5
“A
desgraça se abateu sobre nós, ó Altíssimo. Uuuyi-Iiio, o príncipe
das trevas, cobre-nos com sua sombra, a nós, vossos pobres servos.
Ajudai-nos, poderoso Ayaa-Oooy, tende piedade de vossos filhos.”
Ron Landry
folheava rapidamente as páginas de seu caderninho de apontamentos.
Larry seguia-o com atenção. Lofty Patterson, enquanto isto, dava
uma busca nas latas de conserva vazias, para ver se encontrava ainda
alguma coisa.
— A
frota de Bushnell — disse Ron, enfiando no bolso o caderninho de
notas — teve apenas duas vezes nos últimos meses sinais falsos,
isto é, sinais de orientação que não vêm de nenhum objeto
sensível. Larry perguntou pensativo:
— Como
agiram em tais casos?
— Nas
duas vezes, eram estações da superfície de Passa que falavam.
Deixaram na tela uma mancha luminosa, que momentos depois
desapareceu. Perguntaram às estações móveis no espaço e
receberam a resposta de que nada fora observado. Depois disso,
arquivaram o fato.
— Naturalmente,
na suposição de que alguma coisa tenha vindo de fora, as estações
das espaçonaves o teriam notado, não é?
— Exato.
E isto é uma suposição muito plausível — concordou Ron.
Larry
levantou o braço em sinal de protesto.
— A não
ser que a gente se esqueça de que existam pilotos que executem um
hipersalto de transição sem errar um metro e se aproximem a três
quilômetros, por exemplo, de superfície de um planeta, fazendo uso
de uma velocidade relativamente moderada. Existe gente assim. Nossa
frota tem alguns deles.
Ron
concordou.
— Muito
bem. Então se deveria perceber a distorção estrutural que surge
cada vez que uma espaçonave entra em transição ou sai dela, não
é?
— Naturalmente
— disse Larry. — Eu queria perguntar a respeito disso. O que há,
então, com o rastreamento estrutural? Será que no mesmo momento em
que... digamos assim, os sinais falsos se manifestam, se constataria
um abalo estrutural?
Ron
começou a rir de repente.
— Agora,
vem a surpresa — disse ele. — Os dois chamados sinais falsos
estão separados um do outro por quatorze dias de Passa. Um foi de
madrugada e o outro na hora do crepúsculo.
Ficou
olhando para Larry, que indagou irônico:
— E
então?
— Nas
duas vezes, passou bem rente à superfície de Passa, no mesmo
momento em que entrava o sinal falso, um supercargueiro em direção
à Terra.
*
* *
Quando o
grande sol vermelho ia bem alto no firmamento, Lofty já estava
pronto para dar uma saída com Ron, a fim de estudar a redondeza.
Lofty recebeu uma pistola de raios térmicos, cuja posse o deixou
orgulhoso. Foi difícil convencê-lo de que devia guardá-la na
cintura. Ron se armou do mesmo modo, levando também o instrumento a
que deu o nome de raios psíquicos.
Estavam
assim certos de que as sem-preverdes nada poderiam contra eles. Dos
saltadores não tinham medo, pois, se suas suposições estavam
certas — isto é, de que os dois rebates falsos da estação de
rastreamento do Major Bushnell representavam as duas espaçonaves dos
saltadores que fizeram uma aterrissagem infeliz em Passa — então
tais espaçonaves deveriam ser procuradas entre as montanhas do
oeste. Ron não podia aceitar que os saltadores operassem abertamente
entre as sempre-verdes. Certamente se manteriam ocultos nos
bastidores e se contentavam em influenciar os nativos pela sua
criação maravilhosa: o deus Sssst.
O primeiro
cuidado de Ron foi verificar se a região era mesmo tão rica em
grutas para merecer o nome de “cavernas
de...”
Julgava que isto fosse uma tarefa sem nenhum perigo e fácil. Foi, no
entanto, bem diferente do que pensava, mas isto ele não podia mesmo
saber, na hora em que partiu com Lofty.
Com um
pequeno aparelho de rádio, estavam em permanente contato com Larry
Randall, que ficou no local da aterrissagem para vigiar o deslizador.
Ron explicara, no entanto, que a ligação de rádio só seria
utilizada em caso de extrema necessidade, pois, se houvesse
saltadores pela região, estes haveriam de usar certamente aparelhos
semelhantes e descobririam as manobras dos terranos.
Lofty, a
princípio, tomou a direção do noroeste, por ser o terreno mais
acidentado. Com uma agilidade espantosa — e Ron admirou-se — o
velho colonizador ia rompendo caminho no denso emaranhado da
vegetação de vidro e deixando, nos lugares em que Ron não
conseguia passar sozinho, uma abertura suficiente para o major,
afastando galhos e troncos com uma musculatura que fazia inveja a
muito jovem atleta.
Com o
auxílio e a técnica do velho Lofty, caminhavam muito mais depressa
do que Ron imaginara. Sobre suas cabeças, o sol vermelho parecia um
anão em comparação com o astro de um azul-claro, que era realmente
o verdadeiro sol de Passa. As ramagens e troncos da floresta, embora
de uma substância vítrea e transparente, reduziam uma boa parte da
luminosidade já fraca por si mesma. No interior da mata virgem
reinava um quase crepúsculo, onde seria difícil ler um jornal. A
tudo isto ainda acrescia o fato de que a luz vermelha, depois de
varar a copa da floresta, se dividia em milhares de reflexos nos
troncos e galhos lisos e espelhados. Ron via em torno de si, pouco
mais do que um cintilar confuso, que não permitia enxergar os
detalhes e cansava muito os olhos.
Lofty
estacou de repente. Ron, que no momento estava dando um galeio para
atravessar um emaranhado de galhos mais finos, não reparou logo e se
chocou contra as costas estreitas de Lofty. A reação do velho foi
instantânea e maravilhosa. Virou o corpo para o lado e, agarrando-se
firme com as duas mãos num tronco, deu um solavanco tão forte para
trás que acabou atropelando Ron, por um triz quase o atirando de
costas no chão.
Ron soltou
um palavrão, mas Lofty virou-se para trás, levantou a mão e a
comprimiu contra os lábios de Ron. Este finalmente compreendeu que
havia acontecido alguma coisa importante. Acalmou-se na mesma hora e
tirou a mão de seu parceiro de sua boca.
