terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-116 - Duelo Sob o Sol Geminado - K. H. Scheer [Parte 2]

Seu rosto ficou pálido. Uma raiva terrível deixou suas feições ainda mais desfiguradas. Apesar disso sua reação não foi a que eu esperava. Ao que parecia, suas reações sentimentais eram imprevisíveis.
Ah, então está contente por rever-me depois de tanto tempo? Certamente sente-se feliz por me ver deste jeito, não é?
Girou em torno do seu eixo e abriu os braços. Soltou uma risada provocadora.
Acabara de ganhar mais uma experiência. O novo Perry Rhodan que via à minha frente procurava constantemente dar um outro sentido a palavras inocentes.
Houve um mal-entendido, Perry. Eu me refiro a você, à sua personalidade, em poucas palavras, ao amigo. O resto haveremos de curar.
Fitou-me com uma expressão desconfiada. Parecia lutar pelo autodomínio.
Tomara que sim. Seja bem-vindo a bordo.
Estendeu a mão gigantesca. Suspirei de alívio e me dispus a pegá-la, mas recuei.
Nunca vira um ser humano olhar-me com uma expressão tão tensa. Sua atitude realmente era de espreita. Mercant usara a expressão correta.
O setor adicional de meu cérebro lembrou as palavras do chefe da Segurança. Rhodan acreditava que dispunha de forças supernormais.
Espero por uma boa cooperação — disse e peguei sua mão.
Assustei-me. Tive a impressão de segurar uma esponja. Se apertasse aquela mão com mais força, provavelmente haveria um acidente.
Vi uma boca contorcida. Rhodan apertava minha mão com toda força, mas mal senti a pressão. Apesar disso expeli fortemente o ar, abri as pernas como um lutador muito cansado e avancei o ombro direito.
Afinal, conhecia as velhas provas de força dos humanos e sabia como comportar-me durante as mesmas.
Meu rosto ficou impassível, mas fui dobrando lentamente os joelhos. Depois de algum tempo soltou minha mão.
Sua risada deixou-me enojado. Logo disse de mim para mim que isso era uma conseqüência da doença, e que não me ficava bem sentir nojo diante disso. Tentei esboçar um sorriso, mas o mesmo foi mal interpretado.
Se quisesse poderia tê-lo esmagado, arcônida — disse em tom presunçoso. — Devo confessar que você é forte. Ainda se lembra do duelo que travamos no Museu de Vênus? Nunca me esqueci. Lembro-me de todos os detalhes. Até parece que foi ontem. Você pretendia humilhar-me.
Você pretendia matar-me, amigo. Você tinha uma arma moderna e eu só podia contar com uma velha espada.
Você é um tagarela e um covarde! Atirei fora minha arma de radiações assim que o vi avançar de espada na mão. Peguei outra e travamos uma luta honesta. Hoje você não seria mais capaz de derrotar-me.
Meu cérebro adicional representava uma memória fotográfica. No curso dos impulsos de memória, que se apresentavam diante dos olhos da minha mente sob a forma de um filme concentrado, meu rosto perdeu toda expressão.
De repente Mercant entesou o corpo. Vi-o pelo canto dos olhos. Quando comecei a falar, não reconheci minha própria voz: estava submetida à influência do meu cérebro adicional, que interviera nos meus atos conscientes.
Tem certeza de que se lembra de tudo?
Não costumo esquecer-me de coisas como esta. Na oportunidade fizemos as pazes. Descobri sua verdadeira origem. Será que você quer dizer que eu teria atirado em você, que não dispunha de uma arma moderna?
Na verdade, você não atirou. Usei alguns truques psicológicos para levá-lo a não usar sua arma.
Foi isso mesmo. Você arrebentou meu tornozelo com a espada. Esqueça, arcônida. Hoje você não teria a menor chance.
Virou-se pesadamente e caminhou em direção aos controles centrais. Então esta era a recepção.
Mercant fitou-me prolongadamente. Acenei com a cabeça e olhei para Gucky. O rato-castor estava encolhido numa grande poltrona.
Será que não tinha percebido nada? Tive a impressão de que um incêndio estava lavrando no interior de meu crânio. Meu cérebro adicional esforçava-se para dissecar cada palavra que Rhodan acabara de proferir. Era um processo desagradável, cujo fim teria de esperar. Além disso, o setor cerebral ativado há vários milênios deu sinal de vida. Anunciou em palavras lacônicas:
Há algumas contradições. Rhodan é um homem esportivo. Deve saber fazer a distinção entre uma espada comum e um gládio longo dos viquingues, afiado de ambos os lados. Além disso, você estava armado. Tinha um radiador de impulsos e uma arma de choque.
Mercant aproximou-se.
Não se sente bem, sir? — perguntou com um sorriso tão inocente que até dava para desconfiar.
Tudo bem; obrigado — respondi.
Lá adiante Rhodan começou a berrar suas ordens.
Discutiremos a ação daqui a cinco minutos — gritou, dirigindo-se a mim. — Sua frota robotizada formará o anel defensivo externo. Comandarei pessoalmente o ataque. Major Claudrin!
O homem nascido em Epsal adiantou-se apressadamente.
Faça o favor de ficar em posição de sentido — berrou Rhodan. — Até parece que não sabe com quem está falando.
O major obedeceu. Quanto a mim, ainda permanecia calado.
Rhodan não afirmara que se lembrava de todos os detalhes? Se era assim, por que falara numa espada, não no gládio que tinha quase um metro de comprimento?
E por que aquele homem, que costumava raciocinar logicamente, dissera que eu lhe havia quebrado o tornozelo com uma espada? Com uma espada leve? Qual seria a força de impacto da lâmina fina em cada centímetro quadrado do corpo? Será que num golpe forte seria capaz de arrebentar a junta do pé?
Impossível. Na pior das hipóteses os tecidos e os tendões seriam cortados — informou meu cérebro adicional.
Na oportunidade eu me abrigara atrás de um barco de viquingues, pois Rhodan me localizara por meio de um aparelho especial, apesar do campo de deflexão que estava usando. Também permanecera invisível até o momento em que resolvera desligar seu campo de deflexão.
Será que não se lembrava disso? Talvez não quisesse dizer. O que interessava era o fato de termos travado um duelo. As circunstâncias do mesmo foram tão estranhas que os antecedentes eram mais importantes que a luta propriamente dita.
O fato de Perry ter falado numa espada leve deixava-me bastante preocupado. Um Rhodan não cometeria um erro como este, mesmo que estivesse doente.
Observei-o e prestei muita atenção às ordens que dava. Sempre que não se deixava arrastar a uma manifestação de raiva ou uma repreensão ridícula falava com a clareza e a ponderação que conhecia nele. Não era possível que se tivesse transformado num débil mental. Sabia manipular muito bem os controles complicados da nave linear.
Emiti uma ordem para desligar meu cérebro adicional. Seria absurdo refletir sobre coisas passadas no momento em que nos preparávamos para entrar em ação.
