segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-114 - O Chamado da Eternidade- Kurt Brand [Parte 1]

Autor
KURT BRAND


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Nem mesmo os homens mais chegados ao administrador
descobrem a fraude; a máscara é perfeita.



Thomas Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan: agora é Administrador do Império Solar.
Ninguém, nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan ou os mutantes, desconfia de que o governo vem sendo exercido por um usurpador.
Se o comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era prisioneiro dos antis.
Thomas Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver, mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do abismo.
Acontece que existe um fator que o usurpador não incluiu em seus planos: o Ser espiritual do planeta Peregrino, que adquiriu uma triste fama graças às suas brincadeiras macabras.
De qualquer maneira, Ele ainda tem a decência de transmitir O Chamado da Eternidade...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Thomas CardifQue não compreende as advertências do Ser fictício de Peregrino.

Reginald BellQue quase não consegue manter-se fiel ao pretenso amigo.

Allan D. MercantO marechal solar que é um modelo de autocontrole.

Brazo Alkher e Stana NolinowOficiais da Ironduke.

KutlósAlto sacerdote do culto de Baalol no planeta Saós.



Para os terranos sempre seria Atlan, o solitário do tempo.
Havia muita gente que nem sabia que o Imperador Gonozal VIII era o mesmo Almirante Atlan, que há mais de dez mil anos pusera pela primeira vez os pés na Terra. Por isso não deram maior atenção ao comunicado oficial publicado pela imprensa terrana que dizia o seguinte:

Perry Rhodan, administrador, ordena, com base nos poderes que lhe são conferidos pelo art. 45, inciso IV e no art. 193, inciso II, que dentro de cinco dias retornem ao Império Solar todos os terranos que vêm prestando quaisquer serviços ao Imperador Gonozal VIII. Esta ordem entrará em vigor em 25 de agosto de 2.103.
Administração do Império Solar,
ass.: Perry Rhodan.

Reginald Bell, o representante de Rhodan, acabara de abrir a Terrania Post, a fim de deleitar-se com seu jornal predileto, durante o café. A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi o comunicado oficial.
Arregalou os olhos. Furioso, amassou o jornal e atirou-o ao chão. Mas Bell logo recuperou o autocontrole. Aproximou-se do jornal amassado, abaixou-se e levantou-o. Alisou cuidadosamente o volumoso jornal e voltou a ler o comunicado.
Não estou sonhando — constatou em voz alta. Estava de pé junto à mesa, apoiando os braços na mesma e examinando o jornal.
Voltou a ler a meia voz:
...que dentro de cinco dias retornem ao Império Solar todos os terranos que vêm prestando quaisquer serviços ao Imperador Gonozal VIII...” Pela grande Via Láctea! Será que Perry faz questão de destruir em poucos dias aquilo que construímos no curso dos decênios? Por que o diabo não carrega suas decisões solitárias? Não; não pode ser verdade! Não é possível...
Aquele homem de pequena estatura precipitou-se para o videofone.
O relógio mostrava que eram apenas dez para as seis. O Marechal Solar Mercant ainda devia estar dormindo. Naquela situação isso não importava a Bell.
A tela cinzenta começou a tremeluzir. As linhas estabilizaram-se, mas a tela não mostrou nenhuma imagem. O canal de som fez com que Bell ouvisse o sinal de chamada.
Sim — disse a voz de Mercant depois de vários toques. — Já vou!
Dali a pouco o rosto de Mercant apareceu na tela. Parecia sonolento, mas Mercant estava bem acordado. Imaginava que devia haver um motivo importante para que Bell o chamasse.
O que é que há?
Um momento — respondeu Bell.
Por um instante seu rosto desapareceu da tela que Mercant via à sua frente. Quando voltou, encostou ao videofone a página da frente do Terrania Post.
É isto, Mercant. Consegue ler?
Não houve resposta.
Bell guardou o jornal. O videofone transmitiu a imagem de dois homens que se fitavam em silêncio. Um deles balançou a cabeça, num gesto de mudo desespero. Era o Marechal Solar Mercant, chefe da Segurança Solar.
Finalmente Mercant recuperou a fala.
Atlan já chamou?
Bell deu de ombros.
Ainda não entrou em contato comigo. Mas talvez tenha falado com o chefe.
Estarei aí, dentro de cinco minutos, Bell. Não farei a barba nem lavarei o rosto. O senhor tem umas doses de conhaque em casa?
Passava pouco das seis, e Mercant queria tomar conhaque em jejum!

