sexta-feira, 2 de setembro de 2016

P-107 - O Sistema Azul - K. H. Scheer [Parte 2]

Rhodan deu um salto para a frente. Yokida seguiu-o. Continuei como que paralisado, quando o fenômeno luminoso passou a assumir contornos nítidos, transformando-se num portão escuro que dava para um recinto negro. Parecia que tudo atrás da linha arqueada vermelha se desfizera.
Movimentei-me a fim de abrigar-me atrás de uma das poltronas. Levei uma fração de segundo para notar os feixes de ondas verdes cintilantes que saíam do arco luminoso, enchendo a enorme sala.
Rhodan gritou alguma coisa que não entendi. No momento em que suas palavras morreram no ar e seu corpo esticado no chão enrijeceu, compreendi o que estava acontecendo no interior das instalações muito bem protegidas do centro de computação.
Meu cérebro adicional fez-me lembrar do relatório de Rhodan, quando este falara a respeito do estranho fenômeno. O fluxo de impulsos de radiações fora por ele designado como a luminosidade verde. Pelo que dizia, no planeta principal do Sistema Azul os acônidas procuraram colocar os tripulantes da primeira nave de propulsão linear fora de combate por meio do fenômeno. O efeito manifestava-se numa paralisação mais ou menos rápida dos reflexos nervosos, embora a capacidade de raciocínio, a visão e a audição não fossem afetadas.
Levei apenas um segundo até compreender. O arco energético era um transmissor acônida de matéria, da qual saíam os raios paralisantes. No momento não estava interessado em saber como o estranho aparelho pôde entrar no subterrâneo do regente. Só uma ação muito rápida poderia salvar-nos.
Sem dúvida, Rhodan ouviu meu grito, mas não conseguiu responder mais. Ele e Tama Yokida haviam sido surpreendidos, sem a menor proteção, pela luminosidade verde e viram-se colocados fora de ação mais depressa do que eu teria imaginado, face às informações fornecidas por Rhodan. Provavelmente aqui, na grande sala de exibições, estavam trabalhando com uma intensidade muito maior.
Também senti uma série de estranhos repuxos e contorções, que começaram junto aos tornozelos, para subir rapidamente pela barriga da perna.
O pânico fez com que me levantasse de um salto e saísse de trás da poltrona. No mesmo instante, o regente deu o alarma. Ouvi os uivos estridentes das sereias e o barulho dos apitos, que me infundiram nova coragem.
Se os robôs de guerra conseguissem atravessar com a necessária rapidez as pesadas portas de segurança, estaríamos salvos. A luminosidade verde em si não traria o menor perigo, enquanto não aparecesse ninguém que se aproveitasse da paralisia provocada pela mesma.
Atirei-me ao chão ao lado de Rhodan, cujo rosto estava desfigurado. Quando encostei a mão a seu corpo, tive a impressão de tocar numa tábua. O braço de Yokida também assumira a dureza da pedra.
Rhodan segurava a arma na mão estendida. Não chegara a atirar, pois não havia nada contra que pudesse disparar. O campo gerado pelo transmissor não poderia ter sido eliminado por meio de sua arma, ainda mais que não se via o menor sinal do respectivo aparelho de projeção. A única coisa que se via era o arco vermelho e seu interior negro.
Usei meu aparelho de comando para entrar em contato com o computador. Já desistira de avançar até a porta. Por lá, as radiações deviam ser ainda mais intensas, e estava interessado em manter-me ativo o maior tempo possível.
Minhas pernas começaram a endurecer. Apesar disso dei-me conta de que meu potente campo defensivo individual conseguira neutralizar por algum tempo o campo paralisante. Mas agora não conseguia proteger-me mais.
Num gesto desesperado levantei a pesada arma de radiações. Tentaria remover o arco vermelho do transmissor. No último instante consegui controlar-me. Provavelmente o raio térmico poderia derreter a porta que ficava bem atrás do fenômeno luminoso, a tal ponto que não mais seria possível abri-la sem o uso de meios especiais. Além do mais eu esperava a chegada dos robôs, motivo por que não deveria disparar.
Meu setor de lógica me dizia com toda insistência que a geração do campo e das radiações azuis devia ter alguma finalidade. Se alguém queria pôr outra pessoa fora de combate por esse meio, isso só poderia ser feito no intuito de colocar tal pessoa num estado em que ficasse totalmente incapaz de reagir.
Aguardei esse instante, que chegou menos de um segundo depois. Atrás do arco de radiações que se via na sala de exibição, tudo continuava imóvel.
Onde estavam os robôs de vigilância do computador?
Uma idéia terrível surgiu em minha mente.
Será que os desconhecidos utilizaram sua técnica avançadíssima para fazer com que os robôs não pudessem aparecer?
Não pude levar o raciocínio ao fim. Dentro do arco, o negrume começou a desmanchar-se. Uma ofuscante luz violeta surgiu. Dois vultos, usando vestes estranhas, se materializaram sob o arco.
Então eram estes os misteriosos acônidas, que já travaram uma luta tão encarniçada contra meus antepassados. Não poderia perder mais tempo. Meu corpo já estava praticamente imobilizado. A rigidez atingiu os ombros e começou a afetar a musculatura dos braços.
Reunindo as forças que me restavam, levantei a pistola térmica. Um dos acônidas notou. Saltou para a frente e dirigiu contra mim uma arma que eu não conhecia.
Apertei o gatilho.
Não tive oportunidade de dar um segundo disparo. Alguma coisa bateu com uma força terrível contra meu campo defensivo, que não mais conseguiu compensar a pressão.
Ouvi o uivo estridente do reator que trazia nas costas. No mesmo instante meu campo defensivo desmoronou. O outro intruso também disparara contra mim.
Privado do campo defensivo, fui atingido diretamente pela luminosidade verde, que me colocou de imediato num estado de rigidez total.
Ouvi passos. Alguém aproximou-se. Um rosto estreito e indiferente apareceu no meu campo de visão. O cano cintilante de uma arma estranha surgiu à minha frente, mas o desconhecido preferiu não mais disparar. Parecia saber que eu também fora atingido pela luminosidade verde.
Não se interessou mais por minha pessoa. Suas pernas, que mal e mal conseguia enxergar, saíram de meu ângulo de visão. Dali a alguns segundos notei pelos ruídos que um dos terranos estava sendo arrastado. Era Tama Yokida, conforme pude ver dali a pouco. Ainda consegui ver o arco do transmissor.
