Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A frota
chegou. A decolagem das
naves
cargueiras está proibida...
O
Sistema Azul, um velho inimigo de Árcon e um novo inimigo da Terra,
teve de aceitar a rendição incondicional, depois da destruição
das usinas espaciais que forneciam a energia para seu campo
defensivo. Privados dessa proteção, os acônidas respeitarão a
paz, nem que seja por simples instinto de autoconservação. Quanto a
isso não existe a menor dúvida.
Também
não existe dúvida de que, face à turbulência dos últimos tempos,
Perry Rhodan e seus homens — e também Atlan — não dispensaram a
necessária atenção aos antis.
Desta
forma os antis, que se dedicavam ao culto de Baalol, disseminado por
toda a Galáxia, tiveram oportunidade de dar início à execução de
seu terrível plano...
As
investigações realizadas no planeta Lepso pelos agentes da Divisão
III evidenciaram as terríveis conseqüências que tal plano traria
para a Humanidade e outras inteligências galácticas.
Mais
uma vez Lepso, o planeta dos contrabandistas, é o teatro em que se
desenvolve a ação. Desta vez não se trata de uma ação de
agentes, mas de uma operação em grande escala da Frota Espacial
Solar, que executa O Bloqueio de Lepso...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Dr.
Edmond Hugher
— Um
sonhador que desperta.
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Jefe
Claudrin
— Comandante
da nave Ironduke.
Gucky
— Quando
os antis se protegem, até mesmo o melhor mutante fica reduzido à
inatividade!
Gal-Tam
— Primeiro-Ministro
de Lepso.
Tu-Poé
— Um
fanático.
1
O Dr.
Edmond Hugher sentia-se muito bem em sua casa. Estendido
confortavelmente na poltrona anatômica, com os pés apoiados sobre a
mesa oval baixa, tinha o número do fim de semana da Terrania Post
aberto no colo. Só se interessava pela edição de sábado, e,
dentro desta, pela seção de palavras cruzadas.
O
passatempo predileto do Dr. Hugher consistia na coleção das
palavras cruzadas, que às vezes faziam aquele homem quieto e amável
esquecer o trabalho, especialmente quando se defrontava com uma série
desses entretenimentos de primeira qualidade. Segundo sua opinião a
Terrania Post era o jornal que publicava as melhores produções no
gênero.
Já
solucionara o quebra-cabeça, com exceção de duas posições:
Horizontal,
posição 45: Engaste ornamentado do emblema, oito letras. A terceira
e a quarta letra são conhecidas: R e T.
Vertical,
posição 109: Luta islandesa, cinco letras. Apenas a terceira letra
é conhecida: I.
O Dr.
Hugher soltou um gemido sem que o quisesse. Era sempre a mesma coisa
com as palavras cruzadas da Terrania Post. Elaboravam os problemas de
tal maneira que era praticamente impossível solucioná-los, sem
recorrer ao posto central de informações do dicionário
positrônico. Acontece que isso era uma coisa que Hugher nunca fazia.
Queria resolver o quebra-cabeça usando sua própria capacidade.
— Pelos
deuses de Árcon! — exclamou. — O que será um engaste
ornamentado de um emblema? — nem se deu conta de que pronunciara
parte da pergunta em intergaláctico e parte em língua terrana. —
Como é mesmo o nome dessa luta islandesa?
Levantou
os olhos do jornal. Seus pensamentos começaram a vaguear. Teria de
liquidar hoje, sem falta, uma importante tarefa.
— Ora
veja; é isto. Cartucho! — soltou uma risada de alívio. Contou nos
dedos o número de letras da palavra cartucho. Eram oito letras. No
mesmo instante registrou a palavra na posição 45, horizontal.
Enquanto escrevia, lembrou-se do nome da luta islandesa: glima.
— Glima
— disse em voz alta. — Como fiquei conhecendo esta palavra? Por
que adquiri um domínio tão extraordinário do vocabulário terrano?
Guardou o
jornal. Começou a pensar no passado.
Estivera
doente. Mas os médicos de Árcon nunca lhe contaram qual foi a
doença de que sofrera. Repetiu o que tais médicos lhe disseram:
— “É
um verdadeiro milagre que o senhor se tenha restabelecido, Hugher.
Mas não podemos garantir que com o tempo não se manifestem certas
afecções cerebrais.”
Naquela
oportunidade não dera maior importância ao fato — isso se dera há
cinqüenta e oito anos. Seu nome era Edmond Hugher, mas será que
realmente era mesmo Edmond Hugher? Às vezes acreditava lembrar-se
dos pais ou dos irmãos, mas nunca conseguira visualizar o pai ou a
mãe. Os contornos dos seus rostos sempre lhe surgiam sem muita
nitidez. Não tivera três irmãos? Mas nem sequer sabia dizer em que
planeta nascera, e nem poderia afirmar se realmente tivera três
irmãos.
Tudo que
vivera há cinqüenta e oito anos atrás ficava envolto numa névoa.
“Onde
nasci? Não sou arcônida, ekhônida, saltador ou ara, mas pareço
ter herdado alguma coisa de cada uma dessas raças. Mas de onde
provém a outra parte do meu ser?”,
interrogava-se o Dr. Edmond.
Retirou os
pés de cima da mesa. A poltrona anatômica adaptou-se
automaticamente à nova posição.
No mesmo
instante cessaram os pensamentos martirizantes relativos ao passado.
Não se deu conta de que uma rede invisível voltara a cobrir a
fresta, que se abrira em virtude do termo glima.
Os
pensamentos do Dr. Edmond Hugher ainda se moviam no passado, mas
permaneciam na faixa dos últimos cinqüenta e oito anos.
Viu-se,
trabalhando em Zalit, de início como ajudante. Depois de algum tempo
confiaram-lhe tarefas de grande responsabilidade, mas continuou a ser
ajudante. Não progredia. Constantemente tinha arcônidas sonolentos
pela frente. Seus protestos não adiantaram nada. Não tinha meios de
impedir o funcionamento da política de favoritismo dos arcônidas.
Quando percebeu isso esforçou-se para entrar em contato com seres
não-arcônidas. Aceitou com o maior prazer a proposta de um clã dos
saltadores, que lhe ofereceu o lugar de chefe, em uma de suas filiais
planetárias.
Árcon
interpôs seu veto e destruiu o projeto. Invocaram o contrato
ignominioso pelo qual ele era obrigado a dedicar toda sua capacidade
de trabalho a Árcon, em serviços a serem executados no planeta
Zalit.
Naquela
época já sabia sorrir, como sorria hoje. Com uma amabilidade
inquietante declarou que não se lembrara do contrato, e continuou a
exercer sua atividade em Zalit com a mesma diligência de sempre.
Um belo
dia ficou totalmente perplexo ao entrar em sua residência e ver
diante de si a cópia exata de sua pessoa. De início não acreditou
em tal aparição. Numa reação natural apalpou seu segundo eu,
examinou-o de todos os lados e não pôde deixar de conhecer que a
imitação robotizada era perfeita.
À sua
frente estava sentado Loó-o, que há mais de vinte anos foi dado
como morto. Loó-o era um adepto do culto de Baalol. Recorrera ao
robô para entrar à força na residência de Hugher, e seduziu este
com a oferta de estudar Medicina no mundo central dos aras, à custa
da organização religiosa.
— Hugher,
ninguém perceberá sua ausência. Seu sósia evitará que notem sua
falta. Evidentemente não estamos agindo assim apenas por amor ao
próximo. Esperamos que, depois de concluídos seus estudos, o senhor
trabalhe para o culto de Baalol. Nós o observamos por mais de dois
anos em Zalit e controlamos discretamente seu trabalho. Edmond
Hugher, o senhor não está no lugar em que deveria estar. Nós, os
servos de Deus, queremos conduzi-lo ao lugar que corresponde às suas
faculdades naturais.
O Dr.
Hugher nunca se esquecera dessa cena. Muitas vezes sonhava com o
rosto severo de Loó-o. Depois de várias marchas e contramarchas
acabara por desaparecer com o auxílio dos servos de Deus para
aparecer em Aralon, enquanto em Zalit seu lugar era ocupado por seu
sósia robotizado.
Iniciara
seus estudos em Aralon com o sorriso encantado de uma criança.
Perseguido, durante meses, pelo medo de fracassar, vivera a medicina
sem percebê-lo. Quando ainda se encontrava no segundo ano de estudo,
foi elogiado publicamente pelo célebre hematólogo Ur-Gif.
Hugher
lembrou-se de que forma os colegas aras costumavam olhá-lo. Até
então não haviam levado a sério aquele sonhador com seu eterno
sorriso. Sempre se mantivera em posição secreta e nunca se
esforçara para chamar a atenção de quem quer que fosse. Mas agora
o professor ara, Ur-Gif, o elogiara publicamente por um pequeno
trabalho intitulado Hematofobia, Uma Repugnância Sangüínea dos
Ekhônidas. Edmond Hugher foi apresentado como um talento promissor.
Face à
sua modéstia sentira-se constrangido com o elogio. Depois disso,
seus colegas começaram a caçoar dele mais do que nunca. Esses
colegas dificilmente conseguiam estabelecer contato com aquele homem
quieto e amável. Edmond Hugher recolheu-se cada vez mais dentro de
si mesmo e passou a dedicar-se exclusivamente ao estudo.
O contrato
com os servos de Deus nunca fora interrompido. Era visitado
constantemente por Loó-o. Às vezes, este era substituído por
Tu-Poé, um servo fanático e muito jovem do culto de Baalol.
Durante
nove anos, Edmond Hugher estudara em Aralon. Um curso normal
costumava durar uns três ou quatro anos. Após realizar o último
exame especializado, viu-se diante de mais de vinte célebres
professores aralenses, que lhe manifestaram suas congratulações
pela excelente conclusão do curso. O último a apertar sua mão foi
Loó-o.
Depois
disso, Hugher permanecera por muitos anos no lugar em que se
encontrava, em Lepso, e nunca se arrependera de ter dedicado sua
atividade ao culto de Baalol.
Hugher
abandonou os sonhos, que o haviam levado ao passado, e retornou ao
presente. Riu de si mesmo, até que seu olhar caísse novamente sobre
as palavras cruzadas da Terrania Post. Ainda não registrara a
palavra glima.
— Bem —
disse, enquanto o estilete gravava as letras — essa está morta.
Gostaria de saber qual é o acaso feliz que me fez conhecer tão bem
a língua terrana. Só há uma possibilidade. Durante o ensinamento
hipnótico a que fui submetido em Aralon, devo ter travado
conhecimento com o extenso vocabulário que abrange todas as
expressões e frases terranas. Glima? É inacreditável que eu
conhecesse essa palavra. Mas o fato é que eu a conhecia, e isso me
diverte.
O Dr.
Edmond Hugher esticou os braços e bocejou gostosamente. No seu
íntimo já se deleitava com a próxima charada de palavras cruzadas
do Terrania Post.
*
* *
A
propaganda comercial estava sendo exibida pela televisão. Desde que
surgiu a televisão, existiam os comerciais. Pouco importava que o
respectivo transmissor ficasse no Império Solar ou no Império
Estelar de Árcon. As inteligências de todos os mundos habitados
eram atingidas pelo poder sugestivo da propaganda e nunca mais se
libertavam.
Mas era de
admirar que Perry Rhodan, Reginald Bell, o Marechal Solar Allan D.
