domingo, 4 de setembro de 2016

P-111 - Sob Uma Falsa Bandeira - Kurt Brand [Parte 3]

Apenas uns poucos minutos deviam ter passado. Quando Rhodan voltou a abrir os olhos, os antis o estavam amarrando. Rhodan defendeu-se desesperadamente, mas apenas conseguiu atirar para longe um dos seus adversários por meio de uma joelhada. Cardif, que se encontrava de pé a seu lado, dava instruções. Segurava a arma de Rhodan, bem como o aparelho que este trazia no pulso e o emissor goniométrico que guardara no bolso esquerdo. Quando viu que Rhodan estava reduzido à impotência, aproximou-se.
Desde o início você desconfiou de mim, Rhodan. Estes objetos constituem a melhor prova.
Será que minha desconfiança não se justificava? — retrucou Rhodan.
Perry já tivera tempo para dominar seu desapontamento, mas sentia-se um pouco envergonhado por ter mostrado uma fraqueza. Deveria ter dado atenção ao raciocínio, não aos sentimentos.
Bell lhe diria algumas palavras nada agradáveis.
Será que você realmente acreditava que eu me consideraria derrotado? Neste ponto sou seu filho. Mas só neste ponto! — a voz de Cardif tornou-se dura e implacável. — Você teve a gentileza de me dar tempo para refletir. Eu aproveitei esse tempo, você não. O erro foi seu, não meu.
Você será perseguido, Thomas, nem que tenham que tangê-lo até os confins do tempo e do espaço. Um dia o agarrarão. E quando isso acontecer, você se defrontará com pessoas que não se guiam pelo sentimento, mas apenas pela inteligência... e pela ânsia de uma implacável vingança.
Poupe suas forças; você ainda precisará delas — limitou-se Thomas Cardif a dizer.
Deu algumas ordens aos antis. Rhodan foi levantado e colocado num carrinho baixo. Cardif e seus asseclas sentaram-se ao lado dele, e logo a viagem infernal para o interior da montanha teve início.
Desceram ligeiramente. O túnel mal e mal permitia a passagem do veículo, O teto era suficientemente alto para que ninguém machucasse a cabeça. A intervalos regulares havia lâmpadas que espalhavam uma luz tênue.
Pelos cálculos de Rhodan, o carro devia ter descido pelo menos mil metros. Acontece que a montanha que se erguia sobre a ilha não tinha mais de setecentos metros. Se não voltassem a subir logo, o túnel fatalmente os levaria ao mar, quinhentos metros abaixo da superfície.
Porém, antes que isso acontecesse, a galeria terminou.
O corredor alargou-se, transformando-se num verdadeiro pavilhão. A maior parte da superfície deste estava ocupada pela água, na qual achava-se estacionado o submarino dos antis que servira à fuga dos sobreviventes da fortaleza destruída. Rhodan começou a desconfiar de que num ponto Cardif não mentira: a segunda fortaleza dos antis ainda não fora descoberta.
O carro parou. Os dois antis pegaram Rhodan e carregaram-no para o submarino. O barbudo e Thomas seguiram-no. Falavam um com o outro, mas Rhodan não entendeu uma palavra do que diziam. Perguntou a si mesmo se o emissor de sinais goniométricos ainda estaria funcionando. Levaram-no a um pequeno camarote, verificaram se estava amarrado e deixaram-no só.
Dali a pouco, as máquinas do submarino começaram a trabalhar. Ouviu-se o ruído da água.
Provavelmente estavam passando por uma eclusa, a fim de alcançar o mar aberto. Depois de algum tempo, as máquinas passaram a trabalhar regularmente e o barco deixou de balançar.
Rhodan acreditava que se encontravam a grande profundidade e se dirigiam diretamente para a misteriosa fortaleza submarina.
Se o emissor de sinais goniométricos ainda estivesse funcionando, os homens da Ironduke poderiam acompanhar a rota do submarino. Mas será que isso adiantava alguma coisa? Thomas Cardif possuía o refém mais precioso que poderia desejar.
Ninguém atacaria o submarino ou a fortaleza, enquanto Rhodan se encontrasse em seu poder.
E ninguém sabia disso melhor que o próprio Rhodan.

* * *

Bell fitou a ilha solitária.
Bem que deveríamos ter imaginado
gritou em tom furioso e desesperado. — Por que concordamos em que fosse para lá?
Ninguém poderia tê-lo impedido — respondeu Deringhouse e deixou que a Ironduke continuasse a descer, até que as telas mostrassem todos os detalhes do platô. — É uma armadilha muito simples. Agora, que já sabemos disso, até chegamos a reconhecer os contornos da galeria fechada.
O transmissor de sinais goniométricos voltou a funcionar — disse o radioperador, que enfiou a cabeça na sala de comando. — Querem que transfira a localização para a grande tela?
Surpreso, Deringhouse fez que sim.
Na tela, que retratava a paisagem que se encontrava sob a nave, com grande redução, mas de forma extremamente nítida, surgiu um minúsculo ponto luminoso, que se deslocava de forma quase imperceptível. Saindo do centro da ilha, tomou a direção do mar.
Está pelo menos quinhentos metros abaixo do nível da água — disse Bell que acompanhava o ponto luminoso com um interesse cada vez maior. — Lá embaixo deve haver uma ligação entre a galeria e o oceano. Talvez Cardif pretenda levar o prisioneiro ao submarino, e depois à fortaleza.
Sem desligar o transmissor de sinais goniométricos? — indagou Deringhouse, balançando a cabeça. — Cardif não é nenhum tolo. Se resolveu deixar o transmissor em funcionamento, tem seus motivos para isso. Quer que saibamos o que está acontecendo com Rhodan, para onde o estão levando. E nesse caso podem levá-lo a qualquer lugar, menos ao verdadeiro esconderijo dos antis. Eles não podem ter certeza quanto às ordens que recebemos de Rhodan. Devem contar com a possibilidade de que acabaremos atacando, aconteça o que acontecer.
Subitamente o ponto luminoso apagou-se, tornando supérfluas outras discussões a respeito do mesmo. Avançara um bom pedaço pelo mar, o que permitia a conclusão segura de que Rhodan estava sendo levado num submarino. Queriam que os amigos de Rhodan soubessem disso, mas não queriam que soubessem mais do que isso.
Emitir raios goniométricos! — ordenou Deringhouse, pois o submarino era um objeto tão grande que não poderia deixar de ser localizado. — Acompanhar a rota, mas não atacar.
Esta ordem fora dirigida a frota e aos submarinos terranos. Depois concluiu:
Precisamos descobrir de qualquer maneira para onde estão levando Rhodan.
A decepção não demorou. Os raios goniométricos foram dirigidos ao local em que o submarino dos antis devia ter estado, mas não revelaram o menor vestígio da embarcação. As telas dos aparelhos de localização continuavam vazias. Nenhum raio de rastreamento retornou ao ponto de saída, a fim de indicar os contornos do submarino e revelar sua posição.
O submarino dos antis estava desaparecido.
E com ele, Rhodan.

