quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-106 - O Deus Falso - Kurt Mahr [Parte 2]

5



A desgraça se abateu sobre nós, ó Altíssimo. Uuuyi-Iiio, o príncipe das trevas, cobre-nos com sua sombra, a nós, vossos pobres servos. Ajudai-nos, poderoso Ayaa-Oooy, tende piedade de vossos filhos.”

Ron Landry folheava rapidamente as páginas de seu caderninho de apontamentos. Larry seguia-o com atenção. Lofty Patterson, enquanto isto, dava uma busca nas latas de conserva vazias, para ver se encontrava ainda alguma coisa.
A frota de Bushnell — disse Ron, enfiando no bolso o caderninho de notas — teve apenas duas vezes nos últimos meses sinais falsos, isto é, sinais de orientação que não vêm de nenhum objeto sensível. Larry perguntou pensativo:
Como agiram em tais casos?
Nas duas vezes, eram estações da superfície de Passa que falavam. Deixaram na tela uma mancha luminosa, que momentos depois desapareceu. Perguntaram às estações móveis no espaço e receberam a resposta de que nada fora observado. Depois disso, arquivaram o fato.
Naturalmente, na suposição de que alguma coisa tenha vindo de fora, as estações das espaçonaves o teriam notado, não é?
Exato. E isto é uma suposição muito plausível — concordou Ron.
Larry levantou o braço em sinal de protesto.
A não ser que a gente se esqueça de que existam pilotos que executem um hipersalto de transição sem errar um metro e se aproximem a três quilômetros, por exemplo, de superfície de um planeta, fazendo uso de uma velocidade relativamente moderada. Existe gente assim. Nossa frota tem alguns deles.
Ron concordou.
Muito bem. Então se deveria perceber a distorção estrutural que surge cada vez que uma espaçonave entra em transição ou sai dela, não é?
Naturalmente — disse Larry. — Eu queria perguntar a respeito disso. O que há, então, com o rastreamento estrutural? Será que no mesmo momento em que... digamos assim, os sinais falsos se manifestam, se constataria um abalo estrutural?
Ron começou a rir de repente.
Agora, vem a surpresa — disse ele. — Os dois chamados sinais falsos estão separados um do outro por quatorze dias de Passa. Um foi de madrugada e o outro na hora do crepúsculo.
Ficou olhando para Larry, que indagou irônico:
E então?
Nas duas vezes, passou bem rente à superfície de Passa, no mesmo momento em que entrava o sinal falso, um supercargueiro em direção à Terra.

