sábado, 3 de setembro de 2016

P-109 - O Bloqueio de Lepso - Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


A frota chegou. A decolagem das
naves cargueiras está proibida...


O Sistema Azul, um velho inimigo de Árcon e um novo inimigo da Terra, teve de aceitar a rendição incondicional, depois da destruição das usinas espaciais que forneciam a energia para seu campo defensivo. Privados dessa proteção, os acônidas respeitarão a paz, nem que seja por simples instinto de autoconservação. Quanto a isso não existe a menor dúvida.
Também não existe dúvida de que, face à turbulência dos últimos tempos, Perry Rhodan e seus homens — e também Atlan — não dispensaram a necessária atenção aos antis.
Desta forma os antis, que se dedicavam ao culto de Baalol, disseminado por toda a Galáxia, tiveram oportunidade de dar início à execução de seu terrível plano...
As investigações realizadas no planeta Lepso pelos agentes da Divisão III evidenciaram as terríveis conseqüências que tal plano traria para a Humanidade e outras inteligências galácticas.
Mais uma vez Lepso, o planeta dos contrabandistas, é o teatro em que se desenvolve a ação. Desta vez não se trata de uma ação de agentes, mas de uma operação em grande escala da Frota Espacial Solar, que executa O Bloqueio de Lepso...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Dr. Edmond HugherUm sonhador que desperta.

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Jefe ClaudrinComandante da nave Ironduke.

GuckyQuando os antis se protegem, até mesmo o melhor mutante fica reduzido à inatividade!

Gal-TamPrimeiro-Ministro de Lepso.

Tu-PoéUm fanático.
1



O Dr. Edmond Hugher sentia-se muito bem em sua casa. Estendido confortavelmente na poltrona anatômica, com os pés apoiados sobre a mesa oval baixa, tinha o número do fim de semana da Terrania Post aberto no colo. Só se interessava pela edição de sábado, e, dentro desta, pela seção de palavras cruzadas.
O passatempo predileto do Dr. Hugher consistia na coleção das palavras cruzadas, que às vezes faziam aquele homem quieto e amável esquecer o trabalho, especialmente quando se defrontava com uma série desses entretenimentos de primeira qualidade. Segundo sua opinião a Terrania Post era o jornal que publicava as melhores produções no gênero.
Já solucionara o quebra-cabeça, com exceção de duas posições:
Horizontal, posição 45: Engaste ornamentado do emblema, oito letras. A terceira e a quarta letra são conhecidas: R e T.
Vertical, posição 109: Luta islandesa, cinco letras. Apenas a terceira letra é conhecida: I.
O Dr. Hugher soltou um gemido sem que o quisesse. Era sempre a mesma coisa com as palavras cruzadas da Terrania Post. Elaboravam os problemas de tal maneira que era praticamente impossível solucioná-los, sem recorrer ao posto central de informações do dicionário positrônico. Acontece que isso era uma coisa que Hugher nunca fazia. Queria resolver o quebra-cabeça usando sua própria capacidade.
Pelos deuses de Árcon! — exclamou. — O que será um engaste ornamentado de um emblema? — nem se deu conta de que pronunciara parte da pergunta em intergaláctico e parte em língua terrana. — Como é mesmo o nome dessa luta islandesa?
Levantou os olhos do jornal. Seus pensamentos começaram a vaguear. Teria de liquidar hoje, sem falta, uma importante tarefa.
Ora veja; é isto. Cartucho! — soltou uma risada de alívio. Contou nos dedos o número de letras da palavra cartucho. Eram oito letras. No mesmo instante registrou a palavra na posição 45, horizontal. Enquanto escrevia, lembrou-se do nome da luta islandesa: glima.
Glima — disse em voz alta. — Como fiquei conhecendo esta palavra? Por que adquiri um domínio tão extraordinário do vocabulário terrano?
Guardou o jornal. Começou a pensar no passado.
Estivera doente. Mas os médicos de Árcon nunca lhe contaram qual foi a doença de que sofrera. Repetiu o que tais médicos lhe disseram:
— “É um verdadeiro milagre que o senhor se tenha restabelecido, Hugher. Mas não podemos garantir que com o tempo não se manifestem certas afecções cerebrais.”
Naquela oportunidade não dera maior importância ao fato — isso se dera há cinqüenta e oito anos. Seu nome era Edmond Hugher, mas será que realmente era mesmo Edmond Hugher? Às vezes acreditava lembrar-se dos pais ou dos irmãos, mas nunca conseguira visualizar o pai ou a mãe. Os contornos dos seus rostos sempre lhe surgiam sem muita nitidez. Não tivera três irmãos? Mas nem sequer sabia dizer em que planeta nascera, e nem poderia afirmar se realmente tivera três irmãos.
Tudo que vivera há cinqüenta e oito anos atrás ficava envolto numa névoa.
Onde nasci? Não sou arcônida, ekhônida, saltador ou ara, mas pareço ter herdado alguma coisa de cada uma dessas raças. Mas de onde provém a outra parte do meu ser?”, interrogava-se o Dr. Edmond.
Retirou os pés de cima da mesa. A poltrona anatômica adaptou-se automaticamente à nova posição.
No mesmo instante cessaram os pensamentos martirizantes relativos ao passado. Não se deu conta de que uma rede invisível voltara a cobrir a fresta, que se abrira em virtude do termo glima.
Os pensamentos do Dr. Edmond Hugher ainda se moviam no passado, mas permaneciam na faixa dos últimos cinqüenta e oito anos.
Viu-se, trabalhando em Zalit, de início como ajudante. Depois de algum tempo confiaram-lhe tarefas de grande responsabilidade, mas continuou a ser ajudante. Não progredia. Constantemente tinha arcônidas sonolentos pela frente. Seus protestos não adiantaram nada. Não tinha meios de impedir o funcionamento da política de favoritismo dos arcônidas. Quando percebeu isso esforçou-se para entrar em contato com seres não-arcônidas. Aceitou com o maior prazer a proposta de um clã dos saltadores, que lhe ofereceu o lugar de chefe, em uma de suas filiais planetárias.
Árcon interpôs seu veto e destruiu o projeto. Invocaram o contrato ignominioso pelo qual ele era obrigado a dedicar toda sua capacidade de trabalho a Árcon, em serviços a serem executados no planeta Zalit.
Naquela época já sabia sorrir, como sorria hoje. Com uma amabilidade inquietante declarou que não se lembrara do contrato, e continuou a exercer sua atividade em Zalit com a mesma diligência de sempre.
Um belo dia ficou totalmente perplexo ao entrar em sua residência e ver diante de si a cópia exata de sua pessoa. De início não acreditou em tal aparição. Numa reação natural apalpou seu segundo eu, examinou-o de todos os lados e não pôde deixar de conhecer que a imitação robotizada era perfeita.
À sua frente estava sentado Loó-o, que há mais de vinte anos foi dado como morto. Loó-o era um adepto do culto de Baalol. Recorrera ao robô para entrar à força na residência de Hugher, e seduziu este com a oferta de estudar Medicina no mundo central dos aras, à custa da organização religiosa.
Hugher, ninguém perceberá sua ausência. Seu sósia evitará que notem sua falta. Evidentemente não estamos agindo assim apenas por amor ao próximo. Esperamos que, depois de concluídos seus estudos, o senhor trabalhe para o culto de Baalol. Nós o observamos por mais de dois anos em Zalit e controlamos discretamente seu trabalho. Edmond Hugher, o senhor não está no lugar em que deveria estar. Nós, os servos de Deus, queremos conduzi-lo ao lugar que corresponde às suas faculdades naturais.
O Dr. Hugher nunca se esquecera dessa cena. Muitas vezes sonhava com o rosto severo de Loó-o. Depois de várias marchas e contramarchas acabara por desaparecer com o auxílio dos servos de Deus para aparecer em Aralon, enquanto em Zalit seu lugar era ocupado por seu sósia robotizado.
Iniciara seus estudos em Aralon com o sorriso encantado de uma criança. Perseguido, durante meses, pelo medo de fracassar, vivera a medicina sem percebê-lo. Quando ainda se encontrava no segundo ano de estudo, foi elogiado publicamente pelo célebre hematólogo Ur-Gif.
Hugher lembrou-se de que forma os colegas aras costumavam olhá-lo. Até então não haviam levado a sério aquele sonhador com seu eterno sorriso. Sempre se mantivera em posição secreta e nunca se esforçara para chamar a atenção de quem quer que fosse. Mas agora o professor ara, Ur-Gif, o elogiara publicamente por um pequeno trabalho intitulado Hematofobia, Uma Repugnância Sangüínea dos Ekhônidas. Edmond Hugher foi apresentado como um talento promissor.
Face à sua modéstia sentira-se constrangido com o elogio. Depois disso, seus colegas começaram a caçoar dele mais do que nunca. Esses colegas dificilmente conseguiam estabelecer contato com aquele homem quieto e amável. Edmond Hugher recolheu-se cada vez mais dentro de si mesmo e passou a dedicar-se exclusivamente ao estudo.
O contrato com os servos de Deus nunca fora interrompido. Era visitado constantemente por Loó-o. Às vezes, este era substituído por Tu-Poé, um servo fanático e muito jovem do culto de Baalol.
Durante nove anos, Edmond Hugher estudara em Aralon. Um curso normal costumava durar uns três ou quatro anos. Após realizar o último exame especializado, viu-se diante de mais de vinte célebres professores aralenses, que lhe manifestaram suas congratulações pela excelente conclusão do curso. O último a apertar sua mão foi Loó-o.
Depois disso, Hugher permanecera por muitos anos no lugar em que se encontrava, em Lepso, e nunca se arrependera de ter dedicado sua atividade ao culto de Baalol.
Hugher abandonou os sonhos, que o haviam levado ao passado, e retornou ao presente. Riu de si mesmo, até que seu olhar caísse novamente sobre as palavras cruzadas da Terrania Post. Ainda não registrara a palavra glima.
Bem — disse, enquanto o estilete gravava as letras — essa está morta. Gostaria de saber qual é o acaso feliz que me fez conhecer tão bem a língua terrana. Só há uma possibilidade. Durante o ensinamento hipnótico a que fui submetido em Aralon, devo ter travado conhecimento com o extenso vocabulário que abrange todas as expressões e frases terranas. Glima? É inacreditável que eu conhecesse essa palavra. Mas o fato é que eu a conhecia, e isso me diverte.
O Dr. Edmond Hugher esticou os braços e bocejou gostosamente. No seu íntimo já se deleitava com a próxima charada de palavras cruzadas do Terrania Post.

