sexta-feira, 2 de setembro de 2016

P-108 - O Deserto da Morte - Kurt Mahr [Parte 3]

Não sei. Provavelmente achava que o assunto era tão importante, que não queria confiá-lo à primeira pessoa que pudesse alcançar com o videofone de pequeno alcance. Realmente, quando falou da representação comercial dos saltadores, não chamou ninguém, mas pediu ao sistema de comunicações que o ligasse com a primeira nave terrana com a qual conseguisse estabelecer contato. Provavelmente estava fazendo a ligação de telecomunicação, quando saiu de seu escritório — um sorriso irônico surgiu no rosto de Gerard. — Acontece que subestimou a vigilância dos saltadores. Dificilmente existe um edifício no centro da cidade que eles não mantenham sob vigilância. Descobriram-no em tempo e levaram-no. Infelizmente, depois disso surgiu um contratempo. Manteve aquela palestra com a Flórida... mas não conseguiu revelar nenhum dado importante.
Desta vez, Ron soltou uma risada de escárnio.
O senhor já me revelou todos os detalhes, Lobson — disse em tom tranqüilo.
Eu?
Isso mesmo. O senhor não repetiu fielmente o que Zuglert disse no momento em que teve o acesso de fraqueza? “Importante para a Terra... Todos devem ser prevenidos... Meu exemplo prova... Solução alcoólica de que ninguém desconfia...” Não acha que isso basta para que se tirem algumas conclusões?
Gerard fez um gesto negativo.
Não — disse em tom áspero. — Acredito...
Diga-me mais uma coisa. Por que os doentes são levados ao deserto? — perguntou Ron. — O que é que os sacerdotes de Baalol fazem com eles?
Gerard estremeceu num gesto nervoso e seu rosto ficou muito pálido.
Não sei! — exclamou em tom exaltado. — Nunca mais pronuncie esse nome. Baalol representa um poder terrível.
Ron lembrou-se daquilo que acabara de acontecer com Larry e ele. Estava disposto a dar uma ênfase toda especial às últimas indagações.
Pois bem — respondeu em tom frio. — Vejo que o senhor ainda não sabe.
Fitou Gerard e prosseguiu:
Acontece que eu sei alguma coisa. O senhor é um viciado em drogas, e é só por isso que se dispõe a colaborar com os saltadores. A droga de que precisa não é muito cara, mas acontece que o senhor não tem dinheiro. Foi por isso que entrou em contato com Zuglert. Precisou de que ele o ajudasse em algum truque grosseiro que lhe renderia algum dinheiro. Mas Zuglert já conhecia sua fama e sabia o que o senhor desejava dele. Pelo que me contou, ele se dispôs a ajudá-lo, mas só de maneira decente.
Quando Zuglert adoeceu, o senhor fugiu. É possível que os saltadores realmente o tenham agarrado, quando voltou ao escritório de Zuglert, mas também é possível que se tenha unido espontaneamente a eles. De qualquer maneira os saltadores lhe deram as quantidades de droga de que o senhor necessitava. Por isso mostra-se submisso a eles. Por alguns goles de uma bebida semelhante a um licor, que é vendida em garrafinhas com etiqueta amarelo-violeta.”
Gerard fitou-o. Parecia perplexo. Recuou um passo, como um sonâmbulo. Sua boca movia-se. Esforçou-se para formular palavras, mas estas não eram articuladas.
Ron esforçou-se para não mexer-se. Tinha de manter preso ao seu o olhar de Gerard. A maior parte do que acabara de dizer não passava de suposições. A reação de Gerard provava que todas eram corretas. Gerard estava terrivelmente assustado porque seu segredo fora descoberto.
Que diabo!”, pensou o major. “Está na hora de Larry agir.”
Uma fração de segundo depois disso percebeu que não se enganara em relação a Larry. De repente Gerard teve sua atenção despertada para alguma coisa que aconteceu fora do campo de visão de Ron. Fez menção de saltar para o lado, mas tropeçou e caiu.
Naquele instante, o disparo ofuscante do capitão saiu com um chiado de trás do veículo. Ron entesou-se para dar um salto, a fim de desviar a atenção de Gerard, caso Larry errasse o tiro.
Acontece que Larry fizera boa pontaria. O tiro atingiu o braço direito de Gerard. Este soltou um grito de dor.
Ron caminhou lentamente em sua direção. Segurou-o pelos ombros, puxou-o para cima e colocou-o de pé.
Vamos voltar para Zanithon — disse em tom tranqüilizador. — O senhor receberá seu licor, mesmo sem ser dado pelos saltadores.

* * *

A viagem correu sem incidentes. Gerard Lobson recebeu aquilo que queria. Ron Landry teve oportunidade de verificar que a droga, denominada liquitivo, era livremente vendida no comércio de Lepso. Era um licor. Ao que parecia, ninguém desconfiava do perigo que a bebida representava.
Depois de sorver sua dose, Gerard modificou-se. Não pensava mais em voltar para junto dos saltadores, ainda mais que Ron adquiriu uma grande provisão de liquitivo, a fim de abastecê-lo por algum tempo e também poder fornecer algumas amostras aos analistas terranos. Gerard até chegou a concordar para que fosse levado o quanto antes à Terra, onde procurariam libertá-lo do vício.
Ron transmitiu um extenso relatório em código destinado a Nike Quinto. Enquanto aguardava a resposta, manteve a planejada palestra com o Inspetor Neary, da Missão Comercial Terrana.
Neary parecia muito surpreso com o fato de que seus canais de telecomunicação haviam sido violados. O local da violação logo foi descoberto, pois os técnicos estavam a par dos acontecimentos. Encontraram uma estação retransmissora num pequeno escritório, situado quatro andares abaixo, e que pertencia à Transall Import and Export Company. O proprietário não estava presente no momento da descoberta, e nunca mais foi visto no local. Dali em diante, os saltadores já não tinham a possibilidade de escutar as palestras da Missão Comercial.
As investigações realizadas por Neary revelaram que o produto denominado liquitivo era de origem desconhecida e aparecera pela primeira vez no comércio de Lepso há cerca de doze anos terranos. Neary tinha seus meios de descobrir isso. Bastava recorrer às listas de compras dos negociantes de bebidas, aos fregueses dos grandes restaurantes da cidade e a alguns policiais de Lepso.
Era verdade que fazia apenas alguns meses que o liquitivo fora colocado ao alcance do grande público. O movimento de vendas do produto se centuplicara, por assim dizer, da noite para o dia. Era a mesma observação que Larry lhe comunicara, enquanto executava o papel de motorista de táxi, embora ele mesmo não a tivesse feito, já que lhe fora transmitida por terceiros. Há alguns meses, Lepso enlouquecera de repente. Uma tremenda ânsia de atividade apoderou-se dos habitantes daquele mundo. Ninguém queria andar devagar. Todos pareciam ter pressa, pois sentiam-se com forças para ter pressa pelo resto da vida.
Ainda se constatou que um total de quarenta e oito terranos registrados na Missão Comercial estavam desaparecidos. Ao que tudo indicava, encontravam-se na cidade onde ficava o templo dos sacerdotes de Baalol. Era bem verdade que, segundo os cálculos de Ron Landry, essa cidade devia ter alguns milhares de habitantes, admitindo que cada uma das casas tinha pelo menos três ocupantes. Dali se concluía que também havia membros de outras raças galácticas, vítimas do perigoso licor.
Quando as investigações de Neary ainda estavam em curso, Ron recebeu ordens da Terra para regressar imediatamente com Larry Randall. Avisou Larry, que estava realizando investigações por conta própria, juntamente com Gerard, e combinou um encontro em seu hotel.
Depois disso despediu-se de Neary. Nos últimos tempos vira vários funcionários da Missão Comercial e falara com todos eles. Saiu da sede com a impressão de que ali também se verificava uma estranha pressa e ânsia de atividade. Mas não falou com Neary a este respeito.
Sabia que a droga, denominada liquitivo, já tinha um círculo de consumidores muito mais amplo do que supusera.

