Rhodan
virou-se para trás, ao ouvir a fala de Gucky. Quando compreendeu o
sentido das palavras de Gucky ficou pensativo. Mas a verdade toda
veio só depois.
— Como é
que você conseguiu voltar?
— Com
aquele barco que passou agora aqui — disse Gucky, apontando para a
tela, onde a nave esférica ficava cada vez menor e logo depois não
iria se distinguir das muitas estrelas. — Trouxe-me através da
barreira de proteção, sem saber, naturalmente. Aliás, a barreira
não chegou a ser interrompida ou perfurada nem por um segundo.
Pode-se atravessá-la de dentro para fora. Da superfície do planeta
não se nota nenhuma alteração. É uma coisa esquisita que não
posso compreender.
— Vou
lhe propor — disse Rhodan — que nos relate os fatos pela ordem.
Do que você está falando? Que alteração está imaginando?
Olhando
para o relógio de bordo, Gucky continuou:
— Vou
resumir tudo, porque temos ainda quarenta e oito horas para salvar a
Terra da destruição. Dois dias, Perry, e aparecerá no sistema
solar uma poderosa frota de guerra dos arcônidas, frota que só
existiu há quinze mil anos atrás, pois os acônidas conseguiram
tirar este grupo de naves e suas tripulações do fundo das
sepulturas. Aquela que acabaram de ver na tela deve ter sido
destruída já há quinze milênios em batalha, e seu comandante deve
ter morrido também nesta época. E agora, se prepara para destruir a
Terra. Rhodan olhava aterrado.
— Não
nos martirize assim, Gucky — interrompeu bruscamente. — Conte
todos os detalhes...
Gucky
percebeu que Rhodan falava sério. Depois de reunidas na central de
comando as pessoas mais importantes da Drusus, narrou todos os
acontecimentos.
*
* *
Terminado
o relato, houve um silêncio assustador.
O doutor
Louis Renner, matemático-chefe da Drusus e grande conhecedor dos
diversos ramos da ciência, balançou a cabeça.
— Parece
tudo uma quimera, uma coisa impossível, embora eu não ponha em
dúvida nenhuma palavra de Gucky. Apenas me pergunto como é possível
que o transformador do tempo possa atuar de modo tão perfeito. Não
consigo entender o seguinte: quando uma nave deixa Árcon III,
deveria regredir ao passado e assim se tornar invisível a nós!
— Não
sei realmente como eles fazem isto — disse Gucky, defendendo suas
observações e conclusões daí derivadas. — Sei apenas que isto
lhes é possível. Quem sabe o campo de ação do transformador
temporal é ilimitado, após se ter concretizado a transformação?
Mas será que não é melhor pensarmos em agir ao invés de
discutirmos as teorias de um fenômeno inatingível pelo raciocínio
lógico, apressado?
— Você
acha que podemos interceptar e deter a frota, com o auxílio de
Atlan? — perguntou Rhodan.
— Sem o
cérebro positrônico? Nunca! Gucky falou e balançou a cabeça,
ficando incrivelmente sério.
— Trata-se
de cerca de trinta mil unidades. Como é que se pode detê-las?
— Enquanto
o cérebro robotizado está fora de operação... — começou
Rhodan, hesitante. — Enquanto ele não está operando, não podemos
contar com nenhum auxílio de Árcon. Atlan tem primeiro que resolver
seus problemas, para depois pensar em nós. Agora, vamos ser
sinceros: não podemos fazer nada contra uma frota deste porte. Não
temos nada para opor a um rolo compressor destas proporções.
Houve uma
rápida pausa, interrompida pela pergunta feita a Gucky:
— Você
não disse que eles iriam nos forçar a uma capitulação?
— Exato,
subjugar a Terra ou destruí-la.
— Ótimo,
isto nos dá mais um prazo — e dirigindo-se a Deringhouse, Rhodan
continuou: — Mande fazer uma ligação por hiper-rádio para a
Terra, para o Marechal Freyt e Reginald Bell. Imediatamente e com
urgência.
O General
Deringhouse foi ao posto de rádio.
— Temos
que tomar todas as providências para proteger o sistema solar —
prosseguiu Rhodan. — Ficamos aqui com a Drusus, a fim de controlar
a partida da frota-fantasma. Talvez achemos até lá um meio de
desligar ou neutralizar o transformador do tempo...
— E
como? — atalhou Gucky. — Eu o vi, Perry. A nave dos acônidas
está a quase dois quilômetros abaixo da superfície. É impossível
atingi-la daqui com qualquer um de nossos aparelhos. Pelo menos
enquanto o plano temporal continuar envolvendo todo o planeta, não
deixando passar nada. Eu mesmo tive muito trabalho para atravessá-lo.
E isto com o auxílio do transmissor fictício.
— Haveremos
de achar um meio — disse Rhodan resoluto. — Teremos que achar um
meio, pois, do contrário...
Deixou a
frase em suspenso, mas cada um sabia muito bem concluí-la. A
frota-fantasma ameaçava o presente. Era real e não uma visão. O
único meio de torná-la inofensiva e fazê-la regredir ao passado
era destruir ou fazer parar o transformador do tempo.
Veio mais
depressa do que se esperava a ligação com Terrânia. Rhodan
explicou a situação a Freyt e a Bell, dando algumas instruções.
Aventou a possibilidade de, neste meio tempo, poder resolver o
problema em sua origem, sem que houvesse assim um ataque direto à
Terra. De qualquer modo, não deviam se arriscar. Assim que as
estações de patrulhamento, circulando em torno do sistema solar,
percebessem as primeiras transições, toda a população da Terra
devia se dirigir aos abrigos atômicos. Estas medidas de segurança
deviam prevalecer também para Marte, Vênus e Lua. Nenhuma
resistência! Política de contemporização.
A conversa
durou quase meia hora. Rhodan interrompeu a ligação, ciente de não
ter feito ainda tudo para evitar uma catástrofe. Sentia a
insuficiência de seu próprio poder e tinha a consciência da
gravidade da situação. Mesmo seus amigos não o podiam mais ajudar
num conjunto de circunstâncias que escapava aos seus domínios.
Resignação
era um remédio que Rhodan não costumava usar. Será que o esforço
de tantos anos de trabalho seria inútil? Tinham os arcônidas,
falecidos há milênios, o direito de irromper no presente para
destruir o futuro? E o presente estaria desarmado e despreparado para
enfrentar um passado já superado?
Gucky
achava-se cochilando no sofá. Devia estar mesmo esgotado. Seria uma
falta de responsabilidade mandá-lo de novo para Árcon III. Rhodan
quebrava a cabeça procurando uma solução, vendo o olhar perplexo
dos seus auxiliares. Ao voltar para a central de comando, notou que
todos esperavam por um pronunciamento, uma palavra de consolo, que
lhes reavivasse a esperança de escapar da catástrofe. Seria mais
feliz se achasse alguma coisa boa para dizer a todos que tinham os
olhos ou os ouvidos à espera de...
— Quem
sabe — disse John Marshall, interrompendo o silêncio — teremos
uma resposta se consultarmos o passado? Não é possível que este
tal Imperador Metzat tenha realmente vivido, sem fazer o que ele hoje
se propõe.
Rhodan
sentou-se.
— Receio,
Marshall, que você não conheça as muitas variantes do paradoxo do
tempo. Se os acônidas conseguiram desenvolver uma espécie de viagem
no tempo, então estarão em condições de influenciar o presente
por meio de alterações no passado. Não se trata propriamente de
uma viagem temporal, no estrito sentido da palavra, mas de algo bem
diferente. O transformador cria um campo, em cujo âmbito o tempo é
recuado. O presente desaparece, deixando simplesmente de existir e o
passado começa a viver e se torna estável, mesmo depois de ter
deixado o campo. E aí está o espantoso e, para mim, também o
incrível neste fenômeno. Só nos cabe fazer uma pergunta: se o
transformador do tempo for desligado ou destruído, continuará
atuante? E aqui, penso eu, temos um ponto de partida. Se o
transformador for desligado, os espíritos do passado, que
transitoriamente se encarnaram, terão de desaparecer, como se nunca
tivessem existido.
— O
senhor não pode provar isto — disse Marshall desanimado. — E
mesmo que pudesse, não nos adiantaria nada.
— Adiantaria
muito — replicou Rhodan. — Mas você tem razão, não posso mesmo
provar. Porém sabemos muito bem de uma coisa: os acônidas estão
mais evoluídos do que nós e os arcônidas. Possuem o domínio
absoluto do tempo, e nada temos para enfrentá-los neste campo, pelo
menos até o presente.