Depois disso foi a vez de Rhodan. O intruso arrastou-o para junto do fenômeno energético, empurrou o corpo imobilizado do administrador para dentro do arco e esperou que o processo de desmaterialização se concluísse.
Depois chegou minha vez. Não senti nada, enquanto estava sendo arrastado pelo chão. Fui empurrado para dentro do espaço existente entre as linhas de força. Não senti o fenômeno da desmaterialização. Apenas os sentidos, que ainda funcionavam, mergulharam numa névoa. Era um fenômeno análogo ao que costumava ocorrer durante as transições das espaçonaves.
Bem, não poderia ser mais do que uma transição em sentido mais amplo. Dediquei meu último pensamento ao centro de computação, que falhara lamentavelmente. Tivera tempo de sobra para intervir. Por que não acontecera nada? E como foi que os acônidas conseguiram introduzir um aparelho de transmissão para o interior do centro de computação?
Se isso aconteceu por ocasião do último ataque, durante o qual uma outra dimensão temporal se sobrepusera a todas as influências presentes, a montagem do aparelho seria perfeitamente explicável...
Mas nem por isso se explicava que este não tivesse sido descoberto depois da normalização dos efeitos temporais. Um aparelho como este não poderia deixar de irradiar impulsos constatáveis por meio dos instrumentos de medição. Por que esses impulsos não foram captados?
Não tive oportunidade de achar a explicação. De uma hora para outra meu raciocínio consciente foi apagado pela desmaterialização.
4



Nela tudo era fascinante. Era uma daquelas mulheres que, graças à sua aparência e à sua conduta, sabem combinar o espírito com o charme.
Fitei-a com uma atenção persistente.
Notei a harmonia de seu rosto estreito e expressivo, e o vermelho-cobre de seu cabelo, que, sob os efeitos da luz, emitia reflexos fluorescentes.
Bela e, em seu conjunto, realmente chegava a ser fascinante. Sem dúvida, as arcônidas da época das conquistas eram como essa mulher. Não tive a menor dúvida de que era uma representante da raça dos antepassados.
Rhodan e Tama Yokida também haviam acordado. Ao que parecia, o restabelecimento no interior de um grande transmissor, montado numa estação cuja localização não nos era conhecida, fora instantânea.
Não sabíamos onde estávamos. Uma viagem pela estrutura superior do hiperespaço não oferece base para quaisquer conclusões sobre o tempo decorrido e as distâncias, que, de qualquer maneira, assumem caráter apenas relativista.
Estávamos deitados sobre estreitas camas de dobrar, nas quais havíamos sido colocados, antes que nossos corpos ficassem livres da rigidez provocada pela luminosidade verde.
Nesses leitos recuperamos o controle dos nossos músculos, mas isso praticamente não nos servia para nada.
O ruído de máquinas desconhecidas e outros sinais levaram-nos a supor que nos encontrávamos a bordo de uma espaçonave não muito grande.
Depois da moça, mais dois representantes do Império de Ácon entraram no pequeno camarote. Aqueles homens altos seguravam armas.
Poucos segundos depois da recuperação de minhas energias físicas, tive de constatar que me haviam tirado a mochila com o projetor e o conversor de energia. Apenas o ativador celular pendurado ao meu peito continuava no mesmo lugar.
Será que conheciam a importância vital que esse aparelho assumia para mim?
A moça — ou mulher — usava uniforme justo, do tipo que, segundo parece, costuma ser usado por todos os povos de astronautas. Apenas a pequena capa que lhe cobria o ombro parecia um tanto extraordinária. Esta peça de seu vestuário era feita de um material fluorescente violeta.
Fitou-nos um por um.
Olá, Auris de Las-Toor, como vai? — disse de repente uma voz.
Era Rhodan. Falava um excelente arcônida antigo, o que também representava um resultado de seu extenso treinamento hipnótico. Evidentemente, eu também dominava a língua dos antepassados com igual perfeição. O fato surpreendeu-me, até que me lembrei de que, durante seu relato, mencionara uma jovem cientista acônida que, segundo se dizia, tivera certa participação no resultado feliz de seu vôo experimental. Seria esta moça? Meu interesse tornou-se ainda mais intenso.
Seu rosto moreno aveludado empalideceu. Se tivesse recebido a educação das moças arcônidas de outros tempos, as palavras de Rhodan deviam deixá-la chocada.
Um tanto tenso, aguardei sua reação. E esta foi exatamente o que eu esperava.
Os dois companheiros da moça lançaram um olhar contrariado para Perry, que naquele momento se erguia do leito. Um ligeiro movimento de mão da acônida serviu-lhe de advertência. Preferiu não colocar no chão o pé que já levantara.
Seu sorriso irônico fez com que mais uma vez a acônida mudasse de cor. Dali em diante não tive mais a menor dúvida de que conhecia Rhodan. O que a teria impressionado nesse terrano?
Teria sido o vulto esbelto, a expressão fria dos olhos, ou a aura misteriosa de sua imortalidade?
Rhodan não pôde deixar de irritá-la. Achei que na situação em que nos encontrávamos isso era perigoso.
Quer dizer que acabamos por reencontrar-nos — disse com a voz tranqüila. — É bem verdade que esse reencontro se dá em circunstâncias que fazem parecer bastante duvidosa a disposição pacífica de seu povo.
A moça enrolou os dedos longos e finos na borda da capa.
Peço-lhe encarecidamente que só fale quando lhe pedirem que o faça — disse em tom áspero. — Não lhe cabe fazer uso da palavra antes do anfitrião.
Não me senti nem um pouco surpreso.
Já conhecia os usos e costumes de meus antepassados, face aos estudos que tinha realizado. A palavra anfitrião devia causar uma impressão bastante estranha em Rhodan. Provavelmente não sabia que o termo costumava ser empregado mesmo nos casos em que não era adequado.
Rhodan logo exibiu seu tristemente célebre sorriso.
Será que ouvi bem? A senhora falou em anfitrião? Não me lembro de ter sido convidado ou ter vindo espontaneamente. Acho que a senhora está fazendo confusão, madame.
Continuava a sorrir. Os dois acônidas olharam para além dele, como se não existisse. Por ordem minha, o regente interpretara os relatórios dos membros da expedição terrana. Dessa interpretação se depreendia que tanto os terranos como os arcônidas eram considerados uma espécie de praga.
Pela primeira vez na vida, senti na própria carne a arrogância com que os representantes de meu povo haviam tratado as outras inteligências galácticas durante muitos milênios.
