segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-113 - A Flor Milagrosa de Utik - Kurt Mahr [Parte 2]

4



Kalal sentiu sua aproximação. Não conseguia decifrar seus pensamentos, pois eles isolavam suas mentes. Apesar disso podia imaginar perfeitamente quais eram suas intenções. Não eram nada amistosas.
Pararam à porta, e um deles perguntou:
Podemos entrar, venerando senhor?
Foi o único pensamento que ele deixou passar pelo bloqueio mental. Kalal compreendeu e esforçou-se para aproveitar a abertura pela qual passara o pensamento a fim de lançar um olhar ligeiro para os outros pensamentos que se escondiam atrás do campo de bloqueio.
Mas o sacerdote que se encontrava do lado de fora se cuidou. Não permitiu que Kalal percebesse nada.
Entrem, amigos — respondeu Kalal, cansado.
No mesmo instante a porta abriu-se.
Estavam em cinco. Quem lhe falara fora Argagal, o mais velho dos sacerdotes de quarto grau que serviam em Utik. Enfileiraram-se junto à porta e fizeram a mesura regulamentar para Kalal, que não se erguera de sua confortável poltrona.
O que os traz à minha presença, amigos? — perguntou Kalal.
Desta vez pronunciou as palavras com a voz cansada, em vez de apenas concebê-las em pensamento.
Venerando senhor, nós lhe pedimos que assuma a presidência da assembléia geral, que já foi convocada — respondeu Argagal.
Kalal assustou-se.
Então haviam convocado uma assembléia geral. Para acontecer tal reunião, uma entre duas formalidades deveria ser observada. Ou teria de ser convocada pelo sumo sacerdote, que era um sacerdote de segundo grau, ou então pela totalidade dos sacerdotes de grau inferior, que se encontravam no estabelecimento templário. Bastava que um desses sacerdotes de grau inferior se manifestasse contra a convocação para que a assembléia não se realizasse. Mas se todos estavam de acordo não havia necessidade de consultar o sumo sacerdote. Nesse caso a assembléia se realizaria, com ou sem o consentimento do chefe do templo.
Kalal não se lembrava de já ter visto uma assembléia que se formasse pela última das duas maneiras que acabam de ser indicadas. Só mesmo acontecimentos de importância extraordinária levariam os sacerdotes graduados e subalternos do templo a um passo como este. Geralmente solicitavam o consentimento do chefe.
Argagal não adotara essa providência.
A assembléia seria realizada, e Kalal não fora consultado.
Kalal sabia perfeitamente o que significava isso.
Levantou-se.
Não vamos perder tempo — disse depois de se recuperar um pouco do susto, voltando a falar com a voz amável e tranqüila.
Argagal e os homens que o acompanhavam retiraram-se. Conduziram Kalal pelo largo corredor principal da pirâmide templária, em direção à grande sala de reuniões.
Uma vez chegado à mesma, Kalal dirigiu-se imediatamente ao lugar da cabeceira da grande mesa; era o lugar do presidente, que lhe cabia. Passou os olhos pelas fileiras dos subordinados, que se mantinham de pé atrás das poltronas e o fitavam. Viu que todos haviam comparecido. Só faltavam aqueles que estavam executando alguma tarefa.
Houve a convocação de uma assembléia — disse Kalal com a voz áspera. — Queiram informar quem tomou a iniciativa da convocação e qual é o motivo da mesma.
Com estas palavras a assembléia foi aberta. Os sacerdotes tomaram lugar nas poltronas. Um único ficou de pé: Argagal.
A proposta partiu de mim, senhor venerando — respondeu com a voz tranqüila. — O motivo é a situação extremamente perigosa em que se encontra o templo de Utik. E o perigo tem sua origem no estranho aparelho que Vossa Eminência usa no peito.
A acusação acabara de ser pronunciada. Kalal reconheceu imediatamente a sua chance.
Admirou-se de que Argagal não tivesse dado uma formulação mais inteligente à sua primeira frase, que era a mais importante. Se continuasse assim, a assembléia geral terminaria numa grande repreensão à sua pessoa.
Argagal sentou-se. Kalal, que presidia a assembléia, não estava obrigado a levantar-se quando respondeu:
Tenho plena consciência do perigo resultante do estranho aparelho. Mas mesmo que houvesse uma possibilidade de removê-lo não poderia proceder assim, pois eu o recebi do Baalol supremo, em pessoa.
Olhou em torno e não ficou muito satisfeito com o que viu. Até então não havia revelado a ninguém que o ativador provinha das mãos do Baalol. Sentira-se seguro de que sua resposta removeria todas as dúvidas, isto é, o aparelho continuaria no mesmo lugar e nada poderiam fazer contra seu portador.
Mas ao que parecia isso não acontecera. Os sacerdotes continuavam a fitá-lo com uma expressão pouco amistosa. Não se sentiram impressionados com a explicação de Kalal.
Peço licença para formular uma suposição, venerável senhor — voltou a falar Argagal e levantou-se.
Kalal fez um gesto de assentimento.