* * *

Quando o grande sol vermelho ia bem alto no firmamento, Lofty já estava pronto para dar uma saída com Ron, a fim de estudar a redondeza. Lofty recebeu uma pistola de raios térmicos, cuja posse o deixou orgulhoso. Foi difícil convencê-lo de que devia guardá-la na cintura. Ron se armou do mesmo modo, levando também o instrumento a que deu o nome de raios psíquicos.
Estavam assim certos de que as sem-preverdes nada poderiam contra eles. Dos saltadores não tinham medo, pois, se suas suposições estavam certas — isto é, de que os dois rebates falsos da estação de rastreamento do Major Bushnell representavam as duas espaçonaves dos saltadores que fizeram uma aterrissagem infeliz em Passa — então tais espaçonaves deveriam ser procuradas entre as montanhas do oeste. Ron não podia aceitar que os saltadores operassem abertamente entre as sempre-verdes. Certamente se manteriam ocultos nos bastidores e se contentavam em influenciar os nativos pela sua criação maravilhosa: o deus Sssst.
O primeiro cuidado de Ron foi verificar se a região era mesmo tão rica em grutas para merecer o nome de “cavernas de...” Julgava que isto fosse uma tarefa sem nenhum perigo e fácil. Foi, no entanto, bem diferente do que pensava, mas isto ele não podia mesmo saber, na hora em que partiu com Lofty.
Com um pequeno aparelho de rádio, estavam em permanente contato com Larry Randall, que ficou no local da aterrissagem para vigiar o deslizador. Ron explicara, no entanto, que a ligação de rádio só seria utilizada em caso de extrema necessidade, pois, se houvesse saltadores pela região, estes haveriam de usar certamente aparelhos semelhantes e descobririam as manobras dos terranos.
Lofty, a princípio, tomou a direção do noroeste, por ser o terreno mais acidentado. Com uma agilidade espantosa — e Ron admirou-se — o velho colonizador ia rompendo caminho no denso emaranhado da vegetação de vidro e deixando, nos lugares em que Ron não conseguia passar sozinho, uma abertura suficiente para o major, afastando galhos e troncos com uma musculatura que fazia inveja a muito jovem atleta.
Com o auxílio e a técnica do velho Lofty, caminhavam muito mais depressa do que Ron imaginara. Sobre suas cabeças, o sol vermelho parecia um anão em comparação com o astro de um azul-claro, que era realmente o verdadeiro sol de Passa. As ramagens e troncos da floresta, embora de uma substância vítrea e transparente, reduziam uma boa parte da luminosidade já fraca por si mesma. No interior da mata virgem reinava um quase crepúsculo, onde seria difícil ler um jornal. A tudo isto ainda acrescia o fato de que a luz vermelha, depois de varar a copa da floresta, se dividia em milhares de reflexos nos troncos e galhos lisos e espelhados. Ron via em torno de si, pouco mais do que um cintilar confuso, que não permitia enxergar os detalhes e cansava muito os olhos.
Lofty estacou de repente. Ron, que no momento estava dando um galeio para atravessar um emaranhado de galhos mais finos, não reparou logo e se chocou contra as costas estreitas de Lofty. A reação do velho foi instantânea e maravilhosa. Virou o corpo para o lado e, agarrando-se firme com as duas mãos num tronco, deu um solavanco tão forte para trás que acabou atropelando Ron, por um triz quase o atirando de costas no chão.
Ron soltou um palavrão, mas Lofty virou-se para trás, levantou a mão e a comprimiu contra os lábios de Ron. Este finalmente compreendeu que havia acontecido alguma coisa importante. Acalmou-se na mesma hora e tirou a mão de seu parceiro de sua boca.
Lofty, no maior silêncio, apontava para algo à sua frente, atrás de um tronco caído. Ron olhou por sobre seus ombros. A princípio não viu outra coisa a não ser aquela terrível reverberação de reflexos e, dentro dela, uma cavidade escura que era uma parte do solo da mata, sem maior vegetação. Aos poucos, a cavidade foi se delineando mais nítida. Percebeu que era um animal do tamanho de uma ratazana. E depois que seus olhos se adaptaram à escuridão, viu que não era um animal inteiro, mas só pela metade. Faltava-lhe a parte traseira, mas o animal se movia mesmo assim.
Era uma cena horripilante. Ron se inclinou para frente para ver melhor, até que Lofty o deteve. Observou a ratazana pela metade e reparou que o que a punha em movimento era uma multidão de besouros pretos, do tamanho de um polegar. Também não moviam a ratazana propriamente, devoravam-na. Devoravam o cadáver com tanta sofreguidão que dava a impressão de que o infeliz animal se arrastava para algum lugar, diminuindo sempre mais a parte visível de seu corpo.
Ron compreendeu, então, a razão do susto de Lofty. Se tivesse dado apenas um passo adiante, teria metido o pé exatamente no meio da infinidade de besouros. E pela voracidade com que atacavam a ratazana, seria fácil supor que levariam poucos segundos para penetrarem na bota plástica do velho e atingirem sua carne.
Aparentemente, eram também muito sensíveis a qualquer ruído. Quando Ron estacou e levantou o pé, devem ter percebido alguma coisa, pois ficaram imediatamente parados. Dois ou três deles se viraram para a direção de onde veio o ruído. Passado algum tempo, talvez por não escutarem outro barulho, continuaram com seu fúnebre banquete.
Ron não agüentava mais de nojo. Sacou vagarosamente da arma de raios psíquicos e a apontou para o amontoado dos escaravelhos. No momento em que apertou o gatilho, cessaram todos os movimentos. Alguns deram um salto para o alto, caindo de costas e permanecendo inertes.
Formidável! Uma dose energética que tinha por finalidade levar um ser inteligente a submeter sua vontade ao poder de outrem, fora suficiente para destruir os diminutos cérebros dos besouros.
O pior não é a dor que se sente por sua picada — explicava Lofty, em voz baixa. — Não podendo devorar tão depressa com seus dentes ou coisa semelhante, injetam na vítima um líquido que dissolve as moléculas, de modo que lhes basta apenas sugá-las. Este líquido é terrivelmente venenoso ao entrar na circulação sangüínea.
Ron se sentia intimamente arrasado naquele instante. Compreendeu quanta besteira teria feito se não tivesse Lofty ao seu lado. Ali, por exemplo, teria simplesmente dado um pontapé no montão de besouros. Ao continuarem a marcha, Ron se propôs ser mais cauteloso.
O terreno começou a subir de repente e bem fortemente. Por qualquer motivo ainda misterioso para eles, as árvores de vidro cresciam ali um pouco afastadas umas das outras e, apesar do terreno íngreme, os dois homens caminhavam mais rapidamente. De repente, Lofty parou novamente.
Ron viu admirado que estavam numa clareira arredondada e imediatamente se lembrou de que, quando sobrevoaram o trecho, não viram essa tal clareira! Olhou para cima e constatou que as árvores de vidro de todos os lados se inclinavam para a clareira e se uniam no seu centro formando uma verdadeira cobertura, tão densa como em outros lugares. Alguns dos troncos que desta forma escondiam a clareira, estavam do lado esquerdo, a poucos metros acima de uma saliência rochosa. Ron examinou melhor o rochedo, descobrindo que no seu centro havia uma cavidade escura de dois metros de largura e outro tanto de fundura. Estavam, pois, diante da entrada de uma caverna. Uma das cavernas que procuravam. Ron queria passar na frente de Lofty para olhar de perto a entrada. O velho esticou os braços, não permitindo que Ron fosse avante.
Devagar! Não sabemos o que há lá dentro.
Inclinou-se e examinou o chão com cuidado, antes de pegar umas pedras pequenas e atirá-las no buraco escuro. Ron ouviu quando as pedras bateram lá dentro contra as paredes. Fora deste ruído, não ouviram mais nada.
Ótimo — disse Lofty, contente. — E agora, aí do lugar onde você está, jogue um jato de luz bem forte para dentro da caverna. Se não sair nada lá de dentro, arrastando-se ou voando, então estamos mais ou menos certos de que não há nada em seu interior.
Ron seguiu suas instruções. Ligou a lanterna e projetou os raios fortes contra a entrada da caverna. Viu muitas saliências e paredes enviesadas que brilhavam no reflexo da luz. Viu também que os raios luminosos se perdiam mais para baixo na escuridão, sem atingir o fim da caverna. Mas não viu nada das coisas que Lofty temia. A caverna estava vazia.
Bem — disse o velho — agora o senhor pode entrar. O que pretende lá embaixo?
Ele mesmo não sabia. Esperara simplesmente encontrar cavernas nesta região. Algum mistério, o mistério do ídolo Sssst, estava ligado às cavernas. A melhor maneira de desvendar o esquisito mistério seria penetrar nas cavernas e vê-las com os próprios olhos. Seria um bom motivo.
Porém Ron sentia que algo estranho o atraía para o âmago da caverna, com força mágica, de tal modo que seus passos para a escuridão não eram totalmente livres. E uma situação desta, não gostaria de confessar a Lofty.
O velho o seguiu de perto. Depois de ver que a caverna estava vazia, não teve mais receio. Caminhava rápido, olhando tudo em volta.
Penetraram, talvez, dez metros nas galerias, antes de acender a lâmpada pela segunda vez e dirigi-la para o fundo da caverna. O fim parecia muito longe para que o jato de luz pudesse atingi-lo. Continuaram caminhando. As paredes, feitas de rocha lisa e às vezes gotejantes, não apresentavam nada de extraordinário. Estranho era apenas o encanto mágico que emanava do fundo daquela gruta. Ron parou e olhou para Lofty. O velho parecia contente e curioso ao mesmo tempo. Provavelmente não sentia o encanto especial que o atraía. Isto não agradava a Ron.
Por que que o velho não sente nada?”, perguntava ele a si mesmo. “Será que somente eu é que estou sujeito a isto?
Neste momento, se ouviu a voz de Lofty:
Creio que podemos voltar. Não vamos achar nada por aqui.
Ron fez grande esforço para dominar sua ira.
Quem manda aqui sou eu, Lofty. Não se esqueça disso.
O velho olhou-o espantado, mudando logo a expressão do rosto. Desapareceram as rugas amigas e joviais, surgindo uma carranca de escárnio e de cólera.
Você acha, é? — respondeu Lofty, com azedume. — Então continue sozinho. Quanto a mim, volto daqui mesmo. E mais tarde, quando estiver se arrastando sozinho pelas florestas, não se esqueça dos meus conselhos, de nenhum deles, senão poderá acontecer que...
Fez um gesto vago para indicar o que poderia acontecer.
É aqui que se manifesta o malandro! — exclamou Ron. — Abandonar-me sozinho aqui, hein? — sacou da arma. — Não, meu caro, comigo, não. Você tem que ficar até o fim.
Alguma coisa no olhar de Lofty chamou a atenção de Ron. O velho não parecia nada preocupado com a arma engatilhada. Olhou um ponto às costas de Ron, como se algo de novo surgisse naquele instante no fundo da caverna.
Ron caiu no velhíssimo truque...
Virou-se para trás e, no mesmo momento, se arrependeu amargamente, pois, com um fantástico galeio, o velho se lançou sobre ele. Uma forte pancada com a coronha da arma de raios térmicos atingiu Ron na cabeça, jogando-o ao chão. Bateu com o ombro contra a rocha e a dor do choque o deixou mais irritado.
Lofty fora muito rápido. Através de um véu de mal-estar e de dor, Ron o viu bem perto, quando com os braços erguidos e os punhos cerrados voava contra ele. Rápido, Ron esquivou-se, corpo de lado. Lofty foi de encontro à rocha, soltando um berro assustador.
Ron ainda estava muito lento. Seus punhos cerrados não pareceram modificar muito a iniciativa do velho, que agora martelava a cabeça de Ron. Simultaneamente, Lofty levantou o joelho direito e seu adversário, que, com os socos na cabeça se inclinava para frente, recebeu uma violenta joelhada na boca do estômago.
Rolou de novo no chão, mas desta vez sua cólera atingiu tal ponto que dores e mal-estar não significavam mais nada. Num piscar de olho, pôs-se de pé e se atirou como um bólide contra Lofty. Dentro dele, em algum ponto de seu subconsciente, uma voz tentava lhe tornar claro que tudo aquilo era uma loucura; que ele, realmente, não tinha motivos para odiar Lofty, muito menos para agredi-lo daquela maneira; que Lofty também nada tinha contra ele e que os dois se comportavam como doidos.
Porém não quis ouvir voz nenhuma. Estava em plena luta e, naquele ímpeto maluco, atirou o velho no chão. Ouviu quando o coitado soltou um grito de dor aguda e, meio segundo depois, também ele ia de encontro à parede de pedra, batendo forte com a cabeça. Desta vez, achou que bastava para ele. Com a cabeça estalando de dor e um enorme galo na testa, caiu ajoelhado e perdeu os sentidos.
6



