A história
de todos os impérios galácticos tem algo em comum. Trata-se de um
fator que parece constituir um paradoxo. À medida que um império
estelar se expande, a medida que cresce em tamanho, maiores são os
perigos a que está exposto, e isso por dois motivos. Um pequeno
império, guardado por um imperador, não tem muita coisa a recear.
Se o império for desmantelado, a respectiva comunidade passa
automaticamente para o inimigo e, sob o governo deste, prossegue na
sua vida tranqüila. Tal procedimento não seria possível para um
grande império. Este deve lutar pela sua existência, enfrentando
inimigos tão fortes como ele, inimigos mais fortes ou mais fracos.
Raramente uma raça consegue dominar sozinha a galáxia que habita.
O motivo
disso reside nas imensas distâncias que separam os diversos sistemas
solares. Um império cósmico evidentemente é dirigido a partir do
planeta que serve de pátria à respectiva raça. Dali saem fios
invisíveis que unem o centro aos planetas coloniais, aos entrepostos
comerciais e aos mundos habitados pelas raças amigas ou subjugadas.
Com o tempo, a tarefa de coordenar os acontecimentos assume
proporções gigantescas. Mesmo que se disponha de todos os recursos,
torna-se impossível controlar permanentemente um enorme império
estelar a partir de um único planeta.
A
conseqüência inevitável disso é a aquisição da soberania
política por parte de vários planetas coloniais, que passam a
trilhar seus próprios caminhos. A tarefa de controlar uma via láctea
de dimensões fantásticas a partir de um único planeta excede a
capacidade mental de qualquer criatura inteligente. Nem mesmo o poder
militar concentrado será capaz disso, pois este se perderá em meio
às estrelas.
A história
das raças que alcançaram um grau elevado de desenvolvimento mental
ensina que o império apenas representa uma fase de transição. É
nessa fase que se decide o destino de uma raça. Alguns povos
conseguem, graças ao seu desenvolvimento mental e tecnológico,
recolher-se em sua área e isolar-se contra todos os ataques. Outros
são invariavelmente destruídos.
Uma
velhíssima lei cósmica diz que, quanto mais desenvolvida uma raça,
mais retraída se mostra ela na luta pelo poder galáctico.
Mas, para
atingir esse estágio, a raça não pode deixar de percorrer o
caminho penoso do império.
O Império
Solar encontrava-se no começo desse caminho.
Entretanto,
já agora notava-se que as dificuldades cresciam constantemente. Os
inimigos tornavam-se cada vez mais numerosos e poderosos. Um dia, um
filósofo arcônida dissera: “A
única coisa que fazemos é estender constantemente nosso campo de
batalha. De resto, nada muda.”
E o
Império Solar mais uma vez estava prestes a estender seu campo de
batalha. De repente uma área galáctica, até então inexplorada,
passara a oferecer grande interesse.
A 41.386
anos-luz da Terra existia um pequeno sol amarelo, que se situava no
centro da Via Láctea. Em torno dele gravitava um planeta, cuja
existência até então era ignorada na Terra. Era o planeta Okul. O
sistema possuía mais dois mundos, que não tinham nome e não
ofereciam o menor interesse.
*
* *
As
instituições oficiais de pesquisa da Terra pareciam casas de
marimbondos. Trabalhava-se noite e dia para pesquisar as
características do entorpecente e descobrir um antídoto para o
mesmo.
Quando a
altas horas da noite se encontrou com o Marechal Solar Freyt para
discutir os resultados que os computadores haviam extraído da fita
gravada e enviada por Desoga, Perry Rhodan estava exausto.
Enquanto
isso Reginald Bell supervisionava ao lado de Allan D. Mercant o
interrogatório dos aras presos em Lepso. Os médicos galácticos
estavam sendo interrogados pelos membros do Exército de Mutantes.
Rhodan esperava que esses interrogatórios permitissem conclusões
valiosas quanto ao entorpecente.
— Boa
noite, sir — disse Freyt no tom tranqüilo que lhe era
característico.
O marechal
tinha muita coisa em comum com o administrador.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Já
está na hora de dizer bom dia — observou. — Já passa da
meia-noite.
Ao
sentar-se, Freyt respondeu com o rosto impassível:
— Não
queria privá-lo da sensação de que ainda dispõe de algumas horas
da noite para um repouso bem merecido.
Rhodan
ofereceu-lhe um refrigerante. Perry sabia que o marechal costumava
trabalhar duro e não gabava-se do que fazia. Assim que Freyt
terminou de tomar o refrigerante, disse em tom tranqüilo:
— Espero
que tenha boas notícias, sir.
— Segundo
os cálculos de probabilidade, Okul é o local em que se situa a
fonte de suprimentos da matéria-prima para a fabricação do
entorpecente — informou Rhodan. — Ao que tudo indica, o tal do
Dr. Nearman representou uma boa presa. É pena que tenha morrido. Se
o especialista em segurança que temos em Lepso fosse menos
competente, provavelmente nem sequer disporíamos dos dados que temos
à nossa frente. Esse Miguel Desoga não perdeu tempo.
— Quer
dizer que é possível que em Okul cresçam as plantas das quais os
antis extraem o liquitivo?
Rhodan
refletiu por um instante. Nos últimos dias, um número cada vez
maior de cientistas ressaltara o fato de que possivelmente o
entorpecente não era feito com matérias-primas vegetais. De
qualquer maneira, porém, o planeta Okul desempenhava um papel
importante no plano dos antimutantes.
— Tenho
a impressão de que as informações recebidas de Lepso não são
simples fantasias de um doente mental. Desoga enviou um relatório
escrito no qual informa que, em sua opinião, as declarações do Dr.
Nearman correspondem à verdade. Afinal, o biólogo encontrava-se sob
a influência de uma série de injeções.
Freyt
afastou o copo vazio. Sabia que só lhes restava uma possibilidade.
Teriam de ir a Okul. O marechal solar acreditava conhecer o
administrador suficientemente bem, para saber que naquele momento ele
tinha a mesma idéia. Até era provável que o motivo de sua
presença, nesse lugar, a uma hora tão avançada, tinha algo a ver
com os planos de Rhodan a este respeito.
— Para
falar com franqueza, no momento estamos com as mãos amarradas —
disse Rhodan. — Os antis mantêm-se escondidos. Conseguiram
distribuir quantidades tão grandes do entorpecente que, quando
notamos o perigo, já era tarde.
Lançou um
olhar apreensivo para Freyt e prosseguiu:
— Sei
perfeitamente que vários oficiais da Frota não concordam com a
suspensão do bloqueio.