O Baalol supremo, nosso senhor venerabilíssimo, deve ter-lhe entregue o aparelho para que ele preencha uma finalidade bem definida. Ao que tudo indica, o aparelho não está em condições de cumprir essa finalidade, talvez em virtude de um erro de construção. Em vez disso produz um efeito totalmente diverso, que representa um perigo para o culto não só em Utik, mas em toda parte. Tenho certeza de que, se o Baalol tivesse conhecimento das desgraças que estão sendo causadas pelo aparelho, modificaria imediatamente sua opinião sobre a inviolabilidade do mesmo.
O rosto de Kalal assumiu uma expressão de contrariedade.
Isso não passa de suposição gratuita — respondeu em tom zangado. — Ninguém tem direito de colocar palavras na boca ou idéias na cabeça de nosso Baalol. Não devemos tomar nenhuma providência antes que o Baalol supremo se tenha decidido.
Pela primeira vez uma espécie de sorriso surgiu no rosto de Argagal. Era um sorriso irônico e sádico.
Permita que pergunte, venerável senhor, como o Baalol poderá decidir-se se não tem conhecimento dos acontecimentos que se verificam por aqui?
Nós o avisaremos quando eu julgar conveniente — respondeu Kalal.
Será que teremos de esperar que a situação se torne ainda mais perigosa? — retrucou Argagal.
Como se atreve a dar ordens a mim? — berrou Kalal.
Não lhe estou dando ordens, venerável senhor — respondeu Argagal com a maior calma. — Acontece que todos vemos que o venerável senhor viola um dos maiores princípios de nossa fé, pois coloca seu bem-estar pessoal acima das exigências da Verdade Absoluta.
Kalal levantou-se de um salto. Sabia que, caso se conformasse com essa acusação, estaria perdido.
Você pagará por essa mentira, Argagal! — gritou. — Você perderá sua graduação e terá de recomeçar como sacerdote de décimo grau.
Não acredito que isso aconteça — respondeu Argagal. — O venerável senhor não deu ordens pessoais para que o aparelho fosse destruído ou removido de seu corpo? Por outro lado, o venerável senhor não acaba de dizer que o mesmo aparelho é inviolável porque lhe foi entregue por Baalol em pessoa? Como se explica a contradição? A mesma não prova de que minha acusação é bem fundada? O venerável senhor receia por sua vida.
Por alguns segundos Kalal ficou sem fala. Argagal aproveitou a oportunidade para prosseguir.
Não esperei que o venerável senhor dominasse o medo a ponto de informar nosso venerabilíssimo Baalol sobre os acontecimentos que se verificam em Utik. Entrei em contato pessoal com o Baalol e lhe pedi humildemente que me desse uma ordem cuja execução representasse a eliminação do perigo que nos ameaça.
Kalal empalideceu. Então fora por isso que Argagal pudera permitir-se formular uma acusação tão indisfarçada. Falara com o Baalol e por certo já recebera suas instruções. E Kalal não teve a menor dúvida de que o Baalol não hesitaria em sacrificar sua vida, desde que houvesse o mais leve indício de que a mesma representava um embaraço para os objetivos e os planos do culto de Baalol.
Qual foi a resposta? — perguntou Kalal, que de tanto medo mal conseguia controlar sua voz.
O Baalol supremo — respondeu Argagal com a voz retumbante — acusa-o de ter sido desobediente, por não tê-lo informado imediatamente, e deixa a cargo desta assembléia a decisão sobre o que deve ser feito. Todos sabemos que o aparelho diabólico não pode ser removido de seu peito, nem destruído enquanto permanece ali. Quer dizer que continuará a funcionar e a reunir as massas de loucos hipnotizados em torno do templo. O fato acabará por despertar as atenções da Galáxia, e teremos de abandonar os nossos planos, que só podem ser executados em segredo.
Quer dizer que o aparelho que o venerável senhor traz no peito terá de ser reduzido ao silêncio. Para conseguirmos isso, seremos obrigados a matá-lo. Uma vez que esta é a única solução viável, formulo a seguinte proposta: o venerável Kalal, acusado de desobediência grave pelo grande Baalol, será morto para que a estranha influência por ele irradiada não continue a pôr em perigo os nossos planos. Peço que a proposta seja submetida à votação.”
Kalal encolheu-se em sua poltrona. Sentia-se incapaz de pronunciar uma única palavra. Não pronunciou a fórmula que daria início à votação. As palavras ditas por Argagal, ao cumprir a formalidade, pareciam um feio sussurro em seus ouvidos. Só voltou a entendê-las quando Argagal anunciou com a voz sonora:
A decisão foi unânime. O venerável Kalal será morto.
Kalal levantou-se devagar. Sabia que não lhe dariam muito tempo antes de cumprir a resolução que acabara de ser tomada. Sua vida estava em jogo, e Kalal a prezava.
Teria que defender-se, e jurava pela Grande Verdade que teriam um osso duro para roer...
Esta decisão deu-lhe novo ânimo. Seu rosto voltou a colorir-se. Durante a votação, os sacerdotes se haviam levantado e agora o fitavam com uma expressão fria. Kalal não teve pressa. Fitou-os um por um, como se quisesse gravar seus rostos.
Vocês não me matarão! — trovejou, depois de algum tempo, a voz do sumo sacerdote.
E sua exclamação refletiu toda a cólera que se armazenara em sua mente.