* * *

A araucana alta estava novamente atrás do balcão da recepção. Ron sabia que cometera uma injustiça contra a moça, ao supor que ela era uma colaboradora dos saltadores. O liquitivo apenas era uma bebida entre muitas. Naqueles tempos tornara-se a bebida da moda em Lepso, e tinha um enorme efeito revitalizante. Ninguém sabia — ou ninguém parecia saber — que certos consumidores se tornavam viciados. Era por simples cortesia que a direção do hotel oferecia aos hóspedes recém-chegados uma dose de liquitivo — cujo preço evidentemente lhes seria debitado.
Todavia”, pensou Ron, com um sorriso, “o segundo copo que a araucana traz agora na bandeja, sem dúvida não está previsto nas instruções de serviço!
Sorriu para a moça ao passar por ela. Quando chegou ao quarto, Larry Randall e Gerard Lobson já se encontravam lá. Como sempre, Gerard estava animado e impaciente. Não se tranqüilizou, nem mesmo quando Ron lhe asseverou que deixariam Lepso ainda naquele dia.
Larry descobrira que, em linhas gerais, os dados fornecidos por Neary eram corretos. Fazia pouco mais de doze anos que o liquitivo aparecera no comércio pela primeira vez. Ninguém sabia de onde vinha. O dono do restaurante adquiria o produto do varejista, este o comprara do atacadista, o atacadista o recebera de um distribuidor geral, que fazia suas compras no lugar denominado Cinema, no sistema de Lorraine. Não havia a menor dúvida de que os habitantes de Cinema não eram os verdadeiros produtores. O licor passava por um número muito grande de mãos, e chegava a ser um milagre que o vendedor final ainda pudesse fornecê-lo a um preço acessível.
Quer dizer — concluiu Ron, em tom pensativo — que o liquitivo provoca duas reações diversas.
Larry arregalou os olhos.
Você já chegou mais longe que eu — disse com um sorriso. — Poderia fazer o favor de explicar?
Ron fez que sim.
Preste atenção. Armin Zuglert era um homem robusto e esportivo. Ninguém desconfiava de que fosse um viciado em liquitivo. De repente sua saúde se arruína; ele se torna um cadáver vivo. Por quê?
Porque não recebe mais liquitivo — disse Larry, apressadamente e em tom convicto.
Ron negou com o dedo.
Não é nada disso! O liquitivo pode ser comprado em qualquer lugar, e Zuglert tinha dinheiro. Sabia que estava viciado, e também sabia que um viciado não pode parar de uma hora para outra de tomar a substância à qual o corpo está acostumado. Portanto, não tinha nenhum motivo para deixar de adquirir novas provisões de liquitivo, assim que suas reservas da bebida se esgotassem.
Porém, além de viciar, o liquitivo produz outro efeito, depois de um período de consumo regular. Transforma o homem e outros seres em cadáveres vivos. Quanto tempo dura isso? A única coisa que podemos dizer é que esse efeito surge no máximo depois de doze anos e alguns meses de uso. E que antes disso Zuglert não poderia ter conseguido a droga em Lepso.”
Larry refletiu por algum tempo. Finalmente confirmou com um gesto.
Acredito — disse como quem fala para si mesmo — que poderemos descobrir muita coisa se nos ocuparmos detidamente com os habitantes da cidade templária de Baalol.
Ron levantou-se e dirigiu-se a uma das janelas.
Acredito — disse com um suspiro — que é por isso que Nike nos chama de volta à Terra. Quer apostar que não ficaremos em paz por muito tempo?
Não aceito a aposta — disse Larry, que continuava sentado na poltrona. — Não posso fazer uma aposta contra alguém que pensa da mesma forma que eu.
Ao que parecia, Gerard sentiu-se entusiasmado com a idéia de voltar para Lepso e examinar a cidade templária. Estava a ponto de iniciar um discurso prolongado a este respeito, quando aconteceu uma coisa estranha.
Ron olhou para trás e viu uma neblina tremeluzente que surgiu no meio do quarto. Surpreso, deu um passo na direção da mesma para examiná-la melhor. Naquele momento, a neblina transformou-se numa caixa de formato cúbico, que desceu tranqüilamente sobre o tapete e se acomodou. Na parte dianteira da caixa havia uma grossa vidraça, atrás da qual se movia um líquido verde viscoso. No interior do líquido boiava uma sombra matizada de cinza-claro e cinza-escuro, que executava uma série de movimentos elegantes.
Ron logo se recuperou da surpresa.
Fico satisfeito em revê-lo mais uma vez — disse.
Vim para despedir-me.
Vai voltar para Pisalam?
Isso mesmo. Quero agradecer-lhe. Você encontrou a pista de nosso irmão desaparecido.
Uma pista muito triste...
Foi o destino. Quando lhe pedi que procurasse localizar nosso irmão, tinha certeza quase absoluta de que não poderíamos salvá-lo.
Por quê? — perguntou Ron, em tom de surpresa.
Do contrário teria sido possível estabelecer contato com ele — disse o ser de Pisalam.
O transec conferiu um tom alegre à sua voz, quando acrescentou:
Afinal, mantive contato com você, que é um estranho, por mais afastados que estivéssemos um do outro. Por isso, quando você esteve para ser interrogado no interior de um edifício desta cidade e quando correu perigo no deserto, pude intervir em tempo. Teria sido muito mais fácil estabelecer contato com meu irmão, se nada lhe tivesse acontecido. No momento em que cheguei a Lepso, as emissões dele estavam reduzidas a um zumbido surdo e ininteligível. Supus que não poderíamos fazer mais nada por ele. Mas quis ter certeza.
Seguiu-se uma ligeira pausa.
Voltarei para Pisalam — continuou o ser estranho, em tom triste. — O nome de nosso irmão será riscado das listas.
De qualquer maneira fico-lhe muito grato pelo auxílio que me prestou — disse Ron. — Se não fosse este auxílio, não teria conseguido muita coisa.
Não diga isso — objetou o pisalamense. — Seu espírito é muito forte. Você é capaz de enfrentar muitos inimigos.
Ron refletiu sobre o que deveria dizer.
Se você permitir, um dia lhe farei uma visita — disse.
Você sempre será bem-vindo — respondeu o ser. — Você e seus amigos.
Depois disso, o incrível se repetiu. De repente, o lugar em que pouco antes se encontrava o cubo, ficou vazio. Lá embaixo, junto à entrada do hotel, um veículo de formato cúbico pôs-se em movimento, seguiu rua a fora e afastou-se rapidamente.
Ron olhou para o relógio.
Está na hora — disse em tom cansado. — Iremos numa nave-correio da Missão Comercial. Preparem-se, amigos.
7