* * *

A propaganda comercial estava sendo exibida pela televisão. Desde que surgiu a televisão, existiam os comerciais. Pouco importava que o respectivo transmissor ficasse no Império Solar ou no Império Estelar de Árcon. As inteligências de todos os mundos habitados eram atingidas pelo poder sugestivo da propaganda e nunca mais se libertavam.
Mas era de admirar que Perry Rhodan, Reginald Bell, o Marechal Solar Allan D. Mercant e Nike Quinto, que formavam o grupo dos grandes cérebros pensantes, se houvessem reunido para enfrentar os comerciais.
Naquele momento estavam sendo exaltadas as virtudes do Cocã, que era um adubo maravilhoso, de efeitos inacreditáveis. A locutora acabara de afirmar que o produto tornava dispensável até mesmo o trabalho das minhocas.
Nike Quinto fez uma análise mental. Uma pessoa bela como aquela jovem, uma pessoa que tinha um olhar tão leal, uma pessoa tão comedida nos gestos seria incapaz de mentir.
Caramba!”, pensou. “Com que habilidade são apresentadas essas mentiras.”
Bell mantinha uma atitude totalmente defensiva. Não se entregou a qualquer forma de análise. Limitou-se a dizer:
Que idiotice!
Mas aquilo ainda não era o pior.
O anúncio do Yttigitt surgiu na tela. O Yttigitt não deveria faltar em nenhum lar.
Pense no que terá de fazer quando seu filho tiver perfurado a porta da geladeira com um radiador térmico de brinquedo e...”
Deverá dar-lhe uma boa sova — esbravejou Bell. — Pela Via Láctea, Perry! Estas coisas nos vêm sendo oferecidas há cento e cinqüenta anos?
Mas o locutor não deixou que a observação exaltada de Bell o perturbasse.
Coloque o Yttigitt com nossa espátula especial. Já devem saber que o Yttigitt é uma substância pensante! Depois disso, o senhor pegará nossa pistola de pintura, regulará a tonalidade da cor, fará a aplicação, e não restará o menor vestígio do acidente. Nem sequer haverá necessidade de repreender seu filho. O Yttigitt evitará que seu filho sofra o choque psicológico produzido por uma repreensão violenta. O ouvinte deve estar interessado em que seus filhos sejam sadios. Por isso, o Yttigitt não deve faltar em nenhuma casa.”
Essa gente representa um perigo público — exclamou Bell, fora de si. — Isso já não é nenhuma propaganda. Com essas brincadeirinhas acabarão por deixar metade da Humanidade maluca.
Espere aí, gorducho — disse Rhodan. — Acho que está na hora.
A tela mostrou o rosto de uma mulher de idade um tanto avançada. Ao que parecia, o som fora eliminado durante esse anúncio. Mas a legenda mencionava o nome completo da mulher e ainda informava onde e quando a mesma nascera e onde vivia atualmente. Dali se concluía que a eliminação do som fora proposital.
A imagem mudou. Uma mulher jovem exibiu-se para muitos milhões de telespectadores. Outra vez surgiu uma legenda, e esta dizia o que todos imaginavam: era a mesma mulher, mas estava rejuvenescida, seu rosto não tinha rugas e vendia saúde.
Seguiu-se uma frase:
Faça como eu; tome liquitivo.”
Depois apareceu uma garrafinha, que acabou por sobrepor-se ao rosto da jovem mulher e quase ultrapassou o quadro da tela. A garrafa, desenhada com muito bom gosto, não trazia qualquer rótulo. Nela apenas se lia, em letras luminosas, o nome Liquitivo.
Seguiu-se outra superposição de imagem, e as virtudes de outro produto foram exaltadas.
Mercant desligou o televisor.
Então, Mr. Bell, o senhor achou esta propaganda normal?
O homem esquentado e atarracado lançou um olhar furioso para o Marechal Solar Mercant. Mas, contrariando todas as expectativas, manteve-se em silêncio.
Rhodan pegou alguns documentos, que se encontravam sobre a mesa, e entregou-os ao amigo.
Isso é para você, Bell. Para sua informação.
O primeiro relatório fora elaborado pela sede da General Cosmic Company. As linhas do texto não eram muito numerosas, mas em compensação apresentava extensas colunas de algarismos. Aquilo era um símbolo frio e objetivo das quantidades de licor liquitivo que haviam sido importadas pelo Império Solar nos últimos anos.
Quando largou a folha, a mão de Bell tremia ligeiramente.
O segundo relatório era um documento oficial. Continha um resumo das declarações mais importantes, formuladas pelos quarenta e oito seres humanos, libertados no planeta Lepso. Junto a muitos dos nomes havia uma cruz. Tratava-se de pessoas falecidas.
Bell sentiu que estava sendo atentamente observado por Perry Rhodan, e também por Mercant e Nike Quinto.
Tomei o licor pela primeira vez em fins de 2.090 ou no início de 2.091. Depois da terceira dose percebi que, além de adquirir um aspecto juvenil, notei um rejuvenescimento psíquico. Por isso passei a tomar regularmente o licor, de dois em dois dias. Sou médico, e realizei observações em minha pessoa pelo espaço de dezesseis meses. Como depois desse tempo não notasse o menor efeito colateral, passei a recomendar o liquitivo aos meus amigos e conhecidos, apresentando-o como um preparado inofensivo, que produzia uma intensa ativação e regeneração celular.”
Bell já conhecia parte das declarações, mas resumidas como estavam assumiam subitamente o aspecto de uma ameaça invisível. Todas as vítimas haviam feito a mesma observação: tratava-se de um produto totalmente inofensivo, que não causava o menor efeito colateral, do qual resultava um espantoso rejuvenescimento.
Na terceira e quarta folha estavam registrados os resultados dos exames realizados por mais de vinte clínicas. Bell estacou ao ler a data em que certo relatório fora entregue pela clínica, mas deixou de comparar tal data com as dos demais relatórios, motivo por que não notou que todos os relatórios haviam sido elaborados há vários anos.
Depois de percorrer metade do relatório, colocou os documentos sobre a mesa e disse em tom de desânimo:
Já não compreendo mais nada. Como é que as clínicas podem afirmar que o licor é um excelente preparado rejuvenescedor, totalmente inofensivo, se em Lepso recolhemos quarenta e oito ruínas humanas, todas viciadas pelo liquitivo? A contradição não quer entrar na minha cabeça. Será que o liquitivo fornecido ao Império Solar não é aquele vendido nos outros mundos?
Nike Quinto respondeu:
Já verificamos este ponto, mister Bell. Fomos ainda mais longe. Realizamos exames comparativos, submetendo o material a outro controle químico rigoroso. Refiro-me ao material que constituiu objeto do exame realizado pelas clínicas, no curso de dois anos. Depois disso pegamos duzentas garrafinhas de dois centímetros cúbicos, vindas na última remessa, e também as examinamos. O resultado foi consignado na última página: o liquitivo, que vem sendo remetido à Terra nos últimos anos, é o mesmo produto vendido em outros mundos. A composição química é uma só.
Hum — resmungou Bell com o rosto contrariado. — Se a maior parte dos quarenta e oito viciados não tivesse morrido sob nossas mãos, diria que nem vale a pena falar sobre esta droga. Admitamos, porém, que as declarações são verdadeiras. Por que nunca fizeram uma experiência com seres humanos que consomem o licor há vários anos? Bastaria privá-los da bebida durante alguns meses e observar os resultados. Se não surgissem sinais de dependência, já teríamos avançado um pedaço.
Um sorriso amargo surgiu no rosto de Perry Rhodan.
Isso já foi feito há muito tempo, Bell. Acontece que esta bula acompanha cada frasco de licor. Leia-a, e você compreenderá por que até hoje não surgiu nenhum voluntário disposto a submeter-se à experiência.
Entre outras coisas, Bell leu o seguinte:
— “Alertamos o consumidor para que não deixe de beber por muito tempo o liquitivo, pois qualquer interrupção representa um risco para o processo de rejuvenescimento. A ocorrência de outros danos à saúde, porventura resultantes da interrupção, dependerá da constituição orgânica do indivíduo.” Por causa dessa advertência não surgiu nenhum voluntário?
Quinto confirmou com um gesto. A estação de hiper-rádio chamou. Transmitiu um sinal de urgência, que indicava que Atlan, ou seja, o Imperador Gonozal VIII, desejava manter uma palestra com Perry Rhodan. O sinal não representou nenhuma surpresa, pois fazia apenas dez minutos que Rhodan pela primeira vez chamara a atenção do arcônida para o misterioso liquitivo.
O rosto inteligente do arcônida surgiu na tela ligeiramente abaulada. Logo ao primeiro lance de olhos, Atlan notou quem eram as pessoas que se encontravam em companhia do Administrador do Império Solar. Depois de um ligeiro cumprimento passou diretamente ao assunto.
Perry, não sei mais o que fazer diante de tantas notícias alarmantes. Quando mandei irradiar a mensagem, para todos os mundos do Império de Árcon, não contava com o que poderia advir. Acontece que as notícias que estamos recebendo retratam uma verdadeira catástrofe. Não cometo nenhum exagero ao afirmar que meu império estelar está contaminado pelo liquitivo. Os receios, que você manifestou por ocasião de nossa última palestra, já representam uma realidade.
Em muitos mundos coloniais, que não são visitados regularmente pelas espaçonaves, a situação é calamitosa. Nestes mundos o vício do licor assumiu proporções que me dão calafrios. O planeta 0,56 do mundo de Fal, por exemplo, informa que na última semana houve duzentos e dezoito óbitos, precedidos de alucinações, delírios violentos e de uma acentuada decadência orgânica. Vinte por cento da população do planeta, que chega a cerca de três milhões de habitantes, pedem aos berros que lhes dêem a droga.
