domingo, 4 de setembro de 2016

P-112 - O Homem de Duas Caras - Kurt Brand [Parte 2]

A-Thol não viu o objeto que Thomas Cardif tirou do bolso do traje espacial num gesto rapidíssimo. Quando a luz indireta se refletiu no cano de um velho revólver calibre 44, já era tarde para fugir.
O projétil de plástico antimagnético rompeu o campo defensivo superpotente e atingiu o anti, no lugar exato em que Thomas Cardif queria ver colocada a bala.
O homem, que usava a máscara de Rhodan, não se esqueceu de nenhum detalhe.
Pegou a arma pelo cano e bateu com a coronha no lado direito do queixo.
A pele abriu-se e a ferida começou a sangrar.
A seguir Cardif deu um passo rápido em direção à escrivaninha. Havia um peso metálico junto aos papéis. Cardif segurou-o, esfregou-o pela ferida sangrenta e deixou-o cair.
Enquanto isso teve de pensar ininterruptamente nos antis e imaginar a caverna de Okul, o que representava um ato de máxima concentração mental.
Subitamente a porta abriu-se atrás dele. Dois robôs entraram precipitadamente. Seus sistemas visuais enxergaram o morto que estava jogado ao pé do administrador. Subitamente as máquinas de guerra enxamearam em torno de Cardif-Rhodan. Dali a pouco chegaram Bell e Marshall, seguidos de perto por Allan D. Mercant.
Perry! — gritou Bell em tom de espanto ao ver o morto. — Você o matou?
Será que você não está gostando, Bell? — gritou Cardif-Rhodan com a voz áspera. — Queria que me deixasse dominar por um anti? — como que por acaso, mostrou o queixo ferido a Reginald Bell.
Este continuava de pé junto ao anti morto. Viu o peso metálico no chão, abaixou-se e levantou-o. Quando estava prestes a colocá-lo sobre a escrivaninha, viu o sangue grudado no mesmo.
É estranho,” pensou.
Não sabia por que tinha certas dúvidas... Seria porque Rhodan nunca lhe parecera tão estranho como naquele momento?
Perry defendera sua vida. Sem dúvida era um caso de legítima defesa. Mas será que Perry Rhodan tinha necessidade de matar? Não poderia ter posto o anti fora de combate? Não era justamente Perry Rhodan que vivia insistindo em que qualquer vida humana deve ser poupada, sejam quais forem as circunstâncias?
Bell, parece que você não está gostando de alguma coisa. O que é? Vamos logo! Diga!
Estas perguntas atingiram Reginald Bell com a força de chibatadas. Passou por cima do morto, permaneceu junto à escrivaninha, lançou um olhar discreto para Mercant e Marshall e viu que estes também não concordavam com o procedimento de Rhodan. Fitou intensamente os olhos cinzentos do amigo, que subitamente pareciam tão frios, e perguntou:
Perry, como soube que este morto é um anti?
Cardif-Rhodan limitou-se a sorrir.
Parece que você se esqueceu da visita que recebi de Banavol. O fato de eu querer visitar justamente o escritório dos saltadores em Plutão não lhe causou muita preocupação. Teria vindo apenas para inspecionar o escritório? — soltou uma risadinha e fez com que até mesmo Allan D. Mercant estremecesse e desse um pequeno passo para trás. — Sei que não devia estar fazendo pessoalmente as inspeções, meu caro. Entretanto quis convencer-me pessoalmente de que as suspeitas de Banavol tinham fundamento. E este morto constitui a melhor prova de que um anti se introduziu no entreposto dos saltadores em Plutão. Será que ultimamente os mercadores galácticos também possuem a capacidade de criar campos defensivos por meio de suas energias individuais?
Bell deu vazão ao seu temperamento.
Com um gesto afastou os argumentos de Rhodan.
Há pouco você deu a entender que agiu intencionalmente ao matar o anti, Perry?
Cardif-Rhodan nem pestanejou.
Será? Realmente fiz isso? Nesse caso não formulei devidamente as minhas palavras, ou você não me entendeu.
3



Quando regressaram à Ironduke, havia uma notícia importante vinda da Terra.
Em Pagny sur Moseile, onde fora construída a fábrica de alitivo, destinada a suprir a Europa, os trabalhadores e técnicos haviam entrado em greve. Exigiam aumento de ordenado de vinte por cento. Se a greve não terminasse até a tarde do dia seguinte, os médicos da Europa estariam ameaçados de ficar sem o antídoto. As conseqüências que resultariam disso para alguns milhões de viciados eram imprevisíveis.
Quando tomou conhecimento da notícia, Cardif-Rhodan encontrava-se na sala de comando da nave linear. Passou-a a Bell.
Cuide disso.
Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Seria verdade? Até parecia que Perry Rhodan nem se interessava mais em saber se os viciados da Europa eram curados ou não!
Bell resolveu controlar-se, embora fervesse por dentro.
Está bem; cuidarei disso, Perry.
Retirou-se da sala de comando e foi à sala de rádio. No meio do caminho encontrou-se com o oficial de artilharia, Brazo Alkher.
Onde vai, Alkher? — perguntou Bell.
Vou falar com o chefe. Ele me chamou pelo minicomunicador. Não sei o que deseja.
Ah, é? O chefe o chamou? Está bem, Alkher. Obrigado.
Bell falava como quem está muito distraído e foi exatamente esta a impressão que o oficial de artilharia teve a respeito do representante de Rhodan.
Bell entrou na sala de rádio da Ironduke. Não cumprimentou os presentes, como costumava fazer. Parecia não ver ninguém.
Colocou-se ao lado do homem encarregado do hiper-rádio e fitou o painel de chaves.
O tenente muito jovem que estava sentado diante do aparelho levantou os olhos.
As coisas não estão nada boas”, pensou.
Preferiu não dirigir a palavra a Reginald Bell.
Este ficou refletindo sobre os motivos por que Perry ordenara ao oficial de artilharia que comparecesse à sala de comando. A partir do momento em que tinham saído do escritório, acompanhados do anti morto, não mais se haviam separado.
Será que Perry já tinha chamado o oficial enquanto se dirigia ao entreposto dos saltadores?”, refletiu o representante de Rhodan. “Esses médicos.., O que não fizeram de Perry! Será que aquilo que há de novo e incompreensível em sua mente não foi provocado pelo choque de Thomasson?
Sobressaltou-se em meio às reflexões.
Ah, sim. Quero enviar uma mensagem à estação de hiper-rádio Europa. Referência: Greve nas fábricas de alitivo de Pagny sur Moselle. A administração do Império Solar recorre ao artigo 43, inciso II, proclamando o estado de emergência para a fábrica de alitivo. Esta determinação entra em vigor a zero hora. Os grevistas devem ser informados de que estarão sujeitos a penas de prisão se continuarem a recusar-se a trabalhar. Reginald Bell.
A mensagem será codificada? — perguntou o tenente que se encontrava junto ao aparelho de hiper-rádio.
