sábado, 3 de setembro de 2016

P-110 - Na Pista dos Antis - Willian Voltz [Parte 2]

A história de todos os impérios galácticos tem algo em comum. Trata-se de um fator que parece constituir um paradoxo. À medida que um império estelar se expande, a medida que cresce em tamanho, maiores são os perigos a que está exposto, e isso por dois motivos. Um pequeno império, guardado por um imperador, não tem muita coisa a recear. Se o império for desmantelado, a respectiva comunidade passa automaticamente para o inimigo e, sob o governo deste, prossegue na sua vida tranqüila. Tal procedimento não seria possível para um grande império. Este deve lutar pela sua existência, enfrentando inimigos tão fortes como ele, inimigos mais fortes ou mais fracos. Raramente uma raça consegue dominar sozinha a galáxia que habita.
O motivo disso reside nas imensas distâncias que separam os diversos sistemas solares. Um império cósmico evidentemente é dirigido a partir do planeta que serve de pátria à respectiva raça. Dali saem fios invisíveis que unem o centro aos planetas coloniais, aos entrepostos comerciais e aos mundos habitados pelas raças amigas ou subjugadas. Com o tempo, a tarefa de coordenar os acontecimentos assume proporções gigantescas. Mesmo que se disponha de todos os recursos, torna-se impossível controlar permanentemente um enorme império estelar a partir de um único planeta.
A conseqüência inevitável disso é a aquisição da soberania política por parte de vários planetas coloniais, que passam a trilhar seus próprios caminhos. A tarefa de controlar uma via láctea de dimensões fantásticas a partir de um único planeta excede a capacidade mental de qualquer criatura inteligente. Nem mesmo o poder militar concentrado será capaz disso, pois este se perderá em meio às estrelas.
A história das raças que alcançaram um grau elevado de desenvolvimento mental ensina que o império apenas representa uma fase de transição. É nessa fase que se decide o destino de uma raça. Alguns povos conseguem, graças ao seu desenvolvimento mental e tecnológico, recolher-se em sua área e isolar-se contra todos os ataques. Outros são invariavelmente destruídos.
Uma velhíssima lei cósmica diz que, quanto mais desenvolvida uma raça, mais retraída se mostra ela na luta pelo poder galáctico.
Mas, para atingir esse estágio, a raça não pode deixar de percorrer o caminho penoso do império.
O Império Solar encontrava-se no começo desse caminho.
Entretanto, já agora notava-se que as dificuldades cresciam constantemente. Os inimigos tornavam-se cada vez mais numerosos e poderosos. Um dia, um filósofo arcônida dissera: “A única coisa que fazemos é estender constantemente nosso campo de batalha. De resto, nada muda.”
E o Império Solar mais uma vez estava prestes a estender seu campo de batalha. De repente uma área galáctica, até então inexplorada, passara a oferecer grande interesse.
A 41.386 anos-luz da Terra existia um pequeno sol amarelo, que se situava no centro da Via Láctea. Em torno dele gravitava um planeta, cuja existência até então era ignorada na Terra. Era o planeta Okul. O sistema possuía mais dois mundos, que não tinham nome e não ofereciam o menor interesse.

