A tensão,
que apesar de tudo reinava a bordo, era causada pelos antis. Estes
chamados sacerdotes do deus Baalol eram descendentes da raça
arcônida, que em tempos idos haviam sofrido uma mutação. Além da
faculdade de, por meio das suas energias mentais, reforçar os campos
energéticos de proteção pessoal a ponto tal que estes dificilmente
poderiam ser rompidos por uma arma energética, ainda eram capazes de
impedir a atuação das forças parapsicológicas de outras
criaturas.
Fazia
apenas alguns decênios que os antis foram abandonando aos poucos a
atitude de reserva em que se mantinham. Passaram a mostrar que não
eram apenas anti-mutantes e servos de um culto, já que se empenhavam
por objetivos ligados ao poder político. Pretendiam, em última
análise, apoderar-se do grande império.
— Sir —
trovejou a voz do Major Claudrin em direção a Rhodan, que foi
arrancado de suas reflexões. — Já vou ligar o sistema kalupiano.
Desta forma chegaremos dez minutos antes da frota.
Rhodan
compreendeu a finalidade que Jefe Claudrin visava com a manobra.
Queria reduzir ao mínimo o risco de uma guerra galáctica. Se o
chefe do império solar atingisse as posições mais avançadas antes
de sua frota, talvez seria capaz de evitar a reação em cadeia
causada por uma eventual batalha que eclodisse por acaso.
O
conversor tipo kalup, antes conhecido por sistema kalupiano, que
constituía o núcleo da propulsão linear, não era um motor de
aceleração, mas um aparelho que envolvia a Ironduke num campo
esférico. Esse campo neutralizava todas as influências do espaço
de quatro e cinco dimensões, que eram por ele absorvidas e
refletidas. Dessa forma, a nave podia penetrar na área de libração,
que era o semi-espaço, situado entre o universo de quatro e o de
cinco dimensões, e nessa área alcançava velocidades milhões de
vezes superiores à da luz.
Rhodan
assentiu com um gesto.
Claudrin
em pessoa moveu os controles. O trovejar dos propulsores cessou e os
conversores de impulsos da nave deixaram de funcionar. Por alguns
segundos a Ironduke deslocou-se em queda livre, à velocidade de 0,6%
à da luz.
De repente
todos os aparelhos pareciam funcionar novamente, mas o inferno
trovejante das profundezas da nave fora precedido por um ruído
ligeiro, ainda não ouvido.
— É o
kalup — disse um dos oficiais que se encontravam na sala de
comando, e outros concordaram com um gesto.
Os homens
pertencentes à Frota Solar costumavam simplificar tudo. Kalup era o
sobrenome do professor Dr. Arno, o hiperfísico mais competente do
sistema solar, e agora passara a ser o nome do conversor de
compensação inventado pelo eminente cientista. Tal conversor
acabara de envolver a Ironduke num campo esférico, a fim de abrir
caminho para as áreas situadas no semi-espaço.
Para isso,
o kalup produzia uma deformação na estrutura das ondas de impulsos.
Estas se tornavam independentes do espaço 4-D ou 5-D e as radiações
atingiam uma velocidade que chegava a aproximadamente vinte e cinco
milhões à da luz.
A grande
tela de visão global da nave esférica transmitiu uma imagem turva
do Universo. Não se viam mais os pontos luminosos, que foram
substituídos por traços de luz.
— Ligar
os rastreadores de relevo! — trovejou a voz de Claudrin.
O enorme
epsalense não sabia falar baixo.
O
co-piloto, que se encontrava ao lado do major, mexeu em alguns
controles.
Uma tela
iluminou-se e a imagem adquiriu contornos estáveis e um pouco mais
de nitidez. Sob o comando da localização de compensação, uma
estrela surgiu no centro da tela. Era o sol de Firing!
— Muito
bem — voltou a trovejar a voz de Jefe Claudrin. — Os oito mil,
quatrocentos e sessenta e sete anos-luz logo serão percorridos.
Olhou em
torno. Cada um dos oficiais sentiu o olhar do comandante pousado em
si, e todos o retribuíram.
— OK! —
trovejou o major, depois que voltou a assumir sua posição normal na
poltrona. — Vamos continuar assim!
Isso não
era apenas uma frase. Falara na primeira pessoa do plural; logo,
essas palavras também foram dirigidas a ele mesmo.
Sem
qualquer modificação na cor e na intensidade, continuava acesa na
tela do rastreador de relevo a imagem do sol de Fering, cujo segundo
planeta era conhecido pelo nome de Lepso.
Os homens
da sala de comando da Ironduke viram seu destino a uma distância
superior a oito mil anos-luz. Era uma das grandes maravilhas do
sistema de propulsão linear, que permitia a visão da
estrela-destino, enquanto a nave corria a uma velocidade milhões de
vezes superior à da luz, deslocando-se pelo semi-espaço.
O tempo
foi passando. Subitamente, o sol começou a crescer na tela do
rastreador de relevo. O Major Claudrin modificou a regulagem. A
Ironduke voltou a penetrar no Universo normal sem provocar o menor
abalo estrutural. No mesmo instante, as imagens projetadas na
gigantesca tela de visão global assumiram contornos ainda mais
nítidos, e a faixa luminosa da Via Láctea iluminou-se em todo o
esplendor. Uma das miríades de estrelas era o sol de Firing.
— Fortes
abalos estruturais — avisou o oficial que se encontrava junto aos
aparelhos de localização.
Do outro
lado da sala de comando passaram a ser transmitidas as posições
galácticas. O aparelho de contagem acoplado ao localizador
constatara o número de naves que naquele instante deixavam o
hiperespaço.
— Cento
e oitenta espaçonaves. Segue a identificação, major. Trata-se de
uma formação da frota dos superpesados.
Os
superpesados eram mercenários contratados pelos mercadores
galácticos.
Face às
condições ambientais reinantes nos planetas por eles escolhidos
como habitat, os superpesados, que também descendiam da raça
arcônida, haviam passado por uma evolução totalmente diferente da
de outros seres. Transformaram-se em gigantes: pesavam de quinhentos
a novecentos quilos. Ao contrário dos mercadores, faziam da arte da
guerra um negócio. Qualquer um que pagasse poderia contar com seu
auxílio. Quem os chamasse sabia que seria obrigado a despender somas
imensas. Os superpesados só agiam mediante pagamento à vista; não
se interessavam por promessas. Mas quem os tivesse pago poderia
contar com sua atuação, tanto preventiva como repressiva. Lutavam
com uma bravura digna de melhor causa.
