A-Thol não
viu o objeto que Thomas Cardif tirou do bolso do traje espacial num
gesto rapidíssimo. Quando a luz indireta se refletiu no cano de um
velho revólver calibre 44, já era tarde para fugir.
O projétil
de plástico antimagnético rompeu o campo defensivo superpotente e
atingiu o anti, no lugar exato em que Thomas Cardif queria ver
colocada a bala.
O homem,
que usava a máscara de Rhodan, não se esqueceu de nenhum detalhe.
Pegou a
arma pelo cano e bateu com a coronha no lado direito do queixo.
A pele
abriu-se e a ferida começou a sangrar.
A seguir
Cardif deu um passo rápido em direção à escrivaninha. Havia um
peso metálico junto aos papéis. Cardif segurou-o, esfregou-o pela
ferida sangrenta e deixou-o cair.
Enquanto
isso teve de pensar ininterruptamente nos antis e imaginar a caverna
de Okul, o que representava um ato de máxima concentração mental.
Subitamente
a porta abriu-se atrás dele. Dois robôs entraram precipitadamente.
Seus sistemas visuais enxergaram o morto que estava jogado ao pé do
administrador. Subitamente as máquinas de guerra enxamearam em torno
de Cardif-Rhodan. Dali a pouco chegaram Bell e Marshall, seguidos de
perto por Allan D. Mercant.
— Perry!
— gritou Bell em tom de espanto ao ver o morto. — Você o matou?
— Será
que você não está gostando, Bell? — gritou Cardif-Rhodan com a
voz áspera. — Queria que me deixasse dominar por um anti? — como
que por acaso, mostrou o queixo ferido a Reginald Bell.
Este
continuava de pé junto ao anti morto. Viu o peso metálico no chão,
abaixou-se e levantou-o. Quando estava prestes a colocá-lo sobre a
escrivaninha, viu o sangue grudado no mesmo.
“É
estranho,”
pensou.
Não sabia
por que tinha certas dúvidas... Seria porque Rhodan nunca lhe
parecera tão estranho como naquele momento?
Perry
defendera sua vida. Sem dúvida era um caso de legítima defesa. Mas
será que Perry Rhodan tinha necessidade de matar? Não poderia ter
posto o anti fora de combate? Não era justamente Perry Rhodan que
vivia insistindo em que qualquer vida humana deve ser poupada, sejam
quais forem as circunstâncias?
— Bell,
parece que você não está gostando de alguma coisa. O que é? Vamos
logo! Diga!
Estas
perguntas atingiram Reginald Bell com a força de chibatadas. Passou
por cima do morto, permaneceu junto à escrivaninha, lançou um olhar
discreto para Mercant e Marshall e viu que estes também não
concordavam com o procedimento de Rhodan. Fitou intensamente os olhos
cinzentos do amigo, que subitamente pareciam tão frios, e perguntou:
— Perry,
como soube que este morto é um anti?
Cardif-Rhodan
limitou-se a sorrir.
— Parece
que você se esqueceu da visita que recebi de Banavol. O fato de eu
querer visitar justamente o escritório dos saltadores em Plutão não
lhe causou muita preocupação. Teria vindo apenas para inspecionar o
escritório? — soltou uma risadinha e fez com que até mesmo Allan
D. Mercant estremecesse e desse um pequeno passo para trás. — Sei
que não devia estar fazendo pessoalmente as inspeções, meu caro.
Entretanto quis convencer-me pessoalmente de que as suspeitas de
Banavol tinham fundamento. E este morto constitui a melhor prova de
que um anti se introduziu no entreposto dos saltadores em Plutão.
Será que ultimamente os mercadores galácticos também possuem a
capacidade de criar campos defensivos por meio de suas energias
individuais?
Bell deu
vazão ao seu temperamento.
Com um
gesto afastou os argumentos de Rhodan.
— Há
pouco você deu a entender que agiu intencionalmente ao matar o anti,
Perry?
Cardif-Rhodan
nem pestanejou.
— Será?
Realmente fiz isso? Nesse caso não formulei devidamente as minhas
palavras, ou você não me entendeu.
3
Quando
regressaram à Ironduke, havia uma notícia importante vinda da
Terra.
Em Pagny
sur Moseile, onde fora construída a fábrica de alitivo, destinada a
suprir a Europa, os trabalhadores e técnicos haviam entrado em
greve. Exigiam aumento de ordenado de vinte por cento. Se a greve não
terminasse até a tarde do dia seguinte, os médicos da Europa
estariam ameaçados de ficar sem o antídoto. As conseqüências que
resultariam disso para alguns milhões de viciados eram
imprevisíveis.
Quando
tomou conhecimento da notícia, Cardif-Rhodan encontrava-se na sala
de comando da nave linear. Passou-a a Bell.
— Cuide
disso.
Bell
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Seria
verdade? Até parecia que Perry Rhodan nem se interessava mais em
saber se os viciados da Europa eram curados ou não!
Bell
resolveu controlar-se, embora fervesse por dentro.
— Está
bem; cuidarei disso, Perry.
Retirou-se
da sala de comando e foi à sala de rádio. No meio do caminho
encontrou-se com o oficial de artilharia, Brazo Alkher.
— Onde
vai, Alkher? — perguntou Bell.
— Vou
falar com o chefe. Ele me chamou pelo minicomunicador. Não sei o que
deseja.
— Ah, é?
O chefe o chamou? Está bem, Alkher. Obrigado.
Bell
falava como quem está muito distraído e foi exatamente esta a
impressão que o oficial de artilharia teve a respeito do
representante de Rhodan.
Bell
entrou na sala de rádio da Ironduke. Não cumprimentou os presentes,
como costumava fazer. Parecia não ver ninguém.
Colocou-se
ao lado do homem encarregado do hiper-rádio e fitou o painel de
chaves.
O tenente
muito jovem que estava sentado diante do aparelho levantou os olhos.
“As
coisas não estão nada boas”,
pensou.
Preferiu
não dirigir a palavra a Reginald Bell.
Este ficou
refletindo sobre os motivos por que Perry ordenara ao oficial de
artilharia que comparecesse à sala de comando. A partir do momento
em que tinham saído do escritório, acompanhados do anti morto, não
mais se haviam separado.
“Será
que Perry já tinha chamado o oficial enquanto se dirigia ao
entreposto dos saltadores?”,
refletiu o representante de Rhodan. “Esses
médicos.., O que não fizeram de Perry! Será que aquilo que há de
novo e incompreensível em sua mente não foi provocado pelo choque
de Thomasson?”
Sobressaltou-se
em meio às reflexões.
— Ah,
sim. Quero enviar uma mensagem à estação de hiper-rádio Europa.
Referência: Greve nas fábricas de alitivo de Pagny
sur Moselle.
A administração do Império Solar recorre ao artigo 43, inciso II,
proclamando o estado de emergência para a fábrica de alitivo. Esta
determinação entra em vigor a zero hora. Os grevistas devem ser
informados de que estarão sujeitos a penas de prisão se continuarem
a recusar-se a trabalhar. Reginald Bell.
— A
mensagem será codificada? — perguntou o tenente que se encontrava
junto ao aparelho de hiper-rádio.
— Não!