* * *

O transmissor goniométrico de Perry continuava a funcionar, mas um campo energético voltara a envolver não só ele como também o submarino com sua barreira, O isolamento produzido pelo campo era tão intenso que até refletia os pensamentos, evitando que esses saíssem do barco.
Naquela hora nem mesmo os telepatas de Rhodan seriam capazes de localizá-lo.
O submarino deslizava à velocidade máxima de mil metros de profundidade. Só quando os cumes das montanhas submarinas surgiram diante da proa, reduziu a velocidade. Desceu cautelosamente, até encontrar-se na altura da saliência de rocha. Os portões abriram-se, e o submarino penetrou no canal cheio de água. Esse canal terminava junto a uma eclusa. O submarino ultrapassou-a e chegou ao porto da fortaleza propriamente dita. O campo energético desfez-se, mas os sinais goniométricos não adiantariam mais nada, pois não conseguiram atravessar as grossas camadas de rocha.
Quatro antis entraram no camarote e tiraram Rhodan da cama. Carregaram-no pelo estreito corredor do submarino, levando-o à torre e para a terra firme. A faixa portuária estava fortemente iluminada. Ninguém desconfiaria de que se encontravam mais de mil metros abaixo do nível da água.
Rhodan viu Cardif e o anti barbudo caminharem à sua frente e desaparecerem num corredor.
Ele mesmo foi colocado numa maca e carregado atrás dos dois.
Sua situação tornara-se mais perigosa do que se atreveria a imaginar. De início pensara que apenas o utilizariam como refém, mas se fosse assim Cardif já teria formulado suas exigências.
O que pretendem fazer?”, pensou.
O corredor terminava junto a uma porta larga. Esta abriu-se automaticamente assim que as pessoas, que carregavam a maca, se aproximaram. Rhodan mal conseguia mover-se, mas bastou divisar o teto para que imaginasse o pior. Os holofotes, instalados em posições simétricas, inundavam o recinto com uma luz ofuscante, que quase chegava a ser insuportável.
No ponto de encontro entre o teto e as paredes, viam-se feixes de cabos que desapareciam atrás do forro.
Devem levar à central energética”, conjeturou Rhodan.
Virou a cabeça e viu a aparelhagem complicada de um laboratório de pesquisa, muito bem montado. Reconheceu perfeitamente a máquina de choque hipnótico, colocada no canto para o qual estava sendo carregado.
Foi colocado sobre uma mesa e amarrado à mesma. Procurou em vão penetrar, por meio de sua reduzida capacidade telepática, nos pensamentos dos antis. Os sacerdotes da seita fizeram o bloqueio mental.
Ao fundo Rhodan viu o anti barbudo, que sempre estivera em companhia de Cardif. Ele usava manta branca, com um cinto dourado. Tinha alguns papéis na mão. Cardif aproximou-se, vindo do outro lado. Quando chegou junto à mesa sobre a qual jazia Rhodan, amarrado e reduzido à impotência, exibiu um sorriso que quase chegava a ser gentil.
Desfrute mais uma vez o prazer de pensar corretamente e com independência, Perry Rhodan.
Daqui a pouco não será mais capaz disso. Não o mataremos; você é muito precioso para isso. E seu cérebro, com todo o seu prodigioso conteúdo, seria valioso demais para ser mergulhado para sempre no mar do esquecimento. Muita gente gostaria de saber o que você sabe. Como por exemplo o segredo de Peregrino, o planeta da vida eterna. Ou a chave do poderio de Árcon. Há tanta coisa que gostaríamos de saber; e o caminho que conduz aos seus conhecimentos é tão simples. Mas há mais alguma coisa que quero de você.
Há tempos me tirou a memória e me deu uma nova personalidade: a personalidade de um molenga ridículo e de um sonhador.
Cardif continuava a sorrir, mas seu sorriso já não era amável e suave; era um sorriso desfigurado pelo ódio.
Você também terá uma nova personalidade, Perry Rhodan. Será o homem que os terranos e os arcônidas perseguem até o fim dos mundos e que se afoga no dilúvio de Ódio dos povos do Império Solar. Você se tornará o inimigo do Universo, seu nome será exposto à maldição geral, e no fim você será preso e morto. Já tem alguma idéia de qual será seu nome?
Cardif inclinou-se para a frente e fitou os olhos cinzentos de seu inimigo, que acabara de dominar.
Ainda não sabe? Pois eu lhe direi. Daqui a uma hora seu nome não será mais Perry Rhodan, e sim Thomas Cardif.
Rhodan permaneceu imóvel. Mal se atrevia a respirar. Naturalmente imaginara o que Cardif pretendia fazer com ele. Porém aquilo que seu filho acabara de revelar-lhe representava uma nova variante. Cardif mataria dois coelhos de uma só cajadada.
Começou a recriminar-se pesadamente. Seu sentimentalismo trouxera um enorme perigo para a Terra e Árcon. Se o matassem, a situação ainda seria relativamente boa. Mas não seria morto... iria receber uma nova personalidade — passaria a ser Cardif — e ficaria exposto à perseguição dos amigos. E, o que era mais, Cardif seria...
Vejo pelo seu rosto que você já adivinhou o que vai acontecer — prosseguiu Cardif em tom de triunfo. — Enquanto você passa a ser Thomas Cardif, e assume o meu papel lastimável, me transformo em Perry Rhodan e assumo o saber e a capacidade do administrador. Algumas injeções farão com que meus olhos fiquem cinzentos.. Basta tingir o cabelo. Nossas freqüências cerebrais e orgânicas são idênticas, conforme já constatamos. Ninguém perceberá a troca.
Dentro de algumas horas eu, Perry Rhodan, assumirei as funções de Administrador do Império Solar, e darei ordens para que o traidor Thomas Cardif seja caçado e morto. Desta vez Rhodan não terá a menor compaixão pelo filho.
Fitou prolongadamente os olhos de Perry.
Então, o que acha do meu plano?
Rhodan não se entregou a nenhuma ilusão. Sua situação era praticamente sem esperanças.
Ninguém sabia onde estava, e mesmo que soubesse, este alguém não poderia arriscar-se a desfechar um ataque, embora a essa hora fosse melhor para o Império Solar que ele morresse.
O plano de Cardif não apresentava a menor falha, o menor risco. Nem mesmo os telepatas seriam capazes de estabelecer distinção entre o verdadeiro Rhodan e o falso.
Thomas Cardif transformar-se-ia em Perry Rhodan. Era possível que depois da transformação nem soubesse o que acontecera. Era mesmo possível que passasse a perseguir os antis com a mesma disposição que Rhodan usara até então. Tudo dependia de que Cardif conservasse parte de sua memória e conseguisse protegê-la contra a espionagem telepática.
No entanto, Rhodan desconfiava de que dentro em breve não mais precisaria preocupar-se com isso. Não deu nenhuma resposta.
Vejo que ficou sem fala — constatou Cardif, satisfeito. — Era o que eu imaginava. De qualquer maneira estou agindo com mais inteligência que sua gente há cinqüenta e oito anos. Deixaram que eu ficasse com minha memória; apenas a fecharam com um bloqueio hipnótico, que acabou sendo rompido. No seu caso não haverá mais nada que possa ser rompido. Se isso acontecer, nada aparecerá. É que você se transformará em minha pessoa; e eu, na sua. Mas haverá uma pequena diferença. É bom que saiba disso, para que não se entregue a nenhuma esperança.
Embora passe a ser Rhodan, nunca deixarei de ser Thomas Cardif. E terei conhecimento desse fato. Acontece que nenhum telepata será capaz de percebê-lo. Minha personalidade continuará a viver, incrustada no seu saber e na sua competência. Essa personalidade continuará empenhada nos seus objetivos, que não são os objetivos aos quais você se propõe, Rhodan.
Rhodan continuou calado. O que poderia dizer? Qualquer palavra que proferisse representaria um desperdício. Thomas Cardif estava louco; não havia a menor dúvida. Mas também era um gênio. Infelizmente.
Cardif fez um sinal para o barbudo.
Pode começar assim que os contatos tenham sido colocados, Rhabol. Ainda bem que alguns descendentes dos aras escaparam à destruição. Se não fosse assim, não saberia como fazer — voltou a inclinar-se sobre Rhodan e disse: — Passe bem, Perry Rhodan. Acredito que jamais voltemos a encontrar-nos, mas se isso acontecer, será um encontro entre duas pessoas que pensam da mesma maneira; você não continuará com o caráter de um anjo. Pode fechar os olhos. Sou bastante humano para poupar-lhe a visão das máquinas. Desejo-lhe uma boa passagem, Perry Rhodan.
Rhodan não fechou os olhos, nem deu qualquer resposta. Procurou em vão libertar-se das amarras. Suas tentativas foram vãs como das outras vezes. Uma espécie de cúpula de vidro desceu sobre sua cabeça.
As Fitas metálicas cingiram suas juntas. Outra mesa foi colocada próxima da sua, e Cardif deitou na mesma. Alguns cabos ligavam-no a Rhodan, depois de atravessar uma máquina.
Rhabol aproximou-se.
Tudo preparado, Thomas Cardif.
Vamos começar! Não podemos perder tempo. Se a pausa for muito longa poderão perder a paciência — virou a cabeça e fitou Rhodan. — Você vai pagar pelo crime de ter transformado Árcon em uma quase colônia, Rhodan. Restituirei o antigo poder a Árcon e obrigarei a Terra a manter-se no seu lugar. Se conseguir isso, terei vingado Thora, minha mãe.
Voltou a deitar-se de costas e fitou o teto.
Rhodan continuou calado. Sabia que qualquer palavra que proferisse seria inútil. Era bem verdade que havia dentro dele alguma coisa que não queria conformar-se com a idéia de desistir, por mais desesperadora que fosse sua situação naquele momento.
Ainda poderia ter alguma esperança? Haveria alguém que pudesse ajudá-lo? Os mutantes estavam reduzidos à impotência. E continuariam a sê-lo, mesmo que encontrassem a fortaleza situada no fundo do mar.
Não; chegara ao fim. Atingira o ponto alto do poder e da própria existência. E agora cairia; e a queda seria tão profunda como sua subida fora alta. Atingira uma altura estonteante; não podia deixar de admitir isso. E ninguém seria capaz de cair de tão alto, sem encontrar a morte.
E sua queda seria provocada pela mão do próprio filho.
As máquinas começaram a emitir um zumbido. De início Rhodan apenas sentiu um calor agradável e um repuxo benfazejo nas juntas, mas subitamente teve a impressão de que alguém punha a mão em seu cérebro e arrancava pedaço por pedaço do mesmo. Começou a sentir dor, e sua vista se turvou. Teve de fazer um grande esforço para concentrar-se e observar o que estava acontecendo. De repente nem mesmo isso foi possível.
As dores lancinantes ameaçavam arrebentar-lhe a cabeça.
Mergulhou num abismo negro, sem fim.