Mercant e Nike Quinto, que formavam o grupo dos grandes cérebros
pensantes, se houvessem reunido para enfrentar os comerciais.
Naquele
momento estavam sendo exaltadas as virtudes do Cocã, que era um
adubo maravilhoso, de efeitos inacreditáveis. A locutora acabara de
afirmar que o produto tornava dispensável até mesmo o trabalho das
minhocas.
Nike
Quinto fez uma análise mental. Uma pessoa bela como aquela jovem,
uma pessoa que tinha um olhar tão leal, uma pessoa tão comedida nos
gestos seria incapaz de mentir.
“Caramba!”,
pensou. “Com
que habilidade são apresentadas essas mentiras.”
Bell
mantinha uma atitude totalmente defensiva. Não se entregou a
qualquer forma de análise. Limitou-se a dizer:
— Que
idiotice!
Mas aquilo
ainda não era o pior.
O anúncio
do Yttigitt
surgiu na tela. O Yttigitt não deveria faltar em nenhum lar.
“Pense
no que terá de fazer quando seu filho tiver perfurado a porta da
geladeira com um radiador térmico de brinquedo e...”
— Deverá
dar-lhe uma boa sova — esbravejou Bell. — Pela Via Láctea,
Perry! Estas coisas nos vêm sendo oferecidas há cento e cinqüenta
anos?
Mas o
locutor não deixou que a observação exaltada de Bell o
perturbasse.
“Coloque
o Yttigitt com nossa espátula especial. Já devem saber que o
Yttigitt é uma substância pensante! Depois disso, o senhor pegará
nossa pistola de pintura, regulará a tonalidade da cor, fará a
aplicação, e não restará o menor vestígio do acidente. Nem
sequer haverá necessidade de repreender seu filho. O Yttigitt
evitará que seu filho sofra o choque psicológico produzido por uma
repreensão violenta. O ouvinte deve estar interessado em que seus
filhos sejam sadios. Por isso, o Yttigitt não deve faltar em nenhuma
casa.”
— Essa
gente representa um perigo público — exclamou Bell, fora de si. —
Isso já não é nenhuma propaganda. Com essas brincadeirinhas
acabarão por deixar metade da Humanidade maluca.
— Espere
aí, gorducho — disse Rhodan. — Acho que está na hora.
A tela
mostrou o rosto de uma mulher de idade um tanto avançada. Ao que
parecia, o som fora eliminado durante esse anúncio. Mas a legenda
mencionava o nome completo da mulher e ainda informava onde e quando
a mesma nascera e onde vivia atualmente. Dali se concluía que a
eliminação do som fora proposital.
A imagem
mudou. Uma mulher jovem exibiu-se para muitos milhões de
telespectadores. Outra vez surgiu uma legenda, e esta dizia o que
todos imaginavam: era a mesma mulher, mas estava rejuvenescida, seu
rosto não tinha rugas e vendia saúde.
Seguiu-se
uma frase:
“Faça
como eu; tome liquitivo.”
Depois
apareceu uma garrafinha, que acabou por sobrepor-se ao rosto da jovem
mulher e quase ultrapassou o quadro da tela. A garrafa, desenhada com
muito bom gosto, não trazia qualquer rótulo. Nela apenas se lia, em
letras luminosas, o nome Liquitivo.
Seguiu-se
outra superposição de imagem, e as virtudes de outro produto foram
exaltadas.
Mercant
desligou o televisor.
— Então,
Mr. Bell, o senhor achou esta propaganda normal?
O homem
esquentado e atarracado lançou um olhar furioso para o Marechal
Solar Mercant. Mas, contrariando todas as expectativas, manteve-se em
silêncio.
Rhodan
pegou alguns documentos, que se encontravam sobre a mesa, e
entregou-os ao amigo.
— Isso é
para você, Bell. Para sua informação.
O primeiro
relatório fora elaborado pela sede da General
Cosmic
Company.
As linhas do texto não eram muito numerosas, mas em compensação
apresentava extensas colunas de algarismos. Aquilo era um símbolo
frio e objetivo das quantidades de licor liquitivo que haviam sido
importadas pelo Império Solar nos últimos anos.
Quando
largou a folha, a mão de Bell tremia ligeiramente.
O segundo
relatório era um documento oficial. Continha um resumo das
declarações mais importantes, formuladas pelos quarenta e oito
seres humanos, libertados no planeta Lepso. Junto a muitos dos nomes
havia uma cruz. Tratava-se de pessoas falecidas.
Bell
sentiu que estava sendo atentamente observado por Perry Rhodan, e
também por Mercant e Nike Quinto.
“Tomei
o licor pela primeira vez em fins de 2.090 ou no início de 2.091.
Depois da terceira dose percebi que, além de adquirir um aspecto
juvenil, notei um rejuvenescimento psíquico. Por isso passei a tomar
regularmente o licor, de dois em dois dias. Sou médico, e realizei
observações em minha pessoa pelo espaço de dezesseis meses. Como
depois desse tempo não notasse o menor efeito colateral, passei a
recomendar o liquitivo aos meus amigos e conhecidos, apresentando-o
como um preparado inofensivo, que produzia uma intensa ativação e
regeneração celular.”
Bell já
conhecia parte das declarações, mas resumidas como estavam assumiam
subitamente o aspecto de uma ameaça invisível. Todas as vítimas
haviam feito a mesma observação: tratava-se de um produto
totalmente inofensivo, que não causava o menor efeito colateral, do
qual resultava um espantoso rejuvenescimento.
Na
terceira e quarta folha estavam registrados os resultados dos exames
realizados por mais de vinte clínicas. Bell estacou ao ler a data em
que certo relatório fora entregue pela clínica, mas deixou de
comparar tal data com as dos demais relatórios, motivo por que não
notou que todos os relatórios haviam sido elaborados há vários
anos.
Depois de
percorrer metade do relatório, colocou os documentos sobre a mesa e
disse em tom de desânimo:
— Já
não compreendo mais nada. Como é que as clínicas podem afirmar que
o licor é um excelente preparado rejuvenescedor, totalmente
inofensivo, se em Lepso recolhemos quarenta e oito ruínas humanas,
todas viciadas pelo liquitivo? A contradição não quer entrar na
minha cabeça. Será que o liquitivo fornecido ao Império Solar não
é aquele vendido nos outros mundos?
Nike
Quinto respondeu:
— Já
verificamos este ponto, mister Bell. Fomos ainda mais longe.
Realizamos exames comparativos, submetendo o material a outro
controle químico rigoroso. Refiro-me ao material que constituiu
objeto do exame realizado pelas clínicas, no curso de dois anos.
Depois disso pegamos duzentas garrafinhas de dois centímetros
cúbicos, vindas na última remessa, e também as examinamos. O
resultado foi consignado na última página: o liquitivo, que vem
sendo remetido à Terra nos últimos anos, é o mesmo produto vendido
em outros mundos. A composição química é uma só.
— Hum —
resmungou Bell com o rosto contrariado. — Se a maior parte dos
quarenta e oito viciados não tivesse morrido sob nossas mãos, diria
que nem vale a pena falar sobre esta droga. Admitamos, porém, que as
declarações são verdadeiras. Por que nunca fizeram uma experiência
com seres humanos que consomem o licor há vários anos? Bastaria
privá-los da bebida durante alguns meses e observar os resultados.
Se não surgissem sinais de dependência, já teríamos avançado um
pedaço.
Um sorriso
amargo surgiu no rosto de Perry Rhodan.
— Isso
já foi feito há muito tempo, Bell. Acontece que esta bula acompanha
cada frasco de licor. Leia-a, e você compreenderá por que até hoje
não surgiu nenhum voluntário disposto a submeter-se à experiência.
Entre
outras coisas, Bell leu o seguinte:
— “Alertamos
o consumidor para que não deixe de beber por muito tempo o
liquitivo, pois qualquer interrupção representa um risco para o
processo de rejuvenescimento. A ocorrência de outros danos à saúde,
porventura resultantes da interrupção, dependerá da constituição
orgânica do indivíduo.”
Por causa dessa advertência não surgiu nenhum voluntário?
Quinto
confirmou com um gesto. A estação de hiper-rádio chamou.
Transmitiu um sinal de urgência, que indicava que Atlan, ou seja, o
Imperador Gonozal VIII, desejava manter uma palestra com Perry
Rhodan. O sinal não representou nenhuma surpresa, pois fazia apenas
dez minutos que Rhodan pela primeira vez chamara a atenção do
arcônida para o misterioso liquitivo.
O rosto
inteligente do arcônida surgiu na tela ligeiramente abaulada. Logo
ao primeiro lance de olhos, Atlan notou quem eram as pessoas que se
encontravam em companhia do Administrador do Império Solar. Depois
de um ligeiro cumprimento passou diretamente ao assunto.
— Perry,
não sei mais o que fazer diante de tantas notícias alarmantes.
Quando mandei irradiar a mensagem, para todos os mundos do Império
de Árcon, não contava com o que poderia advir. Acontece que as
notícias que estamos recebendo retratam uma verdadeira catástrofe.
Não cometo nenhum exagero ao afirmar que meu império estelar está
contaminado pelo liquitivo. Os receios, que você manifestou por
ocasião de nossa última palestra, já representam uma realidade.
“Em
muitos mundos coloniais, que não são visitados regularmente pelas
espaçonaves, a situação é calamitosa. Nestes mundos o vício do
licor assumiu proporções que me dão calafrios. O planeta 0,56 do
mundo de Fal, por exemplo, informa que na última semana houve
duzentos e dezoito óbitos, precedidos de alucinações, delírios
violentos e de uma acentuada decadência orgânica. Vinte por cento
da população do planeta, que chega a cerca de três milhões de
habitantes, pedem aos berros que lhes dêem a droga.
“Isto
apenas representa um exemplo, Perry. E, a esta hora, já poderia
citar centenas de exemplos deste tipo. Dirigi uma indagação ao
grande centro de computação. Este não forneceu nenhuma informação.
Coloquei os aras em estado de alarma e com eles tive uma conversa
mais que franca. Afirmam que se encontram diante de um mistério, e
existe uma circunstância que parece confirmar suas declarações. O
vício do licor também existe nos mundos pertencentes aos médicos
galácticos, com a única diferença: nesses mundos ainda não se
verificou nenhum óbito.
“Sinto-me
cada vez mais inclinado a concordar com sua suspeita de que nos
encontramos diante de um atentado praticado pelos antis, os adeptos
do culto de Baalol. Neste caso não seria esta a primeira vez que
Lepso, o planeta dos atravessadores e falcatrueiros, constitui um
perigoso fator de perturbação. No entanto, não será nada fácil
provar que aquilo que os antis vendem não é um simples preparado
biológico, mas sim um tóxico. Conforme apurou meu Serviço Secreto,
Lepso não é o único mundo do qual é expedido o liquitivo.”
— Atlan,
quantos locais de distribuição foram identificados no interior do
grupo M-13? — perguntou Perry Rhodan.
— Por
enquanto meu Serviço Secreto constatou a existência de três
entrepostos. Talvez o liquitivo seja trazido diretamente de Lepso,
Perry. De outro lado, porém, também é possível que a droga seja
fabricada num mundo que ainda não conhecemos. Ainda não estou
informado dos possíveis desdobramentos da situação. Seja como for,
concordo com seu plano de recorrer a formações maciças de nossas
frotas, a fim de bloquear os mundos mais importantes de nossos
impérios estelares, impedindo que neles seja introduzida uma única
garrafa de liquitivo.
