Apenas uns
poucos minutos deviam ter passado. Quando Rhodan voltou a abrir os
olhos, os antis o estavam amarrando. Rhodan defendeu-se
desesperadamente, mas apenas conseguiu atirar para longe um dos seus
adversários por meio de uma joelhada. Cardif, que se encontrava de
pé a seu lado, dava instruções. Segurava a arma de Rhodan, bem
como o aparelho que este trazia no pulso e o emissor goniométrico
que guardara no bolso esquerdo. Quando viu que Rhodan estava reduzido
à impotência, aproximou-se.
— Desde
o início você desconfiou de mim, Rhodan. Estes objetos constituem a
melhor prova.
— Será
que minha desconfiança não se justificava? — retrucou Rhodan.
Perry já
tivera tempo para dominar seu desapontamento, mas sentia-se um pouco
envergonhado por ter mostrado uma fraqueza. Deveria ter dado atenção
ao raciocínio, não aos sentimentos.
Bell lhe
diria algumas palavras nada agradáveis.
— Será
que você realmente acreditava que eu me consideraria derrotado?
Neste ponto sou seu filho. Mas só neste ponto! — a voz de Cardif
tornou-se dura e implacável. — Você teve a gentileza de me dar
tempo para refletir. Eu aproveitei esse tempo, você não. O erro foi
seu, não meu.
— Você
será perseguido, Thomas, nem que tenham que tangê-lo até os
confins do tempo e do espaço. Um dia o agarrarão. E quando isso
acontecer, você se defrontará com pessoas que não se guiam pelo
sentimento, mas apenas pela inteligência... e pela ânsia de uma
implacável vingança.
— Poupe
suas forças; você ainda precisará delas — limitou-se Thomas
Cardif a dizer.
Deu
algumas ordens aos antis. Rhodan foi levantado e colocado num
carrinho baixo. Cardif e seus asseclas sentaram-se ao lado dele, e
logo a viagem infernal para o interior da montanha teve início.
Desceram
ligeiramente. O túnel mal e mal permitia a passagem do veículo, O
teto era suficientemente alto para que ninguém machucasse a cabeça.
A intervalos regulares havia lâmpadas que espalhavam uma luz tênue.
Pelos
cálculos de Rhodan, o carro devia ter descido pelo menos mil metros.
Acontece que a montanha que se erguia sobre a ilha não tinha mais de
setecentos metros. Se não voltassem a subir logo, o túnel
fatalmente os levaria ao mar, quinhentos metros abaixo da superfície.
Porém,
antes que isso acontecesse, a galeria terminou.
O corredor
alargou-se, transformando-se num verdadeiro pavilhão. A maior parte
da superfície deste estava ocupada pela água, na qual achava-se
estacionado o submarino dos antis que servira à fuga dos
sobreviventes da fortaleza destruída. Rhodan começou a desconfiar
de que num ponto Cardif não mentira: a segunda fortaleza dos antis
ainda não fora descoberta.
O carro
parou. Os dois antis pegaram Rhodan e carregaram-no para o submarino.
O barbudo e Thomas seguiram-no. Falavam um com o outro, mas Rhodan
não entendeu uma palavra do que diziam. Perguntou a si mesmo se o
emissor de sinais goniométricos ainda estaria funcionando.
Levaram-no a um pequeno camarote, verificaram se estava amarrado e
deixaram-no só.
Dali a
pouco, as máquinas do submarino começaram a trabalhar. Ouviu-se o
ruído da água.
Provavelmente
estavam passando por uma eclusa, a fim de alcançar o mar aberto.
Depois de algum tempo, as máquinas passaram a trabalhar regularmente
e o barco deixou de balançar.
Rhodan
acreditava que se encontravam a grande profundidade e se dirigiam
diretamente para a misteriosa fortaleza submarina.
Se o
emissor de sinais goniométricos ainda estivesse funcionando, os
homens da Ironduke poderiam acompanhar a rota do submarino. Mas será
que isso adiantava alguma coisa? Thomas Cardif possuía o refém mais
precioso que poderia desejar.
Ninguém
atacaria o submarino ou a fortaleza, enquanto Rhodan se encontrasse
em seu poder.
E ninguém
sabia disso melhor que o próprio Rhodan.
*
* *
Bell fitou
a ilha solitária.
— Bem
que deveríamos ter imaginado
— gritou
em tom furioso e desesperado. — Por que concordamos em que fosse
para lá?
— Ninguém
poderia tê-lo impedido — respondeu Deringhouse e deixou que a
Ironduke continuasse a descer, até que as telas mostrassem todos os
detalhes do platô. — É uma armadilha muito simples. Agora, que já
sabemos disso, até chegamos a reconhecer os contornos da galeria
fechada.
— O
transmissor de sinais goniométricos voltou a funcionar — disse o
radioperador, que enfiou a cabeça na sala de comando. — Querem que
transfira a localização para a grande tela?
Surpreso,
Deringhouse fez que sim.
Na tela,
que retratava a paisagem que se encontrava sob a nave, com grande
redução, mas de forma extremamente nítida, surgiu um minúsculo
ponto luminoso, que se deslocava de forma quase imperceptível.
Saindo do centro da ilha, tomou a direção do mar.
— Está
pelo menos quinhentos metros abaixo do nível da água — disse Bell
que acompanhava o ponto luminoso com um interesse cada vez maior. —
Lá embaixo deve haver uma ligação entre a galeria e o oceano.
Talvez Cardif pretenda levar o prisioneiro ao submarino, e depois à
fortaleza.
— Sem
desligar o transmissor de sinais goniométricos? — indagou
Deringhouse, balançando a cabeça. — Cardif não é nenhum tolo.
Se resolveu deixar o transmissor em funcionamento, tem seus motivos
para isso. Quer que saibamos o que está acontecendo com Rhodan, para
onde o estão levando. E nesse caso podem levá-lo a qualquer lugar,
menos ao verdadeiro esconderijo dos antis. Eles não podem ter
certeza quanto às ordens que recebemos de Rhodan. Devem contar com a
possibilidade de que acabaremos atacando, aconteça o que acontecer.
Subitamente
o ponto luminoso apagou-se, tornando supérfluas outras discussões a
respeito do mesmo. Avançara um bom pedaço pelo mar, o que permitia
a conclusão segura de que Rhodan estava sendo levado num submarino.
Queriam que os amigos de Rhodan soubessem disso, mas não queriam que
soubessem mais do que isso.
— Emitir
raios goniométricos! — ordenou Deringhouse, pois o submarino era
um objeto tão grande que não poderia deixar de ser localizado. —
Acompanhar a rota, mas não atacar.
Esta ordem
fora dirigida a frota e aos submarinos terranos. Depois concluiu:
— Precisamos
descobrir de qualquer maneira para onde estão levando Rhodan.
A decepção
não demorou. Os raios goniométricos foram dirigidos ao local em que
o submarino dos antis devia ter estado, mas não revelaram o menor
vestígio da embarcação. As telas dos aparelhos de localização
continuavam vazias. Nenhum raio de rastreamento retornou ao ponto de
saída, a fim de indicar os contornos do submarino e revelar sua
posição.
O
submarino dos antis estava desaparecido.
E com ele,
Rhodan.
*
* *
O
transmissor goniométrico de Perry continuava a funcionar, mas um
campo energético voltara a envolver não só ele como também o
submarino com sua barreira, O isolamento produzido pelo campo era tão
intenso que até refletia os pensamentos, evitando que esses saíssem
do barco.
Naquela
hora nem mesmo os telepatas de Rhodan seriam capazes de localizá-lo.
O
submarino deslizava à velocidade máxima de mil metros de
profundidade. Só quando os cumes das montanhas submarinas surgiram
diante da proa, reduziu a velocidade. Desceu cautelosamente, até
encontrar-se na altura da saliência de rocha. Os portões
abriram-se, e o submarino penetrou no canal cheio de água. Esse
canal terminava junto a uma eclusa. O submarino ultrapassou-a e
chegou ao porto da fortaleza propriamente dita. O campo energético
desfez-se, mas os sinais goniométricos não adiantariam mais nada,
pois não conseguiram atravessar as grossas camadas de rocha.