Triunfo, ó Altíssimo, eterna alegria entre vossos filhos. Mais três vítimas vos trazemos em holocausto e esperamos que nossa fidelidade seja recompensada, pois as vítimas eram reis entre os seus. Vossa graça voltou a nos proteger, e nós vos bendizemos, Ayaa-Oooy!”

Larry fazia um enorme esforço para recompor o confuso mosaico das ações em seus pensamentos. Tinha que ajuntar peça por peça para ver se dava sentido. Fazia isto com os olhos fechados. Havia algo dentro dele que o levava a querer continuar de olhos fechados, a fim de não ver o ambiente em volta. Não tinha nenhum motivo para se submeter a este desejo.
Sentara-se ao lado do deslizador e estava contemplando a floresta avermelhada, a misteriosa reverberação naquela vegetação transparente e brilhante. Com isso, veio-lhe o pensamento se não se podia transformar Passa num planeta de alto turismo, a fim de que os terranos milionários pudessem ali passar suas férias de uma maneira bem extravagante e mesmo exótica. Estava até ficando meio filósofo. Começou a refletir que a Terra, ainda há duzentos anos, nem sabia o que era ainda um avião. Uma viagem para as estrelas era considerada impossível e uns poucos que pensavam nisto eram chamados de doidos.
Setenta anos mais tarde, há cento e trinta anos, portanto, Perry Rhodan fizera sua estréia nos fastos da História e, daí para cá, as coisas se mudaram rapidamente. Agora, a Terra estava tão evoluída que tinha de proteger suas colônias espaciais da ganância de hordas de aventureiros inescrupulosos. Não só as colônias, como principalmente seus habitantes primitivos.
Larry se lembrara de que, repentinamente, um ódio esquisito contra os terranos se apossara dele, embora ele mesmo fosse um deles.
Que fizeram mesmo os terranos?”, pensou, questionando-se. “Dispararam pelas Galáxias a fora em suas naves mais velozes que a luz, subjugando um planeta depois do outro. Não deixaram aos seus habitantes primitivos a menor chance de levar uma vida própria. Será esta uma raça digna, merecedora do nosso respeito? Não e nunca!
O ódio de Larry tomava proporções assustadoras. Seria agora capaz de assassinar Ron ou Lofty se estivessem presentes. Mas o deslizador era de qualquer forma um produto terrano, da técnica terrana, o único objeto em que podia descarregar seu ódio concentrado.
Recordou-se também de que, vez por outra, e por curtos momentos, tinha a impressão de estar louco, principalmente quando, com a coronha de sua arma, se abateu contra o aparelho e começou a quebrar o painel de comandos. Arrancou botões e alavancas, até que, mexendo nos fios, levou um bom choque. Suas loucuras pararam por aí.

