— Cardif,
você não está disposto a assumir qualquer compromisso?
— Não.
Não lhes garanto nada. Não farei nenhum acordo. Não formularei
nenhuma promessa. Afinal, o que é que vocês querem? Rhabol não
vive dizendo que não passo de uma marionete do culto de Baalol? Pois
bem. Se é assim, os antis terão tudo quando eu me tiver apoderado
do Império de Árcon.
— Isso
são sofismas, Cardif — falou o agente, em tom contrariado.
— Obrigado
— disse Cardif com um sorriso. Seus olhos chamejavam violentamente.
— O que você acaba de dizer constitui a melhor prova de que os
antis não têm tanta certeza de me terem nas mãos como pretendem
fazer crer.
— Peço-lhe
que não se esqueça de Stana Nolinow e Brazo Alkher, os dois
oficiais que, segundo você diz, nos informaram sobre seu vôo ao
planeta Peregrino — disse o anti numa tentativa de chantagem.
O agente
viu-se brindado com um olhar de compaixão.
— Ultimamente
vocês sempre querem jogar seus trunfos depois que estes perdem seu
valor. Ao que suponho, há uma hora foi expedida uma mensagem
circular pelo hiper-rádio, dirigida a todas as naves da Frota Solar,
segundo a qual os tenentes Alkher e Nolinow foram reabilitados e o
administrador se desculpará formalmente assim que regressarem.
Então, o que me diz, agente? Vamos entrar em negociações? Ou será
que não temos mais nada a dizer um ao outro?
O
plenipotenciário dos antis deu-se conta de que tinha à sua frente
um terrano frio como gelo, que sabia aproveitar qualquer chance sem
revelar os menores escrúpulos.
— Não
há nada a negociar, Cardif!
O agente
teve de fazer um tremendo esforço para proferir essas palavras num
tom de autoconfiança. Naquele instante convenceu-se de que os
antimutantes haviam cometido um erro enorme ao avaliarem a
personalidade de Thomas Cardif. Se o mesmo conseguisse apoderar-se do
Império de Árcon, não estaria longe o dia em que ficaria em
condições de subtrair-se totalmente à influência dos servos de
Baalol.
Cardif
levantou-se com um ligeiro sorriso nos lábios.
— Se não
há nada a negociar, poderemos dar por encerrada nossa palestra,
agente.
O anti foi
de opinião que deveria formular mais uma advertência.
— Cardif,
não subestime o poder de Baalol!
O filho de
Rhodan respondeu em tom áspero:
— Uma
alusão dessas não me amedronta. Vá embora, agente!
Subitamente
o anti mudou de idéia. Lembrou-se de que Cardif aludira ao planeta
Trakarat. Ao que tudo indicava, o filho de Rhodan nem desconfiava do
que havia atrás desse nome, mas o agente soube avaliar corretamente
o desempenho da Segurança Solar. Tinha certeza de que os homens
comandados pelo Marechal Solar Mercant não suspenderiam suas
investigações, enquanto não tivessem descoberto o ponto da Galáxia
em que o mundo Trakarat girava em torno de seu sol. Foi só essa
circunstância que o fez proferir estas palavras surpreendentes:
— Terrano,
os antis não oporão nenhum obstáculo à sua tentativa de
apoderar-se do Império de Árcon.
Depois
disso o agente retirou-se, deixando para trás um Thomas Cardif
bastante pensativo.
Fazia
cinqüenta dias que Thomas Cardif, que se passava por Perry Rhodan,
recebera do Ser fictício de Peregrino vinte e um ativadores
celulares. Vinte desses aparelhos, dotados de dispositivo de
regulagem individual, haviam caído nas mãos dos antis, quando o
jato espacial de Cardif, pilotado pelos oficiais Nolinow e Alkher,
foi apresado pela nave cilíndrica Baa-Lo.
Durante
cinqüenta dias Ele ou Aquilo, o Ser de Peregrino, formulara junto a
Cardif a advertência estereotipada:
— Desfaça-se
do ativador celular, Perry Rhodan, senão você ficará grande e
forte demais.
Por
cinqüenta vezes Thomas Cardif talvez não quisera compreender a
mensagem do Ser coletivo. Agora, mais uma vez Ele fazia-se ouvir:
— Perry
Rhodan, você ainda dispõe de cinco minutos para desfazer-se do
ativador celular. Recomendo-lhe que o faça. Não se esqueça de que
um excesso de força e grandeza pode representar um mal.
Desta vez
a mensagem não foi seguida da risadinha. Chegou ao fim abruptamente,
e Cardif viu-se a sós com seu ativador celular, pendurado ao peito,
sob a roupa.
Examinou
algumas informações importantes vindas da área estelar M-13. Os
membros da Segurança Solar que atuavam por lá diziam haver,
invariavelmente, tumultos cada vez mais graves no Império de Árcon.
Ainda aludiam a uma série de dificuldades econômicas e a um súbito
recrudescimento das atividades dos mercadores galácticos.
Reduzidas
ao denominador comum, essas informações significavam que o império
de Atlan se aproximava inexoravelmente do desmoronamento.
Cardif,
que naquele tempo só costumava ser visto no uniforme simples do
administrador, estava manipulando uma pilha de informações quando
subitamente uma dor insuportável fustigou seu corpo.
Cardif,
que em Aralon se tornara um médico famoso sob o nome de Edmond
Hugher, não teve forças para diagnosticar seu estado. Caiu da
poltrona, contorceu-se no chão e soltou um grito lancinante.
A dor
enlouquecedora estava em toda parte: no crânio, no tórax, nos
dedos, nos braços, nas pernas.
Um suor
frio cobriu seu corpo. Teve a impressão de que iria enlouquecer de
dor. Seu grito não tinha nada de humano: era apenas o pedido de
socorro de uma criatura martirizada.
Cardif-Rhodan
não chegou a ver quem entrou precipitadamente. E não soube quem o
levantou e o colocou sobre o sofá. Não ouviu quando os médicos
mais importantes de Terrânia foram convocados às pressas.
