazia, que representava a porta de entrada para o “aparelho” de transporte.
Já não podíamos contar com Rhodan. Auris já notara sua distração, mas ao que parecia nem imaginava o que o terrano fazia naqueles segundos. Tama e eu teríamos que agir sozinhos. Perry não poderia ser perturbado nas suas transmissões telepáticas.
Não esperamos mais. Dei o sinal para Tama.
Este parou. Seus olhos assumiram uma expressão rígida. As armas foram arrancadas das mãos dos oficiais acônidas com tamanha força que os dois soltaram um grito de dor.
O momento de susto, que talvez durou um décimo de segundo, bastou para que o capaz telecineta erguesse do chão os três robôs e os fizesse subir rapidamente para o teto, onde passaram a descrever movimentos de rotação. Desta forma podia controlar melhor suas energias mentais.
Quando os robôs, que giravam cada vez mais rapidamente, apareciam como círculos reluzentes, Tama libertou-os de sua influência. A força centrífuga fez os três corpos voarem em direções diferentes. O terrível impacto foi quase simultâneo.
Viraram destroços. Mas não dei muita atenção à cena. Assim que Tama iniciou sua ação, saltei sobre o primeiro acônida e derrubei-o com um golpe.
Passei a lutar com o segundo acônida, que fez um esforço desesperado para pegar a arma que se encontrava no soalho. Não teve sorte, pois fui mais rápido que ele.
Não precisava preocupar-me com o homem que fora derrubado no início da luta. Tama estava cuidando dele, e ao mesmo tempo controlava Auris, para que ela não pudesse chegar até as armas jogadas ao chão.
Saltei para onde estavam os radiadores de impulsos, peguei-os e atirei um deles para o mutante. Tama não perdeu tempo. Levantou os corpos dos acônidas inconscientes e atirou-os para dentro do transmissor preparado para o transporte.
Os homens desapareceram no interior do fenômeno luminoso e cintilante, para no mesmo instante se rematerializarem no quinto planeta do sistema.
Tudo isso acontecera sem o menor ruído. Ninguém dissera uma única palavra. Tama arrastou Auris pelos pulsos. Levei Rhodan para a porta e para a eclusa de ar, que ficava à frente da mesma, e abriguei-me no respectivo batente de aço.
Naquele momento ouviram-se os primeiros ruídos. O acônida, que aparecia na tela, disse algumas palavras incompreensíveis.
O transmissor, sir — disse Yokida, muito calmo. — Se resolverem enviar reforços...
Sabia onde ficava a fonte do perigo. Levantei lentamente a arma estranha, procurei o gatilho e estive a ponto de apertá-lo, quando Auris começou a gritar:
Não atire! O senhor fará explodir a estação. Pare!
Imediatamente retirei o dedo do gatilho e virei a cabeça.
Auris, será que isso não é um truque?
É verdade — exclamou, tremendo que nem vara verde. — O raio disparado pela arma daria causa a um carregamento incontrolável dos campos de força, transmitidos sem fio. Não atire!
Finalmente, Rhodan começou a mexer-se. Seu rosto contraído voltou ao normal. No mesmo instante ouvi um trovejar surdo, que sacudiu todas as juntas da enorme construção. Forcei o ouvido. Ninguém apareceu no transmissor que continuava ligado, nem mesmo um robô.
São canhões energéticos, sir. A Ironduke está atacando.
Fiz um sinal para Tama, que há alguns minutos vigiava atentamente o corredor que começava junto à eclusa. Não se via o menor sinal dos técnicos. Seria realmente tão simples assim fugir da estranha prisão em que nos encontrávamos?
Mais dez minutos se passaram num silêncio tenso e enervante. Auris voltara a acalmar-se e, ao que parecia, Rhodan estabelecera contato de novo.
Quando pretendia verificar a situação, saindo alguns metros pelo corredor, Rhodan disse com uma estranha indiferença:
Daqui a pouco os teleportadores saltarão. Cuidado!