Afinal, Perry não possuía a minha memória. Além disso, sentia-se tão irritado que, se eu chamasse a atenção para seu erro, provavelmente interpretaria isso como uma ofensa.
Encontrava-se num estágio em que não admitia que ninguém lhe ensinasse nada. Preferi não reabrir o caso. Mas fiquei perguntando a mim mesmo por que mencionara nossa luta no Museu de Vênus logo após nosso reencontro. Havia coisas mais importantes para discutir.
Dali a dez minutos entrei na sala dos oficiais da Ironduke. Os comandantes das unidades terranas ouviam o que se falava. Cada um sabia perfeitamente qual era o lugar que lhe cabia na formação.
Utilizei meu aparelho de comando para transmitir algumas instruções ao computador-regente, que realizou a programação das dez mil unidades.
Duas horas após minha chegada à Ironduke, a frota terrana começou a deslocar-se.
Gastamos cerca de quinze minutos de tempo relativista para alcançar a velocidade da luz. Dali a alguns segundos ocorreu a transição simultânea da maior quantidade de massa a que já assistira. Teve-se o cuidado de desligar os rastreadores estruturais. Praticamente no mesmo instante oito mil espaçonaves terranas penetraram no hiperespaço.
Segundo o plano, as mesmas deveriam aparecer de surpresa no interior do sistema formado pelo sol vermelho geminado de Aptut. Ninguém deveria ter uma chance de escapar.
A Ironduke prosseguiu em vôo linear direto, protegida pelo campo de absorção kalupiano. Desenvolvendo milhões de vezes a velocidade da luz, corríamos em direção ao sol geminado bem perceptível, que se destacava em meio às demais estrelas.
Não houve nenhum choque de transição, e não sentimos qualquer mal-estar físico. Preferi não informar Rhodan de que o regente estava trabalhando na produção de um mecanismo propulsor do mesmo tipo. Para isso dispunha de todos os dados relativos ao modelo acônida. Não demoraria, e eu também disporia dos novos propulsores.
Levamos apenas alguns minutos para vencer a distância reduzida de quatrocentos e dezoito anos-luz.
Os cosmonautas do couraçado não tiveram de fazer, antes do vôo, os complicados cálculos do salto, pois realizaram o vôo ótico em direção ao objetivo. Apesar disso chegamos ao sistema de Aptut juntamente com as naves de salto.
Isso constituía mais uma prova da superioridade infinita do mecanismo de propulsão linear. As espaçonaves comuns ainda não poderiam estar no lugar, se os comandantes não tivessem apurado antecipadamente os dados necessários ao salto.
Sabia que o setor espacial que cercava o sol geminado vermelho sofreria um forte abalo. As ondas de choque hipergravitacionais afetariam perigosamente os campos de gravitação dos planetas externos.
Na verdade, dali a pouco chegaram as primeiras informações dos observatórios astronômicos. Os três planetas exteriores haviam sido arrancados das órbitas.
Tratava-se de planetas não habitados, cobertos de gelo. Não havíamos causado qualquer dano apreciável.
Observei Rhodan e cheguei à conclusão de que, mesmo que os mundos exteriores fossem habitados, ele não teria hesitado em saltar diretamente para o centro do sistema.
Os sentimentos amistosos para com ele foram-se extinguindo, por mais que tentasse evitá-lo. Minha inteligência procurava convencer-me constantemente de que um homem desesperado não poderia agir de outra forma.
Acontece que, quando pensava assim, o incorruptível setor lógico de minha mente intervinha imediatamente. Avisava-me que um homem de caráter nobre como Perry Rhodan nunca causaria a morte de milhões ou até bilhões de seres vivos tão-somente para ganhar um pouco de tempo.
Assim que cessou o rugido causado pela frota que mergulhava no universo einsteiniano, voamos em formação de estrela em direção ao planeta que nossos rastreadores de matéria não demoraram a localizar.
O primeiro sinal da presença de seres inteligentes foi uma espaçonave estacionada entre o sexto e o sétimo planeta. Ao que parecia, sofrerá avarias graves em virtude da onda de hiperchoque, pois seus propulsores não estavam funcionando mais.
Nunca duvidara dos cálculos do regente, mas ao que parecia os terranos não acreditaram muito nos mesmos.
No momento em que o sistema de localização energética reagiu violentamente, as sereias uivaram em todos os setores do couraçado. A causa daquele barulho só poderia ser uma.
Na verdade, o sexto planeta logo apareceu nas telas dos rastreadores de relevo. Aquele mundo estava envolto num campo energético cuja potência deveria ser elevadíssima. Não localizamos nenhuma usina energética espacial, motivo por que era impossível que nos encontrássemos diante de um mundo acônida.
Dessa forma só poderia tratar-se dos antis. Nenhum outro povo da Galáxia estaria em condições de criar um campo energético desse tamanho sem que dispusesse de instalações gigantescas.
As ordens de Rhodan começaram a atropelar-se. Prestei muita atenção, mas não constatei nenhum erro. Seu planejamento era rápido e preciso; não havia a menor incoerência. Não dei maior atenção ao tom áspero que usava, nem às ofensas que proferia até mesmo contra os oficiais mais graduados.
Jefe Claudrin estava prestes a perder o autocontrole. Bell interveio. Procurou desviar a atenção de Rhodan do comandante da Ironduke.
O Major Hunt Krefenbac, imediato da nave, olhou-me como quem implora auxílio. Segundo contara Mercant, aquele oficial já sofrerá pesadas humilhações de Rhodan.
Fui para a frente. Perry acabara de levantar-se da poltrona regulável, especialmente construída para ele.
Assim que me viu, virou-se num movimento pesado. Seus olhos pareciam chispar. Naquele momento não tinham nada de humano.
O planeta é este? É Trakarat? — gritou.
Como não respondesse logo, arrastou os pés em minha direção e segurou os meus ombros.
Responda logo, seu palerma — gritou em tom ainda mais furioso. — Quero saber se aquilo é o planeta Trakarat.
Enfiei meus braços entre os dele e abri-os. Suas mãos desceram dos meus ombros. Não tive de fazer muita força.
Devagar, bárbaro. Chame-me de Atlan ou amigo, mas não de palerma.
De repente um silêncio profundo passou a reinar na sala de comando. O único ruído era o rugido produzido pelos propulsores que desaceleravam a nave. Os homens prenderam a respiração. Viam diante de si a primeira prova de forças.
Rhodan fitou-me com uma expressão rígida.
Para minha surpresa não disse uma única palavra. Apenas seu rosto modificou-se. Prossegui:
É bom que você compreenda que não se dá um tratamento destes a um aliado. Se quiser dispensar minha amizade, exijo que me dispense a cortesia diplomática. Se o Administrador do Império Solar não estiver disposto a dispensar-me a mesma, ver-me-ei obrigado a retirar minha frota.
Seu fanfarrão ridículo!