O médico
de plantão entrou correndo.
— Uma
injeção! — berrou Reginald Bell, muito exaltado.
O médico
recusou-se a aplicar uma injeção no chefe, antes que este tivesse
sido examinado.
Acontece
que Cardif-Rhodan não permitiu que o examinassem.
Revirou os
olhos. O suor lhe corria pelo corpo.
Quatro
mãos robustas seguraram o braço esquerdo de Cardif-Rhodan. A manga
da camisa foi arregaçada. O médico fez pontaria com a seringa de
pressão e aplicou-a sobre a musculatura do braço. No momento em que
o fio finíssimo de líquido saía num chiado, o administrador voltou
a contorcer-se num acesso de dor. E o líquido esguichou para o ar!
— Não
agüento mais! Não agüento mais... — foram estas as primeiras
palavras que o chefe pronunciou. Ficou quieto por cinco segundos.
Depois
disso, o corpo do homem com o uniforme do administrador voltou a
empertigar-se. Cardif soltou outro berro. Parecia que ia cair do
sofá. O médico de plantão fez outra tentativa.
Três
quartas partes do conteúdo da ampola penetraram na musculatura do
braço. O corpo do chefe amoleceu em meio a um grito. Esticou-se,
virou-se de lado e de repente pareceu adormecer tranqüilamente.
Reginald
Bell soltou um gemido. Só agora se deu conta de que também estava
banhado de suor.
— O que
houve com Perry? Que diabo, doutor! Examine-o logo.
O médico
plantonista fechou seu estojo de instrumentos. Balançou a cabeça.
— Sir —
principiou em tom hesitante. — Este caso não é para mim. Olhe o
braço esquerdo do chefe. Aqui... e aqui! Mesmo nos lugares onde não
há nenhum músculo, parece atacado por uma cãibra. Está duro como
pedra. Nunca vi coisa igual na medicina. Peço-lhes que não insistam
em que eu o examine. De qualquer maneira meu diagnóstico não seria
correto.
Bell
certificou-se pessoalmente sobre os pontos a respeito dos quais o
médico plantonista chamara a atenção.
O braço
esquerdo de Perry Rhodan parecia duro que nem pedra. Mas Bell
constatou outra coisa.
— Será
que o chefe está com febre? Ou será que o calor que seu corpo
irradia foi causado pela injeção?
O médico
colocou-se apressadamente a seu lado. Segurou o braço de Rhodan,
procurou o pulso e começou a contar sem dizer uma palavra. À medida
que prosseguia na contagem, maior se tornava seu espanto.
— O
pulso está completamente normal. Isso não corresponde ao efeito
normal do analgésico que acabamos de aplicar. A pulsação deveria
ficar ao menos vinte e cinco por cento abaixo do normal. E ainda há
essa febre...
Soltou o
braço do chefe e colocou-lhe a mão na testa.
A mesma
parecia estar em fogo vivo.
O médico
voltou a abrir o estojo de instrumentos. Colocou o termômetro sobre
a testa de Rhodan. O aparelho apurava a temperatura do corpo dentro
de três segundos.
— Trinta
e seis vírgula cinco — balbuciou o médico ao ler a temperatura. —
Não é possível! O administrador está pelo menos com quarenta
graus de febre.
O médico
pegou o termômetro sobressalente. Enquanto fazia a leitura, mostrava
a escala a Bell. Também indicava 36°5’.
— Vamos
deixar livre o peito — disse o médico, que já não sabia o que
fazer.
— O que
é isso? — perguntou Bell quando Rhodan estava apenas de camiseta.
Um objeto
em forma de ovo, ligeiramente saliente, desenhava-se sob essa peça
de roupa!
Naquele
instante Bell lembrou-se de uma porção de possibilidades, menos de
um ativador celular.
Por que
iria pensar nisso? Perry, ele mesmo, Bell, e outros amigos iam a
Peregrino a cada sessenta e dois anos para que lhes fosse aplicada a
ducha celular. E a tal ducha bastava para evitar que dentro desse
prazo houvesse qualquer tipo de envelhecimento.
O médico
tirou a camiseta do falso Rhodan. O tórax foi posto à mostra.
— O
que... o que... é i-isso? — gaguejou o médico, apontando para um
objeto metálico em forma de ovo que penetrara pela metade no tórax
do chefe.
— Isso...
isso... mas isso é...
Bell não
disse o que era. Já não compreendia mais nada. Perry Rhodan estava
usando um ativador celular.
*
* *
O chefe
estava inconsciente quando foi levado à clínica. Os médicos
insistiram em que isso fosse feito.
Três
cirurgiões acabavam de concluir seus exames, mas nem pensaram em
revelar os resultados.
A equipe
de seis neurologistas aplicou os contatos no corpo de Rhodan.
Meissner, o chefe da equipe, constatara durante o teste um reflexo
que em sua opinião não era natural. A parte do corpo em que pusera
a mão era extremamente pobre em reflexos.
O neuroton
começou a funcionar. Era um aparelho produzido pela medicina dos
aras. Registrava num espaço de tempo extremamente curto todos os
fluxos nervosos do corpo.
Ginseng,
um neurólogo, não tirava os olhos do chefe, que continuava
inconsciente e demonstrava uma tolerância extraordinária para o
excesso de impulsos de radiações.
Esse fato
também constituía novidade numa pessoa inconsciente.
Mais de
vinte médicos sacudiam a cabeça. Rhodan, que por ocasião dos
outros exames de rotina revelara ser um modelo de sanidade e se
mostrava normal sob todos os pontos de vista, acabara de
transformar-se num fenômeno da medicina.
Meissner,
o chefe da equipe de neurologia, soltou um gemido.
— O que
houve com o administrador?
Estudou
com uma ânsia nervosa os registros dos inúmeros fluxos nervosos.
Bell
explodiu. O medo pela sorte do amigo quase chegou a matá-lo. Os
rostos perplexos dos médicos e cientistas multiplicavam seu medo ao
infinito. Não compreendia o que diziam em sua linguagem
especializada. Queria saber o que estava acontecendo.