— Claudrin,
coloque os mutantes em estado de prontidão — ordenou Rhodan, uma
vez concluída a transmissão dos últimos dados relativos à frota
dos superpesados.
Um dos
oficiais adiantou-se, e, chegando perto do microfone, assim que a
central telefônica respondeu, pediu que o ligasse aos camarotes dos
mutantes.
— Será
que isso não poderia ser feito mais depressa? — perguntou Rhodan,
um tanto contrariado com a demora.
Quem
respondeu no lugar do jovem oficial foi Jefe Claudrin, que se sentiu
embaraçado face à recriminação de Rhodan.
— Fui eu
que dei ordem para isso. Enquanto tivermos tempo, praticaremos a
teoria ocupacional. Quando não tivermos mais, meus homens saberão
trabalhar ainda mais depressa. De acordo, sir?
— Tenho
de concordar, major — respondeu Rhodan, com um sorriso. — Afinal,
não passo de um visitante a bordo da Ironduke.
— Não
me esquecerei disso — respondeu Claudrin com uma risadinha sem
tirar os olhos dos controles.
Naquele
momento, a nave estava passando junto ao quarto planeta do sol de
Firing e corria a 0,8% da velocidade da luz em direção à órbita
do terceiro planeta. Com uma rapidez espantosa, o comandante pegou
outro microfone, comprimiu uma tecla e gritou:
— Alkher.
Está dormindo? Por que não recebo nenhum aviso do setor de comando
de tiro?
Brazo
Alkher era o mais jovem dos oficiais a bordo da Ironduke. Era um
homem grande, um desajeitado e muito modesto. Mas quando surgia uma
situação crítica não havia um oficial de tiro mais frio e
arrojado. Não entrava em pânico, nem mesmo quando só restava um
único canhão de sua nave, em condições de disparar.
— Major
— disse a voz de Brazo Alkher saída do alto-falante da sala de
comando. — Peço licença para lembrar que, por ocasião da
decolagem da Ironduke, já anunciei que estávamos prontos para
disparar. Não me consta que este aviso tenha sido revogado por
outro.
Num gesto
instintivo o Major Claudrin virou-se para o chefe. Rhodan disse com
um sorriso:
— Isso
também já aconteceu comigo, major.
O setor de
rastreamento estrutural transmitiu um aviso:
— Localização!
Nossa frota está saindo do hiperespaço. Velocidade: 0,85% da luz. A
última formação está mergulhando no espaço.
A sala de
rádio chamou. A mensagem foi dirigida a Rhodan.
— Sir,
há um chamado do governo planetário de Lepso, que nos ameaça com
represálias militares caso a frota do Império Solar não modifique
imediatamente sua rota.
Muito
tranqüilo, Rhodan aproximou-se do intercomunicador.
— Diga
ao governo, em meu nome, que as intenções do Império Solar não
são hostis. Apenas queremos prender alguns criminosos. Não se
envolva em qualquer palestra com Lepso, operador de rádio.
Um sorriso
largo surgiu no rosto do Major Jefe Claudrin.
— O
senhor acha que alguém acreditará nisso?
Seguiu-se
outro chamado do setor de rastreamento estrutural.
— Frota
robotizada mergulhando no Universo. Há uma acentuada superposição
dos abalos. Fator de insegurança na determinação do número chega
a cerca de mil. Número de naves é de cinco ou seis mil.
A voz
anunciou o ponto em que a frota robotizada penetrou no Universo
normal. Enquanto isso, a Ironduke continuou a acelerar. Acabara de
cruzar a órbita do terceiro planeta e deslocava-se em direção a
Lepso. Visto da nave, o planeta ficava à direita do sol de Firing,
que por intermédio da tela de visão ótica derramava quantidades
cada vez maiores de luz ofuscante e amarelenta para dentro da sala de
comando.
Quando se
encontrava a cento e trinta milhões de quilômetros, Rhodan
transmitiu pelo hiper-rádio uma mensagem destinada a Lepso.
Falando
com a voz metálica, Perry disse:
— Em
nome do Império Solar e por ordem de Rhodan, o administrador, a
partir deste instante fica proibida a decolagem de qualquer
espaçonave que se encontre em Lepso. Sempre que esta ordem for
violada, a nave que tiver decolado será obrigada pela força das
armas a retornar para Lepso. Aqui fala a Ironduke, em nome de Rhodan,
o administrador...
O Major
Claudrin fez um gesto de assentimento; parecia satisfeito. Já se
sentira contente ao notar que Rhodan irradiara a mensagem, sem
estabelecer contato visual. O tom de Rhodan parecia mais grave que de
costume. Era pouco provável que alguém o tivesse reconhecido pela
voz.
— Sir —
disse o operador de rádio. — A frota anuncia que está preparada
para abrir fogo. Os supercouraçados ganham terreno. Dentro de cinco
minutos estarão ao nosso lado.
Naquele
instante John Marshall, chefe dos mutantes, entrou na sala de comando
acompanhado dos telepatas mais potentes do exército por ele
chefiado. Apenas um deles preferira não se locomover sobre as
pernas. Era Gucky, o rato-castor. Escolheu como ponto final do
pequeno salto de teleportação justamente o colo do enorme
epsalense.
— Não
me abrace com esse feixe de músculos, Jefe — piou o rato-castor,
quando Claudrin, num movimento instintivo, fez menção de enlaçá-lo.
— Dê o
fora, sua criatura enervante — esbravejou o major, mas sorriu
interiormente ao ver que seu berro fizera com que o rato-castor
saísse de seu colo.
Jefe ouviu
os protestos que o rato-castor formulou às suas costas:
— Afinal,
as boas maneiras são uma questão de sorte. E olhe que eu não teria
nenhum problema em enfrentar esse colosso.
O Major
Claudrin não teve tempo para dar atenção à observação de Gucky.
Naquele momento, o setor de localização anunciava que oito naves
tentavam sair de Lepso numa decolagem de emergência. Em compensação
Rhodan resolveu dar uma lição no rato-castor.
— Aproxime-se,
Tenente Guck!
Gucky
encolheu-se sob o brilho dos olhos cinzentos de Rhodan, mas logo
colocou-se à frente do administrador.