Freyt
conhecia Rhodan o suficiente para compreender que o administrador se
preocupava com a lealdade das pessoas que o ajudavam.
— Muita
gente nos criticou por não termos notado mais cedo o perigo do licor
— respondeu Freyt. — Duvida-se da seriedade dos testes a que são
submetidos todos os produtos que entram no comércio cósmico.
— Ponho
minha mão no fogo por cada um dos cientistas que realizou os
controles — asseverou Rhodan.
Antes que
Freyt tivesse tempo de responder, alguém bateu à porta. Freyt virou
a cabeça e viu Bell entrar. O gorducho parecia esgotado. Caminhou a
passos rápidos em direção a uma poltrona e deixou-se cair com um
suspiro.
— Boa
noite, sir — disse Freyt, numa cortesia irônica.
Bell
sentiu-se indignado.
— Estou
morto de cansaço — disse. — Esses aras são gente dura. John
Marshall e cinco dos seus homens trabalharam ininterruptamente até
agora, para extrair tudo dos mesmos — agitava a mão na frente do
rosto, como se quisesse transformá-la num leque.
As feições
de Rhodan assumiram uma expressão enérgica. Sabia que Bell estava
aludindo aos aras presos em Lepso. Thomas Cardif trabalhara com eles.
— O que
foi que os mutantes descobriram? — perguntou Rhodan.
Bell
preferiu não olhar diretamente para o amigo. Freyt, que era um
observador muito atento, logo desconfiou que aquele homem atarracado
trazia notícias desagradáveis.
— Os
aras confessaram quem descobriu a droga maldita — principiou Bell,
em tom deprimido.
Mal Bell
concluiu a frase, Freyt sabia quem era o descobridor. Tanto ele como
Bell teriam concordado em mudar de assunto. Mas o orgulho de Rhodan
obrigou-o a formular uma pergunta.
— Quem
é?
Bel e
Freyt entreolharam-se prolongadamente. Também para eles, o destino
trágico do amigo representava uma carga psíquica. Por algum tempo
reinou um silêncio constrangedor. Finalmente Bell disse:
— É
Thomas Cardif.
Qualquer
pessoa estranha, que soubesse que o nome que acabara de ser
pronunciado naquele momento pertencia ao filho de Rhodan, acreditaria
que o administrador fosse uma criatura fria como gelo. Bell e Freyt,
porém, souberam enxergar através da blindagem do autodomínio. E
viram o que havia atrás da mesma: tristeza e amargura.
Bell
levantou as duas mãos.
— Não
se esqueça de que Cardif estava submetido a um bloqueio hipnótico.
Quando
trabalhava na descoberta do liquitivo, não era dono de si mesmo. Não
se esqueça de que usava o nome Dr. Edmond Hugher. Provavelmente os
antis conseguiram romper o bloqueio hipnótico por meio de suas
energias mentais. Os atos de Cardif são dirigidos exclusivamente
contra você e têm por fim destruí-lo. Os boatos insensatos
confundiram sua mente.
— Isso
foi uma fala muito eufemística — observou Rhodan, sarcástico. —
Para exprimir a mesma coisa em poucas palavras, podemos dizer que
Thomas Cardif, filho de Rhodan, é um criminoso.
— Isso
apenas representa o resultado de uma série de circunstâncias
infelizes — disse Bell, em tom apaixonado.
— Você
não se lembra de que tentou trair a Terra, entregando-a aos
saltadores? Não se lembra de um certo saltador que atendia ao nome
Cocaze? — Rhodan elevou a voz. — Cardif e esse patriarca andaram
de mãos dadas. Quase conseguiram destruir o Império Solar.
— Houve
ao menos uma coisa que ele herdou do pai — disse Bell. — É a
arte de colocar o adversário em situação difícil.
Reginald
Bell provavelmente era o único homem que podia arriscar-se a
criticar Rhodan em questões particulares. Não usava esse direito
com muita freqüência, mas sempre que o fazia agia da maneira
impulsiva que lhe era peculiar. Raramente Rhodan comentava as
acusações de Bell; via de regra recebia-as em silêncio. Já sabia
que cometera um erro ao permitir que seu filho fosse criado por
pessoas estranhas. Cardif crescera sem o amor dos pais. O jovem frio
transformou-se num inimigo encarniçado do pai. Rhodan já tentara
promover a reconciliação. Oferecera sua mão a Cardif, junto ao
túmulo de Thora. Mas sob o olhar de todos os presentes, inclusive
dos telespectadores, Cardif recusara a amizade que lhe era oferecida.
Essa cena dolorosa estava indelevelmente gravada na memória do
administrador do pequeno império, que usava o nome de solar e que
estava prestes a transformar-se num fator decisivo da luta pelo poder
que se desenvolvia no interior da Galáxia.
— Teoricamente
existe a possibilidade de que Cardif se encontre em Okul. Uma vez que
de acordo com as informações que conseguimos colher, esse mundo
deve ser o centro de fabricação do entorpecente, não temos outra
alternativa senão partir para o ataque.
Rhodan
acabara de proferir as palavras decisivas. A época de agüentar
quieto chegara ao fim.
A vítima
da aranha começava a deslocar-se na teia, exatamente em direção ao
centro da mesma.
— Provavelmente
já formaram certas idéias sobre nosso procedimento, sir — disse
Freyt, que se sentia feliz porque o tema desagradável, que se
desenvolvia em torno de Thomas Cardif, não mais estava sendo
mencionado. — Já tem alguma ordem definida para a Frota?
Rhodan fez
um gesto de assentimento. Seu rosto expressivo adquirira vida. Os
três homens estavam conferenciando a altas horas da noite. Muita
coisa podia depender das decisões que tomassem — talvez tudo.
— As
condições para a ação a ser desenvolvida contra Okul são
totalmente diversas daquelas a que estamos acostumados — disse
Rhodan. — Devemos desferir um golpe fulminante. O inimigo só deve
notar nossa presença, quando já for tarde para esboçar qualquer
reação.
Bell
endireitou o corpo. O cansaço parecia ter desaparecido.
