4
Kalal
sentiu sua aproximação. Não conseguia decifrar seus pensamentos,
pois eles isolavam suas mentes. Apesar disso podia imaginar
perfeitamente quais eram suas intenções. Não eram nada amistosas.
Pararam à
porta, e um deles perguntou:
— Podemos
entrar, venerando senhor?
Foi o
único pensamento que ele deixou passar pelo bloqueio mental. Kalal
compreendeu e esforçou-se para aproveitar a abertura pela qual
passara o pensamento a fim de lançar um olhar ligeiro para os outros
pensamentos que se escondiam atrás do campo de bloqueio.
Mas o
sacerdote que se encontrava do lado de fora se cuidou. Não permitiu
que Kalal percebesse nada.
— Entrem,
amigos — respondeu Kalal, cansado.
No mesmo
instante a porta abriu-se.
Estavam em
cinco. Quem lhe falara fora Argagal, o mais velho dos sacerdotes de
quarto grau que serviam em Utik. Enfileiraram-se junto à porta e
fizeram a mesura regulamentar para Kalal, que não se erguera de sua
confortável poltrona.
— O que
os traz à minha presença, amigos? — perguntou Kalal.
Desta vez
pronunciou as palavras com a voz cansada, em vez de apenas
concebê-las em pensamento.
— Venerando
senhor, nós lhe pedimos que assuma a presidência da assembléia
geral, que já foi convocada — respondeu Argagal.
Kalal
assustou-se.
Então
haviam convocado uma assembléia geral. Para acontecer tal reunião,
uma entre duas formalidades deveria ser observada. Ou teria de ser
convocada pelo sumo sacerdote, que era um sacerdote de segundo grau,
ou então pela totalidade dos sacerdotes de grau inferior, que se
encontravam no estabelecimento templário. Bastava que um desses
sacerdotes de grau inferior se manifestasse contra a convocação
para que a assembléia não se realizasse. Mas se todos estavam de
acordo não havia necessidade de consultar o sumo sacerdote. Nesse
caso a assembléia se realizaria, com ou sem o consentimento do chefe
do templo.
Kalal não
se lembrava de já ter visto uma assembléia que se formasse pela
última das duas maneiras que acabam de ser indicadas. Só mesmo
acontecimentos de importância extraordinária levariam os sacerdotes
graduados e subalternos do templo a um passo como este. Geralmente
solicitavam o consentimento do chefe.
Argagal
não adotara essa providência.
A
assembléia seria realizada, e Kalal não fora consultado.
Kalal
sabia perfeitamente o que significava isso.
Levantou-se.
— Não
vamos perder tempo — disse depois de se recuperar um pouco do
susto, voltando a falar com a voz amável e tranqüila.
Argagal e
os homens que o acompanhavam retiraram-se. Conduziram Kalal pelo
largo corredor principal da pirâmide templária, em direção à
grande sala de reuniões.
Uma vez
chegado à mesma, Kalal dirigiu-se imediatamente ao lugar da
cabeceira da grande mesa; era o lugar do presidente, que lhe cabia.
Passou os olhos pelas fileiras dos subordinados, que se mantinham de
pé atrás das poltronas e o fitavam. Viu que todos haviam
comparecido. Só faltavam aqueles que estavam executando alguma
tarefa.
— Houve
a convocação de uma assembléia — disse Kalal com a voz áspera.
— Queiram informar quem tomou a iniciativa da convocação e qual é
o motivo da mesma.
Com estas
palavras a assembléia foi aberta. Os sacerdotes tomaram lugar nas
poltronas. Um único ficou de pé: Argagal.
— A
proposta partiu de mim, senhor venerando — respondeu com a voz
tranqüila. — O motivo é a situação extremamente perigosa em que
se encontra o templo de Utik. E o perigo tem sua origem no estranho
aparelho que Vossa Eminência usa no peito.
A acusação
acabara de ser pronunciada. Kalal reconheceu imediatamente a sua
chance.
Admirou-se
de que Argagal não tivesse dado uma formulação mais inteligente à
sua primeira frase, que era a mais importante. Se continuasse assim,
a assembléia geral terminaria numa grande repreensão à sua pessoa.
Argagal
sentou-se. Kalal, que presidia a assembléia, não estava obrigado a
levantar-se quando respondeu:
— Tenho
plena consciência do perigo resultante do estranho aparelho. Mas
mesmo que houvesse uma possibilidade de removê-lo não poderia
proceder assim, pois eu o recebi do Baalol supremo, em pessoa.
Olhou em
torno e não ficou muito satisfeito com o que viu. Até então não
havia revelado a ninguém que o ativador provinha das mãos do
Baalol. Sentira-se seguro de que sua resposta removeria todas as
dúvidas, isto é, o aparelho continuaria no mesmo lugar e nada
poderiam fazer contra seu portador.
Mas ao que
parecia isso não acontecera. Os sacerdotes continuavam a fitá-lo
com uma expressão pouco amistosa. Não se sentiram impressionados
com a explicação de Kalal.
— Peço
licença para formular uma suposição, venerável senhor — voltou
a falar Argagal e levantou-se.
Kalal fez
um gesto de assentimento.
— O
Baalol supremo, nosso senhor venerabilíssimo, deve ter-lhe entregue
o aparelho para que ele preencha uma finalidade bem definida. Ao que
tudo indica, o aparelho não está em condições de cumprir essa
finalidade, talvez em virtude de um erro de construção. Em vez
disso produz um efeito totalmente diverso, que representa um perigo
para o culto não só em Utik, mas em toda parte. Tenho certeza de
que, se o Baalol tivesse conhecimento das desgraças que estão sendo
causadas pelo aparelho, modificaria imediatamente sua opinião sobre
a inviolabilidade do mesmo.
O rosto de
Kalal assumiu uma expressão de contrariedade.
— Isso
não passa de suposição gratuita — respondeu em tom zangado. —
Ninguém tem direito de colocar palavras na boca ou idéias na cabeça
de nosso Baalol. Não devemos tomar nenhuma providência antes que o
Baalol supremo se tenha decidido.
Pela
primeira vez uma espécie de sorriso surgiu no rosto de Argagal. Era
um sorriso irônico e sádico.
— Permita
que pergunte, venerável senhor, como o Baalol poderá decidir-se se
não tem conhecimento dos acontecimentos que se verificam por aqui?
— Nós o
avisaremos quando eu julgar conveniente — respondeu Kalal.
— Será
que teremos de esperar que a situação se torne ainda mais perigosa?
— retrucou Argagal.
— Como
se atreve a dar ordens a mim? — berrou Kalal.