* * *

As instituições oficiais de pesquisa da Terra pareciam casas de marimbondos. Trabalhava-se noite e dia para pesquisar as características do entorpecente e descobrir um antídoto para o mesmo.
Quando a altas horas da noite se encontrou com o Marechal Solar Freyt para discutir os resultados que os computadores haviam extraído da fita gravada e enviada por Desoga, Perry Rhodan estava exausto.
Enquanto isso Reginald Bell supervisionava ao lado de Allan D. Mercant o interrogatório dos aras presos em Lepso. Os médicos galácticos estavam sendo interrogados pelos membros do Exército de Mutantes. Rhodan esperava que esses interrogatórios permitissem conclusões valiosas quanto ao entorpecente.
Boa noite, sir — disse Freyt no tom tranqüilo que lhe era característico.
O marechal tinha muita coisa em comum com o administrador.
Rhodan olhou para o relógio.
Já está na hora de dizer bom dia — observou. — Já passa da meia-noite.
Ao sentar-se, Freyt respondeu com o rosto impassível:
Não queria privá-lo da sensação de que ainda dispõe de algumas horas da noite para um repouso bem merecido.
Rhodan ofereceu-lhe um refrigerante. Perry sabia que o marechal costumava trabalhar duro e não gabava-se do que fazia. Assim que Freyt terminou de tomar o refrigerante, disse em tom tranqüilo:
Espero que tenha boas notícias, sir.
Segundo os cálculos de probabilidade, Okul é o local em que se situa a fonte de suprimentos da matéria-prima para a fabricação do entorpecente — informou Rhodan. — Ao que tudo indica, o tal do Dr. Nearman representou uma boa presa. É pena que tenha morrido. Se o especialista em segurança que temos em Lepso fosse menos competente, provavelmente nem sequer disporíamos dos dados que temos à nossa frente. Esse Miguel Desoga não perdeu tempo.
Quer dizer que é possível que em Okul cresçam as plantas das quais os antis extraem o liquitivo?
Rhodan refletiu por um instante. Nos últimos dias, um número cada vez maior de cientistas ressaltara o fato de que possivelmente o entorpecente não era feito com matérias-primas vegetais. De qualquer maneira, porém, o planeta Okul desempenhava um papel importante no plano dos antimutantes.
Tenho a impressão de que as informações recebidas de Lepso não são simples fantasias de um doente mental. Desoga enviou um relatório escrito no qual informa que, em sua opinião, as declarações do Dr. Nearman correspondem à verdade. Afinal, o biólogo encontrava-se sob a influência de uma série de injeções.
Freyt afastou o copo vazio. Sabia que só lhes restava uma possibilidade. Teriam de ir a Okul. O marechal solar acreditava conhecer o administrador suficientemente bem, para saber que naquele momento ele tinha a mesma idéia. Até era provável que o motivo de sua presença, nesse lugar, a uma hora tão avançada, tinha algo a ver com os planos de Rhodan a este respeito.
Para falar com franqueza, no momento estamos com as mãos amarradas — disse Rhodan. — Os antis mantêm-se escondidos. Conseguiram distribuir quantidades tão grandes do entorpecente que, quando notamos o perigo, já era tarde.
Lançou um olhar apreensivo para Freyt e prosseguiu:
Sei perfeitamente que vários oficiais da Frota não concordam com a suspensão do bloqueio.
Freyt conhecia Rhodan o suficiente para compreender que o administrador se preocupava com a lealdade das pessoas que o ajudavam.
Muita gente nos criticou por não termos notado mais cedo o perigo do licor — respondeu Freyt. — Duvida-se da seriedade dos testes a que são submetidos todos os produtos que entram no comércio cósmico.
Ponho minha mão no fogo por cada um dos cientistas que realizou os controles — asseverou Rhodan.
Antes que Freyt tivesse tempo de responder, alguém bateu à porta. Freyt virou a cabeça e viu Bell entrar. O gorducho parecia esgotado. Caminhou a passos rápidos em direção a uma poltrona e deixou-se cair com um suspiro.
Boa noite, sir — disse Freyt, numa cortesia irônica.
Bell sentiu-se indignado.
Estou morto de cansaço — disse. — Esses aras são gente dura. John Marshall e cinco dos seus homens trabalharam ininterruptamente até agora, para extrair tudo dos mesmos — agitava a mão na frente do rosto, como se quisesse transformá-la num leque.
As feições de Rhodan assumiram uma expressão enérgica. Sabia que Bell estava aludindo aos aras presos em Lepso. Thomas Cardif trabalhara com eles.
O que foi que os mutantes descobriram? — perguntou Rhodan.
Bell preferiu não olhar diretamente para o amigo. Freyt, que era um observador muito atento, logo desconfiou que aquele homem atarracado trazia notícias desagradáveis.
Os aras confessaram quem descobriu a droga maldita — principiou Bell, em tom deprimido.
Mal Bell concluiu a frase, Freyt sabia quem era o descobridor. Tanto ele como Bell teriam concordado em mudar de assunto. Mas o orgulho de Rhodan obrigou-o a formular uma pergunta.
Quem é?
Bel e Freyt entreolharam-se prolongadamente. Também para eles, o destino trágico do amigo representava uma carga psíquica. Por algum tempo reinou um silêncio constrangedor. Finalmente Bell disse:
É Thomas Cardif.
Qualquer pessoa estranha, que soubesse que o nome que acabara de ser pronunciado naquele momento pertencia ao filho de Rhodan, acreditaria que o administrador fosse uma criatura fria como gelo. Bell e Freyt, porém, souberam enxergar através da blindagem do autodomínio. E viram o que havia atrás da mesma: tristeza e amargura.
Bell levantou as duas mãos.
Não se esqueça de que Cardif estava submetido a um bloqueio hipnótico.
Quando trabalhava na descoberta do liquitivo, não era dono de si mesmo. Não se esqueça de que usava o nome Dr. Edmond Hugher. Provavelmente os antis conseguiram romper o bloqueio hipnótico por meio de suas energias mentais. Os atos de Cardif são dirigidos exclusivamente contra você e têm por fim destruí-lo. Os boatos insensatos confundiram sua mente.
Isso foi uma fala muito eufemística — observou Rhodan, sarcástico. — Para exprimir a mesma coisa em poucas palavras, podemos dizer que Thomas Cardif, filho de Rhodan, é um criminoso.
Isso apenas representa o resultado de uma série de circunstâncias infelizes — disse Bell, em tom apaixonado.
Você não se lembra de que tentou trair a Terra, entregando-a aos saltadores? Não se lembra de um certo saltador que atendia ao nome Cocaze? — Rhodan elevou a voz. — Cardif e esse patriarca andaram de mãos dadas. Quase conseguiram destruir o Império Solar.
Houve ao menos uma coisa que ele herdou do pai — disse Bell. — É a arte de colocar o adversário em situação difícil.
Reginald Bell provavelmente era o único homem que podia arriscar-se a criticar Rhodan em questões particulares. Não usava esse direito com muita freqüência, mas sempre que o fazia agia da maneira impulsiva que lhe era peculiar. Raramente Rhodan comentava as acusações de Bell; via de regra recebia-as em silêncio. Já sabia que cometera um erro ao permitir que seu filho fosse criado por pessoas estranhas. Cardif crescera sem o amor dos pais. O jovem frio transformou-se num inimigo encarniçado do pai. Rhodan já tentara promover a reconciliação. Oferecera sua mão a Cardif, junto ao túmulo de Thora. Mas sob o olhar de todos os presentes, inclusive dos telespectadores, Cardif recusara a amizade que lhe era oferecida. Essa cena dolorosa estava indelevelmente gravada na memória do administrador do pequeno império, que usava o nome de solar e que estava prestes a transformar-se num fator decisivo da luta pelo poder que se desenvolvia no interior da Galáxia.
Teoricamente existe a possibilidade de que Cardif se encontre em Okul. Uma vez que de acordo com as informações que conseguimos colher, esse mundo deve ser o centro de fabricação do entorpecente, não temos outra alternativa senão partir para o ataque.
Rhodan acabara de proferir as palavras decisivas. A época de agüentar quieto chegara ao fim.
A vítima da aranha começava a deslocar-se na teia, exatamente em direção ao centro da mesma.
Provavelmente já formaram certas idéias sobre nosso procedimento, sir — disse Freyt, que se sentia feliz porque o tema desagradável, que se desenvolvia em torno de Thomas Cardif, não mais estava sendo mencionado. — Já tem alguma ordem definida para a Frota?
Rhodan fez um gesto de assentimento. Seu rosto expressivo adquirira vida. Os três homens estavam conferenciando a altas horas da noite. Muita coisa podia depender das decisões que tomassem — talvez tudo.
As condições para a ação a ser desenvolvida contra Okul são totalmente diversas daquelas a que estamos acostumados — disse Rhodan. — Devemos desferir um golpe fulminante. O inimigo só deve notar nossa presença, quando já for tarde para esboçar qualquer reação.
Bell endireitou o corpo. O cansaço parecia ter desaparecido.
A Ironduke — disse em tom enfático. A Ironduke era uma nave de oitocentos metros de diâmetro, da classe Stardust, equipada com o sistema de propulsão linear. Enquanto a Fantasy tivera que dispensar parte do armamento usual, a Ironduke dispunha de todo o arsenal de armas altamente eficientes. Depois de mergulhar no semi-espaço, não podia ser localizada por qualquer rastreador estrutural. Não havia nenhum aparelho de localização capaz de determinar sua posição. A nave deslocava-se numa espécie de corredor, situado entre as dimensões. Esse corredor era criado pelo conversor inventado pelo Dr. Kalup. Um campo de compensação absorvia as influências da quinta dimensão, que se identificava com o hiperespaço, a tal ponto que não surgia uma desmaterialização total.
A nave linear percorria uma rota-fantasma, situada numa zona de libração onde as influências da quarta e da quinta dimensão perdiam seus efeitos. Fazia mais de cinqüenta anos que se conseguira arrancar o segredo do vôo linear dos invasores, vindos de outra dimensão temporal. Isto é, dos druufs. Mas muito tempo se passara entre o tempo de aquisição dos princípios teóricos do sistema de propulsão linear e sua realização prática, através da construção de uma nave linear terrana.
Você está com toda razão — disse Perry Rhodan, concordando com o amigo. — Os campos de absorção evitarão que os antis nos localizem antes da hora. Quando emergirmos da zona de libração, não terão tempo para esboçar uma reação planejada.
No seu íntimo, Rhodan estava convencido de que qualquer ataque contra Okul seria inútil, a não ser que se descobrisse logo um antídoto contra o entorpecente. Não adiantava nada arrasar um templo dos antis atrás do outro, já que o germe da doença estava espalhado pela Terra e suas colônias.
Na melhor das hipóteses, Okul representava uma débil esperança.
Freyt e Bell pareciam não sentir essas dúvidas. Naquela hora avançada da noite, estavam desenvolvendo um plano de batalha.
Rhodan sabia que havia mais alguma coisa a fazer antes que a Ironduke pudesse decolar. O detalhe mais importante era o armamento.
Felizmente, por enquanto não havia ninguém na Frota Solar que desconfiasse das intenções de Rhodan. Perry pretendia armar os tripulantes da Ironduke com velhas carabinas-metralhadoras. Se estes soubessem do tal plano, ficariam indignados.
Justamente quando se tratava de enfrentar o inimigo mais perigoso do Império Solar, o administrador pretendia utilizar armas que há muito eram consideradas obsoletas?
7