6



Perry Rhodan tirara seus submarinos do museu. E o professor Wild mandara trazer para Terrânia um hormotroscópio vindo do outro lado do globo. Também mandara tirá-lo de um museu, do Museu de Ciências Médicas de Florença, Europa.
O professor Wild mantivera mais de trinta palestras com todos os pontos da Terra, até que encontrasse um colega capaz de explicar-lhe o funcionamento de um hormotroscópio ultravioleta.
O mesmo caíra no esquecimento há mais de cem anos. Não prestava nenhum serviço à Medicina ou aos cientistas. O professor Wild também não esperava nada daquele aparelho, sobre o qual vira uma referência em certos textos especializados, velhos e amarelentos, mas não queria expor-se à recriminação de não ter agido com suficiente senso de responsabilidade. Afinal, era uma das pessoas que consumiam o liquitivo!
Três horas depois de realizado o primeiro ensaio, encontrou pela décima oitava vez o mesmo resultado. A substância ativa da segunda glândula, cuja composição química era idêntica à da secreção da primeira, tinha uma permeabilidade à luz ultravioleta que era 0,57 por cento inferior àquela.
Por dezoito vezes o aparelho indicara o resultado menos 0,57 por cento em comparação aos ensaios resultantes com o primeiro extrato.
Em Terrânia, os especialistas em fermentos foram colocados de prontidão. Os fermentos, que são substâncias de origem biológica, cuja presença condiciona o curso de certas reações químicas, eram encontrados na saliva humana, na bílis e nas glândulas abdominais. Os fermentos conhecidos eram mais de mil.
Naquele momento teve início uma verdadeira loteria médica. Em Terrânia havia apenas sete especialistas em fermentos.
Pretendia-se que dentro de algumas horas estes realizassem ensaios com a substância ativa da segunda glândula do fura-lama, colocada em contato com mais de mil fermentos existentes no organismo humano. Os fermentos são agentes catalisadores. Agem por simples presença: não sofrem qualquer modificação, mas produzem alterações nas substâncias com as quais entram em contato.
O professor Wild fumava um charuto após o outro, enquanto corriam os ensaios. Uma atividade febril desenvolvia-se no complexo médico de Terrânia. Mais de um terço dos médicos consumiam o liquitivo.
De repente veio a notícia!
Falou-se no fermento lyl, bastante raro. O mesmo fora descoberto há pouco menos de vinte anos. Sempre que o extrato da segunda glândula entrava em contato com algum fermento da classe lyl, a ação catalítica do mesmo transformava esse extrato numa toxina para os nervos.
Essa toxina desenvolvia uma ação diabólica, provocando uma dependência irreversível no indivíduo e causando lesões também irreversíveis nos centros nervosos.
Se o extrato da segunda glândula do fura-lama não entrasse em contato com um fermento lyl ao ser introduzido no estômago humano, o mesmo continuava a ser o que sempre fora: um inofensivo rejuvenescedor de ação rápida.
O professor Wild apoiou a cabeça nas mãos.
Meu Deus — exclamou num gemido.
Que disfarce diabólico! — tinha motivos para sentir-se desesperado. As chances de encontrar um antídoto nas próximas semanas eram iguais a zero.