Essas palavras foram proferidas em tom gelado. Atingiram-me mais profundamente que seus gritos. O autodomínio com que me surpreendeu não parecia indicar qualquer alteração mórbida de sua personalidade. Realmente pretendera ofender-me.
Seria bom que você moderasse seu vocabulário.
De repente Rhodan riu. Vi um par de olhos traiçoeiros à minha frente. E as palavras que proferiu não foram bonitas.
Você tem toda liberdade de abandonar o sistema. Encontrei Trakarat. Você já fez o que devia, arcônida.
Não perdi as estribeiras nem mostrei quão profundamente ele me atingira. Preferi recorrer a uma campanha psicológica dirigida contra Perry Rhodan. Já antes da partida o setor lógico de minha mente recomendara a mesma.
Naquele momento os dois anéis do sexto planeta tornaram-se perceptíveis. Surgiram na teleótica eletrônica, que funcionava com um fator de ampliação de trinta mil.
Rhodan olhou para as telas. Uma expressão de triunfo surgiu em seu rosto.
Pode retirar-se — repetiu.
Muito obrigado; prefiro ficar — disse com um gesto de cortesia. — Obtive certas informações. É bem possível que seu filho desnaturado se encontre no mundo central dos antis. Afinal, você teve que deixá-lo com eles por ocasião da operação que realizou em Okul, não é mesmo? Estou interessado em saber o que aconteceu com Thomas Cardif nestes últimos meses. E desta vez eu o encontrarei, meu caro.
A reação provocada por estas palavras foi assustadora. Soltando gritos desconexos, Rhodan avançou em minha direção e mandou que os oficiais que se encontravam mais próximos me abatessem a tiros.
Coloquei a mão espalmada sobre seu peito e afastei-o. Apenas tive de mover a massa de seu corpo. Seus músculos não foram capazes de oferecer resistência.
Prendam-no! Prendam-no imediatamente! — berrou.
Ninguém fez o menor movimento. Depois de algum tempo Allan D. Mercant adiantou-se.
Sir, quero ponderar que o imperador goza de imunidades políticas. Não temos o direito de prender Sua Majestade.
Os gritos de Rhodan cessaram. De repente seus olhos adquiriram uma expressão lúcida. Estava refletindo. Quanto a mim, sabia perfeitamente que a menção do nome de Thomas Cardif o atingira profundamente.
Você não conseguirá pegar Cardif — disse com uma calma surpreendente. — Isso é comigo.
Seja o que você quiser — disse, cedendo às suas palavras. — De qualquer maneira, deverá ser preso e interrogado pelos mutantes. Sei que não produziu apenas o entorpecente denominado liquitivo. Provavelmente também é culpado da sua doença. Quem dirigiu o interrogatório psicológico realizado quando você era prisioneiro dos antis? Foi Cardif?
Isso é comigo — voltou a dizer. — Cuide dos seus problemas.
Passando junto de mim, dirigiu-se à central de localização. Mercant suspirou de forma bem audível.
Sir, o senhor não deveria irritá-lo tanto.
Será mesmo? Tenho a impressão de que de repente passou a comportar-se muito bem. Não lhe parece que às vezes o senhor lhe dá muita liberdade, marechal solar?
Mercant fitou-me com uma expressão pensativa e virou-se abruptamente.
Talvez haja algo de verdade nisso — disse Bell. — Até agora sempre recuamos.
Não pude prosseguir nas minhas indagações. Os primeiros couraçados de minha frota robotizada estavam penetrando no sistema do sol geminado.
No momento em que as unidades terranas já se imobilizavam e começavam a cercar o planeta dos anéis, minhas naves avançaram pelo espaço interestelar e ocuparam as posições que lhes cabiam na operação de bloqueio.
Um couraçado da classe Zuku atacou um veículo espacial desconhecido e reduziu-o à imobilidade.
Posteriormente constatamos que se tratava de uma nave cargueira dos saltadores.
Preferi não informar Rhodan. Na minha mente surgiu uma suspeita da qual não consegui livrar-me.
Esperei duas horas, até que o cerco do planeta Trakarat fosse completo.
Na superfície do planeta tudo permanecia imóvel. O campo energético compacto cercava esse grande e belo mundo.
Os dois anéis eram formados por micromatéria cósmica, mantida no local em virtude da gravitação do planeta. Circulavam em torno de Trakarat em sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. O mundo central dos antis era ainda mais belo que o planeta Saturno.
Dediquei apenas um interesse secundário aos resultados das análises que nos eram fornecidos em rápida seqüência, e que diziam respeito à densidade, à massa, à composição da atmosfera, à velocidade da rotação e coisas semelhantes.
Perry Rhodan transformara-se na figura central, o que era bastante estranho numa situação que deveria exigir todos os esforços mentais e toda a capacidade de planejamento.
Resolvi retirar-me por alguns minutos, mas naquele momento ouvi uma forte discussão na sala de rádio.
Corri para lá. Rhodan arrancara o oficial de plantão da poltrona. Quando entrei, estava gritando com ele que nem um louco e ameaçava-o com a mortífera arma de radiações.
O chefe da equipe de rádio arriscara-se ao chamar os antis e pedir-lhes que capitulassem, sem que tivesse recebido ordens expressas para isso. Bell e Mercant foram obrigados a tomar uma atitude enérgica, pois, do contrário, aquele homem tresloucado ainda poderia ter atirado.
O estado de ânimo dos tripulantes estava tenso. Nem mesmo um soldado disciplinado seria capaz de suportar por muito tempo um tratamento como este. Eu conhecia os terranos e sabia que eram orgulhosos. Haveria de chegar o dia em que Rhodan encontraria um opositor, e então seria a catástrofe.
Assim que se acalmou um pouco, gritou para o oficial cujo rosto estava muito pálido:
Ninguém vai entrar em contato com os antis. Entendido?
Sim, senhor.
Pois não se esqueça disso. Transmita uma ordem dirigida a todos os comandantes. O texto é o seguinte: Proíbe-se, sob pena de morte, entrar em contato com o mundo dos antis ou captar mensagens vindas de lá. Os aparelhos ficarão ligados exclusivamente na faixa de ondas da Frota. Todas as mensagens devem ser irradiadas pelo canal trinta e oito e sob o código condensado Destination. Vamos; transmita logo a mensagem!
Bell fitou-me, perplexo. Mercant pigarreou. Quanto a mim, voltei a refletir.
Rhodan virou-se e caminhou em direção à porta. Assim que me viu, parou. Seu rosto estava desfigurado pela raiva doentia. Ou haveria mais alguma coisa que, no momento, não conseguia interpretar?
Meu rosto devia ter o aspecto de uma máscara.
Por que me olha desse jeito? — disse com a voz gutural. — Afaste-se do meu caminho, arcônida.
É bom não ir muito longe — disse, esticando as palavras. — Será que você está com medo de que seu filho possa estabelecer contato? Acha que seu coração poderá amolecer mais uma vez?
Saia do meu caminho!