* * *

Era uma sala pequena e insignificante, típica de um escritório do entreposto comercial terrano em Utik. O conjunto de edifícios baixos e extensos continha inúmeras salas desse tipo. Uma pessoa não familiarizada com as instalações não imaginaria que, muito abaixo do solo, estavam ocultos os aparelhos e instalações que transformavam o entreposto comercial numa eficiente base de operações da Divisão III, do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, ou seja, de uma base na qual operavam os homens de Nike Quinto.
Meech Hannigan levara seu superior hierárquico e os cinco prisioneiros para esse estabelecimento. O transporte, que fora um tanto difícil, correra sem qualquer incidente. Ron Landry não demorara a recuperar os sentidos e não guardara a menor lembrança dos estranhos acontecimentos que se haviam verificado dentro da área bloqueada. No entanto, uma violenta dor de cabeça tornara plausível o relato de Meech Hannigan. Além disso, um robô não contaria mentiras a seu superior.
Ron Landry não perdeu tempo; passou imediatamente ao interrogatório dos prisioneiros. Estes não se dispuseram a fazer nenhuma revelação. Levara-os juntamente com Meech para as instalações secretas subterrâneas e ali os interrogou mediante um gerador mecano-hipnótico. Mesmo assim, os resultados foram pouco satisfatórios. Doosdal, o chefe do grupo, resistiu a toda e qualquer influência, e entre seus subordinados só houve um, Zaleel, que não esteve em condições de resistir eficazmente à força do gerador por meio de suas energias mentais. Infelizmente Zaleel não era o elemento mais bem informado entre os antis. Não pôde informar muita coisa. Mas, para Ron Landry, as informações foram suficientes para redigir um breve relato dirigido a Nike Quinto e tomar suas providências para os passos que se seguiriam.
Depois disso entrou em contato com Larry Randall e Lofty Patterson. Naquele momento encontravam-se numa sala pequena, à prova de escuta, onde trocavam suas experiências e discutiam os planos de Ron Landry.
É claro que Zaleel não sabe de que espécie são as irradiações provenientes de Kalal — disse Ron. — Mas, pelas informações que ele nos forneceu e pelas observações realizadas por nós, é quase certo que se trata de um gerador mecano-hipnótico semelhante ao que temos lá embaixo, em nosso laboratório. Se o princípio de funcionamento for idêntico, não teremos a menor dificuldade em proteger-nos contra as irradiações do sumo sacerdote; para isso bastará usar um aparelho em forma de capacete. Os técnicos do entreposto já estão trabalhando para fabricar um aparelho desse tipo. Amanhã de manhã, o primeiro poderá ser experimentado. E então já teremos a resposta da Terra ao meu relatório. Acredito que Nike Quinto nos dê novas instruções, para que não dependamos exclusivamente de nossa imaginação.
Sorriu, fez uma pausa e depois prosseguiu:
De qualquer maneira acho que é uma excelente idéia penetrar no templo juntamente com o tal do Kazek, cujas simpatias Larry conseguiu conquistar, e verificar o que está acontecendo por lá. Acho que esta ação pode ser decidida desde já, pois as Instruções de Nike Quinto por certo não interferirão na mesma.
Larry acenou com a cabeça, sem olhar para Ron. Parecia pensativo.
Antes de mais nada teremos que testar os capacetes — disse. — Se não forem eficientes, nada poderemos fazer.
Evidentemente. Neste caso não faremos nada sem que antes tenhamos tomado os devidos preparativos. O simples fato de termos diante de nós gente do culto de Baalol, que dispõe de elevadas faculdades parapsicológicas, basta para tornar nossa situação muito perigosa.
Larry levantou os olhos.
O que será feito dos nossos prisioneiros?
Nike Quinto decidirá a este respeito.
Larry levantou-se.
Está bem — disse. — Tratemos de dormir mais algumas horas. Em Utik as noites são muito curtas.

