5
Hanoor era
o mais velho entre os sacerdotes que se encontravam em Saós. Talvez
fosse este o motivo por que o elegeram a título provisório para
exercer as funções de sumo sacerdote, depois que Kutlós e seu
representante Tasnor começaram a vagar pelos destroços da unidade
energética, a fim de travarem com Hepna-Kaloot os últimos lances do
mortífero jogo de Paloot.
A nova
tarefa não representou qualquer peso para Hanoor. Era um velho que
vira e conseguira muito durante a vida. Em seu espírito reinava uma
calma toda especial. Só fazia o que fosse absolutamente necessário.
Quando os
homens que controlavam os aparelhos de localização o informaram de
que a frota arcônida se retirava e entrava numa formação esférica
em torno do sistema Saós, Hanoor começou a desconfiar de que por
enquanto Gonozal VIII pretendia manter-se na posição de espectador.
Hanoor
mandou guarnecer todas as bases de artilharia e prepará-las para
abrir fogo. As instalações defensivas subterrâneas abriram-se,
deixando sair os pesados canhões de radiações. Hanoor também
mandou distribuir armas de radiações portáteis, pois as lutas de
corpo a corpo seriam inevitáveis. O velho sacerdote não se deixou
embalar na ilusão de que seria possível rechaçar as naves terranas
em pleno vôo.
Observou
com a maior tranqüilidade as mudanças de posição das naves
esféricas arcônidas. O fato de o imperador se manter numa atitude
de expectativa não o apavorou nem um pouco. Sua calma inabalável
transmitiu-se aos outros sacerdotes. Todos cumpriam com a maior
solicitude as ordens do velho barbudo que, envergando uma manta
larga, corria de um posto de defesa para outro, a fim de convencer-se
pessoalmente do espírito de luta dos antis.
Voltou à
sala de imagem da pirâmide que servia de templo e fez uma ligeira
alocução.
— Se
Gonozal VIII não nos ajudar, seremos derrotados — disse com a voz
embargada. — Apesar disso não nos consideraremos vencidos. Cada um
de nós tem o dever de resistir com todas as forças.
Controlou
a capacidade de tiro de sua arma de radiações e sentou-se à frente
da tela panorâmica. De todos os lados gritavam-lhe informações.
Cada manobra das espaçonaves era observada.
Hanoor
contemplou suas mãos, que já haviam perdido o vigor juvenil.
“Que
idade deve atingir um homem para não ser obrigado a lutar?”,
pensou.
— Nunca
se fica velho demais — disse, admirado com a lentidão do seu
pensamento. — Quando o homem fica muito velho, ele morre... e tudo
passou.
Um sorriso
esboçou-se em seu rosto. Os sacerdotes que se encontravam mais
próximos fitaram-no com uma expressão de perplexidade.
“Está
bem”,
pensou Hanoor, muito alegre. “Se
é assim, morrerei.”
Antigamente
uma idéia como esta o teria deixado nervoso. A proximidade da morte
deixaria seu espírito revolto.
— Hanoor!
— gritou alguém em voz alta.
Hanoor
sobressaltou-se. Percebeu imediatamente o que tinha acontecido. A
tela retratava perfeitamente o que se passava nas camadas superiores
da atmosfera.
Dez naves
terranas se haviam separado da frota e trovejavam em direção à
superfície de Saós. Hanoor escorregou para a frente, colocando-se
bem perto da tela. Seus olhos apagados moveram-se como se fossem
seixos descoloridos.
— Postos
de defesa e posições de artilharia, atenção! — gritou Hanoor.
Sua voz de ancião parecia rouca. — Preparem-se para disparar.
O
recebimento da imagem foi prontamente confirmado. Os antis que
manipulavam os pesados canhões de radiações e as rampas dos
torpedos prepararam-se. Mais uma vez, uma atividade febril tomou
conta da base de Saós.
A voz
calma de Hanoor soou em todos os alto-falantes:
— Preparem-lhes
uma recepção de que não se esqueçam tão depressa.