Lofty, no
maior silêncio, apontava para algo à sua frente, atrás de um
tronco caído. Ron olhou por sobre seus ombros. A princípio não viu
outra coisa a não ser aquela terrível reverberação de reflexos e,
dentro dela, uma cavidade escura que era uma parte do solo da mata,
sem maior vegetação. Aos poucos, a cavidade foi se delineando mais
nítida. Percebeu que era um animal do tamanho de uma ratazana. E
depois que seus olhos se adaptaram à escuridão, viu que não era um
animal inteiro, mas só pela metade. Faltava-lhe a parte traseira,
mas o animal se movia mesmo assim.
Era uma
cena horripilante. Ron se inclinou para frente para ver melhor, até
que Lofty o deteve. Observou a ratazana pela metade e reparou que o
que a punha em movimento era uma multidão de besouros pretos, do
tamanho de um polegar. Também não moviam a ratazana propriamente,
devoravam-na. Devoravam o cadáver com tanta sofreguidão que dava a
impressão de que o infeliz animal se arrastava para algum lugar,
diminuindo sempre mais a parte visível de seu corpo.
Ron
compreendeu, então, a razão do susto de Lofty. Se tivesse dado
apenas um passo adiante, teria metido o pé exatamente no meio da
infinidade de besouros. E pela voracidade com que atacavam a
ratazana, seria fácil supor que levariam poucos segundos para
penetrarem na bota plástica do velho e atingirem sua carne.
Aparentemente,
eram também muito sensíveis a qualquer ruído. Quando Ron estacou e
levantou o pé, devem ter percebido alguma coisa, pois ficaram
imediatamente parados. Dois ou três deles se viraram para a direção
de onde veio o ruído. Passado algum tempo, talvez por não escutarem
outro barulho, continuaram com seu fúnebre banquete.
Ron não
agüentava mais de nojo. Sacou vagarosamente da arma de raios
psíquicos e a apontou para o amontoado dos escaravelhos. No momento
em que apertou o gatilho, cessaram todos os movimentos. Alguns deram
um salto para o alto, caindo de costas e permanecendo inertes.
Formidável!
Uma dose energética que tinha por finalidade levar um ser
inteligente a submeter sua vontade ao poder de outrem, fora
suficiente para destruir os diminutos cérebros dos besouros.
— O pior
não é a dor que se sente por sua picada — explicava Lofty, em voz
baixa. — Não podendo devorar tão depressa com seus dentes ou
coisa semelhante, injetam na vítima um líquido que dissolve as
moléculas, de modo que lhes basta apenas sugá-las. Este líquido é
terrivelmente venenoso ao entrar na circulação sangüínea.
Ron se
sentia intimamente arrasado naquele instante. Compreendeu quanta
besteira teria feito se não tivesse Lofty ao seu lado. Ali, por
exemplo, teria simplesmente dado um pontapé no montão de besouros.
Ao continuarem a marcha, Ron se propôs ser mais cauteloso.
O terreno
começou a subir de repente e bem fortemente. Por qualquer motivo
ainda misterioso para eles, as árvores de vidro cresciam ali um
pouco afastadas umas das outras e, apesar do terreno íngreme, os
dois homens caminhavam mais rapidamente. De repente, Lofty parou
novamente.
Ron viu
admirado que estavam numa clareira arredondada e imediatamente se
lembrou de que, quando sobrevoaram o trecho, não viram essa tal
clareira! Olhou para cima e constatou que as árvores de vidro de
todos os lados se inclinavam para a clareira e se uniam no seu centro
formando uma verdadeira cobertura, tão densa como em outros lugares.
Alguns dos troncos que desta forma escondiam a clareira, estavam do
lado esquerdo, a poucos metros acima de uma saliência rochosa. Ron
examinou melhor o rochedo, descobrindo que no seu centro havia uma
cavidade escura de dois metros de largura e outro tanto de fundura.
Estavam, pois, diante da entrada de uma caverna. Uma das cavernas que
procuravam. Ron queria passar na frente de Lofty para olhar de perto
a entrada. O velho esticou os braços, não permitindo que Ron fosse
avante.
— Devagar!
Não sabemos o que há lá dentro.
Inclinou-se
e examinou o chão com cuidado, antes de pegar umas pedras pequenas e
atirá-las no buraco escuro. Ron ouviu quando as pedras bateram lá
dentro contra as paredes. Fora deste ruído, não ouviram mais nada.
— Ótimo
— disse Lofty, contente. — E agora, aí do lugar onde você está,
jogue um jato de luz bem forte para dentro da caverna. Se não sair
nada lá de dentro, arrastando-se ou voando, então estamos mais ou
menos certos de que não há nada em seu interior.
Ron seguiu
suas instruções. Ligou a lanterna e projetou os raios fortes contra
a entrada da caverna. Viu muitas saliências e paredes enviesadas que
brilhavam no reflexo da luz. Viu também que os raios luminosos se
perdiam mais para baixo na escuridão, sem atingir o fim da caverna.
Mas não viu nada das coisas que Lofty temia. A caverna estava vazia.
— Bem —
disse o velho — agora o senhor pode entrar. O que pretende lá
embaixo?
Ele mesmo
não sabia. Esperara simplesmente encontrar cavernas nesta região.
Algum mistério, o mistério do ídolo Sssst, estava ligado às
cavernas. A melhor maneira de desvendar o esquisito mistério seria
penetrar nas cavernas e vê-las com os próprios olhos. Seria um bom
motivo.
Porém Ron
sentia que algo estranho o atraía para o âmago da caverna, com
força mágica, de tal modo que seus passos para a escuridão não
eram totalmente livres. E uma situação desta, não gostaria de
confessar a Lofty.
O velho o
seguiu de perto. Depois de ver que a caverna estava vazia, não teve
mais receio. Caminhava rápido, olhando tudo em volta.