Não! — disse Bell em tom contrariado. — Mostrarei a essa gente de Pagny sur Moselle o que acontece com quem pretende tirar proveito numa situação dificílima. Um instante, meu caro. Vamos modificar a última frase. Transmita o seguinte: Os grevistas serão avisados de que, se persistirem na recusa de trabalhar, serão deportados. A administração invoca o artigo 1, parágrafo 1o da lei reguladora do estado de emergência. Reginald Bell. Acho que desta forma entenderão melhor. Que diabo! Não tenho nada contra uma greve justa, mas o que está sendo feito neste caso é uma pouca-vergonha; é uma...
Preferiu não dizer a última palavra. Saiu ruidosamente da sala de rádio. Entrou na de comando da Ironduke sem desconfiar de nada.
Jefe Claudrin, comandante da Ironduke, parecia uma estátua de mármore plantada no centro da sala. Imóvel, fitava o chefe. Perry Rhodan estava de costas para Bell.
É isso mesmo, Claudrin! A Ironduke ficará em Plutão. Voarei sozinho. Mande preparar um jato espacial. Nolinow e Alkher, sabem o que têm a fazer?
Os dois jovens tenentes prestaram continência para Rhodan e responderam com a voz rangedora:
Sim, senhor!
Fizeram menção de retirar-se.
Mas Bell interpôs-se em seu caminho.
Aonde vão? — perguntou.
Os oficiais na sala de comando, cujos olhares até então haviam vagado entre o chefe e o comandante, passaram a fitar exclusivamente Perry Rhodan.
O mesmo encontrava-se a oito passos de Bell.
Bell, quero pedir-lhe que não impeça a passagem dos dois tenentes — disse.
Os olhos de Bell chamejaram. Fitou Rhodan e voltou a fitar os dois oficiais. Finalmente disse em meio à tensão reinante na sala de comando, em tom não menos áspero que o que o chefe acabara de usar com ele:
Quero saber por que estão preparando um jato espacial. Pelo que sei, todos os jatos espaciais que se encontram a bordo estão prontos para decolar.
Jefe Claudrin adiantou-se ao chefe. Livrou Rhodan do trabalho de responder à pergunta de Bell.
Mas a gentileza de Jefe Claudrin não provinha exclusivamente de razões altruístas. Pretendia informar Bell sobre aquilo que se passara na sala de comando durante sua ausência.
O chefe quer voar sozinho para Peregrino. Não precisa da Ironduke.
Bell não compreendeu tamanha tolice.
Naquele setor da Via Láctea não havia nenhuma nave mais segura e mais veloz que a Ironduke.
Será que Perry Rhodan ainda não compreendera que estava literalmente sendo perseguido pela desgraça? Queria provocar alguma catástrofe? Há algumas semanas vivia chocando todo mundo!
É de amargar,” pensou o gorducho, bastante desanimado.
Pois não! — disse Bell para espanto dos presentes e deixou que os dois oficiais passassem.
Vira um brilho estranho nos olhos cinzentos de Rhodan. Conhecia esse sinal de alarma. Era uma característica do chefe. Naquele momento nada neste mundo conseguiria demovê-lo da sua intenção de viajar só para Peregrino.
E Bell não estava disposto a lutar contra moinhos de vento.
Nunca se sentira tão contrariado como nas últimas horas.

* * *

O jato espacial 1-109 desapareceu no espaço.
O dispositivo de rastreamento estrutural da Ironduke mediu a manobra de mergulho no hiperespaço realizada pelo pequeno veículo espacial.
O vôo está correndo bem! — comentou Jefe Claudrin.
Com os dois tripulantes que se encontravam em companhia do chefe, isso não era de admirar.
Stana Nolinow, um homem atarracado que comandava os robôs da Ironduke, era um sujeito arrojado, tal qual Brazo Alkher, o oficial de artilharia. Mas a característica principal desses homens não era sua audácia. Dispunham da sensibilidade especial que lhes permitia, nas situações difíceis em que não havia tempo para refletir, agir acertadamente por simples intuição.
Não haviam adquirido essa faculdade durante o curso que fizeram na Academia Espacial Solar, mas certos psicólogos inteligentes reconheceram o valor imenso que jazia nos dois jovens. Por isso essas faculdades foram desenvolvidas com o auxilio de professores sensíveis, até chegarem às raias da automação.
Brazo Alkher pilotava a 1-109. O grande cérebro positrônico da nave transmitira ao pequeno computador do jato espacial as coordenadas de Peregrino. O cérebro de Vênus as apurara pouco antes, num trabalho de várias horas.
Alkher e Nolinow estavam sós na sala de comando da 1-109. O chefe se retirara para seu camarote. O barco espacial em forma de disco, que media apenas trinta e cinco metros de diâmetro, parecia uma casca de noz em comparação com qualquer espaçonave esférica. No entanto, oferecia tudo que se podia esperar de um bom veículo espacial. Estava equipado com um hiperpropulsor do tipo mais moderno e os melhores dispositivos automáticos; neste ponto levava uma vantagem imensa sobre muitas espaçonaves maiores de outras raças.
Quanto ao armamento, seria um erro subestimar o jato espacial. Apesar disso, sob o ponto de vista objetivo, era pura tolice ir a Peregrino num veículo pequeno como este. A Ironduke sempre ofereceria uma segurança infinitamente superior, em qualquer eventualidade.
Brazo Alkher e Nolinow conversavam a meia voz sobre isso. Não viram nada de estranho no fato de o chefe se ter retirado ao camarote pouco depois da decolagem.
Nem poderiam desconfiar de que, naquele momento, o homem que acreditavam ser Perry Rhodan não queria ver ninguém por perto.
Thomas Cardif calculou suas chances de encontrar no planeta artificial um ser que, em sua configuração indescritível, constituía um povo, apesar de apresentar-se como um único indivíduo — um indivíduo sem substância física, mas dotado do saber imenso de uma raça que dominara a Galáxia antes dos eônios.
Com uma lógica fria avaliou a situação em que se encontrava e o plano por ele elaborado.
Lembrou-se da transmissão de conhecimentos realizada em Okul, processo durante o qual Perry Rhodan fora obrigado a transferir suas faculdades a ele, Thomas Cardif. A transmissão não fora um sucesso total. O ego de Thomas Cardif continuava a dominar. Era ali que residia o maior perigo do jogo que estava desenvolvendo no sistema solar. Ele, Thomas Cardif, era o pior inimigo de si mesmo.
Sabia disso. Mas não sabia o que aconteceria quando se encontrasse diante do Ser de Peregrino e pedisse para que Ele lhe entregasse os ativadores celulares.
Perscrutou sua mente, à procura de sinais de insegurança, mas quanto mais demorava no seu exame, mais tranqüilo se sentia. Os telepatas e localizadores de Rhodan não haviam percebido o logro. Continuavam a acreditar que era Perry Rhodan, e era essa certeza que lhe conferia a segurança de que precisava para enfrentar o Ser do planeta Peregrino.
