Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
DANIEL
BRAGA
Revisão
ARLINDO_SAN
A cilada
foi armada em Okul — A vida de
milhões
de seres humanos é usada como isca.
Face
aos acontecimentos turbulentos dos últimos tempos, Perry Rhodan e
seus companheiros esqueceram-se dos antis, sacerdotes do culto de
Baalol, não lhes dispensando a necessária atenção.
Foi por
isso que o plano dos antis, que previa a disseminação do liquitivo,
uma droga traiçoeira, em todos os mundos habitados, pôde ser posto
em execução sem que ninguém os perturbasse.
Os
resultados das investigações realizadas pelos agentes da Divisão
III no planeta Lepso representaram um testemunho evidente das
conseqüências desse plano. A situação na Terra, nos mundos
coloniais terranos e nos mundos de Árcon é desesperadora.
Durante
anos deixaram de ser adotadas as precauções que seriam necessárias,
pois os cientistas de renome haviam chegado à conclusão de que o
novo licor, o liquitivo, constitui um meio excelente de retardar o
envelhecimento do organismo humano e conferir novas energias às
pessoas que consomem o preparado.
Já se
sabe que essa idéia representava um engano fatal. Mas isso em nada
modifica a situação que, na opinião de Perry Rhodan, só pode ser
normalizada por meio de uma ação desesperada...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Quanto
mais se sobe, maior é a queda.
Thomas
Cardif
— Um
plano nascido do desespero transforma-se em realidade.
Reginald
Bell
— O
melhor amigo do administrador é fácil de ser enganado.
Sir
John
Rengall
— Que
entra numa peça de museu para prender Cardif.
Rhabol
— Um alto sacerdote do culto de Baalol.
1
A festa
atingiu o clímax.
A
superfície do mar parecia um espelho sob os raios prateados da Lua,
que ia para cheia.
Praticamente
não havia nenhuma onda que se quebrasse nas rochas próximas. Se não
fossem as pessoas barulhentas no parque e na varanda, poder-se-ia
falar numa linda noite de luar, passada numa bela praia da Flórida.
Mas, da forma que as coisas estavam, havia apenas uma festa.
A festa
era oferecida por Sir John Rengall, que convidara os amigos para
comemorar as despedidas. No dia seguinte deixaria sua casa de férias,
pois teria de voltar para Terrânia. Sua esposa, Lady Lydia, o
acompanharia, já que uma confortável casa de campo os aguardava
junto ao lago de Goshun.
O dono da
casa, um inglês alto de cabelos escuros, dedicava-se aos hóspedes.
Na sua maioria, estes eram americanos, pois era na terra destes que
Sir John passava as férias. As praias da Flórida, o clima suave, a
água morna do mar — tudo isso eram coisas que, em sua opinião,
tornavam a vida digna de ser vivida.
No bar
montado ao ar livre, do qual se tinha uma linda vista para o mar
prateado, encontrou o Dr. Philipp Morris, um médico. Era inglês
como ele, mas residia há anos nos Estados Unidos da América.
— Olá,
Phil. Está se divertindo?
O médico
fez que sim e deu uma risada. Em seus olhos azuis surgiu um brilho
animado. John Rengall teve a impressão de ver outra coisa além
desse brilho.
— Estou
me divertindo. Obrigado, John. Apenas acho que convidou poucas damas.
Sir
Rengall soltou uma gargalhada. Pegou a garrafa de uísque e puxou
dois copos.
— Acho
que você vai aceitar mais um, não vai? Ou será que já tomou que
chega?
Morris
lançou um olhar de desprezo para a garrafa.
— Será
que você não tem outra coisa para oferecer?
— Ora
essa! — disse Rengall em tom de ofendido. — Este é o melhor
uísque que se consegue encontrar. O que posso oferecer ao
cavalheiro, se este despreza o uísque?
A resposta
do Dr. Philipp Morris consistiu numa única palavra:
— Liquitivo!
Rengall
colocou a garrafa violentamente sobre o bar.
— Maldito
veneno! Você também?
O médico
puxou o braço do amigo.
— Fique
quieto! Não é necessário que todo mundo saiba que sou um viciado
em drogas. Afinal, sou médico. De qualquer maneira, isso quer dizer
alguma coisa? Há milhões de pessoas viciadas no liquitivo, que
dentro em breve não o conseguirão mais. Como funcionário do
Serviço de Segurança Solar você deve saber disso.
— Sou
apenas um funcionário subalterno — objetou Rengall.
Sentia-se
constrangido sempre que alguém mencionava o fato de que ele
pertencia ao Serviço de Segurança.
— Sei
tanto quanto qualquer outra pessoa.
Morris
puxou Rengall para um pequeno banco que ficava junto às rochas. Dali
se tinha uma visão ampla sobre o mar. Algumas palmeiras separavam
esse banco do movimento que se desenvolvia no parque. A música
chegava bem baixinho e não havia necessidade de gritar para
comunicar-se.
— O que
é que você sabe oficialmente sobre essa bebida, John? Você tem de
me dizer, ouviu? O assunto assume uma importância vital para mim.
Tenho mais de uma dezena de pacientes importantes que também são
viciados. Eles me procuram para que eu os ajude. Os fornecimentos de
liquitivo foram suspensos há uma semana. Só se consegue o licor no
mercado negro, a preços proibitivos. Custa mil dólares a garrafa.
Como sabe, cada garrafa contém apenas dois centímetros cúbicos.
Isso é apenas um golezinho. Mas, se a gente tem sorte, essa pequena
quantidade resolve a situação por nada menos de seis dias.
— Tomei
essa cachaça doce uma única vez na vida e nunca mais, Phil. Não
gostei. Também não desconfiava do perigo que a mesma representava.
Só o acaso evitou que eu me transformasse num viciado. Quando soube
que as pessoas que tomavam regularmente o liquitivo rejuvenesciam e
adquiriam novas forças, quase comecei a consumir a droga. Quem
poderia imaginar naquela época que aquilo que parecia um licor
inofensivo realmente era o veneno mais pavoroso da Via Láctea?
— Você
acha que sabe de alguma coisa? — perguntou Morris. — Gostaria de
comparar seus conhecimentos com os resultados das experiências por
mim realizadas. Fiz alguns testes e procurei libertar-me do hábito
da droga. Não consegui, John. Depois de uma semana tive tonturas e
dores de cabeça insuportáveis. Se continuasse na experiência,
teria enlouquecido de vez.
Rengall
fitou-o com uma expressão preocupada. Toda a alegria desaparecera de
seu rosto como se alguém a tivesse apagado. O dever que teria de
cumprir no dia seguinte aparecia diante dele sob a forma de uma
sombra pavorosa. Sabia o que o esperava. A ele e a toda a Humanidade
— a não ser que se descobrisse a solução do dilema.
Realmente
havia um dilema.
Rengall
colocou a mão no ombro do amigo.
— Não
sabemos quase nada, Phil, muito embora nestes últimos tempos
tenhamos realizado milhares de testes meticulosos. Uma coisa é
certa: depois que o licor é consumido pela segunda ou, no máximo,
pela terceira vez, registra-se um repentino processo de
rejuvenescimento. A pessoa não tem apenas a sensação da juventude,
mas seu aspecto exterior também lhe diz que ficou mais jovem.
Naturalmente esse êxito patente levou os consumidores de liquitivo a
ingerirem doses maiores que as recomendadas na respectiva embalagem.
A
freqüência do consumo não permitia que se percebesse a
dependência. Mesmo a pessoa que se desse à extravagância
dispendiosa de embriagar-se com o liquitivo não sentiria qualquer
dano à saúde, nem o menor efeito colateral desagradável.
“O exame
de inúmeros casos particulares deixou patente que qualquer pessoa
que tenha consumido o licor por seis meses ficou irremediavelmente
viciada. Quando esse fato se tornou conhecido, surgiu a explicação
de inúmeras mortes misteriosas ocorridas em clínicas e hospitais.
Em todos os casos, o penúltimo estágio foi o da loucura. O vício é
incurável. Qualquer pessoa que tenha que deixar de consumir o
liquitivo, seja qual for o motivo, morrerá em meio a horríveis
sofrimentos.”
— Faz
cinco dias que não tomo nada — confessou Morris. — Pelo simples
motivo de que o licor deixou de ser vendido. Por que aconteceu isso?
O governo deveria...
— O
governo não proibiu a importação. Apenas aconteceu que os
fornecimentos foram reduzidos. Pretendem exercer pressão contra nós.
— Será
que todos teremos de perder o juízo? — lamentou-se Morris, em tom
de desespero.
Deixara
cair a máscara e já não tinha nada em comum com o conceituado
médico, no qual os pacientes pertencentes à alta sociedade
depositavam confiança irrestrita. Depois de uma pausa, sentenciou
apreensivo:
— Milhões
de vidas humanas estão em jogo...
— E
esses milhões apenas terão mais sete ou oito anos de vida, conforme
a época em que começaram a consumir o liquitivo — ponderou
Rengall. — O senhor deve saber que, exatamente doze anos e quatro
meses depois do tempo em que o indivíduo começou a tomar
regularmente o liquitivo, segue-se a ruína total da pessoa. O
rejuvenescimento inicial cessa e verifica-se um processo de
regressão. Vi os mortos-vivos de Lepso, Phil. Seu aspecto não era
nada agradável. Se não descobrirmos um meio de desintoxicação, as
coisas ficarão semelhantes na Terra. Os viciados não podem perder o
vício, pois se isso acontecer, enlouquecerão. Mas, se continuarem a
tomar o licor, acabarão por morrer. Parece que não há nenhuma
saída.
— É
preferível morrer dentro de oito anos a enlouquecer dentro de trinta
dias — disse Phil Morris num gemido e levantou-se ao ouvir os
passos que se aproximavam. Fez como se não tivesse acontecido nada e
mudou de assunto. — É uma noite maravilhosa, não acha, John?
Uma mulher
passou entre as palmeiras e parou junto ao banco.
— Ah,
estão aqui? E andam conversando sobre o luar? Nunca pensei que você
tivesse tamanha disposição romântica, John. E quanto ao senhor,
ainda o julgaria menos capaz disso, doutor.
