quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-105 - A Frota-Fantasma - Clark Darlton [Parte 3]

Rhodan virou-se para trás, ao ouvir a fala de Gucky. Quando compreendeu o sentido das palavras de Gucky ficou pensativo. Mas a verdade toda veio só depois.
Como é que você conseguiu voltar?
Com aquele barco que passou agora aqui — disse Gucky, apontando para a tela, onde a nave esférica ficava cada vez menor e logo depois não iria se distinguir das muitas estrelas. — Trouxe-me através da barreira de proteção, sem saber, naturalmente. Aliás, a barreira não chegou a ser interrompida ou perfurada nem por um segundo. Pode-se atravessá-la de dentro para fora. Da superfície do planeta não se nota nenhuma alteração. É uma coisa esquisita que não posso compreender.
Vou lhe propor — disse Rhodan — que nos relate os fatos pela ordem. Do que você está falando? Que alteração está imaginando?
Olhando para o relógio de bordo, Gucky continuou:
Vou resumir tudo, porque temos ainda quarenta e oito horas para salvar a Terra da destruição. Dois dias, Perry, e aparecerá no sistema solar uma poderosa frota de guerra dos arcônidas, frota que só existiu há quinze mil anos atrás, pois os acônidas conseguiram tirar este grupo de naves e suas tripulações do fundo das sepulturas. Aquela que acabaram de ver na tela deve ter sido destruída já há quinze milênios em batalha, e seu comandante deve ter morrido também nesta época. E agora, se prepara para destruir a Terra. Rhodan olhava aterrado.
Não nos martirize assim, Gucky — interrompeu bruscamente. — Conte todos os detalhes...
Gucky percebeu que Rhodan falava sério. Depois de reunidas na central de comando as pessoas mais importantes da Drusus, narrou todos os acontecimentos.

* * *

Terminado o relato, houve um silêncio assustador.
O doutor Louis Renner, matemático-chefe da Drusus e grande conhecedor dos diversos ramos da ciência, balançou a cabeça.
Parece tudo uma quimera, uma coisa impossível, embora eu não ponha em dúvida nenhuma palavra de Gucky. Apenas me pergunto como é possível que o transformador do tempo possa atuar de modo tão perfeito. Não consigo entender o seguinte: quando uma nave deixa Árcon III, deveria regredir ao passado e assim se tornar invisível a nós!
Não sei realmente como eles fazem isto — disse Gucky, defendendo suas observações e conclusões daí derivadas. — Sei apenas que isto lhes é possível. Quem sabe o campo de ação do transformador temporal é ilimitado, após se ter concretizado a transformação? Mas será que não é melhor pensarmos em agir ao invés de discutirmos as teorias de um fenômeno inatingível pelo raciocínio lógico, apressado?
Você acha que podemos interceptar e deter a frota, com o auxílio de Atlan? — perguntou Rhodan.
Sem o cérebro positrônico? Nunca! Gucky falou e balançou a cabeça, ficando incrivelmente sério.
Trata-se de cerca de trinta mil unidades. Como é que se pode detê-las?
Enquanto o cérebro robotizado está fora de operação... — começou Rhodan, hesitante. — Enquanto ele não está operando, não podemos contar com nenhum auxílio de Árcon. Atlan tem primeiro que resolver seus problemas, para depois pensar em nós. Agora, vamos ser sinceros: não podemos fazer nada contra uma frota deste porte. Não temos nada para opor a um rolo compressor destas proporções.
Houve uma rápida pausa, interrompida pela pergunta feita a Gucky:
Você não disse que eles iriam nos forçar a uma capitulação?
Exato, subjugar a Terra ou destruí-la.
Ótimo, isto nos dá mais um prazo — e dirigindo-se a Deringhouse, Rhodan continuou: — Mande fazer uma ligação por hiper-rádio para a Terra, para o Marechal Freyt e Reginald Bell. Imediatamente e com urgência.
O General Deringhouse foi ao posto de rádio.
Temos que tomar todas as providências para proteger o sistema solar — prosseguiu Rhodan. — Ficamos aqui com a Drusus, a fim de controlar a partida da frota-fantasma. Talvez achemos até lá um meio de desligar ou neutralizar o transformador do tempo...
E como? — atalhou Gucky. — Eu o vi, Perry. A nave dos acônidas está a quase dois quilômetros abaixo da superfície. É impossível atingi-la daqui com qualquer um de nossos aparelhos. Pelo menos enquanto o plano temporal continuar envolvendo todo o planeta, não deixando passar nada. Eu mesmo tive muito trabalho para atravessá-lo. E isto com o auxílio do transmissor fictício.
Haveremos de achar um meio — disse Rhodan resoluto. — Teremos que achar um meio, pois, do contrário...
Deixou a frase em suspenso, mas cada um sabia muito bem concluí-la. A frota-fantasma ameaçava o presente. Era real e não uma visão. O único meio de torná-la inofensiva e fazê-la regredir ao passado era destruir ou fazer parar o transformador do tempo.
Veio mais depressa do que se esperava a ligação com Terrânia. Rhodan explicou a situação a Freyt e a Bell, dando algumas instruções. Aventou a possibilidade de, neste meio tempo, poder resolver o problema em sua origem, sem que houvesse assim um ataque direto à Terra. De qualquer modo, não deviam se arriscar. Assim que as estações de patrulhamento, circulando em torno do sistema solar, percebessem as primeiras transições, toda a população da Terra devia se dirigir aos abrigos atômicos. Estas medidas de segurança deviam prevalecer também para Marte, Vênus e Lua. Nenhuma resistência! Política de contemporização.
A conversa durou quase meia hora. Rhodan interrompeu a ligação, ciente de não ter feito ainda tudo para evitar uma catástrofe. Sentia a insuficiência de seu próprio poder e tinha a consciência da gravidade da situação. Mesmo seus amigos não o podiam mais ajudar num conjunto de circunstâncias que escapava aos seus domínios.
Resignação era um remédio que Rhodan não costumava usar. Será que o esforço de tantos anos de trabalho seria inútil? Tinham os arcônidas, falecidos há milênios, o direito de irromper no presente para destruir o futuro? E o presente estaria desarmado e despreparado para enfrentar um passado já superado?
Gucky achava-se cochilando no sofá. Devia estar mesmo esgotado. Seria uma falta de responsabilidade mandá-lo de novo para Árcon III. Rhodan quebrava a cabeça procurando uma solução, vendo o olhar perplexo dos seus auxiliares. Ao voltar para a central de comando, notou que todos esperavam por um pronunciamento, uma palavra de consolo, que lhes reavivasse a esperança de escapar da catástrofe. Seria mais feliz se achasse alguma coisa boa para dizer a todos que tinham os olhos ou os ouvidos à espera de...
Quem sabe — disse John Marshall, interrompendo o silêncio — teremos uma resposta se consultarmos o passado? Não é possível que este tal Imperador Metzat tenha realmente vivido, sem fazer o que ele hoje se propõe.
Rhodan sentou-se.
Receio, Marshall, que você não conheça as muitas variantes do paradoxo do tempo. Se os acônidas conseguiram desenvolver uma espécie de viagem no tempo, então estarão em condições de influenciar o presente por meio de alterações no passado. Não se trata propriamente de uma viagem temporal, no estrito sentido da palavra, mas de algo bem diferente. O transformador cria um campo, em cujo âmbito o tempo é recuado. O presente desaparece, deixando simplesmente de existir e o passado começa a viver e se torna estável, mesmo depois de ter deixado o campo. E aí está o espantoso e, para mim, também o incrível neste fenômeno. Só nos cabe fazer uma pergunta: se o transformador do tempo for desligado ou destruído, continuará atuante? E aqui, penso eu, temos um ponto de partida. Se o transformador for desligado, os espíritos do passado, que transitoriamente se encarnaram, terão de desaparecer, como se nunca tivessem existido.
O senhor não pode provar isto — disse Marshall desanimado. — E mesmo que pudesse, não nos adiantaria nada.
Adiantaria muito — replicou Rhodan. — Mas você tem razão, não posso mesmo provar. Porém sabemos muito bem de uma coisa: os acônidas estão mais evoluídos do que nós e os arcônidas. Possuem o domínio absoluto do tempo, e nada temos para enfrentá-los neste campo, pelo menos até o presente.
Não poderíamos falar com o Imperador Metzat e procurar convencê-lo? — disse Deringhouse, intervindo na conversa, depois de acompanhar com atenção o diálogo. — Teria que compreender a falta de lógica de seu procedimento.
Pela primeira vez desenhou-se um leve sorriso nos lábios de Rhodan.
Deringhouse, você não parece entender bem a situação — disse Rhodan com muita paciência. — Metzat nem sabe que está vivendo pela segunda vez. Para ele, o que agora acontece é o verdadeiro presente, é a vida real dele. Vai nos chamar de doidos, se tentarmos explicar-lhe que já se passaram quinze mil anos. E mesmo se conseguíssemos lhe expor a possibilidade da ligação paralela de dois planos temporais, haveria de dizer que o plano dele é o certo. Nós também agiríamos assim, se alguém chegasse e nos dissesse que vivemos num falso presente. Não, Deringhouse, infelizmente não é esta a solução.
Qual é então a solução para o senhor?
Rhodan olhou para a tela panorâmica. Árcon III parecia um planeta envolto num manto de neblina impenetrável. A solução estava sob esta camada leitosa. Mas, como se podia penetrar nela? E de que maneira se iria desligar o transformador do tempo?
Abriu-se a porta da cabina de radiotelegrafia.
Senhor, Atlan está chamando.
Estou curioso... — disse, se levantando para sair. — O que o nosso amigo vai dizer, quando souber que tem concorrente ao trono imperial?
Viram que Rhodan estava um pouco abatido. Andava devagar, revelando uma tremenda preocupação.
Gucky não acordou, estava com sono pesado; John Marshall o pegou nos braços e o levou para sua cabina.
E o tempo passava.
5