— Não
lhe estou dando ordens, venerável senhor — respondeu Argagal com a
maior calma. — Acontece que todos vemos que o venerável senhor
viola um dos maiores princípios de nossa fé, pois coloca seu
bem-estar pessoal acima das exigências da Verdade Absoluta.
Kalal
levantou-se de um salto. Sabia que, caso se conformasse com essa
acusação, estaria perdido.
— Você
pagará por essa mentira, Argagal! — gritou. — Você perderá sua
graduação e terá de recomeçar como sacerdote de décimo grau.
— Não
acredito que isso aconteça — respondeu Argagal. — O venerável
senhor não deu ordens pessoais para que o aparelho fosse destruído
ou removido de seu corpo? Por outro lado, o venerável senhor não
acaba de dizer que o mesmo aparelho é inviolável porque lhe foi
entregue por Baalol em pessoa? Como se explica a contradição? A
mesma não prova de que minha acusação é bem fundada? O venerável
senhor receia por sua vida.
Por alguns
segundos Kalal ficou sem fala. Argagal aproveitou a oportunidade para
prosseguir.
— Não
esperei que o venerável senhor dominasse o medo a ponto de informar
nosso venerabilíssimo Baalol sobre os acontecimentos que se
verificam em Utik. Entrei em contato pessoal com o Baalol e lhe pedi
humildemente que me desse uma ordem cuja execução representasse a
eliminação do perigo que nos ameaça.
Kalal
empalideceu. Então fora por isso que Argagal pudera permitir-se
formular uma acusação tão indisfarçada. Falara com o Baalol e por
certo já recebera suas instruções. E Kalal não teve a menor
dúvida de que o Baalol não hesitaria em sacrificar sua vida, desde
que houvesse o mais leve indício de que a mesma representava um
embaraço para os objetivos e os planos do culto de Baalol.
— Qual
foi a resposta? — perguntou Kalal, que de tanto medo mal conseguia
controlar sua voz.
— O
Baalol supremo — respondeu Argagal com a voz retumbante — acusa-o
de ter sido desobediente, por não tê-lo informado imediatamente, e
deixa a cargo desta assembléia a decisão sobre o que deve ser
feito. Todos sabemos que o aparelho diabólico não pode ser removido
de seu peito, nem destruído enquanto permanece ali. Quer dizer que
continuará a funcionar e a reunir as massas de loucos hipnotizados
em torno do templo. O fato acabará por despertar as atenções da
Galáxia, e teremos de abandonar os nossos planos, que só podem ser
executados em segredo.
“Quer
dizer que o aparelho que o venerável senhor traz no peito terá de
ser reduzido ao silêncio. Para conseguirmos isso, seremos obrigados
a matá-lo. Uma vez que esta é a única solução viável, formulo a
seguinte proposta: o venerável Kalal, acusado de desobediência
grave pelo grande Baalol, será morto para que a estranha influência
por ele irradiada não continue a pôr em perigo os nossos planos.
Peço que a proposta seja submetida à votação.”
Kalal
encolheu-se em sua poltrona. Sentia-se incapaz de pronunciar uma
única palavra. Não pronunciou a fórmula que daria início à
votação. As palavras ditas por Argagal, ao cumprir a formalidade,
pareciam um feio sussurro em seus ouvidos. Só voltou a entendê-las
quando Argagal anunciou com a voz sonora:
— A
decisão foi unânime. O venerável Kalal será morto.
Kalal
levantou-se devagar. Sabia que não lhe dariam muito tempo antes de
cumprir a resolução que acabara de ser tomada. Sua vida estava em
jogo, e Kalal a prezava.
Teria que
defender-se, e jurava pela Grande Verdade que teriam um osso duro
para roer...
Esta
decisão deu-lhe novo ânimo. Seu rosto voltou a colorir-se. Durante
a votação, os sacerdotes se haviam levantado e agora o fitavam com
uma expressão fria. Kalal não teve pressa. Fitou-os um por um, como
se quisesse gravar seus rostos.
— Vocês
não me matarão! — trovejou, depois de algum tempo, a voz do sumo
sacerdote.
E sua
exclamação refletiu toda a cólera que se armazenara em sua mente.
*
* *
Era uma
sala pequena e insignificante, típica de um escritório do
entreposto comercial terrano em Utik. O conjunto de edifícios baixos
e extensos continha inúmeras salas desse tipo. Uma pessoa não
familiarizada com as instalações não imaginaria que, muito abaixo
do solo, estavam ocultos os aparelhos e instalações que
transformavam o entreposto comercial numa eficiente base de operações
da Divisão III, do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, ou
seja, de uma base na qual operavam os homens de Nike Quinto.
Meech
Hannigan levara seu superior hierárquico e os cinco prisioneiros
para esse estabelecimento. O transporte, que fora um tanto difícil,
correra sem qualquer incidente. Ron Landry não demorara a recuperar
os sentidos e não guardara a menor lembrança dos estranhos
acontecimentos que se haviam verificado dentro da área bloqueada. No
entanto, uma violenta dor de cabeça tornara plausível o relato de
Meech Hannigan. Além disso, um robô não contaria mentiras a seu
superior.
Ron Landry
não perdeu tempo; passou imediatamente ao interrogatório dos
prisioneiros. Estes não se dispuseram a fazer nenhuma revelação.
Levara-os juntamente com Meech para as instalações secretas
subterrâneas e ali os interrogou mediante um gerador
mecano-hipnótico. Mesmo assim, os resultados foram pouco
satisfatórios. Doosdal, o chefe do grupo, resistiu a toda e qualquer
influência, e entre seus subordinados só houve um, Zaleel, que não
esteve em condições de resistir eficazmente à força do gerador
por meio de suas energias mentais. Infelizmente Zaleel não era o
elemento mais bem informado entre os antis. Não pôde informar muita
coisa. Mas, para Ron Landry, as informações foram suficientes para
redigir um breve relato dirigido a Nike Quinto e tomar suas
providências para os passos que se seguiriam.
Depois
disso entrou em contato com Larry Randall e Lofty Patterson. Naquele
momento encontravam-se numa sala pequena, à prova de escuta, onde
trocavam suas experiências e discutiam os planos de Ron Landry.
— É
claro que Zaleel não sabe de que espécie são as irradiações
provenientes de Kalal — disse Ron. — Mas, pelas informações que
ele nos forneceu e pelas observações realizadas por nós, é quase
certo que se trata de um gerador mecano-hipnótico semelhante ao que
temos lá embaixo, em nosso laboratório. Se o princípio de
funcionamento for idêntico, não teremos a menor dificuldade em
proteger-nos contra as irradiações do sumo sacerdote; para isso
bastará usar um aparelho em forma de capacete. Os técnicos do
entreposto já estão trabalhando para fabricar um aparelho desse
tipo. Amanhã de manhã, o primeiro poderá ser experimentado. E
então já teremos a resposta da Terra ao meu relatório. Acredito
que Nike Quinto nos dê novas instruções, para que não dependamos
exclusivamente de nossa imaginação.