A reação
dos médicos foi totalmente errada.
Se o caso
fosse outro, teriam toda razão em procurar livrar-se de um leigo que
os perturbasse. Mas acontecia que este caso era bem diferente.
Tratava-se do administrador, e Bell era representante do mesmo.
Em atitude
ameaçadora, colocou-se à frente do professor Legrand.
— Ficarei
aqui mesmo. Quero deixar isso bem claro. Saia da minha frente, senão
me verei obrigado a tomar uma atitude violenta.
O
professor Manoli consertou a situação. Pediu desculpas a Bell. Mas
este não estava interessado em ouvir pedidos de desculpas. Queria
saber por que Meissner, o chefe da equipe de neurologia, parecia
desesperado junto ao neuroton.
— É bom
que saiba de uma coisa — disse, dirigindo-se ao especialista em
doenças dos nervos. — Não quero que me forneça explicações em
sua linguagem secreta. Exprima-se de tal forma que todos possam
entendê-lo.
O chefe da
equipe de neurologia deu início às explicações:
— Está
vendo estes traços, mister Bell? — estavam parados à frente da
tela do neuroton. — São os fluxos nervosos. Esta área vazia, de
formato oval, representa o ativador celular. Acontece que nem mesmo
eu compreendo o que estou vendo neste momento. Um instante... Aquilo
que não compreendo diz respeito aos meus conhecimentos médicos, não
àquilo que aparece aqui.
— Diga
logo, doutor. O que está havendo com o ativador?
— Prepare-se
para o que está por vir, mister Bell. Esteja preparado para o pior.
O chefe sofreu uma série de alterações inconcebíveis. De repente
passou a possuir fluxos nervosos que não são encontrados num homem
normal. Surgiu um contato orgânico entre todos esses fluxos nervosos
e o ativador celular. Em virtude disso, o ativador não poderá ser
removido por meios cirúrgicos. Se arriscássemos uma intervenção,
o chefe não sobreviveria à mesma.
— Mas o
ativador não passa de uma peça de metal, doutor! Como é que os
nervos de alguém podem entrar em contato com um pedaço de metal?
Não venha me dizer que o senhor acredita numa tolice dessas! —
esbravejou Bell, ainda mais nervoso que antes.
— Quer
queira, quer não queira — admitiu o médico, em tom simplório —
não posso deixar de acreditar naquilo que o neuroton nos mostra.
Quero pedir-lhe que se afaste, a fim de ceder lugar aos meus colegas
para que estes possam convencer-se de que não cometi nenhum erro de
diagnóstico.
Os outros
médicos confirmaram as conclusões a que chegara o chefe da equipe
neurológica.
Também
não encontraram explicação para o fenômeno. O fato de fluxos
nervosos, estranhos ao organismo, surgirem no corpo de Rhodan, e
ocorrer a ligação entre uma substância orgânica e um objeto
metálico, tudo isso representava um mistério para eles. Não sabiam
dizer por que metade do ativador penetrara no tórax de Rhodan; não
sabiam apontar a causa do súbito acesso de dor que acometera o
chefe.
Havia uma
única pessoa que tinha uma explicação para tudo isso. E tratava-se
justamente de alguém que não era médico: Reginald Bell.
Este só
pensava no Ser fictício de Peregrino: Ele ou Aquilo devia ter
tramado uma coisa dessas. Só Ele seria capaz disso.
Bell foi
dominado por sentimentos conflitantes.
Será que
Ele, um Ser que, apesar do seu estranho senso de humor, até então
nunca fizera mal aos homens, de repente se revelara como inimigo
mortal de Perry Rhodan?
Bell
sentiu que havia algo de errado. E teve a impressão de que seu
raciocínio sempre partira de um falso pressuposto, mas não
conseguiu atinar com o erro.
— O
chefe está recuperando os sentidos!
Foi o
professor Manoli quem fez essa observação. Os neurologistas
apressaram-se em remover os contatos. Quando Cardif-Rhodan abriu os
olhos, procurou erguer o corpo e, perplexo olhou em torno, ainda
havia três deles na altura do coração.
Fitou os
médicos como quem não compreende nada. Bell, que se mantinha num
lugar mais afastado, não disse nada.
— O que
houve...? — indagou Cardif-Rhodan assustado, mas depois se calou.
Num
movimento instintivo pusera a mão sobre o ativador celular. E
constatou que o aparelho penetrara pela metade no seu tórax e não
havia como movê-lo.
O pavor
estava prestes a desenhar-se em seu rosto quando sentiu que o
ativador entrava em funcionamento. E, mais uma vez, o fluxo que
percorreu seu corpo era um pedaço da vida eterna.
De um
momento para outro a tensão cessou. Mas, no mesmo instante, as
recordações voltaram.
De um
momento para outro sentira-se fustigado por dores de uma intensidade
inconcebível, que quase o levaram à loucura, até que recebesse uma
injeção de narcótico. E agora via-se no interior da clínica.
— Acho
que já estou em condições de levantar sem auxílio!
Sua voz
parecia completamente normal, e seu aspecto melhorava a olhos vistos.
Levantou-se, sem dar ouvido aos protestos formulados por vários
médicos. Passou os olhos pelo corpo e fitou o ativador. Voltou a
olhar para os médicos. Conseguiu fitá-los com uma expressão um
tanto divertida.
— Isto
deve ter provocado uma série de indagações nos senhores. Mas é
bom que meu exemplo lhes sirva de consolo, pois também não consigo
resposta a todas as perguntas que formulo.
Nem
desconfiou dos sentimentos que estas palavras provocaram em Reginald
Bell.
O mesmo
rejubilou-se por dentro. Tinha certeza absoluta de que, para Perry, o
pior já passara, e de que, dentro em breve, Rhodan voltaria a ser o
velho amigo.