— A
Ironduke — disse em tom enfático. A Ironduke era uma nave de
oitocentos metros de diâmetro, da classe Stardust, equipada com o
sistema de propulsão linear. Enquanto a Fantasy tivera que dispensar
parte do armamento usual, a Ironduke dispunha de todo o arsenal de
armas altamente eficientes. Depois de mergulhar no semi-espaço, não
podia ser localizada por qualquer rastreador estrutural. Não havia
nenhum aparelho de localização capaz de determinar sua posição. A
nave deslocava-se numa espécie de corredor, situado entre as
dimensões. Esse corredor era criado pelo conversor inventado pelo
Dr. Kalup. Um campo de compensação absorvia as influências da
quinta dimensão, que se identificava com o hiperespaço, a tal ponto
que não surgia uma desmaterialização total.
A nave
linear percorria uma rota-fantasma, situada numa zona de libração
onde as influências da quarta e da quinta dimensão perdiam seus
efeitos. Fazia mais de cinqüenta anos que se conseguira arrancar o
segredo do vôo linear dos invasores, vindos de outra dimensão
temporal. Isto é, dos druufs. Mas muito tempo se passara entre o
tempo de aquisição dos princípios teóricos do sistema de
propulsão linear e sua realização prática, através da construção
de uma nave linear terrana.
— Você
está com toda razão — disse Perry Rhodan, concordando com o
amigo. — Os campos de absorção evitarão que os antis nos
localizem antes da hora. Quando emergirmos da zona de libração, não
terão tempo para esboçar uma reação planejada.
No seu
íntimo, Rhodan estava convencido de que qualquer ataque contra Okul
seria inútil, a não ser que se descobrisse logo um antídoto contra
o entorpecente. Não adiantava nada arrasar um templo dos antis atrás
do outro, já que o germe da doença estava espalhado pela Terra e
suas colônias.
Na melhor
das hipóteses, Okul representava uma débil esperança.
Freyt e
Bell pareciam não sentir essas dúvidas. Naquela hora avançada da
noite, estavam desenvolvendo um plano de batalha.
Rhodan
sabia que havia mais alguma coisa a fazer antes que a Ironduke
pudesse decolar. O detalhe mais importante era o armamento.
Felizmente,
por enquanto não havia ninguém na Frota Solar que desconfiasse das
intenções de Rhodan. Perry pretendia armar os tripulantes da
Ironduke com velhas carabinas-metralhadoras. Se estes soubessem do
tal plano, ficariam indignados.
Justamente
quando se tratava de enfrentar o inimigo mais perigoso do Império
Solar, o administrador pretendia utilizar armas que há muito eram
consideradas obsoletas?
7
Muita
coisa já fora dita sobre o caráter de John Emery. Dizia-se que era
preguiçoso, mau, tagarela, impertinente e egoísta. Era possível
que essas acusações tivessem sua origem numa convicção sincera,
mas assim mesmo constituíam indício de falta de senso psicológico.
John Emery
não passava de um talento em matéria de organização. E, nessa
área, chegara mais longe que em sua carreira na Frota Solar, onde
apenas ocupava o posto de sargento. Era bem verdade que podia
orgulhar-se de pertencer a uma tropa de elite, que só entrava em
ação em casos especiais. Entretanto era a única coisa que podia
ser alegada para enaltecer suas glórias militares.
Sempre que
Emery descobria que alguma pessoa conhecida dispunha de algo que lhe
parecia importante, era apenas uma questão de tempo que o objeto
desejado pelo sargento passasse às suas mãos. Na Frota já houve
pessoas que quiseram imitá-lo. Alguns homens até chegaram a
manifestar o desejo de também instalar um depósito. Mas em
comparação com Emery, seus concorrentes não passavam de amadores.
O sargento
trabalhava com um entusiasmo a que ninguém conseguia resistir. A
causa disso não podia ser procurada em sua constituição física,
pois aquele homem pesava mais de cem quilos e não havia em seu corpo
nenhum lugar onde a ossatura se tornasse saliente. Por outro lado,
Emery não era charmoso e trabalhava sem a menor “gentileza”.
Era simplesmente um certo quê que fazia dele o que era.
A lenda —
Emery já se transformara numa lenda — dizia que em seu depósito
havia de tudo, desde a trança cortada de um chinês até a obturação
eletromagnética do dente de um nativo de Ferbador.
Se havia
alguma coisa que não se encontrasse no depósito de Emery, ele a
arranjaria. Conseguia satisfazer todos os seus mínimos desejos. E
sua remuneração era tão sofisticada como seu trabalho. Sempre
exigia alguma peça de propriedade da pessoa que lhe confiava alguma
tarefa.
Dessa
forma John Emery, sargento de uma unidade de elite da Frota Solar,
transformara-se no curso dos anos numa verdadeira potência comercial
em sua área.
Segundo
afirmavam seus amigos, não havia nada que pudesse surpreendê-lo.
No dia 9
de abril de 2.103, Emery sofreu um terrível choque.
Deitado em
sua cama simples, estava refletindo sobre como poderia fazer com que
Eduard Gooding, um homem vindo da Nigéria, se desfizesse da máscara
trabalhada a mão que trouxera de sua terra natal. Emery não tinha
nenhuma predileção especial por esse tipo de máscara, mas o
soldado Bergota estava louco pela mesma. Como Gooding tivesse
demonstrado a obstinação de um búfalo, Bergota dirigira-se a
Emery, para relatar-lhe seu insucesso.
Emery
refletia tão intensamente para descobrir um meio de convencer o
negro que só da terceira vez ouviu o leve zumbido.
O sargento
saiu da cama. Tinha idéias bem definidas sobre uma manhã de folga
bem repousante. E um chamado a uma hora dessas não se harmonizava
com essas idéias.
Emery
ligou a tela do videofone, que fora construída por ele mesmo, e
esperou que o aparelho se aquecesse.
Finalmente
viu o rosto contrariado de um homem, que evidentemente não tinha uma
opinião muito favorável sobre o receptor construído por Emery.
— Com o
senhor a coisa sempre é tão demorada? — perguntou em tom
indignado.
O sargento
fitou-o com uma expressão que representava uma mistura de irritação
mal disfarçada e de um débil senso de humor.
— Às
vezes isso acontece — respondeu.
— O
senhor tem de interromper a folga — disse o homem.
Só agora
Emery viu que o sujeito da tela usava uniforme. Fez uma tentativa
desastrada de tornar mais apresentável seu pijama, repuxando-o sobre
a barriga. Depois disso enfiou o indicador da mão direita na orelha.
— Está
sentindo alguma coceira? — perguntou o homem uniformizado, em tom
frio.
Emery teve
vontade de dizer que podia sentir coceira em vários lugares, sem que
ninguém tivesse nada com isso. Mas limitou-se a bocejar
gostosamente.