Ron teria ganho a aposta, se tivesse encontrado alguém disposto a aceitá-la. Quando a nave-correio pousou, Nike Quinto encontrava-se no espaçoporto. Depois de um ligeiro cumprimento, disse a Ron Landry e Larry Randall que só disporiam de cinco horas para descansar. Levou-os a um hotel e mandou que, depois desse tempo, se apresentassem em seu escritório.
Imediatamente pôs as mãos em Gerard Lobson, que pouco antes do pouso recebera a última dose de liquitivo e estava muito exaltado. Se Nike Quinto sugerisse que se dirigissem à cidade e assaltassem a sede do General Cosmic Bank, provavelmente teria ficado encantado com a idéia. Não se interessou em saber o que Nike Quinto pretendia fazer com ele. O que lhe importava era que acontecesse alguma coisa.
Naquela oportunidade houve um incidente que provavelmente ficaria gravado pelo resto da vida na memória de Ron e de Larry. É que Nike Quinto se sentiu incomodado com a atividade excessiva de Gerard. Procurou restringi-la pela forma a que estava habituado. Começou a queixar-se da pressão sangüínea e responsabilizou Gerard pelo fato de que seu estado de saúde se deteriorava rapidamente, motivo por que, dentro de uma hora, provavelmente sofreria um infarto.
Gerard ouviu as queixas, Mas finalmente irrompeu:
Pare com essa choradeira. Se sua pressão sangüínea realmente é tão miserável, aposente-se e deixe que outra pessoa ocupe seu cargo.
Nike Quinto engoliu várias vezes em seco e seu rosto tornou-se ainda mais vermelho. Ficou calado. Enquanto Gerard estava por perto, não disse mais uma única palavra sobre sua pressão.

* * *

Dali a cinco horas, Nike Quinto falou em atitude muito séria, e fazendo um esforço inútil para dar um tom grave à voz, que saía aos guinchos:
O assunto em que estamos envolvidos é tão importante que recebi minhas instruções diretamente do administrador. É bom que isso fique bem claro, para que não pensem que podemos discutir os planos que lhes serão apresentados. Cabe-lhes exclusivamente tomar conhecimento dos mesmos e executá-los.
Moderando o tom de voz, acrescentou:
Não é porque o administrador em pessoa deu as instruções. Como sabem, ele não acredita que é um super-homem e nem que entende de tudo melhor que qualquer outra pessoa. É porque todo o potencial positrônico da Capital foi utilizado na elaboração dos planos. Não podemos descobrir nenhum erro nos mesmos. Nossos cérebros são muito pequenos para isso. Entendido?
Ron confirmou com um gesto distraído. Como de costume, Larry preferiu não dizer nada, nem fazer qualquer gesto. Ron não pôde deixar de confessar que se sentia impressionado com a exposição de Nike Quinto. Via de regra Perry Rhodan, o administrador, costumava ser considerado um homem ao qual todos se referiam num tom de voz de uma criança que alude ao grande mágico da fábula. O administrador não estava sujeito à pressa e insegurança deste mundo. Estava sentado em seu trono, bem acima das nuvens, em algum país nebuloso e distante. Nunca intervinha em qualquer assunto. Suas atividades restringiam-se ao plano mais elevado da política interestelar. Era esta a imagem que a maioria das pessoas havia formado de Perry Rhodan. Por isso, o fato de ele ter intervindo no problema de Lepso era espantoso.
De onde vem a ordem? — perguntou.
Nike Quinto inquietou-se.
De onde vem o quê? — esbravejou. — Faça o favor de exprimir-se com maior clareza. Uma pergunta confusa sempre me deixa nervoso, e o nervosismo faz subir minha pressão. O que deseja saber?
Ron sorriu.
Por que — perguntou, usando uma linguagem mais precisa — o assunto é tão importante que o administrador teve de cuidar pessoalmente do mesmo?
É simples — respondeu Nike Quinto. — Os sacerdotes do culto de Baalol ocupam um lugar de destaque no problema de Lepso. O culto de Baalol já desempenhou seu papel na História da Terra, isso há cerca de sessenta anos. Houve uma tentativa de atentado contra o Imperador de Árcon. Furtaram-lhe o ativador, a fim de obrigá-lo a abdicar. A iniciativa partiu dos sacerdotes de Baalol. E o aparelho foi encontrado em poder de um sacerdote desse culto, depois da perseguição até o sistema de Gela e da luta violenta. Os sacerdotes de Baalol são mutantes poderosos, com uma variedade tremenda de capacidades paramentais. Nenhum dos mutantes terranos está em condições de enfrentá-los. Com a maior facilidade absorvem outras capacidades parapsicológicas e as dirigem contra o indivíduo que é portador das mesmas. Face a este efeito de reversão, também costumam ser chamados de antis.
Sabemos que os antis montaram uma extensa rede de locais de culto em todos os pontos da Galáxia. Acontece que não conhecemos seus objetivos, nem a natureza de seu culto. A respeito deste, apenas sabemos que não gira em torno de uma ou algumas divindades definíveis. Manifesta, de forma mística, a pretensão de incutir nos crentes a sabedoria final e livrá-los de todo sofrimento físico e psíquico.
Ainda sabemos que os antis são hábeis negociantes. Não é de se admirar que mantenham relações com os saltadores, pois, ao que tudo indica, estão em condições de fornecer mercadorias importantes a estes. Os biomédicos, conhecidos como aras, também foram vistos muitas vezes em companhia dos sacerdotes de Baalol. Ambas as raças, ou seja, os saltadores e os aras, têm intenções nada amistosas para com a Terra. Por isso, a lógica nos faz concluir que não devemos esperar nada de bom dos antis.
Em Lepso, eles se envolveram num negócio. Provavelmente são os saltadores que fornecem as matérias-primas para o liquitivo. Os aras usam estas matérias-primas para fabricar a bebida diabólica e os antis tiram proveito dos viciados semimortos que são recolhidos pela polícia de Lepso e levados à cidade templária. Certamente Lepso só participa da operação porque isso lhe traz uma vantagem financeira.
Isso basta para que possam avaliar a situação. Cabe-nos agora impedir a disseminação do tóxico pela Galáxia, especialmente pelas áreas de influência terrana. As amostras de liquitivo, que os senhores trouxeram de Lepso, já foram submetidas a uma análise provisória. Os analíticos são de opinião que não poderão fazer muita coisa, enquanto só dispuserem dessas amostras. Precisam dos viciados para realizar seus estudos. Portanto, os senhores terão de voltar para Lepso e libertar o maior número possível de prisioneiros da cidade templária. Concordam em fazer isso?”
Ron estremeceu. Lembrou-se do que lhe acontecera quando pela primeira vez procurou penetrar no templo. Já conhecia o terrível poder dos sacerdotes de Baalol. Face ao que Nike Quinto acabara de dizer, nenhum mutante os acompanharia durante a missão. Ele e Larry ficariam sós. Dependeriam exclusivamente de suas capacidades para enfrentar um grupo de antis que dispunha de dotes sobrenaturais. Sentiu um calafrio.
Não é que eu goste disso, coronel — respondeu, depois de algum tempo. — Mas sou de opinião que sempre se deve concluir o que foi começado.
Nike Quinto acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
Apenas lhe peço que responda a uma pergunta — prosseguiu Ron.
Nike Quinto franziu a testa.
Compreendo perfeitamente que o assunto cause repugnância — disse Ron. — Alguns milhares de seres vivos de todas as raças desapareceram em Lepso, entre eles quarenta e oito terranos, e as vendas da bebida diabólica crescem constantemente. Mas por que motivo o administrador, em pessoa, resolveu participar da solução do problema?
Quinto pôs-se a brincar com um estilete de escrever. Ao que parecia, esforçava-se para formular uma resposta lacônica.
É simples — começou sentencioso. — Na Terra surgiram indícios da realização de atividades suspeitas. Ao que parece, o liquitivo já encontrou um caminho para cá.