Sorriu,
fez uma pausa e depois prosseguiu:
— De
qualquer maneira acho que é uma excelente idéia penetrar no templo
juntamente com o tal do Kazek, cujas simpatias Larry conseguiu
conquistar, e verificar o que está acontecendo por lá. Acho que
esta ação pode ser decidida desde já, pois as Instruções de Nike
Quinto por certo não interferirão na mesma.
Larry
acenou com a cabeça, sem olhar para Ron. Parecia pensativo.
— Antes
de mais nada teremos que testar os capacetes — disse. — Se não
forem eficientes, nada poderemos fazer.
— Evidentemente.
Neste caso não faremos nada sem que antes tenhamos tomado os devidos
preparativos. O simples fato de termos diante de nós gente do culto
de Baalol, que dispõe de elevadas faculdades parapsicológicas,
basta para tornar nossa situação muito perigosa.
Larry
levantou os olhos.
— O que
será feito dos nossos prisioneiros?
— Nike
Quinto decidirá a este respeito.
Larry
levantou-se.
— Está
bem — disse. — Tratemos de dormir mais algumas horas. Em Utik as
noites são muito curtas.
*
* *
Larry
tinha razão: as pedras estavam rolando.
Na Terra,
o Coronel Nike Quinto informou seu superior hierárquico de graduação
muito mais elevada, o Marechal Solar Allan D. Mercant. E Mercant
deixou claro que, em hipótese alguma, o Administrador do Império
Solar, Perry Rhodan, deveria ser incomodado com a apresentação de
relatórios sobre os acontecimentos de Utik.
O Marechal
Mercant, por sua vez, pôs a funcionar as engrenagens da diplomacia
galáctica e manteve uma palestra de telecomunicação com Árcon.
Sua Majestade Imperial estava muito interessado nos acontecimentos
inquietantes que se desenrolavam em Utik, ainda mais que esse planeta
ficava próximo da sede de seu império. Atlan compreendeu o
argumento de Mercant, segundo o qual, face ao estado psíquico atual
de Rhodan, o conhecimento dos acontecimentos de Utik pelo
administrador solar equivaleria a um ataque imediato ao planeta e à
sua destruição.
Atlan
declarou-se disposto a cercar Utik com uma frota de bloqueio, a fim
de que, mesmo que por algum acaso Perry Rhodan estivesse a par do que
se passava por lá, não tivesse motivo para tomar qualquer
providência. Era bem verdade que o pedido do Marechal Mercant ainda
tinha outro motivo... Estava plenamente convencido de que o tumulto
que se verificava em Utik não fora provocado intencionalmente pelos
sacerdotes de Baalol. Estes costumavam trabalhar em silêncio, e
podia-se perfeitamente apostar mil contra um, como os estranhos
incidentes resultavam de alguma falha e não se harmonizavam com os
planos do pessoal de Baalol. Se a situação se tornasse crítica —
já agora os sacerdotes não podiam sair do templo — os mesmos não
hesitariam em solicitar auxílio. No entanto, a frota de bloqueio de
Atlan evitaria que o auxilio chegasse a Utik.
Depois de
sua palestra com Atlan, o Marechal Mercant voltou a entrar em contato
com Nike Quinto a fim de informá-lo de que a chegada da frota de
Árcon ao setor espacial de Utik era iminente. Quanto ao mais,
deixou-lhe as mãos livres em tudo que dissesse respeito às
instruções a serem transmitidas aos agentes que se encontravam em
Utik Aquilo que tinha a dizer sobre isso podia ser expresso em poucas
palavras:
— Pouco
me importa de como o senhor queira prosseguir. O que interessa é que
prossiga.
*
* *
Ordenaram-lhe
que voltasse ao seu gabinete e esperasse. Kalal obedeceu, pois
conhecia suas intenções e achou que seria perigoso despertar
suspeitas em virtude de uma rebeldia prematura.
Kalal foi
ao seu gabinete o mais depressa possível, deitou sobre a armação,
que imitava uma cama e que lhe servira de local de descanso durante
sua breve permanência no templo, e procurou descontrair-se.
Esforçou-se para concentrar seus pensamentos sobre a grande tarefa
que tinha pela frente. Não teve muito êxito. Não se sentia seguro
de que conseguiria seu intento. Não sabia se seria capaz de
enfrentar sozinho dez homens vigorosos e vencê-los. A incerteza
colocou-o num estado de pânico, e esse estado impediu-o de
dedicar-se integralmente aos preparativos que deveria tomar.
Só aos
poucos começou a sentir a tranqüilidade de que precisava. Foi
abandonando o medo aos poucos. Fechou os olhos e viu nitidamente os
dez sacerdotes, que também se concentravam para conceber, o quanto
antes, o pensamento mortífero.
Era assim
que os adeptos do culto de Baalol executavam as sentenças de morte.
Dez sacerdotes de quarto grau uniam-se num esforço de concentração
espiritual a fim de, com seus pensamentos, formar um poder a que
ninguém conseguisse resistir — ou melhor, quase ninguém.
No momento
em que a concentração chegava ao máximo, a unidade formada pelos
dez cérebros irradiava o comando de morte. O comando era disparado
para o cérebro do condenado, que desabava sob o impacto, e não
tinha outra alternativa senão ceder. O cérebro deixava de
funcionar, e o condenado morria de síncope cerebral.
Kalal
viu-os reunidos, com os olhos fechados. Pensavam nele — nele e em
sua morte.
Sentiu que
a força de seus cérebros crescia. Argagal encontrava-se á frente
de todos. Uma onda de hostilidade e ameaça mortal investiu contra
Kalal. Sabia que, se o comando hipnótico o pegasse de surpresa,
estaria perdido.
A força
mental de Argagal atingiu determinada dimensão e, depois disso, não
aumentou mais.
Kalal teve
a impressão de que sentia Argagal apertar silenciosamente as mãos
dos homens a seu lado, a fim de informá-los de que a hora havia
chegado. Também sentiu a força dos outros cérebros crescer
rapidamente, procurando atingir o mesmo nível a que Argagal já
chegara.
Kalal
mantinha-se deitado, imóvel. Não sentiu o suor porejar de sua pele.