Pôs a mão na arma. Recuei alguns passos. Rhodan passou por mim, respirando com dificuldade. Senti-me atingido por um olhar que colocou alerta o setor lógico de minha mente. Agora tinha de haver-me com os impulsos provenientes da parte ativada de meu cérebro.
É medo! Medo de quê? — disse meu sentido extra.
Bem que eu desconfiava. A decisão de proibir todo e qualquer contato fora um tanto apressada. Por que fazia tanta questão de impedir que qualquer outra pessoa estabelecesse ligação com os antis?
Desejava evitar uma eventual tentativa de chantagem? Será que receava não poder resistir às súplicas do filho desnaturado?
Aos poucos até eu comecei a acreditar que Thomas Cardif realmente poderia estar neste mundo. Por que não? Onde encontraria refúgio melhor que este?
Eu descobrira Trakarat por acaso. Provavelmente os antis achavam que seria impossível localizar seu planeta central. Conhecíamos as manobras que haviam realizado para ocultar a posição real de seu planeta.
Acabei não indo ao meu camarote. Desde que deixara de pensar e agir como amigo, minha vida emocional tornara-se menos confusa. Comecei a observar coisas que os homens que cercavam Rhodan não conseguiam ver.
Lembrei-me da história da espada leve. Tomei uma decisão.
Rhodan levou uma hora para acalmar-se por completo. Durante esse tempo fiz tudo para convencê-lo da minha lealdade.
Transmiti em voz alta as ordens destinadas ao regente. Ele as ouviu e acenou com a cabeça, numa atitude que quase chegava a ser condescendente. O cerco do planeta acabara de ser completado. Rhodan preparava-se para abrir fogo.
Naquele instante estava na disposição que eu queria. Parecia mais equilibrado.
Aproximei-me numa atitude indiferente e fiz um sinal para Claudrin. O comandante compreendeu.
Resmungou uma desculpa e saiu de seu assento. Ocupei seu posto. O corpo gigantesco de Rhodan estava tão perto que poderia tocar nele. Rhodan fitou-me com uma expressão de insegurança.
Acho que deveríamos atacar logo — falei sem o menor intróito. — Sou de opinião que o processo de divisão celular será mais fácil de deter se agirmos imediatamente. Por enquanto manterei minhas naves na retaguarda. De acordo?
De acordo — respondeu numa calma surpreendente, com a voz normal.
Quais são os detalhes de seu plano, Perry?
Vamos remover os campos defensivos, utilizar armamento especial e enviar ao planeta as tropas de desembarque. Preciso pegar essa gente viva, e é bom que ponha as mãos em alguns cientistas.
Acho que você deveria formular um ultimato. Diga-lhes que se não lhe prestarem auxílio imediatamente, haverá uma destruição total. Houve uma declaração de guerra?
Naturalmente. Pensarei em sua sugestão. Um anti morto não me serve de nada.
Cheguei à conclusão de que já dissera bastante. De qualquer maneira, aquilo não chegava a ser um plano bem elaborado. Provavelmente tinha em mente certas coisas que preferia guardar para si.
Mercant me cochichou, por exemplo, que Rhodan por certo pretendia participar pessoalmente da manobra de desembarque.
Isso seria compreensível. Mas havia outra coisa que aguçava minha curiosidade.
Até o momento de minha chegada à Ironduke, era proibido pronunciar o nome de Thomas Cardif. Eu o mencionara várias vezes, quebrando um tabu.
Lembrei-me disso. Esperei mais alguns segundos para que Perry se acalmasse de vez e comecei a cantarolar:
A água é molhada, é molhada. Como é gostosa de beber e sorver. A água é fresca, fresco é o molhado. Nado num barril inteiro, pois hoje a água está molhada...
Muito curioso, aguardei sua reação. E a mesma não foi a que eu esperava.
Fitou-me com uma expressão em que não havia nada de raiva ou de contrariedade. Chegou a soltar uma gargalhada bem-humorada.
Pelo grande Júpiter, quem fez essa poesia tola?
Sorri com a expressão zombeteira.
Acabo de me lembrar do texto. Dizem que foi feito por um astronauta arcônida quando estava morrendo de sede num deserto. Logo que foi salvo, cantou esta canção para os outros. Desde então anda em voga na frota arcônida. Isso faz muito tempo, amigo.
Rhodan voltou a rir e levantou-se.
As ordens serão dadas daqui a trinta minutos — disse em tom enérgico. — Espero que os senhores oficiais compareçam com uma pontualidade absoluta em meu camarote.
Saiu cambaleando.
Atenção! — gritou Jefe Claudrin.
Os homens levantaram-se de um salto e ficaram em posição de sentido. Aquele homem, que governava o Império Solar, passara a dar importância a ninharias desse tipo.
As escotilhas das eclusas de segurança abriram-se à sua frente. Os robôs apresentaram as armas de radiações. Assim que desapareceu, também me levantei.
Bell, o senhor poderia ter a gentileza de comparecer ao meu camarote por um instante? Quero falar-lhe a sós.
Reginald Bell fitou-me com uma expressão de curiosidade.
É importante?
Talvez. Já vou andando. Siga-me sem que ninguém o perceba.
Mais uma vez as escotilhas de aço se abriram e os robôs voltaram a apresentar armas.
Assim que cheguei ao corredor circular largo que passava junto à sala de comando minha mente descontraiu-se. Não se via ninguém, e assim podia deixar cair a máscara.
Gemi e encostei-me à parede. Meu coração batia fortemente, provocando dor. Senti-me apavorado, pois acabara de dar-me conta do que acontecera.
Em toda a Galáxia só havia duas criaturas que conheciam o verso ridículo e idiota que eu acabara de recitar.
Quando ajustei as rimas, Rhodan e eu éramos adversários, e ninguém mais poderia ter-nos visto.
Totalmente abandonados, estávamos esperando auxílio no deserto chamado Porta do Inferno, e ameaçávamos um ao outro de arma na mão. A água tornara-se muito escassa. Por pouco não morremos de sede em nossos trajes espaciais.
Por uma razão puramente psicológica inventei o verso da água, a fim de fazer com que Rhodan, cujas forças também estavam chegando ao fim, saísse do seu esconderijo.
Ele sempre se recordava da rima psicológica, que quase o deixou louco. Só pensávamos em água. Mais tarde conversamos sobre o duelo travado no deserto Porta do Inferno, que, para nós, se transformara num símbolo perpétuo, pois representara o início de nossa amizade.
E agora não guardava a menor lembrança da canção. Num momento de calma e lucidez perguntara com uma risada: “Quem fez essa poesia tola?”
Procurei dominar minha excitação e realizei um auto-exame. Será que eu desenvolvera um raciocínio lógico? Não havia nenhum ponto falho? Será que Rhodan ainda deveria lembrar-se desses versos, agora que estava acometido pela doença? Estaria realmente bem lúcido quando formulou a pergunta?
Estava lúcido, sim — disse o setor lógico de minha mente. — Não se esqueça de que confundiu o gládio de viquingue de lâmina dupla com uma espada leve. Será que isso também foi coincidência?
