domingo, 4 de setembro de 2016

P-111 - Sob Uma Falsa Bandeira - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
CLARK DARLTON


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
DANIEL BRAGA


Revisão
ARLINDO_SAN

A cilada foi armada em Okul — A vida de
milhões de seres humanos é usada como isca.


Face aos acontecimentos turbulentos dos últimos tempos, Perry Rhodan e seus companheiros esqueceram-se dos antis, sacerdotes do culto de Baalol, não lhes dispensando a necessária atenção.
Foi por isso que o plano dos antis, que previa a disseminação do liquitivo, uma droga traiçoeira, em todos os mundos habitados, pôde ser posto em execução sem que ninguém os perturbasse.
Os resultados das investigações realizadas pelos agentes da Divisão III no planeta Lepso representaram um testemunho evidente das conseqüências desse plano. A situação na Terra, nos mundos coloniais terranos e nos mundos de Árcon é desesperadora.
Durante anos deixaram de ser adotadas as precauções que seriam necessárias, pois os cientistas de renome haviam chegado à conclusão de que o novo licor, o liquitivo, constitui um meio excelente de retardar o envelhecimento do organismo humano e conferir novas energias às pessoas que consomem o preparado.
Já se sabe que essa idéia representava um engano fatal. Mas isso em nada modifica a situação que, na opinião de Perry Rhodan, só pode ser normalizada por meio de uma ação desesperada...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanQuanto mais se sobe, maior é a queda.

Thomas CardifUm plano nascido do desespero transforma-se em realidade.

Reginald BellO melhor amigo do administrador é fácil de ser enganado.

Sir John RengallQue entra numa peça de museu para prender Cardif.

Rhabol — Um alto sacerdote do culto de Baalol.