— disse Bell em tom contrariado. — Mostrarei a essa gente de
Pagny
sur Moselle
o que acontece com quem pretende tirar proveito numa situação
dificílima. Um instante, meu caro. Vamos modificar a última frase.
Transmita o seguinte: Os grevistas serão avisados de que, se
persistirem na recusa de trabalhar, serão deportados. A
administração invoca o artigo 1, parágrafo 1o
da lei reguladora do estado de emergência. Reginald Bell. Acho que
desta forma entenderão melhor. Que diabo! Não tenho nada contra uma
greve justa, mas o que está sendo feito neste caso é uma
pouca-vergonha; é uma...
Preferiu
não dizer a última palavra. Saiu ruidosamente da sala de rádio.
Entrou na de comando da Ironduke sem desconfiar de nada.
Jefe
Claudrin, comandante da Ironduke, parecia uma estátua de mármore
plantada no centro da sala. Imóvel, fitava o chefe. Perry Rhodan
estava de costas para Bell.
— É
isso mesmo, Claudrin! A Ironduke ficará em Plutão. Voarei sozinho.
Mande preparar um jato espacial. Nolinow e Alkher, sabem o que têm a
fazer?
Os dois
jovens tenentes prestaram continência para Rhodan e responderam com
a voz rangedora:
— Sim,
senhor!
Fizeram
menção de retirar-se.
Mas Bell
interpôs-se em seu caminho.
— Aonde
vão? — perguntou.
Os
oficiais na sala de comando, cujos olhares até então haviam vagado
entre o chefe e o comandante, passaram a fitar exclusivamente Perry
Rhodan.
O mesmo
encontrava-se a oito passos de Bell.
— Bell,
quero pedir-lhe que não impeça a passagem dos dois tenentes —
disse.
Os olhos
de Bell chamejaram. Fitou Rhodan e voltou a fitar os dois oficiais.
Finalmente disse em meio à tensão reinante na sala de comando, em
tom não menos áspero que o que o chefe acabara de usar com ele:
— Quero
saber por que estão preparando um jato espacial. Pelo que sei, todos
os jatos espaciais que se encontram a bordo estão prontos para
decolar.
Jefe
Claudrin adiantou-se ao chefe. Livrou Rhodan do trabalho de responder
à pergunta de Bell.
Mas a
gentileza de Jefe Claudrin não provinha exclusivamente de razões
altruístas. Pretendia informar Bell sobre aquilo que se passara na
sala de comando durante sua ausência.
— O
chefe quer voar sozinho para Peregrino. Não precisa da Ironduke.
Bell não
compreendeu tamanha tolice.
Naquele
setor da Via Láctea não havia nenhuma nave mais segura e mais veloz
que a Ironduke.
Será que
Perry Rhodan ainda não compreendera que estava literalmente sendo
perseguido pela desgraça? Queria provocar alguma catástrofe? Há
algumas semanas vivia chocando todo mundo!
“É
de amargar,”
pensou o gorducho, bastante desanimado.
— Pois
não! — disse Bell para espanto dos presentes e deixou que os dois
oficiais passassem.
Vira um
brilho estranho nos olhos cinzentos de Rhodan. Conhecia esse sinal de
alarma. Era uma característica do chefe. Naquele momento nada neste
mundo conseguiria demovê-lo da sua intenção de viajar só para
Peregrino.
E Bell não
estava disposto a lutar contra moinhos de vento.
Nunca se
sentira tão contrariado como nas últimas horas.
*
* *
O jato
espacial 1-109 desapareceu no espaço.
O
dispositivo de rastreamento estrutural da Ironduke mediu a manobra de
mergulho no hiperespaço realizada pelo pequeno veículo espacial.
— O vôo
está correndo bem! — comentou Jefe Claudrin.
Com os
dois tripulantes que se encontravam em companhia do chefe, isso não
era de admirar.
Stana
Nolinow, um homem atarracado que comandava os robôs da Ironduke, era
um sujeito arrojado, tal qual Brazo Alkher, o oficial de artilharia.
Mas a característica principal desses homens não era sua audácia.
Dispunham da sensibilidade especial que lhes permitia, nas situações
difíceis em que não havia tempo para refletir, agir acertadamente
por simples intuição.
Não
haviam adquirido essa faculdade durante o curso que fizeram na
Academia Espacial Solar, mas certos psicólogos inteligentes
reconheceram o valor imenso que jazia nos dois jovens. Por isso essas
faculdades foram desenvolvidas com o auxilio de professores
sensíveis, até chegarem às raias da automação.
Brazo
Alkher pilotava a 1-109. O grande cérebro positrônico da nave
transmitira ao pequeno computador do jato espacial as coordenadas de
Peregrino. O cérebro de Vênus as apurara pouco antes, num trabalho
de várias horas.
Alkher e
Nolinow estavam sós na sala de comando da 1-109. O chefe se retirara
para seu camarote. O barco espacial em forma de disco, que media
apenas trinta e cinco metros de diâmetro, parecia uma casca de noz
em comparação com qualquer espaçonave esférica. No entanto,
oferecia tudo que se podia esperar de um bom veículo espacial.
Estava equipado com um hiperpropulsor do tipo mais moderno e os
melhores dispositivos automáticos; neste ponto levava uma vantagem
imensa sobre muitas espaçonaves maiores de outras raças.
Quanto ao
armamento, seria um erro subestimar o jato espacial. Apesar disso,
sob o ponto de vista objetivo, era pura tolice ir a Peregrino
num veículo pequeno como este. A Ironduke sempre ofereceria uma
segurança infinitamente superior, em qualquer eventualidade.
Brazo
Alkher e Nolinow conversavam a meia voz sobre isso. Não viram nada
de estranho no fato de o chefe se ter retirado ao camarote pouco
depois da decolagem.
Nem
poderiam desconfiar de que, naquele momento, o homem que acreditavam
ser Perry Rhodan não queria ver ninguém por perto.
Thomas
Cardif calculou suas chances de encontrar no planeta artificial um
ser que, em sua configuração indescritível, constituía um povo,
apesar de apresentar-se como um único indivíduo — um indivíduo
sem substância física, mas dotado do saber imenso de uma raça que
dominara a Galáxia antes dos eônios.
Com uma
lógica fria avaliou a situação em que se encontrava e o plano por
ele elaborado.
Lembrou-se
da transmissão de conhecimentos realizada em Okul, processo durante
o qual Perry Rhodan fora obrigado a transferir suas faculdades a ele,
Thomas Cardif. A transmissão não fora um sucesso total. O ego de
Thomas Cardif continuava a dominar. Era ali que residia o maior
perigo do jogo que estava desenvolvendo no sistema solar. Ele, Thomas
Cardif, era o pior inimigo de si mesmo.
Sabia
disso. Mas não sabia o que aconteceria quando se encontrasse diante
do Ser de Peregrino e pedisse para que Ele lhe entregasse os
ativadores celulares.
Perscrutou
sua mente, à procura de sinais de insegurança, mas quanto mais
demorava no seu exame, mais tranqüilo se sentia. Os telepatas e
localizadores de Rhodan não haviam percebido o logro. Continuavam a
acreditar que era Perry Rhodan, e era essa certeza que lhe conferia a
segurança de que precisava para enfrentar o Ser do planeta
Peregrino.