— O
Tenente Guck está presente conforme lhe foi ordenado, chefe.
Aconteceu alguma coisa?
Era um
atrevimento inacreditável. Alguns oficiais irromperam numa
estrondosa gargalhada, e naturalmente Bell não conseguiu ficar
sério. O rato-castor exibiu um pedacinho do dente roedor, dando a
entender o princípio de uma risadinha. Rhodan foi o único cujo
rosto continuou inalterado.
— Ora,
meu caro... — disse em tom enérgico, mas viu-se interrompido.
Uma
mensagem transferida para a sala de comando foi a salvação do
rato-castor. Quando a tela começou a tremeluzir, Rhodan saiu do
ângulo da objetiva, pois não queria que o vissem e soubessem que se
encontrava a bordo da Ironduke.
— Aqui
fala Gal-Tam, primeiro-ministro de Lepso — disse uma voz nasal
desagradável, vinda do alto-falante. — Exigimos que a frota do
Império Solar saia imediatamente do sistema de Firing, pois, do
contrário, abriremos fogo com todas as armas de que dispomos. Se a
rota atual da Frota Solar for mantida por mais de cinco minutos,
tempo padrão, o ultimato do governo de Lepso terá chegado ao
término.
O
Primeiro-Ministro Gal-Tam nem sequer esperou a confirmação de que
seu ultimato fora recebido.
A guerra
galáctica parecia inevitável.
*
* *
A
cinqüenta milhões de quilômetros do planeta Lepso, a armada solar
espalhou-se de repente em todas as direções. Somente a Ironduke e
os trinta supercouraçados, que a acompanhavam, mantiveram inalterada
a rota em direção ao planeta. As outras naves esféricas passaram a
movimentar-se em vários níveis de aceleração, a fim de ocupar com
a precisão de um minuto as posições designadas nos planos de ação.
Três
minutos depois do prazo do ultimato, formulado pelo governo
lepsoniano, os veículos espaciais de Rhodan completaram o bloqueio
do planeta. As oito espaçonaves, que haviam realizado uma decolagem
de emergência para escapar de Lepso, fizeram meia-volta e
dispuseram-se a pousar num dos numerosos espaçoportos.
Era
espantoso que o número de mensagens de rádio, captadas pela
Ironduke, fosse tão reduzido. Mas nenhum dos oficiais admirou-se com
isso. Para eles, a precisão com que as naves realizavam a manobra
era uma coisa natural. Não apenas a haviam treinado muitas vezes,
mas tiveram oportunidade de usar o que já tinham aprendido em outras
ações. Para muitos, a operação contra Lepso representava uma
tarefa rotineira, mas outros, que haviam recebido informações sobre
os antis, não pensavam da mesma forma. Em Perry Rhodan não se
notava a menor alteração. Até então funcionara quase
exclusivamente como observador na sala de comando da nave linear, e
por isso não transmitiu nenhuma instrução quando a bola que
representava o planeta pareceu saltar para o alto, em sua direção.
Desenvolvendo
uma velocidade elevada, a Ironduke, acompanhada dos trinta
supercouraçados, penetrou na atmosfera de Lepso. A superfície do
planeta tornou-se visível através de uma fina camada de nuvens.
Viram as grandes cidades, a enorme faixa do deserto, os rios, um
número impressionante de espaçoportos de dimensões gigantescas —
tudo isso entremeado com matas virgens, após as quais sempre vinham
outras construções.
O sistema
de localização energética deu um sinal. Esperava-se que Lepso
procurasse defender-se, mas, além disso, aguardava-se outro
acontecimento em todas as naves terranas...
A frota
robotizada de Árcon, que bloqueava todo o sistema de Firing, teve o
primeiro contato com o inimigo.
Um grupo
dos superpesados, formado por cento e oitenta naves, abriu fogo a
quarenta mil quilômetros de distância contra uma formação da
frota robotizada de Árcon.
Três
cruzadores pesados gaseificaram-se sob os efeitos do primeiro ataque
de armas de radiações. Houve a perda de robôs, mas não de seres
humanos. Os sete cruzadores pesados restantes, cujos campos
defensivos haviam resistido aos tiros de radiações, deslocaram-se
velozmente em direção à frota muitíssimo superior. Os tripulantes
— que eram robôs — não conheciam outra coisa a não ser sua
programação. Um aparelho positrônico não tem alma.
Nos sete
cruzadores pesados sete robôs radialistas transmitiram a todas as
demais naves da frota o aviso de que iriam atacar cento e oitenta
espaçonaves dos superpesados.
Enquanto o
grupo das naves atacantes era formado apenas por seis unidades, já
que naquele momento uma delas se transformou numa nuvem de gases que
se espalhou pelo espaço, mais de trezentas naves robotizadas, vindas
de todas as direções, aproximaram-se do campo de batalha. O fato de
que o primeiro grupo atacante já não transmitia nenhuma notícia
não preocupava os tripulantes sem alma. A formação dos
superpesados estava enquadrada em sua mira ótica. Aproximaram-se da
mesma e abriram simultaneamente o fogo de radiações.
O destino
dos superpesados parecia selado, mas naquele instante a estrutura
espacial sofreu um temendo abalo nas proximidades do campo de
batalha. De repente surgiram, vindos do nada do hiperespaço, os
couraçados do clã de Selfun. Eram mais de trezentas naves
cilíndricas que intervieram imediatamente na batalha. Tratava-se de
um tipo de nave intermediário entre o couraçado e o cruzador
pesado. Pelo armamento identificavam-se com os couraçados.
A luta
durou meia hora. Nos primeiros cinco minutos parecia que todas as
naves robotizadas iriam desmanchar-se em nuvens de gases, mas à
medida que a luta prosseguia surgia um número cada vez maior de
cruzadores arcônidas tripulados por robôs. Para cada nave destruída
apareciam quatro. Selfun, o mais velho do clã, percebeu que
condenaria sua frota à destruição se prosseguisse na luta contra
os robôs. Rangeu os dentes, mas deu ordem de retirada.
Não se
admirou de que sua frota gravemente danificada não fosse perseguida
pelas espaçonaves arcônidas. Essa tarefa não estava incluída na
programação dos robôs. Sua missão consistia em bloquear o sistema
de Firing e não deixar entrar no sistema ou dela sair qualquer nave,
com exceção das unidades da Frota Solar.
