— Não
sei. Provavelmente achava que o assunto era tão importante, que não
queria confiá-lo à primeira pessoa que pudesse alcançar com o
videofone de pequeno alcance. Realmente, quando falou da
representação comercial dos saltadores, não chamou ninguém, mas
pediu ao sistema de comunicações que o ligasse com a primeira nave
terrana com a qual conseguisse estabelecer contato. Provavelmente
estava fazendo a ligação de telecomunicação, quando saiu de seu
escritório — um sorriso irônico surgiu no rosto de Gerard. —
Acontece que subestimou a vigilância dos saltadores. Dificilmente
existe um edifício no centro da cidade que eles não mantenham sob
vigilância. Descobriram-no em tempo e levaram-no. Infelizmente,
depois disso surgiu um contratempo. Manteve aquela palestra com a
Flórida... mas não conseguiu revelar nenhum dado importante.
Desta vez,
Ron soltou uma risada de escárnio.
— O
senhor já me revelou todos os detalhes, Lobson — disse em tom
tranqüilo.
— Eu?
— Isso
mesmo. O senhor não repetiu fielmente o que Zuglert disse no momento
em que teve o acesso de fraqueza? “Importante
para a Terra... Todos devem ser prevenidos... Meu exemplo prova...
Solução alcoólica de que ninguém desconfia...”
Não acha que isso basta para que se tirem algumas conclusões?
Gerard fez
um gesto negativo.
— Não —
disse em tom áspero. — Acredito...
— Diga-me
mais uma coisa. Por que os doentes são levados ao deserto? —
perguntou Ron. — O que é que os sacerdotes de Baalol fazem com
eles?
Gerard
estremeceu num gesto nervoso e seu rosto ficou muito pálido.
— Não
sei! — exclamou em tom exaltado. — Nunca mais pronuncie esse
nome. Baalol representa um poder terrível.
Ron
lembrou-se daquilo que acabara de acontecer com Larry e ele. Estava
disposto a dar uma ênfase toda especial às últimas indagações.
— Pois
bem — respondeu em tom frio. — Vejo que o senhor ainda não sabe.
Fitou
Gerard e prosseguiu:
— Acontece
que eu sei alguma coisa. O senhor é um viciado em drogas, e é só
por isso que se dispõe a colaborar com os saltadores. A droga de que
precisa não é muito cara, mas acontece que o senhor não tem
dinheiro. Foi por isso que entrou em contato com Zuglert. Precisou de
que ele o ajudasse em algum truque grosseiro que lhe renderia algum
dinheiro. Mas Zuglert já conhecia sua fama e sabia o que o senhor
desejava dele. Pelo que me contou, ele se dispôs a ajudá-lo, mas só
de maneira decente.
“Quando
Zuglert adoeceu, o senhor fugiu. É possível que os saltadores
realmente o tenham agarrado, quando voltou ao escritório de Zuglert,
mas também é possível que se tenha unido espontaneamente a eles.
De qualquer maneira os saltadores lhe deram as quantidades de droga
de que o senhor necessitava. Por isso mostra-se submisso a eles. Por
alguns goles de uma bebida semelhante a um licor, que é vendida em
garrafinhas com etiqueta amarelo-violeta.”
Gerard
fitou-o. Parecia perplexo. Recuou um passo, como um sonâmbulo. Sua
boca movia-se. Esforçou-se para formular palavras, mas estas não
eram articuladas.
Ron
esforçou-se para não mexer-se. Tinha de manter preso ao seu o olhar
de Gerard. A maior parte do que acabara de dizer não passava de
suposições. A reação de Gerard provava que todas eram corretas.
Gerard estava terrivelmente assustado porque seu segredo fora
descoberto.
“Que
diabo!”,
pensou o major. “Está
na hora de Larry agir.”
Uma fração
de segundo depois disso percebeu que não se enganara em relação a
Larry. De repente Gerard teve sua atenção despertada para alguma
coisa que aconteceu fora do campo de visão de Ron. Fez menção de
saltar para o lado, mas tropeçou e caiu.
Naquele
instante, o disparo ofuscante do capitão saiu com um chiado de trás
do veículo. Ron entesou-se para dar um salto, a fim de desviar a
atenção de Gerard, caso Larry errasse o tiro.
Acontece
que Larry fizera boa pontaria. O tiro atingiu o braço direito de
Gerard. Este soltou um grito de dor.
Ron
caminhou lentamente em sua direção. Segurou-o pelos ombros, puxou-o
para cima e colocou-o de pé.
— Vamos
voltar para Zanithon — disse em tom tranqüilizador. — O senhor
receberá seu licor, mesmo sem ser dado pelos saltadores.
*
* *
A viagem
correu sem incidentes. Gerard Lobson recebeu aquilo que queria. Ron
Landry teve oportunidade de verificar que a droga, denominada
liquitivo, era livremente vendida no comércio de Lepso. Era um
licor. Ao que parecia, ninguém desconfiava do perigo que a bebida
representava.
Depois de
sorver sua dose, Gerard modificou-se. Não pensava mais em voltar
para junto dos saltadores, ainda mais que Ron adquiriu uma grande
provisão de liquitivo, a fim de abastecê-lo por algum tempo e
também poder fornecer algumas amostras aos analistas terranos.
Gerard até chegou a concordar para que fosse levado o quanto antes à
Terra, onde procurariam libertá-lo do vício.
Ron
transmitiu um extenso relatório em código destinado a Nike Quinto.
Enquanto aguardava a resposta, manteve a planejada palestra com o
Inspetor Neary, da Missão Comercial Terrana.
Neary
parecia muito surpreso com o fato de que seus canais de
telecomunicação haviam sido violados. O local da violação logo
foi descoberto, pois os técnicos estavam a par dos acontecimentos.
Encontraram uma estação retransmissora num pequeno escritório,
situado quatro andares abaixo, e que pertencia à Transall
Import and Export Company.
O proprietário não estava presente no momento da descoberta, e
nunca mais foi visto no local. Dali em diante, os saltadores já não
tinham a possibilidade de escutar as palestras da Missão Comercial.
As
investigações realizadas por Neary revelaram que o produto
denominado liquitivo era de origem desconhecida e aparecera pela
primeira vez no comércio de Lepso há cerca de doze anos terranos.
Neary tinha seus meios de descobrir isso. Bastava recorrer às listas
de compras dos negociantes de bebidas, aos fregueses dos grandes
restaurantes da cidade e a alguns policiais de Lepso.
Era
verdade que fazia apenas alguns meses que o liquitivo fora colocado
ao alcance do grande público. O movimento de vendas do produto se
centuplicara, por assim dizer, da noite para o dia. Era a mesma
observação que Larry lhe comunicara, enquanto executava o papel de
motorista de táxi, embora ele mesmo não a tivesse feito, já que
lhe fora transmitida por terceiros. Há alguns meses, Lepso
enlouquecera de repente. Uma tremenda ânsia de atividade apoderou-se
dos habitantes daquele mundo. Ninguém queria andar devagar. Todos
pareciam ter pressa, pois sentiam-se com forças para ter pressa pelo
resto da vida.
Ainda se
constatou que um total de quarenta e oito terranos registrados na
Missão Comercial estavam desaparecidos. Ao que tudo indicava,
encontravam-se na cidade onde ficava o templo dos sacerdotes de
Baalol. Era bem verdade que, segundo os cálculos de Ron Landry, essa
cidade devia ter alguns milhares de habitantes, admitindo que cada
uma das casas tinha pelo menos três ocupantes. Dali se concluía que
também havia membros de outras raças galácticas, vítimas do
perigoso licor.
Quando as
investigações de Neary ainda estavam em curso, Ron recebeu ordens
da Terra para regressar imediatamente com Larry Randall. Avisou
Larry, que estava realizando investigações por conta própria,
juntamente com Gerard, e combinou um encontro em seu hotel.