Muita coisa já fora dita sobre o caráter de John Emery. Dizia-se que era preguiçoso, mau, tagarela, impertinente e egoísta. Era possível que essas acusações tivessem sua origem numa convicção sincera, mas assim mesmo constituíam indício de falta de senso psicológico.
John Emery não passava de um talento em matéria de organização. E, nessa área, chegara mais longe que em sua carreira na Frota Solar, onde apenas ocupava o posto de sargento. Era bem verdade que podia orgulhar-se de pertencer a uma tropa de elite, que só entrava em ação em casos especiais. Entretanto era a única coisa que podia ser alegada para enaltecer suas glórias militares.
Sempre que Emery descobria que alguma pessoa conhecida dispunha de algo que lhe parecia importante, era apenas uma questão de tempo que o objeto desejado pelo sargento passasse às suas mãos. Na Frota já houve pessoas que quiseram imitá-lo. Alguns homens até chegaram a manifestar o desejo de também instalar um depósito. Mas em comparação com Emery, seus concorrentes não passavam de amadores.
O sargento trabalhava com um entusiasmo a que ninguém conseguia resistir. A causa disso não podia ser procurada em sua constituição física, pois aquele homem pesava mais de cem quilos e não havia em seu corpo nenhum lugar onde a ossatura se tornasse saliente. Por outro lado, Emery não era charmoso e trabalhava sem a menor “gentileza”. Era simplesmente um certo quê que fazia dele o que era.
A lenda — Emery já se transformara numa lenda — dizia que em seu depósito havia de tudo, desde a trança cortada de um chinês até a obturação eletromagnética do dente de um nativo de Ferbador.
Se havia alguma coisa que não se encontrasse no depósito de Emery, ele a arranjaria. Conseguia satisfazer todos os seus mínimos desejos. E sua remuneração era tão sofisticada como seu trabalho. Sempre exigia alguma peça de propriedade da pessoa que lhe confiava alguma tarefa.
Dessa forma John Emery, sargento de uma unidade de elite da Frota Solar, transformara-se no curso dos anos numa verdadeira potência comercial em sua área.
Segundo afirmavam seus amigos, não havia nada que pudesse surpreendê-lo.
No dia 9 de abril de 2.103, Emery sofreu um terrível choque.
Deitado em sua cama simples, estava refletindo sobre como poderia fazer com que Eduard Gooding, um homem vindo da Nigéria, se desfizesse da máscara trabalhada a mão que trouxera de sua terra natal. Emery não tinha nenhuma predileção especial por esse tipo de máscara, mas o soldado Bergota estava louco pela mesma. Como Gooding tivesse demonstrado a obstinação de um búfalo, Bergota dirigira-se a Emery, para relatar-lhe seu insucesso.
Emery refletia tão intensamente para descobrir um meio de convencer o negro que só da terceira vez ouviu o leve zumbido.
O sargento saiu da cama. Tinha idéias bem definidas sobre uma manhã de folga bem repousante. E um chamado a uma hora dessas não se harmonizava com essas idéias.
Emery ligou a tela do videofone, que fora construída por ele mesmo, e esperou que o aparelho se aquecesse.
Finalmente viu o rosto contrariado de um homem, que evidentemente não tinha uma opinião muito favorável sobre o receptor construído por Emery.
Com o senhor a coisa sempre é tão demorada? — perguntou em tom indignado.
O sargento fitou-o com uma expressão que representava uma mistura de irritação mal disfarçada e de um débil senso de humor.
Às vezes isso acontece — respondeu.
O senhor tem de interromper a folga — disse o homem.
Só agora Emery viu que o sujeito da tela usava uniforme. Fez uma tentativa desastrada de tornar mais apresentável seu pijama, repuxando-o sobre a barriga. Depois disso enfiou o indicador da mão direita na orelha.
Está sentindo alguma coceira? — perguntou o homem uniformizado, em tom frio.
Emery teve vontade de dizer que podia sentir coceira em vários lugares, sem que ninguém tivesse nada com isso. Mas limitou-se a bocejar gostosamente.
Apresente-se imediatamente ao seu comandante — prosseguiu o homem de uniforme. — Sua unidade deverá reunir-se dentro de três horas no porto espacial.
A primeira idéia, que lhe veio a mente, estava ligada à sua cama. E a segunda dirigia-se ao infeliz Bergota, que teria de ficar por um tempo indefinido sem a máscara que desejava. Finalmente, pensou na folga tão curta.
Está bem — disse em tom contrariado.
Fez uma ligação e pediu a um amigo que cuidasse de seu depósito de preciosidades. Não queria que ficasse abandonado durante sua ausência. Depois disso procurou entrar em contato com Bergota.
Dali a uma hora dirigiu-se ao gigantesco porto espacial de Terrânia. Ainda não sabia que era um entre cinco mil homens que partiriam na Ironduke. Era uma novidade perfeitamente suportável.
Mas havia um detalhe que não conhecia: seria armado com uma carabina automática, antiquada... e há dois anos tentava em vão incorporar tal arma ao seu estoque de preciosidades!