— Não
poderíamos falar com o Imperador Metzat e procurar convencê-lo? —
disse Deringhouse, intervindo na conversa, depois de acompanhar com
atenção o diálogo. — Teria que compreender a falta de lógica de
seu procedimento.
Pela
primeira vez desenhou-se um leve sorriso nos lábios de Rhodan.
— Deringhouse,
você não parece entender bem a situação — disse Rhodan com
muita paciência. — Metzat nem sabe que está vivendo pela segunda
vez. Para ele, o que agora acontece é o verdadeiro presente, é a
vida real dele. Vai nos chamar de doidos, se tentarmos explicar-lhe
que já se passaram quinze mil anos. E mesmo se conseguíssemos lhe
expor a possibilidade da ligação paralela de dois planos temporais,
haveria de dizer que o plano dele é o certo. Nós também agiríamos
assim, se alguém chegasse e nos dissesse que vivemos num falso
presente. Não, Deringhouse, infelizmente não é esta a solução.
— Qual é
então a solução para o senhor?
Rhodan
olhou para a tela panorâmica. Árcon III parecia um planeta envolto
num manto de neblina impenetrável. A solução estava sob esta
camada leitosa. Mas, como se podia penetrar nela? E de que maneira se
iria desligar o transformador do tempo?
Abriu-se a
porta da cabina de radiotelegrafia.
— Senhor,
Atlan está chamando.
— Estou
curioso... — disse, se levantando para sair. — O que o nosso
amigo vai dizer, quando souber que tem concorrente ao trono imperial?
Viram que
Rhodan estava um pouco abatido. Andava devagar, revelando uma
tremenda preocupação.
Gucky não
acordou, estava com sono pesado; John Marshall o pegou nos braços e
o levou para sua cabina.
E o tempo
passava.
5
A primeira
transição, que ocorreu sem ser avisada, veio das proximidades de
Plutão. Um cruzador de patrulhamento registrou a rematerialização
de uma nave estranha. Já que não houve outras instruções, o
Marechal Freyt manteve o alarma geral. Supôs com muito acerto que se
tratava apenas de um aparelho de reconhecimento. Por prudência,
porém, ordenou que alguns caças espaciais o seguissem
discretamente.
Em Marte,
tomaram-se todas as providências para se evitar vítimas. Os
gigantescos abrigos atômicos estavam muito abaixo da superfície e
resistiriam a qualquer ataque, mesmo que a superfície fosse
devastada. Mas Freyt não acreditava que chegasse a tanto. Os
fantasmas dos arcônidas vinham a fim de subjugar e não de destruir
propriamente. Tinha-se que procurar retardar sua entrada em ação,
para dar tempo a Rhodan e seus homens, e também a Atlan, de
enfrentarem os acônidas.
O pequeno
aparelho de reconhecimento foi de planeta em planeta. Quando havia
possibilidade de ser percebido, voava cautelosamente. Cinco horas
depois, entrou outra vez em transição. Haveria de comunicar a seu
imperador que a notícia dada pelos colonizadores estava certa.
Porém, a nova raça por eles descoberta era de índole pacífica e
haveria de aceitar ordeiramente as ordens de um povo muito mais
evoluído, como eram os arcônidas.
Uma
mensagem por hiper-rádio foi enviada para a Drusus. Depois, começou
o longo tempo de espera...
*
* *
No dia
seguinte chegou um radiograma de Rhodan. Seu conteúdo era uma ordem
lacônica de se conseguir imediatamente uma informação no grande
computador de Vênus. Tratava-se principalmente de dados históricos
referentes a quinze mil anos atrás. Neste gigantesco cérebro de
Vênus estava registrada toda a história de Árcon. Podia-se
consultá-la a qualquer momento.
Bell se
encarregou pessoalmente deste serviço, aproveitando a ocasião para
dar uma saída até Vênus, pois a longa espera estava lhe corroendo
os nervos, deixando-o quase maluco.
O número
de viagens entre os planetas foi reduzido, devido aos motivos de
segurança. Reinava uma tranqüilidade pouco espontânea entre os
mundos habitados do sistema solar. Todos estavam esperando o inimigo:
a frota-fantasma dos arcônidas!
Bell tinha
uma leve idéia por que Rhodan queria investigar a história dos
velhos arcônidas. Não podia haver paradoxo no tempo, portanto, o
iminente ataque à Terra somente poderia se concretizar, caso
realmente tivesse acontecido no passado, há quinze milênios. Ou
seria cabível que Metzat pudesse realizar naquela época obra tão
importante sem deixar rastros? Mas a Terra daquele tempo seria a
mesma Terra de hoje? Ou seria bem diferente?
Bell deu
de ombros e desistiu de pensar no assunto.
A nave
terrana desceu, e ele se dirigiu diretamente para o computador,
situado na montanha. Sua identidade lhe deu livre acesso. Sentou-se
na central de ligações e lançou suas perguntas no pré-computador.
Teve que
esperar uma hora para obter os dados. Nem se deu ao trabalho de
estudá-los, mas voltou logo à nave, chegando minutos depois à
Terra. Em Terrânia mandou fazer a ligação com Rhodan, para lhe
transmitir os resultados.
Eram
simultaneamente decepcionantes e... confortadores, devido a um
pequeno detalhe!
*
* *
Rhodan
achou o pequeno detalhe bastante confortador, embora este lhe
acarretasse mais alguns enigmas que não podia resolver na hora.
Estava diante de uma situação tão excêntrica e grotesca, que
quanto mais pensava, mais confuso ficava, chegando mesmo a descrer de
sua sanidade mental.
Rhodan
estava sentado à cabeceira da mesa, percorrendo as muitas folhas do
manuscrito que o teletipo do hiper-rádio lhe transmitira. Era o
relatório de Bell.
Rhodan
sentia necessidade da opinião de seus comandados e, para isto,
convocou uma reunião, na qual todos os oficiais da Drusus tomariam
parte. Gucky, que acordara, havia comido quase a metade de sua ração;
estava agora no colo de Betty Toufry, que carinhosamente lhe coçava
o pelo. Sabia o que Rhodan ia anunciar, mas quebrava a cabeça sobre
como iria acontecer o que estava para ocorrer.
— Eu os
convoquei, meus senhores, com o intuito de tranqüilizá-los: a Terra
não será atacada nem destruída. Podemos deduzir isto, através da
história do Imperador Metzat III, que não poderia ter vivido duas
vezes, o que seria uma insensatez! Vou tentar fazer um resumo de sua
vida e de suas obras.
“Foi um
dos arcônidas atuantes e de muita perseverança que construíram o
grande império. Metzat III fez a façanha de subjugar ao poder de
Árcon, nada menos de nove sistemas solares e destruiu dois deles. A
Terra jamais esteve envolvida nestas conquistas. O império cresceu
muito sob seu governo, mas não houve propriamente acontecimentos de
maior relevo. Não quero enfastiá-los com pormenores, que realmente
não passam de rotina. A história do Imperador Metzat não difere da
de outros imperadores. Com exceção de um ponto.”
Olhou para
os homens. Viu a curiosidade e a tensão nos seus olhos. Certamente
teriam de início uma grande decepção e não iriam compreender logo
de pronto o significado do evento. E mesmo que o compreendessem,
ficariam surpresos e depois começariam a pensar, como ele.
— Durante
o governo do Imperador Metzat III, Árcon foi atacado por uma raça
estranha. Não com uma grande batalha ou com milhares de belonaves,
mas por uma só nave, que avançou até o planeta da guerra, voando
duas vezes em torno dele. Quando desapareceu, deixou atrás de si uma
enorme cratera de duzentos metros de profundidade. No mesmo dia, a
frota de Metzat voltou de uma operação, com a seguinte observação:
nenhum acontecimento digno de menção.
Rhodan
fitou o auditório:
— Isto,
meus senhores, seria tudo. Metzat reinou mais cinqüenta anos, quando
então morreu.
Viu a
decepção estampada no rosto dos oficiais e dos elementos do
Exército de Mutantes. No meio daquele ambiente um tanto fúnebre,
havia um sorriso tranqüilo. Era o de Gucky, no colo de Betty. Seu
dente roedor, que nos últimos tempos quase não se via, brilhava na
penumbra da sala. O grande telepata John Marshall, que lia os
pensamentos de Rhodan, compreendeu também o nexo das coisas, embora
não as pudesse ainda explicar.
— O
transformador do tempo está a dois mil metros de profundidade —
continuou Rhodan. — A cratera de que fala o relatório também o
está. E ela surgiu no mesmo local onde foi construído, mais tarde,
o cérebro positrônico. E com isso, naturalmente, também no mesmo
lugar onde está hoje o transformador do tempo. Estão percebendo
alguma relação entre estes detalhes? Vamos destruir o transformador
do tempo na hora oportuna. A única questão é a seguinte: Como
vamos conseguir isto? E uma outra, mais abstrata, surge concomitante:
Se não conseguirmos destruí-lo, o que acontecerá?