Não se
interessavam pelo que acontecia fora do sistema ou no interior do
mesmo.
Enquanto
isso Rhodan continuava a circular em torno do planeta com seus
couraçados. Os postos de escuta de todos os centros de rádio
estavam com a guarnição completa.
Lepso
enviou um pedido de socorro após outro para a Galáxia. E de todos
os lados vinha esta resposta:
— Iremos
para ajudá-los. Agüentem.
A cada
minuto desenhava-se com uma nitidez sempre maior um quadro que nem
sequer Rhodan esperara ter de contemplar. Os mundos dos mercadores
galácticos e dos superpesados e um número assustador de planetas
exclusivamente arcônidas, que até então eram considerados súditos
fiéis do império, ameaçavam retirar-se da aliança estelar e, ao
mesmo tempo, prometiam todo o auxílio possível a Lepso.
As
notícias captadas foram transmitidas simultaneamente ao centro de
computação da Ironduke. Mensagens de hiper-rádio codificadas, que
demorariam ao menos algumas semanas para serem decifradas pelos
saltadores, antis ou superpesados, foram enviadas ao gigantesco
centro de computação de Árcon III. Numa situação perigosa como
esta, Rhodan não estava disposto a assumir qualquer risco
desnecessário. Sempre que possível, só tomaria as decisões mais
importantes, depois de dispor da interpretação positrônica de
todos os dados colhidos.
Os
telepatas pareciam manter-se inativos no interior da sala de comando,
mas quem os conhecesse muito bem sabia que naquele momento não havia
por ali uma única pessoa que se concentrasse mais intensamente no
trabalho do que eles.
Todos eles
procuravam captar em meio a bilhões de freqüências cerebrais um
impulso que lhes era perfeitamente conhecido: o de Thomas Cardif, ou
do Dr. Edmond Hugher.
Recorreram
ao potente dispositivo ótico da Ironduke para realizar uma
aproximação tamanha das instalações do templo de Baalol, que se
tinha a impressão de que o areal do deserto ficava a apenas cem
metros. Concentrando-se ainda mais, revistaram essa área restrita.
Mas não
encontraram o que estavam procurando.
— Fogo
do verde 15:43, amarelo 56:09 — disse a indicação precisa vinda
do setor de localização energética.
A
intervenção da Ironduke não se tornou necessária. Um único
disparo de radiações térmicas da nave Wellington bastou para
silenciar as baterias situadas ao norte do grande espaçoporto.
O governo
de Lepso viu nisso mais um motivo para enviar uma série de pedidos
de socorro para todos os recantos da Galáxia.
Bell, que
se encontrava ao lado de Rhodan, disse num cochicho:
— Agora
só faltam os acônidas do Sistema Azul.
— É
neles que vive pensando o tempo todo — ironizou Perry. — E também
nos antis. Aqui está a interpretação de Árcon III.
A grande
tela ligeiramente abaulada exibiu o modelo linear do gigantesco
centro de computação de Árcon. Muito curiosos, Rhodan e Bell
aguardaram os sinais em código.
Os sinais
foram aparecendo em série. O maior centro positrônico da Galáxia
não se interessou pelo fato de que os sócios, que pediam
informações, eram seres humanos. Mas nessa hora decisiva Rhodan e
Bell ultrapassaram suas limitações. Leram os sinais em código à
medida que estes eram exibidos. Finalmente o modelo linear do
gigantesco centro de computação voltou a aparecer na tela.
Perry
Rhodan e Reginald Bell fitaram-se prolongadamente. Suas suspeitas
foram confirmadas. Essa ação — o apoio geral de todas as raças e
todos os mundos da aliança estelar arcônida — era uma ação
deliberadamente orientada.
— Antis
— limitou-se Rhodan a dizer.
— Mais
uma vez — disse Bell.
Às costas
dos dois dirigentes, o ar tremeluziu e ouviu-se um chiado. Quando
Rhodan virou-se para ele, o rato-castor parecia esgotado.
— Perry
— disse em tom de desânimo. — Não consigo encontrar Thomas. Fiz
tudo que pude. Lloyd já desistiu.
O mutante
localizador fez um gesto de desânimo em resposta ao olhar indagador
de Rhodan. Marshall enxugou o suor da testa.
— Está
bem — disse Rhodan. — Não desperdicem suas forças —
colocou-se junto ao microfone. — Aqui fala o chefe. Transmitam uma
mensagem codificada destinada à frota. Todas as naves pertencentes
ao primeiro destacamento realizarão um pouso-relâmpago dentro de
trezentos segundos. Fim.
Dali a
meio minuto, o oficial que estava de plantão na sala de rádio fez
um chamado.
— Sir, a
ordem foi irradiada. A contagem regressiva foi iniciada há oito
segundos.
O Major
Jefe Claudrin achou que aquilo lhe dizia respeito.
— Quer
dizer que também está na nossa vez.
Com um
gesto tranqüilo, o comandante comprimiu um botão vermelho. O alarma
soou no interior da Ironduke. No momento em que sua voz trovejou em
todos os compartimentos da nave, esta baixou sobre Lepso como se
fosse uma pedra:
— Atenção,
todos os tripulantes! Realizaremos pouso-relâmpago dentro de
aproximadamente duzentos e cinqüenta segundos. O plano Eldorado
entra em vigor. Fim.
A voz
tranqüila de Brazo Alkher, oficial de direção de tiro, soou no
alto-falante:
— Major,
o chefe está a bordo. A ordem zero três permanece em vigor para o
setor de comando de tiro?
Rhodan
interveio no mesmo instante.
— De
forma alguma, Alkher! A ordem de abrir fogo lhe será transmitida,
quando se tornar necessária. Hoje não será observada a ordem
adicional zero três.
Os
oficiais lançaram um olhar de veneração para o chefe. Muitos
exprimiram sem rebuços a admiração que sentiam. A ordem zero três
determinava que em hipótese alguma se devia pôr em perigo a vida do
chefe. Face à presença de Rhodan a bordo da Ironduke, Brazo Alkher
concluíra que automaticamente tinha ordem de abrir fogo, quando
achasse necessário. Mas o chefe em pessoa acabara de revogar tal
ordem, elaborada não por ele, mas pelo quartel-general da frota.