Deitado no
sofá, Thomas Cardif parecia um sonhador. Seu rosto apresentava as
feições do verdadeiro Rhodan. Era expressivo e achava-se
descontraído. Sua postura não revelava a menor tensão. Ninguém
desconfiaria de que era um psicopata genial que elaborava um plano
destinado a sacrificar a vida do pai e a libertar o próprio Cardif
da dependência dos antis.
Continuava
a odiar Rhodan da forma que fazia há sessenta anos. Para ele, o
administrador não era seu pai, mas apenas o homem que havia
produzido sua semente, e que causara intencionalmente a morte de
Thora, sua mãe.
Era isso
mesmo! Tinha certeza absoluta; quem afirmasse o contrário estaria
mentindo a fim de proteger Rhodan.
Muitas
vezes revirara o saber que assumira de Rhodan, mas nunca encontrara
no mesmo um único impulso mental que dissesse respeito à sua mãe.
Esse
impulso não existia. Mas Thomas Cardif tinha uma explicação para
isso. Perry Rhodan submetera-se a um tratamento sugestivo, a fim de
libertar-se do conhecimento do fato de ter sido o assassino de Thora,
uma princesa arcônida.
Cardif nem
teve a idéia de que, se assim fosse, essa parte dos conhecimentos de
Rhodan forçosamente teria sido transferida a ele.
A mensagem
vinda da sala de comando fez com que se sobressaltasse em meio às
reflexões.
— Sir —
anunciou Nolinow. — Saltaremos dentro de três minutos e trinta
segundos. Será o último salto.
O
verdadeiro Rhodan teria agradecido depois de receber o anúncio, já
que era um líder nato. Sabia como tratar seus colaboradores com o
intuito de estimulá-los a darem o máximo de si.
O sósia
de Rhodan não possuía essa capacidade.
Nolinow
olhou para Brazo.
— Então,
meu caro — perguntou. — Que tal lhe parece o humor do velho? Já
passeei com gente mais alegre.
Brazo
Alkher não estava disposto a concordar desde logo com a opinião de
Nolinow.
— Não
se esqueça do que o chefe passou em Okul. Afinal, ele só tem um
filho, e, com uma coisa dessas, até mesmo o pai mais forte pode ter
problemas psicológicos.
Nolinow
parecia cético.
— Poder-se-ia
dizer isso se Perry Rhodan fosse um homem comum, que nem você e eu.
Acontece
que não é. A melhor prova é o fato de que criou o Império Solar.
Não, Brazo, não acredito que se trate de problema psicológico. Não
confio nesse... como é mesmo o nome?
Tanto faz!
Não confio no tratamento de choque a que foi submetido. Se tiver de
adivinhar, direi que está a caminho de Peregrino, a fim de procurar
um remédio para sua situação.
Brazo
Alkher lançou um olhar de surpresa para o companheiro mais baixo que
ele, mas não teve tempo de responder.
O salto
pelo hiperespaço seria realizado dentro de cinco segundos.
A contagem
regressiva aproximava-se do fim.
Os dois
homens ataram os cintos.
O momento
zero chegou. Seguiu-se o hiper-salto, com a desmaterialização, a
rematerialização, e a dor que acometeu os homens a bordo da 1-109.
Tal dor se manifestava principalmente na nuca.
Os dois
jovens oficiais gemeram, depois foram se livrando dos últimos
efeitos do choque e passaram a dedicar sua atenção exclusivamente à
grande tela de visão global.
Viram um
setor espacial, muito pobre de estrelas, dentro de um raio de cinco
anos-luz.
— Será
que saímos no lugar errado, Brazo? — perguntou Stana Nolinow em
tom preocupado.
Brazo
recorreu ao computador de bordo a fim de verificar a posição
galáctica do jato espacial. O cérebro positrônico levou menos de
um minuto para expelir a folha de plástico com os sinais perfurados.
Os dois
homens leram esses sinais como se fossem caracteres comuns.
— Chegamos...
— disse Nolinow em tom de espanto.
— Quando
a gente se aproxima de Peregrino, sempre é assim. Em condições
normais o mundo artificial não pode ser visto nem localizado.
Atenção, Stana, entrarei em contato com o chefe.
Uma vez
recebido o chamado, Cardif-Rhodan ergueu-se do sofá, espreguiçou-se,
respirou profundamente e deu um passo para sair do camarote.
Estava
prestes a dar o passo mais perigoso de sua vida. Não poderia deixar
de dá-lo, pois, do contrário, Perry Rhodan, seqüestrado pelos
antis, colocaria em perigo sua posição pelo resto da vida. Não
poderia deixar de assumir o risco, porque não queria continuar a ser
uma marionete dos antis.
No momento
em que saiu do camarote o desassossego abandonou-o de vez. Tinha
certeza de que também conseguiria enganar o Ser imaterial.
*
* *
Quando o
jato espacial penetrava pela abertura larga do anteparo energético
do planeta Peregrino, prenderam a respiração. Cardif reuniu as
forças que lhe restavam para não perder o autodomínio. De repente
Peregrino, o mundo artificial onde reinava a imortalidade,
estendeu-se embaixo deles.
Não era
um planeta no sentido usual da palavra. Era um disco de seiscentos
quilômetros de diâmetro, protegido por um campo energético em
forma de abóbada.
Naquele
disco encontrava-se tudo que havia de belo no cosmos. Brazo Alkher e
Stana Nolinow gostariam de fitar a maravilha por horas a fio, mas
viram-se impedidos de fazê-lo já que Rhodan lhes ordenou que se
dirigissem ao campo de dois quilômetros de extensão, em cuja
extremidade se erguia uma torre fina e de aspecto frágil, de mais de
mil e trezentos metros de altura.
Era este o
mundo em que vivia Ele ou Aquilo — desde tempos imemoriais.
Thomas
Cardif ouvira-o antes que surgisse a abertura no anteparo energético.
Uma voz
falou no interior de Cardif.
Aquilo
formulou uma pergunta:
— Perry
Rhodan, quer falar comigo?
Antes que
Cardif pudesse recuperar-se do impacto produzido pela mensagem, a voz
voltara a soar:
— Fico
muito satisfeito em revê-lo. Parece que você sente muitas saudades
de mim. Você não me visitou há poucos instantes?
Os
conhecimentos que Cardif absorvera de Rhodan informaram-no sobre o
que o Ser coletivo entendia pela expressão “poucos
instantes”.
Ele ou Aquilo pensava em padrões temporais diferentes. Um espaço de
tempo que, para os homens, constituía alguns decênios, representava
apenas um momento para ele.
E agora a
voz continuava calada, enquanto o veículo espacial 1-109 descia
suavemente no campo de pouso de dois quilômetros de extensão
ladeado pela torre esguia.
De pé
atrás dos dois oficiais, Cardif olhava a tela de visão global. Os
conhecimentos de Rhodan permitiram-lhe compreender o que via. Não
existia nada que lhe fosse estranho. Até sabia para onde dirigir-se.
Os últimos
mecanismos do jato espacial pararam de funcionar. Alkher e Nolinow
haviam colocado todos os controles na posição zero.
— Esperem-me
aqui. Irei só — disse o chefe às costas dos tenentes.
Seguiram-no
com os olhos enquanto caminhava pelo corredor e parava junto à
eclusa.
Cardif
retirou-se do veículo espacial apenas com a roupa do corpo, sem a
menor proteção.