Penetraram,
talvez, dez metros nas galerias, antes de acender a lâmpada pela
segunda vez e dirigi-la para o fundo da caverna. O fim parecia muito
longe para que o jato de luz pudesse atingi-lo. Continuaram
caminhando. As paredes, feitas de rocha lisa e às vezes gotejantes,
não apresentavam nada de extraordinário. Estranho era apenas o
encanto mágico que emanava do fundo daquela gruta. Ron parou e olhou
para Lofty. O velho parecia contente e curioso ao mesmo tempo.
Provavelmente não sentia o encanto especial que o atraía. Isto não
agradava a Ron.
“Por
que que o velho não sente nada?”,
perguntava ele a si mesmo. “Será
que somente eu é que estou sujeito a isto?”
Neste
momento, se ouviu a voz de Lofty:
— Creio
que podemos voltar. Não vamos achar nada por aqui.
Ron fez
grande esforço para dominar sua ira.
— Quem
manda aqui sou eu, Lofty. Não se esqueça disso.
O velho
olhou-o espantado, mudando logo a expressão do rosto. Desapareceram
as rugas amigas e joviais, surgindo uma carranca de escárnio e de
cólera.
— Você
acha, é? — respondeu Lofty, com azedume. — Então continue
sozinho. Quanto a mim, volto daqui mesmo. E mais tarde, quando
estiver se arrastando sozinho pelas florestas, não se esqueça dos
meus conselhos, de nenhum deles, senão poderá acontecer que...
Fez um
gesto vago para indicar o que poderia acontecer.
— É
aqui que se manifesta o malandro! — exclamou Ron. — Abandonar-me
sozinho aqui, hein? — sacou da arma. — Não, meu caro, comigo,
não. Você tem que ficar até o fim.
Alguma
coisa no olhar de Lofty chamou a atenção de Ron. O velho não
parecia nada preocupado com a arma engatilhada. Olhou um ponto às
costas de Ron, como se algo de novo surgisse naquele instante no
fundo da caverna.
Ron caiu
no velhíssimo truque...
Virou-se
para trás e, no mesmo momento, se arrependeu amargamente, pois, com
um fantástico galeio, o velho se lançou sobre ele. Uma forte
pancada com a coronha da arma de raios térmicos atingiu Ron na
cabeça, jogando-o ao chão. Bateu com o ombro contra a rocha e a dor
do choque o deixou mais irritado.
Lofty fora
muito rápido. Através de um véu de mal-estar e de dor, Ron o viu
bem perto, quando com os braços erguidos e os punhos cerrados voava
contra ele. Rápido, Ron esquivou-se, corpo de lado. Lofty foi de
encontro à rocha, soltando um berro assustador.
Ron ainda
estava muito lento. Seus punhos cerrados não pareceram modificar
muito a iniciativa do velho, que agora martelava a cabeça de Ron.
Simultaneamente, Lofty levantou o joelho direito e seu adversário,
que, com os socos na cabeça se inclinava para frente, recebeu uma
violenta joelhada na boca do estômago.
Rolou de
novo no chão, mas desta vez sua cólera atingiu tal ponto que dores
e mal-estar não significavam mais nada. Num piscar de olho, pôs-se
de pé e se atirou como um bólide contra Lofty. Dentro dele, em
algum ponto de seu subconsciente, uma voz tentava lhe tornar claro
que tudo aquilo era uma loucura; que ele, realmente, não tinha
motivos para odiar Lofty, muito menos para agredi-lo daquela maneira;
que Lofty também nada tinha contra ele e que os dois se comportavam
como doidos.
Porém não
quis ouvir voz nenhuma. Estava em plena luta e, naquele ímpeto
maluco, atirou o velho no chão. Ouviu quando o coitado soltou um
grito de dor aguda e, meio segundo depois, também ele ia de encontro
à parede de pedra, batendo forte com a cabeça. Desta vez, achou que
bastava para ele. Com a cabeça estalando de dor e um enorme galo na
testa, caiu ajoelhado e perdeu os sentidos.
6
“Triunfo,
ó Altíssimo, eterna alegria entre vossos filhos. Mais três vítimas
vos trazemos em holocausto e esperamos que nossa fidelidade seja
recompensada, pois as vítimas eram reis entre os seus. Vossa graça
voltou a nos proteger, e nós vos bendizemos, Ayaa-Oooy!”
Larry
fazia um enorme esforço para recompor o confuso mosaico das ações
em seus pensamentos. Tinha que ajuntar peça por peça para ver se
dava sentido. Fazia isto com os olhos fechados. Havia algo dentro
dele que o levava a querer continuar de olhos fechados, a fim de não
ver o ambiente em volta. Não tinha nenhum motivo para se submeter a
este desejo.
Sentara-se
ao lado do deslizador e estava contemplando a floresta avermelhada, a
misteriosa reverberação naquela vegetação transparente e
brilhante. Com isso, veio-lhe o pensamento se não se podia
transformar Passa num planeta de alto turismo, a fim de que os
terranos milionários pudessem ali passar suas férias de uma maneira
bem extravagante e mesmo exótica. Estava até ficando meio filósofo.
Começou a refletir que a Terra, ainda há duzentos anos, nem sabia o
que era ainda um avião. Uma viagem para as estrelas era considerada
impossível e uns poucos que pensavam nisto eram chamados de doidos.
Setenta
anos mais tarde, há cento e trinta anos, portanto, Perry Rhodan
fizera sua estréia nos fastos da História e, daí para cá, as
coisas se mudaram rapidamente. Agora, a Terra estava tão evoluída
que tinha de proteger suas colônias espaciais da ganância de hordas
de aventureiros inescrupulosos. Não só as colônias, como
principalmente seus habitantes primitivos.
Larry se
lembrara de que, repentinamente, um ódio esquisito contra os
terranos se apossara dele, embora ele mesmo fosse um deles.
“Que
fizeram mesmo os terranos?”,
pensou, questionando-se. “Dispararam
pelas Galáxias a fora em suas naves mais velozes que a luz,
subjugando um planeta depois do outro. Não deixaram aos seus
habitantes primitivos a menor chance de levar uma vida própria. Será
esta uma raça digna, merecedora do nosso respeito? Não e nunca!”
O ódio de
Larry tomava proporções assustadoras. Seria agora capaz de
assassinar Ron ou Lofty se estivessem presentes. Mas o deslizador era
de qualquer forma um produto terrano, da técnica terrana, o único
objeto em que podia descarregar seu ódio concentrado.
