sábado, 3 de setembro de 2016

P-109 - O Bloqueio de Lepso - Kurt Brand [Parte 2]

A tensão, que apesar de tudo reinava a bordo, era causada pelos antis. Estes chamados sacerdotes do deus Baalol eram descendentes da raça arcônida, que em tempos idos haviam sofrido uma mutação. Além da faculdade de, por meio das suas energias mentais, reforçar os campos energéticos de proteção pessoal a ponto tal que estes dificilmente poderiam ser rompidos por uma arma energética, ainda eram capazes de impedir a atuação das forças parapsicológicas de outras criaturas.
Fazia apenas alguns decênios que os antis foram abandonando aos poucos a atitude de reserva em que se mantinham. Passaram a mostrar que não eram apenas anti-mutantes e servos de um culto, já que se empenhavam por objetivos ligados ao poder político. Pretendiam, em última análise, apoderar-se do grande império.
Sir — trovejou a voz do Major Claudrin em direção a Rhodan, que foi arrancado de suas reflexões. — Já vou ligar o sistema kalupiano. Desta forma chegaremos dez minutos antes da frota.
Rhodan compreendeu a finalidade que Jefe Claudrin visava com a manobra. Queria reduzir ao mínimo o risco de uma guerra galáctica. Se o chefe do império solar atingisse as posições mais avançadas antes de sua frota, talvez seria capaz de evitar a reação em cadeia causada por uma eventual batalha que eclodisse por acaso.
O conversor tipo kalup, antes conhecido por sistema kalupiano, que constituía o núcleo da propulsão linear, não era um motor de aceleração, mas um aparelho que envolvia a Ironduke num campo esférico. Esse campo neutralizava todas as influências do espaço de quatro e cinco dimensões, que eram por ele absorvidas e refletidas. Dessa forma, a nave podia penetrar na área de libração, que era o semi-espaço, situado entre o universo de quatro e o de cinco dimensões, e nessa área alcançava velocidades milhões de vezes superiores à da luz.
Rhodan assentiu com um gesto.
Claudrin em pessoa moveu os controles. O trovejar dos propulsores cessou e os conversores de impulsos da nave deixaram de funcionar. Por alguns segundos a Ironduke deslocou-se em queda livre, à velocidade de 0,6% à da luz.
De repente todos os aparelhos pareciam funcionar novamente, mas o inferno trovejante das profundezas da nave fora precedido por um ruído ligeiro, ainda não ouvido.
É o kalup — disse um dos oficiais que se encontravam na sala de comando, e outros concordaram com um gesto.
Os homens pertencentes à Frota Solar costumavam simplificar tudo. Kalup era o sobrenome do professor Dr. Arno, o hiperfísico mais competente do sistema solar, e agora passara a ser o nome do conversor de compensação inventado pelo eminente cientista. Tal conversor acabara de envolver a Ironduke num campo esférico, a fim de abrir caminho para as áreas situadas no semi-espaço.
Para isso, o kalup produzia uma deformação na estrutura das ondas de impulsos. Estas se tornavam independentes do espaço 4-D ou 5-D e as radiações atingiam uma velocidade que chegava a aproximadamente vinte e cinco milhões à da luz.
A grande tela de visão global da nave esférica transmitiu uma imagem turva do Universo. Não se viam mais os pontos luminosos, que foram substituídos por traços de luz.
Ligar os rastreadores de relevo! — trovejou a voz de Claudrin.
O enorme epsalense não sabia falar baixo.
O co-piloto, que se encontrava ao lado do major, mexeu em alguns controles.
Uma tela iluminou-se e a imagem adquiriu contornos estáveis e um pouco mais de nitidez. Sob o comando da localização de compensação, uma estrela surgiu no centro da tela. Era o sol de Firing!
Muito bem — voltou a trovejar a voz de Jefe Claudrin. — Os oito mil, quatrocentos e sessenta e sete anos-luz logo serão percorridos.
Olhou em torno. Cada um dos oficiais sentiu o olhar do comandante pousado em si, e todos o retribuíram.
OK! — trovejou o major, depois que voltou a assumir sua posição normal na poltrona. — Vamos continuar assim!
Isso não era apenas uma frase. Falara na primeira pessoa do plural; logo, essas palavras também foram dirigidas a ele mesmo.
Sem qualquer modificação na cor e na intensidade, continuava acesa na tela do rastreador de relevo a imagem do sol de Fering, cujo segundo planeta era conhecido pelo nome de Lepso.
Os homens da sala de comando da Ironduke viram seu destino a uma distância superior a oito mil anos-luz. Era uma das grandes maravilhas do sistema de propulsão linear, que permitia a visão da estrela-destino, enquanto a nave corria a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz, deslocando-se pelo semi-espaço.
O tempo foi passando. Subitamente, o sol começou a crescer na tela do rastreador de relevo. O Major Claudrin modificou a regulagem. A Ironduke voltou a penetrar no Universo normal sem provocar o menor abalo estrutural. No mesmo instante, as imagens projetadas na gigantesca tela de visão global assumiram contornos ainda mais nítidos, e a faixa luminosa da Via Láctea iluminou-se em todo o esplendor. Uma das miríades de estrelas era o sol de Firing.
Fortes abalos estruturais — avisou o oficial que se encontrava junto aos aparelhos de localização.
Do outro lado da sala de comando passaram a ser transmitidas as posições galácticas. O aparelho de contagem acoplado ao localizador constatara o número de naves que naquele instante deixavam o hiperespaço.
Cento e oitenta espaçonaves. Segue a identificação, major. Trata-se de uma formação da frota dos superpesados.
Os superpesados eram mercenários contratados pelos mercadores galácticos.
Face às condições ambientais reinantes nos planetas por eles escolhidos como habitat, os superpesados, que também descendiam da raça arcônida, haviam passado por uma evolução totalmente diferente da de outros seres. Transformaram-se em gigantes: pesavam de quinhentos a novecentos quilos. Ao contrário dos mercadores, faziam da arte da guerra um negócio. Qualquer um que pagasse poderia contar com seu auxílio. Quem os chamasse sabia que seria obrigado a despender somas imensas. Os superpesados só agiam mediante pagamento à vista; não se interessavam por promessas. Mas quem os tivesse pago poderia contar com sua atuação, tanto preventiva como repressiva. Lutavam com uma bravura digna de melhor causa.