Deitado no sofá, Thomas Cardif parecia um sonhador. Seu rosto apresentava as feições do verdadeiro Rhodan. Era expressivo e achava-se descontraído. Sua postura não revelava a menor tensão. Ninguém desconfiaria de que era um psicopata genial que elaborava um plano destinado a sacrificar a vida do pai e a libertar o próprio Cardif da dependência dos antis.
Continuava a odiar Rhodan da forma que fazia há sessenta anos. Para ele, o administrador não era seu pai, mas apenas o homem que havia produzido sua semente, e que causara intencionalmente a morte de Thora, sua mãe.
Era isso mesmo! Tinha certeza absoluta; quem afirmasse o contrário estaria mentindo a fim de proteger Rhodan.
Muitas vezes revirara o saber que assumira de Rhodan, mas nunca encontrara no mesmo um único impulso mental que dissesse respeito à sua mãe.
Esse impulso não existia. Mas Thomas Cardif tinha uma explicação para isso. Perry Rhodan submetera-se a um tratamento sugestivo, a fim de libertar-se do conhecimento do fato de ter sido o assassino de Thora, uma princesa arcônida.
Cardif nem teve a idéia de que, se assim fosse, essa parte dos conhecimentos de Rhodan forçosamente teria sido transferida a ele.
A mensagem vinda da sala de comando fez com que se sobressaltasse em meio às reflexões.
Sir — anunciou Nolinow. — Saltaremos dentro de três minutos e trinta segundos. Será o último salto.
O verdadeiro Rhodan teria agradecido depois de receber o anúncio, já que era um líder nato. Sabia como tratar seus colaboradores com o intuito de estimulá-los a darem o máximo de si.
O sósia de Rhodan não possuía essa capacidade.
Nolinow olhou para Brazo.
Então, meu caro — perguntou. — Que tal lhe parece o humor do velho? Já passeei com gente mais alegre.
Brazo Alkher não estava disposto a concordar desde logo com a opinião de Nolinow.
Não se esqueça do que o chefe passou em Okul. Afinal, ele só tem um filho, e, com uma coisa dessas, até mesmo o pai mais forte pode ter problemas psicológicos.
Nolinow parecia cético.
Poder-se-ia dizer isso se Perry Rhodan fosse um homem comum, que nem você e eu.
Acontece que não é. A melhor prova é o fato de que criou o Império Solar. Não, Brazo, não acredito que se trate de problema psicológico. Não confio nesse... como é mesmo o nome?
Tanto faz! Não confio no tratamento de choque a que foi submetido. Se tiver de adivinhar, direi que está a caminho de Peregrino, a fim de procurar um remédio para sua situação.
Brazo Alkher lançou um olhar de surpresa para o companheiro mais baixo que ele, mas não teve tempo de responder.
O salto pelo hiperespaço seria realizado dentro de cinco segundos.
A contagem regressiva aproximava-se do fim.
Os dois homens ataram os cintos.
O momento zero chegou. Seguiu-se o hiper-salto, com a desmaterialização, a rematerialização, e a dor que acometeu os homens a bordo da 1-109. Tal dor se manifestava principalmente na nuca.
Os dois jovens oficiais gemeram, depois foram se livrando dos últimos efeitos do choque e passaram a dedicar sua atenção exclusivamente à grande tela de visão global.
Viram um setor espacial, muito pobre de estrelas, dentro de um raio de cinco anos-luz.
Será que saímos no lugar errado, Brazo? — perguntou Stana Nolinow em tom preocupado.
Brazo recorreu ao computador de bordo a fim de verificar a posição galáctica do jato espacial. O cérebro positrônico levou menos de um minuto para expelir a folha de plástico com os sinais perfurados.
Os dois homens leram esses sinais como se fossem caracteres comuns.
Chegamos... — disse Nolinow em tom de espanto.
Quando a gente se aproxima de Peregrino, sempre é assim. Em condições normais o mundo artificial não pode ser visto nem localizado. Atenção, Stana, entrarei em contato com o chefe.
Uma vez recebido o chamado, Cardif-Rhodan ergueu-se do sofá, espreguiçou-se, respirou profundamente e deu um passo para sair do camarote.
Estava prestes a dar o passo mais perigoso de sua vida. Não poderia deixar de dá-lo, pois, do contrário, Perry Rhodan, seqüestrado pelos antis, colocaria em perigo sua posição pelo resto da vida. Não poderia deixar de assumir o risco, porque não queria continuar a ser uma marionete dos antis.
No momento em que saiu do camarote o desassossego abandonou-o de vez. Tinha certeza de que também conseguiria enganar o Ser imaterial.

* * *

Quando o jato espacial penetrava pela abertura larga do anteparo energético do planeta Peregrino, prenderam a respiração. Cardif reuniu as forças que lhe restavam para não perder o autodomínio. De repente Peregrino, o mundo artificial onde reinava a imortalidade, estendeu-se embaixo deles.
Não era um planeta no sentido usual da palavra. Era um disco de seiscentos quilômetros de diâmetro, protegido por um campo energético em forma de abóbada.
Naquele disco encontrava-se tudo que havia de belo no cosmos. Brazo Alkher e Stana Nolinow gostariam de fitar a maravilha por horas a fio, mas viram-se impedidos de fazê-lo já que Rhodan lhes ordenou que se dirigissem ao campo de dois quilômetros de extensão, em cuja extremidade se erguia uma torre fina e de aspecto frágil, de mais de mil e trezentos metros de altura.
Era este o mundo em que vivia Ele ou Aquilo — desde tempos imemoriais.
Thomas Cardif ouvira-o antes que surgisse a abertura no anteparo energético.
Uma voz falou no interior de Cardif.
Aquilo formulou uma pergunta:
Perry Rhodan, quer falar comigo?
Antes que Cardif pudesse recuperar-se do impacto produzido pela mensagem, a voz voltara a soar:
Fico muito satisfeito em revê-lo. Parece que você sente muitas saudades de mim. Você não me visitou há poucos instantes?
Os conhecimentos que Cardif absorvera de Rhodan informaram-no sobre o que o Ser coletivo entendia pela expressão “poucos instantes”. Ele ou Aquilo pensava em padrões temporais diferentes. Um espaço de tempo que, para os homens, constituía alguns decênios, representava apenas um momento para ele.
E agora a voz continuava calada, enquanto o veículo espacial 1-109 descia suavemente no campo de pouso de dois quilômetros de extensão ladeado pela torre esguia.
De pé atrás dos dois oficiais, Cardif olhava a tela de visão global. Os conhecimentos de Rhodan permitiram-lhe compreender o que via. Não existia nada que lhe fosse estranho. Até sabia para onde dirigir-se.
Os últimos mecanismos do jato espacial pararam de funcionar. Alkher e Nolinow haviam colocado todos os controles na posição zero.
Esperem-me aqui. Irei só — disse o chefe às costas dos tenentes.
Seguiram-no com os olhos enquanto caminhava pelo corredor e parava junto à eclusa.