Provavelmente não viam em mim o imperador de um grande império estelar, mas um cacique de colonos que caíra na barbárie e não fazia uso de boas maneiras.
Rhodan não tinha a mesma paciência e compreensão que eu. Um brilho de cólera surgiu em seus olhos.
Levantou-se, sem dar a menor atenção às armas que o ameaçavam. Auris de Las-Toor parecia insegura. Seu olhar dizia tudo. Então era isso que a fascinava em Rhodan. Aquele homem, que não passava de um arrivista vindo de um sistema planetário insignificante, que permanecera desconhecido até poucos anos atrás, atrevia-se a enfrentar abertamente os representantes de um povo superior. Foi assim que tratou, muitos decênios antes, os representantes de uma expedição científica arcônida. Em virtude disso, uma arcônida pertencente a uma das famílias mais nobres tornara-se sua esposa; e um dos principais cientistas arcônidas, seu melhor amigo.
Levantei-me num gesto exaltado. Meus olhos doíam. Auris dedicava sua atenção à minha pessoa. Embora achasse que agia erradamente, resolvera adotar a tática de Rhodan.
Vocês estão falando com o soberano de um império planetário — disse em tom enérgico. — Sou o Imperador Gonozal VIII, que governa o Império de Árcon. Exijo uma explicação de seu comportamento injustificável, que não corresponde às boas maneiras nem aos usos diplomáticos.
A moça lançou-me um olhar estranho. Seus acompanhantes mantinham-se num silêncio obstinado.
Sei com quem estou lidando — disse Auris.
É justamente por isso que exijo informações sobre as finalidades das medidas adotadas que, conforme as circunstâncias, poderão levar a um conflito sério entre nossos povos.
Auris fitou-me com uma expressão que representava uma mistura de compaixão, interesse e orgulho.
Não recebi instruções para dar atenção aos seus argumentos pouco convincentes.
Quais são suas instruções? — indaguei.
Estas “instruções” representam um seqüestro e um crime — acrescentou Perry.
O rosto de Auris mudou de cor. Em seus olhos escuros surgiu um brilho de cólera. Estes olhos apresentavam um pouco de semelhança com os das arcônidas modernas.
Isso é um sinal da degenerescência já verificada”, avisou o setor lógico de minha mente.
As decisões do Conselho Governamental de Ácon não podem ser julgadas por vocês. Sou o órgão executivo. Peço-lhes que sigam sem a menor oposição as ordens que lhes forem transmitidas.
Inclinou ligeiramente a cabeça e dispôs-se a sair. Porém as palavras de Rhodan detiveram-na. Mais uma vez, o sorriso estranho surgiu em seus lábios. E o tom de sua fala mudara. Perry já não se preocupava com as diretrizes diplomáticas. Sua fala foi dura e inequívoca.
Madame, tenho a impressão de que já está na hora de pôr um freio à arrogância de seu povo. Posso garantir-lhe que o seqüestro de dois conhecidos estadistas intergalácticos, ordenado pela senhora, terá suas conseqüências. Se o chamado Conselho Governamental de seu povo estiver interessado no hiperpropulsor terrano, posso garantir-lhe que esse procedimento de forma alguma levará os políticos e militares do Império Solar a fornecer os respectivos dados. A senhora superestima seu poder, Auris de Las-Toor.
Auris parecia refletir. Mas, depois de algum tempo, retirou-se sem dizer uma palavra. Assim que a escotilha se fechou atrás dela e dos dois acônidas, Rhodan estendeu-se sobre o leito sem nada comentar. Cruzou as mãos embaixo da cabeça e fechou os olhos.
Estive a ponto de dizer alguma coisa, mas Tama Yokida apressou-se a fazer um gesto para que não o fizesse. Naquele momento compreendi que Perry se esforçava para entrar em contato com os telepatas da Ironduke. Ao que parecia, sua tentativa estava sendo coroada de êxito.
Rhodan estava banhado de suor. Depois de algum tempo seu rosto contorceu-se. Pelo que sabia a respeito dos competentes mutantes terranos, os telepatas que faziam parte deste pequeno exército formavam um bloco volitivo parapsicológico, no qual se coordenavam todas as energias.
Rhodan era um telepata muito fraco. Provavelmente, apenas um mutante seria incapaz de captar sua mensagem.
Depois de alguns minutos, o terrano descontraiu-se. Dali a cinco minutos estava recuperado, já podendo levantar-se. Eu imaginava o que devia ter acontecido naqueles momentos. Rhodan não era um homem que se conformava, sem mais nem menos, em ser seqüestrado. Era perfeitamente possível que tivéssemos morrido em virtude de alguma circunstância infeliz. Afinal, eu mesmo estivera bem próximo à morte. Haviam atirado contra mim, fato que provava que aqueles seres estavam dispostos a sacrificar-me. Dali se podia extrair certas conclusões...
Perplexo com minhas próprias idéias, cheguei à conclusão de que provavelmente se interessavam com exclusividade por Rhodan. Minha pessoa representava apenas um elemento perturbador, que, por certo, só fora levado porque as circunstâncias o exigiram.
Rhodan parecia entreter reflexões semelhantes. Naturalmente perguntava a si mesmo por que os acônidas puderam aparecer no momento adequado para fazer uso da arma paralisante. Essa indagação exigia uma solução rápida.
Você fala japonês, não fala? — perguntou Perry.
Levei alguns segundos para entender a pergunta formulada nessa língua. Tive de fazer uma adaptação rápida do curso dos meus pensamentos.
Há vários séculos. Estive presente quando a frota de Kublai Khan atacou o império insular japonês, até que os navios foram destruídos pela tempestade dos deuses.
Tama Yokida fitou-me com uma expressão de curiosidade. Meu japonês era antiquado e difícil de ser entendido.
Muito bem — disse Rhodan.
Lançou um olhar desconfiado pelo pequeno recinto. Olhou para o relógio. Continuou a usar a língua do pequeno estado insular.
Evidentemente alguém nos escuta. No entanto, levarão algum tempo para traduzir os sons jamais ouvidos por meio dos aparelhos mecânicos. Calculo que a demora será de cerca de vinte e quatro horas. Portanto, podemos dizer o que pensamos.
Tama estava recuando para junto da porta, quando do lado de fora surgiram fortes ruídos. As sereias e os apitos emitiram seus sons estridentes. Pessoas desconhecidas passavam junto à porta, que não devia ser muito grossa.
Dali a poucos segundos, gigantescas máquinas começaram a rugir. Por uma fração de segundo fez-se sentir uma poderosa força de inércia, que logo foi neutralizada por um aparelho de absorção de pressão, entrando em funcionamento naquele instante.