A voz da
mulher tinha um tom de irônica superioridade. Usava um vestido
longo, bastante decotado, e parecia muito jovem. Sua figura era
excelente. Aproximou-se de John Rengall e deu-lhe um beijo na testa.
— Ora...
sentimo-nos dominados pelo ambiente romântico, querida — disse
Rengall e fez com que a esposa sentasse no banco. — Nosso amigo
Phil tem um problema.
— Tem um
problema? Será que não há mais doentes?
Morris não
estava para brincadeiras.
— O
problema que eu tenho é muito mais grave, dona Lydia — disse
Morris e entesou o corpo. — Faz cinco dias que não tomo uma gota
de liquitivo.
John
Rengall estremeceu de susto. O gesto de advertência que fizera para
o amigo chegara tarde. O segredo acabara de ser revelado.
Lydia
Rengall lançou um olhar irônico para o marido e, dirigindo-se a
Morris, disse:
— Cinco
dias? Isso é um verdadeiro martírio para um bom bebedor. Seu
estoque está no fim?
— Não
se consegue comprar mais o licor, madame...
— Se for
só isso, terei muito prazer em ajudar, doutor. De quanto precisa?
— Lydia!
Regall
proferiu esta palavra em tom de enérgica recriminação. Levantou-se
e olhou para o mar.
— O que
houve, querido? Será que o doutor não pode saber disso?
— Você
acha que havia necessidade?
— Ora,
você não pode deixar um velho amigo abandonado ao destino, deixando
que morra de sede. Não sabia que você é tão avarento. Vá logo ao
meu quarto e traga alguns frascos. Você sabe onde estão guardados.
Phil
Morris também se levantou. Segurou Rengall pelo braço.
— Sua
esposa, John...? Também é uma viciada? Por que nunca disse a ela?
Lydia
espantou-se.
— Viciada?
Será que alguém é viciado só por gostar de um licor caro e bom?
Rengall
fez um sinal para Morris.
— Explique
a ela. Não queria que você soubesse. Sinto muito tê-lo enganado,
meu velho. Logo lhe darei sua injeção por via oral.
Afastou-se
sem dizer mais uma palavra.
Lydia
seguiu-o com os olhos, espantada.
— O que
houve, Doc? Estou viciada? Fale logo.
— Será
que a senhora realmente não sabe, dona Lydia? Seu marido nunca lhe
explicou? A senhora começou a beber sem que ele soubesse... quero
dizer, passou a consumir o liquitivo sem que seu marido tivesse
conhecimento disso?
— Naturalmente!
Afinal, o marido não precisa saber de tudo.
— No seu
caso teria sido preferível que ele soubesse — disse Phil Morris e
explicou à esposa do amigo o que havia com o licor diabólico,
produzido por uma raça ávida de mando que vivia em algum lugar da
Via Láctea.
Quando
concluiu, houve um silêncio prolongado. Antes que Madame Rengall
tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ouviu passos que se
aproximavam rapidamente. Era John, que parou à sua frente, fitou
primeiro a esposa e depois Phil Morris.
— Não
encontrei uma única garrafa de liquitivo — disse com a voz
apagada. — A gaveta de sua escrivaninha foi arrombada. Alguém deve
ter roubado todo o estoque!
Phil
Morris viu que suas últimas esperanças se desvaneciam. Levantou-se
e saiu sem proferir uma única palavra.
— Quem
poderia saber que eu guardava o liquitivo naquela gaveta? —
cochichou Lydia, perturbada.
— Afinal,
guardávamos segredo sobre isso, conforme você pedira. Não entendi
por que você se assustou quando soube que eu tomava regularmente o
licor. Mas, agora, quando o doutor disse que eu era uma viciada,
compreendi tudo. Você não pode deixar de confessar que a droga me
fazia ficar mais nova, e que estava gostando disso. Ficamos sabendo
muito tarde o que havia com esse veneno diabólico. E eu fui a última
a saber...
— E
soube cedo demais — disse Rengall, puxando a esposa para junto de
si. — Perdi a vontade de participar da festa. Quero que vão todos
para casa. Ninguém poderá fazer nada por nós. O liquitivo é mais
precioso que qualquer outra coisa, pois, para as pessoas acostumadas
a tomá-lo, representará simplesmente a vida. Mesmo que algum dos
nossos amigos disponha de um grande estoque de liquitivo, não nos
dará nada. Além disso, não quero que ninguém descubra. Afinal,
sou funcionário público e...
— Mesmo
que minha vida dependa disso?
Rengall
acariciou o braço da esposa.
— Antes
que aconteça qualquer coisa estaremos em Terrânia, querida.
Gostaria de saber quem foi o patife que roubou a bebida. Deve ter
sido uma pessoa bastante ligada a nós, talvez um dos empregados
domésticos. A pessoa viciada é capaz de qualquer coisa para
apoderar-se da droga...
A música
interrompeu-se num súbito semitom. Alguém soltou um grito forte e
penetrante. Outro homem praguejou, e depois ouviu-se um estrondo.
Alguma coisa caiu ruidosamente.
John
levantou-se de um salto. Sem dar atenção à esposa, atravessou o
gramado bem cuidado e correu em direção a casa. Sob a luz débil
dos lampiões viu uma aglomeração de gente; eram seus convidados.
Estavam reunidos em torno do bar e do estrado onde tocavam os
músicos.
Um homem
estava estendido no chão.
Alguém o
derrubara.
Era o Dr.
Philipp Morris.
— O que
aconteceu? — perguntou Rengall.
Um dos
músicos apontou para um instrumento despedaçado.
— O
homem deve ter ficado louco, sir. Arrancou o instrumento das minhas
mãos, saltou sobre o mesmo com ambos os pés e pisou-o até
quebrá-lo por completo. Pulava que nem um louco e gritava que tudo
isso não adiantava mais. Sou um homem pacato, sir, mas por pouco não
bati nele.
— Alguém
bateu. Quem foi?
Um homem
de fraque adiantou-se. Passou a mão pelo cabelo.
— Fui
eu, Sir Rengall — era Garry Rascall, gerente do clube de golfe. —
Não tive outra alternativa. O homem gritava que nem um doido e, se
deixássemos, teria quebrado todos os instrumentos. Alguém teria que
impedi-lo de fazer isso. Não sei o que aconteceu com ele, mas...
— Está
bem, Garry. A culpa não é sua.
— Rengall
fitou Phil e viu que estava inconsciente. — Garry, leve-o ao meu
quarto. Coloque-o no sofá. Se recuperar os sentidos...
Levaram-no
para cima. Depois disso Rascall perguntou:
— O que
quis dizer quando falou “se
recuperar os sentidos”?
Não posso deixar de confessar que lhe apliquei um golpe pesado, mas
até hoje nenhuma pessoa á qual eu tivesse aplicado este tratamento
deixou de voltar a si.
— Não é
a isso que me refiro — disse Rengall. — Phil Morris é um
viciado. Costuma tomar liquitivo.
— E daí?
— o gerente do clube não parecia muito impressionado. — Hoje em
dia todo mundo bebe.
John
Rengall viu um ligeiro clarão de esperança no horizonte de sua
depressão.
— O
senhor também? — perguntou.
Ao ver o
gesto afirmativo de Rascall, prosseguiu:
— Será
que o senhor poderia arranjar alguns frascos? Quando Phil acordar
terá que tomar imediatamente a sua dose, pois do contrário voltará
a agir como um louco. Na minha casa havia um pequeno estoque, mas me
foi roubado.
— Roubado?
— perguntou Rascall em tom de espanto. — Esse pessoal tem cada
idéia! É claro que no clube temos uma provisão adequada. Os sócios
praticamente não tomam outra coisa; só vez por outra consomem um
uísque ou um vurguzz.
Mas o que apreciam mesmo é o liquitivo. Se não me engano, tenho um
estoque de mais de mil frascos. Quantos quer que eu traga?
— Será
que havia possibilidade de arranjar cem frascos, Garry...?
— Por
que não? — perguntou o gerente.
— Pegarei
imediatamente o carro e sairei em disparada. Está com o dinheiro?
Rengall
deu-lhe a quantia correspondente ao preço usual, e mais uma boa
gorjeta. Na verdade, naquela noite Garry estava perdendo a chance de
transformar-se num homem riquíssimo. Em compensação ganhara uma
gorjeta.
Dali a
algumas horas, quando Phil Morris acordou, não tinha a menor
lembrança do acesso que sofrera. Suas mãos ainda estavam trêmulas.
Pegou a garrafa que Rengall lhe ofereceu e tomou seu conteúdo. O
efeito foi quase imediato. Um brilho vivaz surgiu nos olhos cansados
e a sensação de vertigem desapareceu por completo.
— Onde
foi que você arranjou isso, John?
— Eu lhe
contarei e recomendo-lhe que vá para lá amanhã de manhã, a fim de
comprar algumas dúzias de garrafas. Foi com Garry Rascall, o gerente
do clube. O bar do clube está cheio do licor, que é vendido ao
preço normal.
— Ainda
não deve ter conhecimento da proibição.
— Provavelmente
não sabe, Phil. Provavelmente só compra o material com intervalos
de alguns meses, e enquanto não faz suas compras não se interessa
pela situação do mercado. Quando souber a verdade, ficará furioso,
mas é bem possível que até lá haja licor à vontade. Ninguém
sabe o que está para acontecer.
— De
qualquer maneira só tomarei um frasco de cinco em cinco ou de seis
em seis dias — disse Phil. — Isso bastará para continuar a ser
uma pessoa normal.
— Perfeitamente
— confirmou Rengall.
— Com
isso a pessoa continuará a ser normal e continuará viva — soltou
uma risada amarga. — Você poderá procurar Rascall e dizer-lhe que
não está zangado por ele lhe ter aplicado aquele golpe. Aí você
aproveita a oportunidade e lhe compra certa quantidade de liquitivo.
Phill
Morris levantou-se e ficou caminhando de um lado para outro.
Subitamente parou diante do amigo.
— Amanhã
você viajará para Terrânia, John. Se ainda houver salvação para
nós, a mesma só poderá vir de lá. Espero que não se esqueça dos
velhos amigos.
— Se o
antídoto for descoberto, beneficiará todos os seres humanos, Phil.
Ninguém será esquecido. Trate de chegar em casa são e salvo.