* * *

Vários transeuntes observaram o homem que saiu cambaleando do pequeno edifício de escritórios e começou a deslocar-se pela rua, apoiando-se contra a parede do edifício como se tivesse medo de cair.
Realmente parecia que iria ao chão assim que ficasse privado de apoio. Era bem verdade que aquilo que acontecia não conseguira alterar a constituição gigantesca de seu corpo. Continuava a ser um gigante de ombros largos e mãos robustas. Mas alguma coisa parecia ter subtraído as forças de seu corpo. Seus joelhos tremiam, e as mãos não conseguiam ficar quietas por um segundo. O rosto estava flácido. A pele cinza-amarelenta estendia-se sobre os maxilares, mostrando-se flácida e enrugada.
Não se sabia para onde o homem pretendia ir. Para ele, o hospital seria o lugar mais adequado. Acontece que o hospital ficava em direção oposta à que seguia.
Finalmente um dos transeuntes tomou coragem e aproximou-se do doente.
Pretendia explicar-lhe que direção deveria tomar, a fim de conseguir auxílio. Mas apenas havia dado um ou dois passos, quando ouviu o uivo da sereia de uma viatura policial, vindo do alto. Viu um veículo giromático descer junto à parede do edifício e pousar a poucos metros do doente. Antes que todos compreendessem o que estava acontecendo, alguns policiais desceram do veículo e cercaram o doente. Ao que parecia, este não estava disposto a resistir quando os policiais o agarraram e arrastaram ao veículo. E nem teria forças para isto. Dali a alguns segundos, o veículo voltou a levantar vôo e desapareceu em meio ao tráfego denso que se desenvolvia sobre os telhados.
Até parecia bruxaria. O homem, que pretendia dar um conselho ao doente, virou-se e saiu andando.

* * *

Menos de uma hora depois disso, os policiais “descarregaram” o homem em pleno deserto. O doente nem se deu conta do que lhe estava acontecendo. Uma pessoa, que ele não conseguia ver, levantou-o e levou-o num vôo vertiginoso em direção a um grupo de edifícios que se destacava em meio ao areal. De repente, viu-se no interior de uma pequena casa, sem que qualquer porta se tivesse aberto. Estava escuro. Ficou quieto por um instante, à espera de que seus olhos se acostumassem ao pouquinho de claridade que passava por um buraco de dez centímetros de diâmetro, aberto no teto. Depois disso olhou em torno e viu mais quatro pessoas que se encontravam no mesmo estado que ele, isto é: deitadas no chão de pedra. Não se mexiam e não demonstravam o menor interesse pelo recém-chegado.
Sem dúvida esperavam que se comportasse como eles.
Mas não se comportou. Levantou-se e caminhou de um dos homens deitados para outro. Pela primeira vez notou uma reação em seus olhares. Seguiram seus movimentos com os olhos arregalados. Ao que parecia, achavam inacreditável que alguém que parecesse tão doente como eles se levantasse, logo após a chegada, e caminhasse alegremente pelo interior da casa.
Dois deles movimentaram-se com dificuldade, deslocando-se até a parede dos fundos e, apoiando-se na mesma, procuraram levantar-se. Conseguiram fazê-lo depois de várias tentativas. Quando se encontravam de pé, tossiam e fungavam. Mas ergueram-se e viam perfeitamente o homem que se achava à sua frente.
Este cumprimentou-os com um gesto. Tiveram a impressão de que estava satisfeito. Disse com uma voz que tinha um tom enérgico.
Vejo que ainda têm forças para ser curiosos. Ainda bem. Dentro de poucos dias precisaremos de gente que possa mexer-se. São terranos?
Os dois homens que se encontravam junto à parede confirmaram com um gesto.
E os que continuavam deitados também fizeram ligeiros gestos afirmativos.
Eles sempre... — grasnou um deles — ...juntam... as criaturas da mesma raça.
O homem à sua frente interrompeu-o com um gesto.
Só falem quando for absolutamente necessário — disse. — Poupem suas forças.
Depois apresentou-se.
Vim diretamente da Terra para ajudá-los — disse. — Sou major da Frota Espacial Terrana. Meu nome é Ron Landry.

* * *

Até aqui o plano foi bem-sucedido”, constatou Ron Landry.
Enquanto ainda se encontrava na Terra, haviam-lhe injetado uma droga que provocava a estranha modificação em seu aspecto exterior sem causar-lhe outro dano. Imediatamente após sua chegada a Lepso, dirigira-se a um edifício em que, segundo sabia, ficava um escritório dos saltadores. Permanecera por lá bastante tempo, a fim de que os saltadores notassem sua presença, e o resultado era evidente. Os saltadores chamaram a polícia, e ele foi recolhido.
Agora encontrava-se ali, juntamente com quatro doentes que até há pouco eram tão indiferentes que nem sequer conheciam seus nomes. A presença de Ron Landry despertara a curiosidade deles e ativara o que sobrava de suas energias físicas.
Mas será que o pouco que restava seria suficiente para salvá-los?
Os quatro homens não puderam revelar-lhe muita coisa. Ron descobriu que a pessoa, só depois de ter tomado quatro ou cinco doses de liquitivo, se tornava viciada. Há muito interessava-se por isso, pois em certa oportunidade fora obrigado a beber liquitivo, e agora desejava saber se passara perto do abismo. Ron ainda descobriu que na cidade templária havia principalmente vítimas humanóides da substância liquitivo, mas além destas existiam algumas centenas de vítimas não-humanas. Isso parecia provar que a perigosa bebida produzia seus efeitos em todos os seres inteligentes, fosse qual fosse sua origem ou a composição química de seu organismo. Com isso, esta tornava-se ainda mais perigosa.
Ron deu-se conta de que o licor liquitivo talvez poderia permitir aos antis, aliados aos saltadores e aos aras, transformar todos os habitantes da Galáxia em viciados e, com isso, em pessoas submetidas à sua vontade. Ao que parecia, não havia ninguém que conseguisse resistir à diabólica bebida.
Os doentes não tinham a menor idéia sobre os motivos por que haviam sido levados para a cidade templária. Disseram-lhes que, dali em diante, teriam de ser servos obedientes dos sacerdotes de Baalol. A falta de submissão era rigorosamente punida. A pena consistia numa espécie de prisão solitária num recinto totalmente escuro, além da redução das rações alimentares. Ninguém sabia para que serviria a submissão. Nunca se pedia aos doentes que executassem qualquer tarefa. Ficavam deitados nas cabanas, modorrando durante o dia, num estado de debilidade e letargia.
Informaram que a lição de submissão lhes fora dada durante as chamadas horas de instrução. Ron Landry não conseguiu descobrir o que vinha a ser “horas de instrução”. As descrições eram contraditórias. Consolou-se com a idéia de que, mais dia menos dia, os sacerdotes também lhe ministrariam uma instrução desse tipo.
Ainda não sabia que essa instrução representava um perigo tremendo para ele; mas não demoraria a descobrir.
8