* * *

Às seis e meia Bell e Mercant haviam deixado a garrafa pela metade. Desde o momento em que Mercant chegara à sua residência, Bell andava ininterruptamente de um lado para outro.
Nem pensaram em entrar em contato com Perry Rhodan.
Seria inútil.
Desde que acontecera a catástrofe de Okul, durante a qual Perry Rhodan caíra nas mãos dos antis e de seu filho Thomas Cardif, uma mudança assustadora se verificara com o chefe. Tudo aquilo que antes o distinguira e lhe conferira uma posição especial, em virtude de suas capacidades extraordinárias, deixara de existir ou se manifestava muito raramente.
Rhodan, que nunca quisera tornar-se ditador, extorquia poderes extraordinários do Parlamento e se transformou num ditador de primeira linha. A melhor prova disso era a ordem, segundo a qual os terranos que se encontravam no Império de Árcon deveriam retirar-se imediatamente do grupo estelar M-13.
Essa ordem fatalmente desencadearia uma catástrofe de âmbito universal e de conseqüências imprevisíveis no grande império, e faria com que Gonozal VIII duvidasse de que Rhodan continuava a manter a lealdade que lhe devia como amigo. O imperador não poderia dispensar a colaboração que lhe vinha sendo prestada por algumas centenas de milhares de terranos que ocupavam os postos mais importantes na administração de Árcon. Esses terranos formavam a espinha dorsal da estrutura estatal; eram os únicos elementos de confiança em meio a bilhões de arcônidas degenerados.
Bell e Mercant não abordaram este ponto. Ninguém saberia avaliar a situação melhor do que eles. No entanto, sabiam perfeitamente que seria inútil procurar Rhodan e chamar sua atenção para este ponto, numa tentativa de fazê-lo mudar de idéia.
Desde o momento em que Rhodan passara a tomar as decisões mais importantes em matéria de política mundial sem o concurso de qualquer pessoa, ele se tornara inacessível a todos os conselhos. Evitava todo mundo, inclusive seu grande amigo Bell.
Para Bell, Perry Rhodan transformava-se num enigma cada vez mais complicado. Culpava os médicos pelas alterações do caráter de Rhodan. Desconfiava do tratamento de choque a que Rhodan tivera de submeter-se quando retornara de Okul, com a mente bastante abalada. Os próprios médicos não tinham muita certeza quanto aos efeitos do tratamento de choque e esquivavam-se às perguntas que lhes eram dirigidas.
Até então nem suspeitara de que o homem que acreditava ser Perry Rhodan na verdade pudesse ser Thomas Cardif. Bell e os outros colaboradores mais chegados de Rhodan se obstinavam na idéia de que o chefe ainda estava doente e por isso tinha de ser julgado por padrões diferentes.
Não agüento mais! — exclamou Bell em tom violento e afastou a garrafa. Esta alusão não dizia respeito à bebida, mas ao esforço de compreender o último ato de Rhodan. — Acontece que não tenho nenhuma vontade de continuar a ver tamanha loucura e ficar quieto.
Mercant ergueu os olhos. Pela primeira vez Bell deixara de andar de um lado para outro. Mercant disse no tom tranqüilo que lhe era peculiar:
Desde sua permanência em Okul, o chefe tem mostrado uma reação alérgica às irrupções temperamentais do senhor.
Bell fez uma careta.
Ora, Mercant, não podemos tornar-nos coniventes pelo silêncio! Um dia, e esse dia não demorará a chegar, seremos todos apresentados a um tribunal que mandará apedrejar-nos por termos permitido que Rhodan agisse à vontade.
Mercant não perdeu a calma.
Mister Bell, não podemos resistir às ordens do chefe. Na situação atual não hesitará em usar sem a menor contemplação os poderes extraordinários que lhe foram concedidos.
Bell fitou o chefe de segurança. Parecia perplexo e demorou a recuperar o autocontrole.
Será que o senhor quer insinuar que Perry poderia mandar trancafiar-nos no xadrez só porque em sua opinião não obedecemos conforme devíamos?
É exatamente o que quero dizer, mister Bell.
Reginald Bell deixou-se cair na poltrona.
Está bem — disse em tom contrariado. — Vejo que o senhor e eu pensamos da mesma maneira, Mercant. Mas não tenho a menor vontade de ser apedrejado um dia.
Mercant interrompeu o homem impulsivo com um gesto.
Por enquanto prefiro não falar em conspiração e revolução, mister Bell. Tenho uma antipatia toda especial por palestras desse tipo. Sugiro que observemos o chefe ainda mais atentamente e que procuremos freá-lo.
O que espera conseguir com isso, Mercant? — perguntou Bell em tom contrariado.
Talvez consigamos ganhar tempo. Talvez...
Bell interrompeu-o.
Será que o senhor sempre tem de começar suas frases com um talvez?
O marechal solar sorriu.
Ontem conversei com Deringhouse e Freyt sobre o mesmo assunto. Chegamos a um acordo. Resolvemos retardar o cumprimento das ordens do chefe que possam produzir conseqüências mais graves até que possamos fazer tudo que esteja ao nosso alcance para evitar maiores prejuízos.
O que acha disto? — perguntou Bell em tom irônico, mostrando a Terrania Post. — Pretende colar os cacos resultantes da ação de Perry? Sabe lá o que Atlan lhe dirá?
Poderá haver um rompimento entre Árcon e o Império Solar.
Bem que gostaria de saber usar uma linguagem tão discreta como o senhor, Mercant — respondeu Bell em tom sarcástico. — Esta obra-prima do chefe transforma nosso tratado com Árcon num papel sem valor. Fomos nós, do Império Solar, que rompemos o tratado. Fomos nós...
O videofone chamou.
Bell levantou-se da poltrona e foi para junto do aparelho. O ajudante do marechal solar desejava falar com seu chefe.
É para o senhor, Mercant — disse Bell, afastando-se.
Mercant acomodou-se à frente do aparelho.
O que houve?
Marechal solar — principiou o ajudante, segundo o figurino. — Acabo de saber, através de uma consulta pelo hiper-rádio vinda de Árcon I, que na noite passada o chefe chamou de volta todos os membros da Segurança Solar que se encontram em planetas arcônidas. A ordem dirigida a todos determina que se inicie imediatamente uma vigilância rigorosa de todas as bases da frota arcônida. Qualquer movimentação das respectivas unidades deverá ser avisada imediatamente. A cada seis horas, tempo padrão, terá de ser enviado a Terrânia um relato sobre as forças dos diversos destacamentos da frota arcônida.
É este o conteúdo da consulta que recebi pelo hiper-rádio, marechal solar. Tomei a liberdade de chamá-lo porque não encontrei nenhuma anotação sua sobre a ordem do chefe.”
Mercant não deixou que seu interlocutor percebesse o que a notícia significava para ele. Perry Rhodan passara por cima dele ao transmitir ordens à Segurança Solar, e essas ordens acabariam por levar a um conflito bélico com Árcon.
Apesar disso Mercant respondeu com um admirável autocontrole:
Obrigado pelo aviso, embora já tivesse conhecimento disso. Ainda lhe fornecerei um memorando a este respeito.
O marechal solar desligou. Permaneceu imóvel.
Não viu que às suas costas o ar tremeluziu e Gucky, o rato-castor, apareceu repentinamente. Ouviu a voz da pequena criatura, que se valera da teleportação para percorrer a distância que separava seu bangalô do de Bell.
Se eu descobrir o sujeito que inventou o provérbio “Quem cedo madruga, Deus ajuda”, eu lhe torço o pescoço. O chefe ordenou que a maior parte dos mutantes se dirigisse a Árcon e suas estrelas, a fim de realizar missões especiais. Trata-se de uma tarefa de vigilância específica! — piou Gucky e seus olhos de rato-castor chispavam.
Mercant virou-se.
Conte logo, Gucky!
Não havia muita coisa para contar. A maior parte dos mutantes encontrava-se no interior das naves espaciais que se dirigiam ao Império de Árcon. Gucky só se achava em Terrânia porque pertencia ao sexto destacamento, que partiria às dez horas, tempo padrão, no cruzador Burma.
Evidentemente o rato-castor mais uma vez se valera das suas forças telepáticas para introduzir-se nos pensamentos de Bell e Mercant, embora isso fosse proibido.
Onde está John Marshall? — perguntou Bell.
Já saiu com o primeiro destacamento — respondeu Gucky, prontamente.
Enquanto Bell e Mercant se comunicavam por meio de olhares, o rato-castor, que sabia ler pensamentos e podia dispensar as mensagens faladas, surpreendeu-os com outra notícia.
O comando especial com Alkher e Nolinow também está a caminho do Império de Árcon.
Com isso até mesmo Mercant perdeu o autocontrole.
Gucky, se isso não for verdade... O rato-castor piou em tom furioso:
Allan, sei muito bem quando posso soltar uma piada e quando não posso. No momento não tenho a menor vontade para isso. Procurei insinuar-me nos pensamentos do chefe. Posso fazê-lo sem medo, já que suas faculdades telepáticas já se foram. Mas qual é o resultado? Nenhum. Perry só pensa em fragmentos. Isso é de amargar. Não é normal que alguém pense dessa forma. Talvez ultimamente seja capaz de irradiar parte de seus impulsos mentais para dentro de si mesmo ou de absorvê-los. E essa faculdade torna-se cada vez mais pronunciada.
Gucky...
Não era a primeira vez que Allan D. Mercant tentava interromper o rato-castor, mas quando este começava a falar, não parava tão depressa. E agora, que Mercant conseguira dizer alguma coisa, a decolagem de grande número de espaçonaves tornou impossível qualquer forma de conversação.
O barulho infernal surgido de repente fez com que os dois homens e o rato-castor corressem para o terraço.
Um espetáculo impressionante desenrolou-se diante de seus olhos.
Com os propulsores trovejantes, as unidades pesadas e superpesadas da Frota Solar erguiam-se do amplo porto espacial de Terrânia e iniciavam seu vôo pelo espaço.
Os gigantescos veículos espaciais esféricos de oitocentos e mil e quinhentos metros de diâmetro precipitavam-se para o límpido céu matutino, acompanhados de grupos de cruzadores de várias classes e das naves supervelozes da classe Estado.
De repente Gucky sentiu que alguém o agarrava pelos ombros e o sacudia fortemente. Bell berrou ao seu ouvido:
O que houve? Quem ordenou a partida da frota?
A pergunta de Bell tinha sua razão de ser. Previra corretamente que Gucky, uma criatura bastante curiosa, se insinuaria nos pensamentos de um dos comandantes das espaçonaves que partiam, a fim de descobrir o destino da gigantesca formação de espaçonaves.
Gucky piou em tom zangado:
Solte-me, seu bruto, senão não lhe contarei nada.
A ameaça produziu o efeito desejado. Mercant também se inclinou em direção ao rato-castor.
Gucky deu suas informações:
O destino é o Império de Árcon, mais precisamente o grupo estelar M-13, no setor de Hércules.
O que é que nossas naves vão fazer por lá? — berrou Bell, em tom exaltado.
Não sei, gorducho. E os comandantes das espaçonaves também não sabem. Apenas receberam ordem para dirigir-se ao Império de Árcon e permanecer em posição de espera.
As naves esféricas foram subindo cada vez mais, e o ruído dos propulsores foi diminuindo.
Finalmente a capital do Império Solar viu-se novamente envolta pela tranqüilidade daquela manhã ensolarada. Reginald Bell, Allan D. Mercant e Gucky saíram do terraço. Gucky foi mais rápido que os outros. Quando os homens entraram na sala, estava tomando um conhaque.
O que é bom para vocês também é bom para mim — disse em tom arrogante, enxugando a boca e passando a pata pelos raros pêlos de bigode.
Foi tomar logo do meu copo! — disse Bell em tom de recriminação. — Passe para cá!
Arrancou o copo da mão do rato-castor, encheu-o e sorveu seu conteúdo de um só gole.
Quer mais um, Mercant? — perguntou.
Quero. Um duplo. Eu...
Gucky só respeitava um ser humano, cujo nome era Perry Rhodan. Não se interessava pelo fato de que Mercant ocupava o posto de marechal solar e Bell era o representante de Rhodan. Não demonstrou a menor consideração ao interromper Mercant.
O chefe deve manter contato telepático com alguém. Infelizmente não consegui descobrir com quem. Só consegui compreender estas palavras: “Perry, você ficará grande e forte demais se não...” Depois disso o contato foi interrompido, como se o interlocutor de Perry tivesse notado minha presença. Não acham isso bastante estranho? Nunca vi uma coisa dessas. Tenho a impressão de que conheço a voz.