O antigo
sumo sacerdote de Saós, chamado Kutlós, ouviu essas palavras, mas
não teve tempo para refletir sobre as mesmas. A cinqüenta metros do
lugar em que se encontrava, Tasnor estava estendido no chão. E vinte
metros adiante seu adversário se mantinha na espreita.
*
* *
Kutlós
achava-se estendido no chão. Seu coração batia acelerado. À sua
frente, no lugar em que estava deitada a figura contorcida de Tasnor,
um véu de poeira enchia o ar. Tasnor estava estendido entre os
restos de um muro caído, que não resistira ao ataque simulado dos
saltadores.
Tasnor
estava gravemente ferido. O ataque traiçoeiro de Hepna-Kaloot fora
uma surpresa muito grande para aquele jovem. Numa manobra rapidíssima
o pequeno sacerdote fizera o espia descer sobre
Tasnor e,
antes que este pudesse esquivar-se, o objeto oval batera na cabeça
do mesmo. Kutlós não se atreveu a atirar contra o espia, pois nesse
caso poderia atingir seu informante Tasnor. O espia afastara-se
rapidamente junto ao solo.
Desde
então Hepna-Kaloot o mantivera escondido. Sob Kutlós, o chão
mantinha-se estranhamente quieto. As vibrações e os ruídos das
gigantescas instalações, destinadas à produção de projetores de
campos defensivos individuais, já cessara. Para Kutlós, os ruídos
da fábrica automática faziam parte da vida em Saós. E agora as
linhas de montagem se encontravam nas naves cargueiras, estacionadas
no porto espacial. Os centros de produção, comandados por robôs,
haviam sido paralisados antes do ataque simulado dos saltadores. E,
ao que tudo indicava, os preciosos mecanismos que se encontravam nas
naves não poderiam ser levados a um lugar seguro. A Frota Solar
aparecera mais cedo do que se esperava.
Kutlós
olhou cautelosamente em torno. Tinha de verificar constantemente se o
espia não se aproximava em silêncio, fornecendo a Hepna-Kaloot uma
imagem perfeita do lugar em que se encontrava. Mas o recinto estava
vazio até o teto.
O
equilíbrio das forças deslocara-se ainda mais a favor de
Hepna-Kaloot. Tasnor, o informante de Kutlós, achava-se gravemente
ferido e não estava em condições de prestar qualquer serviço,
enquanto Hepna-Kaloot continuava a ter à sua disposição todas as
armas que escolhera.
Apesar
disso o anti mais baixo manteve uma atitude propositadamente passiva.
Afastava-se cada vez mais de Kutlós, que não teve outra alternativa
senão seguir a pista do inimigo. Depois do ataque brutal contra
Tasnor, a retirada de Hepna-Kaloot cessara, pois Kutlós continuava
no mesmo lugar. A utilização traiçoeira do espia fizera com que
agisse com muita cautela.
Kutlós
continuava sem saber o que Hepna-Kaloot pretendia fazer com o bule de
água. Por mais que forçasse o cérebro, não conseguia imaginar a
finalidade do líquido. Acontece que seu adversário confessara que
era um experimentado lutador de Paloot. Devia ter um plano bem
definido, e por certo estava convencido de que conseguiria derrotar
Kutlós.
Segurando
firmemente a arma de radiações, Kutlós mantinha-se deitado atrás
de seu abrigo. Refletiu sobre as ordens transmitidas por Hanoor, que
acabara de ouvir por um alto-falante que se encontrava a grande
distância. Ao que parecia, os terranos não queriam desistir do seu
intento.
“Tanto
melhor”,
pensou Kutlós, “pois
nesse caso deixarão o imperador irritado e farão com que ele dê
ordem de atacar.”
Tasnor
gemeu baixinho, interrompendo as reflexões de Kutlós.
Preferiu
não dizer nenhuma palavra animadora ao jovem, pois com isso trairia
sua posição. Kutlós admitia a possibilidade de que Hepna-Kaloot
soubesse onde estava, mas preferia não assumir nenhum risco.