Quatro
antis entraram no camarote e tiraram Rhodan da cama. Carregaram-no
pelo estreito corredor do submarino, levando-o à torre e para a
terra firme. A faixa portuária estava fortemente iluminada. Ninguém
desconfiaria de que se encontravam mais de mil metros abaixo do nível
da água.
Rhodan viu
Cardif e o anti barbudo caminharem à sua frente e desaparecerem num
corredor.
Ele mesmo
foi colocado numa maca e carregado atrás dos dois.
Sua
situação tornara-se mais perigosa do que se atreveria a imaginar.
De início pensara que apenas o utilizariam como refém, mas se fosse
assim Cardif já teria formulado suas exigências.
“O
que pretendem fazer?”,
pensou.
O corredor
terminava junto a uma porta larga. Esta abriu-se automaticamente
assim que as pessoas, que carregavam a maca, se aproximaram. Rhodan
mal conseguia mover-se, mas bastou divisar o teto para que imaginasse
o pior. Os holofotes, instalados em posições simétricas, inundavam
o recinto com uma luz ofuscante, que quase chegava a ser
insuportável.
No ponto
de encontro entre o teto e as paredes, viam-se feixes de cabos que
desapareciam atrás do forro.
“Devem
levar à central energética”,
conjeturou Rhodan.
Virou a
cabeça e viu a aparelhagem complicada de um laboratório de
pesquisa, muito bem montado. Reconheceu perfeitamente a máquina de
choque hipnótico, colocada no canto para o qual estava sendo
carregado.
Foi
colocado sobre uma mesa e amarrado à mesma. Procurou em vão
penetrar, por meio de sua reduzida capacidade telepática, nos
pensamentos dos antis. Os sacerdotes da seita fizeram o bloqueio
mental.
Ao fundo
Rhodan viu o anti barbudo, que sempre estivera em companhia de
Cardif. Ele usava manta branca, com um cinto dourado. Tinha alguns
papéis na mão. Cardif aproximou-se, vindo do outro lado. Quando
chegou junto à mesa sobre a qual jazia Rhodan, amarrado e reduzido à
impotência, exibiu um sorriso que quase chegava a ser gentil.
— Desfrute
mais uma vez o prazer de pensar corretamente e com independência,
Perry Rhodan.
Daqui a
pouco não será mais capaz disso. Não o mataremos; você é muito
precioso para isso. E seu cérebro, com todo o seu prodigioso
conteúdo, seria valioso demais para ser mergulhado para sempre no
mar do esquecimento. Muita gente gostaria de saber o que você sabe.
Como por exemplo o segredo de Peregrino, o planeta da vida eterna. Ou
a chave do poderio de Árcon. Há tanta coisa que gostaríamos de
saber; e o caminho que conduz aos seus conhecimentos é tão simples.
Mas há mais alguma coisa que quero de você.
Há tempos
me tirou a memória e me deu uma nova personalidade: a personalidade
de um molenga ridículo e de um sonhador.
Cardif
continuava a sorrir, mas seu sorriso já não era amável e suave;
era um sorriso desfigurado pelo ódio.
— Você
também terá uma nova personalidade, Perry Rhodan. Será o homem que
os terranos e os arcônidas perseguem até o fim dos mundos e que se
afoga no dilúvio de Ódio dos povos do Império Solar. Você se
tornará o inimigo do Universo, seu nome será exposto à maldição
geral, e no fim você será preso e morto. Já tem alguma idéia de
qual será seu nome?
Cardif
inclinou-se para a frente e fitou os olhos cinzentos de seu inimigo,
que acabara de dominar.
— Ainda
não sabe? Pois eu lhe direi. Daqui a uma hora seu nome não será
mais Perry Rhodan, e sim Thomas Cardif.
Rhodan
permaneceu imóvel. Mal se atrevia a respirar. Naturalmente imaginara
o que Cardif pretendia fazer com ele. Porém aquilo que seu filho
acabara de revelar-lhe representava uma nova variante. Cardif mataria
dois coelhos de uma só cajadada.
Começou a
recriminar-se pesadamente. Seu sentimentalismo trouxera um enorme
perigo para a Terra e Árcon. Se o matassem, a situação ainda seria
relativamente boa. Mas não seria morto... iria receber uma nova
personalidade — passaria a ser Cardif — e ficaria exposto à
perseguição dos amigos. E, o que era mais, Cardif seria...
— Vejo
pelo seu rosto que você já adivinhou o que vai acontecer —
prosseguiu Cardif em tom de triunfo. — Enquanto você passa a ser
Thomas Cardif, e assume o meu papel lastimável, me transformo em
Perry Rhodan e assumo o saber e a capacidade do administrador.
Algumas injeções farão com que meus olhos fiquem cinzentos.. Basta
tingir o cabelo. Nossas freqüências cerebrais e orgânicas são
idênticas, conforme já constatamos. Ninguém perceberá a troca.
Dentro de
algumas horas eu, Perry Rhodan, assumirei as funções de
Administrador do Império Solar, e darei ordens para que o traidor
Thomas Cardif seja caçado e morto. Desta vez Rhodan não terá a
menor compaixão pelo filho.
Fitou
prolongadamente os olhos de Perry.
— Então,
o que acha do meu plano?
Rhodan não
se entregou a nenhuma ilusão. Sua situação era praticamente sem
esperanças.
Ninguém
sabia onde estava, e mesmo que soubesse, este alguém não poderia
arriscar-se a desfechar um ataque, embora a essa hora fosse melhor
para o Império Solar que ele morresse.
O plano de
Cardif não apresentava a menor falha, o menor risco. Nem mesmo os
telepatas seriam capazes de estabelecer distinção entre o
verdadeiro Rhodan e o falso.
Thomas
Cardif transformar-se-ia em Perry Rhodan. Era possível que depois da
transformação nem soubesse o que acontecera. Era mesmo possível
que passasse a perseguir os antis com a mesma disposição que Rhodan
usara até então. Tudo dependia de que Cardif conservasse parte de
sua memória e conseguisse protegê-la contra a espionagem
telepática.
No
entanto, Rhodan desconfiava de que dentro em breve não mais
precisaria preocupar-se com isso. Não deu nenhuma resposta.
— Vejo
que ficou sem fala — constatou Cardif, satisfeito. — Era o que eu
imaginava. De qualquer maneira estou agindo com mais inteligência
que sua gente há cinqüenta e oito anos. Deixaram que eu ficasse com
minha memória; apenas a fecharam com um bloqueio hipnótico, que
acabou sendo rompido. No seu caso não haverá mais nada que possa
ser rompido. Se isso acontecer, nada aparecerá. É que você se
transformará em minha pessoa; e eu, na sua. Mas haverá uma pequena
diferença. É bom que saiba disso, para que não se entregue a
nenhuma esperança.
Embora
passe a ser Rhodan, nunca deixarei de ser Thomas Cardif. E terei
conhecimento desse fato. Acontece que nenhum telepata será capaz de
percebê-lo. Minha personalidade continuará a viver, incrustada no
seu saber e na sua competência. Essa personalidade continuará
empenhada nos seus objetivos, que não são os objetivos aos quais
você se propõe, Rhodan.
Rhodan
continuou calado. O que poderia dizer? Qualquer palavra que
proferisse representaria um desperdício. Thomas Cardif estava louco;
não havia a menor dúvida. Mas também era um gênio. Infelizmente.
Cardif fez
um sinal para o barbudo.