Tama caiu ao chão. Quanto a mim, reencontrei-me na minha cama de dobrar. Rhodan foi o único que conseguiu em tempo apoiar-se com os braços e as pernas.
Agora já tínhamos certeza de que nos encontrávamos numa espaçonave que, segundo tudo indicava, estava sendo acelerada precipitadamente.
Os ratos estão abandonando o navio que vai afundar — disse Perry, em tom irônico.
Não gostei da expressão de seus olhos. Imaginei que alguma coisa estava acontecendo.
Fitou-me em cheio, antes de falar em frases lacônicas.
Sinto muito, Atlan, mas interferi em sua área de competência. Consegui estabelecer contato com os telepatas. Gucky, Marshall, Betty Toufry e Fellmer Lloyd formaram um bloco parapsíquico. Compreenderam minhas instruções, e consegui captar as notícias irradiadas por eles. Tudo claro.
Bem que eu imaginara! De que forma teria interferido em minha área de competência? Formulei a pergunta.
O regente agiu imediatamente. Informou o Major Claudrin. O computador observou tudo, inclusive nosso desaparecimento repentino. Os robôs por ele enviados foram detidos à entrada da sala de exibição. Esbarraram numa barreira energética desconhecida. Foi por isso que não recebemos auxílio. Claudrin decolou imediatamente, isso face à ordem nesse sentido que consegui transmitir antes do seqüestro. No momento em que nos rematerializamos neste recinto, a Ironduke já avançava pelo espaço, onde pôs a funcionar seu dispositivo especial de localização. Esta nave...
Rhodan bateu com o dedo na borda do leito estreito e prosseguiu:
Esta nave foi localizada há poucos segundos. Claudrin acaba de iniciar a perseguição. Esta poderá tornar-se muito interessante, já que os acônidas também possuem um sistema de propulsão linear. Foi por isso que partiram precipitadamente. O veículo em que nos encontramos está a pouco menos de três meses-luz do sistema de Árcon. Operavam nessa posição. Provavelmente, o transmissor foi colocado nos recintos do computador há dois meses, quando se tentou modificar o fluxo do tempo. Só assim se tornou possível seqüestrar-nos com facilidade. Um aparelho instalado nesta espaçonave desempenhou as funções de estação receptora. Aguardaram pacientemente até que aparecêssemos diante do regente e mataram dois coelhos de uma cajadada, Atlan.
Devagar, devagar — respondi. — Isso apenas são teorias. Talvez as coisas tenham sido diferentes. De que forma poderiam ter identificado o momento exato?
O regente constatou que sua última hipertransmissão, dirigida a mim, foi captada por alguém. Suponho que tenham descoberto seu texto e, com base no mesmo, provavelmente chegaram à conclusão de que eu chegaria a Árcon dentro em breve.
Mas dali não se poderia concluir que eu o levaria para dentro do centro de computação do regente. Há algo de errado em seu raciocínio.
Rhodan interrompeu-me com um gesto.
Isso é relativamente secundário. De qualquer maneira estavam informados de que eu chegaria em breve. Se não tivesse ido à sala de exibição, provavelmente eles me teriam localizado em outra parte. Ao que parece, essa gente tem muita prática nessas coisas.
Desisti de procurar explicações convincentes. Não valia a pena.
Ainda não sei de que forma você interveio em minha área de atribuições.
O rosto de Rhodan tornou-se ainda mais fechado. A seguir proferiu algumas palavras importantes:
Claudrin chamou a Terra e ordenou em meu nome a mobilização geral. Bell decolará com todas as unidades disponíveis da Frota Solar e saltará pelo hiperespaço, em direção ao Sistema Azul. As unidades de propulsão linear, já existentes, também virão. Além disso, mandei que o Major Claudrin ordenasse ao computador-regente, em seu nome, que pusesse a frota arcônida na rota do Sistema Azul. Atlan, ao agir assim fiz algo que ainda há pouco havia recusado energicamente. Se não conseguirmos sair em tempo desta espaçonave, o Major Jefe Claudrin tentará romper o campo energético que envolve o sistema do sol de Ácon, a fim de dar passagem à frota que o seguirá. Isso será a guerra, que queremos evitar de qualquer maneira.
Subitamente senti a garganta seca. Rhodan agira rápida e decididamente.
Será que seu procedimento foi correto? Não estaria superestimando o poder dos dois impérios reunidos? Teria compreendido perfeitamente o que significava investir contra um inimigo como este?
Seria realmente um inimigo, na verdadeira acepção da palavra? Sim, devia ser.
Os dois ataques traiçoeiros desfechados pelos acônidas foram algo mais que uma provocação. Em ambos os casos, a existência do Império Solar e provavelmente também a do grande império estiveram em jogo.
E agora ainda surgira o seqüestro a mão armada. Os acônidas foram pouco inteligentes, quando se apoderaram de mim e de Rhodan. Tal fato só poderia trazer complicações políticas, ainda mais que Rhodan pensava e agia mais em termos militares que diplomáticos.
Sua reação imediata foi um gesto típico de sua pessoa. Se eu estivesse em seu lugar, talvez ainda teria tentado resolver a situação complicada por meio de negociações. Talvez fosse possível convencer o Grande Conselho do povo dos meus antepassados de que quarenta mil naves esféricas do Império Solar e do grande império representavam um fator que não poderia ser desprezado. Especialmente os terranos pareciam ter sido avaliados erroneamente pelos acônidas.
Eu os conhecera, estes homens arrojados, vindos da família planetária de um sol insignificante, que não recuavam diante de qualquer risco. Costumavam ser subestimados, erro que já fora cometido por mim e por outras inteligências.
Apesar de tudo deveríamos ter tentado realizar negociações. Exprimi minhas dúvidas a este respeito.
Você deveria agir mais como almirante que como estadista e imperador, meu caro — ponderou Rhodan. — Nem penso em largar mão do único trunfo de que disponho, para contar com a benevolência ilusória daqueles que você considera os antepassados de seu povo. A comunicação telepática pode ser interrompida a qualquer momento. Não tenho capacidade de superar grandes distâncias. Por isso tive que dar as ordens decisivas antes que fosse tarde. O surgimento das nossas frotas junto ao Sistema Azul não trará necessariamente uma guerra cósmica, e espero sinceramente que não traga. Mas sou de opinião que, com essa demonstração de força, conseguirei mais que com mil horas de conversa junto à mesa de conferências.