Isto apenas representa um exemplo, Perry. E, a esta hora, já poderia citar centenas de exemplos deste tipo. Dirigi uma indagação ao grande centro de computação. Este não forneceu nenhuma informação. Coloquei os aras em estado de alarma e com eles tive uma conversa mais que franca. Afirmam que se encontram diante de um mistério, e existe uma circunstância que parece confirmar suas declarações. O vício do licor também existe nos mundos pertencentes aos médicos galácticos, com a única diferença: nesses mundos ainda não se verificou nenhum óbito.
Sinto-me cada vez mais inclinado a concordar com sua suspeita de que nos encontramos diante de um atentado praticado pelos antis, os adeptos do culto de Baalol. Neste caso não seria esta a primeira vez que Lepso, o planeta dos atravessadores e falcatrueiros, constitui um perigoso fator de perturbação. No entanto, não será nada fácil provar que aquilo que os antis vendem não é um simples preparado biológico, mas sim um tóxico. Conforme apurou meu Serviço Secreto, Lepso não é o único mundo do qual é expedido o liquitivo.”
Atlan, quantos locais de distribuição foram identificados no interior do grupo M-13? — perguntou Perry Rhodan.
Por enquanto meu Serviço Secreto constatou a existência de três entrepostos. Talvez o liquitivo seja trazido diretamente de Lepso, Perry. De outro lado, porém, também é possível que a droga seja fabricada num mundo que ainda não conhecemos. Ainda não estou informado dos possíveis desdobramentos da situação. Seja como for, concordo com seu plano de recorrer a formações maciças de nossas frotas, a fim de bloquear os mundos mais importantes de nossos impérios estelares, impedindo que neles seja introduzida uma única garrafa de liquitivo.
O Serviço de Segurança Solar elaborará a curto prazo um plano detalhado para a área de influência terrana, plano este que será apresentado a você. Eu mesmo cuidarei do planeta Lepso, caso isso se torne necessário. Quais são os resultados das investigações relativas ao outro ponto, Atlan?
Reginald Bell, Mercant e Nike Quinto já esperavam por essa pergunta.
Nada de importante, bárbaro — respondeu Atlan, que se enontrava no mundo de cristal, situado a 34 mil anos-luz. — Cardif continua em Zalit e desempenha suas funções de ajudante. Não está satisfeito com a informação que acabo de dar, Perry?
Rhodan fitou o arcônida com uma expressão séria.
Atlan, eu gostaria de dar-me por satisfeito com a notícia que você acaba de dar, se um certo doutor Armin Zuglert não nos tivesse falado de um homem sorridente, sempre amável, que encontrara em Lepso. Esse homem usa o nome Edmond Hugher e serve aos sacerdotes. Há mais de doze anos, ele declarou ser cientista, e ter realizado trabalhos com o licor.
Estes fatos já são do meu conhecimento, Perry — respondeu Atlan.
O imperador deu mostras de seu espanto. Até então poucas vezes notara uma forte exaltação interior em Rhodan, e quando isso acontecia, a causa sempre fora seu filho Thomas Cardif.
Além disso, tenho uma cópia do retrato que mostra um homem que sorri amavelmente. Perry, você receia que esse homem possa ser seu filho, não é? Peço-lhe, porém, que examine esta foto.
A tela mostrou o rosto de um homem, aparentando pouco mais de trinta anos.
Perry — disse a voz transmitida pelo telecomunicador. — Este é seu filho, que há cinqüenta e oito anos trabalha no planeta arcônida de Zalit e vem sendo vigiado. Isso o deixa mais tranqüilo?
Além de Rhodan, Bell, Mercant e Quinto viram a foto. A pessoa representada na mesma já não apresentava a espantosa semelhança com o pai, mas os traços inconfundíveis daquele rosto pareciam dizer: eu sou o filho de Perry Rhodan!
O retrato continuava a ser mostrado na tela.
Perry — voltou a falar Atlan — alguém me explicou por que essa semelhança espantosa entre você e Thomas desapareceu quase por completo no curso dos decênios. A modificação artificial da personalidade fez dele um homem completamente novo. Depois de decorridos cinqüenta e oito anos, um sorriso sonhador passou a surgir cada vez mais nítido em seu rosto. Já a foto que você me mostrou, e que representa um certo Doutor Edmond Hugher, é de uma pessoa estranha. Não compreendo como Mercant tenha afirmado, depois de um ligeiro exame dessa foto, que a mesma retrata Thomas Cardif. Esse rosto inexpressivo, superficial, que exibe constantemente um sorriso estúpido, não apresenta qualquer traço que represente o menor indício de uma relação de parentesco com você.
A foto desapareceu da tela, e o Imperador Gonozal VIII voltou a presentificar-se.
Vejo que você se envolve em silêncio, amigo. Pois bem. Quero chamar sua atenção para o fato ao qual, no meu entender, você não atribuiu a importância que o mesmo merece.
Perry, não se esqueça de que a personalidade de seu filho foi modificada por um psicolador arcônida. E uma modificação desse tipo nunca é passível de regressão. Mesmo depois de cem anos continua tão pronunciada como no primeiro dia. Pelos deuses de Árcon, por que estou falando tanto, Perry? Desde o bloqueio, seu filho vive em Zalit. Meu Serviço Secreto e seu Serviço de Segurança o mantêm constantemente sob observação, e isto prova que Thomas não saiu do planeta de Zalit e ainda hoje continua por lá.
A fim de aproximar-se de Rhodan e dizer-lhe alguma coisa relativa ao assunto, Mercant levantou-se. Naquele momento, Bell segurou o marechal solar e cochichou-lhe algo.
Não é necessário, Mercant. Perry continua desconfiado e cético. Ouça o que está dizendo a Atlan.
Atlan, bem que eu gostaria que você tivesse razão. De qualquer maneira peço-lhe que envie um comando especial a Zalit, para que examine Thomas, aplicando os padrões mais rigorosos. Faço-lhe este pedido como amigo.
Que droga! — esta expressão do arcônida provava que o agora Imperador Gonozal VIII vivera por muito tempo entre os terranos. — Perry, você com sua obstinação conseguiu que até eu me sentisse inseguro. Está bem. Mandarei submeter Thomas a um exame, conduzido segundo todas as regras da arte médica. Oportunamente lhe comunicarei o resultado. Aguardo o plano de seu Serviço de Segurança, relativo ao bloqueio. Quero adaptar minha atuação ao mesmo. Aliás, no sistema solar ainda continua a ser feita a propaganda do liquitivo pela televisão?
Continua, arcônida. Mas no momento em que anunciarmos o bloqueio e fecharmos o anel em torno dos vários planetas de tal forma que nem mesmo um caça de um só tripulante consiga passar, acabará.
Nesse caso agirei da mesma forma.
A transmissão de hipercomunicação chegou ao fim. Rhodan voltou ao seu lugar.
Mercant — disse, dirigindo-se ao marechal solar. — Mostre-me mais uma vez a foto que lhe foi entregue por Zuglert.
Mercant abriu uma pasta, tirou a foto e entregou-a ao chefe.
Nos últimos dias, Perry Rhodan examinara essa foto vezes sem-número, e vezes sem-número sentira-se torturado pela dúvida.
Um homem com as feições um tanto apagadas, um homem que tinha um rosto inexpressivo e flácido, que sorria, fitava Rhodan. O retrato não mostrava um semblante de traços marcantes, e parecia não ter a menor semelhança com seu filho.— Mercant, este retrato já me trouxe muitas horas de preocupação. Vivo perguntando o que levou o senhor a afirmar que este é meu filho. O senhor disse que não pode explicar por que motivo fez essa afirmativa. Aceito isso. Às vezes, a mesma coisa acontece comigo — devolveu a foto com um gesto de desolação. — Mas aqui não consigo acompanhá-lo. Não consigo estabelecer contato com o homem que se encontra neste retrato. Em compensação sinto uma inquietação que nunca senti. Mercant, elabore o plano do bloqueio. Peça a Freyt que lhe ajude. O plano tem de ficar pronto até hoje de noite. Quanto mais cedo agirmos, mais vidas humanas poderemos salvar. Coronel Quinto, ainda preciso falar com o senhor. Bell, quero que você esteja presente durante a palestra. Mais alguma coisa, Mercant?
Sim, senhor.
Mercant levantou-se e pegou os documentos que trazia. A foto de Hugher caiu sobre a mesa. Segundo as declarações de Zuglert, um homem condenado à morte, Dr. Edmond seria um cientista que trabalhava em Lepso e um especialista no licor liquitivo.
Um momento! — gritou Rhodan. — Não se mexam! Fiquem onde estão.
Nenhum daqueles três homens sabia quais eram as intenções do chefe. Notaram que fitava intensamente a foto. Dali a pouco aproximou-se lentamente da mesa.
Desapareceu! — disse.
Num gesto preocupado passou a mão pela testa. Pegou a foto, entregou-a a Mercant e completou:
Mercant, já compreendo como o senhor à primeira vista pôde reconhecer Thomas nesta foto. Também acabo de reconhecê-lo. Isto mesmo, eu o reconheci de relance. Mas quando me aproximei alguns milímetros, voltei a enxergar um rosto desconhecido. O que é que o senhor pretendia dizer, Mercant? Eu o interrompi.
Rhodan recuperou-se do choque mais rapidamente que os outros. Bell fitou-o com os olhos arregalados e nem se deu conta de que seu gesto exprimia o desejo de que Perry estivesse enganado.
Sir, eu gostaria que o senhor pedisse ao centro de computação de Árcon III que nos fornecesse todas as informações disponíveis sobre o planeta Lepso, situado no sistema de Firing. Era só.
Dentro de uma hora terá todos os dados, Mercant. Coronel, queira acompanhar-me. Você também, Bell.
Rhodan caminhou à frente dos outros. Mercant saiu por outra porta. Não estava pensando na tarefa que teria de cumprir. Ainda se sentia abalado pelo fato de que o chefe também reconhecera o filho naquela foto.