* * *

Cardif-Rhodan voltou a ouvir a voz a que Gucky se referira. A mesma soou em seu subconsciente; parecia exorcizá-lo.
Você só dispõe de mais alguns dias de prazo, Perry Rhodan. Eu o previno! Desfaça-se do ativador celular, senão você ficará grande e forte demais.
Ainda era muito cedo e Cardif-Rhodan havia trabalhado até altas horas. Apesar disso estava parado junto à janela do seu escritório, de onde acompanhava a decolagem em massa das naves esféricas que se dirigiam ao céu tingido pelas cores do amanhecer.
Já conhecia a voz que acabara de soar em seu subconsciente. Ouvira-a todos os dias, desde que regressara de Peregrino. E todos os dias esta insistia para que se desfizesse do ativador, usando quase sempre as mesmas palavras. Concedera-lhe um prazo de cinqüenta dias.
A advertência do Ser fictício de Peregrino só lhe provocou risos.
Cardif soltou uma gargalhada, pois naquele momento revistara mais uma vez os conhecimentos de Rhodan a respeito do Ser Coletivo. Não conseguia dispensar ao Ser atemporal a veneração que Rhodan sentia pelo mesmo.
Uma pessoa que conseguisse enganar nunca mereceria seu respeito. Ele ou Aquilo apenas servia para entregar-lhe as armas criadas por uma tecnologia superior, que exigira em termos precisos. Ele ou Aquilo não passava de um fornecedor de armas.
Cardif dobrou o cotovelo direito e colocou a mão sobre o ativador que trazia no peito. Naquele instante sentia as pulsações de seu corpo, e agora também sentia o fluxo revitalizador que percorria o organismo.
A eternidade estava chegando.
Não chegara para os antis.
Um sorriso de deboche desfigurou seu rosto, um rosto que bilhões de terranos e arcônidas continuavam a contemplar com grande admiração.
Cardif nem imaginava como era feio naquele momento. Muito menos imaginava que dava ao seu rosto, feito à imagem do de Rhodan, feições diferentes, que combinavam com seu caráter originário.
Seus olhos, que de tempos em tempos tinham que ser tingidos a fim de que a coloração vermelha não lhe traísse a identidade, emitiram um brilho frio. Deleitava-se com a desgraça dos outros. A morte do sumo sacerdote Kalal, ocorrida em Utik, provava que Ele ou Aquilo descobrira o roubo dos vinte ativadores pelos antis, o que fez com que agisse imediatamente, modificando a regulagem dos aparelhos sem sair de Peregrino.
Cardif nem se deu conta de que essa suposição não tinha a menor lógica. E nem desconfiou de que Ele, o Ser de Peregrino, pudesse ter descoberto sua trama.
— “...senão você ficará grande e forte demais.”
Para Cardif, essa frase tinha um sentido profético. Ser forte como soberano da Galáxia, grande em espírito. Como essa força e essa grandeza poderiam ser demais?
Contemplou o céu límpido, onde acabara de desaparecer pequena parte da frota. A partida da mesma representava mais um lance do xadrez cósmico. Queria provar a si mesmo que sua grandeza excedia a do pai, e queria mostrar aos antis que não era uma marionete, capaz apenas de desferir golpes mortais.
Seu plano dera início à destruição de Árcon.
Em todos os mundos de Árcon os terranos se preparavam para retornar ao Sistema Solar. O abandono dos postos fatalmente provocaria uma catástrofe no Império Arcônida. A essa catástrofe se seguiria a decadência e a destruição. O domínio do Império Solar representaria o fim de tudo.
Cardif sabia perfeitamente que estava brincando com fogo. Conhecia a força das frotas robotizadas de Árcon. No entanto, não se esquecera de considerar a mentalidade de Atlan no seu plano refinado.
O Imperador Gonozal VIII vivera mais de dez mil anos na Terra, com o nome de Almirante Atlan. Pensava e agia antes como um terrano que como um arcônida.
Para ele, o pacto de amizade representava mais que um pedaço de papel. A ruptura de todos os tratados representaria uma tremenda sobrecarga psíquica para aquele homem. E sob a pressão dessa sobrecarga Atlan fatalmente tomaria decisões erradas. Acontece que cada decisão errada representaria um fator favorável ao Império Solar. Uma avalancha política se seguiria aos tumultos resultantes da retirada dos terranos e do avanço da frota solar. E essa avalancha afastaria Gonozal VIII do trono e imporia a ele, Thomas Cardif, que passava por Rhodan, a obrigação de intervir no grande império.
Intervir... — disse a meia voz e um sorriso sarcástico surgiu em seu rosto.
Para Thomas, a intervenção representaria um processo de subjugação.
A execução do plano acabara de ser iniciada. Não haveria nada que pudesse detê-lo. Ele, Cardif, passara todo mundo para trás.
Dali a pouco, dentro de meia hora, ou talvez mesmo dentro de quinze minutos, todos se veriam diante dos fatos consumados.
Não fora por nada que passara os últimos quinze dias e noites na elaboração do plano em todas as minúcias. Não fora por nada que solicitara um contato direto com o grande cérebro instalado em Vênus. Só mesmo a colaboração do grande dispositivo positrônico possibilitaria a execução coerente de todos os detalhes de um plano dessa magnitude e complexidade.
Parado junto à janela, contemplava o oceano de casas de Terrânia. O panorama nunca deixava de fasciná-lo. Representava uma expressão do poder do Sistema Solar. E a ânsia pelo poder apossara-se de sua mente...
Ainda se lembrava do tempo em que um patriarca dos saltadores queria transformá-lo em administrador. Naquela época rejeitara a proposta em termos ásperos, pois então sentia-se animado apenas pelo desejo de vingança, que o fazia ansiar pela destruição de Perry Rhodan.
Esse desejo de vingança já não era tão forte. Fora substituído em grande parte pelo desejo do poder, mas Cardif não se dava conta disso.
De repente seus pensamentos tomaram outra direção.
Teve a impressão de ver à sua frente os jovens oficiais Brazo Alkher e Stana Nolinow.
Depois de seu regresso da nave cilíndrica Baa-Lo, tripulada por antis, manifestara na sala de comando da Ironduke a suspeita de que ambos eram traidores. Suas declarações nesse sentido provocaram manifestações de incredulidade especialmente no Major Jefe Claudrin. O Marechal Solar Allan D. Mercant também não aceitara a afirmativa de Cardif nesse sentido.
Cardif acenou com a cabeça. Já iniciara o plano secundário, por meio do qual os dois oficiais ficariam livres de qualquer suspeita de traição. Com esse plano, ele mesmo não se defrontaria com perguntas desagradáveis sobre quem poderia ter sabido que ele pretendia ir a Peregrino para pedir certa quantidade de ativadores celulares.
Não foi por decência que Cardif resolveu reabilitar os dois jovens oficiais; era movido apenas por considerações práticas. Se os dois tenentes eram prisioneiros dos mutantes, havia o perigo de que um belo dia conseguissem fugir. E quando isso acontecesse, não teriam a menor dificuldade em provar que não havia revelado aos adeptos do culto de Baalol os detalhes da viagem que o chefe realizara para o planeta Peregrino. Além disso, Cardif não deixou de notar que seus colaboradores mais chegados costumavam fitá-lo com uma expressão que ora era pensativa, ora apavorada, ora desconfiada.
Sempre que isso acontecia, ficava zangado, e invariavelmente decidia que dali em diante agiria, pensaria e tomaria suas decisões da forma que faria Rhodan. Acontece que seu ego era mais forte que sua vontade. Sabia perfeitamente que o saber recebido do pai, em Okul, empalidecia lenta mas seguramente.
A transmissão do saber realizada às pressas em Okul, não foi cem por cento bem-sucedida. Muitos detalhes da vida de Rhodan estavam totalmente ausentes. Muitas vezes sentia-se apavorado ao perceber uma lacuna no saber recebido de Rhodan. Quando fez essa constatação pela terceira vez, resolveu transformar-se num homem solitário para evitar acontecimentos desagradáveis.
Sabia que teria de viver solitariamente por vários anos, até que chegasse o dia de os primeiros colaboradores tomarem a ducha celular.
Ele mesmo possuía o ativador e por isso não precisava da ducha celular. Acontece que Reginald Bell precisava, mas não a receberia. Nenhum dos velhos amigos de seu pai a receberia. Queria que todos morressem. Queria cercar-se de seus próprios amigos para nunca mais ver nenhum dos rostos que durante toda a vida lançavam olhares de admiração para Perry Rhodan — o homem que odiava profundamente por ter assassinado sua mãe.
Às suas costas, o aparelho de intercomunicação chamou.
Virou-se lentamente, sentou-se junto à escrivaninha e olhou para a direita, onde ficava a tela de comunicação visual.
Era o oficial de plantão da grande estação de hiper-rádio. Havia um chamado de Árcon I, o mundo de cristal.
O Imperador Gonozal VIII queria falar com Perry Rhodan.
A tela mostrou o sinal que anunciava as palestras oficiais do imperador. Depois desapareceu e deu lugar ao rosto marcante de Atlan.
Perry Rhodan — gritou o imperador para o amigo, superando um abismo de 34.000 anos-luz. — Acabo de saber que você deu ordem para que dentro de cinco dias todos os terranos que trabalham no Império de Árcon voltem à Terra. Será que você poderia explicar o que espera conseguir com isso, bárbaro? E permita que lhe diga que me senti profundamente chocado com essa ordem, que me faz duvidar de sua lealdade?
Gosto de ouvi-lo falar com arrogância, almirante — disse Cardif-Rhodan em tom cínico. — Seu chamado me surpreende. Eu não lhe expliquei por ocasião de nossa última palestra, há uma semana, que preciso mobilizar todos os recursos humanos para cumprir o novo plano decenal do Império Solar? Será que você tem coragem de me acusar de não o ter avisado e de ter agido sem você saber? Ora, almirante, não posso conformar-me com nenhuma dessas acusações.
O rosto do arcônida assumiu uma expressão rígida. Seguiu-se uma pausa de muitos segundos. O receptor zumbia em tons ora mais altos, ora mais baixos.
Você poderia fazer o favor de explicar por que há algumas horas parte da Frota Solar seguiu em direção ao grupo estelar M-13, Perry Rhodan? — perguntou Atlan, depois de algum tempo.
Realmente, parte da Frota está a caminho, almirante — respondeu Cardif-Rhodan, em tom frio. — Essa é outra pergunta que me deixa perplexo. Primeiro, segundo o tratado por nós celebrado, a Frota Solar tem permissão de penetrar à vontade no Império de Árcon e dele sair sem ser incomodada. Depois, acontece que nem Árcon nem o Império Solar dispõem das estações transmissoras com que está equipado o Sistema Solar; até parece que você se esqueceu disso. As naves saíram para recolher os terranos e trazê-los de volta ao nosso planeta. Será que você viu uma ameaça na aproximação de nossas naves?
O rosto do arcônida assumiu uma expressão ainda mais sombria. Sua voz parecia trovejar quando disse:
Terrano, se eu não visse seu rosto na tela, seria capaz de jurar que estou falando com um estranho. Acontece que a pessoa que vejo diante de mim não é um estranho, mas um homem que acaba de revelar seu verdadeiro caráter.
Você escolheu o momento mais favorável, Rhodan. Você sempre soube quando podia golpear e quando devia esperar. Meus cumprimentos, bárbaro! E eu que fui idiota a ponto de acreditar que você era um homem decente. E olhe que vivi bastante na Terra para saber como são vocês. Meus parabéns, seu patife!”
Cardif-Rhodan ouviu as palavras do arcônida sem pestanejar. Com um sorriso cínico disse:
Imperador, fique sabendo que Perry Rhodan nunca se esquece de uma ofensa recebida. Você pagará por isso. Para evitar outros mal-entendidos quero deixar bem claro que eu e o Sistema Solar não estamos dispostos a continuar a apoiar um ajuntamento de degenerados. Um belo dia, até mesmo a melhor boa vontade em ajudar a alguém chega ao fim. O Sistema Solar não é nenhuma instituição de caridade, Imperador Gonozal.
O arcônida não perdeu o autocontrole.
Perry Rhodan, fico-lhe muito grato por sua extraordinária sinceridade. Já enxergo as coisas como realmente são. Será que nestas condições você ainda acredita que suas naves poderão viajar à vontade no Império de Árcon? Avise suas unidades que, neste mesmo instante, as frotas robotizadas de Árcon serão colocadas em estado de prontidão e receberão uma programação que fará com que cacem qualquer nave terrana que procure penetrar em nosso sistema.
Será que isso significa uma ameaça de guerra, imperador? — perguntou Cardif-Rhodan em tom frio.
Confiava inteiramente no raciocínio do computador positrônico de Vênus, segundo o qual havia uma probabilidade de 67,4% de que Árcon não estaria em condições de sustentar uma guerra contra o Sistema Solar.
Rhodan, não fui eu que usei a palavra guerra. Não quero passar para a História como o destruidor de grande parte da Galáxia. Não possuo essa ambição criminosa.
Suas naves robotizadas não me impedirão de cuidar do regresso dos terranos que deverão retirar-se de Árcon, imperador! — exclamou Cardif-Rhodan.
Rhodan e Atlan nunca costumavam chamar-se pelo título. Por isso o arcônida achou muito estranho que de repente Perry Rhodan o chamasse de imperador.
Rhodan — a voz de Atlan adquiriu um tom de súplica. — Acabo de eliminar a palavra amizade do meu vocabulário. No entanto, apelo para seu bom senso: não prossiga nesse jogo. Não se esqueça de que as vidas de bilhões de criaturas estão em jogo. E lembre-se de que a Terra também poderá ser destruída. Repito, Rhodan: se as unidades de sua frota penetrarem em Árcon...
O arcônida que se encontrava no distante mundo de cristal ficou em silêncio.
Notara pela imagem projetada na tela que Rhodan virará a cabeça. Perry fitava outras telas que ficavam à esquerda da escrivaninha.
Aguçou o ouvido. O homem de Árcon I ficou perplexo ao ouvir que vinte e um grupos poderosos da frota terrana acabavam de saltar para dentro do grupo estelar M-13, vindos do hiperespaço.
Mais uma vez Atlan assustou-se com o cinismo que Rhodan demonstrou para com ele.
Atlan, espero que você não procure impedir minhas naves de recolher os terranos que deverão retornar ao Sistema Solar. Na minha opinião, você perdeu o momento oportuno de uma reação militar favorável.
Os olhos avermelhados do arcônida fitavam o rosto do ex-amigo com uma expressão de desespero. Em vão procuravam os traços com que estavam familiarizados.
Atlan viu a imagem de um homem totalmente estranho, e as palavras de Rhodan se revestiam de uma estranheza assustadora.
Atlan manteve-se em silêncio. O hiper-rádio voltou a emitir um zumbido irregular.
A uma distância de 34.000 anos-luz, o olhar de Atlan parecia penetrar o homem que, segundo acreditava, era Rhodan.
Terrano — disse depois de algum tempo. — Ainda hoje será decretada a mobilização geral no Império de Árcon. Prepare-se! É só o que tenho a lhe dizer.
O sósia de Rhodan manteve-se em silêncio. Continuou a fitar o rosto de Atlan projetado na tela, até que este desligasse.
Levantou-se e foi novamente à janela.
A seus pés estendia-se o imenso oceano de casas de Terrânia.
Para ele, o quadro possuía um significado simbólico. O poderio do Império Solar jazia a seus pés.