A primeira transição, que ocorreu sem ser avisada, veio das proximidades de Plutão. Um cruzador de patrulhamento registrou a rematerialização de uma nave estranha. Já que não houve outras instruções, o Marechal Freyt manteve o alarma geral. Supôs com muito acerto que se tratava apenas de um aparelho de reconhecimento. Por prudência, porém, ordenou que alguns caças espaciais o seguissem discretamente.
Em Marte, tomaram-se todas as providências para se evitar vítimas. Os gigantescos abrigos atômicos estavam muito abaixo da superfície e resistiriam a qualquer ataque, mesmo que a superfície fosse devastada. Mas Freyt não acreditava que chegasse a tanto. Os fantasmas dos arcônidas vinham a fim de subjugar e não de destruir propriamente. Tinha-se que procurar retardar sua entrada em ação, para dar tempo a Rhodan e seus homens, e também a Atlan, de enfrentarem os acônidas.
O pequeno aparelho de reconhecimento foi de planeta em planeta. Quando havia possibilidade de ser percebido, voava cautelosamente. Cinco horas depois, entrou outra vez em transição. Haveria de comunicar a seu imperador que a notícia dada pelos colonizadores estava certa. Porém, a nova raça por eles descoberta era de índole pacífica e haveria de aceitar ordeiramente as ordens de um povo muito mais evoluído, como eram os arcônidas.
Uma mensagem por hiper-rádio foi enviada para a Drusus. Depois, começou o longo tempo de espera...

* * *

No dia seguinte chegou um radiograma de Rhodan. Seu conteúdo era uma ordem lacônica de se conseguir imediatamente uma informação no grande computador de Vênus. Tratava-se principalmente de dados históricos referentes a quinze mil anos atrás. Neste gigantesco cérebro de Vênus estava registrada toda a história de Árcon. Podia-se consultá-la a qualquer momento.
Bell se encarregou pessoalmente deste serviço, aproveitando a ocasião para dar uma saída até Vênus, pois a longa espera estava lhe corroendo os nervos, deixando-o quase maluco.
O número de viagens entre os planetas foi reduzido, devido aos motivos de segurança. Reinava uma tranqüilidade pouco espontânea entre os mundos habitados do sistema solar. Todos estavam esperando o inimigo: a frota-fantasma dos arcônidas!
Bell tinha uma leve idéia por que Rhodan queria investigar a história dos velhos arcônidas. Não podia haver paradoxo no tempo, portanto, o iminente ataque à Terra somente poderia se concretizar, caso realmente tivesse acontecido no passado, há quinze milênios. Ou seria cabível que Metzat pudesse realizar naquela época obra tão importante sem deixar rastros? Mas a Terra daquele tempo seria a mesma Terra de hoje? Ou seria bem diferente?
Bell deu de ombros e desistiu de pensar no assunto.
A nave terrana desceu, e ele se dirigiu diretamente para o computador, situado na montanha. Sua identidade lhe deu livre acesso. Sentou-se na central de ligações e lançou suas perguntas no pré-computador.
Teve que esperar uma hora para obter os dados. Nem se deu ao trabalho de estudá-los, mas voltou logo à nave, chegando minutos depois à Terra. Em Terrânia mandou fazer a ligação com Rhodan, para lhe transmitir os resultados.
Eram simultaneamente decepcionantes e... confortadores, devido a um pequeno detalhe!