A
gravitação de Peregrino chegava a 0,90. As condições eram quase
iguais às da Terra.
Atravessou
o campo de pouso e dirigiu-se a um pavilhão, quando de repente ouviu
no seu subconsciente uma estrondosa gargalhada.
— Rhodan,
quase fui devorado pelo tédio! Você nem imagina como me alegro de
revê-lo, amigo. É uma pena que eu não seja feito de substância
para poder abraçá-lo e dar-lhe uns tapinhas no ombro.
Mais uma
vez uma ruidosa gargalhada soou no subconsciente de Thomas Cardif,
mas ele não se perturbou com isso. Aquilo o cumprimentara como se
ele fosse Perry Rhodan. E manifestara o desejo de dar “uns
tapinhas”
no ombro dele, que acreditava ser Perry Rhodan.
A
gargalhada cessou abruptamente.
— Chegue
mais perto, amigo! O que deseja? Oh, você sabe perfeitamente o que
quer de mim. Vinte e um ativadores celulares com regulagem individual
seletiva, não é? Cumprirei minha palavra. Fornecer-lhe-ei os
mesmos. Você sabe perfeitamente que gosto de ficar como espectador
quando o Jogo de forças cósmicas é travado em vários rounds.
Terrano, estou convencido de que para mim a época de tédio chegou
ao fim.
A voz
calou-se. As risadas tornavam-se cada vez mais fracas, pareciam vir
de uma distância longínqua, e depois de algum tempo cessaram de
vez.
Cardif não
parara ao ouvir a voz dirigida ao seu subconsciente. Adotou o mesmo
procedimento que Rhodan teria usado se estivesse em Peregrino. O
saber transferido forneceu-lhe as necessárias informações a este
respeito.
Sentia-se
mais seguro do que nunca de que Ele ou Aquilo também se tornara
vítima do logro genial. Cardif nem desconfiava de que, ao fazer a
visita ao planeta artificial, proferira sua própria sentença de
morte.
Viu-se no
interior do pavilhão. Esperou pacientemente. Não teve de realizar
um esforço de concentração muito intenso para que seu pensamento
se desenvolvesse exatamente nos moldes do de Rhodan. Olhou em torno
com uma euforia indescritível.
Não
parecia curioso, mas apenas interessado, como alguém que, depois de
muito tempo, revê coisas a que já está familiarizado.
Ali estava
o fisiotron, o aparelho singular que até então conservara a vida de
Rhodan e das pessoas mais chegadas ao mesmo. Tinham de comparecer a
Peregrino com intervalos de sessenta e dois anos, a fim de renovar o
processo de rejuvenescimento biológico.
Cardif
sabia disso há muito tempo, e também sabia que teoricamente a
expectativa de vida de Atlan não tinha limite, em virtude de um
aparelho do tamanho de um ovo, denominado ativador celular. Pedira ao
Ser imaterial que lhe desse vinte e um aparelhos desse tipo, e Aquilo
dera a entender que, em conformidade com o que fora combinado, não
deixaria de atender ao pedido.
Sentiu um
ligeiro estremecimento diante da fraude vergonhosa. Concentrou-se ao
máximo para afastar a voz da consciência.
“Devo
pensar nos moldes de Rhodan”,
refletiu. “Vou
pensar no vigésimo primeiro ativador.”
Começou a
sentir-se como se fosse Rhodan. Pensava através dos conhecimentos do
pai, mas não pensava corretamente a respeito d’Aquilo.
“Não
quero comparecer aqui a cada sessenta e dois anos para receber a
ducha celular”,
disseram seus pensamentos. “Quero
continuar jovem, que nem o Imperador Gonozal VIII.”
Seus
pensamentos giravam exclusivamente em torno deste ponto.
Sabia do
humor peculiar d’Aquilo, e sabia ainda que Ele gostava de complicar
todas as coisas a sua maneira.
Cardif
estremeceu quando a voz chamou em seu subconsciente, sem aviso
prévio:
— Você
está fazendo concorrência ao velho Odisseu, amigo. Esta brincadeira
obriga-me a mostrar-me reconhecido. Quer que coloque o vigésimo
primeiro ativador celular no fisiotron para adaptá-lo às suas
vibrações individuais, Perry Rhodan?
Cardif
estava banhado de suor.
“Quero”,
pensou. “Regule
o ativador.”
A resposta
foi uma risadinha, seguida de uma ligeira pausa. Mais uma vez ouviu a
voz vinda de qualquer lugar:
— Hoje
você me diverte ao máximo, terrano! E eu lhe pagarei de igual para
igual. Aguarde lá fora, perto do pavilhão. Perry Rhodan, assim que
o ativador celular for regulado, você também estará de posse dos
outros vinte aparelhos desse tipo.
Ao sair do
pavilhão, Thomas Cardif sentiu-se inebriado de uma sensação que
nunca experimentara. Achou que a espera do lado de fora seria menos
cansativa que naquele recinto fechado. Obrigou-se a andar devagar, a
passos comedidos, segundo o feitio de Rhodan.
Lá fora
sentiu-se atingido pelo clima suave do mundo artificial. O Jato
espacial encontrava-se a um quilômetro dali. Alkher e Nolinow
cumpriram suas ordens: nem sequer saíram da pequena sala de comando
do veículo espacial 1-109.
Thomas
Cardif olhou para a torre esguia.
“Isto
está liquidado”,
pensou, mas logo voltou a controlar a atividade de sua mente.
Essa
precaução era uma das qualidades herdadas do pai, que não
costumava arriscar levianamente uma coisa que conseguira conquistar.
Aspirou
gostosamente o ar perfumado de Peregrino.
O
subconsciente voltou a chamar. Teve a impressão de que Ele
cochichava esta frase:
— Você
faz concorrência ao Odisseu da Antigüidade de sua raça.
Será que
Ele descobriu alguma coisa? Será que a manobra por meio da qual
pretendia enganar o Ser de Peregrino fora mal-sucedida?
De repente
o ego de Thomas Cardif cochichou no subconsciente do mesmo: “Ele
não descobriu coisa alguma. Apenas se diverte com o fato de que
pretende usar o ativador celular para escapar à ducha celular que
tem de ser realizada a cada sessenta e dois anos. Foi por causa desse
truque que Ele o comparou com Odisseu, o astucioso.”
Thomas
Cardif passou a mão pela testa.
A tensão
foi diminuindo. Voltou a aspirar o ar perfumado.
Esperava
que Aquilo lhe entregasse vinte e um ativadores celulares.
*
* *
Homunc,
uma criação d’Aquilo, era um robô humanóide altamente
aperfeiçoado, criado especialmente para Rhodan, por ocasião da
primeira visita que este fizera ao planeta Peregrino.
E Homunc
ouviu que, Ele, o seu senhor, soltou uma risadinha alegre.
Homunc
permanecia nos fundos do pavilhão. Só penetrara no mesmo depois de
Thomas Cardif ter saído. Aquilo não queria que houvesse um encontro
entre eles. Ele apenas queria conversar com Homunc à sua maneira
toda peculiar. Aquilo não precisaria da presença do robô, mas a
situação parecia tão grotesca que achava necessária a presença
de Homunc.
Seguiu-se
uma palestra mental, bastante estranha.
— Homunc,
você o reconheceu?
— Reconheci-o
imediatamente, senhor.