* * *

O Dr. Edmond Hugher saiu de sua residência, que ficava numa das extremidades do edifício retangular, e dirigiu-se à rua. Continuou caminhando lentamente em direção ao templo em forma de pirâmide, que se distinguia no centro da cidade templária como um gigantesco monumento, e constituía prova evidente de que a seita, que praticava o culto de Baalol, dispunha de recursos financeiros consideráveis.
Hugher nunca se interessara por essa doutrina. Não sabia nem se tinha religião; se era um ateu ou um crente; adepto de uma seita ou um homem que se mostra totalmente indiferente, diante de qualquer professar religioso. Acontece que, para ele, seu trabalho representava uma missão que tinha de cumprir, a fim de desvendar os mistérios da natureza.
Nem mesmo Tu-Poé, o fanático, fizera a menor tentativa de convertê-lo num adepto do culto de Baalol. No entanto, este vivia procurando Hugher, com a intenção de informar-se sobre o andamento de suas pesquisas.
Tu-Poé não era apenas sacerdote; também era médico. No entanto, não dispunha daquela intuição que muitas vezes permitia que Hugher resolvesse os problemas com uma segurança de sonâmbulo, reduzindo-os à sua expressão mais simples.
Aquele homem quieto e amável, com o sorriso eterno do rosto, o Dr. Edmond Hugher, representava a pessoa mais importante da zona templária, depois dos sacerdotes.
Hugher passou lentamente pelo templo, cumprimentando amavelmente as pessoas que avistava. Eram quase todos seus conhecidos, mas nenhum deles era seu amigo. Não sentia a menor necessidade de ter amigos. Levava a mesma vida retraída que levara em Aralon.
No entanto, sua posição e seu trabalho formavam um contraste formidável com sua vida privada.
Era o chefe da Divisão Médica, e também do setor de produção farmacêutica. Distribuía as tarefas e supervisionava sua execução. Da área templária não saía nenhum produto que não tivesse sido liberado por ele.
Trabalhava com a precisão de um equipamento de controle positrônico. Sua visão de conjunto, tanto na área médica como na tecnológica, era fenomenal.
Não havia na cidade templária nenhum ser inteligente que já tivesse visto o Dr. Hugher zangado ou exaltado. Aquele homem distinguia-se por uma amabilidade constante.
Hugher tinha outra qualidade notável. Era a gratidão para com os antis, que o haviam ajudado a sair do planeta de Zalit e a tornar-se um médico em Aralon.
Sua gratidão não conhecia limites; para ele, tornar-se médico foi mais importante que qualquer outra coisa. E, no seu subconsciente, refugiara-se numa relação de dependência e se envolvera numa ética das aparências, segundo a qual vivia dizendo a si mesmo que os antis agiam corretamente e que como médico lhe cabia cumprir as ordens dos mesmos.
Entrou em seu laboratório com um cumprimento amável. Dois sacerdotes le­vantaram os olhos do trabalho, que estavam executando, e retribuíram o cumprimento.
Acomodou-se tranqüilamente atrás da escrivaninha. Passou os olhos pelas folhas de plástico, bem arrumadas à sua frente. Reconheceu à primeira vista o que era mais importante, a fim de armazenar essa matéria para todo o sempre em sua mente.
O Dr. Edmond Hugher nem desconfiava de que havia na Galáxia outro homem que tinha a capacidade de extrair ao primeiro relance de olhos, o que existia de mais importante numa série de documentos e conservá-lo na memória: era seu pai, Perry Rhodan, Administrador do Império Solar.
Olhou para U-Za.
U-Za, os carregamentos 10.X-399 a 11.X-999 devem ser colocados a bordo dentro de duas horas e terão de chegar à Terra hoje de noite.
O sacerdote lançou-lhe um olhar de perplexidade. Ao que tudo indicava, acreditava não ter ouvido bem. Cada carregamento de liquitivo — e Hugher só poderia ter aludido ao licor porque, como de costume, deixara de mencionar o preparado — era formado de mil garrafas de dois centímetros cúbicos. Dessa forma a quantidade a ser remetida à Terra compreenderia dezesseis milhões de unidades standard. Esse número correspondia a oitenta por cento de seu estoque.
T-Moll — disse Hugher em tom amável, dirigindo-se ao outro sacerdote. — Faça o favor de entrar em contato com Tu-Poé e exponha-lhe o caso. Quer fazer o favor de ficar com esta folha?
T-Moll ainda não sabia a respeito de que assunto deveria falar com Tu-Poé, o fanático. Mas bastou que lançasse um olhar mais detido para a folha, a fim de que compreendesse a enorme importância da missão.
T-Moll, faça o favor de entrar em contato comigo, usando o aparelho de Tu-Poé, assim que tiverem concluído a palestra.
Enquanto fazia esta advertência, Hugher sorria, mas já ia calculando mentalmente, a fim de verificar quanto tempo levaria para restaurar o estoque de reserva de liquitivo, constituído de vinte milhões de unidades standard.
Enquanto isso, U-Za entrou em contato com o espaçoporto central de Lepso. O rosto encarquilhado de um velho saltador surgiu na tela. O mercador galáctico esboçou um sorriso de satisfação ao ouvir a ordem de U-Za.
Enviarei imediatamente alguns planadores de carga — disse com a voz profunda. — Acho que cinqüenta desses veículos, com uma grande capacidade de carga, devem ser suficientes.
U-Za fez um cálculo rápido.
Mande sessenta planadores de carga, Singoll. Será mais seguro. Qual das suas naves levará a carga à Terra?
A Sin XI, que é a mais nova das minhas espaçonaves. Ainda não tem um ano — respondeu o chefe dos saltadores, em tom de orgulho. — Farei o transporte pela tarifa D. Não posso fazer mais barato.
Os saltadores sempre foram bons comerciantes, e não hesitavam em explorar vergonhosamente os adeptos do culto de Baalol.
A tarifa D era a mais cara. U-Za protestou imediatamente, mas Hugher interveio com um sorriso amável e, sentado junto à sua escrivaninha, gritou para o sacerdote:
Aceite a tarifa D, U-Za. Peça ao saltador Singoll que prepare imediatamente os documentos de carga e nos remeta os mesmos pelo rádio.
Levantou-se e mais uma vez olhou para além do rosto surpreso de U-Za.
Irei ao setor de acondicionamento, U-Za. Se alguém precisar de mim, poderei ser encontrado no setor F-54. Faça o favor de transmitir à central a notícia de meu deslocamento e dê meus cumprimentos ao chefe saltador Singoll.
Apesar de seu gênio amável, o Dr. Edmond Hugher não tinha um único amigo. Saiu tranqüilamente e, sem demonstrar uma pressa excessiva, dirigiu-se ao setor F-54, onde vinte e oito séries de autômatos, cada uma formada por trinta unidades, enchiam a cada segundo dez garrafas de licor, e as fechavam, contavam e acondicionavam nas caixas de plástico, que passavam pelas fitas transportadoras.
O chefe do setor F-54 era Magitt, um homem de aspecto sombrio vindo de Zalit, um planeta arcônida. Quando reconheceu o Dr. Hugher cumprimentou-o com uma estranha cortesia, mas não modificou a expressão sombria de seu rosto. Hugher prosseguiu sem deter-se junto ao zalita, puxou de cima da fita transportadora três das caixas de plástico, que acabavam de ser fechadas, e retirou uma garrafa de licor de cada uma das mesmas. Depois colocou outra vez as três caixas abertas em cima da fita transportadora e seguiu despreocupadamente.
Chegando ao fim da fita transportadora, saiu por uma porta depois de abrir a trava de segurança, usando uma complicada chave magnética. A porta fechou-se atrás dele com um leve chiado. Hugher encontrava-se só em seu pequeno laboratório. O equipamento do mesmo destinava-se exclusivamente ao controle de qualidade do licor.
Hugher realizou o exame da primeira garrafa com a concentração de um homem convencido da importância do trabalho que está realizando. Moveu uma chave, fez alguns ajustes, observou um aparelho de medição de ondas e depois dedicou sua atenção a um contador. Quando este parou, leu duas fileiras de números iguais.
O segundo e o terceiro exame foram realizados na mesma seqüência. Depois disso, Hugher saiu da pequena sala, voltou a entrar no setor F-54 e dirigiu-se a Magitt.
Magitt, faça o favor de deixar funcionar todas as séries no nível oito. Até amanhã de manhã precisamos ter em estoque mais dezesseis milhões de unidades.
O zalita estremeceu ligeiramente.
Esta produção se destina à Terra, doutor Hugher?
Naturalmente, meu caro Magitt. Pois, no momento, é o negócio que está dando. Tem alguma preocupação?
Não tenho preocupações, mas o caso é que não tenho garrafas. Se regulo no nível oito, dentro de três horas tudo cessará. A remessa de garrafas só chega a Lepso hoje de noite, e, depois disso, ainda nos restará ter de transportá-las para cá.
Sinto muito pelo senhor, Magitt — respondeu Hugher, em tom extremamente amável. — Com isso, o senhor cometeu uma infração contra as normas de estocagem, e fico muito triste por ver-me obrigado a comunicar o fato à direção central. Não é a quarta vez que desobedece às minhas instruções? Magitt, o senhor pode ter certeza absoluta de que ser-me-á muito difícil cumprir meu dever, porque isso lhe causará problemas. Desejo-lhe um bom trabalho.
O Dr. Edmond Hugher saiu do setor F-54 com a mesma tranqüilidade com que havia chegado. Mal a porta fechou-se atrás dele, o zalita praguejou violentamente, concluindo com uma ameaça:
Quem dera que aparecesse alguém que torcesse o pescoço deste risadinha!
Hugher voltou ao seu laboratório. Viu à sua frente os conhecimentos de carga do saltador Singoll, transmitidos pelo rádio. Mais uma vez, aquele homem sorridente examinou tudo num só relance, empurrou os papéis para a direita e, apertando uma tecla, imprimiu neles o sinete luminoso. Com isso, o contrato de carregamento fora concluído, e os dezesseis milhões de unidades de licor praticamente já se encontravam na Terra.
U-Za — disse Hugher, dirigindo-se a seu colaborador. — Avise a direção central de que pela quarta vez Magitt não cumpriu as determinações relativas à estocagem. Depois disso chame o terceiro planeta do sistema Go-123. Peça que o liguem com Algo-Essa. Peça-lhe que faça chegar aqui, dentro de cinco horas, tempo padrão, cinqüenta milhões de garrafas de plástico. Neste caso, o custo do transporte não assume a menor importância.
Não assume a menor importância? — procurou certificar-se U-Za.
Isso mesmo; não assume a menor importância — respondeu o amável doutor.
Em seus olhos vermelhos de arcônida surgiu um brilho que U-Za nunca observara naquele homem.
T-Moll, que se encontrava em companhia de Tu-Poé, chamou.
Discuti todos os detalhes com Tu-Poé, doutor. Concorda com seu plano de, antes do bloqueio, inundar o mundo de cristal com uma grande remessa de liquitivo. A medida mereceu os aplausos do Conselho. Querem que o senhor dirija tudo pessoalmente, sem considerar os custos. Tu-Poé gostaria de saber quando o liquitivo poderá ser entregue em Árcon I.
Amanhã ao meio-dia, tempo padrão de Lepso, T-Moll!
Até mesmo na voz de Hugher havia um tom sonhador, mas seus pensamentos não sonhavam. Viu diante dos olhos de sua mente como as coisas se encaixavam, e seu plano se completava. As medidas de proteção dos terranos e arcônidas chegariam tarde.
Não teve pena deles. Afinal, sempre foram inimigos do culto. Seriam atingidos em cheio pela vingança, e Edmond Hugher sentiu-se feliz por ter fornecido o instrumento dessa vingança aos sacerdotes de Baalol.
No mesmo instante esqueceu tanto os terranos como os arcônidas. No fundo não se interessava por esses povos. Queria mergulhar totalmente no trabalho, a fim de demonstrar sua gratidão aos sacerdotes, já que foi só graças a eles que se tornara médico.
Olhou pela janela. Seu olhar perdeu-se pelo deserto, mas ele não o viu. Sonhava com os olhos abertos. Procurou imaginar a Islândia, onde existia uma luta livre denominada glima...