Dormiu algumas horas. Foi despertado pela batida retumbante do gongo. Espantado, virou-se para o lado. Por uma fração de segundo viu o doente pálido que estava deitado a seu lado. Mas este logo desapareceu. Outro quadro surgiu. Viu um recinto amplo, escassamente iluminado, que estava totalmente vazio, com exceção de três sacerdotes enfileirados, em trajes reluzentes e esvoaçantes. Os três “feiticeiros” se encontravam na outra extremidade do recinto e dirigiam os olhos sobre Ron.
Por estranho que pudesse parecer, Ron não teve a impressão de encontrar-se no interior do recinto. Tinha certeza de que continuava deitado na cabana de pedra, e de que o quadro do pavilhão com os sacerdotes estava sendo incutido em sua mente. Parecia até alguém segurando um quadro colorido e vivo à frente dos seus olhos. Permaneceu indiferente.
Subitamente, os sacerdotes começaram a falar. Ron viu que não moviam a boca. Mas, como da primeira vez, ouviu suas vozes e entendeu as palavras proferidas.
Alegre-se! Você foi eleito para servir à verdade eterna e aos seus servos.
Ron sentiu que essas palavras haviam sido dirigidas a ele, e que as compreendia da mesma forma que, em outra oportunidade, compreendera o turbilhão de fragmentos de idéias, que lhe prometiam uma morte horrível.
Ron não disse nada. Limitou-se a fitar o quadro com uma expressão de espanto.
Mas a fé exige obediência — emitiu um dos sacerdotes. — Ninguém alcança o conhecimento sem obediência. Você nos obedecerá, senão...
Não prosseguiu. Ron sentiu uma dor lancinante atravessar seu corpo. Quis gritar. Mas como se encontrava em estado incorpóreo naquele recinto, não teve boca, pela qual pudesse sair seu grito.
Compreendeu o sentido da demonstração. Toda vez que desse mostras de falta de dedicação, sentiria a mesma dor, ou talvez até uma dor ainda mais violenta.
Nestas condições sou obrigado a ser obediente”, pensou.
Os três sacerdotes pareciam ter captado a idéia.
Não existem condições — voltou a emitir um deles, e Ron percebeu que a dor se tornava mais intensa. — Você servirá incondicionalmente à verdade, e a nós, que somos seus guardiões.
Ron contorceu-se e não ouviu mais nada. Não sabia o que estavam fazendo com ele, mas tinha certeza de que era horrível. Não era possível localizar a dor. Parecia que seu corpo fora atirado num espaço, onde dor e martírio o envolviam.
Sim, obedecerei”, pensou Ron.
A dor passou. A voz dos sacerdotes tornou-se audível.
Pratique a humildade. As portas da verdade só se abrem aos humildes. Retorne ao seu lugar.
Ron abriu os olhos. Esperava ver à sua frente o rosto do doente que estivera deitado a seu lado. Mas o chão de pedra estava vazio. Ron virou-se de costas e viu um dos quatro companheiros de sofrimento, ajoelhado a seu lado.
Meu Deus... foi demorado — disse o homem, em tom apavorado.
Ron levantou o braço e olhou para o relógio. Não sabia quando fora despertado pela batida do gongo, mas acreditava que não eram mais de cinco horas. E agora já passava das oito. Quer dizer que passara pelo menos três horas com o sacerdote, no interior daquele recinto.
Os outros doentes garantiram que isso não era comum. Nenhum deles “ficara longe”, conforme costumavam exprimir-se, por mais de uma hora e meia. Ron começou a desconfiar. Será que os sacerdotes notaram que era diferente das outras pessoas que a polícia de Lepso costumava entregar-lhes?
Era um risco que tinha de aceitar. Os sacerdotes de Baalol dispunham de intensas capacidades psíquicas. Era bem provável que soubessem distinguir entre o espírito de um homem sadio e o de um doente. Segundo informaram seus quatro companheiros de prisão, seu corpo girara várias vezes de um lado para outro, enquanto os sacerdotes trabalhavam com seu espírito. Era outro fato extraordinário, ao qual nunca haviam assistido. Ron resolveu que teria de imitar ainda melhor o comportamento de uma pessoa realmente doente.
Assim, por exemplo, deixou que o dia se passasse sem fazer nada. Durante esse dia apareceram por três vezes cinco bacias, trazidas por mãos invisíveis. Nessas bacias havia um mingau cinzento, sobre o qual seus companheiros se precipitaram vorazmente. Ron não estava com fome. Teve de fazer algum esforço para comer. Esvaziou sua bacia, tal qual os outros. Sentiu que o mingau saciava tanto a fome quanto a sede. As vasilhas desapareceram ao mesmo tempo, sempre quinze minutos depois do momento em que haviam surgido.
Isso deixou Ron mais tranqüilo, já que o fato o levou a concluir que os sacerdotes não exerciam uma vigilância ininterrupta sobre o interior das cabanas. Do contrário veriam quando cada prisioneiro concluía sua refeição, e retirariam as bacias, seguindo a ordem.
Face a isso, assim que escureceu, criou coragem para sair da cabana e dar uma olhada pelas outras construções da cidade templária. Ele o fez com uma finalidade definida. Queria descobrir quem havia chegado no dia anterior, além de desejar encontrar-se com o Dr. Zuglert.
Revistou várias cabanas de pedra. Todas elas eram ocupadas por seres não-terranos. Na sua maioria, os ocupantes eram membros das raças de colonos arcônidas, mas também havia alguns swoons e outros prisioneiros não-humanóides.
Ron levou mais de uma hora para encontrar outra cabana habitada por terranos. Seus olhos já estavam habituados à luz mortiça das estrelas. Bastaria deixar a porta aberta e logo reconheceria perfeitamente os prisioneiros, que se achavam mais próximos.
Pôs-se de joelhos e disse num cochicho para dentro do recinto escuro:
Nike Quinto tem uma enorme barriga...
Dali a alguns segundos ouviu a resposta, proferida em voz baixa:
...e apenas dezessete fios de cabelo na cabeça.
Alguém mexeu-se. Ron viu uma cabeça emergir da escuridão. Reconheceu um dos cinco homens que Nike Quinto enviara a Lepso juntamente com ele.
Tudo bem,,sir — anunciou o homem.
Sabe alguma coisa a respeito dos outros? — indagou Ron.
Lester e Harrings chegaram “bem”. É só o que eu sei.
Muito bem. Zuglert está na sua cabana?
Sim, senhor. Até se mantém bastante ativo.
Está bem. Preciso falar com ele.
Rastejou para dentro da cabana. Um dos ocupantes ouvira a palestra. Ergueu-se e fitou Ron.
O senhor é o Major Landry? — perguntou com a voz apagada.
Ron respondeu que sim.
Meu nome é Armin Zuglert — disse o prisioneiro. — Seu plano já é do meu conhecimento e fico muito satisfeito com o mesmo. É muito importante que eu volte à Terra.
Ron confirmou com um gesto.
Não sou autor do plano — respondeu. — E é perfeitamente possível que ele falhe. Será preferível que me diga logo o que sabe. Talvez, apenas um de nós conseguirá escapar.
Zuglert concordou. Formava um estranho contraste, face aos outros doentes. Parecia ter uma reserva oculta que constantemente lhe proporcionava novas energias. Era capaz de uma fala coerente e, depois de cada palavra que pronunciava, não tossia. Explicou o motivo. Era médico e havia criado um método de controlar as escassas energias que lhe restavam, a fim de possuir uma reserva quando precisasse dela.
Zuglert informou que há doze anos trabalhara com um terrano chamado Edmond Hugher. Hugher também era biomédico, e foi por intermédio dele que pela primeira vez Zuglert travou conhecimento com o licor liquitivo. A ocupação de Hugher consistia em examinar o líquido. Ao que parecia, sabia que o licor continha substâncias ativas vegetais, que produziam um rejuvenescimento do espírito e dos tecidos do corpo. Ambos tomaram o licor, e Zuglert transformou-se num viciado. Depois de pouco tempo, Hugher desaparecera sem deixar o menor vestígio. Zuglert não saberia dizer se o liquitivo produzira nele o mesmo efeito que em sua pessoa. Mas no seu íntimo tinha certeza disso, já que não havia ninguém que tomasse o liquitivo por mais de quatro vezes sem transformar-se num viciado.
Após isso, Zuglert estudara atentamente as características do vício até o momento em que sucumbira, e registrara seus estudos. A maior parte dos registros fora enviada a um banco da Terra, para ser guardada no cofre. Apenas as informações relativas aos últimos dias anteriores ao seu colapso haviam ficado em seu escritório, onde os saltadores provavelmente as haviam encontrado e confiscado.
Das informações de Zuglert, ainda se concluía que doze anos e quatro meses se haviam passado, desde o momento em que se tornara viciado até aquele em que sobreviera o colapso. Certa vez, Zuglert interrompera o consumo do liquitivo por um período prolongado, a fim de estudar os sintomas. Suas experiências levaram-no a afirmar que ninguém suportaria uma interrupção por período superior a seis dias terranos. A conseqüência imediata da suspensão eram as manifestações de esgotamento, que se tornavam mais patentes, face ao período antecedente de superexcitação. A elas, seguia-se a decadência psíquica.
Descreveu seu ex-colaborador, o Dr. Edmond Hugher, como um homem calmo, sempre bem-humorado, que costumava exibir um sorriso malicioso e parecia saber certas coisas que não queria revelar. De qualquer maneira, o Dr. Zuglert surpreendera-se com a variedade e a quantidade de seus conhecimentos.
Depois disso, Zuglert fez uma revelação surpreendente.
Aliás, ainda tenho um retrato dele — disse. — Sempre o trago comigo, já que para mim o Hugher foi um colaborador precioso. Guardo uma boa lembrança dele.
Ron estendeu a mão.
Dê-me o retrato — pediu. — Tenho a impressão de que esse Hugher não é tão inocente como pode parecer.
Zuglert obedeceu imediatamente. Sua mão débil tirou o retrato do bolso da jaqueta e entregou-o a Ron. Este examinou-o ligeiramente e guardou-o.
Depois disso saiu da cabana. Prosseguiu em sua ronda e constatou que os cinco agentes disfarçados de doentes haviam chegado à cidade templária, conforme previam os planos.