*
* *
O
avião-foguete atravessava as camadas superiores da estratosfera e
não demorou em descer sobre o continente asiático, a fim de pousar
em Terrânia, capital do Império Solar. Nesse lugar, em que
atualmente ficava o maior porto espacial e a metrópole mais poderosa
do globo terrestre, Perry Rhodan, um piloto dos Estados Unidos,
pousara com seu foguete lunar, ao retornar do satélite natural da
Terra, trazendo consigo o poderio dos arcônidas. E a partir desse
lugar, situado em pleno deserto de Gobi, a Humanidade iniciara sua
caminhada em direção às estrelas.
Sir John
Rengall não se interessou pelos outros passageiros. Assim que
liquidou as formalidades espaçoportuárias, mandou que um táxi-aéreo
o levasse à sua casa de campo, situada junto à lagoa. Encontrou um
recado transmitido pelo videofone, que fora armazenado
automaticamente, segundo o qual deveria apresentar-se à sua
repartição logo após sua chegada.
Dali a
meia hora viu-se à frente de seu superior hierárquico, que disse:
— Sabia
que poderia confiar no senhor, Major Rengall. A Ralph
Torsten
decolará dentro de duas horas. Vá a bordo e apresente-se ao
comandante, o Major Bemrich Bellegord. O senhor e mais três oficiais
constituirão o pessoal suplementar da missão. Voarão para os
Estados Unidos, onde uma grande nave está recebendo uma carga do
museu nacional daquele país. O senhor e seus companheiros a
transferirão para este cargueiro e providenciarão para que chegue
às mãos de Rhodan em boas condições e devidamente revisada.
— Às
mãos de Rhodan?
O general
fez que sim.
— Da
América a Torsten e a nave cargueira irão em vôo direto para Okul.
A distância é de 41.386 anos-luz. Rhodan estará à sua espera. As
outras informações lhe serão fornecidas por ocasião da
conferência a ser realizada antes da decolagem. O Major Bellefjord
está informado sobre todos os detalhes.
John
Rengall fez continência e dirigiu-se ao porto espacial juntamente
com os três homens que deveriam acompanhá-lo. A Ralph Torsten já
os aguardava. Era um cruzador pesado de formato esférico, com
duzentos metros de diâmetro. O sistema de propulsão linear,
instalado há pouco tempo, tornava supérfluas as transições pelo
hiperespaço, já que a nave realizava o vôo visual a uma velocidade
milhões de vezes superior à da luz.
O Major
Bellefjord era um tanto atarracado e dava a impressão de ser uma
pessoa jovial. Cumprimentou os quatro funcionários do Serviço de
Segurança Solar e olhou para o relógio.
— Ainda
temos mais de uma hora. Isso será mais que suficiente para
colocá-los a par dos acontecimentos. O senhor esteve de férias, não
é mesmo, Major Rengall?
— Estive.
Durante trinta dias.
— Nesse
caso não deve ter a menor idéia do que aconteceu neste meio tempo.
— Apenas
recebi há quinze dias uma carta secreta que me informou sobre os
efeitos do liquitivo. É a única coisa que eu sei.
— Pois
preste atenção — disse Bellefjord, depois de certificar-se de que
seu imediato, o Capitão Raldini, iniciara os preparativos para a
decolagem. — Em fevereiro do ano de 2.103 Rhodan descobriu os
terríveis efeitos finais do liquitivo, isso no planeta Lepso,
situado a oito mil e quinhentos anos-luz, que é um entreposto para
as mercadorias produzidas pelas mais diversas raças. Apurou-se que
os fabricantes da droga são os chamados antis, nome que se dá aos
adeptos do culto de Baalol. Trata-se de uma seita que tem mais de
duzentos milhões de sacerdotes espalhados por toda a Galáxia.
Parece pouco, mas na verdade é muito, se considerarmos o poderio
dessa gente, que em cada planeta só tem um templo e uns poucos
adeptos. São mutantes; aliás, são mais que isso: são
antimutantes. Suas energias mentais permitem-lhes neutralizar
qualquer tipo de ação de nosso Exército de Mutantes.
— Que
diabo! — exclamou Rengall em tom apavorado.
Os três
homens que o acompanhavam pareciam preocupados.
Bellefjord
fez um gesto afirmativo.
— Isso
lhe ataca o fígado, não é? Nossa arma mais eficiente torna-se
praticamente inútil quando enfrentamos os antis. Mas deixe-me
prosseguir. — Pigarreou, olhou para uma folha de papel que até
então mantivera escondida na mão e disse: — Em março foi
descoberta a fuga de Thomas Cardif.
O Major
Rengall estremeceu.
— Em
março? Pois naquela época eu ainda estava de serviço e...
— A fuga
foi mantida em segredo, Major Rengall. Depois que todas as tentativas
de reconciliação falharam, aplicou-se um bloqueio hipnótico no
filho de Rhodan, que se transformou em outra pessoa. Há cinqüenta e
oito anos Cardif vinha vivendo no planeta colonial de Zalit, onde
exercia a profissão de comerciante. Esquecera seu passado e sua
identidade e era considerado um homem inofensivo. Mas apurou-se que o
homem que passava por Cardif já não era o verdadeiro Cardif, mas um
robô muito bem construído, que representava uma imitação perfeita
do Cardif de carne e osso. O verdadeiro Thomas Cardif havia
desaparecido.
— Isso é
inacreditável.
— O
senhor ainda ouvirá coisa pior. É só aguardar — Bellefjord
sorriu e voltou a olhar para o relógio. — Rhodan soube por
intermédio de um informante qual era o paradeiro de Cardif, ao mesmo
tempo foi informado sobre o nome e a posição galáctica do planeta
em que são encontradas as matérias-primas utilizadas na fabricação
do liquitivo. Num raciocínio perfeitamente lógico, Rhodan chegou á
conclusão de que deveria ser possível descobrir um antídoto, uma
vez conhecidas as substâncias que entravam na fabricação da droga.
“A frota
espacial colocou-se em estado de prontidão e dirigiu-se ao planeta
misterioso, que foi bloqueado. Houve uma luta encarniçada. Thomas
Cardif realmente se juntara aos antis, com os quais pretendia
transformar em realidade seus planos de vingança dirigidos contra
Rhodan e contra a Terra. O planeta Okul, situado num setor até então
inexplorado da Via Láctea, gravita em torno de um pequeno sol
amarelo. Trata-se de um mundo selvático e “fumegante”, no qual
existem grandes mares primitivos. A atmosfera é respirável, mas no
planeta não surgiu qualquer forma de vida humanóide. Okul era um
dos poucos mundos que servia de sede ao culto de Baalol. Por lá
viviam mais de mil sacerdotes, que habitavam uma gigantesca
fortaleza. Essa fortaleza foi atacada por Rhodan, que bolou uma forma
de atacá-los. Utilizou projéteis antimagnéticos, capazes de romper
os campos defensivos individuais dos antis, e penetrou na fortaleza.
Cardif conseguiu fugir com duzentos e cinqüenta antis. Eles se
mantêm escondidos no fundo do mar. Até agora não foi possível
localizá-los.”
— Isso
deveria ser relativamente simples — principiou Rengall, mas logo
foi interrompido por Bellefjord.
— Acontece
que não é, meu caro. As naves de Rhodan não dispõem de
equipamento apropriado para localizar e destruir um inimigo que se
encontre embaixo da água. Não devemos esquecer que os antis só
podem ser atacados com os meios mais primitivos, já que seu sistema
de defesa se funda na tecnologia mais avançada. Em outras palavras,
os raios energéticos não podem atingi-los, pois são refletidos por
seu campo defensivo individual, mas uma simples flecha de madeira com
ponta de plástico é capaz de matá-los. Justamente por isso, o
esconderijo submarino não pode ser localizado e destruído pelas
naves espaciais modernas. Deve-se recorrer a submarinos antiquados.
— Submarinos?
— repetiu Rengall em tom de perplexidade. — Isso nem existe mais.
— Existe,
sim — disse Bellefjord, que parecia sentir-se satisfeito por estar
em condições de contar uma novidade a um oficial do serviço
secreto que costumava saber de tudo. — No Museu Nacional.
Rengall
respirava nervosamente.
— Ah, já
sei. Desculpe a interrupção. Conte o resto.
— Não
há mais muita coisa para contar. Rhodan mandou levar imediatamente
vinte submarinos de propulsão atômica para Okul. A tripulação
será treinada às pressas. E os submarinos serão armados. Os homens
foram submetidos a um processo de treinamento hipnótico. Os
submarinos não sofrerão nenhuma pane. A manipulação dos mesmos é
muito mais simples que a de uma espaçonave, já que o perigo
relativamente é menor. Dentro de dois dias entregaremos a Rhodan os
submarinos pedidos por ele. Juntamente com os tripulantes.
Rengall
parecia surpreso.
— Será
que o Serviço de Segurança tem alguma coisa com isso? Por que temos
de acompanhar o transporte?
— Se
fosse o senhor, não me preocuparia com isso — disse Bellefjord com
um sorriso irônico. — Sua missão é puramente eventual. Se
conseguirmos prender Cardif vivo, os senhores o vigiarão e o levarão
à Terra; é só isto.
Rengall
confirmou com um gesto e contemplou seus homens.
— Então
é só isso — olhou para o relógio. — Suponho que o senhor
decolará dentro em breve.
— Dentro
de exatamente vinte minutos. Venha comigo; eu lhe mostrarei seu
camarote.
— Permita
mais uma pergunta — disse Rengall ao levantar-se. — Por que temos
de transferir-nos para a nave cargueira, se nossa missão consistirá
unicamente em vigiar Cardif?
— São
ordens de Rhodan — respondeu Bellefjord.
2
Okul era o
segundo planeta de um total de três. Gravitava em torno do sol
solitário sem nome a uma distância tal que lhe permitia desenvolver
condições favoráveis à vida. Okul era um mundo primitivo, que os
antis haviam transformado numa base respeitável. Foi lá que Cardif
descobriu a substância com a qual se podia fabricar o licor
liquitivo. Conseguira, com o auxilio dos antis e dos saltadores,
espalhar o terrível veneno por vários mundos habitados da Galáxia.
