segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-114 - O Chamado da Eternidade- Kurt Brand [Parte 2]

Cardif, você não está disposto a assumir qualquer compromisso?
Não. Não lhes garanto nada. Não farei nenhum acordo. Não formularei nenhuma promessa. Afinal, o que é que vocês querem? Rhabol não vive dizendo que não passo de uma marionete do culto de Baalol? Pois bem. Se é assim, os antis terão tudo quando eu me tiver apoderado do Império de Árcon.
Isso são sofismas, Cardif — falou o agente, em tom contrariado.
Obrigado — disse Cardif com um sorriso. Seus olhos chamejavam violentamente. — O que você acaba de dizer constitui a melhor prova de que os antis não têm tanta certeza de me terem nas mãos como pretendem fazer crer.
Peço-lhe que não se esqueça de Stana Nolinow e Brazo Alkher, os dois oficiais que, segundo você diz, nos informaram sobre seu vôo ao planeta Peregrino — disse o anti numa tentativa de chantagem.
O agente viu-se brindado com um olhar de compaixão.
Ultimamente vocês sempre querem jogar seus trunfos depois que estes perdem seu valor. Ao que suponho, há uma hora foi expedida uma mensagem circular pelo hiper-rádio, dirigida a todas as naves da Frota Solar, segundo a qual os tenentes Alkher e Nolinow foram reabilitados e o administrador se desculpará formalmente assim que regressarem. Então, o que me diz, agente? Vamos entrar em negociações? Ou será que não temos mais nada a dizer um ao outro?
O plenipotenciário dos antis deu-se conta de que tinha à sua frente um terrano frio como gelo, que sabia aproveitar qualquer chance sem revelar os menores escrúpulos.
Não há nada a negociar, Cardif!
O agente teve de fazer um tremendo esforço para proferir essas palavras num tom de autoconfiança. Naquele instante convenceu-se de que os antimutantes haviam cometido um erro enorme ao avaliarem a personalidade de Thomas Cardif. Se o mesmo conseguisse apoderar-se do Império de Árcon, não estaria longe o dia em que ficaria em condições de subtrair-se totalmente à influência dos servos de Baalol.
Cardif levantou-se com um ligeiro sorriso nos lábios.
Se não há nada a negociar, poderemos dar por encerrada nossa palestra, agente.
O anti foi de opinião que deveria formular mais uma advertência.
Cardif, não subestime o poder de Baalol!
O filho de Rhodan respondeu em tom áspero:
Uma alusão dessas não me amedronta. Vá embora, agente!
Subitamente o anti mudou de idéia. Lembrou-se de que Cardif aludira ao planeta Trakarat. Ao que tudo indicava, o filho de Rhodan nem desconfiava do que havia atrás desse nome, mas o agente soube avaliar corretamente o desempenho da Segurança Solar. Tinha certeza de que os homens comandados pelo Marechal Solar Mercant não suspenderiam suas investigações, enquanto não tivessem descoberto o ponto da Galáxia em que o mundo Trakarat girava em torno de seu sol. Foi só essa circunstância que o fez proferir estas palavras surpreendentes:
Terrano, os antis não oporão nenhum obstáculo à sua tentativa de apoderar-se do Império de Árcon.
Depois disso o agente retirou-se, deixando para trás um Thomas Cardif bastante pensativo.