Todos
olhavam fascinados para ele. A princípio estavam mais calmos porque
havia uma quase certeza de que o transformador já estava destruído.
Mas ao finalizar, Rhodan lançou um novo problema para o qual não
havia solução.
— Mas
senhor, isto é impossível — disse Deringhouse, conhecido por sua
sobriedade. — Não podemos alterar o passado. A história de Metzat
III é um fato indiscutível e reconhecido. Houve mesmo o ataque
outrora e...
Rhodan
concordou sorrindo.
— Sim,
outrora! E o que acontecerá com o hoje e o amanhã? Você parece se
esquecer de que, quando rompermos o envoltório energético ou o
plano temporal dos acônidas, seremos atirados para trás por quinze
mil anos também. Seremos aqueles estrangeiros que, nos tempos de
Metzat, atacaram Árcon. A cratera é um fato histórico de que não
se pode duvidar. Sua existência está confirmada pelo computador de
Vênus e todos os dados foram ali armazenados há mais de dez mil
anos. Portanto, com referência a este problema tão real: mais do
que nunca, temos de aniquilar o transformador do tempo dos acônidas,
para não nos criar situações paradoxais. Confesso, porém, que
ainda não sei como...
Gucky deu
sinal de si:
— Talvez
possa saltar de novo?
— Você
não vai saltar, não! De maneira alguma — disse Rhodan. — Quem
lhe garante que você terá a mesma sorte que antes? Além disso, a
história diz que uma nave penetrou no envoltório e circunvoou duas
vezes Árcon III. Será que você é uma nave?
Gucky não
respondeu nada. Encolheu-se de novo, não demonstrando maior
interesse na discussão.
John
Marshall levantou a mão para falar alguma coisa, mas foi
interrompido. Por todos os cantos da gigantesca nave soou o alarma.
Rhodan saltou de sua poltrona e, acompanhado de Deringhouse e de
outros oficiais, deixou a sala. Na central de comando, viram Nordman
diante da grande tela. Não se virou para trás, quando falou:
— As
primeiras unidades da frota arcônida estão partindo e disparam a
toda velocidade para o espaço. O robô de rastreamento já contou
até o momento cinco mil unidades, das quais as primeiras já
entraram em transição. Tudo se passa rapidamente.
— Deve
ter antecipado a partida — disse Rhodan, descontraído. — Terá
alguma importância isto?
Olhou para
a grande tela, onde sempre novas levas de espaçonaves emergiam do
véu leitoso do campo do tempo, penetrando no espaço, sem darem
atenção à Drusus. Seus transmissores estavam mudos e deviam supor
que tudo estava em ordem em Árcon I e II. Ninguém podia imaginar
que, neste meio tempo, quinze mil anos se passaram. Naquele tempo não
existiria um envoltório de proteção e, por isso, passavam ali sem
dificuldades, pois, para eles, a muralha energética simplesmente não
funcionava. O cérebro positrônico também não existia. Era tudo
tão simples e... ao mesmo tempo, tão horrivelmente complicado!
— Manter
a Drusus em estado de prontidão para se defender, major! Se alguma
das naves-fantasma tentar agredir, temos que destruí-la. Acho,
porém, que isto não vai acontecer, do contrário já o saberíamos.
Querendo chamar-me, estou na cabina de rádio.
Mandou
fazer a ligação com Árcon I e travou uma longa conversa com Atlan,
a quem instruiu sobre os últimos acontecimentos. Apesar de o
imperador arcônida estar assoberbado de preocupações com seus
próprios problemas, prometeu vir o mais depressa possível. Rhodan
lhe explicou com toda clareza as possíveis conseqüências de um
paradoxo do tempo. Se isto acontecesse, a existência de Atlan
estaria em jogo.
Quem sabe
se nunca haveria um Atlan, porque ele jamais teria nascido?!
*
* *
Antes que
Atlan chegasse à Drusus, já haviam partido ao todo vinte mil
espaçonaves. Seus traços fisionômicos, de ordinário tão serenos,
refletiam tensão e nervosismo. Via-se o medo ancorado no fundo de
seu coração e o temor quanto ao futuro.
Que
aconteceu? Que estaria ainda para acontecer?
Enquanto
Rhodan cumprimentava o amigo e o acompanhava para a cabina reservada,
as primeiras naves de Metzat chegavam ao sistema solar.
*
* *
Estavam
sendo esperados.
A frota
atacante isolou hermeticamente todo o sistema solar do resto do
Universo e foi avançando lentamente. Seu esforço foi inútil, pois
nenhuma nave terrana tentou deixar o sistema. É verdade que foi
mantido o trânsito normal entre os planetas, mas nenhum dos
comandantes se preocupou com a numerosa frota. Estavam agindo como se
isto fosse coisa de rotina; a visita diária de frotas estrangeiras,
que vinham conhecer o sistema solar e, principalmente a Terra.
O Marechal
Gagolk, representante do imperador, avançou com sua nave capitania e
circunvoou o terceiro planeta, identificado como pátria dos
humanóides. Durante três horas tentou em vão entrar em contato com
as inteligências que percorriam o espaço. Mas todos fizeram como se
não o vissem nem ouvissem, ignorando sua presença. Mesmo quando ele
aterrissou, ninguém se preocupou com isso. Parecia que ninguém o
havia notado, como se fosse invisível.
Por alguns
minutos ficou tão perplexo que não sabia o que fazer. A ordem era
subjugar os humanóides e destruí-los sem piedade, se tentassem
reagir. Mas... não havia nem sombra de reação. Por outro lado, as
naves de patrulhamento no espaço e as frotas estacionadas nos
imensos espaçoportos indicavam nitidamente que os terranos estavam
em condições de uma reação fulminante. Por que não tomavam
nenhuma iniciativa?
Gagolk
começou a ficar nervoso. Correria um grande risco, caso desse ordem
à sua frota para aterrissar. Também não poderia mandar abrir fogo.
Isso infringiria as leis básicas do Universo. E ele sozinho não
poderia sair da espaçonave para iniciar contato com os homens que o
ignoravam.
Seu
adversário invisível era Bell, que, por sua vez, não se sentia
muito bem com aquela visita-monstro. Tinha de se basear na suposição
de que Gagolk agiria estritamente dentro das instruções emanadas do
imperador e não iniciaria nenhuma hostilidade. No fundo, tudo era
questão de ganhar tempo. Ganhar tempo até que Rhodan descobrisse
uma tábua de salvação.
E se isso
não acontecesse? O que seria então?
Esta era a
pergunta que Bell sempre fazia a si mesmo, sem achar uma resposta
cabível. Estava sentado em Terrânia, protegido por uma cúpula
energética que o resguardaria do primeiro ataque. Toda a população
da Terra fora bem instruída. Iam normalmente para suas ocupações,
mas todos estavam preparados para uma emergência. Ao primeiro sinal
de um ataque inimigo, em menos de dez minutos todos desapareceriam
nos abrigos subterrâneos.
Em caso de
extrema necessidade, Bell teria que entabular negociações com os
arcônidas, para ganhar horas preciosas, talvez mesmo dias.
Trinta mil
espaçonaves circunvoavam o sistema solar, isolando-o do resto do
Universo. Aproximavam-se cada vez mais da Terra, prendendo-a num
cinturão de aço. As naves-patrulha do Império Solar continuavam
indiferentes.
A tensão
aumentava.
A qualquer
momento a super gigantesca concentração de força podia, até por
um engano, explodir...
*
* *
Atlan
olhava pensativo para Rhodan.
— Em
geral os problemas mais complicados do mundo acabam sendo
solucionados com os meios mais simples. Por que será que não há
solução simples para este caso? Não há outra coisa a fazer, senão
pôr fora de funcionamento o transformador do tempo, e paralisar uma
frota de trinta mil naves ou fazê-la desaparecer. Quando anularam a
existência do cérebro positrônico, os acônidas fizeram a mesma
coisa. Ele deixou de existir e suas conseqüências também cessaram.
Anulemos também o transformador do tempo e suas terríveis
conseqüências desaparecerão.
— Sei de
tudo isto — disse Rhodan desanimado. — Mas o problema é: Como
podemos romper a grande barreira? Gucky já o conseguiu fazer uma
vez, mas não tenho coragem de mandá-lo de novo. Ficou tão esgotado
que, nas primeiras seis horas, não pôde fazer nada. Dois outros
teleportadores não o conseguiram. Não, tem que haver uma outra
possibilidade melhor. Uma espaçonave! Na história de Árcon foi uma
espaçonave que lançou uma bomba sobre Árcon III.