Acompanhada
de mais de mil naves de guerra de todos os tipos, a Ironduke
atravessou as camadas mais densas da atmosfera e desceu sobre o
quinto planeta. Pousou no maior dos espaçoportos situados junto à
capital, juntamente com cinco supercouraçados. Quando as naves
atingiram de cinco a três mil metros de altitude, suas eclusas
abriram-se por pouco tempo, e delas choveram robôs de guerra, que
planaram em direção à superfície.
Um impulso
especial, irradiado pela Ironduke, fez com que os campos energéticos
defensivos fossem desligados em momentos diferentes, mas sempre pelo
mesmo espaço de tempo, a fim de permitir às pesadas máquinas de
guerra cumprirem sua programação, deslocando-se para os pontos da
cidade onde deveriam entrar em ação.
Esses
quatorze segundos, durante os quais cada uma das naves que executavam
a manobra de pouso só dispunha do casco de aço para defender-se de
um tiro de radiações vindo da superfície, foram carregados de
grande tensão. Mas os campos defensivos logo foram restabelecidos,
enquanto os robôs de guerra saíam apressadamente em todas as
direções e, vez por outra, já se dispunham a pousar sobre o oceano
de casas.
Houve
pousos simultâneos em todos os núcleos maiores de Lepso,
acompanhados da atuação de gigantescos contingentes de robôs.
Houve um
único incidente mais sério.
Mal os
oito cruzadores pesados, que acompanhavam o couraçado Winnipeg,
acabavam de reativar seus campos defensivos, três baterias — bem
camufladas e protegidas contra a localização energética —
dispararam raios de desintegração de vários metros de espessura,
que atingiram ruidosamente o campo energético de proteção da
Winnipeg. O impacto representou uma solicitação de noventa e três
por cento da capacidade do campo defensivo. A nave correu perigo de
ser destruída. Mas os oficiais de comando de tiro de três
cruzadores pesados não deixaram que o ataque de surpresa, desfechado
contra a Winnipeg os abalasse. Dispararam uma salva mista com os
canhões polares e as baterias de costado. No local em que, um
segundo antes, ainda havia uma bateria superpotente de canhões de
radiações, só restava uma cratera, por cujas paredes íngremes
corria a rocha liquefeita, que foi endurecendo lentamente no fundo da
cratera.
— Utilizaram
robôs — constatou laconicamente o setor de localização da
Winnipeg.
O
comandante do couraçado soltou um suspiro de alívio, pois as ordens
mais importantes de Rhodan determinavam que se poupassem as vidas
humanas. O comandante inclinou-se em direção ao microfone e
ordenou:
— Avisar
o chefe do acontecido. Não houve outros incidentes.
Naquele
momento, a Winnipeg seguiu o exemplo dos oito cruzadores pesados,
pousando ao norte do deserto pedregoso. A segunda fase da operação
teve início.
A dez mil
metros de altitude, cruzava o segundo destacamento de Rhodan, e cinco
mil metros acima deste o terceiro. O rugido dos inúmeros motores de
impulsos, o uivo provocado pelo deslocamento das massas de ar e as
ondas de choque enervantes, produzidas pela ultrapassagem da barreira
do som, deviam levar os habitantes de Lepso a acreditarem que o
inferno estava desabando sobre eles.
A Ironduke
balançou-se ligeiramente sobre o anel das colunas de apoio
telescópicas e finalmente imobilizou-se sobre o sólido pavimento de
plástico do espaçoporto. A tela de visão global mostrou um
verdadeiro oceano de espaçonaves dos mais diversos tipos. Quase não
se viu nenhum veículo dos superpesados, mas em compensação havia
grande número de naves cilíndricas dos saltadores, naves-hospital
dos médicos galácticos e vários outros modelos de alguns dos povos
da Galáxia.
Todas as
naves, com exceção das dos aras, estavam armadas. No entanto,
nenhuma delas se dispôs a entrar em combate com os super couraçados
de Rhodan. Sabiam avaliar o perigo que circulava a dez e quinze mil
metros acima de suas cabeças.
Mas um dos
mercadores galácticos devia ter perdido o juízo. Um minuto após o
pouso da Ironduke, uma nave cilíndrica de apenas cem metros de
comprimento procurou escapar. Disparou para o céu azul que nem uma
bala. Mas no momento da decolagem, os destróieres pertencentes ao
primeiro anel de bloqueio aproximaram-se velozmente. O comandante
saltador da pequena espaçonave abriu fogo com radiações térmicas
e de impulsos. Atingiu dois destróieres.
A essa
hora, a nave cilíndrica já estava cercada por dezesseis
destróieres. Alguns destes abriram fogo contra seus propulsores,
enquanto outros levantaram uma grade de radiações em torno dele.
Subitamente, parte do mecanismo propulsor desfez-se numa chama
ofuscante. No mesmo instante, a velocidade da nave reduziu-se, esta
descreveu uma curva excessivamente fechada e, desgovernada, tentou
realizar um pouso de emergência.
Na grande
eclusa da Ironduke, o oficial que comandava os robôs de guerra
enviou ao local duas dezenas de máquinas. Estes receberam ordem de
cercar a nave fugitiva, que realizara o pouso de emergência e não
permitirem que nenhum dos seus ocupantes saísse de bordo.
A Ironduke
recebeu o chamado da última nave. Todas as formações pertencentes
ao primeiro destacamento haviam pousado em Lepso, e os robôs já
ocupavam os pontos mais importantes desse mundo.
Para Perry
Rhodan, isso representava um sinal de que deveria entrar pessoalmente
em contato com o governo de Lepso.
Sua
mensagem de rádio não obteve resposta. Um novo chamado também não
provocou a menor reação. Em compensação, todas as emissoras do
planeta enviavam pedidos de socorro para o espaço. Designaram a
Frota Solar como um grupo de naves piratas, e os terranos foram
apontados como bandidos.
Além dos
pedidos de socorro, a nave de Rhodan captava um volume cada vez maior
de notícias, vindas de todos os pontos do grande império. Todos os
superpesados anunciaram sua chegada. As gigantescas frotas dos
saltadores estavam a caminho do sistema de Firing. Rebeldes ekhônidas
prometeram auxílio. Houve ameaças indisfarçadas dirigidas a Árcon.
O Imperador Gonozal VIII teve de conformar-se em ser chamado de
lacaio de Rhodan.