Recordou-se
também de que, vez por outra, e por curtos momentos, tinha a
impressão de estar louco, principalmente quando, com a coronha de
sua arma, se abateu contra o aparelho e começou a quebrar o painel
de comandos. Arrancou botões e alavancas, até que, mexendo nos
fios, levou um bom choque. Suas loucuras pararam por aí.
*
* *
“Que
besteira andei fazendo?”,
pensou ele. “Como
cheguei a esta idéia maluca?”
Queria
virar-se de lado, mas não conseguia. Seus ombros esbarravam em algo
duro que não cedia. Começou então a se interessar por saber onde
estava. E aos poucos, sua curiosidade venceu o desejo de não querer
ver nada do que o cercava.
Abriu os
olhos.
A primeira
coisa que sentiu foi uma luz amarelada e muito forte que o ofuscou.
Fechou-os de novo, abrindo apenas um nadazinho para se habituar com a
intensa claridade. A segunda coisa que notou foi que o ar em volta
dele exalava perfumes muito agradáveis, que aliás lhe pareciam
conhecidos. Mas no estado em que estava sua mente, precisou de algum
tempo para se lembrar de que as peles das sempre-verdes também
tinham este cheiro.
Estava num
local que, a julgar pela dureza, devia ser um chão de pedra. Caso se
levantasse, haveria de ver mais do que aquela claridade ofuscante.
Portanto, resolveu se levantar.
O que viu,
então, não era tão tranqüilo como a luz forte e tão agradável
ou como o odor dos perfumes de Passa. Viu uma galeria de dimensões
exageradas, em cuja parede lateral estivera deitado. O chão desta
galeria estava coalhado de, pelo menos, mil figuras, cuja situação
certamente não era melhor do que a dele. A grande maioria estava
deitada quieta, com os olhos fixos no teto, que distava no mínimo
oito metros do chão. Alguns se apoiavam nos cotovelos, mostrando
muito pouco interesse no que lhes ia em derredor.
Finalmente,
lá estavam dois de pé, perto um do outro, apoiados numa parede,
dando a impressão de estarem conversando!
Larry não
reconheceu ninguém, que ali estava deitado ou apoiado nos cotovelos.
Sentia-se, porém, certo de que se tratava dos homens, ou pelo menos
de uma parte deles, que as sempre-verdes aprisionaram ou
seqüestraram. Inclusive aqueles cuja expedição punitiva contra as
serpentes fracassara de uma maneira tão surpreendente. Os dois,
entretanto, que, encostados na parede, conversavam entre si, eram Ron
Landry e Lofty Patterson.
Ao
reconhecê-los, Larry fez um grande esforço, se levantou e foi até
eles. Um homem, no meio de milhares totalmente parados, que de
repente se levantasse e fosse para qualquer lugar, daria muito na
vista no meio daquela quase letargia. Ron e Lofty interromperam a
conversa e olharam para Larry que imediatamente notou a admiração e
o horror no rosto deles.
Compreendeu
o que pensavam. Caíram de qualquer maneira nas mãos das serpentes
ou dos saltadores. Não sabiam que ele estava nesta galeria. Não
conseguiram achá-lo no meio daquela multidão. Estavam até
esperando que Larry poderia vir socorrê-los com o deslizador. E
agora, achava-se ele aí, também prisioneiro.
— Sinto
muito — foi a primeira coisa que Larry disse. — Mas parece que
eles também me apanharam.
Ron
pediu-lhe para contar o que se passara com ele e ouviu tudo com muita
atenção. Terminando, virou-se para Lofty e explicou:
— O
mesmo efeito, está vendo? Ficou irritado de repente e não sabe por
quê.
Lofty
abaixou a cabeça e disse meio envergonhado:
— E nós,
tivemos que fazer um grande esforço para um quebrar a cabeça do
outro.
Com poucas
palavras, Ron explicou como achara a caverna e o que aconteceu
depois. Larry estava cada vez mais horrorizado. Era inegável que
alguém estava usando consciente e com muita eficácia uma arma
completamente nova — arma cuja atuação consistia em fazer com que
homens ficassem tão encolerizados uns com os outros ou contra
objetos, que eram dominados totalmente, perdendo sua própria
personalidade, fazendo coisas contra sua própria vontade.
Larry
encarou Ron.
— Quem
está por trás disso? — perguntou friamente.
Ron já
estava esperando a pergunta.
— Não
sabemos — mas logo depois se corrigiu: — Ainda não.
Larry ia
perguntar mais alguma coisa, mas neste instante originou-se um
movimento qualquer na outra extremidade da galeria. Larry percebeu os
vultos de três sempre-verdes que vinham pulando para o recinto onde
jaziam centenas e mais centenas de seres apáticos estirados no chão.
Não se sabia o motivo por que e de onde vinham as serpentes. Em
ponto nenhum da longa galeria parecia haver alguma entrada ou saída.
De qualquer maneira, a visão das serpentes quebrou a apatia e o
estado quase de letargia dos prisioneiros terranos. Começaram a
gritar desesperados, procurando fugir delas. Larry sentia até nojo,
pois o quadro era mesmo horrível. Queria correr para lá, deter a
fuga dos homens assustados e lhes dizer que não passavam de
miseráveis covardes, fugindo de três serpentes. Mas não tinha dado
ainda o primeiro passo, quando sentiu uma mão forte em seu ombro.
— Calma,
meu jovem — disse Ron, com voz extremamente baixa. — Isto não
tem sentido. Em qualquer lugar por aí estão muito mais serpentes do
que podemos imaginar. E apalpe agora a sua cintura.
A mão de
Larry desceu para o local da arma e não encontrou nada.
Como ia se
mostrando um homem imprudente! Naturalmente que não se esqueceram de
desarmá-los, antes de trazê-los para cá.
Ron tinha
razão. Não podiam fazer nada contra as serpentes, pelo menos por
enquanto.
As três
sempre-verdes, com seus pinotes desajeitados, alcançaram a última
fila dos fugitivos, quando a primeira deles atingiu as paredes da
caverna e a fuga foi chegando ao fim. Larry viu como uma das
serpentes pegou um terrano, com dois de seus braços, e carregando-o
acima das cabeças dos prisioneiros, deu meia-volta e regressou.