* * *

Rhodan achou o pequeno detalhe bastante confortador, embora este lhe acarretasse mais alguns enigmas que não podia resolver na hora. Estava diante de uma situação tão excêntrica e grotesca, que quanto mais pensava, mais confuso ficava, chegando mesmo a descrer de sua sanidade mental.
Rhodan estava sentado à cabeceira da mesa, percorrendo as muitas folhas do manuscrito que o teletipo do hiper-rádio lhe transmitira. Era o relatório de Bell.
Rhodan sentia necessidade da opinião de seus comandados e, para isto, convocou uma reunião, na qual todos os oficiais da Drusus tomariam parte. Gucky, que acordara, havia comido quase a metade de sua ração; estava agora no colo de Betty Toufry, que carinhosamente lhe coçava o pelo. Sabia o que Rhodan ia anunciar, mas quebrava a cabeça sobre como iria acontecer o que estava para ocorrer.
Eu os convoquei, meus senhores, com o intuito de tranqüilizá-los: a Terra não será atacada nem destruída. Podemos deduzir isto, através da história do Imperador Metzat III, que não poderia ter vivido duas vezes, o que seria uma insensatez! Vou tentar fazer um resumo de sua vida e de suas obras.
Foi um dos arcônidas atuantes e de muita perseverança que construíram o grande império. Metzat III fez a façanha de subjugar ao poder de Árcon, nada menos de nove sistemas solares e destruiu dois deles. A Terra jamais esteve envolvida nestas conquistas. O império cresceu muito sob seu governo, mas não houve propriamente acontecimentos de maior relevo. Não quero enfastiá-los com pormenores, que realmente não passam de rotina. A história do Imperador Metzat não difere da de outros imperadores. Com exceção de um ponto.”
Olhou para os homens. Viu a curiosidade e a tensão nos seus olhos. Certamente teriam de início uma grande decepção e não iriam compreender logo de pronto o significado do evento. E mesmo que o compreendessem, ficariam surpresos e depois começariam a pensar, como ele.
Durante o governo do Imperador Metzat III, Árcon foi atacado por uma raça estranha. Não com uma grande batalha ou com milhares de belonaves, mas por uma só nave, que avançou até o planeta da guerra, voando duas vezes em torno dele. Quando desapareceu, deixou atrás de si uma enorme cratera de duzentos metros de profundidade. No mesmo dia, a frota de Metzat voltou de uma operação, com a seguinte observação: nenhum acontecimento digno de menção.
Rhodan fitou o auditório:
Isto, meus senhores, seria tudo. Metzat reinou mais cinqüenta anos, quando então morreu.
Viu a decepção estampada no rosto dos oficiais e dos elementos do Exército de Mutantes. No meio daquele ambiente um tanto fúnebre, havia um sorriso tranqüilo. Era o de Gucky, no colo de Betty. Seu dente roedor, que nos últimos tempos quase não se via, brilhava na penumbra da sala. O grande telepata John Marshall, que lia os pensamentos de Rhodan, compreendeu também o nexo das coisas, embora não as pudesse ainda explicar.
O transformador do tempo está a dois mil metros de profundidade — continuou Rhodan. — A cratera de que fala o relatório também o está. E ela surgiu no mesmo local onde foi construído, mais tarde, o cérebro positrônico. E com isso, naturalmente, também no mesmo lugar onde está hoje o transformador do tempo. Estão percebendo alguma relação entre estes detalhes? Vamos destruir o transformador do tempo na hora oportuna. A única questão é a seguinte: Como vamos conseguir isto? E uma outra, mais abstrata, surge concomitante: Se não conseguirmos destruí-lo, o que acontecerá?
Todos olhavam fascinados para ele. A princípio estavam mais calmos porque havia uma quase certeza de que o transformador já estava destruído. Mas ao finalizar, Rhodan lançou um novo problema para o qual não havia solução.
Mas senhor, isto é impossível — disse Deringhouse, conhecido por sua sobriedade. — Não podemos alterar o passado. A história de Metzat III é um fato indiscutível e reconhecido. Houve mesmo o ataque outrora e...
Rhodan concordou sorrindo.
Sim, outrora! E o que acontecerá com o hoje e o amanhã? Você parece se esquecer de que, quando rompermos o envoltório energético ou o plano temporal dos acônidas, seremos atirados para trás por quinze mil anos também. Seremos aqueles estrangeiros que, nos tempos de Metzat, atacaram Árcon. A cratera é um fato histórico de que não se pode duvidar. Sua existência está confirmada pelo computador de Vênus e todos os dados foram ali armazenados há mais de dez mil anos. Portanto, com referência a este problema tão real: mais do que nunca, temos de aniquilar o transformador do tempo dos acônidas, para não nos criar situações paradoxais. Confesso, porém, que ainda não sei como...
Gucky deu sinal de si:
Talvez possa saltar de novo?
Você não vai saltar, não! De maneira alguma — disse Rhodan. — Quem lhe garante que você terá a mesma sorte que antes? Além disso, a história diz que uma nave penetrou no envoltório e circunvoou duas vezes Árcon III. Será que você é uma nave?
Gucky não respondeu nada. Encolheu-se de novo, não demonstrando maior interesse na discussão.
John Marshall levantou a mão para falar alguma coisa, mas foi interrompido. Por todos os cantos da gigantesca nave soou o alarma. Rhodan saltou de sua poltrona e, acompanhado de Deringhouse e de outros oficiais, deixou a sala. Na central de comando, viram Nordman diante da grande tela. Não se virou para trás, quando falou:
As primeiras unidades da frota arcônida estão partindo e disparam a toda velocidade para o espaço. O robô de rastreamento já contou até o momento cinco mil unidades, das quais as primeiras já entraram em transição. Tudo se passa rapidamente.
Deve ter antecipado a partida — disse Rhodan, descontraído. — Terá alguma importância isto?
Olhou para a grande tela, onde sempre novas levas de espaçonaves emergiam do véu leitoso do campo do tempo, penetrando no espaço, sem darem atenção à Drusus. Seus transmissores estavam mudos e deviam supor que tudo estava em ordem em Árcon I e II. Ninguém podia imaginar que, neste meio tempo, quinze mil anos se passaram. Naquele tempo não existiria um envoltório de proteção e, por isso, passavam ali sem dificuldades, pois, para eles, a muralha energética simplesmente não funcionava. O cérebro positrônico também não existia. Era tudo tão simples e... ao mesmo tempo, tão horrivelmente complicado!
Manter a Drusus em estado de prontidão para se defender, major! Se alguma das naves-fantasma tentar agredir, temos que destruí-la. Acho, porém, que isto não vai acontecer, do contrário já o saberíamos. Querendo chamar-me, estou na cabina de rádio.
Mandou fazer a ligação com Árcon I e travou uma longa conversa com Atlan, a quem instruiu sobre os últimos acontecimentos. Apesar de o imperador arcônida estar assoberbado de preocupações com seus próprios problemas, prometeu vir o mais depressa possível. Rhodan lhe explicou com toda clareza as possíveis conseqüências de um paradoxo do tempo. Se isto acontecesse, a existência de Atlan estaria em jogo.
Quem sabe se nunca haveria um Atlan, porque ele jamais teria nascido?!

* * *

Antes que Atlan chegasse à Drusus, já haviam partido ao todo vinte mil espaçonaves. Seus traços fisionômicos, de ordinário tão serenos, refletiam tensão e nervosismo. Via-se o medo ancorado no fundo de seu coração e o temor quanto ao futuro.
Que aconteceu? Que estaria ainda para acontecer?
Enquanto Rhodan cumprimentava o amigo e o acompanhava para a cabina reservada, as primeiras naves de Metzat chegavam ao sistema solar.

* * *

Estavam sendo esperados.
A frota atacante isolou hermeticamente todo o sistema solar do resto do Universo e foi avançando lentamente. Seu esforço foi inútil, pois nenhuma nave terrana tentou deixar o sistema. É verdade que foi mantido o trânsito normal entre os planetas, mas nenhum dos comandantes se preocupou com a numerosa frota. Estavam agindo como se isto fosse coisa de rotina; a visita diária de frotas estrangeiras, que vinham conhecer o sistema solar e, principalmente a Terra.
O Marechal Gagolk, representante do imperador, avançou com sua nave capitania e circunvoou o terceiro planeta, identificado como pátria dos humanóides. Durante três horas tentou em vão entrar em contato com as inteligências que percorriam o espaço. Mas todos fizeram como se não o vissem nem ouvissem, ignorando sua presença. Mesmo quando ele aterrissou, ninguém se preocupou com isso. Parecia que ninguém o havia notado, como se fosse invisível.
Por alguns minutos ficou tão perplexo que não sabia o que fazer. A ordem era subjugar os humanóides e destruí-los sem piedade, se tentassem reagir. Mas... não havia nem sombra de reação. Por outro lado, as naves de patrulhamento no espaço e as frotas estacionadas nos imensos espaçoportos indicavam nitidamente que os terranos estavam em condições de uma reação fulminante. Por que não tomavam nenhuma iniciativa?
Gagolk começou a ficar nervoso. Correria um grande risco, caso desse ordem à sua frota para aterrissar. Também não poderia mandar abrir fogo. Isso infringiria as leis básicas do Universo. E ele sozinho não poderia sair da espaçonave para iniciar contato com os homens que o ignoravam.
Seu adversário invisível era Bell, que, por sua vez, não se sentia muito bem com aquela visita-monstro. Tinha de se basear na suposição de que Gagolk agiria estritamente dentro das instruções emanadas do imperador e não iniciaria nenhuma hostilidade. No fundo, tudo era questão de ganhar tempo. Ganhar tempo até que Rhodan descobrisse uma tábua de salvação.
E se isso não acontecesse? O que seria então?
Esta era a pergunta que Bell sempre fazia a si mesmo, sem achar uma resposta cabível. Estava sentado em Terrânia, protegido por uma cúpula energética que o resguardaria do primeiro ataque. Toda a população da Terra fora bem instruída. Iam normalmente para suas ocupações, mas todos estavam preparados para uma emergência. Ao primeiro sinal de um ataque inimigo, em menos de dez minutos todos desapareceriam nos abrigos subterrâneos.
Em caso de extrema necessidade, Bell teria que entabular negociações com os arcônidas, para ganhar horas preciosas, talvez mesmo dias.
Trinta mil espaçonaves circunvoavam o sistema solar, isolando-o do resto do Universo. Aproximavam-se cada vez mais da Terra, prendendo-a num cinturão de aço. As naves-patrulha do Império Solar continuavam indiferentes.
A tensão aumentava.
A qualquer momento a super gigantesca concentração de força podia, até por um engano, explodir...