1



A festa atingiu o clímax.
A superfície do mar parecia um espelho sob os raios prateados da Lua, que ia para cheia.
Praticamente não havia nenhuma onda que se quebrasse nas rochas próximas. Se não fossem as pessoas barulhentas no parque e na varanda, poder-se-ia falar numa linda noite de luar, passada numa bela praia da Flórida. Mas, da forma que as coisas estavam, havia apenas uma festa.
A festa era oferecida por Sir John Rengall, que convidara os amigos para comemorar as despedidas. No dia seguinte deixaria sua casa de férias, pois teria de voltar para Terrânia. Sua esposa, Lady Lydia, o acompanharia, já que uma confortável casa de campo os aguardava junto ao lago de Goshun.
O dono da casa, um inglês alto de cabelos escuros, dedicava-se aos hóspedes. Na sua maioria, estes eram americanos, pois era na terra destes que Sir John passava as férias. As praias da Flórida, o clima suave, a água morna do mar — tudo isso eram coisas que, em sua opinião, tornavam a vida digna de ser vivida.
No bar montado ao ar livre, do qual se tinha uma linda vista para o mar prateado, encontrou o Dr. Philipp Morris, um médico. Era inglês como ele, mas residia há anos nos Estados Unidos da América.
Olá, Phil. Está se divertindo?
O médico fez que sim e deu uma risada. Em seus olhos azuis surgiu um brilho animado. John Rengall teve a impressão de ver outra coisa além desse brilho.
Estou me divertindo. Obrigado, John. Apenas acho que convidou poucas damas.
Sir Rengall soltou uma gargalhada. Pegou a garrafa de uísque e puxou dois copos.
Acho que você vai aceitar mais um, não vai? Ou será que já tomou que chega?
Morris lançou um olhar de desprezo para a garrafa.
Será que você não tem outra coisa para oferecer?
Ora essa! — disse Rengall em tom de ofendido. — Este é o melhor uísque que se consegue encontrar. O que posso oferecer ao cavalheiro, se este despreza o uísque?
A resposta do Dr. Philipp Morris consistiu numa única palavra:
Liquitivo!
Rengall colocou a garrafa violentamente sobre o bar.
Maldito veneno! Você também?
O médico puxou o braço do amigo.
Fique quieto! Não é necessário que todo mundo saiba que sou um viciado em drogas. Afinal, sou médico. De qualquer maneira, isso quer dizer alguma coisa? Há milhões de pessoas viciadas no liquitivo, que dentro em breve não o conseguirão mais. Como funcionário do Serviço de Segurança Solar você deve saber disso.
Sou apenas um funcionário subalterno — objetou Rengall.
Sentia-se constrangido sempre que alguém mencionava o fato de que ele pertencia ao Serviço de Segurança.
Sei tanto quanto qualquer outra pessoa.
Morris puxou Rengall para um pequeno banco que ficava junto às rochas. Dali se tinha uma visão ampla sobre o mar. Algumas palmeiras separavam esse banco do movimento que se desenvolvia no parque. A música chegava bem baixinho e não havia necessidade de gritar para comunicar-se.
O que é que você sabe oficialmente sobre essa bebida, John? Você tem de me dizer, ouviu? O assunto assume uma importância vital para mim. Tenho mais de uma dezena de pacientes importantes que também são viciados. Eles me procuram para que eu os ajude. Os fornecimentos de liquitivo foram suspensos há uma semana. Só se consegue o licor no mercado negro, a preços proibitivos. Custa mil dólares a garrafa. Como sabe, cada garrafa contém apenas dois centímetros cúbicos. Isso é apenas um golezinho. Mas, se a gente tem sorte, essa pequena quantidade resolve a situação por nada menos de seis dias.
Tomei essa cachaça doce uma única vez na vida e nunca mais, Phil. Não gostei. Também não desconfiava do perigo que a mesma representava. Só o acaso evitou que eu me transformasse num viciado. Quando soube que as pessoas que tomavam regularmente o liquitivo rejuvenesciam e adquiriam novas forças, quase comecei a consumir a droga. Quem poderia imaginar naquela época que aquilo que parecia um licor inofensivo realmente era o veneno mais pavoroso da Via Láctea?
Você acha que sabe de alguma coisa? — perguntou Morris. — Gostaria de comparar seus conhecimentos com os resultados das experiências por mim realizadas. Fiz alguns testes e procurei libertar-me do hábito da droga. Não consegui, John. Depois de uma semana tive tonturas e dores de cabeça insuportáveis. Se continuasse na experiência, teria enlouquecido de vez.
Rengall fitou-o com uma expressão preocupada. Toda a alegria desaparecera de seu rosto como se alguém a tivesse apagado. O dever que teria de cumprir no dia seguinte aparecia diante dele sob a forma de uma sombra pavorosa. Sabia o que o esperava. A ele e a toda a Humanidade — a não ser que se descobrisse a solução do dilema.
Realmente havia um dilema.
Rengall colocou a mão no ombro do amigo.
Não sabemos quase nada, Phil, muito embora nestes últimos tempos tenhamos realizado milhares de testes meticulosos. Uma coisa é certa: depois que o licor é consumido pela segunda ou, no máximo, pela terceira vez, registra-se um repentino processo de rejuvenescimento. A pessoa não tem apenas a sensação da juventude, mas seu aspecto exterior também lhe diz que ficou mais jovem. Naturalmente esse êxito patente levou os consumidores de liquitivo a ingerirem doses maiores que as recomendadas na respectiva embalagem.
A freqüência do consumo não permitia que se percebesse a dependência. Mesmo a pessoa que se desse à extravagância dispendiosa de embriagar-se com o liquitivo não sentiria qualquer dano à saúde, nem o menor efeito colateral desagradável.
O exame de inúmeros casos particulares deixou patente que qualquer pessoa que tenha consumido o licor por seis meses ficou irremediavelmente viciada. Quando esse fato se tornou conhecido, surgiu a explicação de inúmeras mortes misteriosas ocorridas em clínicas e hospitais. Em todos os casos, o penúltimo estágio foi o da loucura. O vício é incurável. Qualquer pessoa que tenha que deixar de consumir o liquitivo, seja qual for o motivo, morrerá em meio a horríveis sofrimentos.”
Faz cinco dias que não tomo nada — confessou Morris. — Pelo simples motivo de que o licor deixou de ser vendido. Por que aconteceu isso? O governo deveria...
O governo não proibiu a importação. Apenas aconteceu que os fornecimentos foram reduzidos. Pretendem exercer pressão contra nós.
Será que todos teremos de perder o juízo? — lamentou-se Morris, em tom de desespero.
Deixara cair a máscara e já não tinha nada em comum com o conceituado médico, no qual os pacientes pertencentes à alta sociedade depositavam confiança irrestrita. Depois de uma pausa, sentenciou apreensivo:
Milhões de vidas humanas estão em jogo...
E esses milhões apenas terão mais sete ou oito anos de vida, conforme a época em que começaram a consumir o liquitivo — ponderou Rengall. — O senhor deve saber que, exatamente doze anos e quatro meses depois do tempo em que o indivíduo começou a tomar regularmente o liquitivo, segue-se a ruína total da pessoa. O rejuvenescimento inicial cessa e verifica-se um processo de regressão. Vi os mortos-vivos de Lepso, Phil. Seu aspecto não era nada agradável. Se não descobrirmos um meio de desintoxicação, as coisas ficarão semelhantes na Terra. Os viciados não podem perder o vício, pois se isso acontecer, enlouquecerão. Mas, se continuarem a tomar o licor, acabarão por morrer. Parece que não há nenhuma saída.
É preferível morrer dentro de oito anos a enlouquecer dentro de trinta dias — disse Phil Morris num gemido e levantou-se ao ouvir os passos que se aproximavam. Fez como se não tivesse acontecido nada e mudou de assunto. — É uma noite maravilhosa, não acha, John?
Uma mulher passou entre as palmeiras e parou junto ao banco.
Ah, estão aqui? E andam conversando sobre o luar? Nunca pensei que você tivesse tamanha disposição romântica, John. E quanto ao senhor, ainda o julgaria menos capaz disso, doutor.
A voz da mulher tinha um tom de irônica superioridade. Usava um vestido longo, bastante decotado, e parecia muito jovem. Sua figura era excelente. Aproximou-se de John Rengall e deu-lhe um beijo na testa.
Ora... sentimo-nos dominados pelo ambiente romântico, querida — disse Rengall e fez com que a esposa sentasse no banco. — Nosso amigo Phil tem um problema.
Tem um problema? Será que não há mais doentes?
Morris não estava para brincadeiras.
O problema que eu tenho é muito mais grave, dona Lydia — disse Morris e entesou o corpo. — Faz cinco dias que não tomo uma gota de liquitivo.
John Rengall estremeceu de susto. O gesto de advertência que fizera para o amigo chegara tarde. O segredo acabara de ser revelado.
Lydia Rengall lançou um olhar irônico para o marido e, dirigindo-se a Morris, disse:
Cinco dias? Isso é um verdadeiro martírio para um bom bebedor. Seu estoque está no fim?
Não se consegue comprar mais o licor, madame...
Se for só isso, terei muito prazer em ajudar, doutor. De quanto precisa?
Lydia!
Regall proferiu esta palavra em tom de enérgica recriminação. Levantou-se e olhou para o mar.
O que houve, querido? Será que o doutor não pode saber disso?
Você acha que havia necessidade?
Ora, você não pode deixar um velho amigo abandonado ao destino, deixando que morra de sede. Não sabia que você é tão avarento. Vá logo ao meu quarto e traga alguns frascos. Você sabe onde estão guardados.
Phil Morris também se levantou. Segurou Rengall pelo braço.
Sua esposa, John...? Também é uma viciada? Por que nunca disse a ela?
Lydia espantou-se.
Viciada? Será que alguém é viciado só por gostar de um licor caro e bom?
Rengall fez um sinal para Morris.
Explique a ela. Não queria que você soubesse. Sinto muito tê-lo enganado, meu velho. Logo lhe darei sua injeção por via oral.
Afastou-se sem dizer mais uma palavra.
Lydia seguiu-o com os olhos, espantada.
O que houve, Doc? Estou viciada? Fale logo.
Será que a senhora realmente não sabe, dona Lydia? Seu marido nunca lhe explicou? A senhora começou a beber sem que ele soubesse... quero dizer, passou a consumir o liquitivo sem que seu marido tivesse conhecimento disso?
Naturalmente! Afinal, o marido não precisa saber de tudo.
No seu caso teria sido preferível que ele soubesse — disse Phil Morris e explicou à esposa do amigo o que havia com o licor diabólico, produzido por uma raça ávida de mando que vivia em algum lugar da Via Láctea.
Quando concluiu, houve um silêncio prolongado. Antes que Madame Rengall tivesse tempo de dizer qualquer coisa, ouviu passos que se aproximavam rapidamente. Era John, que parou à sua frente, fitou primeiro a esposa e depois Phil Morris.
Não encontrei uma única garrafa de liquitivo — disse com a voz apagada. — A gaveta de sua escrivaninha foi arrombada. Alguém deve ter roubado todo o estoque!
Phil Morris viu que suas últimas esperanças se desvaneciam. Levantou-se e saiu sem proferir uma única palavra.
Quem poderia saber que eu guardava o liquitivo naquela gaveta? — cochichou Lydia, perturbada.
Afinal, guardávamos segredo sobre isso, conforme você pedira. Não entendi por que você se assustou quando soube que eu tomava regularmente o licor. Mas, agora, quando o doutor disse que eu era uma viciada, compreendi tudo. Você não pode deixar de confessar que a droga me fazia ficar mais nova, e que estava gostando disso. Ficamos sabendo muito tarde o que havia com esse veneno diabólico. E eu fui a última a saber...
E soube cedo demais — disse Rengall, puxando a esposa para junto de si. — Perdi a vontade de participar da festa. Quero que vão todos para casa. Ninguém poderá fazer nada por nós. O liquitivo é mais precioso que qualquer outra coisa, pois, para as pessoas acostumadas a tomá-lo, representará simplesmente a vida. Mesmo que algum dos nossos amigos disponha de um grande estoque de liquitivo, não nos dará nada. Além disso, não quero que ninguém descubra. Afinal, sou funcionário público e...
Mesmo que minha vida dependa disso?
Rengall acariciou o braço da esposa.
Antes que aconteça qualquer coisa estaremos em Terrânia, querida. Gostaria de saber quem foi o patife que roubou a bebida. Deve ter sido uma pessoa bastante ligada a nós, talvez um dos empregados domésticos. A pessoa viciada é capaz de qualquer coisa para apoderar-se da droga...
A música interrompeu-se num súbito semitom. Alguém soltou um grito forte e penetrante. Outro homem praguejou, e depois ouviu-se um estrondo. Alguma coisa caiu ruidosamente.
John levantou-se de um salto. Sem dar atenção à esposa, atravessou o gramado bem cuidado e correu em direção a casa. Sob a luz débil dos lampiões viu uma aglomeração de gente; eram seus convidados. Estavam reunidos em torno do bar e do estrado onde tocavam os músicos.
Um homem estava estendido no chão.
Alguém o derrubara.
Era o Dr. Philipp Morris.
O que aconteceu? — perguntou Rengall.
Um dos músicos apontou para um instrumento despedaçado.
O homem deve ter ficado louco, sir. Arrancou o instrumento das minhas mãos, saltou sobre o mesmo com ambos os pés e pisou-o até quebrá-lo por completo. Pulava que nem um louco e gritava que tudo isso não adiantava mais. Sou um homem pacato, sir, mas por pouco não bati nele.
Alguém bateu. Quem foi?
Um homem de fraque adiantou-se. Passou a mão pelo cabelo.
Fui eu, Sir Rengall — era Garry Rascall, gerente do clube de golfe. — Não tive outra alternativa. O homem gritava que nem um doido e, se deixássemos, teria quebrado todos os instrumentos. Alguém teria que impedi-lo de fazer isso. Não sei o que aconteceu com ele, mas...
Está bem, Garry. A culpa não é sua.
Rengall fitou Phil e viu que estava inconsciente. — Garry, leve-o ao meu quarto. Coloque-o no sofá. Se recuperar os sentidos...
Levaram-no para cima. Depois disso Rascall perguntou:
O que quis dizer quando falou “se recuperar os sentidos”? Não posso deixar de confessar que lhe apliquei um golpe pesado, mas até hoje nenhuma pessoa á qual eu tivesse aplicado este tratamento deixou de voltar a si.
Não é a isso que me refiro — disse Rengall. — Phil Morris é um viciado. Costuma tomar liquitivo.
E daí? — o gerente do clube não parecia muito impressionado. — Hoje em dia todo mundo bebe.
John Rengall viu um ligeiro clarão de esperança no horizonte de sua depressão.
O senhor também? — perguntou.
Ao ver o gesto afirmativo de Rascall, prosseguiu:
Será que o senhor poderia arranjar alguns frascos? Quando Phil acordar terá que tomar imediatamente a sua dose, pois do contrário voltará a agir como um louco. Na minha casa havia um pequeno estoque, mas me foi roubado.
Roubado? — perguntou Rascall em tom de espanto. — Esse pessoal tem cada idéia! É claro que no clube temos uma provisão adequada. Os sócios praticamente não tomam outra coisa; só vez por outra consomem um uísque ou um vurguzz. Mas o que apreciam mesmo é o liquitivo. Se não me engano, tenho um estoque de mais de mil frascos. Quantos quer que eu traga?
Será que havia possibilidade de arranjar cem frascos, Garry...?
Por que não? — perguntou o gerente.
Pegarei imediatamente o carro e sairei em disparada. Está com o dinheiro?
Rengall deu-lhe a quantia correspondente ao preço usual, e mais uma boa gorjeta. Na verdade, naquela noite Garry estava perdendo a chance de transformar-se num homem riquíssimo. Em compensação ganhara uma gorjeta.
Dali a algumas horas, quando Phil Morris acordou, não tinha a menor lembrança do acesso que sofrera. Suas mãos ainda estavam trêmulas. Pegou a garrafa que Rengall lhe ofereceu e tomou seu conteúdo. O efeito foi quase imediato. Um brilho vivaz surgiu nos olhos cansados e a sensação de vertigem desapareceu por completo.
Onde foi que você arranjou isso, John?
Eu lhe contarei e recomendo-lhe que vá para lá amanhã de manhã, a fim de comprar algumas dúzias de garrafas. Foi com Garry Rascall, o gerente do clube. O bar do clube está cheio do licor, que é vendido ao preço normal.
Ainda não deve ter conhecimento da proibição.
Provavelmente não sabe, Phil. Provavelmente só compra o material com intervalos de alguns meses, e enquanto não faz suas compras não se interessa pela situação do mercado. Quando souber a verdade, ficará furioso, mas é bem possível que até lá haja licor à vontade. Ninguém sabe o que está para acontecer.
De qualquer maneira só tomarei um frasco de cinco em cinco ou de seis em seis dias — disse Phil. — Isso bastará para continuar a ser uma pessoa normal.
Perfeitamente — confirmou Rengall.
Com isso a pessoa continuará a ser normal e continuará viva — soltou uma risada amarga. — Você poderá procurar Rascall e dizer-lhe que não está zangado por ele lhe ter aplicado aquele golpe. Aí você aproveita a oportunidade e lhe compra certa quantidade de liquitivo.
Phill Morris levantou-se e ficou caminhando de um lado para outro. Subitamente parou diante do amigo.
Amanhã você viajará para Terrânia, John. Se ainda houver salvação para nós, a mesma só poderá vir de lá. Espero que não se esqueça dos velhos amigos.
Se o antídoto for descoberto, beneficiará todos os seres humanos, Phil. Ninguém será esquecido. Trate de chegar em casa são e salvo.