A
fortaleza caíra. Em seu interior encontravam-se as Instalações de
purificação da matéria-prima utilizada na fabricação da droga,
que consistia numa substância expelida pelas glândulas de lagartas
de dois metros de comprimento, que eram encontradas em toda parte no
planeta Okul. Esses animais, em si totalmente inofensivos, haviam
sido batizados pelos antis com o nome de fura-lama, já que em sua
cabeça coberta de córnea existia um verdadeiro disco cortante, que
lhes permitia enfiar-se na terra num espaço de tempo curtíssimo.
A
fortaleza caíra, mas Cardif conseguira fugir. Mas ainda devia
encontrar-se no planeta que fora bloqueado. Mais de cinco mil
unidades da frota espacial terrana formavam um envoltório
impenetrável, que não deixaria passar ninguém.
Rhodan
circulava em torno de Okul com a Ironduke, que percorria uma órbita
estável.
Determinou
que a superfície do planeta fosse mantida sob vigilância
ininterrupta. Tinha certeza absoluta de que desta vez Cardif não lhe
escaparia.
A Ironduke
era uma nave da classe Stardust. Tratava-se de um veículo espacial
esférico de oitocentos metros de diâmetro, equipado com um sistema
de propulsão linear e com o armamento mais moderno. Os tripulantes
eram quase os mesmos homens que haviam descoberto o Sistema Azul,
durante o vôo com a Fantasy.
— O
Doutor Gori Nkolate realizou estudos demorados com os fura-lamas —
disse o comandante da nave, Major Jefe Claudrin, e tirou uma baforada
de seu charuto.
Jefe
comparecera ao camarote de Rhodan, a fim de discutirem a situação.
O Major Hunt Krefenbac, que era seu imediato, permanecera na sala de
comando.
Além de
Rhodan encontravam-se presentes Reginald Bell e o matemático Dr.
Carlos Riebsam.
— Qual
foi o resultado? — perguntou Rhodan em tom de curiosidade.
O rosto
cor de couro de Jefe Claudrin transformou-se numa careta. Ao que
parecia, não se sentia muito à vontade.
— O
Doutor Nkolate conseguiu isolar a substância segregada pelos
fura-lamas que entra na composição do licor, e à qual se atribui a
criação da dependência. Sente-se desesperado porque desconfia que
a substância ativa possa ser um hormônio. Falou-me em certos
efeitos psicológicos, mas não entendi nada. De qualquer maneira,
asseverou que dentro em breve conseguirá produzir o liquitivo puro.
— Isso é
um fraco consolo — constatou Rhodan. — Mas daí se pode derivar a
esperança de que venha a tornar-se possível a produção de um
antídoto. Cada hora que passa é preciosa. Por isso precisamos levar
à Terra um número suficiente de fura-lamas, a fim de que nossos
cientistas possam examinar a substância ativa. Claudrin, cuide disso
imediatamente.
O homem de
Epsal cochichou suas instruções ao ouvido de seu ordenança.
Enquanto isso Rhodan falava com os outros. O ordenança levantou-se e
saiu do camarote. Dali a pouco, quando voltou, anunciou ao Major
Claudrin que, dentro de uma hora, a nave Antilhas, pertencente à
classe Estado, estaria a caminho da Terra com uma carga de
fura-lamas.
O aparelho
de intercomunicação emitiu um sinal.
Rhodan
contemplou-o por um segundo antes de comprimir o botão. O rosto de
Krefenbac surgiu na pequena tela.
— Sir,
acabamos de receber uma longa mensagem de hiper-rádio vinda de
Terrânia. Quer que lhe apresente a respectiva gravação? Trata-se
de um relatório sobre a situação atual.
Rhodan
refletiu por um instante e balançou a cabeça.
— Não;
deixe para lá. Mister Bell irá até aí.
Bell
levantou-se. Parecia contrariado.
— Já
vou. Sempre sou eu. Ficarei sem saber o que será falado aqui.
— É bem
possível que na sala de rádio você saiba de coisas muito mais
interessantes — disse Rhodan a título de consolo, sem desconfiar
que tinha toda a razão.
Esperou
que Bell se retirasse e prosseguiu:
— Não
há tanta pressa com o antídoto. Antes de mais nada temos de pôr
fora de ação as pessoas que tramaram tudo isso. Os antis
representam um perigo extraordinário para a civilização galáctica.
Até há pouco tempo, os membros dessa sociedade secreta
evidentemente só se guiavam por objetivos econômicos, mas parece
que houve uma mudança de rumo. Isso aconteceu por causa de meu...
por causa de Thomas Cardif, para quem os antis representam um meio
adequado de exercer sua vingança contra mim e contra a Terra. Não
sei se ainda se mantém aferrado à tese absurda de que sou
responsável pela morte de sua mãe, Thora. De qualquer maneira já
não tenho a menor esperança de um dia fazê-lo mudar de opinião.
Lançou um
olhar para Jefe Claudrin.
— De
qualquer maneira, quero que, se possível, prendam-no com vida.
— Já
demos ordens nesse sentido — disse o major sem outros comentários.
Estava
sentado na poltrona larga, feita especialmente para ele, pois era um
nativo de Epsal, filho de um oficial das forças coloniais que se
adaptara ao ambiente. Tinha um pouco mais que um metro e sessenta, e
sua largura era quase igual à altura. Em seu mundo natal, a
gravitação era duas vezes superior à da Terra, motivo por que se
movia com uma leveza extraordinária em condições gravitacionais
normais. Os cabelos ruivos e a pele marrom, que imitava o couro,
combinavam perfeitamente com seu aspecto exterior.
— Acho
que com vinte submarinos conseguiremos — disse o matemático
Riebsam com a voz circunspecta que lhe era peculiar. — Os mesmos ao
menos deverão ser capazes de localizar o esconderijo submerso. É
bem verdade que, nem mesmo por meio do calculo de probabilidades,
podemos prever o que acontecerá depois disso.
— Segundo
as últimas notícias que recebemos, a Ralph Torsten e a nave
cargueira chegarão amanhã.
Rhodan
lançou um olhar impaciente para a porta como se não pudesse esperar
mais pelas novidades que Bell lhe traria e concluiu:
— Os
submarinos serão descarregados imediatamente, para que possamos dar
início à caçada.
No
corredor soaram passos. Bell entrou precipitadamente. Segurava um
papel na mão. Deixou-se cair na poltrona, e levantou o papel como
que num gesto de recriminação.
— Que
droga! — disse com a voz tão alta que Riebsam, que era um homem
muito sensível, tapou os ouvidos.
Claudrin
limitou-se a sorrir, pois para ele os berros representavam o tom
normal de uma conversação.
— Bem
que poderíamos ter imaginado — acrescentou o gorducho.
— Imaginado
o quê? — perguntou Rhodan em tom impaciente. — Dê-me o bilhete.
— Apenas
fiz alguns apontamentos — disse Bell sem largar o papel. —
Ninguém entenderia. A mensagem de rádio foi muito longa. Mais tarde
você poderá ouvi-la, Perry. Aqui vai o mais importante:
“A sede
da General Cosmic Company informa que os fornecimentos de liquitivo
estão falhando. Os saltadores e outras raças continuam a levar suas
mercadorias à Terra e aos planetas coloniais, mas não chega uma só
nave que traga uma carga de liquitivo. Ao que parece, a produção
foi suspensa. Na Terra existem mais de duzentos milhões de viciados,
que de uma hora para outra se vêem sem o veneno tão apreciado. Os
preços do liquitivo estão subindo vertiginosamente. As pessoas que
formaram uma reserva vendem o produto por uma fortuna, sem lembrar-se
de que amanhã ou depois terão de passar sem o liquitivo. E isso só
é possível por uma semana ou, no máximo, por trinta dias. Já se
registraram algumas revoltas. Os viciados acham que o governo é
responsável pela falta do entorpecente.
Em alguns
casos o Serviço de Segurança Solar viu-se obrigado a intervir. O
pânico ameaça a Terra.”
Bell
silenciou. Olhou para o papel, refletiu por um instante e
amarrotou-o.
— É só
isso? — perguntou Rhodan.
Bell fez
que sim.
— Será
que ainda não basta?
— É
mais que suficiente, e é exatamente o que eu receava. Na situação
em que se encontram, a única atitude coerente dos antis seria esta.
Privam-nos da droga, e mais de duzentos milhões de seres humanos
enlouquecem. O caos poderá irromper. Eles nos têm nas mãos.
Jefe
Claudrin disse com sua voz potente:
— Sir,
eu não me preocuparia muito com isso. Afinal, ainda temos os
estoques de liquitivo em Lepso. Além disso, a Antilhas já partiu
para a Terra com grande número de fura-lamas.
— É
verdade, major — disse Rhodan. — Nunca se deve perder a
esperança, enquanto houver uma saída. Nosso pessoal de Lepso
apoderou-se de estoques suficientes de liquitivo para abastecer a
Terra por muitos dias. Conclui-se que ainda não existe um perigo
imediato. Quer fazer o favor de transmitir as respectivas instruções
ao planeta Lepso? O texto será aproximadamente o seguinte: Todos os
estoques de liquitivo deverão ser transportados imediatamente à
Terra, onde serão colocados à disposição da General Cosmic
Company. A distribuição deve ser supervisionada pelo Serviço de
Segurança. Os viciados receberão as quantidades de que precisam, e
isso a título gratuito, O câmbio negro será severamente punido.
Obrigado; é isso.
Providencie
para que a mensagem seja enviada imediatamente.
O major
retirou-se.
— Que
diabo! — disse Bell, contemplando as unhas. — Ainda bem que nunca
tomo cachaça doce, pois do contrário talvez também teria caído
nesta.
— Muitos
dos nossos melhores amigos caíram — disse Rhodan. — Ninguém
poderia imaginar que essa bebida alcoólica aparentemente inofensiva
cria dependência e na verdade é um perigoso veneno. Até mesmo a
bordo da Ironduke temos mais de vinte viciados. Felizmente o bar da
nave ainda tem uma provisão da bebida. É uma situação grotesca:
dependemos de um preparado que poderá representar nosso fim.
Armaram-nos uma cilada dupla.