* * *

Larry tinha razão: as pedras estavam rolando.
Na Terra, o Coronel Nike Quinto informou seu superior hierárquico de graduação muito mais elevada, o Marechal Solar Allan D. Mercant. E Mercant deixou claro que, em hipótese alguma, o Administrador do Império Solar, Perry Rhodan, deveria ser incomodado com a apresentação de relatórios sobre os acontecimentos de Utik.
O Marechal Mercant, por sua vez, pôs a funcionar as engrenagens da diplomacia galáctica e manteve uma palestra de telecomunicação com Árcon. Sua Majestade Imperial estava muito interessado nos acontecimentos inquietantes que se desenrolavam em Utik, ainda mais que esse planeta ficava próximo da sede de seu império. Atlan compreendeu o argumento de Mercant, segundo o qual, face ao estado psíquico atual de Rhodan, o conhecimento dos acontecimentos de Utik pelo administrador solar equivaleria a um ataque imediato ao planeta e à sua destruição.
Atlan declarou-se disposto a cercar Utik com uma frota de bloqueio, a fim de que, mesmo que por algum acaso Perry Rhodan estivesse a par do que se passava por lá, não tivesse motivo para tomar qualquer providência. Era bem verdade que o pedido do Marechal Mercant ainda tinha outro motivo... Estava plenamente convencido de que o tumulto que se verificava em Utik não fora provocado intencionalmente pelos sacerdotes de Baalol. Estes costumavam trabalhar em silêncio, e podia-se perfeitamente apostar mil contra um, como os estranhos incidentes resultavam de alguma falha e não se harmonizavam com os planos do pessoal de Baalol. Se a situação se tornasse crítica — já agora os sacerdotes não podiam sair do templo — os mesmos não hesitariam em solicitar auxílio. No entanto, a frota de bloqueio de Atlan evitaria que o auxilio chegasse a Utik.
Depois de sua palestra com Atlan, o Marechal Mercant voltou a entrar em contato com Nike Quinto a fim de informá-lo de que a chegada da frota de Árcon ao setor espacial de Utik era iminente. Quanto ao mais, deixou-lhe as mãos livres em tudo que dissesse respeito às instruções a serem transmitidas aos agentes que se encontravam em Utik Aquilo que tinha a dizer sobre isso podia ser expresso em poucas palavras:
Pouco me importa de como o senhor queira prosseguir. O que interessa é que prossiga.