Depois
disso despediu-se de Neary. Nos últimos tempos vira vários
funcionários da Missão Comercial e falara com todos eles. Saiu da
sede com a impressão de que ali também se verificava uma estranha
pressa e ânsia de atividade. Mas não falou com Neary a este
respeito.
Sabia que
a droga, denominada liquitivo, já tinha um círculo de consumidores
muito mais amplo do que supusera.
*
* *
A araucana
alta estava novamente atrás do balcão da recepção. Ron sabia que
cometera uma injustiça contra a moça, ao supor que ela era uma
colaboradora dos saltadores. O liquitivo apenas era uma bebida entre
muitas. Naqueles tempos tornara-se a bebida da moda em Lepso, e tinha
um enorme efeito revitalizante. Ninguém sabia — ou ninguém
parecia saber — que certos consumidores se tornavam viciados. Era
por simples cortesia que a direção do hotel oferecia aos hóspedes
recém-chegados uma dose de liquitivo — cujo preço evidentemente
lhes seria debitado.
“Todavia”,
pensou Ron, com um sorriso, “o
segundo copo que a araucana traz agora na bandeja, sem dúvida não
está previsto nas instruções de serviço!”
Sorriu
para a moça ao passar por ela. Quando chegou ao quarto, Larry
Randall e Gerard Lobson já se encontravam lá. Como sempre, Gerard
estava animado e impaciente. Não se tranqüilizou, nem mesmo quando
Ron lhe asseverou que deixariam Lepso ainda naquele dia.
Larry
descobrira que, em linhas gerais, os dados fornecidos por Neary eram
corretos. Fazia pouco mais de doze anos que o liquitivo aparecera no
comércio pela primeira vez. Ninguém sabia de onde vinha. O dono do
restaurante adquiria o produto do varejista, este o comprara do
atacadista, o atacadista o recebera de um distribuidor geral, que
fazia suas compras no lugar denominado Cinema, no sistema de
Lorraine. Não havia a menor dúvida de que os habitantes de Cinema
não eram os verdadeiros produtores. O licor passava por um número
muito grande de mãos, e chegava a ser um milagre que o vendedor
final ainda pudesse fornecê-lo a um preço acessível.
— Quer
dizer — concluiu Ron, em tom pensativo — que o liquitivo provoca
duas reações diversas.
Larry
arregalou os olhos.
— Você
já chegou mais longe que eu — disse com um sorriso. — Poderia
fazer o favor de explicar?
Ron fez
que sim.
— Preste
atenção. Armin Zuglert era um homem robusto e esportivo. Ninguém
desconfiava de que fosse um viciado em liquitivo. De repente sua
saúde se arruína; ele se torna um cadáver vivo. Por quê?
— Porque
não recebe mais liquitivo — disse Larry, apressadamente e em tom
convicto.
Ron negou
com o dedo.
— Não é
nada disso! O liquitivo pode ser comprado em qualquer lugar, e
Zuglert tinha dinheiro. Sabia que estava viciado, e também sabia que
um viciado não pode parar de uma hora para outra de tomar a
substância à qual o corpo está acostumado. Portanto, não tinha
nenhum motivo para deixar de adquirir novas provisões de liquitivo,
assim que suas reservas da bebida se esgotassem.
“Porém,
além de viciar, o liquitivo produz outro efeito, depois de um
período de consumo regular. Transforma o homem e outros seres em
cadáveres vivos. Quanto tempo dura isso? A única coisa que podemos
dizer é que esse efeito surge no máximo depois de doze anos e
alguns meses de uso. E que antes disso Zuglert não poderia ter
conseguido a droga em Lepso.”
Larry
refletiu por algum tempo. Finalmente confirmou com um gesto.
— Acredito
— disse como quem fala para si mesmo — que poderemos descobrir
muita coisa se nos ocuparmos detidamente com os habitantes da cidade
templária de Baalol.
Ron
levantou-se e dirigiu-se a uma das janelas.
— Acredito
— disse com um suspiro — que é por isso que Nike nos chama de
volta à Terra. Quer apostar que não ficaremos em paz por muito
tempo?
— Não
aceito a aposta — disse Larry, que continuava sentado na poltrona.
— Não posso fazer uma aposta contra alguém que pensa da mesma
forma que eu.
Ao que
parecia, Gerard sentiu-se entusiasmado com a idéia de voltar para
Lepso e examinar a cidade templária. Estava a ponto de iniciar um
discurso prolongado a este respeito, quando aconteceu uma coisa
estranha.
Ron olhou
para trás e viu uma neblina tremeluzente que surgiu no meio do
quarto. Surpreso, deu um passo na direção da mesma para examiná-la
melhor. Naquele momento, a neblina transformou-se numa caixa de
formato cúbico, que desceu tranqüilamente sobre o tapete e se
acomodou. Na parte dianteira da caixa havia uma grossa vidraça,
atrás da qual se movia um líquido verde viscoso. No interior do
líquido boiava uma sombra matizada de cinza-claro e cinza-escuro,
que executava uma série de movimentos elegantes.
Ron logo
se recuperou da surpresa.
— Fico
satisfeito em revê-lo mais uma vez — disse.
— Vim
para despedir-me.
— Vai
voltar para Pisalam?
— Isso
mesmo. Quero agradecer-lhe. Você encontrou a pista de nosso irmão
desaparecido.
— Uma
pista muito triste...
— Foi o
destino. Quando lhe pedi que procurasse localizar nosso irmão, tinha
certeza quase absoluta de que não poderíamos salvá-lo.
— Por
quê? — perguntou Ron, em tom de surpresa.
— Do
contrário teria sido possível estabelecer contato com ele — disse
o ser de Pisalam.
O transec
conferiu um tom alegre à sua voz, quando acrescentou:
— Afinal,
mantive contato com você, que é um estranho, por mais afastados que
estivéssemos um do outro. Por isso, quando você esteve para ser
interrogado no interior de um edifício desta cidade e quando correu
perigo no deserto, pude intervir em tempo. Teria sido muito mais
fácil estabelecer contato com meu irmão, se nada lhe tivesse
acontecido. No momento em que cheguei a Lepso, as emissões dele
estavam reduzidas a um zumbido surdo e ininteligível. Supus que não
poderíamos fazer mais nada por ele. Mas quis ter certeza.
Seguiu-se
uma ligeira pausa.
— Voltarei
para Pisalam — continuou o ser estranho, em tom triste. — O nome
de nosso irmão será riscado das listas.
— De
qualquer maneira fico-lhe muito grato pelo auxílio que me prestou —
disse Ron. — Se não fosse este auxílio, não teria conseguido
muita coisa.
— Não
diga isso — objetou o pisalamense. — Seu espírito é muito
forte. Você é capaz de enfrentar muitos inimigos.
Ron
refletiu sobre o que deveria dizer.
— Se
você permitir, um dia lhe farei uma visita — disse.
— Você
sempre será bem-vindo — respondeu o ser. — Você e seus amigos.
Depois
disso, o incrível se repetiu. De repente, o lugar em que pouco antes
se encontrava o cubo, ficou vazio. Lá embaixo, junto à entrada do
hotel, um veículo de formato cúbico pôs-se em movimento, seguiu
rua a fora e afastou-se rapidamente.
Ron olhou
para o relógio.
— Está
na hora — disse em tom cansado. — Iremos numa nave-correio da
Missão Comercial. Preparem-se, amigos.
7
Ron teria
ganho a aposta, se tivesse encontrado alguém disposto a aceitá-la.
Quando a nave-correio pousou, Nike Quinto encontrava-se no
espaçoporto. Depois de um ligeiro cumprimento, disse a Ron Landry e
Larry Randall que só disporiam de cinco horas para descansar.
Levou-os a um hotel e mandou que, depois desse tempo, se
apresentassem em seu escritório.