— Pode
começar assim que os contatos tenham sido colocados, Rhabol. Ainda
bem que alguns descendentes dos aras escaparam à destruição. Se
não fosse assim, não saberia como fazer — voltou a inclinar-se
sobre Rhodan e disse: — Passe bem, Perry Rhodan. Acredito que
jamais voltemos a encontrar-nos, mas se isso acontecer, será um
encontro entre duas pessoas que pensam da mesma maneira; você não
continuará com o caráter de um anjo. Pode fechar os olhos. Sou
bastante humano para poupar-lhe a visão das máquinas. Desejo-lhe
uma boa passagem, Perry Rhodan.
Rhodan não
fechou os olhos, nem deu qualquer resposta. Procurou em vão
libertar-se das amarras. Suas tentativas foram vãs como das outras
vezes. Uma espécie de cúpula de vidro desceu sobre sua cabeça.
As Fitas
metálicas cingiram suas juntas. Outra mesa foi colocada próxima da
sua, e Cardif deitou na mesma. Alguns cabos ligavam-no a Rhodan,
depois de atravessar uma máquina.
Rhabol
aproximou-se.
— Tudo
preparado, Thomas Cardif.
— Vamos
começar! Não podemos perder tempo. Se a pausa for muito longa
poderão perder a paciência — virou a cabeça e fitou Rhodan. —
Você vai pagar pelo crime de ter transformado Árcon em uma quase
colônia, Rhodan. Restituirei o antigo poder a Árcon e obrigarei a
Terra a manter-se no seu lugar. Se conseguir isso, terei vingado
Thora, minha mãe.
Voltou a
deitar-se de costas e fitou o teto.
Rhodan
continuou calado. Sabia que qualquer palavra que proferisse seria
inútil. Era bem verdade que havia dentro dele alguma coisa que não
queria conformar-se com a idéia de desistir, por mais desesperadora
que fosse sua situação naquele momento.
Ainda
poderia ter alguma esperança? Haveria alguém que pudesse ajudá-lo?
Os mutantes estavam reduzidos à impotência. E continuariam a sê-lo,
mesmo que encontrassem a fortaleza situada no fundo do mar.
Não;
chegara ao fim. Atingira o ponto alto do poder e da própria
existência. E agora cairia; e a queda seria tão profunda como sua
subida fora alta. Atingira uma altura estonteante; não podia deixar
de admitir isso. E ninguém seria capaz de cair de tão alto, sem
encontrar a morte.
E sua
queda seria provocada pela mão do próprio filho.
As
máquinas começaram a emitir um zumbido. De início Rhodan apenas
sentiu um calor agradável e um repuxo benfazejo nas juntas, mas
subitamente teve a impressão de que alguém punha a mão em seu
cérebro e arrancava pedaço por pedaço do mesmo. Começou a sentir
dor, e sua vista se turvou. Teve de fazer um grande esforço para
concentrar-se e observar o que estava acontecendo. De repente nem
mesmo isso foi possível.
As dores
lancinantes ameaçavam arrebentar-lhe a cabeça.
Mergulhou
num abismo negro, sem fim.
6
Perry
Rhodan tirara seus submarinos do museu. E o professor Wild mandara
trazer para Terrânia um hormotroscópio vindo do outro lado do
globo. Também mandara tirá-lo de um museu, do Museu de Ciências
Médicas de Florença, Europa.
O
professor Wild mantivera mais de trinta palestras com todos os pontos
da Terra, até que encontrasse um colega capaz de explicar-lhe o
funcionamento de um hormotroscópio ultravioleta.
O mesmo
caíra no esquecimento há mais de cem anos. Não prestava nenhum
serviço à Medicina ou aos cientistas. O professor Wild também não
esperava nada daquele aparelho, sobre o qual vira uma referência em
certos textos especializados, velhos e amarelentos, mas não queria
expor-se à recriminação de não ter agido com suficiente senso de
responsabilidade. Afinal, era uma das pessoas que consumiam o
liquitivo!
Três
horas depois de realizado o primeiro ensaio, encontrou pela décima
oitava vez o mesmo resultado. A substância ativa da segunda
glândula, cuja composição química era idêntica à da secreção
da primeira, tinha uma permeabilidade à luz ultravioleta que era
0,57 por cento inferior àquela.
Por
dezoito vezes o aparelho indicara o resultado menos 0,57 por cento em
comparação aos ensaios resultantes com o primeiro extrato.
Em
Terrânia, os especialistas em fermentos foram colocados de
prontidão. Os fermentos, que são substâncias de origem biológica,
cuja presença condiciona o curso de certas reações químicas, eram
encontrados na saliva humana, na bílis e nas glândulas abdominais.
Os fermentos conhecidos eram mais de mil.
Naquele
momento teve início uma verdadeira loteria médica. Em Terrânia
havia apenas sete especialistas em fermentos.
Pretendia-se
que dentro de algumas horas estes realizassem ensaios com a
substância ativa da segunda glândula do fura-lama, colocada em
contato com mais de mil fermentos existentes no organismo humano. Os
fermentos são agentes catalisadores. Agem por simples presença: não
sofrem qualquer modificação, mas produzem alterações nas
substâncias com as quais entram em contato.
O
professor Wild fumava um charuto após o outro, enquanto corriam os
ensaios. Uma atividade febril desenvolvia-se no complexo médico de
Terrânia. Mais de um terço dos médicos consumiam o liquitivo.
De repente
veio a notícia!
Falou-se
no fermento lyl,
bastante raro. O mesmo fora descoberto há pouco menos de vinte anos.
Sempre que o extrato da segunda glândula entrava em contato com
algum fermento da classe lyl,
a ação catalítica do mesmo transformava esse extrato numa toxina
para os nervos.
Essa
toxina desenvolvia uma ação diabólica, provocando uma dependência
irreversível no indivíduo e causando lesões também irreversíveis
nos centros nervosos.
Se o
extrato da segunda glândula do fura-lama não entrasse em contato
com um fermento lyl
ao ser introduzido no estômago humano, o mesmo continuava a ser o
que sempre fora: um inofensivo rejuvenescedor de ação rápida.
O
professor Wild apoiou a cabeça nas mãos.
— Meu
Deus — exclamou num gemido.
— Que
disfarce diabólico! — tinha motivos para sentir-se desesperado. As
chances de encontrar um antídoto nas próximas semanas eram iguais a
zero.
*
* *
Uma vez
constatado o desaparecimento de Rhodan, Bell assumiu automaticamente
o comando da Ironduke e de toda a frota de guerra. Com isso uma dupla
responsabilidade passou a pesar sobre seus ombros. A incerteza quanto
ao destino de Rhodan impedia-o de agir segundo seu arbítrio.
Sentia-se satisfeito por não saber se Rhodan estava vivo ou se já
fora morto. Se tivesse certeza de sua morte, não hesitaria um
segundo em transformar Okul num sol.
A Ironduke
acompanhava a rotação do planeta, mantendo-se imóvel a grande
altitude sobre a ilha. Os vinte submarinos receberam ordem para
dirigir-se à ilha, realizando continuamente buscas goniométricas. O
submarino dos antis não poderia desaparecer sem mais nem menos. A
nave cargueira mantinha-se pronta para decolar no interior da baía.
Poderia recolher os vinte submarinos num tempo brevíssimo, ainda
mais se todos eles se encontrassem nas proximidades da ilha.
Era a
única coisa que poderia fazer no momento.
O sol
desapareceu atrás da linha do horizonte e a noite foi passando
lentamente.
Bell
estava deitado em sua cabina. Sentia-se nervoso e não conseguia
dormir. O que ocupava sua mente era a preocupação pelo amigo. Não
podia deixar de confessar que ele jamais se encontrara em situação
tão desesperadora. Fossem quais fossem as exigências de Cardif ou
dos antis, teria de cumpri-las para salvar a vida de Rhodan.
Quem dera
que logo entrassem em contato...
Mas a
noite passou-se numa espera infindável. Finalmente o dia começou a
raiar.
Bell tomou
banho frio, mudou de roupa, dispensou o café e correu para a sala de
comando, onde encontrou Deringhouse.
— Nada?
O general
balançou a cabeça.
— Nada!