Não ouviu o leve zumbido do equipamento de condicionamento de ar.
Apenas via os dez sacerdotes que desejavam sua morte, e via-os tão
nitidamente que até parecia não estar separado deles por várias
paredes bem sólidas.
Conteve a
respiração ao notar que o último dos dez sacerdotes conseguiu
controlar plenamente seu cérebro e o rugido potente dos pensamentos
reunidos lhe enchia o crânio.
Era
agora...!
Morra,
Kalal!
Parecia um
grito terrível que ressoava em sua cabeça. Kalal também soltou um
grito. Uma força invisível ergueu-o do leito e atirou-o ao chão.
Estirado ali, continuava a gritar.
Mas sentiu
a dor causada pela queda, e concluiu que ainda estava vivo. Rechaçara
o ataque. Saíra vencedor. Conseguira derrotar dez cérebros
potentes.
Abriu os
olhos. Uma dor alucinante rugia em sua cabeça. Mal distinguia os
contornos dos objetos que o cercavam. Entretanto, aos poucos, a dor
foi cessando.
Conseguiu
erguer-se lentamente, e de repente percebeu que os pensamentos dos
dez sacerdotes que pretendiam matá-lo haviam desaparecido.
O campo
defensivo mental que erguera em torno de si revelara-se eficiente.
Repelira o comando de morte e o fizera refluir para os emissores.
Depois de irradiado esse comando, os cérebros destes estavam
exaustos, e praticamente não possuíam nenhuma força defensiva.
Embora a
energia mental refletida se distribuísse por dez cérebros
diferentes, naquelas condições seus efeitos deveriam ter sido
desastrosos, O silêncio profundo provava que nenhum dos dez se
conservara consciente.
A idéia
da tremenda força encerrada em seu cérebro fez com que Kalal se
reanimasse.
Livrara-se
do medo e da indecisão. Sabia como agir.
O setor do
templo em que se encontrava estava vazio.
Era uma
boa oportunidade para a fuga. Kalal não tinha uma idéia precisa do
lugar para o qual deveria fugir. Sabia que não poderia arriscar-se a
abandonar o templo. As pessoas alucinadas o seguiriam, fosse qual
fosse o lugar ao qual se dirigisse. Bastaria que os sacerdotes
acompanhassem o grupo para saber onde ele se encontrava.
Teria de
ficar no templo, à espera de oportunidade favorável. Por enquanto
Kalal não saberia dizer quando e qual seria essa oportunidade.
Só havia
uma possibilidade de esconder-se no interior do templo. Era lá
embaixo, no subsolo, em meio à confusão de corredores e pavilhões
em que estavam abrigados os instrumentos sem os quais um templo de
Baalol não poderia existir. Essas instalações eram iguais em todos
os templos, e Kalal julgou-se capaz de enganar por muito tempo as
pessoas que o procurassem. Além disso, lá embaixo havia
mantimentos, e, sem estes, nem mesmo um sacerdote de segundo grau
conseguiria resistir a uma espera de várias semanas.
Kalal
pôs-se a caminho. Não se enganara. Naquele setor do edifício os
corredores estavam vazios.
Entrou num
elevador antigravitacional e desceu. Desceu no décimo quinto
pavimento do subsolo, cercado pelo zumbido e pelas vibrações das
instalações ali existentes. Saiu caminhando por um corredor
estreito que partia do poço do elevador.
Passou
pela porta da sala onde ficavam os equipamentos do potente
transmissor de telecomunicação, através do qual os sacerdotes
mantinham o tráfego de rádio a velocidade superior à da luz com os
outros templos, com os saltadores e com o grande Baalol, nas
profundezas da Galáxia.
Teve a
idéia de que poderia perfeitamente fazer algo para salvar-se.
Utilizaria o transmissor para pedir socorro.
Não
perdeu tempo; passou imediatamente à execução do plano. Recorrendo
ao código destinado especialmente ao intercâmbio com os saltadores,
redigiu o seguinte texto:
Kalal, que
se encontra em Utik, pede seu auxilio, amigos. É urgente. Venham
imediatamente.
Registrou
o texto, por meio de perfurações, numa chapa de plástico, e
introduziu-a no equipamento de transmissão. Hesitou alguns segundos,
refletindo sobre se realmente escolhera o texto correto. Finalmente
comprimiu a tecla.
Luzes de
controle acenderam-se. O transmissor entrou em funcionamento com uma
série de zumbidos e estalos. Kalal viu que estava tudo em ordem e
saiu da sala. Naquele instante as pessoas que se encontravam lá em
cima já sabiam haver alguém na sala de transmissão.
Teria de
agir com rapidez e sagacidade, se quisesse evitar que o agarrassem.
5
Homunc:
— Já
compreendi. O ativador forma determinada idéia no cérebro de seu
portador, sem que este tenha consciência disso. As vibrações
mentais provocadas pela idéia são reforçadas e irradiadas com um
alcance inconcebível.
Aquilo:
— Sim,
é isso mesmo.
Homunc:
— A
idéia irradiada é capaz de subjugar os cérebros dos seres que a
captam, provocando imagens de coisas que na realidade não existem.
Aquilo:
— Perfeitamente.
Não acha que isso é muito divertido? Em Utik, na periferia do grupo
estelar M-13, por exemplo, há um...
*
* *
— Então,
houve algum problema? — perguntou Larry em tom indiferente, como
quem sabe que não surgiu a menor dificuldade.
— Se
houve! — asseverou Kazek em tom enfático. — Os problemas foram
tantos que o negócio quase não compensa mais.
— Quase
— disse Larry com um sorriso.
— Mas
como ainda compensa um pouco, o senhor me levará, não é?
Kazek
soltou um suspiro de resignação.
— Faço
isso por pura simpatia — lamentou-se. — Pode acreditar que
realmente não ganho mais nada nisso.
— Quase
nada — disse Larry em tom amável, lembrando as palavras do próprio
Kazek. — Vamos andando?
Kazek
vestiu uma capa. Lá fora o sol já baixava para a linha do
horizonte. Fora um dia quente, e o calor se mantinha nas ruas. Só
mesmo um habitante de Utik teria medo de um resfriado com uma
temperatura daquelas. Kazek fez menção de entrar num carro
automático, mas Larry pediu que não o fizesse.
— Deixe
para lá — sugeriu. — Para o serviço que temos em vista um
veículo particular será melhor.
Trouxe meu
carro.
Kazek não
teve a menor objeção. Subiram à cobertura do edifício, onde Larry
estacionara seu veículo, e entraram no mesmo. Antes de ligar o
motor, Larry disse:
— Os
sacerdotes lhe deram permissão para levar-me?