* * *

O Capitão Larry Randall, que estava na sala de comando da Flórida, voltou a fitar o mostrador luminoso do grande relógio. Desta vez, os dois ponteiros se encontravam na posição desejada por ele. Soltou um suspiro de alívio e levantou-se. Dick Kindsom, oficial superior, que também se achava na sala de comando, perguntou:
Está na hora?
Larry fez que sim.
Vamos passar para a outra nave e prosseguir com a ação.
Dick Kindsom lançou um olhar extremamente desconfiado para a nave arcônida, que se destacava nas telas da Flórida sob a forma de uma mancha escura no mar de estrelas.
Quem dera que eu não tivesse uma sensação tão desagradável — observou.
Larry fez um gesto de desprezo.
Se mantivermos a máquina constantemente guarnecida e em recepção, dificilmente poderá acontecer qualquer coisa. Na pior das hipóteses, chegarão algumas pessoas a menos do que esperávamos.
Dick Kindsom fez uma careta.
Seja como for... — disse — rezo pelo senhor.
Larry agradeceu. Depois disso dirigiu-se ao intercomunicador e chamou os homens, que deveriam transferir-se, juntamente com ele, para a nave robotizada arcônida.
Não houve perda de tempo. Trinta minutos depois do momento em que Dick Kindsom’ dissera que rezaria por Larry, a nave robotizada recebeu uma tripulação orgânica. A seguir, afastou-se da Flórida, acelerando fortemente. Deslocou-se em direção a Lepso.

* * *

Na manhã do dia seguinte, Ron Landry passou por outra sessão de instrução.
Mais uma vez viu-se no interior do gigantesco recinto, à frente dos três sacerdotes, que lhe haviam explicado que a obediência prevista no culto de Baalol exigia principalmente que nunca tentasse abandonar a cidade templária.
Esta exposição foi apresentada com uma força de persuasão quase hipnótica. Ron teve certeza de que o espírito dos doentes, muito mais débil que o seu, sucumbiria sem a menor resistência a este tipo de influência. Mesmo após a sessão de instrução, continuariam presos à ordem quase hipnótica; nem pensariam em sair da cidade.
Ron concluiu que os antis estavam interessados em que o público não tivesse conhecimento dos resultados de sua ação malévola. Os semimortos nunca mais deveriam sair do templo. De outro lado, porém, o templo deveria ter um aspecto místico, não de uma prisão. Além disso, os sacerdotes provavelmente eram poucos para vigiar os milhares de prisioneiros. Por isso usavam suas faculdades parapsicológicas a fim de que estas criassem uma barreira, impossível de ser rompida pelos doentes.
Ao dar-se conta disso, Ron Landry voltou a ficar com raiva, e foi esta raiva que acabou por traí-lo.

* * *

Nenhum dos doentes possuía energia para sentir raiva. Os sacerdotes registraram a presença das fortes irradiações hostis daquele espírito pretensamente enfermo e passaram a exercer uma vigilância mais intensa sobre ele.
No mesmo dia, Ron Landry foi levado a uma segunda sessão de instrução, e desta vez os sacerdotes armaram-lhe uma cilada. Expuseram as características do culto de Baalol. Explicaram que, segundo este culto, a verdade-última, até o fim dos tempos, sempre seria acessível apenas a uns poucos eleitos.
Um deles emitiu:
Um dia os mundos reconhecerão a importância de nossa tarefa. Os donos dos planetas, os que governam os grandes impérios, inclinar-se-ão à nossa frente e sentir-se-ão satisfeitos se puderem beijar nossos pés.
E Ron Landry cometeu um grande erro!
Por mais que se esforçasse, não conseguiu ouvir esse tipo de conversa-fiada, sem que lhe surgissem idéias próprias. E naquele momento, sua idéia foi mais ou menos esta:
Eles vão-me dar uns puxões de orelhas!
Depois disso os sacerdotes, perplexos, mantiveram-se em silêncio por alguns minutos. Finalmente um deles voltou a emitir:
Este homem é um traidor! Matem-no!
Ron recuou. Por um instante esqueceu-se de que sua presença naquele recinto era incorpórea.
As paredes do pavilhão desfilaram diante de seus olhos. Parecia que se deslocava. Os sacerdotes foram ficando menores: afastava-se deles. Enquanto recuava, aqueles homens à sua frente começaram a movimentar-se. Agitaram violentamente os braços e emitiram:
Segurem-no! Ele não deve escapar. É um traidor, e por isso deve morrer.
Por um instante, o fato da fuga ser tão fácil deixou Ron espantado. Nunca acreditaria que o simples desejo de não morrer bastaria para resistir à vontade dos sacerdotes.
Não sabia que, por meses a fio, estes haviam lidado apenas com doentes, incapazes de oferecer qualquer resistência. Não sabia que as forças espirituais dos “feiticeiros” haviam se acostumado à constituição débil dos doentes, motivo por que levariam algum tempo para habituar-se à nova situação e enfrentar a luta com um espírito sadio e vigoroso.
9