— Apresente-se
imediatamente ao seu comandante — prosseguiu o homem de uniforme. —
Sua unidade deverá reunir-se dentro de três horas no porto
espacial.
A primeira
idéia, que lhe veio a mente, estava ligada à sua cama. E a segunda
dirigia-se ao infeliz Bergota, que teria de ficar por um tempo
indefinido sem a máscara que desejava. Finalmente, pensou na folga
tão curta.
— Está
bem — disse em tom contrariado.
Fez uma
ligação e pediu a um amigo que cuidasse de seu depósito de
preciosidades. Não queria que ficasse abandonado durante sua
ausência. Depois disso procurou entrar em contato com Bergota.
Dali a uma
hora dirigiu-se ao gigantesco porto espacial de Terrânia. Ainda não
sabia que era um entre cinco mil homens que partiriam na Ironduke.
Era uma novidade perfeitamente suportável.
Mas havia
um detalhe que não conhecia: seria armado com uma carabina
automática, antiquada... e há dois anos tentava em vão incorporar
tal arma ao seu estoque de preciosidades!
*
* *
Um tanto
aborrecido, Emery contemplava o céu nublado de abril. À sua frente
estendia-se o porto espacial de Terrânia. Era um homem
experimentado, e por isso sabia que algo de especial devia ter
acontecido para que sua folga fosse interrompida.
Até então
ele e os outros homens, que participariam da ação, não haviam
recebido informações mais detalhadas. Estavam de pé, próximos a
um grande pavilhão, que ficava em local um tanto afastado do
gigantesco campo de pouso. O comandante apresentara-se com o rosto
compenetrado, o que levou Emery à suposição de que o tenente
também não sabia em que local a unidade de elite entraria em ação.
Finalmente
apareceu outro homem.
E este
conhecia o destino da viagem.
Era uma
das pessoas que tinha olhos de lince e sabia como lidar com qualquer
problema. Estava acompanhado dos oficiais pertencentes à tripulação
da nave. Ele mesmo era de estrutura gigantesca.
Seu nome
era Jefe Claudrin.
Sempre que
aquele homem nascido em Epsal falava, sua voz parecia o rugido de um
trovão longínquo. Dispunha de forças titânicas, que se tornavam
eficientes principalmente nos planetas, onde a gravitação era
inferior à reinante em Epsal.
O homem ao
lado de Emery, chamado Hans Berker, cutucou o sargento. Emery
limitou-se a resmungar.
— É
Claudrin — disse Berker. — Isso significa que iremos na nave
linear.
Claudrin
quase não deu nenhuma atenção aos soldados. Prosseguiu em sua
caminhada, sem dizer uma única palavra. Um dos oficiais conversou
com o Tenente Henderson, que era o comandante da unidade especial. A
contribuição de Henderson para a conversa consistia quase
exclusivamente em gestos afirmativos e em respeitosos “sim,
senhor”.
Henderson
comandava apenas parte dos cinco mil homens que partiriam na
Ironduke. Seu grupo estava treinado em lutas em planetas estranhos,
onde reinavam condições hostis à vida. Dessa forma Henderson e
seus homens pertenciam à infantaria da Frota Solar. Sua única
ligação com a navegação espacial consistia no fato de que uma
espaçonave os levava de um mundo a outro.
Enquanto
Henderson ainda conversava com o oficial da nave, um veículo de
carga equipado com esteiras aproximou-se. O motorista do veículo
apresentava uma expressão indiferente. Estacionou perto dos homens,
e o oficial apontou para ele e depois para os soldados.
Henderson
aguardou um pouco, enquanto examinava seus subordinados, sem dizer
uma palavra. Emery sentiu a inquietação que o rodeava.
— Atenção!
— gritou Henderson. Berker pigarreou, e Emery lançou-lhe um olhar
de advertência.
— Sargento!
— ordenou Henderson.
Emery
adiantou-se. Possuía a calma discreta do soldado profissional: não
se abalava com nada.
— Sim,
senhor.
— Pegue
alguns homens e distribua as armas.
— Às
ordens, sir! — disse a voz arranhenta de Emery.
Henderson
virou-se sobre o calcanhar. O sargento fez um sinal para que três
soldados se aproximassem.
— Temos
de levantar a lona — disse o condutor do veículo de carga em tom
contrariado. — Recebemos ordens para que as armas não ficassem à
vista.
Soltou as
correias e, ajudado por Emery, levantou a cobertura de plástico.
Emery viu as armas.
— O
senhor não se sente bem? — perguntou o motorista, em tom
interessado.
O sargento
deixou cair o queixo e olhou fixamente para dentro do compartimento
de carga do veículo.
— Não...
não é possível — disse depois de algum tempo.
O
motorista do veículo fitou-o com uma expressão estranha e recuou um
passo. Os soldados pareciam indiferentes a tudo.
— Será
que o senhor vê a mesma coisa que eu vejo? — perguntou o sargento,
em tom cauteloso.
Emery
fechou e voltou a abrir os olhos por três vezes. Passou a mão pela
testa e mordeu a língua. Com um gesto hesitante apontou para as
armas.
— Tem
certeza de que recebeu ordens para entregar-nos estas armas? —
perguntou. — Não terá havido alguma troca?
O
motorista do veículo brindou-o com uma fala prolongada, durante a
qual ressaltou expressamente que não havia nada mais impossível que
uma troca desse tipo. Informou o sargento de que todos os cinco mil
soldados receberiam armas desse tipo.
— O
senhor se espantará ainda mais quando vir a munição — disse ao
concluir.
Emery
realmente se sentiu espantado. Além das antiquadas carabinas
automáticas entregaram-lhe cartuchos de plástico, cujos projéteis
explosivos, segundo se dizia, eram totalmente antimagnéticos.
Se John
Emery não soubesse que o comandante de sua nave seria Jefe Claudrin,
poderia jurar que iriam fazer uma caçada cósmica às lebres. Mas,
da forma que estavam as coisas, a presença daquelas armas
patriarcais devia ter seus motivos.
Menos de
uma hora depois disso, o grupo de Henderson subiu a bordo da
Ironduke. John Emery, que já percorrera centenas de quilômetros
tentando conseguir uma carabina automática, teve de ver mais de
cinco mil armas desse tipo a bordo do veículo espacial.
Para
Emery, isso representava um terrível golpe moral, face ao qual
resolveu desmanchar seu depósito de preciosidades assim que voltasse
da viagem.
*
* *
Gucky
apalpou o assento sobre o qual pretendia acomodar-se. Lançou um
olhar insatisfeito para Bell.
