Seu rosto
ficou pálido. Uma raiva terrível deixou suas feições ainda mais
desfiguradas. Apesar disso sua reação não foi a que eu esperava.
Ao que parecia, suas reações sentimentais eram imprevisíveis.
— Ah,
então está contente por rever-me depois de tanto tempo? Certamente
sente-se feliz por me ver deste jeito, não é?
Girou em
torno do seu eixo e abriu os braços. Soltou uma risada provocadora.
Acabara de
ganhar mais uma experiência. O novo Perry Rhodan que via à minha
frente procurava constantemente dar um outro sentido a palavras
inocentes.
— Houve
um mal-entendido, Perry. Eu me refiro a você, à sua personalidade,
em poucas palavras, ao amigo. O resto haveremos de curar.
Fitou-me
com uma expressão desconfiada. Parecia lutar pelo autodomínio.
— Tomara
que sim. Seja bem-vindo a bordo.
Estendeu a
mão gigantesca. Suspirei de alívio e me dispus a pegá-la, mas
recuei.
Nunca vira
um ser humano olhar-me com uma expressão tão tensa. Sua atitude
realmente era de espreita. Mercant usara a expressão correta.
O setor
adicional de meu cérebro lembrou as palavras do chefe da Segurança.
Rhodan acreditava que dispunha de forças supernormais.
— Espero
por uma boa cooperação — disse e peguei sua mão.
Assustei-me.
Tive a impressão de segurar uma esponja. Se apertasse aquela mão
com mais força, provavelmente haveria um acidente.
Vi uma
boca contorcida. Rhodan apertava minha mão com toda força, mas mal
senti a pressão. Apesar disso expeli fortemente o ar, abri as pernas
como um lutador muito cansado e avancei o ombro direito.
Afinal,
conhecia as velhas provas de força dos humanos e sabia como
comportar-me durante as mesmas.
Meu rosto
ficou impassível, mas fui dobrando lentamente os joelhos. Depois de
algum tempo soltou minha mão.
Sua risada
deixou-me enojado. Logo disse de mim para mim que isso era uma
conseqüência da doença, e que não me ficava bem sentir nojo
diante disso. Tentei esboçar um sorriso, mas o mesmo foi mal
interpretado.
— Se
quisesse poderia tê-lo esmagado, arcônida — disse em tom
presunçoso. — Devo confessar que você é forte. Ainda se lembra
do duelo que travamos no Museu de Vênus? Nunca me esqueci. Lembro-me
de todos os detalhes. Até parece que foi ontem. Você pretendia
humilhar-me.
— Você
pretendia matar-me, amigo. Você tinha uma arma moderna e eu só
podia contar com uma velha espada.
— Você
é um tagarela e um covarde! Atirei fora minha arma de radiações
assim que o vi avançar de espada na mão. Peguei outra e travamos
uma luta honesta. Hoje você não seria mais capaz de derrotar-me.
Meu
cérebro adicional representava uma memória fotográfica. No curso
dos impulsos de memória, que se apresentavam diante dos olhos da
minha mente sob a forma de um filme concentrado, meu rosto perdeu
toda expressão.
De repente
Mercant entesou o corpo. Vi-o pelo canto dos olhos. Quando comecei a
falar, não reconheci minha própria voz: estava submetida à
influência do meu cérebro adicional, que interviera nos meus atos
conscientes.
— Tem
certeza de que se lembra de tudo?
— Não
costumo esquecer-me de coisas como esta. Na oportunidade fizemos as
pazes. Descobri sua verdadeira origem. Será que você quer dizer que
eu teria atirado em você, que não dispunha de uma arma moderna?
— Na
verdade, você não atirou. Usei alguns truques psicológicos para
levá-lo a não usar sua arma.
— Foi
isso mesmo. Você arrebentou meu tornozelo com a espada. Esqueça,
arcônida. Hoje você não teria a menor chance.
Virou-se
pesadamente e caminhou em direção aos controles centrais. Então
esta era a recepção.
Mercant
fitou-me prolongadamente. Acenei com a cabeça e olhei para Gucky. O
rato-castor estava encolhido numa grande poltrona.
Será que
não tinha percebido nada? Tive a impressão de que um incêndio
estava lavrando no interior de meu crânio. Meu cérebro adicional
esforçava-se para dissecar cada palavra que Rhodan acabara de
proferir. Era um processo desagradável, cujo fim teria de esperar.
Além disso, o setor cerebral ativado há vários milênios deu sinal
de vida. Anunciou em palavras lacônicas:
— Há
algumas contradições. Rhodan é um homem esportivo. Deve saber
fazer a distinção entre uma espada comum e um gládio longo dos
viquingues, afiado de ambos os lados. Além disso, você estava
armado. Tinha um radiador de impulsos e uma arma de choque.
Mercant
aproximou-se.
— Não
se sente bem, sir? — perguntou com um sorriso tão inocente que até
dava para desconfiar.
— Tudo
bem; obrigado — respondi.
Lá
adiante Rhodan começou a berrar suas ordens.
— Discutiremos
a ação daqui a cinco minutos — gritou, dirigindo-se a mim. —
Sua frota robotizada formará o anel defensivo externo. Comandarei
pessoalmente o ataque. Major Claudrin!
O homem
nascido em Epsal adiantou-se apressadamente.
— Faça
o favor de ficar em posição de sentido — berrou Rhodan. — Até
parece que não sabe com quem está falando.
O major
obedeceu. Quanto a mim, ainda permanecia calado.
Rhodan não
afirmara que se lembrava de todos os detalhes? Se era assim, por que
falara numa espada, não no gládio que tinha quase um metro de
comprimento?
E por que
aquele homem, que costumava raciocinar logicamente, dissera que eu
lhe havia quebrado o tornozelo com uma espada? Com uma espada leve?
Qual seria a força de impacto da lâmina fina em cada centímetro
quadrado do corpo? Será que num golpe forte seria capaz de
arrebentar a junta do pé?
— Impossível.
Na pior das hipóteses os tecidos e os tendões seriam cortados —
informou meu cérebro adicional.
Na
oportunidade eu me abrigara atrás de um barco de viquingues, pois
Rhodan me localizara por meio de um aparelho especial, apesar do
campo de deflexão que estava usando. Também permanecera invisível
até o momento em que resolvera desligar seu campo de deflexão.
Será que
não se lembrava disso? Talvez não quisesse dizer. O que interessava
era o fato de termos travado um duelo. As circunstâncias do mesmo
foram tão estranhas que os antecedentes eram mais importantes que a
luta propriamente dita.
O fato de
Perry ter falado numa espada leve deixava-me bastante preocupado. Um
Rhodan não cometeria um erro como este, mesmo que estivesse doente.
Observei-o
e prestei muita atenção às ordens que dava. Sempre que não se
deixava arrastar a uma manifestação de raiva ou uma repreensão
ridícula falava com a clareza e a ponderação que conhecia nele.
Não era possível que se tivesse transformado num débil mental.
Sabia manipular muito bem os controles complicados da nave linear.
Emiti uma
ordem para desligar meu cérebro adicional. Seria absurdo refletir
sobre coisas passadas no momento em que nos preparávamos para entrar
em ação.