Bell
sentiu-se dominado por uma terrível aflição. Passou os olhos pelas
escalas e pelos quadros de comando, como se estes pudessem dar
respostas à pergunta que formulara em silêncio. A porta que dava
para a sala de rádio estava aberta. Todos os aparelhos achavam-se em
recepção. Os goniômetros funcionavam ininterruptamente. Os avisos
de rotina da frota e dos submarinos eram recebidos e respondidos.
A
incerteza começou a tornar-se Insuportável.
— Quem
dera que eu soubesse o que devo fazer...
Deringhouse
procurou consolá-lo.
— Eles
não podem continuar escondidos para sempre — disse em tom pouco
confiante. — Um dia terão de sair do esconderijo, e então...
— Então
o quê? Se Rhodan estiver em poder deles, não poderemos deixar de
conceder-lhes livre trânsito. Não sei...
— Sir!
Era a voz
do chefe do setor de rádio.
Aquela
palavra fora proferida em tom nervoso e enfático.
De um
salto, Bell colocou-se na sala de rádio.
— O que
houve?
— Sinais
de rádio, sir. Vêm daqui — apontou para o mapa que estava
estendido na mesa. — Ainda não possuímos os resultados da
determinação goniométrica. Só tenho a direção.
O
radioperador colocou o dedo num ponto que ficava a uns duzentos
quilômetros da ilha.
— Que
sinais são estes? — perguntou Bell em tom nervoso. — Talvez
venham de um dos submarinos...
— Quem
transmitiu os sinais foi Rhodan, sir.
Bell
respirava com dificuldade.
— O quê?
— Foram
sinais Morse, sir! Só mesmo um terrano poderia conhecer estes
sinais.
Bell
trabalhava febrilmente. Deringhouse aproximou-se.
Bell e
Deringhouse ouviram:
— ...estou
na fortaleza. Posição exata: dois mil quilômetros ao oeste do
transmissor no interior da cadeia de montanhas, mil metros abaixo de
zero. Transmissor teleguiado, destruição seria inútil. Consegui
libertar-me, mas não posso sair da fortaleza.
Tentem
libertar-me, mas...
Os sinais
foram interrompidos.
— Será
que é uma armadilha?
Deringhouse
acenou negativamente.
— Quem
seria capaz de exprimir-se na língua inglesa e usar os sinais Morse
a não ser Rhodan?
Talvez
Cardif, mas este não teria nada a ganhar se nos revelasse a posição
da fortaleza bem camuflada. Não, só pode ter sido Rhodan.
Bell
dirigiu-se ao radioperador.
— Qual é
a posição do transmissor?
— É o
mesmo transmissor utilizado no primeiro contato com os antis, sir.
Fica aqui, quatro quilômetros abaixo do nível do mar — respondeu
e apontou para o ponto já assinalado.
Bell
colocou uma régua. Numa distância de dois mil quilômetros ao oeste
desse ponto apenas havia o mar. Quer dizer que nesse lugar existia
uma cadeia de montanhas submarinas, e a fortaleza ficava mil metros
abaixo do nível do mar.
— Obrigado
— disse, e voltou à sala de comando, com Deringhouse sempre o
seguindo. — Providencie para que duzentas unidades das forças de
bloqueio sejam estacionadas em torno da cadeia de montanhas
submarinas. Vamos cercá-la. Darei as necessárias instruções e
indicações aos comandantes dos submarinos. Ande depressa,
Deringhouse; não podemos perder um segundo que seja.
Foi tudo
muito rápido. Menos de meia hora depois do momento em que foi
captada a mensagem de rádio, duzentas espaçonaves cercaram a
fortaleza. Submersos, os veículos espaciais não podiam deslocar-se
com a mesma rapidez que no espaço, mas a segurança não era menor.
Se houvesse um ataque, não poderiam usar os canhões de radiações.
Apenas os torpedos atômicos. Não se conhecia a posição exata da
fortaleza, mas a cadeia de montanhas não era muito extensa. Parecia
uma abóbada com várias cumeeiras, que se erguia três mil metros
acima do fundo do mar. Fosse qual fosse a posição da fortaleza,
ninguém conseguiria sair dela sem ser notado.
Mesmo que
conseguisse escapar, ainda havia mais de quatro mil unidades da frota
terrana para interceptar os fugitivos e destruí-los.
Os antis
estavam totalmente cercados.
E Rhodan?
*
* *
As horas
foram-se arrastando penosamente.
Não houve
outro chamado. Ficou-se na incerteza sobre se Rhodan conseguira fugir
ou voltara a ser preso. A primeira hipótese era pouco provável,
pois ele não poderia deixar de ser descoberto. Ninguém conseguiria
sair da fortaleza, desde que a mesma realmente ficasse naquela cadeia
de montanhas.
A espera
era insuportável.
A Ironduke
mantinha-se exatamente acima da cadeia de montanhas submarinas, a
apenas dois quilômetros de altitude. Os contornos do complexo
montanhoso já haviam sido desenhados no mapa, pois os submarinos que
se encontravam nas proximidades não demoraram em realizar as
respectivas medições. E o submarino S-35 fez uma descoberta muito
interessante.
— Olhe,
comandante! A entrada.
Torsin
parecia cético.
— Pode
ser alguma coincidência, major. No mar, as paredes de rocha lisa não
são nenhuma raridade. São lavadas e polidas pela água e...
— A mil
metros de profundidade? O senhor constatou alguma correnteza?
Torsin não
respondeu. Parou as máquinas do submarino e aproximou-se do lugar
indicado.
Reconheceu-o
perfeitamente na tela. Até mesmo viu a fresta estreita que corria
verticalmente.
Não; não
era nenhum acaso.
— Avisarei
a Ironduke — disse Torsin, e fez um sinal para o radioperador, que
se mantinha à espera. — A mensagem será codificada.
Rengall
fitou atentamente o portão da fortaleza. Suas últimas dúvidas
desvaneceram-se. Haviam descoberto a entrada da fortaleza. Gostaria
de vestir o traje de mergulhador e nadar por aí. Mas, enquanto
Reginald Bell não lhe desse a necessária permissão, não poderia
fazer isso.
E não a
obteve.
Bell
estava afundado na poltrona, quando aconteceu uma coisa totalmente
inesperada. Um transmissor muito potente chamou e pediu à Ironduke
que ligasse imediatamente os receptores audiovisuais.
O
radioperador agiu ligeiro e transferiu a ligação para a sala de
rádio.
A tela
iluminou-se bem à frente de Bell, e o rosto de Rhodan apareceu na
mesma.
O aspecto
de seu rosto era lastimável!
Os cabelos
estavam grudados de sangue e suor. O lado direito da testa achava-se
coberto por uma ferida recente e o sangue corria pela face,
penetrando na gola do uniforme. O rosto estava entrecortado de rugas
profundas, que davam testemunho de um sofrimento recente. No entanto,
um brilho de triunfo surgiu nos olhos cinzentos, quando Rhodan disse:
— É
você, Bell? Ligue a comunicação audiovisual!
O
radioperador obedeceu. Rhodan parecia respirar aliviado.
— Que
bom rever seu rosto, amigo! Por pouco não me liquidam de vez.
— Onde
está você, Perry? Na fortaleza? Acabamos de descobrir a entrada da
mesma.
Um sorriso
tenso surgiu no rosto de Rhodan.
— Descobriram
a entrada? Excelente! Acontece que no momento isso não me adianta
nada.
Estou no
interior da fortaleza, mas não estou livre — deu um passo para o
lado, cedendo lugar a um homem barbudo, que penetrou no campo de
visão.
— Este é
Rhabol, sacerdote de Baalol. Encontro-me em poder dele e de Cardif.
Quando tentei fugir, Cardif sofreu ferimentos graves. Ainda não
temos certeza se escapará. Conforme vê, só sofri alguns ferimentos
insignificantes.
Bell fitou
o rosto de Rhabol, que estava parado ao lado de Rhodan, com um pesado
radiador de impulsos na mão.