Claudrin, coloque os mutantes em estado de prontidão — ordenou Rhodan, uma vez concluída a transmissão dos últimos dados relativos à frota dos superpesados.
Um dos oficiais adiantou-se, e, chegando perto do microfone, assim que a central telefônica respondeu, pediu que o ligasse aos camarotes dos mutantes.
Será que isso não poderia ser feito mais depressa? — perguntou Rhodan, um tanto contrariado com a demora.
Quem respondeu no lugar do jovem oficial foi Jefe Claudrin, que se sentiu embaraçado face à recriminação de Rhodan.
Fui eu que dei ordem para isso. Enquanto tivermos tempo, praticaremos a teoria ocupacional. Quando não tivermos mais, meus homens saberão trabalhar ainda mais depressa. De acordo, sir?
Tenho de concordar, major — respondeu Rhodan, com um sorriso. — Afinal, não passo de um visitante a bordo da Ironduke.
Não me esquecerei disso — respondeu Claudrin com uma risadinha sem tirar os olhos dos controles.
Naquele momento, a nave estava passando junto ao quarto planeta do sol de Firing e corria a 0,8% da velocidade da luz em direção à órbita do terceiro planeta. Com uma rapidez espantosa, o comandante pegou outro microfone, comprimiu uma tecla e gritou:
Alkher. Está dormindo? Por que não recebo nenhum aviso do setor de comando de tiro?
Brazo Alkher era o mais jovem dos oficiais a bordo da Ironduke. Era um homem grande, um desajeitado e muito modesto. Mas quando surgia uma situação crítica não havia um oficial de tiro mais frio e arrojado. Não entrava em pânico, nem mesmo quando só restava um único canhão de sua nave, em condições de disparar.
Major — disse a voz de Brazo Alkher saída do alto-falante da sala de comando. — Peço licença para lembrar que, por ocasião da decolagem da Ironduke, já anunciei que estávamos prontos para disparar. Não me consta que este aviso tenha sido revogado por outro.
Num gesto instintivo o Major Claudrin virou-se para o chefe. Rhodan disse com um sorriso:
Isso também já aconteceu comigo, major.
O setor de rastreamento estrutural transmitiu um aviso:
Localização! Nossa frota está saindo do hiperespaço. Velocidade: 0,85% da luz. A última formação está mergulhando no espaço.
A sala de rádio chamou. A mensagem foi dirigida a Rhodan.
Sir, há um chamado do governo planetário de Lepso, que nos ameaça com represálias militares caso a frota do Império Solar não modifique imediatamente sua rota.
Muito tranqüilo, Rhodan aproximou-se do intercomunicador.
Diga ao governo, em meu nome, que as intenções do Império Solar não são hostis. Apenas queremos prender alguns criminosos. Não se envolva em qualquer palestra com Lepso, operador de rádio.
Um sorriso largo surgiu no rosto do Major Jefe Claudrin.
O senhor acha que alguém acreditará nisso?
Seguiu-se outro chamado do setor de rastreamento estrutural.
Frota robotizada mergulhando no Universo. Há uma acentuada superposição dos abalos. Fator de insegurança na determinação do número chega a cerca de mil. Número de naves é de cinco ou seis mil.
A voz anunciou o ponto em que a frota robotizada penetrou no Universo normal. Enquanto isso, a Ironduke continuou a acelerar. Acabara de cruzar a órbita do terceiro planeta e deslocava-se em direção a Lepso. Visto da nave, o planeta ficava à direita do sol de Firing, que por intermédio da tela de visão ótica derramava quantidades cada vez maiores de luz ofuscante e amarelenta para dentro da sala de comando.
Quando se encontrava a cento e trinta milhões de quilômetros, Rhodan transmitiu pelo hiper-rádio uma mensagem destinada a Lepso.
Falando com a voz metálica, Perry disse:
Em nome do Império Solar e por ordem de Rhodan, o administrador, a partir deste instante fica proibida a decolagem de qualquer espaçonave que se encontre em Lepso. Sempre que esta ordem for violada, a nave que tiver decolado será obrigada pela força das armas a retornar para Lepso. Aqui fala a Ironduke, em nome de Rhodan, o administrador...
O Major Claudrin fez um gesto de assentimento; parecia satisfeito. Já se sentira contente ao notar que Rhodan irradiara a mensagem, sem estabelecer contato visual. O tom de Rhodan parecia mais grave que de costume. Era pouco provável que alguém o tivesse reconhecido pela voz.
Sir — disse o operador de rádio. — A frota anuncia que está preparada para abrir fogo. Os supercouraçados ganham terreno. Dentro de cinco minutos estarão ao nosso lado.
Naquele instante John Marshall, chefe dos mutantes, entrou na sala de comando acompanhado dos telepatas mais potentes do exército por ele chefiado. Apenas um deles preferira não se locomover sobre as pernas. Era Gucky, o rato-castor. Escolheu como ponto final do pequeno salto de teleportação justamente o colo do enorme epsalense.
Não me abrace com esse feixe de músculos, Jefe — piou o rato-castor, quando Claudrin, num movimento instintivo, fez menção de enlaçá-lo.
Dê o fora, sua criatura enervante — esbravejou o major, mas sorriu interiormente ao ver que seu berro fizera com que o rato-castor saísse de seu colo.
Jefe ouviu os protestos que o rato-castor formulou às suas costas:
Afinal, as boas maneiras são uma questão de sorte. E olhe que eu não teria nenhum problema em enfrentar esse colosso.
O Major Claudrin não teve tempo para dar atenção à observação de Gucky. Naquele momento, o setor de localização anunciava que oito naves tentavam sair de Lepso numa decolagem de emergência. Em compensação Rhodan resolveu dar uma lição no rato-castor.
Aproxime-se, Tenente Guck!
Gucky encolheu-se sob o brilho dos olhos cinzentos de Rhodan, mas logo colocou-se à frente do administrador.