*
* *
Embora
tivesse sido bastante danificada por ocasião do ataque contra o
conversor de tempo dos arcônidas, a Ralph Torsten já estava em
condições de entrar em ação. Comandado por Bellefjord, o cruzador
pesado acompanhava a nave cargueira através do braço da espiral da
Via Láctea, em direção ao sol distante, em torno do qual gravitava
o planeta selvático de Okul. Ambos os veículos espaciais usavam o
sistema de propulsão linear e realizavam o vôo visual. Não houve
qualquer incidente, e chegaram ao destino dentro do tempo previsto.
Protegidas
pela gigantesca frota de guerra terrana, a Ironduke, a Ralph Torsten
e a nave cargueira pousaram à margem do maior dos oceanos do
planeta. Não se via ou percebia nada dos antis. Estavam escondidos
no fundo do mar, esperando. Ninguém sabia se estavam em condições
de observar os acontecimentos que se desenrolavam na superfície.
Os vinte
submarinos atômicos foram descarregados e levados à água por meio
do equipamento antigravitacional. Encontravam-se numa gigantesca
baía, escolhida com base num reconhecimento aéreo. As paredes
íngremes de rocha fechavam-na quase de todos os lados. Apenas havia
uma estreita passagem que dava para o mar aberto, e que possuía
profundidade suficiente para permitir a passagem segura dos
submarinos.
As
manobras de treinamento consumiram dois dias.
Finalmente
Rhodan convocou os comandantes para a Ironduke, a fim de discutirem a
situação.
— Os
senhores têm pela frente uma tarefa fora do comum — disse Rhodan,
enquanto seus olhos cinzentos fitavam aqueles homens que o ouviam
atentamente com uma expressão de benevolência. — Até hoje os
senhores pilotaram naves espaciais, e de repente terão de cuidar de
submarinos. No fundo a diferença não é tão grande assim, pois
ambos os tipos de barco foram construídos para mergulhar num
elemento hostil ao homem. Em vez do vácuo, passa a ser a água. O
oceano de um planeta estranho representa uma porção de água
desconhecida, que talvez poderá também representar um perigo para
nós. No fundo desse oceano oculta-se a elite do poderio hostil dos
antis.
Fez uma
pausa, mas ninguém quis formular perguntas.
— Está
bem. Passemos à tarefa propriamente dita. O comandante de cada
submarino receberá um mapa da superfície do planeta. Este apenas
mostra os contornos dos continentes e, portanto, também dos mares.
Estão todos unidos, tal qual na Terra. Cada comandante terá um
setor definido, que será por ele revistado. Prevê-se o contato de
rádio ininterrupto com a sala de comando de minha nave, contato este
que também funcionará como uma espécie de comunicação entre os
submarinos. No momento em que alguém acredite ter descoberto aquilo
que procuramos, deverá avisar imediatamente. Quando isso acontecer,
os outros submarinos suspenderão as buscas e se dirigirão o mais
depressa possível ao lugar em que se encontra a embarcação que fez
a descoberta, a fim de dar-lhe apoio. O ataque só será desfechado
depois que eu tiver dado ordem para isso. Quero que tudo fique bem
entendido, especialmente o último ponto que acabo de mencionar.
Os
comandantes responderam com um simples gesto de assentimento.
— Muito
bem. Um submarino em cada cinco levará a bordo um oficial do Serviço
de Segurança, que realizará as prisões caso os antis deponham as
armas. Tudo deverá ser feito de acordo com as normas, pois do
contrário os antis poderão processar-nos perante qualquer tribunal
da Via Láctea. Isto pode parecer ridículo, mas estou falando sério.
Por isso quero pedir-lhes que, se surgir uma hipótese dessas, sigam
as instruções dos quatro oficiais de segurança. Este ponto também
foi bem entendido?
Um dos
comandantes fez uma pergunta.
— As
instruções dos oficiais do Serviço de Segurança também
abrangerão as operações dos submarinos?
— É
claro que não. Os oficiais só darão instruções relativas à
eventual prisão dos antis e do “maquinador”
que está atrás deles.
Rhodan
preferiu não mencionar o nome de seu filho, mas todos sabiam que
estava aludindo ao mesmo. Falou durante mais dez minutos e mandou que
os submarinos partissem no dia seguinte.
Naquela
mesma noite a Ironduke decolou para voltar a colocar-se em Órbita e
continuar a observar a superfície do planeta. A Ralph Torsten
permaneceu na superfície, a fim de dar proteção à nave cargueira.
*
* *
O
professor Wild, que era uma grande capacidade na área das secreções
e dos hormônios, não perdeu as esperanças. Seus colaboradores
queriam desistir. As notícias vindas de todas as partes do mundo
eram tão desanimadoras quanto os resultados das pesquisas. Ninguém
sabia dizer por que a substância ativa expelida pela glândula da
tromba do fura-lama era um entorpecente. Segundo os resultados das
pesquisas, não era nenhum entorpecente, mas uma substância
regeneradora das células de ação rápida. Ainda não havia sido
esclarecido se a substância era uma secreção ou um hormônio.
Aliás, essa indagação era de importância secundária.
— Será
que esta substância realmente é a substância ativa que encontramos
nos frascos? — perguntou o Dr. Koatu, um médico que desempenhara
um papel de destaque no combate ao monstro de plasma.
A divisão
de microscopia transmitiu uma informação:
— Informação
para o professor Wild. Substância ativa: n.a.
Um colega
que se encontrava à frente do Dr. Koatu disse em tom de desespero:
— Nada
averiguado. Será que poderíamos esperar outra coisa?
Os médicos
do planeta Terra já não sabiam o que fazer.
*
* *
Alguns
dias se passaram até que a nave cargueira levasse os submarinos aos
setores que lhes foram designados. Depois iniciaram as buscas
coordenadas.
O
submarino S-35 tinha a percorrer um bom trecho. Desenvolvendo a
velocidade máxima, singrava a superfície relativamente tranqüila
do mar tropical. A plataforma do convés, protegida contra as ondas,
tinha lugar para vários homens. Uma linha telefônica estabelecia
contato direto com a sala de máquinas. Se necessário, S-35 poderia
mergulhar dentro de trinta segundos.
Mas, ao
que parecia, não havia motivo para Isso.
O Capitão
Alf Torsin examinou o horizonte com o potente binóculo, mas não viu
terra firme ou qualquer ilha. Sua área de operações começaria
algumas milhas adiante e se estenderia para o oeste, até a terra
firme, enquanto no sul a linha divisória passava pelo alto-mar.
Por
enquanto o mar primitivo em nada se distinguia dos oceanos do planeta
Terra, a não ser pela ausência de navios ou dos aviões
estratosféricos que voavam nas alturas do céu. Mas por enquanto
ninguém sabia como seriam as coisas nas profundezas inexploradas.
As
ecossondas funcionavam ininterruptamente. A profundidade média do
mar era de dois quilômetros e o fundo não apresentava grandes
variações. Mas dali não se podia concluir nada.
Uma
fortaleza poderia ter sido construída no interior da rocha
primitiva, ficando exatamente ao mesmo nível do fundo do mar.
Torsin
dirigiu-se ao jovem oficial de navegação.
— Então,
Brischkowski, o que lhe parece?
O jovem
tenente parecia indeciso.
— Aqui
em cima não se pode chegar a qualquer conclusão. Quem sabe se
mergulharmos...
— Dentro
de dez minutos atingiremos o limite de nossa área, então o senhor
poderá cuidar dos instrumentos de localização. Qualquer objeto
metálico será registrado automaticamente a grande distância. Só
mesmo o diabo poderá impedir que encontremos esses sacerdotes.
O Major
John Rengall, que fitava em tom pensativo as cabeças de espuma que
deslizavam ao lado do submarino, disse em tom sarcástico:
— É uma
comparação bizarra, capitão, mas o senhor não deixa de ter razão.
A diferença entre os diabos e os sacerdotes não é muito grande. O
culto de Baalol não tem a menor semelhança com qualquer religião.
Se dependesse de mim, nenhum dos antis sairia dali com vida.
— Antes
de mais nada teremos de encontrá-los — disse Torsin, abafando o
otimismo de seu interlocutor e olhando para o mapa. — Está na
hora. Vamos descer.
Enquanto
desciam pela escotilha, em direção à sala de comando, o submarino
começou a mergulhar. Os tanques encheram-se de água, arrastando o
barco para as profundezas desconhecidas. A escotilha fechou-se com um
baque surdo. Estavam isolados do mundo exterior. Era como se
estivessem a bordo de uma pequena espaçonave. O submarino S-35 tinha
pouco menos de cinqüenta metros de comprimento. Possuía formato de
torpedo e sua tonelagem bruta chegava a duas mil toneladas. Os
reatores ficavam na popa, que estava separada do resto do submarino
por uma parede de chumbo. Os trinta tripulantes achavam-se abrigados
em pequenos camarotes e dificilmente teriam motivo para queixar-se da
falta de espaço.
As telas
iluminaram-se na sala de comando. Estavam instaladas de forma tal que
reproduziam num ângulo de 180 graus tudo que se encontrasse no
sentido do deslocamento do barco.
O
submarino não balançava e descia lentamente. Torsin voltara a
fechar a entrada dos tanques. A água foi escurecendo e acabou por
tornar-se completamente negra. Não viram nenhum peixe ou outra forma
de vida.
Quando os
holofotes foram acesos, fecharam os olhos por um instante, pois
sentiram-se ofuscados. Quando voltaram a abri-los, viram que o mar se
tornara transparente de novo, mas ninguém sabia calcular as
distâncias, por falta de um ponto de referência. Será que
enxergavam apenas dez metros? Ou seriam cem?
Quando o
indicador de profundidade havia atingido a marca dos duzentos metros,
o submarino sofreu um ligeiro solavanco, como se tivesse tocado no
fundo.
Mas isso
era Impossível, pois o aparelho de ecossonda, que funcionava
Ininterruptamente, continuava a indicar uma profundidade de cerca de
dois mil metros.
— O que
foi isso? — perguntou Rengall com o rosto pálido. Não estava com
medo, mas tinha a impressão de que a água era um elemento mais
perigoso que o vácuo do espaço cósmico. — Será que já chegamos
ao fundo?
— A
marcação do aparelho de ecossonda é correta — respondeu Torsin,
examinando as escalas.
