Rhodan deu
um salto para a frente. Yokida seguiu-o. Continuei como que
paralisado, quando o fenômeno luminoso passou a assumir contornos
nítidos, transformando-se num portão escuro que dava para um
recinto negro. Parecia que tudo atrás da linha arqueada vermelha se
desfizera.
Movimentei-me
a fim de abrigar-me atrás de uma das poltronas. Levei uma fração
de segundo para notar os feixes de ondas verdes cintilantes que saíam
do arco luminoso, enchendo a enorme sala.
Rhodan
gritou alguma coisa que não entendi. No momento em que suas palavras
morreram no ar e seu corpo esticado no chão enrijeceu, compreendi o
que estava acontecendo no interior das instalações muito bem
protegidas do centro de computação.
Meu
cérebro adicional fez-me lembrar do relatório de Rhodan, quando
este falara a respeito do estranho fenômeno. O fluxo de impulsos de
radiações fora por ele designado como a luminosidade verde. Pelo
que dizia, no planeta principal do Sistema Azul os acônidas
procuraram colocar os tripulantes da primeira nave de propulsão
linear fora de combate por meio do fenômeno. O efeito manifestava-se
numa paralisação mais ou menos rápida dos reflexos nervosos,
embora a capacidade de raciocínio, a visão e a audição não
fossem afetadas.
Levei
apenas um segundo até compreender. O arco energético era um
transmissor acônida de matéria, da qual saíam os raios
paralisantes. No momento não estava interessado em saber como o
estranho aparelho pôde entrar no subterrâneo do regente. Só uma
ação muito rápida poderia salvar-nos.
Sem
dúvida, Rhodan ouviu meu grito, mas não conseguiu responder mais.
Ele e Tama Yokida haviam sido surpreendidos, sem a menor proteção,
pela luminosidade verde e viram-se colocados fora de ação mais
depressa do que eu teria imaginado, face às informações fornecidas
por Rhodan. Provavelmente aqui, na grande sala de exibições,
estavam trabalhando com uma intensidade muito maior.
Também
senti uma série de estranhos repuxos e contorções, que começaram
junto aos tornozelos, para subir rapidamente pela barriga da perna.
O pânico
fez com que me levantasse de um salto e saísse de trás da poltrona.
No mesmo instante, o regente deu o alarma. Ouvi os uivos estridentes
das sereias e o barulho dos apitos, que me infundiram nova coragem.
Se os
robôs de guerra conseguissem atravessar com a necessária rapidez as
pesadas portas de segurança, estaríamos salvos. A luminosidade
verde em si não traria o menor perigo, enquanto não aparecesse
ninguém que se aproveitasse da paralisia provocada pela mesma.
Atirei-me
ao chão ao lado de Rhodan, cujo rosto estava desfigurado. Quando
encostei a mão a seu corpo, tive a impressão de tocar numa tábua.
O braço de Yokida também assumira a dureza da pedra.
Rhodan
segurava a arma na mão estendida. Não chegara a atirar, pois não
havia nada contra que pudesse disparar. O campo gerado pelo
transmissor não poderia ter sido eliminado por meio de sua arma,
ainda mais que não se via o menor sinal do respectivo aparelho de
projeção. A única coisa que se via era o arco vermelho e seu
interior negro.
Usei meu
aparelho de comando para entrar em contato com o computador. Já
desistira de avançar até a porta. Por lá, as radiações deviam
ser ainda mais intensas, e estava interessado em manter-me ativo o
maior tempo possível.
Minhas
pernas começaram a endurecer. Apesar disso dei-me conta de que meu
potente campo defensivo individual conseguira neutralizar por algum
tempo o campo paralisante. Mas agora não conseguia proteger-me mais.
Num gesto
desesperado levantei a pesada arma de radiações. Tentaria remover o
arco vermelho do transmissor. No último instante consegui
controlar-me. Provavelmente o raio térmico poderia derreter a porta
que ficava bem atrás do fenômeno luminoso, a tal ponto que não
mais seria possível abri-la sem o uso de meios especiais. Além do
mais eu esperava a chegada dos robôs, motivo por que não deveria
disparar.
Meu setor
de lógica me dizia com toda insistência que a geração do campo e
das radiações azuis devia ter alguma finalidade. Se alguém queria
pôr outra pessoa fora de combate por esse meio, isso só poderia ser
feito no intuito de colocar tal pessoa num estado em que ficasse
totalmente incapaz de reagir.
Aguardei
esse instante, que chegou menos de um segundo depois. Atrás do arco
de radiações que se via na sala de exibição, tudo continuava
imóvel.
Onde
estavam os robôs de vigilância do computador?
Uma idéia
terrível surgiu em minha mente.
Será que
os desconhecidos utilizaram sua técnica avançadíssima para fazer
com que os robôs não pudessem aparecer?
Não pude
levar o raciocínio ao fim. Dentro do arco, o negrume começou a
desmanchar-se. Uma ofuscante luz violeta surgiu. Dois vultos, usando
vestes estranhas, se materializaram sob o arco.
Então
eram estes os misteriosos acônidas, que já travaram uma luta tão
encarniçada contra meus antepassados. Não poderia perder mais
tempo. Meu corpo já estava praticamente imobilizado. A rigidez
atingiu os ombros e começou a afetar a musculatura dos braços.
Reunindo
as forças que me restavam, levantei a pistola térmica. Um dos
acônidas notou. Saltou para a frente e dirigiu contra mim uma arma
que eu não conhecia.
Apertei o
gatilho.
Não tive
oportunidade de dar um segundo disparo. Alguma coisa bateu com uma
força terrível contra meu campo defensivo, que não mais conseguiu
compensar a pressão.
Ouvi o
uivo estridente do reator que trazia nas costas. No mesmo instante
meu campo defensivo desmoronou. O outro intruso também disparara
contra mim.
Privado do
campo defensivo, fui atingido diretamente pela luminosidade verde,
que me colocou de imediato num estado de rigidez total.
Ouvi
passos. Alguém aproximou-se. Um rosto estreito e indiferente
apareceu no meu campo de visão. O cano cintilante de uma arma
estranha surgiu à minha frente, mas o desconhecido preferiu não
mais disparar. Parecia saber que eu também fora atingido pela
luminosidade verde.
Não se
interessou mais por minha pessoa. Suas pernas, que mal e mal
conseguia enxergar, saíram de meu ângulo de visão. Dali a alguns
segundos notei pelos ruídos que um dos terranos estava sendo
arrastado. Era Tama Yokida, conforme pude ver dali a pouco. Ainda
consegui ver o arco do transmissor.
Depois
disso foi a vez de Rhodan. O intruso arrastou-o para junto do
fenômeno energético, empurrou o corpo imobilizado do administrador
para dentro do arco e esperou que o processo de desmaterialização
se concluísse.