O Tenente Guck está presente conforme lhe foi ordenado, chefe. Aconteceu alguma coisa?
Era um atrevimento inacreditável. Alguns oficiais irromperam numa estrondosa gargalhada, e naturalmente Bell não conseguiu ficar sério. O rato-castor exibiu um pedacinho do dente roedor, dando a entender o princípio de uma risadinha. Rhodan foi o único cujo rosto continuou inalterado.
Ora, meu caro... — disse em tom enérgico, mas viu-se interrompido.
Uma mensagem transferida para a sala de comando foi a salvação do rato-castor. Quando a tela começou a tremeluzir, Rhodan saiu do ângulo da objetiva, pois não queria que o vissem e soubessem que se encontrava a bordo da Ironduke.
Aqui fala Gal-Tam, primeiro-ministro de Lepso — disse uma voz nasal desagradável, vinda do alto-falante. — Exigimos que a frota do Império Solar saia imediatamente do sistema de Firing, pois, do contrário, abriremos fogo com todas as armas de que dispomos. Se a rota atual da Frota Solar for mantida por mais de cinco minutos, tempo padrão, o ultimato do governo de Lepso terá chegado ao término.
O Primeiro-Ministro Gal-Tam nem sequer esperou a confirmação de que seu ultimato fora recebido.
A guerra galáctica parecia inevitável.

* * *

A cinqüenta milhões de quilômetros do planeta Lepso, a armada solar espalhou-se de repente em todas as direções. Somente a Ironduke e os trinta supercouraçados, que a acompanhavam, mantiveram inalterada a rota em direção ao planeta. As outras naves esféricas passaram a movimentar-se em vários níveis de aceleração, a fim de ocupar com a precisão de um minuto as posições designadas nos planos de ação.
Três minutos depois do prazo do ultimato, formulado pelo governo lepsoniano, os veículos espaciais de Rhodan completaram o bloqueio do planeta. As oito espaçonaves, que haviam realizado uma decolagem de emergência para escapar de Lepso, fizeram meia-volta e dispuseram-se a pousar num dos numerosos espaçoportos.
Era espantoso que o número de mensagens de rádio, captadas pela Ironduke, fosse tão reduzido. Mas nenhum dos oficiais admirou-se com isso. Para eles, a precisão com que as naves realizavam a manobra era uma coisa natural. Não apenas a haviam treinado muitas vezes, mas tiveram oportunidade de usar o que já tinham aprendido em outras ações. Para muitos, a operação contra Lepso representava uma tarefa rotineira, mas outros, que haviam recebido informações sobre os antis, não pensavam da mesma forma. Em Perry Rhodan não se notava a menor alteração. Até então funcionara quase exclusivamente como observador na sala de comando da nave linear, e por isso não transmitiu nenhuma instrução quando a bola que representava o planeta pareceu saltar para o alto, em sua direção.
Desenvolvendo uma velocidade elevada, a Ironduke, acompanhada dos trinta supercouraçados, penetrou na atmosfera de Lepso. A superfície do planeta tornou-se visível através de uma fina camada de nuvens. Viram as grandes cidades, a enorme faixa do deserto, os rios, um número impressionante de espaçoportos de dimensões gigantescas — tudo isso entremeado com matas virgens, após as quais sempre vinham outras construções.
O sistema de localização energética deu um sinal. Esperava-se que Lepso procurasse defender-se, mas, além disso, aguardava-se outro acontecimento em todas as naves terranas...
A frota robotizada de Árcon, que bloqueava todo o sistema de Firing, teve o primeiro contato com o inimigo.
Um grupo dos superpesados, formado por cento e oitenta naves, abriu fogo a quarenta mil quilômetros de distância contra uma formação da frota robotizada de Árcon.
Três cruzadores pesados gaseificaram-se sob os efeitos do primeiro ataque de armas de radiações. Houve a perda de robôs, mas não de seres humanos. Os sete cruzadores pesados restantes, cujos campos defensivos haviam resistido aos tiros de radiações, deslocaram-se velozmente em direção à frota muitíssimo superior. Os tripulantes — que eram robôs — não conheciam outra coisa a não ser sua programação. Um aparelho positrônico não tem alma.
Nos sete cruzadores pesados sete robôs radialistas transmitiram a todas as demais naves da frota o aviso de que iriam atacar cento e oitenta espaçonaves dos superpesados.
Enquanto o grupo das naves atacantes era formado apenas por seis unidades, já que naquele momento uma delas se transformou numa nuvem de gases que se espalhou pelo espaço, mais de trezentas naves robotizadas, vindas de todas as direções, aproximaram-se do campo de batalha. O fato de que o primeiro grupo atacante já não transmitia nenhuma notícia não preocupava os tripulantes sem alma. A formação dos superpesados estava enquadrada em sua mira ótica. Aproximaram-se da mesma e abriram simultaneamente o fogo de radiações.
O destino dos superpesados parecia selado, mas naquele instante a estrutura espacial sofreu um temendo abalo nas proximidades do campo de batalha. De repente surgiram, vindos do nada do hiperespaço, os couraçados do clã de Selfun. Eram mais de trezentas naves cilíndricas que intervieram imediatamente na batalha. Tratava-se de um tipo de nave intermediário entre o couraçado e o cruzador pesado. Pelo armamento identificavam-se com os couraçados.
A luta durou meia hora. Nos primeiros cinco minutos parecia que todas as naves robotizadas iriam desmanchar-se em nuvens de gases, mas à medida que a luta prosseguia surgia um número cada vez maior de cruzadores arcônidas tripulados por robôs. Para cada nave destruída apareciam quatro. Selfun, o mais velho do clã, percebeu que condenaria sua frota à destruição se prosseguisse na luta contra os robôs. Rangeu os dentes, mas deu ordem de retirada.
Não se admirou de que sua frota gravemente danificada não fosse perseguida pelas espaçonaves arcônidas. Essa tarefa não estava incluída na programação dos robôs. Sua missão consistia em bloquear o sistema de Firing e não deixar entrar no sistema ou dela sair qualquer nave, com exceção das unidades da Frota Solar.