Adiantou-se,
pegou as roupas do chefe, estendeu-as em direção ao amigo, sem
dizer uma palavra, e soltou uma risada de alívio.
— Obrigado,
gordo! — disse Rhodan, pegando suas roupas e exibindo o genuíno
sorriso rhodaniano.
Para Bell,
isso representava mais uma confirmação de que o pior já havia
passado para o amigo.
Apesar
disso três médicos fizeram questão de acompanhar o chefe e
insistiram para que ficasse de cama até o dia seguinte.
Cardif-Rhodan
cedeu, aparentemente a contragosto. No seu íntimo sentiu-se
satisfeito, pois a dor inesperada consumira muitas forças.
Estava
acostumado a ficar só. Mandou que Reginald Bell se retirasse
juntamente com os médicos. A preocupação do gorducho deixava-o
nervoso, e, além disso, preferia ficar só.
Mal se viu
só, deu vazão à sua curiosidade. Pegou o espelho e observou o
ativador celular profundamente incrustado em seu peito. Não soube
explicar como esse objeto em forma de ovo pôde enterrar-se tão
profundamente, mas o fato não lhe causou maiores preocupações.
Acreditava ter vencido a prova que lhe fora imposta pelo Ser
fictício. A título de agradecimento, embora isso lhe custasse dores
inacreditáveis, Aquilo colocara o ativador celular no lugar
adequado, para que Cardif nunca o perdesse.
Inebriado
pela idéia de ter pela frente a vida eterna, Cardif-Rhodan acabou
adormecendo.
*
* *
Uma das
espaçonaves mais velozes do Império de Árcon corria em direção
ao sol que no catálogo estelar arcônida era designado como
41-B-1847-ArqH. Esse sol distava 33.218 anos-luz da Terra, de onde
vinha a rápida nave. Tal sol era uma pequena estrela amarela com
dois planetas. O planeta exterior era habitado embora não fosse
nenhum prazer viver em Saós. Sua gravitação era de 1,3 G, e levava
214 horas para girar uma vez em torno de seu eixo. O movimento de
rotação extremamente lento provocava constantes tormentas,
especialmente na zona de compensação, e as mesmas dificultavam
bastante a vida nesse mundo.
O conteúdo
de oxigênio da atmosfera era muito reduzido. Em compensação a
percentagem de nitrogênio e monóxido de carbono era elevada.
O agente
que se encontrara com Cardif-Rhodan ao amanhecer, no bangalô, estava
a caminho de Saós.
Sentia-se
angustiado, pois desejava chegar o quanto antes às instalações
industriais secretas, localizadas naquele planeta inóspito, bastante
fustigado pelas tormentas, conhecido como Saós.
O agente
anunciara sua chegada por meio de um impulso concentrado. Sabia que
os antis, que produziam em Saós seus inigualáveis projetores de
campo defensivo, também ansiavam por falar com ele.
Quando
estava a caminho da Terra não seria capaz de imaginar que no vôo de
regresso seria portador de mensagem tão importante.
O Serviço
Secreto Solar conhecia o nome Trakarat!
O agente
teve a impressão de que sabia de onde os terranos obtiveram o
conhecimento do nome desse planeta. Só mesmo Kalal, o sumo sacerdote
que morrera em Utik, da misteriosa doença do “farejamento”,
poderia ter traído sua raça na agonia da morte.
Há horas
o agente via-se perseguido por este nome: Trakarat. Grudara-se nele
que nem um fantasma.
Trakarat!
— Quando
pousaremos? — perguntou em tom impaciente, dirigindo-se ao
comandante da nave.
— Aproximadamente
dentro de três horas, senhor! — respondeu o comandante, em tom
submisso.
— Não
posso esperar tanto, Mingo! — disse o homem que se apresentara a
Cardif como plenipotenciário. — Por que fez um hipersalto tão
curto? Por que não saímos do semi-espaço num ponto mais próximo
de Saós?
Mingo
apressou-se em responder em tom submisso.
— Senhor,
peço-lhe que não se esqueça de que Saós está cercado por um anel
de meteoritos. Sou responsável pelo bem-estar de Vossa Excelência,
e eu mesmo tenho vontade de servir ainda por muitos anos com todas as
minhas forças ao Baalol.
Seu
interlocutor fitou-o com os olhos semicerrados. Realmente se
esquecera do anel de meteoritos que cercava Saós, mas nem pensava em
confessá-lo. Voltou a fitar a tela. O lado esquerdo da mesma estava
tomado por uma enorme concentração de sóis que se apresentavam
como pequenos pontos luminosos. O coração do Império de Árcon, o
sistema estelar M-13, situado na constelação de Hércules,
apresentava-se com todo o esplendor em meio ao negrume do cosmos,
cercado por uma luminosidade de cor madrepérola que fazia com que
aquela concentração de sóis parecesse maior do que realmente era.
O agente
surpreendeu-se em meio a estas reflexões e espantou-se consigo
mesmo. Até então o destino do grande império lhe fora indiferente.
Pertencia ao povo dos antimutantes, e este só conhecia um objetivo:
transformar o culto de Baalol no poder dominante. A intenção era
subjugar todas as estrelas habitadas por seres inteligentes.
Naquele
instante sentiu uma ligeira tristeza ao contemplar o grupo estelar
esférico M-13. No seu subconsciente comparara a personalidade de
Gonozal VIII com a do homem que usava o nome de Perry Rhodan. Embora
o imperador não ocultasse sua posição hostil face aos
antimutantes, o agente o considerava infinitamente superior a Thomas
Cardif. Este era o maior dos canalhas: um homem que não recuava
diante de qualquer meio que pudesse servir para destruir o pai e
fortalecer sua própria posição.
Sob os
efeitos destas reflexões e com a concentração estelar M-13 diante
dos olhos, o agente desceu da nave assim que esta pousou em Saós.
Pouco depois viu-se diante dos servos de Baalol, que já o esperavam
ansiosamente.
Notou
imediatamente a estranha inquietação dos antimutantes.
— Falei
com Cardif — principiou, para calar-se logo em seguida.