Estava com a razão; eu o sentia. Apesar disso as conseqüências de seu ato me assustavam. Lembrei-me das armas terríveis que já conhecêramos no curso de nossas relações involuntárias com os acônidas.
Nossas naves serão destruídas mais depressa do que você imagina, Perry.
Rhodan respondeu com um sorriso:
Pois é justamente aí que falha o seu raciocínio. Sei perfeitamente que há milênios o Sistema Azul desistiu da navegação espacial. Trabalha-se com grandes transmissores, de capacidade imensa, que cuidam do trânsito intergaláctico. Apenas existem uns poucos veículos de pequenas dimensões, iguais a este que no momento nos abriga. Já formamos nossa idéia sobre os poucos acônidas que saem nestes veículos pequenos, a fim de instalar os receptores em mundos estranhos. São os comandos energéticos de Ácon. Tenho certeza de que, no momento, estamos lidando com um grupo desse tipo. Por isso não sei como poderia ser destruída uma frota gigantesca, desde que os respectivos comandantes tenham a cautela de manter-se fora do alcance dos canhões dos fortes cósmicos ou das instalações defensivas de superfície.
Quer dizer que a avalanche fora posta a rolar. Procurei imaginar o que estaria acontecendo nesse momento na Terra e nos demais planetas solares.
Milhares de espaçonaves, inclusive os supergigantes da classe Império, disparariam para o cosmos segundo um plano previamente traçado. Os novos destróieres, portadores de pequenos veículos espaciais, também se deslocariam, e os pilotos desses veículos pequenos e extremamente velozes receberiam suas instruções.
O gigante militar chamado Império Solar fora despertado; não havia a menor dúvida. E fatos semelhantes deviam desenrolar-se nos mundos pertencentes ao Império de Árcon. Conhecia a incrível precisão das numerosas frotas robotizadas.
A única esperança que me restava era a de que, antes da batalha, nos fosse possível sufocar no nascedouro o conflito que se esboçava. Rhodan era um gênio em matéria de estratégia espacial, mas por enquanto suas naves ainda não haviam atravessado o lendário campo defensivo dos acônidas. Minha observação a este respeito provocou um forte pigarro em Rhodan.
Sem dúvida — confirmou. — Mas os acônidas esquecem minhas naves de propulsão linear, bem como os homens do tipo de Jefe Claudrin, que as tripulam, e ainda os mutantes, de cuja existência, ao que parece, não sabem nada. A esta hora a moça já estará perguntando a si mesma, toda perplexa, qual foi o motivo da súbita perseguição por um couraçado terrano, equipado com mecanismo de propulsão linear. Se resolver obedecer aos seus sentimentos, a guerra poderá ser evitada. Do contrário Jefe Claudrin romperá de qualquer maneira o campo defensivo azul e, uma vez no interior do sistema, tentará localizar a unidade energética que deve fornecer a energia para o gigantesco campo de força. Afinal, tal campo não pode ter surgido do nada. Atlan, você aprova a posteriori a ordem que dei ao computador-regente?
O que poderia fazer numa situação como esta? Concordei. Aliás, eu mesmo me admirei das minhas dúvidas, que não se harmonizavam com a mentalidade de um velho almirante. Haveria alguma coisa que me impedisse de apropriar-me da lógica rhodaniana?
Não encontrei nenhuma solução. No entanto, sabia que provavelmente não haveria outro meio de mostrar aos antepassados de meu povo que a situação poderia tornar-se muito séria.
As palavras de Tama Yokida sobressaltaram-me em meio às minhas reflexões. O mutante estava de pé junto à porta trancada, e passava os olhos pela mesma.
Será fácil abrir a fechadura — disse sem qualquer intróito. — A trava é segura por um aparelho de impulsos relativamente simples. Posso movê-lo, ou então faço com que os seis contatos, que acionam o mecanismo, se toquem. Com isso, a porta se abriria automaticamente, mas não tenho meio de saber se apesar da presença de um impulso regular o alarma não soará em algum lugar.
Esqueci a carga psicológica da minha idade avançada e minha revolta contra os planos de Rhodan, que, em última análise, poderiam levar à destruição recíproca três povos galácticos de alta categoria.
De repente passei a ser exclusivamente Atlan, o almirante arcônida, que, depois de seu degredo de conseqüências tão graves, lutara e sofrerá durante muitos séculos juntamente com os habitantes do planeta Terra.
Tama Yokida era um representante típico da Humanidade. Enquanto Rhodan e eu discutíamos, elaborou um plano que nos anunciou.
Rhodan compreendeu imediatamente. Fitou-me ligeiramente; confirmei com a cabeça.
Perry olhou para o relógio.
OK; ainda poderemos falar à vontade. A língua japonesa deve representar um problema até mesmo para a melhor tradutora automática. Existem objetivas de espionagem neste camarote?
Tama encostou-se à porta e lançou um olhar indiferente para a parede oposta.
Há uma no ângulo direito, logo abaixo da grade do sistema de ventilação.
Rhodan não olhou para o lugar que acabara de ser indicado. Quanto a mim, estava em melhores condições de lançar um olhar discreto para lá.
É verdade — confirmei.
Minha tensão cresceu. A atitude de Rhodan parecia alarmante. Depois de algum tempo perguntou com um sorriso significativo:
Acho que você teme pela sua vida há vários meses ou anos, não é mesmo, imperador?
Não respondi. Nós nos conhecíamos perfeitamente. Sabia o que queria dizer com isso. Naturalmente eu não dispensara o artefato especial destinado a defender-me. No momento, estava sem ele. Apenas o ativador ainda se encontrava junto ao meu corpo, para ser usado em caso de emergência.
Quando os acônidas me revistaram, não agiram apressadamente. Mas também não deram muita importância ao aparelho que trazia pendurado no pescoço. Talvez, quando me despojaram da mochila com o projetor e conversor de energia, não puderam calcular que eu usava tais truques, a fim de proteger-me contra os assassinos mercenários ou loucos fanáticos.
O que é que você pode oferecer?
Desta vez Perry fitou-me em cheio. O rosto de Yokida parecia tenso.
Tenho um presente do Grande Conselho de Árcon. Trata-se de uma máquina de escrever de impulsos, em três cores, destinada à confecção rápida de escritos artísticos. Ainda se encontra no meu bolso.
Isso é muito interessante. Tem mais alguma coisa no bolso?
Fiquei surpreso ao notar que havia um sorriso matreiro no meu rosto.