— O
Serviço de Segurança Solar elaborará a curto prazo um plano
detalhado para a área de influência terrana, plano este que será
apresentado a você. Eu mesmo cuidarei do planeta Lepso, caso isso se
torne necessário. Quais são os resultados das investigações
relativas ao outro ponto, Atlan?
Reginald
Bell, Mercant e Nike Quinto já esperavam por essa pergunta.
— Nada
de importante, bárbaro — respondeu Atlan, que se enontrava no
mundo de cristal, situado a 34 mil anos-luz. — Cardif continua em
Zalit e desempenha suas funções de ajudante. Não está satisfeito
com a informação que acabo de dar, Perry?
Rhodan
fitou o arcônida com uma expressão séria.
— Atlan,
eu gostaria de dar-me por satisfeito com a notícia que você acaba
de dar, se um certo doutor Armin Zuglert não nos tivesse falado de
um homem sorridente, sempre amável, que encontrara em Lepso. Esse
homem usa o nome Edmond Hugher e serve aos sacerdotes. Há mais de
doze anos, ele declarou ser cientista, e ter realizado trabalhos com
o licor.
— Estes
fatos já são do meu conhecimento, Perry — respondeu Atlan.
O
imperador deu mostras de seu espanto. Até então poucas vezes notara
uma forte exaltação interior em Rhodan, e quando isso acontecia, a
causa sempre fora seu filho Thomas Cardif.
— Além
disso, tenho uma cópia do retrato que mostra um homem que sorri
amavelmente. Perry, você receia que esse homem possa ser seu filho,
não é? Peço-lhe, porém, que examine esta foto.
A tela
mostrou o rosto de um homem, aparentando pouco mais de trinta anos.
— Perry
— disse a voz transmitida pelo telecomunicador. — Este é seu
filho, que há cinqüenta e oito anos trabalha no planeta arcônida
de Zalit e vem sendo vigiado. Isso o deixa mais tranqüilo?
Além de
Rhodan, Bell, Mercant e Quinto viram a foto. A pessoa representada na
mesma já não apresentava a espantosa semelhança com o pai, mas os
traços inconfundíveis daquele rosto pareciam dizer: eu sou o filho
de Perry Rhodan!
O retrato
continuava a ser mostrado na tela.
— Perry
— voltou a falar Atlan — alguém me explicou por que essa
semelhança espantosa entre você e Thomas desapareceu quase por
completo no curso dos decênios. A modificação artificial da
personalidade fez dele um homem completamente novo. Depois de
decorridos cinqüenta e oito anos, um sorriso sonhador passou a
surgir cada vez mais nítido em seu rosto. Já a foto que você me
mostrou, e que representa um certo Doutor Edmond Hugher, é de uma
pessoa estranha. Não compreendo como Mercant tenha afirmado, depois
de um ligeiro exame dessa foto, que a mesma retrata Thomas Cardif.
Esse rosto inexpressivo, superficial, que exibe constantemente um
sorriso estúpido, não apresenta qualquer traço que represente o
menor indício de uma relação de parentesco com você.
A foto
desapareceu da tela, e o Imperador Gonozal VIII voltou a
presentificar-se.
— Vejo
que você se envolve em silêncio, amigo. Pois bem. Quero chamar sua
atenção para o fato ao qual, no meu entender, você não atribuiu a
importância que o mesmo merece.
— Perry,
não se esqueça de que a personalidade de seu filho foi modificada
por um psicolador arcônida. E uma modificação desse tipo nunca é
passível de regressão. Mesmo depois de cem anos continua tão
pronunciada como no primeiro dia. Pelos deuses de Árcon, por que
estou falando tanto, Perry? Desde o bloqueio, seu filho vive em
Zalit. Meu Serviço Secreto e seu Serviço de Segurança o mantêm
constantemente sob observação, e isto prova que Thomas não saiu do
planeta de Zalit e ainda hoje continua por lá.
A fim de
aproximar-se de Rhodan e dizer-lhe alguma coisa relativa ao assunto,
Mercant levantou-se. Naquele momento, Bell segurou o marechal solar e
cochichou-lhe algo.
— Não é
necessário, Mercant. Perry continua desconfiado e cético. Ouça o
que está dizendo a Atlan.
— Atlan,
bem que eu gostaria que você tivesse razão. De qualquer maneira
peço-lhe que envie um comando especial a Zalit, para que examine
Thomas, aplicando os padrões mais rigorosos. Faço-lhe este pedido
como amigo.
— Que
droga! — esta expressão do arcônida provava que o agora Imperador
Gonozal VIII vivera por muito tempo entre os terranos. — Perry,
você com sua obstinação conseguiu que até eu me sentisse
inseguro. Está bem. Mandarei submeter Thomas a um exame, conduzido
segundo todas as regras da arte médica. Oportunamente lhe
comunicarei o resultado. Aguardo o plano de seu Serviço de
Segurança, relativo ao bloqueio. Quero adaptar minha atuação ao
mesmo. Aliás, no sistema solar ainda continua a ser feita a
propaganda do liquitivo pela televisão?
— Continua,
arcônida. Mas no momento em que anunciarmos o bloqueio e fecharmos o
anel em torno dos vários planetas de tal forma que nem mesmo um caça
de um só tripulante consiga passar, acabará.
— Nesse
caso agirei da mesma forma.
A
transmissão de hipercomunicação chegou ao fim. Rhodan voltou ao
seu lugar.
— Mercant
— disse, dirigindo-se ao marechal solar. — Mostre-me mais uma vez
a foto que lhe foi entregue por Zuglert.
Mercant
abriu uma pasta, tirou a foto e entregou-a ao chefe.
Nos
últimos dias, Perry Rhodan examinara essa foto vezes sem-número, e
vezes sem-número sentira-se torturado pela dúvida.
Um homem
com as feições um tanto apagadas, um homem que tinha um rosto
inexpressivo e flácido, que sorria, fitava Rhodan. O retrato não
mostrava um semblante de traços marcantes, e parecia não ter a
menor semelhança com seu filho.— Mercant, este retrato já me
trouxe muitas horas de preocupação. Vivo perguntando o que levou o
senhor a afirmar que este é meu filho. O senhor disse que não pode
explicar por que motivo fez essa afirmativa. Aceito isso. Às vezes,
a mesma coisa acontece comigo — devolveu a foto com um gesto de
desolação. — Mas aqui não consigo acompanhá-lo. Não consigo
estabelecer contato com o homem que se encontra neste retrato. Em
compensação sinto uma inquietação que nunca senti. Mercant,
elabore o plano do bloqueio. Peça a Freyt que lhe ajude. O plano tem
de ficar pronto até hoje de noite. Quanto mais cedo agirmos, mais
vidas humanas poderemos salvar. Coronel Quinto, ainda preciso falar
com o senhor. Bell, quero que você esteja presente durante a
palestra. Mais alguma coisa, Mercant?
— Sim,
senhor.
Mercant
levantou-se e pegou os documentos que trazia. A foto de Hugher caiu
sobre a mesa. Segundo as declarações de Zuglert, um homem condenado
à morte, Dr. Edmond seria um cientista que trabalhava em Lepso e um
especialista no licor liquitivo.
— Um
momento! — gritou Rhodan. — Não se mexam! Fiquem onde estão.
Nenhum
daqueles três homens sabia quais eram as intenções do chefe.
Notaram que fitava intensamente a foto. Dali a pouco aproximou-se
lentamente da mesa.
— Desapareceu!
— disse.
Num gesto
preocupado passou a mão pela testa. Pegou a foto, entregou-a a
Mercant e completou:
— Mercant,
já compreendo como o senhor à primeira vista pôde reconhecer
Thomas nesta foto. Também acabo de reconhecê-lo. Isto mesmo, eu o
reconheci de relance. Mas quando me aproximei alguns milímetros,
voltei a enxergar um rosto desconhecido. O que é que o senhor
pretendia dizer, Mercant? Eu o interrompi.
Rhodan
recuperou-se do choque mais rapidamente que os outros. Bell fitou-o
com os olhos arregalados e nem se deu conta de que seu gesto exprimia
o desejo de que Perry estivesse enganado.
— Sir,
eu gostaria que o senhor pedisse ao centro de computação de Árcon
III que nos fornecesse todas as informações disponíveis sobre o
planeta Lepso, situado no sistema de Firing. Era só.
— Dentro
de uma hora terá todos os dados, Mercant. Coronel, queira
acompanhar-me. Você também, Bell.
Rhodan
caminhou à frente dos outros. Mercant saiu por outra porta. Não
estava pensando na tarefa que teria de cumprir. Ainda se sentia
abalado pelo fato de que o chefe também reconhecera o filho naquela
foto.
*
* *
O Dr.
Edmond Hugher saiu de sua residência, que ficava numa das
extremidades do edifício retangular, e dirigiu-se à rua. Continuou
caminhando lentamente em direção ao templo em forma de pirâmide,
que se distinguia no centro da cidade templária como um gigantesco
monumento, e constituía prova evidente de que a seita, que praticava
o culto de Baalol, dispunha de recursos financeiros consideráveis.
Hugher
nunca se interessara por essa doutrina. Não sabia nem se tinha
religião; se era um ateu ou um crente; adepto de uma seita ou um
homem que se mostra totalmente indiferente, diante de qualquer
professar religioso. Acontece que, para ele, seu trabalho
representava uma missão que tinha de cumprir, a fim de desvendar os
mistérios da natureza.
Nem mesmo
Tu-Poé, o fanático, fizera a menor tentativa de convertê-lo num
adepto do culto de Baalol. No entanto, este vivia procurando Hugher,
com a intenção de informar-se sobre o andamento de suas pesquisas.
Tu-Poé
não era apenas sacerdote; também era médico. No entanto, não
dispunha daquela intuição que muitas vezes permitia que Hugher
resolvesse os problemas com uma segurança de sonâmbulo,
reduzindo-os à sua expressão mais simples.
Aquele
homem quieto e amável, com o sorriso eterno do rosto, o Dr. Edmond
Hugher, representava a pessoa mais importante da zona templária,
depois dos sacerdotes.
Hugher
passou lentamente pelo templo, cumprimentando amavelmente as pessoas
que avistava. Eram quase todos seus conhecidos, mas nenhum deles era
seu amigo. Não sentia a menor necessidade de ter amigos. Levava a
mesma vida retraída que levara em Aralon.
No
entanto, sua posição e seu trabalho formavam um contraste
formidável com sua vida privada.
Era o
chefe da Divisão Médica, e também do setor de produção
farmacêutica. Distribuía as tarefas e supervisionava sua execução.
Da área templária não saía nenhum produto que não tivesse sido
liberado por ele.
Trabalhava
com a precisão de um equipamento de controle positrônico. Sua visão
de conjunto, tanto na área médica como na tecnológica, era
fenomenal.
Não havia
na cidade templária nenhum ser inteligente que já tivesse visto o
Dr. Hugher zangado ou exaltado. Aquele homem distinguia-se por uma
amabilidade constante.
Hugher
tinha outra qualidade notável. Era a gratidão para com os antis,
que o haviam ajudado a sair do planeta de Zalit e a tornar-se um
médico em Aralon.
Sua
gratidão não conhecia limites; para ele, tornar-se médico foi mais
importante que qualquer outra coisa. E, no seu subconsciente,
refugiara-se numa relação de dependência e se envolvera numa ética
das aparências, segundo a qual vivia dizendo a si mesmo que os antis
agiam corretamente e que como médico lhe cabia cumprir as ordens dos
mesmos.