Afinal,
Perry não possuía a minha memória. Além disso, sentia-se tão
irritado que, se eu chamasse a atenção para seu erro, provavelmente
interpretaria isso como uma ofensa.
Encontrava-se
num estágio em que não admitia que ninguém lhe ensinasse nada.
Preferi não reabrir o caso. Mas fiquei perguntando a mim mesmo por
que mencionara nossa luta no Museu de Vênus logo após nosso
reencontro. Havia coisas mais importantes para discutir.
Dali a dez
minutos entrei na sala dos oficiais da Ironduke. Os comandantes das
unidades terranas ouviam o que se falava. Cada um sabia perfeitamente
qual era o lugar que lhe cabia na formação.
Utilizei
meu aparelho de comando para transmitir algumas instruções ao
computador-regente, que realizou a programação das dez mil
unidades.
Duas horas
após minha chegada à Ironduke, a frota terrana começou a
deslocar-se.
Gastamos
cerca de quinze minutos de tempo relativista para alcançar a
velocidade da luz. Dali a alguns segundos ocorreu a transição
simultânea da maior quantidade de massa a que já assistira. Teve-se
o cuidado de desligar os rastreadores estruturais. Praticamente no
mesmo instante oito mil espaçonaves terranas penetraram no
hiperespaço.
Segundo o
plano, as mesmas deveriam aparecer de surpresa no interior do sistema
formado pelo sol vermelho geminado de Aptut. Ninguém deveria ter uma
chance de escapar.
A Ironduke
prosseguiu em vôo linear direto, protegida pelo campo de absorção
kalupiano. Desenvolvendo milhões de vezes a velocidade da luz,
corríamos em direção ao sol geminado bem perceptível, que se
destacava em meio às demais estrelas.
Não houve
nenhum choque de transição, e não sentimos qualquer mal-estar
físico. Preferi não informar Rhodan de que o regente estava
trabalhando na produção de um mecanismo propulsor do mesmo tipo.
Para isso dispunha de todos os dados relativos ao modelo acônida.
Não demoraria, e eu também disporia dos novos propulsores.
Levamos
apenas alguns minutos para vencer a distância reduzida de
quatrocentos e dezoito anos-luz.
Os
cosmonautas do couraçado não tiveram de fazer, antes do vôo, os
complicados cálculos do salto, pois realizaram o vôo ótico em
direção ao objetivo. Apesar disso chegamos ao sistema de Aptut
juntamente com as naves de salto.
Isso
constituía mais uma prova da superioridade infinita do mecanismo de
propulsão linear. As espaçonaves comuns ainda não poderiam estar
no lugar, se os comandantes não tivessem apurado antecipadamente os
dados necessários ao salto.
Sabia que
o setor espacial que cercava o sol geminado vermelho sofreria um
forte abalo. As ondas de choque hipergravitacionais afetariam
perigosamente os campos de gravitação dos planetas externos.
Na
verdade, dali a pouco chegaram as primeiras informações dos
observatórios astronômicos. Os três planetas exteriores haviam
sido arrancados das órbitas.
Tratava-se
de planetas não habitados, cobertos de gelo. Não havíamos causado
qualquer dano apreciável.
Observei
Rhodan e cheguei à conclusão de que, mesmo que os mundos exteriores
fossem habitados, ele não teria hesitado em saltar diretamente para
o centro do sistema.
Os
sentimentos amistosos para com ele foram-se extinguindo, por mais que
tentasse evitá-lo. Minha inteligência procurava convencer-me
constantemente de que um homem desesperado não poderia agir de outra
forma.
Acontece
que, quando pensava assim, o incorruptível setor lógico de minha
mente intervinha imediatamente. Avisava-me que um homem de caráter
nobre como Perry Rhodan nunca causaria a morte de milhões ou até
bilhões de seres vivos tão-somente para ganhar um pouco de tempo.
Assim que
cessou o rugido causado pela frota que mergulhava no universo
einsteiniano, voamos em formação de estrela em direção ao planeta
que nossos rastreadores de matéria não demoraram a localizar.
O primeiro
sinal da presença de seres inteligentes foi uma espaçonave
estacionada entre o sexto e o sétimo planeta. Ao que parecia,
sofrerá avarias graves em virtude da onda de hiperchoque, pois seus
propulsores não estavam funcionando mais.
Nunca
duvidara dos cálculos do regente, mas ao que parecia os terranos não
acreditaram muito nos mesmos.
No momento
em que o sistema de localização energética reagiu violentamente,
as sereias uivaram em todos os setores do couraçado. A causa daquele
barulho só poderia ser uma.
Na
verdade, o sexto planeta logo apareceu nas telas dos rastreadores de
relevo. Aquele mundo estava envolto num campo energético cuja
potência deveria ser elevadíssima. Não localizamos nenhuma usina
energética espacial, motivo por que era impossível que nos
encontrássemos diante de um mundo acônida.
Dessa
forma só poderia tratar-se dos antis. Nenhum outro povo da Galáxia
estaria em condições de criar um campo energético desse tamanho
sem que dispusesse de instalações gigantescas.
As ordens
de Rhodan começaram a atropelar-se. Prestei muita atenção, mas não
constatei nenhum erro. Seu planejamento era rápido e preciso; não
havia a menor incoerência. Não dei maior atenção ao tom áspero
que usava, nem às ofensas que proferia até mesmo contra os oficiais
mais graduados.
Jefe
Claudrin estava prestes a perder o autocontrole. Bell interveio.
Procurou desviar a atenção de Rhodan do comandante da Ironduke.
O Major
Hunt Krefenbac, imediato da nave, olhou-me como quem implora auxílio.
Segundo contara Mercant, aquele oficial já sofrerá pesadas
humilhações de Rhodan.
Fui para a
frente. Perry acabara de levantar-se da poltrona regulável,
especialmente construída para ele.
Assim que
me viu, virou-se num movimento pesado. Seus olhos pareciam chispar.
Naquele momento não tinham nada de humano.
— O
planeta é este? É Trakarat? — gritou.
Como não
respondesse logo, arrastou os pés em minha direção e segurou os
meus ombros.
— Responda
logo, seu palerma — gritou em tom ainda mais furioso. — Quero
saber se aquilo é o planeta Trakarat.
Enfiei
meus braços entre os dele e abri-os. Suas mãos desceram dos meus
ombros. Não tive de fazer muita força.
— Devagar,
bárbaro. Chame-me de Atlan ou amigo, mas não de palerma.
De repente
um silêncio profundo passou a reinar na sala de comando. O único
ruído era o rugido produzido pelos propulsores que desaceleravam a
nave. Os homens prenderam a respiração. Viam diante de si a
primeira prova de forças.
Rhodan
fitou-me com uma expressão rígida.
Para minha
surpresa não disse uma única palavra. Apenas seu rosto
modificou-se. Prossegui:
— É bom
que você compreenda que não se dá um tratamento destes a um
aliado. Se quiser dispensar minha amizade, exijo que me dispense a
cortesia diplomática. Se o Administrador do Império Solar não
estiver disposto a dispensar-me a mesma, ver-me-ei obrigado a retirar
minha frota.
— Seu
fanfarrão ridículo!
Essas
palavras foram proferidas em tom gelado. Atingiram-me mais
profundamente que seus gritos. O autodomínio com que me surpreendeu
não parecia indicar qualquer alteração mórbida de sua
personalidade. Realmente pretendera ofender-me.