Imediatamente
pôs as mãos em Gerard Lobson, que pouco antes do pouso recebera a
última dose de liquitivo e estava muito exaltado. Se Nike Quinto
sugerisse que se dirigissem à cidade e assaltassem a sede do General
Cosmic Bank,
provavelmente teria ficado encantado com a idéia. Não se interessou
em saber o que Nike Quinto pretendia fazer com ele. O que lhe
importava era que acontecesse alguma coisa.
Naquela
oportunidade houve um incidente que provavelmente ficaria gravado
pelo resto da vida na memória de Ron e de Larry. É que Nike Quinto
se sentiu incomodado com a atividade excessiva de Gerard. Procurou
restringi-la pela forma a que estava habituado. Começou a queixar-se
da pressão sangüínea e responsabilizou Gerard pelo fato de que seu
estado de saúde se deteriorava rapidamente, motivo por que, dentro
de uma hora, provavelmente sofreria um infarto.
Gerard
ouviu as queixas, Mas finalmente irrompeu:
— Pare
com essa choradeira. Se sua pressão sangüínea realmente é tão
miserável, aposente-se e deixe que outra pessoa ocupe seu cargo.
Nike
Quinto engoliu várias vezes em seco e seu rosto tornou-se ainda mais
vermelho. Ficou calado. Enquanto Gerard estava por perto, não disse
mais uma única palavra sobre sua pressão.
*
* *
Dali a
cinco horas, Nike Quinto falou em atitude muito séria, e fazendo um
esforço inútil para dar um tom grave à voz, que saía aos
guinchos:
— O
assunto em que estamos envolvidos é tão importante que recebi
minhas instruções diretamente do administrador. É bom que isso
fique bem claro, para que não pensem que podemos discutir os planos
que lhes serão apresentados. Cabe-lhes exclusivamente tomar
conhecimento dos mesmos e executá-los.
Moderando
o tom de voz, acrescentou:
— Não é
porque o administrador em pessoa deu as instruções. Como sabem, ele
não acredita que é um super-homem e nem que entende de tudo melhor
que qualquer outra pessoa. É porque todo o potencial positrônico da
Capital foi utilizado na elaboração dos planos. Não podemos
descobrir nenhum erro nos mesmos. Nossos cérebros são muito
pequenos para isso. Entendido?
Ron
confirmou com um gesto distraído. Como de costume, Larry preferiu
não dizer nada, nem fazer qualquer gesto. Ron não pôde deixar de
confessar que se sentia impressionado com a exposição de Nike
Quinto. Via de regra Perry Rhodan, o administrador, costumava ser
considerado um homem ao qual todos se referiam num tom de voz de uma
criança que alude ao grande mágico da fábula. O administrador não
estava sujeito à pressa e insegurança deste mundo. Estava sentado
em seu trono, bem acima das nuvens, em algum país nebuloso e
distante. Nunca intervinha em qualquer assunto. Suas atividades
restringiam-se ao plano mais elevado da política interestelar. Era
esta a imagem que a maioria das pessoas havia formado de Perry
Rhodan. Por isso, o fato de ele ter intervindo no problema de Lepso
era espantoso.
— De
onde vem a ordem? — perguntou.
Nike
Quinto inquietou-se.
— De
onde vem o quê? — esbravejou. — Faça o favor de exprimir-se com
maior clareza. Uma pergunta confusa sempre me deixa nervoso, e o
nervosismo faz subir minha pressão. O que deseja saber?
Ron
sorriu.
— Por
que — perguntou, usando uma linguagem mais precisa — o assunto é
tão importante que o administrador teve de cuidar pessoalmente do
mesmo?
— É
simples — respondeu Nike Quinto. — Os sacerdotes do culto de
Baalol ocupam um lugar de destaque no problema de Lepso. O culto de
Baalol já desempenhou seu papel na História da Terra, isso há
cerca de sessenta anos. Houve uma tentativa de atentado contra o
Imperador de Árcon. Furtaram-lhe o ativador, a fim de obrigá-lo a
abdicar. A iniciativa partiu dos sacerdotes de Baalol. E o aparelho
foi encontrado em poder de um sacerdote desse culto, depois da
perseguição até o sistema de Gela e da luta violenta. Os
sacerdotes de Baalol são mutantes poderosos, com uma variedade
tremenda de capacidades paramentais. Nenhum dos mutantes terranos
está em condições de enfrentá-los. Com a maior facilidade
absorvem outras capacidades parapsicológicas e as dirigem contra o
indivíduo que é portador das mesmas. Face a este efeito de
reversão, também costumam ser chamados de antis.
“Sabemos
que os antis montaram uma extensa rede de locais de culto em todos os
pontos da Galáxia. Acontece que não conhecemos seus objetivos, nem
a natureza de seu culto. A respeito deste, apenas sabemos que não
gira em torno de uma ou algumas divindades definíveis. Manifesta, de
forma mística, a pretensão de incutir nos crentes a sabedoria final
e livrá-los de todo sofrimento físico e psíquico.
“Ainda
sabemos que os antis são hábeis negociantes. Não é de se admirar
que mantenham relações com os saltadores, pois, ao que tudo indica,
estão em condições de fornecer mercadorias importantes a estes. Os
biomédicos, conhecidos como aras, também foram vistos muitas vezes
em companhia dos sacerdotes de Baalol. Ambas as raças, ou seja, os
saltadores e os aras, têm intenções nada amistosas para com a
Terra. Por isso, a lógica nos faz concluir que não devemos esperar
nada de bom dos antis.
“Em
Lepso, eles se envolveram num negócio. Provavelmente são os
saltadores que fornecem as matérias-primas para o liquitivo. Os aras
usam estas matérias-primas para fabricar a bebida diabólica e os
antis tiram proveito dos viciados semimortos que são recolhidos pela
polícia de Lepso e levados à cidade templária. Certamente Lepso só
participa da operação porque isso lhe traz uma vantagem financeira.
“Isso
basta para que possam avaliar a situação. Cabe-nos agora impedir a
disseminação do tóxico pela Galáxia, especialmente pelas áreas
de influência terrana. As amostras de liquitivo, que os senhores
trouxeram de Lepso, já foram submetidas a uma análise provisória.
Os analíticos são de opinião que não poderão fazer muita coisa,
enquanto só dispuserem dessas amostras. Precisam dos viciados para
realizar seus estudos. Portanto, os senhores terão de voltar para
Lepso e libertar o maior número possível de prisioneiros da cidade
templária. Concordam em fazer isso?”
Ron
estremeceu. Lembrou-se do que lhe acontecera quando pela primeira vez
procurou penetrar no templo. Já conhecia o terrível poder dos
sacerdotes de Baalol. Face ao que Nike Quinto acabara de dizer,
nenhum mutante os acompanharia durante a missão. Ele e Larry
ficariam sós. Dependeriam exclusivamente de suas capacidades para
enfrentar um grupo de antis que dispunha de dotes sobrenaturais.
Sentiu um calafrio.
— Não é
que eu goste disso, coronel — respondeu, depois de algum tempo. —
Mas sou de opinião que sempre se deve concluir o que foi começado.
Nike
Quinto acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
— Apenas
lhe peço que responda a uma pergunta — prosseguiu Ron.
Nike
Quinto franziu a testa.
— Compreendo
perfeitamente que o assunto cause repugnância — disse Ron. —
Alguns milhares de seres vivos de todas as raças desapareceram em
Lepso, entre eles quarenta e oito terranos, e as vendas da bebida
diabólica crescem constantemente. Mas por que motivo o
administrador, em pessoa, resolveu participar da solução do
problema?
Quinto
pôs-se a brincar com um estilete de escrever. Ao que parecia,
esforçava-se para formular uma resposta lacônica.
— É
simples — começou sentencioso. — Na Terra surgiram indícios da
realização de atividades suspeitas. Ao que parece, o liquitivo já
encontrou um caminho para cá.
*
* *
Vários
transeuntes observaram o homem que saiu cambaleando do pequeno
edifício de escritórios e começou a deslocar-se pela rua,
apoiando-se contra a parede do edifício como se tivesse medo de
cair.