Entrou em
seu laboratório com um cumprimento amável. Dois sacerdotes
levantaram os olhos do trabalho, que estavam executando, e
retribuíram o cumprimento.
Acomodou-se
tranqüilamente atrás da escrivaninha. Passou os olhos pelas folhas
de plástico, bem arrumadas à sua frente. Reconheceu à primeira
vista o que era mais importante, a fim de armazenar essa matéria
para todo o sempre em sua mente.
O Dr.
Edmond Hugher nem desconfiava de que havia na Galáxia outro homem
que tinha a capacidade de extrair ao primeiro relance de olhos, o que
existia de mais importante numa série de documentos e conservá-lo
na memória: era seu pai, Perry Rhodan, Administrador do Império
Solar.
Olhou para
U-Za.
— U-Za,
os carregamentos 10.X-399 a 11.X-999 devem ser colocados a bordo
dentro de duas horas e terão de chegar à Terra hoje de noite.
O
sacerdote lançou-lhe um olhar de perplexidade. Ao que tudo indicava,
acreditava não ter ouvido bem. Cada carregamento de liquitivo — e
Hugher só poderia ter aludido ao licor porque, como de costume,
deixara de mencionar o preparado — era formado de mil garrafas de
dois centímetros cúbicos. Dessa forma a quantidade a ser remetida à
Terra compreenderia dezesseis milhões de unidades standard. Esse
número correspondia a oitenta por cento de seu estoque.
— T-Moll
— disse Hugher em tom amável, dirigindo-se ao outro sacerdote. —
Faça o favor de entrar em contato com Tu-Poé e exponha-lhe o caso.
Quer fazer o favor de ficar com esta folha?
T-Moll
ainda não sabia a respeito de que assunto deveria falar com Tu-Poé,
o fanático. Mas bastou que lançasse um olhar mais detido para a
folha, a fim de que compreendesse a enorme importância da missão.
— T-Moll,
faça o favor de entrar em contato comigo, usando o aparelho de
Tu-Poé, assim que tiverem concluído a palestra.
Enquanto
fazia esta advertência, Hugher sorria, mas já ia calculando
mentalmente, a fim de verificar quanto tempo levaria para restaurar o
estoque de reserva de liquitivo, constituído de vinte milhões de
unidades standard.
Enquanto
isso, U-Za entrou em contato com o espaçoporto central de Lepso. O
rosto encarquilhado de um velho saltador surgiu na tela. O mercador
galáctico esboçou um sorriso de satisfação ao ouvir a ordem de
U-Za.
— Enviarei
imediatamente alguns planadores de carga — disse com a voz
profunda. — Acho que cinqüenta desses veículos, com uma grande
capacidade de carga, devem ser suficientes.
U-Za fez
um cálculo rápido.
— Mande
sessenta planadores de carga, Singoll. Será mais seguro. Qual das
suas naves levará a carga à Terra?
— A Sin
XI, que é a mais nova das minhas espaçonaves. Ainda não tem um ano
— respondeu o chefe dos saltadores, em tom de orgulho. — Farei o
transporte pela tarifa D. Não posso fazer mais barato.
Os
saltadores sempre foram bons comerciantes, e não hesitavam em
explorar vergonhosamente os adeptos do culto de Baalol.
A tarifa D
era a mais cara. U-Za protestou imediatamente, mas Hugher interveio
com um sorriso amável e, sentado junto à sua escrivaninha, gritou
para o sacerdote:
— Aceite
a tarifa D, U-Za. Peça ao saltador Singoll que prepare imediatamente
os documentos de carga e nos remeta os mesmos pelo rádio.
Levantou-se
e mais uma vez olhou para além do rosto surpreso de U-Za.
— Irei
ao setor de acondicionamento, U-Za. Se alguém precisar de mim,
poderei ser encontrado no setor F-54. Faça o favor de transmitir à
central a notícia de meu deslocamento e dê meus cumprimentos ao
chefe saltador Singoll.
Apesar de
seu gênio amável, o Dr. Edmond Hugher não tinha um único amigo.
Saiu tranqüilamente e, sem demonstrar uma pressa excessiva,
dirigiu-se ao setor F-54, onde vinte e oito séries de autômatos,
cada uma formada por trinta unidades, enchiam a cada segundo dez
garrafas de licor, e as fechavam, contavam e acondicionavam nas
caixas de plástico, que passavam pelas fitas transportadoras.
O chefe do
setor F-54 era Magitt, um homem de aspecto sombrio vindo de Zalit, um
planeta arcônida. Quando reconheceu o Dr. Hugher cumprimentou-o com
uma estranha cortesia, mas não modificou a expressão sombria de seu
rosto. Hugher prosseguiu sem deter-se junto ao zalita, puxou de cima
da fita transportadora três das caixas de plástico, que acabavam de
ser fechadas, e retirou uma garrafa de licor de cada uma das mesmas.
Depois colocou outra vez as três caixas abertas em cima da fita
transportadora e seguiu despreocupadamente.
Chegando
ao fim da fita transportadora, saiu por uma porta depois de abrir a
trava de segurança, usando uma complicada chave magnética. A porta
fechou-se atrás dele com um leve chiado. Hugher encontrava-se só em
seu pequeno laboratório. O equipamento do mesmo destinava-se
exclusivamente ao controle de qualidade do licor.
Hugher
realizou o exame da primeira garrafa com a concentração de um homem
convencido da importância do trabalho que está realizando. Moveu
uma chave, fez alguns ajustes, observou um aparelho de medição de
ondas e depois dedicou sua atenção a um contador. Quando este
parou, leu duas fileiras de números iguais.
O segundo
e o terceiro exame foram realizados na mesma seqüência. Depois
disso, Hugher saiu da pequena sala, voltou a entrar no setor F-54 e
dirigiu-se a Magitt.
— Magitt,
faça o favor de deixar funcionar todas as séries no nível oito.
Até amanhã de manhã precisamos ter em estoque mais dezesseis
milhões de unidades.
O zalita
estremeceu ligeiramente.
— Esta
produção se destina à Terra, doutor Hugher?
— Naturalmente,
meu caro Magitt. Pois, no momento, é o negócio que está dando. Tem
alguma preocupação?
— Não
tenho preocupações, mas o caso é que não tenho garrafas. Se
regulo no nível oito, dentro de três horas tudo cessará. A remessa
de garrafas só chega a Lepso hoje de noite, e, depois disso, ainda
nos restará ter de transportá-las para cá.
— Sinto
muito pelo senhor, Magitt — respondeu Hugher, em tom extremamente
amável. — Com isso, o senhor cometeu uma infração contra as
normas de estocagem, e fico muito triste por ver-me obrigado a
comunicar o fato à direção central. Não é a quarta vez que
desobedece às minhas instruções? Magitt, o senhor pode ter certeza
absoluta de que ser-me-á muito difícil cumprir meu dever, porque
isso lhe causará problemas. Desejo-lhe um bom trabalho.
O Dr.
Edmond Hugher saiu do setor F-54 com a mesma tranqüilidade com que
havia chegado. Mal a porta fechou-se atrás dele, o zalita praguejou
violentamente, concluindo com uma ameaça:
— Quem
dera que aparecesse alguém que torcesse o pescoço deste risadinha!
Hugher
voltou ao seu laboratório. Viu à sua frente os conhecimentos de
carga do saltador Singoll, transmitidos pelo rádio. Mais uma vez,
aquele homem sorridente examinou tudo num só relance, empurrou os
papéis para a direita e, apertando uma tecla, imprimiu neles o
sinete luminoso. Com isso, o contrato de carregamento fora concluído,
e os dezesseis milhões de unidades de licor praticamente já se
encontravam na Terra.
— U-Za —
disse Hugher, dirigindo-se a seu colaborador. — Avise a direção
central de que pela quarta vez Magitt não cumpriu as determinações
relativas à estocagem. Depois disso chame o terceiro planeta do
sistema Go-123. Peça que o liguem com Algo-Essa. Peça-lhe que faça
chegar aqui, dentro de cinco horas, tempo padrão, cinqüenta milhões
de garrafas de plástico. Neste caso, o custo do transporte não
assume a menor importância.
— Não
assume a menor importância? — procurou certificar-se U-Za.
— Isso
mesmo; não assume a menor importância — respondeu o amável
doutor.
Em seus
olhos vermelhos de arcônida surgiu um brilho que U-Za nunca
observara naquele homem.
T-Moll,
que se encontrava em companhia de Tu-Poé, chamou.
— Discuti
todos os detalhes com Tu-Poé, doutor. Concorda com seu plano de,
antes do bloqueio, inundar o mundo de cristal com uma grande remessa
de liquitivo. A medida mereceu os aplausos do Conselho. Querem que o
senhor dirija tudo pessoalmente, sem considerar os custos. Tu-Poé
gostaria de saber quando o liquitivo poderá ser entregue em Árcon
I.
— Amanhã
ao meio-dia, tempo padrão de Lepso, T-Moll!
Até mesmo
na voz de Hugher havia um tom sonhador, mas seus pensamentos não
sonhavam. Viu diante dos olhos de sua mente como as coisas se
encaixavam, e seu plano se completava. As medidas de proteção dos
terranos e arcônidas chegariam tarde.
Não teve
pena deles. Afinal, sempre foram inimigos do culto. Seriam atingidos
em cheio pela vingança, e Edmond Hugher sentiu-se feliz por ter
fornecido o instrumento dessa vingança aos sacerdotes de Baalol.
No mesmo
instante esqueceu tanto os terranos como os arcônidas. No fundo não
se interessava por esses povos. Queria mergulhar totalmente no
trabalho, a fim de demonstrar sua gratidão aos sacerdotes, já que
foi só graças a eles que se tornara médico.
Olhou pela
janela. Seu olhar perdeu-se pelo deserto, mas ele não o viu. Sonhava
com os olhos abertos. Procurou imaginar a Islândia, onde existia uma
luta livre denominada glima...
2
O segundo
planeta do sol amarelo de Firing, denominado Lepso, era o Eldorado
dos traficantes, estelionatários e negocistas.
Este
planeta, que sempre soubera conservar a independência,
vangloriava-se de ser o mais liberal de toda a Galáxia, e muitos dos
clãs mais novos dos saltadores confirmavam isso.
Havia uma
circunstância inexplicável. No interior do Império de Árcon havia
muitas potências, grupos de interesses e inteligências muito
influentes que mantinham sua mão protetora sobre Lepso e cuidavam
com olhos de lince, para que a autonomia e a independência desse
mundo não fossem violadas.
O
computador-regente desalmado dissera, em sua informação sobre
Lepso, que se tratava de um centro de grupos de poder e, com base em
exemplos, mostrara quantos procedimentos criminosos tiveram seu
início naquele mundo. Até então nem mesmo Árcon conseguira
remover este centro de infecção, e o mundo de Lepso sentia-se mais
forte do que nunca.
Em nenhum
lugar havia um contingente tão numeroso e estranho de mestiços como
aqui. Ninguém se admirava com isso, a não ser as pessoas que pela
primeira vez punham os pés em Lepso. Nesse mundo as cargas eram
desviadas, confeccionavam-se conhecimentos de embarque com toda a
aparência de genuínos, imprimia-se dinheiro falso, os manifestos de
carga eram falsificados.