Dois homens do serviço de proteção contra vazamentos aproximaram-se. Quando me viram cumprimentaram-me à maneira antiga, que tanto prezava.
Os terranos nunca se haviam mostrado submissos, embora soubessem que eu era o imperador. Demonstravam respeito, mas nunca praticavam a bajulação repugnante que tinha de suportar todos os dias nos mundos de Árcon.
Não cansem as pernas, rapazes — disse. — Por aqui há fitas transportadoras.
Um deles olhou-me com um sorriso matreiro.
Sir, saltamos de cima da fita assim que o vimos. Recebemos ordem para não usá-la.
Soltei uma risada de alívio. Quando me retirei, ficaram em posição de sentido. Sabia que eram meus amigos, e isso me fazia bem.
Meu camarote ficava um andar abaixo do lugar onde me encontrava. Bell deveria aparecer dentro de alguns segundos.

* * *

...quer dizer que só acompanhou a retirada de Cardif, que estava inconsciente, na tela do submarino?
Bell acenou com a cabeça. Seu rosto estava pálido e demonstrava forte tensão.
Não teve oportunidade de ver pai e filho ao mesmo tempo?
Onde quer chegar, Atlan? Respondi apenas com um gesto.
Quem foi a primeira pessoa que entrou na sala de interrogatórios? Foi o senhor?
Não. Foi o Major Rengall, oficial do Serviço Secreto do comando submarino.
E o mesmo encontrou Rhodan em estado de inconsciência?
Sim; naturalmente. A ligação de rádio já havia sido interrompida antes. Os antis tinham decolado com a nave dos saltadores. Estava tudo perfeitamente claro.
O Major Rengall está por aqui?
Não.
O que aconteceu depois disso?
O comando levou Rhodan ao submarino, onde eu o esperava. Voltamos à superfície e a Ironduke pousou. Antes disso a base submarina dos antis foi pelos ares. Atlan, diga logo qual é a finalidade dessas perguntas, senão...
Interrompeu-se. Fitou-me como quem não compreende nada.
Quando já me encontrava na porta, pedi:
Bell, espere-me na sala de comando.
Aonde vai?
Quero fazer algumas perguntas a Perry.
O senhor deve estar louco. Ele lhe dará um tiro.
Não atirará em mim coisa alguma, da mesma forma que não me matou com a espada leve no Museu de Vênus. Vá andando, amigo, e deixe tudo por minha conta.
Não se retirou. Dei de ombros e saí do camarote. Corri em direção ao elevador, saltei para dentro do campo antigravitacional e empurrei-me com o pé. Saí no pavimento correspondente à protuberância equatorial da nave. Era lá que ficavam os alojamentos da oficialidade. E também era lá que fora instalado o camarote de Rhodan. Conforme diziam, era lindo.
E esse luxo não combinava com a personalidade de Perry Rhodan, mesmo que ele se sentisse doente. Aquele homem nunca dera muito valor às aparências.
Aliás, não havia naquele homem mais nada que combinasse com o Perry Rhodan que eu conhecia e estimava.
Dois robôs de guerra estavam postados à frente da escotilha blindada. Haviam ativado seus campos defensivos individuais, e os bocais de suas armas energéticas emitiam um brilho avermelhado. As armas de radiações estavam carregadas e engatilhadas.
Parei e hesitei um pouco. Naquele momento, a Ironduke sofreu um forte abalo. Perdi o apoio dos pés e caí no chão. Fiquei no chão até que as baterias do costado começassem a trovejar de maneira uniforme
O couraçado acabara de abrir fogo. Provavelmente, a essa hora, oito mil espaçonaves terranas estariam usando todas as peças. Rhodan devia ter dado ordem de abrir fogo depois que eu saíra do meu camarote.
Os aparelhos de absorção do ritmo dos disparos neutralizaram os abalos. Apesar disso ainda houve alguns solavancos em sentido contrário aos disparos.
Caminhei cautelosamente na direção dos robôs, que imediatamente apontaram as suas armas para mim. Não disseram uma única palavra. E nem era necessário que dissessem. Gritei para eles:
O Imperador Gonozal VIII, governante de Árcon e do Império Estelar Arcônida, pede uma entrevista com Perry Rhodan. Anunciem-me.
Aguarde.
O robô parecia irradiar uma mensagem de rádio. Dali a pouco, o rosto de Rhodan surgiu na tela de controle embutida na parede.
O que deseja?
Acho que encontrei um meio de deixar todos os antis inconscientes. Acho que seria conveniente se os antis caíssem em nosso poder nesse estado. Eu... ora, abra logo essa porta. Quer que arrebente os pulmões de tanto gritar? Desde quando não posso falar mais com você?
Rhodan hesitou um pouco. Finalmente disse:
Entre. Disponho de três minutos.
As máquinas de guerra deixaram livre a passagem. As escotilhas abriram-se à minha frente. Não dispunha de qualquer prova que pudesse confirmar aquilo que iria acontecer. Se minhas suspeitas não se confirmassem, o amigo se transformaria de vez num inimigo.


Não esperara encontrar um ambiente tão suntuoso. Rhodan estava sentado numa luxuosa poltrona pneumática. Abrira o uniforme sobre o peito. Vi o ativador celular incrustado no tecido de seu corpo.
Rhodan ergueu-se com um grande esforço. Finalmente vi-o à minha frente. Parecia uma montanha de espuma de borracha.
Não perdi mais tempo. Em seus olhos amarelos havia uma expressão de desconfiança. Ao que parecia já estava arrependido porque me deixara entrar. Mas por enquanto conservava o autocontrole, por enquanto continuava a representar. Ele não sabia até que ponto haviam evoluído minhas idéias.
Lá fora os canhões da Ironduke continuavam a disparar. A situação tinha algo de irreal.
Então?
Fitei-o com uma expressão autoritária. Pus a mão na arma.
Seu treinamento hipnótico foi um tanto deficiente, meu filho — principiei num tom que quase chegava a ser cordial. — Parece que se esqueceram de transferir os detalhes aparentemente sem importância da memória de Rhodan para a sua. A esta hora já compreendo por que sempre evitou defrontar-se comigo. Sente-se, rapaz. Tenho alguns milhares de anos a mais que você. Além disso, seu pai é meu melhor amigo. Sente-se logo!
Fitou-me. Por enquanto ainda não dispunha da prova final, embora sob o ponto de vista lógico tivesse certeza absoluta.
Notei o medo que começava a tomar conta dele. De repente deixou de ser o chefe poderoso, que obrigava os oficiais mais graduados a lhe prestarem exageradas homenagens.
Sua boca estava escancarada. Por enquanto não disse nada.
Vamos, Thomas Cardif. Sente-se! Você cometeu alguns erros fatais, que só eu pude perceber. O verso que recitei há pouco é o elo mais importante entre a memória de seu pai e a minha. E não lutamos com uma espada leve, mas com um gládio de viquingue muito largo e pesado. Ainda existem outros detalhes que você nem poderia conhecer. Quero que você mesmo me diga como conseguiu enganar a Humanidade. E ainda quero saber onde poderei encontrar Perry Rhodan. Não faça isso, Cardif!