— Seria
bom que você moderasse seu vocabulário.
De repente
Rhodan riu. Vi um par de olhos traiçoeiros à minha frente. E as
palavras que proferiu não foram bonitas.
— Você
tem toda liberdade de abandonar o sistema. Encontrei Trakarat. Você
já fez o que devia, arcônida.
Não perdi
as estribeiras nem mostrei quão profundamente ele me atingira.
Preferi recorrer a uma campanha psicológica dirigida contra Perry
Rhodan. Já antes da partida o setor lógico de minha mente
recomendara a mesma.
Naquele
momento os dois anéis do sexto planeta tornaram-se perceptíveis.
Surgiram na teleótica eletrônica, que funcionava com um fator de
ampliação de trinta mil.
Rhodan
olhou para as telas. Uma expressão de triunfo surgiu em seu rosto.
— Pode
retirar-se — repetiu.
— Muito
obrigado; prefiro ficar — disse com um gesto de cortesia. —
Obtive certas informações. É bem possível que seu filho
desnaturado se encontre no mundo central dos antis. Afinal, você
teve que deixá-lo com eles por ocasião da operação que realizou
em Okul, não é mesmo? Estou interessado em saber o que aconteceu
com Thomas Cardif nestes últimos meses. E desta vez eu o
encontrarei, meu caro.
A reação
provocada por estas palavras foi assustadora. Soltando gritos
desconexos, Rhodan avançou em minha direção e mandou que os
oficiais que se encontravam mais próximos me abatessem a tiros.
Coloquei a
mão espalmada sobre seu peito e afastei-o. Apenas tive de mover a
massa de seu corpo. Seus músculos não foram capazes de oferecer
resistência.
— Prendam-no!
Prendam-no imediatamente! — berrou.
Ninguém
fez o menor movimento. Depois de algum tempo Allan D. Mercant
adiantou-se.
— Sir,
quero ponderar que o imperador goza de imunidades políticas. Não
temos o direito de prender Sua Majestade.
Os gritos
de Rhodan cessaram. De repente seus olhos adquiriram uma expressão
lúcida. Estava refletindo. Quanto a mim, sabia perfeitamente que a
menção do nome de Thomas Cardif o atingira profundamente.
— Você
não conseguirá pegar Cardif — disse com uma calma surpreendente.
— Isso é comigo.
— Seja o
que você quiser — disse, cedendo às suas palavras. — De
qualquer maneira, deverá ser preso e interrogado pelos mutantes. Sei
que não produziu apenas o entorpecente denominado liquitivo.
Provavelmente também é culpado da sua doença. Quem dirigiu o
interrogatório psicológico realizado quando você era prisioneiro
dos antis? Foi Cardif?
— Isso é
comigo — voltou a dizer. — Cuide dos seus problemas.
Passando
junto de mim, dirigiu-se à central de localização. Mercant
suspirou de forma bem audível.
— Sir, o
senhor não deveria irritá-lo tanto.
— Será
mesmo? Tenho a impressão de que de repente passou a comportar-se
muito bem. Não lhe parece que às vezes o senhor lhe dá muita
liberdade, marechal solar?
Mercant
fitou-me com uma expressão pensativa e virou-se abruptamente.
— Talvez
haja algo de verdade nisso — disse Bell. — Até agora sempre
recuamos.
Não pude
prosseguir nas minhas indagações. Os primeiros couraçados de minha
frota robotizada estavam penetrando no sistema do sol geminado.
No momento
em que as unidades terranas já se imobilizavam e começavam a cercar
o planeta dos anéis, minhas naves avançaram pelo espaço
interestelar e ocuparam as posições que lhes cabiam na operação
de bloqueio.
Um
couraçado da classe Zuku atacou um veículo espacial desconhecido e
reduziu-o à imobilidade.
Posteriormente
constatamos que se tratava de uma nave cargueira dos saltadores.
Preferi
não informar Rhodan. Na minha mente surgiu uma suspeita da qual não
consegui livrar-me.
Esperei
duas horas, até que o cerco do planeta Trakarat fosse completo.
Na
superfície do planeta tudo permanecia imóvel. O campo energético
compacto cercava esse grande e belo mundo.
Os dois
anéis eram formados por micromatéria cósmica, mantida no local em
virtude da gravitação do planeta. Circulavam em torno de Trakarat
em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. O mundo central
dos antis era ainda mais belo que o planeta Saturno.
Dediquei
apenas um interesse secundário aos resultados das análises que nos
eram fornecidos em rápida seqüência, e que diziam respeito à
densidade, à massa, à composição da atmosfera, à velocidade da
rotação e coisas semelhantes.
Perry
Rhodan transformara-se na figura central, o que era bastante estranho
numa situação que deveria exigir todos os esforços mentais e toda
a capacidade de planejamento.
Resolvi
retirar-me por alguns minutos, mas naquele momento ouvi uma forte
discussão na sala de rádio.
Corri para
lá. Rhodan arrancara o oficial de plantão da poltrona. Quando
entrei, estava gritando com ele que nem um louco e ameaçava-o com a
mortífera arma de radiações.
O chefe da
equipe de rádio arriscara-se ao chamar os antis e pedir-lhes que
capitulassem, sem que tivesse recebido ordens expressas para isso.
Bell e Mercant foram obrigados a tomar uma atitude enérgica, pois,
do contrário, aquele homem tresloucado ainda poderia ter atirado.
O estado
de ânimo dos tripulantes estava tenso. Nem mesmo um soldado
disciplinado seria capaz de suportar por muito tempo um tratamento
como este. Eu conhecia os terranos e sabia que eram orgulhosos.
Haveria de chegar o dia em que Rhodan encontraria um opositor, e
então seria a catástrofe.
Assim que
se acalmou um pouco, gritou para o oficial cujo rosto estava muito
pálido:
— Ninguém
vai entrar em contato com os antis. Entendido?
— Sim,
senhor.
— Pois
não se esqueça disso. Transmita uma ordem dirigida a todos os
comandantes. O texto é o seguinte: Proíbe-se, sob pena de morte,
entrar em contato com o mundo dos antis ou captar mensagens vindas de
lá. Os aparelhos ficarão ligados exclusivamente na faixa de ondas
da Frota. Todas as mensagens devem ser irradiadas pelo canal trinta e
oito e sob o código condensado Destination. Vamos; transmita logo a
mensagem!
Bell
fitou-me, perplexo. Mercant pigarreou. Quanto a mim, voltei a
refletir.
Rhodan
virou-se e caminhou em direção à porta. Assim que me viu, parou.
Seu rosto estava desfigurado pela raiva doentia. Ou haveria mais
alguma coisa que, no momento, não conseguia interpretar?
Meu rosto
devia ter o aspecto de uma máscara.
— Por
que me olha desse jeito? — disse com a voz gutural. — Afaste-se
do meu caminho, arcônida.
— É bom
não ir muito longe — disse, esticando as palavras. — Será que
você está com medo de que seu filho possa estabelecer contato? Acha
que seu coração poderá amolecer mais uma vez?
— Saia
do meu caminho!