* * *

Atlan olhava pensativo para Rhodan.
Em geral os problemas mais complicados do mundo acabam sendo solucionados com os meios mais simples. Por que será que não há solução simples para este caso? Não há outra coisa a fazer, senão pôr fora de funcionamento o transformador do tempo, e paralisar uma frota de trinta mil naves ou fazê-la desaparecer. Quando anularam a existência do cérebro positrônico, os acônidas fizeram a mesma coisa. Ele deixou de existir e suas conseqüências também cessaram. Anulemos também o transformador do tempo e suas terríveis conseqüências desaparecerão.
Sei de tudo isto — disse Rhodan desanimado. — Mas o problema é: Como podemos romper a grande barreira? Gucky já o conseguiu fazer uma vez, mas não tenho coragem de mandá-lo de novo. Ficou tão esgotado que, nas primeiras seis horas, não pôde fazer nada. Dois outros teleportadores não o conseguiram. Não, tem que haver uma outra possibilidade melhor. Uma espaçonave! Na história de Árcon foi uma espaçonave que lançou uma bomba sobre Árcon III.
Portanto, tem que ser também uma espaçonave — acudiu Atlan, mudando de repente de fisionomia e olhando firme para Rhodan, para ver se este estava ouvindo. — Uma espaçonave! Diga-me uma coisa, Perry, você tem mesmo uma memória tão fraca? Ou está fazendo de conta que esqueceu tudo?
Rhodan ficou realmente admirado com a pergunta do amigo.
Não o estou entendendo.
Atlan começou a sorrir.
Você descobriu os acônidas no Sistema Azul, ou não descobriu? Este Sistema Azul não está também envolto numa camada protetora? Esta camada não possui características singulares? Não haveria a possibilidade de total identidade entre o envoltório de proteção de Árcon III e o do Sistema Azul?
Rhodan meneou a cabeça, lentamente.
Seria possível, mas eu não creio que o Sistema Azul inclua por si só um plano temporal. Com que finalidade? Não, suponho que, em torno de Árcon III, haja dois campos. Um campo energético de proteção, do tipo daquele que envolve o Sistema Azul, e o campo do tempo, que é o único transparente e que pode ser penetrado. O nosso problema é, pois, o envoltório energético. Este é que temos de romper.
E exatamente isto é que você já fez uma vez!
Rhodan olhou perplexo para Atlan.
É claro, já havia feito isto uma vez. Mas, não foi um mero acaso? O choque de encontro ao sol, seu núcleo em estado gasoso, a polaridade do Sistema Azul... A propulsão linear...!
Era nisto que estava pensando Atlan. De repente, compreendeu ao que se referia seu amigo e se julgou um idiota por não ter pensado nisto antes.
A propulsão linear! Foi por meio dela que conseguiram ultrapassar a barreira do Sistema Azul, naquela vez. Teve que neutralizar o envoltório para poder atravessá-lo.
No mesmo instante houve outro estalo na cabeça de Rhodan! Compreendeu a razão pela qual os acônidas viam nos homens seus inimigos em potencial: Os terranos conseguiram penetrar no seu sistema tão cuidadosamente isolado. Ninguém antes havia feito isto! Uma dedução clara, fria e lógica.
Acho que aí está a solução — disse Rhodan. — Uma nave com propulsão linear pode penetrar e aterrissar em Árcon III, ou, ao menos, romper sua barreira para atirar suas bombas.
Atlan concordou.
Temos que nos manter dentro do quadro dos acontecimentos históricos — ponderou o arcônida. — Atirou-se apenas uma bomba que abriu uma cratera de dois mil metros de profundidade, sem provocar reação em cadeia. Portanto, nada de bomba arcônida. Uma bomba atômica comum. E antes de lançá-la, a nave deve dar duas voltas em torno do planeta.
Por que isto?
Também não sei, mas você vai ver que o comandante da nave vai executar sua missão exatamente desta maneira. Quem será este comandante?
Rhodan respirou aliviado, sabendo que não estava planejando algo impossível. Sobre o modo como agir, já pensara bastante, o necessário agora era agir o mais rápido possível.
Venha comigo — disse ele a Atlan. — Quero conversar um pouco com a Terra.
A ligação foi quase instantânea e Bell recebeu instruções bem claras.
Começara a “Operação História Contemporânea”.

* * *

A princípio, nem o Major Heinrich Bellefjord nem seu primeiro-oficial, Capitão Raldini, sabiam nada a respeito do novo artefato. Teriam de fato muito trabalho para se familiarizarem sozinhos com o funcionamento da propulsão linear. Mas, graças à reciclagem arcônida, feita à base de hipnose, aprenderam num só dia a dominar totalmente sua nova espaçonave: o cruzador pesado Ralph Torsten.
A imponente esfera de duzentos metros de diâmetro estava pousada, com seus apoios telescópicos, no solo rochoso da Lua. Esperava por sua primeira missão. O novo tipo de propulsão fora instalado há pouco e duramente experimentado por técnicos especializados. Ninguém sabia para onde seria o primeiro vôo.
Entrementes, deu-se a chegada dos arcônidas e o comandante da base lunar determinou estado de prontidão geral. Todas as tripulações que estavam na Lua tinham que se recolher a bordo de suas naves. O mesmo aconteceu com Bellefjord e sua gente. Mas nenhum deles pensaria em decolar nesta situação. Tanto maior foi a surpresa, quando o comandante da base chegou com seu jipe e se dirigiu diretamente para Bellefjord no posto de comando.
Major, o senhor está preparado para partir?
Sim, mas eu penso que...
Nova ordem de Terrânia. Rhodan pede o apoio de uma nave linear. Sinto muito, mas no momento o senhor é o único que tem uma tripulação treinada para o novo tipo de propulsão. Todas as outras naves de propulsão linear se encontram em torno do sistema solar e, no momento, não podem ser deslocadas. Aqui estão as ordens: Daqui a trinta minutos o senhor decola, e toma a rota direta para Árcon. Apresente-se diretamente a Rhodan, que o está esperando. Lá, o senhor terá mais informações. Alguma pergunta?
Bellefjord estava meio sem jeito.
E a frota que está sitiando o sistema solar?
As naves dos arcônidas não conhecem a tração linear, ainda usam a transição. Está, pois, excluído o perigo de uma perseguição. Logo depois da decolagem, o senhor atinge a maior aceleração e ultrapassa, a seguir, a velocidade da luz. Torna-se, portanto, invisível e ninguém o conseguirá localizar. Tente alcançar Árcon em poucas horas. Está tudo claro?
Tudo claro, pelo menos no meu entender.
O comandante lhe apertou a mão, desejando-lhe boa viagem. Voltou ao jipe e foi-se.
Trinta minutos depois, o cruzador Ralph Torsten decolou e disparou no espaço com uma aceleração nunca vista. Rompeu o cerco das naves arcônidas e desapareceu entre as milhares de estrelas.