— Qualquer
pessoa que use o nome de Rhodan diverte-me a valer, Homunc. Esses
bárbaros vindos do terceiro planeta de um sol, que chega a ser
ridículo de tão pequeno que é, têm cada idéia que merece um
prêmio.
— Pretende
apoiar o filho de Rhodan, senhor?
— Por
que não iria apoiá-lo, desde que o patifezinho tenha bastante
inteligência? Mas antes de mais nada terá de provar se realmente
tem inteligência. Um patife inteligente permite que alguém o chame
pelo nome de outra pessoa, mas nunca procura identificar seus
pensamentos com os dessa pessoa.
— Senhor,
será que ele entendeu o sentido exato da sua pergunta? “Quer que
coloque o vigésimo primeiro ativador celular no fisiotron para
adaptá-lo às suas vibrações individuais, Perry Rhodan?” Foi
isso que o senhor perguntou.
— Homunc,
você está me decepcionando. Será que sou o Destino? Só mesmo um
tolo procura atirar-se nos braços da onipotência. Por isso nem
penso em ajudar Rhodan. Uma pessoa que assume o risco que ele assumiu
em Okul terá de pagar o preço.
— Senhor,
os dois correm o perigo de serem mortos.
— Não
digo que não seja assim, Homunc.
— Senhor,
expõe Cardif a um perigo tremendo!
— Por
enquanto não. Quando chegar a hora eu o prevenirei, Homunc. Eu o
prevenirei com muita insistência. Ele assumiu todo o saber que
Rhodan acumulou a meu respeito. Uma pessoa que assume o risco de
agir, da forma que fez Thomas Cardif, deve possuir inteligência
suficiente para trabalhar com o saber alheio. Está na hora de
retirar o ativador celular do fisiotron. Homunc, quer fazer o favor
de certificar-se de que o mesmo está regulado exatamente para as
vibrações de Perry Rhodan, conforme deseja Thomas Cardif?
— Acontece
que Cardif não é Rhodan, senhor. Não conseguiu iludir nem ao
senhor nem a mim, como fez com todos os outros. No seu caso o
ativador celular será contra-indicado.
— Eu
o advertirei dessa contra-indicação, farei uma advertência muito
precisa, Homunc, quando chegar a hora.
— Como
serão os outros vinte ativadores celulares, que os sacerdotes de
Baalol exigem de Cardif?
— Serão
uma graça, Homunc, e uma lição muito proveitosa, que talvez faça
com que os antis compreendam que não podem brincar comigo. Mas
Thomas Cardif me diverte; não deve conhecer o provérbio do ladrão
roubado... Não tem a inteligência do pai.
Com isso a
palestra travada no interior do pavilhão chegou ao fim. Aquilo
voltou a soltar a risadinha alegre. Homunc, cujo cérebro era uma
combinação semi-orgânica e positrônica, que funcionava em base
hexadimensional, não se atreveu mais a dirigir a palavra a Aquilo.
Homunc não
estava preocupado. Conhecia perfeitamente seu senhor, e por isso
sabia que Thomas Cardif tinha em mãos seu próprio destino, que
determinaria sua vida futura.
Homunc
continuava a manter-se nos fundos do pavilhão. Viu o ativador
celular sair do fisiotron e seus olhos acompanharam o objeto em forma
de ovo que se deslocava pelo ar, em direção à porta.
Aquele
ativador, regulado para as vibrações individuais de Perry Rhodan,
conferiria a esse terrano a imortalidade relativa desde que ele o
trouxesse junto ao corpo. Acontece que Thomas Cardif não era
propriamente Perry Rhodan.
Será que
em virtude disso o ativador não produziria nenhum efeito? Ou
provocaria alguma reação que o termo contra-indicação só
designava de forma bastante vaga?
Os olhos
de Homunc continuavam a seguir o ativador, que se afastava
lentamente. A risada alegre d’Aquilo não era muito forte, mas era
capaz de encher o grande pavilhão.
Aquilo
divertia-se com os terranos. Desde que passara a ser Aquilo, nunca
ninguém tentara ludibriá-lo. Mas agora isso acabara de ser feito. E
o ser imaterial divertia-se com isso.
Thomas
Cardif caminhou em direção ao jato espacial.
Conseguira!
Trazia o ativador celular junto ao corpo. Tinha diante de si a vida
eterna. Só mesmo um acontecimento violento poderia causar-lhe a
morte. Estava protegido contra a degenerescência das células. A
atuação ininterrupta do objeto em forma de ovo que trazia sobre o
peito provocaria uma renovação incessante das células.
Conseguira!
Apesar de tudo, reprimiu a sensação de triunfo. Ainda se encontrava
em Peregrino. Ainda havia o perigo de que Aquilo percebesse a manobra
levada a efeito para lográ-lo.
Aquilo
manteve-se em silêncio. Aquilo se despediu no momento em que Cardif
pendurou o ativador pelo pescoço e o escondeu sob o uniforme.
— Perry
Rhodan, regulei o aparelho exatamente para suas vibrações
individuais, e tive muito prazer em agir assim, meu amigo. As vinte
peças restantes lhe serão enviadas posteriormente. Você as
encontrará junto à eclusa de seu barco espacial. Não se preocupe
por causa do recipiente em que serão entregues. Ele se abrirá no
momento em que você desejar que isso aconteça. Se quiser que
permaneça fechado, não haverá força no Universo que seja capaz de
pôr as mãos em seu conteúdo. Passe bem, Rhodan. Sua visita me
deixou alegre como nunca.
— foram estas suas últimas palavras, que Cardif captou.
Depois
disso o Ser fictício de Peregrino voltara a soltar uma estrondosa
gargalhada.
Acompanhara
Thomas Cardif até o centro da praça circular, onde desapareceu
abruptamente.
Quando se
encontrava a apenas cem metros do veículo espacial 1-109, Cardif
sentiu que um fluxo vivificante que nunca sentira lhe inundava o
corpo.
“O
ativador está funcionando”,
pensou.
Teve de
esforçar-se ao máximo para não cair num estado de euforia. Conteve
o passo e perscrutou seu interior. E então não teve mais dúvida;
de repente sentia-se jovem e recarregado com um máximo de energia.
Parecia libertado de um peso que o oprimia desde o momento em que
pela primeira vez pisara em Peregrino.
Quando
atingiu a pequena rampa do jato espacial, uma esfera luminosa
vermelho-pálida de meio metro de diâmetro surgiu à sua frente,
vinda do nada. Flutuava na altura de sua cabeça.
Em seu
interior reconheceu vinte objetos escuros em forma de ovo, iguais ao
ativador celular que trazia sobre o peito.
Estendeu a
mão e tocou a superfície do envoltório esférico. Dava a impressão
de ser feita de substância material, mas Cardif não acreditou que
realmente fosse. O saber de Rhodan permitiu-lhe que tivesse uma idéia
sobre a estrutura da esfera oca, que se encontrava à sua frente. Era
um campo temporal adaptado aos seus impulsos, que só se abriria por
sua vontade.
De repente
compreendeu o sentido das palavras do Ser coletivo: “Não
haverá força no Universo que seja capaz de pôr as mãos em seu
conteúdo.”