As telas
não mostravam nada. O Tenente Brischkowski fez um movimento rápido
e ligou outro equipamento, que ampliava o ângulo de visão para
baixo. Com isso poderiam ver o que havia sob o barco.
Viram uma
água verde reluzente, que lembrava o infinito e não parecia ter
fundo. O submarino continuava a baixar tranquilamente.
— Talvez
tenha sido um animal — conjeturou Brischkowski com a voz
embaraçada. — Uma espécie de baleia.
— Se por
aqui não existem peixes pequenos, muito menos existirão os grandes.
É impossível! — opôs-se Rengall.
Quando
atingiram a marca dos mil metros, encontraram a prova que desmentia
essa afirmativa, se bem que o animal que viram não foi nenhuma
baleia. Aquele monstro de olhos protuberantes, que se movia
lentamente em seu campo de visão, não se parecia com nada que
existisse na Terra ou em seus mares. Era a corporificação do
pesadelo de um louco. Quanto ao tamanho, poderia competir
perfeitamente com o S-35. Na verdade, só viram o olho, que tinha
dois metros de diâmetro e contemplava o intruso.
— Que
coisa horrível! — exclamou Rengall bastante apavorado.
Suas mãos
embranqueceram. Segurou fortemente as travessas da escada e
sussurrou:
— Aqui
embaixo existem animais...
— Talvez
seja mesmo um animal — disse o comandante Torsin em tom de
ceticismo e fez o submarino prosseguir na descida.
O pesadelo
subiu e desapareceu do campo de visão.
— Não
sabemos se foi num gigante desses que esbarramos quando nos
encontrávamos a duzentos metros, mas é provável que sim. Estes
animais são inofensivos, pois do contrário já teriam atacado. Mas
esse olho... — comentou Torsin.
— É um
olho muito estranho, sir — disse o Tenente Brischkowski.
Torsin
fitou-o prolongadamente.
— Por
que achou que era estranho?
— Fitou-nos
com uma expressão bastante curiosa, e tinha dois metros. Não vi
nada do animal além do olho, que parecia segurar-me e não me
soltava mais.
— Trata-se
de um efeito hipnótico — disse Torsin, como se falasse para si
mesmo. — Dava mostras de ser inteligente e de certa forma
condescendente. Era como se aquele animal achasse que nossa
penetração em seu mundo silencioso era desculpável. Não sei como
agüenta essa tremenda pressão da água.
Rengall já
se recuperara do susto. Olhou para o indicador de profundidade, que
havia atingido a marca dos mil e quatrocentos metros. Torsin ligou os
aparelhos de goniometria. Os impulsos corriam para todos os lados,
mas nenhum deles foi refletido. Isso só aconteceria quando
atingissem alguma peça de metal, mesmo que esta tivesse apenas o
tamanho de um pires e ficasse afastada cinqüenta quilômetros.
Os motores
de propulsão continuavam a funcionar. O submarino S-35 aproximava-se
constantemente do continente ocidental e do fundo do mar.
Por
ocasião do encontro com o monstro constatara-se que o alcance dos
holofotes era de duzentos metros. Portanto, suficiente para que o
barco mudasse de rumo, se de repente surgisse um obstáculo.
Praticamente não havia nenhum perigo de colisão.
Além
disso, Torsin ligou a sonda horizontal.
Dois mil
metros.
Avistaram
o fundo do mar. Era liso e não apresentava maiores elevações ou
reentrâncias. A cor amarelenta levava à conclusão de que era
composto de barro e lama. Os homens que fitavam atentamente todos os
detalhes não encontraram o menor sinal de vegetação. Nem de
animais.
Chegaram a
ver uma estranha marca de arrasto, que em hipótese alguma poderia
ter surgido exclusivamente pelo efeito da água. Teriam provindo do
dragão de olhos que haviam observado?
De repente
a marca terminou. Não prosseguia em outra parte. O ser que havia
produzido a marca devia ter abandonado o fundo do mar nesse lugar e
subido.
O
intercomunicador de bordo emitiu um sinal. Torsin comprimiu o botão.
— O que
houve, Haller?
— Há um
chamado da sala de comando da Ironduke, sir. Trata-se de um teste de
rádio.
Aproveitam
a oportunidade para solicitar um breve relato dos acontecimentos.
— Diga
que está tudo em ordem e que o resultado das buscas foi negativo.
— Está
bem, sir.
Torsin
desligou.
Os
impulsos rastreadores, regulados para refletir metais, corriam
incessantemente à frente do submarino e não voltavam. O fundo do
mar entrou em declive e depois de percorridos trezentos quilômetros
baixou mil metros, de forma que a profundidade total passou a ser de
três mil metros. Isso correspondia à capacidade máxima de mergulho
do barco. Felizmente, a quinhentos quilômetros da costa, o fundo do
mar voltou a subir. Mas seu aspecto permaneceu inalterado até uns
oitenta quilômetros do continente. De inicio Torsin, Brischkowski e
Rengall apenas viram uma ondulação irregular do fundo, que
apresentava caráter rochoso. De repente apareceram fendas. Seria
impossível fazer o submarino descer pelas mesmas, pois pareciam
muito estreitas e não permitiam uma boa exploração pelo ecossonda.
Além disso, a idéia de que no interior delas poderia haver monstros
marinhos menos pacatos que o que haviam encontrado não era muito
animadora.
O fundo
acidentado foi seguido por uma cadeia de montanhas rochosas, cujos
cumes ficavam a pouco menos de quinhentos metros abaixo da
superfície. Torsin teve de enfrentar maiores dificuldades para
manobrar o submarino, e Rengall foi empurrado ligeiramente para trás.
Por isso contentou-se em fitar atentamente as telas e entretinha a
esperança maluca de encontrar aquilo que procuravam. Era bem verdade
que não conseguia fazer uma idéia precisa de como seria o
esconderijo dos antis, mas imaginava que tivesse o formato de uma
gigantesca abóbada metálica, que seria capaz de resistir à pressão
da água.
O
submarino S-35 vasculhou as montanhas submarinas, sem o menor
resultado.
Depois
disso continuou a avançar em direção ao continente, e depois
passou a deslocar-se paralelamente à costa, a uma distância pouco
superior a quinze quilômetros. De inicio tomou a direção norte,
até chegar ao cabo, e após isso seguiu para o sul, em direção ao
alto-mar.
As
notícias recebidas da sala de comando da Ironduke revelavam que os
outros submarinos também não haviam encontrado nada. Só mesmo
devido a um acaso inacreditável se conseguiria encontrar uma
fortaleza submarina a respeito da qual não se dispunha de outras
indicações.
Talvez as
buscas teriam de prosseguir por semanas, até que alcançassem algum
resultado.
Se é que
alcançariam!
Ao atingir
o limite sul de sua área de operações, o submarino S-35 inverteu o
curso e voltou a tomar a direção norte. Embora isso pudesse parecer
inútil, Torsin aproximou-se da terra firme a tal ponto que se
deslocavam poucos metros abaixo da água, junto à costa rochosa. Às
vezes esta era tão Íngreme que tinham de mergulhar junto dela a uma
profundidade de quinhentos metros para atingir o fundo do mar.
Rengall
observou a manobra perigosa com uma expressão de ceticismo.
— É
necessário passar tão perto da rocha? — perguntou, sem tirar os
olhos das telas.
Do lado
esquerdo viam-se as formas bizarras da Íngreme encosta submarina,
enquanto à direita se estendia o infinito do oceano. As saliências
e fendas arestosas passavam rapidamente.
— Afinal,
o senhor tem os instrumentos. Não há necessidade de colocar em
perigo o barco e seus ocupantes — concluiu Rengall, segundos
depois.
O Capitão
Alf Torsin voltou lentamente a cabeça e fitou o oficial do Serviço
de Segurança.
— Sempre
temos sido bons amigos, major. Vamos deixar que as coisas continuem
assim? Pois bem. Nesse caso não se intrometa no meu trabalho. A
responsabilidade por este submarino cabe exclusivamente a mim, e sei
muito bem o que devo fazer. É verdade que o senhor é major,
enquanto eu sou um simples capitão, mas acho que durante esta
operação isso não vem ao caso. Aliás, nossos impulsos de
localização serão totalmente inúteis se os antis tiverem
construído sua fortaleza sob o continente, com uma entrada avançando
em forma de galeria, sob a água. Seria perfeitamente possível
atingir essa entrada com o submarino em que fugiram. Segundo imagino,
a fortaleza nesse caso ficaria em terra firme, ou melhor, sob a terra
firme.
— Não
critiquei seus atos; apenas formulei uma pergunta — retrucou
Rengall com a voz irritada.
Bem que
poderia ter imaginado que suas palavras iriam provocar
aborrecimentos. Havia uma espécie de rivalidade amistosa entre os
oficiais da ativa da Frota Espacial e os oficiais do Serviço de
Segurança Solar. Aproveitavam qualquer oportunidade para
golpearem-se. A intenção não era hostil, e tais atos pareciam
reforçar a auto-confiança.
Torsin
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas viu-se impedido pelo grito
do Tenente Brischkowski.
— Olhem!
Um túnel!
Torsin
reagiu com uma rapidez espantosa. Comprimiu um botão que parou as
hélices e fez o submarino aproximar-se da encosta rochosa.
Encontravam-se duzentos metros abaixo da superfície. Realmente, em
meio à penumbra, foi surgindo uma mancha circular escura.
Verificaram
que se tratava de uma caverna. A luz dos holofotes não chegou ao
fundo da caverna.
— O
tamanho deste buraco é suficiente para engolir-nos juntamente com
nossos torpedos e foguetes atômicos — disse Torsin em tom
pensativo.
Fitou
Rengall com uma expressão de nervosismo.
— Não
sei se devemos arriscar. Basta um pequeno erro... — prosseguiu o
comandante do S-35.
Rengall
manteve-se em silêncio. Não deu nenhum conselho nem procurou animar
Torsin. Mas por outro lado não procurou demovê-lo de seu intento.
O Tenente
Brischkowski limitou-se a dizer:
— Bem...
Torsin
aproximou-se ainda mais do túnel, que estava mergulhado numa luz tão
intensa que se viam perfeitamente suas bordas. Não havia o menor
sinal de que estas tivessem sido trabalhadas. Pareciam continuar tal
qual a natureza as fizera. Aquilo poderia ter sido feito de
propósito, para enganar alguém. Mas era também possível que não
fosse.