Não se interessavam pelo que acontecia fora do sistema ou no interior do mesmo.
Enquanto isso Rhodan continuava a circular em torno do planeta com seus couraçados. Os postos de escuta de todos os centros de rádio estavam com a guarnição completa.
Lepso enviou um pedido de socorro após outro para a Galáxia. E de todos os lados vinha esta resposta:
Iremos para ajudá-los. Agüentem.
A cada minuto desenhava-se com uma nitidez sempre maior um quadro que nem sequer Rhodan esperara ter de contemplar. Os mundos dos mercadores galácticos e dos superpesados e um número assustador de planetas exclusivamente arcônidas, que até então eram considerados súditos fiéis do império, ameaçavam retirar-se da aliança estelar e, ao mesmo tempo, prometiam todo o auxílio possível a Lepso.
As notícias captadas foram transmitidas simultaneamente ao centro de computação da Ironduke. Mensagens de hiper-rádio codificadas, que demorariam ao menos algumas semanas para serem decifradas pelos saltadores, antis ou superpesados, foram enviadas ao gigantesco centro de computação de Árcon III. Numa situação perigosa como esta, Rhodan não estava disposto a assumir qualquer risco desnecessário. Sempre que possível, só tomaria as decisões mais importantes, depois de dispor da interpretação positrônica de todos os dados colhidos.
Os telepatas pareciam manter-se inativos no interior da sala de comando, mas quem os conhecesse muito bem sabia que naquele momento não havia por ali uma única pessoa que se concentrasse mais intensamente no trabalho do que eles.
Todos eles procuravam captar em meio a bilhões de freqüências cerebrais um impulso que lhes era perfeitamente conhecido: o de Thomas Cardif, ou do Dr. Edmond Hugher.
Recorreram ao potente dispositivo ótico da Ironduke para realizar uma aproximação tamanha das instalações do templo de Baalol, que se tinha a impressão de que o areal do deserto ficava a apenas cem metros. Concentrando-se ainda mais, revistaram essa área restrita.
Mas não encontraram o que estavam procurando.
Fogo do verde 15:43, amarelo 56:09 — disse a indicação precisa vinda do setor de localização energética.
A intervenção da Ironduke não se tornou necessária. Um único disparo de radiações térmicas da nave Wellington bastou para silenciar as baterias situadas ao norte do grande espaçoporto.
O governo de Lepso viu nisso mais um motivo para enviar uma série de pedidos de socorro para todos os recantos da Galáxia.
Bell, que se encontrava ao lado de Rhodan, disse num cochicho:
Agora só faltam os acônidas do Sistema Azul.
É neles que vive pensando o tempo todo — ironizou Perry. — E também nos antis. Aqui está a interpretação de Árcon III.
A grande tela ligeiramente abaulada exibiu o modelo linear do gigantesco centro de computação de Árcon. Muito curiosos, Rhodan e Bell aguardaram os sinais em código.
Os sinais foram aparecendo em série. O maior centro positrônico da Galáxia não se interessou pelo fato de que os sócios, que pediam informações, eram seres humanos. Mas nessa hora decisiva Rhodan e Bell ultrapassaram suas limitações. Leram os sinais em código à medida que estes eram exibidos. Finalmente o modelo linear do gigantesco centro de computação voltou a aparecer na tela.
Perry Rhodan e Reginald Bell fitaram-se prolongadamente. Suas suspeitas foram confirmadas. Essa ação — o apoio geral de todas as raças e todos os mundos da aliança estelar arcônida — era uma ação deliberadamente orientada.
Antis — limitou-se Rhodan a dizer.
Mais uma vez — disse Bell.
Às costas dos dois dirigentes, o ar tremeluziu e ouviu-se um chiado. Quando Rhodan virou-se para ele, o rato-castor parecia esgotado.
Perry — disse em tom de desânimo. — Não consigo encontrar Thomas. Fiz tudo que pude. Lloyd já desistiu.
O mutante localizador fez um gesto de desânimo em resposta ao olhar indagador de Rhodan. Marshall enxugou o suor da testa.
Está bem — disse Rhodan. — Não desperdicem suas forças — colocou-se junto ao microfone. — Aqui fala o chefe. Transmitam uma mensagem codificada destinada à frota. Todas as naves pertencentes ao primeiro destacamento realizarão um pouso-relâmpago dentro de trezentos segundos. Fim.
Dali a meio minuto, o oficial que estava de plantão na sala de rádio fez um chamado.
Sir, a ordem foi irradiada. A contagem regressiva foi iniciada há oito segundos.
O Major Jefe Claudrin achou que aquilo lhe dizia respeito.
Quer dizer que também está na nossa vez.
Com um gesto tranqüilo, o comandante comprimiu um botão vermelho. O alarma soou no interior da Ironduke. No momento em que sua voz trovejou em todos os compartimentos da nave, esta baixou sobre Lepso como se fosse uma pedra:
Atenção, todos os tripulantes! Realizaremos pouso-relâmpago dentro de aproximadamente duzentos e cinqüenta segundos. O plano Eldorado entra em vigor. Fim.
A voz tranqüila de Brazo Alkher, oficial de direção de tiro, soou no alto-falante:
Major, o chefe está a bordo. A ordem zero três permanece em vigor para o setor de comando de tiro?
Rhodan interveio no mesmo instante.
De forma alguma, Alkher! A ordem de abrir fogo lhe será transmitida, quando se tornar necessária. Hoje não será observada a ordem adicional zero três.
Os oficiais lançaram um olhar de veneração para o chefe. Muitos exprimiram sem rebuços a admiração que sentiam. A ordem zero três determinava que em hipótese alguma se devia pôr em perigo a vida do chefe. Face à presença de Rhodan a bordo da Ironduke, Brazo Alkher concluíra que automaticamente tinha ordem de abrir fogo, quando achasse necessário. Mas o chefe em pessoa acabara de revogar tal ordem, elaborada não por ele, mas pelo quartel-general da frota.