A cena foi
tão rápida que Larry só compreendeu o que se passou, depois que as
serpentes haviam penetrado na parede da galeria, onde ninguém
supunha uma saída.
Estavam
carregando suas vítimas, vítimas para deuses assassinos e
desumanos.
Os três
prisioneiros nas garras das serpentes pareciam não ignorar seu
destino. Gritavam tão alto que abafavam o vozerio que enchia a
galeria. Larry viu como os coitados esperneavam e se debatiam.
Viu-lhes os rostos vermelhos da força que faziam e do medo que lhes
ia na alma. Ouviu os gritos dos últimos quando penetravam na saída
invisível.
*
* *
Depois
deste incidente, não sobrou mais nada da calma e do autodomínio de
Larry. Estava disposto a enforcar com suas mãos as serpentes e
aqueles que as induziam a cometer tais crimes.
Lofty
voltara a si e suas rugas não tinham mais a jovialidade de sempre.
Quando alguém falava com ele, não respondia nada. Ron era o único
que ainda estava em condições de pensar friamente, de ter os
pensamentos necessários para o momento. Constatou que a multidão
dos prisioneiros voltara de novo para a grande galeria, espalhando-se
por igual naquele amplo recinto. Os homens tornaram a se deitar.
Parece que já haviam esquecido o tétrico acontecimento. Felizes por
não terem sido pegos, mergulharam de novo na costumeira apatia.
Ron sabia
de onde provinha esta apatia. Sabia também o que havia de encontrar
se tentasse agora procurar uma saída ao longo das paredes da
galeria. Nada. Ou melhor, a mesma coisa que todos estes homens
acharam, cada um por si, ou em grupos: Não havia nenhuma saída.
Pelo menos, nenhuma saída que pudesse ser aberta por dentro. Não
restava a menor dúvida de que lá fora existia um grande número de
serpentes, para evitar qualquer tentativa de fuga.
Havia
ainda mais um argumento que contribuía para aumentar o estado
desesperador em que se achavam: Esta galeria se encontrava em algum
lugar no centro do denso emaranhado da floresta de vidro. A orla da
floresta do lado do oeste distava pelo menos quinhentos quilômetros
da cidade mais próxima. Portanto, estavam com mais de mil
quilômetros de isolamento. Quem iria tentar uma marcha destas
dimensões?
Se, apesar
de tudo, Ron começou a investigar as paredes da galeria, ele o fez
primeiro porque já se sentia mais confiante nos próprios olhos, que
aliás já estavam bem treinados, e segundo porque estava convencido
de que era sempre melhor fazer uma coisa sem sentido, do que ficar
parado por ali e cair naquela modorra letárgica.
Continuou,
pois, caminhando. A galeria teria, talvez, uns cem metros de
comprimento e mais ou menos a metade na largura. Tinha, portanto, que
percorrer ainda um bom trecho.
Deixou
Larry e Lofty para trás, que provavelmente não teriam nenhuma
vontade de acompanhá-lo.
Logo após
os primeiros passos, percebeu para que este giro lhe ia servir:
poderia refletir mais calmamente sem ser perturbado pelas lamúrias
irritantes de Larry ou pela cara triste de Lofty. Havia mesmo umas
tantas coisas, sobre as quais devia pensar melhor.
Uma delas
estava logo na sua frente: era a iluminação da galeria. No teto
estava afixada uma séria de lâmpadas de vidro comum. Notava-se que
foram ali colocadas às pressas. Algumas estavam até tortas. Os fios
corriam um trecho na rocha bruta e desapareciam então em algum
buraco.
Mas, por
mais apressadamente que tivessem sido ali colocadas, uma coisa era
insofismável: as sempre-verdes não conheciam nenhum tipo de
iluminação elétrica, nem instalada com capricho, nem às pressas.
Aquelas lâmpadas eram, pois, a primeira prova de que os saltadores
estavam com os dedos no jogo de Passa.
Outra
prova eram as saídas que abriam e fechavam sem o menor ruído, sem
que ninguém tivesse que mexer em trincos ou apertar botões. Também
isto era dos saltadores. Foram eles, naturalmente, que construíram
este campo subterrâneo de prisioneiros.
Por quê?
Por que iriam se preocupar com o local onde as serpentes escondiam
seus prisioneiros? Por que fazer tanto esforço na construção de um
campo de concentração de prisioneiros à prova de fuga, quando só
se interessavam pelos lucros comerciais que podiam auferir de Passa?
“Nenhuma
resposta, por enquanto”,
pensou Ron. “Para
isto sei ainda muito pouco.”
Mais
ainda: Lofty Patterson havia depreendido da mensagem dos tambores das
sempre-verdes que elas pretendiam aplacar a fúria de seu deus porque
o número de vítimas que lhe era oferecido em holocausto contínuo
havia diminuído. E aqui estavam mais de mil delas e todos na galeria
sabiam que os três, que eram levados a cada noventa minutos, iriam
ser imolados instantes depois no altar do deus insaciável.
Será que
mil vítimas lhe eram pouco? Que monstro seria este deus?
Também
nenhuma resposta.
Havia uma
terceira pergunta, sobre a qual Ron já pensara bastante e que tinha
ainda de deixar sem resposta: Como foi que as serpentes descobriram
tão depressa sua pequena expedição? O repentino acesso de loucura
de Larry e mais ainda a briga estúpida em que ele mesmo se empenhara
com Lofty, deixando-os inconscientes, voltando a si somente mais
tarde, já nesta galeria — tudo isso indicava claramente que elas
estavam esperando o momento propício para aprisioná-los.
Como foi
que as sempre-verdes os descobriram? E, caso as serpentes não
tivessem tomado parte em nada disso, como é que os saltadores se
arranjaram nesta solidão de florestas e de montanhas?
Existia
mais uma coisa que preocupava Ron, durante sua caminhada: Os
saltadores deviam saber que a Terra não ficaria impassível perante
esta matança sem sentido dos seus colonizadores. O respeito dos
terranos para com a alma sensível dos nativos tinha obviamente seus
limites. O misticismo sangrento provocado pelos saltadores em torno
do deus das serpentes havia há muito ultrapassado as raias do crime.