Cardif retirou-se do veículo espacial apenas com a roupa do corpo, sem a menor proteção.
A gravitação de Peregrino chegava a 0,90. As condições eram quase iguais às da Terra.
Atravessou o campo de pouso e dirigiu-se a um pavilhão, quando de repente ouviu no seu subconsciente uma estrondosa gargalhada.
Rhodan, quase fui devorado pelo tédio! Você nem imagina como me alegro de revê-lo, amigo. É uma pena que eu não seja feito de substância para poder abraçá-lo e dar-lhe uns tapinhas no ombro.
Mais uma vez uma ruidosa gargalhada soou no subconsciente de Thomas Cardif, mas ele não se perturbou com isso. Aquilo o cumprimentara como se ele fosse Perry Rhodan. E manifestara o desejo de dar “uns tapinhas” no ombro dele, que acreditava ser Perry Rhodan.
A gargalhada cessou abruptamente.
Chegue mais perto, amigo! O que deseja? Oh, você sabe perfeitamente o que quer de mim. Vinte e um ativadores celulares com regulagem individual seletiva, não é? Cumprirei minha palavra. Fornecer-lhe-ei os mesmos. Você sabe perfeitamente que gosto de ficar como espectador quando o Jogo de forças cósmicas é travado em vários rounds. Terrano, estou convencido de que para mim a época de tédio chegou ao fim.
A voz calou-se. As risadas tornavam-se cada vez mais fracas, pareciam vir de uma distância longínqua, e depois de algum tempo cessaram de vez.
Cardif não parara ao ouvir a voz dirigida ao seu subconsciente. Adotou o mesmo procedimento que Rhodan teria usado se estivesse em Peregrino. O saber transferido forneceu-lhe as necessárias informações a este respeito.
Sentia-se mais seguro do que nunca de que Ele ou Aquilo também se tornara vítima do logro genial. Cardif nem desconfiava de que, ao fazer a visita ao planeta artificial, proferira sua própria sentença de morte.
Viu-se no interior do pavilhão. Esperou pacientemente. Não teve de realizar um esforço de concentração muito intenso para que seu pensamento se desenvolvesse exatamente nos moldes do de Rhodan. Olhou em torno com uma euforia indescritível.
Não parecia curioso, mas apenas interessado, como alguém que, depois de muito tempo, revê coisas a que já está familiarizado.
Ali estava o fisiotron, o aparelho singular que até então conservara a vida de Rhodan e das pessoas mais chegadas ao mesmo. Tinham de comparecer a Peregrino com intervalos de sessenta e dois anos, a fim de renovar o processo de rejuvenescimento biológico.
Cardif sabia disso há muito tempo, e também sabia que teoricamente a expectativa de vida de Atlan não tinha limite, em virtude de um aparelho do tamanho de um ovo, denominado ativador celular. Pedira ao Ser imaterial que lhe desse vinte e um aparelhos desse tipo, e Aquilo dera a entender que, em conformidade com o que fora combinado, não deixaria de atender ao pedido.
Sentiu um ligeiro estremecimento diante da fraude vergonhosa. Concentrou-se ao máximo para afastar a voz da consciência.
Devo pensar nos moldes de Rhodan”, refletiu. “Vou pensar no vigésimo primeiro ativador.
Começou a sentir-se como se fosse Rhodan. Pensava através dos conhecimentos do pai, mas não pensava corretamente a respeito d’Aquilo.
Não quero comparecer aqui a cada sessenta e dois anos para receber a ducha celular”, disseram seus pensamentos. “Quero continuar jovem, que nem o Imperador Gonozal VIII.
Seus pensamentos giravam exclusivamente em torno deste ponto.
Sabia do humor peculiar d’Aquilo, e sabia ainda que Ele gostava de complicar todas as coisas a sua maneira.
Cardif estremeceu quando a voz chamou em seu subconsciente, sem aviso prévio:
Você está fazendo concorrência ao velho Odisseu, amigo. Esta brincadeira obriga-me a mostrar-me reconhecido. Quer que coloque o vigésimo primeiro ativador celular no fisiotron para adaptá-lo às suas vibrações individuais, Perry Rhodan?
Cardif estava banhado de suor.
Quero”, pensou. “Regule o ativador.”
A resposta foi uma risadinha, seguida de uma ligeira pausa. Mais uma vez ouviu a voz vinda de qualquer lugar:
Hoje você me diverte ao máximo, terrano! E eu lhe pagarei de igual para igual. Aguarde lá fora, perto do pavilhão. Perry Rhodan, assim que o ativador celular for regulado, você também estará de posse dos outros vinte aparelhos desse tipo.
Ao sair do pavilhão, Thomas Cardif sentiu-se inebriado de uma sensação que nunca experimentara. Achou que a espera do lado de fora seria menos cansativa que naquele recinto fechado. Obrigou-se a andar devagar, a passos comedidos, segundo o feitio de Rhodan.
Lá fora sentiu-se atingido pelo clima suave do mundo artificial. O Jato espacial encontrava-se a um quilômetro dali. Alkher e Nolinow cumpriram suas ordens: nem sequer saíram da pequena sala de comando do veículo espacial 1-109.
Thomas Cardif olhou para a torre esguia.
Isto está liquidado”, pensou, mas logo voltou a controlar a atividade de sua mente.
Essa precaução era uma das qualidades herdadas do pai, que não costumava arriscar levianamente uma coisa que conseguira conquistar.
Aspirou gostosamente o ar perfumado de Peregrino.
O subconsciente voltou a chamar. Teve a impressão de que Ele cochichava esta frase:
Você faz concorrência ao Odisseu da Antigüidade de sua raça.
Será que Ele descobriu alguma coisa? Será que a manobra por meio da qual pretendia enganar o Ser de Peregrino fora mal-sucedida?
De repente o ego de Thomas Cardif cochichou no subconsciente do mesmo: “Ele não descobriu coisa alguma. Apenas se diverte com o fato de que pretende usar o ativador celular para escapar à ducha celular que tem de ser realizada a cada sessenta e dois anos. Foi por causa desse truque que Ele o comparou com Odisseu, o astucioso.”
Thomas Cardif passou a mão pela testa.
A tensão foi diminuindo. Voltou a aspirar o ar perfumado.
Esperava que Aquilo lhe entregasse vinte e um ativadores celulares.

* * *

Homunc, uma criação d’Aquilo, era um robô humanóide altamente aperfeiçoado, criado especialmente para Rhodan, por ocasião da primeira visita que este fizera ao planeta Peregrino.
E Homunc ouviu que, Ele, o seu senhor, soltou uma risadinha alegre.
Homunc permanecia nos fundos do pavilhão. Só penetrara no mesmo depois de Thomas Cardif ter saído. Aquilo não queria que houvesse um encontro entre eles. Ele apenas queria conversar com Homunc à sua maneira toda peculiar. Aquilo não precisaria da presença do robô, mas a situação parecia tão grotesca que achava necessária a presença de Homunc.
Seguiu-se uma palestra mental, bastante estranha.
Homunc, você o reconheceu?