Mas Lepso
não era apenas o solo em que melhor se desenvolviam as criaturas que
costumam viver na penumbra. Também era um gigantesco centro
distribuidor de mercadorias. Os espaçoportos enfileiravam-se um ao
lado do outro. Havia inúmeros estaleiros para reparos. Neste mundo
não se lançavam novas naves. Mas a pessoa, que não pudesse
aparecer em qualquer mundo de Árcon se não quisesse ser presa,
poderia vir a este mundo e aguardar tranqüilamente o dia em que sua
espaçonave fosse colocada em condições de navegar pelo espaço,
desde que dispusesse de bastante dinheiro.
Havia um
número impressionante de naves dos aras e de veículos espaciais
cilíndricos dos saltadores. Até mesmo os superpesados pareciam
apreciar este mundo, em que costumavam fazer escala para combinar as
ações guerreiras a serem empreendidas e negociar o respectivo
preço.
Os adeptos
do culto de Baalol submergiam por completo em meio a esta confusão
de raças. Quase nunca apareciam e raras vezes interrompiam a vida
solitária que levavam na quietude da área templária, situada nos
confins do grande deserto.
O centro
robotizado de informações nem sequer mencionava suas presenças;
apenas aludia ao templo da seita. Perdia apenas uma frase com o
assunto.
Mercant,
que examinou pela segunda vez o extenso relatório, estacou de
repente. Dirigiu-se a John Marshall, que aparecera há uma hora
apenas para cumprimentar o Marechal Solar Allan D. Mercant, mas ainda
continuava sentado em sua poltrona.
— Olhe
estes números, Marshall! Não tenho o menor motivo para dizer que
sejam falsos. Mas deles se depreende que há constantemente oito a
nove mil espaçonaves que permanecem por pouco tempo nos espaçoportos
de Lepso. Sabe lá o que são oito ou nove mil naves, John? Basta
calcular o que isso representa em taxas de pouso, de permanência e
de decolagem. Basta que cinqüenta por cento dessas oito ou nove mil
naves consista nas espaçonaves cilíndricas, teremos diante de nós
um potencial de luta equivalente a quatro mil cruzadores pesados de
nossa frota.
John
Marshall balançou a cabeça com tamanha energia que Mercant calou-se
de espanto.
— Sua
conta não está certa, marechal solar. O senhor apenas se baseou no
número de naves, que, em dado momento, se encontram em Lepso. Resta
saber quantas unidades poderão aparecer em Lepso dentro de uma, duas
ou dez horas.
Mercant
sorriu.
— Nunca
teria deixado de considerar este ponto, meu caro. Mas se não fosse
sua objeção não teria cogitado mais do problema. Se partirmos do
pressuposto de que nos veremos diante de quatro mil naves armadas,
terei de cumprir uma tarefa nada agradável. Serei obrigado a
comunicar ao chefe que nosso plano é inexeqüível na forma
prevista. Marshall, o senhor conhece Rhodan quase há tanto tempo
quanto eu, e por isso sabe o que ele dirá. Atlan, que dispõe da
frota robotizada de Árcon, será o único que poderá ajudar-nos. O
que houve com o senhor?
A
expressão do rosto de John Marshall modificara-se de um instante
para outro. Mercant sabia o que significava isso. O mutante estava
recebendo uma mensagem telepática, ou então se insinuara nos
pensamentos de outrem.
A
paciência de Allan D. Mercant foi submetida a uma prova muito dura.
Os minutos foram passando, e Marshall continuava a escutar. Suas mãos
nervosas revelavam que estava captando informações da maior
importância. Ao notar o suor que porejava na testa do telepata,
Mercant sentiu-se preocupado. Compreendeu que não podia tratar-se de
uma notícia alarmante do tipo das que o chefe dos mutantes costumava
receber graças às suas faculdades paranormais.
O que
seria?
John
Marshall saiu do quase-transe com a respiração difícil, voltando
ao dia-a-dia normal.
— Mercant!
— exclamou. — O Thomas Cardif, que se encontra no planeta
arcônida de Zalit, é um robô de construção não-arcônida.
O rosto de
Mercant pareceu estupefato pelo espaço de dez segundos.
— Eu
sabia — disse num cochicho. — Eu sabia desde o momento em que
pela primeira vez olhei aquela fotografia. O que será agora,
Marshall?
Aquela
pergunta do marechal solar não era igual a qualquer outra. Se havia
uma indagação que tinha sua razão de ser era esta.
Mercant
também enxugou o suor da testa. Quando se dirigiu a Marshall,
parecia desesperado.
— Atlan
ainda está falando com o chefe. Só entrei na primeira parte da
transmissão de emergência. O arcônida não sabe dizer se foi há
dez, vinte, trinta ou quarenta anos que Cardif desapareceu de Zalit.
Até agora ninguém desconfiou. Até mesmo nossos homens deixaram-se
enganar pela imitação robotizada.
— Como
foi que Rhodan recebeu a notícia, John?
Existe uma
velha ordem, segundo a qual nenhum telepata deve intrometer-se nos
pensamentos das personalidades dirigentes do império, sem que tenha
sido autorizado para tanto. Dificilmente ocorria alguma violação
desta ordem. Quando muito Gucky, o rato-castor, permitiu-se algum
deslize, mas sempre conseguiu escapar do castigo.
Marshall
deu-se conta de que acabara de praticar um ato proibido. Mas o
marechal solar era de outra opinião.
— Deixe
as ordens para lá, John! Como foi que o chefe recebeu a notícia?
Vamos! Fale logo.
— Por
algum tempo tornou-se incapaz até de pensar, marechal solar.
— Abstenha-se
de comentários, John. O que houve depois?
— O
chefe não quer dar mais uma única chance a Cardif.
Mercant
apoiou a cabeça em ambas as mãos.
— Hum —
resmungou.
— O
chefe quer ir a Lepso, com toda a frota. Quer que Atlan nos envie
grandes frotas robotizadas, que deverão proteger o sistema solar
durante nossa ausência.
— Hum.
— Atlan
concordou. No Império Arcônida e entre nós, os estoques de licor
liquitivo serão confiscados e a venda será proibida. Haverá um
bloqueio preventivo nos planetas mais importantes.
— O que
será dos mundos que ficarão sem proteção? — perguntou Mercant,
em tom amargurado. — Esse Thomas Cardif já fez tanto mal. É
incompreensível! Marshall, o chefe já recuperou a calma? Faça o
favor de controlar seus pensamentos. Responsabilizo-me por esta
ordem. Não estou sendo movido pela curiosidade. Então?
No mesmo
instante viu o telepata balançar a cabeça com uma expressão de
espanto.
— O
chefe bloqueou seus pensamentos, Mercant.
— Isto é
um bom sinal, mas representa um consolo muito fraco, John.
A notícia
de que Thomas Cardif conseguira, numa época impossível de ser
determinada, deixar o planeta Zalit, representava mais para o
marechal solar que uma das notícias catastróficas que estava
acostumado a receber.
Thomas
Cardif era filho de Rhodan, e por isso não era igual a qualquer
outra pessoa que provocava distúrbios. Mercant teve de reconhecer, a
contragosto, que as ações de Cardif sempre foram bem planejadas. Há
cinqüenta e oito anos a vida do imperador estivera por um fio.
Naquela oportunidade Atlan teve de constatar, depois de um assalto,
que já não possuía o ativador celular que conservava sua vida. Os
antis lhe haviam furtado o misterioso aparelho. O plano do furto,
porém, fora elaborado por Thomas Cardif, que queria causar o
desmoronamento do Império de Árcon, a fim de destruir o sistema
solar e atingir seu objetivo, que consistia em eliminar Perry Rhodan.
O plano
frustrou-se no último instante. Cardif não foi condenado à morte
por seu ato, mas colocado sob a ação de uma máquina hipnótica,
que o privou do conhecimento do passado. Já não sabia quem era, de
onde viera e qual fora o curso de sua vida até aquele dia. O ódio
contra o pai fora soterrado para todo o sempre, sob um bloqueio
hipnótico.
Era ao
menos o que pensavam Rhodan, Atlan e os principais colaboradores do
administrador. Durante cinqüenta e oito anos embalaram-se numa
sensação de segurança, mas de repente defrontaram-se com uma
terrível realidade.
— Marechal
solar, devemos apresentar-nos ao chefe — disse John Marshall,
interrompendo as reflexões de Mercant. — A palestra entre Rhodan e
Atlan já chegou ao fim. Eu lhe disse que acompanhei a primeira parte
da palestra travada pelo hiper-rádio, e que a seguir informei o
senhor a este respeito. Rhodan não formulou nenhum comentário, sir.
— Vamos
andando — disse o chefe do Serviço de Segurança Solar, pegando
seus documentos e retirando-se com o telepata.
O elevador
antigravitacional levou-os para cima. Enquanto se dirigiam ao
gabinete de Rhodan encontraram-se com Bell, cujo rosto tenso dizia
mais que várias informações.
Quando
entraram no gabinete do chefe, ouviram-no transmitir uma ordem de
emergência que interditava a venda do licor. Todos os estoques de
liquitivo seriam confiscados imediatamente. Não seria permitida a
propaganda do licor.
— Sentem!
— foi só o que Rhodan pôde dizer naquele momento aos seus
colaboradores.
Não o
acharam nem um pouco mudado. O brilho de seus olhos cinzentos era o
único sinal do forte nervosismo de que se sentia possuído.
— Toda a
frota entrará em prontidão. A partir deste momento está em vigor a
diretiva número seis. A ordem de prontidão deve ser transmitida
pelo código mais rigoroso. Todas as naves, que se encontram no
espaço, interromperão imediatamente a viagem. Deve-se tomar todos
os preparativos para uma transição em direção ao sistema de
Firing. A ordem para o salto será transmitida em separado. Observar
prontidão absoluta para entrar em combate. As gazelas, jatos
espaciais e destróieres deverão ser colocados em estado de entrarem
em ação imediatamente. Fim.
Mercant
aguçou o ouvido diante da passagem que se seguiu. Rhodan entrara em
contato com o Serviço de Segurança Solar, do qual, ele mesmo, como
marechal, era o chefe.
— Aqui
fala Rhodan. Acredito que tenham ouvido a ordem que transmiti ao
quartel-general da frota. Utilize uma dezena de estações
retransmissoras para colocar nossos agentes de Lepso em estado de
alarma. Trata-se do segundo planeta do sistema de Firing. Aqui vai a
foto do homem que deve ser procurado.
Ouviu-se
um chamado vindo da estação central do Serviço de Defesa Solar:
— Sir,
mas este é seu filho!
O rosto
controlado de Rhodan manteve-se impassível. Estendeu o braço e, sem
mover a cabeça, dirigiu estas palavras a Mercant:
— Faça
o favor de me dar a foto que nos foi entregue pelo doutor Zuglert.
No mesmo
instante, Mercant tirou a foto da pasta com documentos e entregou-a
ao chefe. Rhodan colocou-a diante da tela levemente abaulada.
— Vejam
como Thomas Cardif é hoje em dia. A fotografia foi transmitida, não
é?
Passou a
foto a Bell, que se encontrava atrás dele, a fim de que este a
entregasse a Mercant. Fez como se não percebesse a expressão de
perplexidade no rosto do homem que se encontrava na estação da
central do Serviço de Segurança Solar.
— Nossos
agentes procurarão localizar este homem, que provavelmente vive em
Lepso e usa o nome Doutor Edmond Hugher. Existe uma forte suspeita de
que colabora com os antis e vive na área templária.