Deviam estar conscientes de que, mais cedo ou mais tarde, teriam de
se haver com a frota terrana e que a rivalidade comercial viraria
guerra total. Uma guerra na qual os saltadores haveriam
infalivelmente de perder para sempre o precioso mundo de Passa.
Por que
razões enveredavam por tais caminhos? Por que não apelavam para um
de seus costumeiros truques inescrupulosos, onde não acontecessem
assassinatos, a fim de abocanharem uma parte dos lucros de Passa?
Ron
julgava saber as respostas para estas indagações. Eram por demais
óbvias e evidentes para lhe causar pânico.
Os
saltadores teriam encenado todo este aparato na intenção de obrigar
a Terra a uma guerra circunscrita ao planeta. Sendo isto verdade,
deviam ter já um grande trunfo nas mãos, o que os fazia crer numa
vitória fácil. Agora, que trunfo era este?
Ron
quebrava inutilmente a cabeça a respeito.
Porém,
agora estava convencido de que a situação era bem mais séria do
que podia imaginar, há poucas horas atrás.
7
“Queremos
vos prestar uma grande homenagem, ó incomparável Senhor! Queremos
vos ofertar três príncipes das trevas para que permaneçais para
sempre conosco, pois reconheceis a fidelidade de vossos filhos e os
protegeis de todos os perigos, Ayaa-Oooy.”
Durante
dois longos dias, não conseguiram melhor resultado do que ouvir da
boca de dois ou três colegas prisioneiros a frase de completa
apatia: “—
Ah! Deixe-nos em paz.”
Assim, o
esforço de Ron e de seus dois companheiros para estimular a vontade
de reação daquela multidão foi quase inútil.
Voltava,
pois, de seu giro, sem muito sucesso. É verdade que achara o ponto
em que as sempre-verdes entravam a saíam. Mas nem tentou abrir esta
passagem. Sabia que não iria dar resultado.
A vida na
galeria era a própria monotonia. Cada hora e meia, surgiam as
serpentes para apanharem três vítimas. Duas vezes no período de
vinte horas apareceu um grupo maior delas arrastando alguns tonéis
cheios de comida — a massa pastosa e sem sabor nenhum — e também
água. Os prisioneiros quase não ligavam à comida, não tinham fome
e o alimento que se lhes apresentava era tudo, menos gostoso.
Evidentemente
que aquela caverna no fundo da rocha não dispunha de instalações
sanitárias. Conseqüência: o ar se encheu aos poucos de uma
fedentina tão forte, que nem se sentia mais o suave perfume das
peles das sempre-verdes, quando entravam. Ron estava preocupado com
que a falta de higiene gerasse doença, e procurava alertar outros
colegas a respeito. Mas, para quase todos eles, era a mesma coisa
morrer no altar do falso deus ou perder a vida pela febre tifóide.
Assim era
a situação, quando Ron conferiu o relógio e viu que eram passadas
quinze horas desde seu despertar do estado de inconsciência.
Constatou que a apatia geral também estava tomando conta dele.
Reconheceu igualmente que Larry e Lofty deviam estar com a mesma
disposição de espírito. Não mais conversavam. Para quê? Era tudo
inútil. Podia-se ver nas suas fisionomias como se deviam sentir.
Ron
percebeu que tinha de acontecer algo diferente, para que o estado de
apatia geral sumisse. Chegou mesmo a convencer-se de que seria melhor
fazer qualquer coisa, mesmo ilógica, do que ficar ali deitado
naquele marasmo, contemplando o teto da galeria e deixando-se dominar
por aquela letargia.
Aos poucos
se cristalizou um plano em sua mente. Plano que merecia só um
adjetivo — plano mortal. Mas era suficientemente convincente para
entusiasmar Larry e Lofty, pois, por mais arriscado que fosse, tinha
uma alternativa. Deixava uma opção. E esta escolha era: Ou nós, ou
os saltadores.
*
* *
Ron olhou
para o relógio.
As
sempre-verdes não eram muito pontuais. Às vezes, chegavam um pouco
antes da hora e meia, outras, atrasavam-se alguns minutos. Desta vez,
optaram pela segunda “modalidade”.
Para os
que aguardavam aquele momento, era sempre o mesmo sofrimento.
Ron
refletiu sobre o que ia dizer. Mas não se lembrou de nada novo.
— Abram
os olhos e não deixem escapar nenhuma oportunidade — foi tudo o
que conseguiu dizer, pois não sabia conselhos melhores.
“Haveremos
de conseguir de qualquer maneira”,
refletiu ele, tentando com isto afastar os pensamentos negativos.
Uma leve
vibração do solo veio desviá-lo de suas divagações.
Olhou
imediatamente para a passagem larga e de pouca iluminação no
paredão da galeria, por onde entravam as três sempre-verdes, com os
braços já levantados, o par inferior para manter o equilíbrio nos
saltos de locomoção, o superior para agarrar as vítimas.
A gritaria
frenética se repetiu em toda a galeria. Homens se erguiam do chão e
disparavam como loucos. Ron também se levantou, vendo de esguelha
que Larry e Lofty também se ergueram, viraram-se e começaram a
correr.
Ron notou
como era difícil fingir que estava correndo de alguma coisa, como se
quisesse escapar. No começo, fez um grande esforço. Mas mesmo
assim, com poucos passos, já havia atingido a última fila dos que
fugiam, e exatamente isto é que não queria. Tentou andar mais
devagar e deu uma olhada para as sempre-verdes, que não modificaram
sua velocidade, continuando com seus saltos no mesmo ritmo,
apoiando-se na cauda musculosa. Sabiam que, mesmo sem se apressar,
apanhariam o que desejavam.
Num assomo
de ódio, Ron corrigiu a direção de sua fuga, virando um pouco para
a direita, pois reparou que atrás dele não vinha nenhuma serpente.
Por uns segundos, olhou o que se passava com Larry e Lofty. Viu
somente Larry, que também corria de uma sempre-verde, a uns cinco
metros dele. Ron viu quando tropeçou e caiu no chão, sendo apanhado
na mesma hora pelos braços superiores da serpente e levantado quase
à altura de sua cabeça.