Pôs a mão na arma. Seu gesto foi lento demais. Tive intenção de puxar minha arma, mas resolvi dar um salto para frente.
Aquele homem, que provavelmente chegara mesmo a acreditar que seu tamanho lhe dava a força de um gigante, procurou defender-se.
O primeiro golpe fê-lo cambalear com os olhos vidrados. Torci seu braço sobre as costas, arranquei a arma de impulsos do coldre aberto e desferi-lhe outro golpe, que antes parecia uma bofetada.
Cardif soltava gritos horríveis. Seus olhos só exprimiam medo. Naquele momento convenci-me de vez que o homem que se encontrava à minha frente não era Perry Rhodan, mas o filho que o traíra. Thomas Cardif enganara toda a Galáxia, e ninguém percebera nada.
Continuei a esbofeteá-lo, e Cardif começou a implorar minha compaixão.
Naquele momento aconteceu uma coisa com a qual não contara. A escotilha abriu-se. Vi um dos robôs de guerra e o cano tosco de uma arma.
Espere aí; não atire — gritei, mas era tarde. Se me encontrasse diante de um homem, ainda haveria tempo para explicações, mas isso não acontecia com uma máquina de guerra especializada, cuja tarefa consistia unicamente em proteger seu senhor.
Vi um raio fulgurante, que penetrou no meu corpo na altura do estômago.
Senti uma dor lancinante. Caí ao chão, contorcendo o corpo durante a queda.
Conseguia pensar, ver e ouvir perfeitamente. Mas só via aquilo que se passava dentro do ângulo de visão dos olhos arregalados.
O falso Rhodan logo voltou a controlar-se. Fez o papel do homem atacado de surpresa e totalmente exausto.
No momento em que os primeiros soldados entraram no camarote, com Reginald Bell à frente, não pude dizer uma única palavra.
Cardif parecia furioso. Com toda certeza, me teria matado imediatamente, se não tivessem aparecido dois robôs-médicos que, ignorando seus protestos, levantaram-no suavemente e o retiraram do camarote.
Ainda ouvi seus gritos quando não o via mais. No meu íntimo senti certo alívio. Fora paralisado por uma arma de choque. Sabia que a paralisia duraria cerca de duas horas. Muita coisa poderia acontecer nesse tempo. Alguém virou meu corpo, deitando-me de costas. O rosto de Bell surgiu no meu campo de visão. Bem ao seu lado, vi Allan D. Mercant.
Foi atingido por uma arma de choque. Não adianta fazer perguntas — disse Mercant com o autodomínio que lhe era peculiar. — Atlan, sei que o senhor me ouve. Na situação em que nos encontramos não temos outra alternativa senão protegê-lo da cólera de Rhodan até que possa falar de novo. Depois disso tudo se esclarecerá.
O que houve? Faça um esforço... O que houve? — perguntou Bell numa voz que quase chegava a ser chorosa. — Atlan, diga o que aconteceu por aqui. O senhor o derrubou a pancadas? O rosto dele está ainda mais inchado que de costume.
Senti-me desesperado, mas por mais que me esforçasse não podia dar nenhuma informação.
Deixe para lá — disse Mercant com a voz fria. — Este assunto é da alçada da Segurança. Levem-no para a sala de comando. Lá poderemos mantê-lo continuamente sob observação. Tome todas as providências para que Rhodan só saia da enfermaria depois que tivermos ouvido as explicações que Atlan nos fornecerá. No momento não podemos fazer outra coisa.
Que sabedoria possuía esse Mercant! Parecia imaginar, ou até sabia, o que houvera entre mim e o falso Rhodan.
Dois robôs levantaram-me. Levaram-me à sala de comando a passo acelerado, e lá me colocaram numa poltrona ajustável.
Esperei. Não tive outra alternativa.
Uma hora e quarenta e seis minutos haviam passado depois do acidente.
Apenas podia avaliar a intensidade com que fora disparada a arma, enquanto conhecia perfeitamente o tempo decorrido. Fora colocado de maneira a poder ver o relógio de bordo, que ficava acima do painel de controle central.
As peças de artilharia da Ironduke continuavam a disparar. Há quinze minutos fora divulgada uma informação importante. Os antis que viviam em Trakarat haviam desativado o campo defensivo que envolvia todo o planeta.
Ao que parecia, apesar de suas tremendas energias psíquicas já não eram capazes de dar o devido reforço à estrutura energética do campo, por meio de sua carga energética mental.
Também se descobrira que em Trakarat só existia uma única cidade. Fora dela não se via o menor sinal de um núcleo populacional. E essa cidade estava coberta por um campo energético tão concentrado que dificilmente seria possível rompê-lo com as armas de radiações.
Oito mil espaçonaves atacavam aos grupos, mas o campo energético concentrado de cerca de dez quilômetros de diâmetro continuava a resistir. Era inacreditável!
O aumento da atividade psíquica dos antis representava uma desvantagem para mim...
Pouco depois do momento em que fora paralisado, Gucky e John Marshall apareceram à minha frente. Os telepatas mais competentes do Exército de Mutantes tentaram sondar minha mente consciente.
Levantei imediatamente o bloqueio monolítico e abri meu cérebro o mais que podia. Cheguei a acreditar que poderia transmitir o que sabia a respeito de Thomas Cardif por via telepática, mas naquele instante verificou-se a readaptação do campo energético dos antis.
O envolvimento parapsicológico das faculdades dos mutantes logo se tornou perceptível. Eu mesmo não era telepata, motivo por que não poderia prestar nenhuma ajuda. Gucky e Marshall não conseguiram absorver meus pensamentos. Das palestras que travaram deduzi que perceberam alguns impulsos, mas não foram suficientes para que se realizasse uma transmissão telepática aproveitável.
Era assim que a atividade febril dos sacerdotes de Baalol, estimulada pelo instinto de autoconservação, representava para mim uma tremenda desvantagem.
Gucky estava sentado no meu leito. Vez por outra passava a mão pela minha testa. Fitava meus olhos paralisados com uma expressão tão triste que quase cheguei a desanimar.
Repetia constantemente a mesma pergunta. Queria saber o que havia acontecido. Bell e Mercant não podiam dedicar-se a mim. O representante de Rhodan assumira o comando da frota terrana.
Há três minutos Bell dera ordem para que o campo defensivo impenetrável dos antis fosse bombardeado com armas energéticas e armas convencionais ao mesmo tempo.
Alguns dos supercouraçados da Frota Solar haviam sido equipados com lança-foguetes antiquados. Sabíamos que as armas de radiações não eram capazes de romper a carga mental do campo dos antis.
No entanto, desde que se resolvesse atacar o campo defensivo com projéteis antimagnéticos de grande força de impacto, a coisa era outra...