* * *

Que besteira andei fazendo?”, pensou ele. “Como cheguei a esta idéia maluca?
Queria virar-se de lado, mas não conseguia. Seus ombros esbarravam em algo duro que não cedia. Começou então a se interessar por saber onde estava. E aos poucos, sua curiosidade venceu o desejo de não querer ver nada do que o cercava.
Abriu os olhos.
A primeira coisa que sentiu foi uma luz amarelada e muito forte que o ofuscou. Fechou-os de novo, abrindo apenas um nadazinho para se habituar com a intensa claridade. A segunda coisa que notou foi que o ar em volta dele exalava perfumes muito agradáveis, que aliás lhe pareciam conhecidos. Mas no estado em que estava sua mente, precisou de algum tempo para se lembrar de que as peles das sempre-verdes também tinham este cheiro.
Estava num local que, a julgar pela dureza, devia ser um chão de pedra. Caso se levantasse, haveria de ver mais do que aquela claridade ofuscante. Portanto, resolveu se levantar.
O que viu, então, não era tão tranqüilo como a luz forte e tão agradável ou como o odor dos perfumes de Passa. Viu uma galeria de dimensões exageradas, em cuja parede lateral estivera deitado. O chão desta galeria estava coalhado de, pelo menos, mil figuras, cuja situação certamente não era melhor do que a dele. A grande maioria estava deitada quieta, com os olhos fixos no teto, que distava no mínimo oito metros do chão. Alguns se apoiavam nos cotovelos, mostrando muito pouco interesse no que lhes ia em derredor.
Finalmente, lá estavam dois de pé, perto um do outro, apoiados numa parede, dando a impressão de estarem conversando!
Larry não reconheceu ninguém, que ali estava deitado ou apoiado nos cotovelos. Sentia-se, porém, certo de que se tratava dos homens, ou pelo menos de uma parte deles, que as sempre-verdes aprisionaram ou seqüestraram. Inclusive aqueles cuja expedição punitiva contra as serpentes fracassara de uma maneira tão surpreendente. Os dois, entretanto, que, encostados na parede, conversavam entre si, eram Ron Landry e Lofty Patterson.
Ao reconhecê-los, Larry fez um grande esforço, se levantou e foi até eles. Um homem, no meio de milhares totalmente parados, que de repente se levantasse e fosse para qualquer lugar, daria muito na vista no meio daquela quase letargia. Ron e Lofty interromperam a conversa e olharam para Larry que imediatamente notou a admiração e o horror no rosto deles.
Compreendeu o que pensavam. Caíram de qualquer maneira nas mãos das serpentes ou dos saltadores. Não sabiam que ele estava nesta galeria. Não conseguiram achá-lo no meio daquela multidão. Estavam até esperando que Larry poderia vir socorrê-los com o deslizador. E agora, achava-se ele aí, também prisioneiro.
Sinto muito — foi a primeira coisa que Larry disse. — Mas parece que eles também me apanharam.
Ron pediu-lhe para contar o que se passara com ele e ouviu tudo com muita atenção. Terminando, virou-se para Lofty e explicou:
O mesmo efeito, está vendo? Ficou irritado de repente e não sabe por quê.
Lofty abaixou a cabeça e disse meio envergonhado:
E nós, tivemos que fazer um grande esforço para um quebrar a cabeça do outro.
Com poucas palavras, Ron explicou como achara a caverna e o que aconteceu depois. Larry estava cada vez mais horrorizado. Era inegável que alguém estava usando consciente e com muita eficácia uma arma completamente nova — arma cuja atuação consistia em fazer com que homens ficassem tão encolerizados uns com os outros ou contra objetos, que eram dominados totalmente, perdendo sua própria personalidade, fazendo coisas contra sua própria vontade.
Larry encarou Ron.
Quem está por trás disso? — perguntou friamente.
Ron já estava esperando a pergunta.
Não sabemos — mas logo depois se corrigiu: — Ainda não.
Larry ia perguntar mais alguma coisa, mas neste instante originou-se um movimento qualquer na outra extremidade da galeria. Larry percebeu os vultos de três sempre-verdes que vinham pulando para o recinto onde jaziam centenas e mais centenas de seres apáticos estirados no chão. Não se sabia o motivo por que e de onde vinham as serpentes. Em ponto nenhum da longa galeria parecia haver alguma entrada ou saída. De qualquer maneira, a visão das serpentes quebrou a apatia e o estado quase de letargia dos prisioneiros terranos. Começaram a gritar desesperados, procurando fugir delas. Larry sentia até nojo, pois o quadro era mesmo horrível. Queria correr para lá, deter a fuga dos homens assustados e lhes dizer que não passavam de miseráveis covardes, fugindo de três serpentes. Mas não tinha dado ainda o primeiro passo, quando sentiu uma mão forte em seu ombro.
Calma, meu jovem — disse Ron, com voz extremamente baixa. — Isto não tem sentido. Em qualquer lugar por aí estão muito mais serpentes do que podemos imaginar. E apalpe agora a sua cintura.
A mão de Larry desceu para o local da arma e não encontrou nada.
Como ia se mostrando um homem imprudente! Naturalmente que não se esqueceram de desarmá-los, antes de trazê-los para cá.
Ron tinha razão. Não podiam fazer nada contra as serpentes, pelo menos por enquanto.
As três sempre-verdes, com seus pinotes desajeitados, alcançaram a última fila dos fugitivos, quando a primeira deles atingiu as paredes da caverna e a fuga foi chegando ao fim. Larry viu como uma das serpentes pegou um terrano, com dois de seus braços, e carregando-o acima das cabeças dos prisioneiros, deu meia-volta e regressou.
A cena foi tão rápida que Larry só compreendeu o que se passou, depois que as serpentes haviam penetrado na parede da galeria, onde ninguém supunha uma saída.
Estavam carregando suas vítimas, vítimas para deuses assassinos e desumanos.
Os três prisioneiros nas garras das serpentes pareciam não ignorar seu destino. Gritavam tão alto que abafavam o vozerio que enchia a galeria. Larry viu como os coitados esperneavam e se debatiam. Viu-lhes os rostos vermelhos da força que faziam e do medo que lhes ia na alma. Ouviu os gritos dos últimos quando penetravam na saída invisível.