* * *

Um tanto aborrecido, Emery contemplava o céu nublado de abril. À sua frente estendia-se o porto espacial de Terrânia. Era um homem experimentado, e por isso sabia que algo de especial devia ter acontecido para que sua folga fosse interrompida.
Até então ele e os outros homens, que participariam da ação, não haviam recebido informações mais detalhadas. Estavam de pé, próximos a um grande pavilhão, que ficava em local um tanto afastado do gigantesco campo de pouso. O comandante apresentara-se com o rosto compenetrado, o que levou Emery à suposição de que o tenente também não sabia em que local a unidade de elite entraria em ação.
Finalmente apareceu outro homem.
E este conhecia o destino da viagem.
Era uma das pessoas que tinha olhos de lince e sabia como lidar com qualquer problema. Estava acompanhado dos oficiais pertencentes à tripulação da nave. Ele mesmo era de estrutura gigantesca.
Seu nome era Jefe Claudrin.
Sempre que aquele homem nascido em Epsal falava, sua voz parecia o rugido de um trovão longínquo. Dispunha de forças titânicas, que se tornavam eficientes principalmente nos planetas, onde a gravitação era inferior à reinante em Epsal.
O homem ao lado de Emery, chamado Hans Berker, cutucou o sargento. Emery limitou-se a resmungar.
É Claudrin — disse Berker. — Isso significa que iremos na nave linear.
Claudrin quase não deu nenhuma atenção aos soldados. Prosseguiu em sua caminhada, sem dizer uma única palavra. Um dos oficiais conversou com o Tenente Henderson, que era o comandante da unidade especial. A contribuição de Henderson para a conversa consistia quase exclusivamente em gestos afirmativos e em respeitosos “sim, senhor”.
Henderson comandava apenas parte dos cinco mil homens que partiriam na Ironduke. Seu grupo estava treinado em lutas em planetas estranhos, onde reinavam condições hostis à vida. Dessa forma Henderson e seus homens pertenciam à infantaria da Frota Solar. Sua única ligação com a navegação espacial consistia no fato de que uma espaçonave os levava de um mundo a outro.
Enquanto Henderson ainda conversava com o oficial da nave, um veículo de carga equipado com esteiras aproximou-se. O motorista do veículo apresentava uma expressão indiferente. Estacionou perto dos homens, e o oficial apontou para ele e depois para os soldados.
Henderson aguardou um pouco, enquanto examinava seus subordinados, sem dizer uma palavra. Emery sentiu a inquietação que o rodeava.
Atenção! — gritou Henderson. Berker pigarreou, e Emery lançou-lhe um olhar de advertência.
Sargento! — ordenou Henderson.
Emery adiantou-se. Possuía a calma discreta do soldado profissional: não se abalava com nada.
Sim, senhor.
Pegue alguns homens e distribua as armas.
Às ordens, sir! — disse a voz arranhenta de Emery.
Henderson virou-se sobre o calcanhar. O sargento fez um sinal para que três soldados se aproximassem.
Temos de levantar a lona — disse o condutor do veículo de carga em tom contrariado. — Recebemos ordens para que as armas não ficassem à vista.
Soltou as correias e, ajudado por Emery, levantou a cobertura de plástico. Emery viu as armas.
O senhor não se sente bem? — perguntou o motorista, em tom interessado.
O sargento deixou cair o queixo e olhou fixamente para dentro do compartimento de carga do veículo.
Não... não é possível — disse depois de algum tempo.
O motorista do veículo fitou-o com uma expressão estranha e recuou um passo. Os soldados pareciam indiferentes a tudo.
Será que o senhor vê a mesma coisa que eu vejo? — perguntou o sargento, em tom cauteloso.
Emery fechou e voltou a abrir os olhos por três vezes. Passou a mão pela testa e mordeu a língua. Com um gesto hesitante apontou para as armas.
Tem certeza de que recebeu ordens para entregar-nos estas armas? — perguntou. — Não terá havido alguma troca?
O motorista do veículo brindou-o com uma fala prolongada, durante a qual ressaltou expressamente que não havia nada mais impossível que uma troca desse tipo. Informou o sargento de que todos os cinco mil soldados receberiam armas desse tipo.
O senhor se espantará ainda mais quando vir a munição — disse ao concluir.
Emery realmente se sentiu espantado. Além das antiquadas carabinas automáticas entregaram-lhe cartuchos de plástico, cujos projéteis explosivos, segundo se dizia, eram totalmente antimagnéticos.
Se John Emery não soubesse que o comandante de sua nave seria Jefe Claudrin, poderia jurar que iriam fazer uma caçada cósmica às lebres. Mas, da forma que estavam as coisas, a presença daquelas armas patriarcais devia ter seus motivos.
Menos de uma hora depois disso, o grupo de Henderson subiu a bordo da Ironduke. John Emery, que já percorrera centenas de quilômetros tentando conseguir uma carabina automática, teve de ver mais de cinco mil armas desse tipo a bordo do veículo espacial.
Para Emery, isso representava um terrível golpe moral, face ao qual resolveu desmanchar seu depósito de preciosidades assim que voltasse da viagem.