Há meses Rhodan dissera que o imperador de Árcon era um pobre-diabo. Referia-se ao cerimonial da corte imperial, que transformava Atlan num escravo da etiqueta.
Não era nisso que o arcônida estava pensando enquanto lia as notícias vindas de todas as partes do império, que subitamente confluíam a Árcon I e sempre diziam a mesma coisa: os terranos se retiravam atabalhoadamente, grandes formações da frota terrana surgiam no império, notava-se uma atividade extraordinária da Segurança Solar no seio do Império Arcônida.
A essa altura achava que a designação de “pobre-diabo” referia-se exclusivamente a ele mesmo.
Dispensara a Rhodan, o terrano, a confiança que só se costuma dispensar ao melhor amigo. Prejudicara muita coisa em virtude dessa amizade; fizera muita coisa em benefício de Rhodan e à custa do império.
E agora esse sujeito o traíra de forma tão vergonhosa. E não era só isso. Declarara-lhe cinicamente que o Império de Árcon, habitado por uma raça degenerada, apenas representava um fruto maduro a ser colhido pela Frota Solar.
Atlan recorreu ao setor lógico de seu cérebro. Conforme se conclui das próprias palavras, o funcionamento dessa parte do cérebro baseava-se na lógica pura, e não estava sujeito à interferência dos sentimentos e de outros fatores que poderiam provocar um desvio. Além disso, deixava de considerar a traição cometida por Rhodan.
Essa traição era um simples fato, tal qual a retirada dos terranos que trabalhavam no Império de Árcon e a invasão da frota terrana. Para o setor lógico, não importava que o fato fosse bom ou mau.
A única saída dessa situação catastrófica será uma aliança militar com o Sistema Azul! — balbuciou em conformidade com seu setor lógico.
O arcônida, que fora obrigado a viver por mais de dez mil anos na Terra e sentia uma simpatia toda especial pelo gênero humano, fez um sinal de assentimento para a conclusão a que chegara seu setor lógico.
E passou a agir de acordo com essa conclusão.