— Portanto,
tem que ser também uma espaçonave — acudiu Atlan, mudando de
repente de fisionomia e olhando firme para Rhodan, para ver se este
estava ouvindo. — Uma espaçonave! Diga-me uma coisa, Perry, você
tem mesmo uma memória tão fraca? Ou está fazendo de conta que
esqueceu tudo?
Rhodan
ficou realmente admirado com a pergunta do amigo.
— Não o
estou entendendo.
Atlan
começou a sorrir.
— Você
descobriu os acônidas no Sistema Azul, ou não descobriu? Este
Sistema Azul não está também envolto numa camada protetora? Esta
camada não possui características singulares? Não haveria a
possibilidade de total identidade entre o envoltório de proteção
de Árcon III e o do Sistema Azul?
Rhodan
meneou a cabeça, lentamente.
— Seria
possível, mas eu não creio que o Sistema Azul inclua por si só um
plano temporal. Com que finalidade? Não, suponho que, em torno de
Árcon III, haja dois campos. Um campo energético de proteção, do
tipo daquele que envolve o Sistema Azul, e o campo do tempo, que é o
único transparente e que pode ser penetrado. O nosso problema é,
pois, o envoltório energético. Este é que temos de romper.
— E
exatamente isto é que você já fez uma vez!
Rhodan
olhou perplexo para Atlan.
— É
claro, já havia feito isto uma vez. Mas, não foi um mero acaso? O
choque de encontro ao sol, seu núcleo em estado gasoso, a polaridade
do Sistema Azul... A propulsão linear...!
Era nisto
que estava pensando Atlan. De repente, compreendeu ao que se referia
seu amigo e se julgou um idiota por não ter pensado nisto antes.
A
propulsão linear! Foi por meio dela que conseguiram ultrapassar a
barreira do Sistema Azul, naquela vez. Teve que neutralizar o
envoltório para poder atravessá-lo.
No mesmo
instante houve outro estalo na cabeça de Rhodan! Compreendeu a razão
pela qual os acônidas viam nos homens seus inimigos em potencial: Os
terranos conseguiram penetrar no seu sistema tão cuidadosamente
isolado. Ninguém antes havia feito isto! Uma dedução clara, fria e
lógica.
— Acho
que aí está a solução — disse Rhodan. — Uma nave com
propulsão linear pode penetrar e aterrissar em Árcon III, ou, ao
menos, romper sua barreira para atirar suas bombas.
Atlan
concordou.
— Temos
que nos manter dentro do quadro dos acontecimentos históricos —
ponderou o arcônida. — Atirou-se apenas uma bomba que abriu uma
cratera de dois mil metros de profundidade, sem provocar reação em
cadeia. Portanto, nada de bomba arcônida. Uma bomba atômica comum.
E antes de lançá-la, a nave deve dar duas voltas em torno do
planeta.
— Por
que isto?
— Também
não sei, mas você vai ver que o comandante da nave vai executar sua
missão exatamente desta maneira. Quem será este comandante?
Rhodan
respirou aliviado, sabendo que não estava planejando algo
impossível. Sobre o modo como agir, já pensara bastante, o
necessário agora era agir o mais rápido possível.
— Venha
comigo — disse ele a Atlan. — Quero conversar um pouco com a
Terra.
A ligação
foi quase instantânea e Bell recebeu instruções bem claras.
Começara
a “Operação
História Contemporânea”.
*
* *
A
princípio, nem o Major Heinrich Bellefjord nem seu primeiro-oficial,
Capitão Raldini, sabiam nada a respeito do novo artefato. Teriam de
fato muito trabalho para se familiarizarem sozinhos com o
funcionamento da propulsão linear. Mas, graças à reciclagem
arcônida, feita à base de hipnose, aprenderam num só dia a dominar
totalmente sua nova espaçonave: o cruzador pesado Ralph Torsten.
A
imponente esfera de duzentos metros de diâmetro estava pousada, com
seus apoios telescópicos, no solo rochoso da Lua. Esperava por sua
primeira missão. O novo tipo de propulsão fora instalado há pouco
e duramente experimentado por técnicos especializados. Ninguém
sabia para onde seria o primeiro vôo.
Entrementes,
deu-se a chegada dos arcônidas e o comandante da base lunar
determinou estado de prontidão geral. Todas as tripulações que
estavam na Lua tinham que se recolher a bordo de suas naves. O mesmo
aconteceu com Bellefjord e sua gente. Mas nenhum deles pensaria em
decolar nesta situação. Tanto maior foi a surpresa, quando o
comandante da base chegou com seu jipe e se dirigiu diretamente para
Bellefjord no posto de comando.
— Major,
o senhor está preparado para partir?
— Sim,
mas eu penso que...
— Nova
ordem de Terrânia. Rhodan pede o apoio de uma nave linear. Sinto
muito, mas no momento o senhor é o único que tem uma tripulação
treinada para o novo tipo de propulsão. Todas as outras naves de
propulsão linear se encontram em torno do sistema solar e, no
momento, não podem ser deslocadas. Aqui estão as ordens: Daqui a
trinta minutos o senhor decola, e toma a rota direta para Árcon.
Apresente-se diretamente a Rhodan, que o está esperando. Lá, o
senhor terá mais informações. Alguma pergunta?
Bellefjord
estava meio sem jeito.
— E a
frota que está sitiando o sistema solar?
— As
naves dos arcônidas não conhecem a tração linear, ainda usam a
transição. Está, pois, excluído o perigo de uma perseguição.
Logo depois da decolagem, o senhor atinge a maior aceleração e
ultrapassa, a seguir, a velocidade da luz. Torna-se, portanto,
invisível e ninguém o conseguirá localizar. Tente alcançar Árcon
em poucas horas. Está tudo claro?
— Tudo
claro, pelo menos no meu entender.
O
comandante lhe apertou a mão, desejando-lhe boa viagem. Voltou ao
jipe e foi-se.
Trinta
minutos depois, o cruzador Ralph Torsten decolou e disparou no espaço
com uma aceleração nunca vista. Rompeu o cerco das naves arcônidas
e desapareceu entre as milhares de estrelas.
*
* *
— O que
diz Bell? — perguntou Atlan, duas horas após sua conversa decisiva
com Rhodan.
Estavam de
novo no posto de comando da Drusus e acabavam de receber radiogramas
cifrados de Bell. Rhodan apanhou a folha de papel com o texto já
decifrado e leu em voz alta:
— Ainda
nenhum contato com os arcônidas. Estamos na expectativa. A nave do
comandante arcônida aterrissou, mas não aconteceu nada. Neste
instante, o cruzador Ralph Torsten, sob o comando do Major
Bellefjord, levantou vôo, vencendo facilmente o bloqueio arcônida.
População mantém a calma. Mas por quanto tempo ainda? Bell.
— Nada
mal — comentou John Marshall, espichando bem as sílabas. — Quero
saber quem é que vai ser o primeiro a perder a calma.
Rhodan
pareceu não ouvir a observação de Marshall. Olhou para Atlan:
— Quando
Bellefjord chegar, irei logo para o cruzador pesado. Eu mesmo vou
dirigi-lo — fez uma pausa. — Veio-me agora um pensamento. Acabei
de ler de novo o relatório do grande computador de Vênus, que
recebemos há algumas horas. Exatamente na descrição da cratera de
dois quilômetros de profundidade, reparei numa coisa. Sua
conformação nos faz pensar em cratera de origem vulcânica:
escarpas íngremes, centro reduzido, fora de outras características.
Esta cratera não foi provocada por uma bomba, lançada de cima.
Atento,
Atlan ouvia Rhodan. As demais pessoas presentes no posto de comando
não podiam dizer nada sobre a observação de Rhodan. E ele
continuou:
— Isto
me leva a supor que os estranhos, isto há quinze mil anos atrás,
colocaram a bomba lá no fundo, isto é, ao lado ou mesmo dentro do
transformador do tempo. Com outras palavras: vou ter que levar Gucky
comigo. Ele conhece muito bem o lugar onde está a nave acônida.
— Ele já
está a par de seus planos?
Rhodan
sorriu.
— Neste
momento já sabe de tudo, se não me engano, não vai demorar a
aparecer.
Rhodan não
se enganou. Gucky se materializou ao seu lado e disse, censurando:
— Devo
confessar que você tentou esconder seu pensamento. Se eu não
tivesse, por mero acaso, acompanhado a conversa...