— Por
que permitiram que você entrasse em contato conosco?
— Quero
fazer-lhe uma proposta em nome de Baalol — disse Rhodan com a voz
embaraçada. — Você não terá outra alternativa senão aceitá-la,
a não ser que queira sacrificar minha vida. Para ter uma chance de
sobreviver, Cardif precisa obter o tratamento médico dos aras. Estão
dispostos a trocar-me por Cardif. Se permitirmos que se retirem,
serei libertado.
Bell
estava desconfiado.
— Você
está sendo forçado a submeter-nos essa oferta. Tal proposta não
tem validade.
Um
estranho sorriso frio surgiu no rosto de Rhodan.
— Você
realmente acredita que eu me deixaria arrastar por alguma coisa que
pudesse prejudicar a Terra? Preferia a morte. Não se preocupe, Bell.
Desta vez penso como os antis. Não temos outra alternativa. Arranje
uma nave e a mande pousar. Duzentos e cinqüenta antis e Cardif, que
está ferido, sairão da fortaleza. Se não os impedirem de entrar na
nave e decolar, minha vida não correrá perigo.
Permanecerei
no interior da fortaleza e manterei contato audiovisual com vocês.
Um
estranho brilho surgiu nos olhos de Bell, mas Rhodan acenou com a
cabeça.
— Não
tire conclusões apressadas, meu caro. É claro que os antis tomaram
suas precauções, para que vocês não possam atacá-los e
libertar-me ao mesmo tempo. Ficarei trancado na sala de rádio,
acompanhado por uma bomba, que poderá ser detonada a qualquer
instante, a distância.
Rhabol
levará o emissor que transmite o impulso. Vocês só poderão entrar
aqui, quando Cardif e os antis estiverem em segurança.
Bell
demonstrava uma estranha obstinação.
— Quem
me garante que os antis não o mandarão pelos ares logo que
estiverem próximos à transição? — sacudiu a cabeça.
— Não
estou gostando da proposta. Precisamos de uma garantia.
Rhabol, o
sacerdote de Baalol, afastou Rhodan e disse:
— Os
senhores não têm alternativa, terranos. Mas farei alguma coisa
pelos senhores. Permitirei que duas naves nos acompanhem. Iniciaremos
a transição na periferia do sistema solar. Vocês conseguirão
impedi-la se antes disso não colocarmos o transmissor de impulsos
fora da nave, para que vocês possam recolhê-lo. E, até lá, seus
homens terão penetrado na fortaleza e libertado Rhodan. Garanto-lhe
que cumpriremos o acordo.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Desta
vez você pode acreditar nele, Bell. Nada me acontecerá — piscou
para o gorducho numa posição em que o anti não podia vê-lo. —
Ficarei satisfeito quando estiver novamente no interior da Ironduke.
— E o
liquitivo?
— Os
três entrepostos estão à nossa disposição.
Bell olhou
para Deringhouse.
— Envie
alguns cruzadores, que deverão trazer uma nave dos saltadores.
Mande-a pousar na ilha e recolher os antis — voltou a dirigir-se a
Rhodan. — Está bem, Perry. Daqui a algumas horas tudo estará
liquidado. Mas o diabo há de carregar os antis se eles estiverem
armando uma cilada.
Rhodan
sorriu e limpou o sangue que lhe cobria o rosto.
— Posso
garantir-lhe que desta vez não se trata de cilada. De uma vez por
todas, ensinei Cardif a nunca mais fazer uma coisa dessas. Ele não
nos armará mais nenhuma cilada.
Rhabol
encostou o cano da arma no tórax de Rhodan e afastou-o da câmara.
Dirigindo-se
a Bell, disse:
— Vamos
trancar Rhodan e armar a bomba. Vocês poderão permanecer em contato
com ele.
Deixem
livre a entrada da fortaleza. Sairemos com o submarino e tomaremos a
direção da ilha. Peço-lhes encarecidamente que não nos molestem.
Manterei o dedo sobre o detonador do transmissor de impulsos. Um
movimento em falso da parte de vocês.., e Perry Rhodan já era.
Entendido?
Bell
rangeu os dentes, mas fez um gesto de assentimento.
Enquanto
Deringhouse mandava trazer uma nave dos saltadores, Bell observou na
tela quando uma pequena bomba com o formato de caixinha era colocada
numa gaveta e trancada. Rhabol levou a chave. Fez um sinal para Bell
e retirou-se.
Rhodan
disse:
— Trancou
a porta, mas será fácil abri-la pelo lado de fora.
— Você
tem certeza de que ninguém nos ouve? — perguntou Bell.
Uma nova
esperança pareceu vibrar em sua voz.
— Tenho
certeza absoluta, a não ser que se dêem ao trabalho de vigiar as
transmissões. Mas acho que a esta hora têm outros problemas. Por
quê? Tem algo a me dizer?
Bell
parecia nervoso.
— Estou
pensando nos teleportadores. Assim que os antis estiverem no
submarino, os teleportadores poderão libertá-lo. Depois disso
afundamos o submarino antes que chegue à ilha e...
— Pare!
— disse Rhodan em tom penetrante. — Será que você ficou louco?
Não se esqueça de que existe um campo energético em torno desta
fortaleza, e nem mesmo um teleportador seria capaz de atravessá-lo.
Além disso, cumpriremos o que combinamos. Não quero que os antis
digam que sou um traidor. Finalmente, o perigo seria muito grande.
Portanto, nada de atitudes apressadas!
Entendido?
Bell
procurou controlar-se.
— Entendido,
Perry. Tenho a impressão de que você foi muito maltratado, pois, do
contrário, não seria tão cauteloso. Darei ordens para que a saída
da fortaleza seja deixada livre e o submarino dos antis não seja
molestado. Mas ai deles se...
— Não
haverá nada, Bell. Daqui a poucas horas estarei em segurança, a
bordo da Ironduke. Acredite em mim.
*
* *
O
professor Wild, que era especialista em hormônios e secreções,
sabia que um antídoto capaz de curar um viciado em drogas não pode
ser descoberto da noite para o dia.
Na
conferência convocada pelo sábio, tal fato foi ressaltado outra
vez. Face a isso haviam-se desviado do assunto em debate. Houve
prolongadas discussões sobre a secreção da segunda glândula da
tromba do fura-lama.
Será que
alguém poderia recriminá-los por não terem levado a sério suas
obrigações de controle?
Os médicos
proferiram duros julgamentos a respeito deles mesmos e de seus
colegas. As acusações veladas eram muito freqüentes, até que o
professor Wild tomasse a palavra.
Levantou-se
com o rosto muito vermelho.
De repente
sua voz adquiriu a força de um barítono:
— Caros
colegas! Não nos esqueçamos de que durante mais de dois meses
testamos, nas clínicas mais importantes da Terra, um liquitivo que
só continha a secreção da primeira glândula da tromba do
fura-lama. A substância ativa desta é o produto rejuvenescedor mais
eficaz e de ação mais rápida que já vimos. É bem verdade que
dentro de doze anos perde a eficácia.
“Só
depois que os controles sanitários e de medicamentos de Terrânia
liberaram a venda do liquitivo, os antis lhe acrescentaram a secreção
da segunda glândula, subtraindo concomitantemente metade da
substância ativa da secreção da primeira.
Não
estávamos em condições de constatar esse fato, já que a
composição química das duas secreções é idêntica. E não
desconfiamos de nada, já que, depois de ocorrida a falsificação,
manifestou-se em primeiro lugar o efeito rejuvenescedor, e ainda
porque, conforme revelaram as pesquisas, o vício só se manifesta
depois que a droga é ingerida cinco ou seis vezes. Acontece que
naquele tempo as pessoas tomavam o liquitivo com tamanha freqüência
que não se notava o estado de dependência.
“Não
constatamos tal dependência em nós mesmos. E deveríamos ter
constatado. Acontece que o fato de que o liquitivo nos rejuvenescia
fez com que não tivéssemos a idéia de que poderíamos estar
viciados. Mentíamos a nós mesmos, pois acreditávamos ter criado
uma dependência na busca da juventude eterna.