Reconheci-o imediatamente, senhor.
Qualquer pessoa que use o nome de Rhodan diverte-me a valer, Homunc. Esses bárbaros vindos do terceiro planeta de um sol, que chega a ser ridículo de tão pequeno que é, têm cada idéia que merece um prêmio.
Pretende apoiar o filho de Rhodan, senhor?
Por que não iria apoiá-lo, desde que o patifezinho tenha bastante inteligência? Mas antes de mais nada terá de provar se realmente tem inteligência. Um patife inteligente permite que alguém o chame pelo nome de outra pessoa, mas nunca procura identificar seus pensamentos com os dessa pessoa.
Senhor, será que ele entendeu o sentido exato da sua pergunta? “Quer que coloque o vigésimo primeiro ativador celular no fisiotron para adaptá-lo às suas vibrações individuais, Perry Rhodan?” Foi isso que o senhor perguntou.
Homunc, você está me decepcionando. Será que sou o Destino? Só mesmo um tolo procura atirar-se nos braços da onipotência. Por isso nem penso em ajudar Rhodan. Uma pessoa que assume o risco que ele assumiu em Okul terá de pagar o preço.
Senhor, os dois correm o perigo de serem mortos.
Não digo que não seja assim, Homunc.
Senhor, expõe Cardif a um perigo tremendo!
Por enquanto não. Quando chegar a hora eu o prevenirei, Homunc. Eu o prevenirei com muita insistência. Ele assumiu todo o saber que Rhodan acumulou a meu respeito. Uma pessoa que assume o risco de agir, da forma que fez Thomas Cardif, deve possuir inteligência suficiente para trabalhar com o saber alheio. Está na hora de retirar o ativador celular do fisiotron. Homunc, quer fazer o favor de certificar-se de que o mesmo está regulado exatamente para as vibrações de Perry Rhodan, conforme deseja Thomas Cardif?
Acontece que Cardif não é Rhodan, senhor. Não conseguiu iludir nem ao senhor nem a mim, como fez com todos os outros. No seu caso o ativador celular será contra-indicado.
Eu o advertirei dessa contra-indicação, farei uma advertência muito precisa, Homunc, quando chegar a hora.
Como serão os outros vinte ativadores celulares, que os sacerdotes de Baalol exigem de Cardif?
Serão uma graça, Homunc, e uma lição muito proveitosa, que talvez faça com que os antis compreendam que não podem brincar comigo. Mas Thomas Cardif me diverte; não deve conhecer o provérbio do ladrão roubado... Não tem a inteligência do pai.
Com isso a palestra travada no interior do pavilhão chegou ao fim. Aquilo voltou a soltar a risadinha alegre. Homunc, cujo cérebro era uma combinação semi-orgânica e positrônica, que funcionava em base hexadimensional, não se atreveu mais a dirigir a palavra a Aquilo.
Homunc não estava preocupado. Conhecia perfeitamente seu senhor, e por isso sabia que Thomas Cardif tinha em mãos seu próprio destino, que determinaria sua vida futura.
Homunc continuava a manter-se nos fundos do pavilhão. Viu o ativador celular sair do fisiotron e seus olhos acompanharam o objeto em forma de ovo que se deslocava pelo ar, em direção à porta.
Aquele ativador, regulado para as vibrações individuais de Perry Rhodan, conferiria a esse terrano a imortalidade relativa desde que ele o trouxesse junto ao corpo. Acontece que Thomas Cardif não era propriamente Perry Rhodan.
Será que em virtude disso o ativador não produziria nenhum efeito? Ou provocaria alguma reação que o termo contra-indicação só designava de forma bastante vaga?
Os olhos de Homunc continuavam a seguir o ativador, que se afastava lentamente. A risada alegre d’Aquilo não era muito forte, mas era capaz de encher o grande pavilhão.
Aquilo divertia-se com os terranos. Desde que passara a ser Aquilo, nunca ninguém tentara ludibriá-lo. Mas agora isso acabara de ser feito. E o ser imaterial divertia-se com isso.
Thomas Cardif caminhou em direção ao jato espacial.
Conseguira! Trazia o ativador celular junto ao corpo. Tinha diante de si a vida eterna. Só mesmo um acontecimento violento poderia causar-lhe a morte. Estava protegido contra a degenerescência das células. A atuação ininterrupta do objeto em forma de ovo que trazia sobre o peito provocaria uma renovação incessante das células.
Conseguira! Apesar de tudo, reprimiu a sensação de triunfo. Ainda se encontrava em Peregrino. Ainda havia o perigo de que Aquilo percebesse a manobra levada a efeito para lográ-lo.
Aquilo manteve-se em silêncio. Aquilo se despediu no momento em que Cardif pendurou o ativador pelo pescoço e o escondeu sob o uniforme.
Perry Rhodan, regulei o aparelho exatamente para suas vibrações individuais, e tive muito prazer em agir assim, meu amigo. As vinte peças restantes lhe serão enviadas posteriormente. Você as encontrará junto à eclusa de seu barco espacial. Não se preocupe por causa do recipiente em que serão entregues. Ele se abrirá no momento em que você desejar que isso aconteça. Se quiser que permaneça fechado, não haverá força no Universo que seja capaz de pôr as mãos em seu conteúdo. Passe bem, Rhodan. Sua visita me deixou alegre como nunca. — foram estas suas últimas palavras, que Cardif captou.
Depois disso o Ser fictício de Peregrino voltara a soltar uma estrondosa gargalhada.
Acompanhara Thomas Cardif até o centro da praça circular, onde desapareceu abruptamente.
Quando se encontrava a apenas cem metros do veículo espacial 1-109, Cardif sentiu que um fluxo vivificante que nunca sentira lhe inundava o corpo.
O ativador está funcionando”, pensou.
Teve de esforçar-se ao máximo para não cair num estado de euforia. Conteve o passo e perscrutou seu interior. E então não teve mais dúvida; de repente sentia-se jovem e recarregado com um máximo de energia. Parecia libertado de um peso que o oprimia desde o momento em que pela primeira vez pisara em Peregrino.
Quando atingiu a pequena rampa do jato espacial, uma esfera luminosa vermelho-pálida de meio metro de diâmetro surgiu à sua frente, vinda do nada. Flutuava na altura de sua cabeça.
Em seu interior reconheceu vinte objetos escuros em forma de ovo, iguais ao ativador celular que trazia sobre o peito.
Estendeu a mão e tocou a superfície do envoltório esférico. Dava a impressão de ser feita de substância material, mas Cardif não acreditou que realmente fosse. O saber de Rhodan permitiu-lhe que tivesse uma idéia sobre a estrutura da esfera oca, que se encontrava à sua frente. Era um campo temporal adaptado aos seus impulsos, que só se abriria por sua vontade.
De repente compreendeu o sentido das palavras do Ser coletivo: “Não haverá força no Universo que seja capaz de pôr as mãos em seu conteúdo.”