Fazia cinqüenta dias que Thomas Cardif, que se passava por Perry Rhodan, recebera do Ser fictício de Peregrino vinte e um ativadores celulares. Vinte desses aparelhos, dotados de dispositivo de regulagem individual, haviam caído nas mãos dos antis, quando o jato espacial de Cardif, pilotado pelos oficiais Nolinow e Alkher, foi apresado pela nave cilíndrica Baa-Lo.
Durante cinqüenta dias Ele ou Aquilo, o Ser de Peregrino, formulara junto a Cardif a advertência estereotipada:
Desfaça-se do ativador celular, Perry Rhodan, senão você ficará grande e forte demais.
Por cinqüenta vezes Thomas Cardif talvez não quisera compreender a mensagem do Ser coletivo. Agora, mais uma vez Ele fazia-se ouvir:
Perry Rhodan, você ainda dispõe de cinco minutos para desfazer-se do ativador celular. Recomendo-lhe que o faça. Não se esqueça de que um excesso de força e grandeza pode representar um mal.
Desta vez a mensagem não foi seguida da risadinha. Chegou ao fim abruptamente, e Cardif viu-se a sós com seu ativador celular, pendurado ao peito, sob a roupa.
Examinou algumas informações importantes vindas da área estelar M-13. Os membros da Segurança Solar que atuavam por lá diziam haver, invariavelmente, tumultos cada vez mais graves no Império de Árcon. Ainda aludiam a uma série de dificuldades econômicas e a um súbito recrudescimento das atividades dos mercadores galácticos.
Reduzidas ao denominador comum, essas informações significavam que o império de Atlan se aproximava inexoravelmente do desmoronamento.
Cardif, que naquele tempo só costumava ser visto no uniforme simples do administrador, estava manipulando uma pilha de informações quando subitamente uma dor insuportável fustigou seu corpo.
Cardif, que em Aralon se tornara um médico famoso sob o nome de Edmond Hugher, não teve forças para diagnosticar seu estado. Caiu da poltrona, contorceu-se no chão e soltou um grito lancinante.
A dor enlouquecedora estava em toda parte: no crânio, no tórax, nos dedos, nos braços, nas pernas.
Um suor frio cobriu seu corpo. Teve a impressão de que iria enlouquecer de dor. Seu grito não tinha nada de humano: era apenas o pedido de socorro de uma criatura martirizada.
Cardif-Rhodan não chegou a ver quem entrou precipitadamente. E não soube quem o levantou e o colocou sobre o sofá. Não ouviu quando os médicos mais importantes de Terrânia foram convocados às pressas.
O médico de plantão entrou correndo.
Uma injeção! — berrou Reginald Bell, muito exaltado.
O médico recusou-se a aplicar uma injeção no chefe, antes que este tivesse sido examinado.
Acontece que Cardif-Rhodan não permitiu que o examinassem.
Revirou os olhos. O suor lhe corria pelo corpo.
Quatro mãos robustas seguraram o braço esquerdo de Cardif-Rhodan. A manga da camisa foi arregaçada. O médico fez pontaria com a seringa de pressão e aplicou-a sobre a musculatura do braço. No momento em que o fio finíssimo de líquido saía num chiado, o administrador voltou a contorcer-se num acesso de dor. E o líquido esguichou para o ar!
Não agüento mais! Não agüento mais... — foram estas as primeiras palavras que o chefe pronunciou. Ficou quieto por cinco segundos.
Depois disso, o corpo do homem com o uniforme do administrador voltou a empertigar-se. Cardif soltou outro berro. Parecia que ia cair do sofá. O médico de plantão fez outra tentativa.
Três quartas partes do conteúdo da ampola penetraram na musculatura do braço. O corpo do chefe amoleceu em meio a um grito. Esticou-se, virou-se de lado e de repente pareceu adormecer tranqüilamente.
Reginald Bell soltou um gemido. Só agora se deu conta de que também estava banhado de suor.
O que houve com Perry? Que diabo, doutor! Examine-o logo.
O médico plantonista fechou seu estojo de instrumentos. Balançou a cabeça.
Sir — principiou em tom hesitante. — Este caso não é para mim. Olhe o braço esquerdo do chefe. Aqui... e aqui! Mesmo nos lugares onde não há nenhum músculo, parece atacado por uma cãibra. Está duro como pedra. Nunca vi coisa igual na medicina. Peço-lhes que não insistam em que eu o examine. De qualquer maneira meu diagnóstico não seria correto.
Bell certificou-se pessoalmente sobre os pontos a respeito dos quais o médico plantonista chamara a atenção.
O braço esquerdo de Perry Rhodan parecia duro que nem pedra. Mas Bell constatou outra coisa.
Será que o chefe está com febre? Ou será que o calor que seu corpo irradia foi causado pela injeção?
O médico colocou-se apressadamente a seu lado. Segurou o braço de Rhodan, procurou o pulso e começou a contar sem dizer uma palavra. À medida que prosseguia na contagem, maior se tornava seu espanto.
O pulso está completamente normal. Isso não corresponde ao efeito normal do analgésico que acabamos de aplicar. A pulsação deveria ficar ao menos vinte e cinco por cento abaixo do normal. E ainda há essa febre...
Soltou o braço do chefe e colocou-lhe a mão na testa.
A mesma parecia estar em fogo vivo.
O médico voltou a abrir o estojo de instrumentos. Colocou o termômetro sobre a testa de Rhodan. O aparelho apurava a temperatura do corpo dentro de três segundos.
Trinta e seis vírgula cinco — balbuciou o médico ao ler a temperatura. — Não é possível! O administrador está pelo menos com quarenta graus de febre.
O médico pegou o termômetro sobressalente. Enquanto fazia a leitura, mostrava a escala a Bell. Também indicava 36°5’.
Vamos deixar livre o peito — disse o médico, que já não sabia o que fazer.
O que é isso? — perguntou Bell quando Rhodan estava apenas de camiseta.
Um objeto em forma de ovo, ligeiramente saliente, desenhava-se sob essa peça de roupa!
Naquele instante Bell lembrou-se de uma porção de possibilidades, menos de um ativador celular.
Por que iria pensar nisso? Perry, ele mesmo, Bell, e outros amigos iam a Peregrino a cada sessenta e dois anos para que lhes fosse aplicada a ducha celular. E a tal ducha bastava para evitar que dentro desse prazo houvesse qualquer tipo de envelhecimento.
O médico tirou a camiseta do falso Rhodan. O tórax foi posto à mostra.
O que... o que... é i-isso? — gaguejou o médico, apontando para um objeto metálico em forma de ovo que penetrara pela metade no tórax do chefe.
Isso... isso... mas isso é...
Bell não disse o que era. Já não compreendia mais nada. Perry Rhodan estava usando um ativador celular.