Realmente
parecia que iria ao chão assim que ficasse privado de apoio. Era bem
verdade que aquilo que acontecia não conseguira alterar a
constituição gigantesca de seu corpo. Continuava a ser um gigante
de ombros largos e mãos robustas. Mas alguma coisa parecia ter
subtraído as forças de seu corpo. Seus joelhos tremiam, e as mãos
não conseguiam ficar quietas por um segundo. O rosto estava flácido.
A pele cinza-amarelenta estendia-se sobre os maxilares, mostrando-se
flácida e enrugada.
Não se
sabia para onde o homem pretendia ir. Para ele, o hospital seria o
lugar mais adequado. Acontece que o hospital ficava em direção
oposta à que seguia.
Finalmente
um dos transeuntes tomou coragem e aproximou-se do doente.
Pretendia
explicar-lhe que direção deveria tomar, a fim de conseguir auxílio.
Mas apenas havia dado um ou dois passos, quando ouviu o uivo da
sereia de uma viatura policial, vindo do alto. Viu um veículo
giromático descer junto à parede do edifício e pousar a poucos
metros do doente. Antes que todos compreendessem o que estava
acontecendo, alguns policiais desceram do veículo e cercaram o
doente. Ao que parecia, este não estava disposto a resistir quando
os policiais o agarraram e arrastaram ao veículo. E nem teria forças
para isto. Dali a alguns segundos, o veículo voltou a levantar vôo
e desapareceu em meio ao tráfego denso que se desenvolvia sobre os
telhados.
Até
parecia bruxaria. O homem, que pretendia dar um conselho ao doente,
virou-se e saiu andando.
*
* *
Menos de
uma hora depois disso, os policiais “descarregaram”
o homem em pleno deserto. O doente nem se deu conta do que lhe estava
acontecendo. Uma pessoa, que ele não conseguia ver, levantou-o e
levou-o num vôo vertiginoso em direção a um grupo de edifícios
que se destacava em meio ao areal. De repente, viu-se no interior de
uma pequena casa, sem que qualquer porta se tivesse aberto. Estava
escuro. Ficou quieto por um instante, à espera de que seus olhos se
acostumassem ao pouquinho de claridade que passava por um buraco de
dez centímetros de diâmetro, aberto no teto. Depois disso olhou em
torno e viu mais quatro pessoas que se encontravam no mesmo estado
que ele, isto é: deitadas no chão de pedra. Não se mexiam e não
demonstravam o menor interesse pelo recém-chegado.
Sem dúvida
esperavam que se comportasse como eles.
Mas não
se comportou. Levantou-se e caminhou de um dos homens deitados para
outro. Pela primeira vez notou uma reação em seus olhares. Seguiram
seus movimentos com os olhos arregalados. Ao que parecia, achavam
inacreditável que alguém que parecesse tão doente como eles se
levantasse, logo após a chegada, e caminhasse alegremente pelo
interior da casa.
Dois deles
movimentaram-se com dificuldade, deslocando-se até a parede dos
fundos e, apoiando-se na mesma, procuraram levantar-se. Conseguiram
fazê-lo depois de várias tentativas. Quando se encontravam de pé,
tossiam e fungavam. Mas ergueram-se e viam perfeitamente o homem que
se achava à sua frente.
Este
cumprimentou-os com um gesto. Tiveram a impressão de que estava
satisfeito. Disse com uma voz que tinha um tom enérgico.
— Vejo
que ainda têm forças para ser curiosos. Ainda bem. Dentro de poucos
dias precisaremos de gente que possa mexer-se. São terranos?
Os dois
homens que se encontravam junto à parede confirmaram com um gesto.
E os que
continuavam deitados também fizeram ligeiros gestos afirmativos.
— Eles
sempre... — grasnou um deles — ...juntam... as criaturas da mesma
raça.
O homem à
sua frente interrompeu-o com um gesto.
— Só
falem quando for absolutamente necessário — disse. — Poupem suas
forças.
Depois
apresentou-se.
— Vim
diretamente da Terra para ajudá-los — disse. — Sou major da
Frota Espacial Terrana. Meu nome é Ron Landry.
*
* *
“Até
aqui o plano foi bem-sucedido”,
constatou Ron Landry.
Enquanto
ainda se encontrava na Terra, haviam-lhe injetado uma droga que
provocava a estranha modificação em seu aspecto exterior sem
causar-lhe outro dano. Imediatamente após sua chegada a Lepso,
dirigira-se a um edifício em que, segundo sabia, ficava um
escritório dos saltadores. Permanecera por lá bastante tempo, a fim
de que os saltadores notassem sua presença, e o resultado era
evidente. Os saltadores chamaram a polícia, e ele foi recolhido.
Agora
encontrava-se ali, juntamente com quatro doentes que até há pouco
eram tão indiferentes que nem sequer conheciam seus nomes. A
presença de Ron Landry despertara a curiosidade deles e ativara o
que sobrava de suas energias físicas.
Mas será
que o pouco que restava seria suficiente para salvá-los?
Os quatro
homens não puderam revelar-lhe muita coisa. Ron descobriu que a
pessoa, só depois de ter tomado quatro ou cinco doses de liquitivo,
se tornava viciada. Há muito interessava-se por isso, pois em certa
oportunidade fora obrigado a beber liquitivo, e agora desejava saber
se passara perto do abismo. Ron ainda descobriu que na cidade
templária havia principalmente vítimas humanóides da substância
liquitivo, mas além destas existiam algumas centenas de vítimas
não-humanas. Isso parecia provar que a perigosa bebida produzia seus
efeitos em todos os seres inteligentes, fosse qual fosse sua origem
ou a composição química de seu organismo. Com isso, esta
tornava-se ainda mais perigosa.
Ron deu-se
conta de que o licor liquitivo talvez poderia permitir aos antis,
aliados aos saltadores e aos aras, transformar todos os habitantes da
Galáxia em viciados e, com isso, em pessoas submetidas à sua
vontade. Ao que parecia, não havia ninguém que conseguisse resistir
à diabólica bebida.
Os doentes
não tinham a menor idéia sobre os motivos por que haviam sido
levados para a cidade templária. Disseram-lhes que, dali em diante,
teriam de ser servos obedientes dos sacerdotes de Baalol. A falta de
submissão era rigorosamente punida. A pena consistia numa espécie
de prisão solitária num recinto totalmente escuro, além da redução
das rações alimentares. Ninguém sabia para que serviria a
submissão. Nunca se pedia aos doentes que executassem qualquer
tarefa. Ficavam deitados nas cabanas, modorrando durante o dia, num
estado de debilidade e letargia.
Informaram
que a lição de submissão lhes fora dada durante as chamadas horas
de instrução. Ron Landry não conseguiu descobrir o que vinha a ser
“horas
de instrução”.
As descrições eram contraditórias. Consolou-se com a idéia de
que, mais dia menos dia, os sacerdotes também lhe ministrariam uma
instrução desse tipo.
Ainda não
sabia que essa instrução representava um perigo tremendo para ele;
mas não demoraria a descobrir.
8
Dormiu
algumas horas. Foi despertado pela batida retumbante do gongo.
Espantado, virou-se para o lado. Por uma fração de segundo viu o
doente pálido que estava deitado a seu lado. Mas este logo
desapareceu. Outro quadro surgiu. Viu um recinto amplo, escassamente
iluminado, que estava totalmente vazio, com exceção de três
sacerdotes enfileirados, em trajes reluzentes e esvoaçantes. Os três
“feiticeiros”
se encontravam na outra extremidade do recinto e dirigiam os olhos
sobre Ron.
Por
estranho que pudesse parecer, Ron não teve a impressão de
encontrar-se no interior do recinto. Tinha certeza de que continuava
deitado na cabana de pedra, e de que o quadro do pavilhão com os
sacerdotes estava sendo incutido em sua mente. Parecia até alguém
segurando um quadro colorido e vivo à frente dos seus olhos.
Permaneceu indiferente.