Acompanhada de mais de mil naves de guerra de todos os tipos, a Ironduke atravessou as camadas mais densas da atmosfera e desceu sobre o quinto planeta. Pousou no maior dos espaçoportos situados junto à capital, juntamente com cinco supercouraçados. Quando as naves atingiram de cinco a três mil metros de altitude, suas eclusas abriram-se por pouco tempo, e delas choveram robôs de guerra, que planaram em direção à superfície.
Um impulso especial, irradiado pela Ironduke, fez com que os campos energéticos defensivos fossem desligados em momentos diferentes, mas sempre pelo mesmo espaço de tempo, a fim de permitir às pesadas máquinas de guerra cumprirem sua programação, deslocando-se para os pontos da cidade onde deveriam entrar em ação.
Esses quatorze segundos, durante os quais cada uma das naves que executavam a manobra de pouso só dispunha do casco de aço para defender-se de um tiro de radiações vindo da superfície, foram carregados de grande tensão. Mas os campos defensivos logo foram restabelecidos, enquanto os robôs de guerra saíam apressadamente em todas as direções e, vez por outra, já se dispunham a pousar sobre o oceano de casas.
Houve pousos simultâneos em todos os núcleos maiores de Lepso, acompanhados da atuação de gigantescos contingentes de robôs.
Houve um único incidente mais sério.
Mal os oito cruzadores pesados, que acompanhavam o couraçado Winnipeg, acabavam de reativar seus campos defensivos, três baterias — bem camufladas e protegidas contra a localização energética — dispararam raios de desintegração de vários metros de espessura, que atingiram ruidosamente o campo energético de proteção da Winnipeg. O impacto representou uma solicitação de noventa e três por cento da capacidade do campo defensivo. A nave correu perigo de ser destruída. Mas os oficiais de comando de tiro de três cruzadores pesados não deixaram que o ataque de surpresa, desfechado contra a Winnipeg os abalasse. Dispararam uma salva mista com os canhões polares e as baterias de costado. No local em que, um segundo antes, ainda havia uma bateria superpotente de canhões de radiações, só restava uma cratera, por cujas paredes íngremes corria a rocha liquefeita, que foi endurecendo lentamente no fundo da cratera.
Utilizaram robôs — constatou laconicamente o setor de localização da Winnipeg.
O comandante do couraçado soltou um suspiro de alívio, pois as ordens mais importantes de Rhodan determinavam que se poupassem as vidas humanas. O comandante inclinou-se em direção ao microfone e ordenou:
Avisar o chefe do acontecido. Não houve outros incidentes.
Naquele momento, a Winnipeg seguiu o exemplo dos oito cruzadores pesados, pousando ao norte do deserto pedregoso. A segunda fase da operação teve início.
A dez mil metros de altitude, cruzava o segundo destacamento de Rhodan, e cinco mil metros acima deste o terceiro. O rugido dos inúmeros motores de impulsos, o uivo provocado pelo deslocamento das massas de ar e as ondas de choque enervantes, produzidas pela ultrapassagem da barreira do som, deviam levar os habitantes de Lepso a acreditarem que o inferno estava desabando sobre eles.
A Ironduke balançou-se ligeiramente sobre o anel das colunas de apoio telescópicas e finalmente imobilizou-se sobre o sólido pavimento de plástico do espaçoporto. A tela de visão global mostrou um verdadeiro oceano de espaçonaves dos mais diversos tipos. Quase não se viu nenhum veículo dos superpesados, mas em compensação havia grande número de naves cilíndricas dos saltadores, naves-hospital dos médicos galácticos e vários outros modelos de alguns dos povos da Galáxia.
Todas as naves, com exceção das dos aras, estavam armadas. No entanto, nenhuma delas se dispôs a entrar em combate com os super couraçados de Rhodan. Sabiam avaliar o perigo que circulava a dez e quinze mil metros acima de suas cabeças.
Mas um dos mercadores galácticos devia ter perdido o juízo. Um minuto após o pouso da Ironduke, uma nave cilíndrica de apenas cem metros de comprimento procurou escapar. Disparou para o céu azul que nem uma bala. Mas no momento da decolagem, os destróieres pertencentes ao primeiro anel de bloqueio aproximaram-se velozmente. O comandante saltador da pequena espaçonave abriu fogo com radiações térmicas e de impulsos. Atingiu dois destróieres.
A essa hora, a nave cilíndrica já estava cercada por dezesseis destróieres. Alguns destes abriram fogo contra seus propulsores, enquanto outros levantaram uma grade de radiações em torno dele. Subitamente, parte do mecanismo propulsor desfez-se numa chama ofuscante. No mesmo instante, a velocidade da nave reduziu-se, esta descreveu uma curva excessivamente fechada e, desgovernada, tentou realizar um pouso de emergência.
Na grande eclusa da Ironduke, o oficial que comandava os robôs de guerra enviou ao local duas dezenas de máquinas. Estes receberam ordem de cercar a nave fugitiva, que realizara o pouso de emergência e não permitirem que nenhum dos seus ocupantes saísse de bordo.
A Ironduke recebeu o chamado da última nave. Todas as formações pertencentes ao primeiro destacamento haviam pousado em Lepso, e os robôs já ocupavam os pontos mais importantes desse mundo.
Para Perry Rhodan, isso representava um sinal de que deveria entrar pessoalmente em contato com o governo de Lepso.
Sua mensagem de rádio não obteve resposta. Um novo chamado também não provocou a menor reação. Em compensação, todas as emissoras do planeta enviavam pedidos de socorro para o espaço. Designaram a Frota Solar como um grupo de naves piratas, e os terranos foram apontados como bandidos.
Além dos pedidos de socorro, a nave de Rhodan captava um volume cada vez maior de notícias, vindas de todos os pontos do grande império. Todos os superpesados anunciaram sua chegada. As gigantescas frotas dos saltadores estavam a caminho do sistema de Firing. Rebeldes ekhônidas prometeram auxílio. Houve ameaças indisfarçadas dirigidas a Árcon. O Imperador Gonozal VIII teve de conformar-se em ser chamado de lacaio de Rhodan.