* * *

O Grande Conselho de Ácon estava reunido em assembléia extraordinária.
Uma série de boatos corria em Sphinx ou Drorah, o quinto mundo iluminado pelo sol branco-azulado. Pelo que se dizia, há algumas horas fora recebido um pedido de socorro de Gonozal VIII, Imperador de Árcon. Nele se teria solicitado auxílio para enfrentar a ação do terrano Perry Rhodan, que tentava abalar a estrutura do Império de Árcon, a fim de apoderar-se do mesmo.
Com exceção de alguns altos personagens do governo, ninguém sabia em Ácon se esses boatos correspondiam à verdade ou não. No entanto, a própria reunião do Grande Conselho provava que grandes coisas estavam para acontecer na área da política galáctica.
Os boatos provocaram inesperado efeito psicológico no seio do Sistema Azul.
De repente os arcônidas, que por mais de vinte mil anos haviam sido considerados um grupo de descendentes degenerados dos acônidas e há poucos meses se tinham transformado num perigo iminente para o Sistema Azul, em virtude de uma aliança com o terrano Rhodan, voltaram a ocupar um lugar no coração dos acônidas.
Os acônidas sentiram-se dominados pelo sentimento misterioso que garante a coesão de toda e qualquer raça. Compartilharam os sentimentos dos arcônidas ameaçados, e suas simpatias passaram a ser dedicadas exclusivamente aos colonizadores que há mais de vinte milênios haviam dado as costas ao seu mundo de origem.
Os acônidas nem se deram conta se agiriam movidos por uma questão de sentimento. Seu instinto lhes dizia que o terrano Rhodan e sua poderosa frota representavam a maior ameaça à sua segurança. Ainda não se haviam recuperado da derrota que Rhodan lhes infligira.
Os órgãos executivos do Grande Conselho já haviam estendido suas antenas em todas as direções, a fim de averiguar os sentimentos do povo. A assembléia extraordinária foi aberta com a revelação de que qualquer ação destinada a ajudar o Império de Árcon poderia contar com o apoio do povo acônida.
Entre os membros do Conselho havia uma mulher. Era Auris de Las-Toor, uma jovem acônida de rara beleza e grandes encantos. Entre os acônidas era considerada a maior especialidade no que dizia respeito aos terranos e ao Império Solar. Ninguém conhecia os terranos melhor que ela. A jovem vira o Administrador do Império Solar bem de perto e também tivera um encontro com Gonozal VIII, Imperador de Árcon, que costumava ser chamado de Atlan por Rhodan.
O velho Sa-Ga declarou aberta a assembléia extraordinária do Grande Conselho. Em breves palavras anunciou que todos os membros haviam comparecido e a seguir passou à leitura da mensagem de Gonozal VIII. Depois disso disse que concederia a palavra a quem dela quisesse fazer uso para discutir a mensagem.
Lempart de Fere-Khar, o primeiro chefe que fora convocado, começou a falar. Chamou a atenção dos presentes para os vínculos raciais que existiam entre os acônidas e os arcônidas, e realçou discretamente o perigo que os terranos representavam para o Sistema Azul. Dedicou apenas três frases ao entreposto comercial terrano instalado em seu planeta. Foi justamente a discrição com que falou que deu peso aos seus argumentos. Teve a habilidade de aludir somente no fim de seu discurso ao entreposto comercial solar estabelecido em Drorah. Preferiu mesmo não o apontar como uma base militar disfarçada.
Além de Lempart de Fere-Khar, mais oito acônidas fizeram uso da palavra. Três desses acônidas eram peritos em assuntos militares. Jogavam com cifras.
Sua exposição terminou numa exigência:
O Império de Árcon deverá ceder ao Sistema Azul mil espaçonaves do último tipo. E o Império de Árcon deverá obrigar-se a colocar acônidas submetidos a treinamento hipnótico nos postos-chave da frota arcônida.
A resposta constituiu num murmúrio de aprovação. Um único membro do Conselho não concordou com as exigências. Era Auris de Las-Toor.
Pediu a palavra.
Pois não! — disse o velho Sa-Ga, e seus olhos sábios fitaram-na com uma expressão de curiosidade.
Numa introdução habilmente concebida Auris ressaltou que não poderia pronunciar-se sobre as considerações dos perigos militares, já que essa área lhe era estranha. No entanto, tinha muitas ponderações a fazer sobre o juízo leviano que acabara de ser formulado a respeito dos terranos.
Fez questão de enfatizar as palavras “leviano” e “muitas”.
Abordou o recente passado. Referia-se exclusivamente ao terrano Perry Rhodan. Despertou nos membros do Conselho a lembrança dos inúmeros acontecimentos dos últimos tempos. Uma vez conseguido isso, formulou algumas perguntas em tom professoral:
Como teríamos agido se estivéssemos no lugar de Rhodan? A Galáxia não teria sido atingida pela guerra, pela destruição e pela morte? Se estivéssemos no lugar de Rhodan, não teríamos destruído totalmente esses acônidas arrogantes?
Essas perguntas representavam uma verdadeira monstruosidade. Auris teve de ouvir ásperas respostas, pois suas palavras haviam despertado o nervosismo e mesmo a indignação dos membros do Conselho.
Mas Auris de Las-Toor não deixou que os apartes a interrompessem. Transformou-se numa defensora de Perry Rhodan.
Não é possível que a situação do império seja realmente a que o Imperador Gonozal VIII expôs. Não é possível que o terrano Rhodan tenha traído seu amigo, o imperador. Deve haver algum mal-entendido, ou então surgiram circunstâncias que não podem ser avaliadas à distância a que nos encontramos.
Como membro deste Conselho não posso deixar de formular uma advertência. Não vamos apressar-nos em prometer o auxílio solicitado pelo Imperador Gonozal VIII. Vamos recorrer aos subterfúgios diplomáticos. O Grande Conselho tem o dever de averiguar a verdadeira natureza dos mal-entendidos assustadores que surgiram entre o Império de Árcon e Perry Rhodan.
Posso garantir que Perry Rhodan não seria capaz de cometer a traição de que o arcônida o acusa. Rhodan é um terrano que sabe dar o devido valor a uma vida humana; por isso também sabe quanto vale possuir amigos.
Grande Conselho, faço uma prece para que a sabedoria dos deuses e a compreensão dos grandes do nosso povo não nos abandonem neste momento, e que nos ajudem a tomar uma decisão adequada.”
Quando Auris de Las-Toor voltou a sentar-se, foi acompanhada pelos olhares dos membros do Conselho. Ninguém conseguiu subtrair-se à impressão produzida por suas palavras. Mas o terceiro perito militar voltou a pedir a palavra.
Desfez os argumentos de Auris, procedendo com uma lógica na qual não havia lugar para os sentimentos. E o material estatístico oferecido era esmagador.
No momento em que o perito voltou a sentar-se, a decisão já estava tomada, antes que se passasse à votação.
Com um único voto contrário decidiu-se prestar ao Imperador Gonozal VIII o auxílio de que Árcon precisava.
Dali a uma hora, a maior emissora do Sistema Azul transmitiu ao grande império a resposta do Conselho. Essa resposta consistia exclusivamente em condições que, no seu conjunto, representavam uma série de grilhões que deixariam Atlan quase sem liberdade para agir a seu modo.