* * *

O chefe estava inconsciente quando foi levado à clínica. Os médicos insistiram em que isso fosse feito.
Três cirurgiões acabavam de concluir seus exames, mas nem pensaram em revelar os resultados.
A equipe de seis neurologistas aplicou os contatos no corpo de Rhodan. Meissner, o chefe da equipe, constatara durante o teste um reflexo que em sua opinião não era natural. A parte do corpo em que pusera a mão era extremamente pobre em reflexos.
O neuroton começou a funcionar. Era um aparelho produzido pela medicina dos aras. Registrava num espaço de tempo extremamente curto todos os fluxos nervosos do corpo.
Ginseng, um neurólogo, não tirava os olhos do chefe, que continuava inconsciente e demonstrava uma tolerância extraordinária para o excesso de impulsos de radiações.
Esse fato também constituía novidade numa pessoa inconsciente.
Mais de vinte médicos sacudiam a cabeça. Rhodan, que por ocasião dos outros exames de rotina revelara ser um modelo de sanidade e se mostrava normal sob todos os pontos de vista, acabara de transformar-se num fenômeno da medicina.
Meissner, o chefe da equipe de neurologia, soltou um gemido.
O que houve com o administrador?
Estudou com uma ânsia nervosa os registros dos inúmeros fluxos nervosos.
Bell explodiu. O medo pela sorte do amigo quase chegou a matá-lo. Os rostos perplexos dos médicos e cientistas multiplicavam seu medo ao infinito. Não compreendia o que diziam em sua linguagem especializada. Queria saber o que estava acontecendo.
A reação dos médicos foi totalmente errada.
Se o caso fosse outro, teriam toda razão em procurar livrar-se de um leigo que os perturbasse. Mas acontecia que este caso era bem diferente. Tratava-se do administrador, e Bell era representante do mesmo.
Em atitude ameaçadora, colocou-se à frente do professor Legrand.
Ficarei aqui mesmo. Quero deixar isso bem claro. Saia da minha frente, senão me verei obrigado a tomar uma atitude violenta.
O professor Manoli consertou a situação. Pediu desculpas a Bell. Mas este não estava interessado em ouvir pedidos de desculpas. Queria saber por que Meissner, o chefe da equipe de neurologia, parecia desesperado junto ao neuroton.
É bom que saiba de uma coisa — disse, dirigindo-se ao especialista em doenças dos nervos. — Não quero que me forneça explicações em sua linguagem secreta. Exprima-se de tal forma que todos possam entendê-lo.
O chefe da equipe de neurologia deu início às explicações:
Está vendo estes traços, mister Bell? — estavam parados à frente da tela do neuroton. — São os fluxos nervosos. Esta área vazia, de formato oval, representa o ativador celular. Acontece que nem mesmo eu compreendo o que estou vendo neste momento. Um instante... Aquilo que não compreendo diz respeito aos meus conhecimentos médicos, não àquilo que aparece aqui.
Diga logo, doutor. O que está havendo com o ativador?
Prepare-se para o que está por vir, mister Bell. Esteja preparado para o pior. O chefe sofreu uma série de alterações inconcebíveis. De repente passou a possuir fluxos nervosos que não são encontrados num homem normal. Surgiu um contato orgânico entre todos esses fluxos nervosos e o ativador celular. Em virtude disso, o ativador não poderá ser removido por meios cirúrgicos. Se arriscássemos uma intervenção, o chefe não sobreviveria à mesma.
Mas o ativador não passa de uma peça de metal, doutor! Como é que os nervos de alguém podem entrar em contato com um pedaço de metal? Não venha me dizer que o senhor acredita numa tolice dessas! — esbravejou Bell, ainda mais nervoso que antes.
Quer queira, quer não queira — admitiu o médico, em tom simplório — não posso deixar de acreditar naquilo que o neuroton nos mostra. Quero pedir-lhe que se afaste, a fim de ceder lugar aos meus colegas para que estes possam convencer-se de que não cometi nenhum erro de diagnóstico.
Os outros médicos confirmaram as conclusões a que chegara o chefe da equipe neurológica.
Também não encontraram explicação para o fenômeno. O fato de fluxos nervosos, estranhos ao organismo, surgirem no corpo de Rhodan, e ocorrer a ligação entre uma substância orgânica e um objeto metálico, tudo isso representava um mistério para eles. Não sabiam dizer por que metade do ativador penetrara no tórax de Rhodan; não sabiam apontar a causa do súbito acesso de dor que acometera o chefe.
Havia uma única pessoa que tinha uma explicação para tudo isso. E tratava-se justamente de alguém que não era médico: Reginald Bell.
Este só pensava no Ser fictício de Peregrino: Ele ou Aquilo devia ter tramado uma coisa dessas. Só Ele seria capaz disso.
Bell foi dominado por sentimentos conflitantes.
Será que Ele, um Ser que, apesar do seu estranho senso de humor, até então nunca fizera mal aos homens, de repente se revelara como inimigo mortal de Perry Rhodan?
Bell sentiu que havia algo de errado. E teve a impressão de que seu raciocínio sempre partira de um falso pressuposto, mas não conseguiu atinar com o erro.
O chefe está recuperando os sentidos!
Foi o professor Manoli quem fez essa observação. Os neurologistas apressaram-se em remover os contatos. Quando Cardif-Rhodan abriu os olhos, procurou erguer o corpo e, perplexo olhou em torno, ainda havia três deles na altura do coração.
Fitou os médicos como quem não compreende nada. Bell, que se mantinha num lugar mais afastado, não disse nada.
O que houve...? — indagou Cardif-Rhodan assustado, mas depois se calou.
Num movimento instintivo pusera a mão sobre o ativador celular. E constatou que o aparelho penetrara pela metade no seu tórax e não havia como movê-lo.
O pavor estava prestes a desenhar-se em seu rosto quando sentiu que o ativador entrava em funcionamento. E, mais uma vez, o fluxo que percorreu seu corpo era um pedaço da vida eterna.
De um momento para outro a tensão cessou. Mas, no mesmo instante, as recordações voltaram.
De um momento para outro sentira-se fustigado por dores de uma intensidade inconcebível, que quase o levaram à loucura, até que recebesse uma injeção de narcótico. E agora via-se no interior da clínica.
Acho que já estou em condições de levantar sem auxílio!
Sua voz parecia completamente normal, e seu aspecto melhorava a olhos vistos. Levantou-se, sem dar ouvido aos protestos formulados por vários médicos. Passou os olhos pelo corpo e fitou o ativador. Voltou a olhar para os médicos. Conseguiu fitá-los com uma expressão um tanto divertida.
Isto deve ter provocado uma série de indagações nos senhores. Mas é bom que meu exemplo lhes sirva de consolo, pois também não consigo resposta a todas as perguntas que formulo.
Nem desconfiou dos sentimentos que estas palavras provocaram em Reginald Bell.
O mesmo rejubilou-se por dentro. Tinha certeza absoluta de que, para Perry, o pior já passara, e de que, dentro em breve, Rhodan voltaria a ser o velho amigo.
Adiantou-se, pegou as roupas do chefe, estendeu-as em direção ao amigo, sem dizer uma palavra, e soltou uma risada de alívio.
Obrigado, gordo! — disse Rhodan, pegando suas roupas e exibindo o genuíno sorriso rhodaniano.
Para Bell, isso representava mais uma confirmação de que o pior já havia passado para o amigo.
Apesar disso três médicos fizeram questão de acompanhar o chefe e insistiram para que ficasse de cama até o dia seguinte.
Cardif-Rhodan cedeu, aparentemente a contragosto. No seu íntimo sentiu-se satisfeito, pois a dor inesperada consumira muitas forças.
Estava acostumado a ficar só. Mandou que Reginald Bell se retirasse juntamente com os médicos. A preocupação do gorducho deixava-o nervoso, e, além disso, preferia ficar só.
Mal se viu só, deu vazão à sua curiosidade. Pegou o espelho e observou o ativador celular profundamente incrustado em seu peito. Não soube explicar como esse objeto em forma de ovo pôde enterrar-se tão profundamente, mas o fato não lhe causou maiores preocupações. Acreditava ter vencido a prova que lhe fora imposta pelo Ser fictício. A título de agradecimento, embora isso lhe custasse dores inacreditáveis, Aquilo colocara o ativador celular no lugar adequado, para que Cardif nunca o perdesse.
Inebriado pela idéia de ter pela frente a vida eterna, Cardif-Rhodan acabou adormecendo.