— Continuo
a afirmar que a Ironduke é a nave mais desconfortável da Frota
Solar — piou. — Qualquer rato-castor decente tem direito a um
lugar confortável para sentar. Sob este aspecto, a nave é uma
verdadeira catástrofe. O fato de ter de sentar numa coisa como esta
quase chega a ser uma automutilação.
— Os
assentos não foram feitos para se dormir — disse Bell. — Se você
acha que não são confortáveis, pode ficar de pé ou pairar sob o
teto.
O
rato-castor encolheu-se. O dente roedor demonstrava o grau máximo de
irritação.
— Você
está mostrando seu verdadeiro caráter — disse, acusando Bell. —
Enquanto procuro despertar em meu coração sentimentos amorosos em
seu favor, você trama novas crueldades.
— É a
tragédia de um rato-castor numa nave desconfortável — disse
Reginald Bell, em tom sarcástico.
— A
viagem não será demorada — observou John Marshall. — Pelos
cálculos de Rhodan e Claudrin, deverá demorar umas dezoito horas.
Gucky
arrastou os pés em direção ao seu lugar e acomodou-se, reclamando
furiosamente. Para ele, pouco importava a duração de uma situação
desconfortável. Encontravam-se na sala de comando da Ironduke.
Rhodan e Claudrin ainda não haviam aparecido, embora o homem nascido
em Epsal já se encontrasse a bordo.
John
Marshall e os mutantes presentes já tinham feito experiências nada
agradáveis com os antis. Apesar de suas faculdades anormais,
sentiam-se impotentes diante dos sacerdotes. Os antis eram produto de
mutações que lhes conferia proteção total contra qualquer ataque
mental. A arma mais potente do Império Solar, que era o Exército de
Mutantes, praticamente estava condenada à impotência.
Apesar
disso, mesmo nessa operação, Perry Rhodan preferiu não dispensar o
auxílio dos mais poderosos dentre seus mutantes. Poderiam prestar
serviços preciosos a certos setores e aliviar o trabalho dos demais.
Sem dúvida Gucky, que possuía várias faculdades parapsicológicas,
representava o maior trunfo da pequena tropa. Dominava a telepatia, a
telecinese e a teleportação.
— Dezoito
horas — resmungou o rato-castor. — Se imagino que tenho de passar
todo este tempo nesta nave, sinto náuseas.
Abriu a
boca e bocejou de forma impertinente. O dente roedor solitário
parecia uma agulha branca.
— Ouvi
dizer que não existe uma única cenoura a bordo da Ironduke —
disse Bell, em tom bonachão. — Perry diz que precisa do espaço
para coisas mais importantes.
Os olhos
de Gucky arregalaram-se de pavor.
— Nem
uma única cenoura? — repetiu em tom de incredulidade.
O gesto
afirmativo de Bell foi inconfundível. Seu sorriso quase chegava a
exprimir triunfo.
— Ainda
bem que tomei minhas providências — disse Gucky, irônico.
Lançou um
olhar imperscrutável a Bell. De repente, este teve a impressão de
que, dali a pouco, a situação pioraria para ele. Apesar disso não
pôde deixar de perguntar com um sorriso nos lábios:
— Tomou
suas providências?
Gucky
recostou-se confortavelmente na poltrona, que ainda há pouco lhe
parecera tão desconfortável.
— Isso
mesmo — piou. — Tomei liberdade de trazer certos objetos de uso
pessoal na sua bagagem de mão.
Era a vez
de Bell espantar-se.
— Objetos
de uso pessoal? E na minha bagagem?
— São
cenouras, meu velho — esclareceu o rato-castor.
— Acontece
que em minha bagagem de mão não cabia mais nada — objetou Bell.
Gucky fez
um gesto afirmativo.
— Infelizmente
tive que tirar vários objetos, que me pareceram pouco im...
Não teve
tempo para completar a frase. Jefe Claudrin entrou na sala de comando
e, falando com uma voz que parecia fazer vibrar tudo, disse:
— Vamos
embora, minha gente.
Os
oficiais pertencentes à tripulação da nave também surgiram.
Claudrin estabeleceu a ligação com vários tripulantes que se
encontravam no interior da nave.
John Emery
também ouviu a voz potente do homem nascido em Epsal. Lançou um
olhar pensativo para a carabina automática, encostada à parede.
Henderson, que estava sentado mais à frente, brincava nervosamente
com os dedos.
A Ironduke
decolou exatamente quatorze minutos depois desse momento.
Rhodan e
Claudrin previram corretamente a duração da viagem em dezoito
horas. Mas houve um imprevisto.
O pequeno
sol amarelo em torno do qual gravitava, segundo se dizia, o planeta
Okul, não foi encontrado. Devia haver um erro nos dados de posição
fornecidos pelo Dr. Nearman.
No lugar
onde se encontraria Okul não existia nada!
8
A água
era rasa e pantanosa. Era tão quente que fumegava e borbulhava. Onde
terminava o pântano começava a selva. Era um mundo colorido e
cintilante, feito de árvores, flores, trepadeiras, samambaias e
outras plantas. As raízes das árvores tombadas surgiam acima do
lodo. O ar estava quente e abafado.
Entretanto
havia vida nesse mundo. E vida inteligente. Era bem verdade que vinha
de outro planeta, mas sempre era uma forma de vida inteligente.
O céu
apresentava-se em cor amarelenta. Só mesmo dali podia-se
contemplá-lo. Quem se encontrasse na selva não o enxergaria.
O homem
que deslocava o barco tosco, usando uma vara que encostava a
intervalos regulares ao fundo do pântano, não mostrava-se como quem
tivesse vindo a esse lugar tão-somente para contemplar as nuvens.
Aquele
homem solitário fazia a canoa avançar à força de vigorosos
empurrões. A maneira pela qual olhava a paisagem provava que
conhecia o lugar.
Era alto e
esbelto; quase chegava a ser magro. Acima do nariz adunco havia um
par de olhos cinzentos. No rosto havia uma expressão aristocrática.
O rosto
era de Perry Rhodan!
Seu corpo,
sua postura e seus movimentos, tudo isso parecia ter sido tomado de
empréstimo de Rhodan.
Acontece
que aquele homem não era Rhodan. Seu nome era Thomas Cardif, o filho
do grande terrano. Embora de uma forma diferente, sua vida fora tão
variada e cheia de aventuras como a do pai.
Mas havia
uma diferença.
Perry
Rhodan lutava pela Terra!
E Thomas
Cardif lutava contra.