“Peço-lhes
que reflitam sobre o que devemos comunicar a Rhodan. Sugiro que não
lhe transmitamos nenhuma notícia, a não ser que descubramos um
antídoto. E só agora podemos começar a trabalhar na descoberta do
mesmo. Nem sequer ouso entreter esperança de que jamais venhamos a
encontrá-lo.”
A proposta
foi submetida à votação. Decidiu-se não transmitir qualquer
comunicado a Rhodan.
A busca
desesperada do antídoto teve início.
*
* *
Os
aparelhos registravam constantemente nas telas da Ironduke os
contornos e a rota do submarino dos antis. Na posição em que se
encontrava, Bell observava-o. Deringhouse recebeu uma mensagem de
rádio que o informava de que haviam conseguido uma nave dos
saltadores. Esta já tomara o curso de Okul e deveria chegar a
qualquer momento.
A nave dos
saltadores não demorou a rematerializar-se nos limites do sistema.
Desacelerou e, guiada por mensagens de rádio, acabou por pousar à
margem de um grande rio que desembocava no oceano, num local não
muito distante da ilha onde se verificara o triste acontecimento. O
submarino dos antis viajara um pouco rio acima e atracara num ponto
favorável. Enquanto a nave pousava, Rhabol voltou a estabelecer
contato audiovisual com a Ironduke.
— Vejo
que cumpriram o acordo — disse num elogio irônico. — Subiremos a
bordo e decolaremos. Já podem penetrar na fortaleza.
Bell
contemplou a tela. Nos fundos da mesma via perfeitamente o submarino
que acabara de emergir. Os antis caminhavam pela margem rochosa, em
direção à nave. Carregavam certos objetos que, segundo Bell
supunha, eram aparelhos importantes ou pertences pessoais dos antis.
Dois antis
carregavam uma maca.
— O que
é isso? — perguntou Bell.
Rhabol
virou o rosto. Quando voltou a fitar Bell, mostrava-se zangado.
— Este é
Thomas Cardif, o filho de Rhodan. Nunca pensávamos que um pai fosse
capaz de fazer isto com o próprio filho.
Vejam...
Bell
apenas pôde lançar um ligeiro olhar para o rosto de Cardif, que
estava sendo carregado muito depressa. Reconheceu perfeitamente os
traços flácidos e inexpressivos do traidor. Os olhos do ferido
achavam-se fechados. Provavelmente lhe haviam dado algum sedativo, a
fim de aliviar a dor causada pelo transporte.
Mais uma
vez Cardif escaparia ao castigo merecido. A vida e saúde de Rhodan
eram mais importantes. Cardif não escaparia ao destino que o
aguardava, mesmo que desta vez conseguisse salvar a vida.
Rhabol
voltou a colocar-se à frente da câmara.
— Providencie
para que alguém pegue o transmissor de impulsos antes que entremos
em transição. Deve-se apertar o botão verde para desarmar a bomba
— fitou Bell com os olhos frios, nos quais se via um brilho de
contentamento. — Passe bem, terrano. É bem possível que um dia
voltemos a encontrar-nos. Quando isso acontecer, eu me lembrarei da
sua generosidade.
Desligou
sem aguardar resposta. Mas Bell ainda podia vê-lo, pois as
telecâmaras da Ironduke haviam sido dirigidas para a ilha. Rhabol
deixou para trás o transmissor portátil e foi o último dos antis a
entrar a bordo.
Dali a
alguns segundos, a nave decolou e subiu à estratosfera com os
propulsores chamejantes.
Tomou a
direção dos cruzadores terranos que a aguardavam.
*
* *
Quando
recebeu a ordem, o Capitão Torsin não perdeu mais tempo.
A entrada
da fortaleza fora deixada aberta pelos antis. O submarino S-35 foi
penetrando lentamente no túnel, passou pela eclusa e chegou ao porto
aberto na rocha. Um comando dirigido pelo Major John Rengall foi
desembarcado.
Esse
comando, equipado com radiogoniômetros, não demorou a encontrar a
sala de rádio.
Rengall
bateu à porta fechada. Não obteve resposta.
Estava
cada vez mais preocupado.
O
radioperador, que acompanhava o comando, entrou em contato com o
submarino S-35, e este por sua vez chamou a Ironduke. Bell, que ainda
via Rhodan, informou:
— Deve
estar inconsciente, pois não se move. A cabeça descansa sobre a
mesa. Arrombem a sala.
O
submarino S-35 retransmitiu a ordem. Rengall, que já havia examinado
a fechadura, fez um sinal negativo quando o especialista se aproximou
com a carga explosiva.
— Não é
necessário. Trata-se de uma fechadura magnética. Logo estará
aberta...
Enquanto
falava, seus dedos hábeis manipulavam o mecanismo. Via-se pela
maneira de trabalhar que não era esta a primeira fechadura desse
tipo que ele abria. Como membro do Serviço de Segurança Solar fora
treinado para abrir qualquer tipo de fechadura das raças
extraterrenas, sempre que isso se tornava necessário.
De repente
a porta cedeu sem o menor ruído. Se o Tenente Brischkowski não o
tivesse segurado, Rengall poderia ter caído para dentro da sala.
Rhodan
estava encolhido sobre uma banqueta. Só mesmo o fato de os braços
cruzados descansarem sobre a mesa, suportando o peso da cabeça,
evitara que escorregasse para o piso. Foi levado apressadamente para
bordo do submarino.
A nave dos
saltadores estava sendo esperada por vários cruzadores, que também
desenvolviam metade da velocidade da luz.
Conforme
se combinara, o transmissor de impulsos foi expelido da eclusa de ar.
Foi fácil pescar a caixa metálica. Um oficial comprimiu o botão
verde. A bomba acabara de ser desarmada.
A nave dos
saltadores iniciou a transição sem que ninguém procurasse
impedi-la, levando a bordo duzentos e cinqüenta sacerdotes da seita
de Baalol e a pessoa que, segundo os terranos acreditavam, era Thomas
Cardif. Momentos antes dos saltos, os campos defensivos dos antis
foram ativados ao máximo, ocultando a intensidade e o ponto de
partida da transição. A nave penetrou no hiperespaço com destino
desconhecido.
Só quando
recebeu a notícia de que Rhodan estava com vida, Bell respirou
aliviado.
Dali a
alguns segundos, uma tremenda explosão sacudiu o mar que se estendia
abaixo dele.
Uma
montanha de água elevou-se no ar, fragmentos de rocha foram atirados
para o alto e uma língua de fogo passou Junto à Ironduke. A
fortaleza dos antis havia ido pelos ares.
Bell nunca
chegou a saber se a detonação se verificara mais tarde do que se
esperava, ou se os sacerdotes pretendiam aguardar até que Rhodan
estivesse em segurança. Evidentemente não seria capaz de imaginar
que o falso Rhodan só ligara o mecanismo-relógio depois de ter sido
encontrado.
Nenhuma
nave ou submarino foi danificado.
Bell
ordenou às unidades submersas que retornassem ao lugar onde se
encontrava a frota de bloqueio e instruiu o comandante da nave
cargueira a fim de que recolhesse os submarinos. Para ele a missão
em Okul estava concluída. Não poderia imaginar que a mesma mal
começara.
*
* *
No momento
em que a Ironduke pousava na ilha, quase no mesmo lugar em que os
antis haviam subido a bordo da nave dos saltadores, chegaram as
primeiras mensagens de hiper-rádio, expedidas por uma nave
retransmissora. Assim que lhes foi fornecida a senha, os saltadores
entregaram todo o estoque de liquitivo, sem oferecer a menor
resistência e sem formular perguntas. O abastecimento da Terra
estava garantido por algumas semanas. O perigo das revoltas fora
eliminado, muito embora só se tivesse conseguido mais algum tempo.