* * *

Uma vez constatado o desaparecimento de Rhodan, Bell assumiu automaticamente o comando da Ironduke e de toda a frota de guerra. Com isso uma dupla responsabilidade passou a pesar sobre seus ombros. A incerteza quanto ao destino de Rhodan impedia-o de agir segundo seu arbítrio. Sentia-se satisfeito por não saber se Rhodan estava vivo ou se já fora morto. Se tivesse certeza de sua morte, não hesitaria um segundo em transformar Okul num sol.
A Ironduke acompanhava a rotação do planeta, mantendo-se imóvel a grande altitude sobre a ilha. Os vinte submarinos receberam ordem para dirigir-se à ilha, realizando continuamente buscas goniométricas. O submarino dos antis não poderia desaparecer sem mais nem menos. A nave cargueira mantinha-se pronta para decolar no interior da baía. Poderia recolher os vinte submarinos num tempo brevíssimo, ainda mais se todos eles se encontrassem nas proximidades da ilha.
Era a única coisa que poderia fazer no momento.
O sol desapareceu atrás da linha do horizonte e a noite foi passando lentamente.
Bell estava deitado em sua cabina. Sentia-se nervoso e não conseguia dormir. O que ocupava sua mente era a preocupação pelo amigo. Não podia deixar de confessar que ele jamais se encontrara em situação tão desesperadora. Fossem quais fossem as exigências de Cardif ou dos antis, teria de cumpri-las para salvar a vida de Rhodan.
Quem dera que logo entrassem em contato...
Mas a noite passou-se numa espera infindável. Finalmente o dia começou a raiar.
Bell tomou banho frio, mudou de roupa, dispensou o café e correu para a sala de comando, onde encontrou Deringhouse.
Nada?
O general balançou a cabeça.
Nada!
Bell sentiu-se dominado por uma terrível aflição. Passou os olhos pelas escalas e pelos quadros de comando, como se estes pudessem dar respostas à pergunta que formulara em silêncio. A porta que dava para a sala de rádio estava aberta. Todos os aparelhos achavam-se em recepção. Os goniômetros funcionavam ininterruptamente. Os avisos de rotina da frota e dos submarinos eram recebidos e respondidos.
A incerteza começou a tornar-se Insuportável.
Quem dera que eu soubesse o que devo fazer...
Deringhouse procurou consolá-lo.
Eles não podem continuar escondidos para sempre — disse em tom pouco confiante. — Um dia terão de sair do esconderijo, e então...
Então o quê? Se Rhodan estiver em poder deles, não poderemos deixar de conceder-lhes livre trânsito. Não sei...
Sir!
Era a voz do chefe do setor de rádio.
Aquela palavra fora proferida em tom nervoso e enfático.
De um salto, Bell colocou-se na sala de rádio.
O que houve?
Sinais de rádio, sir. Vêm daqui — apontou para o mapa que estava estendido na mesa. — Ainda não possuímos os resultados da determinação goniométrica. Só tenho a direção.
O radioperador colocou o dedo num ponto que ficava a uns duzentos quilômetros da ilha.
Que sinais são estes? — perguntou Bell em tom nervoso. — Talvez venham de um dos submarinos...
Quem transmitiu os sinais foi Rhodan, sir.
Bell respirava com dificuldade.
O quê?
Foram sinais Morse, sir! Só mesmo um terrano poderia conhecer estes sinais.
Bell trabalhava febrilmente. Deringhouse aproximou-se.
Bell e Deringhouse ouviram:
...estou na fortaleza. Posição exata: dois mil quilômetros ao oeste do transmissor no interior da cadeia de montanhas, mil metros abaixo de zero. Transmissor teleguiado, destruição seria inútil. Consegui libertar-me, mas não posso sair da fortaleza.
Tentem libertar-me, mas...
Os sinais foram interrompidos.
Será que é uma armadilha?
Deringhouse acenou negativamente.
Quem seria capaz de exprimir-se na língua inglesa e usar os sinais Morse a não ser Rhodan?
Talvez Cardif, mas este não teria nada a ganhar se nos revelasse a posição da fortaleza bem camuflada. Não, só pode ter sido Rhodan.
Bell dirigiu-se ao radioperador.
Qual é a posição do transmissor?
É o mesmo transmissor utilizado no primeiro contato com os antis, sir. Fica aqui, quatro quilômetros abaixo do nível do mar — respondeu e apontou para o ponto já assinalado.
Bell colocou uma régua. Numa distância de dois mil quilômetros ao oeste desse ponto apenas havia o mar. Quer dizer que nesse lugar existia uma cadeia de montanhas submarinas, e a fortaleza ficava mil metros abaixo do nível do mar.
Obrigado — disse, e voltou à sala de comando, com Deringhouse sempre o seguindo. — Providencie para que duzentas unidades das forças de bloqueio sejam estacionadas em torno da cadeia de montanhas submarinas. Vamos cercá-la. Darei as necessárias instruções e indicações aos comandantes dos submarinos. Ande depressa, Deringhouse; não podemos perder um segundo que seja.
Foi tudo muito rápido. Menos de meia hora depois do momento em que foi captada a mensagem de rádio, duzentas espaçonaves cercaram a fortaleza. Submersos, os veículos espaciais não podiam deslocar-se com a mesma rapidez que no espaço, mas a segurança não era menor. Se houvesse um ataque, não poderiam usar os canhões de radiações. Apenas os torpedos atômicos. Não se conhecia a posição exata da fortaleza, mas a cadeia de montanhas não era muito extensa. Parecia uma abóbada com várias cumeeiras, que se erguia três mil metros acima do fundo do mar. Fosse qual fosse a posição da fortaleza, ninguém conseguiria sair dela sem ser notado.
Mesmo que conseguisse escapar, ainda havia mais de quatro mil unidades da frota terrana para interceptar os fugitivos e destruí-los.
Os antis estavam totalmente cercados.
E Rhodan?