— Por
mero acaso, hein? — disse Rhodan, dando umas palmadinhas nas costas
de Gucky. — Mas então, você vai conosco? Não tem nada contra? E
uma missão perigosa. Não vai ser muito fácil deixar o cruzador
Torsten parado no mesmo lugar, enquanto você coloca a bomba e liga o
detonador. Terá, então, que pular de volta para o cruzador.
Gucky
sorriu e, desta vez, por mais tempo.
— E
assim estaria resolvido o último enigma — chilreou ele, feliz e
triunfante. — Agora sabemos também por que a nave tem que
circunvoar duas vezes Árcon III, antes de ir embora. Tem de ficar
girando, pois, do contrário, haverão de alvejá-la. É simples, não
é?
— Tudo
que a gente sabe é muito simples — respondeu Rhodan. — Desta
maneira, a própria História já determinou o plano. Esperamos que
não haja mais alterações. Mas como seria, se tudo já tivesse
acontecido?
— Eu não
teria tanta certeza assim — interveio Renner. — Que sabemos nós
a respeito do tempo? Do seu decurso e da influência que temos sobre
ele? Um único erro, sir, e nós todos deixamos de existir. Aposto
qualquer coisa como isto que digo é certo.
— Devo
acreditar em você. Não quero nem apostar — disse Rhodan, com toda
seriedade.
— É
isso mesmo, acho eu — continuou Renner, que era um grande
matemático e se preocupava muito com tal tipo de estudo. — Existem
muitos planos de tempo. Nós conhecemos, naturalmente, só aquele em
que vivemos. As fronteiras dos diversos planos são bem distintas,
sendo impossível um equívoco, ou quase impossível. Com exceção
das viagens no tempo, que até agora só eram possíveis
teoricamente, poder-se-ia considerar como transgressão das
fronteiras do tempo o sonho e também um certo tipo da loucura. No
entanto, todas estas coisas só se realizam inconscientemente. Já
que são de natureza apenas espiritual, não têm nenhuma influência
no desenrolar do nosso plano ou no dos outros.
“Porém,
a viagem no tempo, que leva ao passado, é corpórea, é material.
Esta tem influência. Pode fazer com que um dos planos deixe de
existir. Os respectivos seres vivos não o notariam, pois realmente
nunca nasceram. Por certo os acônidas já chegaram ao pensamento de
fazer desaparecer nosso plano de existência. Mas esta tentativa deve
ter sido muito arriscada para eles. Por isto, apenas esta
experiência, que não provoca nenhuma alteração no passado, mas
que só influencia de leve o presente, foi considerada não
perigosa.”
Rhodan
ouvira tudo com atenção. Mas ninguém podia notar se concordava
totalmente com a opinião do matemático. Perguntou então:
— O que
nós planejamos é também uma alteração do passado? Qual é sua
opinião?
— É uma
alteração meramente aparente, sir, pois só realizamos uma coisa
que já aconteceu. Se o relatório do computador estivesse completo,
haveria de dizer que, há quinze mil anos, viajantes do tempo
atacaram Árcon, e não simples estrangeiros. Está compreendendo,
senhor, que nós não criamos nenhum paradoxo. Só o criaríamos se
deixássemos de destruir o transformador do tempo.
— Relacionado
com isto, surge uma outra questão, que o senhor talvez não possa
resolver — disse Rhodan, com um sorriso nos lábios. — O
transformador do tempo mergulhou Árcon no passado, certo, não é?
Metzat, que reinou há quinze milênios atrás, é novamente
imperador. Seus contemporâneos estão vivos. Minha pergunta ao
senhor é: Onde ficaram os arcônidas que vivem agora, isto é, no
nosso tempo? Não podem simplesmente ter se dissolvido no ar?
Renner
estava também sorrindo, quando respondeu imediatamente:
— O
senhor se esquece de que Árcon III existe de fato num outro plano
temporal. Se o senhor quiser encontrar os arcônidas que conheceu,
tem que esperar também quinze mil anos. Hoje, eles ainda não
existem. Somente no momento em que o senhor destruir o transformador
do tempo é que eles estarão aqui e... não terão perdido um minuto
de vida.
— Isto
está difícil demais para mim — disse Gucky, voltando para o sofá,
onde se deitou em sua posição predileta. — Quando terminarem com
este lero-lero, podem me acordar. Sou mais pela prática do que pela
teoria. Boa noite.
Encolheu-se
e fechou os olhos. Rhodan piscou o olho para Renner e disse:
— É
isso, doutor! Nem todo mundo está interessado em suas especulações,
que certamente são mais filosóficas do que científicas. Acho,
porém, que agora temos que cuidar dos preparativos, pois, após a
chegada do cruzador Torsten, não teremos mais tempo — fez um sinal
para Deringhouse. — Mande entrar Markowsky, general. Tenho que
falar com ele.
*
* *
Duas horas
depois, despertaram Gucky. Espreguiçando-se, o rato-castor deixou o
sofá e olhou para Rhodan.
— Já
está na hora?
— Quase,
meu amigo. Venha, pois quero mostrar uma coisa muito importante.
No
depósito de armas da Drusus, trancadas a sete chaves, estavam as
bombas mortíferas. Havia muitos tipos delas, mas Markowsky as deixou
de lado. Entretanto, numa gaveta especial estavam cinco caixas
retangulares, com uns vinte centímetros de comprimento por dez de
largura. Assemelhavam-se a caixas de charuto, confeccionadas em metal
reluzente. Tinham, na parte de cima, apenas um aro embutido, com
alguns números gravados.
Markowsky
apanhou com cuidado uma daquelas caixas e fechou a gaveta. Depois,
inclinou-se para frente, olhou para Gucky e disse:
— Isto é
uma bomba solar reduzida, Gucky. Terá exatamente a potência que nós
desejamos e um raio de destruição limitado. Não apresenta
radiações nocivas e sua manipulação é simplíssima. Está vendo
aqui o aro? Caso o regulemos para um minuto, isto quer dizer que você
tem exatamente um minuto para se pôr a salvo. Um prazo maior poderia
prejudicar nosso plano. Assim que você colocar a bomba no local
certo, basta apenas comprimir este aro. Entendeu?
— Claro!
— respondeu chateado e apanhou a caixa. — O aro é difícil de
ser movimentado?
E
indagando isto, experimentou um pouco. Markowsky empalideceu.
— Não
tenha medo, não tenho vocação para suicida...! — brincou o
rato-castor.
— Cuidado,
hein? Aperte uma vez só e bem firme, que ela explodirá.
Gucky
segurou o perigoso objeto sob o braço direito e foi com seu andar
rebolante pelo corredor a fora. O capitão, chefe do arsenal de
munições, olhou para Rhodan meio confuso.
— O
senhor acha que ele...?
— Não
se preocupe — tranqüilizou-o Rhodan, com um sorriso. — Gucky ama
sua vida, como o senhor e eu. Não conheço ninguém que manipule
bombas com mais cuidado do que ele.
Dez
minutos depois, veio o comunicado da central de rádio: O cruzador
Ralph Torsten se aproximava do ponto combinado.
6
A Drusus
se manteve parada, enquanto o cruzador Ralph Torsten, depois de
receber Rhodan e Gucky, tomou o rumo dos planetas externos.
— Como
foi o vôo até aqui, major? O que acha do novo tipo de propulsão? —
perguntou Rhodan.
Gucky
estava sentado numa poltrona, lamentando não haver no posto de
comando nenhum sofá. Ao lado de sua barriga peluda achava-se a caixa
com a bomba.
Bellefjord
que, até então, só vira Rhodan rapidamente uma vez, não se portou
de modo tímido.
— Maravilhoso
— disse com sincero entusiasmo. — Algo diferente e mais eficiente
que saltar através do hiperespaço. A gente pode ficar observando
como as estrelas desfilam para nós. Nunca pensei, em minha vida, que
a Cosmonáutica se tornaria tão grandiosa!
— Concordo
com o senhor, major. Minha primeira sensação foi idêntica à sua.
Tive a impressão de que alguém me libertou das vendas nos olhos —
fitou a tela. — Continue voando nesta direção por mais cinco
minutos. Depois, viramos para Árcon III, com plena aceleração.
Vamos perfurar a barreira energética e, a seguir iremos diminuindo a
velocidade até a superfície do planeta. Daremos uma volta em torno
do planeta e todo o resto fica a cargo do nosso amigo aqui —
apontou para Gucky, que mostrava visível o dente roedor. — Ele vai
se teleportar e nós o apanhamos dez minutos depois. Mande calcular a
velocidade do vôo e a altura correspondente. Temos que agir com
exatidão.
Dali a
cinco minutos, graças aos computadores, estavam prontos os dados
solicitados por Rhodan. Gucky recebeu as últimas instruções, após
o que o cruzador Ralph Torsten fez uma grande curva e disparou numa
aceleração incrível na direção de Árcon III.