* * *

Gucky apalpou o assento sobre o qual pretendia acomodar-se. Lançou um olhar insatisfeito para Bell.
Continuo a afirmar que a Ironduke é a nave mais desconfortável da Frota Solar — piou. — Qualquer rato-castor decente tem direito a um lugar confortável para sentar. Sob este aspecto, a nave é uma verdadeira catástrofe. O fato de ter de sentar numa coisa como esta quase chega a ser uma automutilação.
Os assentos não foram feitos para se dormir — disse Bell. — Se você acha que não são confortáveis, pode ficar de pé ou pairar sob o teto.
O rato-castor encolheu-se. O dente roedor demonstrava o grau máximo de irritação.
Você está mostrando seu verdadeiro caráter — disse, acusando Bell. — Enquanto procuro despertar em meu coração sentimentos amorosos em seu favor, você trama novas crueldades.
É a tragédia de um rato-castor numa nave desconfortável — disse Reginald Bell, em tom sarcástico.
A viagem não será demorada — observou John Marshall. — Pelos cálculos de Rhodan e Claudrin, deverá demorar umas dezoito horas.
Gucky arrastou os pés em direção ao seu lugar e acomodou-se, reclamando furiosamente. Para ele, pouco importava a duração de uma situação desconfortável. Encontravam-se na sala de comando da Ironduke. Rhodan e Claudrin ainda não haviam aparecido, embora o homem nascido em Epsal já se encontrasse a bordo.
John Marshall e os mutantes presentes já tinham feito experiências nada agradáveis com os antis. Apesar de suas faculdades anormais, sentiam-se impotentes diante dos sacerdotes. Os antis eram produto de mutações que lhes conferia proteção total contra qualquer ataque mental. A arma mais potente do Império Solar, que era o Exército de Mutantes, praticamente estava condenada à impotência.
Apesar disso, mesmo nessa operação, Perry Rhodan preferiu não dispensar o auxílio dos mais poderosos dentre seus mutantes. Poderiam prestar serviços preciosos a certos setores e aliviar o trabalho dos demais. Sem dúvida Gucky, que possuía várias faculdades parapsicológicas, representava o maior trunfo da pequena tropa. Dominava a telepatia, a telecinese e a teleportação.
Dezoito horas — resmungou o rato-castor. — Se imagino que tenho de passar todo este tempo nesta nave, sinto náuseas.
Abriu a boca e bocejou de forma impertinente. O dente roedor solitário parecia uma agulha branca.
Ouvi dizer que não existe uma única cenoura a bordo da Ironduke — disse Bell, em tom bonachão. — Perry diz que precisa do espaço para coisas mais importantes.
Os olhos de Gucky arregalaram-se de pavor.
Nem uma única cenoura? — repetiu em tom de incredulidade.
O gesto afirmativo de Bell foi inconfundível. Seu sorriso quase chegava a exprimir triunfo.
Ainda bem que tomei minhas providências — disse Gucky, irônico.
Lançou um olhar imperscrutável a Bell. De repente, este teve a impressão de que, dali a pouco, a situação pioraria para ele. Apesar disso não pôde deixar de perguntar com um sorriso nos lábios:
Tomou suas providências?
Gucky recostou-se confortavelmente na poltrona, que ainda há pouco lhe parecera tão desconfortável.
Isso mesmo — piou. — Tomei liberdade de trazer certos objetos de uso pessoal na sua bagagem de mão.
Era a vez de Bell espantar-se.
Objetos de uso pessoal? E na minha bagagem?
São cenouras, meu velho — esclareceu o rato-castor.
Acontece que em minha bagagem de mão não cabia mais nada — objetou Bell.
Gucky fez um gesto afirmativo.
Infelizmente tive que tirar vários objetos, que me pareceram pouco im...
Não teve tempo para completar a frase. Jefe Claudrin entrou na sala de comando e, falando com uma voz que parecia fazer vibrar tudo, disse:
Vamos embora, minha gente.
Os oficiais pertencentes à tripulação da nave também surgiram. Claudrin estabeleceu a ligação com vários tripulantes que se encontravam no interior da nave.
John Emery também ouviu a voz potente do homem nascido em Epsal. Lançou um olhar pensativo para a carabina automática, encostada à parede. Henderson, que estava sentado mais à frente, brincava nervosamente com os dedos.
A Ironduke decolou exatamente quatorze minutos depois desse momento.
Rhodan e Claudrin previram corretamente a duração da viagem em dezoito horas. Mas houve um imprevisto.
O pequeno sol amarelo em torno do qual gravitava, segundo se dizia, o planeta Okul, não foi encontrado. Devia haver um erro nos dados de posição fornecidos pelo Dr. Nearman.
No lugar onde se encontraria Okul não existia nada!
8