Depois
chegou minha vez. Não senti nada, enquanto estava sendo arrastado
pelo chão. Fui empurrado para dentro do espaço existente entre as
linhas de força. Não senti o fenômeno da desmaterialização.
Apenas os sentidos, que ainda funcionavam, mergulharam numa névoa.
Era um fenômeno análogo ao que costumava ocorrer durante as
transições das espaçonaves.
Bem, não
poderia ser mais do que uma transição em sentido mais amplo.
Dediquei meu último pensamento ao centro de computação, que
falhara lamentavelmente. Tivera tempo de sobra para intervir. Por que
não acontecera nada? E como foi que os acônidas conseguiram
introduzir um aparelho de transmissão para o interior do centro de
computação?
Se isso
aconteceu por ocasião do último ataque, durante o qual uma outra
dimensão temporal se sobrepusera a todas as influências presentes,
a montagem do aparelho seria perfeitamente explicável...
Mas nem
por isso se explicava que este não tivesse sido descoberto depois da
normalização dos efeitos temporais. Um aparelho como este não
poderia deixar de irradiar impulsos constatáveis por meio dos
instrumentos de medição. Por que esses impulsos não foram
captados?
Não tive
oportunidade de achar a explicação. De uma hora para outra meu
raciocínio consciente foi apagado pela desmaterialização.
4
Nela tudo
era fascinante. Era uma daquelas mulheres que, graças à sua
aparência e à sua conduta, sabem combinar o espírito com o charme.
Fitei-a
com uma atenção persistente.
Notei a
harmonia de seu rosto estreito e expressivo, e o vermelho-cobre de
seu cabelo, que, sob os efeitos da luz, emitia reflexos
fluorescentes.
Bela e, em
seu conjunto, realmente chegava a ser fascinante. Sem dúvida, as
arcônidas da época das conquistas eram como essa mulher. Não tive
a menor dúvida de que era uma representante da raça dos
antepassados.
Rhodan e
Tama Yokida também haviam acordado. Ao que parecia, o
restabelecimento no interior de um grande transmissor, montado numa
estação cuja localização não nos era conhecida, fora
instantânea.
Não
sabíamos onde estávamos. Uma viagem pela estrutura superior do
hiperespaço não oferece base para quaisquer conclusões sobre o
tempo decorrido e as distâncias, que, de qualquer maneira, assumem
caráter apenas relativista.
Estávamos
deitados sobre estreitas camas de dobrar, nas quais havíamos sido
colocados, antes que nossos corpos ficassem livres da rigidez
provocada pela luminosidade verde.
Nesses
leitos recuperamos o controle dos nossos músculos, mas isso
praticamente não nos servia para nada.
O ruído
de máquinas desconhecidas e outros sinais levaram-nos a supor que
nos encontrávamos a bordo de uma espaçonave não muito grande.
Depois da
moça, mais dois representantes do Império de Ácon entraram no
pequeno camarote. Aqueles homens altos seguravam armas.
Poucos
segundos depois da recuperação de minhas energias físicas, tive de
constatar que me haviam tirado a mochila com o projetor e o conversor
de energia. Apenas o ativador celular pendurado ao meu peito
continuava no mesmo lugar.
Será que
conheciam a importância vital que esse aparelho assumia para mim?
A moça —
ou mulher — usava uniforme justo, do tipo que, segundo parece,
costuma ser usado por todos os povos de astronautas. Apenas a pequena
capa que lhe cobria o ombro parecia um tanto extraordinária. Esta
peça de seu vestuário era feita de um material fluorescente
violeta.
Fitou-nos
um por um.
— Olá,
Auris de Las-Toor, como vai? — disse de repente uma voz.
Era
Rhodan. Falava um excelente arcônida antigo, o que também
representava um resultado de seu extenso treinamento hipnótico.
Evidentemente, eu também dominava a língua dos antepassados com
igual perfeição. O fato surpreendeu-me, até que me lembrei de que,
durante seu relato, mencionara uma jovem cientista acônida que,
segundo se dizia, tivera certa participação no resultado feliz de
seu vôo experimental. Seria esta moça? Meu interesse tornou-se
ainda mais intenso.
Seu rosto
moreno aveludado empalideceu. Se tivesse recebido a educação das
moças arcônidas de outros tempos, as palavras de Rhodan deviam
deixá-la chocada.
Um tanto
tenso, aguardei sua reação. E esta foi exatamente o que eu
esperava.
Os dois
companheiros da moça lançaram um olhar contrariado para Perry, que
naquele momento se erguia do leito. Um ligeiro movimento de mão da
acônida serviu-lhe de advertência. Preferiu não colocar no chão o
pé que já levantara.
Seu
sorriso irônico fez com que mais uma vez a acônida mudasse de cor.
Dali em diante não tive mais a menor dúvida de que conhecia Rhodan.
O que a teria impressionado nesse terrano?
Teria sido
o vulto esbelto, a expressão fria dos olhos, ou a aura misteriosa de
sua imortalidade?
Rhodan não
pôde deixar de irritá-la. Achei que na situação em que nos
encontrávamos isso era perigoso.
— Quer
dizer que acabamos por reencontrar-nos — disse com a voz tranqüila.
— É bem verdade que esse reencontro se dá em circunstâncias que
fazem parecer bastante duvidosa a disposição pacífica de seu povo.
A moça
enrolou os dedos longos e finos na borda da capa.
— Peço-lhe
encarecidamente que só fale quando lhe pedirem que o faça — disse
em tom áspero. — Não lhe cabe fazer uso da palavra antes do
anfitrião.
Não me
senti nem um pouco surpreso.
Já
conhecia os usos e costumes de meus antepassados, face aos estudos
que tinha realizado. A palavra anfitrião devia causar uma impressão
bastante estranha em Rhodan. Provavelmente não sabia que o termo
costumava ser empregado mesmo nos casos em que não era adequado.
Rhodan
logo exibiu seu tristemente célebre sorriso.
— Será
que ouvi bem? A senhora falou em anfitrião? Não me lembro de ter
sido convidado ou ter vindo espontaneamente. Acho que a senhora está
fazendo confusão, madame.
Continuava
a sorrir. Os dois acônidas olharam para além dele, como se não
existisse. Por ordem minha, o regente interpretara os relatórios dos
membros da expedição terrana. Dessa interpretação se depreendia
que tanto os terranos como os arcônidas eram considerados uma
espécie de praga.
Pela
primeira vez na vida, senti na própria carne a arrogância com que
os representantes de meu povo haviam tratado as outras inteligências
galácticas durante muitos milênios.
Provavelmente
não viam em mim o imperador de um grande império estelar, mas um
cacique de colonos que caíra na barbárie e não fazia uso de boas
maneiras.