O rosto marcante de Perry Rhodan não demonstrava a menor exaltação. Em seus olhos cinzentos não se via qualquer brilho estranho. Virou a cabeça e, dirigindo-se a Bell, disse em tom tranqüilo:
Acho que está na hora de darmos uma olhada por aqui. Quase chego a ter a impressão de que essa droga maldita é fabricada neste planeta. É a única explicação, que consigo encontrar, para os protestos provocados pela ocupação do mesmo.
Não aguardou a opinião de Bell. Fitou John Marshall, que se mantinha de pé, na parte dos fundos da sala de comando, e conversava em voz baixa com Fellmer Lloyd. Dirigiu-se a ele por via telepática:
John, mande entrar em ação o rastreador individual dos swoons. Leve os melhores telepatas. Aconteça o que acontecer nestas próximas horas, o senhor e seu grupo não deverão preocupar-se apenas com a busca...
OK, chefe — respondeu Marshall por via telepática. — Faço votos de que o encontremos.
Também faço votos — foi o desejo que Rhodan transmitiu ao chefe dos mutantes, mas este desejo não o deixou feliz.
Dirigiu-se a Claudrin, o epsalense.
Vamos decolar, major. Faça a Ironduke pousar na grande praça fronteira à sede do governo. Tenho que provar a essa gente de Lepso que desejo ser recebido.
Claudrin inclinou o corpo em direção ao microfone do sistema de intercomunicação e informou Brazo Alkher, oficial de direção de tiro.
4



O Dr. Edmond Hugher tomou conhecimento dos acontecimentos mais recentes, que provocavam medo e pânico em muitas cidades do planeta Lepso. Era pacato por natureza e não havia nada que o exasperasse. Por isso aguardou os acontecimentos, continuando a dedicar-se às pesquisas no laboratório da área do templo.
Dera apenas uma ordem. Esta tinha ligação com o aparecimento da Frota Solar nos céus de Lepso. Mandara transferir temporariamente os serviços de engarrafamento do liquitivo para o setor TT-1.
O setor TT-1 ficava na grande cadeia de montanhas nuas que dividia o deserto.
Uma galeria de mais de dez quilômetros de extensão levava a um conjunto de cavernas naturais, nas quais os antis haviam despendido uma soma considerável, a fim de transformá-las num dos mais modernos centros de fabricação de produtos medicinais da Galáxia.
Com exceção de uma pequena equipe de técnicos, que supervisionava os autômatos positrônicos e os robôs, não havia nessa unidade de fabricação nenhum ser humano, nem mesmo antis ou aras.
Há mais de um decênio o astromédico Dr. Nearman era um dos membros da equipe técnica, formada por oito pessoas.
Havia trinta e oito anos que os agentes do Serviço de Segurança Solar quiseram prender o Dr. Nearman e fazer com que este nunca mais recuperasse a liberdade. Mas o espertalhão desaparecera e jamais voltou a ser encontrado na área submetida à soberania do Império Solar.
A odisséia que enfrentara em vários pontos do grande império não fizera bem ao Dr. Nearman. Seu caráter sempre fora instável, acabou resvalando de vez para o ilícito, e teve muito trabalho para escapar aos tribunais arcônidas. Naquela época, isto é, há pouco mais de dez anos, alguns sacerdotes do culto de Baalol entraram em contato com ele. Os “feiticeiros” o surpreenderam por estarem muito bem informados sobre os atos reprováveis cometidos por ele, no curso dos últimos vinte e oito anos. Entretanto Nearman os surpreendeu por mostrar-se imediatamente disposto a aceitar a proposta de supervisionar, com mais algumas pessoas inescrupulosas, a fase final do processo de fabricação do entorpecente. Já cometera atos muito piores.
Seu engajamento caiu como uma luva nos planos dos cultores de Baalol. Ele possuía excelentes conhecimentos na área médica, era uma sumidade em matéria de Biologia e não tinha o menor problema em calcular as posições galácticas.
Fazia algumas horas que Hugher informara o Dr. Nearman, pelo telefone direto, que o último estágio da fabricação também seria transferido para TT-1. Ao mesmo tempo recebera ordens de transferir todo o estoque de liquitivo puro para o grande tanque de plástico.
Edmond Hugher desligara sem qualquer comentário. Nearman cumpriu as ordens, viu o conteúdo dos tanques pequenos passar para o recipiente grande e avisou o templo de que as instruções haviam sido cumpridas.
Depois iniciou sua ronda.
Era um viciado, mas este fato não o preocupava. O que realmente o preocupava era que Rhodan pousara em Lepso com toda sua frota, prendera os membros do governo, e pretendia iniciar uma ação policial que visava à prisão de criminosos fugidos do Império Solar. Ele, Nearman, corria perigo de ser uma das pessoas presas durante a operação.
Ao lembrar-se mais uma vez disso, um sorriso de deboche desenhou-se em sua face. Confiava nos antis. Tinha certeza de que estes saberiam enfrentar Rhodan, e isso significava que, dificilmente ele, Nearman, seria preso pelos agentes do Serviço de Segurança Solar. Se não fosse assim, Hugher o teria prevenido, pois afinal de contas ele também corria perigo. Há alguns anos ouvira boatos a este respeito, mas quando indagara Hugher sobre isso, só encontrou uma reação de espanto misturada com incompreensão.
Não, Nearman — dissera o cientista na oportunidade. — Posso garantir que não sou terrano. Nasci em outro planeta, mas ninguém sabe dizer que planeta é este. Bem, desde o dia em que saí de Zalit nunca mais me interessei por isso. Meus pais e irmãos transformaram-se em estranhos. Para que realizar investigações?
Este Hugher é mesmo um esquisitão cósmico”, pensou Nearman.
Pegou a garrafa de liquitivo, abriu o fecho lacrado e encostou aos lábios o recipiente de plástico. Sorveu gostosamente dois centímetros cúbicos de licor. Depois disso passou a mão pelos lábios e jogou fora a garrafa.
Houve uma modificação instantânea em sua pessoa. Seu andar, que até então fora arrastado, passou a ser vigoroso. Seu rosto entesou-se, e as preocupações que até então o martirizavam haviam desaparecido. Pôs-se a assobiar uma melodia e sentiu-se como se ainda estivesse nos tempos mais felizes da juventude.
