Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Nem mesmo
os homens mais chegados ao administrador
descobrem
a fraude; a máscara é perfeita.
Thomas
Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan: agora é
Administrador do Império Solar.
Ninguém,
nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan ou os mutantes,
desconfia de que o governo vem sendo exercido por um usurpador.
Se o
comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em
Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por
meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era
prisioneiro dos antis.
Thomas
Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode
dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver,
mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do
abismo.
Acontece
que existe um fator que o usurpador não incluiu em seus planos: o
Ser espiritual do planeta Peregrino, que adquiriu uma triste fama
graças às suas brincadeiras macabras.
De
qualquer maneira, Ele ainda tem a decência de transmitir O Chamado
da Eternidade...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Thomas
Cardif
— Que
não compreende as advertências do Ser fictício de Peregrino.
Reginald
Bell
— Que
quase não consegue manter-se fiel ao pretenso amigo.
Allan
D.
Mercant
— O
marechal solar que é um modelo de autocontrole.
Brazo
Alkher
e Stana
Nolinow
— Oficiais
da Ironduke.
Kutlós
— Alto
sacerdote do culto de Baalol no planeta Saós.
Para os
terranos sempre seria Atlan, o solitário do tempo.
Havia
muita gente que nem sabia que o Imperador Gonozal VIII era o mesmo
Almirante Atlan, que há mais de dez mil anos pusera pela primeira
vez os pés na Terra. Por isso não deram maior atenção ao
comunicado oficial publicado pela imprensa terrana que dizia o
seguinte:
Perry
Rhodan, administrador, ordena, com base nos poderes que lhe são
conferidos pelo art. 45, inciso IV e no art. 193, inciso II, que
dentro de cinco dias retornem ao Império Solar todos os terranos que
vêm prestando quaisquer serviços ao Imperador Gonozal VIII. Esta
ordem entrará em vigor em 25 de agosto de 2.103.
Administração
do Império Solar,
ass.:
Perry Rhodan.
Reginald
Bell, o representante de Rhodan, acabara de abrir a Terrania
Post,
a fim de deleitar-se com seu jornal predileto, durante o café. A
primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o comunicado oficial.
Arregalou
os olhos. Furioso, amassou o jornal e atirou-o ao chão. Mas Bell
logo recuperou o autocontrole. Aproximou-se do jornal amassado,
abaixou-se e levantou-o. Alisou cuidadosamente o volumoso jornal e
voltou a ler o comunicado.
— Não
estou sonhando — constatou em voz alta. Estava de pé junto à
mesa, apoiando os braços na mesma e examinando o jornal.
Voltou a
ler a meia voz:
— “...que
dentro de cinco dias retornem ao Império Solar todos os terranos que
vêm prestando quaisquer serviços ao Imperador Gonozal VIII...”
Pela grande Via Láctea! Será que Perry faz questão de destruir em
poucos dias aquilo que construímos no curso dos decênios? Por que o
diabo não carrega suas decisões solitárias? Não; não pode ser
verdade! Não é possível...
Aquele
homem de pequena estatura precipitou-se para o videofone.
O relógio
mostrava que eram apenas dez para as seis. O Marechal Solar Mercant
ainda devia estar dormindo. Naquela situação isso não importava a
Bell.
A tela
cinzenta começou a tremeluzir. As linhas estabilizaram-se, mas a
tela não mostrou nenhuma imagem. O canal de som fez com que Bell
ouvisse o sinal de chamada.
— Sim —
disse a voz de Mercant depois de vários toques. — Já vou!
Dali a
pouco o rosto de Mercant apareceu na tela. Parecia sonolento, mas
Mercant estava bem acordado. Imaginava que devia haver um motivo
importante para que Bell o chamasse.
— O que
é que há?
— Um
momento — respondeu Bell.
Por um
instante seu rosto desapareceu da tela que Mercant via à sua frente.
Quando voltou, encostou ao videofone a página da frente do Terrania
Post.
— É
isto, Mercant. Consegue ler?
Não houve
resposta.
Bell
guardou o jornal. O videofone transmitiu a imagem de dois homens que
se fitavam em silêncio. Um deles balançou a cabeça, num gesto de
mudo desespero. Era o Marechal Solar Mercant, chefe da Segurança
Solar.
Finalmente
Mercant recuperou a fala.
— Atlan
já chamou?
Bell deu
de ombros.
— Ainda
não entrou em contato comigo. Mas talvez tenha falado com o chefe.
— Estarei
aí, dentro de cinco minutos, Bell. Não farei a barba nem lavarei o
rosto. O senhor tem umas doses de conhaque em casa?
Passava
pouco das seis, e Mercant queria tomar conhaque em jejum!
*
* *
Às seis e
meia Bell e Mercant haviam deixado a garrafa pela metade. Desde o
momento em que Mercant chegara à sua residência, Bell andava
ininterruptamente de um lado para outro.
Nem
pensaram em entrar em contato com Perry Rhodan.
Seria
inútil.
Desde que
acontecera a catástrofe de Okul, durante a qual Perry Rhodan caíra
nas mãos dos antis e de seu filho Thomas Cardif, uma mudança
assustadora se verificara com o chefe. Tudo aquilo que antes o
distinguira e lhe conferira uma posição especial, em virtude de
suas capacidades extraordinárias, deixara de existir ou se
manifestava muito raramente.
Rhodan,
que nunca quisera tornar-se ditador, extorquia poderes
extraordinários do Parlamento e se transformou num ditador de
primeira linha. A melhor prova disso era a ordem, segundo a qual os
terranos que se encontravam no Império de Árcon deveriam retirar-se
imediatamente do grupo estelar M-13.
Essa ordem
fatalmente desencadearia uma catástrofe de âmbito universal e de
conseqüências imprevisíveis no grande império, e faria com que
Gonozal VIII duvidasse de que Rhodan continuava a manter a lealdade
que lhe devia como amigo. O imperador não poderia dispensar a
colaboração que lhe vinha sendo prestada por algumas centenas de
milhares de terranos que ocupavam os postos mais importantes na
administração de Árcon. Esses terranos formavam a espinha dorsal
da estrutura estatal; eram os únicos elementos de confiança em meio
a bilhões de arcônidas degenerados.
Bell e
Mercant não abordaram este ponto. Ninguém saberia avaliar a
situação melhor do que eles. No entanto, sabiam perfeitamente que
seria inútil procurar Rhodan e chamar sua atenção para este ponto,
numa tentativa de fazê-lo mudar de idéia.
Desde o
momento em que Rhodan passara a tomar as decisões mais importantes
em matéria de política mundial sem o concurso de qualquer pessoa,
ele se tornara inacessível a todos os conselhos. Evitava todo mundo,
inclusive seu grande amigo Bell.
Para Bell,
Perry Rhodan transformava-se num enigma cada vez mais complicado.
Culpava os médicos pelas alterações do caráter de Rhodan.
Desconfiava do tratamento de choque a que Rhodan tivera de
submeter-se quando retornara de Okul, com a mente bastante abalada.
Os próprios médicos não tinham muita certeza quanto aos efeitos do
tratamento de choque e esquivavam-se às perguntas que lhes eram
dirigidas.
Até então
nem suspeitara de que o homem que acreditava ser Perry Rhodan na
verdade pudesse ser Thomas Cardif. Bell e os outros colaboradores
mais chegados de Rhodan se obstinavam na idéia de que o chefe ainda
estava doente e por isso tinha de ser julgado por padrões
diferentes.
— Não
agüento mais! — exclamou Bell em tom violento e afastou a garrafa.
Esta alusão não dizia respeito à bebida, mas ao esforço de
compreender o último ato de Rhodan. — Acontece que não tenho
nenhuma vontade de continuar a ver tamanha loucura e ficar quieto.
Mercant
ergueu os olhos. Pela primeira vez Bell deixara de andar de um lado
para outro. Mercant disse no tom tranqüilo que lhe era peculiar:
— Desde
sua permanência em Okul, o chefe tem mostrado uma reação alérgica
às irrupções temperamentais do senhor.
Bell fez
uma careta.
— Ora,
Mercant, não podemos tornar-nos coniventes pelo silêncio! Um dia, e
esse dia não demorará a chegar, seremos todos apresentados a um
tribunal que mandará apedrejar-nos por termos permitido que Rhodan
agisse à vontade.
Mercant
não perdeu a calma.
— Mister
Bell, não podemos resistir às ordens do chefe. Na situação atual
não hesitará em usar sem a menor contemplação os poderes
extraordinários que lhe foram concedidos.
Bell fitou
o chefe de segurança. Parecia perplexo e demorou a recuperar o
autocontrole.
— Será
que o senhor quer insinuar que Perry poderia mandar trancafiar-nos no
xadrez só porque em sua opinião não obedecemos conforme devíamos?
— É
exatamente o que quero dizer, mister Bell.
Reginald
Bell deixou-se cair na poltrona.
— Está
bem — disse em tom contrariado. — Vejo que o senhor e eu pensamos
da mesma maneira, Mercant. Mas não tenho a menor vontade de ser
apedrejado um dia.
Mercant
interrompeu o homem impulsivo com um gesto.
— Por
enquanto prefiro não falar em conspiração e revolução, mister
Bell. Tenho uma antipatia toda especial por palestras desse tipo.