2



O segundo planeta do sol amarelo de Firing, denominado Lepso, era o Eldorado dos traficantes, estelionatários e negocistas.
Este planeta, que sempre soubera conservar a independência, vangloriava-se de ser o mais liberal de toda a Galáxia, e muitos dos clãs mais novos dos saltadores confirmavam isso.
Havia uma circunstância inexplicável. No interior do Império de Árcon havia muitas potências, grupos de interesses e inteligências muito influentes que mantinham sua mão protetora sobre Lepso e cuidavam com olhos de lince, para que a autonomia e a independência desse mundo não fossem violadas.
O computador-regente desalmado dissera, em sua informação sobre Lepso, que se tratava de um centro de grupos de poder e, com base em exemplos, mostrara quantos procedimentos criminosos tiveram seu início naquele mundo. Até então nem mesmo Árcon conseguira remover este centro de infecção, e o mundo de Lepso sentia-se mais forte do que nunca.
Em nenhum lugar havia um contingente tão numeroso e estranho de mestiços como aqui. Ninguém se admirava com isso, a não ser as pessoas que pela primeira vez punham os pés em Lepso. Nesse mundo as cargas eram desviadas, confeccionavam-se conhecimentos de embarque com toda a aparência de genuínos, imprimia-se dinheiro falso, os manifestos de carga eram falsificados.
Mas Lepso não era apenas o solo em que melhor se desenvolviam as criaturas que costumam viver na penumbra. Também era um gigantesco centro distribuidor de mercadorias. Os espaçoportos enfileiravam-se um ao lado do outro. Havia inúmeros estaleiros para reparos. Neste mundo não se lançavam novas naves. Mas a pessoa, que não pudesse aparecer em qualquer mundo de Árcon se não quisesse ser presa, poderia vir a este mundo e aguardar tranqüilamente o dia em que sua espaçonave fosse colocada em condições de navegar pelo espaço, desde que dispusesse de bastante dinheiro.
Havia um número impressionante de naves dos aras e de veículos espaciais cilíndricos dos saltadores. Até mesmo os superpesados pareciam apreciar este mundo, em que costumavam fazer escala para combinar as ações guerreiras a serem empreendidas e negociar o respectivo preço.
Os adeptos do culto de Baalol submergiam por completo em meio a esta confusão de raças. Quase nunca apareciam e raras vezes interrompiam a vida solitária que levavam na quietude da área templária, situada nos confins do grande deserto.
O centro robotizado de informações nem sequer mencionava suas presenças; apenas aludia ao templo da seita. Perdia apenas uma frase com o assunto.
Mercant, que examinou pela segunda vez o extenso relatório, estacou de repente. Dirigiu-se a John Marshall, que aparecera há uma hora apenas para cumprimentar o Marechal Solar Allan D. Mercant, mas ainda continuava sentado em sua poltrona.
Olhe estes números, Marshall! Não tenho o menor motivo para dizer que sejam falsos. Mas deles se depreende que há constantemente oito a nove mil espaçonaves que permanecem por pouco tempo nos espaçoportos de Lepso. Sabe lá o que são oito ou nove mil naves, John? Basta calcular o que isso representa em taxas de pouso, de permanência e de decolagem. Basta que cinqüenta por cento dessas oito ou nove mil naves consista nas espaçonaves cilíndricas, teremos diante de nós um potencial de luta equivalente a quatro mil cruzadores pesados de nossa frota.
John Marshall balançou a cabeça com tamanha energia que Mercant calou-se de espanto.
Sua conta não está certa, marechal solar. O senhor apenas se baseou no número de naves, que, em dado momento, se encontram em Lepso. Resta saber quantas unidades poderão aparecer em Lepso dentro de uma, duas ou dez horas.
Mercant sorriu.
Nunca teria deixado de considerar este ponto, meu caro. Mas se não fosse sua objeção não teria cogitado mais do problema. Se partirmos do pressuposto de que nos veremos diante de quatro mil naves armadas, terei de cumprir uma tarefa nada agradável. Serei obrigado a comunicar ao chefe que nosso plano é inexeqüível na forma prevista. Marshall, o senhor conhece Rhodan quase há tanto tempo quanto eu, e por isso sabe o que ele dirá. Atlan, que dispõe da frota robotizada de Árcon, será o único que poderá ajudar-nos. O que houve com o senhor?
A expressão do rosto de John Marshall modificara-se de um instante para outro. Mercant sabia o que significava isso. O mutante estava recebendo uma mensagem telepática, ou então se insinuara nos pensamentos de outrem.
A paciência de Allan D. Mercant foi submetida a uma prova muito dura. Os minutos foram passando, e Marshall continuava a escutar. Suas mãos nervosas revelavam que estava captando informações da maior importância. Ao notar o suor que porejava na testa do telepata, Mercant sentiu-se preocupado. Compreendeu que não podia tratar-se de uma notícia alarmante do tipo das que o chefe dos mutantes costumava receber graças às suas faculdades paranormais.
O que seria?
John Marshall saiu do quase-transe com a respiração difícil, voltando ao dia-a-dia normal.
Mercant! — exclamou. — O Thomas Cardif, que se encontra no planeta arcônida de Zalit, é um robô de construção não-arcônida.
O rosto de Mercant pareceu estupefato pelo espaço de dez segundos.
Eu sabia — disse num cochicho. — Eu sabia desde o momento em que pela primeira vez olhei aquela fotografia. O que será agora, Marshall?
Aquela pergunta do marechal solar não era igual a qualquer outra. Se havia uma indagação que tinha sua razão de ser era esta.
Mercant também enxugou o suor da testa. Quando se dirigiu a Marshall, parecia desesperado.
Atlan ainda está falando com o chefe. Só entrei na primeira parte da transmissão de emergência. O arcônida não sabe dizer se foi há dez, vinte, trinta ou quarenta anos que Cardif desapareceu de Zalit. Até agora ninguém desconfiou. Até mesmo nossos homens deixaram-se enganar pela imitação robotizada.
Como foi que Rhodan recebeu a notícia, John?
Existe uma velha ordem, segundo a qual nenhum telepata deve intrometer-se nos pensamentos das personalidades dirigentes do império, sem que tenha sido autorizado para tanto. Dificilmente ocorria alguma violação desta ordem. Quando muito Gucky, o rato-castor, permitiu-se algum deslize, mas sempre conseguiu escapar do castigo.
Marshall deu-se conta de que acabara de praticar um ato proibido. Mas o marechal solar era de outra opinião.
Deixe as ordens para lá, John! Como foi que o chefe recebeu a notícia? Vamos! Fale logo.
Por algum tempo tornou-se incapaz até de pensar, marechal solar.
Abstenha-se de comentários, John. O que houve depois?
O chefe não quer dar mais uma única chance a Cardif.
Mercant apoiou a cabeça em ambas as mãos.
Hum — resmungou.
O chefe quer ir a Lepso, com toda a frota. Quer que Atlan nos envie grandes frotas robotizadas, que deverão proteger o sistema solar durante nossa ausência.
Hum.
Atlan concordou. No Império Arcônida e entre nós, os estoques de licor liquitivo serão confiscados e a venda será proibida. Haverá um bloqueio preventivo nos planetas mais importantes.
O que será dos mundos que ficarão sem proteção? — perguntou Mercant, em tom amargurado. — Esse Thomas Cardif já fez tanto mal. É incompreensível! Marshall, o chefe já recuperou a calma? Faça o favor de controlar seus pensamentos. Responsabilizo-me por esta ordem. Não estou sendo movido pela curiosidade. Então?
No mesmo instante viu o telepata balançar a cabeça com uma expressão de espanto.
O chefe bloqueou seus pensamentos, Mercant.
Isto é um bom sinal, mas representa um consolo muito fraco, John.
A notícia de que Thomas Cardif conseguira, numa época impossível de ser determinada, deixar o planeta Zalit, representava mais para o marechal solar que uma das notícias catastróficas que estava acostumado a receber.
Thomas Cardif era filho de Rhodan, e por isso não era igual a qualquer outra pessoa que provocava distúrbios. Mercant teve de reconhecer, a contragosto, que as ações de Cardif sempre foram bem planejadas. Há cinqüenta e oito anos a vida do imperador estivera por um fio. Naquela oportunidade Atlan teve de constatar, depois de um assalto, que já não possuía o ativador celular que conservava sua vida. Os antis lhe haviam furtado o misterioso aparelho. O plano do furto, porém, fora elaborado por Thomas Cardif, que queria causar o desmoronamento do Império de Árcon, a fim de destruir o sistema solar e atingir seu objetivo, que consistia em eliminar Perry Rhodan.
O plano frustrou-se no último instante. Cardif não foi condenado à morte por seu ato, mas colocado sob a ação de uma máquina hipnótica, que o privou do conhecimento do passado. Já não sabia quem era, de onde viera e qual fora o curso de sua vida até aquele dia. O ódio contra o pai fora soterrado para todo o sempre, sob um bloqueio hipnótico.
Era ao menos o que pensavam Rhodan, Atlan e os principais colaboradores do administrador. Durante cinqüenta e oito anos embalaram-se numa sensação de segurança, mas de repente defrontaram-se com uma terrível realidade.
Marechal solar, devemos apresentar-nos ao chefe — disse John Marshall, interrompendo as reflexões de Mercant. — A palestra entre Rhodan e Atlan já chegou ao fim. Eu lhe disse que acompanhei a primeira parte da palestra travada pelo hiper-rádio, e que a seguir informei o senhor a este respeito. Rhodan não formulou nenhum comentário, sir.
Vamos andando — disse o chefe do Serviço de Segurança Solar, pegando seus documentos e retirando-se com o telepata.
O elevador antigravitacional levou-os para cima. Enquanto se dirigiam ao gabinete de Rhodan encontraram-se com Bell, cujo rosto tenso dizia mais que várias informações.
Quando entraram no gabinete do chefe, ouviram-no transmitir uma ordem de emergência que interditava a venda do licor. Todos os estoques de liquitivo seriam confiscados imediatamente. Não seria permitida a propaganda do licor.
Sentem! — foi só o que Rhodan pôde dizer naquele momento aos seus colaboradores.
Não o acharam nem um pouco mudado. O brilho de seus olhos cinzentos era o único sinal do forte nervosismo de que se sentia possuído.
Toda a frota entrará em prontidão. A partir deste momento está em vigor a diretiva número seis. A ordem de prontidão deve ser transmitida pelo código mais rigoroso. Todas as naves, que se encontram no espaço, interromperão imediatamente a viagem. Deve-se tomar todos os preparativos para uma transição em direção ao sistema de Firing. A ordem para o salto será transmitida em separado. Observar prontidão absoluta para entrar em combate. As gazelas, jatos espaciais e destróieres deverão ser colocados em estado de entrarem em ação imediatamente. Fim.
Mercant aguçou o ouvido diante da passagem que se seguiu. Rhodan entrara em contato com o Serviço de Segurança Solar, do qual, ele mesmo, como marechal, era o chefe.
Aqui fala Rhodan. Acredito que tenham ouvido a ordem que transmiti ao quartel-general da frota. Utilize uma dezena de estações retransmissoras para colocar nossos agentes de Lepso em estado de alarma. Trata-se do segundo planeta do sistema de Firing. Aqui vai a foto do homem que deve ser procurado.
Ouviu-se um chamado vindo da estação central do Serviço de Defesa Solar:
Sir, mas este é seu filho!
O rosto controlado de Rhodan manteve-se impassível. Estendeu o braço e, sem mover a cabeça, dirigiu estas palavras a Mercant:
Faça o favor de me dar a foto que nos foi entregue pelo doutor Zuglert.
No mesmo instante, Mercant tirou a foto da pasta com documentos e entregou-a ao chefe. Rhodan colocou-a diante da tela levemente abaulada.
Vejam como Thomas Cardif é hoje em dia. A fotografia foi transmitida, não é?
Passou a foto a Bell, que se encontrava atrás dele, a fim de que este a entregasse a Mercant. Fez como se não percebesse a expressão de perplexidade no rosto do homem que se encontrava na estação da central do Serviço de Segurança Solar.
Nossos agentes procurarão localizar este homem, que provavelmente vive em Lepso e usa o nome Doutor Edmond Hugher. Existe uma forte suspeita de que colabora com os antis e vive na área templária.
Segue uma ordem especial, destinada a todos os agentes que se encontram em Lepso. Em hipótese alguma devem usar violência contra Thomas Cardif. Repito. Em hipótese alguma deverão usar violência contra Thomas Cardif, ou seja, contra o Doutor Edmond Hugher. Fim.”
No momento em que Rhodan se levantou, a fim de abandonar o lugar junto ao aparelho de telecomunicação, Deringhouse e Julian Tifflor entraram na grande sala de conferências. Sem dizer uma palavra, sentaram-se atrás de Mercant e Marshall. O ar tremeluziu à frente de Rhodan, enquanto este se dirigia a uma poltrona, e Gucky, o rato-castor, apareceu na sala. Saiu de perto de Rhodan o mais depressa que pôde e acomodou-se no sofá que ficava junto à parede.