O sangue
arcônida que corria em suas veias fazia com que não envelhecesse
tão depressa como os terranos. Naquele momento parecia-se com o pai
sob todos os pontos de vista. Seria impossível encontrar uma
diferença visível entre um e outro.
Cardif
levou o barco em direção à margem. Com grande habilidade fê-lo
passar entre duas gigantescas raízes. Ouviu o canto dos pássaros,
vindo da selva. Milhões de insetos dançavam sobre a água. Subiam e
desciam em densas nuvens. Na margem havia um lugar raso e arenoso.
Cardif tomou esta direção.
Naquele
lugar esperava-o um pequeno avião, semelhante a um helicóptero. Um
sorriso sarcástico surgiu no rosto de Cardif. Ao lado da aeronave
havia um homem envolto numa capa, agitada pelo vento. Mesmo visto de
longe, parecia taciturno e fechado. Segurava uma estranha arma de
radiações.
No seu
aspecto exterior, o homem se parecia com um arcônida de puro sangue.
Acontece que era um sacerdote da seita de Baalol — um anti. Ao que
se supunha, os antis eram descendentes de arcônidas emigrados há
muito tempo, e que haviam sofrido mutações paranormais.
Cardif
chegou ao porto natural e saltou do barco. Amarrou-o e percorreu
lentamente a distância que o separava do avião.
O anti
baixou a arma. Seus olhos sombrios não mostravam a menor emoção.
— O
senhor acha que esse tipo de excursão é muito interessante? —
perguntou, dirigindo-se a Cardif. — Se cair do barco, estará
perdido. Nesse caso, nem mesmo esta arma poderia salvá-lo.
— Já
fiz coisas muito mais perigosas — disse Cardif.
— Poderíamos
ter sobrevoado o pântano com o avião — ponderou o sacerdote.
Cardif
lançou um olhar de desprezo para a máquina voadora. Apontou para a
água.
— Só
existe uma possibilidade de localizar os animais — disse. — O
senhor deveria saber disso melhor que qualquer outra pessoa,
Hekta-Paalat.
O aspecto
de Paalat tornou-se ainda mais sombrio. Se é que havia alguma
amizade entre ele e o terrano, os dois faziam questão de não
revelá-la. Mas Cardif não deixou que as palavras mordazes do anti o
abalassem.
— Estamos
construindo um barco especial — lembrou Paalat. — Se tivesse
esperado mais alguns dias, sua excursão com essa canoa feita pelo
senhor teria sido desnecessária.
Um
estranho brilho surgiu nos olhos de Cardif.
— Esperar
— disse em tom amargurado. — Já esperei demais. Agora é minha
vez. Ainda acontece que sempre sugeri que os animais fossem criados
em poças d’água. Dessa forma não teríamos de caçá-los
constantemente.
O anti
ouvia-o com uma visível contrariedade.
— Todas
as tentativas de manter os animais vivos num ambiente confinado
falharam por completo. Vegetaram por alguns meses e acabaram
morrendo. Enquanto não soubermos o motivo, será inútil tentar
criá-los.
O filho de
Rhodan entrou no avião, seguido pelo sacerdote. O calor quase
insuportável fazia-os transpirar.
— Se
formos lentos e nos mantivermos à espera, não conseguiremos vencer
a Terra — disse Cardif, em tom impaciente. — Devemos atacar em
vários lugares ao mesmo tempo, recorrendo a todos os meios.
Pela
primeira vez algo parecido com um sorriso esboçou-se no rosto de
Hekta-Paalat. Dobrou a manta sobre as pernas.
— Existem
vários métodos de derrotar um inimigo — disse. — Nem sempre o
mais rápido é melhor. A impaciência do senhor tem sua origem no
ódio que sente por seu pai. A impaciência e o ódio são
sentimentos que fazem com que a pessoa aja irracionalmente.
Cardif
respondeu em tom de desprezo:
— Normas
do Ocultismo! Sua raça já se acostumou tanto a tais lemas que não
consegue livrar-se dos mesmos. O que importa é golpear no momento
exato. Será que minhas recomendações, que representaram um apoio
na luta contra Árcon e a Terra, têm algo de irracional? De forma
alguma! No momento até sou o maior trunfo desse jogo oculto. O filho
do homem mais importante do Império Solar está do lado de vocês.
— Evidentemente
apenas sob o ponto de vista estratégico — disse Hekta-Paalat, com
um sarcasmo mordaz.
Cardif não
respondeu; deu partida no motor. O avião ergueu-se do solo com um
ruído quase imperceptível. Cardif estava acostumado a ouvir
respostas irônicas. Raramente estivera do lado da Justiça, mas nem
mesmo os injustos compreendiam que queria destruir seu pai.
Aproveitavam seus sentimentos e seus planos, mas não os respeitavam.
Apenas o respeitavam na sua qualidade de colaborador inteligente e
capaz.
9
Se
pendurarmos um saco de ervilhas ao ar livre e o abrirmos embaixo,
fazendo com que as ervilhas caiam, obteremos um quadro caótico,
surpreendente. Em alguns lugares haverá poucas ervilhas no chão, em
outros lugares haverá muitas. Só no centro as ervilhas se aglomeram
a tal ponto que se torna difícil encontrar esta ou aquela dentre
elas.
Uma via
láctea oferece um quadro semelhante. À medida que nos aproximamos
do centro da mesma, a aglomeração de estrelas se torna mais densa.
As distâncias entre os sóis vão diminuindo; as distâncias enormes
entre os sistemas existentes na periferia de uma galáxia vão-se
encolhendo. Nossa Via Láctea compreende cerca de cem bilhões de
estrelas singulares. É um número inimaginável. No entanto, é
apenas uma dentre muitas. Seu formato é o de um disco, cujo plano
principal mede cerca de oitenta mil anos-luz. A maior dimensão
vertical, porém, é de “apenas”
dezesseis mil anos-luz.
A profusão
de estrelas, que se apresentava às pessoas que observavam a tela da
sala de comando da Ironduke, não poderia ser comparada com o quadro
que se oferecia na periferia da Galáxia. No centro da Via Láctea
existem bilhões de sóis.
Muitos
milhões dentre eles são pequenas estrelas amarelas.
Segundo as
informações fornecidas pelo Dr. Nearman, o planeta Okul gravitaria
em torno de um sol desse tipo. Mas quando a Ironduke emergiu do
semi-espaço, que ela mesma criara com as energias do conversor
kalupiano, logo se viu que evidentemente os dados sobre a posição
do planeta, fornecidos pelo biólogo, não eram muito precisos.