“Segue
uma ordem especial, destinada a todos os agentes que se encontram em
Lepso. Em hipótese alguma devem usar violência contra Thomas
Cardif. Repito. Em hipótese alguma deverão usar violência contra
Thomas Cardif, ou seja, contra o Doutor Edmond Hugher. Fim.”
No momento
em que Rhodan se levantou, a fim de abandonar o lugar junto ao
aparelho de telecomunicação, Deringhouse e Julian Tifflor entraram
na grande sala de conferências. Sem dizer uma palavra, sentaram-se
atrás de Mercant e Marshall. O ar tremeluziu à frente de Rhodan,
enquanto este se dirigia a uma poltrona, e Gucky, o rato-castor,
apareceu na sala. Saiu de perto de Rhodan o mais depressa que pôde e
acomodou-se no sofá que ficava junto à parede.
Rhodan
lançou um olhar indagador para o telepata Marshall. Quase no mesmo
instante, este balançou a cabeça. Utilizando seus dons
parapsicológicos, comunicou a Rhodan, que possuía uma capacidade
telepática pouco desenvolvida:
— Gucky
bloqueou seus pensamentos, sir.
Rhodan
sentou-se.
— Senhores!
Apenas aguardo que Atlan me comunique a chegada de cinco mil naves
robotizadas de Árcon ao nosso sistema. Conforme já terão
depreendido das instruções que acabo de transmitir, a Frota Solar
aparecerá em peso sobre o planeta Lepso e o cercará. Enquanto isso,
as unidades robotizadas de Árcon protegerão a Terra. Quer dizer
alguma coisa, Mercant?
Rhodan
notara a expressão de dúvida no rosto do marechal solar.
— Sir —
principiou o chefe do Serviço de Segurança Solar. — No momento em
que dermos início à ocupação de Lepso, teremos de contar com a
presença de quatro mil unidades que estão em condições de
combater. Provavelmente estas procurarão impedir nossa ação.
Rhodan
levantou a mão para interromper Mercant.
— Estamos
dispostos até mesmo a assumir o risco de uma guerra galáctica,
Mercant! — exclamou. — Devemos contar com a hostilidade declarada
dos saltadores, dos superpesados, dos povos coloniais insatisfeitos
com o domínio de Árcon e dos anti-mutantes. Eles recorrerão a
todos os meios para opor-se à nossa tentativa de modificar as
condições reinantes em Lepso. No nosso argumento de que apenas
estamos realizando uma ação policial, destinada a prender um único
homem, verão um sinal de que se trata de uma ocupação dissimulada
do planeta dos contrabandistas, e adaptarão sua ação a essa
circunstância. Por isso Atlan e eu combinamos que faremos entrar em
atividade na área de Lepso não apenas todo o contingente da Frota
Solar, mas ainda recorreremos às naves robotizadas arcônidas, para
criar mais duas ou três áreas de bloqueio exteriores, cujo raio
será muito maior. Ainda poderemos contar com uma reserva,
constituída por um grupo de naves do Imperador.
“Sob o
ponto de vista militar esta ação não representa o menor risco para
nós, mas acontece que raramente as guerras são ganhas nos campos de
batalha. Não temos nada de equivalente que possamos contrapor ao
poderio econômico dos saltadores, dos superpesados e dos antis, a
não ser que consigamos concluir a ação em Lepso, dentro de três
dias padrão. Tenho certeza de que nem chegaremos a esgotar este
prazo.”
Nos
últimos minutos, Bell não tirara os olhos de cima do amigo.
Aproveitou a pausa para formular a objeção que preparara.
— O que
acontecerá se os saltadores, os superpesados e os antis, em vez de
defender Lepso, resolverem usar todas as naves disponíveis num
ataque à Terra? O que representam cinco mil naves tripuladas por
robôs, Perry?
Essa
pergunta fez com que o olhar de Rhodan assumisse uma expressão dura.
— A
Terra vem sendo atacada há anos. Apenas, o ataque não é desfechado
pelos meios convencionais, mas por meio de veneno. Será que ainda
temos alguma coisa a perder, ou teremos tudo a ganhar? Sabe qual é,
segundo as estimativas, o número dos viciados, só na Terra, bem
visto? Ainda não se chegou a um acordo sobre se são vinte ou trinta
milhões. Mais dia menos dia teremos na Terra um gigantesco exército
de viciados, condenados à morte. A estes milhões foi prometida
saúde e a eterna juventude; atraíram os homens por meio de uma isca
da qual dificilmente escapa alguém para, em vez daquilo que lhes foi
prometido, trazer-lhes a doença, o vício, a loucura, os tormentos e
a morte.
“Bell,
vivo dizendo: respeitem a vida sob todas as formas, pois qualquer
vida vem de Deus. Temos o dever de proteger todas as formas de vida.”
A estação
de hiper-rádio de Terrânia transmitiu um sinal insistente, que
anunciava um chamado de Atlan.
Rhodan
mudou de lugar, voltando a colocar-se diante da tela.
— Perry
— disse a voz potente do almirante. — Às 17:20 h, tempo da
Terra, a frota robotizada sairá da transição e começará a
penetrar no sistema solar. As outras unidades colocadas em prontidão
aguardam sua ordem para entrar em ação.
O
intercomunicador berrou em meio a estas palavras. Patrício Angustos
— incumbido por Rhodan de, numa ação-relâmpago bem conduzida,
confiscar o liquitivo em todos os mundos do Império Solar —
chegava a gritar:
— Sir,
acabamos de constatar que, ainda ontem, foram levados dezesseis
milhões de unidades de liquitivo de Lepso para a Terra. Acontece que
até o momento não conseguimos localizar esta remessa gigantesca.
Rhodan
empalideceu. Fitou a tela do intercomunicador com uma expressão
distraída.
— Entre
em contato com o Serviço de Segurança e com as unidades policiais,
Angustos. O veneno tem de ser encontrado. Utilize as forças que
julgar necessárias. O custo da operação não vem ao caso. Espero
que o tóxico seja encontrado. Fim.
Respirou
profundamente e entesou o corpo.
— Você
ouviu, arcônida? Dezesseis milhões de unidades entregues ontem
desapareceram hoje, sem deixar a menor pista. Por que faz esse gesto?
Rhodan
estava só à frente da tela.
— Já
estou há muito preocupado, Perry! Há menos de três horas, tempo de
Árcon, meu Serviço Secreto apurou que quarenta e um milhões de
garrafas de licor chegaram ao mundo de cristal. Até o momento nem
uma única delas foi localizada. Nossos inimigos golpeiam em cheio.
Será que isso não prova que conhecem nossos planos, ou ao menos
imaginam como sejam?
Rhodan
respondeu com a voz dura:
— Faço
votos de que sejamos subestimados em Lepso, Atlan.
Na tela
viu-se que o Imperador Gonozal VIII se ergueu repentinamente.
Estreitou os olhos e, a uma distância de 34.000 anos-luz, fitou seu
amigo terrano. Abriu a boca para responder, mas não disse nada.
Apenas acenou com a cabeça, a fim de exprimir sua concordância. Um
sorriso surgiu no rosto marcante de Atlan.
— Perry,
acho que no momento até eu o subestimo.
Depois
disso a ligação de hipercomunicação com Árcon I foi
interrompida.
Mais uma
vez, o destino colocara tudo nas mãos de Perry Rhodan.
O Coronel
Nike Quinto, chefe da Divisão Secreta III do Fundo Social
Intercósmico de Desenvolvimento, chamou pelo intercomunicador. Não
estava de acordo com a proibição imediata da venda do licor,
ordenada por Rhodan.
— O
senhor deve estar lembrado do que informam os quarenta e oito
viciados em liquitivo, vindos de Lepso. A pessoa, privada do uso do
licor pelo prazo de seis dias, sofre um ataque que pode levar à
morte. Pelo que dizem o processo estende-se por um período de trinta
dias, a partir do início do ataque até o estado de perturbação
mental ou a morte.
— Não
se preocupe com isso, Quinto. Dentro de três dias estaremos de volta
de nossa missão em Lepso. Depois disso voltaremos a conversar sobre
isto, mas dentro de um círculo de pessoas qualificadas. Posso
garantir que só emiti a proibição de venda do licor depois de ter
conferenciado com alguns médicos. Mais alguma coisa, coronel?
O Coronel
Nike Quinto apressou-se em desligar o aparelho. Entendera a
repreensão que o chefe acabara de exprimir.
Rhodan
voltou para junto de seus colaboradores.
— A
última notícia de Atlan, relativa a quarenta e um milhões de
garrafas de licor, fala por si e facilita nossa decisão. Se
necessário, aceitarei uma guerra galáctica. Vamos agir de modo
rápido e eficaz. Não deixaremos lacunas, onde os saltadores, os
superpesados e os antis possam atuar. Se os médicos galácticos
resolverem tomar partido na luta, não cessarei esta, antes que tenha
obrigado todos eles a tornarem-se razoáveis. Sei perfeitamente o que
estou arriscando, mas se me lembro de que só na Terra já existem
alguns milhões de viciados, não tenho a menor dúvida em lançar
mão de todos os recursos para fazer com que nunca mais se torne
possível um crime como este.
“Daqui a
uma hora e meia decolará a formação de nossa frota que está
pousada no espaçoporto. Iremos na Ironduke, motivo por que sairemos
de Terrânia três horas depois. Ainda tenho alguma coisa a fazer.
Muito obrigado.”
Nunca
haviam visto Perry Rhodan assim. E não gostaram de vê-lo dessa
forma. Perry Rhodan transformara-se num homem que se sentia só e, em
meio à solidão, tomava decisões sobre as quais normalmente teria
conferenciado com seus colaboradores mais chegados.
Mas havia
mais alguém que se comportara de maneira diferente da usual. Era
Gucky, o rato-castor.
Aquele
sujeitinho, que geralmente soltava as suas, não dissera uma única
palavra, durante a reunião. E o rato-castor desapareceu pela mesma
forma que viera: por teleportação.
Os
colaboradores de Rhodan pararam junto ao elevador antigravitacional.
Cercaram Bell, que não parava de balançar a cabeça.
— Também
notaram alguma coisa? — perguntou em tom contrariado.
— Notamos
— disse Julian Tifflor. — Perante nós, o chefe não citou o nome
Thomas Cardif, nem aludiu a um certo Dr. Edmond Hugher, nem comentou
nada a este respeito.
Mercant,
Marshall e Deringhouse pensavam da mesma forma.
— Esse
rato de desenho animado, que sempre gostou de Cardif, deve estar
doente, já que não deu um pio. Ou então trama mais uma das suas,
para colocar-nos diante de um fato consumado. Mercant, será
preferível mantê-lo constantemente sob vigilância — ordenou
Bell.
Mercant
soltou uma risada; parecia contrariado.
— Obrigado.
Devolvo esse trabalho ao senhor. De que forma poderíamos manter
Gucky sob controle?
Nesse
instante o ar tremeluziu, e o rato-castor apareceu. Todo convencido,
ergueu o corpo entre Bell e Mercant. Os olhos ingênuos de rato
exibiam um brilho de contrariedade, e sua voz estridente chiou para
Bell:
— Você
não está em condições de instigar quem quer que seja contra mim,
meu caro. E digo-lhes mais uma coisa que devem guardar bem. Thomas
Cardif não pode ser condenado, sem ser ouvido. Isso não se faz,
mesmo que todas as circunstâncias pareçam incriminar a pessoa. Seus
fariseus!