Olhou em
torno. Estava cercado por cinco antis, e só três deles viviam
permanentemente em Saós. Cuidavam da fabricação dos projetores de
campos defensivos. O agente não conhecia os outros dois, mas
concluiu pelas suas vestes que se tratava de pessoas importantes.
— Aconteceu
alguma coisa em Saós? — perguntou cheio de pressentimentos.
O chefe de
produção, um homem de pequena estatura, sacudiu a cabeça.
— Em
Saós, não. Mas na Terra.
Por pouco
o agente não perde o autocontrole. t
“Thomas
Cardif morreu!”,
foi o primeiro pensamento descontrolado que veio à sua mente.
— Thomas
Cardif de repente adoeceu gravemente. Foi levado à clínica de
Terrânia. Não sabemos qual é seu estado. A Segurança Solar deve
ter prendido nosso elemento de ligação, que nos transmitiu a
informação pelo hiper-rádio. Há algumas horas não conseguimos
entrar em contato com nossa estação secreta de Terrânia.
O agente
levou algum tempo para digerir a notícia. Viu diante dos olhos de
sua mente o homem que até então desempenhara o papel do
administrador Perry Rhodan, sem ser descoberto. Seu rosto não
revelara o menor sinal de doença. Pelo contrário, Thomas Cardif
parecia vigoroso e juvenil.
— Segundo
as últimas notícias que recebemos de Terrânia, a súbita doença
de Cardif está ligada ao ativador celular que traz consigo.
O agente
levantou-se de um salto. Essa reação constituía uma violação das
normas de etiqueta dos antimutantes. Desculparam-no imediatamente. Os
outros cinco lembraram-se de que sua reação à alarmante notícia
fora idêntica.
Não se
preocupava com a saúde de Cardif porque tivessem uma simpatia toda
especial por ele, mas apenas porque o mesmo, disfarçado em Perry
Rhodan, era a figura mais importante em seu jogo pelo poder. Se não
pudessem contar com Thomas Cardif, que era obrigado a fazer o que
eles exigissem, poderiam sepultar seus planos.
— Nosso
irmão, o sumo sacerdote Rhabol, cometeu um erro grave ao não
revistar cuidadosamente Cardif, quando ele estava preso a bordo da
Baa-Lo. Se tivesse agido com a necessária cautela, não poderia ter
deixado de encontrar mais um ativador em poder de Cardif, além dos
vinte de que se apoderara. Se o filho de Rhodan morrer, como
aconteceu com nosso irmão Kalal no planeta Utik, que foi vitimado, a
bem dizer, pela histeria das multidões, tudo que já fizemos terá
sido em vão.
O agente
confirmou com um aceno de cabeça. Naquele momento teve medo de
transmitir a informação que trazia. Voltou a sentar e disse de
supetão:
— Thomas
Cardif aludiu ao planeta Trakarat!
Cinco
mutantes levantaram-se de um salto; estavam apavorados. E os cinco
exclamaram:
— Trakarat?
— Isso
mesmo — disse o agente. — Thomas Cardif manifestou a suspeita de
que os vinte ativadores celulares não produzam o resultado que se
espera. E disse: “Será
que em Trakarat ainda não sabem disso?”
E disse estas palavras como quem sabe muito bem o que existe nesse
planeta.
— Será
que foi Kalal? — gritou um dos antis em tom exaltado.
— Kalal
deve ter cometido uma traição. Nenhuma outra pessoa poderia ter
mencionado o nome Trakarat; seria impossível.
Os servos
de Baalol levaram algum tempo para tranqüilizar-se. A notícia
deixara-os profundamente abalados.
— Voltei
tão depressa, não apenas para trazer-lhes esta notícia, mas ainda
por outro motivo — disse o agente, e ficou satisfeito ao constatar
que lhe prestavam muita atenção. — Devemos colocar a Segurança
Solar numa pista falsa. Se eles nos derem tempo e se não agirmos
precipitadamente, poderemos usar os dois oficiais para levá-los a
acreditarem que Saós é o planeta Trakarat.
— Você
se refere aos terranos Alkher e Nolinow, que Rhabol deixou aqui? —
perguntou o anti cujo nome o agente não conhecia.
— Naturalmente.
Afinal, são terranos, e a Segurança Solar estará mais disposta a
acreditar neles que nos arcônidas, nos saltadores ou nos aras. Se
agirmos com bastante habilidade e deixarmos entrever numa palestra
que, para nós, o planeta Saós também é conhecido como Trakarat,
conseguiremos que por enquanto a Segurança Solar siga uma pista
falsa. Se, além disso, insinuarmos que aqui existe um gigantesco
estabelecimento, sem darmos a menor indicação da finalidade do
mesmo, poderemos atrair uma frota de Rhodan para cá. Se concluirmos
nossos preparativos em tempo, não teremos a menor dificuldade em
colocar uma carga explosiva subterrânea que detonará no momento em
que as naves de Cardif pousarem no planeta.
O agente
entusiasmou-se com suas próprias palavras.
— Que
plano idiota é esse? O que é que os dois oficiais da Frota Solar
têm que ver com isso? — gritou um anti em tom contrariado.
O agente
reconheceu seu erro, aceitou a repreensão e acrescentou:
— Devemos
criar uma possibilidade de fuga para os dois terranos. E, ao fugirem,
estes devem saber que Saós também costuma ser chamado de Trakarat,
e que no hemisfério norte do planeta, no centro da área montanhosa,
existe um gigantesco estabelecimento subterrâneo. No momento os dois
terranos não valem nada para nós, mas se fugissem... poderiam
prestar serviços inestimáveis a Baalol, desde que façam com que a
Segurança Solar suspenda as operações destinadas a localizar o
planeta Trakarat.
O chefe de
produção compreendeu o plano e manifestou sua opinião:
— Não
posso concordar! O perigo de que nossos projetores caiam nas mãos
dos terranos é muito grande...
Viu-se
interrompido por um gesto autoritário.