Sugiro que observemos o chefe ainda mais atentamente e que procuremos
freá-lo.
— O que
espera conseguir com isso, Mercant? — perguntou Bell em tom
contrariado.
— Talvez
consigamos ganhar tempo. Talvez...
Bell
interrompeu-o.
— Será
que o senhor sempre tem de começar suas frases com um talvez?
O marechal
solar sorriu.
— Ontem
conversei com Deringhouse e Freyt sobre o mesmo assunto. Chegamos a
um acordo. Resolvemos retardar o cumprimento das ordens do chefe que
possam produzir conseqüências mais graves até que possamos fazer
tudo que esteja ao nosso alcance para evitar maiores prejuízos.
— O que
acha disto? — perguntou Bell em tom irônico, mostrando a Terrania
Post. — Pretende colar os cacos resultantes da ação de Perry?
Sabe lá o que Atlan lhe dirá?
— Poderá
haver um rompimento entre Árcon e o Império Solar.
— Bem
que gostaria de saber usar uma linguagem tão discreta como o senhor,
Mercant — respondeu Bell em tom sarcástico. — Esta obra-prima do
chefe transforma nosso tratado com Árcon num papel sem valor. Fomos
nós, do Império Solar, que rompemos o tratado. Fomos nós...
O
videofone chamou.
Bell
levantou-se da poltrona e foi para junto do aparelho. O ajudante do
marechal solar desejava falar com seu chefe.
— É
para o senhor, Mercant — disse Bell, afastando-se.
Mercant
acomodou-se à frente do aparelho.
— O que
houve?
— Marechal
solar — principiou o ajudante, segundo o figurino. — Acabo de
saber, através de uma consulta pelo hiper-rádio vinda de Árcon I,
que na noite passada o chefe chamou de volta todos os membros da
Segurança Solar que se encontram em planetas arcônidas. A ordem
dirigida a todos determina que se inicie imediatamente uma vigilância
rigorosa de todas as bases da frota arcônida. Qualquer movimentação
das respectivas unidades deverá ser avisada imediatamente. A cada
seis horas, tempo padrão, terá de ser enviado a Terrânia um relato
sobre as forças dos diversos destacamentos da frota arcônida.
“É este
o conteúdo da consulta que recebi pelo hiper-rádio, marechal solar.
Tomei a liberdade de chamá-lo porque não encontrei nenhuma anotação
sua sobre a ordem do chefe.”
Mercant
não deixou que seu interlocutor percebesse o que a notícia
significava para ele. Perry Rhodan passara por cima dele ao
transmitir ordens à Segurança Solar, e essas ordens acabariam por
levar a um conflito bélico com Árcon.
Apesar
disso Mercant respondeu com um admirável autocontrole:
— Obrigado
pelo aviso, embora já tivesse conhecimento disso. Ainda lhe
fornecerei um memorando a este respeito.
O marechal
solar desligou. Permaneceu imóvel.
Não viu
que às suas costas o ar tremeluziu e Gucky, o rato-castor, apareceu
repentinamente. Ouviu a voz da pequena criatura, que se valera da
teleportação para percorrer a distância que separava seu bangalô
do de Bell.
— Se eu
descobrir o sujeito que inventou o provérbio “Quem
cedo madruga, Deus ajuda”,
eu lhe torço o pescoço. O chefe ordenou que a maior parte dos
mutantes se dirigisse a Árcon e suas estrelas, a fim de realizar
missões especiais. Trata-se de uma tarefa de vigilância específica!
— piou Gucky e seus olhos de rato-castor chispavam.
Mercant
virou-se.
— Conte
logo, Gucky!
Não havia
muita coisa para contar. A maior parte dos mutantes encontrava-se no
interior das naves espaciais que se dirigiam ao Império de Árcon.
Gucky só se achava em Terrânia porque pertencia ao sexto
destacamento, que partiria às dez horas, tempo padrão, no cruzador
Burma.
Evidentemente
o rato-castor mais uma vez se valera das suas forças telepáticas
para introduzir-se nos pensamentos de Bell e Mercant, embora isso
fosse proibido.
— Onde
está John Marshall? — perguntou Bell.
— Já
saiu com o primeiro destacamento — respondeu Gucky, prontamente.
Enquanto
Bell e Mercant se comunicavam por meio de olhares, o rato-castor, que
sabia ler pensamentos e podia dispensar as mensagens faladas,
surpreendeu-os com outra notícia.
— O
comando especial com Alkher e Nolinow também está a caminho do
Império de Árcon.
Com isso
até mesmo Mercant perdeu o autocontrole.
— Gucky,
se isso não for verdade... O rato-castor piou em tom furioso:
— Allan,
sei muito bem quando posso soltar uma piada e quando não posso. No
momento não tenho a menor vontade para isso. Procurei insinuar-me
nos pensamentos do chefe. Posso fazê-lo sem medo, já que suas
faculdades telepáticas já se foram. Mas qual é o resultado?
Nenhum. Perry só pensa em fragmentos. Isso é de amargar. Não é
normal que alguém pense dessa forma. Talvez ultimamente seja capaz
de irradiar parte de seus impulsos mentais para dentro de si mesmo ou
de absorvê-los. E essa faculdade torna-se cada vez mais pronunciada.
— Gucky...
Não era a
primeira vez que Allan D. Mercant tentava interromper o rato-castor,
mas quando este começava a falar, não parava tão depressa. E
agora, que Mercant conseguira dizer alguma coisa, a decolagem de
grande número de espaçonaves tornou impossível qualquer forma de
conversação.
O barulho
infernal surgido de repente fez com que os dois homens e o
rato-castor corressem para o terraço.
Um
espetáculo impressionante desenrolou-se diante de seus olhos.
Com os
propulsores trovejantes, as unidades pesadas e superpesadas da Frota
Solar erguiam-se do amplo porto espacial de Terrânia e iniciavam seu
vôo pelo espaço.
Os
gigantescos veículos espaciais esféricos de oitocentos e mil e
quinhentos metros de diâmetro precipitavam-se para o límpido céu
matutino, acompanhados de grupos de cruzadores de várias classes e
das naves supervelozes da classe Estado.
De repente
Gucky sentiu que alguém o agarrava pelos ombros e o sacudia
fortemente. Bell berrou ao seu ouvido:
— O que
houve? Quem ordenou a partida da frota?
A pergunta
de Bell tinha sua razão de ser. Previra corretamente que Gucky, uma
criatura bastante curiosa, se insinuaria nos pensamentos de um dos
comandantes das espaçonaves que partiam, a fim de descobrir o
destino da gigantesca formação de espaçonaves.
Gucky piou
em tom zangado:
— Solte-me,
seu bruto, senão não lhe contarei nada.
A ameaça
produziu o efeito desejado. Mercant também se inclinou em direção
ao rato-castor.
Gucky deu
suas informações:
— O
destino é o Império de Árcon, mais precisamente o grupo estelar
M-13, no setor de Hércules.
— O que
é que nossas naves vão fazer por lá? — berrou Bell, em tom
exaltado.
— Não
sei, gorducho. E os comandantes das espaçonaves também não sabem.
Apenas receberam ordem para dirigir-se ao Império de Árcon e
permanecer em posição de espera.
As naves
esféricas foram subindo cada vez mais, e o ruído dos propulsores
foi diminuindo.
Finalmente
a capital do Império Solar viu-se novamente envolta pela
tranqüilidade daquela manhã ensolarada. Reginald Bell, Allan D.
Mercant e Gucky saíram do terraço. Gucky foi mais rápido que os
outros. Quando os homens entraram na sala, estava tomando um
conhaque.
— O que
é bom para vocês também é bom para mim — disse em tom
arrogante, enxugando a boca e passando a pata pelos raros pêlos de
bigode.
— Foi
tomar logo do meu copo! — disse Bell em tom de recriminação. —
Passe para cá!
Arrancou o
copo da mão do rato-castor, encheu-o e sorveu seu conteúdo de um só
gole.
— Quer
mais um, Mercant? — perguntou.
— Quero.
Um duplo. Eu...
Gucky só
respeitava um ser humano, cujo nome era Perry Rhodan. Não se
interessava pelo fato de que Mercant ocupava o posto de marechal
solar e Bell era o representante de Rhodan. Não demonstrou a menor
consideração ao interromper Mercant.
— O
chefe deve manter contato telepático com alguém. Infelizmente não
consegui descobrir com quem. Só consegui compreender estas palavras:
“Perry,
você ficará grande e forte demais se não...”
Depois disso o contato foi interrompido, como se o interlocutor de
Perry tivesse notado minha presença. Não acham isso bastante
estranho? Nunca vi uma coisa dessas. Tenho a impressão de que
conheço a voz.
*
* *
Cardif-Rhodan
voltou a ouvir a voz a que Gucky se referira. A mesma soou em seu
subconsciente; parecia exorcizá-lo.
— Você
só dispõe de mais alguns dias de prazo, Perry Rhodan. Eu o previno!
Desfaça-se do ativador celular, senão você ficará grande e forte
demais.
Ainda era
muito cedo e Cardif-Rhodan havia trabalhado até altas horas. Apesar
disso estava parado junto à janela do seu escritório, de onde
acompanhava a decolagem em massa das naves esféricas que se dirigiam
ao céu tingido pelas cores do amanhecer.