Rhodan não
tinha a mesma paciência e compreensão que eu. Um brilho de cólera
surgiu em seus olhos.
Levantou-se,
sem dar a menor atenção às armas que o ameaçavam. Auris de
Las-Toor parecia insegura. Seu olhar dizia tudo. Então era isso que
a fascinava em Rhodan. Aquele homem, que não passava de um arrivista
vindo de um sistema planetário insignificante, que permanecera
desconhecido até poucos anos atrás, atrevia-se a enfrentar
abertamente os representantes de um povo superior. Foi assim que
tratou, muitos decênios antes, os representantes de uma expedição
científica arcônida. Em virtude disso, uma arcônida pertencente a
uma das famílias mais nobres tornara-se sua esposa; e um dos
principais cientistas arcônidas, seu melhor amigo.
Levantei-me
num gesto exaltado. Meus olhos doíam. Auris dedicava sua atenção à
minha pessoa. Embora achasse que agia erradamente, resolvera adotar a
tática de Rhodan.
— Vocês
estão falando com o soberano de um império planetário — disse em
tom enérgico. — Sou o Imperador Gonozal VIII, que governa o
Império de Árcon. Exijo uma explicação de seu comportamento
injustificável, que não corresponde às boas maneiras nem aos usos
diplomáticos.
A moça
lançou-me um olhar estranho. Seus acompanhantes mantinham-se num
silêncio obstinado.
— Sei
com quem estou lidando — disse Auris.
— É
justamente por isso que exijo informações sobre as finalidades das
medidas adotadas que, conforme as circunstâncias, poderão levar a
um conflito sério entre nossos povos.
Auris
fitou-me com uma expressão que representava uma mistura de
compaixão, interesse e orgulho.
— Não
recebi instruções para dar atenção aos seus argumentos pouco
convincentes.
— Quais
são suas instruções? — indaguei.
— Estas
“instruções”
representam um seqüestro e um crime — acrescentou Perry.
O rosto de
Auris mudou de cor. Em seus olhos escuros surgiu um brilho de cólera.
Estes olhos apresentavam um pouco de semelhança com os das arcônidas
modernas.
“Isso
é um sinal da degenerescência já verificada”,
avisou o setor lógico de minha mente.
— As
decisões do Conselho Governamental de Ácon não podem ser julgadas
por vocês. Sou o órgão executivo. Peço-lhes que sigam sem a menor
oposição as ordens que lhes forem transmitidas.
Inclinou
ligeiramente a cabeça e dispôs-se a sair. Porém as palavras de
Rhodan detiveram-na. Mais uma vez, o sorriso estranho surgiu em seus
lábios. E o tom de sua fala mudara. Perry já não se preocupava com
as diretrizes diplomáticas. Sua fala foi dura e inequívoca.
— Madame,
tenho a impressão de que já está na hora de pôr um freio à
arrogância de seu povo. Posso garantir-lhe que o seqüestro de dois
conhecidos estadistas intergalácticos, ordenado pela senhora, terá
suas conseqüências. Se o chamado Conselho Governamental de seu povo
estiver interessado no hiperpropulsor terrano, posso garantir-lhe que
esse procedimento de forma alguma levará os políticos e militares
do Império Solar a fornecer os respectivos dados. A senhora
superestima seu poder, Auris de Las-Toor.
Auris
parecia refletir. Mas, depois de algum tempo, retirou-se sem dizer
uma palavra. Assim que a escotilha se fechou atrás dela e dos dois
acônidas, Rhodan estendeu-se sobre o leito sem nada comentar. Cruzou
as mãos embaixo da cabeça e fechou os olhos.
Estive a
ponto de dizer alguma coisa, mas Tama Yokida apressou-se a fazer um
gesto para que não o fizesse. Naquele momento compreendi que Perry
se esforçava para entrar em contato com os telepatas da Ironduke. Ao
que parecia, sua tentativa estava sendo coroada de êxito.
Rhodan
estava banhado de suor. Depois de algum tempo seu rosto contorceu-se.
Pelo que sabia a respeito dos competentes mutantes terranos, os
telepatas que faziam parte deste pequeno exército formavam um bloco
volitivo parapsicológico, no qual se coordenavam todas as energias.
Rhodan era
um telepata muito fraco. Provavelmente, apenas um mutante seria
incapaz de captar sua mensagem.
Depois de
alguns minutos, o terrano descontraiu-se. Dali a cinco minutos estava
recuperado, já podendo levantar-se. Eu imaginava o que devia ter
acontecido naqueles momentos. Rhodan não era um homem que se
conformava, sem mais nem menos, em ser seqüestrado. Era
perfeitamente possível que tivéssemos morrido em virtude de alguma
circunstância infeliz. Afinal, eu mesmo estivera bem próximo à
morte. Haviam atirado contra mim, fato que provava que aqueles seres
estavam dispostos a sacrificar-me. Dali se podia extrair certas
conclusões...
Perplexo
com minhas próprias idéias, cheguei à conclusão de que
provavelmente se interessavam com exclusividade por Rhodan. Minha
pessoa representava apenas um elemento perturbador, que, por certo,
só fora levado porque as circunstâncias o exigiram.
Rhodan
parecia entreter reflexões semelhantes. Naturalmente perguntava a si
mesmo por que os acônidas puderam aparecer no momento adequado para
fazer uso da arma paralisante. Essa indagação exigia uma solução
rápida.
— Você
fala japonês, não fala? — perguntou Perry.
Levei
alguns segundos para entender a pergunta formulada nessa língua.
Tive de fazer uma adaptação rápida do curso dos meus pensamentos.
— Há
vários séculos. Estive presente quando a frota de Kublai Khan
atacou o império insular japonês, até que os navios foram
destruídos pela tempestade dos deuses.
Tama
Yokida fitou-me com uma expressão de curiosidade. Meu japonês era
antiquado e difícil de ser entendido.
— Muito
bem — disse Rhodan.
Lançou um
olhar desconfiado pelo pequeno recinto. Olhou para o relógio.
Continuou a usar a língua do pequeno estado insular.
— Evidentemente
alguém nos escuta. No entanto, levarão algum tempo para traduzir os
sons jamais ouvidos por meio dos aparelhos mecânicos. Calculo que a
demora será de cerca de vinte e quatro horas. Portanto, podemos
dizer o que pensamos.
Tama
estava recuando para junto da porta, quando do lado de fora surgiram
fortes ruídos. As sereias e os apitos emitiram seus sons
estridentes. Pessoas desconhecidas passavam junto à porta, que não
devia ser muito grossa.
Dali a
poucos segundos, gigantescas máquinas começaram a rugir. Por uma
fração de segundo fez-se sentir uma poderosa força de inércia,
que logo foi neutralizada por um aparelho de absorção de pressão,
entrando em funcionamento naquele instante.