* * *

Depois deste incidente, não sobrou mais nada da calma e do autodomínio de Larry. Estava disposto a enforcar com suas mãos as serpentes e aqueles que as induziam a cometer tais crimes.
Lofty voltara a si e suas rugas não tinham mais a jovialidade de sempre. Quando alguém falava com ele, não respondia nada. Ron era o único que ainda estava em condições de pensar friamente, de ter os pensamentos necessários para o momento. Constatou que a multidão dos prisioneiros voltara de novo para a grande galeria, espalhando-se por igual naquele amplo recinto. Os homens tornaram a se deitar. Parece que já haviam esquecido o tétrico acontecimento. Felizes por não terem sido pegos, mergulharam de novo na costumeira apatia.
Ron sabia de onde provinha esta apatia. Sabia também o que havia de encontrar se tentasse agora procurar uma saída ao longo das paredes da galeria. Nada. Ou melhor, a mesma coisa que todos estes homens acharam, cada um por si, ou em grupos: Não havia nenhuma saída. Pelo menos, nenhuma saída que pudesse ser aberta por dentro. Não restava a menor dúvida de que lá fora existia um grande número de serpentes, para evitar qualquer tentativa de fuga.
Havia ainda mais um argumento que contribuía para aumentar o estado desesperador em que se achavam: Esta galeria se encontrava em algum lugar no centro do denso emaranhado da floresta de vidro. A orla da floresta do lado do oeste distava pelo menos quinhentos quilômetros da cidade mais próxima. Portanto, estavam com mais de mil quilômetros de isolamento. Quem iria tentar uma marcha destas dimensões?
Se, apesar de tudo, Ron começou a investigar as paredes da galeria, ele o fez primeiro porque já se sentia mais confiante nos próprios olhos, que aliás já estavam bem treinados, e segundo porque estava convencido de que era sempre melhor fazer uma coisa sem sentido, do que ficar parado por ali e cair naquela modorra letárgica.
Continuou, pois, caminhando. A galeria teria, talvez, uns cem metros de comprimento e mais ou menos a metade na largura. Tinha, portanto, que percorrer ainda um bom trecho.
Deixou Larry e Lofty para trás, que provavelmente não teriam nenhuma vontade de acompanhá-lo.
Logo após os primeiros passos, percebeu para que este giro lhe ia servir: poderia refletir mais calmamente sem ser perturbado pelas lamúrias irritantes de Larry ou pela cara triste de Lofty. Havia mesmo umas tantas coisas, sobre as quais devia pensar melhor.
Uma delas estava logo na sua frente: era a iluminação da galeria. No teto estava afixada uma séria de lâmpadas de vidro comum. Notava-se que foram ali colocadas às pressas. Algumas estavam até tortas. Os fios corriam um trecho na rocha bruta e desapareciam então em algum buraco.
Mas, por mais apressadamente que tivessem sido ali colocadas, uma coisa era insofismável: as sempre-verdes não conheciam nenhum tipo de iluminação elétrica, nem instalada com capricho, nem às pressas. Aquelas lâmpadas eram, pois, a primeira prova de que os saltadores estavam com os dedos no jogo de Passa.
Outra prova eram as saídas que abriam e fechavam sem o menor ruído, sem que ninguém tivesse que mexer em trincos ou apertar botões. Também isto era dos saltadores. Foram eles, naturalmente, que construíram este campo subterrâneo de prisioneiros.
Por quê? Por que iriam se preocupar com o local onde as serpentes escondiam seus prisioneiros? Por que fazer tanto esforço na construção de um campo de concentração de prisioneiros à prova de fuga, quando só se interessavam pelos lucros comerciais que podiam auferir de Passa?
Nenhuma resposta, por enquanto”, pensou Ron. “Para isto sei ainda muito pouco.”
Mais ainda: Lofty Patterson havia depreendido da mensagem dos tambores das sempre-verdes que elas pretendiam aplacar a fúria de seu deus porque o número de vítimas que lhe era oferecido em holocausto contínuo havia diminuído. E aqui estavam mais de mil delas e todos na galeria sabiam que os três, que eram levados a cada noventa minutos, iriam ser imolados instantes depois no altar do deus insaciável.
Será que mil vítimas lhe eram pouco? Que monstro seria este deus?
Também nenhuma resposta.
Havia uma terceira pergunta, sobre a qual Ron já pensara bastante e que tinha ainda de deixar sem resposta: Como foi que as serpentes descobriram tão depressa sua pequena expedição? O repentino acesso de loucura de Larry e mais ainda a briga estúpida em que ele mesmo se empenhara com Lofty, deixando-os inconscientes, voltando a si somente mais tarde, já nesta galeria — tudo isso indicava claramente que elas estavam esperando o momento propício para aprisioná-los.
Como foi que as sempre-verdes os descobriram? E, caso as serpentes não tivessem tomado parte em nada disso, como é que os saltadores se arranjaram nesta solidão de florestas e de montanhas?
Existia mais uma coisa que preocupava Ron, durante sua caminhada: Os saltadores deviam saber que a Terra não ficaria impassível perante esta matança sem sentido dos seus colonizadores. O respeito dos terranos para com a alma sensível dos nativos tinha obviamente seus limites. O misticismo sangrento provocado pelos saltadores em torno do deus das serpentes havia há muito ultrapassado as raias do crime. Deviam estar conscientes de que, mais cedo ou mais tarde, teriam de se haver com a frota terrana e que a rivalidade comercial viraria guerra total. Uma guerra na qual os saltadores haveriam infalivelmente de perder para sempre o precioso mundo de Passa.
Por que razões enveredavam por tais caminhos? Por que não apelavam para um de seus costumeiros truques inescrupulosos, onde não acontecessem assassinatos, a fim de abocanharem uma parte dos lucros de Passa?
Ron julgava saber as respostas para estas indagações. Eram por demais óbvias e evidentes para lhe causar pânico.
Os saltadores teriam encenado todo este aparato na intenção de obrigar a Terra a uma guerra circunscrita ao planeta. Sendo isto verdade, deviam ter já um grande trunfo nas mãos, o que os fazia crer numa vitória fácil. Agora, que trunfo era este?
Ron quebrava inutilmente a cabeça a respeito.
Porém, agora estava convencido de que a situação era bem mais séria do que podia imaginar, há poucas horas atrás.
7