* * *

Uma das espaçonaves mais velozes do Império de Árcon corria em direção ao sol que no catálogo estelar arcônida era designado como 41-B-1847-ArqH. Esse sol distava 33.218 anos-luz da Terra, de onde vinha a rápida nave. Tal sol era uma pequena estrela amarela com dois planetas. O planeta exterior era habitado embora não fosse nenhum prazer viver em Saós. Sua gravitação era de 1,3 G, e levava 214 horas para girar uma vez em torno de seu eixo. O movimento de rotação extremamente lento provocava constantes tormentas, especialmente na zona de compensação, e as mesmas dificultavam bastante a vida nesse mundo.
O conteúdo de oxigênio da atmosfera era muito reduzido. Em compensação a percentagem de nitrogênio e monóxido de carbono era elevada.
O agente que se encontrara com Cardif-Rhodan ao amanhecer, no bangalô, estava a caminho de Saós.
Sentia-se angustiado, pois desejava chegar o quanto antes às instalações industriais secretas, localizadas naquele planeta inóspito, bastante fustigado pelas tormentas, conhecido como Saós.
O agente anunciara sua chegada por meio de um impulso concentrado. Sabia que os antis, que produziam em Saós seus inigualáveis projetores de campo defensivo, também ansiavam por falar com ele.
Quando estava a caminho da Terra não seria capaz de imaginar que no vôo de regresso seria portador de mensagem tão importante.
O Serviço Secreto Solar conhecia o nome Trakarat!
O agente teve a impressão de que sabia de onde os terranos obtiveram o conhecimento do nome desse planeta. Só mesmo Kalal, o sumo sacerdote que morrera em Utik, da misteriosa doença do “farejamento”, poderia ter traído sua raça na agonia da morte.
Há horas o agente via-se perseguido por este nome: Trakarat. Grudara-se nele que nem um fantasma.
Trakarat!
Quando pousaremos? — perguntou em tom impaciente, dirigindo-se ao comandante da nave.
Aproximadamente dentro de três horas, senhor! — respondeu o comandante, em tom submisso.
Não posso esperar tanto, Mingo! — disse o homem que se apresentara a Cardif como plenipotenciário. — Por que fez um hipersalto tão curto? Por que não saímos do semi-espaço num ponto mais próximo de Saós?
Mingo apressou-se em responder em tom submisso.
Senhor, peço-lhe que não se esqueça de que Saós está cercado por um anel de meteoritos. Sou responsável pelo bem-estar de Vossa Excelência, e eu mesmo tenho vontade de servir ainda por muitos anos com todas as minhas forças ao Baalol.
Seu interlocutor fitou-o com os olhos semicerrados. Realmente se esquecera do anel de meteoritos que cercava Saós, mas nem pensava em confessá-lo. Voltou a fitar a tela. O lado esquerdo da mesma estava tomado por uma enorme concentração de sóis que se apresentavam como pequenos pontos luminosos. O coração do Império de Árcon, o sistema estelar M-13, situado na constelação de Hércules, apresentava-se com todo o esplendor em meio ao negrume do cosmos, cercado por uma luminosidade de cor madrepérola que fazia com que aquela concentração de sóis parecesse maior do que realmente era.
O agente surpreendeu-se em meio a estas reflexões e espantou-se consigo mesmo. Até então o destino do grande império lhe fora indiferente. Pertencia ao povo dos antimutantes, e este só conhecia um objetivo: transformar o culto de Baalol no poder dominante. A intenção era subjugar todas as estrelas habitadas por seres inteligentes.
Naquele instante sentiu uma ligeira tristeza ao contemplar o grupo estelar esférico M-13. No seu subconsciente comparara a personalidade de Gonozal VIII com a do homem que usava o nome de Perry Rhodan. Embora o imperador não ocultasse sua posição hostil face aos antimutantes, o agente o considerava infinitamente superior a Thomas Cardif. Este era o maior dos canalhas: um homem que não recuava diante de qualquer meio que pudesse servir para destruir o pai e fortalecer sua própria posição.
Sob os efeitos destas reflexões e com a concentração estelar M-13 diante dos olhos, o agente desceu da nave assim que esta pousou em Saós. Pouco depois viu-se diante dos servos de Baalol, que já o esperavam ansiosamente.
Notou imediatamente a estranha inquietação dos antimutantes.
Falei com Cardif — principiou, para calar-se logo em seguida.
Olhou em torno. Estava cercado por cinco antis, e só três deles viviam permanentemente em Saós. Cuidavam da fabricação dos projetores de campos defensivos. O agente não conhecia os outros dois, mas concluiu pelas suas vestes que se tratava de pessoas importantes.
Aconteceu alguma coisa em Saós? — perguntou cheio de pressentimentos.
O chefe de produção, um homem de pequena estatura, sacudiu a cabeça.
Em Saós, não. Mas na Terra.
Por pouco o agente não perde o autocontrole. t
Thomas Cardif morreu!”, foi o primeiro pensamento descontrolado que veio à sua mente.
Thomas Cardif de repente adoeceu gravemente. Foi levado à clínica de Terrânia. Não sabemos qual é seu estado. A Segurança Solar deve ter prendido nosso elemento de ligação, que nos transmitiu a informação pelo hiper-rádio. Há algumas horas não conseguimos entrar em contato com nossa estação secreta de Terrânia.
O agente levou algum tempo para digerir a notícia. Viu diante dos olhos de sua mente o homem que até então desempenhara o papel do administrador Perry Rhodan, sem ser descoberto. Seu rosto não revelara o menor sinal de doença. Pelo contrário, Thomas Cardif parecia vigoroso e juvenil.
Segundo as últimas notícias que recebemos de Terrânia, a súbita doença de Cardif está ligada ao ativador celular que traz consigo.