Alguém
dirigiu-se ao agente.
— Devemos
examinar cuidadosamente todos os detalhes de seu plano. Na minha
opinião deve ser executado o quanto antes. Será facílimo levar o
equipamento destinado à produção de geradores de campos defensivos
a outro planeta. O mais difícil será criar no hemisfério norte
indícios que levem à conclusão de que por lá existam instalações
subterrâneas.
O agente,
que se sentiu mais que feliz por ver seu plano aceito tão depressa,
estava em condições de fornecer uma dica.
— Um
porto espacial em meio às montanhas, uma única construção junto à
pista e uma estrada, que termina junto a uma encosta rochosa, devem
ser suficientes para ludibriar os terranos. Além da carga explosiva
atômica na encosta rochosa deverá ser instalada uma série de
aparelhos que irradiem fortes impulsos energéticos. Não devemos
esquecer que as naves solares estão equipadas com eficientíssimos
instrumentos de localização energética, e certamente haveria
desconfianças se tais aparelhos não reagissem por ocasião do
controle das elevações que cercam o porto espacial.
Os dois
antis que, segundo supunha o agente, haviam vindo diretamente de
Trakarat, fitaram-se com uma expressão indagadora. Depois de algum
tempo acenaram com a cabeça. Um deles tomou a palavra.
— Elabore
todos os detalhes de seu plano. Não se esqueça de encontrar um meio
de fazer com que os oficiais terranos saibam que se encontram em
Trakarat. Apareça daqui a duas horas e apresente seu plano.
Acreditamos que Baalol lhe deverá uma infinita gratidão.
*
* *
Mil
espaçonaves arcônidas que mal haviam saído das linhas de montagem
realizaram, depois de um único vôo experimental, o salto pelo
hiperespaço que os levou ao Sistema Azul.
Atlan
concordava com as condições dos ancestrais dos arcônidas e fez com
que seus robôs levassem as naves para Drorah, o mundo central dos
acônidas.
Três
dessas naves estavam abarrotadas de aparelhos de ensinamento
hipnótico.
*
* *
Às onze
horas, tempo de Terrânia, o despertador tocou no quarto de Thomas
Cardif. Despertou de um sono profundo e repousante, e piscou os olhos
para o grande mostrador do relógio.
“Por
que liguei o despertador?”,
refletiu, ainda sonolento.
No mesmo
instante lembrou-se. Ao meio-dia deveria chegar o relato diário de
todos os grupos da Frota Solar que se encontravam no sistema de
Árcon. Além disso, o Marechal Solar Mercant fora convocado para
apresentar seu relatório à mesma hora.
Cardif
levantou-se, foi ao banheiro e começou a vestir-se.
O uniforme
limpo, cuidadosamente dobrado em cima do cabide, fora feito sob
medida por alfaiates positrônicos.
Enfiou as
calças e fez menção de fechá-las. Estacou.
“Desde
quando tenho barriga?”,
pensou, e examinou cuidadosamente a peça de vestuário.
Sua
personalidade médica despertou.
Segurando
a calça com uma das mãos, foi até o sofá e deitou-se. Suas mãos
treinadas apalparam o abdômen.
Repetiu a
operação, mas ainda desta vez não constatou nada.
Praguejou.
— Não é
possível! Será que...? — interrompeu-se. — Deve ser meteorismo.
Mas o
diagnóstico não o deixou satisfeito. Se fosse correto, deveria ter
constatado um crescimento do abdômen.
— Hum...!
Cardif
voltou a levantar-se. Fez força e fechou a calça.
— Tem
três centímetros a menos. E sinto-me muito bem...
Um tanto
contrariado, foi até o videofone. Pediu uma ligação com o médico
de plantão. Este fitou-o; parecia muito preocupado.
— Não é
nada — disse Cardif-Rhodan em tom tranqüilizador. — Mande um
purgante de ação rápida, doutor. É só. O melhor talvez seja o
gelontifad.
No mesmo
instante arrependeu-se de ter pronunciado este nome. O gelontifad era
um remédio ara que mal acabara de passar pelos testes clínicos nos
mundos dos médicos galácticos. No Império Solar só uns poucos
especialistas deviam conhecer o preparado, que dificilmente era
encontrado. A resposta veio como um eco.
— Gelontifad?
— repetiu o médico, em tom de surpresa. — Sir, não conheço
este preparado. Entrarei imediatamente em contato com a clínica e
farei o pedido.
Cardif só
pôde confirmar com um aceno de cabeça.
Acabara de
cometer um erro imperdoável.
A ligação
não foi interrompida. Cardif afastou-se do ângulo de visão da
câmara, passou a camisa por cima da cabeça, puxou-a para baixo e
sentiu-se rijo de perplexidade.
A peça
estava apertada sob as axilas.
Cardif
sentiu-se dominado pelo medo.
O cós da
calça estava apertado, e a camisa muito justa sob as axilas. Ontem
tudo assentara muito bem.
O filho de
Rhodan virou-se para o robô, que se mantinha imóvel num canto,
aguardando suas ordens.
— Dê-me
outra calça e camisa! — ordenou.
Viu o robô
mexer no armário embutido e voltou ao banheiro.
O
homem-máquina seguiu-o prontamente. Cardif arrancou as peças de
roupa de suas mãos. Vestiu outra calça.
O
resultado foi o mesmo.
— Caramba!
Devo ter engordado ultimamente, e só hoje noto. É o que acontece
quando a gente não tem tempo de cuidar de si mesmo.
Cardif
ouviu sua própria risada. Era esta a solução do enigma. Poderia
dispensar o purgante. Devia fazer bastante exercício para emagrecer.
O robô
continuava parado na porta que dava para o quarto.
— Temos
uma fita métrica por aqui? — perguntou Cardif.
— Sim
senhor — respondeu o robô. Depois virou-se e voltou a dirigir-se a
Cardif no momento em que este se contemplava no espelho do quarto.
— Aqui,
sir! — disse entregando-lhe a fita métrica.
Cardif
passou a fita pela cintura.