Pôs a mão
na arma. Recuei alguns passos. Rhodan passou por mim, respirando com
dificuldade. Senti-me atingido por um olhar que colocou alerta o
setor lógico de minha mente. Agora tinha de haver-me com os impulsos
provenientes da parte ativada de meu cérebro.
— É
medo! Medo de quê? — disse meu sentido extra.
Bem que eu
desconfiava. A decisão de proibir todo e qualquer contato fora um
tanto apressada. Por que fazia tanta questão de impedir que qualquer
outra pessoa estabelecesse ligação com os antis?
Desejava
evitar uma eventual tentativa de chantagem? Será que receava não
poder resistir às súplicas do filho desnaturado?
Aos poucos
até eu comecei a acreditar que Thomas Cardif realmente poderia estar
neste mundo. Por que não? Onde encontraria refúgio melhor que este?
Eu
descobrira Trakarat por acaso. Provavelmente os antis achavam que
seria impossível localizar seu planeta central. Conhecíamos as
manobras que haviam realizado para ocultar a posição real de seu
planeta.
Acabei não
indo ao meu camarote. Desde que deixara de pensar e agir como amigo,
minha vida emocional tornara-se menos confusa. Comecei a observar
coisas que os homens que cercavam Rhodan não conseguiam ver.
Lembrei-me
da história da espada leve. Tomei uma decisão.
Rhodan
levou uma hora para acalmar-se por completo. Durante esse tempo fiz
tudo para convencê-lo da minha lealdade.
Transmiti
em voz alta as ordens destinadas ao regente. Ele as ouviu e acenou
com a cabeça, numa atitude que quase chegava a ser condescendente. O
cerco do planeta acabara de ser completado. Rhodan preparava-se para
abrir fogo.
Naquele
instante estava na disposição que eu queria. Parecia mais
equilibrado.
Aproximei-me
numa atitude indiferente e fiz um sinal para Claudrin. O comandante
compreendeu.
Resmungou
uma desculpa e saiu de seu assento. Ocupei seu posto. O corpo
gigantesco de Rhodan estava tão perto que poderia tocar nele. Rhodan
fitou-me com uma expressão de insegurança.
— Acho
que deveríamos atacar logo — falei sem o menor intróito. — Sou
de opinião que o processo de divisão celular será mais fácil de
deter se agirmos imediatamente. Por enquanto manterei minhas naves na
retaguarda. De acordo?
— De
acordo — respondeu numa calma surpreendente, com a voz normal.
— Quais
são os detalhes de seu plano, Perry?
— Vamos
remover os campos defensivos, utilizar armamento especial e enviar ao
planeta as tropas de desembarque. Preciso pegar essa gente viva, e é
bom que ponha as mãos em alguns cientistas.
— Acho
que você deveria formular um ultimato. Diga-lhes que se não lhe
prestarem auxílio imediatamente, haverá uma destruição total.
Houve uma declaração de guerra?
— Naturalmente.
Pensarei em sua sugestão. Um anti morto não me serve de nada.
Cheguei à
conclusão de que já dissera bastante. De qualquer maneira, aquilo
não chegava a ser um plano bem elaborado. Provavelmente tinha em
mente certas coisas que preferia guardar para si.
Mercant me
cochichou, por exemplo, que Rhodan por certo pretendia participar
pessoalmente da manobra de desembarque.
Isso seria
compreensível. Mas havia outra coisa que aguçava minha curiosidade.
Até o
momento de minha chegada à Ironduke, era proibido pronunciar o nome
de Thomas Cardif. Eu o mencionara várias vezes, quebrando um tabu.
Lembrei-me
disso. Esperei mais alguns segundos para que Perry se acalmasse de
vez e comecei a cantarolar:
— A água
é molhada, é molhada. Como é gostosa de beber e sorver. A água é
fresca, fresco é o molhado. Nado num barril inteiro, pois hoje a
água está molhada...
Muito
curioso, aguardei sua reação. E a mesma não foi a que eu esperava.
Fitou-me
com uma expressão em que não havia nada de raiva ou de
contrariedade. Chegou a soltar uma gargalhada bem-humorada.
— Pelo
grande Júpiter, quem fez essa poesia tola?
Sorri com
a expressão zombeteira.
— Acabo
de me lembrar do texto. Dizem que foi feito por um astronauta
arcônida quando estava morrendo de sede num deserto. Logo que foi
salvo, cantou esta canção para os outros. Desde então anda em voga
na frota arcônida. Isso faz muito tempo, amigo.
Rhodan
voltou a rir e levantou-se.
— As
ordens serão dadas daqui a trinta minutos — disse em tom enérgico.
— Espero que os senhores oficiais compareçam com uma pontualidade
absoluta em meu camarote.
Saiu
cambaleando.
— Atenção!
— gritou Jefe Claudrin.
Os homens
levantaram-se de um salto e ficaram em posição de sentido. Aquele
homem, que governava o Império Solar, passara a dar importância a
ninharias desse tipo.
As
escotilhas das eclusas de segurança abriram-se à sua frente. Os
robôs apresentaram as armas de radiações. Assim que desapareceu,
também me levantei.
— Bell,
o senhor poderia ter a gentileza de comparecer ao meu camarote por um
instante? Quero falar-lhe a sós.
Reginald
Bell fitou-me com uma expressão de curiosidade.
— É
importante?
— Talvez.
Já vou andando. Siga-me sem que ninguém o perceba.
Mais uma
vez as escotilhas de aço se abriram e os robôs voltaram a
apresentar armas.
Assim que
cheguei ao corredor circular largo que passava junto à sala de
comando minha mente descontraiu-se. Não se via ninguém, e assim
podia deixar cair a máscara.
Gemi e
encostei-me à parede. Meu coração batia fortemente, provocando
dor. Senti-me apavorado, pois acabara de dar-me conta do que
acontecera.
Em toda a
Galáxia só havia duas criaturas que conheciam o verso ridículo e
idiota que eu acabara de recitar.
Quando
ajustei as rimas, Rhodan e eu éramos adversários, e ninguém mais
poderia ter-nos visto.
Totalmente
abandonados, estávamos esperando auxílio no deserto chamado Porta
do Inferno, e ameaçávamos um ao outro de arma na mão. A água
tornara-se muito escassa. Por pouco não morremos de sede em nossos
trajes espaciais.
Por uma
razão puramente psicológica inventei o verso da água, a fim de
fazer com que Rhodan, cujas forças também estavam chegando ao fim,
saísse do seu esconderijo.
Ele sempre
se recordava da rima psicológica, que quase o deixou louco. Só
pensávamos em água. Mais tarde conversamos sobre o duelo travado no
deserto Porta do Inferno, que, para nós, se transformara num símbolo
perpétuo, pois representara o início de nossa amizade.
E agora
não guardava a menor lembrança da canção. Num momento de calma e
lucidez perguntara com uma risada: “Quem fez essa poesia tola?”
Procurei
dominar minha excitação e realizei um auto-exame. Será que eu
desenvolvera um raciocínio lógico? Não havia nenhum ponto falho?
Será que Rhodan ainda deveria lembrar-se desses versos, agora que
estava acometido pela doença? Estaria realmente bem lúcido quando
formulou a pergunta?
— Estava
lúcido, sim
— disse o setor lógico de minha mente. — Não
se esqueça de que confundiu o gládio de viquingue de lâmina dupla
com uma espada leve. Será que isso também foi coincidência?