Já
conhecia a voz que acabara de soar em seu subconsciente. Ouvira-a
todos os dias, desde que regressara de Peregrino. E todos os dias
esta insistia para que se desfizesse do ativador, usando quase sempre
as mesmas palavras. Concedera-lhe um prazo de cinqüenta dias.
A
advertência do Ser fictício de Peregrino só lhe provocou risos.
Cardif
soltou uma gargalhada, pois naquele momento revistara mais uma vez os
conhecimentos de Rhodan a respeito do Ser Coletivo. Não conseguia
dispensar ao Ser atemporal a veneração que Rhodan sentia pelo
mesmo.
Uma pessoa
que conseguisse enganar nunca mereceria seu respeito. Ele ou Aquilo
apenas servia para entregar-lhe as armas criadas por uma tecnologia
superior, que exigira em termos precisos. Ele ou Aquilo não passava
de um fornecedor de armas.
Cardif
dobrou o cotovelo direito e colocou a mão sobre o ativador que
trazia no peito. Naquele instante sentia as pulsações de seu corpo,
e agora também sentia o fluxo revitalizador que percorria o
organismo.
A
eternidade estava chegando.
Não
chegara para os antis.
Um sorriso
de deboche desfigurou seu rosto, um rosto que bilhões de terranos e
arcônidas continuavam a contemplar com grande admiração.
Cardif nem
imaginava como era feio naquele momento. Muito menos imaginava que
dava ao seu rosto, feito à imagem do de Rhodan, feições
diferentes, que combinavam com seu caráter originário.
Seus
olhos, que de tempos em tempos tinham que ser tingidos a fim de que a
coloração vermelha não lhe traísse a identidade, emitiram um
brilho frio. Deleitava-se com a desgraça dos outros. A morte do sumo
sacerdote Kalal, ocorrida em Utik, provava que Ele ou Aquilo
descobrira o roubo dos vinte ativadores pelos antis, o que fez com
que agisse imediatamente, modificando a regulagem dos aparelhos sem
sair de Peregrino.
Cardif nem
se deu conta de que essa suposição não tinha a menor lógica. E
nem desconfiou de que Ele, o Ser de Peregrino, pudesse ter descoberto
sua trama.
— “...senão
você ficará grande e forte demais.”
Para
Cardif, essa frase tinha um sentido profético. Ser forte como
soberano da Galáxia, grande em espírito. Como essa força e essa
grandeza poderiam ser demais?
Contemplou
o céu límpido, onde acabara de desaparecer pequena parte da frota.
A partida da mesma representava mais um lance do xadrez cósmico.
Queria provar a si mesmo que sua grandeza excedia a do pai, e queria
mostrar aos antis que não era uma marionete, capaz apenas de
desferir golpes mortais.
Seu plano
dera início à destruição de Árcon.
Em todos
os mundos de Árcon os terranos se preparavam para retornar ao
Sistema Solar. O abandono dos postos fatalmente provocaria uma
catástrofe no Império Arcônida. A essa catástrofe se seguiria a
decadência e a destruição. O domínio do Império Solar
representaria o fim de tudo.
Cardif
sabia perfeitamente que estava brincando com fogo. Conhecia a força
das frotas robotizadas de Árcon. No entanto, não se esquecera de
considerar a mentalidade de Atlan no seu plano refinado.
O
Imperador Gonozal VIII vivera mais de dez mil anos na Terra, com o
nome de Almirante Atlan. Pensava e agia antes como um terrano que
como um arcônida.
Para ele,
o pacto de amizade representava mais que um pedaço de papel. A
ruptura de todos os tratados representaria uma tremenda sobrecarga
psíquica para aquele homem. E sob a pressão dessa sobrecarga Atlan
fatalmente tomaria decisões erradas. Acontece que cada decisão
errada representaria um fator favorável ao Império Solar. Uma
avalancha política se seguiria aos tumultos resultantes da retirada
dos terranos e do avanço da frota solar. E essa avalancha afastaria
Gonozal VIII do trono e imporia a ele, Thomas Cardif, que passava por
Rhodan, a obrigação de intervir no grande império.
— Intervir...
— disse a meia voz e um sorriso sarcástico surgiu em seu rosto.
Para
Thomas, a intervenção representaria um processo de subjugação.
A execução
do plano acabara de ser iniciada. Não haveria nada que pudesse
detê-lo. Ele, Cardif, passara todo mundo para trás.
Dali a
pouco, dentro de meia hora, ou talvez mesmo dentro de quinze minutos,
todos se veriam diante dos fatos consumados.
Não fora
por nada que passara os últimos quinze dias e noites na elaboração
do plano em todas as minúcias. Não fora por nada que solicitara um
contato direto com o grande cérebro instalado em Vênus. Só mesmo a
colaboração do grande dispositivo positrônico possibilitaria a
execução coerente de todos os detalhes de um plano dessa magnitude
e complexidade.
Parado
junto à janela, contemplava o oceano de casas de Terrânia. O
panorama nunca deixava de fasciná-lo. Representava uma expressão do
poder do Sistema Solar. E a ânsia pelo poder apossara-se de sua
mente...
Ainda se
lembrava do tempo em que um patriarca dos saltadores queria
transformá-lo em administrador. Naquela época rejeitara a proposta
em termos ásperos, pois então sentia-se animado apenas pelo desejo
de vingança, que o fazia ansiar pela destruição de Perry Rhodan.
Esse
desejo de vingança já não era tão forte. Fora substituído em
grande parte pelo desejo do poder, mas Cardif não se dava conta
disso.
De repente
seus pensamentos tomaram outra direção.
Teve a
impressão de ver à sua frente os jovens oficiais Brazo Alkher e
Stana Nolinow.
Depois de
seu regresso da nave cilíndrica Baa-Lo, tripulada por antis,
manifestara na sala de comando da Ironduke a suspeita de que ambos
eram traidores. Suas declarações nesse sentido provocaram
manifestações de incredulidade especialmente no Major Jefe
Claudrin. O Marechal Solar Allan D. Mercant também não aceitara a
afirmativa de Cardif nesse sentido.
Cardif
acenou com a cabeça. Já iniciara o plano secundário, por meio do
qual os dois oficiais ficariam livres de qualquer suspeita de
traição. Com esse plano, ele mesmo não se defrontaria com
perguntas desagradáveis sobre quem poderia ter sabido que ele
pretendia ir a Peregrino para pedir certa quantidade de ativadores
celulares.
Não foi
por decência que Cardif resolveu reabilitar os dois jovens oficiais;
era movido apenas por considerações práticas. Se os dois tenentes
eram prisioneiros dos mutantes, havia o perigo de que um belo dia
conseguissem fugir. E quando isso acontecesse, não teriam a menor
dificuldade em provar que não havia revelado aos adeptos do culto de
Baalol os detalhes da viagem que o chefe realizara para o planeta
Peregrino. Além disso, Cardif não deixou de notar que seus
colaboradores mais chegados costumavam fitá-lo com uma expressão
que ora era pensativa, ora apavorada, ora desconfiada.
Sempre que
isso acontecia, ficava zangado, e invariavelmente decidia que dali em
diante agiria, pensaria e tomaria suas decisões da forma que faria
Rhodan. Acontece que seu ego era mais forte que sua vontade. Sabia
perfeitamente que o saber recebido do pai, em Okul, empalidecia lenta
mas seguramente.
A
transmissão do saber realizada às pressas em Okul, não foi cem por
cento bem-sucedida. Muitos detalhes da vida de Rhodan estavam
totalmente ausentes. Muitas vezes sentia-se apavorado ao perceber uma
lacuna no saber recebido de Rhodan. Quando fez essa constatação
pela terceira vez, resolveu transformar-se num homem solitário para
evitar acontecimentos desagradáveis.
Sabia que
teria de viver solitariamente por vários anos, até que chegasse o
dia de os primeiros colaboradores tomarem a ducha celular.
Ele mesmo
possuía o ativador e por isso não precisava da ducha celular.
Acontece que Reginald Bell precisava, mas não a receberia. Nenhum
dos velhos amigos de seu pai a receberia. Queria que todos morressem.
Queria cercar-se de seus próprios amigos para nunca mais ver nenhum
dos rostos que durante toda a vida lançavam olhares de admiração
para Perry Rhodan — o homem que odiava profundamente por ter
assassinado sua mãe.
Às suas
costas, o aparelho de intercomunicação chamou.
Virou-se
lentamente, sentou-se junto à escrivaninha e olhou para a direita,
onde ficava a tela de comunicação visual.
Era o
oficial de plantão da grande estação de hiper-rádio. Havia um
chamado de Árcon I, o mundo de cristal.
O
Imperador Gonozal VIII queria falar com Perry Rhodan.
A tela
mostrou o sinal que anunciava as palestras oficiais do imperador.
Depois desapareceu e deu lugar ao rosto marcante de Atlan.
— Perry
Rhodan — gritou o imperador para o amigo, superando um abismo de
34.000 anos-luz. — Acabo de saber que você deu ordem para que
dentro de cinco dias todos os terranos que trabalham no Império de
Árcon voltem à Terra. Será que você poderia explicar o que espera
conseguir com isso, bárbaro? E permita que lhe diga que me senti
profundamente chocado com essa ordem, que me faz duvidar de sua
lealdade?