Bell tinha certeza de que os outros depósitos também não
representariam nenhuma dificuldade.
Dali a dez
minutos, o submarino S-35 emergiu do rio que passava nas
proximidades. Atracou na margem rochosa, pouco atrás da embarcação
abandonada pelos antis. Era um local favorável, já que ali a selva
não podia medrar.
*
* *
Para
Thomas Cardif, as últimas horas representavam uma carga nervosa que
dificilmente alguém já suportara.
Quando
sentiu o saber de Rhodan fluir para dentro de sua mente e percebeu
que a cada segundo que passava assumia novas feições da
personalidade do pai, começou a imaginar quão difícil seria sua
tarefa. Não bastaria interpretar os dados armazenados na memória de
Rhodan; seria necessário agir em conformidade com estes. Devia saber
o que Rhodan faria em determinada situação, e teria de agir de
igual forma. Mas, como, juntamente com a memória e os conhecimentos
de Rhodan, assumia o raciocínio consciente do mesmo, agiria
automaticamente tal qual ele, desde que no momento da decisão
afastasse o remanescente de sua mente consciente. E este remanescente
da personalidade de Thomas Cardif era-lhe indispensável para que não
se transformasse de vez em Perry Rhodan, isto é, num homem que não
tinha o menor conhecimento dos planos do rebelde.
Os antis
souberam deixar-lhe um remanescente da consciência de Cardif, que
não ultrapassava o estritamente necessário, para que se lembrasse
de sua tarefa. Esse remanescente era tão pouco que não poderia ser
detectado num exame telepático ou parapsicológico, pois o conteúdo
da mente de Rhodan o envolvia como uma capa isolante. Depois disso
mergulhara num estado de profunda Inconsciência.
Ao
despertar, era Perry Rhodan. Os médicos haviam produzido algumas
modificações insignificantes em seu rosto e fizeram uma ferida em
sua testa. Certas injeções fizeram com que apresentasse os olhos
cinzentos de Rhodan. O cabelo foi tingido num tom mais escuro.
Algumas rugas no rosto fizeram dele o sósia perfeito do pai que, por
sua vez, através de intervenções médicas do mesmo tipo, fora
transformado em Thomas Cardif.
Apenas
havia um risco. E Rhabol o enunciara quando o falso Rhodan havia sido
levado à sala de rádio.
— Nunca
realizamos uma experiência como esta, Cardif. Não sei qual será o
resultado da interação permanente de duas consciências tão
diversas num espaço tão pequeno. Não se esqueça de que por
questões de segurança tivemos de conferir mais espaço à
personalidade de Rhodan, pois do contrário haveria o perigo da
descoberta. A consciência que corresponde à personalidade de
Cardif, isto é, de você, possui menor área. Mas em compensação
tem maior vivacidade. Fazemos votos de que sempre seja a parte
dominante.
— Você
acredita que realmente poderei transformar-me em Rhodan?
— Sim. É
possível que a mente consciente dele subjugue a sua.
Cardif
respondera em tom frio:
— É um
risco que não posso deixar de assumir. Já transmitiu os sinais
Morse?
— Transmiti.
Os terranos acreditam que você fugiu e não terão a menor
dificuldade em digerir o blefe. Nossa representação deverá ser
muito convincente.
E será;
não tenha a menor dúvida.
Dali a
pouco seguira-se a palestra com Bell. As condições foram combinadas
e transformadas em realidade. Dali em diante Cardif passou a
desempenhar o papel de Rhodan, inconsciente. Era um papel muito mais
difícil do que imaginara.
Além de
manter seus pensamentos sob controle, tinha de vigiar os de Rhodan.
Para evitar qualquer erro, deixou que a mente consciente de Rhodan se
comprazesse em recordações. Era o meio mais simples de evitar a
ocorrência de erro, e além disso essa atividade mental convenceria
qualquer telepata que o espreitasse de que realmente tinha diante de
si Rhodan, inconsciente.
A situação
tornou-se realmente perigosa quando os homens desembarcados do
submarino arrombaram a porta da sala de rádio e o levaram. Fez o
papel de homem desmaiado. Ficou com os olhos fechados e deixou os
músculos descontraídos. Carregaram-no até o submarino e
colocaram-no numa cama. Foi examinado por um médico. Soltou um
gemido e aplicaram-lhe uma injeção de calmante. Adormeceu, mas
acordou em tempo para assistir a chegada do barco à ilha.
Reconheceu
Bell pela voz. Mas o que mais o alarmava era a presença de John
Marshall. O telepata era perigoso. Por isso Cardif continuou
“inconsciente”
e deixou que os pensamentos de Rhodan vagassem à vontade.
Quando foi
levado ao setor médico da Ironduke e colocado sobre a mesa de
exames, a situação tornou-se ainda mais crítica.
Desligou
completamente a sua própria consciência e escondeu-a na de Rhodan.
Continuou com os olhos fechados e descontraiu o corpo. Deixou que
escutassem as batidas do coração e as vibrações cerebrais, que
tirassem uma amostra de seu sangue e examinassem as funções dos
diversos órgãos. Mas o que mais interessou aos especialistas foi o
estado de sua mente.
Conversavam
em voz baixa, mas Cardif entendia cada palavra que diziam. Estavam
desconfiados; não havia a menor dúvida. Um tremendo susto abalou
Cardif.
Será que
seu plano estava destinado a fracassar no último instante? E isso
apenas porque aquelas criaturas pedantes agiram com um cuidado
excessivo?
Manteve-se
tranqüilo e procurou acompanhar a palestra.
— ...o
que sem dúvida é conseqüência de uma tremenda carga psíquica —
disse alguém que ele não conhecia. — Deve ter sido interrogado
por meio do aparelho de reforço hipnótico. Tal procedimento não
pode deixar de afetar o cérebro.
— Quer
dizer que a mente de Rhodan está perturbada? — perguntou outra
voz.
— Não.
Apenas sofreu um choque muito forte. A bordo desta nave não
possuímos os instrumentos nem os especialistas que nos permitam
iniciar o tratamento. Devemos providenciar para que Rhodan seja
levado imediatamente a uma clínica especializada.
— Um
choque causado por um interrogatório hipnótico?
— Exatamente.
Alguém
entrou na sala. Cardif olhou cautelosamente pelas pestanas
semicerradas e reconheceu Bell. Defrontou-se com o olhar do gorducho
e compreendeu que não podia mais ficar passando por inconsciente.
Então gemeu baixinho, como se estivesse despertando de um sono
profundo.
— Está
recuperando a consciência! — exclamou um dos médicos.
Bell
aproximou-se.
— Perry,
você me ouve? Você me reconhece? Faça um sinal com a cabeça, se
puder...
Cardif
acenou com a cabeça. Até parecia que esse gesto consumia todas as
forças que ainda restavam em seu organismo.
— Ele me
reconheceu! — gritou Bell em tom de alívio. — Santo Deus, ele me
reconheceu! Quer dizer que não perdeu a memória.
Inclinou-se
sobre o rosto de Cardif e examinou-o. Eram os segundos decisivos.
Se havia a
possibilidade de uma descoberta, esta teria de ocorrer agora. Ninguém
conhecia Rhodan tão bem quanto Bell, que era seu melhor amigo.
— Sente
alguma dor, Perry? Diga alguma coisa — insistia o gorducho.
Cardif
sorriu com dificuldade. Até parecia que a qualquer momento partiria
deste mundo.
Desempenhava
seu papel muito bem. Provavelmente a ilusão não seria tão perfeita
se os dois Rhodan pudessem ser vistos ao mesmo tempo. Mas nas atuais
condições, não havia possibilidade de estabelecer uma comparação
direta.
— Tudo
bem, Bell.
— Ainda
bem! — disse o gordo em tom feliz. — Finalmente voltou a falar.
Quem fez isso na sua testa? Foi esse patife do Cardif? Bem, ele nos
escapou, mas garanto-lhe que um dia nós o pegaremos. E então o
faremos pagar por tudo.