Subitamente,
os sacerdotes começaram a falar. Ron viu que não moviam a boca.
Mas, como da primeira vez, ouviu suas vozes e entendeu as palavras
proferidas.
— Alegre-se!
Você foi eleito para servir à verdade eterna e aos seus servos.
Ron sentiu
que essas palavras haviam sido dirigidas a ele, e que as compreendia
da mesma forma que, em outra oportunidade, compreendera o turbilhão
de fragmentos de idéias, que lhe prometiam uma morte horrível.
Ron não
disse nada. Limitou-se a fitar o quadro com uma expressão de
espanto.
— Mas a
fé exige obediência — emitiu um dos sacerdotes. — Ninguém
alcança o conhecimento sem obediência. Você nos obedecerá,
senão...
Não
prosseguiu. Ron sentiu uma dor lancinante atravessar seu corpo. Quis
gritar. Mas como se encontrava em estado incorpóreo naquele recinto,
não teve boca, pela qual pudesse sair seu grito.
Compreendeu
o sentido da demonstração. Toda vez que desse mostras de falta de
dedicação, sentiria a mesma dor, ou talvez até uma dor ainda mais
violenta.
“Nestas
condições sou obrigado a ser obediente”,
pensou.
Os três
sacerdotes pareciam ter captado a idéia.
— Não
existem condições — voltou a emitir um deles, e Ron percebeu que
a dor se tornava mais intensa. — Você servirá incondicionalmente
à verdade, e a nós, que somos seus guardiões.
Ron
contorceu-se e não ouviu mais nada. Não sabia o que estavam fazendo
com ele, mas tinha certeza de que era horrível. Não era possível
localizar a dor. Parecia que seu corpo fora atirado num espaço, onde
dor e martírio o envolviam.
“Sim,
obedecerei”,
pensou Ron.
A dor
passou. A voz dos sacerdotes tornou-se audível.
— Pratique
a humildade. As portas da verdade só se abrem aos humildes. Retorne
ao seu lugar.
Ron abriu
os olhos. Esperava ver à sua frente o rosto do doente que estivera
deitado a seu lado. Mas o chão de pedra estava vazio. Ron virou-se
de costas e viu um dos quatro companheiros de sofrimento, ajoelhado a
seu lado.
— Meu
Deus... foi demorado — disse o homem, em tom apavorado.
Ron
levantou o braço e olhou para o relógio. Não sabia quando fora
despertado pela batida do gongo, mas acreditava que não eram mais de
cinco horas. E agora já passava das oito. Quer dizer que passara
pelo menos três horas com o sacerdote, no interior daquele recinto.
Os outros
doentes garantiram que isso não era comum. Nenhum deles “ficara
longe”,
conforme costumavam exprimir-se, por mais de uma hora e meia. Ron
começou a desconfiar. Será que os sacerdotes notaram que era
diferente das outras pessoas que a polícia de Lepso costumava
entregar-lhes?
Era um
risco que tinha de aceitar. Os sacerdotes de Baalol dispunham de
intensas capacidades psíquicas. Era bem provável que soubessem
distinguir entre o espírito de um homem sadio e o de um doente.
Segundo informaram seus quatro companheiros de prisão, seu corpo
girara várias vezes de um lado para outro, enquanto os sacerdotes
trabalhavam com seu espírito. Era outro fato extraordinário, ao
qual nunca haviam assistido. Ron resolveu que teria de imitar ainda
melhor o comportamento de uma pessoa realmente doente.
Assim, por
exemplo, deixou que o dia se passasse sem fazer nada. Durante esse
dia apareceram por três vezes cinco bacias, trazidas por mãos
invisíveis. Nessas bacias havia um mingau cinzento, sobre o qual
seus companheiros se precipitaram vorazmente. Ron não estava com
fome. Teve de fazer algum esforço para comer. Esvaziou sua bacia,
tal qual os outros. Sentiu que o mingau saciava tanto a fome quanto a
sede. As vasilhas desapareceram ao mesmo tempo, sempre quinze minutos
depois do momento em que haviam surgido.
Isso
deixou Ron mais tranqüilo, já que o fato o levou a concluir que os
sacerdotes não exerciam uma vigilância ininterrupta sobre o
interior das cabanas. Do contrário veriam quando cada prisioneiro
concluía sua refeição, e retirariam as bacias, seguindo a ordem.
Face a
isso, assim que escureceu, criou coragem para sair da cabana e dar
uma olhada pelas outras construções da cidade templária. Ele o fez
com uma finalidade definida. Queria descobrir quem havia chegado no
dia anterior, além de desejar encontrar-se com o Dr. Zuglert.
Revistou
várias cabanas de pedra. Todas elas eram ocupadas por seres
não-terranos. Na sua maioria, os ocupantes eram membros das raças
de colonos arcônidas, mas também havia alguns swoons e outros
prisioneiros não-humanóides.
Ron levou
mais de uma hora para encontrar outra cabana habitada por terranos.
Seus olhos já estavam habituados à luz mortiça das estrelas.
Bastaria deixar a porta aberta e logo reconheceria perfeitamente os
prisioneiros, que se achavam mais próximos.
Pôs-se de
joelhos e disse num cochicho para dentro do recinto escuro:
— Nike
Quinto tem uma enorme barriga...
Dali a
alguns segundos ouviu a resposta, proferida em voz baixa:
— ...e
apenas dezessete fios de cabelo na cabeça.
Alguém
mexeu-se. Ron viu uma cabeça emergir da escuridão. Reconheceu um
dos cinco homens que Nike Quinto enviara a Lepso juntamente com ele.
— Tudo
bem,,sir — anunciou o homem.
— Sabe
alguma coisa a respeito dos outros? — indagou Ron.
— Lester
e Harrings chegaram “bem”.
É só o que eu sei.
— Muito
bem. Zuglert está na sua cabana?
— Sim,
senhor. Até se mantém bastante ativo.
— Está
bem. Preciso falar com ele.
Rastejou
para dentro da cabana. Um dos ocupantes ouvira a palestra. Ergueu-se
e fitou Ron.
— O
senhor é o Major Landry? — perguntou com a voz apagada.
Ron
respondeu que sim.
— Meu
nome é Armin Zuglert — disse o prisioneiro. — Seu plano já é
do meu conhecimento e fico muito satisfeito com o mesmo. É muito
importante que eu volte à Terra.
Ron
confirmou com um gesto.
— Não
sou autor do plano — respondeu. — E é perfeitamente possível
que ele falhe. Será preferível que me diga logo o que sabe. Talvez,
apenas um de nós conseguirá escapar.
Zuglert
concordou. Formava um estranho contraste, face aos outros doentes.
Parecia ter uma reserva oculta que constantemente lhe proporcionava
novas energias. Era capaz de uma fala coerente e, depois de cada
palavra que pronunciava, não tossia. Explicou o motivo. Era médico
e havia criado um método de controlar as escassas energias que lhe
restavam, a fim de possuir uma reserva quando precisasse dela.
Zuglert
informou que há doze anos trabalhara com um terrano chamado Edmond
Hugher. Hugher também era biomédico, e foi por intermédio dele que
pela primeira vez Zuglert travou conhecimento com o licor liquitivo.
A ocupação de Hugher consistia em examinar o líquido. Ao que
parecia, sabia que o licor continha substâncias ativas vegetais, que
produziam um rejuvenescimento do espírito e dos tecidos do corpo.
Ambos tomaram o licor, e Zuglert transformou-se num viciado. Depois
de pouco tempo, Hugher desaparecera sem deixar o menor vestígio.
Zuglert não saberia dizer se o liquitivo produzira nele o mesmo
efeito que em sua pessoa. Mas no seu íntimo tinha certeza disso, já
que não havia ninguém que tomasse o liquitivo por mais de quatro
vezes sem transformar-se num viciado.