Kazek
fitou-o com uma expressão de espanto.
— Naturalmente.
Do contrário não iria para lá com o senhor.
Larry não
respondeu à observação.
— O
senhor foi ao templo para obter a permissão? — perguntou.
Kazek
respondeu que não.
— No
templo existem aparelhos de comunicação audiovisual. Não constam
da lista local, mas conheço seu código. Por que faz essa pergunta?
Larry
ligou o motor.
— O
senhor deve ter ouvido falar no tumulto que reina há vários dias na
parte nordeste da cidade, ou seja, na área em que fica o templo. A
polícia isolou o bairro. Estava curioso para saber como o senhor
conseguiu passar.
Um sorriso
matreiro surgiu no rosto de Kazek.
— Não
se preocupe com a polícia — disse em tom indiferente. — Já
pensei nisso há tempo. Afinal, a polícia é formada por homens. E
um homem sempre é um homem, não é?
Era uma
frase usual em Utik. “Um
homem sempre é um homem”
significava que de um homem consegue-se tudo, desde que se disponha
de bastante dinheiro.
Larry fez
que sim. Deu partida no carro e o fez descer para a rua.
— Tome a
direção sudeste — disse Kazek. — Vá para a Alameda dos Velhos
Heróis.
Larry
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— Para o
sudeste? — parecia muito espantado. — Pois o templo fica ao
norte!
Kazek
confirmou com um gesto indiferente.
— O
senhor acredita que vou sem mais aquela ao templo e bato à porta?
Certas coisas logo deixam a polícia desconfiada...
Larry
atendeu ao pedido. Dobrou duas vezes para a direita e seguiu o fluxo
intenso de tráfego que se dirigia para o sul, pelo centro da cidade,
passando pela Alameda dos Grandes Reis.
Sem que
Kazek desconfiasse de nada, Larry comprimiu um botão situado sob o
painel, que acionava o emissor radiogoniométrico.
*
* *
Meech e o
receptor de sinais goniométricos perceberam imediatamente.
— Ali
estão eles! — disse Meech, apontando na direção que o mecanismo
goniométrico de seu cérebro artificial acabara de apurar.
Ron Landry
vira o ligeiro impulso sob a forma de cunha verde projetada no
oscilógrafo. Dentro de alguns segundos, a calculadora acoplada ao
receptor elaborou um mapa no qual estava assinalada a posição do
transmissor de sinais goniométricos. Ron deu partida no carro,
afastou-o do meio-fio e penetrou no fluxo de tráfego. Lofty
Patterson, que estava sentado ao seu lado, olhava atentamente pela
janela.
Dali em
diante, os sinais goniométricos foram captados de vinte em vinte
segundos. O conjunto dos pontos marcados pelos mesmos formava uma
linha que passava pela Alameda dos Grandes Reis, dirigindo-se à
parte central da área nordeste da cidade, onde ficava a Alameda dos
Velhos Heróis. Ron ficou surpreso.
— Caramba,
aonde estará indo? — resmungou. — Pois o templo fica exatamente
na direção oposta.
Lofty
soltou uma risadinha.
— Nem
sempre o caminho mais curto é o melhor; aprendi isso por experiência
própria.
Dentro de
alguns minutos o traço formado pela união dos pontos assinalados
pela goniometria atingiu a Alameda dos Velhos Heróis e dobrou para o
leste. Ron levou o carro para a pista do centro e esforçou-se para
reduzir o mais depressa possível a distância que o separava do
veículo que emitia os sinais goniométricos.
*
* *
Larry viu
o carro grande que o ultrapassou pela esquerda e dobrou para a
direita a fim de parar.
Acenou com
a cabeça, satisfeito, e acompanhou a manobra. A uns quinhentos
metros dali, já não havia nenhum tráfego. Havia um posto policial
num cruzamento, e atrás do mesmo começava a área em que a massa
hipnotizada cercava o templo.
— Por
que mudou de direção? — perguntou Kazek em tom de espanto.
— Pensei
que alguém poderia seguir-nos — respondeu Larry. — Por isso
preparei desde logo um segundo carro. Vamos passar para o outro
veículo. Desta forma qualquer pessoa que queira acompanhar-nos,
guiando-se pelo veículo, não passará do lugar em que nos
encontramos.
A
explicação parecia plausível.
— Não
precisaria incomodar-se com isso — disse Kazek, que se mostrava
bastante impressionado. — O ambiente de sua casa deve ser bastante
tenso, se o senhor tem de usar tamanha criatividade para livrar-se
dos perseguidores. Estou certo de que em toda a cidade de Massenock
não existe uma única pessoa que tenha suficiente interesse e
energia para espionar atrás de nós. A não ser que se trate de
alguns policiais que têm conhecimento de estarmos atrás do
liquitivo. Nesse caso não poderão deixar de agir.
Larry
sorriu. Kazek não percebeu o caráter irônico desse sorriso. Não
notara o carro grande que os ultrapassara, e também não percebera
que o veículo encostara ao meio-fio poucos segundos antes. Só agora
lançou os olhos sobre o mesmo e viu que era muito espaçoso. Parecia
vazio. Kazek não tinha motivo para desconfiar.
— O
senhor deve encontrar-se numa boa fase financeira — disse em tom de
elogio. — Senão não poderia dar-se ao luxo de usar um veículo
desse tamanho, além daquele que nos trouxe até aqui.
Larry
preferiu não dizer nada.
Estacionou
atrás do carro grande. Desceu acompanhado por Kazek.
Caminhava
pouco atrás do negociante. A porta do carro grande abriu-se
automaticamente, e Kazek recuou com um ligeiro grito de pavor. Larry
segurou-o com os braços abertos.
— O
que... o que é isso? — gaguejou Kazek.
— Pode
entrar — disse Larry para tranqüilizá-lo. — As fechaduras
positrônicas do carro estão reguladas para minhas emanações
individuais e entram em funcionamento automaticamente, assim que me
aproximo do veículo.
Kazek
ainda parecia ter suas dúvidas. Mas como Larry continuava a
empurrá-lo, não tinha outra alternativa senão entrar no veículo.
Apavorado,
notou que o carro tava vazio, conforme supusera.
Mais uma
vez recuou, ao ver os três desconhecidos que se erguiam do chão do
carro. Mas Larry, que continuava atrás dele, empurrou-o com uma
força irresistível.
— Entre,
Kazek! — exclamou Lofty Patterson com a voz alegre. — Já o
esperávamos.
Kazek
deixou-se cair no estofamento macio do banco traseiro. Levou bastante
tempo para recuperar-se do susto.