* * *

O avião-foguete atravessava as camadas superiores da estratosfera e não demorou em descer sobre o continente asiático, a fim de pousar em Terrânia, capital do Império Solar. Nesse lugar, em que atualmente ficava o maior porto espacial e a metrópole mais poderosa do globo terrestre, Perry Rhodan, um piloto dos Estados Unidos, pousara com seu foguete lunar, ao retornar do satélite natural da Terra, trazendo consigo o poderio dos arcônidas. E a partir desse lugar, situado em pleno deserto de Gobi, a Humanidade iniciara sua caminhada em direção às estrelas.
Sir John Rengall não se interessou pelos outros passageiros. Assim que liquidou as formalidades espaçoportuárias, mandou que um táxi-aéreo o levasse à sua casa de campo, situada junto à lagoa. Encontrou um recado transmitido pelo videofone, que fora armazenado automaticamente, segundo o qual deveria apresentar-se à sua repartição logo após sua chegada.
Dali a meia hora viu-se à frente de seu superior hierárquico, que disse:
Sabia que poderia confiar no senhor, Major Rengall. A Ralph Torsten decolará dentro de duas horas. Vá a bordo e apresente-se ao comandante, o Major Bemrich Bellegord. O senhor e mais três oficiais constituirão o pessoal suplementar da missão. Voarão para os Estados Unidos, onde uma grande nave está recebendo uma carga do museu nacional daquele país. O senhor e seus companheiros a transferirão para este cargueiro e providenciarão para que chegue às mãos de Rhodan em boas condições e devidamente revisada.
Às mãos de Rhodan?
O general fez que sim.
Da América a Torsten e a nave cargueira irão em vôo direto para Okul. A distância é de 41.386 anos-luz. Rhodan estará à sua espera. As outras informações lhe serão fornecidas por ocasião da conferência a ser realizada antes da decolagem. O Major Bellefjord está informado sobre todos os detalhes.
John Rengall fez continência e dirigiu-se ao porto espacial juntamente com os três homens que deveriam acompanhá-lo. A Ralph Torsten já os aguardava. Era um cruzador pesado de formato esférico, com duzentos metros de diâmetro. O sistema de propulsão linear, instalado há pouco tempo, tornava supérfluas as transições pelo hiperespaço, já que a nave realizava o vôo visual a uma velocidade milhões de vezes superior à da luz.
O Major Bellefjord era um tanto atarracado e dava a impressão de ser uma pessoa jovial. Cumprimentou os quatro funcionários do Serviço de Segurança Solar e olhou para o relógio.
Ainda temos mais de uma hora. Isso será mais que suficiente para colocá-los a par dos acontecimentos. O senhor esteve de férias, não é mesmo, Major Rengall?
Estive. Durante trinta dias.
Nesse caso não deve ter a menor idéia do que aconteceu neste meio tempo.
Apenas recebi há quinze dias uma carta secreta que me informou sobre os efeitos do liquitivo. É a única coisa que eu sei.
Pois preste atenção — disse Bellefjord, depois de certificar-se de que seu imediato, o Capitão Raldini, iniciara os preparativos para a decolagem. — Em fevereiro do ano de 2.103 Rhodan descobriu os terríveis efeitos finais do liquitivo, isso no planeta Lepso, situado a oito mil e quinhentos anos-luz, que é um entreposto para as mercadorias produzidas pelas mais diversas raças. Apurou-se que os fabricantes da droga são os chamados antis, nome que se dá aos adeptos do culto de Baalol. Trata-se de uma seita que tem mais de duzentos milhões de sacerdotes espalhados por toda a Galáxia. Parece pouco, mas na verdade é muito, se considerarmos o poderio dessa gente, que em cada planeta só tem um templo e uns poucos adeptos. São mutantes; aliás, são mais que isso: são antimutantes. Suas energias mentais permitem-lhes neutralizar qualquer tipo de ação de nosso Exército de Mutantes.
Que diabo! — exclamou Rengall em tom apavorado.
Os três homens que o acompanhavam pareciam preocupados.
Bellefjord fez um gesto afirmativo.
Isso lhe ataca o fígado, não é? Nossa arma mais eficiente torna-se praticamente inútil quando enfrentamos os antis. Mas deixe-me prosseguir. — Pigarreou, olhou para uma folha de papel que até então mantivera escondida na mão e disse: — Em março foi descoberta a fuga de Thomas Cardif.
O Major Rengall estremeceu.
Em março? Pois naquela época eu ainda estava de serviço e...
A fuga foi mantida em segredo, Major Rengall. Depois que todas as tentativas de reconciliação falharam, aplicou-se um bloqueio hipnótico no filho de Rhodan, que se transformou em outra pessoa. Há cinqüenta e oito anos Cardif vinha vivendo no planeta colonial de Zalit, onde exercia a profissão de comerciante. Esquecera seu passado e sua identidade e era considerado um homem inofensivo. Mas apurou-se que o homem que passava por Cardif já não era o verdadeiro Cardif, mas um robô muito bem construído, que representava uma imitação perfeita do Cardif de carne e osso. O verdadeiro Thomas Cardif havia desaparecido.
Isso é inacreditável.
O senhor ainda ouvirá coisa pior. É só aguardar — Bellefjord sorriu e voltou a olhar para o relógio. — Rhodan soube por intermédio de um informante qual era o paradeiro de Cardif, ao mesmo tempo foi informado sobre o nome e a posição galáctica do planeta em que são encontradas as matérias-primas utilizadas na fabricação do liquitivo. Num raciocínio perfeitamente lógico, Rhodan chegou á conclusão de que deveria ser possível descobrir um antídoto, uma vez conhecidas as substâncias que entravam na fabricação da droga.
A frota espacial colocou-se em estado de prontidão e dirigiu-se ao planeta misterioso, que foi bloqueado. Houve uma luta encarniçada. Thomas Cardif realmente se juntara aos antis, com os quais pretendia transformar em realidade seus planos de vingança dirigidos contra Rhodan e contra a Terra. O planeta Okul, situado num setor até então inexplorado da Via Láctea, gravita em torno de um pequeno sol amarelo. Trata-se de um mundo selvático e “fumegante”, no qual existem grandes mares primitivos. A atmosfera é respirável, mas no planeta não surgiu qualquer forma de vida humanóide. Okul era um dos poucos mundos que servia de sede ao culto de Baalol. Por lá viviam mais de mil sacerdotes, que habitavam uma gigantesca fortaleza. Essa fortaleza foi atacada por Rhodan, que bolou uma forma de atacá-los. Utilizou projéteis antimagnéticos, capazes de romper os campos defensivos individuais dos antis, e penetrou na fortaleza. Cardif conseguiu fugir com duzentos e cinqüenta antis. Eles se mantêm escondidos no fundo do mar. Até agora não foi possível localizá-los.”
Isso deveria ser relativamente simples — principiou Rengall, mas logo foi interrompido por Bellefjord.
Acontece que não é, meu caro. As naves de Rhodan não dispõem de equipamento apropriado para localizar e destruir um inimigo que se encontre embaixo da água. Não devemos esquecer que os antis só podem ser atacados com os meios mais primitivos, já que seu sistema de defesa se funda na tecnologia mais avançada. Em outras palavras, os raios energéticos não podem atingi-los, pois são refletidos por seu campo defensivo individual, mas uma simples flecha de madeira com ponta de plástico é capaz de matá-los. Justamente por isso, o esconderijo submarino não pode ser localizado e destruído pelas naves espaciais modernas. Deve-se recorrer a submarinos antiquados.
Submarinos? — repetiu Rengall em tom de perplexidade. — Isso nem existe mais.
Existe, sim — disse Bellefjord, que parecia sentir-se satisfeito por estar em condições de contar uma novidade a um oficial do serviço secreto que costumava saber de tudo. — No Museu Nacional.
Rengall respirava nervosamente.
Ah, já sei. Desculpe a interrupção. Conte o resto.
Não há mais muita coisa para contar. Rhodan mandou levar imediatamente vinte submarinos de propulsão atômica para Okul. A tripulação será treinada às pressas. E os submarinos serão armados. Os homens foram submetidos a um processo de treinamento hipnótico. Os submarinos não sofrerão nenhuma pane. A manipulação dos mesmos é muito mais simples que a de uma espaçonave, já que o perigo relativamente é menor. Dentro de dois dias entregaremos a Rhodan os submarinos pedidos por ele. Juntamente com os tripulantes.
Rengall parecia surpreso.
Será que o Serviço de Segurança tem alguma coisa com isso? Por que temos de acompanhar o transporte?
Se fosse o senhor, não me preocuparia com isso — disse Bellefjord com um sorriso irônico. — Sua missão é puramente eventual. Se conseguirmos prender Cardif vivo, os senhores o vigiarão e o levarão à Terra; é só isto.
Rengall confirmou com um gesto e contemplou seus homens.
Então é só isso — olhou para o relógio. — Suponho que o senhor decolará dentro em breve.
Dentro de exatamente vinte minutos. Venha comigo; eu lhe mostrarei seu camarote.
Permita mais uma pergunta — disse Rengall ao levantar-se. — Por que temos de transferir-nos para a nave cargueira, se nossa missão consistirá unicamente em vigiar Cardif?
São ordens de Rhodan — respondeu Bellefjord.