— Gosto
de ouvi-lo falar com arrogância, almirante — disse Cardif-Rhodan
em tom cínico. — Seu chamado me surpreende. Eu não lhe expliquei
por ocasião de nossa última palestra, há uma semana, que preciso
mobilizar todos os recursos humanos para cumprir o novo plano decenal
do Império Solar? Será que você tem coragem de me acusar de não o
ter avisado e de ter agido sem você saber? Ora, almirante, não
posso conformar-me com nenhuma dessas acusações.
O rosto do
arcônida assumiu uma expressão rígida. Seguiu-se uma pausa de
muitos segundos. O receptor zumbia em tons ora mais altos, ora mais
baixos.
— Você
poderia fazer o favor de explicar por que há algumas horas parte da
Frota Solar seguiu em direção ao grupo estelar M-13, Perry Rhodan?
— perguntou Atlan, depois de algum tempo.
— Realmente,
parte da Frota está a caminho, almirante — respondeu
Cardif-Rhodan, em tom frio. — Essa é outra pergunta que me deixa
perplexo. Primeiro, segundo o tratado por nós celebrado, a Frota
Solar tem permissão de penetrar à vontade no Império de Árcon e
dele sair sem ser incomodada. Depois, acontece que nem Árcon nem o
Império Solar dispõem das estações transmissoras com que está
equipado o Sistema Solar; até parece que você se esqueceu disso. As
naves saíram para recolher os terranos e trazê-los de volta ao
nosso planeta. Será que você viu uma ameaça na aproximação de
nossas naves?
O rosto do
arcônida assumiu uma expressão ainda mais sombria. Sua voz parecia
trovejar quando disse:
— Terrano,
se eu não visse seu rosto na tela, seria capaz de jurar que estou
falando com um estranho. Acontece que a pessoa que vejo diante de mim
não é um estranho, mas um homem que acaba de revelar seu verdadeiro
caráter.
“Você
escolheu o momento mais favorável, Rhodan. Você sempre soube quando
podia golpear e quando devia esperar. Meus cumprimentos, bárbaro! E
eu que fui idiota a ponto de acreditar que você era um homem
decente. E olhe que vivi bastante na Terra para saber como são
vocês. Meus parabéns, seu patife!”
Cardif-Rhodan
ouviu as palavras do arcônida sem pestanejar. Com um sorriso cínico
disse:
— Imperador,
fique sabendo que Perry Rhodan nunca se esquece de uma ofensa
recebida. Você pagará por isso. Para evitar outros mal-entendidos
quero deixar bem claro que eu e o Sistema Solar não estamos
dispostos a continuar a apoiar um ajuntamento de degenerados. Um belo
dia, até mesmo a melhor boa vontade em ajudar a alguém chega ao
fim. O Sistema Solar não é nenhuma instituição de caridade,
Imperador Gonozal.
O arcônida
não perdeu o autocontrole.
— Perry
Rhodan, fico-lhe muito grato por sua extraordinária sinceridade. Já
enxergo as coisas como realmente são. Será que nestas condições
você ainda acredita que suas naves poderão viajar à vontade no
Império de Árcon? Avise suas unidades que, neste mesmo instante, as
frotas robotizadas de Árcon serão colocadas em estado de prontidão
e receberão uma programação que fará com que cacem qualquer nave
terrana que procure penetrar em nosso sistema.
— Será
que isso significa uma ameaça de guerra, imperador? — perguntou
Cardif-Rhodan em tom frio.
Confiava
inteiramente no raciocínio do computador positrônico de Vênus,
segundo o qual havia uma probabilidade de 67,4% de que Árcon não
estaria em condições de sustentar uma guerra contra o Sistema
Solar.
— Rhodan,
não fui eu que usei a palavra guerra. Não quero passar para a
História como o destruidor de grande parte da Galáxia. Não possuo
essa ambição criminosa.
— Suas
naves robotizadas não me impedirão de cuidar do regresso dos
terranos que deverão retirar-se de Árcon, imperador! — exclamou
Cardif-Rhodan.
Rhodan e
Atlan nunca costumavam chamar-se pelo título. Por isso o arcônida
achou muito estranho que de repente Perry Rhodan o chamasse de
imperador.
— Rhodan
— a voz de Atlan adquiriu um tom de súplica. — Acabo de eliminar
a palavra amizade do meu vocabulário. No entanto, apelo para seu bom
senso: não prossiga nesse jogo. Não se esqueça de que as vidas de
bilhões de criaturas estão em jogo. E lembre-se de que a Terra
também poderá ser destruída. Repito, Rhodan: se as unidades de sua
frota penetrarem em Árcon...
O arcônida
que se encontrava no distante mundo de cristal ficou em silêncio.
Notara
pela imagem projetada na tela que Rhodan virará a cabeça. Perry
fitava outras telas que ficavam à esquerda da escrivaninha.
Aguçou o
ouvido. O homem de Árcon I ficou perplexo ao ouvir que vinte e um
grupos poderosos da frota terrana acabavam de saltar para dentro do
grupo estelar M-13, vindos do hiperespaço.
Mais uma
vez Atlan assustou-se com o cinismo que Rhodan demonstrou para com
ele.
— Atlan,
espero que você não procure impedir minhas naves de recolher os
terranos que deverão retornar ao Sistema Solar. Na minha opinião,
você perdeu o momento oportuno de uma reação militar favorável.
Os olhos
avermelhados do arcônida fitavam o rosto do ex-amigo com uma
expressão de desespero. Em vão procuravam os traços com que
estavam familiarizados.
Atlan viu
a imagem de um homem totalmente estranho, e as palavras de Rhodan se
revestiam de uma estranheza assustadora.
Atlan
manteve-se em silêncio. O hiper-rádio voltou a emitir um zumbido
irregular.
A uma
distância de 34.000 anos-luz, o olhar de Atlan parecia penetrar o
homem que, segundo acreditava, era Rhodan.
— Terrano
— disse depois de algum tempo. — Ainda hoje será decretada a
mobilização geral no Império de Árcon. Prepare-se! É só o que
tenho a lhe dizer.
O sósia
de Rhodan manteve-se em silêncio. Continuou a fitar o rosto de Atlan
projetado na tela, até que este desligasse.
Levantou-se
e foi novamente à janela.
A seus pés
estendia-se o imenso oceano de casas de Terrânia.
Para ele,
o quadro possuía um significado simbólico. O poderio do Império
Solar jazia a seus pés.
Há meses
Rhodan dissera que o imperador de Árcon era um pobre-diabo.
Referia-se ao cerimonial da corte imperial, que transformava Atlan
num escravo da etiqueta.
Não era
nisso que o arcônida estava pensando enquanto lia as notícias
vindas de todas as partes do império, que subitamente confluíam a
Árcon I e sempre diziam a mesma coisa: os terranos se retiravam
atabalhoadamente, grandes formações da frota terrana surgiam no
império, notava-se uma atividade extraordinária da Segurança Solar
no seio do Império Arcônida.
A essa
altura achava que a designação de “pobre-diabo”
referia-se exclusivamente a ele mesmo.
Dispensara
a Rhodan, o terrano, a confiança que só se costuma dispensar ao
melhor amigo. Prejudicara muita coisa em virtude dessa amizade;
fizera muita coisa em benefício de Rhodan e à custa do império.
E agora
esse sujeito o traíra de forma tão vergonhosa. E não era só isso.
Declarara-lhe cinicamente que o Império de Árcon, habitado por uma
raça degenerada, apenas representava um fruto maduro a ser colhido
pela Frota Solar.
Atlan
recorreu ao setor lógico de seu cérebro. Conforme se conclui das
próprias palavras, o funcionamento dessa parte do cérebro
baseava-se na lógica pura, e não estava sujeito à interferência
dos sentimentos e de outros fatores que poderiam provocar um desvio.
Além disso, deixava de considerar a traição cometida por Rhodan.
Essa
traição era um simples fato, tal qual a retirada dos terranos que
trabalhavam no Império de Árcon e a invasão da frota terrana. Para
o setor lógico, não importava que o fato fosse bom ou mau.
— A
única saída dessa situação catastrófica será uma aliança
militar com o Sistema Azul! — balbuciou em conformidade com seu
setor lógico.
O
arcônida, que fora obrigado a viver por mais de dez mil anos na
Terra e sentia uma simpatia toda especial pelo gênero humano, fez um
sinal de assentimento para a conclusão a que chegara seu setor
lógico.
E passou a
agir de acordo com essa conclusão.
*
* *
O Grande
Conselho de Ácon estava reunido em assembléia extraordinária.
Uma série
de boatos corria em Sphinx ou Drorah, o quinto mundo iluminado pelo
sol branco-azulado. Pelo que se dizia, há algumas horas fora
recebido um pedido de socorro de Gonozal VIII, Imperador de Árcon.
Nele se teria solicitado auxílio para enfrentar a ação do terrano
Perry Rhodan, que tentava abalar a estrutura do Império de Árcon, a
fim de apoderar-se do mesmo.
Com
exceção de alguns altos personagens do governo, ninguém sabia em
Ácon se esses boatos correspondiam à verdade ou não. No entanto, a
própria reunião do Grande Conselho provava que grandes coisas
estavam para acontecer na área da política galáctica.
Os boatos
provocaram inesperado efeito psicológico no seio do Sistema Azul.