O agente levantou-se de um salto. Essa reação constituía uma violação das normas de etiqueta dos antimutantes. Desculparam-no imediatamente. Os outros cinco lembraram-se de que sua reação à alarmante notícia fora idêntica.
Não se preocupava com a saúde de Cardif porque tivessem uma simpatia toda especial por ele, mas apenas porque o mesmo, disfarçado em Perry Rhodan, era a figura mais importante em seu jogo pelo poder. Se não pudessem contar com Thomas Cardif, que era obrigado a fazer o que eles exigissem, poderiam sepultar seus planos.
Nosso irmão, o sumo sacerdote Rhabol, cometeu um erro grave ao não revistar cuidadosamente Cardif, quando ele estava preso a bordo da Baa-Lo. Se tivesse agido com a necessária cautela, não poderia ter deixado de encontrar mais um ativador em poder de Cardif, além dos vinte de que se apoderara. Se o filho de Rhodan morrer, como aconteceu com nosso irmão Kalal no planeta Utik, que foi vitimado, a bem dizer, pela histeria das multidões, tudo que já fizemos terá sido em vão.
O agente confirmou com um aceno de cabeça. Naquele momento teve medo de transmitir a informação que trazia. Voltou a sentar e disse de supetão:
Thomas Cardif aludiu ao planeta Trakarat!
Cinco mutantes levantaram-se de um salto; estavam apavorados. E os cinco exclamaram:
Trakarat?
Isso mesmo — disse o agente. — Thomas Cardif manifestou a suspeita de que os vinte ativadores celulares não produzam o resultado que se espera. E disse: “Será que em Trakarat ainda não sabem disso?” E disse estas palavras como quem sabe muito bem o que existe nesse planeta.
Será que foi Kalal? — gritou um dos antis em tom exaltado.
Kalal deve ter cometido uma traição. Nenhuma outra pessoa poderia ter mencionado o nome Trakarat; seria impossível.
Os servos de Baalol levaram algum tempo para tranqüilizar-se. A notícia deixara-os profundamente abalados.
Voltei tão depressa, não apenas para trazer-lhes esta notícia, mas ainda por outro motivo — disse o agente, e ficou satisfeito ao constatar que lhe prestavam muita atenção. — Devemos colocar a Segurança Solar numa pista falsa. Se eles nos derem tempo e se não agirmos precipitadamente, poderemos usar os dois oficiais para levá-los a acreditarem que Saós é o planeta Trakarat.
Você se refere aos terranos Alkher e Nolinow, que Rhabol deixou aqui? — perguntou o anti cujo nome o agente não conhecia.
Naturalmente. Afinal, são terranos, e a Segurança Solar estará mais disposta a acreditar neles que nos arcônidas, nos saltadores ou nos aras. Se agirmos com bastante habilidade e deixarmos entrever numa palestra que, para nós, o planeta Saós também é conhecido como Trakarat, conseguiremos que por enquanto a Segurança Solar siga uma pista falsa. Se, além disso, insinuarmos que aqui existe um gigantesco estabelecimento, sem darmos a menor indicação da finalidade do mesmo, poderemos atrair uma frota de Rhodan para cá. Se concluirmos nossos preparativos em tempo, não teremos a menor dificuldade em colocar uma carga explosiva subterrânea que detonará no momento em que as naves de Cardif pousarem no planeta.
O agente entusiasmou-se com suas próprias palavras.
Que plano idiota é esse? O que é que os dois oficiais da Frota Solar têm que ver com isso? — gritou um anti em tom contrariado.
O agente reconheceu seu erro, aceitou a repreensão e acrescentou:
Devemos criar uma possibilidade de fuga para os dois terranos. E, ao fugirem, estes devem saber que Saós também costuma ser chamado de Trakarat, e que no hemisfério norte do planeta, no centro da área montanhosa, existe um gigantesco estabelecimento subterrâneo. No momento os dois terranos não valem nada para nós, mas se fugissem... poderiam prestar serviços inestimáveis a Baalol, desde que façam com que a Segurança Solar suspenda as operações destinadas a localizar o planeta Trakarat.
O chefe de produção compreendeu o plano e manifestou sua opinião:
Não posso concordar! O perigo de que nossos projetores caiam nas mãos dos terranos é muito grande...
Viu-se interrompido por um gesto autoritário.
Alguém dirigiu-se ao agente.
Devemos examinar cuidadosamente todos os detalhes de seu plano. Na minha opinião deve ser executado o quanto antes. Será facílimo levar o equipamento destinado à produção de geradores de campos defensivos a outro planeta. O mais difícil será criar no hemisfério norte indícios que levem à conclusão de que por lá existam instalações subterrâneas.
O agente, que se sentiu mais que feliz por ver seu plano aceito tão depressa, estava em condições de fornecer uma dica.
Um porto espacial em meio às montanhas, uma única construção junto à pista e uma estrada, que termina junto a uma encosta rochosa, devem ser suficientes para ludibriar os terranos. Além da carga explosiva atômica na encosta rochosa deverá ser instalada uma série de aparelhos que irradiem fortes impulsos energéticos. Não devemos esquecer que as naves solares estão equipadas com eficientíssimos instrumentos de localização energética, e certamente haveria desconfianças se tais aparelhos não reagissem por ocasião do controle das elevações que cercam o porto espacial.
Os dois antis que, segundo supunha o agente, haviam vindo diretamente de Trakarat, fitaram-se com uma expressão indagadora. Depois de algum tempo acenaram com a cabeça. Um deles tomou a palavra.
Elabore todos os detalhes de seu plano. Não se esqueça de encontrar um meio de fazer com que os oficiais terranos saibam que se encontram em Trakarat. Apareça daqui a duas horas e apresente seu plano. Acreditamos que Baalol lhe deverá uma infinita gratidão.