Tama caiu
ao chão. Quanto a mim, reencontrei-me na minha cama de dobrar.
Rhodan foi o único que conseguiu em tempo apoiar-se com os braços e
as pernas.
Agora já
tínhamos certeza de que nos encontrávamos numa espaçonave que,
segundo tudo indicava, estava sendo acelerada precipitadamente.
— Os
ratos estão abandonando o navio que vai afundar — disse Perry, em
tom irônico.
Não
gostei da expressão de seus olhos. Imaginei que alguma coisa estava
acontecendo.
Fitou-me
em cheio, antes de falar em frases lacônicas.
— Sinto
muito, Atlan, mas interferi em sua área de competência. Consegui
estabelecer contato com os telepatas. Gucky, Marshall, Betty Toufry e
Fellmer Lloyd formaram um bloco parapsíquico. Compreenderam minhas
instruções, e consegui captar as notícias irradiadas por eles.
Tudo claro.
Bem que eu
imaginara! De que forma teria interferido em minha área de
competência? Formulei a pergunta.
— O
regente agiu imediatamente. Informou o Major Claudrin. O computador
observou tudo, inclusive nosso desaparecimento repentino. Os robôs
por ele enviados foram detidos à entrada da sala de exibição.
Esbarraram numa barreira energética desconhecida. Foi por isso que
não recebemos auxílio. Claudrin decolou imediatamente, isso face à
ordem nesse sentido que consegui transmitir antes do seqüestro. No
momento em que nos rematerializamos neste recinto, a Ironduke já
avançava pelo espaço, onde pôs a funcionar seu dispositivo
especial de localização. Esta nave...
Rhodan
bateu com o dedo na borda do leito estreito e prosseguiu:
— Esta
nave foi localizada há poucos segundos. Claudrin acaba de iniciar a
perseguição. Esta poderá tornar-se muito interessante, já que os
acônidas também possuem um sistema de propulsão linear. Foi por
isso que partiram precipitadamente. O veículo em que nos encontramos
está a pouco menos de três meses-luz do sistema de Árcon. Operavam
nessa posição. Provavelmente, o transmissor foi colocado nos
recintos do computador há dois meses, quando se tentou modificar o
fluxo do tempo. Só assim se tornou possível seqüestrar-nos com
facilidade. Um aparelho instalado nesta espaçonave desempenhou as
funções de estação receptora. Aguardaram pacientemente até que
aparecêssemos diante do regente e mataram dois coelhos de uma
cajadada, Atlan.
— Devagar,
devagar — respondi. — Isso apenas são teorias. Talvez as coisas
tenham sido diferentes. De que forma poderiam ter identificado o
momento exato?
— O
regente constatou que sua última hipertransmissão, dirigida a mim,
foi captada por alguém. Suponho que tenham descoberto seu texto e,
com base no mesmo, provavelmente chegaram à conclusão de que eu
chegaria a Árcon dentro em breve.
— Mas
dali não se poderia concluir que eu o levaria para dentro do centro
de computação do regente. Há algo de errado em seu raciocínio.
Rhodan
interrompeu-me com um gesto.
— Isso é
relativamente secundário. De qualquer maneira estavam informados de
que eu chegaria em breve. Se não tivesse ido à sala de exibição,
provavelmente eles me teriam localizado em outra parte. Ao que
parece, essa gente tem muita prática nessas coisas.
Desisti de
procurar explicações convincentes. Não valia a pena.
— Ainda
não sei de que forma você interveio em minha área de atribuições.
O rosto de
Rhodan tornou-se ainda mais fechado. A seguir proferiu algumas
palavras importantes:
— Claudrin
chamou a Terra e ordenou em meu nome a mobilização geral. Bell
decolará com todas as unidades disponíveis da Frota Solar e saltará
pelo hiperespaço, em direção ao Sistema Azul. As unidades de
propulsão linear, já existentes, também virão. Além disso,
mandei que o Major Claudrin ordenasse ao computador-regente, em seu
nome, que pusesse a frota arcônida na rota do Sistema Azul. Atlan,
ao agir assim fiz algo que ainda há pouco havia recusado
energicamente. Se não conseguirmos sair em tempo desta espaçonave,
o Major Jefe Claudrin tentará romper o campo energético que envolve
o sistema do sol de Ácon, a fim de dar passagem à frota que o
seguirá. Isso será a guerra, que queremos evitar de qualquer
maneira.
Subitamente
senti a garganta seca. Rhodan agira rápida e decididamente.
Será que
seu procedimento foi correto? Não estaria superestimando o poder dos
dois impérios reunidos? Teria compreendido perfeitamente o que
significava investir contra um inimigo como este?
Seria
realmente um inimigo, na verdadeira acepção da palavra? Sim, devia
ser.
Os dois
ataques traiçoeiros desfechados pelos acônidas foram algo mais que
uma provocação. Em ambos os casos, a existência do Império Solar
e provavelmente também a do grande império estiveram em jogo.
E agora
ainda surgira o seqüestro a mão armada. Os acônidas foram pouco
inteligentes, quando se apoderaram de mim e de Rhodan. Tal fato só
poderia trazer complicações políticas, ainda mais que Rhodan
pensava e agia mais em termos militares que diplomáticos.
Sua reação
imediata foi um gesto típico de sua pessoa. Se eu estivesse em seu
lugar, talvez ainda teria tentado resolver a situação complicada
por meio de negociações. Talvez fosse possível convencer o Grande
Conselho do povo dos meus antepassados de que quarenta mil naves
esféricas do Império Solar e do grande império representavam um
fator que não poderia ser desprezado. Especialmente os terranos
pareciam ter sido avaliados erroneamente pelos acônidas.
Eu os
conhecera, estes homens arrojados, vindos da família planetária de
um sol insignificante, que não recuavam diante de qualquer risco.
Costumavam ser subestimados, erro que já fora cometido por mim e por
outras inteligências.
Apesar de
tudo deveríamos ter tentado realizar negociações. Exprimi minhas
dúvidas a este respeito.
— Você
deveria agir mais como almirante que como estadista e imperador, meu
caro — ponderou Rhodan. — Nem penso em largar mão do único
trunfo de que disponho, para contar com a benevolência ilusória
daqueles que você considera os antepassados de seu povo. A
comunicação telepática pode ser interrompida a qualquer momento.
Não tenho capacidade de superar grandes distâncias. Por isso tive
que dar as ordens decisivas antes que fosse tarde. O surgimento das
nossas frotas junto ao Sistema Azul não trará necessariamente uma
guerra cósmica, e espero sinceramente que não traga. Mas sou de
opinião que, com essa demonstração de força, conseguirei mais que
com mil horas de conversa junto à mesa de conferências.
Estava com
a razão; eu o sentia. Apesar disso as conseqüências de seu ato me
assustavam. Lembrei-me das armas terríveis que já conhecêramos no
curso de nossas relações involuntárias com os acônidas.