* * *

As horas foram-se arrastando penosamente.
Não houve outro chamado. Ficou-se na incerteza sobre se Rhodan conseguira fugir ou voltara a ser preso. A primeira hipótese era pouco provável, pois ele não poderia deixar de ser descoberto. Ninguém conseguiria sair da fortaleza, desde que a mesma realmente ficasse naquela cadeia de montanhas.
A espera era insuportável.
A Ironduke mantinha-se exatamente acima da cadeia de montanhas submarinas, a apenas dois quilômetros de altitude. Os contornos do complexo montanhoso já haviam sido desenhados no mapa, pois os submarinos que se encontravam nas proximidades não demoraram em realizar as respectivas medições. E o submarino S-35 fez uma descoberta muito interessante.
Olhe, comandante! A entrada.
Torsin parecia cético.
Pode ser alguma coincidência, major. No mar, as paredes de rocha lisa não são nenhuma raridade. São lavadas e polidas pela água e...
A mil metros de profundidade? O senhor constatou alguma correnteza?
Torsin não respondeu. Parou as máquinas do submarino e aproximou-se do lugar indicado.
Reconheceu-o perfeitamente na tela. Até mesmo viu a fresta estreita que corria verticalmente.
Não; não era nenhum acaso.
Avisarei a Ironduke — disse Torsin, e fez um sinal para o radioperador, que se mantinha à espera. — A mensagem será codificada.
Rengall fitou atentamente o portão da fortaleza. Suas últimas dúvidas desvaneceram-se. Haviam descoberto a entrada da fortaleza. Gostaria de vestir o traje de mergulhador e nadar por aí. Mas, enquanto Reginald Bell não lhe desse a necessária permissão, não poderia fazer isso.
E não a obteve.
Bell estava afundado na poltrona, quando aconteceu uma coisa totalmente inesperada. Um transmissor muito potente chamou e pediu à Ironduke que ligasse imediatamente os receptores audiovisuais.
O radioperador agiu ligeiro e transferiu a ligação para a sala de rádio.
A tela iluminou-se bem à frente de Bell, e o rosto de Rhodan apareceu na mesma.
O aspecto de seu rosto era lastimável!
Os cabelos estavam grudados de sangue e suor. O lado direito da testa achava-se coberto por uma ferida recente e o sangue corria pela face, penetrando na gola do uniforme. O rosto estava entrecortado de rugas profundas, que davam testemunho de um sofrimento recente. No entanto, um brilho de triunfo surgiu nos olhos cinzentos, quando Rhodan disse:
É você, Bell? Ligue a comunicação audiovisual!
O radioperador obedeceu. Rhodan parecia respirar aliviado.
Que bom rever seu rosto, amigo! Por pouco não me liquidam de vez.
Onde está você, Perry? Na fortaleza? Acabamos de descobrir a entrada da mesma.
Um sorriso tenso surgiu no rosto de Rhodan.
Descobriram a entrada? Excelente! Acontece que no momento isso não me adianta nada.
Estou no interior da fortaleza, mas não estou livre — deu um passo para o lado, cedendo lugar a um homem barbudo, que penetrou no campo de visão.
Este é Rhabol, sacerdote de Baalol. Encontro-me em poder dele e de Cardif. Quando tentei fugir, Cardif sofreu ferimentos graves. Ainda não temos certeza se escapará. Conforme vê, só sofri alguns ferimentos insignificantes.
Bell fitou o rosto de Rhabol, que estava parado ao lado de Rhodan, com um pesado radiador de impulsos na mão.
Por que permitiram que você entrasse em contato conosco?
Quero fazer-lhe uma proposta em nome de Baalol — disse Rhodan com a voz embaraçada. — Você não terá outra alternativa senão aceitá-la, a não ser que queira sacrificar minha vida. Para ter uma chance de sobreviver, Cardif precisa obter o tratamento médico dos aras. Estão dispostos a trocar-me por Cardif. Se permitirmos que se retirem, serei libertado.
Bell estava desconfiado.
Você está sendo forçado a submeter-nos essa oferta. Tal proposta não tem validade.
Um estranho sorriso frio surgiu no rosto de Rhodan.
Você realmente acredita que eu me deixaria arrastar por alguma coisa que pudesse prejudicar a Terra? Preferia a morte. Não se preocupe, Bell. Desta vez penso como os antis. Não temos outra alternativa. Arranje uma nave e a mande pousar. Duzentos e cinqüenta antis e Cardif, que está ferido, sairão da fortaleza. Se não os impedirem de entrar na nave e decolar, minha vida não correrá perigo.
Permanecerei no interior da fortaleza e manterei contato audiovisual com vocês.
Um estranho brilho surgiu nos olhos de Bell, mas Rhodan acenou com a cabeça.
Não tire conclusões apressadas, meu caro. É claro que os antis tomaram suas precauções, para que vocês não possam atacá-los e libertar-me ao mesmo tempo. Ficarei trancado na sala de rádio, acompanhado por uma bomba, que poderá ser detonada a qualquer instante, a distância.
Rhabol levará o emissor que transmite o impulso. Vocês só poderão entrar aqui, quando Cardif e os antis estiverem em segurança.
Bell demonstrava uma estranha obstinação.
Quem me garante que os antis não o mandarão pelos ares logo que estiverem próximos à transição? — sacudiu a cabeça.
Não estou gostando da proposta. Precisamos de uma garantia.
Rhabol, o sacerdote de Baalol, afastou Rhodan e disse:
Os senhores não têm alternativa, terranos. Mas farei alguma coisa pelos senhores. Permitirei que duas naves nos acompanhem. Iniciaremos a transição na periferia do sistema solar. Vocês conseguirão impedi-la se antes disso não colocarmos o transmissor de impulsos fora da nave, para que vocês possam recolhê-lo. E, até lá, seus homens terão penetrado na fortaleza e libertado Rhodan. Garanto-lhe que cumpriremos o acordo.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Desta vez você pode acreditar nele, Bell. Nada me acontecerá — piscou para o gorducho numa posição em que o anti não podia vê-lo. — Ficarei satisfeito quando estiver novamente no interior da Ironduke.
E o liquitivo?
Os três entrepostos estão à nossa disposição.
Bell olhou para Deringhouse.
Envie alguns cruzadores, que deverão trazer uma nave dos saltadores. Mande-a pousar na ilha e recolher os antis — voltou a dirigir-se a Rhodan. — Está bem, Perry. Daqui a algumas horas tudo estará liquidado. Mas o diabo há de carregar os antis se eles estiverem armando uma cilada.
Rhodan sorriu e limpou o sangue que lhe cobria o rosto.
Posso garantir-lhe que desta vez não se trata de cilada. De uma vez por todas, ensinei Cardif a nunca mais fazer uma coisa dessas. Ele não nos armará mais nenhuma cilada.
Rhabol encostou o cano da arma no tórax de Rhodan e afastou-o da câmara.
Dirigindo-se a Bell, disse:
Vamos trancar Rhodan e armar a bomba. Vocês poderão permanecer em contato com ele.
Deixem livre a entrada da fortaleza. Sairemos com o submarino e tomaremos a direção da ilha. Peço-lhes encarecidamente que não nos molestem. Manterei o dedo sobre o detonador do transmissor de impulsos. Um movimento em falso da parte de vocês.., e Perry Rhodan já era. Entendido?
Bell rangeu os dentes, mas fez um gesto de assentimento.
Enquanto Deringhouse mandava trazer uma nave dos saltadores, Bell observou na tela quando uma pequena bomba com o formato de caixinha era colocada numa gaveta e trancada. Rhabol levou a chave. Fez um sinal para Bell e retirou-se.
Rhodan disse:
Trancou a porta, mas será fácil abri-la pelo lado de fora.
Você tem certeza de que ninguém nos ouve? — perguntou Bell.
Uma nova esperança pareceu vibrar em sua voz.
Tenho certeza absoluta, a não ser que se dêem ao trabalho de vigiar as transmissões. Mas acho que a esta hora têm outros problemas. Por quê? Tem algo a me dizer?
Bell parecia nervoso.
Estou pensando nos teleportadores. Assim que os antis estiverem no submarino, os teleportadores poderão libertá-lo. Depois disso afundamos o submarino antes que chegue à ilha e...
Pare! — disse Rhodan em tom penetrante. — Será que você ficou louco? Não se esqueça de que existe um campo energético em torno desta fortaleza, e nem mesmo um teleportador seria capaz de atravessá-lo. Além disso, cumpriremos o que combinamos. Não quero que os antis digam que sou um traidor. Finalmente, o perigo seria muito grande. Portanto, nada de atitudes apressadas!
Entendido?
Bell procurou controlar-se.
Entendido, Perry. Tenho a impressão de que você foi muito maltratado, pois, do contrário, não seria tão cauteloso. Darei ordens para que a saída da fortaleza seja deixada livre e o submarino dos antis não seja molestado. Mas ai deles se...
Não haverá nada, Bell. Daqui a poucas horas estarei em segurança, a bordo da Ironduke. Acredite em mim.

* * *

O professor Wild, que era especialista em hormônios e secreções, sabia que um antídoto capaz de curar um viciado em drogas não pode ser descoberto da noite para o dia.
Na conferência convocada pelo sábio, tal fato foi ressaltado outra vez. Face a isso haviam-se desviado do assunto em debate. Houve prolongadas discussões sobre a secreção da segunda glândula da tromba do fura-lama.
Será que alguém poderia recriminá-los por não terem levado a sério suas obrigações de controle?
Os médicos proferiram duros julgamentos a respeito deles mesmos e de seus colegas. As acusações veladas eram muito freqüentes, até que o professor Wild tomasse a palavra.
Levantou-se com o rosto muito vermelho.
De repente sua voz adquiriu a força de um barítono:
Caros colegas! Não nos esqueçamos de que durante mais de dois meses testamos, nas clínicas mais importantes da Terra, um liquitivo que só continha a secreção da primeira glândula da tromba do fura-lama. A substância ativa desta é o produto rejuvenescedor mais eficaz e de ação mais rápida que já vimos. É bem verdade que dentro de doze anos perde a eficácia.
Só depois que os controles sanitários e de medicamentos de Terrânia liberaram a venda do liquitivo, os antis lhe acrescentaram a secreção da segunda glândula, subtraindo concomitantemente metade da substância ativa da secreção da primeira.
Não estávamos em condições de constatar esse fato, já que a composição química das duas secreções é idêntica. E não desconfiamos de nada, já que, depois de ocorrida a falsificação, manifestou-se em primeiro lugar o efeito rejuvenescedor, e ainda porque, conforme revelaram as pesquisas, o vício só se manifesta depois que a droga é ingerida cinco ou seis vezes. Acontece que naquele tempo as pessoas tomavam o liquitivo com tamanha freqüência que não se notava o estado de dependência.
Não constatamos tal dependência em nós mesmos. E deveríamos ter constatado. Acontece que o fato de que o liquitivo nos rejuvenescia fez com que não tivéssemos a idéia de que poderíamos estar viciados. Mentíamos a nós mesmos, pois acreditávamos ter criado uma dependência na busca da juventude eterna.
Peço-lhes que reflitam sobre o que devemos comunicar a Rhodan. Sugiro que não lhe transmitamos nenhuma notícia, a não ser que descubramos um antídoto. E só agora podemos começar a trabalhar na descoberta do mesmo. Nem sequer ouso entreter esperança de que jamais venhamos a encontrá-lo.”
A proposta foi submetida à votação. Decidiu-se não transmitir qualquer comunicado a Rhodan.
A busca desesperada do antídoto teve início.