A água era rasa e pantanosa. Era tão quente que fumegava e borbulhava. Onde terminava o pântano começava a selva. Era um mundo colorido e cintilante, feito de árvores, flores, trepadeiras, samambaias e outras plantas. As raízes das árvores tombadas surgiam acima do lodo. O ar estava quente e abafado.
Entretanto havia vida nesse mundo. E vida inteligente. Era bem verdade que vinha de outro planeta, mas sempre era uma forma de vida inteligente.
O céu apresentava-se em cor amarelenta. Só mesmo dali podia-se contemplá-lo. Quem se encontrasse na selva não o enxergaria.
O homem que deslocava o barco tosco, usando uma vara que encostava a intervalos regulares ao fundo do pântano, não mostrava-se como quem tivesse vindo a esse lugar tão-somente para contemplar as nuvens.
Aquele homem solitário fazia a canoa avançar à força de vigorosos empurrões. A maneira pela qual olhava a paisagem provava que conhecia o lugar.
Era alto e esbelto; quase chegava a ser magro. Acima do nariz adunco havia um par de olhos cinzentos. No rosto havia uma expressão aristocrática.
O rosto era de Perry Rhodan!
Seu corpo, sua postura e seus movimentos, tudo isso parecia ter sido tomado de empréstimo de Rhodan.
Acontece que aquele homem não era Rhodan. Seu nome era Thomas Cardif, o filho do grande terrano. Embora de uma forma diferente, sua vida fora tão variada e cheia de aventuras como a do pai.
Mas havia uma diferença.
Perry Rhodan lutava pela Terra!
E Thomas Cardif lutava contra.
O sangue arcônida que corria em suas veias fazia com que não envelhecesse tão depressa como os terranos. Naquele momento parecia-se com o pai sob todos os pontos de vista. Seria impossível encontrar uma diferença visível entre um e outro.
Cardif levou o barco em direção à margem. Com grande habilidade fê-lo passar entre duas gigantescas raízes. Ouviu o canto dos pássaros, vindo da selva. Milhões de insetos dançavam sobre a água. Subiam e desciam em densas nuvens. Na margem havia um lugar raso e arenoso. Cardif tomou esta direção.
Naquele lugar esperava-o um pequeno avião, semelhante a um helicóptero. Um sorriso sarcástico surgiu no rosto de Cardif. Ao lado da aeronave havia um homem envolto numa capa, agitada pelo vento. Mesmo visto de longe, parecia taciturno e fechado. Segurava uma estranha arma de radiações.
No seu aspecto exterior, o homem se parecia com um arcônida de puro sangue. Acontece que era um sacerdote da seita de Baalol — um anti. Ao que se supunha, os antis eram descendentes de arcônidas emigrados há muito tempo, e que haviam sofrido mutações paranormais.
Cardif chegou ao porto natural e saltou do barco. Amarrou-o e percorreu lentamente a distância que o separava do avião.
O anti baixou a arma. Seus olhos sombrios não mostravam a menor emoção.
O senhor acha que esse tipo de excursão é muito interessante? — perguntou, dirigindo-se a Cardif. — Se cair do barco, estará perdido. Nesse caso, nem mesmo esta arma poderia salvá-lo.
Já fiz coisas muito mais perigosas — disse Cardif.
Poderíamos ter sobrevoado o pântano com o avião — ponderou o sacerdote.
Cardif lançou um olhar de desprezo para a máquina voadora. Apontou para a água.
Só existe uma possibilidade de localizar os animais — disse. — O senhor deveria saber disso melhor que qualquer outra pessoa, Hekta-Paalat.
O aspecto de Paalat tornou-se ainda mais sombrio. Se é que havia alguma amizade entre ele e o terrano, os dois faziam questão de não revelá-la. Mas Cardif não deixou que as palavras mordazes do anti o abalassem.
Estamos construindo um barco especial — lembrou Paalat. — Se tivesse esperado mais alguns dias, sua excursão com essa canoa feita pelo senhor teria sido desnecessária.
Um estranho brilho surgiu nos olhos de Cardif.
Esperar — disse em tom amargurado. — Já esperei demais. Agora é minha vez. Ainda acontece que sempre sugeri que os animais fossem criados em poças d’água. Dessa forma não teríamos de caçá-los constantemente.
O anti ouvia-o com uma visível contrariedade.
Todas as tentativas de manter os animais vivos num ambiente confinado falharam por completo. Vegetaram por alguns meses e acabaram morrendo. Enquanto não soubermos o motivo, será inútil tentar criá-los.
O filho de Rhodan entrou no avião, seguido pelo sacerdote. O calor quase insuportável fazia-os transpirar.
Se formos lentos e nos mantivermos à espera, não conseguiremos vencer a Terra — disse Cardif, em tom impaciente. — Devemos atacar em vários lugares ao mesmo tempo, recorrendo a todos os meios.
Pela primeira vez algo parecido com um sorriso esboçou-se no rosto de Hekta-Paalat. Dobrou a manta sobre as pernas.
Existem vários métodos de derrotar um inimigo — disse. — Nem sempre o mais rápido é melhor. A impaciência do senhor tem sua origem no ódio que sente por seu pai. A impaciência e o ódio são sentimentos que fazem com que a pessoa aja irracionalmente.
Cardif respondeu em tom de desprezo:
Normas do Ocultismo! Sua raça já se acostumou tanto a tais lemas que não consegue livrar-se dos mesmos. O que importa é golpear no momento exato. Será que minhas recomendações, que representaram um apoio na luta contra Árcon e a Terra, têm algo de irracional? De forma alguma! No momento até sou o maior trunfo desse jogo oculto. O filho do homem mais importante do Império Solar está do lado de vocês.
Evidentemente apenas sob o ponto de vista estratégico — disse Hekta-Paalat, com um sarcasmo mordaz.
Cardif não respondeu; deu partida no motor. O avião ergueu-se do solo com um ruído quase imperceptível. Cardif estava acostumado a ouvir respostas irônicas. Raramente estivera do lado da Justiça, mas nem mesmo os injustos compreendiam que queria destruir seu pai. Aproveitavam seus sentimentos e seus planos, mas não os respeitavam. Apenas o respeitavam na sua qualidade de colaborador inteligente e capaz.
9