Havia um
sorriso de triunfo em seus lábios quando entrou na pequena sala de
comando do jato espacial. Stana Nolinow e Brazo Alkher estavam
confortavelmente instalados e jogavam xadrez. Fizeram menção de
levantar-se de um salto assim que viram o chefe à sua frente.
Este
conteve-os com um gesto. Cumprimentou-os com um aceno de cabeça.
Tinha de encontrar uma maneira de dar vazão ao triunfo. Naquele
momento, os jovens oficiais viram nele Perry Rhodan, que estava
disposto a dar ouvidos a qualquer pessoa, sempre que isso fosse
possível.
— Infelizmente
terão de interromper a partida de xadrez. Vamos decolar.
Cardif-Rhodan
viu os olhares curiosos dos dois tenentes, que não paravam de fitar
a esfera vermelho-pálida que flutuava na altura dos ombros do chefe.
Mas este não lhes deu nenhuma informação.
Nolinow e
Alkher levantaram-se apressadamente. Ocuparam seus lugares. Uma vez à
frente do painel de controle, recolheram a rampa e fecharam a eclusa.
Deram início ao processo de pré-aquecimento dos propulsores. O
maravilhoso silêncio no interior do jato espacial chegara ao fim.
As
máquinas zumbiram, trovejaram, apitaram. Os dispositivos automáticos
ligaram, simultânea ou sucessivamente, uma série de conjuntos
mecânicos. O conversor central entrou em funcionamento com um som de
barítono. Um tremor sacudiu o veículo espacial 1-109.
Os dois
oficiais não tiveram tempo para virar a cabeça, quando ouviram às
suas costas os passos do chefe, que saía da sala de comando. Antes
que concluíssem os preparativos da decolagem, Cardif-Rhodan
retornou, desta vez sem a esfera vermelho-pálida.
— Decolagem!
— disse Brazo Alkher, seguindo seu costume.
Embora na
Ironduke desempenhasse as funções de oficial de artilharia, tivera
que absorver cursos rigorosíssimos na Academia Espacial Solar, tal
qual acontecera com seus companheiros.
E nesses
cursos aprendera a pilotar jatos espaciais, naves da classe Estado e
até mesmo cruzadores.
A 1-109
levantou-se suavemente. Descreveu duas curvas em torno da torre de
mais de mil e trezentos metros de altura, que se encontrava na
periferia do campo de pouso circular. Enquanto isso, Brazo Alkher
balançou o jato espacial. Era um aceno de despedida, um costume que
se disseminara rapidamente pela Frota, mas que só podia ser
praticado por quem não pilotasse uma nave esférica.
O veículo
espacial 1-109 subiu em direção à abóbada energética, uma
semi-esfera que se estendia sobre o disco de seiscentos quilômetros
de diâmetro.
— Olhe a
abertura! — exclamou Stana Nolinow em tom de surpresa.
No mesmo
instante, Alkher regulou os propulsores para o desempenho máximo.
Com um rugido dos motores, a 1-109 precipitou-se para o espaço
cósmico normal.
Assim que
o pequeno barco estelar alcançou a fronteira, a tela de visão
global deixou de mostrar a abertura. E do campo energético também
não se notava mais nada. Nada nas proximidades dava a entender que
naquele setor espacial, onde escasseavam as estrelas, ficava o
misterioso mundo artificial que os homens haviam batizado com o nome
de Peregrino.
Sem dizer
uma palavra, Cardif-Rhodan saiu da pequena sala de comando.
Precisava
ficar só. Desejava ficar só.
Queria
desfrutar intensamente o seu triunfo.
Ele, um
imortal, conseguira. E com a isca que trazia numa versão
multiplicada por vinte não teria a menor dificuldade em livrar-se
das garras dos antis.
Fechou a
porta do camarote atrás de si.
Acomodou-se
na poltrona. A esfera energética-temporal, que reluzia numa
tonalidade vermelho-pálida, flutuava num canto. Cardif concentrou-se
na mesma.
“Abra-se!”,
pensou.
A esfera
aproximou-se em silêncio, parou dez centímetros acima do colo de
Cardif-Rhodan e deixou ver uma fresta. Um dos corpos com formato de
ovo que se encontrava no interior da esfera deslocou-se em direção
à fresta. E um dos ativadores celulares saiu do recipiente em que
estava contido e caiu no colo de Cardif.
Segurou-o.
Examinou o ativador de todos os lados. A peça só se distinguia num
ponto do ativador que ele mesmo trazia sobre o peito. Na saliência
de dois centímetros havia o contato que realizava a regulagem
automática das vibrações. Aquilo fizera questão de chamar sua
atenção para o fato de que um ativador celular não é
transferível. Uma vez tentada a transferência, suas funções
perdem-se.
Ao
lembrar-se disso, Cardif soltou uma gostosa gargalhada.
— A vida
eterna multiplicada por vinte, seus sacerdotes! — exclamou em tom
de deboche.
Naquele
momento desejava ver os antis à sua frente.
Se
quisessem mesmo os ativadores, teriam de pagar o preço que ele
exigisse.
A vida
eterna era impagável.
— Por
que não poderei arrancar tudo dos antis em troca de um único
ativador?
Voltou a
enfiar o objeto em forma de ovo na fresta do campo temporal. A esfera
reluzente tornou a fechar-se automaticamente. Deslocou-se para o
canto em que estivera antes. Até parecia que era um ser pensante.
— Consegui!
— exclamou Thomas Cardif com a voz orgulhosa.
4
Depois que
o patriarca Catepan e os outros mercadores foram interrogados por
horas a fio, não havia mais nada a fazer a bordo da Ironduke.
De início
os terranos dispensaram um tratamento bastante áspero aos
saltadores. Ninguém podia levar isso a mal, pois não se haviam
esquecido da desgraça que os antis e Thomas Cardif haviam causado à
Galáxia. A morte de milhões de viciados devia ser atribuída a
esses antimutantes que se intitulavam de sacerdotes.
Allan D.
Mercant dirigia os interrogatórios.
Era esta a
sua especialidade, e com o auxilio de três membros da Segurança
Solar que viviam constantemente em Plutão, tornou-se possível a
realização de uma série de inquirições cerradas.
O
patriarca Catepan jurou por todos os deuses de Árcon que não tinha
a menor idéia de que o homem, que acabara de ser morto por Rhodan,
era um anti.
Ninguém
acreditou nele.
Mas dali a
várias horas, quando foi iniciada a terceira série de
interrogatórios e o conteúdo da mente de cada um dos mercadores
galácticos, que trabalhavam no entreposto de Plutão, foi examinado
pelos telepatas, chegou-se à conclusão de que o patriarca Catepan
não mentira.
Mas a
surpresa ainda estava por vir.
O
interrogatório havia chegado ao fim e os saltadores tinham voltado
aos seus escritórios. Os responsáveis pelo interrogatório dormiam
em seus camarotes quando foram colocados em estado de alarma pela
divisão clínica da nave linear.
Bell
praguejou, saltou da cama, vestiu-se às pressas e correu para a
grande enfermaria. No elevador lateral encontrou-se com Mercant. Este
também sabia apenas que acabara de ser arrancado da cama.
Foram
recebidos pelo Dr. Pinter. Jefe Claudrin, comandante da Ironduke,
estava ao seu lado. Não havia nada de especial nisso. Mas o fato de
que Jac Aníbal, especialista em aparelhos de hiper-rádio, também
se encontrava lá tornava-se uma grande surpresa. Bell e Mercant
entreolharam-se.