Um drogado assumia o controle do setor TT-1!

* * *

A praça, que ficava defronte à sede do governo, transformara-se num local de devastação. Máquinas terranas de guerra, todas destruídas, estavam espalhadas pelo local, e a mesma coisa acontecia com robôs fabricados pelos mercadores e pelos superpesados.
Pouco depois do pouso da Ironduke, uma espaçonave de oitocentos metros de diâmetro, o governo, que se recolhera à zona diplomática, resolvera capitular. Gal-Tam, o primeiro-ministro, voltou a protestar contra a ocupação realizada pela Frota Solar, pois contrariava as normas vigentes.
O lepsonense encolheu-se sob os efeitos do olhar frio de Rhodan, que gritou para ele num arcônida impecável:
O senhor sabe perfeitamente por que viemos.
O minicomunicador de Rhodan emitiu o sinal de alarma. O administrador trazia o aparelho no braço esquerdo. Num movimento rápido ajustou-lhe o ângulo. A voz saída do pequeno, mas potente alto-falante, disse:
Sir, lutas pesadíssimas estão sendo travadas antes e depois do círculo de naves robotizadas. Mais de três mil superpesados e cerca de quatro mil naves cilíndricas procuram romper o bloqueio. A frota robotizada sofreu perdas assustadoras. Atlan prometeu reforços, mas estes só poderão chegar dentro de seis horas. Sir, o terceiro destacamento de nossa frota deve intervir no combate?
A mensagem estava sendo transmitida pelo General Conrad Deringhouse, que se encontrava a bordo da Ironduke. Contrariando o costume, ele não comandava sua nave, a Drusus.
A hesitação de Rhodan não teve sua origem em qualquer tipo de insegurança. Passou um olhar pelos representantes do governo de Lepso que, juntamente com seus antecessores, haviam transformado o planeta num covil de criminosos e piratas e, o que era mais assustador, dele fizeram o centro de uma organização de tráfico de entorpecentes de âmbito galáctico.
Passou a fitar o telepata Marshall. Irradiou seus pensamentos em direção ao mesmo.
Marshall, vou dirigir-lhe a palavra em inglês. Verifique se algum dos lepsonenses entende esta língua.
Falando para dentro do microfone do minicomunicador, disse:
Espere.
Depois disso dirigiu-se a Marshall em inglês, formulando a pergunta-teste:
O senhor não se esqueceu de ordenar o ataque ao objetivo quatro?
Marshall fingiu ficar confuso e espantado. Insinuou-se nos pensamentos dos membros do governo de Lepso. Não demorou em informar Rhodan:
Quatro deles entendem o inglês, sir.
Rhodan tomou conhecimento desse fato. Já preparara a solução desse tipo de problema. Tanto Deringhouse como ele eram norte-americanos. Ainda dominavam a gíria de seu país. Falando um “dialeto” terrível, Rhodan ordenou ao general que só se a situação assumisse proporções catastróficas, poderia intervir com as unidades da frota terrana, na luta entre as naves robotizadas de Árcon e os superpesados e saltadores.
Sir — transmitiu Marshall por via mental. — O senhor fala uma gíria horrível. Não entendi uma única palavra.
Depois disso, Rhodan pretendia ocupar-se novamente do primeiro-ministro, mas Marshall voltou a transmitir uma mensagem telepática:
Sir, tentam dopar-nos juntamente com esse grupo. Toda essa gente age exclusivamente segundo as ordens dos antis. A sede destes fica no escritório do clã dos Guvtgol, na esquina das ruas trinta e três e cento e sete.
Julian Tifflor, que iniciara sua carreira junto a Rhodan, servindo de chamariz cósmico, sentiu que o chefe o fitava intensamente. Aproximou-se.
Tiff — cochichou Rhodan ao ouvido do coronel. — Prenda esta gente e providencie para que os antis, que se encontram no escritório do clã saltador dos Guvtgol, não possam escapar.
Depois de informá-lo onde os feiticeiros poderiam ser encontrados, recomendou:
Não se esqueça das energias mentais desses tipos. Aja com uma tremenda cautela.
Fez sinal aos companheiros para que se retirassem.
O Primeiro-Ministro Gal-Tam imaginou o que esperava a ele e aos outros membros do governo.
Rhodan — gritou Gal-Tam, às costas do administrador. — Rhodan, este planeta será transformado num inferno para vocês, caso se atreverem a prender-nos.
Perry Rhodan nem sequer virou a cabeça. Acompanhado de trinta robôs de guerra superpesados, saiu do palácio ministerial e retornou sem qualquer incidente à Ironduke.
O oficial de plantão junto à eclusa fez continência.
Avise Deringhouse e Claudrin de que estou novamente a bordo. Poderei ser encontrado no camarote de Marshall. Só devem perturbar-me em caso de extrema necessidade.

* * *

O rastreador individual fabricado pelos swoons encontrava-se sobre a mesinha de centro do camarote de Marshall.
Sua pequenez provava que fora fabricado pelos homens-pepino. A aresta mais longa não ultrapassava a marca dos cinco centímetros. A uns vinte centímetros acima do aparelho, o bastão finíssimo da antena terminava numa bola límpida de cristal, que só revelava seu segredo sob a ação do microscópio, mostrando que a superfície era coberta por mais de trezentas mil linhas traçadas com uma precisão matemática.
Seis telepatas do Exército de Mutantes encontravam-se de pé em torno da mesinha. Todos eles fixavam-se na bolinha de cristal num estado de transe. Rhodan estava sentado num ponto mais afastado. Parecia descontraído. Estava com a perna direita confortavelmente cruzada sobre a esquerda e esforçava-se para não fazer o menor ruído ao respirar.
O rastreador individual estava funcionando.
Sem os telepatas não valia nada. Só as forças paranormais destes eram capazes de pô-lo a funcionar.