Dois
homens do serviço de proteção contra vazamentos aproximaram-se.
Quando me viram cumprimentaram-me à maneira antiga, que tanto
prezava.
Os
terranos nunca se haviam mostrado submissos, embora soubessem que eu
era o imperador. Demonstravam respeito, mas nunca praticavam a
bajulação repugnante que tinha de suportar todos os dias nos mundos
de Árcon.
— Não
cansem as pernas, rapazes — disse. — Por aqui há fitas
transportadoras.
Um deles
olhou-me com um sorriso matreiro.
— Sir,
saltamos de cima da fita assim que o vimos. Recebemos ordem para não
usá-la.
Soltei uma
risada de alívio. Quando me retirei, ficaram em posição de
sentido. Sabia que eram meus amigos, e isso me fazia bem.
Meu
camarote ficava um andar abaixo do lugar onde me encontrava. Bell
deveria aparecer dentro de alguns segundos.
*
* *
— ...quer
dizer que só acompanhou a retirada de Cardif, que estava
inconsciente, na tela do submarino?
Bell
acenou com a cabeça. Seu rosto estava pálido e demonstrava forte
tensão.
— Não
teve oportunidade de ver pai e filho ao mesmo tempo?
— Onde
quer chegar, Atlan? Respondi apenas com um gesto.
— Quem
foi a primeira pessoa que entrou na sala de interrogatórios? Foi o
senhor?
— Não.
Foi o Major Rengall, oficial do Serviço Secreto do comando
submarino.
— E o
mesmo encontrou Rhodan em estado de inconsciência?
— Sim;
naturalmente. A ligação de rádio já havia sido interrompida
antes. Os antis tinham decolado com a nave dos saltadores. Estava
tudo perfeitamente claro.
— O
Major Rengall está por aqui?
— Não.
— O que
aconteceu depois disso?
— O
comando levou Rhodan ao submarino, onde eu o esperava. Voltamos à
superfície e a Ironduke pousou. Antes disso a base submarina dos
antis foi pelos ares. Atlan, diga logo qual é a finalidade dessas
perguntas, senão...
Interrompeu-se.
Fitou-me como quem não compreende nada.
Quando já
me encontrava na porta, pedi:
— Bell,
espere-me na sala de comando.
— Aonde
vai?
— Quero
fazer algumas perguntas a Perry.
— O
senhor deve estar louco. Ele lhe dará um tiro.
— Não
atirará em mim coisa alguma, da mesma forma que não me matou com a
espada leve no Museu de Vênus. Vá andando, amigo, e deixe tudo por
minha conta.
Não se
retirou. Dei de ombros e saí do camarote. Corri em direção ao
elevador, saltei para dentro do campo antigravitacional e empurrei-me
com o pé. Saí no pavimento correspondente à protuberância
equatorial da nave. Era lá que ficavam os alojamentos da
oficialidade. E também era lá que fora instalado o camarote de
Rhodan. Conforme diziam, era lindo.
E esse
luxo não combinava com a personalidade de Perry Rhodan, mesmo que
ele se sentisse doente. Aquele homem nunca dera muito valor às
aparências.
Aliás,
não havia naquele homem mais nada que combinasse com o Perry Rhodan
que eu conhecia e estimava.
Dois robôs
de guerra estavam postados à frente da escotilha blindada. Haviam
ativado seus campos defensivos individuais, e os bocais de suas armas
energéticas emitiam um brilho avermelhado. As armas de radiações
estavam carregadas e engatilhadas.
Parei e
hesitei um pouco. Naquele momento, a Ironduke sofreu um forte abalo.
Perdi o apoio dos pés e caí no chão. Fiquei no chão até que as
baterias do costado começassem a trovejar de maneira uniforme
O
couraçado acabara de abrir fogo. Provavelmente, a essa hora, oito
mil espaçonaves terranas estariam usando todas as peças. Rhodan
devia ter dado ordem de abrir fogo depois que eu saíra do meu
camarote.
Os
aparelhos de absorção do ritmo dos disparos neutralizaram os
abalos. Apesar disso ainda houve alguns solavancos em sentido
contrário aos disparos.
Caminhei
cautelosamente na direção dos robôs, que imediatamente apontaram
as suas armas para mim. Não disseram uma única palavra. E nem era
necessário que dissessem. Gritei para eles:
— O
Imperador Gonozal VIII, governante de Árcon e do Império Estelar
Arcônida, pede uma entrevista com Perry Rhodan. Anunciem-me.
— Aguarde.
O robô
parecia irradiar uma mensagem de rádio. Dali a pouco, o rosto de
Rhodan surgiu na tela de controle embutida na parede.
— O que
deseja?
— Acho
que encontrei um meio de deixar todos os antis inconscientes. Acho
que seria conveniente se os antis caíssem em nosso poder nesse
estado. Eu... ora, abra logo essa porta. Quer que arrebente os
pulmões de tanto gritar? Desde quando não posso falar mais com
você?
Rhodan
hesitou um pouco. Finalmente disse:
— Entre.
Disponho de três minutos.
As
máquinas de guerra deixaram livre a passagem. As escotilhas
abriram-se à minha frente. Não dispunha de qualquer prova que
pudesse confirmar aquilo que iria acontecer. Se minhas suspeitas não
se confirmassem, o amigo se transformaria de vez num inimigo.
Não
esperara encontrar um ambiente tão suntuoso. Rhodan estava sentado
numa luxuosa poltrona pneumática. Abrira o uniforme sobre o peito.
Vi o ativador celular incrustado no tecido de seu corpo.
Rhodan
ergueu-se com um grande esforço. Finalmente vi-o à minha frente.
Parecia uma montanha de espuma de borracha.
Não perdi
mais tempo. Em seus olhos amarelos havia uma expressão de
desconfiança. Ao que parecia já estava arrependido porque me
deixara entrar. Mas por enquanto conservava o autocontrole, por
enquanto continuava a representar. Ele não sabia até que ponto
haviam evoluído minhas idéias.
Lá fora
os canhões da Ironduke continuavam a disparar. A situação tinha
algo de irreal.
— Então?
Fitei-o
com uma expressão autoritária. Pus a mão na arma.
— Seu
treinamento hipnótico foi um tanto deficiente, meu filho —
principiei num tom que quase chegava a ser cordial. — Parece que se
esqueceram de transferir os detalhes aparentemente sem importância
da memória de Rhodan para a sua. A esta hora já compreendo por que
sempre evitou defrontar-se comigo. Sente-se, rapaz. Tenho alguns
milhares de anos a mais que você. Além disso, seu pai é meu melhor
amigo. Sente-se logo!
Fitou-me.
Por enquanto ainda não dispunha da prova final, embora sob o ponto
de vista lógico tivesse certeza absoluta.
Notei o
medo que começava a tomar conta dele. De repente deixou de ser o
chefe poderoso, que obrigava os oficiais mais graduados a lhe
prestarem exageradas homenagens.
Sua boca
estava escancarada. Por enquanto não disse nada.
— Vamos,
Thomas Cardif. Sente-se! Você cometeu alguns erros fatais, que só
eu pude perceber. O verso que recitei há pouco é o elo mais
importante entre a memória de seu pai e a minha. E não lutamos com
uma espada leve, mas com um gládio de viquingue muito largo e
pesado. Ainda existem outros detalhes que você nem poderia conhecer.