Após
isso, Zuglert estudara atentamente as características do vício até
o momento em que sucumbira, e registrara seus estudos. A maior parte
dos registros fora enviada a um banco da Terra, para ser guardada no
cofre. Apenas as informações relativas aos últimos dias anteriores
ao seu colapso haviam ficado em seu escritório, onde os saltadores
provavelmente as haviam encontrado e confiscado.
Das
informações de Zuglert, ainda se concluía que doze anos e quatro
meses se haviam passado, desde o momento em que se tornara viciado
até aquele em que sobreviera o colapso. Certa vez, Zuglert
interrompera o consumo do liquitivo por um período prolongado, a fim
de estudar os sintomas. Suas experiências levaram-no a afirmar que
ninguém suportaria uma interrupção por período superior a seis
dias terranos. A conseqüência imediata da suspensão eram as
manifestações de esgotamento, que se tornavam mais patentes, face
ao período antecedente de superexcitação. A elas, seguia-se a
decadência psíquica.
Descreveu
seu ex-colaborador, o Dr. Edmond Hugher, como um homem calmo, sempre
bem-humorado, que costumava exibir um sorriso malicioso e parecia
saber certas coisas que não queria revelar. De qualquer maneira, o
Dr. Zuglert surpreendera-se com a variedade e a quantidade de seus
conhecimentos.
Depois
disso, Zuglert fez uma revelação surpreendente.
— Aliás,
ainda tenho um retrato dele — disse. — Sempre o trago comigo, já
que para mim o Hugher foi um colaborador precioso. Guardo uma boa
lembrança dele.
Ron
estendeu a mão.
— Dê-me
o retrato — pediu. — Tenho a impressão de que esse Hugher não é
tão inocente como pode parecer.
Zuglert
obedeceu imediatamente. Sua mão débil tirou o retrato do bolso da
jaqueta e entregou-o a Ron. Este examinou-o ligeiramente e guardou-o.
Depois
disso saiu da cabana. Prosseguiu em sua ronda e constatou que os
cinco agentes disfarçados de doentes haviam chegado à cidade
templária, conforme previam os planos.
*
* *
O Capitão
Larry Randall, que estava na sala de comando da Flórida, voltou a
fitar o mostrador luminoso do grande relógio. Desta vez, os dois
ponteiros se encontravam na posição desejada por ele. Soltou um
suspiro de alívio e levantou-se. Dick Kindsom, oficial superior, que
também se achava na sala de comando, perguntou:
— Está
na hora?
Larry fez
que sim.
— Vamos
passar para a outra nave e prosseguir com a ação.
Dick
Kindsom lançou um olhar extremamente desconfiado para a nave
arcônida, que se destacava nas telas da Flórida sob a forma de uma
mancha escura no mar de estrelas.
— Quem
dera que eu não tivesse uma sensação tão desagradável —
observou.
Larry fez
um gesto de desprezo.
— Se
mantivermos a máquina constantemente guarnecida e em recepção,
dificilmente poderá acontecer qualquer coisa. Na pior das hipóteses,
chegarão algumas pessoas a menos do que esperávamos.
Dick
Kindsom fez uma careta.
— Seja
como for... — disse — rezo pelo senhor.
Larry
agradeceu. Depois disso dirigiu-se ao intercomunicador e chamou os
homens, que deveriam transferir-se, juntamente com ele, para a nave
robotizada arcônida.
Não houve
perda de tempo. Trinta minutos depois do momento em que Dick Kindsom’
dissera que rezaria por Larry, a nave robotizada recebeu uma
tripulação orgânica. A seguir, afastou-se da Flórida, acelerando
fortemente. Deslocou-se em direção a Lepso.
*
* *
Na manhã
do dia seguinte, Ron Landry passou por outra sessão de instrução.
Mais uma
vez viu-se no interior do gigantesco recinto, à frente dos três
sacerdotes, que lhe haviam explicado que a obediência prevista no
culto de Baalol exigia principalmente que nunca tentasse abandonar a
cidade templária.
Esta
exposição foi apresentada com uma força de persuasão quase
hipnótica. Ron teve certeza de que o espírito dos doentes, muito
mais débil que o seu, sucumbiria sem a menor resistência a este
tipo de influência. Mesmo após a sessão de instrução,
continuariam presos à ordem quase hipnótica; nem pensariam em sair
da cidade.
Ron
concluiu que os antis estavam interessados em que o público não
tivesse conhecimento dos resultados de sua ação malévola. Os
semimortos nunca mais deveriam sair do templo. De outro lado, porém,
o templo deveria ter um aspecto místico, não de uma prisão. Além
disso, os sacerdotes provavelmente eram poucos para vigiar os
milhares de prisioneiros. Por isso usavam suas faculdades
parapsicológicas a fim de que estas criassem uma barreira,
impossível de ser rompida pelos doentes.
Ao dar-se
conta disso, Ron Landry voltou a ficar com raiva, e foi esta raiva
que acabou por traí-lo.
*
* *
Nenhum dos
doentes possuía energia para sentir raiva. Os sacerdotes registraram
a presença das fortes irradiações hostis daquele espírito
pretensamente enfermo e passaram a exercer uma vigilância mais
intensa sobre ele.
No mesmo
dia, Ron Landry foi levado a uma segunda sessão de instrução, e
desta vez os sacerdotes armaram-lhe uma cilada. Expuseram as
características do culto de Baalol. Explicaram que, segundo este
culto, a verdade-última, até o fim dos tempos, sempre seria
acessível apenas a uns poucos eleitos.
Um deles
emitiu:
— Um dia
os mundos reconhecerão a importância de nossa tarefa. Os donos dos
planetas, os que governam os grandes impérios, inclinar-se-ão à
nossa frente e sentir-se-ão satisfeitos se puderem beijar nossos
pés.
E Ron
Landry cometeu um grande erro!
Por mais
que se esforçasse, não conseguiu ouvir esse tipo de conversa-fiada,
sem que lhe surgissem idéias próprias. E naquele momento, sua idéia
foi mais ou menos esta:
“Eles
vão-me dar uns puxões de orelhas!”
Depois
disso os sacerdotes, perplexos, mantiveram-se em silêncio por alguns
minutos. Finalmente um deles voltou a emitir:
— Este
homem é um traidor! Matem-no!
Ron
recuou. Por um instante esqueceu-se de que sua presença naquele
recinto era incorpórea.
As paredes
do pavilhão desfilaram diante de seus olhos. Parecia que se
deslocava. Os sacerdotes foram ficando menores: afastava-se deles.
Enquanto recuava, aqueles homens à sua frente começaram a
movimentar-se. Agitaram violentamente os braços e emitiram:
— Segurem-no!
Ele não deve escapar. É um traidor, e por isso deve morrer.
Por um
instante, o fato da fuga ser tão fácil deixou Ron espantado. Nunca
acreditaria que o simples desejo de não morrer bastaria para
resistir à vontade dos sacerdotes.
Não sabia
que, por meses a fio, estes haviam lidado apenas com doentes,
incapazes de oferecer qualquer resistência. Não sabia que as forças
espirituais dos “feiticeiros”
haviam se acostumado à constituição débil dos doentes, motivo por
que levariam algum tempo para habituar-se à nova situação e
enfrentar a luta com um espírito sadio e vigoroso.
9
Saiu do
pavilhão, passando por um amplo portão. Viu diante de si uma praça
redonda, na qual desembocavam corredores vindos de todas as direções.
O fato de acreditar que se tratava de corredores provava que tudo
fora bem tramado. Naquele instante, não percebeu o que se encontrava
acima de sua cabeça.
As
emissões dos sacerdotes tornaram-se mais fracas. Ron teve uma
sensação de triunfo. Num caso como este, as vozes mais fracas
significavam que o poder que os sacerdotes exerciam sobre seu
espírito estava desaparecendo. Quando deixasse de ouvi-las de vez,
estaria livre de todo perigo — exceto, talvez, o de não mais
encontrar seu corpo.