Rhodan lançou um olhar indagador para o telepata Marshall. Quase no mesmo instante, este balançou a cabeça. Utilizando seus dons parapsicológicos, comunicou a Rhodan, que possuía uma capacidade telepática pouco desenvolvida:
Gucky bloqueou seus pensamentos, sir.
Rhodan sentou-se.
Senhores! Apenas aguardo que Atlan me comunique a chegada de cinco mil naves robotizadas de Árcon ao nosso sistema. Conforme já terão depreendido das instruções que acabo de transmitir, a Frota Solar aparecerá em peso sobre o planeta Lepso e o cercará. Enquanto isso, as unidades robotizadas de Árcon protegerão a Terra. Quer dizer alguma coisa, Mercant?
Rhodan notara a expressão de dúvida no rosto do marechal solar.
Sir — principiou o chefe do Serviço de Segurança Solar. — No momento em que dermos início à ocupação de Lepso, teremos de contar com a presença de quatro mil unidades que estão em condições de combater. Provavelmente estas procurarão impedir nossa ação.
Rhodan levantou a mão para interromper Mercant.
Estamos dispostos até mesmo a assumir o risco de uma guerra galáctica, Mercant! — exclamou. — Devemos contar com a hostilidade declarada dos saltadores, dos superpesados, dos povos coloniais insatisfeitos com o domínio de Árcon e dos anti-mutantes. Eles recorrerão a todos os meios para opor-se à nossa tentativa de modificar as condições reinantes em Lepso. No nosso argumento de que apenas estamos realizando uma ação policial, destinada a prender um único homem, verão um sinal de que se trata de uma ocupação dissimulada do planeta dos contrabandistas, e adaptarão sua ação a essa circunstância. Por isso Atlan e eu combinamos que faremos entrar em atividade na área de Lepso não apenas todo o contingente da Frota Solar, mas ainda recorreremos às naves robotizadas arcônidas, para criar mais duas ou três áreas de bloqueio exteriores, cujo raio será muito maior. Ainda poderemos contar com uma reserva, constituída por um grupo de naves do Imperador.
Sob o ponto de vista militar esta ação não representa o menor risco para nós, mas acontece que raramente as guerras são ganhas nos campos de batalha. Não temos nada de equivalente que possamos contrapor ao poderio econômico dos saltadores, dos superpesados e dos antis, a não ser que consigamos concluir a ação em Lepso, dentro de três dias padrão. Tenho certeza de que nem chegaremos a esgotar este prazo.”
Nos últimos minutos, Bell não tirara os olhos de cima do amigo. Aproveitou a pausa para formular a objeção que preparara.
O que acontecerá se os saltadores, os superpesados e os antis, em vez de defender Lepso, resolverem usar todas as naves disponíveis num ataque à Terra? O que representam cinco mil naves tripuladas por robôs, Perry?
Essa pergunta fez com que o olhar de Rhodan assumisse uma expressão dura.
A Terra vem sendo atacada há anos. Apenas, o ataque não é desfechado pelos meios convencionais, mas por meio de veneno. Será que ainda temos alguma coisa a perder, ou teremos tudo a ganhar? Sabe qual é, segundo as estimativas, o número dos viciados, só na Terra, bem visto? Ainda não se chegou a um acordo sobre se são vinte ou trinta milhões. Mais dia menos dia teremos na Terra um gigantesco exército de viciados, condenados à morte. A estes milhões foi prometida saúde e a eterna juventude; atraíram os homens por meio de uma isca da qual dificilmente escapa alguém para, em vez daquilo que lhes foi prometido, trazer-lhes a doença, o vício, a loucura, os tormentos e a morte.
Bell, vivo dizendo: respeitem a vida sob todas as formas, pois qualquer vida vem de Deus. Temos o dever de proteger todas as formas de vida.”
A estação de hiper-rádio de Terrânia transmitiu um sinal insistente, que anunciava um chamado de Atlan.
Rhodan mudou de lugar, voltando a colocar-se diante da tela.
Perry — disse a voz potente do almirante. — Às 17:20 h, tempo da Terra, a frota robotizada sairá da transição e começará a penetrar no sistema solar. As outras unidades colocadas em prontidão aguardam sua ordem para entrar em ação.
O intercomunicador berrou em meio a estas palavras. Patrício Angustos — incumbido por Rhodan de, numa ação-relâmpago bem conduzida, confiscar o liquitivo em todos os mundos do Império Solar — chegava a gritar:
Sir, acabamos de constatar que, ainda ontem, foram levados dezesseis milhões de unidades de liquitivo de Lepso para a Terra. Acontece que até o momento não conseguimos localizar esta remessa gigantesca.
Rhodan empalideceu. Fitou a tela do intercomunicador com uma expressão distraída.
Entre em contato com o Serviço de Segurança e com as unidades policiais, Angustos. O veneno tem de ser encontrado. Utilize as forças que julgar necessárias. O custo da operação não vem ao caso. Espero que o tóxico seja encontrado. Fim.
Respirou profundamente e entesou o corpo.
Você ouviu, arcônida? Dezesseis milhões de unidades entregues ontem desapareceram hoje, sem deixar a menor pista. Por que faz esse gesto?
Rhodan estava só à frente da tela.
Já estou há muito preocupado, Perry! Há menos de três horas, tempo de Árcon, meu Serviço Secreto apurou que quarenta e um milhões de garrafas de licor chegaram ao mundo de cristal. Até o momento nem uma única delas foi localizada. Nossos inimigos golpeiam em cheio. Será que isso não prova que conhecem nossos planos, ou ao menos imaginam como sejam?
Rhodan respondeu com a voz dura:
Faço votos de que sejamos subestimados em Lepso, Atlan.
Na tela viu-se que o Imperador Gonozal VIII se ergueu repentinamente. Estreitou os olhos e, a uma distância de 34.000 anos-luz, fitou seu amigo terrano. Abriu a boca para responder, mas não disse nada. Apenas acenou com a cabeça, a fim de exprimir sua concordância. Um sorriso surgiu no rosto marcante de Atlan.
Perry, acho que no momento até eu o subestimo.
Depois disso a ligação de hipercomunicação com Árcon I foi interrompida.
Mais uma vez, o destino colocara tudo nas mãos de Perry Rhodan.
O Coronel Nike Quinto, chefe da Divisão Secreta III do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, chamou pelo intercomunicador. Não estava de acordo com a proibição imediata da venda do licor, ordenada por Rhodan.
O senhor deve estar lembrado do que informam os quarenta e oito viciados em liquitivo, vindos de Lepso. A pessoa, privada do uso do licor pelo prazo de seis dias, sofre um ataque que pode levar à morte. Pelo que dizem o processo estende-se por um período de trinta dias, a partir do início do ataque até o estado de perturbação mental ou a morte.
Não se preocupe com isso, Quinto. Dentro de três dias estaremos de volta de nossa missão em Lepso. Depois disso voltaremos a conversar sobre isto, mas dentro de um círculo de pessoas qualificadas. Posso garantir que só emiti a proibição de venda do licor depois de ter conferenciado com alguns médicos. Mais alguma coisa, coronel?
O Coronel Nike Quinto apressou-se em desligar o aparelho. Entendera a repreensão que o chefe acabara de exprimir.
Rhodan voltou para junto de seus colaboradores.
A última notícia de Atlan, relativa a quarenta e um milhões de garrafas de licor, fala por si e facilita nossa decisão. Se necessário, aceitarei uma guerra galáctica. Vamos agir de modo rápido e eficaz. Não deixaremos lacunas, onde os saltadores, os superpesados e os antis possam atuar. Se os médicos galácticos resolverem tomar partido na luta, não cessarei esta, antes que tenha obrigado todos eles a tornarem-se razoáveis. Sei perfeitamente o que estou arriscando, mas se me lembro de que só na Terra já existem alguns milhões de viciados, não tenho a menor dúvida em lançar mão de todos os recursos para fazer com que nunca mais se torne possível um crime como este.
Daqui a uma hora e meia decolará a formação de nossa frota que está pousada no espaçoporto. Iremos na Ironduke, motivo por que sairemos de Terrânia três horas depois. Ainda tenho alguma coisa a fazer. Muito obrigado.”
Nunca haviam visto Perry Rhodan assim. E não gostaram de vê-lo dessa forma. Perry Rhodan transformara-se num homem que se sentia só e, em meio à solidão, tomava decisões sobre as quais normalmente teria conferenciado com seus colaboradores mais chegados.
Mas havia mais alguém que se comportara de maneira diferente da usual. Era Gucky, o rato-castor.
Aquele sujeitinho, que geralmente soltava as suas, não dissera uma única palavra, durante a reunião. E o rato-castor desapareceu pela mesma forma que viera: por teleportação.
Os colaboradores de Rhodan pararam junto ao elevador antigravitacional. Cercaram Bell, que não parava de balançar a cabeça.
Também notaram alguma coisa? — perguntou em tom contrariado.
Notamos — disse Julian Tifflor. — Perante nós, o chefe não citou o nome Thomas Cardif, nem aludiu a um certo Dr. Edmond Hugher, nem comentou nada a este respeito.
Mercant, Marshall e Deringhouse pensavam da mesma forma.
Esse rato de desenho animado, que sempre gostou de Cardif, deve estar doente, já que não deu um pio. Ou então trama mais uma das suas, para colocar-nos diante de um fato consumado. Mercant, será preferível mantê-lo constantemente sob vigilância — ordenou Bell.
Mercant soltou uma risada; parecia contrariado.
Obrigado. Devolvo esse trabalho ao senhor. De que forma poderíamos manter Gucky sob controle?
Nesse instante o ar tremeluziu, e o rato-castor apareceu. Todo convencido, ergueu o corpo entre Bell e Mercant. Os olhos ingênuos de rato exibiam um brilho de contrariedade, e sua voz estridente chiou para Bell:
Você não está em condições de instigar quem quer que seja contra mim, meu caro. E digo-lhes mais uma coisa que devem guardar bem. Thomas Cardif não pode ser condenado, sem ser ouvido. Isso não se faz, mesmo que todas as circunstâncias pareçam incriminar a pessoa. Seus fariseus!
Muito nervoso, Bell pôs as mãos no vazio.
Gucky preferira desaparecer por meio da teleportação.
Que sujeito atrevido! — exclamou o homem ruivo. — Às vezes esse ratinho de desenho animado se torna insuportável. Caramba, Mercant! Por que me olha com essa cara de quem não está satisfeito com alguma coisa? Será que passou a ser amigo do peito de Gucky?
Não é isso, mister Bell — respondeu o Marechal Solar Mercant, com a voz tranqüila. — Acontece que realmente tenho motivo para envergonhar-me. Merecemos a bofetada moral que o rato-castor acaba de nos dar.
Ah, é? — disse Bell, em tom agressivo. — Quando os vinte milhões de viciados tiverem morrido, o senhor talvez passe a usar uma linguagem diferente, Mercant. E quando isso acontecer sua opinião sobre Thomas Cardif também mudará.
Talvez, mister Bell, mas isso só depois que tiver sido provado, primeiro, que Thomas Cardif se encontra no gozo pleno de suas faculdades mentais, e depois, que, no curso dos últimos cinqüenta e oito anos, ele tenha estudado Medicina e, graças a tais conhecimentos, esteve em condições de ter uma participação decisiva na produção do liquitivo.
Bell fez um gesto impulsivo e olhou para John Marshall, esperando que este o apoiasse. Mas o telepata lançou o olhar para além de Bell.
Ah, então todo mundo é da mesma opinião que Mercant? Que interessante! Desta vez não estou disposto a acompanhá-los. Digo e repito que Thomas Cardif está por trás desse tráfico de veneno. Pouco importa que os antis o ajudem nessa atividade ou não. Se não pusermos fim à sua atuação maléfica, ainda acabará empurrando o Império Solar para o abismo. Não nos esqueçamos de que é filho de Rhodan.
Virou-se instantaneamente, entrou no elevador antigravitacional e deixou-se levar para baixo.
Quero fazer uma pergunta — disse Julian Tifflor. — Como se explica que Cardif praticamente não tenha envelhecido nesses sessenta anos? Apenas a expressão de seu rosto sofreu uma modificação que quase o torna irreconhecível!
Vivo pensando sobre isso desde o momento em que Zuglert me deu a fotografia. A mãe de Cardif era arcônida. Os arcônidas vivem mais tempo que nós, os terranos. Com isso, talvez se explique que nos últimos cinqüenta anos Cardif não tenha envelhecido, mas não sei explicar por que seu rosto está totalmente alterado, a ponto de ser feio e inexpressivo.
Será uma máscara de plástico? — perguntou Deringhouse.
Marshall foi contra essa opinião.
Isso é pouco provável, general. Até mesmo os aras recomendam que uma máscara não seja usada por mais de um ano, pois, do contrário, surgirão graves danos para os tecidos, que são praticamente incuráveis.
É possível que, atualmente, Cardif esteja bem diferente desta velha fotografia — ponderou Tifflor.
Talvez. Aguardemos a surpresa — disse Mercant, dando a perceber que não estava interessado em prosseguir na palestra.
John Marshall foi o único que caminhou pelo corredor largo. Mercant, Deringhouse e Tifflor desceram lentamente pelo elevador antigravitacional, que os levou aos andares onde ficavam seus escritórios.