Era este o
modo de agir, simples e sem chamar a atenção de ninguém. Ron
prendeu o pé direito atrás do esquerdo e tombou. Rolou um pouco
para frente, como se quisesse escapar das garras da serpente. Mas
finalmente respirou tranqüilo, quando viu que os dois braços
esverdeados se abaixaram para o pegar.
Começou a
gritar, como fora combinado. Larry também fez a mesma coisa. Usaram
toda a força do pulmão para, com seus berros, abafarem todo o
barulho da galeria. Esperneavam e se debatiam freneticamente, como
haviam feito até agora as demais vítimas.
Ron deu
uma olhada para o lado, à procura da terceira serpente. Estava
correndo atrás do prisioneiro que tentara fugir e só agora se
abatera sobre ele. Lofty fora bem calmo e inteligente para se deixar
prender, sem omitir o falso aparato combinado. Gritava e esperneava
como todos.
As
serpentes os levaram para fora da galeria. Sua gritaria mudou de
ressonância, quando lá fora entraram num corredor semi-iluminado e
o som se quebrou no corpo flácido da multidão de serpentes que ali
jaziam para garantir qualquer eventualidade. Eram pelo menos
duzentas, conforme os cálculos de Ron. A situação era mais ou
menos como ele imaginara. Estavam de sentinela ali fora para cortar
pela raiz qualquer tentativa de fuga.
Através
deste corredor, as serpentes iam saltitando com suas vítimas na
direção de uma espécie de câmara. Ron, que ainda continuava
gritando, podia perceber de onde vinha aquela iluminação fraca e
amarelada. Nos paredões da câmara pendiam tochas bruxuleantes. Os
saltadores não se deram ao trabalho de instalar luz elétrica neste
recinto, e as serpentes o iluminaram como costumavam fazer, isto é,
com galhos mais novos das árvores de vidro. A câmara era redonda,
tendo no lado oposto duas saídas escuras, como constatara Ron.
Neste
momento, a sempre-verde que o carregava, se inclinou para frente e o
colocou no chão.
A reação
dele foi imediata. Sabia o que os demais teriam feito numa situação
desta, ao serem depositados no solo. Virou-se e saiu correndo. Usou
de todas as forças de que dispunha e chegou até o corredor alto,
através do qual a serpente o trouxera, até que foi capturado de
novo, erguido no ar e trazido de volta para o mesmo lugar de onde
fugira.
Desta vez
aquietou-se. Parou de gritar e ficou atento ao que estava para
acontecer.
As três
serpentes permaneceram por perto. Formavam um círculo em torno dos
três prisioneiros. Larry, que conforme as instruções recebidas,
depois de ficar parado por uns minutos, tentou uma fuga, foi apanhado
e trazido de volta.
Ron ficou
muito tempo estudando as três serpentes. Enquanto os prisioneiros se
mantinham quietos, elas também se mostravam calmas. Estavam apoiadas
na fina, mas vigorosa cauda verde e, se um ou mais orifícios
existentes na sua cabeçorra de verme eram olhos, deviam então estar
olhando sempre na mesma direção, pois a volumosa cabeça não se
mexia.
Os minutos
iam passando. Lofty começou de novo a gritar e fazia como se
quisesse fugir, deixando assim as serpentes mais atentas. Agiu tal
qual um detento que sabe que vai morrer. Mas o que estava gritando
era bem outra coisa:
— Com os
diabos! Por quanto tempo vamos ainda ficar parados aqui? Por que não
acontece nada?
Ron não
sabia o que responder. Como poderia saber?
De
qualquer modo pareceu que a gritaria de Lofty serviu para alguma
coisa, pois de uma das extremidades do corredor escuro surgiram,
segundos depois, mais duas serpentes. O aroma das peles
intensificou-se.
Não se
podia perceber o que pretendiam estas duas últimas. No par de braços
superior traziam algo muito colorido dando a impressão de ser uma
espécie de tecido. Mas ninguém ignorava que as serpentes nada
entendiam de fiação ou tecelagem. Era um tipo de chita. Ron estava
olhando estupefato aqueles estampados de mau gosto, de um colorido
exagerado, que as duas deixaram no chão. Era um tecido barato,
saído, sem dúvida, de alguma fábrica do Império Arcônida. Era,
pois, mercadoria trazida pelos saltadores. E o que pretendiam as
serpentes com ela?
A resposta
não demorou a vir. Um braço poderoso pegou Ron pelo ombro e o virou
para trás. Outro braço, mais suave que o primeiro, também o pegou.
Num leve escorregar, o tecido lhe caiu pela cabeça abaixo,
escurecendo-lhe a visão por um instante. Quando conseguiu ver,
estava vestido por uma longa túnica, cheia de figuras grotescas.
Olhou para seus dois companheiros, mas com eles acontecera a mesma
coisa.
— Socorro!
— gritava Lofty. — O que fizeram de nós? Transformaram-nos em
palhaços. Quem é que vai acreditar em nós agora?
“Nós
mesmos”,
pensava Ron, cheio de ódio. “Está
tudo muito gozado, mas ninguém tem dúvida de que nos preparam para
nos oferecer aos seus ídolos.”
*
* *
Da câmara
para frente, não foram mais carregados. Tinham que percorrer o
último caminho para a morte com suas próprias forças. As três
sempre-verdes, que os trouxeram até a câmara, continuavam atrás
deles, para evitar qualquer tentativa de fuga. Ron e seus colegas
tinham um passo hesitante, tal qual era de se esperar. O corredor era
estreito e alto, como as serpentes costumavam construir e, além
disso, completamente escuro. A claridade da câmara redonda ficara
para trás. Assim que seus passos tornavam-se lentos demais, as
serpentes vinham acelerá-los um pouco, empurrando as vítimas com
seus fortes braços, até mudarem de ritmo.
Mas não
eram propriamente brutas e Ron lamentava isto, pois o que os três
terranos precisavam era exatamente de uma boa dose de ódio. Contudo
não adiantava nada pensar que as serpentes eram criaturas de bons
sentimentos, com quem seria fácil se entender, se atrás de tudo
estavam os nojentos saltadores. No momento, isto não lhes adiantava
nada; tinham de fugir das serpentes e não diretamente dos
saltadores. E caso se apiedassem delas, mesmo por poucos instantes,
poderiam estar assinando sua, já quase evidente, sentença de morte.