* * *

O que diz Bell? — perguntou Atlan, duas horas após sua conversa decisiva com Rhodan.
Estavam de novo no posto de comando da Drusus e acabavam de receber radiogramas cifrados de Bell. Rhodan apanhou a folha de papel com o texto já decifrado e leu em voz alta:
Ainda nenhum contato com os arcônidas. Estamos na expectativa. A nave do comandante arcônida aterrissou, mas não aconteceu nada. Neste instante, o cruzador Ralph Torsten, sob o comando do Major Bellefjord, levantou vôo, vencendo facilmente o bloqueio arcônida. População mantém a calma. Mas por quanto tempo ainda? Bell.
Nada mal — comentou John Marshall, espichando bem as sílabas. — Quero saber quem é que vai ser o primeiro a perder a calma.
Rhodan pareceu não ouvir a observação de Marshall. Olhou para Atlan:
Quando Bellefjord chegar, irei logo para o cruzador pesado. Eu mesmo vou dirigi-lo — fez uma pausa. — Veio-me agora um pensamento. Acabei de ler de novo o relatório do grande computador de Vênus, que recebemos há algumas horas. Exatamente na descrição da cratera de dois quilômetros de profundidade, reparei numa coisa. Sua conformação nos faz pensar em cratera de origem vulcânica: escarpas íngremes, centro reduzido, fora de outras características. Esta cratera não foi provocada por uma bomba, lançada de cima.
Atento, Atlan ouvia Rhodan. As demais pessoas presentes no posto de comando não podiam dizer nada sobre a observação de Rhodan. E ele continuou:
Isto me leva a supor que os estranhos, isto há quinze mil anos atrás, colocaram a bomba lá no fundo, isto é, ao lado ou mesmo dentro do transformador do tempo. Com outras palavras: vou ter que levar Gucky comigo. Ele conhece muito bem o lugar onde está a nave acônida.
Ele já está a par de seus planos?
Rhodan sorriu.
Neste momento já sabe de tudo, se não me engano, não vai demorar a aparecer.
Rhodan não se enganou. Gucky se materializou ao seu lado e disse, censurando:
Devo confessar que você tentou esconder seu pensamento. Se eu não tivesse, por mero acaso, acompanhado a conversa...
Por mero acaso, hein? — disse Rhodan, dando umas palmadinhas nas costas de Gucky. — Mas então, você vai conosco? Não tem nada contra? E uma missão perigosa. Não vai ser muito fácil deixar o cruzador Torsten parado no mesmo lugar, enquanto você coloca a bomba e liga o detonador. Terá, então, que pular de volta para o cruzador.
Gucky sorriu e, desta vez, por mais tempo.
E assim estaria resolvido o último enigma — chilreou ele, feliz e triunfante. — Agora sabemos também por que a nave tem que circunvoar duas vezes Árcon III, antes de ir embora. Tem de ficar girando, pois, do contrário, haverão de alvejá-la. É simples, não é?
Tudo que a gente sabe é muito simples — respondeu Rhodan. — Desta maneira, a própria História já determinou o plano. Esperamos que não haja mais alterações. Mas como seria, se tudo já tivesse acontecido?
Eu não teria tanta certeza assim — interveio Renner. — Que sabemos nós a respeito do tempo? Do seu decurso e da influência que temos sobre ele? Um único erro, sir, e nós todos deixamos de existir. Aposto qualquer coisa como isto que digo é certo.
Devo acreditar em você. Não quero nem apostar — disse Rhodan, com toda seriedade.
É isso mesmo, acho eu — continuou Renner, que era um grande matemático e se preocupava muito com tal tipo de estudo. — Existem muitos planos de tempo. Nós conhecemos, naturalmente, só aquele em que vivemos. As fronteiras dos diversos planos são bem distintas, sendo impossível um equívoco, ou quase impossível. Com exceção das viagens no tempo, que até agora só eram possíveis teoricamente, poder-se-ia considerar como transgressão das fronteiras do tempo o sonho e também um certo tipo da loucura. No entanto, todas estas coisas só se realizam inconscientemente. Já que são de natureza apenas espiritual, não têm nenhuma influência no desenrolar do nosso plano ou no dos outros.
Porém, a viagem no tempo, que leva ao passado, é corpórea, é material. Esta tem influência. Pode fazer com que um dos planos deixe de existir. Os respectivos seres vivos não o notariam, pois realmente nunca nasceram. Por certo os acônidas já chegaram ao pensamento de fazer desaparecer nosso plano de existência. Mas esta tentativa deve ter sido muito arriscada para eles. Por isto, apenas esta experiência, que não provoca nenhuma alteração no passado, mas que só influencia de leve o presente, foi considerada não perigosa.”
Rhodan ouvira tudo com atenção. Mas ninguém podia notar se concordava totalmente com a opinião do matemático. Perguntou então:
O que nós planejamos é também uma alteração do passado? Qual é sua opinião?
É uma alteração meramente aparente, sir, pois só realizamos uma coisa que já aconteceu. Se o relatório do computador estivesse completo, haveria de dizer que, há quinze mil anos, viajantes do tempo atacaram Árcon, e não simples estrangeiros. Está compreendendo, senhor, que nós não criamos nenhum paradoxo. Só o criaríamos se deixássemos de destruir o transformador do tempo.
Relacionado com isto, surge uma outra questão, que o senhor talvez não possa resolver — disse Rhodan, com um sorriso nos lábios. — O transformador do tempo mergulhou Árcon no passado, certo, não é? Metzat, que reinou há quinze milênios atrás, é novamente imperador. Seus contemporâneos estão vivos. Minha pergunta ao senhor é: Onde ficaram os arcônidas que vivem agora, isto é, no nosso tempo? Não podem simplesmente ter se dissolvido no ar?
Renner estava também sorrindo, quando respondeu imediatamente:
O senhor se esquece de que Árcon III existe de fato num outro plano temporal. Se o senhor quiser encontrar os arcônidas que conheceu, tem que esperar também quinze mil anos. Hoje, eles ainda não existem. Somente no momento em que o senhor destruir o transformador do tempo é que eles estarão aqui e... não terão perdido um minuto de vida.
Isto está difícil demais para mim — disse Gucky, voltando para o sofá, onde se deitou em sua posição predileta. — Quando terminarem com este lero-lero, podem me acordar. Sou mais pela prática do que pela teoria. Boa noite.
Encolheu-se e fechou os olhos. Rhodan piscou o olho para Renner e disse:
É isso, doutor! Nem todo mundo está interessado em suas especulações, que certamente são mais filosóficas do que científicas. Acho, porém, que agora temos que cuidar dos preparativos, pois, após a chegada do cruzador Torsten, não teremos mais tempo — fez um sinal para Deringhouse. — Mande entrar Markowsky, general. Tenho que falar com ele.

* * *

Duas horas depois, despertaram Gucky. Espreguiçando-se, o rato-castor deixou o sofá e olhou para Rhodan.
Já está na hora?
Quase, meu amigo. Venha, pois quero mostrar uma coisa muito importante.
No depósito de armas da Drusus, trancadas a sete chaves, estavam as bombas mortíferas. Havia muitos tipos delas, mas Markowsky as deixou de lado. Entretanto, numa gaveta especial estavam cinco caixas retangulares, com uns vinte centímetros de comprimento por dez de largura. Assemelhavam-se a caixas de charuto, confeccionadas em metal reluzente. Tinham, na parte de cima, apenas um aro embutido, com alguns números gravados.
Markowsky apanhou com cuidado uma daquelas caixas e fechou a gaveta. Depois, inclinou-se para frente, olhou para Gucky e disse:
Isto é uma bomba solar reduzida, Gucky. Terá exatamente a potência que nós desejamos e um raio de destruição limitado. Não apresenta radiações nocivas e sua manipulação é simplíssima. Está vendo aqui o aro? Caso o regulemos para um minuto, isto quer dizer que você tem exatamente um minuto para se pôr a salvo. Um prazo maior poderia prejudicar nosso plano. Assim que você colocar a bomba no local certo, basta apenas comprimir este aro. Entendeu?
Claro! — respondeu chateado e apanhou a caixa. — O aro é difícil de ser movimentado?
E indagando isto, experimentou um pouco. Markowsky empalideceu.
Não tenha medo, não tenho vocação para suicida...! — brincou o rato-castor.
Cuidado, hein? Aperte uma vez só e bem firme, que ela explodirá.
Gucky segurou o perigoso objeto sob o braço direito e foi com seu andar rebolante pelo corredor a fora. O capitão, chefe do arsenal de munições, olhou para Rhodan meio confuso.
O senhor acha que ele...?
Não se preocupe — tranqüilizou-o Rhodan, com um sorriso. — Gucky ama sua vida, como o senhor e eu. Não conheço ninguém que manipule bombas com mais cuidado do que ele.
Dez minutos depois, veio o comunicado da central de rádio: O cruzador Ralph Torsten se aproximava do ponto combinado.
6



A Drusus se manteve parada, enquanto o cruzador Ralph Torsten, depois de receber Rhodan e Gucky, tomou o rumo dos planetas externos.
Como foi o vôo até aqui, major? O que acha do novo tipo de propulsão? — perguntou Rhodan.
Gucky estava sentado numa poltrona, lamentando não haver no posto de comando nenhum sofá. Ao lado de sua barriga peluda achava-se a caixa com a bomba.
Bellefjord que, até então, só vira Rhodan rapidamente uma vez, não se portou de modo tímido.
Maravilhoso — disse com sincero entusiasmo. — Algo diferente e mais eficiente que saltar através do hiperespaço. A gente pode ficar observando como as estrelas desfilam para nós. Nunca pensei, em minha vida, que a Cosmonáutica se tornaria tão grandiosa!
Concordo com o senhor, major. Minha primeira sensação foi idêntica à sua. Tive a impressão de que alguém me libertou das vendas nos olhos — fitou a tela. — Continue voando nesta direção por mais cinco minutos. Depois, viramos para Árcon III, com plena aceleração. Vamos perfurar a barreira energética e, a seguir iremos diminuindo a velocidade até a superfície do planeta. Daremos uma volta em torno do planeta e todo o resto fica a cargo do nosso amigo aqui — apontou para Gucky, que mostrava visível o dente roedor. — Ele vai se teleportar e nós o apanhamos dez minutos depois. Mande calcular a velocidade do vôo e a altura correspondente. Temos que agir com exatidão.
Dali a cinco minutos, graças aos computadores, estavam prontos os dados solicitados por Rhodan. Gucky recebeu as últimas instruções, após o que o cruzador Ralph Torsten fez uma grande curva e disparou numa aceleração incrível na direção de Árcon III.
Trinta segundos depois, mergulhava naquela barreira opaca, sem encontrar nenhum empecilho. Quase simultaneamente, começou a redução de velocidade, com tanta potência que os campos antigravitacionais consumiam grande parte da energia. Os continentes desfilavam rápidos na tela.
Rhodan contemplava a paisagem que passava cada vez mais lentamente. Gucky estava a seu lado. Apontou para o espaçoporto, quase vazio, e para o planalto.
Lá deve estar ela. Daqui a três minutos estarei aqui.
Com a bomba bem protegida debaixo do braço, Gucky se teleportou para a superfície do planeta.
Rhodan fez um sinal para Bellefjord. O major voltou a acelerar. O cruzador iniciou seu giro em torno do planeta. Dali a três minutos, Gucky teria de estar a bordo...
Sentado calmamente diante dos instrumentos, Bellefjord conduzia a nave com muito sangue-frio. Sabia o que estava em jogo, embora não o compreendesse. A seu lado continuava Rhodan. Suas mãos apertavam nervosamente o espaldar da poltrona e seu rosto achava-se estranhamente pálido.
Três minutos! Como podiam ser tão longos três minutos!