Os antis também haviam acumulado experiências no mesmo setor. Sabiam alterar a atuação mental e o estado normal a intervalos tão rápidos que praticamente não havia nenhuma possibilidade de calcular o momento exato em que deveria ocorrer o impacto de um dos dois tipos de armas.
Apesar disso Bell resolvera recorrer ao bombardeio simultâneo. Os computadores positrônicos estavam trabalhando para constatar a rapidez com que era feita a alternância dos campos. Concluíram que o intervalo era de um milésimo de segundo.
Durante esse período de estabilização deveria ocorrer o impacto simultâneo de vários disparos de radiações ou de alguns foguetes de grande alcance. Isso requeria uma sincronização das mais perfeitas. Dificilmente se conseguiria alcançá-la. Apesar disso o computador prosseguia nos seus cálculos.
Acompanhei atentamente as medidas tomadas por Bell. Os minutos foram passando. Procurei não pensar em Thomas Cardif, sobre cujas falsidades não poderia dar nenhuma informação.
Calculei febrilmente. Conforme a intensidade do disparo da arma de choque, poderia recuperar o controle do meu corpo dentro de duas horas. Sabia que na oportunidade sentiria dores. Achei que as mesmas representavam um fator desprezível.
O que realmente importava era saber se, antes disso, Cardif conseguiria chegar ao lugar em que me encontrava. Era nisto que consistia o perigo. Evidentemente ele desejava me matar.
Era bem verdade que Mercant ordenara que Thomas fosse detido na clínica de bordo até que eu voltasse ao normal, mas isso não representava nenhuma garantia para minha segurança. Em meio a estas reflexões perguntei-me: Como aquele criminoso conseguira enganar a Humanidade por tanto tempo?
Sem dúvida os culpados eram os colaboradores mais chegados de Rhodan, que provavelmente nunca haviam pensado na possibilidade de que o homem errado poderia ter assumido o poder. Havia muitos pontos que deveriam fazer com que desconfiassem de Cardif. Não precisariam de mais nada. Se tivessem apenas desconfiado, o farsante logo seria desmascarado.
Naquele momento, para Cardif, o mais importante era eliminar-me. No momento em que minhas reflexões chegaram a este ponto aconteceu exatamente aquilo que eu receara.
Não pude ver a escotilha que se abriu. Mas ouvi o tumulto que surgiu de repente. Em meio ao mesmo destacava-se perfeitamente a voz de Cardif.
Ordeno a instalação da corte marcial. O senhor enfrentará o tribunal de bordo! — gritou. — Saia do meu caminho. Mr. Mercant, a partir deste momento o senhor é destituído do comando.
Só conseguia ver pequena parte da sala de comando. Estava perdido! Se Cardif tivesse alguma habilidade deveria chegar ao meu leito. E eu estava imobilizado!
Bell procurou detê-lo. Não conseguiu. A disciplina a bordo das espaçonaves terranas era tão desenvolvida que os oficiais e tripulantes nem pensariam em recorrer à violência física para impedir qualquer ação do comandante supremo. Tal ato constituiria um motim, e este era punido com a morte. A Ironduke estava empenhada numa operação de guerra. Por isso seus tripulantes estavam sujeitos à corte marcial.
De qualquer maneira Mercant só poderia procurar vencer Cardif pela astúcia.
Você deveria ter-lhe aplicado um choque, seu idiota! — disse meu cérebro adicional.
As vozes aproximaram-se. A figura colossal apareceu no meu campo de visão.
Fiz um esforço desesperado para recuperar o domínio de meu corpo, mas os nervos paralisados não reagiram.
Sir, não se esqueça de quem é Atlan e respeite-o — disse Mercant, em tom exaltado. — Não tenha a menor dúvida de que seu ato causará uma guerra com o Império de Árcon. O computador-regente assumirá o poder assim que o imperador tenha sido colocado fora de ação. Sir, ouça-me...
Cardif afastou o homem franzino. Subitamente vi-o bem à minha frente. Seu rosto estava ainda mais desfigurado pela raiva e pelo medo.
Antes que Mercant pudesse esboçar outra invenção, o traidor agiu.
Pôs a mão direita na arma e arrancou-a do coldre com uma rapidez espantosa. Ouvi o grito dos presentes. Mas naquele momento aconteceu uma coisa na qual nunca teria acreditado.
Alguém atreveu-se a resistir ao administrador.
Foi Gucky!
O rato-castor continuava sentado no meu leito. A arma de radiações, que estava pronta para disparar, foi arrancada da mão de Cardif e atirada contra o teto de aço.
Nem pense nisso — disse o rato-castor em tom agressivo. — Se tentar de novo, eu não deixarei.
Cardif recuou, cambaleante. Seus olhos estavam muito arregalados.
Mais dois membros do Exército de Mutantes colocaram-se à minha frente. Eram Ivã Goratchim e Tama Yokida, o telecineta.
Acho que não lhe custa nada esperar uns dez minutos, sir, não é mesmo? — perguntou o japonês de estatura mediana, com a maior tranqüilidade deste mundo.
Isso é um motim declarado! — gritou Cardif, fora de si. — Claudrin, mate estes homens. Dê-me a minha arma. Não, dê-me a sua...
Naquele instante, o desespero conferiu-me forças de que nem desconfiara. A rigidez começou a ceder. Emiti um som rouco que logo despertou a atenção de Cardif.
Agiu imediatamente. Antes que os terranos compreendessem o que estava acontecendo, retirou-se da sala de comando. E teve a habilidade de dissimular a retirada por meio de uma série de ameaças.
O Major Claudrin chegou a soltar um suspiro de alívio depois que o administrador não se encontrava mais por perto.
Tivemos sorte — disse a cabeça esquerda de Goratchim, enquanto a direita soltava uma gargalhada.
Gucky passou a pata macia pela minha testa.
Ainda não conseguia fazer nenhum movimento. Os sons que saíam de minha boca deviam ser incompreensíveis. Esforçaram-se para ajudar-me, mas o tempo foi passando e ninguém fez nada contra Cardif.
Só dali a dez minutos comecei a sentir as terríveis dores. Meu sistema nervoso estava despertando. Comecei a gritar. Alguns homens seguraram-me. Finalmente consegui formular algumas palavras, que foram ouvidas por todos que se encontravam na sala de comando. Eu as proferira em voz muito alta.
Prendam-no. Depressa! É Thomas Cardif. Prendam-no. Mercant, não é Rhodan. Depressa...
O chefe da Segurança estremeceu como se um tiro o tivesse atingido de raspão.
Atlan, o senhor tem certeza? — berrou Bell, ao meu ouvido. Uma palidez cadavérica espalhara-se pelo seu rosto.
Sim, é Cardif. Prendam-no. Provas irrefutáveis. Prendam-no...
Finalmente livraram-se do espanto. De repente pareciam lembrar-se do comportamento anormal do pretenso Rhodan. Deram-se conta de que sua cegueira e veneração fizeram com que se deixassem iludir pelo filho, aceitando-o como se fosse o pai.