Ainda não acabara de falar quando três seres materializaram-se simultaneamente do nada. Eram Gucky, o rato-castor, e os teleportadores Tako Kakuta e Ras Tschubai.
Estes seres, que provavelmente eram os membros mais competentes do Exército de Mutantes terrano, não perderam tempo. Não disseram uma única palavra inútil:
Claudrin voltará dentro de trinta segundos. É a quarta aproximação — disse a voz estridente do rato-castor. — Pegarei você e Perry, Tako pegará a moça e Ras se encarregará de Tama. Estão preparados? Coloquem os braços em torno de meu pescoço. Terei que dar um salto muito grande.
Rhodan despertara do transe. Puxou-me violentamente, segurou minhas mãos e, no mesmo instante, aconteceu aquilo que minha inteligência nunca conseguiria compreender.
As imensas energias teleportadoras de Gucky representavam o equivalente daquilo que os acônidas faziam com o auxílio de gigantescos transmissores. No entanto, o pequeno ser tinha a vantagem de poder dispensar um aparelho receptor.
Alguma coisa parecia explodir no interior do meu crânio. Senti uma dor aguda, mas antes que compreendesse do que se tratava, os contornos voltaram a iluminar-se à minha frente.
A figura maciça de Jefe Claudrin surgiu no meu campo de visão. O major cumprimentou-me com um gesto ligeiro, como se apenas tivesse voltado à sala de comando, depois de ter ido buscar um copo de água.
Logo atrás de nós, apareceram os outros teleportadores com Auris, que estava totalmente perplexa, e Tama Yokida, que se dirigiu imediatamente ao seu posto de combate.
Rhodan saiu correndo e logo começou a dar suas ordens.
Gucky saiu arrastando-se sobre suas pernas curtas. Brindou-me apenas com um sorriso amável.
Isto foi uma atuação de primeira, não foi? Cem mil quilômetros! Que joguinho, meu velho!
Esta expressão fez com que eu me lembrasse da tendência lúdica do rato-castor, que constituía uma de suas características. Quase chegava a esquecer que constantemente assistira às ações arrojadas dessa inteligência delicada.
Fiquei sentado no chão, exausto. Auris pôs-se lentamente de joelhos. Estava pálida como um cadáver. Lançou-me um olhar de súplica, e eu me esforcei para sorrir.
Pretendi dizer-lhe algumas palavras amáveis, falando-lhe que o fato de nossa fuga ter sido bem-sucedida e que o súbito aparecimento da Ironduke não eram tão apavorantes como poderia supor, mas naquele momento as campainhas de alarma começaram a soar.
O chefe está assumindo — disse a voz metálica, saída de todos os alto-falantes de bordo.
Rhodan estava sentado na poltrona de comando. Jefe Claudrin encontrava-se a seu lado.
As informações da sala de máquinas e da central de comando de armamentos começaram a chegar. Um rastreador estrutural passou a trovejar. A curva achatada indicava um abalo insignificante da estrutura espacial.
Localização para comandante. A estação espacial ativou um transmissor. É de se supor que os tripulantes se tenham colocado em segurança. Fim da mensagem.
Sabia que era isso mesmo. Os cinco técnicos só haviam esperado até que fôssemos embora. Agora não havia mais nada que segurasse Rhodan. Auris sentou-se no chão, chorando. Ninguém nos deu atenção. Todos aqueles soldados do planeta Terra estavam muito ocupados.
Quase não tinham dado a menor atenção ao chefe que acabara de voltar. Vez por outra, eu notava um olhar ligeiro, uma olhadela de soslaio ou escutava uma risada alegre. Mas era apenas isso. O que lhes importava era que ele estivesse novamente a bordo.
As máquinas da Ironduke trovejaram. Dali a alguns segundos, as primeiras salvas da estação espacial atingiram os potentes campos defensivos do couraçado mais moderno da Terra.
A Ironduke enfrentou facilmente os tiros. A superposição tripla só foi solicitada no setor externo até oitenta por cento de sua capacidade de absorção.