Saiu do pavilhão, passando por um amplo portão. Viu diante de si uma praça redonda, na qual desembocavam corredores vindos de todas as direções. O fato de acreditar que se tratava de corredores provava que tudo fora bem tramado. Naquele instante, não percebeu o que se encontrava acima de sua cabeça.
As emissões dos sacerdotes tornaram-se mais fracas. Ron teve uma sensação de triunfo. Num caso como este, as vozes mais fracas significavam que o poder que os sacerdotes exerciam sobre seu espírito estava desaparecendo. Quando deixasse de ouvi-las de vez, estaria livre de todo perigo — exceto, talvez, o de não mais encontrar seu corpo.
Escolheu um corredor, que formava um ângulo reto com o eixo longitudinal do pavilhão e levava para a direita. Bastou seu desejo para que o chão da praça deslizasse sob seus pés e o corredor se aproximasse.
No interior do corredor reinava uma estranha escuridão, que não lhe permitia perceber os detalhes. A única coisa que viu foi uma mancha luminosa amarela, que ficava bem ao longe e levava à conclusão de que o corredor saía ao ar livre. Deslocou-se em direção a essa mancha luminosa. Sentiu um desejo ardente de alcançá-la o quanto antes.
Segundo seus cálculos, havia percorrido mais ou menos metade do caminho. Naquele instante, sentiu que alguém se encontrava atrás dele. Face ao nervosismo dos últimos minutos, deixara de prestar atenção às vozes dos sacerdotes.
Lá adiante, no corredor — gritou alguém. — Apressem-se, senão ele acabará escapando.
Agora eram vozes mesmo, e não impulsos mentais.
Não escapará — disse alguém em tom tranqüilizador. — Se necessário, poderemos recorrer ao fogo da verdade.
Sim, mas com isso todas as nossas forças...
Cale-se, seu idiota! Será que você faz questão de revelar-lhe todos os nossos segredos?
Depois disso voltou a reinar o silêncio. Ron compreendeu que ainda estava sendo perseguido.

* * *

Cinqüenta quilômetros acima da superfície de Lepso, os propulsores da nave arcônida robotizada explodiram, conforme previam os planos. Seguiu-se um clarão visível a grande distância. Larry Randall, na sala de comando — a única parte da nave que continuava intata — preparou juntamente com seus fiéis colaboradores a manobra de pouso de emergência.
O encarregado da localização confirmou que se encontravam exatamente no lugar previsto em seu plano.

* * *

Assim que saiu do corredor e mergulhou na claridade amarelenta, Ron percebeu seu engano.
Aquilo não era nenhuma saída. Não viu nenhuma extensão de areia banhada pelo sol, com as pequenas construções enfileiradas. Viu-se num mar de luz amarela, no qual podia nadar como se estivesse na água. Precipitou-se para o lado, tornou a mergulhar, voltou-se para a direita e para a esquerda, mas não encontrou outra coisa além da luz amarela. Nem sequer conseguiu localizar a extremidade do corredor do qual saíra há poucos segundos.
Apenas percebeu que, de repente, a luz amarela se tornou menos intensa e assumiu uma tonalidade vermelha. Sentiu o calor que o atingia de todos os lados. Olhou em torno e viu os rostos debochados que o fitavam.
Recorreram ao fogo da verdade...”, pensou o major.
Ron disciplinou-se mentalmente. Não adiantava andar nadando pela luz e cansar-se em troca de nada.
O calor foi aumentando. Ron sentiu que começava a transpirar. Era estranho. Como poderia suar, já que não possuía corpo?
As caretas que o cercavam continuaram no mesmo lugar. Pairavam imóveis. Eram apenas rostos que o fitavam com um sorriso diabólico. Ron ouviu vozes vindas de longe, que se divertiam à sua custa:
Olhem como ele vai se contorcer! Ficará preso no fogo. A verdade final castigará aquele que dela zomba.
Outra voz gritou em tom estridente:
Todos aqueles que desprezarem Baalol terão esse destino.
O calor começava a tornar-se insuportável. A luz que o envolvia transformara-se numa incandescência vermelha. Teve a sensação de quem está preso num forno, mas sabia que o martírio estava longe de ter chegado ao fim.
Voltou a movimentar-se. Foi subindo lentamente e tornou a descer. Mas o calor continuava inalterado. A temperatura crescia rapidamente.
Ron viu que as caretas dos sacerdotes se aproximavam. As vozes estridentes tornavam-se mais fortes. Sabia o que significava isso. Eles o haviam prendido.
Seus pensamentos começaram a ficar confusos. Já não sabia onde estava. A impressão de que seu corpo sofria todos esses martírios tornava-se cada vez mais nítida. Sentiu uma comichão na pele e o suor entrava-lhe pelos olhos. Contorceu-se. Só teve um desejo, o de poder levantar as mãos para coçar-se em todos os lugares em que sentia comichão e mordidelas...
Começou a gritar.

* * *

Larry Randall concentrou o campo de absorção de choque da nave sobre a sala de comando. Depois disso tirou a mão do painel e, resignado, aguardou o que estava para vir.
Na sala de comando, apenas se sentiu um ligeiro solavanco. Mas do lado de fora, o envoltório da nave rompeu. Uma gigantesca nuvem de pó e areia ergueu-se do solo, encobrindo o local do impacto.
Larry teve certeza de que o estremecimento do solo desértico fora bastante violento. Portanto, as pessoas que se encontravam na cidade templária saberiam que chegara o momento de entrar em ação.

* * *

Os agentes de Nike Quinto costumavam ser treinados para agir com total independência. Ouviram o uivo da nave que caíra. Quase ao mesmo tempo escutaram o estrondo provocado pelo impacto do veículo espacial e sentiram o solavanco que sacudiu o solo, como se fosse um terremoto.
Cada um deles segurou dois dos doentes mais fracos, retirou-os da pequena casa e levou-os pelo deserto a fora, em direção à gigantesca nuvem de pó que cobria o local da queda. Os outros, que dependiam das energias que lhes restavam, arrastavam-se pesadamente atrás dos primeiros. Se não fosse a esperança da salvação, não conseguiriam dar mais que dois ou três passos.
Tudo correu conforme fora planejado. A nuvem de pó continuava a ocultar a nave que acabara de realizar o pouso de emergência. Naquele momento, o último dos quarenta e oito doentes atravessou a única eclusa da nave que continuava intata e entrou na sala de comando. Larry Randall encaminhava os doentes imediatamente para uma espécie de cerca de arame, que havia nos fundos da sala. No meio da cerca abria-se uma porta. Braços prestativos empurravam os doentes por essa porta e fechavam-na atrás deles.
No mesmo instante, o local junto à cerca ficava vazio. O doente desaparecia.
Larry observou a tela. Viu a nuvem de pó baixar lentamente. Já reconhecia o topo da pirâmide do templo.
E Ron Landry ainda não chegara!