De repente
os arcônidas, que por mais de vinte mil anos haviam sido
considerados um grupo de descendentes degenerados dos acônidas e há
poucos meses se tinham transformado num perigo iminente para o
Sistema Azul, em virtude de uma aliança com o terrano Rhodan,
voltaram a ocupar um lugar no coração dos acônidas.
Os
acônidas sentiram-se dominados pelo sentimento misterioso que
garante a coesão de toda e qualquer raça. Compartilharam os
sentimentos dos arcônidas ameaçados, e suas simpatias passaram a
ser dedicadas exclusivamente aos colonizadores que há mais de vinte
milênios haviam dado as costas ao seu mundo de origem.
Os
acônidas nem se deram conta se agiriam movidos por uma questão de
sentimento. Seu instinto lhes dizia que o terrano Rhodan e sua
poderosa frota representavam a maior ameaça à sua segurança. Ainda
não se haviam recuperado da derrota que Rhodan lhes infligira.
Os órgãos
executivos do Grande Conselho já haviam estendido suas antenas em
todas as direções, a fim de averiguar os sentimentos do povo. A
assembléia extraordinária foi aberta com a revelação de que
qualquer ação destinada a ajudar o Império de Árcon poderia
contar com o apoio do povo acônida.
Entre os
membros do Conselho havia uma mulher. Era Auris de Las-Toor, uma
jovem acônida de rara beleza e grandes encantos. Entre os acônidas
era considerada a maior especialidade no que dizia respeito aos
terranos e ao Império Solar. Ninguém conhecia os terranos melhor
que ela. A jovem vira o Administrador do Império Solar bem de perto
e também tivera um encontro com Gonozal VIII, Imperador de Árcon,
que costumava ser chamado de Atlan por Rhodan.
O velho
Sa-Ga declarou aberta a assembléia extraordinária do Grande
Conselho. Em breves palavras anunciou que todos os membros haviam
comparecido e a seguir passou à leitura da mensagem de Gonozal VIII.
Depois disso disse que concederia a palavra a quem dela quisesse
fazer uso para discutir a mensagem.
Lempart de
Fere-Khar, o primeiro chefe que fora convocado, começou a falar.
Chamou a atenção dos presentes para os vínculos raciais que
existiam entre os acônidas e os arcônidas, e realçou discretamente
o perigo que os terranos representavam para o Sistema Azul. Dedicou
apenas três frases ao entreposto comercial terrano instalado em seu
planeta. Foi justamente a discrição com que falou que deu peso aos
seus argumentos. Teve a habilidade de aludir somente no fim de seu
discurso ao entreposto comercial solar estabelecido em Drorah.
Preferiu mesmo não o apontar como uma base militar disfarçada.
Além de
Lempart de Fere-Khar, mais oito acônidas fizeram uso da palavra.
Três desses acônidas eram peritos em assuntos militares. Jogavam
com cifras.
Sua
exposição terminou numa exigência:
— O
Império de Árcon deverá ceder ao Sistema Azul mil espaçonaves do
último tipo. E o Império de Árcon deverá obrigar-se a colocar
acônidas submetidos a treinamento hipnótico nos postos-chave da
frota arcônida.
A resposta
constituiu num murmúrio de aprovação. Um único membro do Conselho
não concordou com as exigências. Era Auris de Las-Toor.
Pediu a
palavra.
— Pois
não! — disse o velho Sa-Ga, e seus olhos sábios fitaram-na com
uma expressão de curiosidade.
Numa
introdução habilmente concebida Auris ressaltou que não poderia
pronunciar-se sobre as considerações dos perigos militares, já que
essa área lhe era estranha. No entanto, tinha muitas ponderações a
fazer sobre o juízo leviano que acabara de ser formulado a respeito
dos terranos.
Fez
questão de enfatizar as palavras “leviano”
e “muitas”.
Abordou o
recente passado. Referia-se exclusivamente ao terrano Perry Rhodan.
Despertou nos membros do Conselho a lembrança dos inúmeros
acontecimentos dos últimos tempos. Uma vez conseguido isso, formulou
algumas perguntas em tom professoral:
— Como
teríamos agido se estivéssemos no lugar de Rhodan? A Galáxia não
teria sido atingida pela guerra, pela destruição e pela morte? Se
estivéssemos no lugar de Rhodan, não teríamos destruído
totalmente esses acônidas arrogantes?
Essas
perguntas representavam uma verdadeira monstruosidade. Auris teve de
ouvir ásperas respostas, pois suas palavras haviam despertado o
nervosismo e mesmo a indignação dos membros do Conselho.
Mas Auris
de Las-Toor não deixou que os apartes a interrompessem.
Transformou-se numa defensora de Perry Rhodan.
— Não é
possível que a situação do império seja realmente a que o
Imperador Gonozal VIII expôs. Não é possível que o terrano Rhodan
tenha traído seu amigo, o imperador. Deve haver algum mal-entendido,
ou então surgiram circunstâncias que não podem ser avaliadas à
distância a que nos encontramos.
“Como
membro deste Conselho não posso deixar de formular uma advertência.
Não vamos apressar-nos em prometer o auxílio solicitado pelo
Imperador Gonozal VIII. Vamos recorrer aos subterfúgios
diplomáticos. O Grande Conselho tem o dever de averiguar a
verdadeira natureza dos mal-entendidos assustadores que surgiram
entre o Império de Árcon e Perry Rhodan.
“Posso
garantir que Perry Rhodan não seria capaz de cometer a traição de
que o arcônida o acusa. Rhodan é um terrano que sabe dar o devido
valor a uma vida humana; por isso também sabe quanto vale possuir
amigos.
“Grande
Conselho, faço uma prece para que a sabedoria dos deuses e a
compreensão dos grandes do nosso povo não nos abandonem neste
momento, e que nos ajudem a tomar uma decisão adequada.”
Quando
Auris de Las-Toor voltou a sentar-se, foi acompanhada pelos olhares
dos membros do Conselho. Ninguém conseguiu subtrair-se à impressão
produzida por suas palavras. Mas o terceiro perito militar voltou a
pedir a palavra.
Desfez os
argumentos de Auris, procedendo com uma lógica na qual não havia
lugar para os sentimentos. E o material estatístico oferecido era
esmagador.
No momento
em que o perito voltou a sentar-se, a decisão já estava tomada,
antes que se passasse à votação.
Com um
único voto contrário decidiu-se prestar ao Imperador Gonozal VIII o
auxílio de que Árcon precisava.
Dali a uma
hora, a maior emissora do Sistema Azul transmitiu ao grande império
a resposta do Conselho. Essa resposta consistia exclusivamente em
condições que, no seu conjunto, representavam uma série de
grilhões que deixariam Atlan quase sem liberdade para agir a seu
modo.
*
* *
O número
dos robôs de guerra arcônidas que protegiam o imperador no interior
do Palácio de Cristal de Árcon I fora triplicado.
Fazia uma
hora que o centro de computação de Árcon III lhe transmitira a
mensagem vinda do Sistema Azul, juntamente com a interpretação de
seu conteúdo.
O enorme
centro de computação de Árcon III prevenira o imperador para que
não aceitasse a proposta. Sugeriu que se arriscasse o confronto com
o Sistema Solar.
A
interpretação lógica revelou que a relação de forças seria de
58 por 42 a favor do Império de Árcon, desde que o imperador
conseguisse obter o auxílio dos mercadores galácticos ou dos
sacerdotes de Baalol.
Atlan já
havia lido pelo menos vinte vezes a interpretação do gigantesco
cérebro positrônico. De repente perdeu o autocontrole.
— A
coisa ficou maluca! Esse cérebro não passa de um idiota! Quer que
nos aliemos aos antis. São piores que Rhodan!
Tinha toda
razão para desconfiar do resultado da interpretação realizada pelo
gigantesco centro de computação de Árcon III. O gigante
positrônico nunca se mostrara capaz de formular um juízo correto a
respeito de Perry Rhodan. O terrano sempre conseguira enganar o
cérebro positrônico por meio de lances geniais, totalmente
inesperados, já que o cérebro “pensava”
segundo a lógica arcônida e não estava em condições de
adaptar-se à mentalidade humana.
Os olhos
avermelhados de Atlan chamejavam. Tresnoitado e profundamente abalado
com a traição inconcebível cometida pelo amigo, examinava a
mensagem vinda de Ácon, a interpretação das condições contidas
na mesma e o parecer do centro de computação.
— Ora,
os mercadores galácticos! — disse com a voz apagada. — Só estão
esperando para fazer o melhor negócio de sua vida. Eles se mostrarão
frios e irônicos quando eu solicitar seu auxílio. Dos antis nem se
cogita. Acho que você conseguiu, Rhodan. Já se foram os tempos em
que Árcon era um império independente.
Lançou um
olhar contrariado para o resultado da interpretação: 58 por 42. Não
podia ser correta. A razão certa seria de 80 por 20, a favor do
Império Solar.
Apoiou a
cabeça nas mãos.
Achava-se
desesperado e jamais se sentira assim em sua longa vida.
— Não
compreendo! Não consigo compreender. Por mais que me esforce, não
consigo! — repetia constantemente.
Pobre-diabo!
Tinha a
impressão de que ouvia essas palavras da boca de Rhodan.
— Uma
pessoa que pretende trair alguém não lhe dirige estas palavras!