* * *

Mil espaçonaves arcônidas que mal haviam saído das linhas de montagem realizaram, depois de um único vôo experimental, o salto pelo hiperespaço que os levou ao Sistema Azul.
Atlan concordava com as condições dos ancestrais dos arcônidas e fez com que seus robôs levassem as naves para Drorah, o mundo central dos acônidas.
Três dessas naves estavam abarrotadas de aparelhos de ensinamento hipnótico.

* * *

Às onze horas, tempo de Terrânia, o despertador tocou no quarto de Thomas Cardif. Despertou de um sono profundo e repousante, e piscou os olhos para o grande mostrador do relógio.
Por que liguei o despertador?”, refletiu, ainda sonolento.
No mesmo instante lembrou-se. Ao meio-dia deveria chegar o relato diário de todos os grupos da Frota Solar que se encontravam no sistema de Árcon. Além disso, o Marechal Solar Mercant fora convocado para apresentar seu relatório à mesma hora.
Cardif levantou-se, foi ao banheiro e começou a vestir-se.
O uniforme limpo, cuidadosamente dobrado em cima do cabide, fora feito sob medida por alfaiates positrônicos.
Enfiou as calças e fez menção de fechá-las. Estacou.
Desde quando tenho barriga?”, pensou, e examinou cuidadosamente a peça de vestuário.
Sua personalidade médica despertou.
Segurando a calça com uma das mãos, foi até o sofá e deitou-se. Suas mãos treinadas apalparam o abdômen.
Repetiu a operação, mas ainda desta vez não constatou nada.
Praguejou.
Não é possível! Será que...? — interrompeu-se. — Deve ser meteorismo.
Mas o diagnóstico não o deixou satisfeito. Se fosse correto, deveria ter constatado um crescimento do abdômen.
Hum...!
Cardif voltou a levantar-se. Fez força e fechou a calça.
Tem três centímetros a menos. E sinto-me muito bem...
Um tanto contrariado, foi até o videofone. Pediu uma ligação com o médico de plantão. Este fitou-o; parecia muito preocupado.
Não é nada — disse Cardif-Rhodan em tom tranqüilizador. — Mande um purgante de ação rápida, doutor. É só. O melhor talvez seja o gelontifad.
No mesmo instante arrependeu-se de ter pronunciado este nome. O gelontifad era um remédio ara que mal acabara de passar pelos testes clínicos nos mundos dos médicos galácticos. No Império Solar só uns poucos especialistas deviam conhecer o preparado, que dificilmente era encontrado. A resposta veio como um eco.
Gelontifad? — repetiu o médico, em tom de surpresa. — Sir, não conheço este preparado. Entrarei imediatamente em contato com a clínica e farei o pedido.
Cardif só pôde confirmar com um aceno de cabeça.
Acabara de cometer um erro imperdoável.
A ligação não foi interrompida. Cardif afastou-se do ângulo de visão da câmara, passou a camisa por cima da cabeça, puxou-a para baixo e sentiu-se rijo de perplexidade.
A peça estava apertada sob as axilas.
Cardif sentiu-se dominado pelo medo.
O cós da calça estava apertado, e a camisa muito justa sob as axilas. Ontem tudo assentara muito bem.
O filho de Rhodan virou-se para o robô, que se mantinha imóvel num canto, aguardando suas ordens.
Dê-me outra calça e camisa! — ordenou.
Viu o robô mexer no armário embutido e voltou ao banheiro.
O homem-máquina seguiu-o prontamente. Cardif arrancou as peças de roupa de suas mãos. Vestiu outra calça.
O resultado foi o mesmo.
Caramba! Devo ter engordado ultimamente, e só hoje noto. É o que acontece quando a gente não tem tempo de cuidar de si mesmo.
Cardif ouviu sua própria risada. Era esta a solução do enigma. Poderia dispensar o purgante. Devia fazer bastante exercício para emagrecer.
O robô continuava parado na porta que dava para o quarto.
Temos uma fita métrica por aqui? — perguntou Cardif.
Sim senhor — respondeu o robô. Depois virou-se e voltou a dirigir-se a Cardif no momento em que este se contemplava no espelho do quarto.
Aqui, sir! — disse entregando-lhe a fita métrica.
Cardif passou a fita pela cintura.
Noventa e oito centímetros. Lembre-se disso!
A última frase fora dirigida ao seu criado positrônico.
O homem-máquina acenou com a cabeça. Cardif voltou a dirigir-se ao videofone.
Alô, médico de plantão — disse para dentro do microfone. — Daqui a cinco minutos poderei ser encontrado no meu escritório.
Neste meio tempo, o pedido de fornecimento de gelontifad, transmitido pelo médico de plantão, provocara certo alvoroço na clínica central de Terrânia.
Perry Rhodan fez um pedido urgente de gelontifad.
Acontece que o preparado não existia. O médico de plantão insistiu:
O chefe fez um pedido de gelontifad. Trata-se de um purgante.
Fez-se uma consulta ao computador positrônico. A resposta foi negativa. O médico de plantão, que há alguns minutos aguardava uma interpelação áspera de Rhodan, gritou em tom exasperado:
Este remédio deve existir! Pois o chefe conhece. Arranjem-no!
Isso bastou para provocar um nervosismo extremo em todos os recintos da clínica, geralmente tão tranqüila.
Até mesmo a Segurança Solar teve conhecimento do fato, mas o major que recebeu a notícia e deveria tê-la transmitido a Allan D. Mercant estava de ressaca provocada por uma bebedeira da noite anterior. Leu a notícia, afastou-a de cima da escrivaninha e voltou a jurar que nunca mais beberia tanto, por mais gostosa que fosse a bebida.
Os médicos da clínica central encontraram-se espantados com um colega que não sabia do que se tratava. Este fitava os homens confusos com uma expressão de perplexidade.
Gelontifad? — perguntou em tom de espanto. — É claro que conheço. Mas por aqui ninguém pode conhecê-lo. O remédio acaba de ser descoberto pelos aras. Só eu posso saber, pois acabo de chegar de Aralon.
Nem um único dos médicos teve qualquer suspeita. Todos se sentiam satisfeitos por saberem que preparado era este.
É um purgante? — procurou certificar-se um deles.
O colega que regressara ao Sistema Solar há vinte dias disse que sim.
Por um triz Thomas Cardif não foi desmascarado.