Uma máquina de guerra, que funcionava com uma precisão tremenda, entrara em atividade. Ninguém gritou uma ordem, ninguém falava mais alto do que era necessário. Tudo foi feito na maior calma e disciplina. Para os terranos, era perfeitamente natural aproximar-se de uma estação espacial não tripulada. Agiam como se estivessem realizando uma manobra.
Costado vermelho. Fogo! — disse Rhodan para dentro dos microfones.
A Ironduke transformou-se num monstro que cuspia fogo. O recuo dos canhões do lado vermelho atirou-me ao solo; as placas blindadas vibravam como se fossem uma peneira.
O trovejar e o rumorejar das salvas rápidas dos canhões do costado pareciam esfacelar a nave. Tive a impressão de que teria de suportar o barulho por uma eternidade, mas os disparos não demoraram mais de três segundos.
Depois disso, a Ironduke, que desenvolvia metade da velocidade da luz, já havia passado pela estação espacial. Esta deixara de ser uma maravilha técnica.
As telas de popa iluminaram-se depois de quarenta e oito segundos. Fora o tempo que a luz levara para alcançar-nos.
Já assistira à explosão de muitas espaçonaves, mas o que se formou à nossa retaguarda foi um pequeno sol. Uma bola incandescente ultraforte afastou a cintilância do anteparo energético que envolvia o sistema. De repente uma enorme abertura surgiu por lá.
Desta vez gritaram de entusiasmo, pois, de repente, a luminosidade azul foi substituída pelo negrume do espaço propriamente dito, salpicado de inúmeras estrelas.
Auris soluçou e cobriu o rosto com as mãos. Fiquei sem saber o que fazer.
Rhodan olhou para o grande relógio de bordo: zero hora e trinta e dois, tempo de Terrânia!
Onde fica a próxima estação, Major Claudrin? — perguntou Rhodan, em tom frio. — Espero que tenha localizado outras unidades. E onde está estacionada a frota?
O nativo de Epsal respondeu em palavras rápidas. Cinco mil unidades terranas, que por sua vez abrigavam quatro mil caças e destróieres rápidos, encontravam-se em posição de salto junto ao anteparo azul.
Só esperavam que surgisse uma fenda. E esta acabara de surgir.
Dali a dezoito minutos a próxima usina energética volante foi derrubada. A abertura no envoltório do sistema tornou-se cada vez mais larga.
Dali a pouco foi captado o chamado de Reginald Bell, representante de Rhodan e, no momento, comandante supremo da esquadra normal de salto. Estava penetrando no Sistema Azul com quatorze supercouraçados terranos da classe Império.
Bell também não perdeu tempo. Foi objetivo e disfarçou o alívio e a alegria causados pela salvação de Rhodan.
Em hipótese alguma deverão ser atacados planetas ou outros astros do sistema — ordenou Rhodan pelo hiper-rádio. — No entanto, todas as estações espaciais que forem localizadas, e que sejam usinas energéticas destinadas a alimentar o campo energético azul, deverão ser destruídas. As usinas não são tripuladas. Os poucos ocupantes poderão colocar-se em segurança a qualquer momento por meio dos transmissores. As naves inimigas, que nos atacarem, deverão ser rechaçadas. Repitam.
Dali a oito minutos, os primeiros gigantes esféricos terranos penetraram no sistema solar de Ácon, que subitamente ficara desprotegido. Atrás deles vieram as esquadrilhas de cruzadores, seguidas pelas pequenas naves da classe Estado.
Não consegui apurar quantas naves ligeiras participaram da obra de destruição. Apenas me lembro de que fui cambaleando, quase inconsciente, em direção ao hipercomunicador, a fim de chamar o almirante que comandava a esquadra robotizada de Árcon.
Não acreditei no que ouvia, mas o fato é que o regente deslocara trinta mil unidades pesadas e superpesadas, a fim de livrar o Imperador Gonozal VIII da situação difícil em que se encontrava.
Trinta mil naves! Era inacreditável.
Mandei que a frota arcônida também penetrasse no sistema e coloquei-a no setor espacial de onde o inimigo fora expulso. Por lá, ela ficaria em posição de espera. Era só o que eu podia fazer para que a situação se acalmasse.