2



Okul era o segundo planeta de um total de três. Gravitava em torno do sol solitário sem nome a uma distância tal que lhe permitia desenvolver condições favoráveis à vida. Okul era um mundo primitivo, que os antis haviam transformado numa base respeitável. Foi lá que Cardif descobriu a substância com a qual se podia fabricar o licor liquitivo. Conseguira, com o auxilio dos antis e dos saltadores, espalhar o terrível veneno por vários mundos habitados da Galáxia.
A fortaleza caíra. Em seu interior encontravam-se as Instalações de purificação da matéria-prima utilizada na fabricação da droga, que consistia numa substância expelida pelas glândulas de lagartas de dois metros de comprimento, que eram encontradas em toda parte no planeta Okul. Esses animais, em si totalmente inofensivos, haviam sido batizados pelos antis com o nome de fura-lama, já que em sua cabeça coberta de córnea existia um verdadeiro disco cortante, que lhes permitia enfiar-se na terra num espaço de tempo curtíssimo.
A fortaleza caíra, mas Cardif conseguira fugir. Mas ainda devia encontrar-se no planeta que fora bloqueado. Mais de cinco mil unidades da frota espacial terrana formavam um envoltório impenetrável, que não deixaria passar ninguém.
Rhodan circulava em torno de Okul com a Ironduke, que percorria uma órbita estável.
Determinou que a superfície do planeta fosse mantida sob vigilância ininterrupta. Tinha certeza absoluta de que desta vez Cardif não lhe escaparia.
A Ironduke era uma nave da classe Stardust. Tratava-se de um veículo espacial esférico de oitocentos metros de diâmetro, equipado com um sistema de propulsão linear e com o armamento mais moderno. Os tripulantes eram quase os mesmos homens que haviam descoberto o Sistema Azul, durante o vôo com a Fantasy.
O Doutor Gori Nkolate realizou estudos demorados com os fura-lamas — disse o comandante da nave, Major Jefe Claudrin, e tirou uma baforada de seu charuto.
Jefe comparecera ao camarote de Rhodan, a fim de discutirem a situação. O Major Hunt Krefenbac, que era seu imediato, permanecera na sala de comando.
Além de Rhodan encontravam-se presentes Reginald Bell e o matemático Dr. Carlos Riebsam.
Qual foi o resultado? — perguntou Rhodan em tom de curiosidade.
O rosto cor de couro de Jefe Claudrin transformou-se numa careta. Ao que parecia, não se sentia muito à vontade.
O Doutor Nkolate conseguiu isolar a substância segregada pelos fura-lamas que entra na composição do licor, e à qual se atribui a criação da dependência. Sente-se desesperado porque desconfia que a substância ativa possa ser um hormônio. Falou-me em certos efeitos psicológicos, mas não entendi nada. De qualquer maneira, asseverou que dentro em breve conseguirá produzir o liquitivo puro.
Isso é um fraco consolo — constatou Rhodan. — Mas daí se pode derivar a esperança de que venha a tornar-se possível a produção de um antídoto. Cada hora que passa é preciosa. Por isso precisamos levar à Terra um número suficiente de fura-lamas, a fim de que nossos cientistas possam examinar a substância ativa. Claudrin, cuide disso imediatamente.
O homem de Epsal cochichou suas instruções ao ouvido de seu ordenança. Enquanto isso Rhodan falava com os outros. O ordenança levantou-se e saiu do camarote. Dali a pouco, quando voltou, anunciou ao Major Claudrin que, dentro de uma hora, a nave Antilhas, pertencente à classe Estado, estaria a caminho da Terra com uma carga de fura-lamas.
O aparelho de intercomunicação emitiu um sinal.
Rhodan contemplou-o por um segundo antes de comprimir o botão. O rosto de Krefenbac surgiu na pequena tela.
Sir, acabamos de receber uma longa mensagem de hiper-rádio vinda de Terrânia. Quer que lhe apresente a respectiva gravação? Trata-se de um relatório sobre a situação atual.
Rhodan refletiu por um instante e balançou a cabeça.
Não; deixe para lá. Mister Bell irá até aí.
Bell levantou-se. Parecia contrariado.
Já vou. Sempre sou eu. Ficarei sem saber o que será falado aqui.
É bem possível que na sala de rádio você saiba de coisas muito mais interessantes — disse Rhodan a título de consolo, sem desconfiar que tinha toda a razão.
Esperou que Bell se retirasse e prosseguiu:
Não há tanta pressa com o antídoto. Antes de mais nada temos de pôr fora de ação as pessoas que tramaram tudo isso. Os antis representam um perigo extraordinário para a civilização galáctica. Até há pouco tempo, os membros dessa sociedade secreta evidentemente só se guiavam por objetivos econômicos, mas parece que houve uma mudança de rumo. Isso aconteceu por causa de meu... por causa de Thomas Cardif, para quem os antis representam um meio adequado de exercer sua vingança contra mim e contra a Terra. Não sei se ainda se mantém aferrado à tese absurda de que sou responsável pela morte de sua mãe, Thora. De qualquer maneira já não tenho a menor esperança de um dia fazê-lo mudar de opinião.
Lançou um olhar para Jefe Claudrin.
De qualquer maneira, quero que, se possível, prendam-no com vida.
Já demos ordens nesse sentido — disse o major sem outros comentários.
Estava sentado na poltrona larga, feita especialmente para ele, pois era um nativo de Epsal, filho de um oficial das forças coloniais que se adaptara ao ambiente. Tinha um pouco mais que um metro e sessenta, e sua largura era quase igual à altura. Em seu mundo natal, a gravitação era duas vezes superior à da Terra, motivo por que se movia com uma leveza extraordinária em condições gravitacionais normais. Os cabelos ruivos e a pele marrom, que imitava o couro, combinavam perfeitamente com seu aspecto exterior.
Acho que com vinte submarinos conseguiremos — disse o matemático Riebsam com a voz circunspecta que lhe era peculiar. — Os mesmos ao menos deverão ser capazes de localizar o esconderijo submerso. É bem verdade que, nem mesmo por meio do calculo de probabilidades, podemos prever o que acontecerá depois disso.
Segundo as últimas notícias que recebemos, a Ralph Torsten e a nave cargueira chegarão amanhã.
Rhodan lançou um olhar impaciente para a porta como se não pudesse esperar mais pelas novidades que Bell lhe traria e concluiu:
Os submarinos serão descarregados imediatamente, para que possamos dar início à caçada.
No corredor soaram passos. Bell entrou precipitadamente. Segurava um papel na mão. Deixou-se cair na poltrona, e levantou o papel como que num gesto de recriminação.
Que droga! — disse com a voz tão alta que Riebsam, que era um homem muito sensível, tapou os ouvidos.
Claudrin limitou-se a sorrir, pois para ele os berros representavam o tom normal de uma conversação.
Bem que poderíamos ter imaginado — acrescentou o gorducho.
Imaginado o quê? — perguntou Rhodan em tom impaciente. — Dê-me o bilhete.
Apenas fiz alguns apontamentos — disse Bell sem largar o papel. — Ninguém entenderia. A mensagem de rádio foi muito longa. Mais tarde você poderá ouvi-la, Perry. Aqui vai o mais importante:
A sede da General Cosmic Company informa que os fornecimentos de liquitivo estão falhando. Os saltadores e outras raças continuam a levar suas mercadorias à Terra e aos planetas coloniais, mas não chega uma só nave que traga uma carga de liquitivo. Ao que parece, a produção foi suspensa. Na Terra existem mais de duzentos milhões de viciados, que de uma hora para outra se vêem sem o veneno tão apreciado. Os preços do liquitivo estão subindo vertiginosamente. As pessoas que formaram uma reserva vendem o produto por uma fortuna, sem lembrar-se de que amanhã ou depois terão de passar sem o liquitivo. E isso só é possível por uma semana ou, no máximo, por trinta dias. Já se registraram algumas revoltas. Os viciados acham que o governo é responsável pela falta do entorpecente.
Em alguns casos o Serviço de Segurança Solar viu-se obrigado a intervir. O pânico ameaça a Terra.”
Bell silenciou. Olhou para o papel, refletiu por um instante e amarrotou-o.
É só isso? — perguntou Rhodan.
Bell fez que sim.
Será que ainda não basta?
É mais que suficiente, e é exatamente o que eu receava. Na situação em que se encontram, a única atitude coerente dos antis seria esta. Privam-nos da droga, e mais de duzentos milhões de seres humanos enlouquecem. O caos poderá irromper. Eles nos têm nas mãos.
Jefe Claudrin disse com sua voz potente:
Sir, eu não me preocuparia muito com isso. Afinal, ainda temos os estoques de liquitivo em Lepso. Além disso, a Antilhas já partiu para a Terra com grande número de fura-lamas.
É verdade, major — disse Rhodan. — Nunca se deve perder a esperança, enquanto houver uma saída. Nosso pessoal de Lepso apoderou-se de estoques suficientes de liquitivo para abastecer a Terra por muitos dias. Conclui-se que ainda não existe um perigo imediato. Quer fazer o favor de transmitir as respectivas instruções ao planeta Lepso? O texto será aproximadamente o seguinte: Todos os estoques de liquitivo deverão ser transportados imediatamente à Terra, onde serão colocados à disposição da General Cosmic Company. A distribuição deve ser supervisionada pelo Serviço de Segurança. Os viciados receberão as quantidades de que precisam, e isso a título gratuito, O câmbio negro será severamente punido. Obrigado; é isso.
Providencie para que a mensagem seja enviada imediatamente.
O major retirou-se.
Que diabo! — disse Bell, contemplando as unhas. — Ainda bem que nunca tomo cachaça doce, pois do contrário talvez também teria caído nesta.
Muitos dos nossos melhores amigos caíram — disse Rhodan. — Ninguém poderia imaginar que essa bebida alcoólica aparentemente inofensiva cria dependência e na verdade é um perigoso veneno. Até mesmo a bordo da Ironduke temos mais de vinte viciados. Felizmente o bar da nave ainda tem uma provisão da bebida. É uma situação grotesca: dependemos de um preparado que poderá representar nosso fim. Armaram-nos uma cilada dupla.