Queremos vos prestar uma grande homenagem, ó incomparável Senhor! Queremos vos ofertar três príncipes das trevas para que permaneçais para sempre conosco, pois reconheceis a fidelidade de vossos filhos e os protegeis de todos os perigos, Ayaa-Oooy.”

Durante dois longos dias, não conseguiram melhor resultado do que ouvir da boca de dois ou três colegas prisioneiros a frase de completa apatia: “— Ah! Deixe-nos em paz.
Assim, o esforço de Ron e de seus dois companheiros para estimular a vontade de reação daquela multidão foi quase inútil.
Voltava, pois, de seu giro, sem muito sucesso. É verdade que achara o ponto em que as sempre-verdes entravam a saíam. Mas nem tentou abrir esta passagem. Sabia que não iria dar resultado.
A vida na galeria era a própria monotonia. Cada hora e meia, surgiam as serpentes para apanharem três vítimas. Duas vezes no período de vinte horas apareceu um grupo maior delas arrastando alguns tonéis cheios de comida — a massa pastosa e sem sabor nenhum — e também água. Os prisioneiros quase não ligavam à comida, não tinham fome e o alimento que se lhes apresentava era tudo, menos gostoso.
Evidentemente que aquela caverna no fundo da rocha não dispunha de instalações sanitárias. Conseqüência: o ar se encheu aos poucos de uma fedentina tão forte, que nem se sentia mais o suave perfume das peles das sempre-verdes, quando entravam. Ron estava preocupado com que a falta de higiene gerasse doença, e procurava alertar outros colegas a respeito. Mas, para quase todos eles, era a mesma coisa morrer no altar do falso deus ou perder a vida pela febre tifóide.
Assim era a situação, quando Ron conferiu o relógio e viu que eram passadas quinze horas desde seu despertar do estado de inconsciência. Constatou que a apatia geral também estava tomando conta dele. Reconheceu igualmente que Larry e Lofty deviam estar com a mesma disposição de espírito. Não mais conversavam. Para quê? Era tudo inútil. Podia-se ver nas suas fisionomias como se deviam sentir.
Ron percebeu que tinha de acontecer algo diferente, para que o estado de apatia geral sumisse. Chegou mesmo a convencer-se de que seria melhor fazer qualquer coisa, mesmo ilógica, do que ficar ali deitado naquele marasmo, contemplando o teto da galeria e deixando-se dominar por aquela letargia.
Aos poucos se cristalizou um plano em sua mente. Plano que merecia só um adjetivo — plano mortal. Mas era suficientemente convincente para entusiasmar Larry e Lofty, pois, por mais arriscado que fosse, tinha uma alternativa. Deixava uma opção. E esta escolha era: Ou nós, ou os saltadores.