* * *

O número dos robôs de guerra arcônidas que protegiam o imperador no interior do Palácio de Cristal de Árcon I fora triplicado.
Fazia uma hora que o centro de computação de Árcon III lhe transmitira a mensagem vinda do Sistema Azul, juntamente com a interpretação de seu conteúdo.
O enorme centro de computação de Árcon III prevenira o imperador para que não aceitasse a proposta. Sugeriu que se arriscasse o confronto com o Sistema Solar.
A interpretação lógica revelou que a relação de forças seria de 58 por 42 a favor do Império de Árcon, desde que o imperador conseguisse obter o auxílio dos mercadores galácticos ou dos sacerdotes de Baalol.
Atlan já havia lido pelo menos vinte vezes a interpretação do gigantesco cérebro positrônico. De repente perdeu o autocontrole.
A coisa ficou maluca! Esse cérebro não passa de um idiota! Quer que nos aliemos aos antis. São piores que Rhodan!
Tinha toda razão para desconfiar do resultado da interpretação realizada pelo gigantesco centro de computação de Árcon III. O gigante positrônico nunca se mostrara capaz de formular um juízo correto a respeito de Perry Rhodan. O terrano sempre conseguira enganar o cérebro positrônico por meio de lances geniais, totalmente inesperados, já que o cérebro “pensava” segundo a lógica arcônida e não estava em condições de adaptar-se à mentalidade humana.
Os olhos avermelhados de Atlan chamejavam. Tresnoitado e profundamente abalado com a traição inconcebível cometida pelo amigo, examinava a mensagem vinda de Ácon, a interpretação das condições contidas na mesma e o parecer do centro de computação.
Ora, os mercadores galácticos! — disse com a voz apagada. — Só estão esperando para fazer o melhor negócio de sua vida. Eles se mostrarão frios e irônicos quando eu solicitar seu auxílio. Dos antis nem se cogita. Acho que você conseguiu, Rhodan. Já se foram os tempos em que Árcon era um império independente.
Lançou um olhar contrariado para o resultado da interpretação: 58 por 42. Não podia ser correta. A razão certa seria de 80 por 20, a favor do Império Solar.
Apoiou a cabeça nas mãos.
Achava-se desesperado e jamais se sentira assim em sua longa vida.
Não compreendo! Não consigo compreender. Por mais que me esforce, não consigo! — repetia constantemente.
Pobre-diabo!
Tinha a impressão de que ouvia essas palavras da boca de Rhodan.
Uma pessoa que pretende trair alguém não lhe dirige estas palavras!
Atlan prestou atenção às suas palavras. Voltou a rememorar a situação em que Rhodan o chamara de pobre-diabo.
Atlan conhecia os homens, conhecia seus lados bons e maus, também conhecera muitos traidores, mas não conseguia compreender o porquê da traição de Rhodan.
O gordo, ou então Mercant ou Deringhouse... — pegou o microfone e pediu uma ligação de hiper-rádio com Terrânia. Pretendia falar com Reginald Bell.
Seguiu-se a espera martirizante.
Essa espera foi encurtada por novas notícias alarmantes.
Cerca de vinte e oito mil espaçonaves terranas encontravam-se no centro do grupo estelar M-13. Suas posições tornavam-se cada vez mais inconfundíveis. Circulavam em formação, bem próximas dos fortes estelares mais importantes do Império Arcônida.
Atlan não precisou de nenhum mapa estelar para compreender que essa demonstração de força provava a situação de impotência em que se encontrava seu império.
Além disso, a atuação da Frota Solar provava que esta seguia um plano elaborado com um cuidado extraordinário. O arcônida que se encontrava no Palácio de Cristal reconheceu ao primeiro relance de olhos a estratégia genial de Perry Rhodan.
Finalmente a ligação de hiper-rádio foi estabelecida.
A voz metálica do robô que trabalhava na central do Palácio de Cristal disse:
Eminência, mister Reginald Bell, em Terrânia, Terra, está pronto para falar.
A tela que se encontrava ao lado do imperador iluminou-se. Atlan esperou que o rosto largo de Bell aparecesse na mesma.
E começou a falar. Bell ouviu o que Atlan tinha a dizer. Vez por outra acenava com a cabeça. Finalmente chegou sua vez de falar.
Arcônida, há três dias o chefe não permite que ninguém dialogue com ele. Colocou-nos diante de uma série de fatos consumados. A todos nós, sem exceção. É bem provável que esteja ouvindo nossa palestra. Ainda bem. Dessa forma ao menos tenho uma oportunidade de deixar claro meu ponto de vista.
O imperador interrompeu-o em tom impaciente.
Bell, não estou interessado em ouvir discursos. Não tenho tempo para isso. Por que vocês não puseram um freio à traição cometida por Rhodan?
Bell respondeu sem pestanejar:
Porque há poucas semanas o Parlamento concedeu poderes ditatoriais a Rhodan. Mercant, Freyt, todos nós estamos com as mãos amarradas. Temos de obedecer, senão... Você compreende nossa situação?
Acontece que não compreendo a traição de Rhodan.
Você acha que nós compreendemos sua maneira de agir? — respondeu Bell em tom violento, respirando profundamente. — O chefe só pode estar doente. É a única explicação para as modificações havidas com ele, Atlan.
A resposta do Imperador Gonozal VIII também foi proferida em tom violento:
Os terranos não viviam se orgulhando de serem individualistas? Onde está esse individualismo? O que é feito de sua formidável iniciativa? E da disposição de assumir riscos? Terrano, eu lhe garanto que não me sinto nada à vontade ao dizer-lhe que me sinto enojado.
O homem atarracado berrou a uma distância de 34.000 anos-luz:
Compreendo perfeitamente que você tenha raiva de nós, Atlan, mas peço-lhe que procure compreender que, desde seu regresso de Okul, a mente de Perry está enferma...
Isso seria mais um motivo para que você ocupasse seu lugar! — interrompeu Atlan.
Reginald Bell fez um gesto de cansaço.
Quem poderia adivinhar que o chefe estava tão doente? Ninguém. Nem mesmo os médicos. Afinal, por que você acredita que o pior está para acontecer, arcônida?
Porque as coisas não poderão ficar piores. Com a retirada dos terranos, meu império foi arrastado para a beira do precipício. Não posso continuar a manter-me inativo. Vou agir. Tomarei as providências que a situação exige.
Atlan fez menção de interromper a palestra infrutífera, mas Bell apressou-se em responder:
Por que você acredita que o pior está para acontecer?
O Imperador Gonozal VIII estacou. Era a segunda vez que Bell formulava essa pergunta. Atlan respondeu num tom que quase chegava a ser hostil:
Perdi a confiança nos terranos. Só tenho um desprezo infinito para os mesmos.
Com estas palavras desligou.
A sorte acabara de ser lançada.
Não tinha outra alternativa senão aceitar as condições do Sistema Azul.
De qualquer maneira, os dias de independência do gigantesco império estelar de Árcon estavam contados.
Perry! — exclamou Atlan. Era apenas uma exclamação... Procurou ouvir em meio ao silêncio da sala.
Mas esforçou-se em vão.
Não ouviu nada.
No interior do Império de Árcon, as frotas do Sistema Solar cruzavam em posição de ataque.
Thomas Cardif escutara a palestra que Atlan e Reginald Bell travaram pelo hiper-rádio. Quando Bell falou na doença mental de Rhodan e nas alterações de seu caráter, um sorriso de satisfação surgira em seu rosto. Mas uma pergunta fizera com que aguçasse o ouvido: “Por que você acredita que o pior está para acontecer?
Imaginava quais eram os planos de Bell, Mercant, Freyt e Deringhouse.
Mas tomara suas providências para esse caso. Nenhum deles conseguiria realizar seu intento.
A noite descera sobre Terrânia. A faixa macia da Via Láctea brilhava no céu límpido. Milhões de sóis reduzidos a pontos luminosos enviavam sua luz à Terra. Thomas Cardif ergueu os olhos para os mesmos, mas o que animava seu gesto não era a veneração, mas a sede do poder.
O herdeiro do Universo era ele, o filho de Rhodan.
Olhou para o porto espacial, que ficava bem distante. Viu uma pequena esfera banhada pela luz dos holofotes. Era a Ironduke.
Hum... — limitou-se a dizer.
O aparelho de intercomunicação emitiu um sinal.
Colocou-se à frente do mesmo. Um lacônico “sim”, que em Terrânia todos já começavam a temer, saiu de seus lábios.
O Marechal Solar Mercant deseja falar com o administrador a respeito de Nolinow e Alkher — anunciou a central.
Muita gente tentara falar com ele nos últimos dias, depois que a Frota Solar decolara com destino a Árcon. E ele, Perry Rhodan, não recebera ninguém.
Mas resolveu fazer uma exceção. Sabia por quê.
Aguardo Mercant! — disse para dentro do microfone.
Esperou calmamente que o chefe do Serviço de Segurança aparecesse. Confortavelmente sentado na poltrona e totalmente descontraído, sentia-se senhor da situação. Deixou que o tempo passasse. De repente seu ativador celular voltou a funcionar.
Sentiu um fluxo que se dirigia do aparelho para seu corpo.
Era a vida eterna que lhe estava chegando.
Mas no mesmo instante ouviu no subconsciente a risadinha que já conhecia tão bem. Era a forma pela qual Ele ou Aquilo anunciava sua presença diária.
Cardif não prestou muita atenção à voz que se fez ouvir em seu interior. A advertência estereotipada começou a entediá-lo:
Se não quiser ficar grande e forte demais, Perry Rhodan, livre-se do ativador celular.
Esta mesma frase voltou a soar. Cardif esforçou-se para não ouvi-la. Mas subitamente estacou. Hoje o Ser fictício de Peregrino falava mais que de costume.