As naves terranas sofreram um total de dezoito ataques desfechados por unidades acônidas. Só podia tratar-se das poucas espaçonaves dos comandos energéticos, que o Conselho lançara numa luta sem esperança.
Em Ácon V, no planeta Esfinge ou Drorah, todos pareciam desesperados. De outra forma não haveria explicação para a atuação tresloucada das naves acônidas.
Ao se aproximarem das usinas energéticas que iam sendo localizadas, realizando manobras cada vez mais complicadas e derrubando-as, os comandantes de Rhodan fizeram como se estivessem praticando um esporte. Dali a seis horas, três mil quatrocentas e sete usinas gigantescas haviam desaparecido num inferno atômico. O antigo Sistema Azul passara a ser um sistema normal como qualquer outro, com a única diferença de que possuía uns três mil sóis artificiais situados pouco além da órbita do último planeta. Tais sóis não se extinguiam em virtude de um avançadíssimo processo de catalise do carbono.
Dali a dez horas mandei que a frota arcônida avançasse. As naves penetraram no sistema, desenvolvendo a velocidade da luz e, cumprindo as ordens que lhes haviam sido dadas, bloquearam os planetas habitados. Com isso a espada de Dâmocles, que assumia a forma das frotas unidas, ficou bem acima dos centros vitais do sistema.
Bastaria uma ordem mal interpretada... um pequeno engano...
Saí da sala de rádio e fui à procura de Rhodan. A Ironduke descrevia uma órbita estreita em torno do quinto planeta. Rhodan estava sentado em sua poltrona de encosto alto e fitava atentamente a gigantesca tela panorâmica.
Os membros femininos do Exército de Mutantes cuidaram de Auris de Las-Toor.
Os oficiais terranos fizeram continência. Senti-me exausto e vazio por dentro. As últimas horas haviam sido extenuantes.
Sem dizer uma palavra, fitei as telas. Nada aconteceu. Ao que tudo indicava, as fortalezas de superfície que deviam existir no sistema não receberam ordem para abrir fogo. Por enquanto nenhum acônida fora sacrificado, com exceção dos poucos homens que realizaram vôos suicidas por ordem do governo acônida. As estações espaciais estavam vazias, conforme demonstravam os ecos estruturais provocados pela ativação dos transmissores, que captáramos constantemente.
No entanto, se houvesse novas hostilidades, assistiríamos à explosão não só de grandes quantidades de materiais, mas também de gigantescos planetas e luas.
Procurei o olhar de Rhodan. Entreolhamo-nos prolongadamente, até que Rhodan sorriu de repente. Auris aparecera atrás de nós. Seu rosto estava banhado de lágrimas.
Poderíamos tê-los matado — gaguejou, numa tentativa de fazer-nos mudar de idéia.
Tive de explicar-lhe que não havia motivo para fazer-nos mudar de idéia, pois não pretendíamos atacar os mundos propriamente ditos. Na Galáxia devia haver muitos seres inteligentes que, numa situação como naquela em que nos encontrávamos, não se teriam abstido desse ataque, a fim de eliminar de vez um inimigo que não devia ser subestimado.
Rhodan falou calmamente, acentuando as palavras. Só disse o absolutamente necessário.
Auris de Las-Toor, agradeça ao Criador porque seu chefe não se deixou levar a matar Atlan e a mim. Se o tivesse feito, o Império de Ácon já teria deixado de existir. Um oficial levá-la-á ao quinto planeta numa nave auxiliar. Exijo a capitulação. Diga aos membros do Conselho de Governo que me dou por satisfeito por ter destruído a fonte de sua arrogância sem limites, que são as usinas energéticas volantes. Exijo garantias de que vocês nunca mais nos atacarão à traição. Além disso, exijo uma liberdade de comércio total entre os sistemas e a entrega dos dados sobre o sistema acônida de propulsão linear. É só. A senhora partirá dentro de dez minutos.