Atlan
prestou atenção às suas palavras. Voltou a rememorar a situação
em que Rhodan o chamara de pobre-diabo.
Atlan
conhecia os homens, conhecia seus lados bons e maus, também
conhecera muitos traidores, mas não conseguia compreender o porquê
da traição de Rhodan.
— O
gordo, ou então Mercant ou Deringhouse... — pegou o microfone e
pediu uma ligação de hiper-rádio com Terrânia. Pretendia falar
com Reginald Bell.
Seguiu-se
a espera martirizante.
Essa
espera foi encurtada por novas notícias alarmantes.
Cerca de
vinte e oito mil espaçonaves terranas encontravam-se no centro do
grupo estelar M-13. Suas posições tornavam-se cada vez mais
inconfundíveis. Circulavam em formação, bem próximas dos fortes
estelares mais importantes do Império Arcônida.
Atlan não
precisou de nenhum mapa estelar para compreender que essa
demonstração de força provava a situação de impotência em que
se encontrava seu império.
Além
disso, a atuação da Frota Solar provava que esta seguia um plano
elaborado com um cuidado extraordinário. O arcônida que se
encontrava no Palácio de Cristal reconheceu ao primeiro relance de
olhos a estratégia genial de Perry Rhodan.
Finalmente
a ligação de hiper-rádio foi estabelecida.
A voz
metálica do robô que trabalhava na central do Palácio de Cristal
disse:
— Eminência,
mister Reginald Bell, em Terrânia, Terra, está pronto para falar.
A tela que
se encontrava ao lado do imperador iluminou-se. Atlan esperou que o
rosto largo de Bell aparecesse na mesma.
E começou
a falar. Bell ouviu o que Atlan tinha a dizer. Vez por outra acenava
com a cabeça. Finalmente chegou sua vez de falar.
— Arcônida,
há três dias o chefe não permite que ninguém dialogue com ele.
Colocou-nos diante de uma série de fatos consumados. A todos nós,
sem exceção. É bem provável que esteja ouvindo nossa palestra.
Ainda bem. Dessa forma ao menos tenho uma oportunidade de deixar
claro meu ponto de vista.
O
imperador interrompeu-o em tom impaciente.
— Bell,
não estou interessado em ouvir discursos. Não tenho tempo para
isso. Por que vocês não puseram um freio à traição cometida por
Rhodan?
Bell
respondeu sem pestanejar:
— Porque
há poucas semanas o Parlamento concedeu poderes ditatoriais a
Rhodan. Mercant, Freyt, todos nós estamos com as mãos amarradas.
Temos de obedecer, senão... Você compreende nossa situação?
— Acontece
que não compreendo a traição de Rhodan.
— Você
acha que nós compreendemos sua maneira de agir? — respondeu Bell
em tom violento, respirando profundamente. — O chefe só pode estar
doente. É a única explicação para as modificações havidas com
ele, Atlan.
A resposta
do Imperador Gonozal VIII também foi proferida em tom violento:
— Os
terranos não viviam se orgulhando de serem individualistas? Onde
está esse individualismo? O que é feito de sua formidável
iniciativa? E da disposição de assumir riscos? Terrano, eu lhe
garanto que não me sinto nada à vontade ao dizer-lhe que me sinto
enojado.
O homem
atarracado berrou a uma distância de 34.000 anos-luz:
— Compreendo
perfeitamente que você tenha raiva de nós, Atlan, mas peço-lhe que
procure compreender que, desde seu regresso de Okul, a mente de Perry
está enferma...
— Isso
seria mais um motivo para que você ocupasse seu lugar! —
interrompeu Atlan.
Reginald
Bell fez um gesto de cansaço.
— Quem
poderia adivinhar que o chefe estava tão doente? Ninguém. Nem mesmo
os médicos. Afinal, por que você acredita que o pior está para
acontecer, arcônida?
— Porque
as coisas não poderão ficar piores. Com a retirada dos terranos,
meu império foi arrastado para a beira do precipício. Não posso
continuar a manter-me inativo. Vou agir. Tomarei as providências que
a situação exige.
Atlan fez
menção de interromper a palestra infrutífera, mas Bell apressou-se
em responder:
— Por
que você acredita que o pior está para acontecer?
O
Imperador Gonozal VIII estacou. Era a segunda vez que Bell formulava
essa pergunta. Atlan respondeu num tom que quase chegava a ser
hostil:
— Perdi
a confiança nos terranos. Só tenho um desprezo infinito para os
mesmos.
Com estas
palavras desligou.
A sorte
acabara de ser lançada.
Não tinha
outra alternativa senão aceitar as condições do Sistema Azul.
De
qualquer maneira, os dias de independência do gigantesco império
estelar de Árcon estavam contados.
— Perry!
— exclamou Atlan. Era apenas uma exclamação... Procurou ouvir em
meio ao silêncio da sala.
Mas
esforçou-se em vão.
Não ouviu
nada.
No
interior do Império de Árcon, as frotas do Sistema Solar cruzavam
em posição de ataque.
Thomas
Cardif escutara a palestra que Atlan e Reginald Bell travaram pelo
hiper-rádio. Quando Bell falou na doença mental de Rhodan e nas
alterações de seu caráter, um sorriso de satisfação surgira em
seu rosto. Mas uma pergunta fizera com que aguçasse o ouvido: “Por
que você acredita que o pior está para acontecer?”
Imaginava
quais eram os planos de Bell, Mercant, Freyt e Deringhouse.
Mas tomara
suas providências para esse caso. Nenhum deles conseguiria realizar
seu intento.
A noite
descera sobre Terrânia. A faixa macia da Via Láctea brilhava no céu
límpido. Milhões de sóis reduzidos a pontos luminosos enviavam sua
luz à Terra. Thomas Cardif ergueu os olhos para os mesmos, mas o que
animava seu gesto não era a veneração, mas a sede do poder.
O herdeiro
do Universo era ele, o filho de Rhodan.
Olhou para
o porto espacial, que ficava bem distante. Viu uma pequena esfera
banhada pela luz dos holofotes. Era a Ironduke.
— Hum...
— limitou-se a dizer.
O aparelho
de intercomunicação emitiu um sinal.
Colocou-se
à frente do mesmo. Um lacônico “sim”,
que em Terrânia todos já começavam a temer, saiu de seus lábios.
— O
Marechal Solar Mercant deseja falar com o administrador a respeito de
Nolinow e Alkher — anunciou a central.
Muita
gente tentara falar com ele nos últimos dias, depois que a Frota
Solar decolara com destino a Árcon. E ele, Perry Rhodan, não
recebera ninguém.
Mas
resolveu fazer uma exceção. Sabia por quê.
— Aguardo
Mercant! — disse para dentro do microfone.
Esperou
calmamente que o chefe do Serviço de Segurança aparecesse.
Confortavelmente sentado na poltrona e totalmente descontraído,
sentia-se senhor da situação. Deixou que o tempo passasse. De
repente seu ativador celular voltou a funcionar.
Sentiu um
fluxo que se dirigia do aparelho para seu corpo.
Era a vida
eterna que lhe estava chegando.
Mas no
mesmo instante ouviu no subconsciente a risadinha que já conhecia
tão bem. Era a forma pela qual Ele ou Aquilo anunciava sua presença
diária.
Cardif não
prestou muita atenção à voz que se fez ouvir em seu interior. A
advertência estereotipada começou a entediá-lo:
— Se não
quiser ficar grande e forte demais, Perry Rhodan, livre-se do
ativador celular.
Esta mesma
frase voltou a soar. Cardif esforçou-se para não ouvi-la. Mas
subitamente estacou. Hoje o Ser fictício de Peregrino falava mais
que de costume.
— Perry
Rhodan, você ainda dispõe de um dia para livrar-se do aparelho. Não
se esqueça de que uma grandeza excessiva pode ser um mal. Você sabe
o que faz, Perry Rhodan!
Sua reação
a estas palavras consistiu apenas num sorriso de desprezo. Seu
fornecedor de armas de Peregrino não era a grande entidade
espiritual que Perry Rhodan sempre vira nele.
Ele,
Thomas Cardif, descobrira até onde chegava a capacidade do Ser.
Notara por experiência própria que a faculdade de compreender o
pensamento alheio, de que era dotado o Ser coletivo, tinha seus
limites.
Conseguira
enganar o Ser de Peregrino. E nem pensava em desfazer-se do ativador.
E Ele se
despediu de Thomas Cardif com aquela risada indescritível. Os
últimos sons desta risada fizeram-se ouvir no momento em que o
Marechal Solar Mercant entrou, apesar da hora avançada da noite.
— Faça
o favor de sentar, meu caro Mercant — convidou Cardif-Rhodan em tom
amável. — Quais são as novidades? Problemas políticos no sistema
de Árcon? Ou será que se trata de um ataque das naves robotizadas
arcônidas à nossa frota? Ah, sim! Acabo de me lembrar, Mercant. O
senhor veio por causa de Alkher e Nolinow. Alguma novidade a este
respeito?
Mercant
limitou-se a acenar com a cabeça. Colocou a pasta que segurava na
mão sobre a mesa de centro.
— Sir,
existem novidades espantosas. Infelizmente, em seu conjunto, são por
demais misteriosas.
Cardif-Rhodan
inclinou-se para a frente. Parecia curioso.