Ninguém sabe que os micromecânicos mais geniais da Via Láctea, os homens-pepino de Swoofon, instalaram um radiador em miniatura. Isso foi feito com a amável licença do Serviço de Segurança Solar...
Rhodan franziu a testa. Ao que parecia, Allan D. Mercant não fizera nenhum registro desse fato, o que provava a previdência desse homem.
Rhodan voltou a olhar para o relógio. Finalmente deu início ao jogo que preparara.
Estou sentindo um calor danado — constatou em tom contrariado.
Descobriu a entrada e a saída de ar. Enxugou o suor da testa e levantou-se. Aproximou-se da grade do sistema de ventilação e fez com que o fluxo de ar atingisse seu rosto.
Tama Yokida lançou-me um olhar. Já fizera minhas reflexões.
Não abra à força, a não ser que não consiga levar avante meu intento. Vamos aguardar.
Yokida confirmou com um gesto. Comecei a revirar as gavetas dos armários embutidos. Rhodan voltou. Ainda não estava na hora de encobrir permanentemente a objetiva da câmara. A prova fora bem-sucedida.
Está procurando alguma coisa?
Material de escrita, folhas de impulsos e papel comum — respondi em tom contrariado.
Ah, sim!
Dali a alguns segundos caminhei em direção à grande tela, que estava embutida na parede de aço, junto à porta. Os propulsores continuavam a rugir. Ao que parecia, a intensidade do empuxo devia ser muito elevada.
No momento em que comecei a procurar os botões que teria de mover, a tela iluminou-se. Auris de Las-Toor surgiu. Ela não estava chamando porque tivesse adivinhado meus desejos.
Façam o favor de recolher-se aos leitos — disse. — Procurem segurar-se bem. Daqui a pouco realizaremos uma manobra que representará um desgaste para o organismo.
Sua atitude parecia indiferente, mas isso mudou assim que Rhodan disse:
Será que os propulsores lineares de vocês são tão pouco aperfeiçoados que podem dar causa a incômodos físicos? Conosco não acontece isso.
A moça parecia indignada. Rhodan fitou a tela. A expressão de seu rosto seria capaz de levar à ebulição até mesmo um espírito menos sensível.
Sugiro que deixe isso por conta dos cientistas acônidas, excelência.
Rhodan fez uma mesura irônica.
Este é o tratamento a que tenho direito, madame. Muito obrigado pela gentileza. Posso formular um pedido?
Apresse-se. A manobra será realizada daqui a três minutos.
O imperador precisa de material de escrita para redigir uma queixa dirigida aos representantes de seu governo. Podem ser folhas de impulsos, se é que nesta nave existe um material como este. Dispomos do instrumento de escrita.
Providenciarei.
Cumprimentou-nos com um gesto reservado e desligou. Pigarreando, dirigi-me ao leito e deitei. Mais uma vez admirei a inteligência de Rhodan, que levara apenas alguns segundos para compreender meu plano. Seria preferível que os acônidas abrissem a porta.
De qualquer maneira não conseguiríamos passar pelos guardas que deviam ter sido postados nas proximidades, sem recorrer à força. Por isso julguei preferível deixar que entrassem em caráter oficial.
Tama e Rhodan também se deitaram e, dali a alguns segundos, ouviu-se um trovejar à nossa esquerda. Imaginei que, naquele momento, fora posto a funcionar o misterioso mecanismo de propulsão linear, destinado à locomoção em linha reta.
Seguiu-se um forte abalo, acompanhado de uma leve dor. Por um segundo minha vista turvou-se, mas logo voltou ao normal.
Foi só. As campainhas estridentes pareciam representar um sinal de que o perigo passara. Voltei a levantar-me.
Ora... Isso quase chegou a ser uma desmaterialização — disse Rhodan. — Provavelmente foi um choque de transição para o semi-espaço. Por que não evitam isso? Será — prosseguiu, refletindo intensamente — será que este desagradável fenômeno colateral foi aceito conscientemente em virtude de algum detalhe técnico?
Também me senti surpreendido. Nas naves terranas, a passagem para a área dimensionalmente instável do semi-espaço era realizada sem a menor complicação. Lembrei-me de uma coisa.
Quando surgiu uma nave acônida semelhante a esta, os instrumentos do regente não registraram a presença de uma frente de choque. Será que estes seres voam sem abalos, tal qual os terranos, a não ser que sejam obrigados a realizar uma manobra especial? Tenho a impressão de que a Ironduke está nos nossos calcanhares.
Rhodan franziu os lábios e encostou neles as pontas dos dedos. Ficou sentado por algum tempo.
Vi que fazia um esforço tremendo para entrar em contato com os telepatas do couraçado. Depois de alguns minutos desistiu. Estava com o rosto banhado de suor.
Não adianta. Estamos na zona de libração entre as dimensões estáveis do Universo einsteiniano e o paraespaço. Com esse tipo de locomoção a velocidade superior à da luz, torna-se necessário utilizar um campo esférico, cujo caráter é semelhante aos impulsos telepáticos. Não consigo passar mais. Tama, o senhor está pronto?
O mutante levantou-se. Bocejou e dirigiu-se para a tela. Lançou um olhar curioso para os estranhos botões.
Rhodan deu algumas instruções lacônicas. Era claro que teríamos de tentar chegar à sala de comando. A tripulação da nave não podia ser muito numerosa. Apesar disso não tínhamos nenhuma chance de pôr os membros do comando energético fora de combate um após o outro, muito embora as energias telecinéticas de Yokida equivalessem a alguns soldados. Nem mesmo ele estava imune às armas mortíferas, e não dispúnhamos de campos protetores individuais.
No entanto, provavelmente seria possível dominar os ocupantes da sala de comando, desde que conseguíssemos chegar até lá.
Rhodan forneceu mais algumas informações sobre a divisão interna desse tipo de nave. Certa vez Gucky, o rato-castor, conseguira penetrar no interior de uma espaçonave de Ácon. Constatou que havia poucas diferenças em relação aos nossos veículos espaciais. Afinal, nós, os arcônidas, descendíamos dos acônidas, e os terranos construíam suas naves segundo nosso modelo.
Para nós, tudo dependia de ocupar a sala de comando por algum tempo, suspender o vôo por meio da propulsão linear e bloquear o espaço por um tempo curto. Caso a Ironduke, que sem dúvida nos seguia, se tivesse aproximado a distância de tiro, chegaria a hora de os acônidas ficarem admirados.
Rhodan voltou a levantar-se, a fim de colocar o rosto ensopado de suor no fluxo de ar do sistema de ventilação. Naquele instante, a porta de aço abriu-se lentamente.