* * *

Ron levou algum tempo para entender o que as caretas já tinham compreendido. O major só conseguia raciocinar perfeitamente porque o calor diminuíra.
Ficou espantado. Alguma coisa devia ter acontecido. Os sacerdotes já não se interessavam por ele. Será que sua pessoa e seus pensamentos e ações deixaram de ter importância? Ou será que a atenção dos “feiticeiros” fora desviada?
Não sabia. Sentiu-se aliviado ao notar que a luz que o envolvia voltava a tornar-se mais intensa. Nadava com movimentos vigorosos pelo mar de luminosidade. Agora, que escapara ao maior perigo, voltou a lembrar-se da tarefa que devia cumprir. Antes de mais nada, teria de reencontrar seu corpo.
Até parecia que o reconhecimento da tarefa fora suficiente para realizar o milagre. De repente, o mundo que o cercava começou a modificar-se. Perplexo, Ron notou que a luz se afastava. Os contornos dos pequenos cubos, esferas e pirâmides, que abrigavam os doentes, surgiram diante de seus olhos.
A escuridão voltou a reinar em torno dele, mas agora ele possuía mãos que lhe permitiam tatear para orientar-se na escuridão. Possuía pés, que lhe permitiram apoiar-se contra uma parede invisível. Agora ele podia usar os cotovelos e erguer-se. Viu a pequena abertura iluminada acima de sua cabeça e sabia que se encontrava novamente no interior da cabana de pedra, da qual fora retirado pelo sacerdote, a fim de assistir à sessão de instrução.
Retornara para seu corpo. Num movimento instantâneo pôs-se de pé. Sentiu que estava banhado em suor. Por um instante, o fato o deixou espantado, mas logo compreendeu que seu espírito dirigira de longe as reações do organismo.
Por uma fração de segundo, Ron Landry estremeceu diante do quadro de um mundo estranho e irreal, no qual o espírito e o corpo levavam uma existência separada.
O fato de seus quatro companheiros de prisão terem desaparecido provava que, neste meio tempo, a segunda parte da missão, que representava a fase decisiva, começara a ser posta em execução. Contornou a cabana e viu os restos da gigantesca nuvem de pó, levantada pela nave que acabara de realizar o pouso de emergência. Também viu o vulto esférico da própria nave.
Saiu correndo em direção à mesma. Era maravilhoso conseguir correr, usando as próprias pernas, sem depender da força e do poder do espírito inteligente.
Levou cinco minutos para chegar à nave. Entrou apressadamente pela eclusa aberta, e abriu os braços para cumprimentar Larry Randall, que já o esperava.
Lá atrás! — exclamou Larry, em tom insistente. — Meu Deus, você está com um aspecto horrível.
Ron confirmou com um sorriso. Passou pela porta gradeada de um transmissor. Do lado de fora alguém moveu uma chave. Por uma fração de segundo, Landry sentiu a dor da desmaterialização. Os contornos dos objetos que o cercavam desmancharam-se. Quando voltou a enxergar, encontrava-se a bordo do cruzador Flórida.
Dick Kindsom em pessoa abriu a porta do receptor conjugado com o transmissor. Estendeu-lhe a mão e disse:
Seja bem-vindo a bordo! Sinto-me feliz de saber que no fim tudo deu certo.

* * *

No momento em que Ron Landry desapareceu através do transmissor, fortes batidas de gongo encheram a cidade templária.
A queda da nave deixou os sacerdotes confusos. Estes desistiram de seus esforços de destruir o homem, que escarnecera de Baalol, no fogo da verdade. Procuraram investigar o perigo que se aproximava. Alguns deles saíram da cidade templária, a fim de olhar de perto o veículo espacial que acabara de cair.
Perceberam que alguns dos prisioneiros haviam desaparecido. Supuseram que a nave pousada tinha algo a ver com isso. Provavelmente os fugitivos já se encontravam a bordo. Acharam que seria fácil recapturá-los, quer o comandante concordasse, quer não.
Mas estavam enganados. Quando chegaram à nave, o comandante e o resto da pequena tripulação ocupavam-se com os reparos do sistema propulsor de emergência. Não encontraram o menor vestígio dos fugitivos. O comandante estranhou o pedido que eles fizeram: queriam dar uma olhada pelo interior da nave. Kindsom não se opôs.
Os sacerdotes revistaram todos os cantos da nave, inclusive as partes que sofreram graves avarias com o impacto, e chegaram à conclusão de não haver por lá nenhum adorador de Baalol. Não tiveram a menor dúvida. Mesmo que os fugitivos se tivessem escondido nos cantos mais inacessíveis, eles o teriam percebido. Afinal, o homem não é feito unicamente de matéria. Possuíam um espírito, e os sacerdotes de Baalol não poderiam deixar de perceber as irradiações do mesmo.
Não havia a menor dúvida: os fugitivos não se encontravam no interior da nave. Retiraram-se, depois que o comandante lhes garantiu que, dentro de duas horas, repararia o propulsor de emergência para tentar decolar e dirigir-se ao espaçoporto de Zanithon.
Cumpriu sua palavra. Antes que as duas horas chegassem ao fim, a nave ergueu-se com sons retumbantes e chiantes, abandonou as areias do deserto, foi ganhando altura e desapareceu na direção sudeste.

* * *

Não — disse Nike Quinto, em tom resoluto. — Por enquanto não temos nenhuma explicação para as experiências pelas quais acabam de passar.
Ron Landry e Larry Randall estavam sentados à sua frente. A resposta de Nike Quinto fora dirigida a Ron. Este recuperara o aspecto normal, assim que regressara à Terra.
Existem certas coisas — acrescentou Nike Quinto — que a ciência terrana ainda não consegue enxergar. Devem estar cientes de que, por enquanto, não existe nenhuma explicação científica para as faculdades dos nossos mutantes. Os sacerdotes de Baalol são indivíduos do mesmo tipo, com a única diferença de que possuem uma variedade muito maior de faculdades que os membros do Exército de Mutantes da Terra.
Ergueu os olhos e sentenciou:
Major, o senhor ainda terá que ter alguma paciência até que alguém lhe possa fornecer uma teoria viável. Diria que isso deve demorar uns trezentos a quatrocentos anos.
Ron retribuiu a ironia com um ligeiro sorriso.
Muito bem — disse em tom tranqüilo. — Mesmo que não haja nenhuma explicação, valeu a pena passar pela experiência. O espírito e o corpo levaram uma existência separada. Que aventura!
Nike Quinto interrompeu-o com um gesto.
Não se entusiasme sem motivo — replicou com sua voz aguda. — Posso imaginar perfeitamente que, quando estava sendo aquecido pelo fogo da verdade, não se sentiu muito bem.
Ron confessou a si mesmo que Nike Quinto tinha razão.
Uma autoridade muito importante autorizou-me a manifestar-lhe os agradecimentos do administrador. Sem que o soubéssemos, nós nos envolvemos num assunto que cobre áreas cada vez maiores. Ao que parece, trata-se de um complô contra o Império Solar. É como acabo de dizer: ao que parece. Ainda não dispomos de dados precisos. Mas libertamos quarenta e oito terranos, que iriam morrer nas garras dos sacerdotes de Baalol, e descobrimos uma pista importantíssima. E é por isso que o administrador manifesta seus agradecimentos.
Sinto-me muito honrado — disse Ron. — É bem verdade que eu gostaria...
É bem verdade que gostaria de quê? — gritou Nike Quinto. — Não se esqueça da minha pressão; não me enerve. Faça o favor de exprimir-se com mais clareza.
Ron reclinou-se na poltrona.
Sei perfeitamente que libertamos quarenta e oito terranos — disse Ron. — Mas qual é a pista importantíssima que teríamos descoberto? O senhor poderia fazer o favor de explicar?
Um sorriso surgiu no rosto de Nike Quinto.
Ah, então o senhor ainda não sabe — disse com uma risadinha. — Lembra-se do retrato que lhe foi entregue por Armin Zuglert?
Naturalmente.
Esse retrato corresponde ao homem que pela primeira vez colocou Zuglert em contato com o liquitivo, não representa?
Perfeitamente.
Esse homem disse ser biomédico e apresentou-se com o nome de Edmond Hugher?
Isso também é verdade — respondeu Ron Landry, desejando que Nike Quinto lhe dissesse finalmente o que sabia.
Pois é aí que está a pista — disse Nike. — O retrato foi examinado pelos órgãos competentes. Sabe quem é a pessoa da fotografia?
Ron negou com a cabeça.
Não senhor. Não tenho a menor idéia.
Nike Quinto deleitou-se com a tensão que estava criando.
Pois fique sabendo — disse, esticando as palavras — que não existe a menor dúvida de que essa pessoa é... Thomas Cardif, o filho do administrador.





* * *
* *
*





Os agentes da Divisão III descobriram o plano dos antis, mas não conseguiram fixar as terríveis dimensões do mesmo.
No próximo volume da série, intitulado O Bloqueio de Lepso, uma nova e eletrizante perseguição vai acontecer...

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