* * *

Ron olhou para o relógio.
As sempre-verdes não eram muito pontuais. Às vezes, chegavam um pouco antes da hora e meia, outras, atrasavam-se alguns minutos. Desta vez, optaram pela segunda “modalidade”.
Para os que aguardavam aquele momento, era sempre o mesmo sofrimento.
Ron refletiu sobre o que ia dizer. Mas não se lembrou de nada novo.
Abram os olhos e não deixem escapar nenhuma oportunidade — foi tudo o que conseguiu dizer, pois não sabia conselhos melhores.
Haveremos de conseguir de qualquer maneira”, refletiu ele, tentando com isto afastar os pensamentos negativos.
Uma leve vibração do solo veio desviá-lo de suas divagações.
Olhou imediatamente para a passagem larga e de pouca iluminação no paredão da galeria, por onde entravam as três sempre-verdes, com os braços já levantados, o par inferior para manter o equilíbrio nos saltos de locomoção, o superior para agarrar as vítimas.
A gritaria frenética se repetiu em toda a galeria. Homens se erguiam do chão e disparavam como loucos. Ron também se levantou, vendo de esguelha que Larry e Lofty também se ergueram, viraram-se e começaram a correr.
Ron notou como era difícil fingir que estava correndo de alguma coisa, como se quisesse escapar. No começo, fez um grande esforço. Mas mesmo assim, com poucos passos, já havia atingido a última fila dos que fugiam, e exatamente isto é que não queria. Tentou andar mais devagar e deu uma olhada para as sempre-verdes, que não modificaram sua velocidade, continuando com seus saltos no mesmo ritmo, apoiando-se na cauda musculosa. Sabiam que, mesmo sem se apressar, apanhariam o que desejavam.
Num assomo de ódio, Ron corrigiu a direção de sua fuga, virando um pouco para a direita, pois reparou que atrás dele não vinha nenhuma serpente. Por uns segundos, olhou o que se passava com Larry e Lofty. Viu somente Larry, que também corria de uma sempre-verde, a uns cinco metros dele. Ron viu quando tropeçou e caiu no chão, sendo apanhado na mesma hora pelos braços superiores da serpente e levantado quase à altura de sua cabeça.
Era este o modo de agir, simples e sem chamar a atenção de ninguém. Ron prendeu o pé direito atrás do esquerdo e tombou. Rolou um pouco para frente, como se quisesse escapar das garras da serpente. Mas finalmente respirou tranqüilo, quando viu que os dois braços esverdeados se abaixaram para o pegar.
Começou a gritar, como fora combinado. Larry também fez a mesma coisa. Usaram toda a força do pulmão para, com seus berros, abafarem todo o barulho da galeria. Esperneavam e se debatiam freneticamente, como haviam feito até agora as demais vítimas.
Ron deu uma olhada para o lado, à procura da terceira serpente. Estava correndo atrás do prisioneiro que tentara fugir e só agora se abatera sobre ele. Lofty fora bem calmo e inteligente para se deixar prender, sem omitir o falso aparato combinado. Gritava e esperneava como todos.
As serpentes os levaram para fora da galeria. Sua gritaria mudou de ressonância, quando lá fora entraram num corredor semi-iluminado e o som se quebrou no corpo flácido da multidão de serpentes que ali jaziam para garantir qualquer eventualidade. Eram pelo menos duzentas, conforme os cálculos de Ron. A situação era mais ou menos como ele imaginara. Estavam de sentinela ali fora para cortar pela raiz qualquer tentativa de fuga.
Através deste corredor, as serpentes iam saltitando com suas vítimas na direção de uma espécie de câmara. Ron, que ainda continuava gritando, podia perceber de onde vinha aquela iluminação fraca e amarelada. Nos paredões da câmara pendiam tochas bruxuleantes. Os saltadores não se deram ao trabalho de instalar luz elétrica neste recinto, e as serpentes o iluminaram como costumavam fazer, isto é, com galhos mais novos das árvores de vidro. A câmara era redonda, tendo no lado oposto duas saídas escuras, como constatara Ron.
Neste momento, a sempre-verde que o carregava, se inclinou para frente e o colocou no chão.
A reação dele foi imediata. Sabia o que os demais teriam feito numa situação desta, ao serem depositados no solo. Virou-se e saiu correndo. Usou de todas as forças de que dispunha e chegou até o corredor alto, através do qual a serpente o trouxera, até que foi capturado de novo, erguido no ar e trazido de volta para o mesmo lugar de onde fugira.
Desta vez aquietou-se. Parou de gritar e ficou atento ao que estava para acontecer.
As três serpentes permaneceram por perto. Formavam um círculo em torno dos três prisioneiros. Larry, que conforme as instruções recebidas, depois de ficar parado por uns minutos, tentou uma fuga, foi apanhado e trazido de volta.
Ron ficou muito tempo estudando as três serpentes. Enquanto os prisioneiros se mantinham quietos, elas também se mostravam calmas. Estavam apoiadas na fina, mas vigorosa cauda verde e, se um ou mais orifícios existentes na sua cabeçorra de verme eram olhos, deviam então estar olhando sempre na mesma direção, pois a volumosa cabeça não se mexia.
Os minutos iam passando. Lofty começou de novo a gritar e fazia como se quisesse fugir, deixando assim as serpentes mais atentas. Agiu tal qual um detento que sabe que vai morrer. Mas o que estava gritando era bem outra coisa:
Com os diabos! Por quanto tempo vamos ainda ficar parados aqui? Por que não acontece nada?
Ron não sabia o que responder. Como poderia saber?
De qualquer modo pareceu que a gritaria de Lofty serviu para alguma coisa, pois de uma das extremidades do corredor escuro surgiram, segundos depois, mais duas serpentes. O aroma das peles intensificou-se.
Não se podia perceber o que pretendiam estas duas últimas. No par de braços superior traziam algo muito colorido dando a impressão de ser uma espécie de tecido. Mas ninguém ignorava que as serpentes nada entendiam de fiação ou tecelagem. Era um tipo de chita. Ron estava olhando estupefato aqueles estampados de mau gosto, de um colorido exagerado, que as duas deixaram no chão. Era um tecido barato, saído, sem dúvida, de alguma fábrica do Império Arcônida. Era, pois, mercadoria trazida pelos saltadores. E o que pretendiam as serpentes com ela?
A resposta não demorou a vir. Um braço poderoso pegou Ron pelo ombro e o virou para trás. Outro braço, mais suave que o primeiro, também o pegou. Num leve escorregar, o tecido lhe caiu pela cabeça abaixo, escurecendo-lhe a visão por um instante. Quando conseguiu ver, estava vestido por uma longa túnica, cheia de figuras grotescas. Olhou para seus dois companheiros, mas com eles acontecera a mesma coisa.
Socorro! — gritava Lofty. — O que fizeram de nós? Transformaram-nos em palhaços. Quem é que vai acreditar em nós agora?
Nós mesmos”, pensava Ron, cheio de ódio. “Está tudo muito gozado, mas ninguém tem dúvida de que nos preparam para nos oferecer aos seus ídolos.”