— Nossas
naves serão destruídas mais depressa do que você imagina, Perry.
Rhodan
respondeu com um sorriso:
— Pois é
justamente aí que falha o seu raciocínio. Sei perfeitamente que há
milênios o Sistema Azul desistiu da navegação espacial.
Trabalha-se com grandes transmissores, de capacidade imensa, que
cuidam do trânsito intergaláctico. Apenas existem uns poucos
veículos de pequenas dimensões, iguais a este que no momento nos
abriga. Já formamos nossa idéia sobre os poucos acônidas que saem
nestes veículos pequenos, a fim de instalar os receptores em mundos
estranhos. São os comandos energéticos de Ácon. Tenho certeza de
que, no momento, estamos lidando com um grupo desse tipo. Por isso
não sei como poderia ser destruída uma frota gigantesca, desde que
os respectivos comandantes tenham a cautela de manter-se fora do
alcance dos canhões dos fortes cósmicos ou das instalações
defensivas de superfície.
Quer dizer
que a avalanche fora posta a rolar. Procurei imaginar o que estaria
acontecendo nesse momento na Terra e nos demais planetas solares.
Milhares
de espaçonaves, inclusive os supergigantes da classe Império,
disparariam para o cosmos segundo um plano previamente traçado. Os
novos destróieres, portadores de pequenos veículos espaciais,
também se deslocariam, e os pilotos desses veículos pequenos e
extremamente velozes receberiam suas instruções.
O gigante
militar chamado Império Solar fora despertado; não havia a menor
dúvida. E fatos semelhantes deviam desenrolar-se nos mundos
pertencentes ao Império de Árcon. Conhecia a incrível precisão
das numerosas frotas robotizadas.
A única
esperança que me restava era a de que, antes da batalha, nos fosse
possível sufocar no nascedouro o conflito que se esboçava. Rhodan
era um gênio em matéria de estratégia espacial, mas por enquanto
suas naves ainda não haviam atravessado o lendário campo defensivo
dos acônidas. Minha observação a este respeito provocou um forte
pigarro em Rhodan.
— Sem
dúvida — confirmou. — Mas os acônidas esquecem minhas naves de
propulsão linear, bem como os homens do tipo de Jefe Claudrin, que
as tripulam, e ainda os mutantes, de cuja existência, ao que parece,
não sabem nada. A esta hora a moça já estará perguntando a si
mesma, toda perplexa, qual foi o motivo da súbita perseguição por
um couraçado terrano, equipado com mecanismo de propulsão linear.
Se resolver obedecer aos seus sentimentos, a guerra poderá ser
evitada. Do contrário Jefe Claudrin romperá de qualquer maneira o
campo defensivo azul e, uma vez no interior do sistema, tentará
localizar a unidade energética que deve fornecer a energia para o
gigantesco campo de força. Afinal, tal campo não pode ter surgido
do nada. Atlan, você aprova a posteriori
a ordem que dei ao computador-regente?
O que
poderia fazer numa situação como esta? Concordei. Aliás, eu mesmo
me admirei das minhas dúvidas, que não se harmonizavam com a
mentalidade de um velho almirante. Haveria alguma coisa que me
impedisse de apropriar-me da lógica rhodaniana?
Não
encontrei nenhuma solução. No entanto, sabia que provavelmente não
haveria outro meio de mostrar aos antepassados de meu povo que a
situação poderia tornar-se muito séria.
As
palavras de Tama Yokida sobressaltaram-me em meio às minhas
reflexões. O mutante estava de pé junto à porta trancada, e
passava os olhos pela mesma.
— Será
fácil abrir a fechadura — disse sem qualquer intróito. — A
trava é segura por um aparelho de impulsos relativamente simples.
Posso movê-lo, ou então faço com que os seis contatos, que acionam
o mecanismo, se toquem. Com isso, a porta se abriria automaticamente,
mas não tenho meio de saber se apesar da presença de um impulso
regular o alarma não soará em algum lugar.
Esqueci a
carga psicológica da minha idade avançada e minha revolta contra os
planos de Rhodan, que, em última análise, poderiam levar à
destruição recíproca três povos galácticos de alta categoria.
De repente
passei a ser exclusivamente Atlan, o almirante arcônida, que, depois
de seu degredo de conseqüências tão graves, lutara e sofrerá
durante muitos séculos juntamente com os habitantes do planeta
Terra.
Tama
Yokida era um representante típico da Humanidade. Enquanto Rhodan e
eu discutíamos, elaborou um plano que nos anunciou.
Rhodan
compreendeu imediatamente. Fitou-me ligeiramente; confirmei com a
cabeça.
Perry
olhou para o relógio.
— OK;
ainda poderemos falar à vontade. A língua japonesa deve representar
um problema até mesmo para a melhor tradutora automática. Existem
objetivas de espionagem neste camarote?
Tama
encostou-se à porta e lançou um olhar indiferente para a parede
oposta.
— Há
uma no ângulo direito, logo abaixo da grade do sistema de
ventilação.
Rhodan não
olhou para o lugar que acabara de ser indicado. Quanto a mim, estava
em melhores condições de lançar um olhar discreto para lá.
— É
verdade — confirmei.
Minha
tensão cresceu. A atitude de Rhodan parecia alarmante. Depois de
algum tempo perguntou com um sorriso significativo:
— Acho
que você teme pela sua vida há vários meses ou anos, não é
mesmo, imperador?
Não
respondi. Nós nos conhecíamos perfeitamente. Sabia o que queria
dizer com isso. Naturalmente eu não dispensara o artefato especial
destinado a defender-me. No momento, estava sem ele. Apenas o
ativador ainda se encontrava junto ao meu corpo, para ser usado em
caso de emergência.
Quando os
acônidas me revistaram, não agiram apressadamente. Mas também não
deram muita importância ao aparelho que trazia pendurado no pescoço.
Talvez, quando me despojaram da mochila com o projetor e conversor de
energia, não puderam calcular que eu usava tais truques, a fim de
proteger-me contra os assassinos mercenários ou loucos fanáticos.
— O que
é que você pode oferecer?
Desta vez
Perry fitou-me em cheio. O rosto de Yokida parecia tenso.
— Tenho
um presente do Grande Conselho de Árcon. Trata-se de uma máquina de
escrever de impulsos, em três cores, destinada à confecção rápida
de escritos artísticos. Ainda se encontra no meu bolso.
— Isso é
muito interessante. Tem mais alguma coisa no bolso?
Fiquei
surpreso ao notar que havia um sorriso matreiro no meu rosto.
— Ninguém
sabe que os micromecânicos mais geniais da Via Láctea, os
homens-pepino de Swoofon, instalaram um radiador em miniatura. Isso
foi feito com a amável licença do Serviço de Segurança Solar...