Se pendurarmos um saco de ervilhas ao ar livre e o abrirmos embaixo, fazendo com que as ervilhas caiam, obteremos um quadro caótico, surpreendente. Em alguns lugares haverá poucas ervilhas no chão, em outros lugares haverá muitas. Só no centro as ervilhas se aglomeram a tal ponto que se torna difícil encontrar esta ou aquela dentre elas.
Uma via láctea oferece um quadro semelhante. À medida que nos aproximamos do centro da mesma, a aglomeração de estrelas se torna mais densa. As distâncias entre os sóis vão diminuindo; as distâncias enormes entre os sistemas existentes na periferia de uma galáxia vão-se encolhendo. Nossa Via Láctea compreende cerca de cem bilhões de estrelas singulares. É um número inimaginável. No entanto, é apenas uma dentre muitas. Seu formato é o de um disco, cujo plano principal mede cerca de oitenta mil anos-luz. A maior dimensão vertical, porém, é de “apenas” dezesseis mil anos-luz.
A profusão de estrelas, que se apresentava às pessoas que observavam a tela da sala de comando da Ironduke, não poderia ser comparada com o quadro que se oferecia na periferia da Galáxia. No centro da Via Láctea existem bilhões de sóis.
Muitos milhões dentre eles são pequenas estrelas amarelas.
Segundo as informações fornecidas pelo Dr. Nearman, o planeta Okul gravitaria em torno de um sol desse tipo. Mas quando a Ironduke emergiu do semi-espaço, que ela mesma criara com as energias do conversor kalupiano, logo se viu que evidentemente os dados sobre a posição do planeta, fornecidos pelo biólogo, não eram muito precisos.
Perry Rhodan fitava intensamente a tela panorâmica. Reginald Bell e Jefe Claudrin encontravam-se a seu lado. Todas as pessoas da sala de comando fitavam os três homens sem dizer uma palavra. Depois do desapontamento, a depressão espalhara-se entre eles. Todos esses homens tinham conhecimentos suficientes de navegação galáctica, para compreenderem que as chances de encontrar Okul eram extremamente reduzidas.
Parece que o vôo foi inútil — observou Claudrin, depois de algum tempo.
Era bastante realista para exprimir sua opinião em voz alta. Virou a enorme cabeça para Rhodan.
O que acha, sir?
Cada um dos pontos que apareciam na tela representava um sol. A panorâmica parecia um tapete bordado de pérolas. Face a um quadro desses, Rhodan só poderia concordar com o comandante da Ironduke.
Rhodan também era realista. E seu realismo lhe dizia que não poderiam deixar de encontrar Okul, a fim de terem um ponto de partida para defender-se da ação criminosa dos antis. Milhões de seres humanos depositavam sua confiança nesses homens. Havia um governo mundial com ministros e outras autoridades, mas os homens identificavam Rhodan com esse governo, vivendo seus êxitos e fracassos.
Rhodan levantou a cabeça. Fez um sinal em direção à tela panorâmica.
Nós o procuraremos.
O silêncio reinante na sala de comando parecia ainda mais profundo. Mas só durou um instante. Logo um novo estímulo pareceu surgir naqueles homens. As palavras de Rhodan os haviam arrancado do desespero. Se o administrador dava ordens para realizar buscas, devia haver uma possibilidade dessas serem bem-sucedidas.
Gucky que, ao contrário do que costumava fazer, permanecera quieto por algum tempo, disse com a voz ressentida:
Quer dizer que teremos de ficar por mais tempo nesta “caixa”?
Acredito que nossas buscas logo serão coroadas de êxito — disse Bell, com um tom estranho na voz.
Ah, é? — piou o rato-castor, cético. — O que o levou a ter idéias tão ingênuas?
A bordo desta nave existe alguém que tem um nariz muito comprido — respondeu Bell.
O rato-castor apalpou seu órgão do olfato. Depois olhou em torno. Mas logo teve de constatar que Bell realmente aludira a ele.
Existe uma lei psicológica, segundo a qual todo homem que possui cabeça de cenoura é roído pela inveja — disse Gucky.
Uma gargalhada aliviadora encheu a sala de comando. O fracasso estava esquecido.
Vamos ao trabalho — ordenou Rhodan. — Não adianta vagarmos por aí ao acaso. Por isso trabalharemos em conformidade com um método bem definido. Não sabemos qual é a diferença nos dados fornecidos pelo Dr. Nearman. Logicamente devemos iniciar nossas buscas nas estrelas mais próximas. Faremos de conta que o ponto em que nos encontramos neste momento é o centro de uma esfera.
Rhodan sabia que, do centro dessa esfera, vários eixos levariam aos diversos sóis. Uma vez que a maior parte deles possuía planetas, tornava-se imprescindível realizar pesquisas exatas em cada caso.
Claudrin já estavam transmitindo suas ordens. Depois de alguns minutos foi escolhida a primeira estrela que serviria de objeto às suas buscas. Enquanto a Ironduke se deslocava em direção à mesma, a uma velocidade várias vezes maior que a da luz, outros cálculos foram realizados
Nas salas dos tripulantes, a disposição de ânimo era boa. Ainda não se tinha um conhecimento exato sobre a natureza da missão. Segundo as informações que filtraram, a ação se dirigia contra os antis.
Antes que a Ironduke atingisse a estrela escolhida em primeiro lugar, os soldados da unidade de elite já haviam descoberto que ainda não haviam encontrado o planeta que procuravam.
Gostaria de saber uma coisa — disse Hans Berker ao sargento Emery, que reclinara o corpo e segurava firmemente a carabina automática. — Por que Rhodan não põe em ação a Frota? Se algumas centenas de naves cruzassem os céus nesta área, chegaríamos ao destino mais depressa.
Nesse caso, os antis teriam vários pontos capazes de refletir seus raios goniométricos — respondeu Emery. — Acredito que o chefe pretenda realizar um ataque de surpresa. Se a Frota aparecer por aqui, a surpresa já era. A presença da Ironduke não poderá ser constatada por qualquer rastreador estrutural, desde que permaneça na zona de libração.
Devemos confiar nos homens que comandam a nave — observou Henderson.
Sim, senhor — respondeu Berker.
Mas Emery logo viu que a confiança de Henderson não servia para muita coisa. Seu superior hierárquico estava nervoso e inseguro. Emery conhecia Henderson e sabia que essa insegurança só terminava com a luta. Quando esta tinha início, esse homem estranho tornava-se a pessoa mais importante de sua unidade. Suas ordens eram tranqüilas e bem ponderadas.
Emery acariciou a carabina. Lembrou-se de que os homens que se encontravam no centro de comando de tiro da Ironduke deviam ter a impressão de que as carabinas eram supérfluas, já que as armas eficientes e modernas da nave seriam utilizadas.
Será que se esperava que justamente essa combinação de armas antigas e modernas trouxesse a vitória? Além das carabinas automáticas haviam distribuído fuzis de radiações. Emery lembrou-se da pergunta irônica de um soldado, que quis saber se, durante a luta, sempre estaria presente um superior, para ordenar que arma deveria ser utilizada.
A risadinha de Berker arrancou Emery de suas reflexões. O alemão fitou o sargento alegremente. Emery preferiu não formular nenhuma pergunta. Qualquer soldado tinha o direito de estar alegre antes de uma batalha. E o fato de que ele, Emery, era o motivo da alegria, em nada alterava a substância desse direito.
A alegria não durou muito, nem na sala dos tripulantes nem na de comando.
O primeiro sol ao qual a Ironduke se dirigiu possuía dois planetas. Gravitavam a uma distância tão grande em torno de sua estrela que o calor desta dificilmente poderia atingi-los. Tratava-se de mundos cobertos de desertos de metano e amoníaco congelado.
O sol seguinte só possuía um planeta. Não era Okul, mas apesar disso ofereceu uma visão extraordinária aos astronautas. Estava cercado por um véu luminoso. Até parecia que a atmosfera fora enriquecida com fósforo. Mas não tiveram tempo para realizar uma investigação minuciosa.
Seguiram-se mais seis sistemas, após os quais houve uma interrupção, que foi preenchida com discussões sobre a situação.
As buscas prosseguiram. A Ironduke deslocava-se tranqüilamente de uma estrela à outra. Mas foi tudo em vão. Sete horas se passaram, sem que Okul fosse encontrado.