* * *

Para Gucky, o tempo passava demasiadamente rápido.
Rematerializou-se à beira do espaçoporto e viu quando dois pequenos jatos decolaram em perseguição à nave estranha. Mas já era tarde demais. Algumas baterias energéticas de controle automático apontaram seus canos para o céu. Também tarde demais.
Gucky consultou o relógio. Eram decorridos trinta segundos. Restavam-lhe, portanto, ainda cento e cinqüenta, para não perder o encontro marcado com o cruzador. Saltou mais uma vez e se materializou a menos de cem metros da nave acônida. Se deixasse a bomba ali, já seria suficiente. Mas não valia a pena pôr em risco uma operação tão importante. Tinha que aproveitar o tempo.
Cento e vinte segundos. Mentalizou o alvo, concentrou-se... e pulou.
A dor aguda quase o deixou inconsciente. Mas, ao mesmo tempo, o arrancou de um torpor, surgido quando do salto. Sentiu que estava rolando sobre algo abobadado. Depois, viu-se em chão firme. Achava-se, agora, ao lado dos dois guardas e à frente do envoltório de proteção do transformador do tempo. Não o conseguira romper. O que aconteceria agora?
Às costas dos guardas, a cintilação encontrava-se interrompida. Devia ser a entrada para a nave acônida. E se ele pulasse...?
E pulou. Saltou na hora exata, pois um dos guardas acônidas virou-se e percebeu o intruso. Levantou a arma e atirou, mas com um atraso de um segundo.
A figura estranha desaparecera, tornando-se invisível!
Os guardas tocaram o alarma. Naquele instante, Gucky se materializava dentro da nave acônida. Seu primeiro cuidado foi olhar o relógio.
Quarenta segundos!”, pensou. “Perdi muito tempo.”
Sem fitar o possante gerador e as máquinas em volta, e com um sentimento quase de pesar por ter que destruir esta maravilha da técnica, colocou a bomba num bloco metálico e apertou com força o aro de detonação.
Mais trinta segundos até que Rhodan viesse com o cruzador pesado e depois mais trinta para a bomba explodir. Certamente tudo daria certo.
Uma pequena teleportação o levou para junto da barreira energética. Antes que os sentinelas tivessem tempo de levantar as armas, Gucky saltou pela abertura, materializando-se a duzentos metros dali.
Mais dez segundos!
O segundo pulo o transportou para a superfície do planeta. As baterias estavam prontas para entrarem em ação. Seus canhões giravam em todas as direções. Mas do cruzador Ralph Torsten não havia ainda sinal, e Gucky precisava vê-lo para fazer seu salto.
Agora! Surgiu no horizonte um ponto negro, pois o sol estava atrás do cruzador. Assim que os primeiros disparos estrugiram na atmosfera do planeta, Gucky teleportou-se.
Quando se materializou ao lado de Rhodan, na central de comando, ainda conseguiu dizer:
Daqui a vinte segundos, o negócio vai pelos ares.
E no mesmo instante, desmaiou. Agora é que sentia as conseqüências dos inúmeros saltos de teleportação. Rhodan fez um sinal para Bellefjord, que imediatamente deu ao cruzador maior aceleração. Rhodan se curvou, pegou Gucky nos braços e o levou para sua cabina.
O cruzador Ralph Torsten disparou para a estratosfera, atravessou o envoltório de proteção e o plano do tempo, que ainda estavam ligados, e foi aproximando-se da Drusus.
Passados os vinte segundos, lá embaixo, na superfície de Árcon III, se rasgou um abismo e irromperam milhares de toneladas de rocha gaseificada.
No mesmo instante, desapareceu a barreira energética e, com ela, todos os fenômenos concomitantes.