A poeira,
que se levantara com a queda da muralha, começou a baixar, formando
uma camada cinzenta sobre as vestes negras do sacerdote. Kutlós
rastejou em torno de dois grandes montões de tijolos. As vestes
pouco confortáveis prendiam-no constantemente. Apesar disso hesitava
em desfazer-se do símbolo de sua dignidade.
Foi então
que viu o espia!
Durante
todo o tempo estivera bem perto do lugar em que se encontrava, não
acima dele, conforme esperara, mas à sua frente, entre dois montes
de escombros. A objetiva de televisão brilhava atrás da fenda
estreita como um fogo que se apaga. Kutlós a descobrira por puro
acaso.
Hepna-Kaloot
sabia perfeitamente o que fazia o sumo sacerdote e onde se abrigara.
Kutlós sentiu uma leve admiração sobre a utilização sagaz do
espia.
Com muito
esforço dominou sua primeira reação, que era o desejo de atirar
contra o espião robotizado. Sem dúvida, Hepna-Kaloot observava-o
com um máximo de concentração. Ao menor movimento suspeito faria o
espia subir abruptamente.
O sumo
sacerdote evitava olhar diretamente para o esconderijo da objetiva de
televisão. Não devia dar a perceber que descobrira o espia. Muito
tenso, Kutlós ficou deitado. Tinha uma chance única para dar seu
contragolpe. Mas teria de agir com muita habilidade. Um tiro muito
rápido com a arma de radiações estava fora de cogitação, pois
Hepna-Kaloot reagiria imediatamente. Além disso, os fragmentos do
muro protegiam a câmara voadora.
Kutlós
mordeu o lábio. Deitou de lado e lançou um olhar discreto para o
espia.
Naquele
momento teve uma idéia.
Com a
maior calma começou a desenrolar a corda de Lagoo. Devia fazê-lo de
tal forma que Hepna-Kaloot supusesse que apenas queria examiná-la. O
sumo sacerdote deixou que o material elástico passasse por suas
mãos. A substância sintética cedia com a maior facilidade. Kutlós
teve a sensação- de que uma cobra deslizava por entre suas mãos, e
de certa forma a corda de Lagoo preenchia as finalidades desse
réptil. Via de regra os sacerdotes costumavam usá-la para amarrar
os prisioneiros. A corda de Lagoo tinha quase vida própria. Uma vez
movimentada por seu possuidor, o inimigo praticamente estava reduzido
à impotência.
Kutlós
pretendia usar a corda numa luta corpo a corpo com Hepna-Kaloot.
Agora, modificou seu plano. Usá-la-ia contra a arma mais perigosa do
sacerdote.
Contra o
espia!
*
* *
A
excitação provocou palpitações, fez com que o sangue corresse
mais depressa pelas veias e provocou uma sensação de calor
cerebral. Hepna-Kaloot tinha a tela à sua frente e observava
atentamente os acontecimentos que se desenrolavam no abrigo do sumo
sacerdote. Tudo lhe era transmitido pelo espia.
O espião
robotizado possuía três olhos, que podiam ser ativados à vontade
por quem controlasse o aparelho. Havia o olho frontal, que era
apoiado por dois olhos laterais. Na atual posição do espia bastava
manter ativado o olho frontal, pois era o único que podia ver o
abrigo de Kutlós, através da fenda nos destroços do muro.
Muito
satisfeito, Hepna-Kaloot constatou os sinais de nervosismo crescente
de seu adversário. Kutlós vivia olhando para cima e mexendo na
corda de Lagoo.
Tasnor já
havia sido colocado fora de combate. Hepna-Kaloot acariciou o bule de
água e o punhal de Sostoos. Antes de morrer sob a chuva dos
projéteis terranos, queria mostrar ao sumo sacerdote e a si mesmo
que ele, o pequeno sacerdote despretensioso, o homem sem influência
e valor, era o mais forte.
Na tela
via-se perfeitamente Kutlós mexer na corda de Lagoo, enquanto a arma
de radiações jazia a seu lado, numa posição em que facilmente
poderia pegá-la.