O rosto
marcante de Perry Rhodan não demonstrava a menor exaltação. Em
seus olhos cinzentos não se via qualquer brilho estranho. Virou a
cabeça e, dirigindo-se a Bell, disse em tom tranqüilo:
— Acho
que está na hora de darmos uma olhada por aqui. Quase chego a ter a
impressão de que essa droga maldita é fabricada neste planeta. É a
única explicação, que consigo encontrar, para os protestos
provocados pela ocupação do mesmo.
Não
aguardou a opinião de Bell. Fitou John Marshall, que se mantinha de
pé, na parte dos fundos da sala de comando, e conversava em voz
baixa com Fellmer Lloyd. Dirigiu-se a ele por via telepática:
— John,
mande entrar em ação o rastreador individual dos swoons. Leve os
melhores telepatas. Aconteça o que acontecer nestas próximas horas,
o senhor e seu grupo não deverão preocupar-se apenas com a busca...
— OK,
chefe
— respondeu Marshall por via telepática. — Faço
votos de que o encontremos.
— Também
faço votos
— foi o desejo que Rhodan transmitiu ao chefe dos mutantes, mas
este desejo não o deixou feliz.
Dirigiu-se
a Claudrin, o epsalense.
— Vamos
decolar, major. Faça a Ironduke pousar na grande praça fronteira à
sede do governo. Tenho que provar a essa gente de Lepso que desejo
ser recebido.
Claudrin
inclinou o corpo em direção ao microfone do sistema de
intercomunicação e informou Brazo Alkher, oficial de direção de
tiro.
4
O Dr.
Edmond Hugher tomou conhecimento dos acontecimentos mais recentes,
que provocavam medo e pânico em muitas cidades do planeta Lepso. Era
pacato por natureza e não havia nada que o exasperasse. Por isso
aguardou os acontecimentos, continuando a dedicar-se às pesquisas no
laboratório da área do templo.
Dera
apenas uma ordem. Esta tinha ligação com o aparecimento da Frota
Solar nos céus de Lepso. Mandara transferir temporariamente os
serviços de engarrafamento do liquitivo para o setor TT-1.
O setor
TT-1 ficava na grande cadeia de montanhas nuas que dividia o deserto.
Uma
galeria de mais de dez quilômetros de extensão levava a um conjunto
de cavernas naturais, nas quais os antis haviam despendido uma soma
considerável, a fim de transformá-las num dos mais modernos centros
de fabricação de produtos medicinais da Galáxia.
Com
exceção de uma pequena equipe de técnicos, que supervisionava os
autômatos positrônicos e os robôs, não havia nessa unidade de
fabricação nenhum ser humano, nem mesmo antis ou aras.
Há mais
de um decênio o astromédico Dr. Nearman era um dos membros da
equipe técnica, formada por oito pessoas.
Havia
trinta e oito anos que os agentes do Serviço de Segurança Solar
quiseram prender o Dr. Nearman e fazer com que este nunca mais
recuperasse a liberdade. Mas o espertalhão desaparecera e jamais
voltou a ser encontrado na área submetida à soberania do Império
Solar.
A odisséia
que enfrentara em vários pontos do grande império não fizera bem
ao Dr. Nearman. Seu caráter sempre fora instável, acabou resvalando
de vez para o ilícito, e teve muito trabalho para escapar aos
tribunais arcônidas. Naquela época, isto é, há pouco mais de dez
anos, alguns sacerdotes do culto de Baalol entraram em contato com
ele. Os “feiticeiros”
o surpreenderam por estarem muito bem informados sobre os atos
reprováveis cometidos por ele, no curso dos últimos vinte e oito
anos. Entretanto Nearman os surpreendeu por mostrar-se imediatamente
disposto a aceitar a proposta de supervisionar, com mais algumas
pessoas inescrupulosas, a fase final do processo de fabricação do
entorpecente. Já cometera atos muito piores.
Seu
engajamento caiu como uma luva nos planos dos cultores de Baalol. Ele
possuía excelentes conhecimentos na área médica, era uma sumidade
em matéria de Biologia e não tinha o menor problema em calcular as
posições galácticas.
Fazia
algumas horas que Hugher informara o Dr. Nearman, pelo telefone
direto, que o último estágio da fabricação também seria
transferido para TT-1. Ao mesmo tempo recebera ordens de transferir
todo o estoque de liquitivo puro para o grande tanque de plástico.
Edmond
Hugher desligara sem qualquer comentário. Nearman cumpriu as ordens,
viu o conteúdo dos tanques pequenos passar para o recipiente grande
e avisou o templo de que as instruções haviam sido cumpridas.
Depois
iniciou sua ronda.
Era um
viciado, mas este fato não o preocupava. O que realmente o
preocupava era que Rhodan pousara em Lepso com toda sua frota,
prendera os membros do governo, e pretendia iniciar uma ação
policial que visava à prisão de criminosos fugidos do Império
Solar. Ele, Nearman, corria perigo de ser uma das pessoas presas
durante a operação.
Ao
lembrar-se mais uma vez disso, um sorriso de deboche desenhou-se em
sua face. Confiava nos antis. Tinha certeza de que estes saberiam
enfrentar Rhodan, e isso significava que, dificilmente ele, Nearman,
seria preso pelos agentes do Serviço de Segurança Solar. Se não
fosse assim, Hugher o teria prevenido, pois afinal de contas ele
também corria perigo. Há alguns anos ouvira boatos a este respeito,
mas quando indagara Hugher sobre isso, só encontrou uma reação de
espanto misturada com incompreensão.
— Não,
Nearman — dissera o cientista na oportunidade. — Posso garantir
que não sou terrano. Nasci em outro planeta, mas ninguém sabe dizer
que planeta é este. Bem, desde o dia em que saí de Zalit nunca mais
me interessei por isso. Meus pais e irmãos transformaram-se em
estranhos. Para que realizar investigações?
“Este
Hugher é mesmo um esquisitão cósmico”,
pensou Nearman.
Pegou a
garrafa de liquitivo, abriu o fecho lacrado e encostou aos lábios o
recipiente de plástico. Sorveu gostosamente dois centímetros
cúbicos de licor. Depois disso passou a mão pelos lábios e jogou
fora a garrafa.
Houve uma
modificação instantânea em sua pessoa. Seu andar, que até então
fora arrastado, passou a ser vigoroso. Seu rosto entesou-se, e as
preocupações que até então o martirizavam haviam desaparecido.
Pôs-se a assobiar uma melodia e sentiu-se como se ainda estivesse
nos tempos mais felizes da juventude.