Havia um sorriso de triunfo em seus lábios quando entrou na pequena sala de comando do jato espacial. Stana Nolinow e Brazo Alkher estavam confortavelmente instalados e jogavam xadrez. Fizeram menção de levantar-se de um salto assim que viram o chefe à sua frente.
Este conteve-os com um gesto. Cumprimentou-os com um aceno de cabeça. Tinha de encontrar uma maneira de dar vazão ao triunfo. Naquele momento, os jovens oficiais viram nele Perry Rhodan, que estava disposto a dar ouvidos a qualquer pessoa, sempre que isso fosse possível.
Infelizmente terão de interromper a partida de xadrez. Vamos decolar.
Cardif-Rhodan viu os olhares curiosos dos dois tenentes, que não paravam de fitar a esfera vermelho-pálida que flutuava na altura dos ombros do chefe. Mas este não lhes deu nenhuma informação.
Nolinow e Alkher levantaram-se apressadamente. Ocuparam seus lugares. Uma vez à frente do painel de controle, recolheram a rampa e fecharam a eclusa. Deram início ao processo de pré-aquecimento dos propulsores. O maravilhoso silêncio no interior do jato espacial chegara ao fim.
As máquinas zumbiram, trovejaram, apitaram. Os dispositivos automáticos ligaram, simultânea ou sucessivamente, uma série de conjuntos mecânicos. O conversor central entrou em funcionamento com um som de barítono. Um tremor sacudiu o veículo espacial 1-109.
Os dois oficiais não tiveram tempo para virar a cabeça, quando ouviram às suas costas os passos do chefe, que saía da sala de comando. Antes que concluíssem os preparativos da decolagem, Cardif-Rhodan retornou, desta vez sem a esfera vermelho-pálida.
Decolagem! — disse Brazo Alkher, seguindo seu costume.
Embora na Ironduke desempenhasse as funções de oficial de artilharia, tivera que absorver cursos rigorosíssimos na Academia Espacial Solar, tal qual acontecera com seus companheiros.
E nesses cursos aprendera a pilotar jatos espaciais, naves da classe Estado e até mesmo cruzadores.
A 1-109 levantou-se suavemente. Descreveu duas curvas em torno da torre de mais de mil e trezentos metros de altura, que se encontrava na periferia do campo de pouso circular. Enquanto isso, Brazo Alkher balançou o jato espacial. Era um aceno de despedida, um costume que se disseminara rapidamente pela Frota, mas que só podia ser praticado por quem não pilotasse uma nave esférica.
O veículo espacial 1-109 subiu em direção à abóbada energética, uma semi-esfera que se estendia sobre o disco de seiscentos quilômetros de diâmetro.
Olhe a abertura! — exclamou Stana Nolinow em tom de surpresa.
No mesmo instante, Alkher regulou os propulsores para o desempenho máximo. Com um rugido dos motores, a 1-109 precipitou-se para o espaço cósmico normal.
Assim que o pequeno barco estelar alcançou a fronteira, a tela de visão global deixou de mostrar a abertura. E do campo energético também não se notava mais nada. Nada nas proximidades dava a entender que naquele setor espacial, onde escasseavam as estrelas, ficava o misterioso mundo artificial que os homens haviam batizado com o nome de Peregrino.
Sem dizer uma palavra, Cardif-Rhodan saiu da pequena sala de comando.
Precisava ficar só. Desejava ficar só.
Queria desfrutar intensamente o seu triunfo.
Ele, um imortal, conseguira. E com a isca que trazia numa versão multiplicada por vinte não teria a menor dificuldade em livrar-se das garras dos antis.
Fechou a porta do camarote atrás de si.
Acomodou-se na poltrona. A esfera energética-temporal, que reluzia numa tonalidade vermelho-pálida, flutuava num canto. Cardif concentrou-se na mesma.
Abra-se!”, pensou.
A esfera aproximou-se em silêncio, parou dez centímetros acima do colo de Cardif-Rhodan e deixou ver uma fresta. Um dos corpos com formato de ovo que se encontrava no interior da esfera deslocou-se em direção à fresta. E um dos ativadores celulares saiu do recipiente em que estava contido e caiu no colo de Cardif.
Segurou-o. Examinou o ativador de todos os lados. A peça só se distinguia num ponto do ativador que ele mesmo trazia sobre o peito. Na saliência de dois centímetros havia o contato que realizava a regulagem automática das vibrações. Aquilo fizera questão de chamar sua atenção para o fato de que um ativador celular não é transferível. Uma vez tentada a transferência, suas funções perdem-se.
Ao lembrar-se disso, Cardif soltou uma gostosa gargalhada.
A vida eterna multiplicada por vinte, seus sacerdotes! — exclamou em tom de deboche.
Naquele momento desejava ver os antis à sua frente.
Se quisessem mesmo os ativadores, teriam de pagar o preço que ele exigisse.
A vida eterna era impagável.
Por que não poderei arrancar tudo dos antis em troca de um único ativador?
Voltou a enfiar o objeto em forma de ovo na fresta do campo temporal. A esfera reluzente tornou a fechar-se automaticamente. Deslocou-se para o canto em que estivera antes. Até parecia que era um ser pensante.
Consegui! — exclamou Thomas Cardif com a voz orgulhosa.

4



Depois que o patriarca Catepan e os outros mercadores foram interrogados por horas a fio, não havia mais nada a fazer a bordo da Ironduke.
De início os terranos dispensaram um tratamento bastante áspero aos saltadores. Ninguém podia levar isso a mal, pois não se haviam esquecido da desgraça que os antis e Thomas Cardif haviam causado à Galáxia. A morte de milhões de viciados devia ser atribuída a esses antimutantes que se intitulavam de sacerdotes.
Allan D. Mercant dirigia os interrogatórios.
Era esta a sua especialidade, e com o auxilio de três membros da Segurança Solar que viviam constantemente em Plutão, tornou-se possível a realização de uma série de inquirições cerradas.
O patriarca Catepan jurou por todos os deuses de Árcon que não tinha a menor idéia de que o homem, que acabara de ser morto por Rhodan, era um anti.
Ninguém acreditou nele.
Mas dali a várias horas, quando foi iniciada a terceira série de interrogatórios e o conteúdo da mente de cada um dos mercadores galácticos, que trabalhavam no entreposto de Plutão, foi examinado pelos telepatas, chegou-se à conclusão de que o patriarca Catepan não mentira.
Mas a surpresa ainda estava por vir.
O interrogatório havia chegado ao fim e os saltadores tinham voltado aos seus escritórios. Os responsáveis pelo interrogatório dormiam em seus camarotes quando foram colocados em estado de alarma pela divisão clínica da nave linear.
Bell praguejou, saltou da cama, vestiu-se às pressas e correu para a grande enfermaria. No elevador lateral encontrou-se com Mercant. Este também sabia apenas que acabara de ser arrancado da cama.
Foram recebidos pelo Dr. Pinter. Jefe Claudrin, comandante da Ironduke, estava ao seu lado. Não havia nada de especial nisso. Mas o fato de que Jac Aníbal, especialista em aparelhos de hiper-rádio, também se encontrava lá tornava-se uma grande surpresa. Bell e Mercant entreolharam-se.