“Ele
não agüentará muito tempo por lá”,
pensou Hepna-Kaloot. “Daqui
a pouco abandonará seu esconderijo para me procurar. Quando isso
acontecer, seu fim estará próximo.”
Uma sombra
escura atravessou a tela. Aquilo foi tão rápido que, por alguns
segundos, o raciocínio de Hepna-Kaloot ficou paralisado. A tela
tremeluziu, os contornos da imagem tornaram-se cada vez menos nítidos
e por fim esta apagou-se. Hepna-Kaloot praguejou e balançou o
aparelho.
Subitamente
os movimentos cessaram.
“Pelo
Grande Baalol”,
pensou apavorado. “Ele
atirou a corda de Lagoo contra o espia.”
Agiu
imediatamente, pois uma das várias pontas da corda se enrolara em
torno do olho frontal do espia e procurava arrastá-lo para cima, a
fim de colocar o aparelho dentro da linha de tiro de Kutlós.
Hepna-Kaloot, então, girou abruptamente a chave principal do
controle remoto. Todas as reservas energéticas do sistema de
propulsão do espião robotizado foram ativadas. A imagem tremeu,
produzindo diversos tipos de ondulação. E entre estas se via, vez
por outra, o rosto enraivecido do sumo sacerdote.
Hepna-Kaloot
ativou um dos olhos laterais. Viu que duas pontas da corda se haviam
enrolado em torno do espia. Uma delas passava diretamente por cima do
olho frontal, perturbando a recepção da imagem. E, da posição em
que se encontrava o olho lateral, Kutlós não podia ser visto.
Hepna-Kaloot
ligou o controle remoto para a potência máxima e fez o espia
deslocar-se para trás, junto ao solo. A corda foi arrastada um
pedaço, mas logo se prendeu a alguns blocos de pedra. Tudo se
passava junto ao solo, a uns cinco metros do lugar em que se achava
Kutlós. Hepna-Kaloot ligou o outro olho lateral e ficou apavorado ao
ver outra ponta da corda que se aproximava. Apertou o botão
direcional e fez o espião robotizado descer. A corda de Lagoo
torcia-se como se fosse de borracha. As pedras nas quais se agarrara
eram arrastadas.
Hepna-Kaloot
sabia que o sistema de propulsão do espia não poderia ser mantido
indefinidamente na potência máxima. Isso causaria o esgotamento das
baterias.
Hepna-Kaloot
girou a chave do sistema de propulsão para baixo e fez o espião
robotizado deslocar-se a toda força em direção ao esconderijo de
Kutlós. O aparelho libertou-se da corda e disparou rumo ao lugar
onde estava o sumo sacerdote.
Um grito
de triunfo saiu da boca de Hepna-Kaloot. Naquele momento, uma das
pontas da corda de Lagoo chicoteou o ar e agarrou o olho lateral do
espia. O resto da corda foi atrás do espia como se fosse uma mola,
enquanto Hepna-Kaloot fitava, com o rosto sombrio, a imagem
transmitida pelo olho frontal. Na posição em que o aparelho se
encontrava, Kutlós não podia ser visto, mas Hepna-Kaloot imaginava
que o sumo sacerdote apenas aguardava uma oportunidade de atirar
contra o aparelho.
As
diversas pontas da corda envolveram o espia como se fossem
tentáculos. Hepna-Kaloot desligou o sistema de propulsão, pois,
naquele momento, qualquer tentativa de fuga seria inútil.
Aproveitara mal a chance de libertar seu espião robotizado. Em vez
de dirigi-lo para cima, deixara que permanecesse no campo de ação
da corda.
Mas não
valia a pena refletir sobre o erro que acabara de cometer.
Hepna-Kaloot ligou alternadamente os três olhos do espia, mas nenhum
deles proporcionou uma boa imagem. A corda de Lagoo envolvera
completamente o espião robotizado.
Aos
poucos, a corda sintética foi comprimindo o espia para cima.