“Um
dos desconhecidos sabe meu nome”,
começou a refletir. “Logo,
o homem que pretendia comprar o liquitivo me traiu.”
Com o
rosto mais indignado deste mundo voltou-se para Larry, que se
acomodara a seu lado.
— O
senhor não cumpriu o acordo — queixou-se. — Deveria...
— Um
momento! — interrompeu-o Larry. — Nada de impertinências. Estes
cavalheiros também estão interessados em alguns frascos de
liquitivo, Quer dizer que o senhor fará quatro negócios em vez de
um.
Kazek não
acreditava nisso.
— Será
que o senhor realmente acredita que poderei apresentar-me no Templo
da Verdade com um grupo...? — perguntou.
— Por
que não? — respondeu Ron, tomando o lugar de Larry. — Afinal, os
sacerdotes não costumam dar o liquitivo de graça. Fazem seus
negócios com o licor. Por isso só poderão sentir-se felizes se
virem diante de si quatro compradores de vez.
Depois de
refletir ligeiramente, Kazek chegou à conclusão de que o negócio
seria muito arriscado.
— Deixe-me
ir para casa — exigiu. — Senão...
— Senão
o quê?
— Senão
me queixarei aos policiais que estão lá na frente.
Ron soltou
uma gargalhada.
— Não
sei como pretende sair do carro contra nossa vontade. Além disso,
gostaria de saber o que pretende dizer aos policiais. Quer
contar-lhes que está aqui para nos arranjar liquitivo?
Kazek
começou a compreender que sua situação não oferecia tantas
chances como calculara.
— Não
lhe queremos fazer mal — disse Ron. — Leve-nos ao templo, e o
senhor fará um bom negócio.
— Os
sacerdotes me torcerão o pescoço — resmungou Kazek, parecendo
realmente preocupado.
— Não
tenha medo dos sacerdotes — disse Ron. — Nós lhes contaremos o
que realmente aconteceu, isto é, que obrigamos o senhor a fazer
isto.
O rosto de
Kazek iluminou-se.
— Nesse
caso — disse — bem... então vamos andando.
Ron acenou
com a cabeça, satisfeito, e acionou o motor do carro.
*
* *
Dali a
meia hora pararam à frente de um grupo de edifícios de escritórios
de um pavimento e de alguns ranchos. Era a área da expedição
Massenathik e, conforme dissera Kazek, o destino da viagem. A palavra
Massenathik era formada por uma aglutinação dos vocábulos
Massenock e Rallathik, que eram as duas cidades mais importantes de
Utik. Os donos daqueles imóveis costumavam fazer negócios entre as
duas cidades, e por certo seria essa a origem do nome.
Atrás dos
edifícios ficava um campo de pouso e decolagem não muito extenso,
no qual Ron Landry viu um dos desajeitados foguetes cargueiros de
curta distância.
Os
edifícios pareciam desertos. Algumas lâmpadas envolviam a área
numa penumbra, mas atrás das janelas reinava uma escuridão
completa.
Meech
Hannigan constatou que o imóvel ficava a exatamente 26 km e 4 m a
sudeste do templo de Baalol. Dessa forma não havia motivo para
recear-se que de repente o grupo fosse penetrar na área submetida à
influência hipnótica.
Meech
carregava os capacetes, que haviam sido experimentados por ele, Ron e
Lofty no dia anterior. Não restava a menor dúvida de que eram muito
eficientes, absorvendo quase totalmente as estranhas radiações que
deixavam os homens loucos.
— E
agora? — perguntou Ron.
Kazek
apontou para o foguete.
— Para
lá — respondeu.
— Pelos
bons espíritos! — exclamou Lofty, apavorado. — Não é que ele
quer voar ao templo com o foguete?
Kazek
balançou a cabeça e lançou um olhar de compaixão para Lofty.
— De
forma alguma. Venha comigo, que eu lhe mostrarei.
Atravessaram
o pátio cercado pelos edifícios e foram ao campo de pouso. A luz
escassa das lâmpadas mostrava um grande número de manchas de
combustão, produzidas pelos propulsores dos foguetes que haviam
pousado e decolado. O foguete para o qual Kazek acabara de apontar
também estava parado sobre uma mancha desse tipo.
Quatro
estabilizadores saíam do corpo disforme do foguete. Pelo que se
concluía da posição das peças móveis dos suportes, o foguete não
estava carregado.
Ron
inclinou-se para a frente e viu sinais evidentes de corrosão na
superfície de metal plastificado. Os suportes tinham ficado imóveis
por muito tempo. Provavelmente fazia vários anos que o foguete voara
pela última vez.
Ron notou
que, dentro do círculo formado pelos estabilizadores, a popa do
foguete propriamente dito estava pousada no chão. Se não houvesse
um canal de escapamento de gases, as radiações de partículas
expelidas pelos propulsores não poderiam produzir o efeito desejado.
Por tudo isso aquele foguete constituía um veículo muito estranho,
e Ron estava perfeitamente disposto a acreditar que havia algo de
muito especial com ele.
Kazek
parou junto a um dos estabilizadores e abriu um fecho. Ao que
parecia, isso não lhe custou o menor esforço. Atrás desse fecho,
Ron viu dois botões de comando. Kazek comprimiu um deles e a
escotilha da eclusa de popa abriu-se silenciosamente.
— Entrem
— disse Kazek.
Meech foi
o primeiro a entrar. Larry e Lofty seguiram-no. Ron deixou que Kazek
caminhasse à sua frente, pois ainda não tinha certeza quanto às
reais intenções do mesmo.
Uma vez
que o foguete estava pousado em chão firme, Meech conseguiu abrir a
escotilha interna, embora a externa ainda estivesse aberta. No
corredor que se estendia atrás dela, algumas lâmpadas espalhavam
uma luz débil. O corredor terminava junto a um poço de elevador
que, segundo disse Kazek, teria de ser usado se quisessem chegar ao
templo.
Tiveram o
cuidado de verificar se as duas escotilhas da eclusa se fecharam.
Depois entraram um após o outro no poço do elevador e deixaram-se
conduzir para baixo. Ron não se sentiu muito surpreso ao constatar
que o poço descia a uma distância bem maior que a do comprimento do
suporte do foguete. Ao examinar o formato do veículo, logo
compreendera que provavelmente este servia exclusivamente para
ocultar a entrada de uma passagem subterrânea.