Não posso deixar de pensar em nosso amigo Tiff, Mercant — disse Bell.
Também estou pensando nele — confessou Mercant.
A pessoa à qual se referia era o agora General Julian Tifflor, que os amigos chamavam de Tiff, nome que costumava ser usado até mesmo por Rhodan. Em certa época, quando ainda era cadete, desempenhara as funções de “chamariz cósmico” e fizera coisas que chegavam às raias do milagre. Mas tudo isso só se tornara possível graças a um hiper-transmissor goniométrico que fora implantado em seu corpo por meio de uma operação e ainda se encontrava no mesmo lugar.
Esse transmissor, que tinha um alcance de vários anos-luz, representara na época a pista que sempre levava Rhodan ao centro dos acontecimentos, onde muitas vezes pudera intervir no último instante com as forças de que dispunha.
Nem Jefe Claudrin, nem o Dr. Pinter e nem o especialista de hiper-rádio sabiam o que significavam as observações de Reginald Bell e do Marechal Solar Mercant. Os três ainda não haviam nascido na época em que se realizou a ação “chamariz cósmico”.
Queiram acompanhar-me ao laboratório médico-técnico — pediu o Dr. Pinter.
Deixaram que ele os conduzisse. Era a primeira vez que Bell se encontrava naquele lugar. Tinha uma repugnância acentuada por tudo que cheirasse a hospital, enfermaria ou clínica. Seu instinto antipatizava com as instituições desse tipo.
Façam o favor de sentar — pediu o Dr. Pinter.
Obrigado; preferimos ficar de pé — respondeu Bell. — Não quero demorar muito por aqui. O que houve?
Jac Aníbal, especialista em hiper-rádio, adiantou-se. Dirigiu-se à mesa de instrumentos. Pegou uma pinça. Sobre uma pequena lâmina de vidro via-se um objeto do tamanho de um grão de ervilha. Segurou-o com a pinça. Aníbal levantou o pequeno objeto.
Isto é um transmissor de hiper-rádio de um tipo que não é encontrado todos os dias. Não digo isto porque tem um alcance superior a cinqüenta anos-luz, mas sim porque esta maravilha técnica usa o tímpano de uma pessoa como microfone.
Duas horas após a morte do antimutante, o tímpano do mesmo ainda não havia sido afetado pela rigidez cadavérica. E duas horas após a morte, o transmissor de hiper-rádio existente no músculo de seu antebraço esquerdo ainda transmitia todas as palavras pronunciadas nas proximidades do morto. Infelizmente o aparelho só foi descoberto há pouco menos de três horas. Foi este o tempo que levei para estudar as funções do mesmo. Mr. Bell, permite que eu lhe mostre?
Acontece que Bell não estava interessado em ver o aparelho. De repente sentiu-se atormentado por outras preocupações.
Lembrou-se do vôo de Perry Rhodan para o planeta artificial Peregrino. Indagou em vão a si mesmo o que teria sido falado na presença do anti morto. Sem dúvida alguém mencionara o fato de que o administrador se encontrava num jato espacial, a caminho de Peregrino.
Mercant devia estar pensando na mesma coisa, pois puxou Bell pelo braço e disse em voz baixa:
Vamos!
Jefe Claudrin percebera os cochichos. Lançou um olhar indagador para os dois homens.
Mercant respondeu com um sinal de cabeça. O nativo de Epsal compreendeu e seguiu-os.
O especialista de hiper-rádio olhou-os com uma expressão de desapontamento. Ao chegar à porta, Bell virou a cabeça.
Muito obrigado, meu caro Aníbal — disse. — Acho que todos devemos muito ao senhor.
Depois dirigiu-se ao Dr. Pinter e perguntou:
Quem achou essa coisa diabólica no músculo do antebraço?
Fui eu — respondeu o doutor com a voz modesta.
Bell acenou com a cabeça.
Enquanto caminhava em direção aos camarotes, Bell perguntou:
Por que será que a central de rádio e os fortes de Plutão não registraram a transmissão? Geralmente essa gente ouve até a tosse de uma pulga.
Será que o senhor se esqueceu dos swoons, Bell? — ponderou Mercant.
Não venha me dizer que nossos homens-pepinos, que residem na Terra e em Marte, trabalham para os antis!
Não me refiro a estes swoons. Aludi aos homens-pepino radicados em seu planeta natal. Se foram eles que construíram um transmissor tão potente, nesse caso será perfeitamente possível que o aparelho seja provido de um condensador. E uma mensagem condensada de duração inferior a um nanossegundo pode perfeitamente atravessar nosso sistema de vigilância de rádio sem ser notada.
Que belas perspectivas. O que acontecerá ou terá acontecido neste meio tempo com o chefe? Será que o senhor se recusa a pensar nele? Está praticando a política do avestruz? — perguntou Bell.
Mercant limitou-se a sorrir.
Parece que o senhor não se lembra dos tenentes Stana Nolinow e Brazo Alkher.
O chefe não poderia ter escolhido tripulação melhor. Se alguma coisa tivesse acontecido ao jato espacial, ou se o mesmo se encontrasse numa situação de perigo, pelo menos teríamos recebido um pedido de socorro. Todos conhecemos a rapidez das reações de Alkher.
Tomara que desta vez ele também saiba reagir depressa.
Mercant ficou parado. Quando Reginald Bell, o otimista, se transformava numa ave de mau agouro, quase sempre surgia um acontecimento inesperado e nada agradável.
Os dois chegaram à porta do camarote de Mercant e pararam. Olharam para o relógio.
Bem, ainda poderemos dormir umas quatro horas, senão surgir outro imprevisto — disse Bell com um bocejo e deu boa-noite a Mercant.
Boa noite — respondeu Mercant e entrou em seu camarote.
Deitou, mas não conseguia dormir. Seus pensamentos ficavam girando em torno do chefe. E quanto mais sua mente se ocupava com Perry Rhodan, mais preocupado se sentia.
Seus olhos abertos fitavam a escuridão que o rodeava. E essa escuridão não o impedia de ver o rosto de Rhodan com os olhos da mente. Conhecia cada traço desse rosto, mas teve a impressão de ver algo de estranho no quadro que sua imaginação lhe oferecia. Mas não sabia dizer em que consistia o aspecto estranho. Apenas o sentia, e depois disso as idéias de Mercant passavam a desenvolver-se num plano equívoco. Omitira as conclusões lógicas, sem que disso se desse conta. Não atribuía a devida importância aos seus sentimentos.
O Marechal Solar Mercant perdeu totalmente a noção do tempo. Não sabia por quantos minutos estivera deitado na escuridão, mergulhado em reflexões, quando as sereias da Ironduke uivaram, anunciando o grau máximo de alarma.