* * *

Ordenaram-lhe que voltasse ao seu gabinete e esperasse. Kalal obedeceu, pois conhecia suas intenções e achou que seria perigoso despertar suspeitas em virtude de uma rebeldia prematura.
Kalal foi ao seu gabinete o mais depressa possível, deitou sobre a armação, que imitava uma cama e que lhe servira de local de descanso durante sua breve permanência no templo, e procurou descontrair-se. Esforçou-se para concentrar seus pensamentos sobre a grande tarefa que tinha pela frente. Não teve muito êxito. Não se sentia seguro de que conseguiria seu intento. Não sabia se seria capaz de enfrentar sozinho dez homens vigorosos e vencê-los. A incerteza colocou-o num estado de pânico, e esse estado impediu-o de dedicar-se integralmente aos preparativos que deveria tomar.
Só aos poucos começou a sentir a tranqüilidade de que precisava. Foi abandonando o medo aos poucos. Fechou os olhos e viu nitidamente os dez sacerdotes, que também se concentravam para conceber, o quanto antes, o pensamento mortífero.
Era assim que os adeptos do culto de Baalol executavam as sentenças de morte. Dez sacerdotes de quarto grau uniam-se num esforço de concentração espiritual a fim de, com seus pensamentos, formar um poder a que ninguém conseguisse resistir — ou melhor, quase ninguém.
No momento em que a concentração chegava ao máximo, a unidade formada pelos dez cérebros irradiava o comando de morte. O comando era disparado para o cérebro do condenado, que desabava sob o impacto, e não tinha outra alternativa senão ceder. O cérebro deixava de funcionar, e o condenado morria de síncope cerebral.
Kalal viu-os reunidos, com os olhos fechados. Pensavam nele — nele e em sua morte.
Sentiu que a força de seus cérebros crescia. Argagal encontrava-se á frente de todos. Uma onda de hostilidade e ameaça mortal investiu contra Kalal. Sabia que, se o comando hipnótico o pegasse de surpresa, estaria perdido.
A força mental de Argagal atingiu determinada dimensão e, depois disso, não aumentou mais.
Kalal teve a impressão de que sentia Argagal apertar silenciosamente as mãos dos homens a seu lado, a fim de informá-los de que a hora havia chegado. Também sentiu a força dos outros cérebros crescer rapidamente, procurando atingir o mesmo nível a que Argagal já chegara.
Kalal mantinha-se deitado, imóvel. Não sentiu o suor porejar de sua pele. Não ouviu o leve zumbido do equipamento de condicionamento de ar. Apenas via os dez sacerdotes que desejavam sua morte, e via-os tão nitidamente que até parecia não estar separado deles por várias paredes bem sólidas.
Conteve a respiração ao notar que o último dos dez sacerdotes conseguiu controlar plenamente seu cérebro e o rugido potente dos pensamentos reunidos lhe enchia o crânio.
Era agora...!
Morra, Kalal!
Parecia um grito terrível que ressoava em sua cabeça. Kalal também soltou um grito. Uma força invisível ergueu-o do leito e atirou-o ao chão. Estirado ali, continuava a gritar.
Mas sentiu a dor causada pela queda, e concluiu que ainda estava vivo. Rechaçara o ataque. Saíra vencedor. Conseguira derrotar dez cérebros potentes.
Abriu os olhos. Uma dor alucinante rugia em sua cabeça. Mal distinguia os contornos dos objetos que o cercavam. Entretanto, aos poucos, a dor foi cessando.
Conseguiu erguer-se lentamente, e de repente percebeu que os pensamentos dos dez sacerdotes que pretendiam matá-lo haviam desaparecido.
O campo defensivo mental que erguera em torno de si revelara-se eficiente. Repelira o comando de morte e o fizera refluir para os emissores. Depois de irradiado esse comando, os cérebros destes estavam exaustos, e praticamente não possuíam nenhuma força defensiva.
Embora a energia mental refletida se distribuísse por dez cérebros diferentes, naquelas condições seus efeitos deveriam ter sido desastrosos, O silêncio profundo provava que nenhum dos dez se conservara consciente.
A idéia da tremenda força encerrada em seu cérebro fez com que Kalal se reanimasse.
Livrara-se do medo e da indecisão. Sabia como agir.
O setor do templo em que se encontrava estava vazio.
Era uma boa oportunidade para a fuga. Kalal não tinha uma idéia precisa do lugar para o qual deveria fugir. Sabia que não poderia arriscar-se a abandonar o templo. As pessoas alucinadas o seguiriam, fosse qual fosse o lugar ao qual se dirigisse. Bastaria que os sacerdotes acompanhassem o grupo para saber onde ele se encontrava.
Teria de ficar no templo, à espera de oportunidade favorável. Por enquanto Kalal não saberia dizer quando e qual seria essa oportunidade.
Só havia uma possibilidade de esconder-se no interior do templo. Era lá embaixo, no subsolo, em meio à confusão de corredores e pavilhões em que estavam abrigados os instrumentos sem os quais um templo de Baalol não poderia existir. Essas instalações eram iguais em todos os templos, e Kalal julgou-se capaz de enganar por muito tempo as pessoas que o procurassem. Além disso, lá embaixo havia mantimentos, e, sem estes, nem mesmo um sacerdote de segundo grau conseguiria resistir a uma espera de várias semanas.
Kalal pôs-se a caminho. Não se enganara. Naquele setor do edifício os corredores estavam vazios.
Entrou num elevador antigravitacional e desceu. Desceu no décimo quinto pavimento do subsolo, cercado pelo zumbido e pelas vibrações das instalações ali existentes. Saiu caminhando por um corredor estreito que partia do poço do elevador.
Passou pela porta da sala onde ficavam os equipamentos do potente transmissor de telecomunicação, através do qual os sacerdotes mantinham o tráfego de rádio a velocidade superior à da luz com os outros templos, com os saltadores e com o grande Baalol, nas profundezas da Galáxia.
Teve a idéia de que poderia perfeitamente fazer algo para salvar-se. Utilizaria o transmissor para pedir socorro.
Não perdeu tempo; passou imediatamente à execução do plano. Recorrendo ao código destinado especialmente ao intercâmbio com os saltadores, redigiu o seguinte texto:
Kalal, que se encontra em Utik, pede seu auxilio, amigos. É urgente. Venham imediatamente.
Registrou o texto, por meio de perfurações, numa chapa de plástico, e introduziu-a no equipamento de transmissão. Hesitou alguns segundos, refletindo sobre se realmente escolhera o texto correto. Finalmente comprimiu a tecla.
Luzes de controle acenderam-se. O transmissor entrou em funcionamento com uma série de zumbidos e estalos. Kalal viu que estava tudo em ordem e saiu da sala. Naquele instante as pessoas que se encontravam lá em cima já sabiam haver alguém na sala de transmissão.
Teria de agir com rapidez e sagacidade, se quisesse evitar que o agarrassem.

5

Homunc:
Já compreendi. O ativador forma determinada idéia no cérebro de seu portador, sem que este tenha consciência disso. As vibrações mentais provocadas pela idéia são reforçadas e irradiadas com um alcance inconcebível.
Aquilo:
Sim, é isso mesmo.
Homunc:
A idéia irradiada é capaz de subjugar os cérebros dos seres que a captam, provocando imagens de coisas que na realidade não existem.
Aquilo:
Perfeitamente. Não acha que isso é muito divertido? Em Utik, na periferia do grupo estelar M-13, por exemplo, há um...