Muito
nervoso, Bell pôs as mãos no vazio.
Gucky
preferira desaparecer por meio da teleportação.
— Que
sujeito atrevido! — exclamou o homem ruivo. — Às vezes esse
ratinho de desenho animado se torna insuportável. Caramba, Mercant!
Por que me olha com essa cara de quem não está satisfeito com
alguma coisa? Será que passou a ser amigo do peito de Gucky?
— Não é
isso, mister Bell — respondeu o Marechal Solar Mercant, com a voz
tranqüila. — Acontece que realmente tenho motivo para
envergonhar-me. Merecemos a bofetada moral que o rato-castor acaba de
nos dar.
— Ah, é?
— disse Bell, em tom agressivo. — Quando os vinte milhões de
viciados tiverem morrido, o senhor talvez passe a usar uma linguagem
diferente, Mercant. E quando isso acontecer sua opinião sobre Thomas
Cardif também mudará.
— Talvez,
mister Bell, mas isso só depois que tiver sido provado, primeiro,
que Thomas Cardif se encontra no gozo pleno de suas faculdades
mentais, e depois, que, no curso dos últimos cinqüenta e oito anos,
ele tenha estudado Medicina e, graças a tais conhecimentos, esteve
em condições de ter uma participação decisiva na produção do
liquitivo.
Bell fez
um gesto impulsivo e olhou para John Marshall, esperando que este o
apoiasse. Mas o telepata lançou o olhar para além de Bell.
— Ah,
então todo mundo é da mesma opinião que Mercant? Que interessante!
Desta vez não estou disposto a acompanhá-los. Digo e repito que
Thomas Cardif está por trás desse tráfico de veneno. Pouco importa
que os antis o ajudem nessa atividade ou não. Se não pusermos fim à
sua atuação maléfica, ainda acabará empurrando o Império Solar
para o abismo. Não nos esqueçamos de que é filho de Rhodan.
Virou-se
instantaneamente, entrou no elevador antigravitacional e deixou-se
levar para baixo.
— Quero
fazer uma pergunta — disse Julian Tifflor. — Como se explica que
Cardif praticamente não tenha envelhecido nesses sessenta anos?
Apenas a expressão de seu rosto sofreu uma modificação que quase o
torna irreconhecível!
— Vivo
pensando sobre isso desde o momento em que Zuglert me deu a
fotografia. A mãe de Cardif era arcônida. Os arcônidas vivem mais
tempo que nós, os terranos. Com isso, talvez se explique que nos
últimos cinqüenta anos Cardif não tenha envelhecido, mas não sei
explicar por que seu rosto está totalmente alterado, a ponto de ser
feio e inexpressivo.
— Será
uma máscara de plástico? — perguntou Deringhouse.
Marshall
foi contra essa opinião.
— Isso é
pouco provável, general. Até mesmo os aras recomendam que uma
máscara não seja usada por mais de um ano, pois, do contrário,
surgirão graves danos para os tecidos, que são praticamente
incuráveis.
— É
possível que, atualmente, Cardif esteja bem diferente desta velha
fotografia — ponderou Tifflor.
— Talvez.
Aguardemos a surpresa — disse Mercant, dando a perceber que não
estava interessado em prosseguir na palestra.
John
Marshall foi o único que caminhou pelo corredor largo. Mercant,
Deringhouse e Tifflor desceram lentamente pelo elevador
antigravitacional, que os levou aos andares onde ficavam seus
escritórios.
*
* *
Rhodan
saíra de seu gabinete, e se dirigia ao setor residencial. Parou
junto à janela do último andar do grande edifício da administração
e contemplou a cidade de Terrânia.
“É
mais uma cidade de viciados”,
pensou e ainda mais entristeceu-se.
Os
pensamentos transformaram-se em palavras articuladas.
— Thomas,
estou a caminho. Você não precisará confessar nem calar coisa
alguma. Nada poderá esperar de mim, uma vez que se confirmem as
informações, segundo as quais você tem alguma relação com o
liquitivo.
Rhodan
ouviu sua própria voz e sentiu que isso aliviava sua tensão.
O trovejar
dos propulsores colocados em funcionamento veio do lado do
espaçoporto. Rhodan viu três cruzadores pesados subirem ao céu e
desaparecerem. Olhou o relógio. Faltavam vinte e dois minutos para a
hora da decolagem.
Em local
um tanto afastado do grosso da frota, estava pousado o couraçado
Ironduke, equipado com o mecanismo de propulsão linear. Aquela nave
de oitocentos metros de diâmetro parecia insignificante ao lado dos
gigantescos supercouraçados, mas os olhos de Rhodan exprimiam
orgulho, enquanto fitava a Ironduke.
Era a nave
mais veloz da frota de guerra solar e a primeira equipada com o
fantástico mecanismo linear de hiperpropulsão. Tal aparelho
permitia que o veículo espacial atingisse velocidades
inacreditáveis, que excediam a da luz. Até então não se havia
constatado nenhum limite para essa velocidade. Esse sistema de
propulsão tinha outra vantagem: dispensava a transição e o desmaio
produzido pela mesma. Assim, quando da viagem superveloz, o céu
estrelado não desaparecia e a estrela, que representava o ponto de
chegada, continuava visível.
Mesmo que
desenvolvesse milhões de vezes a velocidade da luz, a nave linear
não penetrava no espaço de cinco dimensões. Permanecia num
semi-espaço instável, situado entre a quarta e a quinta dimensão.
O trovejar
dos propulsores que estavam sendo aquecidos fez com que o espírito
de Rhodan retornasse à cruel realidade. De repente teve a impressão
de não estar só. Virou-se.
Gucky
encontrava-se agachado atrás dele.
“Há
quanto tempo já estará aqui?”,
pensou Rhodan. “Decerto
leu os meus pensamentos.”
— Perry,
você dispensa metade do castigo se eu lhe disser que suas suspeitas
têm fundamento? — piou o rato-castor e inclinou a cabeça.
— O que
veio fazer aqui, Guck?
Isso não
soava bem. Mais uma vez Perry Rhodan deixara de pronunciar o ípsilon
do nome de Gucky e, contrariando seus hábitos, não lhe dera o
tratamento de tenente.
Fazia
muitos decênios que o rato-castor era tenente. Outras pessoas, que
obtiveram a patente na mesma época que ele, já haviam subido a
escala da carreira militar, mas com Gucky isso não acontecera.
Sentia-se satisfeito por ser tenente do Exército de Mutantes. Não
tinha a menor ambição hierárquica e dispensava as estrelas, asas
ou caudas de cometa nas ombreiras do uniforme. Quando necessário
passava por cima dos seus superiores, deixava de lado tanto as normas
de serviço como as vias oficiais, atendo-se exclusivamente aos
fatos.
— O que
veio fazer aqui? — voltou a perguntar Rhodan, em tom áspero.
— Queria
olhar pela janela e contemplar Terrânia juntamente com você, Perry.
Poderia ter escolhido um momento mais apropriado, não acha, chefe?
Não
exibiu o dente roedor, o que constituía sinal evidente de não estar
brincando e nem pretender fazer uma das suas.
— Pois
venha — convidou Rhodan, compreendendo que Gucky viera com uma
intenção definida. — Mas não esmague a flor, baixinho.
Com um
salto, o rato-castor colocou-se em cima do peitoril da janela.
Contemplou o oceano de prédios, enquanto tagarelava:
— O
pedido de não esmagar a flor era dispensável. Não sou nenhum
vândalo, mesmo que outras pessoas sejam fariseus.
— Quem é
fariseu? — perguntou Rhodan, em tom apressado.
De forma
alguma essa observação do rato-castor fora largada ao acaso. Quando
quis controlar os pensamentos de Gucky, Rhodan esbarrou num potente
fluxo defensivo, que representava um obstáculo intransponível para
suas reduzidas energias parapsicológicas.
— O
gorducho em primeiro lugar. Mercant, Marshall, Deringhouse e Tifflor
também pertencem ao grupo. Eu até lhes disse o que eles são,
Perry. Depois larguei-os por aí.
— Por
que você os chamou assim? — a voz de Rhodan tornou-se mais áspera.
— Porque
em pensamento não viram mais nada de bom em Thomas, chefe.
— Hum —
fez Rhodan. — Será que você imaginava que poderia fazer-me ver
que Cardif é inocente?
— Não —
respondeu Gucky e virou-se sobre o peitoril, para fitar Rhodan. —
Mas imaginei que tanto você como eu temos certa suspeita. Nessa
questão de Thomas e liquitivo, algo não está certo. Perry,
peço-lhe que não fique zangado comigo se eu lhe disser que, em
certas considerações, vez por outra tenho sido mais inteligente que
você. Você sabe perfeitamente que sei ficar calado que nem um
túmulo, e também sabe que nunca usei uma boa idéia para fazer
propaganda de minha pessoa. Veja...
Rhodan
segurou-o firmemente pelos ombros e lançou-lhe um olhar penetrante.
— Ouça,
baixinho — disse em tom lacônico, mas inconfundível. — Pare de
tagarelar. Diga logo por que resolveu aparecer aqui, senão eu o
ponho para fora.
— OK,
chefe. Quem manda aqui é você, não eu.
O baixinho
fitava-o ininterruptamente.
— Perry,
tenho um medo terrível de que Thomas esteja numa posição bastante
complicada.
— Você
quer dizer que Thomas está por trás dessa patifaria? Se é assim,
por que afirmou que o gordo e os outros são fariseus? Por quê?
— Não
sei. Quando li os pensamentos deles, tive uma raiva tremenda, pois
formularam um juízo precipitado sobre Thomas. Não pude deixar de
dizer-lhes aquilo. É o melhor meio de obrigá-los a irrigarem suas
circunvoluções cerebrais.
— Você
acha que dessa forma pode obrigá-los a pensar?
— Pode-se
exprimi-lo assim. Agora ficam matutando sobre esta questão de
tóxicos; desenvolvem suas reflexões num sentido e noutro. E até
mesmo o gordo já chegou à conclusão de que é impossível Thomas
ser responsável por tudo.
Rhodan
lançou-lhe um olhar pensativo.
O baixinho
viera mesmo para evitar que o pior acontecesse a Thomas Cardif.
— Gucky!
— exclamou Rhodan, enquanto seus olhos cinzentos chamejavam. —
Será que você não se importa nem um pouco que vinte ou trinta
milhões de seres humanos morram, lentamente, sob os efeitos das
drogas? Como pode empenhar-se a favor de Cardif?
Naquele
momento, nem mesmo Perry conseguiria abalar o rato-castor.
— Perry
— pediu — não viva dizendo Cardif! Ao menos diga Thomas Cardif.
Afinal, ele é seu filho, mesmo que não queira usar seu nome.
— Não
se perca em aspectos secundários, Gucky. Formulei certas perguntas,
e exijo uma resposta imediata.
— Eu já
lhe disse que você é o chefe... e pode olhar feio à vontade. Hoje
você não me mete medo. Quer saber por que posso falar
constantemente em Thomas Cardif, depois de tudo que aconteceu? Será
que realmente é isso que estou fazendo? Não tento apenas
preveni-lo? Perry, em geral você tem uma excelente capacidade de
julgamento. Mas quando se trata de seu filho, deixa de enxergar os
aspectos mais evidentes. Você seria capaz de dizer por que o Thomas
Cardif dos nossos dias não tem semelhança com o de antigamente e
nem com você?