Perry Rhodan, você ainda dispõe de um dia para livrar-se do aparelho. Não se esqueça de que uma grandeza excessiva pode ser um mal. Você sabe o que faz, Perry Rhodan!
Sua reação a estas palavras consistiu apenas num sorriso de desprezo. Seu fornecedor de armas de Peregrino não era a grande entidade espiritual que Perry Rhodan sempre vira nele.
Ele, Thomas Cardif, descobrira até onde chegava a capacidade do Ser. Notara por experiência própria que a faculdade de compreender o pensamento alheio, de que era dotado o Ser coletivo, tinha seus limites.
Conseguira enganar o Ser de Peregrino. E nem pensava em desfazer-se do ativador.
E Ele se despediu de Thomas Cardif com aquela risada indescritível. Os últimos sons desta risada fizeram-se ouvir no momento em que o Marechal Solar Mercant entrou, apesar da hora avançada da noite.
Faça o favor de sentar, meu caro Mercant — convidou Cardif-Rhodan em tom amável. — Quais são as novidades? Problemas políticos no sistema de Árcon? Ou será que se trata de um ataque das naves robotizadas arcônidas à nossa frota? Ah, sim! Acabo de me lembrar, Mercant. O senhor veio por causa de Alkher e Nolinow. Alguma novidade a este respeito?
Mercant limitou-se a acenar com a cabeça. Colocou a pasta que segurava na mão sobre a mesa de centro.
Sir, existem novidades espantosas. Infelizmente, em seu conjunto, são por demais misteriosas.
Cardif-Rhodan inclinou-se para a frente. Parecia curioso.
O marechal solar iniciou seu relato.
Sir, nestas últimas horas tivemos várias surpresas. Estas surpresas tiveram início quando, entre outros veículos espaciais estacionados no interior da Ironduke, o jato espacial em que o senhor, Alkher e Nolinow voaram para Peregrino foi submetido a uma inspeção de rotina. Num canto, sob o painel de controle da sala de comando, foi encontrado um microtransmissor.
O quê? — a surpresa de Cardif-Rhodan foi muito bem fingida. — Na sala de comando do jato espacial...? É um aparelho do tipo que foi descoberto na musculatura dos braços do anti encontrado no entreposto comercial dos saltadores em plutão?
Não, senhor. É bem verdade que não existe a menor dúvida de que o microtransmissor foi produzido nas oficinas dos swoons. Esse transmissor liliputiano deve ter sido introduzido no jato espacial de uma forma que por enquanto representa um mistério para mim...
Faça o favor de ser mais breve, Mercant. Essa noite não estou disposto a resolver enigmas. O que há com esse transmissor? Quais são as finalidades preenchidas pelo mesmo?
Era uma atitude típica de Rhodan. O mesmo nunca apreciara as falas prolongadas. Sempre fazia questão de ouvir apenas o que importava.
O microtransmissor — principiou Mercant — funcionava com a energia fornecida pelo computador do jato espacial, que ao mesmo tempo lhe fornecia a posição do veículo. O alcance do transmissor é de cem anos-luz.
Se Mercant esperava qualquer reação do chefe, sentiu-se decepcionado.
O transmissor captava qualquer palestra travada no interior do jato espacial e a irradiava sob a forma de impulsos concentrados. A duração de cada impulso era pouco inferior a um quinto milésimo de segundo. O aparelho estava em condições de transmitir enquanto o propulsor do jato espacial estivesse funcionando. Realizamos ensaios de laboratório e constatamos que o aparelho deixou de funcionar no momento em que os antis envolveram o veículo num campo mental, tornando-o incapaz de voar.
Hum... — respondeu o sósia de Rhodan, e conseguiu fitar Mercant com uma expressão pensativa. — Dali talvez se deva concluir que minhas suspeitas para com os tenentes Stana Nolinow e Brazo Alkher não se justificavam. Mercant, se a informação que o senhor acaba de me dar for correta, serei o primeiro a desculpar-me formalmente perante os dois, isso naturalmente se ambos não estiverem mortos. Seria um prazer reabilitá-los em público. Como é que alguém poderia saber que eu voaria justamente com a 1-09?
Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Mercant. Sua alegria não era causada exclusivamente pelo interesse que o chefe acabara de demonstrar. Pela primeira vez nessas últimas semanas tinha a impressão de ver-se diante do velho Perry Rhodan, diante de um Rhodan sadio, de um homem que praticava com a maior facilidade a arte da condução de homens, que é impossível de ser ensinada. A pergunta que acabara de formular ressaltava tudo isso.
Sir, também andamos quebrando a cabeça com esta pergunta, até o momento em que interrogamos o oficial do hangar. Ele disse que se guiou pela idéia de que, se o chefe queria usar um jato espacial, o mesmo deveria receber o aparelho mais moderno. E o sujeito que colocou o microtransmissor num canto, embaixo do painel de controle, deve ter partido do mesmo pressuposto. Eu...
Um momento, Mercant. Eu me sinto culpado. Antes que prossigamos em nossa palestra, quero pedir-lhe uma coisa. Transmita uma declaração circular de hiper-rádio dirigida a todos os membros da Frota Solar, segundo a qual lamento ter acusado os dois tenentes de traição e não deixarei de pedir desculpas formais, se ambos regressarem à Terra. Mais alguma coisa, Mercant?
Sir — principiou o chefe do Serviço de Segurança. — Devo ressaltar que seus colaboradores mais chegados não concordam com a ação que a Frota Solar vem desenvolvendo no Império de Árcon.
Cardif-Rhodan levantou-se. Mercant calou-se. Naquele instante viu sepultado um minúsculo raio de esperança.
Mercant, ainda tenho algum trabalho a fazer — disse Cardif-Rhodan.
O marechal solar fez uma ligeira mesura, pegou sua pasta com documentos e retirou-se.
Sentiu um calafrio. O caráter estranho que repentinamente passou a ser irradiado por Perry Rhodan era assustador. Mercant, que era um perito competentíssimo em sua área, nem desconfiava que o homem que, segundo acreditava, era seu chefe enfermo, o enganara no caso Alkher-Nolinow por meio do microtransmissor escondido no jato espacial.
Num momento de tranqüilidade, Thomas Cardif chegara à conclusão de que se expusera demais com as acusações formuladas contra os tenentes Alkher e Nolinow. Foi só por isso que resolveu restaurar o conceito dos oficiais que o haviam levado a Peregrino. E, se Mercant e toda a Segurança Solar quebrariam a cabeça para descobrir quem instalara o microtransmissor no jato espacial, isso não o interessava nem um pouco. O marechal solar nunca pensaria que o chefe em pessoa poderia ter escondido o microtransmissor no veículo espacial depois de seu regresso à Terra.
Lançou um olhar rápido para o relógio.
Eram 3:18 h, tempo de Terrânia. Dali a uma hora o dia começaria a raiar. Para as 4:30 h tinha encontro marcado com um homem que naquela noite viera à Terra com uma nave cargueira cilíndrica. Pertencia a um clã dos mercadores de Aralon, o mundo dos médicos galácticos, e lhe transmitira lembranças de Fut-Gii.
Um rosto desconhecido fitara-o da tela. Não lhe teria dado um minuto de atenção se não tivesse sido pronunciada a senha Fut-Gii.
Fut-Gii fora um saltador insignificante. Talvez ainda estivesse vivo, se não tivesse cometido o erro de recusar-se a trabalhar para os antis.
Pouco depois dessa recusa, Fut-Gii sofreu um acidente fatal. Morrera por ordem dos antis.
Thomas Cardif conhecia os fatos. Durante quase cinco decênios trabalhara como médico para os adeptos de Baalol, usando o nome Edmond Hugher. Durante esse tempo não conhecia sua verdadeira identidade. Um bloqueio hipnótico inalterável que lhe fora imposto por uma máquina instalada em Árcon III impedia que se lembrasse de que era o filho de Perry Rhodan.
Durante um ataque da Frota ao templo de Baalol no planeta Lepso, os antimutantes haviam descoberto e removido o bloqueio hipnótico que fora imposto a Edmond Hugher.
Thomas Cardif despertou de um sono que durara cinqüenta e oito anos. Voltou a saber quem era e não se esqueceu de nenhuma das experiências que fizera durante os seis decênios em que usara o nome Edmond Hugher.
Seu ódio ao pai cresceu ao infinito. Sentiu-se roubado dos melhores anos de vida, e não se esqueceu de que — segundo lhe constava — Rhodan era culpado da morte de sua mãe Thora.
Agora parecia encontrar-se próximo ao objetivo final. Perry Rhodan fora colocado fora de ação e como prisioneiro dos antis estava escondido em algum lugar da selva estelar. Ele mesmo se fez passar por Perry Rhodan e há poucas semanas conseguiu que o Parlamento lhe conferisse poderes ditatoriais. E os acontecimentos dos últimos quatro dias provavam de que forma usava esses poderes.
O Império de Árcon estava prestes a desabar. A Frota Solar só esperava o momento em que deveria apoderar-se dos mundos mais importantes do império estelar.
O fato de que há poucas horas um agente dos sacerdotes de Baalol se anunciara com a senha Fut-Gii não lhe causava maiores preocupações. Possuía um arsenal de argumentos altamente convincentes, que obrigariam até mesmo o mais desconfiado dos antis a colocar-se de seu lado.
Cardif abriu uma gaveta da escrivaninha na qual havia uma variedade espantosa de armas. Tirou cuidadosamente duas armas de choque, certificou-se de que estavam carregadas e escondeu-as sob as vestes.
Após isso anunciou à central telefônica:
Nas próximas três horas não estarei presente.