* * *

Os aparelhos registravam constantemente nas telas da Ironduke os contornos e a rota do submarino dos antis. Na posição em que se encontrava, Bell observava-o. Deringhouse recebeu uma mensagem de rádio que o informava de que haviam conseguido uma nave dos saltadores. Esta já tomara o curso de Okul e deveria chegar a qualquer momento.
A nave dos saltadores não demorou a rematerializar-se nos limites do sistema. Desacelerou e, guiada por mensagens de rádio, acabou por pousar à margem de um grande rio que desembocava no oceano, num local não muito distante da ilha onde se verificara o triste acontecimento. O submarino dos antis viajara um pouco rio acima e atracara num ponto favorável. Enquanto a nave pousava, Rhabol voltou a estabelecer contato audiovisual com a Ironduke.
Vejo que cumpriram o acordo — disse num elogio irônico. — Subiremos a bordo e decolaremos. Já podem penetrar na fortaleza.
Bell contemplou a tela. Nos fundos da mesma via perfeitamente o submarino que acabara de emergir. Os antis caminhavam pela margem rochosa, em direção à nave. Carregavam certos objetos que, segundo Bell supunha, eram aparelhos importantes ou pertences pessoais dos antis.
Dois antis carregavam uma maca.
O que é isso? — perguntou Bell.
Rhabol virou o rosto. Quando voltou a fitar Bell, mostrava-se zangado.
Este é Thomas Cardif, o filho de Rhodan. Nunca pensávamos que um pai fosse capaz de fazer isto com o próprio filho.
Vejam...
Bell apenas pôde lançar um ligeiro olhar para o rosto de Cardif, que estava sendo carregado muito depressa. Reconheceu perfeitamente os traços flácidos e inexpressivos do traidor. Os olhos do ferido achavam-se fechados. Provavelmente lhe haviam dado algum sedativo, a fim de aliviar a dor causada pelo transporte.
Mais uma vez Cardif escaparia ao castigo merecido. A vida e saúde de Rhodan eram mais importantes. Cardif não escaparia ao destino que o aguardava, mesmo que desta vez conseguisse salvar a vida.
Rhabol voltou a colocar-se à frente da câmara.
Providencie para que alguém pegue o transmissor de impulsos antes que entremos em transição. Deve-se apertar o botão verde para desarmar a bomba — fitou Bell com os olhos frios, nos quais se via um brilho de contentamento. — Passe bem, terrano. É bem possível que um dia voltemos a encontrar-nos. Quando isso acontecer, eu me lembrarei da sua generosidade.
Desligou sem aguardar resposta. Mas Bell ainda podia vê-lo, pois as telecâmaras da Ironduke haviam sido dirigidas para a ilha. Rhabol deixou para trás o transmissor portátil e foi o último dos antis a entrar a bordo.
Dali a alguns segundos, a nave decolou e subiu à estratosfera com os propulsores chamejantes.
Tomou a direção dos cruzadores terranos que a aguardavam.

* * *

Quando recebeu a ordem, o Capitão Torsin não perdeu mais tempo.
A entrada da fortaleza fora deixada aberta pelos antis. O submarino S-35 foi penetrando lentamente no túnel, passou pela eclusa e chegou ao porto aberto na rocha. Um comando dirigido pelo Major John Rengall foi desembarcado.
Esse comando, equipado com radiogoniômetros, não demorou a encontrar a sala de rádio.
Rengall bateu à porta fechada. Não obteve resposta.
Estava cada vez mais preocupado.
O radioperador, que acompanhava o comando, entrou em contato com o submarino S-35, e este por sua vez chamou a Ironduke. Bell, que ainda via Rhodan, informou:
Deve estar inconsciente, pois não se move. A cabeça descansa sobre a mesa. Arrombem a sala.
O submarino S-35 retransmitiu a ordem. Rengall, que já havia examinado a fechadura, fez um sinal negativo quando o especialista se aproximou com a carga explosiva.
Não é necessário. Trata-se de uma fechadura magnética. Logo estará aberta...
Enquanto falava, seus dedos hábeis manipulavam o mecanismo. Via-se pela maneira de trabalhar que não era esta a primeira fechadura desse tipo que ele abria. Como membro do Serviço de Segurança Solar fora treinado para abrir qualquer tipo de fechadura das raças extraterrenas, sempre que isso se tornava necessário.
De repente a porta cedeu sem o menor ruído. Se o Tenente Brischkowski não o tivesse segurado, Rengall poderia ter caído para dentro da sala.
Rhodan estava encolhido sobre uma banqueta. Só mesmo o fato de os braços cruzados descansarem sobre a mesa, suportando o peso da cabeça, evitara que escorregasse para o piso. Foi levado apressadamente para bordo do submarino.
A nave dos saltadores estava sendo esperada por vários cruzadores, que também desenvolviam metade da velocidade da luz.
Conforme se combinara, o transmissor de impulsos foi expelido da eclusa de ar. Foi fácil pescar a caixa metálica. Um oficial comprimiu o botão verde. A bomba acabara de ser desarmada.
A nave dos saltadores iniciou a transição sem que ninguém procurasse impedi-la, levando a bordo duzentos e cinqüenta sacerdotes da seita de Baalol e a pessoa que, segundo os terranos acreditavam, era Thomas Cardif. Momentos antes dos saltos, os campos defensivos dos antis foram ativados ao máximo, ocultando a intensidade e o ponto de partida da transição. A nave penetrou no hiperespaço com destino desconhecido.
Só quando recebeu a notícia de que Rhodan estava com vida, Bell respirou aliviado.
Dali a alguns segundos, uma tremenda explosão sacudiu o mar que se estendia abaixo dele.
Uma montanha de água elevou-se no ar, fragmentos de rocha foram atirados para o alto e uma língua de fogo passou Junto à Ironduke. A fortaleza dos antis havia ido pelos ares.
Bell nunca chegou a saber se a detonação se verificara mais tarde do que se esperava, ou se os sacerdotes pretendiam aguardar até que Rhodan estivesse em segurança. Evidentemente não seria capaz de imaginar que o falso Rhodan só ligara o mecanismo-relógio depois de ter sido encontrado.
Nenhuma nave ou submarino foi danificado.
Bell ordenou às unidades submersas que retornassem ao lugar onde se encontrava a frota de bloqueio e instruiu o comandante da nave cargueira a fim de que recolhesse os submarinos. Para ele a missão em Okul estava concluída. Não poderia imaginar que a mesma mal começara.

* * *

No momento em que a Ironduke pousava na ilha, quase no mesmo lugar em que os antis haviam subido a bordo da nave dos saltadores, chegaram as primeiras mensagens de hiper-rádio, expedidas por uma nave retransmissora. Assim que lhes foi fornecida a senha, os saltadores entregaram todo o estoque de liquitivo, sem oferecer a menor resistência e sem formular perguntas. O abastecimento da Terra estava garantido por algumas semanas. O perigo das revoltas fora eliminado, muito embora só se tivesse conseguido mais algum tempo. Bell tinha certeza de que os outros depósitos também não representariam nenhuma dificuldade.
Dali a dez minutos, o submarino S-35 emergiu do rio que passava nas proximidades. Atracou na margem rochosa, pouco atrás da embarcação abandonada pelos antis. Era um local favorável, já que ali a selva não podia medrar.