Um drogado
assumia o controle do setor TT-1!
*
* *
A praça,
que ficava defronte à sede do governo, transformara-se num local de
devastação. Máquinas terranas de guerra, todas destruídas,
estavam espalhadas pelo local, e a mesma coisa acontecia com robôs
fabricados pelos mercadores e pelos superpesados.
Pouco
depois do pouso da Ironduke, uma espaçonave de oitocentos metros de
diâmetro, o governo, que se recolhera à zona diplomática,
resolvera capitular. Gal-Tam, o primeiro-ministro, voltou a protestar
contra a ocupação realizada pela Frota Solar, pois contrariava as
normas vigentes.
O
lepsonense encolheu-se sob os efeitos do olhar frio de Rhodan, que
gritou para ele num arcônida impecável:
— O
senhor sabe perfeitamente por que viemos.
O
minicomunicador de Rhodan emitiu o sinal de alarma. O administrador
trazia o aparelho no braço esquerdo. Num movimento rápido
ajustou-lhe o ângulo. A voz saída do pequeno, mas potente
alto-falante, disse:
— Sir,
lutas pesadíssimas estão sendo travadas antes e depois do círculo
de naves robotizadas. Mais de três mil superpesados e cerca de
quatro mil naves cilíndricas procuram romper o bloqueio. A frota
robotizada sofreu perdas assustadoras. Atlan prometeu reforços, mas
estes só poderão chegar dentro de seis horas. Sir, o terceiro
destacamento de nossa frota deve intervir no combate?
A mensagem
estava sendo transmitida pelo General Conrad Deringhouse, que se
encontrava a bordo da Ironduke. Contrariando o costume, ele não
comandava sua nave, a Drusus.
A
hesitação de Rhodan não teve sua origem em qualquer tipo de
insegurança. Passou um olhar pelos representantes do governo de
Lepso que, juntamente com seus antecessores, haviam transformado o
planeta num covil de criminosos e piratas e, o que era mais
assustador, dele fizeram o centro de uma organização de tráfico de
entorpecentes de âmbito galáctico.
Passou a
fitar o telepata Marshall. Irradiou seus pensamentos em direção ao
mesmo.
— Marshall,
vou dirigir-lhe a palavra em inglês. Verifique se algum dos
lepsonenses entende esta língua.
Falando
para dentro do microfone do minicomunicador, disse:
— Espere.
Depois
disso dirigiu-se a Marshall em inglês, formulando a pergunta-teste:
— O
senhor não se esqueceu de ordenar o ataque ao objetivo quatro?
Marshall
fingiu ficar confuso e espantado. Insinuou-se nos pensamentos dos
membros do governo de Lepso. Não demorou em informar Rhodan:
— Quatro
deles entendem o inglês, sir.
Rhodan
tomou conhecimento desse fato. Já preparara a solução desse tipo
de problema. Tanto Deringhouse como ele eram norte-americanos. Ainda
dominavam a gíria de seu país. Falando um “dialeto”
terrível, Rhodan ordenou ao general que só se a situação
assumisse proporções catastróficas, poderia intervir com as
unidades da frota terrana, na luta entre as naves robotizadas de
Árcon e os superpesados e saltadores.
— Sir
— transmitiu Marshall por via mental. — O
senhor fala uma gíria horrível. Não entendi uma única palavra.
Depois
disso, Rhodan pretendia ocupar-se novamente do primeiro-ministro, mas
Marshall voltou a transmitir uma mensagem telepática:
— Sir,
tentam dopar-nos juntamente com esse grupo. Toda essa gente age
exclusivamente segundo as ordens dos antis. A sede destes fica no
escritório do clã dos Guvtgol, na esquina das ruas trinta e três e
cento e sete.
Julian
Tifflor, que iniciara sua carreira junto a Rhodan, servindo de
chamariz cósmico, sentiu que o chefe o fitava intensamente.
Aproximou-se.
— Tiff —
cochichou Rhodan ao ouvido do coronel. — Prenda esta gente e
providencie para que os antis, que se encontram no escritório do clã
saltador dos Guvtgol, não possam escapar.
Depois de
informá-lo onde os feiticeiros poderiam ser encontrados, recomendou:
— Não
se esqueça das energias mentais desses tipos. Aja com uma tremenda
cautela.
Fez sinal
aos companheiros para que se retirassem.
O
Primeiro-Ministro Gal-Tam imaginou o que esperava a ele e aos outros
membros do governo.
— Rhodan
— gritou Gal-Tam, às costas do administrador. — Rhodan, este
planeta será transformado num inferno para vocês, caso se atreverem
a prender-nos.
Perry
Rhodan nem sequer virou a cabeça. Acompanhado de trinta robôs de
guerra superpesados, saiu do palácio ministerial e retornou sem
qualquer incidente à Ironduke.
O oficial
de plantão junto à eclusa fez continência.
— Avise
Deringhouse e Claudrin de que estou novamente a bordo. Poderei ser
encontrado no camarote de Marshall. Só devem perturbar-me em caso de
extrema necessidade.
*
* *
O
rastreador individual fabricado pelos swoons encontrava-se sobre a
mesinha de centro do camarote de Marshall.
Sua
pequenez provava que fora fabricado pelos homens-pepino. A aresta
mais longa não ultrapassava a marca dos cinco centímetros. A uns
vinte centímetros acima do aparelho, o bastão finíssimo da antena
terminava numa bola límpida de cristal, que só revelava seu segredo
sob a ação do microscópio, mostrando que a superfície era coberta
por mais de trezentas mil linhas traçadas com uma precisão
matemática.
Seis
telepatas do Exército de Mutantes encontravam-se de pé em torno da
mesinha. Todos eles fixavam-se na bolinha de cristal num estado de
transe. Rhodan estava sentado num ponto mais afastado. Parecia
descontraído. Estava com a perna direita confortavelmente cruzada
sobre a esquerda e esforçava-se para não fazer o menor ruído ao
respirar.
O
rastreador individual estava funcionando.
Sem os
telepatas não valia nada. Só as forças paranormais destes eram
capazes de pô-lo a funcionar.