Brazo Alkher, que apesar de tudo conservara o aspecto de um rapaz desajeitado, levantou os olhos com uma expressão de indiferença quando seu companheiro Stana Nolinow voltou a entrar na cela, acompanhado por dois robôs de guerra.
Stana Nolinow acabara de ser submetido ao décimo oitavo, ou talvez mesmo ao vigésimo interrogatório. Brazo Alkher tinha atrás de si o mesmo número de interrogatórios. Na manhã daquele dia, os antis haviam recomeçado tudo, depois de tê-los deixado em paz por alguns dias. Os dois jovens não sabiam que informações os antis queriam arrancar deles.
Sem dizer uma palavra, Nolinow sentou-se ao lado de Alkher. Os robôs haviam desaparecido e a porta fora fechada, mas sem dúvida a barreira energética, que tornava impossível a fuga, voltara a ser ativada.
Cuidado, Brazo, dentro de dez minutos virão buscá-lo!
Foi só o que Stana teve a dizer a respeito do interrogatório que acabara de enfrentar.
Era impossível falar sobre o que quer que fosse. Cada palavra era captada e três objetivas de televisão observavam-nos ininterruptamente. Uma hora depois de sua chegada à cela, já haviam descoberto as instalações secretas e adaptaram seu comportamento às mesmas.
Brazo Alkher, que exercera as funções de oficial de armamento na nave linear Ironduke, levantou-se e iniciou sua caminhada. Eram cinco passos em direção à porta, cinco passos em direção à parede. A porta não apresentava qualquer fresta; o mesmo acontecia com a parede. Além disso, os dois homens encontravam-se uns quarenta ou cinqüenta metros abaixo da superfície do planeta inóspito, chamado Saós.
Está começando a ficar nervoso, meu filho? — perguntou Nolinow, em tom um tanto irônico.
No momento não tenho tempo para isso — respondeu Alkher, laconicamente.
A conversa, que mal fora iniciada, interrompeu-se. Alkher caminhava incessantemente de um lado para outro em sua cela subterrânea. Estava refletindo sobre alguma coisa. Notara que por ocasião dos últimos três interrogatórios, a que fora submetido nos últimos dias, sempre fora levado ao respectivo local por um caminho diferente. Perguntou a si mesmo se haviam agido assim intencionalmente, isto é, com uma finalidade determinada.
O passo surdo do robô fez-se ouvir. A porta maciça abriu-se silenciosamente. Uma voz metálica mandou que Brazo Alkher o acompanhasse.
Brazo despediu-se do companheiro com um ligeiro aceno de cabeça. Dois robôs colocaram-se aos seus lados, um caminhava atrás dele enquanto o quarto ia à frente.
Prestou mais atenção ao caminho que das três vezes anteriores.
Dali a dez minutos perdeu o sentido de orientação. Não sabia se sua suspeita de que estava sendo levado em círculo era correta. O caminho para a sala dos interrogatórios parecia infinitamente longo.
Lembrava-se de como era o estabelecimento dos antis na superfície de Saós. Uma vez que seu disparo de radiações atingira os propulsores da nave Baa-Lo e lhe causara graves avarias, o pouso demorara cinco vezes o tempo normal. E ninguém impediu que ele e Nolinow olhassem de cima os edifícios e as áreas adjacentes.
Em meio a uma depressão, cercada por montanhas íngremes, havia um conjunto circular de edifícios de vários tipos, que media pelo menos dois quilômetros de diâmetro. O ponto dominante era uma pirâmide, o templo, de mais de cem metros de altura. Ficava no centro das instalações que o circulavam. Havia, também, quatro edifícios com telhados em forma de abóbada, enfileirados em distâncias uniformes.
Enquanto ele e Nolinow, que envergavam os trajes espaciais, eram conduzidos ao templo, conseguira lançar um olhar para um dos edifícios abobadados. Os enormes conjuntos de máquinas, que viu no interior dos mesmos, revelavam tratar-se de usinas que produziam a energia necessária ao funcionamento do grande complexo industrial.
De repente Brazo, que já desistira de descobrir em que ponto situado embaixo da superfície se encontrava, se viu diante do conhecido poço do elevador antigravitacional que levava à pirâmide. Dali a pouco entrou na sala de interrogatórios, acompanhado pelos robôs.
Brazo sentiu-se surpreso ao ver dois rostos estranhos entre os cinco antis à sua frente.
Um dos desconhecidos apresentou o outro a Brazo.
Terrano, você responderá às perguntas do sumo sacerdote Kutlós.
Alkher fez um rosto de jogador de pôquer.
O interrogatório foi iniciado. Os antis foram formulando uma pergunta após a outra. Não foi em vão que o tenente se saíra muito bem dos exames da Academia Espacial. Soube esquivar-se habilmente das armadilhas colocadas à sua frente.
De repente o interrogatório sofreu uma interrupção. Um anti saiu de uma sala contígua, parou à frente de Kutlós, inclinou-se e pediu-lhe que o acompanhasse.
Kutlós levantou-se com mostras evidentes de contrariedade e solicitou ao anti, seu apresentador, que prosseguisse no interrogatório do terrano.
Na opinião de Brazo, este se conduziu de maneira pouco hábil. Teve de esforçar-se desesperadamente para encontrar perguntas. De repente Brazo Alkher ouviu alguém pronunciar o nome Trakarat.
Nem desconfiava que quem o pronunciara desejava que ele o ouvisse.
E a resposta, que Kutlós pronunciou com a voz potente na sala contígua, destinava-se aos seus ouvidos.
Não permitiremos que os saltadores exerçam pressão contra nós. O estabelecimento central está em condições de defender-se.
Dali a meia hora, quando foi levado de volta à sua cela, não deu a menor atenção ao caminho. O nome Trakarat e a idéia do estabelecimento central não lhe saía da cabeça.
Stana Nolinow teria de ser avisado de qualquer maneira sobre o que acabara de descobrir. Em sua opinião era muito importante. Refletiu intensamente sobre o motivo por que esse planeta inóspito teria dois nomes: Saós, que era a denominação constante do catálogo estelar dos arcônidas, e o segundo nome, Trakarat.
A idéia do estabelecimento central fixou-se em sua mente.
Será que o complexo que vira da espaçonave, e que possuía mais de dois quilômetros de diâmetro, era apenas a ponta de iceberg que se tornava visível, enquanto a sua maior parte ficava oculta sob a superfície?