* * *

Embora tivesse sido bastante danificada por ocasião do ataque contra o conversor de tempo dos arcônidas, a Ralph Torsten já estava em condições de entrar em ação. Comandado por Bellefjord, o cruzador pesado acompanhava a nave cargueira através do braço da espiral da Via Láctea, em direção ao sol distante, em torno do qual gravitava o planeta selvático de Okul. Ambos os veículos espaciais usavam o sistema de propulsão linear e realizavam o vôo visual. Não houve qualquer incidente, e chegaram ao destino dentro do tempo previsto.
Protegidas pela gigantesca frota de guerra terrana, a Ironduke, a Ralph Torsten e a nave cargueira pousaram à margem do maior dos oceanos do planeta. Não se via ou percebia nada dos antis. Estavam escondidos no fundo do mar, esperando. Ninguém sabia se estavam em condições de observar os acontecimentos que se desenrolavam na superfície.
Os vinte submarinos atômicos foram descarregados e levados à água por meio do equipamento antigravitacional. Encontravam-se numa gigantesca baía, escolhida com base num reconhecimento aéreo. As paredes íngremes de rocha fechavam-na quase de todos os lados. Apenas havia uma estreita passagem que dava para o mar aberto, e que possuía profundidade suficiente para permitir a passagem segura dos submarinos.
As manobras de treinamento consumiram dois dias.
Finalmente Rhodan convocou os comandantes para a Ironduke, a fim de discutirem a situação.
Os senhores têm pela frente uma tarefa fora do comum — disse Rhodan, enquanto seus olhos cinzentos fitavam aqueles homens que o ouviam atentamente com uma expressão de benevolência. — Até hoje os senhores pilotaram naves espaciais, e de repente terão de cuidar de submarinos. No fundo a diferença não é tão grande assim, pois ambos os tipos de barco foram construídos para mergulhar num elemento hostil ao homem. Em vez do vácuo, passa a ser a água. O oceano de um planeta estranho representa uma porção de água desconhecida, que talvez poderá também representar um perigo para nós. No fundo desse oceano oculta-se a elite do poderio hostil dos antis.
Fez uma pausa, mas ninguém quis formular perguntas.
Está bem. Passemos à tarefa propriamente dita. O comandante de cada submarino receberá um mapa da superfície do planeta. Este apenas mostra os contornos dos continentes e, portanto, também dos mares. Estão todos unidos, tal qual na Terra. Cada comandante terá um setor definido, que será por ele revistado. Prevê-se o contato de rádio ininterrupto com a sala de comando de minha nave, contato este que também funcionará como uma espécie de comunicação entre os submarinos. No momento em que alguém acredite ter descoberto aquilo que procuramos, deverá avisar imediatamente. Quando isso acontecer, os outros submarinos suspenderão as buscas e se dirigirão o mais depressa possível ao lugar em que se encontra a embarcação que fez a descoberta, a fim de dar-lhe apoio. O ataque só será desfechado depois que eu tiver dado ordem para isso. Quero que tudo fique bem entendido, especialmente o último ponto que acabo de mencionar.
Os comandantes responderam com um simples gesto de assentimento.
Muito bem. Um submarino em cada cinco levará a bordo um oficial do Serviço de Segurança, que realizará as prisões caso os antis deponham as armas. Tudo deverá ser feito de acordo com as normas, pois do contrário os antis poderão processar-nos perante qualquer tribunal da Via Láctea. Isto pode parecer ridículo, mas estou falando sério. Por isso quero pedir-lhes que, se surgir uma hipótese dessas, sigam as instruções dos quatro oficiais de segurança. Este ponto também foi bem entendido?
Um dos comandantes fez uma pergunta.
As instruções dos oficiais do Serviço de Segurança também abrangerão as operações dos submarinos?
É claro que não. Os oficiais só darão instruções relativas à eventual prisão dos antis e do “maquinador” que está atrás deles.
Rhodan preferiu não mencionar o nome de seu filho, mas todos sabiam que estava aludindo ao mesmo. Falou durante mais dez minutos e mandou que os submarinos partissem no dia seguinte.
Naquela mesma noite a Ironduke decolou para voltar a colocar-se em Órbita e continuar a observar a superfície do planeta. A Ralph Torsten permaneceu na superfície, a fim de dar proteção à nave cargueira.

* * *

O professor Wild, que era uma grande capacidade na área das secreções e dos hormônios, não perdeu as esperanças. Seus colaboradores queriam desistir. As notícias vindas de todas as partes do mundo eram tão desanimadoras quanto os resultados das pesquisas. Ninguém sabia dizer por que a substância ativa expelida pela glândula da tromba do fura-lama era um entorpecente. Segundo os resultados das pesquisas, não era nenhum entorpecente, mas uma substância regeneradora das células de ação rápida. Ainda não havia sido esclarecido se a substância era uma secreção ou um hormônio. Aliás, essa indagação era de importância secundária.
Será que esta substância realmente é a substância ativa que encontramos nos frascos? — perguntou o Dr. Koatu, um médico que desempenhara um papel de destaque no combate ao monstro de plasma.
A divisão de microscopia transmitiu uma informação:
Informação para o professor Wild. Substância ativa: n.a.
Um colega que se encontrava à frente do Dr. Koatu disse em tom de desespero:
Nada averiguado. Será que poderíamos esperar outra coisa?
Os médicos do planeta Terra já não sabiam o que fazer.