* * *

Para Thomas Cardif, as últimas horas representavam uma carga nervosa que dificilmente alguém já suportara.
Quando sentiu o saber de Rhodan fluir para dentro de sua mente e percebeu que a cada segundo que passava assumia novas feições da personalidade do pai, começou a imaginar quão difícil seria sua tarefa. Não bastaria interpretar os dados armazenados na memória de Rhodan; seria necessário agir em conformidade com estes. Devia saber o que Rhodan faria em determinada situação, e teria de agir de igual forma. Mas, como, juntamente com a memória e os conhecimentos de Rhodan, assumia o raciocínio consciente do mesmo, agiria automaticamente tal qual ele, desde que no momento da decisão afastasse o remanescente de sua mente consciente. E este remanescente da personalidade de Thomas Cardif era-lhe indispensável para que não se transformasse de vez em Perry Rhodan, isto é, num homem que não tinha o menor conhecimento dos planos do rebelde.
Os antis souberam deixar-lhe um remanescente da consciência de Cardif, que não ultrapassava o estritamente necessário, para que se lembrasse de sua tarefa. Esse remanescente era tão pouco que não poderia ser detectado num exame telepático ou parapsicológico, pois o conteúdo da mente de Rhodan o envolvia como uma capa isolante. Depois disso mergulhara num estado de profunda Inconsciência.
Ao despertar, era Perry Rhodan. Os médicos haviam produzido algumas modificações insignificantes em seu rosto e fizeram uma ferida em sua testa. Certas injeções fizeram com que apresentasse os olhos cinzentos de Rhodan. O cabelo foi tingido num tom mais escuro. Algumas rugas no rosto fizeram dele o sósia perfeito do pai que, por sua vez, através de intervenções médicas do mesmo tipo, fora transformado em Thomas Cardif.
Apenas havia um risco. E Rhabol o enunciara quando o falso Rhodan havia sido levado à sala de rádio.
Nunca realizamos uma experiência como esta, Cardif. Não sei qual será o resultado da interação permanente de duas consciências tão diversas num espaço tão pequeno. Não se esqueça de que por questões de segurança tivemos de conferir mais espaço à personalidade de Rhodan, pois do contrário haveria o perigo da descoberta. A consciência que corresponde à personalidade de Cardif, isto é, de você, possui menor área. Mas em compensação tem maior vivacidade. Fazemos votos de que sempre seja a parte dominante.
Você acredita que realmente poderei transformar-me em Rhodan?
Sim. É possível que a mente consciente dele subjugue a sua.
Cardif respondera em tom frio:
É um risco que não posso deixar de assumir. Já transmitiu os sinais Morse?
Transmiti. Os terranos acreditam que você fugiu e não terão a menor dificuldade em digerir o blefe. Nossa representação deverá ser muito convincente.
E será; não tenha a menor dúvida.
Dali a pouco seguira-se a palestra com Bell. As condições foram combinadas e transformadas em realidade. Dali em diante Cardif passou a desempenhar o papel de Rhodan, inconsciente. Era um papel muito mais difícil do que imaginara.
Além de manter seus pensamentos sob controle, tinha de vigiar os de Rhodan. Para evitar qualquer erro, deixou que a mente consciente de Rhodan se comprazesse em recordações. Era o meio mais simples de evitar a ocorrência de erro, e além disso essa atividade mental convenceria qualquer telepata que o espreitasse de que realmente tinha diante de si Rhodan, inconsciente.
A situação tornou-se realmente perigosa quando os homens desembarcados do submarino arrombaram a porta da sala de rádio e o levaram. Fez o papel de homem desmaiado. Ficou com os olhos fechados e deixou os músculos descontraídos. Carregaram-no até o submarino e colocaram-no numa cama. Foi examinado por um médico. Soltou um gemido e aplicaram-lhe uma injeção de calmante. Adormeceu, mas acordou em tempo para assistir a chegada do barco à ilha.
Reconheceu Bell pela voz. Mas o que mais o alarmava era a presença de John Marshall. O telepata era perigoso. Por isso Cardif continuou “inconsciente” e deixou que os pensamentos de Rhodan vagassem à vontade.
Quando foi levado ao setor médico da Ironduke e colocado sobre a mesa de exames, a situação tornou-se ainda mais crítica.
Desligou completamente a sua própria consciência e escondeu-a na de Rhodan. Continuou com os olhos fechados e descontraiu o corpo. Deixou que escutassem as batidas do coração e as vibrações cerebrais, que tirassem uma amostra de seu sangue e examinassem as funções dos diversos órgãos. Mas o que mais interessou aos especialistas foi o estado de sua mente.
Conversavam em voz baixa, mas Cardif entendia cada palavra que diziam. Estavam desconfiados; não havia a menor dúvida. Um tremendo susto abalou Cardif.
Será que seu plano estava destinado a fracassar no último instante? E isso apenas porque aquelas criaturas pedantes agiram com um cuidado excessivo?
Manteve-se tranqüilo e procurou acompanhar a palestra.
...o que sem dúvida é conseqüência de uma tremenda carga psíquica — disse alguém que ele não conhecia. — Deve ter sido interrogado por meio do aparelho de reforço hipnótico. Tal procedimento não pode deixar de afetar o cérebro.
Quer dizer que a mente de Rhodan está perturbada? — perguntou outra voz.
Não. Apenas sofreu um choque muito forte. A bordo desta nave não possuímos os instrumentos nem os especialistas que nos permitam iniciar o tratamento. Devemos providenciar para que Rhodan seja levado imediatamente a uma clínica especializada.
Um choque causado por um interrogatório hipnótico?
Exatamente.
Alguém entrou na sala. Cardif olhou cautelosamente pelas pestanas semicerradas e reconheceu Bell. Defrontou-se com o olhar do gorducho e compreendeu que não podia mais ficar passando por inconsciente. Então gemeu baixinho, como se estivesse despertando de um sono profundo.
Está recuperando a consciência! — exclamou um dos médicos.
Bell aproximou-se.
Perry, você me ouve? Você me reconhece? Faça um sinal com a cabeça, se puder...
Cardif acenou com a cabeça. Até parecia que esse gesto consumia todas as forças que ainda restavam em seu organismo.
Ele me reconheceu! — gritou Bell em tom de alívio. — Santo Deus, ele me reconheceu! Quer dizer que não perdeu a memória.
Inclinou-se sobre o rosto de Cardif e examinou-o. Eram os segundos decisivos.
Se havia a possibilidade de uma descoberta, esta teria de ocorrer agora. Ninguém conhecia Rhodan tão bem quanto Bell, que era seu melhor amigo.
Sente alguma dor, Perry? Diga alguma coisa — insistia o gorducho.
Cardif sorriu com dificuldade. Até parecia que a qualquer momento partiria deste mundo.
Desempenhava seu papel muito bem. Provavelmente a ilusão não seria tão perfeita se os dois Rhodan pudessem ser vistos ao mesmo tempo. Mas nas atuais condições, não havia possibilidade de estabelecer uma comparação direta.
Tudo bem, Bell.
Ainda bem! — disse o gordo em tom feliz. — Finalmente voltou a falar. Quem fez isso na sua testa? Foi esse patife do Cardif? Bem, ele nos escapou, mas garanto-lhe que um dia nós o pegaremos. E então o faremos pagar por tudo.
Isso mesmo — disse Cardif-Rhodan com a voz débil.
Os médicos afastaram Bell.
O paciente precisa de repouso — sentenciou um deles. — Não convém cansá-lo, sir.
Está certo. Se os senhores acharem que assim é melhor, obedecerei — voltou a dirigir-se a Rhodan: — Até logo mais. A melhor coisa que pode fazer é dormir.
Cardif esforçou-se para erguer o corpo. Haviam tirado sua roupa. O uniforme estava pendurado num cabide, na parede da sala pintada de branco. Isso combinava muito bem com o próximo ato.
Bell! Olhe ali!
Bell ficou parado. Olhou na direção em que apontava o braço de Cardif. A mão estendida apontava para a túnica do uniforme.
Sim; o que houve? O uniforme? É claro que mandaremos limpá-lo, Perry. Não está muito bonito e...
Cardif negou com a cabeça. Seu rosto ficou desfigurado, como se sentisse dores horríveis. Via-se que falava com dificuldade; e também tinha dificuldade em pensar.
Na túnica... do lado direito...
Bell mal conseguia entender suas palavras, mas compreendeu o sentido do que aparentemente cochichava com a maior dificuldade. Apressou-se em revistar os bolsos do uniforme. Sentiu um objeto elástico no bolso direito e retirou-o. Estava curioso.
Era uma fita estreita de plástico.
Nela se viam alguns caracteres e fórmulas escritas na língua arcônida. Bell não sabia o que significavam, mas imaginava que assumiam uma importância extraordinária.
Aproximou-se da cama e fez um sinal para Cardif.
Está bem, Perry. Você se refere a isto? — colocou a fita junto ao rosto de Cardif. — O que é?
Desta vez Cardif disse a verdade:
A fórmula do antídoto... liquitivo. Os antis tiveram a leviandade de falar sobre isto. As fórmulas.., estavam com Cardif. Eu as roubei — gemeu, fazendo de conta que voltara a sentir dores. — Ele não percebeu.
Evidentemente era outra mentira. O fato é que Cardif acreditava que o truque da fórmula representaria uma atração toda especial. Se fornecesse a fórmula aos terranos, ninguém jamais duvidaria de sua identidade, caso surgisse uma oportunidade para isso. Por enquanto isso não tinha acontecido. Conseguira enganar até mesmo os telepatas. Seus pensamentos ficaram ocultos sob a consciência de Rhodan, que era mais ampla. Aquilo que restava da personalidade de Cardif era protegido por essa consciência.
Apesar disso não seria demais sufocar qualquer possível suspeita no nascedouro.
O antídoto? — repetiu Bell em tom de espanto. — Será que se trata de um preparado capaz de neutralizar o efeito mortífero do liquitivo?
Cardif fez que sim.
Bell guardou a fita de plástico. Depois inclinou-se sobre Cardif e aplicou-lhe um beijo ruidoso sobre a testa coberta por uma crosta de sangue.
Isso foi um serviço bem feito, meu velho! Agora procure dormir. Transmitirei a Deringhouse recomendações suas e mandarei que a nave decole. Quanto mais cedo chegarmos à Terra, melhor para você.
Levantou-se e caminhou em direção à porta. Virou-se e, dirigindo-se principalmente aos médicos, disse:
Cuidem bem dele. Deixem-no dormir, pois o sono ainda é o melhor remédio.
Depois saiu.
Cardif soltou um suspiro de alívio. Sabia que a presença de Bell representara a prova mais dura por que sua falsa identidade havia passado. E Bell aceitara-o como se fosse Rhodan, sem a menor hesitação.
Enquanto a Ironduke não pousasse na Terra, não teria nada a recear. Durante o vôo não poderia acontecer muita coisa. Fariam com que mergulhasse num sono repousante. Talvez controlassem o funcionamento de seu cérebro e a atividade dos órgãos. Mas só em Terrânia receberia um tratamento adequado.
E, até lá, Reginald Bell ocuparia o lugar de Rhodan.