— Noventa
e oito centímetros. Lembre-se disso!
A última
frase fora dirigida ao seu criado positrônico.
O
homem-máquina acenou com a cabeça. Cardif voltou a dirigir-se ao
videofone.
— Alô,
médico de plantão — disse para dentro do microfone. — Daqui a
cinco minutos poderei ser encontrado no meu escritório.
Neste meio
tempo, o pedido de fornecimento de gelontifad, transmitido pelo
médico de plantão, provocara certo alvoroço na clínica central de
Terrânia.
— Perry
Rhodan fez um pedido urgente de gelontifad.
Acontece
que o preparado não existia. O médico de plantão insistiu:
— O
chefe fez um pedido de gelontifad. Trata-se de um purgante.
Fez-se uma
consulta ao computador positrônico. A resposta foi negativa. O
médico de plantão, que há alguns minutos aguardava uma
interpelação áspera de Rhodan, gritou em tom exasperado:
— Este
remédio deve existir! Pois o chefe conhece. Arranjem-no!
Isso
bastou para provocar um nervosismo extremo em todos os recintos da
clínica, geralmente tão tranqüila.
Até mesmo
a Segurança Solar teve conhecimento do fato, mas o major que recebeu
a notícia e deveria tê-la transmitido a Allan D. Mercant estava de
ressaca provocada por uma bebedeira da noite anterior. Leu a notícia,
afastou-a de cima da escrivaninha e voltou a jurar que nunca mais
beberia tanto, por mais gostosa que fosse a bebida.
Os médicos
da clínica central encontraram-se espantados com um colega que não
sabia do que se tratava. Este fitava os homens confusos com uma
expressão de perplexidade.
— Gelontifad?
— perguntou em tom de espanto. — É claro que conheço. Mas por
aqui ninguém pode conhecê-lo. O remédio acaba de ser descoberto
pelos aras. Só eu posso saber, pois acabo de chegar de Aralon.
Nem um
único dos médicos teve qualquer suspeita. Todos se sentiam
satisfeitos por saberem que preparado era este.
— É um
purgante? — procurou certificar-se um deles.
O colega
que regressara ao Sistema Solar há vinte dias disse que sim.
Por um
triz Thomas Cardif não foi desmascarado.
Brazo
Alkher, que apesar de tudo conservara o aspecto de um rapaz
desajeitado, levantou os olhos com uma expressão de indiferença
quando seu companheiro Stana Nolinow voltou a entrar na cela,
acompanhado por dois robôs de guerra.
Stana
Nolinow acabara de ser submetido ao décimo oitavo, ou talvez mesmo
ao vigésimo interrogatório. Brazo Alkher tinha atrás de si o mesmo
número de interrogatórios. Na manhã daquele dia, os antis haviam
recomeçado tudo, depois de tê-los deixado em paz por alguns dias.
Os dois jovens não sabiam que informações os antis queriam
arrancar deles.
Sem dizer
uma palavra, Nolinow sentou-se ao lado de Alkher. Os robôs haviam
desaparecido e a porta fora fechada, mas sem dúvida a barreira
energética, que tornava impossível a fuga, voltara a ser ativada.
— Cuidado,
Brazo, dentro de dez minutos virão buscá-lo!
Foi só o
que Stana teve a dizer a respeito do interrogatório que acabara de
enfrentar.
Era
impossível falar sobre o que quer que fosse. Cada palavra era
captada e três objetivas de televisão observavam-nos
ininterruptamente. Uma hora depois de sua chegada à cela, já haviam
descoberto as instalações secretas e adaptaram seu comportamento às
mesmas.
Brazo
Alkher, que exercera as funções de oficial de armamento na nave
linear Ironduke, levantou-se e iniciou sua caminhada. Eram cinco
passos em direção à porta, cinco passos em direção à parede. A
porta não apresentava qualquer fresta; o mesmo acontecia com a
parede. Além disso, os dois homens encontravam-se uns quarenta ou
cinqüenta metros abaixo da superfície do planeta inóspito, chamado
Saós.
— Está
começando a ficar nervoso, meu filho? — perguntou Nolinow, em tom
um tanto irônico.
— No
momento não tenho tempo para isso — respondeu Alkher,
laconicamente.
A
conversa, que mal fora iniciada, interrompeu-se. Alkher caminhava
incessantemente de um lado para outro em sua cela subterrânea.
Estava refletindo sobre alguma coisa. Notara que por ocasião dos
últimos três interrogatórios, a que fora submetido nos últimos
dias, sempre fora levado ao respectivo local por um caminho
diferente. Perguntou a si mesmo se haviam agido assim
intencionalmente, isto é, com uma finalidade determinada.
O passo
surdo do robô fez-se ouvir. A porta maciça abriu-se
silenciosamente. Uma voz metálica mandou que Brazo Alkher o
acompanhasse.
Brazo
despediu-se do companheiro com um ligeiro aceno de cabeça. Dois
robôs colocaram-se aos seus lados, um caminhava atrás dele enquanto
o quarto ia à frente.
Prestou
mais atenção ao caminho que das três vezes anteriores.
Dali a dez
minutos perdeu o sentido de orientação. Não sabia se sua suspeita
de que estava sendo levado em círculo era correta. O caminho para a
sala dos interrogatórios parecia infinitamente longo.
Lembrava-se
de como era o estabelecimento dos antis na superfície de Saós. Uma
vez que seu disparo de radiações atingira os propulsores da nave
Baa-Lo e lhe causara graves avarias, o pouso demorara cinco vezes o
tempo normal. E ninguém impediu que ele e Nolinow olhassem de cima
os edifícios e as áreas adjacentes.
Em meio a
uma depressão, cercada por montanhas íngremes, havia um conjunto
circular de edifícios de vários tipos, que media pelo menos dois
quilômetros de diâmetro. O ponto dominante era uma pirâmide, o
templo, de mais de cem metros de altura. Ficava no centro das
instalações que o circulavam. Havia, também, quatro edifícios com
telhados em forma de abóbada, enfileirados em distâncias uniformes.