Quero que você mesmo me diga como conseguiu enganar a Humanidade. E
ainda quero saber onde poderei encontrar Perry Rhodan. Não faça
isso, Cardif!
Pôs a mão
na arma. Seu gesto foi lento demais. Tive intenção de puxar minha
arma, mas resolvi dar um salto para frente.
Aquele
homem, que provavelmente chegara mesmo a acreditar que seu tamanho
lhe dava a força de um gigante, procurou defender-se.
O primeiro
golpe fê-lo cambalear com os olhos vidrados. Torci seu braço sobre
as costas, arranquei a arma de impulsos do coldre aberto e
desferi-lhe outro golpe, que antes parecia uma bofetada.
Cardif
soltava gritos horríveis. Seus olhos só exprimiam medo. Naquele
momento convenci-me de vez que o homem que se encontrava à minha
frente não era Perry Rhodan, mas o filho que o traíra. Thomas
Cardif enganara toda a Galáxia, e ninguém percebera nada.
Continuei
a esbofeteá-lo, e Cardif começou a implorar minha compaixão.
Naquele
momento aconteceu uma coisa com a qual não contara. A escotilha
abriu-se. Vi um dos robôs de guerra e o cano tosco de uma arma.
— Espere
aí; não atire — gritei, mas era tarde. Se me encontrasse diante
de um homem, ainda haveria tempo para explicações, mas isso não
acontecia com uma máquina de guerra especializada, cuja tarefa
consistia unicamente em proteger seu senhor.
Vi um raio
fulgurante, que penetrou no meu corpo na altura do estômago.
Senti uma
dor lancinante. Caí ao chão, contorcendo o corpo durante a queda.
Conseguia
pensar, ver e ouvir perfeitamente. Mas só via aquilo que se passava
dentro do ângulo de visão dos olhos arregalados.
O falso
Rhodan logo voltou a controlar-se. Fez o papel do homem atacado de
surpresa e totalmente exausto.
No momento
em que os primeiros soldados entraram no camarote, com Reginald Bell
à frente, não pude dizer uma única palavra.
Cardif
parecia furioso. Com toda certeza, me teria matado imediatamente, se
não tivessem aparecido dois robôs-médicos que, ignorando seus
protestos, levantaram-no suavemente e o retiraram do camarote.
Ainda ouvi
seus gritos quando não o via mais. No meu íntimo senti certo
alívio. Fora paralisado por uma arma de choque. Sabia que a
paralisia duraria cerca de duas horas. Muita coisa poderia acontecer
nesse tempo. Alguém virou meu corpo, deitando-me de costas. O rosto
de Bell surgiu no meu campo de visão. Bem ao seu lado, vi Allan D.
Mercant.
— Foi
atingido por uma arma de choque. Não adianta fazer perguntas —
disse Mercant com o autodomínio que lhe era peculiar. — Atlan, sei
que o senhor me ouve. Na situação em que nos encontramos não temos
outra alternativa senão protegê-lo da cólera de Rhodan até que
possa falar de novo. Depois disso tudo se esclarecerá.
— O que
houve? Faça um esforço... O que houve? — perguntou Bell numa voz
que quase chegava a ser chorosa. — Atlan, diga o que aconteceu por
aqui. O senhor o derrubou a pancadas? O rosto dele está ainda mais
inchado que de costume.
Senti-me
desesperado, mas por mais que me esforçasse não podia dar nenhuma
informação.
— Deixe
para lá — disse Mercant com a voz fria. — Este assunto é da
alçada da Segurança. Levem-no para a sala de comando. Lá poderemos
mantê-lo continuamente sob observação. Tome todas as providências
para que Rhodan só saia da enfermaria depois que tivermos ouvido as
explicações que Atlan nos fornecerá. No momento não podemos fazer
outra coisa.
Que
sabedoria possuía esse Mercant! Parecia imaginar, ou até sabia, o
que houvera entre mim e o falso Rhodan.
Dois robôs
levantaram-me. Levaram-me à sala de comando a passo acelerado, e lá
me colocaram numa poltrona ajustável.
Esperei.
Não tive outra alternativa.
Uma hora e
quarenta e seis minutos haviam passado depois do acidente.
Apenas
podia avaliar a intensidade com que fora disparada a arma, enquanto
conhecia perfeitamente o tempo decorrido. Fora colocado de maneira a
poder ver o relógio de bordo, que ficava acima do painel de controle
central.
As peças
de artilharia da Ironduke continuavam a disparar. Há quinze minutos
fora divulgada uma informação importante. Os antis que viviam em
Trakarat haviam desativado o campo defensivo que envolvia todo o
planeta.
Ao que
parecia, apesar de suas tremendas energias psíquicas já não eram
capazes de dar o devido reforço à estrutura energética do campo,
por meio de sua carga energética mental.
Também se
descobrira que em Trakarat só existia uma única cidade. Fora dela
não se via o menor sinal de um núcleo populacional. E essa cidade
estava coberta por um campo energético tão concentrado que
dificilmente seria possível rompê-lo com as armas de radiações.
Oito mil
espaçonaves atacavam aos grupos, mas o campo energético concentrado
de cerca de dez quilômetros de diâmetro continuava a resistir. Era
inacreditável!
O aumento
da atividade psíquica dos antis representava uma desvantagem para
mim...
Pouco
depois do momento em que fora paralisado, Gucky e John Marshall
apareceram à minha frente. Os telepatas mais competentes do Exército
de Mutantes tentaram sondar minha mente consciente.
Levantei
imediatamente o bloqueio monolítico e abri meu cérebro o mais que
podia. Cheguei a acreditar que poderia transmitir o que sabia a
respeito de Thomas Cardif por via telepática, mas naquele instante
verificou-se a readaptação do campo energético dos antis.
O
envolvimento parapsicológico das faculdades dos mutantes logo se
tornou perceptível. Eu mesmo não era telepata, motivo por que não
poderia prestar nenhuma ajuda. Gucky e Marshall não conseguiram
absorver meus pensamentos. Das palestras que travaram deduzi que
perceberam alguns impulsos, mas não foram suficientes para que se
realizasse uma transmissão telepática aproveitável.
Era assim
que a atividade febril dos sacerdotes de Baalol, estimulada pelo
instinto de autoconservação, representava para mim uma tremenda
desvantagem.
Gucky
estava sentado no meu leito. Vez por outra passava a mão pela minha
testa. Fitava meus olhos paralisados com uma expressão tão triste
que quase cheguei a desanimar.
Repetia
constantemente a mesma pergunta. Queria saber o que havia acontecido.
Bell e Mercant não podiam dedicar-se a mim. O representante de
Rhodan assumira o comando da frota terrana.
Há três
minutos Bell dera ordem para que o campo defensivo impenetrável dos
antis fosse bombardeado com armas energéticas e armas convencionais
ao mesmo tempo.
Alguns dos
supercouraçados da Frota Solar haviam sido equipados com
lança-foguetes antiquados. Sabíamos que as armas de radiações não
eram capazes de romper a carga mental do campo dos antis.
No
entanto, desde que se resolvesse atacar o campo defensivo com
projéteis antimagnéticos de grande força de impacto, a coisa era
outra...