Entrou no elevador antigravitacional e subiu ao campo de pouso construído na cobertura do edifício. Ali havia constantemente três planadores à sua disposição. Os dois robôs que vigiavam um grupo de doze planadores dirigiram seus raios sobre ele, identificaram-no como Perry Rhodan e não lhe deram mais a menor atenção.
Thomas Cardif entrou no veículo mais veloz. O propulsor começou a trabalhar com um ruído leve. No pequeno painel que se encontrava à sua frente as luzes verdes se acendiam. Finalmente a luz central começou a brilhar.
O planador estava pronto para entrar em ação. Cardif fê-lo subir. Preferiu não ligar o farol. Subindo cada vez mais, tomou exatamente o rumo oeste e foi deixando para trás o oceano de casas de Terrânia. Dirigia-se à região que há uns cento e cinqüenta anos ainda fora a área mais quente do deserto de Gobi.
Seguia uma rota desconhecida. Fora percorrida muitas vezes, tanto por ele como pelo verdadeiro Perry Rhodan. No fim dessa rota ficava um pequeno bangalô que há trinta anos fora dado de presente ao terrano Rhodan, porque um cruzador da Frota Solar salvara a nave bastante avariada de seu patriarca do naufrágio espacial.
Em meio ao alvorecer cinzento do novo dia, Thomas Cardif pousou o planador entre as árvores do parque que se estendia à frente do bangalô.
Desligou o propulsor, saiu do veiculo e, sem olhar para a esquerda ou para a direita, dirigiu-se ao amplo terraço. Naquela região solitária não precisava preocupar-se com sua segurança. Um grupo de trinta robôs de guerra regulados exclusivamente para suas vibrações individuais e submetidos a uma programação rigorosíssima submetiam o grande terrano a uma vigilância ininterrupta.
Cardif, que estava familiarizado com todos os detalhes do terreno, atravessou o terraço, entrou no bangalô e, só quando chegou à sala de visitas, acendeu a luz. Dirigiu-se à única parede livre, fez a mesma rolar para trás e viu-se diante de um painel de controle. Colocou a chave mestra em outra posição. Uma tela até então invisível passou a mostrar o tremeluzir característico.
Era uma tela localizadora, que reproduzia o espaço aéreo acima do bangalô, dividido em quadrados.
Cardif verificou as horas. Se o agente dos antimutantes fosse pontual, seu planador deveria surgir na tela, dentro de alguns minutos.
Assim que este pensamento passou pela cabeça de Cardif, um ponto fulgurante surgiu no quadrado 2-leste e deslocou-se lentamente em direção a 5-leste. Cardif ligou o rádio de pequena distância.
Quem é? — perguntou laconicamente.
Fut-Gii — respondeu a voz saída do alto-falante.
Para Cardif, essa senha representava o sinal de que devia desativar a força combativa de todos os robôs, até que o planador tivesse pousado.
Isso não representava nenhum risco para Cardif. A sala em que se encontrava estava protegida por um potentíssimo campo defensivo. Além disso, o equipamento de televisão lhe permitia verificar se o agente vinha só.
O veículo pousou junto ao seu planador. A porta abriu-se e um homem desceu.
Cardif ligou a aparelhagem infravermelha.
O equipamento ótico instalado nas proximidades do terraço funcionava automaticamente em acoplamento com o telessetor. Por alguns segundos exibiu o interior do planador que acabara de pousar.
Estava vazio. O agente dos antimutantes viera só.
Satisfeito, Cardif acenou com a cabeça, desligou os controles, fez a parede retornar à posição primitiva e desativou o campo defensivo que envolvia a sala.
Cardif e o agente que lhe transmitira lembranças de Fut-Gii encontraram-se no terraço.
Faça o favor! — disse Cardif, convidando o visitante a sentar.
Este aceitou o convite, pôs a mão no bolso, tirou um objeto e colocou-o na mesa, à frente de Cardif.
É minha identificação — comentou. Era uma minúscula pirâmide-templo, a miniatura do templo de Baalol.
Thomas Cardif devolveu o documento do agente. Compreendeu que o homem que se encontrava à sua frente não era um enviado qualquer, mas um homem investido de todos os poderes. A minúscula pirâmide provava isso, e Cardif conhecia os usos e costumes dos antis melhor que qualquer outro terrano.
Rhabol, o sumo sacerdote, envia-lhe lembranças, Cardif! — principiou o agente sem apresentar-se. — Acontece que todos os servos de Baalol sentem cólera quando se lembram de você. Estão de luto por Ka-lal, sumo sacerdote do planeta Utik, que morreu de uma doença misteriosa, a doença do “farejamento”.
O sorriso silencioso e irritante obrigou o agente a ficar calado.
Diga aos antis, especialmente a Rhabol, que não sou culpado da morte de Kalal — respondeu Thomas Cardif. — Se o ativador celular, entregue a Kalal, deu a este a doença do “farejamento” em vez da vida eterna, a culpa na minha opinião é de Rhabol, que me obrigou a entregar esse ativador.
Meu Serviço Secreto me informou de como morreu Kalal. Seria ridículo responsabilizar-me por sua morte. Não sou o Invisível do mundo Peregrino, que sabe fabricar ativadores celulares. Mas na minha opinião um ser capaz de criar um aparelho, que confere a vida eterna, também deve ser capaz de modificar os efeitos desse aparelho, sem sair de Peregrino, quando este cai ou caiu em mãos não autorizadas...”
Você quer dizer que todos os aparelhos foram modificados, Cardif?
O homem que envergava o uniforme simples do administrador respondeu em tom frio:
Não sou o Ser de Peregrino. Não sei. Mas será que a lógica não nos impõe a conclusão de que, consideradas as circunstâncias que cercaram a morte de Kalal, os outros dezenove ativadores também devem ter sofrido uma modificação? Vocês ainda não sabem o que está acontecendo em Trakarat?
Fez como se não notasse o ligeiro estremecimento de seu interlocutor. Como este se mantivesse em silêncio, prosseguiu:
Você veio munido de poderes extraordinários. Pois bem. Podemos encerrar o tema ligado aos ativadores celulares e tudo que se relaciona com o mesmo. Eu...
O agente interrompeu-o subitamente.
Fui incumbido de informá-lo de que o requerimento dos mercadores galácticos, que querem montar mais trezentos entrepostos comerciais no Império Solar, deve ser deferido imediatamente.
Cardif fitou seu interlocutor com uma expressão de compaixão.
Os servos de Baalol não possuem visão política. Até parece que ainda não sabem do que vem acontecendo nestes últimos quatro dias no Império de Árcon. O grande império está prestes a cair nas mãos do Sistema Solar. Você acha que neste momento histórico vou criar dificuldades políticas no interior de meu império? E é o que acontecerá se eu permitir aos saltadores que, além dos escritórios que já possuem, montem mais trezentos entrepostos comerciais. Nem penso nisso, e muito menos permitirei que alguém me obrigue a fazer uma coisa dessas. Será que os servos de Baalol já se esqueceram de que tudo que resulta em meu benefício também resultará em benefício deles?
O agente respondeu em tom hesitante:
Dispomos de informações dignas de crédito, segundo as quais o Imperador Gonozal VIII pretende formar uma aliança com o Sistema Azul. Nos termos dessa aliança, deverá obrigar-se a colocar à disposição dos acônidas mil espaçonaves do último tipo. Em compensação os acônidas cederão ao imperador oficiais submetidos a treinamento hipnótico para todas as naves arcônidas.
Num instante Cardif recorreu aos conhecimentos que assumira de seu pai. Segundo essas informações, no Sistema Azul a navegação espacial deixara de existir, com exceção das viagens das naves do comando energético. O tráfego de um mundo para outro era realizado por meio de milhares de estações transmissoras de alta potência. Ainda segundo esses conhecimentos, uma aliança entre Árcon e os acônidas traria como conseqüência fatal a submissão do Império Arcônida à soberania do Sistema Azul.
Cardif perguntou em tom indiferente:
O que acha Baalol da intenção de Gonozal, que pretende formar uma aliança com os arcônidas primitivos?
O Império de Árcon é nosso inimigo, Cardif. Será que esta resposta é suficientemente clara?
Não, agente. É muito vaga. Preciso saber o que os antis estão dispostos a fazer. Será que irão apoiar-me na minha luta contra Árcon?
O outro empertigou-se de repente. Perplexo, fitou o homem que tinha tamanha semelhança com Rhodan.
Então? — perguntou Cardif no tom de um homem que sabe o quanto o tempo é precioso. — Você dispõe de poderes para fazer um acordo que vincule a outra parte ou não?
Você acha que sua ordem de atacar a Baa-Lo já foi esquecida? — indagou o agente, um tanto perturbado.
Isso são bagatelas! — disse Cardif com um gesto de desprezo. — Será que Rhabol acreditava que eu iria abraçá-lo, mostrando-me alegre? Se é tão idiota, então eu fiz uma idéia favorável demais a seu respeito. Pouco importa que tenhamos tentado enganar-nos um ao outro, agente. Nos próximos dias se decidirá se nos apoderaremos do Império de Árcon ou não. Quanto mais força eu tiver, maior será a vantagem de vocês e a nossa.
Quais são as garantias objetivas que o Império Solar nos dá, Cardif? — perguntou o agente, em tom exaltado.
O falso administrador soltou uma estrondosa gargalhada.
Garantias? — perguntou, ainda rindo. — Só falta que você me peça que eu lhe dê as garantias por escrito. Ora, agente, não me sinto nada bem por estar submetido à chantagem de vocês, e agora vocês ainda querem que me amarre ainda mais fortemente aos antimutantes? Não. Eu os odeio demais para fazer uma coisa dessas. Será que me exprimi com suficiente clareza?

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