V



Vieram em três: dois guardas armados e um oficial sem armas, que trazia estranhas divisas sobre o peito.
Os guardas portavam pistolas de radiações de feitio estranho. Os canos estavam apontados para baixo.
Tama Yokida encontrava-se numa posição que lhe permitia ficar de olho no vão da porta. Rhodan encostara-se à parede. A parte posterior do crânio e a parte superior do pescoço estavam viradas para a grade de ventilação. Dessa forma seus ombros largos teriam de encobrir forçosamente a objetiva de espionagem.
A grande tela estava inativa. Provavelmente não voltaria a funcionar, uma vez que Yokida manipulara os botões com uma perícia excessiva. Imaginava mais ou menos o que teria feito nesse meio tempo nos circuitos internos do aparelho, usando sua energia telecinética.
Sentado sobre o leito, fitei o oficial. Teríamos de obrigá-lo a entrar no camarote.
O acônida, cuja graduação ainda não nos era conhecida, parecia ter recebido ordens para assumir uma atitude amável e discreta. Segurava na mão direita uma caixa transparente com folhas de impulso cinza-claras, semelhante às usadas em Árcon.
Aproximou-se, parou à minha frente e inclinou a cabeça.
Eminência, esperamos que este material seja adequado aos impulsos positivos de seu instrumento de escrita. Caso contrário, Vossa Eminência terá de contentar-se com um instrumento de escrita em caracteres visíveis.
Dispõe de um quadro de escrita impresso?
Não, eminência. O raio diretor terá de ser conduzido manualmente.
Compreendi que meu “lápis especial” fora examinado. Além disso, minhas queixas e as de Rhodan, relativas às eventuais conseqüências políticas do seqüestro, pareciam ter trazido seus frutos. De repente, os acônidas mostravam-se muito amáveis. Será que já haviam percebido as complicações resultantes desse “erro diplomático”? A perseguição iniciada pela Ironduke não poderia deixar de ser notada. Era possível que até tivessem captado as mensagens de rádio expedidas por seu comandante.
O oficial tirou uma folha da caixa e colocou-a sobre o apoio que trouxera. Numa atitude indiferente, pus a mão no bolso, tirei meu instrumento de escrita de impulsos, que tinha pouco mais de um centímetro de diâmetro e cerca de quatorze de comprimento, e afastei uma trava microscópica. Era inacreditável quanta coisa os swoons conseguiram abrigar no pequeno espaço oco!
O raio térmico era dez vezes menos espesso que o mais fino cabelo de mulher. Não provinha de uma energia de fusão catalítica, irradiada de maneira uniforme. Funcionava com base no reforço ultra-elevado da luz, do que resultavam, em princípio, as mesmas conseqüências.
O olhar de Yokida assumiu uma expressão rígida. Fitou atentamente os guardas, cujas armas haviam descido ainda mais no curso da discussão breve e totalmente inofensiva. Apontavam diretamente para o chão.
Levantei a cabeça e, num gesto professoral, dirigi o minúsculo radiador para o oficial, que recuara dois passos.
Por enquanto Rhodan não podia intervir. Devia encobrir a câmara com as costas. Fiz pontaria com a arma camuflada. O acônida achou que o gesto era dirigido diretamente a ele e inclinou a cabeça.
A ciência médica de seu povo é bastante avançada? — perguntei.
O oficial parecia apavorado.
Vossa Eminência foi ferido?
Não, mas infelizmente terei de ferir o senhor. O ferimento não será grave.
Apertei o gatilho. Um luminoso feixe silencioso, que passava até mesmo pelas pálpebras fechadas, penetrou no ombro direito do acônida.
Este estremeceu e começou a cambalear, para cair ao chão. Com uma focalização tão precisa, um ultra-radiador nunca produz um ferimento mortal, a não ser que o raio atinja um órgão vital. Em compensação, a dor provocada por sua energia térmica é tão intensa que, quase sempre, a pessoa atingida perde a consciência.
Aquilo aconteceu numa fração de segundo. A ação de Tama Yokida foi menos suave. Suas forças incompreensíveis atingiram os dois guardas e atiraram-nos ao chão. Saltei para cima deles e deixei-os inconscientes, interrompendo por um espaço de tempo bem curto o fluxo sangüíneo para o cérebro. Esse meio de deixar uma pessoa inconsciente me fora ensinado em certa oportunidade por um doutor grego, que em virtude de seus grandes conhecimentos fora designado médico pessoal do monarca militar romano Setimio Severo.
Estas recordações passaram ligeiramente pelo meu cérebro, quando o último dos guardas perdeu a consciência. Ergui-me apressadamente.
Yokida começou a destruir a objetiva escondida. Agiu com tamanha cautela que por alguns minutos se poderia ter a impressão de que se tratava de uma avaria normal.
Rhodan saltou para a frente sem dizer uma palavra, pegou as armas dos guardas e passou uma delas ao mutante. Não dizíamos quase nada. Estava tudo muito fácil.
O corredor estreito, que se estendia à frente do camarote, estava vazio. O rugido dos propulsores superava as batidas de nossas botas. Uma vez chegados à curva do corredor, procuramos orientar-nos. A julgar pelos ruídos, devíamos estar no convés equatorial, a partir do qual se podiam alcançar as escotilhas da sala de comando.
Se a Astronáutica acônida funcionava segundo nossos princípios, não poderia haver qualquer dificuldade nestas regiões. Ninguém tinha necessidade de andar pelo convés equatorial, pois este não abrigava postos de combate ou de manobra.
Continuamos correndo. Os homens inconscientes acordariam dentro de uns cinco minutos e dariam o alarma. Além disso, talvez a falha do dispositivo de imagem já chamara a atenção de alguém. Nessa hora teríamos de assumir qualquer risco.
O corredor passou a assumir formas arredondadas, o que era uma das características da nave esférica. A alguns metros do lugar em que nos encontrávamos, surgiu uma ramificação que levava a várias direções. Talvez até à sala de comando!
Aqui, a possibilidade de nos encontrarmos com alguém era bem maior, já que nesse lugar geralmente ficavam os poços dos elevadores.
Tama, se alguém oferecer resistência, o senhor tem permissão para disparar — disse Rhodan, em voz baixa.
Lançou um olhar cauteloso para o corredor transversal. Não viu ninguém. Dali a pouco vimo-nos diante das escotilhas circulares externas de uma eclusa de ar. Evidentemente pertencia à sala de comando.
Com um gesto tranqüilo comprimiu o botão que abria a escotilha. A lâmina de aço recuou diante de nós.