* * *

O rosto marcante de Kutlós desfigurou-se num sorriso. Sorria para o homem que conseguira conversar nas primeiras horas do amanhecer com Cardif-Rhodan, num bangalô situado na Terra.
O que você acha? — perguntou num tom de espreita.
Acho que o plano simplificado será mais eficiente. E observei muito bem o jovem terrano com aspecto de adolescente, quando foi pronunciado o nome Trakarat. Não tenho a menor dúvida de que aguçou o ouvido e engoliu a isca. Se não precipitarmos as coisas, deverá ser possível criar uma pista falsa que talvez possa fazer que até mesmo Cardif venha para cá. Ao mesmo tempo, tal plano fará com que o Imperador Gonozal VIII tenha ainda mais motivo de queixas contra os terranos.
O sorriso espalhou-se pelo rosto de Kutlós. Esfregou as mãos. Enquanto se levantava e abria os braços, disse em tom patético:
Para Baalol está raiando o dia de que falam as profecias!
Depois disso inclinou o corpo e cochichou algumas palavras incompreensíveis.
Saiu sem dizer mais nada.
A execução do plano simplificado, que dispensava a construção de um falso estabelecimento central no hemisfério norte do planeta Saós, estava nas mãos do homem que garantira a Thomas Cardif que os antis não criariam nenhum obstáculo à sua ação dirigida contra Árcon. Na verdade, ele empenhava-se em cumprir a promessa, pois, fazendo uso do plano simplificado, conseguiriam até agravar as tensões entre a Terra e Árcon...
Acreditavam que sabiam até onde poderiam chegar. E tinham certeza de que seriam bem-sucedidos, pois o único homem que representava um perigo para eles encontrava-se em seu poder. Era o verdadeiro Perry Rhodan.

* * *

Bell entrou precipitadamente nos aposentos particulares de Allan D. Mercant.
Viu que o marechal solar tinha visita. Era o Coronel Nike Quinto.
Que bom que o senhor está presente, Quinto — disse o homem baixo, dirigindo-se ao cabeça da Divisão III. — Acabo de estar com o chefe. Não consegui dizer nada. Depois de cinco minutos perdi todo o interesse em conversar com ele. Senhores...
Bell fez uma pausa. Até então permanecera no centro do aposento, mas agora acomodava-se numa poltrona.
Senhores, receio que o pior esteja para acontecer ao chefe. Fiquei com ele uns trinta minutos. E nesses trinta minutos pegou pelo menos oito vezes uma fita métrica e mediu sua cintura.
Fitou Mercant e Quinto com uma expressão de curiosidade. Ficou surpreso ao ver o chefe de segurança fazer um gesto de desprezo.
Todo mundo sabe que Rhodan está doente. E hoje eu soube por acaso que sofre perturbações digestivas. É só isso, mister Bell. Além disso, provavelmente está preocupado com a possibilidade de voltar a sofrer aquelas dores atrozes.

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