Auris pôs-se de pé e olhou para o terrano que estava sentado. Perry invertera a situação. Agora era ele quem exigia os dados do superaparelho, cuja construção era muito mais simples que a versão terrana.
Auris chegou mesmo a sorrir. Provavelmente sentia o lado tragicômico da situação.
É só, excelência?
Rhodan limitou-se a fazer um gesto afirmativo e saiu. O acompanhante de Auris era o Major Hunt Krefenbac, imediato da Ironduke.
Ele levou a moça ao quinto planeta. Voaram num jato espacial.

* * *

Aguardamos durante sete horas, que aproveitei para tirar um bom sono.
O governo acônida pedira um armistício.
Neste meio tempo formulara minhas exigências, na qualidade de Imperador de Árcon.
Exigi o reconhecimento do império, a confirmação oficial de meu título e a renúncia definitiva às pretensões de domínio de Ácon, que, mais do que nunca, se haviam tornado ilusórias. Além disso também exigi os dados do propulsor linear acônida.
Rhodan fitou-me com a testa enrugada, mas acabou não dizendo nada. Apenas o Major Claudrin soltou uma gostosa risada. Compreendera. Por que só os terranos iriam possuir esses maravilhosos aparelhos? Estava convencido de que conseguiria adaptar rapidamente as linhas de montagem de Árcon III, para reproduzi-los em série.
Dali a pouco Krefenbac chamou pelo sistema de comunicação audiovisual. Anunciou o pronunciamento do Conselho de Governo. Concordava com todas as condições, menos com a entrega dos dados sobre o propulsor linear.
Recusamos friamente e formulamos um ultimato de três horas, tempo terrano.
Pouco antes do fim do prazo, recebemos a concordância. Nossas condições foram aceitas. Pouco depois quatro membros plenipotenciários do Conselho vieram no jato espacial terrano. Rhodan e eu os recebemos com uma cortesia fria. Nunca vira enviados tão perplexos e abatidos.
Os tratados foram redigidos e assinados. Auris presenciou tudo.
Assim que liquidamos o assunto, as primeiras espaçonaves terranas e arcônidas pousaram no mundo dos meus verdadeiros antepassados. Encontrava-me no lugar em que os antigos emigrantes haviam iniciado a grande viagem.
Rhodan examinou pessoalmente o terreno destinado ao entreposto comercial por ele exigido, entreposto este que evidentemente se transformaria dentro de pouco tempo numa base da frota, situada no centro da Via Láctea.
De qualquer maneira, não seria nada mau ficar de olho nos acônidas. Dali a poucas horas retirei-me. Não estava interessado na recepção oferecida pelo Conselho de Governo.
Quando Rhodan saiu de bordo, voltara a usar o uniforme simples. Chamei uma nave auxiliar da nave capitania acônida e mandei que me levasse para o espaço.
O Sistema Azul de Ácon inclinava-se para a linha do horizonte. O planeta V era um belo mundo, semelhante à Terra. Uma vez na eclusa, apertei a mão de Rhodan. O administrador disse em tom pensativo:
Quer saber uma coisa, amigo? É uma bela sensação sabermos que conseguimos a vitória sem derramamento de sangue. Será que essa gente já compreendeu que não somos quem eles pensam?
Retirou-se, rindo. Segui-o com os olhos injetados. Afinal, eu não passava de um imperador arcônida para o qual já estavam preparadas as amarras do cerimonial.
Fui entrando no meu barco. Senti que realmente não passava de um pobre cachorro.






* * *
* *
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O Sistema Azul capitulou, pois com a destruição das estações espaciais que forneciam energia para o grande campo energético, este se desfez e o sistema ficou desprotegido.
No futuro os acônidas saberão respeitar a paz, por simples instinto de auto-conservação, não há a menor dúvida.
Mas também não existe a menor dúvida de que na turbulência dos acontecimentos dos últimos tempos os antis não receberam a atenção que lhes deveria ter sido dispensada. No momento em que os agentes da Divisão III partem para O Deserto da Morte — é este o título do próximo volume — o plano dos antis já estava prestes a ser executado!

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html