Perry
Rhodan fitava intensamente a tela panorâmica. Reginald Bell e Jefe
Claudrin encontravam-se a seu lado. Todas as pessoas da sala de
comando fitavam os três homens sem dizer uma palavra. Depois do
desapontamento, a depressão espalhara-se entre eles. Todos esses
homens tinham conhecimentos suficientes de navegação galáctica,
para compreenderem que as chances de encontrar Okul eram extremamente
reduzidas.
— Parece
que o vôo foi inútil — observou Claudrin, depois de algum tempo.
Era
bastante realista para exprimir sua opinião em voz alta. Virou a
enorme cabeça para Rhodan.
— O que
acha, sir?
Cada um
dos pontos que apareciam na tela representava um sol. A panorâmica
parecia um tapete bordado de pérolas. Face a um quadro desses,
Rhodan só poderia concordar com o comandante da Ironduke.
Rhodan
também era realista. E seu realismo lhe dizia que não poderiam
deixar de encontrar Okul, a fim de terem um ponto de partida para
defender-se da ação criminosa dos antis. Milhões de seres humanos
depositavam sua confiança nesses homens. Havia um governo mundial
com ministros e outras autoridades, mas os homens identificavam
Rhodan com esse governo, vivendo seus êxitos e fracassos.
Rhodan
levantou a cabeça. Fez um sinal em direção à tela panorâmica.
— Nós o
procuraremos.
O silêncio
reinante na sala de comando parecia ainda mais profundo. Mas só
durou um instante. Logo um novo estímulo pareceu surgir naqueles
homens. As palavras de Rhodan os haviam arrancado do desespero. Se o
administrador dava ordens para realizar buscas, devia haver uma
possibilidade dessas serem bem-sucedidas.
Gucky que,
ao contrário do que costumava fazer, permanecera quieto por algum
tempo, disse com a voz ressentida:
— Quer
dizer que teremos de ficar por mais tempo nesta “caixa”?
— Acredito
que nossas buscas logo serão coroadas de êxito — disse Bell, com
um tom estranho na voz.
— Ah, é?
— piou o rato-castor, cético. — O que o levou a ter idéias tão
ingênuas?
— A
bordo desta nave existe alguém que tem um nariz muito comprido —
respondeu Bell.
O
rato-castor apalpou seu órgão do olfato. Depois olhou em torno. Mas
logo teve de constatar que Bell realmente aludira a ele.
— Existe
uma lei psicológica, segundo a qual todo homem que possui cabeça de
cenoura é roído pela inveja — disse Gucky.
Uma
gargalhada aliviadora encheu a sala de comando. O fracasso estava
esquecido.
— Vamos
ao trabalho — ordenou Rhodan. — Não adianta vagarmos por aí ao
acaso. Por isso trabalharemos em conformidade com um método bem
definido. Não sabemos qual é a diferença nos dados fornecidos pelo
Dr. Nearman. Logicamente devemos iniciar nossas buscas nas estrelas
mais próximas. Faremos de conta que o ponto em que nos encontramos
neste momento é o centro de uma esfera.
Rhodan
sabia que, do centro dessa esfera, vários eixos levariam aos
diversos sóis. Uma vez que a maior parte deles possuía planetas,
tornava-se imprescindível realizar pesquisas exatas em cada caso.
Claudrin
já estavam transmitindo suas ordens. Depois de alguns minutos foi
escolhida a primeira estrela que serviria de objeto às suas buscas.
Enquanto a Ironduke se deslocava em direção à mesma, a uma
velocidade várias vezes maior que a da luz, outros cálculos foram
realizados
Nas salas
dos tripulantes, a disposição de ânimo era boa. Ainda não se
tinha um conhecimento exato sobre a natureza da missão. Segundo as
informações que filtraram, a ação se dirigia contra os antis.
Antes que
a Ironduke atingisse a estrela escolhida em primeiro lugar, os
soldados da unidade de elite já haviam descoberto que ainda não
haviam encontrado o planeta que procuravam.
— Gostaria
de saber uma coisa — disse Hans Berker ao sargento Emery, que
reclinara o corpo e segurava firmemente a carabina automática. —
Por que Rhodan não põe em ação a Frota? Se algumas centenas de
naves cruzassem os céus nesta área, chegaríamos ao destino mais
depressa.
— Nesse
caso, os antis teriam vários pontos capazes de refletir seus raios
goniométricos — respondeu Emery. — Acredito que o chefe pretenda
realizar um ataque de surpresa. Se a Frota aparecer por aqui, a
surpresa já era. A presença da Ironduke não poderá ser constatada
por qualquer rastreador estrutural, desde que permaneça na zona de
libração.
— Devemos
confiar nos homens que comandam a nave — observou Henderson.
— Sim,
senhor — respondeu Berker.
Mas Emery
logo viu que a confiança de Henderson não servia para muita coisa.
Seu superior hierárquico estava nervoso e inseguro. Emery conhecia
Henderson e sabia que essa insegurança só terminava com a luta.
Quando esta tinha início, esse homem estranho tornava-se a pessoa
mais importante de sua unidade. Suas ordens eram tranqüilas e bem
ponderadas.
Emery
acariciou a carabina. Lembrou-se de que os homens que se encontravam
no centro de comando de tiro da Ironduke deviam ter a impressão de
que as carabinas eram supérfluas, já que as armas eficientes e
modernas da nave seriam utilizadas.
Será que
se esperava que justamente essa combinação de armas antigas e
modernas trouxesse a vitória? Além das carabinas automáticas
haviam distribuído fuzis de radiações. Emery lembrou-se da
pergunta irônica de um soldado, que quis saber se, durante a luta,
sempre estaria presente um superior, para ordenar que arma deveria
ser utilizada.
A
risadinha de Berker arrancou Emery de suas reflexões. O alemão
fitou o sargento alegremente. Emery preferiu não formular nenhuma
pergunta. Qualquer soldado tinha o direito de estar alegre antes de
uma batalha. E o fato de que ele, Emery, era o motivo da alegria, em
nada alterava a substância desse direito.
A alegria
não durou muito, nem na sala dos tripulantes nem na de comando.
O primeiro
sol ao qual a Ironduke se dirigiu possuía dois planetas. Gravitavam
a uma distância tão grande em torno de sua estrela que o calor
desta dificilmente poderia atingi-los. Tratava-se de mundos cobertos
de desertos de metano e amoníaco congelado.