Sabíamos que, a essa hora, as luzes de controle se acenderiam no interior da sala de comando. Era o que acontecia em toda e qualquer espaçonave, fosse qual fosse o povo a que pertencia a mesma.
Entramos, fechamos a primeira escotilha e acionamos a chave da escotilha interna.
Imaginava que seríamos recebidos por homens que apontariam suas armas para nós. Tive a impressão de que vários dias já se haviam passado, desde o momento em que dominamos os acônidas. Lancei um olhar para o relógio e fiquei sabendo que se haviam passado menos de quatro minutos e meio.
A escotilha interna da eclusa abriu-se lentamente. Uma luz mortiça inundou o recinto, quase totalmente escuro. Vi a cabeça de dois acônidas. As costas e os ombros estavam encobertos por poltronas altas. Em virtude do reduzido ângulo de visão, não conseguimos ver, naquele momento, nada além desses dois homens.
Tama Yokida foi o primeiro a saltar. Segui-o, e atrás de mim veio Rhodan. Bateu a mão esquerda, que não segurava nenhuma arma, sobre a chave interna que fechava a escotilha.
Ouvi um grito. O mutante estava de pé, com as pernas abertas e o corpo ligeiramente inclinado para a frente, no meio da sala de comando relativamente pequena. Não tirava os olhos dos presentes.
Eram cinco homens e uma mulher: Auris de Las-Toor. Ela descansava num leito que ficava em posição um tanto afastada, fato que levava à conclusão de que não tinha nada a ver com a pilotagem da nave. Lembrei-me das informações de Rhodan, segundo as quais era uma socióloga. Provavelmente não entendia muita coisa dos controles de uma nave de velocidade superior à da luz.
Virei-me apressadamente e dirigi meu microrradiador para a fenda existente entre a escotilha blindada e a parede. Apertei o gatilho. Uma luminosidade dolorosa ofuscou-me. Produzi algumas soldas grossas, que me deram certeza de que a escotilha não poderia ser aberta sem o uso de meios especiais.
No mesmo instante, Rhodan disse:
Declaro a existência do estado de guerra entre o Império Solar e o Império Acônida. Face aos meus poderes administrativos e à lei de emergência terrana, estou autorizado a emitir esta declaração sem o consentimento escrito do governo federal solar. Aviso-os de que são prisioneiros de guerra e deverão obedecer às minhas instruções. A partir deste momento, estão sujeitos às leis de guerra. Peço-lhes que não confundam esta situação com um assalto de bandidos.
Era o que eu imaginara. Rhodan realmente obtivera poderes extraordinários. Os acontecimentos dos últimos meses e o seqüestro habilitavam-no a pronunciar a declaração oficial de guerra.
Com isso, nosso procedimento transformara-se numa ação militar legitima.
Um acônida alto encolheu-se na poltrona e pôs a mão na pistola. Tama Yokida disparou antes dele. O acônida teve morte instantânea.
Auris soltou um grito. Fitou-nos, perplexa. Rhodan virou-se e voltou a disparar a arma estranha contra a escotilha da comporta, que logo se deformou no local de impacto. Os radiadores acônidas funcionavam com menos ruído e não produziam nenhum calor. Concluía-se que só se podia tratar de uma variante dos desintegradores arcônidas, que atacavam as estruturas cristalinas das moléculas.
As sereias de alarma começaram a uivar. Não lhes demos atenção. Os outros quatro soldados da equipe de pilotagem mantinham-se imóveis. Fitavam-nos em silêncio. Apenas o rosto de Auris parecia trabalhar.
Rhodan não lhe deu tempo para refletir.
Mande que o hipervôo seja suspenso imediatamente e que a nave retorne ao Universo normal. Não estou brincando, madame.
Vi-a lançar um olhar ligeiro para uma tela muito grande. Um traço muito fino apontava para um sol azul, ainda pequeno. Supus que se tratasse da estrela central do Sistema Azul. Durante um vôo desse tipo, o astro de destino sempre devia permanecer visível.
Auris hesitou. Esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas preferiu ficar quieta.
Um outro acônida pigarreou, quando Auris ordenou:
Obedeçam à ordem de Sua Excelência. Com a declaração de guerra, a situação se modifica.
Rhodan lançou-lhe um olhar desconfiado. Também eu desconfiei imediatamente. Sua concordância fora rápida demais.
No momento em que a mão do oficial se moveu rapidamente para a frente, tocando uma chave luminosa verde, gritei:
Deitar! A onda de choque.
Deixei-me cair ao chão. Rhodan e Tama seguiram meu exemplo. Pretendiam surpreender-nos enquanto estivéssemos em pé, tornando-nos indefesos por alguns segundos em virtude da semidesmaterialização e aproveitando a oportunidade para dominar-nos. Ouvi o estranho rumorejar que acompanhava qualquer transição. No entanto, nesta nave era menos forte. A dor angustiante chegou e perdi a capacidade de visão.
Dali a pouco voltei a enxergar nitidamente. Deixara-me cair com a arma em punho. As telas de visão global acenderam-se e provavam que nos encontrávamos novamente no Universo estrelado do espaço einsteiniano. O vôo linear realmente fora interrompido.
Mas, o que era mais espantoso, ninguém fez aquilo que logicamente era de se esperar. Nenhum acônida pôs a mão na arma ou fez qualquer coisa que pudesse ser interpretada como um ato perigoso.
Auris sorriu. Fitei-a, bastante preocupado.
Por que estão nessa posição desconfortável? — perguntou em tom malicioso.
Seu comportamento era misterioso. Senti que havíamos cometido um erro. Qual seria?
Cuidado — disse Rhodan, em tom violento.
Seu rosto estava tenso. Com dois saltos colocou-se junto aos controles. Ficando de costas para os mesmos, podia ver de frente os quatro tripulantes masculinos. Apontou a arma ameaçadoramente para eles.
Não façam tolices — disse em inglês, para logo a seguir repetir estas palavras no velho arcônida.
Os quatro homens mantiveram-se impassíveis. Pareciam olhar para além de nós. Apenas a moça esforçou-se para ser mais acessível.
Rhodan dirigiu-se a mim. Parecia nervoso.
Venha cá e tome cuidado — disse apressadamente em japonês. — Tentarei entrar em contato com a Ironduke.
Auris de Las-Toor acompanhou nossos gestos com a maior atenção. Mais uma vez eu a vi fitar a grande tela de localização do semi-espaço, que neste meio tempo escurecera.

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