Hepna-Kaloot imaginava que isso continuaria até que o aparelho
ficasse na linha de tiro de Kutlós. Quando tal acontecesse deveria
reagir muito depressa. Kutlós só poderia disparar depois que a
corda se desprendesse do olho remoto, a não ser que quisesse
arriscar a destruição de uma de suas armas. Na fração de segundo
em que o espia flutuaria livremente no ar, tudo dependeria de quem
fosse mais rápido. Poderia ser Hepna-Kaloot no controle remoto do
aparelho, ou Kutlós no gatilho de sua arma.
Os dois
antis estavam tão entretidos em sua luta que só tomaram
conhecimento do ataque dos dez cruzadores terranos, quando a quarta
unidade energética se desfez numa explosão uníssona.
6
No
interior da nave girino o repuxo de terra atirada para o alto, peças
de metal e de plástico derretido, madeira queimada e partículas de
vidro transformadas em minúsculas bolhas, tudo isso só foi
registrado sob a forma de oscilação do ponteiro do rastreador
energético.
— O
espetáculo começou! — gritou o Tenente Stana Nolinow e ligou o
propulsor da pequena nave.
As imensas
eclusas de ar do hangar abriram-se. Sob os efeitos da sucção
provocada pelo ar que escapava para o espaço, os revestimentos de
borracha da porta contorceram-se.
O rosto
sardento de Bell apareceu na tela do videofone.
— O
senhor sabe o que está em jogo — disse em tom muito sério. —
Não assuma riscos desnecessários. Nossas naves foram recebidas com
um violento fogo de artilharia. A batalha ainda poderá durar uma
hora. Sabem qual é sua tarefa.
— Tenha
confiança em nós, sir! — exclamou Nolinow.
Alkher
acrescentou:
— Tudo
em ordem, sir.
— Uma
das construções abobadadas acaba de ser destruída — anunciou
Bell.
— Só
pode ser uma das quatro unidades energéticas dos antis — disse
Alkher. — Constatamos a explosão em nossos aparelhos.
— Podem
decolar — disse Bell. — Boa sorte.
A tela
escureceu. A nave girino G-32 saiu do hangar e penetrou no setor
espacial de Saós. A bordo havia trinta e dois homens, que obedeciam
a ordens específicas de Reginald Bell e Allan D. Mercant. O comando
estava equipado com armas especiais ultramodernas. Tratava-se de uma
combinação funcional do radiador de impulsos com a carabina
automática. Dois canos paralelos disparavam simultaneamente um raio
térmico e uma série de projéteis de plástico antimagnético. E os
projéteis normais saíam do cano uma fração de segundo antes do
raio, para que a energia, que se deslocava a velocidade pouco
inferior à da luz, atingisse o alvo juntamente com o projétil, que
era muito mais lento.
A arma
fora criada para romper o campo defensivo mental dos antis com o
projétil de plástico; se a pessoa modificasse seu campo individual
para a função normal, o mesmo seria rompido pelo raio térmico.
Para os antis seria inútil modificar a carga de seus campos
defensivos individuais numa seqüência rapidíssima, conforme a
natureza do disparo a que estavam expostos.
A tarefa
dos dois tenentes estava perfeitamente definida. Nolinow e Alkher,
que conheciam muito bem o planeta Saós, onde já estiveram presos,
deveriam aproveitar a confusão criada pelo ataque das dez naves
comandadas pelo administrador, a fim de prender o sumo sacerdote em
exercício na base dos antis. Bell e Mercant esperavam que o
interrogatório desse importante anti lhes proporcionasse informações
valiosas sobre o lendário planeta Trakarat que, segundo se dizia,
abrigava a sede da seita de Baalol.
Bell e
Mercant tiveram suas dúvidas de que Cardif conseguiria atingir seus
objetivos por meio de um ataque frontal à base. Por isso colocaram a
nave girino à disposição dos dois tenentes. Trinta homens
resolutos acompanharam os dois oficiais. Todos haviam iniciado sua
carreira a bordo da primeira nave linear, a Fantasy. Não havia
mutantes no grupo, pois, face às faculdades paramentais dos antis,
sua atuação seria inútil.