Enquanto
ele e Nolinow, que envergavam os trajes espaciais, eram conduzidos ao
templo, conseguira lançar um olhar para um dos edifícios
abobadados. Os enormes conjuntos de máquinas, que viu no interior
dos mesmos, revelavam tratar-se de usinas que produziam a energia
necessária ao funcionamento do grande complexo industrial.
De repente
Brazo, que já desistira de descobrir em que ponto situado embaixo da
superfície se encontrava, se viu diante do conhecido poço do
elevador antigravitacional que levava à pirâmide. Dali a pouco
entrou na sala de interrogatórios, acompanhado pelos robôs.
Brazo
sentiu-se surpreso ao ver dois rostos estranhos entre os cinco antis
à sua frente.
Um dos
desconhecidos apresentou o outro a Brazo.
— Terrano,
você responderá às perguntas do sumo sacerdote Kutlós.
Alkher fez
um rosto de jogador de pôquer.
O
interrogatório foi iniciado. Os antis foram formulando uma pergunta
após a outra. Não foi em vão que o tenente se saíra muito bem dos
exames da Academia Espacial. Soube esquivar-se habilmente das
armadilhas colocadas à sua frente.
De repente
o interrogatório sofreu uma interrupção. Um anti saiu de uma sala
contígua, parou à frente de Kutlós, inclinou-se e pediu-lhe que o
acompanhasse.
Kutlós
levantou-se com mostras evidentes de contrariedade e solicitou ao
anti, seu apresentador, que prosseguisse no interrogatório do
terrano.
Na opinião
de Brazo, este se conduziu de maneira pouco hábil. Teve de
esforçar-se desesperadamente para encontrar perguntas. De repente
Brazo Alkher ouviu alguém pronunciar o nome Trakarat.
Nem
desconfiava que quem o pronunciara desejava que ele o ouvisse.
E a
resposta, que Kutlós pronunciou com a voz potente na sala contígua,
destinava-se aos seus ouvidos.
— Não
permitiremos que os saltadores exerçam pressão contra nós. O
estabelecimento central está em condições de defender-se.
Dali a
meia hora, quando foi levado de volta à sua cela, não deu a menor
atenção ao caminho. O nome Trakarat e a idéia do estabelecimento
central não lhe saía da cabeça.
Stana
Nolinow teria de ser avisado de qualquer maneira sobre o que acabara
de descobrir. Em sua opinião era muito importante. Refletiu
intensamente sobre o motivo por que esse planeta inóspito teria dois
nomes: Saós, que era a denominação constante do catálogo estelar
dos arcônidas, e o segundo nome, Trakarat.
A idéia
do estabelecimento central fixou-se em sua mente.
Será que
o complexo que vira da espaçonave, e que possuía mais de dois
quilômetros de diâmetro, era apenas a ponta de iceberg que se
tornava visível, enquanto a sua maior parte ficava oculta sob a
superfície?
*
* *
O rosto
marcante de Kutlós desfigurou-se num sorriso. Sorria para o homem
que conseguira conversar nas primeiras horas do amanhecer com
Cardif-Rhodan, num bangalô situado na Terra.
— O que
você acha? — perguntou num tom de espreita.
— Acho
que o plano simplificado será mais eficiente. E observei muito bem o
jovem terrano com aspecto de adolescente, quando foi pronunciado o
nome Trakarat. Não tenho a menor dúvida de que aguçou o ouvido e
engoliu a isca. Se não precipitarmos as coisas, deverá ser possível
criar uma pista falsa que talvez possa fazer que até mesmo Cardif
venha para cá. Ao mesmo tempo, tal plano fará com que o Imperador
Gonozal VIII tenha ainda mais motivo de queixas contra os terranos.
O sorriso
espalhou-se pelo rosto de Kutlós. Esfregou as mãos. Enquanto se
levantava e abria os braços, disse em tom patético:
— Para
Baalol está raiando o dia de que falam as profecias!
Depois
disso inclinou o corpo e cochichou algumas palavras incompreensíveis.
Saiu sem
dizer mais nada.
A execução
do plano simplificado, que dispensava a construção de um falso
estabelecimento central no hemisfério norte do planeta Saós, estava
nas mãos do homem que garantira a Thomas Cardif que os antis não
criariam nenhum obstáculo à sua ação dirigida contra Árcon. Na
verdade, ele empenhava-se em cumprir a promessa, pois, fazendo uso do
plano simplificado, conseguiriam até agravar as tensões entre a
Terra e Árcon...
Acreditavam
que sabiam até onde poderiam chegar. E tinham certeza de que seriam
bem-sucedidos, pois o único homem que representava um perigo para
eles encontrava-se em seu poder. Era o verdadeiro Perry Rhodan.
*
* *
Bell
entrou precipitadamente nos aposentos particulares de Allan D.
Mercant.
Viu que o
marechal solar tinha visita. Era o Coronel Nike Quinto.
— Que
bom que o senhor está presente, Quinto — disse o homem baixo,
dirigindo-se ao cabeça da Divisão III. — Acabo de estar com o
chefe. Não consegui dizer nada. Depois de cinco minutos perdi todo o
interesse em conversar com ele. Senhores...
Bell fez
uma pausa. Até então permanecera no centro do aposento, mas agora
acomodava-se numa poltrona.
— Senhores,
receio que o pior esteja para acontecer ao chefe. Fiquei com ele uns
trinta minutos. E nesses trinta minutos pegou pelo menos oito vezes
uma fita métrica e mediu sua cintura.
Fitou
Mercant e Quinto com uma expressão de curiosidade. Ficou surpreso ao
ver o chefe de segurança fazer um gesto de desprezo.
— Todo
mundo sabe que Rhodan está doente. E hoje eu soube por acaso que
sofre perturbações digestivas. É só isso, mister Bell. Além
disso, provavelmente está preocupado com a possibilidade de voltar a
sofrer aquelas dores atrozes.

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