Os antis
também haviam acumulado experiências no mesmo setor. Sabiam alterar
a atuação mental e o estado normal a intervalos tão rápidos que
praticamente não havia nenhuma possibilidade de calcular o momento
exato em que deveria ocorrer o impacto de um dos dois tipos de armas.
Apesar
disso Bell resolvera recorrer ao bombardeio simultâneo. Os
computadores positrônicos estavam trabalhando para constatar a
rapidez com que era feita a alternância dos campos. Concluíram que
o intervalo era de um milésimo de segundo.
Durante
esse período de estabilização deveria ocorrer o impacto simultâneo
de vários disparos de radiações ou de alguns foguetes de grande
alcance. Isso requeria uma sincronização das mais perfeitas.
Dificilmente se conseguiria alcançá-la. Apesar disso o computador
prosseguia nos seus cálculos.
Acompanhei
atentamente as medidas tomadas por Bell. Os minutos foram passando.
Procurei não pensar em Thomas Cardif, sobre cujas falsidades não
poderia dar nenhuma informação.
Calculei
febrilmente. Conforme a intensidade do disparo da arma de choque,
poderia recuperar o controle do meu corpo dentro de duas horas. Sabia
que na oportunidade sentiria dores. Achei que as mesmas representavam
um fator desprezível.
O que
realmente importava era saber se, antes disso, Cardif conseguiria
chegar ao lugar em que me encontrava. Era nisto que consistia o
perigo. Evidentemente ele desejava me matar.
Era bem
verdade que Mercant ordenara que Thomas fosse detido na clínica de
bordo até que eu voltasse ao normal, mas isso não representava
nenhuma garantia para minha segurança. Em meio a estas reflexões
perguntei-me: Como aquele criminoso conseguira enganar a Humanidade
por tanto tempo?
Sem dúvida
os culpados eram os colaboradores mais chegados de Rhodan, que
provavelmente nunca haviam pensado na possibilidade de que o homem
errado poderia ter assumido o poder. Havia muitos pontos que deveriam
fazer com que desconfiassem de Cardif. Não precisariam de mais nada.
Se tivessem apenas desconfiado, o farsante logo seria desmascarado.
Naquele
momento, para Cardif, o mais importante era eliminar-me. No momento
em que minhas reflexões chegaram a este ponto aconteceu exatamente
aquilo que eu receara.
Não pude
ver a escotilha que se abriu. Mas ouvi o tumulto que surgiu de
repente. Em meio ao mesmo destacava-se perfeitamente a voz de Cardif.
— Ordeno
a instalação da corte marcial. O senhor enfrentará o tribunal de
bordo! — gritou. — Saia do meu caminho. Mr. Mercant, a partir
deste momento o senhor é destituído do comando.
Só
conseguia ver pequena parte da sala de comando. Estava perdido! Se
Cardif tivesse alguma habilidade deveria chegar ao meu leito. E eu
estava imobilizado!
Bell
procurou detê-lo. Não conseguiu. A disciplina a bordo das
espaçonaves terranas era tão desenvolvida que os oficiais e
tripulantes nem pensariam em recorrer à violência física para
impedir qualquer ação do comandante supremo. Tal ato constituiria
um motim, e este era punido com a morte. A Ironduke estava empenhada
numa operação de guerra. Por isso seus tripulantes estavam sujeitos
à corte marcial.
De
qualquer maneira Mercant só poderia procurar vencer Cardif pela
astúcia.
— Você
deveria ter-lhe aplicado um choque, seu idiota! — disse meu cérebro
adicional.
As vozes
aproximaram-se. A figura colossal apareceu no meu campo de visão.
Fiz um
esforço desesperado para recuperar o domínio de meu corpo, mas os
nervos paralisados não reagiram.
— Sir,
não se esqueça de quem é Atlan e respeite-o — disse Mercant, em
tom exaltado. — Não tenha a menor dúvida de que seu ato causará
uma guerra com o Império de Árcon. O computador-regente assumirá o
poder assim que o imperador tenha sido colocado fora de ação. Sir,
ouça-me...
Cardif
afastou o homem franzino. Subitamente vi-o bem à minha frente. Seu
rosto estava ainda mais desfigurado pela raiva e pelo medo.
Antes que
Mercant pudesse esboçar outra invenção, o traidor agiu.
Pôs a mão
direita na arma e arrancou-a do coldre com uma rapidez espantosa.
Ouvi o grito dos presentes. Mas naquele momento aconteceu uma coisa
na qual nunca teria acreditado.
Alguém
atreveu-se a resistir ao administrador.
Foi Gucky!
O
rato-castor continuava sentado no meu leito. A arma de radiações,
que estava pronta para disparar, foi arrancada da mão de Cardif e
atirada contra o teto de aço.
— Nem
pense nisso — disse o rato-castor em tom agressivo. — Se tentar
de novo, eu não deixarei.
Cardif
recuou, cambaleante. Seus olhos estavam muito arregalados.
Mais dois
membros do Exército de Mutantes colocaram-se à minha frente. Eram
Ivã Goratchim e Tama Yokida, o telecineta.
— Acho
que não lhe custa nada esperar uns dez minutos, sir, não é mesmo?
— perguntou o japonês de estatura mediana, com a maior
tranqüilidade deste mundo.
— Isso é
um motim declarado! — gritou Cardif, fora de si. — Claudrin, mate
estes homens. Dê-me a minha arma. Não, dê-me a sua...
Naquele
instante, o desespero conferiu-me forças de que nem desconfiara. A
rigidez começou a ceder. Emiti um som rouco que logo despertou a
atenção de Cardif.
Agiu
imediatamente. Antes que os terranos compreendessem o que estava
acontecendo, retirou-se da sala de comando. E teve a habilidade de
dissimular a retirada por meio de uma série de ameaças.
O Major
Claudrin chegou a soltar um suspiro de alívio depois que o
administrador não se encontrava mais por perto.
— Tivemos
sorte — disse a cabeça esquerda de Goratchim, enquanto a direita
soltava uma gargalhada.
Gucky
passou a pata macia pela minha testa.
Ainda não
conseguia fazer nenhum movimento. Os sons que saíam de minha boca
deviam ser incompreensíveis. Esforçaram-se para ajudar-me, mas o
tempo foi passando e ninguém fez nada contra Cardif.
Só dali a
dez minutos comecei a sentir as terríveis dores. Meu sistema nervoso
estava despertando. Comecei a gritar. Alguns homens seguraram-me.
Finalmente consegui formular algumas palavras, que foram ouvidas por
todos que se encontravam na sala de comando. Eu as proferira em voz
muito alta.
— Prendam-no.
Depressa! É Thomas Cardif. Prendam-no. Mercant, não é Rhodan.
Depressa...
O chefe da
Segurança estremeceu como se um tiro o tivesse atingido de raspão.
— Atlan,
o senhor tem certeza? — berrou Bell, ao meu ouvido. Uma palidez
cadavérica espalhara-se pelo seu rosto.
— Sim, é
Cardif. Prendam-no. Provas irrefutáveis. Prendam-no...
Finalmente
livraram-se do espanto. De repente pareciam lembrar-se do
comportamento anormal do pretenso Rhodan. Deram-se conta de que sua
cegueira e veneração fizeram com que se deixassem iludir pelo
filho, aceitando-o como se fosse o pai.