* * *

Alguns dias se passaram até que a nave cargueira levasse os submarinos aos setores que lhes foram designados. Depois iniciaram as buscas coordenadas.
O submarino S-35 tinha a percorrer um bom trecho. Desenvolvendo a velocidade máxima, singrava a superfície relativamente tranqüila do mar tropical. A plataforma do convés, protegida contra as ondas, tinha lugar para vários homens. Uma linha telefônica estabelecia contato direto com a sala de máquinas. Se necessário, S-35 poderia mergulhar dentro de trinta segundos.
Mas, ao que parecia, não havia motivo para Isso.
O Capitão Alf Torsin examinou o horizonte com o potente binóculo, mas não viu terra firme ou qualquer ilha. Sua área de operações começaria algumas milhas adiante e se estenderia para o oeste, até a terra firme, enquanto no sul a linha divisória passava pelo alto-mar.
Por enquanto o mar primitivo em nada se distinguia dos oceanos do planeta Terra, a não ser pela ausência de navios ou dos aviões estratosféricos que voavam nas alturas do céu. Mas por enquanto ninguém sabia como seriam as coisas nas profundezas inexploradas.
As ecossondas funcionavam ininterruptamente. A profundidade média do mar era de dois quilômetros e o fundo não apresentava grandes variações. Mas dali não se podia concluir nada.
Uma fortaleza poderia ter sido construída no interior da rocha primitiva, ficando exatamente ao mesmo nível do fundo do mar.
Torsin dirigiu-se ao jovem oficial de navegação.
Então, Brischkowski, o que lhe parece?
O jovem tenente parecia indeciso.
Aqui em cima não se pode chegar a qualquer conclusão. Quem sabe se mergulharmos...
Dentro de dez minutos atingiremos o limite de nossa área, então o senhor poderá cuidar dos instrumentos de localização. Qualquer objeto metálico será registrado automaticamente a grande distância. Só mesmo o diabo poderá impedir que encontremos esses sacerdotes.
O Major John Rengall, que fitava em tom pensativo as cabeças de espuma que deslizavam ao lado do submarino, disse em tom sarcástico:
É uma comparação bizarra, capitão, mas o senhor não deixa de ter razão. A diferença entre os diabos e os sacerdotes não é muito grande. O culto de Baalol não tem a menor semelhança com qualquer religião. Se dependesse de mim, nenhum dos antis sairia dali com vida.
Antes de mais nada teremos de encontrá-los — disse Torsin, abafando o otimismo de seu interlocutor e olhando para o mapa. — Está na hora. Vamos descer.
Enquanto desciam pela escotilha, em direção à sala de comando, o submarino começou a mergulhar. Os tanques encheram-se de água, arrastando o barco para as profundezas desconhecidas. A escotilha fechou-se com um baque surdo. Estavam isolados do mundo exterior. Era como se estivessem a bordo de uma pequena espaçonave. O submarino S-35 tinha pouco menos de cinqüenta metros de comprimento. Possuía formato de torpedo e sua tonelagem bruta chegava a duas mil toneladas. Os reatores ficavam na popa, que estava separada do resto do submarino por uma parede de chumbo. Os trinta tripulantes achavam-se abrigados em pequenos camarotes e dificilmente teriam motivo para queixar-se da falta de espaço.
As telas iluminaram-se na sala de comando. Estavam instaladas de forma tal que reproduziam num ângulo de 180 graus tudo que se encontrasse no sentido do deslocamento do barco.
O submarino não balançava e descia lentamente. Torsin voltara a fechar a entrada dos tanques. A água foi escurecendo e acabou por tornar-se completamente negra. Não viram nenhum peixe ou outra forma de vida.
Quando os holofotes foram acesos, fecharam os olhos por um instante, pois sentiram-se ofuscados. Quando voltaram a abri-los, viram que o mar se tornara transparente de novo, mas ninguém sabia calcular as distâncias, por falta de um ponto de referência. Será que enxergavam apenas dez metros? Ou seriam cem?
Quando o indicador de profundidade havia atingido a marca dos duzentos metros, o submarino sofreu um ligeiro solavanco, como se tivesse tocado no fundo.
Mas isso era Impossível, pois o aparelho de ecossonda, que funcionava Ininterruptamente, continuava a indicar uma profundidade de cerca de dois mil metros.
O que foi isso? — perguntou Rengall com o rosto pálido. Não estava com medo, mas tinha a impressão de que a água era um elemento mais perigoso que o vácuo do espaço cósmico. — Será que já chegamos ao fundo?
A marcação do aparelho de ecossonda é correta — respondeu Torsin, examinando as escalas.
As telas não mostravam nada. O Tenente Brischkowski fez um movimento rápido e ligou outro equipamento, que ampliava o ângulo de visão para baixo. Com isso poderiam ver o que havia sob o barco.
Viram uma água verde reluzente, que lembrava o infinito e não parecia ter fundo. O submarino continuava a baixar tranquilamente.
Talvez tenha sido um animal — conjeturou Brischkowski com a voz embaraçada. — Uma espécie de baleia.
Se por aqui não existem peixes pequenos, muito menos existirão os grandes. É impossível! — opôs-se Rengall.
Quando atingiram a marca dos mil metros, encontraram a prova que desmentia essa afirmativa, se bem que o animal que viram não foi nenhuma baleia. Aquele monstro de olhos protuberantes, que se movia lentamente em seu campo de visão, não se parecia com nada que existisse na Terra ou em seus mares. Era a corporificação do pesadelo de um louco. Quanto ao tamanho, poderia competir perfeitamente com o S-35. Na verdade, só viram o olho, que tinha dois metros de diâmetro e contemplava o intruso.
Que coisa horrível! — exclamou Rengall bastante apavorado.
Suas mãos embranqueceram. Segurou fortemente as travessas da escada e sussurrou:
Aqui embaixo existem animais...
Talvez seja mesmo um animal — disse o comandante Torsin em tom de ceticismo e fez o submarino prosseguir na descida.
O pesadelo subiu e desapareceu do campo de visão.
Não sabemos se foi num gigante desses que esbarramos quando nos encontrávamos a duzentos metros, mas é provável que sim. Estes animais são inofensivos, pois do contrário já teriam atacado. Mas esse olho... — comentou Torsin.
É um olho muito estranho, sir — disse o Tenente Brischkowski.
Torsin fitou-o prolongadamente.
Por que achou que era estranho?
Fitou-nos com uma expressão bastante curiosa, e tinha dois metros. Não vi nada do animal além do olho, que parecia segurar-me e não me soltava mais.
Trata-se de um efeito hipnótico — disse Torsin, como se falasse para si mesmo. — Dava mostras de ser inteligente e de certa forma condescendente. Era como se aquele animal achasse que nossa penetração em seu mundo silencioso era desculpável. Não sei como agüenta essa tremenda pressão da água.
Rengall já se recuperara do susto. Olhou para o indicador de profundidade, que havia atingido a marca dos mil e quatrocentos metros. Torsin ligou os aparelhos de goniometria. Os impulsos corriam para todos os lados, mas nenhum deles foi refletido. Isso só aconteceria quando atingissem alguma peça de metal, mesmo que esta tivesse apenas o tamanho de um pires e ficasse afastada cinqüenta quilômetros.
Os motores de propulsão continuavam a funcionar. O submarino S-35 aproximava-se constantemente do continente ocidental e do fundo do mar.
Por ocasião do encontro com o monstro constatara-se que o alcance dos holofotes era de duzentos metros. Portanto, suficiente para que o barco mudasse de rumo, se de repente surgisse um obstáculo. Praticamente não havia nenhum perigo de colisão.
Além disso, Torsin ligou a sonda horizontal.
Dois mil metros.
Avistaram o fundo do mar. Era liso e não apresentava maiores elevações ou reentrâncias. A cor amarelenta levava à conclusão de que era composto de barro e lama. Os homens que fitavam atentamente todos os detalhes não encontraram o menor sinal de vegetação. Nem de animais.
Chegaram a ver uma estranha marca de arrasto, que em hipótese alguma poderia ter surgido exclusivamente pelo efeito da água. Teriam provindo do dragão de olhos que haviam observado?
De repente a marca terminou. Não prosseguia em outra parte. O ser que havia produzido a marca devia ter abandonado o fundo do mar nesse lugar e subido.
O intercomunicador de bordo emitiu um sinal. Torsin comprimiu o botão.
O que houve, Haller?
Há um chamado da sala de comando da Ironduke, sir. Trata-se de um teste de rádio.
Aproveitam a oportunidade para solicitar um breve relato dos acontecimentos.
Diga que está tudo em ordem e que o resultado das buscas foi negativo.
Está bem, sir.
Torsin desligou.
Os impulsos rastreadores, regulados para refletir metais, corriam incessantemente à frente do submarino e não voltavam. O fundo do mar entrou em declive e depois de percorridos trezentos quilômetros baixou mil metros, de forma que a profundidade total passou a ser de três mil metros. Isso correspondia à capacidade máxima de mergulho do barco. Felizmente, a quinhentos quilômetros da costa, o fundo do mar voltou a subir. Mas seu aspecto permaneceu inalterado até uns oitenta quilômetros do continente. De inicio Torsin, Brischkowski e Rengall apenas viram uma ondulação irregular do fundo, que apresentava caráter rochoso. De repente apareceram fendas. Seria impossível fazer o submarino descer pelas mesmas, pois pareciam muito estreitas e não permitiam uma boa exploração pelo ecossonda. Além disso, a idéia de que no interior delas poderia haver monstros marinhos menos pacatos que o que haviam encontrado não era muito animadora.
O fundo acidentado foi seguido por uma cadeia de montanhas rochosas, cujos cumes ficavam a pouco menos de quinhentos metros abaixo da superfície. Torsin teve de enfrentar maiores dificuldades para manobrar o submarino, e Rengall foi empurrado ligeiramente para trás. Por isso contentou-se em fitar atentamente as telas e entretinha a esperança maluca de encontrar aquilo que procuravam. Era bem verdade que não conseguia fazer uma idéia precisa de como seria o esconderijo dos antis, mas imaginava que tivesse o formato de uma gigantesca abóbada metálica, que seria capaz de resistir à pressão da água.
O submarino S-35 vasculhou as montanhas submarinas, sem o menor resultado.
Depois disso continuou a avançar em direção ao continente, e depois passou a deslocar-se paralelamente à costa, a uma distância pouco superior a quinze quilômetros. De inicio tomou a direção norte, até chegar ao cabo, e após isso seguiu para o sul, em direção ao alto-mar.
As notícias recebidas da sala de comando da Ironduke revelavam que os outros submarinos também não haviam encontrado nada. Só mesmo devido a um acaso inacreditável se conseguiria encontrar uma fortaleza submarina a respeito da qual não se dispunha de outras indicações.