* * *

O Marechal Gagolk, para achar um pretexto, começou a provocar os terranos. Um carro blindado foi desembarcado, através do elevador antigravitacional. No seu interior estavam sentados dois artilheiros, atrás dos pesados canhões energéticos, prontos para disparar. O blindado estava em contato, via rádio, com a nave capitania. Bastaria, então, o toque de um simples botão para ser iniciado o ataque contra a Terra.
Gagolk tramava seus planos, enquanto o pesado tanque rolava pela pista do espaçoporto. Contemplava abismado os arranha-céus de Terrânia.
Como é possível”, refletia o arcônida, “que esta raça tão civilizada nos tenha passado despercebida? São donos de uma navegação espacial evoluída e de alta tecnologia, e certamente têm relações com povos de outros mundos, do contrário reagiriam belicamente durante a nossa chegada!
Por mais que pensasse no enigma, não achava solução plausível.
Alguns pedestres ignoraram simplesmente a presença do carro blindado. Seu procedimento era como se aquilo pertencesse ao quadro diário de Terrânia. Mas os soldados que patrulhavam em torno do espaçoporto não poderiam ignorá-lo, sem causar grave suspeita.
Um oficial da guarda saiu de seu posto e levantou o braço.
Gagolk parou a viatura e, fazendo um sinal para seus dois artilheiros, abriu a escotilha lateral e saiu. Já com a mão na coronha da enorme arma de raios energéticos, dirigiu-se ao terrano. Era claro que o oficial, apesar de todas as instruções recebidas, não se sentia muito à vontade. Seu consolo era saber que seu radiotelegrafísta já fizera um relatório ao quartel-general. A qualquer momento podia chegar um reforço.
Por que razão você quer barrar minha passagem? — perguntou Gagolk, e o jovem oficial o entendeu bem, embora o arcônida falado pelo intruso tivesse um sotaque carregado. — Quem governa este planeta e suas colônias?
Se o senhor tiver um pouco de paciência vai falar diretamente com seu substituto — disse o guarda.
Se pudesse agir como queria, haveria de dar uma boa lição neste arrogante.
Tenho que lhe pedir para esperar aqui.
Por quê?
Porque é proibido entrar em Terrânia.
Um raio de esperança passou pela cabeça de Gagolk. Se conseguisse provocar os humanóides a abrir fogo primeiro, teria o pretexto que procurava para atacar o planeta. Assim ficaria livre de todas as complicações legais, pois, por sua livre e espontânea vontade, dificilmente esta raça civilizada iria se submeter às ordens de Árcon.
E quem é que vai me impedir de entrar? — disse com arrogância.
O tenente começou a suar frio.
E meu dever fazer isto, queira ou não queira.
Você será então imediatamente abatido e morrerá.
Tenho que aceitar isto e estou preparado para enfrentar qualquer risco, desde o dia em que vesti este uniforme.
De repente Gagolk viu que, a alguma distância, diversos alçapões se abriam no solo do espaçoporto, surgindo canos espiralados que apontavam para ele e para seu carro blindado. Somente isto bastaria para declarar a guerra. Mas Gagolk queria agir com toda prudência, a fim de mais tarde não ter que enfrentar as recriminações do Imperador Metzat III. Não houvera ainda um só disparo contra o império.
Você está vendo isto aqui no meu braço esquerdo? Isto é um transmissor. Por ele, estou em contato com os comandantes de trinta mil naves. Cada um deles pode ouvir o que estou falando agora com você. Uma palavra minha... e trinta mil belonaves se precipitarão contra seu planeta-pátrio. Acho melhor o senhor medir bem suas palavras, que podem ser decisivas para o destino de seu mundo.
O tenente preferiu calar. Mais ao longe, sobre os edifícios baixos da administração da alfândega, surgiu no ar um ponto escuro, que se aproximava rapidamente. Era um flutuador, uma viatura leve à base de colchão de ar, bastante usada nas pequenas ligações urbanas, muito comum em Terrânia.
Gagolk o acompanhou com o olhar preocupado.
É o homem de quem você falou?
Acho que deve ser ele, talvez acompanhado.
O flutuador aterrissou, a porta da cabina se abriu e Bell saiu.
Não é nosso costume recebermos visitantes de outros mundos à beira de um espaçoporto — disse no mais puro arcônida, sem o menor sotaque — mas no seu caso faço uma exceção.
Só então foi que passou pela cabeça de Gagolk que todos ali falavam o arcônida. E este mundo pela primeira vez entrava em contato com o Grande Império Arcônida...! Como era possível isto?
O senhor fala minha língua? — disse admirado, tornando-se automaticamente mais cortês do que havia sido com o tenente. — Isto vai simplificar minha missão. O Imperador Metzat III manda-me a este mundo para anexá-lo ao nosso grande império. A exigência do imperador está apoiada numa frota de guerra de trinta mil unidades, no momento à espera...
Pois não! À espera de quê? — perguntou Bell.
O substituto de Rhodan sabia que não iria conseguir muita coisa contra a arrogância do arcônida, mas sabia também que, a esta altura, Rhodan já partira com o cruzador Torsten, a fim de destruir o transformador do tempo. Tinha que usar manobras de protelação por mais uns dez, talvez vinte minutos.
Pretende o imperador aniquilar preciosos mundos coloniais? — sujeitou-se Bell.
Gagolk sorriu cepticamente.
Os senhores concordam?! Excelente! Aliás, este oficial me disse que o senhor é o representante do homem que manda aqui. O senhor está autorizado a tomar atitudes por ele? Onde é que se encontra seu superior?
O gorducho perdeu um pouco de sua paciência.
O senhor quer dialogar ou quer iniciar uma guerra? Se for este o caso, também posso mobilizar imediatamente milhares de moderníssimas belonaves. Não estamos tão desprotegidos como imagina.
O senhor se nega, pois, a reconhecer o imperador de Árcon como seu legítimo soberano? — perguntou Gagolk, com firmeza.
As bocas-de-fogo do carro blindado se abaixaram, apontando para a direção do pequeno grupo. Bell viu tudo e percebeu a gravidade do momento. Pegou no braço de Gagolk e o conduziu até a entrada dos abrigos subterrâneos. O tenente o seguiu, empurrando Gagolk para o interior do estreito corredor que levava aos grandes abrigos atômicos.
Na mesma hora as portas do inferno se escancararam sobre eles!
Mas os serviços de proteção da artilharia do abrigo reagiram prontamente. Estavam observando, através da tela do flutuador de Bell, todos os movimentos do carro blindado, e agiram na hora certa. Num sol atômico amarelado, dissolveu-se o carro blindado de Gagolk.
A catástrofe era irreversível.
A nave capitania dos arcônidas ergueu-se do solo e disparou para o espaço, onde desapareceu poucos segundos após!
Nos confins do sistema solar, as naves de Metzat III se alinhavam para o ataque, avançavam rápidas contra os cruzadores de patrulhamento terranos, abrindo intenso fogo. Os envoltórios de proteção não suportaram um ataque tão cerrado e a frota terrana de patrulhamento bateu em retirada.
A Terra estava indefesa perante o poderio inimigo, cuja superioridade era berrante, tolhendo na raiz qualquer possibilidade de resistir.
Os arcônidas não se preocuparam com as naves que fugiam. Gagolk estava morto ou pelo menos desaparecido. A tentativa de colonizar os humanóides tinha que ser considerada como fracasso. O rolo compressor da destruição começaria, então, a funcionar. Os primeiros torpedos atômicos já partiam a milhares de quilômetros por hora em direção à Terra, cuja população ainda aguardava o alarma.
Atrás dos torpedos vinham as naves para completar a obra da destruição.
Ainda arrastando Gagolk, Bell caminhou até a parte central do abrigo. Um oficial virou-se e o reconheceu.
Você pode fazer uma ligação para a central? Pergunte se...
Bell não terminou a frase. Alguém gritava nervoso no alto-falante:
Alarma! A Terra está sendo atacada! Nossas naves conseguiram escapar da destruição e se reúnem agora no setor de Marte para se reorganizarem para a defesa. A frota inimiga dirige-se à Terra. Alarma atômico!
Bell estava branco como um defunto. Com os braços estirados e com um ódio terrível estampado no rosto, virou-se repentinamente para Gagolk. Sem dizer uma palavra, avançou contra o arcônida, como se pudesse evitar a destruição iminente, enforcando ou esgoelando o comandante do ataque.
Mas as mãos do gorducho atingiram o vazio!
O arcônida desaparecera. Não como um teleportador, que ao saltar deixa no ar uma leve cintilação. Num milésimo de segundo ainda estava ali. No outro já havia desaparecido.
Quando suas mãos não encontraram o pescoço do arcônida, Bell quase caiu. Deu uns passos para frente e se apoiou num armário.
Ainda pálido, virou-se e indagou aos dois oficiais:
O que houve? O que foi isto? Ele não pode ter...
No alto-falante estava a voz do Marechal Freyt:
Senhor Bell! Apresente-se! Onde está o senhor?
Bell fez um sinal para o tenente que se achava no aparelho. A ligação foi feita na mesma hora.
Que houve?
Preste atenção, Bell! A frota inimiga...
Eu sei. Ela está atacando. Fiz tudo que me foi possível...
Mas...
Consegui pegar o comandante, mas quando queria esgoelá-lo, o desgraçado simplesmente desapareceu. Eu...
Se o senhor agora não quiser ouvir, a culpa é toda sua! — exclamou Freyt, furioso. — Preste atenção no que tenho a relatar-lhe. A frota inimiga também desapareceu. Assim que dei o alarma, acabou tudo. Os torpedos, atirados um pouco antes, já estavam penetrando a atmosfera terrestre, quando sumiram de repente. No mesmo segundo desapareceram também as trinta mil naves e... seu comandante. O fantasma sumiu!
Sem dizer nada, Bell ouviu e acabou sentando na cadeira mais próxima. Seu rosto cadavérico recobrou a cor, voltando ao vermelho forte. Mas a causa desta mudança foi o alívio e a alegria. A tão esperada ação de Rhodan dera resultado. A frota-fantasma voltara ao passado. A diabólica iniciativa dos acônidas — destruir a Terra, usando os mortos — felizmente fracassara.
Bell estava agora ciente do acontecido, mas envergonhado de não haver compreendido no primeiro instante.
A raça humana teria apenas poucos minutos de vida, embora só poucos soubessem disso. É verdade que todas as providências foram tomadas, porém seriam infrutíferas. Esquecera-se de contar com a mentalidade dos velhos arcônidas e este esquecimento quase acarretou o extermínio da Humanidade. Bell e Freyt julgavam a situação do seu ponto de vista. Se Rhodan — apenas um exemplo — tivesse sido preso no momento em que servia de mediador, ninguém partiria para o ataque, mas entrar-se-ia em conversação para libertá-lo.
Graças a Deus! — respirava aliviado o gorducho, olhando para o local onde estivera Gagolk. — Graças a Deus que Rhodan conseguiu destruir o transformador do tempo.
Na hora H — concordou o Marechal Freyt, e sua voz soava despreocupada. — Mas nossas naves não fizeram boa figura, pois fugiram todas. E eu não as censuro.
Não falemos mais nisso — propôs Bell. — Não sei o que teria feito. Talvez fugisse também, como se o diabo corresse atrás de mim.
E ninguém iria censurar o comandante por causa disso — tranqüilizou-o Freyt. — Além do mais, o ataque foi de surpresa. Mas... não acha bom avisarmos Rhodan?
Espere-me um pouco, chego neste instante aí.
Conheço sua vaidade de ser o primeiro a comunicar as novidades — disse Freyt, sorrindo.