Nunca vi homens correrem tanto. Já conseguia mover as mãos e, dali a pouco, os braços e as pernas. As dores tornaram-se quase insuportáveis. Uma massa de chumbo derretido entremeada por milhares de agulhas parecia correr pelas minhas veias.
Não fiz o menor esforço para adotar um comportamento heróico, a fim de disssimular meu estado. Toda vez que soltava um grito conseguia proferir algumas palavras de esclarecimento.
Dali a mais alguns minutos consegui erguer o corpo. Naquele instante veio a informação que eu receara. O comando das eclusas chamou.
Um capitão anunciou que o chefe acabara de sair num jato espacial, a fim de entrar em negociações com os antis que se encontravam em Trakarat. Naquele momento, Rhodan saíra do tubo do hangar. Estava só.
Bell esbravejou, enquanto eu consegui controlar minhas emoções. Aquilo representava a prova definitiva. Não tive necessidade de convencer os que ainda tivessem suas dúvidas.
Pus-me de pé ao lado do leito. Minhas pernas tremiam. Mercant foi o primeiro que viu todos os aspectos da situação.
Silêncio! — gritou, e repetiu: — Silêncio!
Fitei-o com um sorriso irônico.
Vocês são mesmo uns heróis — balbuciei com a língua pesada. — Até parece que estão com a inteligência congelada.
Quais são suas ordens, sir? — perguntou Mercant, com a voz controlada. — Tem alguma idéia?
Naturalmente. Preparem um jato espacial. O piloto será o Tenente Brazo Alkher. Eu o conheço. Gucky, quer ir comigo? Em Trakarat suas faculdades parapsicológicas deverão ser praticamente inúteis, mas provavelmente você conseguirá fazer a localização goniométrica do ativador de Cardif. Ouviu as gargalhadas que soaram no momento em que Thomas se retirava da sala de comando?
Ouvi. O que foi?
Foi uma gargalhada diabólica, que soou no subconsciente. Saiu do ativador. O Ser fictício de Peregrino soube desde o início que este Rhodan não passa de um farsante. Já compreenderam o motivo do processo de cisão ou divisão celular explosiva? Cardif disse que era Perry Rhodan e pediu um ativador que prolonga a vida, do mesmo tipo que eu possuo. Aquilo fez mais uma das suas brincadeiras. Adaptou o aparelho às vibrações individuais de Rhodan, que diferem ligeiramente das de Cardif. Quando o patife percebeu, já era tarde. Quer ir comigo, Gucky?
Não me venha dizer que pretende ir a Trakarat — disse Mercant, em tom apavorado.
Irei, sim. É provável que Cardif tenha entrado em contato com seus “amigos”. Prossigam no bombardeio. Assim que eu transmitir o sinal, ameacem-nos com a destruição desse mundo por meio de um incêndio atômico. Exijam a libertação imediata de Perry Rhodan, que provavelmente está preso lá embaixo. Tudo indica que sim. Na opinião do anti, não havia um lugar mais adequado que Trakarat. O prisioneiro mais precioso que têm em mãos não deve estar guardado em outro lugar. Que diabo! Os senhores me deixam exausto de tanto perguntar. Está na hora de agir. Dormiram que chega.
Isso bastou. Em poucos minutos realizamos uma conferência em termos bem objetivos. Combinamos um código de sinais. Mantive-me firme na minha intenção de não ser acompanhado por um comando. De qualquer maneira, os mutantes não poderiam fazer nada. Nas proximidades da cidade dos antis, suas faculdades seriam neutralizadas por completo. Cheguei a espantar-me com o fato de que o rato-castor conseguira arrancar a arma da mão de Cardif. Provavelmente Gucky tivera de esforçar-se ao máximo.
Localizamos o jato espacial do fugitivo. Ninguém disparou contra ele. O computador de bordo irradiou o impulso combinado. Além disso, as outras naves ainda não haviam sido informadas. Estava na hora de iniciar a perseguição.
O equipamento por mim solicitado foi colocado em outro disco voador. Alkher, Gucky e eu colocamos trajes de combate arcônidas.
Finalmente Mercant entregou-me as armas a que já aludira durante nossa conferência realizada em Saós. Eram as chamadas armas versáteis, cujo funcionamento era facilmente compreensível.
Por meio dessa arma podia-se atingir os sacerdotes dotados de capacidades para-psicológicas, mesmo que reforçassem seus campos defensivos individuais por meio de suas energias mentais.
Era a primeira vez que via a arma versátil.
Quando chegamos à eclusa, Cardif estava penetrando na atmosfera do planeta.
Já deveria ter pousado. Por que permanecera no espaço por tanto tempo?
Quase demorei demais para acertar! Cardif tivera de solicitar permissão de pousar. Isso representava uma vantagem para mim. Com isso sua dianteira se reduzira a um mínimo.

O Tenente Brazo Alkher era um mestre na sua arte. Descontraído e concentrado ao mesmo tempo, estava sentado atrás do manche moderno do sistema de regulagem da posição dos jatos. Os jatos espaciais eram discos de trinta e cinco metros de diâmetro, cuja sala de comando ficava na área polar.
Penetramos na atmosfera do planeta pela região do pólo, a fim de escapar aos anéis equatoriais de poeira. Em certa oportunidade os terranos haviam perdido uma formação de caças, quando o comandante penetrou por inadvertência em alta velocidade na massa relativamente densa. O calor gerado pelo atrito não pôde ser absorvido pelos débeis campos energéticos das máquinas dos veículos espaciais.
Gucky estava sentado às nossas costas na poltrona do encarregado do sistema de localização. Ouvia atentamente os inconfundíveis impulsos emitidos pelo ativador celular. O rato-castor disse que as irradiações estavam ficando cada vez mais fortes.
Ao que parecia, o aparelho estava entrando num estado em que seu funcionamento não podia ser controlado ou previsto por ninguém.
Ouviu-se um assobio vindo de fora. As primeiras moléculas de gás estavam sendo atingidas pelo campo defensivo, que as repelia violentamente. Até parecia que Brazo queria transformar nosso jato espacial num cometa. De qualquer maneira, confiava em sua capacidade. Aquele homem sabia o que poderia exigir dos campos energéticos.
Finalmente estabelecemos um contato nítido pelos aparelhos de localização. A máquina de Cardif surgiu no horizonte radiogoniométrico.
Desviar o curso para a órbita dos anéis equatoriais — gritei para Alkher.
O tenente limitou-se a acenar com a cabeça. Preferi não voltar a chamar sua atenção para o perigo que representavam as nuvens de matéria.
Alkher calculou corretamente a rota que deveria seguir. Só algumas ramificações bastante rarefeitas das nuvens entraram em contato com o campo energético de nosso veículo espacial. Passamos a precipitar-nos em direção à superfície do planeta num ângulo ainda mais agudo. A nave de Cardif voltou a desaparecer atrás da curvatura do planeta.

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