Escolheu
um corredor, que formava um ângulo reto com o eixo longitudinal do
pavilhão e levava para a direita. Bastou seu desejo para que o chão
da praça deslizasse sob seus pés e o corredor se aproximasse.
No
interior do corredor reinava uma estranha escuridão, que não lhe
permitia perceber os detalhes. A única coisa que viu foi uma mancha
luminosa amarela, que ficava bem ao longe e levava à conclusão de
que o corredor saía ao ar livre. Deslocou-se em direção a essa
mancha luminosa. Sentiu um desejo ardente de alcançá-la o quanto
antes.
Segundo
seus cálculos, havia percorrido mais ou menos metade do caminho.
Naquele instante, sentiu que alguém se encontrava atrás dele. Face
ao nervosismo dos últimos minutos, deixara de prestar atenção às
vozes dos sacerdotes.
— Lá
adiante, no corredor — gritou alguém. — Apressem-se, senão ele
acabará escapando.
Agora eram
vozes mesmo, e não impulsos mentais.
— Não
escapará — disse alguém em tom tranqüilizador. — Se
necessário, poderemos recorrer ao fogo da verdade.
— Sim,
mas com isso todas as nossas forças...
— Cale-se,
seu idiota! Será que você faz questão de revelar-lhe todos os
nossos segredos?
Depois
disso voltou a reinar o silêncio. Ron compreendeu que ainda estava
sendo perseguido.
*
* *
Cinqüenta
quilômetros acima da superfície de Lepso, os propulsores da nave
arcônida robotizada explodiram, conforme previam os planos.
Seguiu-se um clarão visível a grande distância. Larry Randall, na
sala de comando — a única parte da nave que continuava intata —
preparou juntamente com seus fiéis colaboradores a manobra de pouso
de emergência.
O
encarregado da localização confirmou que se encontravam exatamente
no lugar previsto em seu plano.
*
* *
Assim que
saiu do corredor e mergulhou na claridade amarelenta, Ron percebeu
seu engano.
Aquilo não
era nenhuma saída. Não viu nenhuma extensão de areia banhada pelo
sol, com as pequenas construções enfileiradas. Viu-se num mar de
luz amarela, no qual podia nadar como se estivesse na água.
Precipitou-se para o lado, tornou a mergulhar, voltou-se para a
direita e para a esquerda, mas não encontrou outra coisa além da
luz amarela. Nem sequer conseguiu localizar a extremidade do corredor
do qual saíra há poucos segundos.
Apenas
percebeu que, de repente, a luz amarela se tornou menos intensa e
assumiu uma tonalidade vermelha. Sentiu o calor que o atingia de
todos os lados. Olhou em torno e viu os rostos debochados que o
fitavam.
“Recorreram
ao fogo da verdade...”,
pensou o major.
Ron
disciplinou-se mentalmente. Não adiantava andar nadando pela luz e
cansar-se em troca de nada.
O calor
foi aumentando. Ron sentiu que começava a transpirar. Era estranho.
Como poderia suar, já que não possuía corpo?
As caretas
que o cercavam continuaram no mesmo lugar. Pairavam imóveis. Eram
apenas rostos que o fitavam com um sorriso diabólico. Ron ouviu
vozes vindas de longe, que se divertiam à sua custa:
— Olhem
como ele vai se contorcer! Ficará preso no fogo. A verdade final
castigará aquele que dela zomba.
Outra voz
gritou em tom estridente:
— Todos
aqueles que desprezarem Baalol terão esse destino.
O calor
começava a tornar-se insuportável. A luz que o envolvia
transformara-se numa incandescência vermelha. Teve a sensação de
quem está preso num forno, mas sabia que o martírio estava longe de
ter chegado ao fim.
Voltou a
movimentar-se. Foi subindo lentamente e tornou a descer. Mas o calor
continuava inalterado. A temperatura crescia rapidamente.
Ron viu
que as caretas dos sacerdotes se aproximavam. As vozes estridentes
tornavam-se mais fortes. Sabia o que significava isso. Eles o haviam
prendido.
Seus
pensamentos começaram a ficar confusos. Já não sabia onde estava.
A impressão de que seu corpo sofria todos esses martírios
tornava-se cada vez mais nítida. Sentiu uma comichão na pele e o
suor entrava-lhe pelos olhos. Contorceu-se. Só teve um desejo, o de
poder levantar as mãos para coçar-se em todos os lugares em que
sentia comichão e mordidelas...
Começou a
gritar.
*
* *
Larry
Randall concentrou o campo de absorção de choque da nave sobre a
sala de comando. Depois disso tirou a mão do painel e, resignado,
aguardou o que estava para vir.
Na sala de
comando, apenas se sentiu um ligeiro solavanco. Mas do lado de fora,
o envoltório da nave rompeu. Uma gigantesca nuvem de pó e areia
ergueu-se do solo, encobrindo o local do impacto.
Larry teve
certeza de que o estremecimento do solo desértico fora bastante
violento. Portanto, as pessoas que se encontravam na cidade templária
saberiam que chegara o momento de entrar em ação.
*
* *
Os agentes
de Nike Quinto costumavam ser treinados para agir com total
independência. Ouviram o uivo da nave que caíra. Quase ao mesmo
tempo escutaram o estrondo provocado pelo impacto do veículo
espacial e sentiram o solavanco que sacudiu o solo, como se fosse um
terremoto.
Cada um
deles segurou dois dos doentes mais fracos, retirou-os da pequena
casa e levou-os pelo deserto a fora, em direção à gigantesca nuvem
de pó que cobria o local da queda. Os outros, que dependiam das
energias que lhes restavam, arrastavam-se pesadamente atrás dos
primeiros. Se não fosse a esperança da salvação, não
conseguiriam dar mais que dois ou três passos.
Tudo
correu conforme fora planejado. A nuvem de pó continuava a ocultar a
nave que acabara de realizar o pouso de emergência. Naquele momento,
o último dos quarenta e oito doentes atravessou a única eclusa da
nave que continuava intata e entrou na sala de comando. Larry Randall
encaminhava os doentes imediatamente para uma espécie de cerca de
arame, que havia nos fundos da sala. No meio da cerca abria-se uma
porta. Braços prestativos empurravam os doentes por essa porta e
fechavam-na atrás deles.
No mesmo
instante, o local junto à cerca ficava vazio. O doente desaparecia.
Larry
observou a tela. Viu a nuvem de pó baixar lentamente. Já reconhecia
o topo da pirâmide do templo.
E Ron
Landry ainda não chegara!
*
* *
Ron levou
algum tempo para entender o que as caretas já tinham compreendido. O
major só conseguia raciocinar perfeitamente porque o calor
diminuíra.
Ficou
espantado. Alguma coisa devia ter acontecido. Os sacerdotes já não
se interessavam por ele. Será que sua pessoa e seus pensamentos e
ações deixaram de ter importância? Ou será que a atenção dos
“feiticeiros”
fora desviada?
Não
sabia. Sentiu-se aliviado ao notar que a luz que o envolvia voltava a
tornar-se mais intensa. Nadava com movimentos vigorosos pelo mar de
luminosidade. Agora, que escapara ao maior perigo, voltou a
lembrar-se da tarefa que devia cumprir. Antes de mais nada, teria de
reencontrar seu corpo.
Até
parecia que o reconhecimento da tarefa fora suficiente para realizar
o milagre. De repente, o mundo que o cercava começou a modificar-se.
Perplexo, Ron notou que a luz se afastava. Os contornos dos pequenos
cubos, esferas e pirâmides, que abrigavam os doentes, surgiram
diante de seus olhos.
A
escuridão voltou a reinar em torno dele, mas agora ele possuía mãos
que lhe permitiam tatear para orientar-se na escuridão. Possuía
pés, que lhe permitiram apoiar-se contra uma parede invisível.
Agora ele podia usar os cotovelos e erguer-se. Viu a pequena abertura
iluminada acima de sua cabeça e sabia que se encontrava novamente no
interior da cabana de pedra, da qual fora retirado pelo sacerdote, a
fim de assistir à sessão de instrução.