Os seis
mutantes regularam o aparelho para a freqüência cerebral de Thomas
Cardif. Não mexiam um dedo. O aparelho só mostraria uma reação
positiva, quando, entre os bilhões de freqüências, tivesse
descoberto o comprimento de onda para o qual fora regulado. Ao
contrário de outros instrumentos de localização, esse rastreador
funcionava exclusivamente em base paranormal. No fundo era um
retificador e amplificador, reagindo às vibrações mentais e
fazendo suas medições no oceano onde vibravam bilhões de
freqüências.
Todas as
freqüências medidas, que não correspondessem às procuradas, não
eram detectadas pelo rastreador, mesmo que continuassem a existir no
mundo exterior. Este fenômeno inexplicável em termos matemáticos,
constituía a única garantia de que o rastreador individual não
poderia deixar de encontrar a freqüência cerebral de Thomas Cardif.
A cada movimento — ou seja, a cada vibração que o cristal
completava por período — o mesmo media um número de freqüências
equivalente ao das linhas matematicamente exatas que cobriam sua
superfície.
Rhodan
continuava a observar os telepatas. De repente notou que os seis
estremeceram ligeiramente. Num movimento instintivo, o chefe
levantou-se e inclinou o corpo para a frente. Seu rosto exprimia uma
forte tensão.
Viu seus
mutantes assumirem aquela expressão facial difícil de ser descrita.
Costumavam mostrá-la, quando se agarravam com todas as energias a
uma fonte de impulsos constatável por via telepática. O rato-castor
não constituiu-se em exceção.
Rhodan
sentiu instintivamente que acabara de haver uma pane.
De repente
Gucky virou-se, sacudiu a cabeça num gesto de desespero e procurou
esquivar-se ao olhar de Rhodan.
O próximo
a desistir foi John Marshall. Aproximou-se de Rhodan em passos
vagarosos e sentou-se, totalmente esgotado.
— Não
compreendo, sir — disse, olhando para o chão e apoiando os
cotovelos sobre os joelhos. — Por alguns segundos mantivemos
contato com Thomas Cardif. A ligação foi excelente. Até cheguei a
ler seus pensamentos, mas como faltasse um encadeamento lógico com
as idéias antecedentes, não os entendi. Quem será o tal do Lull ou
Lill? Bem, chefe, de repente tudo terminou. Até parece que uma
parede se interpôs entre nós e Thomas.
Rhodan
fitou-o de lado. Aos poucos o cansaço foi cedendo. Marshall
recuperava-se a olhos vistos. Gucky arrastou-se para perto dele,
seguido de Fellmer Lloyd, o localizador.
O
rato-castor parou à frente de Rhodan e disse em tom contrariado:
— Se
isso não foi uma peça que nos pregaram os antis, não sei mais o
que vem a ser um anti!
— Sir,
Gucky tem razão — disse Fellmer Lloyd, em apoio da afirmativa do
baixinho. — Também sou de opinião que os antis recorreram às
suas faculdades paramentais para constatar nossas tentativas de
localização e impedir o prosseguimento das mesmas. Captamos a
freqüência de Cardif. Vi perfeitamente seu modelo de vibrações
cerebrais, e também constatei a presença do bloqueio.
Não
conseguiu prosseguir. Gucky virou-se abruptamente. Via-se diante de
um mutante localizador, que, além de ser capaz de ver a grande
distância os modelos de vibrações cerebrais, ainda estava em
condições de verificar se o portador dessas vibrações
representava um perigo e qual era a origem desse perigo.
— Lloyd
— perguntou Rhodan, com seus olhos cinzentos chamejando. — Tem
certeza de que Thomas ainda se encontra sob influência hipnótica?
Gucky
soltou um suspiro, como se aquilo representasse um alívio para ele.
Notou que Rhodan aludira a seu filho Thomas; não o chamara de
Cardif.
O
localizador respondeu prontamente:
— Quanto
a isso tenho certeza absoluta, sir. Está sob influência hipnótica,
mais precisamente, sob a influência da hipnose mecânica, inventada
pelos arcônidas.
— Obrigado
— disse Rhodan, retornando ao seu lugar.
Passou por
Gucky. Ao passar, passou a mão pela cabeça do rato-castor e disse:
— Mais
uma vez, você teve razão.
O sistema
de intercomunicação de bordo transmitiu o sinal de alarma. Os
contornos projetados na tela estabilizaram-se. Nela surgiu o rosto do
Coronel Myler, comandante do terceiro grupo de naves da Frota
Terrana. Tal grupo circulava ininterruptamente em torno de Lepso, a
quinze mil metros de altura.
— Sir —
principiou o coronel, visivelmente nervoso. — Cinqüenta por cento
da frota robotizada, que se encontra nos limites do sistema de
Firing, já foi destruído. Três grupos de superpesados, formados
por cerca de seiscentas espaçonaves, romperam o bloqueio e chegarão
a Lepso dentro de trinta minutos.
— Poderão
chegar a Lepso dentro de trinta minutos, coronel — retificou
Rhodan. — De qualquer maneira, o terceiro círculo, comandado pelo
senhor, não intervirá nisso. Não se preocupe. Continue a manter o
bloqueio. Fim.
Para o
Coronel Myler, isso representava uma ordem de desligar. Mas a ligação
de intercomunicação no interior da Ironduke foi mantida.
— É
Deringhouse? — perguntou Rhodan para dentro do microfone.
A cabeça
marcante de Conrad Deringhouse apareceu na tela.
Não teve
tempo nem de se apresentar.
— Deringhouse,
use todos os supercouraçados, com exceção da Drusus, para
enfrentar os superpesados que romperam o bloqueio. Fim.
Desligou
e, no mesmo instante, parecia esquecer-se de que, a cada minuto que
passava, a situação da frota terrana em Lepso se tornava mais
inquietante.
Voltou a
dirigir-se a Fellmer Lloyd. Repetiu a mesma pergunta:
— Tem
certeza absoluta de que Thomas Cardif ainda se encontra submetido ao
mesmo bloqueio hipnótico que lhe foi aplicado há cinqüenta e oito
anos, em Árcon?
Mais uma
vez, a resposta do localizador, proferida em voz firme, foi imediata:
— Sir,
não tenho a menor dúvida.
Perry
Rhodan passou as mãos pelos olhos. Balançou a cabeça e falou:
— Não
consigo acreditar nisso, Lloyd, mas devo acreditar. Preciso...
Não disse
o que mais precisava, e nenhum telepata, nem mesmo Gucky, atreveu-se
a insinuar-se, nesse instante, nos pensamentos do chefe.

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