* * *

As revoltas haviam chegado ao fim na Terra, pois, por enquanto, o abastecimento de liquitivo estava garantido. Nos laboratórios procurariam descobrir o antídoto. Cardif sabia que conseguiriam, pois ele mesmo lhes fornecera a fórmula. Esta representaria a prova final e evidente de que era Perry Rhodan, caso alguém quisesse duvidar disso.
Sir John Rengall? Bem, este recebera ordens para prender Thomas Cardif, mas na verdade apenas salvou o mesmo Thomas Cardif, acreditando que acabara de salvar Perry Rhodan.
Cardif sentiu uma ligeira vibração debaixo da cama. O General Deringhouse estava ligando os propulsores da Ironduke.
A ilha mergulhou no oceano do planeta Okul, e Okul, por sua vez, acabou por mergulhar no mar de estrelas.
Thomas Cardif fechou os olhos e sorriu.
Está passando melhor — disse um dos médicos com um suspiro de alívio. — Ele conseguirá.
Isso mesmo”, pensou Cardif de si para si. “Ele conseguirá.”
Ele, Thomas Cardif.
Era um artista muito talentoso.
Mas não pôde deixar de confessar que os artistas, os antis, eram ainda melhores.

* * *

Mas o melhor realmente foi o antídoto que veio à Terra pelas mãos de Cardif-Rhodan.
Pela primeira vez na história houve uma colaboração maravilhosa entre os médicos galácticos, os aras e os terranos. E essa colaboração possibilitou à Terra iniciar, no prazo incrivelmente curto de vinte e sete dias, a produção em grande escala. Na Terra, em Aralon e em mais seis mundos dos aras o antídoto, chamado de alitivo, passou a ser fabricado em comprimidos.
A produção das grandes fábricas de preparados farmacêuticos aumentava a cada dia que passava. As naves mais velozes do grande império levavam aos homens viciados a salvação sob a forma de comprimidos. Para muitos, essa salvação chegou tarde.
A pessoa que tivesse consumido o liquitivo por mais de dez anos estava perdida. Depois disso, os danos causados ao sistema nervoso tornavam-se irreversíveis. Essas pessoas definhavam miseravelmente. Por muito tempo representaram uma advertência viva aos homens.
Mas mesmo as criaturas que conseguiram salvar-se tiveram de pagar um preço elevado pela recuperação da saúde. Muitas vezes a cura é acompanhada por uma forte febre. Certos preparados criados pela medicina terrana e pela dos aras permitiam a cura da febre, que apresentava variantes individuais, mas não evitavam as manifestações de paralisia vasomotora.
E essas manifestações nunca se anunciavam antecipadamente. Apareciam de repente. Os nervos vasomotores, que controlavam a dilatação dos vasos sanguíneos e a pressão do sangue, pareciam ter sido desligados e muitas vezes resistiam a todos os esforços dos médicos para que recuperassem suas funções.
Mas todas as pessoas que conseguiram escapar com vida — e nos mundos do Império Solar e do Império Estelar de Árcon as mesmas se contavam pelos bilhões — nunca se esqueceriam do homem ao qual deviam a vida: Perry Rhodan, o grande terrano.
O homem que parecia ser Perry Rhodan sorriu. Mas seu sorriso não anunciava nada de bom...



* * *
* *
*




O administrador foi preso, e Thomas Cardif começou a desempenhar o papel de Perry Rhodan.
Mas Cardif, O Homem de Duas Caras — e é este o título do próximo volume — envolve-se num jogo mortífero. Mortífero tanto para ele como para a Humanidade.
Acontece que nem Cardif nem a Humanidade desconfiam disso...

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