Rengall
leu no rosto de Torsin a intenção de examinar o interior do túnel,
custasse o que custasse. Por isso resolveu falar com a voz tranqüila:
— E os
trajes de mergulhador indilaceráveis? Será que não temos alguns a
bordo?
Torsin
confirmou com um gesto de surpresa.
— Isso
mesmo. Quase que me esqueço disso. Em vez de arriscar todo o
submarino, será preferível enviar dois dos meus homens. Mas não
acredito que a missão seja perigosa. Os trajes agüentam uma batida
na rocha; não vazarão.
Rengall
empertigou-se.
— Se me
arranjasse uma pessoa competente, bem que gostaria...
— Nem
pense nisso! — protestou Torsin em tom enérgico. — Sou
responsável pelo senhor. Se algo lhe acontecer...
— Sou um
aficionado do esporte do mergulho — tranqüilizou-o o major. — Os
trajes de mergulhar permitem atingir a profundidade de trezentos e
cinqüenta metros. No momento encontramo-nos a duzentos metros.
Levarei uma arma de radiações.
— Temos
em nosso arsenal um total de quatro armas de radiações neutras —
disse Torsin, que já começava a concordar com a proposta. — As
outras são muito perigosas, face à condutibilidade da água. Está
bem. Concordo. Mas a responsabilidade será exclusivamente sua.
— Perfeitamente,
capitão. Nada nos poderá acontecer, desde que o senhor aguarde
nossa volta. É bem possível que o túnel não seja muito comprido;
talvez descreva uma curva pouco adiante e logo termine.
Haller, o
operador de rádio, era a única pessoa além de Rengall que tinha
experiência na arte do mergulho, e por isso foi destacado para
acompanhá-lo. Não se entusiasmou muito com a tarefa, mas não quis
passar por covarde.
Dali a dez
minutos, os dois homens saíram pelas comportas do submarino, e
depois de terem experimentado seus aparelhos de rádio, afastaram-se
do casco do submarino.
Os trajes
de mergulhador que usavam eram quase ideais. Não havia necessidade
dos incômodos recipientes de oxigênio, já que o ar respirável era
suprido por vinte horas através de um processo químico. O elemento
que realizava esse processo era pequeno; ocupava menos espaço que o
aparelho de rádio, que não poderia ser considerado grande. A arma
de radiações estava enfiada num bolso do lado direito. Seria fácil
alcançá-la.
O
submarino S-35 mantinha-se imóvel. Seus holofotes forneciam bastante
luz. Rengall sentiu-se leve. Descreveu um looping
e fez um sinal alegre para Torsin.
— Isto
aqui é formidável — disse para dentro do microfone que estava
embutido no capacete, tal qual num traje espacial. — No mar aberto
sinto-me mais seguro do que no aperto de um submarino.
Torsin
respondeu com a voz zangada:
— Só
enquanto eu deixar os holofotes acesos. O senhor se espantaria ao
notar que não sentiria mais nenhum prazer se de repente se visse
envolvido pela escuridão. Não perca tempo. Haller já chegou à
entrada da caverna.
Rengall
praguejou contra a pressa dessa gente pouco romântica e seguiu o
radioperador, que nadava à sua frente. Nem teve tempo para examinar
o fundo do mar.
De pé na
entrada da caverna, Haller apontou para o negrume que enchia a mesma.
— Não
se vê nada, major. Ao que parece, realmente é uma espécie de
túnel. Quem sabe se não encontramos os antis, sir?
— Pode
ser que sim, pode ser que não — disse Rengall em tom de ceticismo.
Pousou
suavemente ao lado de Haller.
A luz dos
holofotes do submarino S-35 penetrava caverna adentro numa extensão
de cinqüenta metros, fazendo com que esta assumisse dimensões
gigantescas. Não se via o menor sinal do seu fim.
— Teremos
que nadar — sugeriu Rengall.
Haller
confirmou com um gesto. Ao que parecia, não esperara outra coisa.
Empurraram-se
com os pés e penetraram no túnel, que se estreitava lentamente.
O S-35 não
teria chegado longe. Quando comunicou esse fato a seu amigo Torsin,
Rengall parecia satisfeito. Assim que penetraram na escuridão,
ligaram as luzes individuais, montadas sobre os capacetes.
A luz só
alcançava uma distância de dez metros, mas era quanto bastava.
A caverna
transformou-se num túnel quase redondo com dez metros de diâmetro,
que avançava horizontalmente para o interior do continente rochoso.
Ou teria sido aberto?
Ainda não
viram nenhum sinal de que o túnel fora construído artificialmente.
Atrás
deles, a saída transformou-se numa grande mancha luminosa. Quando
atingiram a curva e ultrapassaram-na, a mancha desapareceu. Rengall
sabia que agora estavam verdadeiramente sós.
Flutuavam
num mundo irreal e fantasmagórico, que já não tinha a menor
ligação com a superfície. Os feixes de luz dos holofotes
iluminavam paredes rochosas irregulares, pequenas fendas e saliências
arestosas. Às suas costas, o chão do túnel ia deslizando para
trás, lenta e ininterruptamente. Não havia peixes nem plantas.
Depois de
terem nadado muito e percorrido algumas centenas de metros, o túnel
abriu-se. O teto, as paredes e o chão recuaram tanto que a luz dos
holofotes não os atingiu. Era impossível saber se haviam voltado ao
mar aberto, ou se tinham penetrado numa gigantesca caverna. A última
hipótese era a mais provável, pois os mapas de Torsin não
registravam nenhum lago ou braço do mar atrás da linha do litoral.
Seria um
lago subterrâneo? Uma gigantesca caverna cheia de água, que tinha
ligação direta com o oceano?
— Como
faremos para encontrar a continuação do túnel, se é que a mesma
existe? — perguntou Haller em tom de perplexidade.
— Vamos
procurar — sugeriu Rengall, embora ele mesmo já não acreditasse
muito no êxito da missão. — Temos de nadar junto à parede.
— O que
houve? — disse a voz de Torsin saída dos seus alto-falantes. —
Onde estão?
— Numa
caverna cheia de água. Não sabemos qual é seu tamanho.
— Ao que
parece é uma pista falsa.
A voz do
capitão parecia decepcionada.
— Voltem.
Acontece
que Rengall se sentia possuído pela febre dos descobrimentos.
— Por
que, capitão? Talvez encontremos a continuação...
— Quero
que voltem, major. Não vamos perder nosso precioso tempo. Entendido?
Rengall
viu Haller que pairava a seu lado. Via perfeitamente o rosto do
radioperador no interior do capacete. Fez um sinal indagador com a
mão, como se não quisesse que seu comandante tivesse conhecimento
das dúvidas que o atormentavam.
— Está
bem; vamos voltar — disse Rengall depois de algum tempo.
Seria um
absurdo procurar criar um caso com Torsin, ainda mais que o capitão
se achava investido no comando.
Dali a
meia hora apresentaram-se a Torsin. Chegaram bem em tempo para ouvir
uma mensagem de rádio transmitida pela Ironduke a todos os
submarinos.
A mensagem
era concebida em termos lacônicos:
— Chamando
todos os barcos que operam em Okul. Emergir imediatamente e
transmitir constantemente sinais goniométricos. Aguardar novas
ordens. Por enquanto as buscas estão suspensas. Rhodan.
O Capitão
Torsin fitou o Major Rengall com uma expressão de perplexidade.
— O que
será isso? — perguntou surpreso. — Será que alguém descobriu
os antis?
Rengall
balançou lentamente a cabeça.
— Não
acredito, capitão. Deve ter havido algum imprevisto. Não
demoraremos em saber.
Emergiram
e o submarino ficou parado em meio ao mar revolto da costa, que se
erguia sob a forma de um paredão de rocha. O sol já ia descendo no
oeste. A noite não tardaria a chegar.
*
* *
Fazia três
dias desde que a nave esférica Antilhas trouxera os fura-lamas para
a Terra. O Dr. Koatu encontrava-se em companhia do professor Wild.
— Leia
isto, Koatu! — pediu o professor.
Koatu
pegou o relatório da Clínica Universitária de Heidelberg e leu.
Em
Heidelberg fora aplicado um novo método de investigações. E as
pessoas que trabalhavam em Heidelberg estavam em condições de
provar que a secreção glandular não era nenhum veneno nem criava
dependência. Tratava-se de uma excelente substância
rejuvenescedora. Mas Heidelberg manifestou pela primeira vez a
suspeita de que talvez o liquitivo contivesse outro princípio ativo
além da substância rejuvenescedora. Princípio este que até então
teria escapado à atenção dos pesquisadores.
— Então,
o que acha? — perguntou o professor Wild ao seu colaborador, assim
que este acabou de estudar o relatório.
— É
possível — admitiu Koatu a contragosto. — Mas onde deveremos
procurar a outra substância? No liquitivo ou no seu elemento ativo?
— Era o
que eu gostaria de saber, Koatu — o professor Wild deu a entender
que já não sabia o que fazer.
*
* *
Uma bela
manhã Phil Morris apresentou-se como jogador de golfe no clube, a
fim de seguir o conselho de seu amigo Rengall. Mas uma surpresa muito
desagradável lhe estava reservada.
O gerente,
Garry Rascall, não lhe dispensou as atenções que seriam de
esperar. Parecia nervoso e perturbado e não fazia o menor esforço
para disfarçar o gênio irritadiço.
— O que
veio fazer aqui a uma hora destas? — perguntou. — Ninguém
costuma jogar tão cedo...
— Não
pretendo jogar golfe — disse o médico. — Quero fazer uma visita
ao senhor e ao seu excelente bar...
— Na
última noite alguém já me fez esta visita — respondeu Rascall,
cujos olhos subitamente se estreitaram ao encarar Morris. —
Anteontem de noite o senhor tomou uma bebedeira daquelas.
— Foi o
liquitivo. Senti falta do mesmo:
Foi por
isso que resolvi procurá-lo. Sir Rengall me contou que o senhor
ainda tem alguma coisa em estoque. Só pretendo ir à cidade dentro
de algumas semanas. Por isso seria muita gentileza de sua parte se
pudesse ceder-me alguns frascos. Para o senhor, deve ser mais fácil
fazer outra compra.