— Não
posso deixar de pensar em nosso amigo Tiff, Mercant — disse Bell.
— Também
estou pensando nele — confessou Mercant.
A pessoa à
qual se referia era o agora General Julian Tifflor, que os amigos
chamavam de Tiff, nome que costumava ser usado até mesmo por Rhodan.
Em certa época, quando ainda era cadete, desempenhara as funções
de “chamariz
cósmico”
e fizera coisas que chegavam às raias do milagre. Mas tudo isso só
se tornara possível graças a um hiper-transmissor goniométrico que
fora implantado em seu corpo por meio de uma operação e ainda se
encontrava no mesmo lugar.
Esse
transmissor, que tinha um alcance de vários anos-luz, representara
na época a pista que sempre levava Rhodan ao centro dos
acontecimentos, onde muitas vezes pudera intervir no último instante
com as forças de que dispunha.
Nem Jefe
Claudrin, nem o Dr. Pinter e nem o especialista de hiper-rádio
sabiam o que significavam as observações de Reginald Bell e do
Marechal Solar Mercant. Os três ainda não haviam nascido na época
em que se realizou a ação “chamariz
cósmico”.
— Queiram
acompanhar-me ao laboratório médico-técnico — pediu o Dr.
Pinter.
Deixaram
que ele os conduzisse. Era a primeira vez que Bell se encontrava
naquele lugar. Tinha uma repugnância acentuada por tudo que
cheirasse a hospital, enfermaria ou clínica. Seu instinto
antipatizava com as instituições desse tipo.
— Façam
o favor de sentar — pediu o Dr. Pinter.
— Obrigado;
preferimos ficar de pé — respondeu Bell. — Não quero demorar
muito por aqui. O que houve?
Jac
Aníbal, especialista em hiper-rádio, adiantou-se. Dirigiu-se à
mesa de instrumentos. Pegou uma pinça. Sobre uma pequena lâmina de
vidro via-se um objeto do tamanho de um grão de ervilha. Segurou-o
com a pinça. Aníbal levantou o pequeno objeto.
— Isto é
um transmissor de hiper-rádio de um tipo que não é encontrado
todos os dias. Não digo isto porque tem um alcance superior a
cinqüenta anos-luz, mas sim porque esta maravilha técnica usa o
tímpano de uma pessoa como microfone.
“Duas
horas após a morte do antimutante, o tímpano do mesmo ainda não
havia sido afetado pela rigidez cadavérica. E duas horas após a
morte, o transmissor de hiper-rádio existente no músculo de seu
antebraço esquerdo ainda transmitia todas as palavras pronunciadas
nas proximidades do morto. Infelizmente o aparelho só foi descoberto
há pouco menos de três horas. Foi este o tempo que levei para
estudar as funções do mesmo. Mr. Bell, permite que eu lhe mostre?
Acontece
que Bell não estava interessado em ver o aparelho. De repente
sentiu-se atormentado por outras preocupações.
Lembrou-se
do vôo de Perry Rhodan para o planeta artificial Peregrino. Indagou
em vão a si mesmo o que teria sido falado na presença do anti
morto. Sem dúvida alguém mencionara o fato de que o administrador
se encontrava num jato espacial, a caminho de Peregrino.
Mercant
devia estar pensando na mesma coisa, pois puxou Bell pelo braço e
disse em voz baixa:
— Vamos!
Jefe
Claudrin percebera os cochichos. Lançou um olhar indagador para os
dois homens.
Mercant
respondeu com um sinal de cabeça. O nativo de Epsal compreendeu e
seguiu-os.
O
especialista de hiper-rádio olhou-os com uma expressão de
desapontamento. Ao chegar à porta, Bell virou a cabeça.
— Muito
obrigado, meu caro Aníbal — disse. — Acho que todos devemos
muito ao senhor.
Depois
dirigiu-se ao Dr. Pinter e perguntou:
— Quem
achou essa coisa diabólica no músculo do antebraço?
— Fui eu
— respondeu o doutor com a voz modesta.
Bell
acenou com a cabeça.
Enquanto
caminhava em direção aos camarotes, Bell perguntou:
— Por
que será que a central de rádio e os fortes de Plutão não
registraram a transmissão? Geralmente essa gente ouve até a tosse
de uma pulga.
— Será
que o senhor se esqueceu dos swoons, Bell? — ponderou Mercant.
— Não
venha me dizer que nossos homens-pepinos, que residem na Terra e em
Marte, trabalham para os antis!
— Não
me refiro a estes swoons. Aludi aos homens-pepino radicados em seu
planeta natal. Se foram eles que construíram um transmissor tão
potente, nesse caso será perfeitamente possível que o aparelho seja
provido de um condensador. E uma mensagem condensada de duração
inferior a um nanossegundo pode perfeitamente atravessar nosso
sistema de vigilância de rádio sem ser notada.
— Que
belas perspectivas. O que acontecerá ou terá acontecido neste meio
tempo com o chefe? Será que o senhor se recusa a pensar nele? Está
praticando a política do avestruz? — perguntou Bell.
Mercant
limitou-se a sorrir.
— Parece
que o senhor não se lembra dos tenentes Stana Nolinow e Brazo
Alkher.
O chefe
não poderia ter escolhido tripulação melhor. Se alguma coisa
tivesse acontecido ao jato espacial, ou se o mesmo se encontrasse
numa situação de perigo, pelo menos teríamos recebido um pedido de
socorro. Todos conhecemos a rapidez das reações de Alkher.
— Tomara
que desta vez ele também saiba reagir depressa.
Mercant
ficou parado. Quando Reginald Bell, o otimista, se transformava numa
ave de mau agouro, quase sempre surgia um acontecimento inesperado e
nada agradável.
Os dois
chegaram à porta do camarote de Mercant e pararam. Olharam para o
relógio.
— Bem,
ainda poderemos dormir umas quatro horas, senão surgir outro
imprevisto — disse Bell com um bocejo e deu boa-noite a Mercant.
— Boa
noite — respondeu Mercant e entrou em seu camarote.
Deitou,
mas não conseguia dormir. Seus pensamentos ficavam girando em torno
do chefe. E quanto mais sua mente se ocupava com Perry Rhodan, mais
preocupado se sentia.
Seus olhos
abertos fitavam a escuridão que o rodeava. E essa escuridão não o
impedia de ver o rosto de Rhodan com os olhos da mente. Conhecia cada
traço desse rosto, mas teve a impressão de ver algo de estranho no
quadro que sua imaginação lhe oferecia. Mas não sabia dizer em que
consistia o aspecto estranho. Apenas o sentia, e depois disso as
idéias de Mercant passavam a desenvolver-se num plano equívoco.
Omitira as conclusões lógicas, sem que disso se desse conta. Não
atribuía a devida importância aos seus sentimentos.
O Marechal
Solar Mercant perdeu totalmente a noção do tempo. Não sabia por
quantos minutos estivera deitado na escuridão, mergulhado em
reflexões, quando as sereias da Ironduke uivaram, anunciando o grau
máximo de alarma.
*
* *
O jato
espacial 1-109 acabara de ultrapassar metade da velocidade da luz,
mas ainda não se dispôs a entrar em transição. Cardif-Rhodan
ordenara pelo sistema de intercomunicação de bordo que a mesma só
fosse realizada depois de atingidos 99,01 por cento da velocidade da
luz.