Stana
Nolinow fez a pequena nave descer em curvas muito amplas para dentro
da atmosfera do planeta. A nave girino não pousaria. Todos os
ocupantes usavam os trajes arcônidas de combate, que possibilitavam
o salto a grande altura. Além disso, os defletores faziam com que se
tornassem praticamente invisíveis. Em outras palavras, o incrível
aparelho impedia que os soldados refletissem a luz. Em qualquer
planeta do Universo, a visão ótica não é outra coisa senão a
percepção de certos reflexos luminosos selecionados pelo cérebro,
em meio a uma série confusa de reflexos desse tipo, transformando-os
nos objetos a que correspondem.
O piloto
automático levaria o girino de volta ao hangar da nave-mãe. A
qualquer momento, os homens poderiam usar o rádio para chamar de
volta o barco espacial.
Brazo
Alkher observava os instrumentos de localização.
— Parece
que os antis nem pensam em capitular — disse.
— Talvez
ainda tenham esperança de que Atlan os ajude — disse Stana
Nolinow.
As pontas
dos seus cabelos cortados à escovinha refletiam as luzes de
controle, produzindo um brilho dourado.
Alkher
cocou a cabeça; parecia pensativo. Fitou o amigo.
— Será
preferível saltarmos nas proximidades do porto espacial — sugeriu.
—
Acho que a
luta pesada se desenvolverá em torno da pirâmide e das unidades
energéticas.
— Será
que as naves cargueiras de que o senhor nos falou não estão sendo
vigiadas, sir? — perguntou Miguel Arcanjo, um jovem cabo de braços
incrivelmente compridos.
— É
possível — confessou Alkher. — Acontece que temos a vantagem da
surpresa. Não se esqueça de que os antis só nos verão quando
colocarmos nossas armas versáteis sob seu nariz.
Armas
versáteis, era esta a expressão que Bell cunhara para as novas
armas especiais.
Miguel
Arcanjo manipulou uma arma imaginária. Como não houvesse nenhum
inimigo por perto, estendeu os longos braços em direção do homem
que se encontrava mais próximo. Este recuou, fingindo-se de
apavorado. Quando Miguel sacudia os braços, o espetáculo era digno
de ser visto. Em sua terra natal, na América do Sul, corria o boato
de que ele poderia facilmente apertar a mão de um amigo que se
encontrasse na margem oposta do rio Amazonas.
— Procure
dominar sua ânsia de entrar em ação — disse Alkher, com um
sorriso. — Daqui a pouco precisará de todas as energias que puder
reunir.
Stana
Nolinow fez a nave girino descer em espiral. Alkher, que controlava
os aparelhos, fez um gesto e disse:
— Colocamo-nos
em boa altura, Stana. Nolinow ligou o piloto automático e deixou que
a nave flutuasse sobre seus campos antigravitacionais.
— Vamos
descer, sir! — gritou para dentro do microfone.
Bell, que
se encontrava a grande distância, a bordo da Ironduke, não usou o
videofone.
— Está
bem, tenente! — respondeu. — Vamos buscar a G-32.
Brazo
Alkher guardou a arma no cinto do traje de combate.
— Sairemos
da eclusa em intervalos de três segundos de um para o outro —
disse aos homens. — Não se esqueçam de ligar os defletores. Assim
que tocarmos o chão, ficaremos visíveis e atacaremos. Se o porto
espacial estiver sendo vigiado, voaremos imediatamente para a sede.
Quando chegarmos lá, os primeiros contingentes de desembarque
espacial terão saído das naves.
Os três
homens reuniram-se no interior da eclusa. O sistema de propulsão
antigravitacional dos trajes de combate foi ativado. Alkher, que se
encontrava à frente do grupo, fez um sinal para Nolinow. Por um
instante seu perfil magro ainda se destacou contra a atmosfera
sombria. Depois desapareceu.
— Vamos
atrás dele! — gritou Nolinow com a voz rouca.
No momento
em que saltou atrás dos outros, Nolinow viu bem ao longe um enorme
lampejo seguido de um trovão prolongado.
— É a
segunda unidade energética, Stana! — disse Alkher pelo rádio.