O sol
seguinte só possuía um planeta. Não era Okul, mas apesar disso
ofereceu uma visão extraordinária aos astronautas. Estava cercado
por um véu luminoso. Até parecia que a atmosfera fora enriquecida
com fósforo. Mas não tiveram tempo para realizar uma investigação
minuciosa.
Seguiram-se
mais seis sistemas, após os quais houve uma interrupção, que foi
preenchida com discussões sobre a situação.
As buscas
prosseguiram. A Ironduke deslocava-se tranqüilamente de uma estrela
à outra. Mas foi tudo em vão. Sete horas se passaram, sem que Okul
fosse encontrado.
*
* *
Desde o
início de sua carreira, Reginald Bell tinha idéias bem definidas
sobre a disciplina. Antes de mais nada, não era amigo do formalismo
uniformizado. Achava que um homem de colarinho aberto pode combater
tão bem, ou até melhor, que um soldado impecavelmente trajado.
Cerrou os
olhos, abriu o botão superior da camisa, esfregou o peito e disse:
— Estamos
num beco sem saída.
Sem dúvida
foi a afirmação mais categórica, formulada no interior da
Ironduke, sobre o resultado até então alcançado por sua missão. E
foi também a mais exata.
O quadro
oferecido pelos aparelhos óticos e de localização continuava
inalterado. A nave linear, que era um veículo espacial de oitocentos
metros de diâmetro, pertencente à classe Stardust, continuava numa
área que ainda pertencia ao sistema da Via Láctea. Embora as
estrelas retratadas na tela panorâmica sempre fossem outras, sob o
ponto de vista ótico não havia a menor modificação. O vôo da
Ironduke conferia um triste significado à lendária procura de uma
agulha num palheiro.
— Estamos
num beco sem saída.
Nem todas
as pessoas que se encontravam a bordo da nave compreenderam todo o
sentido trágico dessas palavras. De repente, a chance de resistir
aos antis, que se oferecera à Terra, voltara a ser mínima. Se a
Ironduke regressasse sem ter conseguido nada, o resultado seria uma
depressão profunda e generalizada. Era bem verdade que os cientistas
terranos trabalhavam noite e dia, a fim de encontrar um antídoto
para a droga diabólica. Porém ninguém poderia dizer se seus
esforços seriam coroados de êxito.
Jens
Averman, o ossudo técnico de goniometria da Ironduke, estremeceu ao
ouvir as palavras de Bell. Lançou um olhar para Perry Rhodan, que
era responsável pela ação. Até mesmo Jefe Claudrin aguardava um
pronunciamento de Rhodan. Enquanto o administrador se encontrava a
bordo, era ele quem exercia o comando.
— As
informações que Miguel Desoga nos enviou de Lepso contêm um erro
num ponto decisivo, ou então o Dr. Nearman começou a delirar pouco
antes de morrer. Já começo a duvidar da correção das coordenadas
fornecidas por ele. Não devemos esquecer-nos de que nem mesmo os
velhos catálogos de Árcon mencionam o planeta Okul.
Rhodan
fitou os homens com uma expressão séria e concluiu:
— Ao que
tudo indica deixamos arrebatar-nos por uma informação falsa.
Não havia
necessidade de explicar a quem quer que fosse qual era o significado
dessas palavras. A ação chegara ao fim. Alguns terranos se haviam
arriscado a executar alguns movimentos no interior da teia de aranha
e ficaram irremediavelmente perdidos. O plano dos antis parecia mais
seguro que nunca. Era apenas uma questão de minutos que Rhodan
ordenasse o regresso. O regresso à Terra, a qual, em virtude do
criminoso trabalho de sapa da seita de Baalol, vinha sendo
transformada progressivamente numa concentração de viciados em
entorpecentes.
Claudrin
disse com a voz estranhamente abafada:
— Quer
dizer que as buscas serão suspensas?
— Na
Terra, precisam desesperadamente de nós — respondeu Rhodan. —
Não adianta perder mais tempo à procura de Okul.
Gucky
aproximou-se, arrastando os pés. Seus sentidos paranormais não
deixaram de perceber que seu grande amigo se sentia desesperado. Não
houvera nenhum combate, mas a missão da Ironduke fracassara e se
transformara numa derrota para a Humanidade.
— Fizemos
o que estava ao nosso alcance, Perry — exclamou o rato-castor, com
a voz aguda.
— Gucky
está com a razão, sir — disse John Marshall, cuja tranqüilidade
continuou inalterada. — Não se esqueça de que existem outras
maneiras de atacar os antis.
— Sem
dúvida — confirmou Rhodan, em tom amargurado. — Só falta
encontrá-los.
O vulto
gigantesco de Jefe Claudrin passou por Bell.
— Quais
são as ordens, sir?
Rhodan
levantou-se e aproximou-se da tela panorâmica. O brilho das estrelas
era frio e indiferente. Em meio ao silêncio reinante na sala de
comando, os homens aguardavam a decisão de Rhodan.
O
administrador entesou o corpo. O rosto continuou impassível.
— Vamos
desistir — disse com a voz arrastada.
10
Valmonze
levantou o copo e fez um gesto para Thomas Cardif. Hekta-Paalat e
Rhabol acompanhavam tudo em silêncio. Não simpatizavam com os
saltadores e só os toleravam, pois eram sócios.
— Possuo
alguma experiência em matéria de entorpecentes — disse Valmonze,
passando a mão pela barba e piscando para o filho de Rhodan. — Há
um ano fizemos uma tentativa de usá-los, a fim de minarmos a
influência da Terra na Galáxia. Na oportunidade vendemos os
entorpecentes terranos aos outros planetas. Indiretamente todos
culpavam a Terra. Em virtude de um acaso infeliz o plano não deu
certo.
O
patriarca dos saltadores não mencionou o fato de que o acaso infeliz
foi devido, em grande parte, a um erro cometido por ele.
— Apesar
de tudo devíamos pensar sobre minha proposta — disse Cardif. — A
esta hora, os habitantes da Terra já conhecem os perigos do
liquitivo, e por isso podemos suspender as remessas. Segundo os
cálculos, o número dos viciados chega a duzentos milhões, só na
Terra. Pelo que sei de Rhodan, isso bastará para exercer pressão
sobre ele.
Valmonze
bebeu ruidosamente e lançou um olhar indagador para os sacerdotes.
Já constatara que o terrano pretendia desenvolver uma ação
implacável contra os seres de sua raça. Sua fuga arrojada de Lepso
não modificara sua opinião. Cardif odiava seu pai, e estendia esse
ódio à Terra.

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