Trinta
segundos depois, mergulhava naquela barreira opaca, sem encontrar
nenhum empecilho. Quase simultaneamente, começou a redução de
velocidade, com tanta potência que os campos antigravitacionais
consumiam grande parte da energia. Os continentes desfilavam rápidos
na tela.
Rhodan
contemplava a paisagem que passava cada vez mais lentamente. Gucky
estava a seu lado. Apontou para o espaçoporto, quase vazio, e para o
planalto.
— Lá
deve estar ela. Daqui a três minutos estarei aqui.
Com a
bomba bem protegida debaixo do braço, Gucky se teleportou para a
superfície do planeta.
Rhodan fez
um sinal para Bellefjord. O major voltou a acelerar. O cruzador
iniciou seu giro em torno do planeta. Dali a três minutos, Gucky
teria de estar a bordo...
Sentado
calmamente diante dos instrumentos, Bellefjord conduzia a nave com
muito sangue-frio. Sabia o que estava em jogo, embora não o
compreendesse. A seu lado continuava Rhodan. Suas mãos apertavam
nervosamente o espaldar da poltrona e seu rosto achava-se
estranhamente pálido.
Três
minutos! Como podiam ser tão longos três minutos!
*
* *
Para
Gucky, o tempo passava demasiadamente rápido.
Rematerializou-se
à beira do espaçoporto e viu quando dois pequenos jatos decolaram
em perseguição à nave estranha. Mas já era tarde demais. Algumas
baterias energéticas de controle automático apontaram seus canos
para o céu. Também tarde demais.
Gucky
consultou o relógio. Eram decorridos trinta segundos. Restavam-lhe,
portanto, ainda cento e cinqüenta, para não perder o encontro
marcado com o cruzador. Saltou mais uma vez e se materializou a menos
de cem metros da nave acônida. Se deixasse a bomba ali, já seria
suficiente. Mas não valia a pena pôr em risco uma operação tão
importante. Tinha que aproveitar o tempo.
Cento e
vinte segundos. Mentalizou o alvo, concentrou-se... e pulou.
A dor
aguda quase o deixou inconsciente. Mas, ao mesmo tempo, o arrancou de
um torpor, surgido quando do salto. Sentiu que estava rolando sobre
algo abobadado. Depois, viu-se em chão firme. Achava-se, agora, ao
lado dos dois guardas e à frente do envoltório de proteção do
transformador do tempo. Não o conseguira romper. O que aconteceria
agora?
Às costas
dos guardas, a cintilação encontrava-se interrompida. Devia ser a
entrada para a nave acônida. E se ele pulasse...?
E pulou.
Saltou na hora exata, pois um dos guardas acônidas virou-se e
percebeu o intruso. Levantou a arma e atirou, mas com um atraso de um
segundo.
A figura
estranha desaparecera, tornando-se invisível!
Os guardas
tocaram o alarma. Naquele instante, Gucky se materializava dentro da
nave acônida. Seu primeiro cuidado foi olhar o relógio.
“Quarenta
segundos!”,
pensou. “Perdi
muito tempo.”
Sem fitar
o possante gerador e as máquinas em volta, e com um sentimento quase
de pesar por ter que destruir esta maravilha da técnica, colocou a
bomba num bloco metálico e apertou com força o aro de detonação.
Mais
trinta segundos até que Rhodan viesse com o cruzador pesado e depois
mais trinta para a bomba explodir. Certamente tudo daria certo.
Uma
pequena teleportação o levou para junto da barreira energética.
Antes que os sentinelas tivessem tempo de levantar as armas, Gucky
saltou pela abertura, materializando-se a duzentos metros dali.
Mais dez
segundos!
O segundo
pulo o transportou para a superfície do planeta. As baterias estavam
prontas para entrarem em ação. Seus canhões giravam em todas as
direções. Mas do cruzador Ralph Torsten não havia ainda sinal, e
Gucky precisava vê-lo para fazer seu salto.
Agora!
Surgiu no horizonte um ponto negro, pois o sol estava atrás do
cruzador. Assim que os primeiros disparos estrugiram na atmosfera do
planeta, Gucky teleportou-se.
Quando se
materializou ao lado de Rhodan, na central de comando, ainda
conseguiu dizer:
— Daqui
a vinte segundos, o negócio vai pelos ares.
E no mesmo
instante, desmaiou. Agora é que sentia as conseqüências dos
inúmeros saltos de teleportação. Rhodan fez um sinal para
Bellefjord, que imediatamente deu ao cruzador maior aceleração.
Rhodan se curvou, pegou Gucky nos braços e o levou para sua cabina.
O cruzador
Ralph Torsten disparou para a estratosfera, atravessou o envoltório
de proteção e o plano do tempo, que ainda estavam ligados, e foi
aproximando-se da Drusus.
Passados
os vinte segundos, lá embaixo, na superfície de Árcon III, se
rasgou um abismo e irromperam milhares de toneladas de rocha
gaseificada.
No mesmo
instante, desapareceu a barreira energética e, com ela, todos os
fenômenos concomitantes.
*
* *
O Marechal
Gagolk, para achar um pretexto, começou a provocar os terranos. Um
carro blindado foi desembarcado, através do elevador
antigravitacional. No seu interior estavam sentados dois artilheiros,
atrás dos pesados canhões energéticos, prontos para disparar. O
blindado estava em contato, via rádio, com a nave capitania.
Bastaria, então, o toque de um simples botão para ser iniciado o
ataque contra a Terra.
Gagolk
tramava seus planos, enquanto o pesado tanque rolava pela pista do
espaçoporto. Contemplava abismado os arranha-céus de Terrânia.
“Como
é possível”,
refletia o arcônida, “que
esta raça tão civilizada nos tenha passado despercebida? São donos
de uma navegação espacial evoluída e de alta tecnologia, e
certamente têm relações com povos de outros mundos, do contrário
reagiriam belicamente durante a nossa chegada!”
Por mais
que pensasse no enigma, não achava solução plausível.
Alguns
pedestres ignoraram simplesmente a presença do carro blindado. Seu
procedimento era como se aquilo pertencesse ao quadro diário de
Terrânia. Mas os soldados que patrulhavam em torno do espaçoporto
não poderiam ignorá-lo, sem causar grave suspeita.
Um oficial
da guarda saiu de seu posto e levantou o braço.
Gagolk
parou a viatura e, fazendo um sinal para seus dois artilheiros, abriu
a escotilha lateral e saiu. Já com a mão na coronha da enorme arma
de raios energéticos, dirigiu-se ao terrano. Era claro que o
oficial, apesar de todas as instruções recebidas, não se sentia
muito à vontade. Seu consolo era saber que seu radiotelegrafísta já
fizera um relatório ao quartel-general. A qualquer momento podia
chegar um reforço.
— Por
que razão você quer barrar minha passagem? — perguntou Gagolk, e
o jovem oficial o entendeu bem, embora o arcônida falado pelo
intruso tivesse um sotaque carregado. — Quem governa este planeta e
suas colônias?
— Se o
senhor tiver um pouco de paciência vai falar diretamente com seu
substituto — disse o guarda.
Se pudesse
agir como queria, haveria de dar uma boa lição neste arrogante.
— Tenho
que lhe pedir para esperar aqui.
— Por
quê?
— Porque
é proibido entrar em Terrânia.
Um raio de
esperança passou pela cabeça de Gagolk. Se conseguisse provocar os
humanóides a abrir fogo primeiro, teria o pretexto que procurava
para atacar o planeta. Assim ficaria livre de todas as complicações
legais, pois, por sua livre e espontânea vontade, dificilmente esta
raça civilizada iria se submeter às ordens de Árcon.
— E quem
é que vai me impedir de entrar? — disse com arrogância.
O tenente
começou a suar frio.
— E meu
dever fazer isto, queira ou não queira.
— Você
será então imediatamente abatido e morrerá.
— Tenho
que aceitar isto e estou preparado para enfrentar qualquer risco,
desde o dia em que vesti este uniforme.
De repente
Gagolk viu que, a alguma distância, diversos alçapões se abriam no
solo do espaçoporto, surgindo canos espiralados que apontavam para
ele e para seu carro blindado. Somente isto bastaria para declarar a
guerra. Mas Gagolk queria agir com toda prudência, a fim de mais
tarde não ter que enfrentar as recriminações do Imperador Metzat
III. Não houvera ainda um só disparo contra o império.
— Você
está vendo isto aqui no meu braço esquerdo? Isto é um transmissor.
Por ele, estou em contato com os comandantes de trinta mil naves.