* * *

Então, houve algum problema? — perguntou Larry em tom indiferente, como quem sabe que não surgiu a menor dificuldade.
Se houve! — asseverou Kazek em tom enfático. — Os problemas foram tantos que o negócio quase não compensa mais.
Quase — disse Larry com um sorriso.
Mas como ainda compensa um pouco, o senhor me levará, não é?
Kazek soltou um suspiro de resignação.
Faço isso por pura simpatia — lamentou-se. — Pode acreditar que realmente não ganho mais nada nisso.
Quase nada — disse Larry em tom amável, lembrando as palavras do próprio Kazek. — Vamos andando?
Kazek vestiu uma capa. Lá fora o sol já baixava para a linha do horizonte. Fora um dia quente, e o calor se mantinha nas ruas. Só mesmo um habitante de Utik teria medo de um resfriado com uma temperatura daquelas. Kazek fez menção de entrar num carro automático, mas Larry pediu que não o fizesse.
Deixe para lá — sugeriu. — Para o serviço que temos em vista um veículo particular será melhor.
Trouxe meu carro.
Kazek não teve a menor objeção. Subiram à cobertura do edifício, onde Larry estacionara seu veículo, e entraram no mesmo. Antes de ligar o motor, Larry disse:
Os sacerdotes lhe deram permissão para levar-me?
Kazek fitou-o com uma expressão de espanto.
Naturalmente. Do contrário não iria para lá com o senhor.
Larry não respondeu à observação.
O senhor foi ao templo para obter a permissão? — perguntou.
Kazek respondeu que não.
No templo existem aparelhos de comunicação audiovisual. Não constam da lista local, mas conheço seu código. Por que faz essa pergunta?
Larry ligou o motor.
O senhor deve ter ouvido falar no tumulto que reina há vários dias na parte nordeste da cidade, ou seja, na área em que fica o templo. A polícia isolou o bairro. Estava curioso para saber como o senhor conseguiu passar.
Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Kazek.
Não se preocupe com a polícia — disse em tom indiferente. — Já pensei nisso há tempo. Afinal, a polícia é formada por homens. E um homem sempre é um homem, não é?
Era uma frase usual em Utik. “Um homem sempre é um homem” significava que de um homem consegue-se tudo, desde que se disponha de bastante dinheiro.
Larry fez que sim. Deu partida no carro e o fez descer para a rua.
Tome a direção sudeste — disse Kazek. — Vá para a Alameda dos Velhos Heróis.
Larry fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Para o sudeste? — parecia muito espantado. — Pois o templo fica ao norte!
Kazek confirmou com um gesto indiferente.
O senhor acredita que vou sem mais aquela ao templo e bato à porta? Certas coisas logo deixam a polícia desconfiada...
Larry atendeu ao pedido. Dobrou duas vezes para a direita e seguiu o fluxo intenso de tráfego que se dirigia para o sul, pelo centro da cidade, passando pela Alameda dos Grandes Reis.
Sem que Kazek desconfiasse de nada, Larry comprimiu um botão situado sob o painel, que acionava o emissor radiogoniométrico.

* * *

Meech e o receptor de sinais goniométricos perceberam imediatamente.
Ali estão eles! — disse Meech, apontando na direção que o mecanismo goniométrico de seu cérebro artificial acabara de apurar.
Ron Landry vira o ligeiro impulso sob a forma de cunha verde projetada no oscilógrafo. Dentro de alguns segundos, a calculadora acoplada ao receptor elaborou um mapa no qual estava assinalada a posição do transmissor de sinais goniométricos. Ron deu partida no carro, afastou-o do meio-fio e penetrou no fluxo de tráfego. Lofty Patterson, que estava sentado ao seu lado, olhava atentamente pela janela.
Dali em diante, os sinais goniométricos foram captados de vinte em vinte segundos. O conjunto dos pontos marcados pelos mesmos formava uma linha que passava pela Alameda dos Grandes Reis, dirigindo-se à parte central da área nordeste da cidade, onde ficava a Alameda dos Velhos Heróis. Ron ficou surpreso.
Caramba, aonde estará indo? — resmungou. — Pois o templo fica exatamente na direção oposta.
Lofty soltou uma risadinha.
Nem sempre o caminho mais curto é o melhor; aprendi isso por experiência própria.
Dentro de alguns minutos o traço formado pela união dos pontos assinalados pela goniometria atingiu a Alameda dos Velhos Heróis e dobrou para o leste. Ron levou o carro para a pista do centro e esforçou-se para reduzir o mais depressa possível a distância que o separava do veículo que emitia os sinais goniométricos.

* * *

Larry viu o carro grande que o ultrapassou pela esquerda e dobrou para a direita a fim de parar.
Acenou com a cabeça, satisfeito, e acompanhou a manobra. A uns quinhentos metros dali, já não havia nenhum tráfego. Havia um posto policial num cruzamento, e atrás do mesmo começava a área em que a massa hipnotizada cercava o templo.
Por que mudou de direção? — perguntou Kazek em tom de espanto.
Pensei que alguém poderia seguir-nos — respondeu Larry. — Por isso preparei desde logo um segundo carro. Vamos passar para o outro veículo. Desta forma qualquer pessoa que queira acompanhar-nos, guiando-se pelo veículo, não passará do lugar em que nos encontramos.
A explicação parecia plausível.
Não precisaria incomodar-se com isso — disse Kazek, que se mostrava bastante impressionado. — O ambiente de sua casa deve ser bastante tenso, se o senhor tem de usar tamanha criatividade para livrar-se dos perseguidores. Estou certo de que em toda a cidade de Massenock não existe uma única pessoa que tenha suficiente interesse e energia para espionar atrás de nós. A não ser que se trate de alguns policiais que têm conhecimento de estarmos atrás do liquitivo. Nesse caso não poderão deixar de agir.
Larry sorriu. Kazek não percebeu o caráter irônico desse sorriso. Não notara o carro grande que os ultrapassara, e também não percebera que o veículo encostara ao meio-fio poucos segundos antes. Só agora lançou os olhos sobre o mesmo e viu que era muito espaçoso. Parecia vazio. Kazek não tinha motivo para desconfiar.
O senhor deve encontrar-se numa boa fase financeira — disse em tom de elogio. — Senão não poderia dar-se ao luxo de usar um veículo desse tamanho, além daquele que nos trouxe até aqui.
Larry preferiu não dizer nada.
Estacionou atrás do carro grande. Desceu acompanhado por Kazek.
Caminhava pouco atrás do negociante. A porta do carro grande abriu-se automaticamente, e Kazek recuou com um ligeiro grito de pavor. Larry segurou-o com os braços abertos.
O que... o que é isso? — gaguejou Kazek.
Pode entrar — disse Larry para tranqüilizá-lo. — As fechaduras positrônicas do carro estão reguladas para minhas emanações individuais e entram em funcionamento automaticamente, assim que me aproximo do veículo.
Kazek ainda parecia ter suas dúvidas. Mas como Larry continuava a empurrá-lo, não tinha outra alternativa senão entrar no veículo.
Apavorado, notou que o carro tava vazio, conforme supusera.
Mais uma vez recuou, ao ver os três desconhecidos que se erguiam do chão do carro. Mas Larry, que continuava atrás dele, empurrou-o com uma força irresistível.
Entre, Kazek! — exclamou Lofty Patterson com a voz alegre. — Já o esperávamos.
Kazek deixou-se cair no estofamento macio do banco traseiro. Levou bastante tempo para recuperar-se do susto.
Um dos desconhecidos sabe meu nome”, começou a refletir. “Logo, o homem que pretendia comprar o liquitivo me traiu.
Com o rosto mais indignado deste mundo voltou-se para Larry, que se acomodara a seu lado.
O senhor não cumpriu o acordo — queixou-se. — Deveria...
Um momento! — interrompeu-o Larry. — Nada de impertinências. Estes cavalheiros também estão interessados em alguns frascos de liquitivo, Quer dizer que o senhor fará quatro negócios em vez de um.
Kazek não acreditava nisso.
Será que o senhor realmente acredita que poderei apresentar-me no Templo da Verdade com um grupo...? — perguntou.
Por que não? — respondeu Ron, tomando o lugar de Larry. — Afinal, os sacerdotes não costumam dar o liquitivo de graça. Fazem seus negócios com o licor. Por isso só poderão sentir-se felizes se virem diante de si quatro compradores de vez.
Depois de refletir ligeiramente, Kazek chegou à conclusão de que o negócio seria muito arriscado.
Deixe-me ir para casa — exigiu. — Senão...
Senão o quê?
Senão me queixarei aos policiais que estão lá na frente.
Ron soltou uma gargalhada.
Não sei como pretende sair do carro contra nossa vontade. Além disso, gostaria de saber o que pretende dizer aos policiais. Quer contar-lhes que está aqui para nos arranjar liquitivo?
Kazek começou a compreender que sua situação não oferecia tantas chances como calculara.
Não lhe queremos fazer mal — disse Ron. — Leve-nos ao templo, e o senhor fará um bom negócio.
Os sacerdotes me torcerão o pescoço — resmungou Kazek, parecendo realmente preocupado.
Não tenha medo dos sacerdotes — disse Ron. — Nós lhes contaremos o que realmente aconteceu, isto é, que obrigamos o senhor a fazer isto.
O rosto de Kazek iluminou-se.
Nesse caso — disse — bem... então vamos andando.
Ron acenou com a cabeça, satisfeito, e acionou o motor do carro.