— O
senhor devia ter vindo algumas horas antes — disse Rascall com uma
entonação estranha na voz. — Sir Rengall foi a última pessoa à
qual forneci liquitivo.
— Mas...
— Queira
acompanhar-me — pediu o gerente, e saiu caminhando à sua frente,
em direção à sede do clube.
Era um
lindo bangalô, com uma varanda larga e degraus de madeira. Notava-se
a falta de uma grade, que fora removida à força. Os restos estavam
jogados na rama. Morris teve uma sensação nada agradável.
— Veja
com seus próprios olhos, doutor. O liquitivo estava guardado no
armário atrás do bar. Foi roubado. A mesma coisa aconteceu ontem de
noite na casa de Rengall. Antigamente costumava-se roubar dinheiro,
hoje em dia furta-se licor. Como este mundo está mudado!
Ao que
parecia, aquele homem nem desconfiava do motivo daquela série de
furtos. Era a última chance de Morris.
— Bem, o
licor não é barato. Vale seu peso em prata. Que tal tomarmos um
trago para matar o susto?
Rascall
fez um gesto de assentimento.
Estava
distraído. Ao que parecia, já não desconfiava de Morris.
— Está
bem, doutor — foi até o bar e tirou uma garrafa bojuda da
prateleira. — Pode ser um uísque?
— Bem,
prefiro um liquitivo. O senhor ainda deve ter alguns centímetros
cúbicos.
Rascall
balançou a cabeça, perplexo.
— Isso é
o cúmulo! Não acabo de lhe dizer que a mercadoria foi roubada? Sim,
também os miseráveis frascos que estavam embaixo do balcão. Não
deixaram um único. Tenho de ir à cidade ainda hoje para renovar meu
estoque, senão os sócios do clube acabarão arrebentando tudo.
Phil
Morris achou que seria preferível contar a verdade ao gerente. Se
agissem em conjunto, talvez conseguissem alguma coisa.
— Posso
garantir que, na Flórida ou em qualquer parte dos Estados Unidos, o
senhor não conseguirá uma única garrafa do produto, mesmo que
pague o dobro ou o décuplo do preço. As remessas foram suspensas.
Ao que tudo indica, o governo pretende curar-nos a força, por meio
de uma radical privação da bebida. Não será difícil imaginar as
conseqüências. Dentro de trinta dias, duzentos milhões de viciados
farão desmoronar a civilização, ou terão de ser presos.
Rascall
fitou Morris de lado.
— O
senhor já sabia disso anteontem de noite, quando arranjei as cem
garrafas para Rengall? Será que Rengall sabia?
Morris fez
que sim. Parecia envergonhado. De repente um sorriso surgiu no rosto
de Rascall.
— Quer
dizer que o senhor está numa enrascada, tal qual eu. Que bom! E
agora? Será que o senhor, que é médico, não vê nenhuma saída?
— O
pessoal de Terrânia não encontrou saída. Como é que eu poderia
encontrar? Só há um meio: arranjar liquitivo em algum lugar. Não
tenho a menor vontade de passar o resto dos meus dias num hospício.
Ainda poderei viver nove ou dez anos. E pretendo vivê-los.
— Eu
também — disse Rascall. — Onde poderemos encontrar liquitivo?
— Na
cidade. Feche seu “botequim”
e venha comigo. A corrida ainda não começou, e por enquanto não
houve nenhum anúncio oficial. Pouca gente deve desconfiar de alguma
coisa. Precisamos tentar adquirir os eventuais estoques. O senhor tem
uma arma?
Rascall
fez que sim. Parecia espantado.
— Naturalmente.
Para quê?
— Vamos
levá-la.
Rascall
olhou para o armário arrombado e compreendeu. Pôs a mão na gaveta
e tirou uma pistola. Enfiou-a no bolso do casaco.
— Vamos
pegar o carro de entregas?
— Isso
chamará menos a atenção — disse Morris, concordando com a
sugestão.
— Dessa
forma teremos motivo para perguntar em toda parte se há liquitivo,
sem provocar maiores desconfianças. Em primeiro lugar procuraremos o
atacadista que costuma fornecer-lhe o produto.
Antes que
chegassem aos subúrbios, começaram a desconfiar que sua tentativa
haveria de fracassar. Ao reconhecer o veículo do clube, uma massa
ululante parou-os.
Antes que
Rascall pudesse perguntar qual era o motivo do tumulto, foi arrancado
da cabina e obrigado a abrir o compartimento de carga. As pessoas
reviraram-no e soltaram gritos de decepção ao constatarem que no
carro só havia garrafas e caixas vazias.
— Onde
esconderam o licor? — perguntou um homem, segurando Rascall pela
gola do casaco e sacudindo-o. — Fale logo, se não quiser morrer.
— Que
licor? — perguntou Rascall num gemido, e fez um movimento discreto
com a mão, a fim de pegar a arma. — Não sei do que estão
falando.
Realmente
não sabia, mas imaginava.
Tal qual
Morris, que fora deixado em paz.
— Liquitivo,
seu burro! — berrou o homem que segurava o gerente, e desferiu-lhe
um golpe que o fez cambalear e cair ao chão. — Você sabe tão bem
quanto eu que não há mais meio de arranjar aquilo. Procuramos por
toda a cidade. Diga logo, senão...
Não pôde
prosseguir.
Rascall
conseguiu arrancar a pistola do bolso do casaco. Levantou-se de um
salto e apontou a arma para o cabeça do bando. Os homens recuaram.
— Ligue
o motor, Morris! — gritou, enquanto engatilhava a arma. A pistola
deu um ligeiro estalo.
Estava
pronta para ser disparada. — Abram caminho — disse, dirigindo-se
ao homem que lhe dispensara um tratamento tão áspero. — Não
temos liquitivo. Alguém há de providenciar para que o mercado volte
a ser suprido. Deixem-nos passar!
Brandiu
ameaçadoramente a arma para abrir caminho. Morris ligou o motor e
pôs-se no volante. Engatou a primeira e abriu a porta do lado
direito.
Rascall
saltou sobre o estribo e segurou-se com a mão direita. O cabeça do
bando esqueceu-se de todas as cautelas e procurou segurar a perna do
gerente do clube, a fim de evitar que entrasse no veículo.
— Não
permitam que escapem! — gritou em voz alta. — Têm o licor
escondido na cabina e não querem dar-nos.
Rascall
fez pontaria e atirou. O chefe do bando deu um grito e soltou sua
perna. Morris acelerou, enquanto o gerente ia entrando no veículo.
Atrás deles a multidão começou a uivar, mas já era tarde. Desta
vez a presa lhes escapara.
— O
senhor matou o homem, Rascall?
— Não;
apenas atirei em sua perna. Por enquanto esse sujeito não assaltará
mais ninguém. Vivemos num estado de anarquia. Vamos diretamente ao
atacadista.
Constataram
que outros tiveram a mesma idéia antes deles. O gigantesco edifício
estava cercado. Gigantescos cartazes e coros de vozes esclareciam o
que a multidão queria. Exigiam a entrega dos estoques de liquitivo.
Morris
parou o veículo.
— Pois
vamos a pé — decidiu Rascall, guardando a arma e abrindo a porta
do carro. — Sou um velho conhecido do chefe do depósito. Posso
garantir que nos cederá algumas garrafas de liquitivo, desde que
ainda tenha o material em estoque. Venha comigo, doutor.
Deixaram o
carro estacionado e aproximaram-se do depósito pelos fundos.
Entraram sem incidentes numa porta lateral. Mas para sua surpresa um
policial impediu que prosseguissem.
— Pare!
Quem são os senhores?
Um sorriso
tranqüilo surgiu no rosto de Rascall.
— Somos
do clube de golfe, sir. Sou o gerente.
— O que
vieram fazer aqui?
— O que
houve? Será que o estabelecimento foi confiscado? Pretendo fazer
compras para o bar do clube. Será que isto é proibido?
— Compre
o que quiser, menos liquitivo. Na saída serão revistados.
— Isso
é...
— São
as ordens que recebi — disse o policial em tom resignado. — Se
quiser informações mais detalhadas, pergunte aos meus superiores.
Parece que o senhor ainda não percebeu que foi proclamado o estado
de emergência.
— Só
por causa do liquitivo? — perguntou Morris.
O policial
lançou-lhe um olhar desconfiado, mas irônico.
— Já
percebeu isso?
Encontraram
o chefe do depósito no escritório. Além disso, havia dois
funcionários uniformizados na sala. Examinavam uma lista e
confabulavam em voz baixa. De inicio não demonstraram o menor
interesse pelos recém-chegados.
— Olá,
Rebok. O que houve? Será que os tempos da lei seca voltaram?
Rebok era
um homem de meia-idade que vestia um guarda-pó azul. Apertou a mão
de Rascall e também cumprimentou Phil Morris.
— Até
parece, Garry. É bem verdade que a proibição só atinge o
liquitivo. O produto foi confiscado.
— Confiscado?
— repetiu Rascall, bastante pálido de susto. — Por quê?
Pretendia fazer uma compra.
— Sinto
muito, Harry. Você pode comprar o que quiser, menos liquitivo.
— Mas...
Um dos
funcionários uniformizados levantou a cabeça e perguntou:
— Quem é
o senhor?
Rascall
identificou-se e apresentou Morris. Este disse:
— Sou
médico, tenente. Se os estoques de liquitivo forem confiscados,
haverá uma catástrofe. Os viciados já estão tumultuando a cidade.
O senhor deve saber que a privação da droga durante seis dias causa
um colapso nervoso total. O senhor poderá assumir a responsabilidade
por esse estado de coisas?
— Não
demorará seis dias, doutor. Apenas estamos fazendo um levantamento
dos estoques, que serão distribuídos de tal forma que cada viciado
receberá uma garrafa, O governo apenas pretende uma suspensão de
uma semana.
— Uma
suspensão de uma semana? O que vem a ser isso?
— Novas
remessas de liquitivo estão chegando do espaço. Estas, juntamente
com os estoques já existentes, deverão ser suficientes para
abastecer noventa por cento da população. E o abastecimento dos dez
por cento restantes também estaria garantido, se os estoques
sonegados fossem descobertos, O senhor compreendeu?

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