— Isso
mesmo — disse Cardif-Rhodan com a voz débil.
Os médicos
afastaram Bell.
— O
paciente precisa de repouso — sentenciou um deles. — Não convém
cansá-lo, sir.
— Está
certo. Se os senhores acharem que assim é melhor, obedecerei —
voltou a dirigir-se a Rhodan: — Até logo mais. A melhor coisa que
pode fazer é dormir.
Cardif
esforçou-se para erguer o corpo. Haviam tirado sua roupa. O uniforme
estava pendurado num cabide, na parede da sala pintada de branco.
Isso combinava muito bem com o próximo ato.
— Bell!
Olhe ali!
Bell ficou
parado. Olhou na direção em que apontava o braço de Cardif. A mão
estendida apontava para a túnica do uniforme.
— Sim; o
que houve? O uniforme? É claro que mandaremos limpá-lo, Perry. Não
está muito bonito e...
Cardif
negou com a cabeça. Seu rosto ficou desfigurado, como se sentisse
dores horríveis. Via-se que falava com dificuldade; e também tinha
dificuldade em pensar.
— Na
túnica... do lado direito...
Bell mal
conseguia entender suas palavras, mas compreendeu o sentido do que
aparentemente cochichava com a maior dificuldade. Apressou-se em
revistar os bolsos do uniforme. Sentiu um objeto elástico no bolso
direito e retirou-o. Estava curioso.
Era uma
fita estreita de plástico.
Nela se
viam alguns caracteres e fórmulas escritas na língua arcônida.
Bell não sabia o que significavam, mas imaginava que assumiam uma
importância extraordinária.
Aproximou-se
da cama e fez um sinal para Cardif.
— Está
bem, Perry. Você se refere a isto? — colocou a fita junto ao rosto
de Cardif. — O que é?
Desta vez
Cardif disse a verdade:
— A
fórmula do antídoto... liquitivo. Os antis tiveram a leviandade de
falar sobre isto. As fórmulas.., estavam com Cardif. Eu as roubei —
gemeu, fazendo de conta que voltara a sentir dores. — Ele não
percebeu.
Evidentemente
era outra mentira. O fato é que Cardif acreditava que o truque da
fórmula representaria uma atração toda especial. Se fornecesse a
fórmula aos terranos, ninguém jamais duvidaria de sua identidade,
caso surgisse uma oportunidade para isso. Por enquanto isso não
tinha acontecido. Conseguira enganar até mesmo os telepatas. Seus
pensamentos ficaram ocultos sob a consciência de Rhodan, que era
mais ampla. Aquilo que restava da personalidade de Cardif era
protegido por essa consciência.
Apesar
disso não seria demais sufocar qualquer possível suspeita no
nascedouro.
— O
antídoto? — repetiu Bell em tom de espanto. — Será que se trata
de um preparado capaz de neutralizar o efeito mortífero do
liquitivo?
Cardif fez
que sim.
Bell
guardou a fita de plástico. Depois inclinou-se sobre Cardif e
aplicou-lhe um beijo ruidoso sobre a testa coberta por uma crosta de
sangue.
— Isso
foi um serviço bem feito, meu velho! Agora procure dormir.
Transmitirei a Deringhouse recomendações suas e mandarei que a nave
decole. Quanto mais cedo chegarmos à Terra, melhor para você.
Levantou-se
e caminhou em direção à porta. Virou-se e, dirigindo-se
principalmente aos médicos, disse:
— Cuidem
bem dele. Deixem-no dormir, pois o sono ainda é o melhor remédio.
Depois
saiu.
Cardif
soltou um suspiro de alívio. Sabia que a presença de Bell
representara a prova mais dura por que sua falsa identidade havia
passado. E Bell aceitara-o como se fosse Rhodan, sem a menor
hesitação.
Enquanto a
Ironduke não pousasse na Terra, não teria nada a recear. Durante o
vôo não poderia acontecer muita coisa. Fariam com que mergulhasse
num sono repousante. Talvez controlassem o funcionamento de seu
cérebro e a atividade dos órgãos. Mas só em Terrânia receberia
um tratamento adequado.
E, até
lá, Reginald Bell ocuparia o lugar de Rhodan.
*
* *
As
revoltas haviam chegado ao fim na Terra, pois, por enquanto, o
abastecimento de liquitivo estava garantido. Nos laboratórios
procurariam descobrir o antídoto. Cardif sabia que conseguiriam,
pois ele mesmo lhes fornecera a fórmula. Esta representaria a prova
final e evidente de que era Perry Rhodan, caso alguém quisesse
duvidar disso.
Sir John
Rengall? Bem, este recebera ordens para prender Thomas Cardif, mas na
verdade apenas salvou o mesmo Thomas Cardif, acreditando que acabara
de salvar Perry Rhodan.
Cardif
sentiu uma ligeira vibração debaixo da cama. O General Deringhouse
estava ligando os propulsores da Ironduke.
A ilha
mergulhou no oceano do planeta Okul, e Okul, por sua vez, acabou por
mergulhar no mar de estrelas.
Thomas
Cardif fechou os olhos e sorriu.
— Está
passando melhor — disse um dos médicos com um suspiro de alívio.
— Ele conseguirá.
“Isso
mesmo”,
pensou Cardif de si para si. “Ele
conseguirá.”
Ele,
Thomas Cardif.
Era um
artista muito talentoso.
Mas não
pôde deixar de confessar que os artistas, os antis, eram ainda
melhores.
*
* *
Mas o
melhor realmente foi o antídoto que veio à Terra pelas mãos de
Cardif-Rhodan.
Pela
primeira vez na história houve uma colaboração maravilhosa entre
os médicos galácticos, os aras e os terranos. E essa colaboração
possibilitou à Terra iniciar, no prazo incrivelmente curto de vinte
e sete dias, a produção em grande escala. Na Terra, em Aralon e em
mais seis mundos dos aras o antídoto, chamado de alitivo,
passou a ser fabricado em comprimidos.
A produção
das grandes fábricas de preparados farmacêuticos aumentava a cada
dia que passava. As naves mais velozes do grande império levavam aos
homens viciados a salvação sob a forma de comprimidos. Para muitos,
essa salvação chegou tarde.
A pessoa
que tivesse consumido o liquitivo por mais de dez anos estava
perdida. Depois disso, os danos causados ao sistema nervoso
tornavam-se irreversíveis. Essas pessoas definhavam miseravelmente.
Por muito tempo representaram uma advertência viva aos homens.
Mas mesmo
as criaturas que conseguiram salvar-se tiveram de pagar um preço
elevado pela recuperação da saúde. Muitas vezes a cura é
acompanhada por uma forte febre. Certos preparados criados pela
medicina terrana e pela dos aras permitiam a cura da febre, que
apresentava variantes individuais, mas não evitavam as manifestações
de paralisia vasomotora.
E essas
manifestações nunca se anunciavam antecipadamente. Apareciam de
repente. Os nervos vasomotores, que controlavam a dilatação dos
vasos sanguíneos e a pressão do sangue, pareciam ter sido
desligados e muitas vezes resistiam a todos os esforços dos médicos
para que recuperassem suas funções.
Mas todas
as pessoas que conseguiram escapar com vida — e nos mundos do
Império Solar e do Império Estelar de Árcon as mesmas se contavam
pelos bilhões — nunca se esqueceriam do homem ao qual deviam a
vida: Perry Rhodan, o grande terrano.
O homem
que parecia ser Perry Rhodan sorriu. Mas seu sorriso não anunciava
nada de bom...
*
* *
*
*
*
O
administrador foi preso, e Thomas Cardif começou a desempenhar o
papel de Perry Rhodan.
Mas
Cardif, O
Homem de Duas Caras
— e é este o título do próximo volume — envolve-se num jogo
mortífero. Mortífero tanto para ele como para a Humanidade.
Acontece
que nem Cardif nem a Humanidade desconfiam disso...

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