No
entanto, o corredor propriamente dito deixou-o espantado. Já se
conformara com a idéia de que teriam de percorrer a pé os vinte e
seis quilômetros que os separavam do templo. Acontece que, junto à
saída inferior do poço do elevador, encontrou um túnel largo,
regularmente iluminado, no qual havia duas fileiras triplas de fitas
transportadoras. Cada faixa de três fitas corria numa direção
diversa. As duas fitas externas corriam devagar, desenvolvendo
velocidade pouco superior ao de um pedestre, enquanto a do centro
desenvolvia duas e meia vezes essa velocidade. Entre as fileiras
triplas de fitas transportadoras e junto às paredes do túnel havia
faixas estreitas de chão firme.
Ron lançou
os olhos pelo corredor.
Larry
Randall, que se encontrava a seu lado, disse:
— Nem
quero saber que espécies de mercadorias já passaram por estas fitas
transportadoras.
Ron fez um
gesto pensativo.
Não
perderam tempo; subiram à fita transportadora. Meech Hannigan
continuava à frente dos outros. Passou rapidamente à fita do
centro, e os outros seguiram-no agilmente. Deslocavam-se a, mais ou
menos, doze quilômetros e meio por hora. Ao que parecia, o corredor
não descrevia nenhuma curva. Dessa forma poderiam atingir a área do
templo dali a duas horas.
Meech
distribuiu os capacetes. Colocaram-nos sobre a cabeça, sem dar a
menor atenção ao olhar de espanto de Kazek, que por enquanto não
recebeu nenhum capacete. Ron queria que o negociante passasse
desprotegido pela fronteira da área submetida à influência
hipnótica.
Instantes
depois, Kazek teve a impressão de que alguma coisa estava
acontecendo por perto.
Não sabia
por que todos, com exceção de Meech, o fitavam com os olhos
curiosos. Fizera perguntas a este respeito, mas apenas recebera
respostas que não esclareciam nada.
Ron Landry
estava com os braços estendidos quando Kazek rodopiou de repente e
por pouco não cai da fita transportadora. Segurou-o. Mas Kazek
esperneou e pôs-se a gritar.
— Solte-me!
Tenho de andar depressa para ver a flor.
— Que
flor? — perguntou Ron com a maior ingenuidade.
— A flor
milagrosa de cor violeta. Nunca ouviu falar a respeito?
— Não —
respondeu. — Onde está essa flor?
— Lá
adiante — gritou Kazek, apontando para a frente.
— Pois
então está tudo bem. Vamos até lá.
— Acontece
que estamos indo muito devagar. Se corrermos sobre a fita, chegaremos
mais depressa — disse Kazek.
Ron fez um
sinal para Larry, que já mantinha preparado o quarto capacete. Antes
que Kazek desconfiasse de qualquer coisa, o envoltório
semi-esférico, feito de metal, fora colocado sobre sua cabeça. Ron
cobriu-a, envolvendo-a completamente. Depois soltou Kazek.
No início
ele fez menção de passar por Larry, Lofty e Meech, a fim de correr
sobre a fita. Mas antes que tivesse tempo de dar o primeiro passo,
resolveu outra coisa. Era divertido ver a perplexidade que se
desenhava em seu rosto.
Totalmente
desorientado, fitou Ron.
— Há...
há pouco eu queria ir a algum lugar. Para onde? — gaguejou.
Lofty
soltou uma risadinha.
— O
senhor quis ir atrás de uma flor violeta — respondeu Ron.
Kazek
estreitou os olhos. Parecia desconfiado.
— Uma
flor violeta? Onde? Não sei de nenhuma flor violeta.
Ron
interrompeu-o com um gesto.
— Esqueça.
Também não entendi o que o senhor quis dizer.
Kazek
formulou mais algumas perguntas. Ao ver que ninguém lhe dava
resposta, voltou a olhar para a frente. Uma sensação apavorante o
oprimia.
Para Ron
Landry e seus companheiros o incidente era muito esclarecedor.
Provava que as estranhas irradiações do sacerdote produziam seus
efeitos mesmo embaixo da superfície. Face a isso, Ron perguntou a si
mesmo se um efeito hipnótico capaz de atravessar uma camada espessa
de solo não teria, nas proximidades da respectiva fonte, tamanha
força que os capacetes não conseguiriam evitar sua penetração.
Se isto
acontecesse, a situação poderia tornar-se critica. Era bastante
duvidoso que o robô Meech Hannigan fosse capaz de, sem recorrer à
força, fazer com que quatro pessoas alucinadas recuperassem a razão.
6
Aquilo:
— ...todos
acreditam que na verdade se trata de uma flor milagrosa, frágil e
muito perfumada, à qual devem ser dispensados todos os cuidados,
para que não morra.
Homunc:
— Isso
realmente é muito divertido. Será que ele sabe qual é a origem do
estranho efeito?
Aquilo:
— Ao
que suponho, tem bastante inteligência para descobrir logo.
Homunc:
— Quando
isso acontecer, procurará livrar-se do ativador e destruí-lo.
Aquilo:
— Ele
não poderá fazer isso. A remoção do ativador acarretaria sua
morte. Além disso, acredito que já descobriu que o ativador também
lhe oferece uma vantagem nada desprezível...
*
* *
Era a
primeira vez, depois do momento em que procuraram matá-lo, que Kalal
teve tempo para refletir. Sabia perfeitamente que nesse meio tempo a
breve atividade do transmissor de telecomunicação fora corretamente
interpretada e que passariam a procurá-lo lá embaixo, onde se
encontrava. A maior parte das pessoas que sairiam à sua procura
seriam sacerdotes subalternos do sétimo, oitavo, nono ou mesmo do
décimo grau, que não sabiam bloquear perfeitamente seus
pensamentos. Kalal não teria a menor dificuldade em constatar sua
presença e fazer seus preparativos.
De início
admitiu sem maior exame que notaria imediatamente os pensamentos de
um sacerdote subalterno que não se encontrasse a uma distância
muito grande, mas agora, depois de alguns minutos de tranqüilidade,
teve suas dúvidas.
Lembrou-se
das oportunidades em que fizera um esforço consciente para ler os
pensamentos de outro sacerdote. Nunca conseguira, nem mesmo quando se
tratava de um sacerdote do décimo grau. E agora isso não lhe
representava o menor problema. Qual seria a causa?
Até mesmo
a maneira pela qual se salvara da morte já lhe causava certo medo.
Jamais teria imaginado que seria capaz de resistir à ordem hipnótica
de dez sacerdotes de quarto grau.
Uma ordem
desse tipo, irradiada simultaneamente por dez cérebros altamente
treinados, representaria uma força irresistível para um sacerdote
de segundo grau e até mesmo de primeiro grau. O único indivíduo
capaz de sobrepor-se sem dificuldade a qualquer poder emanado de
cérebros estranhos era o Baalol.