* * *

Rhodan saíra de seu gabinete, e se dirigia ao setor residencial. Parou junto à janela do último andar do grande edifício da administração e contemplou a cidade de Terrânia.
É mais uma cidade de viciados”, pensou e ainda mais entristeceu-se.
Os pensamentos transformaram-se em palavras articuladas.
Thomas, estou a caminho. Você não precisará confessar nem calar coisa alguma. Nada poderá esperar de mim, uma vez que se confirmem as informações, segundo as quais você tem alguma relação com o liquitivo.
Rhodan ouviu sua própria voz e sentiu que isso aliviava sua tensão.
O trovejar dos propulsores colocados em funcionamento veio do lado do espaçoporto. Rhodan viu três cruzadores pesados subirem ao céu e desaparecerem. Olhou o relógio. Faltavam vinte e dois minutos para a hora da decolagem.
Em local um tanto afastado do grosso da frota, estava pousado o couraçado Ironduke, equipado com o mecanismo de propulsão linear. Aquela nave de oitocentos metros de diâmetro parecia insignificante ao lado dos gigantescos supercouraçados, mas os olhos de Rhodan exprimiam orgulho, enquanto fitava a Ironduke.
Era a nave mais veloz da frota de guerra solar e a primeira equipada com o fantástico mecanismo linear de hiperpropulsão. Tal aparelho permitia que o veículo espacial atingisse velocidades inacreditáveis, que excediam a da luz. Até então não se havia constatado nenhum limite para essa velocidade. Esse sistema de propulsão tinha outra vantagem: dispensava a transição e o desmaio produzido pela mesma. Assim, quando da viagem superveloz, o céu estrelado não desaparecia e a estrela, que representava o ponto de chegada, continuava visível.
Mesmo que desenvolvesse milhões de vezes a velocidade da luz, a nave linear não penetrava no espaço de cinco dimensões. Permanecia num semi-espaço instável, situado entre a quarta e a quinta dimensão.
O trovejar dos propulsores que estavam sendo aquecidos fez com que o espírito de Rhodan retornasse à cruel realidade. De repente teve a impressão de não estar só. Virou-se.
Gucky encontrava-se agachado atrás dele.
Há quanto tempo já estará aqui?”, pensou Rhodan. “Decerto leu os meus pensamentos.”
Perry, você dispensa metade do castigo se eu lhe disser que suas suspeitas têm fundamento? — piou o rato-castor e inclinou a cabeça.
O que veio fazer aqui, Guck?
Isso não soava bem. Mais uma vez Perry Rhodan deixara de pronunciar o ípsilon do nome de Gucky e, contrariando seus hábitos, não lhe dera o tratamento de tenente.
Fazia muitos decênios que o rato-castor era tenente. Outras pessoas, que obtiveram a patente na mesma época que ele, já haviam subido a escala da carreira militar, mas com Gucky isso não acontecera. Sentia-se satisfeito por ser tenente do Exército de Mutantes. Não tinha a menor ambição hierárquica e dispensava as estrelas, asas ou caudas de cometa nas ombreiras do uniforme. Quando necessário passava por cima dos seus superiores, deixava de lado tanto as normas de serviço como as vias oficiais, atendo-se exclusivamente aos fatos.
O que veio fazer aqui? — voltou a perguntar Rhodan, em tom áspero.
Queria olhar pela janela e contemplar Terrânia juntamente com você, Perry. Poderia ter escolhido um momento mais apropriado, não acha, chefe?
Não exibiu o dente roedor, o que constituía sinal evidente de não estar brincando e nem pretender fazer uma das suas.
Pois venha — convidou Rhodan, compreendendo que Gucky viera com uma intenção definida. — Mas não esmague a flor, baixinho.
Com um salto, o rato-castor colocou-se em cima do peitoril da janela. Contemplou o oceano de prédios, enquanto tagarelava:
O pedido de não esmagar a flor era dispensável. Não sou nenhum vândalo, mesmo que outras pessoas sejam fariseus.
Quem é fariseu? — perguntou Rhodan, em tom apressado.
De forma alguma essa observação do rato-castor fora largada ao acaso. Quando quis controlar os pensamentos de Gucky, Rhodan esbarrou num potente fluxo defensivo, que representava um obstáculo intransponível para suas reduzidas energias parapsicológicas.
O gorducho em primeiro lugar. Mercant, Marshall, Deringhouse e Tifflor também pertencem ao grupo. Eu até lhes disse o que eles são, Perry. Depois larguei-os por aí.
Por que você os chamou assim? — a voz de Rhodan tornou-se mais áspera.
Porque em pensamento não viram mais nada de bom em Thomas, chefe.
Hum — fez Rhodan. — Será que você imaginava que poderia fazer-me ver que Cardif é inocente?
Não — respondeu Gucky e virou-se sobre o peitoril, para fitar Rhodan. — Mas imaginei que tanto você como eu temos certa suspeita. Nessa questão de Thomas e liquitivo, algo não está certo. Perry, peço-lhe que não fique zangado comigo se eu lhe disser que, em certas considerações, vez por outra tenho sido mais inteligente que você. Você sabe perfeitamente que sei ficar calado que nem um túmulo, e também sabe que nunca usei uma boa idéia para fazer propaganda de minha pessoa. Veja...
Rhodan segurou-o firmemente pelos ombros e lançou-lhe um olhar penetrante.
Ouça, baixinho — disse em tom lacônico, mas inconfundível. — Pare de tagarelar. Diga logo por que resolveu aparecer aqui, senão eu o ponho para fora.
OK, chefe. Quem manda aqui é você, não eu.
O baixinho fitava-o ininterruptamente.
Perry, tenho um medo terrível de que Thomas esteja numa posição bastante complicada.
Você quer dizer que Thomas está por trás dessa patifaria? Se é assim, por que afirmou que o gordo e os outros são fariseus? Por quê?
Não sei. Quando li os pensamentos deles, tive uma raiva tremenda, pois formularam um juízo precipitado sobre Thomas. Não pude deixar de dizer-lhes aquilo. É o melhor meio de obrigá-los a irrigarem suas circunvoluções cerebrais.
Você acha que dessa forma pode obrigá-los a pensar?
Pode-se exprimi-lo assim. Agora ficam matutando sobre esta questão de tóxicos; desenvolvem suas reflexões num sentido e noutro. E até mesmo o gordo já chegou à conclusão de que é impossível Thomas ser responsável por tudo.
Rhodan lançou-lhe um olhar pensativo.
O baixinho viera mesmo para evitar que o pior acontecesse a Thomas Cardif.
Gucky! — exclamou Rhodan, enquanto seus olhos cinzentos chamejavam. — Será que você não se importa nem um pouco que vinte ou trinta milhões de seres humanos morram, lentamente, sob os efeitos das drogas? Como pode empenhar-se a favor de Cardif?
Naquele momento, nem mesmo Perry conseguiria abalar o rato-castor.
Perry — pediu — não viva dizendo Cardif! Ao menos diga Thomas Cardif. Afinal, ele é seu filho, mesmo que não queira usar seu nome.
Não se perca em aspectos secundários, Gucky. Formulei certas perguntas, e exijo uma resposta imediata.
Eu já lhe disse que você é o chefe... e pode olhar feio à vontade. Hoje você não me mete medo. Quer saber por que posso falar constantemente em Thomas Cardif, depois de tudo que aconteceu? Será que realmente é isso que estou fazendo? Não tento apenas preveni-lo? Perry, em geral você tem uma excelente capacidade de julgamento. Mas quando se trata de seu filho, deixa de enxergar os aspectos mais evidentes. Você seria capaz de dizer por que o Thomas Cardif dos nossos dias não tem semelhança com o de antigamente e nem com você?
Você é um sujeitinho esperto — disse Rhodan, ao notar a habilidade com que o rato-castor o colocara na defensiva.
Mas no mesmo instante seu rosto assumiu uma expressão rígida.
Gucky, o que quer insinuar com essa pergunta?
Quase chego a acreditar que Thomas foi submetido a um bloqueio hipnótico, e que a constrição exercida sobre sua pessoa conferiu-lhe ao rosto esses traços banais, feios e insignificantes. Poderá ele ser responsabilizado pelo liquitivo se realmente for assim?
Ora, Gucky, você vive tentando encontrar uma desculpa para o procedimento de Cardif — opôs Rhodan, em tom áspero.
Não! — por surpreendente que fosse, o rato-castor não fez outras observações sobre a acusação do chefe. — Apenas vivo refletindo há tempo sobre o seguinte: como poderemos localizar os impulsos cerebrais de Thomas em Lepso, caso ainda se encontre submetido ao bloqueio hipnótico? É bem possível que nem Marshall nem Lloyd consiga localizar sua pista. O que acontecerá se os telepatas ou Lloyd, o localizador, falharem?
Ainda não pensei nisso, baixinho — confessou Rhodan, prontamente. — Ainda bem que você aludiu a este ponto. Se não fossem suas ponderações, talvez iríamos desferir um golpe no vazio em Lepso. Em outras palavras, provavelmente não encontraríamos Cardif. Pelo que se diz, uma pessoa sujeita a um bloqueio constante ou temporário emite vez por outra débeis impulsos mentais. Quem pode ajudar-nos nas próximas horas são os swoons, os homens-pepino.
Ah, você se refere ao localizador individual, Perry? Trata-se de um aparelho formidável construído por nossos micromecânicos. — entusiasmou-se com suas próprias palavras, mas logo mudou de tom e disse de modo indiferente: — Se você pretende fazer Thomas passar pelo lobo carniceiro...
Que expressão é essa, Gucky? — gritou Perry, contrariado.
Estas palavras foram ditas ontem pelo representante do Administrador do Império Solar, e devo dizer que gostei delas.
Acontece que eu não gosto. Dê o fora, baixinho. Tenho o que fazer.
Oh! — exclamou o rato-castor. — Isso é formidável!
E desapareceu. Antes da teleportação, tateara em busca dos pensamentos de Rhodan e leu o seguinte: Perry Rhodan refletia sobre se uma pessoa, parcialmente hipnotizada, tem a responsabilidade plena dos seus atos.
E era isto que Gucky queria alcançar com sua visita.
3