Rhodan
franziu a testa. Ao que parecia, Allan D. Mercant não fizera nenhum
registro desse fato, o que provava a previdência desse homem.
Rhodan
voltou a olhar para o relógio. Finalmente deu início ao jogo que
preparara.
— Estou
sentindo um calor danado — constatou em tom contrariado.
Descobriu
a entrada e a saída de ar. Enxugou o suor da testa e levantou-se.
Aproximou-se da grade do sistema de ventilação e fez com que o
fluxo de ar atingisse seu rosto.
Tama
Yokida lançou-me um olhar. Já fizera minhas reflexões.
— Não
abra à força, a não ser que não consiga levar avante meu intento.
Vamos aguardar.
Yokida
confirmou com um gesto. Comecei a revirar as gavetas dos armários
embutidos. Rhodan voltou. Ainda não estava na hora de encobrir
permanentemente a objetiva da câmara. A prova fora bem-sucedida.
— Está
procurando alguma coisa?
— Material
de escrita, folhas de impulsos e papel comum — respondi em tom
contrariado.
— Ah,
sim!
Dali a
alguns segundos caminhei em direção à grande tela, que estava
embutida na parede de aço, junto à porta. Os propulsores
continuavam a rugir. Ao que parecia, a intensidade do empuxo devia
ser muito elevada.
No momento
em que comecei a procurar os botões que teria de mover, a tela
iluminou-se. Auris de Las-Toor surgiu. Ela não estava chamando
porque tivesse adivinhado meus desejos.
— Façam
o favor de recolher-se aos leitos — disse. — Procurem segurar-se
bem. Daqui a pouco realizaremos uma manobra que representará um
desgaste para o organismo.
Sua
atitude parecia indiferente, mas isso mudou assim que Rhodan disse:
— Será
que os propulsores lineares de vocês são tão pouco aperfeiçoados
que podem dar causa a incômodos físicos? Conosco não acontece
isso.
A moça
parecia indignada. Rhodan fitou a tela. A expressão de seu rosto
seria capaz de levar à ebulição até mesmo um espírito menos
sensível.
— Sugiro
que deixe isso por conta dos cientistas acônidas, excelência.
Rhodan fez
uma mesura irônica.
— Este é
o tratamento a que tenho direito, madame. Muito obrigado pela
gentileza. Posso formular um pedido?
— Apresse-se.
A manobra será realizada daqui a três minutos.
— O
imperador precisa de material de escrita para redigir uma queixa
dirigida aos representantes de seu governo. Podem ser folhas de
impulsos, se é que nesta nave existe um material como este. Dispomos
do instrumento de escrita.
— Providenciarei.
Cumprimentou-nos
com um gesto reservado e desligou. Pigarreando, dirigi-me ao leito e
deitei. Mais uma vez admirei a inteligência de Rhodan, que levara
apenas alguns segundos para compreender meu plano. Seria preferível
que os acônidas abrissem a porta.
De
qualquer maneira não conseguiríamos passar pelos guardas que deviam
ter sido postados nas proximidades, sem recorrer à força. Por isso
julguei preferível deixar que entrassem em caráter oficial.
Tama e
Rhodan também se deitaram e, dali a alguns segundos, ouviu-se um
trovejar à nossa esquerda. Imaginei que, naquele momento, fora posto
a funcionar o misterioso mecanismo de propulsão linear, destinado à
locomoção em linha reta.
Seguiu-se
um forte abalo, acompanhado de uma leve dor. Por um segundo minha
vista turvou-se, mas logo voltou ao normal.
Foi só.
As campainhas estridentes pareciam representar um sinal de que o
perigo passara. Voltei a levantar-me.
— Ora...
Isso quase chegou a ser uma desmaterialização — disse Rhodan. —
Provavelmente foi um choque de transição para o semi-espaço. Por
que não evitam isso? Será — prosseguiu, refletindo intensamente —
será que este desagradável fenômeno colateral foi aceito
conscientemente em virtude de algum detalhe técnico?
Também me
senti surpreendido. Nas naves terranas, a passagem para a área
dimensionalmente instável do semi-espaço era realizada sem a menor
complicação. Lembrei-me de uma coisa.
— Quando
surgiu uma nave acônida semelhante a esta, os instrumentos do
regente não registraram a presença de uma frente de choque. Será
que estes seres voam sem abalos, tal qual os terranos, a não ser que
sejam obrigados a realizar uma manobra especial? Tenho a impressão
de que a Ironduke está nos nossos calcanhares.
Rhodan
franziu os lábios e encostou neles as pontas dos dedos. Ficou
sentado por algum tempo.
Vi que
fazia um esforço tremendo para entrar em contato com os telepatas do
couraçado. Depois de alguns minutos desistiu. Estava com o rosto
banhado de suor.
— Não
adianta. Estamos na zona de libração entre as dimensões estáveis
do Universo einsteiniano e o paraespaço. Com esse tipo de locomoção
a velocidade superior à da luz, torna-se necessário utilizar um
campo esférico, cujo caráter é semelhante aos impulsos
telepáticos. Não consigo passar mais. Tama, o senhor está pronto?
O mutante
levantou-se. Bocejou e dirigiu-se para a tela. Lançou um olhar
curioso para os estranhos botões.
Rhodan deu
algumas instruções lacônicas. Era claro que teríamos de tentar
chegar à sala de comando. A tripulação da nave não podia ser
muito numerosa. Apesar disso não tínhamos nenhuma chance de pôr os
membros do comando energético fora de combate um após o outro,
muito embora as energias telecinéticas de Yokida equivalessem a
alguns soldados. Nem mesmo ele estava imune às armas mortíferas, e
não dispúnhamos de campos protetores individuais.
No
entanto, provavelmente seria possível dominar os ocupantes da sala
de comando, desde que conseguíssemos chegar até lá.
Rhodan
forneceu mais algumas informações sobre a divisão interna desse
tipo de nave. Certa vez Gucky, o rato-castor, conseguira penetrar no
interior de uma espaçonave de Ácon. Constatou que havia poucas
diferenças em relação aos nossos veículos espaciais. Afinal, nós,
os arcônidas, descendíamos dos acônidas, e os terranos construíam
suas naves segundo nosso modelo.
Para nós,
tudo dependia de ocupar a sala de comando por algum tempo, suspender
o vôo por meio da propulsão linear e bloquear o espaço por um
tempo curto. Caso a Ironduke, que sem dúvida nos seguia, se tivesse
aproximado a distância de tiro, chegaria a hora de os acônidas
ficarem admirados.
Rhodan
voltou a levantar-se, a fim de colocar o rosto ensopado de suor no
fluxo de ar do sistema de ventilação. Naquele instante, a porta de
aço abriu-se lentamente.