Cada um deles pode ouvir o que estou falando agora com você. Uma
palavra minha... e trinta mil belonaves se precipitarão contra seu
planeta-pátrio. Acho melhor o senhor medir bem suas palavras, que
podem ser decisivas para o destino de seu mundo.
O tenente
preferiu calar. Mais ao longe, sobre os edifícios baixos da
administração da alfândega, surgiu no ar um ponto escuro, que se
aproximava rapidamente. Era um flutuador, uma viatura leve à base de
colchão de ar, bastante usada nas pequenas ligações urbanas, muito
comum em Terrânia.
Gagolk o
acompanhou com o olhar preocupado.
— É o
homem de quem você falou?
— Acho
que deve ser ele, talvez acompanhado.
O
flutuador aterrissou, a porta da cabina se abriu e Bell saiu.
— Não é
nosso costume recebermos visitantes de outros mundos à beira de um
espaçoporto — disse no mais puro arcônida, sem o menor sotaque —
mas no seu caso faço uma exceção.
Só então
foi que passou pela cabeça de Gagolk que todos ali falavam o
arcônida. E este mundo pela primeira vez entrava em contato com o
Grande Império Arcônida...! Como era possível isto?
— O
senhor fala minha língua? — disse admirado, tornando-se
automaticamente mais cortês do que havia sido com o tenente. —
Isto vai simplificar minha missão. O Imperador Metzat III manda-me a
este mundo para anexá-lo ao nosso grande império. A exigência do
imperador está apoiada numa frota de guerra de trinta mil unidades,
no momento à espera...
— Pois
não! À espera de quê? — perguntou Bell.
O
substituto de Rhodan sabia que não iria conseguir muita coisa contra
a arrogância do arcônida, mas sabia também que, a esta altura,
Rhodan já partira com o cruzador Torsten, a fim de destruir o
transformador do tempo. Tinha que usar manobras de protelação por
mais uns dez, talvez vinte minutos.
— Pretende
o imperador aniquilar preciosos mundos coloniais? — sujeitou-se
Bell.
Gagolk
sorriu cepticamente.
— Os
senhores concordam?! Excelente! Aliás, este oficial me disse que o
senhor é o representante do homem que manda aqui. O senhor está
autorizado a tomar atitudes por ele? Onde é que se encontra seu
superior?
O gorducho
perdeu um pouco de sua paciência.
— O
senhor quer dialogar ou quer iniciar uma guerra? Se for este o caso,
também posso mobilizar imediatamente milhares de moderníssimas
belonaves. Não estamos tão desprotegidos como imagina.
— O
senhor se nega, pois, a reconhecer o imperador de Árcon como seu
legítimo soberano? — perguntou Gagolk, com firmeza.
As
bocas-de-fogo do carro blindado se abaixaram, apontando para a
direção do pequeno grupo. Bell viu tudo e percebeu a gravidade do
momento. Pegou no braço de Gagolk e o conduziu até a entrada dos
abrigos subterrâneos. O tenente o seguiu, empurrando Gagolk para o
interior do estreito corredor que levava aos grandes abrigos
atômicos.
Na mesma
hora as portas do inferno se escancararam sobre eles!
Mas os
serviços de proteção da artilharia do abrigo reagiram prontamente.
Estavam observando, através da tela do flutuador de Bell, todos os
movimentos do carro blindado, e agiram na hora certa. Num sol atômico
amarelado, dissolveu-se o carro blindado de Gagolk.
A
catástrofe era irreversível.
A nave
capitania dos arcônidas ergueu-se do solo e disparou para o espaço,
onde desapareceu poucos segundos após!
Nos
confins do sistema solar, as naves de Metzat III se alinhavam para o
ataque, avançavam rápidas contra os cruzadores de patrulhamento
terranos, abrindo intenso fogo. Os envoltórios de proteção não
suportaram um ataque tão cerrado e a frota terrana de patrulhamento
bateu em retirada.
A Terra
estava indefesa perante o poderio inimigo, cuja superioridade era
berrante, tolhendo na raiz qualquer possibilidade de resistir.
Os
arcônidas não se preocuparam com as naves que fugiam. Gagolk estava
morto ou pelo menos desaparecido. A tentativa de colonizar os
humanóides tinha que ser considerada como fracasso. O rolo
compressor da destruição começaria, então, a funcionar. Os
primeiros torpedos atômicos já partiam a milhares de quilômetros
por hora em direção à Terra, cuja população ainda aguardava o
alarma.
Atrás dos
torpedos vinham as naves para completar a obra da destruição.
Ainda
arrastando Gagolk, Bell caminhou até a parte central do abrigo. Um
oficial virou-se e o reconheceu.
— Você
pode fazer uma ligação para a central? Pergunte se...
Bell não
terminou a frase. Alguém gritava nervoso no alto-falante:
— Alarma!
A Terra está sendo atacada! Nossas naves conseguiram escapar da
destruição e se reúnem agora no setor de Marte para se
reorganizarem para a defesa. A frota inimiga dirige-se à Terra.
Alarma atômico!
Bell
estava branco como um defunto. Com os braços estirados e com um ódio
terrível estampado no rosto, virou-se repentinamente para Gagolk.
Sem dizer uma palavra, avançou contra o arcônida, como se pudesse
evitar a destruição iminente, enforcando ou esgoelando o comandante
do ataque.
Mas as
mãos do gorducho atingiram o vazio!
O arcônida
desaparecera. Não como um teleportador, que ao saltar deixa no ar
uma leve cintilação. Num milésimo de segundo ainda estava ali. No
outro já havia desaparecido.
Quando
suas mãos não encontraram o pescoço do arcônida, Bell quase caiu.
Deu uns passos para frente e se apoiou num armário.
Ainda
pálido, virou-se e indagou aos dois oficiais:
— O que
houve? O que foi isto? Ele não pode ter...
No
alto-falante estava a voz do Marechal Freyt:
— Senhor
Bell! Apresente-se! Onde está o senhor?
Bell fez
um sinal para o tenente que se achava no aparelho. A ligação foi
feita na mesma hora.
— Que
houve?
— Preste
atenção, Bell! A frota inimiga...
— Eu
sei. Ela está atacando. Fiz tudo que me foi possível...
— Mas...
— Consegui
pegar o comandante, mas quando queria esgoelá-lo, o desgraçado
simplesmente desapareceu. Eu...
— Se o
senhor agora não quiser ouvir, a culpa é toda sua! — exclamou
Freyt, furioso. — Preste atenção no que tenho a relatar-lhe. A
frota inimiga também desapareceu. Assim que dei o alarma, acabou
tudo. Os torpedos, atirados um pouco antes, já estavam penetrando a
atmosfera terrestre, quando sumiram de repente. No mesmo segundo
desapareceram também as trinta mil naves e... seu comandante. O
fantasma sumiu!
Sem dizer
nada, Bell ouviu e acabou sentando na cadeira mais próxima. Seu
rosto cadavérico recobrou a cor, voltando ao vermelho forte. Mas a
causa desta mudança foi o alívio e a alegria. A tão esperada ação
de Rhodan dera resultado. A frota-fantasma voltara ao passado. A
diabólica iniciativa dos acônidas — destruir a Terra, usando os
mortos — felizmente fracassara.
Bell
estava agora ciente do acontecido, mas envergonhado de não haver
compreendido no primeiro instante.
A raça
humana teria apenas poucos minutos de vida, embora só poucos
soubessem disso. É verdade que todas as providências foram tomadas,
porém seriam infrutíferas. Esquecera-se de contar com a mentalidade
dos velhos arcônidas e este esquecimento quase acarretou o
extermínio da Humanidade. Bell e Freyt julgavam a situação do seu
ponto de vista. Se Rhodan — apenas um exemplo — tivesse sido
preso no momento em que servia de mediador, ninguém partiria para o
ataque, mas entrar-se-ia em conversação para libertá-lo.
— Graças
a Deus! — respirava aliviado o gorducho, olhando para o local onde
estivera Gagolk. — Graças a Deus que Rhodan conseguiu destruir o
transformador do tempo.
— Na
hora H — concordou o Marechal Freyt, e sua voz soava despreocupada.
— Mas nossas naves não fizeram boa figura, pois fugiram todas. E
eu não as censuro.
— Não
falemos mais nisso — propôs Bell. — Não sei o que teria feito.
Talvez fugisse também, como se o diabo corresse atrás de mim.
— E
ninguém iria censurar o comandante por causa disso —
tranqüilizou-o Freyt. — Além do mais, o ataque foi de surpresa.
Mas... não acha bom avisarmos Rhodan?
— Espere-me
um pouco, chego neste instante aí.
— Conheço
sua vaidade de ser o primeiro a comunicar as novidades — disse
Freyt, sorrindo.