* * *

Desde o início de sua carreira, Reginald Bell tinha idéias bem definidas sobre a disciplina. Antes de mais nada, não era amigo do formalismo uniformizado. Achava que um homem de colarinho aberto pode combater tão bem, ou até melhor, que um soldado impecavelmente trajado.
Cerrou os olhos, abriu o botão superior da camisa, esfregou o peito e disse:
Estamos num beco sem saída.
Sem dúvida foi a afirmação mais categórica, formulada no interior da Ironduke, sobre o resultado até então alcançado por sua missão. E foi também a mais exata.
O quadro oferecido pelos aparelhos óticos e de localização continuava inalterado. A nave linear, que era um veículo espacial de oitocentos metros de diâmetro, pertencente à classe Stardust, continuava numa área que ainda pertencia ao sistema da Via Láctea. Embora as estrelas retratadas na tela panorâmica sempre fossem outras, sob o ponto de vista ótico não havia a menor modificação. O vôo da Ironduke conferia um triste significado à lendária procura de uma agulha num palheiro.
Estamos num beco sem saída.
Nem todas as pessoas que se encontravam a bordo da nave compreenderam todo o sentido trágico dessas palavras. De repente, a chance de resistir aos antis, que se oferecera à Terra, voltara a ser mínima. Se a Ironduke regressasse sem ter conseguido nada, o resultado seria uma depressão profunda e generalizada. Era bem verdade que os cientistas terranos trabalhavam noite e dia, a fim de encontrar um antídoto para a droga diabólica. Porém ninguém poderia dizer se seus esforços seriam coroados de êxito.
Jens Averman, o ossudo técnico de goniometria da Ironduke, estremeceu ao ouvir as palavras de Bell. Lançou um olhar para Perry Rhodan, que era responsável pela ação. Até mesmo Jefe Claudrin aguardava um pronunciamento de Rhodan. Enquanto o administrador se encontrava a bordo, era ele quem exercia o comando.
As informações que Miguel Desoga nos enviou de Lepso contêm um erro num ponto decisivo, ou então o Dr. Nearman começou a delirar pouco antes de morrer. Já começo a duvidar da correção das coordenadas fornecidas por ele. Não devemos esquecer-nos de que nem mesmo os velhos catálogos de Árcon mencionam o planeta Okul.
Rhodan fitou os homens com uma expressão séria e concluiu:
Ao que tudo indica deixamos arrebatar-nos por uma informação falsa.
Não havia necessidade de explicar a quem quer que fosse qual era o significado dessas palavras. A ação chegara ao fim. Alguns terranos se haviam arriscado a executar alguns movimentos no interior da teia de aranha e ficaram irremediavelmente perdidos. O plano dos antis parecia mais seguro que nunca. Era apenas uma questão de minutos que Rhodan ordenasse o regresso. O regresso à Terra, a qual, em virtude do criminoso trabalho de sapa da seita de Baalol, vinha sendo transformada progressivamente numa concentração de viciados em entorpecentes.
Claudrin disse com a voz estranhamente abafada:
Quer dizer que as buscas serão suspensas?
Na Terra, precisam desesperadamente de nós — respondeu Rhodan. — Não adianta perder mais tempo à procura de Okul.
Gucky aproximou-se, arrastando os pés. Seus sentidos paranormais não deixaram de perceber que seu grande amigo se sentia desesperado. Não houvera nenhum combate, mas a missão da Ironduke fracassara e se transformara numa derrota para a Humanidade.
Fizemos o que estava ao nosso alcance, Perry — exclamou o rato-castor, com a voz aguda.
Gucky está com a razão, sir — disse John Marshall, cuja tranqüilidade continuou inalterada. — Não se esqueça de que existem outras maneiras de atacar os antis.
Sem dúvida — confirmou Rhodan, em tom amargurado. — Só falta encontrá-los.
O vulto gigantesco de Jefe Claudrin passou por Bell.
Quais são as ordens, sir?
Rhodan levantou-se e aproximou-se da tela panorâmica. O brilho das estrelas era frio e indiferente. Em meio ao silêncio reinante na sala de comando, os homens aguardavam a decisão de Rhodan.
O administrador entesou o corpo. O rosto continuou impassível.
Vamos desistir — disse com a voz arrastada.
10



Valmonze levantou o copo e fez um gesto para Thomas Cardif. Hekta-Paalat e Rhabol acompanhavam tudo em silêncio. Não simpatizavam com os saltadores e só os toleravam, pois eram sócios.
Possuo alguma experiência em matéria de entorpecentes — disse Valmonze, passando a mão pela barba e piscando para o filho de Rhodan. — Há um ano fizemos uma tentativa de usá-los, a fim de minarmos a influência da Terra na Galáxia. Na oportunidade vendemos os entorpecentes terranos aos outros planetas. Indiretamente todos culpavam a Terra. Em virtude de um acaso infeliz o plano não deu certo.
O patriarca dos saltadores não mencionou o fato de que o acaso infeliz foi devido, em grande parte, a um erro cometido por ele.
Apesar de tudo devíamos pensar sobre minha proposta — disse Cardif. — A esta hora, os habitantes da Terra já conhecem os perigos do liquitivo, e por isso podemos suspender as remessas. Segundo os cálculos, o número dos viciados chega a duzentos milhões, só na Terra. Pelo que sei de Rhodan, isso bastará para exercer pressão sobre ele.
Valmonze bebeu ruidosamente e lançou um olhar indagador para os sacerdotes. Já constatara que o terrano pretendia desenvolver uma ação implacável contra os seres de sua raça. Sua fuga arrojada de Lepso não modificara sua opinião. Cardif odiava seu pai, e estendia esse ódio à Terra.

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