Nolinow
abriu os braços, embora não houvesse nenhuma necessidade disso. O
sistema de propulsão mantinha-o em posição estável. Virou a
cabeça e viu que a G-32 já se transformara num ponto minúsculo,
que não demorou a desaparecer.
O ruído
da luta tornou-se cada vez mais forte. O rugido que, vez por outra,
sobrepujava o chiado forte das armas, era provocado pelos
jatos-propulsores dos cruzadores.
Nolinow
sacudiu a cabeça. Não compreendia por que Rhodan fazia as naves
descerem justamente nesse lugar. Por que não parava acima da sede e
mandava que os homens saltassem? Mais tarde ficou sabendo que só
dois cruzadores haviam pousado em Saós, isto porque o fogo cerrado
dos antis os tornara incapazes de manobrar no espaço.
O Tenente
Brazo Alkher, que voava à frente do pequeno grupo, viu a superfície
plana do porto espacial, que aparecia atrás da montanha. As naves
cargueiras dos antis, ali estacionadas, eram obrigadas a aguardar o
destino que os atingiria; pareciam brinquedos. Por enquanto os
sacerdotes ainda ofereciam uma resistência acirrada.
Alkher foi
o primeiro a pousar. Desligou o defletor. Descera entre duas naves.
Não viu nenhum anti. Aos poucos, os membros do comando foram-se
reunindo em torno dele. Nolinow foi o último a aparecer. Seu vulto
movia-se constantemente. Correu pelo pavimento de aço plastificado
em direção à proa da nave dos antis. Uma vez chegado lá, deixou
que seu traje o levasse para cima, a fim de obter uma visão de
conjunto do porto espacial.
— Está
deserto — falou, dirigindo-se a seu colega de patente. —
Concentraram suas defesas na sede.
— Miguel
terá uma oportunidade de provar sua coragem — disse Alkher com um
sorriso. — Vamos ligar os defletores; voaremos para a pirâmide.
Ergueram-se
do pavimento liso do campo de pouso e voaram em direção ao lugar em
que os terranos estavam empenhados na luta com os antis.
*
* *
O
deslocamento de ar causado pela segunda explosão foi tão violento
que Kutlós teve a impressão de que alguém lhe esmagava os pulmões.
Respirava com dificuldade e deitou de costas. Ouviu-se o ruído das
pedras que caíam. Kutlós ergueu-se sobre os cotovelos e procurou
enxergar em meio à poeira levantada.
O espia de
Hepna-Kaloot fora destroçado nas proximidades de Tasnor. A corda de
Lagoo havia desaparecido. O sumo sacerdote foi sacudido por
sucessivos acessos de tosse.
Os
terranos atacavam, muito embora a frota arcônida, da qual Kutlós
esperava auxílio, se encontrasse reunida no espaço em torno de
Saós. Pela primeira vez se deu conta de que se deixara envolver num
jogo condenável com Hepna-Kaloot. Embora o inimigo os ameaçasse,
ele se ocupara com seus assuntos particulares e se deixara levar pela
provocação grosseira de Hepna-Kaloot.
O pavor
que essa idéia lhe provocava era maior que o medo que sentia dos
terranos. Devia voltar imediatamente à sala de imagem, a fim de
comandar a defesa.
Levantou-se
e, por um momento, ficou cambaleando entre os destroços. Um ruído
arrastado fê-lo virar-se abruptamente. Um vulto também cambaleava
em meio ao pó.
— Hepna-Kaloot!
— gritou Kutlós. — A Frota Solar está atacando.
Hepna-Kaloot
carregava o bule de água, que tinha uma rachadura e estava vazio.
Kutlós não lhe deu mais atenção e disparou pelo corredor.
Constantemente tinha de passar por cima de destroços. O chiado
agudo, que ouvia a intervalos regulares, provava que as rampas de
disparo dos foguetes haviam entrado em ação. Alguém devia ter
assumido o comando. Kutlós suspirou aliviado. Talvez ainda seria
possível salvar a situação.
Um grupo
de sacerdotes fortemente armados correu em sua direção.
— Venham
cá! — gritou Kutlós. — Sigam-me. Precisamos ir ao porto
espacial.