V
Vieram em
três: dois guardas armados e um oficial sem armas, que trazia
estranhas divisas sobre o peito.
Os guardas
portavam pistolas de radiações de feitio estranho. Os canos estavam
apontados para baixo.
Tama
Yokida encontrava-se numa posição que lhe permitia ficar de olho no
vão da porta. Rhodan encostara-se à parede. A parte posterior do
crânio e a parte superior do pescoço estavam viradas para a grade
de ventilação. Dessa forma seus ombros largos teriam de encobrir
forçosamente a objetiva de espionagem.
A grande
tela estava inativa. Provavelmente não voltaria a funcionar, uma vez
que Yokida manipulara os botões com uma perícia excessiva.
Imaginava mais ou menos o que teria feito nesse meio tempo nos
circuitos internos do aparelho, usando sua energia telecinética.
Sentado
sobre o leito, fitei o oficial. Teríamos de obrigá-lo a entrar no
camarote.
O acônida,
cuja graduação ainda não nos era conhecida, parecia ter recebido
ordens para assumir uma atitude amável e discreta. Segurava na mão
direita uma caixa transparente com folhas de impulso cinza-claras,
semelhante às usadas em Árcon.
Aproximou-se,
parou à minha frente e inclinou a cabeça.
— Eminência,
esperamos que este material seja adequado aos impulsos positivos de
seu instrumento de escrita. Caso contrário, Vossa Eminência terá
de contentar-se com um instrumento de escrita em caracteres visíveis.
— Dispõe
de um quadro de escrita impresso?
— Não,
eminência. O raio diretor terá de ser conduzido manualmente.
Compreendi
que meu “lápis
especial”
fora examinado. Além disso, minhas queixas e as de Rhodan, relativas
às eventuais conseqüências políticas do seqüestro, pareciam ter
trazido seus frutos. De repente, os acônidas mostravam-se muito
amáveis. Será que já haviam percebido as complicações
resultantes desse “erro
diplomático”?
A perseguição iniciada pela Ironduke não poderia deixar de ser
notada. Era possível que até tivessem captado as mensagens de rádio
expedidas por seu comandante.
O oficial
tirou uma folha da caixa e colocou-a sobre o apoio que trouxera. Numa
atitude indiferente, pus a mão no bolso, tirei meu instrumento de
escrita de impulsos, que tinha pouco mais de um centímetro de
diâmetro e cerca de quatorze de comprimento, e afastei uma trava
microscópica. Era inacreditável quanta coisa os swoons conseguiram
abrigar no pequeno espaço oco!
O raio
térmico era dez vezes menos espesso que o mais fino cabelo de
mulher. Não provinha de uma energia de fusão catalítica, irradiada
de maneira uniforme. Funcionava com base no reforço ultra-elevado da
luz, do que resultavam, em princípio, as mesmas conseqüências.
O olhar de
Yokida assumiu uma expressão rígida. Fitou atentamente os guardas,
cujas armas haviam descido ainda mais no curso da discussão breve e
totalmente inofensiva. Apontavam diretamente para o chão.
Levantei a
cabeça e, num gesto professoral, dirigi o minúsculo radiador para o
oficial, que recuara dois passos.
Por
enquanto Rhodan não podia intervir. Devia encobrir a câmara com as
costas. Fiz pontaria com a arma camuflada. O acônida achou que o
gesto era dirigido diretamente a ele e inclinou a cabeça.
— A
ciência médica de seu povo é bastante avançada? — perguntei.
O oficial
parecia apavorado.
— Vossa
Eminência foi ferido?
— Não,
mas infelizmente terei de ferir o senhor. O ferimento não será
grave.
Apertei o
gatilho. Um luminoso feixe silencioso, que passava até mesmo pelas
pálpebras fechadas, penetrou no ombro direito do acônida.
Este
estremeceu e começou a cambalear, para cair ao chão. Com uma
focalização tão precisa, um ultra-radiador nunca produz um
ferimento mortal, a não ser que o raio atinja um órgão vital. Em
compensação, a dor provocada por sua energia térmica é tão
intensa que, quase sempre, a pessoa atingida perde a consciência.
Aquilo
aconteceu numa fração de segundo. A ação de Tama Yokida foi menos
suave. Suas forças incompreensíveis atingiram os dois guardas e
atiraram-nos ao chão. Saltei para cima deles e deixei-os
inconscientes, interrompendo por um espaço de tempo bem curto o
fluxo sangüíneo para o cérebro. Esse meio de deixar uma pessoa
inconsciente me fora ensinado em certa oportunidade por um doutor
grego, que em virtude de seus grandes conhecimentos fora designado
médico pessoal do monarca militar romano Setimio Severo.
Estas
recordações passaram ligeiramente pelo meu cérebro, quando o
último dos guardas perdeu a consciência. Ergui-me apressadamente.
Yokida
começou a destruir a objetiva escondida. Agiu com tamanha cautela
que por alguns minutos se poderia ter a impressão de que se tratava
de uma avaria normal.
Rhodan
saltou para a frente sem dizer uma palavra, pegou as armas dos
guardas e passou uma delas ao mutante. Não dizíamos quase nada.
Estava tudo muito fácil.
O corredor
estreito, que se estendia à frente do camarote, estava vazio. O
rugido dos propulsores superava as batidas de nossas botas. Uma vez
chegados à curva do corredor, procuramos orientar-nos. A julgar
pelos ruídos, devíamos estar no convés equatorial, a partir do
qual se podiam alcançar as escotilhas da sala de comando.
Se a
Astronáutica acônida funcionava segundo nossos princípios, não
poderia haver qualquer dificuldade nestas regiões. Ninguém tinha
necessidade de andar pelo convés equatorial, pois este não abrigava
postos de combate ou de manobra.
Continuamos
correndo. Os homens inconscientes acordariam dentro de uns cinco
minutos e dariam o alarma. Além disso, talvez a falha do dispositivo
de imagem já chamara a atenção de alguém. Nessa hora teríamos de
assumir qualquer risco.
O corredor
passou a assumir formas arredondadas, o que era uma das
características da nave esférica. A alguns metros do lugar em que
nos encontrávamos, surgiu uma ramificação que levava a várias
direções. Talvez até à sala de comando!
Aqui, a
possibilidade de nos encontrarmos com alguém era bem maior, já que
nesse lugar geralmente ficavam os poços dos elevadores.
— Tama,
se alguém oferecer resistência, o senhor tem permissão para
disparar — disse Rhodan, em voz baixa.
Lançou um
olhar cauteloso para o corredor transversal. Não viu ninguém. Dali
a pouco vimo-nos diante das escotilhas circulares externas de uma
eclusa de ar. Evidentemente pertencia à sala de comando.
Com um
gesto tranqüilo comprimiu o botão que abria a escotilha. A lâmina
de aço recuou diante de nós.