* * *

Dali a meia hora pararam à frente de um grupo de edifícios de escritórios de um pavimento e de alguns ranchos. Era a área da expedição Massenathik e, conforme dissera Kazek, o destino da viagem. A palavra Massenathik era formada por uma aglutinação dos vocábulos Massenock e Rallathik, que eram as duas cidades mais importantes de Utik. Os donos daqueles imóveis costumavam fazer negócios entre as duas cidades, e por certo seria essa a origem do nome.
Atrás dos edifícios ficava um campo de pouso e decolagem não muito extenso, no qual Ron Landry viu um dos desajeitados foguetes cargueiros de curta distância.
Os edifícios pareciam desertos. Algumas lâmpadas envolviam a área numa penumbra, mas atrás das janelas reinava uma escuridão completa.
Meech Hannigan constatou que o imóvel ficava a exatamente 26 km e 4 m a sudeste do templo de Baalol. Dessa forma não havia motivo para recear-se que de repente o grupo fosse penetrar na área submetida à influência hipnótica.
Meech carregava os capacetes, que haviam sido experimentados por ele, Ron e Lofty no dia anterior. Não restava a menor dúvida de que eram muito eficientes, absorvendo quase totalmente as estranhas radiações que deixavam os homens loucos.
E agora? — perguntou Ron.
Kazek apontou para o foguete.
Para lá — respondeu.
Pelos bons espíritos! — exclamou Lofty, apavorado. — Não é que ele quer voar ao templo com o foguete?
Kazek balançou a cabeça e lançou um olhar de compaixão para Lofty.
De forma alguma. Venha comigo, que eu lhe mostrarei.
Atravessaram o pátio cercado pelos edifícios e foram ao campo de pouso. A luz escassa das lâmpadas mostrava um grande número de manchas de combustão, produzidas pelos propulsores dos foguetes que haviam pousado e decolado. O foguete para o qual Kazek acabara de apontar também estava parado sobre uma mancha desse tipo.
Quatro estabilizadores saíam do corpo disforme do foguete. Pelo que se concluía da posição das peças móveis dos suportes, o foguete não estava carregado.
Ron inclinou-se para a frente e viu sinais evidentes de corrosão na superfície de metal plastificado. Os suportes tinham ficado imóveis por muito tempo. Provavelmente fazia vários anos que o foguete voara pela última vez.
Ron notou que, dentro do círculo formado pelos estabilizadores, a popa do foguete propriamente dito estava pousada no chão. Se não houvesse um canal de escapamento de gases, as radiações de partículas expelidas pelos propulsores não poderiam produzir o efeito desejado. Por tudo isso aquele foguete constituía um veículo muito estranho, e Ron estava perfeitamente disposto a acreditar que havia algo de muito especial com ele.
Kazek parou junto a um dos estabilizadores e abriu um fecho. Ao que parecia, isso não lhe custou o menor esforço. Atrás desse fecho, Ron viu dois botões de comando. Kazek comprimiu um deles e a escotilha da eclusa de popa abriu-se silenciosamente.
Entrem — disse Kazek.
Meech foi o primeiro a entrar. Larry e Lofty seguiram-no. Ron deixou que Kazek caminhasse à sua frente, pois ainda não tinha certeza quanto às reais intenções do mesmo.
Uma vez que o foguete estava pousado em chão firme, Meech conseguiu abrir a escotilha interna, embora a externa ainda estivesse aberta. No corredor que se estendia atrás dela, algumas lâmpadas espalhavam uma luz débil. O corredor terminava junto a um poço de elevador que, segundo disse Kazek, teria de ser usado se quisessem chegar ao templo.
Tiveram o cuidado de verificar se as duas escotilhas da eclusa se fecharam. Depois entraram um após o outro no poço do elevador e deixaram-se conduzir para baixo. Ron não se sentiu muito surpreso ao constatar que o poço descia a uma distância bem maior que a do comprimento do suporte do foguete. Ao examinar o formato do veículo, logo compreendera que provavelmente este servia exclusivamente para ocultar a entrada de uma passagem subterrânea.
No entanto, o corredor propriamente dito deixou-o espantado. Já se conformara com a idéia de que teriam de percorrer a pé os vinte e seis quilômetros que os separavam do templo. Acontece que, junto à saída inferior do poço do elevador, encontrou um túnel largo, regularmente iluminado, no qual havia duas fileiras triplas de fitas transportadoras. Cada faixa de três fitas corria numa direção diversa. As duas fitas externas corriam devagar, desenvolvendo velocidade pouco superior ao de um pedestre, enquanto a do centro desenvolvia duas e meia vezes essa velocidade. Entre as fileiras triplas de fitas transportadoras e junto às paredes do túnel havia faixas estreitas de chão firme.
Ron lançou os olhos pelo corredor.
Larry Randall, que se encontrava a seu lado, disse:
Nem quero saber que espécies de mercadorias já passaram por estas fitas transportadoras.
Ron fez um gesto pensativo.
Não perderam tempo; subiram à fita transportadora. Meech Hannigan continuava à frente dos outros. Passou rapidamente à fita do centro, e os outros seguiram-no agilmente. Deslocavam-se a, mais ou menos, doze quilômetros e meio por hora. Ao que parecia, o corredor não descrevia nenhuma curva. Dessa forma poderiam atingir a área do templo dali a duas horas.
Meech distribuiu os capacetes. Colocaram-nos sobre a cabeça, sem dar a menor atenção ao olhar de espanto de Kazek, que por enquanto não recebeu nenhum capacete. Ron queria que o negociante passasse desprotegido pela fronteira da área submetida à influência hipnótica.
Instantes depois, Kazek teve a impressão de que alguma coisa estava acontecendo por perto.
Não sabia por que todos, com exceção de Meech, o fitavam com os olhos curiosos. Fizera perguntas a este respeito, mas apenas recebera respostas que não esclareciam nada.
Ron Landry estava com os braços estendidos quando Kazek rodopiou de repente e por pouco não cai da fita transportadora. Segurou-o. Mas Kazek esperneou e pôs-se a gritar.
Solte-me! Tenho de andar depressa para ver a flor.
Que flor? — perguntou Ron com a maior ingenuidade.
A flor milagrosa de cor violeta. Nunca ouviu falar a respeito?
Não — respondeu. — Onde está essa flor?
Lá adiante — gritou Kazek, apontando para a frente.
Pois então está tudo bem. Vamos até lá.
Acontece que estamos indo muito devagar. Se corrermos sobre a fita, chegaremos mais depressa — disse Kazek.
Ron fez um sinal para Larry, que já mantinha preparado o quarto capacete. Antes que Kazek desconfiasse de qualquer coisa, o envoltório semi-esférico, feito de metal, fora colocado sobre sua cabeça. Ron cobriu-a, envolvendo-a completamente. Depois soltou Kazek.
No início ele fez menção de passar por Larry, Lofty e Meech, a fim de correr sobre a fita. Mas antes que tivesse tempo de dar o primeiro passo, resolveu outra coisa. Era divertido ver a perplexidade que se desenhava em seu rosto.
Totalmente desorientado, fitou Ron.
Há... há pouco eu queria ir a algum lugar. Para onde? — gaguejou.
Lofty soltou uma risadinha.
O senhor quis ir atrás de uma flor violeta — respondeu Ron.
Kazek estreitou os olhos. Parecia desconfiado.
Uma flor violeta? Onde? Não sei de nenhuma flor violeta.
Ron interrompeu-o com um gesto.
Esqueça. Também não entendi o que o senhor quis dizer.
Kazek formulou mais algumas perguntas. Ao ver que ninguém lhe dava resposta, voltou a olhar para a frente. Uma sensação apavorante o oprimia.
Para Ron Landry e seus companheiros o incidente era muito esclarecedor. Provava que as estranhas irradiações do sacerdote produziam seus efeitos mesmo embaixo da superfície. Face a isso, Ron perguntou a si mesmo se um efeito hipnótico capaz de atravessar uma camada espessa de solo não teria, nas proximidades da respectiva fonte, tamanha força que os capacetes não conseguiriam evitar sua penetração.
Se isto acontecesse, a situação poderia tornar-se critica. Era bastante duvidoso que o robô Meech Hannigan fosse capaz de, sem recorrer à força, fazer com que quatro pessoas alucinadas recuperassem a razão.