Para os
dois jovens oficiais, a ordem do chefe era lei; seus rostos
contrariados eram o único sinal de que não concordavam com essa
ordem.
Stana
Nolinow virou-se para Alkher:
— Sabe
lá a que distância fica o cruzador de patrulhamento mais próximo,
meu chapa?
— Não
tenho a menor idéia, Stana — respondeu Alkher. — Se quiser
saber, pergunte ao cérebro positrônico.
— O
computador está muito longe.
Naturalmente
estas palavras representavam um tremendo exagero. Bastava que Stana
Nolinow se virasse com a poltrona, para ter à sua frente o
computador positrônico de bordo. E depois de alguns segundos, o
cérebro lhe teria dito por meio de um cartão perfurado onde se
encontrava o cruzador mais próximo.
O jato
espacial ia galgando a escala da velocidade.
Brazo
Alkher controlava os aparelhos de localização. Todos os indicadores
estavam na posição zero. A sua frente e atrás deles, à esquerda e
à direita, só havia, com exceção de alguns sóis distantes, o
espaço vazio.
Examinou o
controle de armamentos.
— O que
está fazendo? — perguntou Stana com uma ligeira curiosidade na
voz.
Até mesmo
dormindo, Brazo seria capaz de dominar todos os tipos de controle de
armamentos.
Não tinha
necessidade de olhar o que suas mãos faziam. E agora não estava
olhando.
— Nunca
se pode saber, Stana. Como estamos apenas nos arrastando, podemos e
devemos perfeitamente destacar uma unidade energética para os
armamentos. Quando estou sentado numa casca de noz como esta, sempre
me sinto satisfeito ao saber que os jatos espaciais estão muito bem
armados.
— Acho
que só mesmo um oficial de artilharia pode alegrar-se com isso.
Quanto a mim, tenho um respeito terrível por tudo quanto é arma de
radiações. Basta lembrar-me dos primeiros exercícios de tiro real
na Academia. Meu instrutor gritou comigo que nem um louco.
— O que
foi que você andou fazendo, Stana? — perguntou Brazo, acionando o
último contato do painel de controle de armamentos.
— O que
faz um cadete que ainda não concluiu seus treinamentos? Estávamos
voando dentro do anel de asteróides. Meu alvo era um bloco de
trezentos metros de diâmetro. Tudo teria saído bem, se uns oito ou
dez quilômetros atrás do mesmo não houvesse um asteróide de cerca
de quarenta quilômetros de diâmetro. Bem, no entusiasmo provocado
por meu primeiro tiro real acabei atingindo o tal asteróide.
Brazo
Alkher soltou um grito de surpresa. Stana Nolinow já não poderia
refestelar-se nas recordações. O sistema de rastreamento estrutural
da 1-109 acabara de mostrar uma reação. E juntamente com essa
reação, uma gigantesca espaçonave cilíndrica surgira no espaço.
A ampliação imediata do jato espacial mostrou o cilindro grotesco
de extremidades arredondadas com uma nitidez terrificante. Até
parecia que a nave se encontrava bem à sua frente. Acontece que se
achava a mais de um milhão de quilômetros. Mas a uma velocidade de
0,6 por cento da luz isso não importava.
No
interior da 1-109 três sereias deram o sinal de alarma.
Brazo
Alkher mudou de um instante para o outro. Apenas via a nave
desconhecida correr velozmente em direção ao jato espacial. Sua
mão, que ia acionar a chave sincronizada que desencadeava a
transição, passou ao lado da mesma.
Um raio
volumoso disparado pela torre de canhões da nave cilíndrica fez com
que pusesse a mão na chave de controle do armamento. A mão esquerda
fez recuar a chave dos propulsores.
Os motores
da 1-109 começaram a uivar. O raio mortífero passara pelo espaço a
alguns milhares de quilômetros do jato espacial.
— Vou
assumir! — gritou o tenente Stana Nolinow. Com um movimento
rapidíssimo dos controles passou a pilotar o jato espacial.
Alkher
podia usar ambas as mãos para controlar o armamento.
Tudo se
passara numa fração de segundo.
Brazo
Alkher começou a dar mostras de suas qualidades.
Uma nave
cilíndrica pretendia abordá-los. Estavam interessados no chefe.
A tecla de
pedido de socorro afundou no painel. Acoplado ao computador de bordo,
que constatou no mesmo instante a posição galáctica da 1-109, o
potente hiper-transmissor do jato enviou para o espaço o pedido de
socorro.
No mesmo
instante, Brazo Alkher disparou os três canhões de impulsos do jato
espacial.
A
modificação casual de rota realizada pela nave cilíndrica teve
conseqüências desastrosas para esta. Os disparos de Alkher não
atingiram o nariz achatado do veículo espacial, conforme o mesmo
pretendera, mas derreteram o casco da nave inimiga na altura da sala
de máquinas.
Num
instante as duas naves passaram uma pela outra.
— Desligar!
— disse Brazo com uma voz que não admitia contradita.
E Stana
Nolinow nem pensava em discutir. Os instrumentos diziam bastante.
E também
diziam quem estava atacando os terranos.
Eram
antis!
A unidade
de força do jato espacial continuava a gerar energia, mas esta não
produzia nenhum resultado efetivo.
Um campo
energético mental criado pelos servos de Baalol envolvera o centro
energético pequeno, mas superpotente da 1-109.
Com isso,
Brazo Alkher e Stana Nolinow ficaram separados do setor da nave em
que estavam instaladas as máquinas. E esse setor teria de
transformar-se numa bomba, se as máquinas não fossem desligadas
imediatamente.
Foi o que
Stana Nolinow fez. A chave mestra foi colocada na posição
“desligado”.
O homem
que, segundo acreditavam, era o chefe, veio correndo do camarote.
— São
antis, sir! — disse Alkher laconicamente. Com um gesto cansado
apontou para a tela de visão global.
A nave
cilíndrica descreveu uma curva ampla e voltou a aproximar-se.
— Antis...?
— exclamou Cardif-Rhodan. Muito tenso, fitou a tela.
— Sir,
acho que ainda consegui transmitir um pedido de socorro — disse
Alkher sem desconfiar de nada.
Naquele
momento Thomas Cardif teve a impressão de que iria enlouquecer.
Então
fora irradiado um pedido de socorro?
— O
quê...? — gritou para Brazo Alkher. — O senhor chamou a Frota
pelo hiper-rádio?
Mal acabou
de pronunciar a última palavra, compreendeu o que havia feito.
— Como,
sir? — gaguejou Brazo Alkher, fitando-o com uma expressão de
perplexidade.
— Está
bem, Alkher — disse Cardif em tom contemporizador. — Como soube
que se trata de antis?
— Sir —
respondeu o jovem tenente, com uma perplexidade cada vez maior. —
Não está ouvindo? Tivemos de desligar as máquinas para não
explodir. Os antimutantes envolveram a sala de máquinas com um campo
mental. Nem uma única partícula de radiações consegue sair da
mesma...
Thomas
Cardif interrompeu o jovem tenente em tom áspero:
— Eu lhe
pedi que me desse lições?
Virou-se e
saiu da sala de comando do jato espacial.

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