Retornara
para seu corpo. Num movimento instantâneo pôs-se de pé. Sentiu que
estava banhado em suor. Por um instante, o fato o deixou espantado,
mas logo compreendeu que seu espírito dirigira de longe as reações
do organismo.
Por uma
fração de segundo, Ron Landry estremeceu diante do quadro de um
mundo estranho e irreal, no qual o espírito e o corpo levavam uma
existência separada.
O fato de
seus quatro companheiros de prisão terem desaparecido provava que,
neste meio tempo, a segunda parte da missão, que representava a fase
decisiva, começara a ser posta em execução. Contornou a cabana e
viu os restos da gigantesca nuvem de pó, levantada pela nave que
acabara de realizar o pouso de emergência. Também viu o vulto
esférico da própria nave.
Saiu
correndo em direção à mesma. Era maravilhoso conseguir correr,
usando as próprias pernas, sem depender da força e do poder do
espírito inteligente.
Levou
cinco minutos para chegar à nave. Entrou apressadamente pela eclusa
aberta, e abriu os braços para cumprimentar Larry Randall, que já o
esperava.
— Lá
atrás! — exclamou Larry, em tom insistente. — Meu Deus, você
está com um aspecto horrível.
Ron
confirmou com um sorriso. Passou pela porta gradeada de um
transmissor. Do lado de fora alguém moveu uma chave. Por uma fração
de segundo, Landry sentiu a dor da desmaterialização. Os contornos
dos objetos que o cercavam desmancharam-se. Quando voltou a enxergar,
encontrava-se a bordo do cruzador Flórida.
Dick
Kindsom em pessoa abriu a porta do receptor conjugado com o
transmissor. Estendeu-lhe a mão e disse:
— Seja
bem-vindo a bordo! Sinto-me feliz de saber que no fim tudo deu certo.
*
* *
No momento
em que Ron Landry desapareceu através do transmissor, fortes batidas
de gongo encheram a cidade templária.
A queda da
nave deixou os sacerdotes confusos. Estes desistiram de seus esforços
de destruir o homem, que escarnecera de Baalol, no fogo da verdade.
Procuraram investigar o perigo que se aproximava. Alguns deles saíram
da cidade templária, a fim de olhar de perto o veículo espacial que
acabara de cair.
Perceberam
que alguns dos prisioneiros haviam desaparecido. Supuseram que a nave
pousada tinha algo a ver com isso. Provavelmente os fugitivos já se
encontravam a bordo. Acharam que seria fácil recapturá-los, quer o
comandante concordasse, quer não.
Mas
estavam enganados. Quando chegaram à nave, o comandante e o resto da
pequena tripulação ocupavam-se com os reparos do sistema propulsor
de emergência. Não encontraram o menor vestígio dos fugitivos. O
comandante estranhou o pedido que eles fizeram: queriam dar uma
olhada pelo interior da nave. Kindsom não se opôs.
Os
sacerdotes revistaram todos os cantos da nave, inclusive as partes
que sofreram graves avarias com o impacto, e chegaram à conclusão
de não haver por lá nenhum adorador de Baalol. Não tiveram a menor
dúvida. Mesmo que os fugitivos se tivessem escondido nos cantos mais
inacessíveis, eles o teriam percebido. Afinal, o homem não é feito
unicamente de matéria. Possuíam um espírito, e os sacerdotes de
Baalol não poderiam deixar de perceber as irradiações do mesmo.
Não havia
a menor dúvida: os fugitivos não se encontravam no interior da
nave. Retiraram-se, depois que o comandante lhes garantiu que, dentro
de duas horas, repararia o propulsor de emergência para tentar
decolar e dirigir-se ao espaçoporto de Zanithon.
Cumpriu
sua palavra. Antes que as duas horas chegassem ao fim, a nave
ergueu-se com sons retumbantes e chiantes, abandonou as areias do
deserto, foi ganhando altura e desapareceu na direção sudeste.
*
* *
— Não —
disse Nike Quinto, em tom resoluto. — Por enquanto não temos
nenhuma explicação para as experiências pelas quais acabam de
passar.
Ron Landry
e Larry Randall estavam sentados à sua frente. A resposta de Nike
Quinto fora dirigida a Ron. Este recuperara o aspecto normal, assim
que regressara à Terra.
— Existem
certas coisas — acrescentou Nike Quinto — que a ciência terrana
ainda não consegue enxergar. Devem estar cientes de que, por
enquanto, não existe nenhuma explicação científica para as
faculdades dos nossos mutantes. Os sacerdotes de Baalol são
indivíduos do mesmo tipo, com a única diferença de que possuem uma
variedade muito maior de faculdades que os membros do Exército de
Mutantes da Terra.
Ergueu os
olhos e sentenciou:
— Major,
o senhor ainda terá que ter alguma paciência até que alguém lhe
possa fornecer uma teoria viável. Diria que isso deve demorar uns
trezentos a quatrocentos anos.
Ron
retribuiu a ironia com um ligeiro sorriso.
— Muito
bem — disse em tom tranqüilo. — Mesmo que não haja nenhuma
explicação, valeu a pena passar pela experiência. O espírito e o
corpo levaram uma existência separada. Que aventura!
Nike
Quinto interrompeu-o com um gesto.
— Não
se entusiasme sem motivo — replicou com sua voz aguda. — Posso
imaginar perfeitamente que, quando estava sendo aquecido pelo fogo da
verdade, não se sentiu muito bem.
Ron
confessou a si mesmo que Nike Quinto tinha razão.
— Uma
autoridade muito importante autorizou-me a manifestar-lhe os
agradecimentos do administrador. Sem que o soubéssemos, nós nos
envolvemos num assunto que cobre áreas cada vez maiores. Ao que
parece, trata-se de um complô contra o Império Solar. É como acabo
de dizer: ao que parece. Ainda não dispomos de dados precisos. Mas
libertamos quarenta e oito terranos, que iriam morrer nas garras dos
sacerdotes de Baalol, e descobrimos uma pista importantíssima. E é
por isso que o administrador manifesta seus agradecimentos.
— Sinto-me
muito honrado — disse Ron. — É bem verdade que eu gostaria...
— É bem
verdade que gostaria de quê? — gritou Nike Quinto. — Não se
esqueça da minha pressão; não me enerve. Faça o favor de
exprimir-se com mais clareza.
Ron
reclinou-se na poltrona.
— Sei
perfeitamente que libertamos quarenta e oito terranos — disse Ron.
— Mas qual é a pista importantíssima que teríamos descoberto? O
senhor poderia fazer o favor de explicar?
Um sorriso
surgiu no rosto de Nike Quinto.
— Ah,
então o senhor ainda não sabe — disse com uma risadinha. —
Lembra-se do retrato que lhe foi entregue por Armin Zuglert?
— Naturalmente.
— Esse
retrato corresponde ao homem que pela primeira vez colocou Zuglert em
contato com o liquitivo, não representa?
— Perfeitamente.
— Esse
homem disse ser biomédico e apresentou-se com o nome de Edmond
Hugher?
— Isso
também é verdade — respondeu Ron Landry, desejando que Nike
Quinto lhe dissesse finalmente o que sabia.
— Pois é
aí que está a pista — disse Nike. — O retrato foi examinado
pelos órgãos competentes. Sabe quem é a pessoa da fotografia?
Ron negou
com a cabeça.
— Não
senhor. Não tenho a menor idéia.
Nike
Quinto deleitou-se com a tensão que estava criando.
— Pois
fique sabendo — disse, esticando as palavras — que não existe a
menor dúvida de que essa pessoa é... Thomas Cardif, o filho do
administrador.
*
* *
*
*
*
Os
agentes da Divisão III descobriram o plano dos antis, mas não
conseguiram fixar as terríveis dimensões do mesmo.
No
próximo volume da série, intitulado O
Bloqueio de Lepso,
uma nova e eletrizante perseguição vai acontecer...

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