Os olhos chamejavam no rosto ascético de Tu-Poé.
O anti caminhava nervosamente pela sala. O Dr. Edmond Hugher, sentado na poltrona, exibia um sorriso amável e tranqüilo.
Afinal, quem é esse Rhodan, Tu-Poé? Um inimigo de Baalol. Muito bem. Baalol o destruirá. Sou um homem pacato, mas quem é inimigo de Baalol é meu inimigo. Estranho muito que o senhor tenha duvidado de que minha gratidão é limitada, Tu-Poé — falou e continuou a sorrir.
Acontece que naquele dia Tu-Poé, que desde a morte de Loó-o era um dos sacerdotes mais influentes em Lepso, não suportava aquele sorriso.
A Galáxia estava estremecendo!
Dezenas de milhares de naves de guerra deviam ter entrado em transição. Os abalos anunciados pelos postos de localização de Lepso foram tão numerosos que muitas vezes a contagem falhara.
Tu-Poé e os outros servos do culto de Baalol imaginavam contra quem se dirigia a operação das gigantescas frotas. Seu serviço de espionagem no mundo de cristal falhara de uma hora para outra. Só havia uma explicação para isso. O Imperador Gonozal VIII tomara suas decisões, sem informar um único membro do Conselho de Árcon.
Acontece que, vindos do setor do Império Solar, se constataram abalos extraordinariamente violentos e freqüentes. Além das frotas de Árcon, as naves de guerra de Rhodan também participavam da ação.
Tu-Poé lançou um olhar para Hugher. O sorriso do doutor quase o deixou louco. Gritou com uma violência que Edmond nunca vira:
Não ache que isso é tão fácil, Hugher. Afinal, o senhor conhece Rhodan melhor que nós, e por isso deveria saber que nos aproximamos de uma crise.
O sorriso sonhador continuou-lhe no rosto. O médico não se abalou com a irrupção apaixonada de Tu-Poé.
Agradeço pelo elogio, Tu-Poé. Mas para mim, Rhodan não é tão importante como o senhor acaba de apresentá-lo. É um homem que apareceu e que voltará a desaparecer. Acredita que Lepso e o templo correm algum perigo?
Tu-Poé parou abruptamente à frente de Hugher.
Hugher, o que faremos para que a quantidade enorme de viciados desapareça do deserto? Onde está sua capacidade fenomenal de tomar a decisão acertada no momento adequado? — esbravejou.
O senhor está exigindo demais de mim, Tu-Poé. Sou uma criatura pacata. Enquanto minhas decisões se localizavam em determinada área, não tive a menor dificuldade em tomá-las. Agora, porém, vejo-me numa situação que não corresponde ao meu caráter.
Pare! Pare logo — berrou Tu-Poé. — Será que o liquitivo que o senhor descobriu é uma coisa pacata, ou é um entorpecente, Hugher?
A expressão sonhadora dos olhos do médico não se alterou. E o brilho vermelho também não se modificou. E o rosto largo e um tanto flácido continuou a exibir o mesmo sorriso.
Tu-Poé, o liquitivo é a espada chamejante, que, num gesto de dedicação inspirada na gratidão, coloquei nas mãos de Baalol.
O anti fitou o médico como se o visse pela primeira vez.
Hugher, ou o senhor sempre foi louco, ou então enlouqueceu nestas últimas horas — disse em tom de desespero.
Essa afirmativa não é nada amável — respondeu Hugher. — O senhor não vivia dizendo que Baalol é o único poder verdadeiro da Galáxia, e que a melhor maneira de demonstrar minha gratidão era fortalecer tal poder? E não foi isso que eu fiz quando descobri o liquitivo? Os inimigos de Baalol não se transformam em idiotas inofensivos? Por que não podem ficar no deserto? Afinal, aqui estão bem guardados.
Tu-Poé sentiu-se dominado pelo pavor. Mas naquele instante, não pensou pelos viciados sem cura que definhavam no deserto de Lepso, nem nas centenas de milhões de criaturas que o licor transformara em viciados. Naquele momento de perigo extremo, percebeu que o filho de Perry Rhodan sofria de alguma deficiência mental.
Por que não descobrimos a deficiência mais cedo?”, pensou o anti-mutante em desespero. “Por que, quando se falava em sua presença na pessoa de Perry Rhodan, nunca notamos que Thomas Cardif não reagia?
Resolveu que naquele mesmo instante faria um teste com Hugher. De tão nervoso que estava, esqueceu-se de que só havia uma pergunta que poderia levar a um resultado seguro.
Tu-Poé não perguntou: O senhor sabe que é filho de Perry Rhodan?
Nem teve esta idéia. Perguntou:
Hugher, o senhor sabe qual é a idade de Rhodan?
Sempre com o sorriso sonhador no rosto, Hugher perguntou:
Será que não poderia ter feito uma pergunta mais tola que essa, Tu-Poé? O que pretende alcançar com ela? Será que pretende negar que Rhodan descobriu o segredo da vida eterna?
Naquele instante desabou o destino, sob a forma de um aviso de emergência, que impediu que Tu-Poé formulasse a pergunta de que antes não se lembrara: O senhor sabe que é filho de Perry Rhodan?
O aviso de emergência, transmitido em elevado volume pelos alto-falantes, aludia a Perry Rhodan.
Rhodan está penetrando no sistema de Firing com uma gigantesca frota. Segue no rumo de Lepso. A frota inclui trinta supercouraçados. Cerca de uma hora-luz além da órbita do planeta exterior, verificam-se gigantescos abalos estruturais, dos quais se conclui que outras frotas estão penetrando no sistema.
Outro aviso:
As formações, cuja presença foi constatada por último, consistem em naves robotizadas do grande império.
Olhando sempre na direção do alto-falante, Tu-Poé ficou refletindo enquanto ouvia as notícias. Assim que a voz silenciou, virou-se. Assustou-se ao ver o sorriso sonhador no rosto do médico e, no mesmo instante, lembrou-se do que devia fazer numa situação crítica como esta...
Sem dizer uma palavra, saiu da sala situada no interior da pirâmide do templo, entrou no elevador antigravitacional e deixou que este o levasse ao topo da pirâmide.
Não se lembrou mais do Dr. Edmond Hugher, ou melhor, de Thomas Cardif. Um sorriso malicioso surgiu em seu rosto, enquanto estava sendo levado para cima em velocidade constante.
Era de opinião que o fim de Perry Rhodan havia chegado.
Os servos de Baalol tinham preparado tudo.
Desta vez pretendiam vencer o último round na luta contra o odiado terrano.
Quando Tu-Poé entrou no amplo salão situado logo abaixo da ponta da pirâmide, já encontrou mais de cem servos reunidos no recinto. Foi recebido por um ligeiro murmúrio. O fato de que Rhodan aparecera com sua frota sobre Lepso não deixara ninguém nervoso. E essa tranqüilidade reforçou a crença de Tu-Poé, de que o fim de Rhodan estava próximo.

* * *

A Ironduke, uma nave da classe Stardust, decolou do espaçoporto de Terrânia sob a ação dos trovejantes propulsores. Era a última nave da Frota Solar que seguia em direção ao sistema de Firing.
O comandante dessa nave, que dispunha de um sistema de propulsão linear, era o Major Jefe Claudrin, que nascera em Epsal. No momento não havia cosmonauta ou comandante melhor que ele.
Estava tranqüilamente acomodado na poltrona especialmente feita para ele, no interior da sala de comando da Ironduke, e prestava atenção ao ruído dos propulsores de impulsos. Por meio das pequenas telas do sistema de controle, verificou as instalações da protuberância equatorial, enquanto o veículo espacial esférico acelerava à razão de quinhentos quilômetros por segundo.
Em torno de Claudrin, desenvolvia-se a atividade normal que costuma acompanhar qualquer vôo espacial. Mas hoje a tensão parecia impregnar todos os recintos da Ironduke. Nem mesmo os homens experimentados, que se encontravam de serviço na sala de comando, não conseguiram escapar à mesma.
O chefe encontrava-se a bordo, e ainda Reginald Bell, Mercant, Deringhouse, Marshall com todo o Exército de Mutantes e alguns agentes especiais do Serviço de Segurança Solar.
Rhodan e Bell eram os únicos dentre eles que se encontravam na sala de comando. Os outros haviam-se recolhido aos camarotes e estavam deitados. O fato de que teriam de realizar uma ação difícil não os impedia de dormir um pouco, antes que a mesma tivesse início.

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