Nunca vi
homens correrem tanto. Já conseguia mover as mãos e, dali a pouco,
os braços e as pernas. As dores tornaram-se quase insuportáveis.
Uma massa de chumbo derretido entremeada por milhares de agulhas
parecia correr pelas minhas veias.
Não fiz o
menor esforço para adotar um comportamento heróico, a fim de
disssimular meu estado. Toda vez que soltava um grito conseguia
proferir algumas palavras de esclarecimento.
Dali a
mais alguns minutos consegui erguer o corpo. Naquele instante veio a
informação que eu receara. O comando das eclusas chamou.
Um capitão
anunciou que o chefe acabara de sair num jato espacial, a fim de
entrar em negociações com os antis que se encontravam em Trakarat.
Naquele momento, Rhodan saíra do tubo do hangar. Estava só.
Bell
esbravejou, enquanto eu consegui controlar minhas emoções. Aquilo
representava a prova definitiva. Não tive necessidade de convencer
os que ainda tivessem suas dúvidas.
Pus-me de
pé ao lado do leito. Minhas pernas tremiam. Mercant foi o primeiro
que viu todos os aspectos da situação.
— Silêncio!
— gritou, e repetiu: — Silêncio!
Fitei-o
com um sorriso irônico.
— Vocês
são mesmo uns heróis — balbuciei com a língua pesada. — Até
parece que estão com a inteligência congelada.
— Quais
são suas ordens, sir? — perguntou Mercant, com a voz controlada. —
Tem alguma idéia?
— Naturalmente.
Preparem um jato espacial. O piloto será o Tenente Brazo Alkher. Eu
o conheço. Gucky, quer ir comigo? Em Trakarat suas faculdades
parapsicológicas deverão ser praticamente inúteis, mas
provavelmente você conseguirá fazer a localização goniométrica
do ativador de Cardif. Ouviu as gargalhadas que soaram no momento em
que Thomas se retirava da sala de comando?
— Ouvi.
O que foi?
— Foi
uma gargalhada diabólica, que soou no subconsciente. Saiu do
ativador. O Ser fictício de Peregrino soube desde o início que este
Rhodan não passa de um farsante. Já compreenderam o motivo do
processo de cisão ou divisão celular explosiva? Cardif disse que
era Perry Rhodan e pediu um ativador que prolonga a vida, do mesmo
tipo que eu possuo. Aquilo fez mais uma das suas brincadeiras.
Adaptou o aparelho às vibrações individuais de Rhodan, que diferem
ligeiramente das de Cardif. Quando o patife percebeu, já era tarde.
Quer ir comigo, Gucky?
— Não
me venha dizer que pretende ir a Trakarat — disse Mercant, em tom
apavorado.
— Irei,
sim. É provável que Cardif tenha entrado em contato com seus
“amigos”. Prossigam no bombardeio. Assim que eu transmitir o
sinal, ameacem-nos com a destruição desse mundo por meio de um
incêndio atômico. Exijam a libertação imediata de Perry Rhodan,
que provavelmente está preso lá embaixo. Tudo indica que sim. Na
opinião do anti, não havia um lugar mais adequado que Trakarat. O
prisioneiro mais precioso que têm em mãos não deve estar guardado
em outro lugar. Que diabo! Os senhores me deixam exausto de tanto
perguntar. Está na hora de agir. Dormiram que chega.
Isso
bastou. Em poucos minutos realizamos uma conferência em termos bem
objetivos. Combinamos um código de sinais. Mantive-me firme na minha
intenção de não ser acompanhado por um comando. De qualquer
maneira, os mutantes não poderiam fazer nada. Nas proximidades da
cidade dos antis, suas faculdades seriam neutralizadas por completo.
Cheguei a espantar-me com o fato de que o rato-castor conseguira
arrancar a arma da mão de Cardif. Provavelmente Gucky tivera de
esforçar-se ao máximo.
Localizamos
o jato espacial do fugitivo. Ninguém disparou contra ele. O
computador de bordo irradiou o impulso combinado. Além disso, as
outras naves ainda não haviam sido informadas. Estava na hora de
iniciar a perseguição.
O
equipamento por mim solicitado foi colocado em outro disco voador.
Alkher, Gucky e eu colocamos trajes de combate arcônidas.
Finalmente
Mercant entregou-me as armas a que já aludira durante nossa
conferência realizada em Saós. Eram as chamadas armas versáteis,
cujo funcionamento era facilmente compreensível.
Por meio
dessa arma podia-se atingir os sacerdotes dotados de capacidades
para-psicológicas, mesmo que reforçassem seus campos defensivos
individuais por meio de suas energias mentais.
Era a
primeira vez que via a arma versátil.
Quando
chegamos à eclusa, Cardif estava penetrando na atmosfera do planeta.
Já
deveria ter pousado. Por que permanecera no espaço por tanto tempo?
Quase
demorei demais para acertar! Cardif tivera de solicitar permissão de
pousar. Isso representava uma vantagem para mim. Com isso sua
dianteira se reduzira a um mínimo.
O Tenente
Brazo Alkher era um mestre na sua arte. Descontraído e concentrado
ao mesmo tempo, estava sentado atrás do manche moderno do sistema de
regulagem da posição dos jatos. Os jatos espaciais eram discos de
trinta e cinco metros de diâmetro, cuja sala de comando ficava na
área polar.
Penetramos
na atmosfera do planeta pela região do pólo, a fim de escapar aos
anéis equatoriais de poeira. Em certa oportunidade os terranos
haviam perdido uma formação de caças, quando o comandante penetrou
por inadvertência em alta velocidade na massa relativamente densa. O
calor gerado pelo atrito não pôde ser absorvido pelos débeis
campos energéticos das máquinas dos veículos espaciais.
Gucky
estava sentado às nossas costas na poltrona do encarregado do
sistema de localização. Ouvia atentamente os inconfundíveis
impulsos emitidos pelo ativador celular. O rato-castor disse que as
irradiações estavam ficando cada vez mais fortes.
Ao que
parecia, o aparelho estava entrando num estado em que seu
funcionamento não podia ser controlado ou previsto por ninguém.
Ouviu-se
um assobio vindo de fora. As primeiras moléculas de gás estavam
sendo atingidas pelo campo defensivo, que as repelia violentamente.
Até parecia que Brazo queria transformar nosso jato espacial num
cometa. De qualquer maneira, confiava em sua capacidade. Aquele homem
sabia o que poderia exigir dos campos energéticos.
Finalmente
estabelecemos um contato nítido pelos aparelhos de localização. A
máquina de Cardif surgiu no horizonte radiogoniométrico.
— Desviar
o curso para a órbita dos anéis equatoriais — gritei para Alkher.
O tenente
limitou-se a acenar com a cabeça. Preferi não voltar a chamar sua
atenção para o perigo que representavam as nuvens de matéria.
Alkher
calculou corretamente a rota que deveria seguir. Só algumas
ramificações bastante rarefeitas das nuvens entraram em contato com
o campo energético de nosso veículo espacial. Passamos a
precipitar-nos em direção à superfície do planeta num ângulo
ainda mais agudo. A nave de Cardif voltou a desaparecer atrás da
curvatura do planeta.

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