O marechal
solar iniciou seu relato.
— Sir,
nestas últimas horas tivemos várias surpresas. Estas surpresas
tiveram início quando, entre outros veículos espaciais estacionados
no interior da Ironduke, o jato espacial em que o senhor, Alkher e
Nolinow voaram para Peregrino foi submetido a uma inspeção de
rotina. Num canto, sob o painel de controle da sala de comando, foi
encontrado um microtransmissor.
— O quê?
— a surpresa de Cardif-Rhodan foi muito bem fingida. — Na sala de
comando do jato espacial...? É um aparelho do tipo que foi
descoberto na musculatura dos braços do anti encontrado no
entreposto comercial dos saltadores em plutão?
— Não,
senhor. É bem verdade que não existe a menor dúvida de que o
microtransmissor foi produzido nas oficinas dos swoons. Esse
transmissor liliputiano deve ter sido introduzido no jato espacial de
uma forma que por enquanto representa um mistério para mim...
— Faça
o favor de ser mais breve, Mercant. Essa noite não estou disposto a
resolver enigmas. O que há com esse transmissor? Quais são as
finalidades preenchidas pelo mesmo?
Era uma
atitude típica de Rhodan. O mesmo nunca apreciara as falas
prolongadas. Sempre fazia questão de ouvir apenas o que importava.
— O
microtransmissor — principiou Mercant — funcionava com a energia
fornecida pelo computador do jato espacial, que ao mesmo tempo lhe
fornecia a posição do veículo. O alcance do transmissor é de cem
anos-luz.
Se Mercant
esperava qualquer reação do chefe, sentiu-se decepcionado.
— O
transmissor captava qualquer palestra travada no interior do jato
espacial e a irradiava sob a forma de impulsos concentrados. A
duração de cada impulso era pouco inferior a um quinto milésimo de
segundo. O aparelho estava em condições de transmitir enquanto o
propulsor do jato espacial estivesse funcionando. Realizamos ensaios
de laboratório e constatamos que o aparelho deixou de funcionar no
momento em que os antis envolveram o veículo num campo mental,
tornando-o incapaz de voar.
— Hum...
— respondeu o sósia de Rhodan, e conseguiu fitar Mercant com uma
expressão pensativa. — Dali talvez se deva concluir que minhas
suspeitas para com os tenentes Stana Nolinow e Brazo Alkher não se
justificavam. Mercant, se a informação que o senhor acaba de me dar
for correta, serei o primeiro a desculpar-me formalmente perante os
dois, isso naturalmente se ambos não estiverem mortos. Seria um
prazer reabilitá-los em público. Como é que alguém poderia saber
que eu voaria justamente com a 1-09?
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto de Mercant. Sua alegria não era causada
exclusivamente pelo interesse que o chefe acabara de demonstrar. Pela
primeira vez nessas últimas semanas tinha a impressão de ver-se
diante do velho Perry Rhodan, diante de um Rhodan sadio, de um homem
que praticava com a maior facilidade a arte da condução de homens,
que é impossível de ser ensinada. A pergunta que acabara de
formular ressaltava tudo isso.
— Sir,
também andamos quebrando a cabeça com esta pergunta, até o momento
em que interrogamos o oficial do hangar. Ele disse que se guiou pela
idéia de que, se o chefe queria usar um jato espacial, o mesmo
deveria receber o aparelho mais moderno. E o sujeito que colocou o
microtransmissor num canto, embaixo do painel de controle, deve ter
partido do mesmo pressuposto. Eu...
— Um
momento, Mercant. Eu me sinto culpado. Antes que prossigamos em nossa
palestra, quero pedir-lhe uma coisa. Transmita uma declaração
circular de hiper-rádio dirigida a todos os membros da Frota Solar,
segundo a qual lamento ter acusado os dois tenentes de traição e
não deixarei de pedir desculpas formais, se ambos regressarem à
Terra. Mais alguma coisa, Mercant?
— Sir —
principiou o chefe do Serviço de Segurança. — Devo ressaltar que
seus colaboradores mais chegados não concordam com a ação que a
Frota Solar vem desenvolvendo no Império de Árcon.
Cardif-Rhodan
levantou-se. Mercant calou-se. Naquele instante viu sepultado um
minúsculo raio de esperança.
— Mercant,
ainda tenho algum trabalho a fazer — disse Cardif-Rhodan.
O marechal
solar fez uma ligeira mesura, pegou sua pasta com documentos e
retirou-se.
Sentiu um
calafrio. O caráter estranho que repentinamente passou a ser
irradiado por Perry Rhodan era assustador. Mercant, que era um perito
competentíssimo em sua área, nem desconfiava que o homem que,
segundo acreditava, era seu chefe enfermo, o enganara no caso
Alkher-Nolinow por meio do microtransmissor escondido no jato
espacial.
Num
momento de tranqüilidade, Thomas Cardif chegara à conclusão de que
se expusera demais com as acusações formuladas contra os tenentes
Alkher e Nolinow. Foi só por isso que resolveu restaurar o conceito
dos oficiais que o haviam levado a Peregrino. E, se Mercant e toda a
Segurança Solar quebrariam a cabeça para descobrir quem instalara o
microtransmissor no jato espacial, isso não o interessava nem um
pouco. O marechal solar nunca pensaria que o chefe em pessoa poderia
ter escondido o microtransmissor no veículo espacial depois de seu
regresso à Terra.
Lançou um
olhar rápido para o relógio.
Eram 3:18
h, tempo de Terrânia. Dali a uma hora o dia começaria a raiar. Para
as 4:30 h tinha encontro marcado com um homem que naquela noite viera
à Terra com uma nave cargueira cilíndrica. Pertencia a um clã dos
mercadores de Aralon, o mundo dos médicos galácticos, e lhe
transmitira lembranças de Fut-Gii.
Um rosto
desconhecido fitara-o da tela. Não lhe teria dado um minuto de
atenção se não tivesse sido pronunciada a senha Fut-Gii.
Fut-Gii
fora um saltador insignificante. Talvez ainda estivesse vivo, se não
tivesse cometido o erro de recusar-se a trabalhar para os antis.
Pouco
depois dessa recusa, Fut-Gii sofreu um acidente fatal. Morrera por
ordem dos antis.
Thomas
Cardif conhecia os fatos. Durante quase cinco decênios trabalhara
como médico para os adeptos de Baalol, usando o nome Edmond Hugher.
Durante esse tempo não conhecia sua verdadeira identidade. Um
bloqueio hipnótico inalterável que lhe fora imposto por uma máquina
instalada em Árcon III impedia que se lembrasse de que era o filho
de Perry Rhodan.
Durante um
ataque da Frota ao templo de Baalol no planeta Lepso, os antimutantes
haviam descoberto e removido o bloqueio hipnótico que fora imposto a
Edmond Hugher.
Thomas
Cardif despertou de um sono que durara cinqüenta e oito anos. Voltou
a saber quem era e não se esqueceu de nenhuma das experiências que
fizera durante os seis decênios em que usara o nome Edmond Hugher.
Seu ódio
ao pai cresceu ao infinito. Sentiu-se roubado dos melhores anos de
vida, e não se esqueceu de que — segundo lhe constava — Rhodan
era culpado da morte de sua mãe Thora.
Agora
parecia encontrar-se próximo ao objetivo final. Perry Rhodan fora
colocado fora de ação e como prisioneiro dos antis estava escondido
em algum lugar da selva estelar. Ele mesmo se fez passar por Perry
Rhodan e há poucas semanas conseguiu que o Parlamento lhe conferisse
poderes ditatoriais. E os acontecimentos dos últimos quatro dias
provavam de que forma usava esses poderes.
O Império
de Árcon estava prestes a desabar. A Frota Solar só esperava o
momento em que deveria apoderar-se dos mundos mais importantes do
império estelar.
O fato de
que há poucas horas um agente dos sacerdotes de Baalol se anunciara
com a senha Fut-Gii não lhe causava maiores preocupações. Possuía
um arsenal de argumentos altamente convincentes, que obrigariam até
mesmo o mais desconfiado dos antis a colocar-se de seu lado.
Cardif
abriu uma gaveta da escrivaninha na qual havia uma variedade
espantosa de armas. Tirou cuidadosamente duas armas de choque,
certificou-se de que estavam carregadas e escondeu-as sob as vestes.
Após isso
anunciou à central telefônica:
— Nas
próximas três horas não estarei presente.
Entrou no
elevador antigravitacional e subiu ao campo de pouso construído na
cobertura do edifício. Ali havia constantemente três planadores à
sua disposição. Os dois robôs que vigiavam um grupo de doze
planadores dirigiram seus raios sobre ele, identificaram-no como
Perry Rhodan e não lhe deram mais a menor atenção.
Thomas
Cardif entrou no veículo mais veloz. O propulsor começou a
trabalhar com um ruído leve. No pequeno painel que se encontrava à
sua frente as luzes verdes se acendiam. Finalmente a luz central
começou a brilhar.
O planador
estava pronto para entrar em ação. Cardif fê-lo subir. Preferiu
não ligar o farol. Subindo cada vez mais, tomou exatamente o rumo
oeste e foi deixando para trás o oceano de casas de Terrânia.
Dirigia-se à região que há uns cento e cinqüenta anos ainda fora
a área mais quente do deserto de Gobi.