* * *

Assim que o cogumelo atômico se dissipou no espaço, podia-se ver de bordo da Drusus a superfície do planeta. A cúpula brilhante do gigantesco cérebro positrônico cintilava à luz do sol de Árcon.
Dissipar” não era o verbo correto para o estranho fenômeno que se originou após a detonação. O estudioso Deringhouse teve oportunidade de observar o singular evento, em todos os seus detalhes.
O cruzador Ralph Torsten se aproximou do espaçoporto para acolher Gucky. Assim que este chegou, o cruzador se afastou com uma aceleração surpreendente, sempre perseguido pelos disparos energéticos das baterias automáticas. Então o solo se abriu, surgiu uma gigantesca bola de fogo que desapareceu no mesmo instante. Só uma pequena parcela do que surgiu do chão do planeta, pulverizado ou gaseificado, conseguiu atravessar o envoltório de proteção, escapando assim do regresso ao passado. Assim que o transformador deixou de existir, o cogumelo desapareceu. A superfície de Árcon III voltou a ser o que era antes. O cérebro positrônico reapareceu em toda sua magnitude. O presente voltou a vigorar.
A barreira representava a única coisa que não provinha do passado. Era do presente e continuava ali. Depois, dissipou-se e sumiu. Mas, abaixo dela, se passaram, de um momento para o outro, quinze mil anos. O cruzador Ralph Torsten parou em frente à Drusus. Cabos magnéticos o prendiam à maior nave esférica do mundo. Escotilha de uma estava junto à escotilha da outra e Perry fez a baldeação.
Quando entrou no posto de comando da Drusus, de mãos dadas com Rhodan, Gucky estava sorrindo. Mas era um leve sorriso, de pouca expressão. Via-se nele o esgotamento daquela última missão. Somente por este motivo foi que Rhodan não lhe permitiu fazer mais uma teleportação para a Drusus.
Ligação para a Terra! — disse ele a Deringhouse. — Tomara que a destruição do transformador do tempo não tenha chegado muito tarde.
Quando Deringhouse entrava, Atlan saía da cabina de rádio. Sorriu para Rhodan e o abraçou fraternalmente.
Conseguimos! — exclamou. — As notícias boas chegam ininterruptas. A frota robotizada voltou a funcionar de repente. Já sufocaram a tentativa de rebelião, prendendo os cabeças do movimento. O computador gigante está em funcionamento. Árcon está salvo. Tudo isto tenho que agradecer a você, meu amigo e aliado.
Não foi nada! Além de tudo, houve um pouco de egoísmo de minha parte, pois não salvei somente Árcon, o Império Arcônida, mas também nosso querido Império Solar. Quanto aos acônidas... temos que trocar umas idéias ainda, Atlan. Não acredite que esta foi a última tentativa deles. Eles têm medo de mim, por possuirmos a propulsão linear. Seus envoltórios de proteção não conseguem deter naves de propulsão linear. Assim, sabem que podemos entrar no seu hermético Sistema Azul a qualquer hora. Os acônidas detestam a guerra franca. Suas ações sorrateiras e camufladas são piores do que qualquer batalha. Uma vez já nos atacaram com o transmissor fictício, e agora por meio desta terrível volta ao passado. Estou curioso para saber o que vão inventar da próxima vez.
Estamos de sobreaviso — disse Atlan, não muito convincente.
Rhodan balançou a cabeça.
Como de sobreaviso? O que quer dizer com isto? O máximo que você sabe é que existe no centro da Via Láctea um imenso império, cujos fundadores e senhores não nos olham com boa cara. É tudo que sabe. Você não tem idéia da potência e grandeza de seus recursos técnicos e haverá de ter sempre novas surpresas. Temos que conhecer o perigo a tempo, para não sermos suas vítimas. Ou então, temos que convencer os acônidas de que nossa existência não é uma ameaça para eles.
E como é que você vai fazer isto?
Rhodan sorriu antes de responder.
Isso, Atlan, não sei ainda não. Mas vou dar um jeito, pode confiar em mim.
Deringhouse estava de pé à porta da central de rádio.
Ligação com a Terra, sir!
Obrigado! Já vou.
Pouco tempo depois, as duas naves estavam apoiadas em seus suportes telescópicos, à beira do espaçoporto de Árcon I, o chamado Planeta de Cristal. Aqui era a residência de Atlan, o imperador arcônida. Aqui se concentrava toda a administração do mais poderoso reino estelar. As notícias que chegavam a cada momento não deixavam dúvida. O cérebro robotizado reassumira suas funções, persistindo, porém, a seguinte dúvida: Será que ele havia realmente perdido suas funções?
Em companhia do Major Bellefjord e do primeiro-oficial, Capitão Raldini, Rhodan visitou o Ralph Torsten. O cruzador pesado estivera por alguns segundos exposto às baterias antiaéreas automáticas e recebera alguns disparos. Em alguns pontos de sua quase invulnerável carcaça, viam-se manchas de um tipo de esmalte afogueado.
Tivemos sorte de que tudo foi bem cronometrado — disse Rhodan. — O senhor volta para a Lua, major, onde facilmente poderá fazer este pequeno reparo. Logo receberá uma missão importante. Não tardará muito, e teremos uma frota só de naves lineares para fazermos uma visita ao Sistema Azul.
Por mim — disse Bellefjord — não quero mais comandar outro tipo de nave. Quem sabe chegará o dia em que cobriremos toda a Galáxia com esta nova maravilha?
Rhodan olhou espantado para ele.
Você já pensou seriamente nisto, Bellefjord?
E quem não terá pensado? A superfície dos mares do mundo tentou Colombo e ele descobriu a América há algumas centenas de anos. Mas ele não sabia que iria descobrir novas terras. Nós, porém, sabemos que há uma estranha Via Láctea à nossa espera, pois a vemos constantemente. Com estas novas naves haveremos de desvendar os segredos deste grande vazio.
Teoricamente, isto seria também possível com as velhas naves de transição — disse Rhodan, sorrindo. — Mas para quê, afinal? Mal conhecemos ainda a Via Láctea, como prova o incidente com os acônidas do Sistema Azul. E quem pode dizer quantas raças estão esperando por nós? Na nossa Galáxia podem existir imensos reinos estelares, de cuja existência nem suspeitamos. De qualquer maneira...
Rhodan contemplava o céu de Árcon, com os olhos semicerrados.
...de qualquer maneira, vou pensar em você se chegarmos até lá. Vou lhe pedir ainda um relatório sobre suas experiências no Sistema Azul. Tenho pressentimento de que descobri outro meio de romper o bloqueio energético dos acônidas. Sua ação não foi inútil, major! O senhor partirá amanhã para a Lua. Dê um pouco de descanso a si e à sua tripulação.
Obrigado, chefe!
Rhodan o cumprimentou e saiu.
Queria agora ficar sozinho, pois o futuro lhe causava preocupação. Os acônidas, até então, haviam brincado — no sentido metafórico da palavra. Não haviam de fato se exposto a nenhum perigo direto. Arranjaram outros para lutar por eles. Consideravam os homens como a maior ameaça à sua existência, até agora isolada e desconhecida. Por outro lado, também não os levavam muito a sério. Eram apenas animais daninhos, que se devia afastar do caminho. Os acônidas eram por demais orgulhosos, para executarem, eles mesmos, esta tarefa. Haveriam de novo de mandar outros em seu lugar.
Mas chegaria o dia em que terranos e acônidas se encontrariam frente a frente, e então a vitória seria daquele que estivesse mais bem preparado. Haveria de vencer quem não subestimasse o adversário.
Quando o confronto surgir”, pensava Rhodan, com amargura, “não haverá mais jogo de empurra e aí é que se verá quem está de fato apto para dominar a Via Láctea: os orgulhosos e tecnicamente super desenvolvidos acônidas ou os determinados, esforçados e persistentes terranos...”







* * *
* *
*








A frota-fantasma desaparecera tão depressa quanto surgira, porque o transformador do tempo pôde ser destruído.
Porém, a terrível ameaça dos acônidas contra a Humanidade continua. E assim que chega à Terra um pedido de socorro do sistema planetário do gigantesco sol de Antares, os agentes da Divisão III se põem em marcha...
Não encontram, porém, um só acônida, e sim O Deus Falso. Este será o título do próximo número da série Perry Rhodan.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html