Sabíamos
que, a essa hora, as luzes de controle se acenderiam no interior da
sala de comando. Era o que acontecia em toda e qualquer espaçonave,
fosse qual fosse o povo a que pertencia a mesma.
Entramos,
fechamos a primeira escotilha e acionamos a chave da escotilha
interna.
Imaginava
que seríamos recebidos por homens que apontariam suas armas para
nós. Tive a impressão de que vários dias já se haviam passado,
desde o momento em que dominamos os acônidas. Lancei um olhar para o
relógio e fiquei sabendo que se haviam passado menos de quatro
minutos e meio.
A
escotilha interna da eclusa abriu-se lentamente. Uma luz mortiça
inundou o recinto, quase totalmente escuro. Vi a cabeça de dois
acônidas. As costas e os ombros estavam encobertos por poltronas
altas. Em virtude do reduzido ângulo de visão, não conseguimos
ver, naquele momento, nada além desses dois homens.
Tama
Yokida foi o primeiro a saltar. Segui-o, e atrás de mim veio Rhodan.
Bateu a mão esquerda, que não segurava nenhuma arma, sobre a chave
interna que fechava a escotilha.
Ouvi um
grito. O mutante estava de pé, com as pernas abertas e o corpo
ligeiramente inclinado para a frente, no meio da sala de comando
relativamente pequena. Não tirava os olhos dos presentes.
Eram cinco
homens e uma mulher: Auris de Las-Toor. Ela descansava num leito que
ficava em posição um tanto afastada, fato que levava à conclusão
de que não tinha nada a ver com a pilotagem da nave. Lembrei-me das
informações de Rhodan, segundo as quais era uma socióloga.
Provavelmente não entendia muita coisa dos controles de uma nave de
velocidade superior à da luz.
Virei-me
apressadamente e dirigi meu microrradiador para a fenda existente
entre a escotilha blindada e a parede. Apertei o gatilho. Uma
luminosidade dolorosa ofuscou-me. Produzi algumas soldas grossas, que
me deram certeza de que a escotilha não poderia ser aberta sem o uso
de meios especiais.
No mesmo
instante, Rhodan disse:
— Declaro
a existência do estado de guerra entre o Império Solar e o Império
Acônida. Face aos meus poderes administrativos e à lei de
emergência terrana, estou autorizado a emitir esta declaração sem
o consentimento escrito do governo federal solar. Aviso-os de que são
prisioneiros de guerra e deverão obedecer às minhas instruções. A
partir deste momento, estão sujeitos às leis de guerra. Peço-lhes
que não confundam esta situação com um assalto de bandidos.
Era o que
eu imaginara. Rhodan realmente obtivera poderes extraordinários. Os
acontecimentos dos últimos meses e o seqüestro habilitavam-no a
pronunciar a declaração oficial de guerra.
Com isso,
nosso procedimento transformara-se numa ação militar legitima.
Um acônida
alto encolheu-se na poltrona e pôs a mão na pistola. Tama Yokida
disparou antes dele. O acônida teve morte instantânea.
Auris
soltou um grito. Fitou-nos, perplexa. Rhodan virou-se e voltou a
disparar a arma estranha contra a escotilha da comporta, que logo se
deformou no local de impacto. Os radiadores acônidas funcionavam com
menos ruído e não produziam nenhum calor. Concluía-se que só se
podia tratar de uma variante dos desintegradores arcônidas, que
atacavam as estruturas cristalinas das moléculas.
As sereias
de alarma começaram a uivar. Não lhes demos atenção. Os outros
quatro soldados da equipe de pilotagem mantinham-se imóveis.
Fitavam-nos em silêncio. Apenas o rosto de Auris parecia trabalhar.
Rhodan não
lhe deu tempo para refletir.
— Mande
que o hipervôo seja suspenso imediatamente e que a nave retorne ao
Universo normal. Não estou brincando, madame.
Vi-a
lançar um olhar ligeiro para uma tela muito grande. Um traço muito
fino apontava para um sol azul, ainda pequeno. Supus que se tratasse
da estrela central do Sistema Azul. Durante um vôo desse tipo, o
astro de destino sempre devia permanecer visível.
Auris
hesitou. Esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas preferiu ficar
quieta.
Um outro
acônida pigarreou, quando Auris ordenou:
— Obedeçam
à ordem de Sua Excelência. Com a declaração de guerra, a situação
se modifica.
Rhodan
lançou-lhe um olhar desconfiado. Também eu desconfiei
imediatamente. Sua concordância fora rápida demais.
No momento
em que a mão do oficial se moveu rapidamente para a frente, tocando
uma chave luminosa verde, gritei:
— Deitar!
A onda de choque.
Deixei-me
cair ao chão. Rhodan e Tama seguiram meu exemplo. Pretendiam
surpreender-nos enquanto estivéssemos em pé, tornando-nos indefesos
por alguns segundos em virtude da semidesmaterialização e
aproveitando a oportunidade para dominar-nos. Ouvi o estranho
rumorejar que acompanhava qualquer transição. No entanto, nesta
nave era menos forte. A dor angustiante chegou e perdi a capacidade
de visão.
Dali a
pouco voltei a enxergar nitidamente. Deixara-me cair com a arma em
punho. As telas de visão global acenderam-se e provavam que nos
encontrávamos novamente no Universo estrelado do espaço
einsteiniano. O vôo linear realmente fora interrompido.
Mas, o que
era mais espantoso, ninguém fez aquilo que logicamente era de se
esperar. Nenhum acônida pôs a mão na arma ou fez qualquer coisa
que pudesse ser interpretada como um ato perigoso.
Auris
sorriu. Fitei-a, bastante preocupado.
— Por
que estão nessa posição desconfortável? — perguntou em tom
malicioso.
Seu
comportamento era misterioso. Senti que havíamos cometido um erro.
Qual seria?
— Cuidado
— disse Rhodan, em tom violento.
Seu rosto
estava tenso. Com dois saltos colocou-se junto aos controles. Ficando
de costas para os mesmos, podia ver de frente os quatro tripulantes
masculinos. Apontou a arma ameaçadoramente para eles.
— Não
façam tolices — disse em inglês, para logo a seguir repetir estas
palavras no velho arcônida.
Os quatro
homens mantiveram-se impassíveis. Pareciam olhar para além de nós.
Apenas a moça esforçou-se para ser mais acessível.
Rhodan
dirigiu-se a mim. Parecia nervoso.
— Venha
cá e tome cuidado — disse apressadamente em japonês. — Tentarei
entrar em contato com a Ironduke.
Auris de
Las-Toor acompanhou nossos gestos com a maior atenção. Mais uma vez
eu a vi fitar a grande tela de localização do semi-espaço, que
neste meio tempo escurecera.

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