* * *

O jato espacial 1-109 acabara de ultrapassar metade da velocidade da luz, mas ainda não se dispôs a entrar em transição. Cardif-Rhodan ordenara pelo sistema de intercomunicação de bordo que a mesma só fosse realizada depois de atingidos 99,01 por cento da velocidade da luz.
Para os dois jovens oficiais, a ordem do chefe era lei; seus rostos contrariados eram o único sinal de que não concordavam com essa ordem.
Stana Nolinow virou-se para Alkher:
Sabe lá a que distância fica o cruzador de patrulhamento mais próximo, meu chapa?
Não tenho a menor idéia, Stana — respondeu Alkher. — Se quiser saber, pergunte ao cérebro positrônico.
O computador está muito longe.
Naturalmente estas palavras representavam um tremendo exagero. Bastava que Stana Nolinow se virasse com a poltrona, para ter à sua frente o computador positrônico de bordo. E depois de alguns segundos, o cérebro lhe teria dito por meio de um cartão perfurado onde se encontrava o cruzador mais próximo.
O jato espacial ia galgando a escala da velocidade.
Brazo Alkher controlava os aparelhos de localização. Todos os indicadores estavam na posição zero. A sua frente e atrás deles, à esquerda e à direita, só havia, com exceção de alguns sóis distantes, o espaço vazio.
Examinou o controle de armamentos.
O que está fazendo? — perguntou Stana com uma ligeira curiosidade na voz.
Até mesmo dormindo, Brazo seria capaz de dominar todos os tipos de controle de armamentos.
Não tinha necessidade de olhar o que suas mãos faziam. E agora não estava olhando.
Nunca se pode saber, Stana. Como estamos apenas nos arrastando, podemos e devemos perfeitamente destacar uma unidade energética para os armamentos. Quando estou sentado numa casca de noz como esta, sempre me sinto satisfeito ao saber que os jatos espaciais estão muito bem armados.
Acho que só mesmo um oficial de artilharia pode alegrar-se com isso. Quanto a mim, tenho um respeito terrível por tudo quanto é arma de radiações. Basta lembrar-me dos primeiros exercícios de tiro real na Academia. Meu instrutor gritou comigo que nem um louco.
O que foi que você andou fazendo, Stana? — perguntou Brazo, acionando o último contato do painel de controle de armamentos.
O que faz um cadete que ainda não concluiu seus treinamentos? Estávamos voando dentro do anel de asteróides. Meu alvo era um bloco de trezentos metros de diâmetro. Tudo teria saído bem, se uns oito ou dez quilômetros atrás do mesmo não houvesse um asteróide de cerca de quarenta quilômetros de diâmetro. Bem, no entusiasmo provocado por meu primeiro tiro real acabei atingindo o tal asteróide.
Brazo Alkher soltou um grito de surpresa. Stana Nolinow já não poderia refestelar-se nas recordações. O sistema de rastreamento estrutural da 1-109 acabara de mostrar uma reação. E juntamente com essa reação, uma gigantesca espaçonave cilíndrica surgira no espaço. A ampliação imediata do jato espacial mostrou o cilindro grotesco de extremidades arredondadas com uma nitidez terrificante. Até parecia que a nave se encontrava bem à sua frente. Acontece que se achava a mais de um milhão de quilômetros. Mas a uma velocidade de 0,6 por cento da luz isso não importava.
No interior da 1-109 três sereias deram o sinal de alarma.
Brazo Alkher mudou de um instante para o outro. Apenas via a nave desconhecida correr velozmente em direção ao jato espacial. Sua mão, que ia acionar a chave sincronizada que desencadeava a transição, passou ao lado da mesma.
Um raio volumoso disparado pela torre de canhões da nave cilíndrica fez com que pusesse a mão na chave de controle do armamento. A mão esquerda fez recuar a chave dos propulsores.
Os motores da 1-109 começaram a uivar. O raio mortífero passara pelo espaço a alguns milhares de quilômetros do jato espacial.
Vou assumir! — gritou o tenente Stana Nolinow. Com um movimento rapidíssimo dos controles passou a pilotar o jato espacial.
Alkher podia usar ambas as mãos para controlar o armamento.
Tudo se passara numa fração de segundo.
Brazo Alkher começou a dar mostras de suas qualidades.
Uma nave cilíndrica pretendia abordá-los. Estavam interessados no chefe.
A tecla de pedido de socorro afundou no painel. Acoplado ao computador de bordo, que constatou no mesmo instante a posição galáctica da 1-109, o potente hiper-transmissor do jato enviou para o espaço o pedido de socorro.
No mesmo instante, Brazo Alkher disparou os três canhões de impulsos do jato espacial.
A modificação casual de rota realizada pela nave cilíndrica teve conseqüências desastrosas para esta. Os disparos de Alkher não atingiram o nariz achatado do veículo espacial, conforme o mesmo pretendera, mas derreteram o casco da nave inimiga na altura da sala de máquinas.
Num instante as duas naves passaram uma pela outra.
Desligar! — disse Brazo com uma voz que não admitia contradita.
E Stana Nolinow nem pensava em discutir. Os instrumentos diziam bastante.
E também diziam quem estava atacando os terranos.
Eram antis!
A unidade de força do jato espacial continuava a gerar energia, mas esta não produzia nenhum resultado efetivo.
Um campo energético mental criado pelos servos de Baalol envolvera o centro energético pequeno, mas superpotente da 1-109.
Com isso, Brazo Alkher e Stana Nolinow ficaram separados do setor da nave em que estavam instaladas as máquinas. E esse setor teria de transformar-se numa bomba, se as máquinas não fossem desligadas imediatamente.
Foi o que Stana Nolinow fez. A chave mestra foi colocada na posição “desligado”.
O homem que, segundo acreditavam, era o chefe, veio correndo do camarote.
São antis, sir! — disse Alkher laconicamente. Com um gesto cansado apontou para a tela de visão global.
A nave cilíndrica descreveu uma curva ampla e voltou a aproximar-se.
Antis...? — exclamou Cardif-Rhodan. Muito tenso, fitou a tela.
Sir, acho que ainda consegui transmitir um pedido de socorro — disse Alkher sem desconfiar de nada.
Naquele momento Thomas Cardif teve a impressão de que iria enlouquecer.
Então fora irradiado um pedido de socorro?
O quê...? — gritou para Brazo Alkher. — O senhor chamou a Frota pelo hiper-rádio?
Mal acabou de pronunciar a última palavra, compreendeu o que havia feito.
Como, sir? — gaguejou Brazo Alkher, fitando-o com uma expressão de perplexidade.
Está bem, Alkher — disse Cardif em tom contemporizador. — Como soube que se trata de antis?
Sir — respondeu o jovem tenente, com uma perplexidade cada vez maior. — Não está ouvindo? Tivemos de desligar as máquinas para não explodir. Os antimutantes envolveram a sala de máquinas com um campo mental. Nem uma única partícula de radiações consegue sair da mesma...
Thomas Cardif interrompeu o jovem tenente em tom áspero:
Eu lhe pedi que me desse lições?
Virou-se e saiu da sala de comando do jato espacial.

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