Talvez as buscas teriam de prosseguir por semanas, até que alcançassem algum resultado.
Se é que alcançariam!
Ao atingir o limite sul de sua área de operações, o submarino S-35 inverteu o curso e voltou a tomar a direção norte. Embora isso pudesse parecer inútil, Torsin aproximou-se da terra firme a tal ponto que se deslocavam poucos metros abaixo da água, junto à costa rochosa. Às vezes esta era tão Íngreme que tinham de mergulhar junto dela a uma profundidade de quinhentos metros para atingir o fundo do mar.
Rengall observou a manobra perigosa com uma expressão de ceticismo.
É necessário passar tão perto da rocha? — perguntou, sem tirar os olhos das telas.
Do lado esquerdo viam-se as formas bizarras da Íngreme encosta submarina, enquanto à direita se estendia o infinito do oceano. As saliências e fendas arestosas passavam rapidamente.
Afinal, o senhor tem os instrumentos. Não há necessidade de colocar em perigo o barco e seus ocupantes — concluiu Rengall, segundos depois.
O Capitão Alf Torsin voltou lentamente a cabeça e fitou o oficial do Serviço de Segurança.
Sempre temos sido bons amigos, major. Vamos deixar que as coisas continuem assim? Pois bem. Nesse caso não se intrometa no meu trabalho. A responsabilidade por este submarino cabe exclusivamente a mim, e sei muito bem o que devo fazer. É verdade que o senhor é major, enquanto eu sou um simples capitão, mas acho que durante esta operação isso não vem ao caso. Aliás, nossos impulsos de localização serão totalmente inúteis se os antis tiverem construído sua fortaleza sob o continente, com uma entrada avançando em forma de galeria, sob a água. Seria perfeitamente possível atingir essa entrada com o submarino em que fugiram. Segundo imagino, a fortaleza nesse caso ficaria em terra firme, ou melhor, sob a terra firme.
Não critiquei seus atos; apenas formulei uma pergunta — retrucou Rengall com a voz irritada.
Bem que poderia ter imaginado que suas palavras iriam provocar aborrecimentos. Havia uma espécie de rivalidade amistosa entre os oficiais da ativa da Frota Espacial e os oficiais do Serviço de Segurança Solar. Aproveitavam qualquer oportunidade para golpearem-se. A intenção não era hostil, e tais atos pareciam reforçar a auto-confiança.
Torsin esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas viu-se impedido pelo grito do Tenente Brischkowski.
Olhem! Um túnel!
Torsin reagiu com uma rapidez espantosa. Comprimiu um botão que parou as hélices e fez o submarino aproximar-se da encosta rochosa. Encontravam-se duzentos metros abaixo da superfície. Realmente, em meio à penumbra, foi surgindo uma mancha circular escura.
Verificaram que se tratava de uma caverna. A luz dos holofotes não chegou ao fundo da caverna.
O tamanho deste buraco é suficiente para engolir-nos juntamente com nossos torpedos e foguetes atômicos — disse Torsin em tom pensativo.
Fitou Rengall com uma expressão de nervosismo.
Não sei se devemos arriscar. Basta um pequeno erro... — prosseguiu o comandante do S-35.
Rengall manteve-se em silêncio. Não deu nenhum conselho nem procurou animar Torsin. Mas por outro lado não procurou demovê-lo de seu intento.
O Tenente Brischkowski limitou-se a dizer:
Bem...
Torsin aproximou-se ainda mais do túnel, que estava mergulhado numa luz tão intensa que se viam perfeitamente suas bordas. Não havia o menor sinal de que estas tivessem sido trabalhadas. Pareciam continuar tal qual a natureza as fizera. Aquilo poderia ter sido feito de propósito, para enganar alguém. Mas era também possível que não fosse.
Rengall leu no rosto de Torsin a intenção de examinar o interior do túnel, custasse o que custasse. Por isso resolveu falar com a voz tranqüila:
E os trajes de mergulhador indilaceráveis? Será que não temos alguns a bordo?
Torsin confirmou com um gesto de surpresa.
Isso mesmo. Quase que me esqueço disso. Em vez de arriscar todo o submarino, será preferível enviar dois dos meus homens. Mas não acredito que a missão seja perigosa. Os trajes agüentam uma batida na rocha; não vazarão.
Rengall empertigou-se.
Se me arranjasse uma pessoa competente, bem que gostaria...
Nem pense nisso! — protestou Torsin em tom enérgico. — Sou responsável pelo senhor. Se algo lhe acontecer...
Sou um aficionado do esporte do mergulho — tranqüilizou-o o major. — Os trajes de mergulhar permitem atingir a profundidade de trezentos e cinqüenta metros. No momento encontramo-nos a duzentos metros. Levarei uma arma de radiações.
Temos em nosso arsenal um total de quatro armas de radiações neutras — disse Torsin, que já começava a concordar com a proposta. — As outras são muito perigosas, face à condutibilidade da água. Está bem. Concordo. Mas a responsabilidade será exclusivamente sua.
Perfeitamente, capitão. Nada nos poderá acontecer, desde que o senhor aguarde nossa volta. É bem possível que o túnel não seja muito comprido; talvez descreva uma curva pouco adiante e logo termine.
Haller, o operador de rádio, era a única pessoa além de Rengall que tinha experiência na arte do mergulho, e por isso foi destacado para acompanhá-lo. Não se entusiasmou muito com a tarefa, mas não quis passar por covarde.
Dali a dez minutos, os dois homens saíram pelas comportas do submarino, e depois de terem experimentado seus aparelhos de rádio, afastaram-se do casco do submarino.
Os trajes de mergulhador que usavam eram quase ideais. Não havia necessidade dos incômodos recipientes de oxigênio, já que o ar respirável era suprido por vinte horas através de um processo químico. O elemento que realizava esse processo era pequeno; ocupava menos espaço que o aparelho de rádio, que não poderia ser considerado grande. A arma de radiações estava enfiada num bolso do lado direito. Seria fácil alcançá-la.
O submarino S-35 mantinha-se imóvel. Seus holofotes forneciam bastante luz. Rengall sentiu-se leve. Descreveu um looping e fez um sinal alegre para Torsin.
Isto aqui é formidável — disse para dentro do microfone que estava embutido no capacete, tal qual num traje espacial. — No mar aberto sinto-me mais seguro do que no aperto de um submarino.
Torsin respondeu com a voz zangada:
Só enquanto eu deixar os holofotes acesos. O senhor se espantaria ao notar que não sentiria mais nenhum prazer se de repente se visse envolvido pela escuridão. Não perca tempo. Haller já chegou à entrada da caverna.
Rengall praguejou contra a pressa dessa gente pouco romântica e seguiu o radioperador, que nadava à sua frente. Nem teve tempo para examinar o fundo do mar.
De pé na entrada da caverna, Haller apontou para o negrume que enchia a mesma.
Não se vê nada, major. Ao que parece, realmente é uma espécie de túnel. Quem sabe se não encontramos os antis, sir?
Pode ser que sim, pode ser que não — disse Rengall em tom de ceticismo.
Pousou suavemente ao lado de Haller.
A luz dos holofotes do submarino S-35 penetrava caverna adentro numa extensão de cinqüenta metros, fazendo com que esta assumisse dimensões gigantescas. Não se via o menor sinal do seu fim.
Teremos que nadar — sugeriu Rengall.
Haller confirmou com um gesto. Ao que parecia, não esperara outra coisa.
Empurraram-se com os pés e penetraram no túnel, que se estreitava lentamente.
O S-35 não teria chegado longe. Quando comunicou esse fato a seu amigo Torsin, Rengall parecia satisfeito. Assim que penetraram na escuridão, ligaram as luzes individuais, montadas sobre os capacetes.
A luz só alcançava uma distância de dez metros, mas era quanto bastava.
A caverna transformou-se num túnel quase redondo com dez metros de diâmetro, que avançava horizontalmente para o interior do continente rochoso. Ou teria sido aberto?
Ainda não viram nenhum sinal de que o túnel fora construído artificialmente.
Atrás deles, a saída transformou-se numa grande mancha luminosa. Quando atingiram a curva e ultrapassaram-na, a mancha desapareceu. Rengall sabia que agora estavam verdadeiramente sós.
Flutuavam num mundo irreal e fantasmagórico, que já não tinha a menor ligação com a superfície. Os feixes de luz dos holofotes iluminavam paredes rochosas irregulares, pequenas fendas e saliências arestosas. Às suas costas, o chão do túnel ia deslizando para trás, lenta e ininterruptamente. Não havia peixes nem plantas.
Depois de terem nadado muito e percorrido algumas centenas de metros, o túnel abriu-se. O teto, as paredes e o chão recuaram tanto que a luz dos holofotes não os atingiu. Era impossível saber se haviam voltado ao mar aberto, ou se tinham penetrado numa gigantesca caverna. A última hipótese era a mais provável, pois os mapas de Torsin não registravam nenhum lago ou braço do mar atrás da linha do litoral.
Seria um lago subterrâneo? Uma gigantesca caverna cheia de água, que tinha ligação direta com o oceano?
Como faremos para encontrar a continuação do túnel, se é que a mesma existe? — perguntou Haller em tom de perplexidade.
Vamos procurar — sugeriu Rengall, embora ele mesmo já não acreditasse muito no êxito da missão. — Temos de nadar junto à parede.
O que houve? — disse a voz de Torsin saída dos seus alto-falantes. — Onde estão?
Numa caverna cheia de água. Não sabemos qual é seu tamanho.
Ao que parece é uma pista falsa.
A voz do capitão parecia decepcionada.
Voltem.
Acontece que Rengall se sentia possuído pela febre dos descobrimentos.
Por que, capitão? Talvez encontremos a continuação...
Quero que voltem, major. Não vamos perder nosso precioso tempo. Entendido?
Rengall viu Haller que pairava a seu lado. Via perfeitamente o rosto do radioperador no interior do capacete. Fez um sinal indagador com a mão, como se não quisesse que seu comandante tivesse conhecimento das dúvidas que o atormentavam.
Está bem; vamos voltar — disse Rengall depois de algum tempo.
Seria um absurdo procurar criar um caso com Torsin, ainda mais que o capitão se achava investido no comando.
Dali a meia hora apresentaram-se a Torsin. Chegaram bem em tempo para ouvir uma mensagem de rádio transmitida pela Ironduke a todos os submarinos.
A mensagem era concebida em termos lacônicos:
Chamando todos os barcos que operam em Okul. Emergir imediatamente e transmitir constantemente sinais goniométricos. Aguardar novas ordens. Por enquanto as buscas estão suspensas. Rhodan.
O Capitão Torsin fitou o Major Rengall com uma expressão de perplexidade.
O que será isso? — perguntou surpreso. — Será que alguém descobriu os antis?
Rengall balançou lentamente a cabeça.
Não acredito, capitão. Deve ter havido algum imprevisto. Não demoraremos em saber.
Emergiram e o submarino ficou parado em meio ao mar revolto da costa, que se erguia sob a forma de um paredão de rocha. O sol já ia descendo no oeste. A noite não tardaria a chegar.