Acontece
que ele não era o Baalol. De onde tirara tamanha coragem? E como se
tornou possível o êxito de sua atuação?
Kalal
poderia ser tudo, menos um homem incapaz de raciocinar. Enfileirou os
fatos na seqüência em que se verificaram. Reconheceu que o fato de
o Baalol supremo lhe ter concedido o ativador celular representava um
dos pontos altos de sua existência. Sua chegada a Utik — seguida
dos terríveis efeitos colaterais cujas conseqüências estava
sofrendo — sua condenação e a fuga bem-sucedida representavam
outros pontos marcantes.
A confusão
em Utik surgira devido à concessão do ativador. Havia uma relação
de causa e efeito. Era o ativador que criava toda a confusão. Mas
qual seria a causa da súbita ampliação de sua capacidade cerebral?
Será que também fora causada pelo ativador?
Kalal não
sabia absolutamente nada sobre as características e o funcionamento
do ativador, mas conhecia os efeitos produzidos pelo mesmo. Por outro
lado, seus conhecimentos na área da ciência da mecano-hipnose eram
suficientes para que compreendesse que devia haver qualquer espécie
de acoplamento entre o ativador e seu cérebro. Achou estranho que o
fato nunca o tivesse preocupado. Provavelmente ficara muito excitado
com os acontecimentos que se desenrolaram após sua chegada.
À medida
que refletia sobre o fenômeno, mais se firmava sua convicção de
que a modificação de suas faculdades mentais era causada pela
presença do ativador.
A idéia
deixou-o perplexo por algum tempo. O ativador elevara as faculdades
de seu cérebro além do nível dos sacerdotes de primeiro grau.
Era mais
poderoso que os sumos sacerdotes dos maiores conjuntos templários,
cujo número chegava apenas a vinte, e que costumavam ser convocados
regularmente pelo Grande Baalol supremo para o exame de assuntos da
maior importância.
Naquele
momento seu poder talvez chegasse mesmo a exceder o do Grande Baalol.
Só por um segundo teve a impressão de que a idéia representava uma
blasfêmia. Depois passou a namorá-la e elaborar um plano baseado
nela.
Se
conseguisse sair dali, procuraria o Grande Baalol e mediria forças
com ele. O mesmo dera liberdade de ação a Argagal quando este se
queixou do perigo que a presença do sumo sacerdote Kalal
representava para Utik. Não era seu amigo. Kalal deixou de lado os
escrúpulos que qualquer servo sentiria à simples idéia de recusar
obediência ao Grande Baalol, já que haviam tentado matá-lo.
Esta
situação colocou-o num estado de euforia total. Ele, Kalal,
derrotaria o Grande Baalol e passaria a ocupar seu lugar. Castigaria
aqueles que se haviam voltado contra ele, Kalal, e instauraria um
regime rigorosíssimo, que faria com que o culto da Verdade Absoluta
se aproximasse mais depressa do cumprimento dos seus objetivos
políticos do que quando sob o governo do atual Baalol.
Sentiu-se
tão fascinado com a idéia que levou algum tempo para descobrir que
a execução do plano esbarraria em dificuldades nada desprezíveis.
Até mesmo no local em que residia o Grande Baalol, havia, além dos
sacerdotes, muitos seres humanos perfeitamente normais. E assim que
chegasse perto dos mesmos, estes correriam atrás dele para farejá-lo
e regá-lo com água e adubos. E o Baalol supremo estava prevenido.
Sabia que, nos locais de maior aglomeração, encontraria seu
adversário, que escapara à execução da sentença de morte em
Utik.
Nestas
condições o Grande Baalol não teria a menor dificuldade em
livrar-se do inimigo antes que este tivesse tempo de medir forças
com ele.
Poucos
segundos depois, Kalal passou de um estado de entusiasmo exaltado à
depressão mais profunda. Os planos ambiciosos fizeram com que
esquecesse que, além do reforço de suas energias mentais, o
ativador produzia outro efeito, e um efeito extremamente perigoso...
No momento
em que se deu conta disso, voltou a ouvir outra vez a estrondosa
gargalhada vinda do nada. Até parecia que um ser invisível se
divertia com seu desespero.
Kalal
odiou o desconhecido e contra ele lançou suas maldições com toda
energia de que era capaz.
*
* *
Poucos
minutos depois do instante em que o capacete foi colocado na cabeça
de Kazek, Meech informou que voltara a captar uma série de
irradiações mentais diferentes. Mas, segundo afirmou, nunca
conseguiu distinguir nitidamente em meio às mesmas aquela emanação
que provinha de determinado sacerdote e que tinha relação com o
efeito hipnótico a que estava sujeita a massa humana que se
comprimia pelas ruas de Massenock. A nova série de irradiações era
mais potente que as anteriores.
Ron Landry
pediu que Kazek lhe explicasse de que forma poderiam ter acesso ao
templo.
Kazek
informou que, no limite da área pertencente ao templo, a passagem
subterrânea era fechada por um largo portão, pelo qual só poderia
entrar quem conhecesse determinado sinal em código. Kazek confessou
prontamente que estivera ali por várias vezes, e sempre fora
recebido por um dos sacerdotes.
— Não,
nunca vi outro sacerdote além daquele que me recebia — disse em
resposta à pergunta de Ron.
Ron
sentiu-se mais tranqüilo. Um sacerdote não representava o menor
perigo, mesmo que dispusesse das extraordinárias faculdades
paranormais dos antis, a não ser que houvesse outras medidas de
segurança, não notadas por Kazek.
A
preocupação que Ron tivera no início da caminhada parecia
revelar-se infundada.
O efeito
hipnótico proveniente do templo não se tornara mais forte. Os
capacetes continuavam a impedir a passagem de qualquer dose
perceptível. Como durante duas horas, essa situação continuasse
inalterada, Ron convenceu-se de que não havia motivo para
preocupar-se com as estranhas irradiações.
Dali a
pouco, o portão debilmente iluminado que fechava a entrada do templo
surgiu nas profundezas do corredor. Meech transferiu-se para a fita
transportadora mais lenta e dali passou para o chão firme. Os outros
seguiram seu exemplo.
Conforme
combinado, Larry e Kazek desceram no centro, entre as duas fileiras
triplas de fitas transportadoras, enquanto Ron e os outros se
mantinham junto à parede do lado direito. O portão era duplo, e se
abriria para os lados, a começar pelo centro. Dessa forma, no início
o sacerdote veria apenas Kazek e Larry, que ficaria atento para o
aviso do primeiro. Seus três acompanhantes só poderiam ser vistos
depois que o portão se abrisse bastante.

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