6

Aquilo:
...todos acreditam que na verdade se trata de uma flor milagrosa, frágil e muito perfumada, à qual devem ser dispensados todos os cuidados, para que não morra.
Homunc:
Isso realmente é muito divertido. Será que ele sabe qual é a origem do estranho efeito?
Aquilo:
Ao que suponho, tem bastante inteligência para descobrir logo.
Homunc:
Quando isso acontecer, procurará livrar-se do ativador e destruí-lo.
Aquilo:
Ele não poderá fazer isso. A remoção do ativador acarretaria sua morte. Além disso, acredito que já descobriu que o ativador também lhe oferece uma vantagem nada desprezível...

* * *

Era a primeira vez, depois do momento em que procuraram matá-lo, que Kalal teve tempo para refletir. Sabia perfeitamente que nesse meio tempo a breve atividade do transmissor de telecomunicação fora corretamente interpretada e que passariam a procurá-lo lá embaixo, onde se encontrava. A maior parte das pessoas que sairiam à sua procura seriam sacerdotes subalternos do sétimo, oitavo, nono ou mesmo do décimo grau, que não sabiam bloquear perfeitamente seus pensamentos. Kalal não teria a menor dificuldade em constatar sua presença e fazer seus preparativos.
De início admitiu sem maior exame que notaria imediatamente os pensamentos de um sacerdote subalterno que não se encontrasse a uma distância muito grande, mas agora, depois de alguns minutos de tranqüilidade, teve suas dúvidas.
Lembrou-se das oportunidades em que fizera um esforço consciente para ler os pensamentos de outro sacerdote. Nunca conseguira, nem mesmo quando se tratava de um sacerdote do décimo grau. E agora isso não lhe representava o menor problema. Qual seria a causa?
Até mesmo a maneira pela qual se salvara da morte já lhe causava certo medo. Jamais teria imaginado que seria capaz de resistir à ordem hipnótica de dez sacerdotes de quarto grau.
Uma ordem desse tipo, irradiada simultaneamente por dez cérebros altamente treinados, representaria uma força irresistível para um sacerdote de segundo grau e até mesmo de primeiro grau. O único indivíduo capaz de sobrepor-se sem dificuldade a qualquer poder emanado de cérebros estranhos era o Baalol.
Acontece que ele não era o Baalol. De onde tirara tamanha coragem? E como se tornou possível o êxito de sua atuação?
Kalal poderia ser tudo, menos um homem incapaz de raciocinar. Enfileirou os fatos na seqüência em que se verificaram. Reconheceu que o fato de o Baalol supremo lhe ter concedido o ativador celular representava um dos pontos altos de sua existência. Sua chegada a Utik — seguida dos terríveis efeitos colaterais cujas conseqüências estava sofrendo — sua condenação e a fuga bem-sucedida representavam outros pontos marcantes.
A confusão em Utik surgira devido à concessão do ativador. Havia uma relação de causa e efeito. Era o ativador que criava toda a confusão. Mas qual seria a causa da súbita ampliação de sua capacidade cerebral? Será que também fora causada pelo ativador?
Kalal não sabia absolutamente nada sobre as características e o funcionamento do ativador, mas conhecia os efeitos produzidos pelo mesmo. Por outro lado, seus conhecimentos na área da ciência da mecano-hipnose eram suficientes para que compreendesse que devia haver qualquer espécie de acoplamento entre o ativador e seu cérebro. Achou estranho que o fato nunca o tivesse preocupado. Provavelmente ficara muito excitado com os acontecimentos que se desenrolaram após sua chegada.
À medida que refletia sobre o fenômeno, mais se firmava sua convicção de que a modificação de suas faculdades mentais era causada pela presença do ativador.
A idéia deixou-o perplexo por algum tempo. O ativador elevara as faculdades de seu cérebro além do nível dos sacerdotes de primeiro grau.
Era mais poderoso que os sumos sacerdotes dos maiores conjuntos templários, cujo número chegava apenas a vinte, e que costumavam ser convocados regularmente pelo Grande Baalol supremo para o exame de assuntos da maior importância.
Naquele momento seu poder talvez chegasse mesmo a exceder o do Grande Baalol. Só por um segundo teve a impressão de que a idéia representava uma blasfêmia. Depois passou a namorá-la e elaborar um plano baseado nela.
Se conseguisse sair dali, procuraria o Grande Baalol e mediria forças com ele. O mesmo dera liberdade de ação a Argagal quando este se queixou do perigo que a presença do sumo sacerdote Kalal representava para Utik. Não era seu amigo. Kalal deixou de lado os escrúpulos que qualquer servo sentiria à simples idéia de recusar obediência ao Grande Baalol, já que haviam tentado matá-lo.
Esta situação colocou-o num estado de euforia total. Ele, Kalal, derrotaria o Grande Baalol e passaria a ocupar seu lugar. Castigaria aqueles que se haviam voltado contra ele, Kalal, e instauraria um regime rigorosíssimo, que faria com que o culto da Verdade Absoluta se aproximasse mais depressa do cumprimento dos seus objetivos políticos do que quando sob o governo do atual Baalol.
Sentiu-se tão fascinado com a idéia que levou algum tempo para descobrir que a execução do plano esbarraria em dificuldades nada desprezíveis. Até mesmo no local em que residia o Grande Baalol, havia, além dos sacerdotes, muitos seres humanos perfeitamente normais. E assim que chegasse perto dos mesmos, estes correriam atrás dele para farejá-lo e regá-lo com água e adubos. E o Baalol supremo estava prevenido. Sabia que, nos locais de maior aglomeração, encontraria seu adversário, que escapara à execução da sentença de morte em Utik.
Nestas condições o Grande Baalol não teria a menor dificuldade em livrar-se do inimigo antes que este tivesse tempo de medir forças com ele.
Poucos segundos depois, Kalal passou de um estado de entusiasmo exaltado à depressão mais profunda. Os planos ambiciosos fizeram com que esquecesse que, além do reforço de suas energias mentais, o ativador produzia outro efeito, e um efeito extremamente perigoso...
No momento em que se deu conta disso, voltou a ouvir outra vez a estrondosa gargalhada vinda do nada. Até parecia que um ser invisível se divertia com seu desespero.
Kalal odiou o desconhecido e contra ele lançou suas maldições com toda energia de que era capaz.
* * *
Poucos minutos depois do instante em que o capacete foi colocado na cabeça de Kazek, Meech informou que voltara a captar uma série de irradiações mentais diferentes. Mas, segundo afirmou, nunca conseguiu distinguir nitidamente em meio às mesmas aquela emanação que provinha de determinado sacerdote e que tinha relação com o efeito hipnótico a que estava sujeita a massa humana que se comprimia pelas ruas de Massenock. A nova série de irradiações era mais potente que as anteriores.
Ron Landry pediu que Kazek lhe explicasse de que forma poderiam ter acesso ao templo.
Kazek informou que, no limite da área pertencente ao templo, a passagem subterrânea era fechada por um largo portão, pelo qual só poderia entrar quem conhecesse determinado sinal em código. Kazek confessou prontamente que estivera ali por várias vezes, e sempre fora recebido por um dos sacerdotes.
Não, nunca vi outro sacerdote além daquele que me recebia — disse em resposta à pergunta de Ron.
Ron sentiu-se mais tranqüilo. Um sacerdote não representava o menor perigo, mesmo que dispusesse das extraordinárias faculdades paranormais dos antis, a não ser que houvesse outras medidas de segurança, não notadas por Kazek.
A preocupação que Ron tivera no início da caminhada parecia revelar-se infundada.
O efeito hipnótico proveniente do templo não se tornara mais forte. Os capacetes continuavam a impedir a passagem de qualquer dose perceptível. Como durante duas horas, essa situação continuasse inalterada, Ron convenceu-se de que não havia motivo para preocupar-se com as estranhas irradiações.
Dali a pouco, o portão debilmente iluminado que fechava a entrada do templo surgiu nas profundezas do corredor. Meech transferiu-se para a fita transportadora mais lenta e dali passou para o chão firme. Os outros seguiram seu exemplo.
Conforme combinado, Larry e Kazek desceram no centro, entre as duas fileiras triplas de fitas transportadoras, enquanto Ron e os outros se mantinham junto à parede do lado direito. O portão era duplo, e se abriria para os lados, a começar pelo centro. Dessa forma, no início o sacerdote veria apenas Kazek e Larry, que ficaria atento para o aviso do primeiro. Seus três acompanhantes só poderiam ser vistos depois que o portão se abrisse bastante.

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