* * *

Fazia três dias desde que a nave esférica Antilhas trouxera os fura-lamas para a Terra. O Dr. Koatu encontrava-se em companhia do professor Wild.
Leia isto, Koatu! — pediu o professor.
Koatu pegou o relatório da Clínica Universitária de Heidelberg e leu.
Em Heidelberg fora aplicado um novo método de investigações. E as pessoas que trabalhavam em Heidelberg estavam em condições de provar que a secreção glandular não era nenhum veneno nem criava dependência. Tratava-se de uma excelente substância rejuvenescedora. Mas Heidelberg manifestou pela primeira vez a suspeita de que talvez o liquitivo contivesse outro princípio ativo além da substância rejuvenescedora. Princípio este que até então teria escapado à atenção dos pesquisadores.
Então, o que acha? — perguntou o professor Wild ao seu colaborador, assim que este acabou de estudar o relatório.
É possível — admitiu Koatu a contragosto. — Mas onde deveremos procurar a outra substância? No liquitivo ou no seu elemento ativo?
Era o que eu gostaria de saber, Koatu — o professor Wild deu a entender que já não sabia o que fazer.

* * *

Uma bela manhã Phil Morris apresentou-se como jogador de golfe no clube, a fim de seguir o conselho de seu amigo Rengall. Mas uma surpresa muito desagradável lhe estava reservada.
O gerente, Garry Rascall, não lhe dispensou as atenções que seriam de esperar. Parecia nervoso e perturbado e não fazia o menor esforço para disfarçar o gênio irritadiço.
O que veio fazer aqui a uma hora destas? — perguntou. — Ninguém costuma jogar tão cedo...
Não pretendo jogar golfe — disse o médico. — Quero fazer uma visita ao senhor e ao seu excelente bar...
Na última noite alguém já me fez esta visita — respondeu Rascall, cujos olhos subitamente se estreitaram ao encarar Morris. — Anteontem de noite o senhor tomou uma bebedeira daquelas.
Foi o liquitivo. Senti falta do mesmo:
Foi por isso que resolvi procurá-lo. Sir Rengall me contou que o senhor ainda tem alguma coisa em estoque. Só pretendo ir à cidade dentro de algumas semanas. Por isso seria muita gentileza de sua parte se pudesse ceder-me alguns frascos. Para o senhor, deve ser mais fácil fazer outra compra.
O senhor devia ter vindo algumas horas antes — disse Rascall com uma entonação estranha na voz. — Sir Rengall foi a última pessoa à qual forneci liquitivo.
Mas...
Queira acompanhar-me — pediu o gerente, e saiu caminhando à sua frente, em direção à sede do clube.
Era um lindo bangalô, com uma varanda larga e degraus de madeira. Notava-se a falta de uma grade, que fora removida à força. Os restos estavam jogados na rama. Morris teve uma sensação nada agradável.
Veja com seus próprios olhos, doutor. O liquitivo estava guardado no armário atrás do bar. Foi roubado. A mesma coisa aconteceu ontem de noite na casa de Rengall. Antigamente costumava-se roubar dinheiro, hoje em dia furta-se licor. Como este mundo está mudado!
Ao que parecia, aquele homem nem desconfiava do motivo daquela série de furtos. Era a última chance de Morris.
Bem, o licor não é barato. Vale seu peso em prata. Que tal tomarmos um trago para matar o susto?
Rascall fez um gesto de assentimento.
Estava distraído. Ao que parecia, já não desconfiava de Morris.
Está bem, doutor — foi até o bar e tirou uma garrafa bojuda da prateleira. — Pode ser um uísque?
Bem, prefiro um liquitivo. O senhor ainda deve ter alguns centímetros cúbicos.
Rascall balançou a cabeça, perplexo.
Isso é o cúmulo! Não acabo de lhe dizer que a mercadoria foi roubada? Sim, também os miseráveis frascos que estavam embaixo do balcão. Não deixaram um único. Tenho de ir à cidade ainda hoje para renovar meu estoque, senão os sócios do clube acabarão arrebentando tudo.
Phil Morris achou que seria preferível contar a verdade ao gerente. Se agissem em conjunto, talvez conseguissem alguma coisa.
Posso garantir que, na Flórida ou em qualquer parte dos Estados Unidos, o senhor não conseguirá uma única garrafa do produto, mesmo que pague o dobro ou o décuplo do preço. As remessas foram suspensas. Ao que tudo indica, o governo pretende curar-nos a força, por meio de uma radical privação da bebida. Não será difícil imaginar as conseqüências. Dentro de trinta dias, duzentos milhões de viciados farão desmoronar a civilização, ou terão de ser presos.
Rascall fitou Morris de lado.
O senhor já sabia disso anteontem de noite, quando arranjei as cem garrafas para Rengall? Será que Rengall sabia?
Morris fez que sim. Parecia envergonhado. De repente um sorriso surgiu no rosto de Rascall.
Quer dizer que o senhor está numa enrascada, tal qual eu. Que bom! E agora? Será que o senhor, que é médico, não vê nenhuma saída?
O pessoal de Terrânia não encontrou saída. Como é que eu poderia encontrar? Só há um meio: arranjar liquitivo em algum lugar. Não tenho a menor vontade de passar o resto dos meus dias num hospício. Ainda poderei viver nove ou dez anos. E pretendo vivê-los.
Eu também — disse Rascall. — Onde poderemos encontrar liquitivo?
Na cidade. Feche seu “botequim” e venha comigo. A corrida ainda não começou, e por enquanto não houve nenhum anúncio oficial. Pouca gente deve desconfiar de alguma coisa. Precisamos tentar adquirir os eventuais estoques. O senhor tem uma arma?
Rascall fez que sim. Parecia espantado.
Naturalmente. Para quê?
Vamos levá-la.
Rascall olhou para o armário arrombado e compreendeu. Pôs a mão na gaveta e tirou uma pistola. Enfiou-a no bolso do casaco.
Vamos pegar o carro de entregas?
Isso chamará menos a atenção — disse Morris, concordando com a sugestão.
Dessa forma teremos motivo para perguntar em toda parte se há liquitivo, sem provocar maiores desconfianças. Em primeiro lugar procuraremos o atacadista que costuma fornecer-lhe o produto.
Antes que chegassem aos subúrbios, começaram a desconfiar que sua tentativa haveria de fracassar. Ao reconhecer o veículo do clube, uma massa ululante parou-os.
Antes que Rascall pudesse perguntar qual era o motivo do tumulto, foi arrancado da cabina e obrigado a abrir o compartimento de carga. As pessoas reviraram-no e soltaram gritos de decepção ao constatarem que no carro só havia garrafas e caixas vazias.
Onde esconderam o licor? — perguntou um homem, segurando Rascall pela gola do casaco e sacudindo-o. — Fale logo, se não quiser morrer.
Que licor? — perguntou Rascall num gemido, e fez um movimento discreto com a mão, a fim de pegar a arma. — Não sei do que estão falando.
Realmente não sabia, mas imaginava.
Tal qual Morris, que fora deixado em paz.
Liquitivo, seu burro! — berrou o homem que segurava o gerente, e desferiu-lhe um golpe que o fez cambalear e cair ao chão. — Você sabe tão bem quanto eu que não há mais meio de arranjar aquilo. Procuramos por toda a cidade. Diga logo, senão...
Não pôde prosseguir.
Rascall conseguiu arrancar a pistola do bolso do casaco. Levantou-se de um salto e apontou a arma para o cabeça do bando. Os homens recuaram.
Ligue o motor, Morris! — gritou, enquanto engatilhava a arma. A pistola deu um ligeiro estalo.
Estava pronta para ser disparada. — Abram caminho — disse, dirigindo-se ao homem que lhe dispensara um tratamento tão áspero. — Não temos liquitivo. Alguém há de providenciar para que o mercado volte a ser suprido. Deixem-nos passar!
Brandiu ameaçadoramente a arma para abrir caminho. Morris ligou o motor e pôs-se no volante. Engatou a primeira e abriu a porta do lado direito.
Rascall saltou sobre o estribo e segurou-se com a mão direita. O cabeça do bando esqueceu-se de todas as cautelas e procurou segurar a perna do gerente do clube, a fim de evitar que entrasse no veículo.
Não permitam que escapem! — gritou em voz alta. — Têm o licor escondido na cabina e não querem dar-nos.
Rascall fez pontaria e atirou. O chefe do bando deu um grito e soltou sua perna. Morris acelerou, enquanto o gerente ia entrando no veículo. Atrás deles a multidão começou a uivar, mas já era tarde. Desta vez a presa lhes escapara.
O senhor matou o homem, Rascall?
Não; apenas atirei em sua perna. Por enquanto esse sujeito não assaltará mais ninguém. Vivemos num estado de anarquia. Vamos diretamente ao atacadista.
Constataram que outros tiveram a mesma idéia antes deles. O gigantesco edifício estava cercado. Gigantescos cartazes e coros de vozes esclareciam o que a multidão queria. Exigiam a entrega dos estoques de liquitivo.
Morris parou o veículo.
Pois vamos a pé — decidiu Rascall, guardando a arma e abrindo a porta do carro. — Sou um velho conhecido do chefe do depósito. Posso garantir que nos cederá algumas garrafas de liquitivo, desde que ainda tenha o material em estoque. Venha comigo, doutor.
Deixaram o carro estacionado e aproximaram-se do depósito pelos fundos. Entraram sem incidentes numa porta lateral. Mas para sua surpresa um policial impediu que prosseguissem.
Pare! Quem são os senhores?
Um sorriso tranqüilo surgiu no rosto de Rascall.
Somos do clube de golfe, sir. Sou o gerente.
O que vieram fazer aqui?
O que houve? Será que o estabelecimento foi confiscado? Pretendo fazer compras para o bar do clube. Será que isto é proibido?
Compre o que quiser, menos liquitivo. Na saída serão revistados.
Isso é...
São as ordens que recebi — disse o policial em tom resignado. — Se quiser informações mais detalhadas, pergunte aos meus superiores. Parece que o senhor ainda não percebeu que foi proclamado o estado de emergência.
Só por causa do liquitivo? — perguntou Morris.
O policial lançou-lhe um olhar desconfiado, mas irônico.
Já percebeu isso?
Encontraram o chefe do depósito no escritório. Além disso, havia dois funcionários uniformizados na sala. Examinavam uma lista e confabulavam em voz baixa. De inicio não demonstraram o menor interesse pelos recém-chegados.
Olá, Rebok. O que houve? Será que os tempos da lei seca voltaram?
Rebok era um homem de meia-idade que vestia um guarda-pó azul. Apertou a mão de Rascall e também cumprimentou Phil Morris.
Até parece, Garry. É bem verdade que a proibição só atinge o liquitivo. O produto foi confiscado.
Confiscado? — repetiu Rascall, bastante pálido de susto. — Por quê? Pretendia fazer uma compra.
Sinto muito, Harry. Você pode comprar o que quiser, menos liquitivo.
Mas...
Um dos funcionários uniformizados levantou a cabeça e perguntou:
Quem é o senhor?
Rascall identificou-se e apresentou Morris. Este disse:
Sou médico, tenente. Se os estoques de liquitivo forem confiscados, haverá uma catástrofe. Os viciados já estão tumultuando a cidade. O senhor deve saber que a privação da droga durante seis dias causa um colapso nervoso total. O senhor poderá assumir a responsabilidade por esse estado de coisas?
Não demorará seis dias, doutor. Apenas estamos fazendo um levantamento dos estoques, que serão distribuídos de tal forma que cada viciado receberá uma garrafa, O governo apenas pretende uma suspensão de uma semana.
Uma suspensão de uma semana? O que vem a ser isso?
Novas remessas de liquitivo estão chegando do espaço. Estas, juntamente com os estoques já existentes, deverão ser suficientes para abastecer noventa por cento da população. E o abastecimento dos dez por cento restantes também estaria garantido, se os estoques sonegados fossem descobertos, O senhor compreendeu?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html