— Você
é um sujeitinho esperto — disse Rhodan, ao notar a habilidade com
que o rato-castor o colocara na defensiva.
Mas no
mesmo instante seu rosto assumiu uma expressão rígida.
— Gucky,
o que quer insinuar com essa pergunta?
— Quase
chego a acreditar que Thomas foi submetido a um bloqueio hipnótico,
e que a constrição exercida sobre sua pessoa conferiu-lhe ao rosto
esses traços banais, feios e insignificantes. Poderá ele ser
responsabilizado pelo liquitivo se realmente for assim?
— Ora,
Gucky, você vive tentando encontrar uma desculpa para o procedimento
de Cardif — opôs Rhodan, em tom áspero.
— Não!
— por surpreendente que fosse, o rato-castor não fez outras
observações sobre a acusação do chefe. — Apenas vivo refletindo
há tempo sobre o seguinte: como poderemos localizar os impulsos
cerebrais de Thomas em Lepso, caso ainda se encontre submetido ao
bloqueio hipnótico? É bem possível que nem Marshall nem Lloyd
consiga localizar sua pista. O que acontecerá se os telepatas ou
Lloyd, o localizador, falharem?
— Ainda
não pensei nisso, baixinho — confessou Rhodan, prontamente. —
Ainda bem que você aludiu a este ponto. Se não fossem suas
ponderações, talvez iríamos desferir um golpe no vazio em Lepso.
Em outras palavras, provavelmente não encontraríamos Cardif. Pelo
que se diz, uma pessoa sujeita a um bloqueio constante ou temporário
emite vez por outra débeis impulsos mentais. Quem pode ajudar-nos
nas próximas horas são os swoons, os homens-pepino.
— Ah,
você se refere ao localizador individual, Perry? Trata-se de um
aparelho formidável construído por nossos micromecânicos. —
entusiasmou-se com suas próprias palavras, mas logo mudou de tom e
disse de modo indiferente: — Se você pretende fazer Thomas passar
pelo lobo carniceiro...
— Que
expressão é essa, Gucky? — gritou Perry, contrariado.
— Estas
palavras foram ditas ontem pelo representante do Administrador do
Império Solar, e devo dizer que gostei delas.
— Acontece
que eu não gosto. Dê o fora, baixinho. Tenho o que fazer.
— Oh! —
exclamou o rato-castor. — Isso é formidável!
E
desapareceu. Antes da teleportação, tateara em busca dos
pensamentos de Rhodan e leu o seguinte: Perry Rhodan refletia sobre
se uma pessoa, parcialmente hipnotizada, tem a responsabilidade plena
dos seus atos.
E era isto
que Gucky queria alcançar com sua visita.
3
Os olhos
chamejavam no rosto ascético de Tu-Poé.
O anti
caminhava nervosamente pela sala. O Dr. Edmond Hugher, sentado na
poltrona, exibia um sorriso amável e tranqüilo.
— Afinal,
quem é esse Rhodan, Tu-Poé? Um inimigo de Baalol. Muito bem. Baalol
o destruirá. Sou um homem pacato, mas quem é inimigo de Baalol é
meu inimigo. Estranho muito que o senhor tenha duvidado de que minha
gratidão é limitada, Tu-Poé — falou e continuou a sorrir.
Acontece
que naquele dia Tu-Poé, que desde a morte de Loó-o era um dos
sacerdotes mais influentes em Lepso, não suportava aquele sorriso.
A Galáxia
estava estremecendo!
Dezenas de
milhares de naves de guerra deviam ter entrado em transição. Os
abalos anunciados pelos postos de localização de Lepso foram tão
numerosos que muitas vezes a contagem falhara.
Tu-Poé e
os outros servos do culto de Baalol imaginavam contra quem se dirigia
a operação das gigantescas frotas. Seu serviço de espionagem no
mundo de cristal falhara de uma hora para outra. Só havia uma
explicação para isso. O Imperador Gonozal VIII tomara suas
decisões, sem informar um único membro do Conselho de Árcon.
Acontece
que, vindos do setor do Império Solar, se constataram abalos
extraordinariamente violentos e freqüentes. Além das frotas de
Árcon, as naves de guerra de Rhodan também participavam da ação.
Tu-Poé
lançou um olhar para Hugher. O sorriso do doutor quase o deixou
louco. Gritou com uma violência que Edmond nunca vira:
— Não
ache que isso é tão fácil, Hugher. Afinal, o senhor conhece Rhodan
melhor que nós, e por isso deveria saber que nos aproximamos de uma
crise.
O sorriso
sonhador continuou-lhe no rosto. O médico não se abalou com a
irrupção apaixonada de Tu-Poé.
— Agradeço
pelo elogio, Tu-Poé. Mas para mim, Rhodan não é tão importante
como o senhor acaba de apresentá-lo. É um homem que apareceu e que
voltará a desaparecer. Acredita que Lepso e o templo correm algum
perigo?
Tu-Poé
parou abruptamente à frente de Hugher.
— Hugher,
o que faremos para que a quantidade enorme de viciados desapareça do
deserto? Onde está sua capacidade fenomenal de tomar a decisão
acertada no momento adequado? — esbravejou.
— O
senhor está exigindo demais de mim, Tu-Poé. Sou uma criatura
pacata. Enquanto minhas decisões se localizavam em determinada área,
não tive a menor dificuldade em tomá-las. Agora, porém, vejo-me
numa situação que não corresponde ao meu caráter.
— Pare!
Pare logo — berrou Tu-Poé. — Será que o liquitivo que o senhor
descobriu é uma coisa pacata, ou é um entorpecente, Hugher?
A
expressão sonhadora dos olhos do médico não se alterou. E o brilho
vermelho também não se modificou. E o rosto largo e um tanto
flácido continuou a exibir o mesmo sorriso.
— Tu-Poé,
o liquitivo é a espada chamejante, que, num gesto de dedicação
inspirada na gratidão, coloquei nas mãos de Baalol.
O anti
fitou o médico como se o visse pela primeira vez.
— Hugher,
ou o senhor sempre foi louco, ou então enlouqueceu nestas últimas
horas — disse em tom de desespero.
— Essa
afirmativa não é nada amável — respondeu Hugher. — O senhor
não vivia dizendo que Baalol é o único poder verdadeiro da
Galáxia, e que a melhor maneira de demonstrar minha gratidão era
fortalecer tal poder? E não foi isso que eu fiz quando descobri o
liquitivo? Os inimigos de Baalol não se transformam em idiotas
inofensivos? Por que não podem ficar no deserto? Afinal, aqui estão
bem guardados.
Tu-Poé
sentiu-se dominado pelo pavor. Mas naquele instante, não pensou
pelos viciados sem cura que definhavam no deserto de Lepso, nem nas
centenas de milhões de criaturas que o licor transformara em
viciados. Naquele momento de perigo extremo, percebeu que o filho de
Perry Rhodan sofria de alguma deficiência mental.
“Por
que não descobrimos a deficiência mais cedo?”,
pensou o anti-mutante em desespero. “Por
que, quando se falava em sua presença na pessoa de Perry Rhodan,
nunca notamos que Thomas Cardif não reagia?”
Resolveu
que naquele mesmo instante faria um teste com Hugher. De tão nervoso
que estava, esqueceu-se de que só havia uma pergunta que poderia
levar a um resultado seguro.
Tu-Poé
não perguntou: O senhor sabe que é filho de Perry Rhodan?
Nem teve
esta idéia. Perguntou:
— Hugher,
o senhor sabe qual é a idade de Rhodan?
Sempre com
o sorriso sonhador no rosto, Hugher perguntou:
— Será
que não poderia ter feito uma pergunta mais tola que essa, Tu-Poé?
O que pretende alcançar com ela? Será que pretende negar que Rhodan
descobriu o segredo da vida eterna?
Naquele
instante desabou o destino, sob a forma de um aviso de emergência,
que impediu que Tu-Poé formulasse a pergunta de que antes não se
lembrara: O senhor sabe que é filho de Perry Rhodan?
O aviso de
emergência, transmitido em elevado volume pelos alto-falantes,
aludia a Perry Rhodan.
— Rhodan
está penetrando no sistema de Firing com uma gigantesca frota. Segue
no rumo de Lepso. A frota inclui trinta supercouraçados. Cerca de
uma hora-luz além da órbita do planeta exterior, verificam-se
gigantescos abalos estruturais, dos quais se conclui que outras
frotas estão penetrando no sistema.
Outro
aviso:
— As
formações, cuja presença foi constatada por último, consistem em
naves robotizadas do grande império.
Olhando
sempre na direção do alto-falante, Tu-Poé ficou refletindo
enquanto ouvia as notícias. Assim que a voz silenciou, virou-se.
Assustou-se ao ver o sorriso sonhador no rosto do médico e, no mesmo
instante, lembrou-se do que devia fazer numa situação crítica como
esta...
Sem dizer
uma palavra, saiu da sala situada no interior da pirâmide do templo,
entrou no elevador antigravitacional e deixou que este o levasse ao
topo da pirâmide.
Não se
lembrou mais do Dr. Edmond Hugher, ou melhor, de Thomas Cardif. Um
sorriso malicioso surgiu em seu rosto, enquanto estava sendo levado
para cima em velocidade constante.
Era de
opinião que o fim de Perry Rhodan havia chegado.
Os servos
de Baalol tinham preparado tudo.
Desta vez
pretendiam vencer o último round
na luta contra o odiado terrano.
Quando
Tu-Poé entrou no amplo salão situado logo abaixo da ponta da
pirâmide, já encontrou mais de cem servos reunidos no recinto. Foi
recebido por um ligeiro murmúrio. O fato de que Rhodan aparecera com
sua frota sobre Lepso não deixara ninguém nervoso. E essa
tranqüilidade reforçou a crença de Tu-Poé, de que o fim de Rhodan
estava próximo.
*
* *
A
Ironduke, uma nave da classe Stardust, decolou do espaçoporto de
Terrânia sob a ação dos trovejantes propulsores. Era a última
nave da Frota Solar que seguia em direção ao sistema de Firing.
O
comandante dessa nave, que dispunha de um sistema de propulsão
linear, era o Major Jefe Claudrin, que nascera em Epsal. No momento
não havia cosmonauta ou comandante melhor que ele.
Estava
tranqüilamente acomodado na poltrona especialmente feita para ele,
no interior da sala de comando da Ironduke, e prestava atenção ao
ruído dos propulsores de impulsos. Por meio das pequenas telas do
sistema de controle, verificou as instalações da protuberância
equatorial, enquanto o veículo espacial esférico acelerava à razão
de quinhentos quilômetros por segundo.
Em torno
de Claudrin, desenvolvia-se a atividade normal que costuma acompanhar
qualquer vôo espacial. Mas hoje a tensão parecia impregnar todos os
recintos da Ironduke. Nem mesmo os homens experimentados, que se
encontravam de serviço na sala de comando, não conseguiram escapar
à mesma.
O chefe
encontrava-se a bordo, e ainda Reginald Bell, Mercant, Deringhouse,
Marshall com todo o Exército de Mutantes e alguns agentes especiais
do Serviço de Segurança Solar.
Rhodan e
Bell eram os únicos dentre eles que se encontravam na sala de
comando. Os outros haviam-se recolhido aos camarotes e estavam
deitados. O fato de que teriam de realizar uma ação difícil não
os impedia de dormir um pouco, antes que a mesma tivesse início.

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