Os seis mutantes regularam o aparelho para a freqüência cerebral de Thomas Cardif. Não mexiam um dedo. O aparelho só mostraria uma reação positiva, quando, entre os bilhões de freqüências, tivesse descoberto o comprimento de onda para o qual fora regulado. Ao contrário de outros instrumentos de localização, esse rastreador funcionava exclusivamente em base paranormal. No fundo era um retificador e amplificador, reagindo às vibrações mentais e fazendo suas medições no oceano onde vibravam bilhões de freqüências.
Todas as freqüências medidas, que não correspondessem às procuradas, não eram detectadas pelo rastreador, mesmo que continuassem a existir no mundo exterior. Este fenômeno inexplicável em termos matemáticos, constituía a única garantia de que o rastreador individual não poderia deixar de encontrar a freqüência cerebral de Thomas Cardif. A cada movimento — ou seja, a cada vibração que o cristal completava por período — o mesmo media um número de freqüências equivalente ao das linhas matematicamente exatas que cobriam sua superfície.
Rhodan continuava a observar os telepatas. De repente notou que os seis estremeceram ligeiramente. Num movimento instintivo, o chefe levantou-se e inclinou o corpo para a frente. Seu rosto exprimia uma forte tensão.
Viu seus mutantes assumirem aquela expressão facial difícil de ser descrita. Costumavam mostrá-la, quando se agarravam com todas as energias a uma fonte de impulsos constatável por via telepática. O rato-castor não constituiu-se em exceção.
Rhodan sentiu instintivamente que acabara de haver uma pane.
De repente Gucky virou-se, sacudiu a cabeça num gesto de desespero e procurou esquivar-se ao olhar de Rhodan.
O próximo a desistir foi John Marshall. Aproximou-se de Rhodan em passos vagarosos e sentou-se, totalmente esgotado.
Não compreendo, sir — disse, olhando para o chão e apoiando os cotovelos sobre os joelhos. — Por alguns segundos mantivemos contato com Thomas Cardif. A ligação foi excelente. Até cheguei a ler seus pensamentos, mas como faltasse um encadeamento lógico com as idéias antecedentes, não os entendi. Quem será o tal do Lull ou Lill? Bem, chefe, de repente tudo terminou. Até parece que uma parede se interpôs entre nós e Thomas.
Rhodan fitou-o de lado. Aos poucos o cansaço foi cedendo. Marshall recuperava-se a olhos vistos. Gucky arrastou-se para perto dele, seguido de Fellmer Lloyd, o localizador.
O rato-castor parou à frente de Rhodan e disse em tom contrariado:
Se isso não foi uma peça que nos pregaram os antis, não sei mais o que vem a ser um anti!
Sir, Gucky tem razão — disse Fellmer Lloyd, em apoio da afirmativa do baixinho. — Também sou de opinião que os antis recorreram às suas faculdades paramentais para constatar nossas tentativas de localização e impedir o prosseguimento das mesmas. Captamos a freqüência de Cardif. Vi perfeitamente seu modelo de vibrações cerebrais, e também constatei a presença do bloqueio.
Não conseguiu prosseguir. Gucky virou-se abruptamente. Via-se diante de um mutante localizador, que, além de ser capaz de ver a grande distância os modelos de vibrações cerebrais, ainda estava em condições de verificar se o portador dessas vibrações representava um perigo e qual era a origem desse perigo.
Lloyd — perguntou Rhodan, com seus olhos cinzentos chamejando. — Tem certeza de que Thomas ainda se encontra sob influência hipnótica?
Gucky soltou um suspiro, como se aquilo representasse um alívio para ele. Notou que Rhodan aludira a seu filho Thomas; não o chamara de Cardif.
O localizador respondeu prontamente:
Quanto a isso tenho certeza absoluta, sir. Está sob influência hipnótica, mais precisamente, sob a influência da hipnose mecânica, inventada pelos arcônidas.
Obrigado — disse Rhodan, retornando ao seu lugar.
Passou por Gucky. Ao passar, passou a mão pela cabeça do rato-castor e disse:
Mais uma vez, você teve razão.
O sistema de intercomunicação de bordo transmitiu o sinal de alarma. Os contornos projetados na tela estabilizaram-se. Nela surgiu o rosto do Coronel Myler, comandante do terceiro grupo de naves da Frota Terrana. Tal grupo circulava ininterruptamente em torno de Lepso, a quinze mil metros de altura.
Sir — principiou o coronel, visivelmente nervoso. — Cinqüenta por cento da frota robotizada, que se encontra nos limites do sistema de Firing, já foi destruído. Três grupos de superpesados, formados por cerca de seiscentas espaçonaves, romperam o bloqueio e chegarão a Lepso dentro de trinta minutos.
Poderão chegar a Lepso dentro de trinta minutos, coronel — retificou Rhodan. — De qualquer maneira, o terceiro círculo, comandado pelo senhor, não intervirá nisso. Não se preocupe. Continue a manter o bloqueio. Fim.
Para o Coronel Myler, isso representava uma ordem de desligar. Mas a ligação de intercomunicação no interior da Ironduke foi mantida.
É Deringhouse? — perguntou Rhodan para dentro do microfone.
A cabeça marcante de Conrad Deringhouse apareceu na tela.
Não teve tempo nem de se apresentar.
Deringhouse, use todos os supercouraçados, com exceção da Drusus, para enfrentar os superpesados que romperam o bloqueio. Fim.
Desligou e, no mesmo instante, parecia esquecer-se de que, a cada minuto que passava, a situação da frota terrana em Lepso se tornava mais inquietante.
Voltou a dirigir-se a Fellmer Lloyd. Repetiu a mesma pergunta:
Tem certeza absoluta de que Thomas Cardif ainda se encontra submetido ao mesmo bloqueio hipnótico que lhe foi aplicado há cinqüenta e oito anos, em Árcon?
Mais uma vez, a resposta do localizador, proferida em voz firme, foi imediata:
Sir, não tenho a menor dúvida.
Perry Rhodan passou as mãos pelos olhos. Balançou a cabeça e falou:
Não consigo acreditar nisso, Lloyd, mas devo acreditar. Preciso...
Não disse o que mais precisava, e nenhum telepata, nem mesmo Gucky, atreveu-se a insinuar-se, nesse instante, nos pensamentos do chefe.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html