Parecia
não ter fim aquele lúgubre corredor, ainda mais que a escuridão
não permitia fazer cálculos da distância. Ron calculava que já
tinham percorrido um quilômetro, quando ouviram pela primeira vez um
misterioso ruído.
Parecia
vir do fundo da terra. De início, soava como um estranho som de
sino, faltando, porém, o timbre mais grave. Tornou-se fúnebre, pois
enchia o coração dos prisioneiros de um medo primitivo. Pararam
para ouvir, mas as serpentes os empurraram para frente. Cada vez mais
forte, o estranho som.
Um clarão
avermelhado surgiu-lhes na frente, parecendo irromper de um buraco
mais para adiante, no meio da escuridão. Quanto mais caminhavam,
tanto mais nítido ficava o som. Chegaram por fim à conclusão de
que eram sons produzidos por tambores, idênticos aos que já haviam
ouvido antes na floresta.
Lofty
começou a lamuriar-se. Ron já estava esperando isto, pois era o
único entre eles que entendia da linguagem dos tambores.
— Há
grande alegria entre eles, dizem os tambores — gritou Lofty se
contorcendo, como se tivesse uma crise de nervos. — Alegram-se por
este glorioso dia em que vão oferecer a seu deus vítimas tão
preciosas. Estas vítimas somos nós, naturalmente.
Ron fechou
os olhos, depois os abriu bem devagar, tentando descobrir qual era a
origem do clarão avermelhado. Percebeu que a claridade oscilava
muito e chegou à conclusão de que devia tratar-se de tochas
preparadas especialmente para dar um clarão colorido.
O chefe da
malograda expedição recapitulou tudo que observara desde o momento
em que foram carregados para fora da galeria. Se mais para frente,
durante a cerimônia do sacrifício, que sem dúvida se realizaria, e
devia ser dentro de pouco tempo, houvesse uma possibilidade de fuga,
teriam então dois caminhos, por onde tentar a fuga: os dois
corredores que partiam da câmara redonda.
Não
podiam saber, evidentemente, onde iam dar estes corredores. Mas
aquele pelo qual vieram, já estava excluído, pois sabiam que ia dar
onde se encontravam as centenas de serpentes em estado de prontidão.
É claro
que ainda existia a possibilidade de sair uma bifurcação, ali do
ponto de onde vinha o clarão avermelhado. Mas era costume de Ron
estar bem claro quanto a todas as possibilidades, o mais cedo
possível, pois não podia calcular nem planejar coisas de que não
tinha a menor noção.
O clarão
vermelho foi se aproximando. Ron sentiu algo esquisito.
— Fiquem
de olhos abertos! — disse mais uma vez para os dois colegas. — E
se vocês mesmos não notarem nada, fiquem olhando para mim. Está
claro?
— Claro!
— responderam Larry e Lofty quase que juntos.
Foi por
muito tempo a última palavra que trocaram entre si. Poucos passos
depois, terminou o corredor. Ron percebeu, já um pouco antes, que
ele desembocava numa outra galeria, mas muito mais ampla do que a
câmara onde foram tão gaiatamente paramentados para as cerimônias
do sacrifício. Num ponto, porém, se diferenciava essencialmente de
todos os locais que chegara a ver até então: no alto, no teto de
pedra, viam-se aberturas ovaladas distribuídas em espaços iguais,
por onde entrava a claridade do sol.
Um
pensamento percorreu a mente de Ron. Lá em cima estava a liberdade.
As clarabóias ovais eram bem largas para deixar passar um homem de
estatura normal. E uma vez lá em cima, não iriam se preocupar mais
em que galerias havia menos serpentes à sua espera. Mas teve que
desistir da idéia. As aberturas estavam a mais de oito metros acima
do solo. Teriam que subir na cabeça de uma sempre-verde e dali dar
mais um bom salto.
Era uma
coisa praticamente impossível.
O que
provocava a estranha luz vermelha eram as tochas. No meio do grande
recinto, havia um espaço livre, mas em volta dele se comprimiam
tantas serpentes, que Ron chegou a calcular em mais de quinhentas.
Chegou a tremer de medo. Esperava assistentes para a hora do
sacrifício, mas não tanto assim.
No espaço
central livre, havia alguns troncos de árvores de vidro,
cuidadosamente colocados sobre cavaletes. Diante de cada tronco,
estava sentada uma serpente tendo nas garras dois grandes martelos,
que faziam com que os troncos emitissem aquela ressonância monótona
e cavernosa, ouvida pelos prisioneiros há momentos atrás.
Quando as
três vítimas apontaram no fim do corredor, algumas serpentes à
esquerda e à direita das batedoras de tambor, saltaram sobre os
troncos de vidro e, na mesma hora, o som se alterou.
Fora
disso, havia ainda no centro do recinto um quadriculado preto no
chão, aparentemente desenhado com carvão. As tochas vermelhas
enfraqueceram sua luminosidade, atraindo assim magicamente os olhares
de todos. Mas a maior curiosidade das serpentes se convergia para o
quadrado preto no chão, a julgar por suas cabeças inclinadas para
frente.
Lá, onde
o corredor desembocava no grande recinto, os espectadores abriram uma
passagem, ao aparecerem as vítimas. Larry, que caminhava na frente,
hesitou um pouco. Imediatamente se levantou um leve sussurro entre a
assistência e as três sempre-verdes que vinham atrás dos terranos
aplicaram-lhes empurrões mais fortes do que antes, para fazê-los
apressar o passo.
Cambaleantes,
atingiram o centro do recinto. Ron, cheio de curiosidade, queria
examinar o quadrado preto. Mas antes que tivesse se aproximado o
suficiente para ver melhor, uma das serpentes o agarrou pela roupa e
o puxou para trás.
O quadrado
significava alguma coisa muito importante. Ron não tinha dúvida a
respeito. Estremeceu todo, quando uma forte pancada de gongo ecoou
pelo recinto. Na mesma hora, cessou a enervante música dos tambores.
Também não se ouvia mais nada do ininterrupto murmúrio das
sempre-verdes que até então enchia o ar.

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