* * *

Da câmara para frente, não foram mais carregados. Tinham que percorrer o último caminho para a morte com suas próprias forças. As três sempre-verdes, que os trouxeram até a câmara, continuavam atrás deles, para evitar qualquer tentativa de fuga. Ron e seus colegas tinham um passo hesitante, tal qual era de se esperar. O corredor era estreito e alto, como as serpentes costumavam construir e, além disso, completamente escuro. A claridade da câmara redonda ficara para trás. Assim que seus passos tornavam-se lentos demais, as serpentes vinham acelerá-los um pouco, empurrando as vítimas com seus fortes braços, até mudarem de ritmo.
Mas não eram propriamente brutas e Ron lamentava isto, pois o que os três terranos precisavam era exatamente de uma boa dose de ódio. Contudo não adiantava nada pensar que as serpentes eram criaturas de bons sentimentos, com quem seria fácil se entender, se atrás de tudo estavam os nojentos saltadores. No momento, isto não lhes adiantava nada; tinham de fugir das serpentes e não diretamente dos saltadores. E caso se apiedassem delas, mesmo por poucos instantes, poderiam estar assinando sua, já quase evidente, sentença de morte.
Parecia não ter fim aquele lúgubre corredor, ainda mais que a escuridão não permitia fazer cálculos da distância. Ron calculava que já tinham percorrido um quilômetro, quando ouviram pela primeira vez um misterioso ruído.
Parecia vir do fundo da terra. De início, soava como um estranho som de sino, faltando, porém, o timbre mais grave. Tornou-se fúnebre, pois enchia o coração dos prisioneiros de um medo primitivo. Pararam para ouvir, mas as serpentes os empurraram para frente. Cada vez mais forte, o estranho som.
Um clarão avermelhado surgiu-lhes na frente, parecendo irromper de um buraco mais para adiante, no meio da escuridão. Quanto mais caminhavam, tanto mais nítido ficava o som. Chegaram por fim à conclusão de que eram sons produzidos por tambores, idênticos aos que já haviam ouvido antes na floresta.
Lofty começou a lamuriar-se. Ron já estava esperando isto, pois era o único entre eles que entendia da linguagem dos tambores.
Há grande alegria entre eles, dizem os tambores — gritou Lofty se contorcendo, como se tivesse uma crise de nervos. — Alegram-se por este glorioso dia em que vão oferecer a seu deus vítimas tão preciosas. Estas vítimas somos nós, naturalmente.
Ron fechou os olhos, depois os abriu bem devagar, tentando descobrir qual era a origem do clarão avermelhado. Percebeu que a claridade oscilava muito e chegou à conclusão de que devia tratar-se de tochas preparadas especialmente para dar um clarão colorido.
O chefe da malograda expedição recapitulou tudo que observara desde o momento em que foram carregados para fora da galeria. Se mais para frente, durante a cerimônia do sacrifício, que sem dúvida se realizaria, e devia ser dentro de pouco tempo, houvesse uma possibilidade de fuga, teriam então dois caminhos, por onde tentar a fuga: os dois corredores que partiam da câmara redonda.
Não podiam saber, evidentemente, onde iam dar estes corredores. Mas aquele pelo qual vieram, já estava excluído, pois sabiam que ia dar onde se encontravam as centenas de serpentes em estado de prontidão.
É claro que ainda existia a possibilidade de sair uma bifurcação, ali do ponto de onde vinha o clarão avermelhado. Mas era costume de Ron estar bem claro quanto a todas as possibilidades, o mais cedo possível, pois não podia calcular nem planejar coisas de que não tinha a menor noção.
O clarão vermelho foi se aproximando. Ron sentiu algo esquisito.
Fiquem de olhos abertos! — disse mais uma vez para os dois colegas. — E se vocês mesmos não notarem nada, fiquem olhando para mim. Está claro?
Claro! — responderam Larry e Lofty quase que juntos.
Foi por muito tempo a última palavra que trocaram entre si. Poucos passos depois, terminou o corredor. Ron percebeu, já um pouco antes, que ele desembocava numa outra galeria, mas muito mais ampla do que a câmara onde foram tão gaiatamente paramentados para as cerimônias do sacrifício. Num ponto, porém, se diferenciava essencialmente de todos os locais que chegara a ver até então: no alto, no teto de pedra, viam-se aberturas ovaladas distribuídas em espaços iguais, por onde entrava a claridade do sol.
Um pensamento percorreu a mente de Ron. Lá em cima estava a liberdade. As clarabóias ovais eram bem largas para deixar passar um homem de estatura normal. E uma vez lá em cima, não iriam se preocupar mais em que galerias havia menos serpentes à sua espera. Mas teve que desistir da idéia. As aberturas estavam a mais de oito metros acima do solo. Teriam que subir na cabeça de uma sempre-verde e dali dar mais um bom salto.
Era uma coisa praticamente impossível.
O que provocava a estranha luz vermelha eram as tochas. No meio do grande recinto, havia um espaço livre, mas em volta dele se comprimiam tantas serpentes, que Ron chegou a calcular em mais de quinhentas. Chegou a tremer de medo. Esperava assistentes para a hora do sacrifício, mas não tanto assim.
No espaço central livre, havia alguns troncos de árvores de vidro, cuidadosamente colocados sobre cavaletes. Diante de cada tronco, estava sentada uma serpente tendo nas garras dois grandes martelos, que faziam com que os troncos emitissem aquela ressonância monótona e cavernosa, ouvida pelos prisioneiros há momentos atrás.
Quando as três vítimas apontaram no fim do corredor, algumas serpentes à esquerda e à direita das batedoras de tambor, saltaram sobre os troncos de vidro e, na mesma hora, o som se alterou.
Fora disso, havia ainda no centro do recinto um quadriculado preto no chão, aparentemente desenhado com carvão. As tochas vermelhas enfraqueceram sua luminosidade, atraindo assim magicamente os olhares de todos. Mas a maior curiosidade das serpentes se convergia para o quadrado preto no chão, a julgar por suas cabeças inclinadas para frente.
Lá, onde o corredor desembocava no grande recinto, os espectadores abriram uma passagem, ao aparecerem as vítimas. Larry, que caminhava na frente, hesitou um pouco. Imediatamente se levantou um leve sussurro entre a assistência e as três sempre-verdes que vinham atrás dos terranos aplicaram-lhes empurrões mais fortes do que antes, para fazê-los apressar o passo.
Cambaleantes, atingiram o centro do recinto. Ron, cheio de curiosidade, queria examinar o quadrado preto. Mas antes que tivesse se aproximado o suficiente para ver melhor, uma das serpentes o agarrou pela roupa e o puxou para trás.
O quadrado significava alguma coisa muito importante. Ron não tinha dúvida a respeito. Estremeceu todo, quando uma forte pancada de gongo ecoou pelo recinto. Na mesma hora, cessou a enervante música dos tambores. Também não se ouvia mais nada do ininterrupto murmúrio das sempre-verdes que até então enchia o ar.

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