*
* *
Assim que
o cogumelo atômico se dissipou no espaço, podia-se ver de bordo da
Drusus a superfície do planeta. A cúpula brilhante do gigantesco
cérebro positrônico cintilava à luz do sol de Árcon.
“Dissipar”
não era o verbo correto para o estranho fenômeno que se originou
após a detonação. O estudioso Deringhouse teve oportunidade de
observar o singular evento, em todos os seus detalhes.
O cruzador
Ralph Torsten se aproximou do espaçoporto para acolher Gucky. Assim
que este chegou, o cruzador se afastou com uma aceleração
surpreendente, sempre perseguido pelos disparos energéticos das
baterias automáticas. Então o solo se abriu, surgiu uma gigantesca
bola de fogo que desapareceu no mesmo instante. Só uma pequena
parcela do que surgiu do chão do planeta, pulverizado ou
gaseificado, conseguiu atravessar o envoltório de proteção,
escapando assim do regresso ao passado. Assim que o transformador
deixou de existir, o cogumelo desapareceu. A superfície de Árcon
III voltou a ser o que era antes. O cérebro positrônico reapareceu
em toda sua magnitude. O presente voltou a vigorar.
A barreira
representava a única coisa que não provinha do passado. Era do
presente e continuava ali. Depois, dissipou-se e sumiu. Mas, abaixo
dela, se passaram, de um momento para o outro, quinze mil anos. O
cruzador Ralph Torsten parou em frente à Drusus. Cabos magnéticos o
prendiam à maior nave esférica do mundo. Escotilha de uma estava
junto à escotilha da outra e Perry fez a baldeação.
Quando
entrou no posto de comando da Drusus, de mãos dadas com Rhodan,
Gucky estava sorrindo. Mas era um leve sorriso, de pouca expressão.
Via-se nele o esgotamento daquela última missão. Somente por este
motivo foi que Rhodan não lhe permitiu fazer mais uma teleportação
para a Drusus.
— Ligação
para a Terra! — disse ele a Deringhouse. — Tomara que a
destruição do transformador do tempo não tenha chegado muito
tarde.
Quando
Deringhouse entrava, Atlan saía da cabina de rádio. Sorriu para
Rhodan e o abraçou fraternalmente.
— Conseguimos!
— exclamou. — As notícias boas chegam ininterruptas. A frota
robotizada voltou a funcionar de repente. Já sufocaram a tentativa
de rebelião, prendendo os cabeças do movimento. O computador
gigante está em funcionamento. Árcon está salvo. Tudo isto tenho
que agradecer a você, meu amigo e aliado.
— Não
foi nada! Além de tudo, houve um pouco de egoísmo de minha parte,
pois não salvei somente Árcon, o Império Arcônida, mas também
nosso querido Império Solar. Quanto aos acônidas... temos que
trocar umas idéias ainda, Atlan. Não acredite que esta foi a última
tentativa deles. Eles têm medo de mim, por possuirmos a propulsão
linear. Seus envoltórios de proteção não conseguem deter naves de
propulsão linear. Assim, sabem que podemos entrar no seu hermético
Sistema Azul a qualquer hora. Os acônidas detestam a guerra franca.
Suas ações sorrateiras e camufladas são piores do que qualquer
batalha. Uma vez já nos atacaram com o transmissor fictício, e
agora por meio desta terrível volta ao passado. Estou curioso para
saber o que vão inventar da próxima vez.
— Estamos
de sobreaviso — disse Atlan, não muito convincente.
Rhodan
balançou a cabeça.
— Como
de sobreaviso? O que quer dizer com isto? O máximo que você sabe é
que existe no centro da Via Láctea um imenso império, cujos
fundadores e senhores não nos olham com boa cara. É tudo que sabe.
Você não tem idéia da potência e grandeza de seus recursos
técnicos e haverá de ter sempre novas surpresas. Temos que conhecer
o perigo a tempo, para não sermos suas vítimas. Ou então, temos
que convencer os acônidas de que nossa existência não é uma
ameaça para eles.
— E como
é que você vai fazer isto?
Rhodan
sorriu antes de responder.
— Isso,
Atlan, não sei ainda não. Mas vou dar um jeito, pode confiar em
mim.
Deringhouse
estava de pé à porta da central de rádio.
— Ligação
com a Terra, sir!
— Obrigado!
Já vou.
Pouco
tempo depois, as duas naves estavam apoiadas em seus suportes
telescópicos, à beira do espaçoporto de Árcon I, o chamado
Planeta de Cristal. Aqui era a residência de Atlan, o imperador
arcônida. Aqui se concentrava toda a administração do mais
poderoso reino estelar. As notícias que chegavam a cada momento não
deixavam dúvida. O cérebro robotizado reassumira suas funções,
persistindo, porém, a seguinte dúvida: Será que ele havia
realmente perdido suas funções?
Em
companhia do Major Bellefjord e do primeiro-oficial, Capitão
Raldini, Rhodan visitou o Ralph Torsten. O cruzador pesado estivera
por alguns segundos exposto às baterias antiaéreas automáticas e
recebera alguns disparos. Em alguns pontos de sua quase invulnerável
carcaça, viam-se manchas de um tipo de esmalte afogueado.
— Tivemos
sorte de que tudo foi bem cronometrado — disse Rhodan. — O senhor
volta para a Lua, major, onde facilmente poderá fazer este pequeno
reparo. Logo receberá uma missão importante. Não tardará muito, e
teremos uma frota só de naves lineares para fazermos uma visita ao
Sistema Azul.
— Por
mim — disse Bellefjord — não quero mais comandar outro tipo de
nave. Quem sabe chegará o dia em que cobriremos toda a Galáxia com
esta nova maravilha?
Rhodan
olhou espantado para ele.
— Você
já pensou seriamente nisto, Bellefjord?
— E quem
não terá pensado? A superfície dos mares do mundo tentou Colombo e
ele descobriu a América há algumas centenas de anos. Mas ele não
sabia que iria descobrir novas terras. Nós, porém, sabemos que há
uma estranha Via Láctea à nossa espera, pois a vemos
constantemente. Com estas novas naves haveremos de desvendar os
segredos deste grande vazio.
— Teoricamente,
isto seria também possível com as velhas naves de transição —
disse Rhodan, sorrindo. — Mas para quê, afinal? Mal conhecemos
ainda a Via Láctea, como prova o incidente com os acônidas do
Sistema Azul. E quem pode dizer quantas raças estão esperando por
nós? Na nossa Galáxia podem existir imensos reinos estelares, de
cuja existência nem suspeitamos. De qualquer maneira...
Rhodan
contemplava o céu de Árcon, com os olhos semicerrados.
— ...de
qualquer maneira, vou pensar em você se chegarmos até lá. Vou lhe
pedir ainda um relatório sobre suas experiências no Sistema Azul.
Tenho pressentimento de que descobri outro meio de romper o bloqueio
energético dos acônidas. Sua ação não foi inútil, major! O
senhor partirá amanhã para a Lua. Dê um pouco de descanso a si e à
sua tripulação.
— Obrigado,
chefe!
Rhodan o
cumprimentou e saiu.
Queria
agora ficar sozinho, pois o futuro lhe causava preocupação. Os
acônidas, até então, haviam brincado — no sentido metafórico da
palavra. Não haviam de fato se exposto a nenhum perigo direto.
Arranjaram outros para lutar por eles. Consideravam os homens como a
maior ameaça à sua existência, até agora isolada e desconhecida.
Por outro lado, também não os levavam muito a sério. Eram apenas
animais daninhos, que se devia afastar do caminho. Os acônidas eram
por demais orgulhosos, para executarem, eles mesmos, esta tarefa.
Haveriam de novo de mandar outros em seu lugar.
Mas
chegaria o dia em que terranos e acônidas se encontrariam frente a
frente, e então a vitória seria daquele que estivesse mais bem
preparado. Haveria de vencer quem não subestimasse o adversário.
“Quando
o confronto surgir”,
pensava Rhodan, com amargura, “não
haverá mais jogo de empurra e aí é que se verá quem está de fato
apto para dominar a Via Láctea: os orgulhosos e tecnicamente super
desenvolvidos acônidas ou os determinados, esforçados e
persistentes terranos...”
*
* *
*
*
*
A
frota-fantasma desaparecera tão depressa quanto surgira, porque o
transformador do tempo pôde ser destruído.
Porém,
a terrível ameaça dos acônidas contra a Humanidade continua. E
assim que chega à Terra um pedido de socorro do sistema planetário
do gigantesco sol de Antares, os agentes da Divisão III se põem em
marcha...
Não
encontram, porém, um só acônida, e sim O
Deus Falso.
Este será o título do próximo número da série Perry Rhodan.

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