Seguia uma
rota desconhecida. Fora percorrida muitas vezes, tanto por ele como
pelo verdadeiro Perry Rhodan. No fim dessa rota ficava um pequeno
bangalô que há trinta anos fora dado de presente ao terrano Rhodan,
porque um cruzador da Frota Solar salvara a nave bastante avariada de
seu patriarca do naufrágio espacial.
Em meio ao
alvorecer cinzento do novo dia, Thomas Cardif pousou o planador entre
as árvores do parque que se estendia à frente do bangalô.
Desligou o
propulsor, saiu do veiculo e, sem olhar para a esquerda ou para a
direita, dirigiu-se ao amplo terraço. Naquela região solitária não
precisava preocupar-se com sua segurança. Um grupo de trinta robôs
de guerra regulados exclusivamente para suas vibrações individuais
e submetidos a uma programação rigorosíssima submetiam o grande
terrano a uma vigilância ininterrupta.
Cardif,
que estava familiarizado com todos os detalhes do terreno, atravessou
o terraço, entrou no bangalô e, só quando chegou à sala de
visitas, acendeu a luz. Dirigiu-se à única parede livre, fez a
mesma rolar para trás e viu-se diante de um painel de controle.
Colocou a chave mestra em outra posição. Uma tela até então
invisível passou a mostrar o tremeluzir característico.
Era uma
tela localizadora, que reproduzia o espaço aéreo acima do bangalô,
dividido em quadrados.
Cardif
verificou as horas. Se o agente dos antimutantes fosse pontual, seu
planador deveria surgir na tela, dentro de alguns minutos.
Assim que
este pensamento passou pela cabeça de Cardif, um ponto fulgurante
surgiu no quadrado 2-leste e deslocou-se lentamente em direção a
5-leste. Cardif ligou o rádio de pequena distância.
— Quem
é? — perguntou laconicamente.
— Fut-Gii
— respondeu a voz saída do alto-falante.
Para
Cardif, essa senha representava o sinal de que devia desativar a
força combativa de todos os robôs, até que o planador tivesse
pousado.
Isso não
representava nenhum risco para Cardif. A sala em que se encontrava
estava protegida por um potentíssimo campo defensivo. Além disso, o
equipamento de televisão lhe permitia verificar se o agente vinha
só.
O veículo
pousou junto ao seu planador. A porta abriu-se e um homem desceu.
Cardif
ligou a aparelhagem infravermelha.
O
equipamento ótico instalado nas proximidades do terraço funcionava
automaticamente em acoplamento com o telessetor. Por alguns segundos
exibiu o interior do planador que acabara de pousar.
Estava
vazio. O agente dos antimutantes viera só.
Satisfeito,
Cardif acenou com a cabeça, desligou os controles, fez a parede
retornar à posição primitiva e desativou o campo defensivo que
envolvia a sala.
Cardif e o
agente que lhe transmitira lembranças de Fut-Gii encontraram-se no
terraço.
— Faça
o favor! — disse Cardif, convidando o visitante a sentar.
Este
aceitou o convite, pôs a mão no bolso, tirou um objeto e colocou-o
na mesa, à frente de Cardif.
— É
minha identificação — comentou. Era uma minúscula
pirâmide-templo, a miniatura do templo de Baalol.
Thomas
Cardif devolveu o documento do agente. Compreendeu que o homem que se
encontrava à sua frente não era um enviado qualquer, mas um homem
investido de todos os poderes. A minúscula pirâmide provava isso, e
Cardif conhecia os usos e costumes dos antis melhor que qualquer
outro terrano.
— Rhabol,
o sumo sacerdote, envia-lhe lembranças, Cardif! — principiou o
agente sem apresentar-se. — Acontece que todos os servos de Baalol
sentem cólera quando se lembram de você. Estão de luto por Ka-lal,
sumo sacerdote do planeta Utik, que morreu de uma doença misteriosa,
a doença do “farejamento”.
O sorriso
silencioso e irritante obrigou o agente a ficar calado.
— Diga
aos antis, especialmente a Rhabol, que não sou culpado da morte de
Kalal — respondeu Thomas Cardif. — Se o ativador celular,
entregue a Kalal, deu a este a doença do “farejamento”
em vez da vida eterna, a culpa na minha opinião é de Rhabol, que me
obrigou a entregar esse ativador.
“Meu
Serviço Secreto me informou de como morreu Kalal. Seria ridículo
responsabilizar-me por sua morte. Não sou o Invisível do mundo
Peregrino, que sabe fabricar ativadores celulares. Mas na minha
opinião um ser capaz de criar um aparelho, que confere a vida
eterna, também deve ser capaz de modificar os efeitos desse
aparelho, sem sair de Peregrino, quando este cai ou caiu em mãos não
autorizadas...”
— Você
quer dizer que todos os aparelhos foram modificados, Cardif?
O homem
que envergava o uniforme simples do administrador respondeu em tom
frio:
— Não
sou o Ser de Peregrino. Não sei. Mas será que a lógica não nos
impõe a conclusão de que, consideradas as circunstâncias que
cercaram a morte de Kalal, os outros dezenove ativadores também
devem ter sofrido uma modificação? Vocês ainda não sabem o que
está acontecendo em Trakarat?
Fez como
se não notasse o ligeiro estremecimento de seu interlocutor. Como
este se mantivesse em silêncio, prosseguiu:
— Você
veio munido de poderes extraordinários. Pois bem. Podemos encerrar o
tema ligado aos ativadores celulares e tudo que se relaciona com o
mesmo. Eu...
O agente
interrompeu-o subitamente.
— Fui
incumbido de informá-lo de que o requerimento dos mercadores
galácticos, que querem montar mais trezentos entrepostos comerciais
no Império Solar, deve ser deferido imediatamente.
Cardif
fitou seu interlocutor com uma expressão de compaixão.
— Os
servos de Baalol não possuem visão política. Até parece que ainda
não sabem do que vem acontecendo nestes últimos quatro dias no
Império de Árcon. O grande império está prestes a cair nas mãos
do Sistema Solar. Você acha que neste momento histórico vou criar
dificuldades políticas no interior de meu império? E é o que
acontecerá se eu permitir aos saltadores que, além dos escritórios
que já possuem, montem mais trezentos entrepostos comerciais. Nem
penso nisso, e muito menos permitirei que alguém me obrigue a fazer
uma coisa dessas. Será que os servos de Baalol já se esqueceram de
que tudo que resulta em meu benefício também resultará em
benefício deles?
O agente
respondeu em tom hesitante:
— Dispomos
de informações dignas de crédito, segundo as quais o Imperador
Gonozal VIII pretende formar uma aliança com o Sistema Azul. Nos
termos dessa aliança, deverá obrigar-se a colocar à disposição
dos acônidas mil espaçonaves do último tipo. Em compensação os
acônidas cederão ao imperador oficiais submetidos a treinamento
hipnótico para todas as naves arcônidas.
Num
instante Cardif recorreu aos conhecimentos que assumira de seu pai.
Segundo essas informações, no Sistema Azul a navegação espacial
deixara de existir, com exceção das viagens das naves do comando
energético. O tráfego de um mundo para outro era realizado por meio
de milhares de estações transmissoras de alta potência. Ainda
segundo esses conhecimentos, uma aliança entre Árcon e os acônidas
traria como conseqüência fatal a submissão do Império Arcônida à
soberania do Sistema Azul.
Cardif
perguntou em tom indiferente:
— O que
acha Baalol da intenção de Gonozal, que pretende formar uma aliança
com os arcônidas primitivos?
— O
Império de Árcon é nosso inimigo, Cardif. Será que esta resposta
é suficientemente clara?
— Não,
agente. É muito vaga. Preciso saber o que os antis estão dispostos
a fazer. Será que irão apoiar-me na minha luta contra Árcon?
O outro
empertigou-se de repente. Perplexo, fitou o homem que tinha tamanha
semelhança com Rhodan.
— Então?
— perguntou Cardif no tom de um homem que sabe o quanto o tempo é
precioso. — Você dispõe de poderes para fazer um acordo que
vincule a outra parte ou não?
— Você
acha que sua ordem de atacar a Baa-Lo já foi esquecida? — indagou
o agente, um tanto perturbado.
— Isso
são bagatelas! — disse Cardif com um gesto de desprezo. — Será
que Rhabol acreditava que eu iria abraçá-lo, mostrando-me alegre?
Se é tão idiota, então eu fiz uma idéia favorável demais a seu
respeito. Pouco importa que tenhamos tentado enganar-nos um ao outro,
agente. Nos próximos dias se decidirá se nos apoderaremos do
Império de Árcon ou não. Quanto mais força eu tiver, maior será
a vantagem de vocês e a nossa.
— Quais
são as garantias objetivas que o Império Solar nos dá, Cardif? —
perguntou o agente, em tom exaltado.
O falso
administrador soltou uma estrondosa gargalhada.
— Garantias?
— perguntou, ainda rindo. — Só falta que você me peça que eu
lhe dê as garantias por escrito. Ora, agente, não me sinto nada bem
por estar submetido à chantagem de vocês, e agora vocês ainda
querem que me amarre ainda mais fortemente aos antimutantes? Não. Eu
os odeio demais para fazer uma coisa dessas. Será que me exprimi com
suficiente clareza?

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