Ao que
parecia, ninguém o estava reconhecendo. Os homens pararam,
desconfiados, e apontaram as armas. Kutlós olhou seu corpo e viu as
vestes sujas e esfaceladas.
— É o
sumo sacerdote! — gritou um dos antis.
Kutlós
passou a mão pelo rosto. Olhou pela janela no momento em que uma das
construções explodia. O telhado ergueu-se, foi envolvido
imediatamente por nuvens de fumaça e vapores, e as resistentes
paredes ruíram, se romperam e foram pulverizadas.
— Vamos
ao porto espacial! — voltou a gritar Kutlós.
O cheiro
acre de queimado penetrou no corredor. Mais adiante, uma grossa nuvem
penetrava por uma abertura e impedia a visão.
A voz de
Hanoor saída dos alto-falantes sobrepujou os ruídos. Kutlós não
entendeu as ordens do velho sacerdote. O grupo de antis armados
uniu-se a ele e saíram correndo. Alguém aproximou uma arma de seus
braços. Ele a segurou sem parar de correr. A pressão do metal duro,
que sentia nos quadris, teve um efeito tranqüilizante. Os homens que
corriam atrás dele tossiam e fungavam. A fumaça causticante fez os
olhos lacrimejarem. Os homens tropeçavam nas pedras e nos destroços.
Passaram pelo lugar em que Kutlós se abrigava durante a luta com
Hepna-Kaloot Não se via o menor sinal do mesmo. Tasnor estava
apoiado nos cotovelos e murmurava coisas incompreensíveis. Kutlós
aproximou-se do jovem e inclinou-se sobre o mesmo. Os olhos de Tasnor
estavam sem brilho e dirigiam-se a regiões longínquas, das quais,
segundo imaginava Kutlós, vinha a morte.
— Vá
embora! — balbuciou Tasnor.
Não havia
ódio nem raiva em sua voz, apenas rejeição e uma necessidade
infinita de paz. Kutlós enfiou os braços sob as costas do rapaz e
apoiou-o.
— Você
tem de sair daqui — disse em voz baixa. — Os terranos estão
atacando com suas naves.
Por um
instante teve a impressão de que conseguiria fazer com que aqueles
olhos retornassem ao presente e de que conseguiria restituir-lhes a
vida. Mas o ligeiro brilho nascera do subconsciente. Não era guiado
pela vontade de Tasnor.
Num
movimento suave, Kutlós deixou que o jovem voltasse a estender-se no
solo. Levantou-se e fitou o pequeno grupo.
— Vamos!
— disse com a voz apagada.
Contornaram
Tasnor sem olhá-lo. Apressaram o passo, a fim de afastar-se do
moribundo.
Kutlós
compreendeu que o ataque dos terranos concentrava-se sobre a sede. Só
umas poucas naves terranas bombardeavam a base. Talvez o grosso da
frota estivesse envolvido numa batalha espacial com as unidades
robotizadas do imperador. O sumo sacerdote sentiu-se reconfortado
diante da idéia, embora não tivesse a menor prova de que a mesma
correspondia à realidade.
Interrompeu
suas reflexões quando, bem próximo do lugar em que se encontrava,
vários homens passaram pelos muros destroçados e penetraram no
corredor. Estavam quase irreconhecíveis em meio ao pó e à fumaça.
De qualquer maneira representavam um valioso reforço para o grupo.
De repente
Kutlós estacou.
Os homens
que via à sua frente não eram servos da seita de Baalol, nem
arcônidas...
Eram
terranos!
Num gesto
automático o sacerdote ativou seu campo defensivo individual e abriu
fogo.
*
* *
Pousaram
nas proximidades da terceira unidade energética. Brazo Alkher
desligou o defletor. Nolinow surgiu ao seu lado. Estava banhado de
suor, mas sorria.
— Estamos
em território conhecido! — gritou para Brazo. — Foi aqui que
estivemos presos.
Alkher
olhou cautelosamente em torno. Por enquanto Cardif não havia
desembarcado nenhum contingente de tropas. O fogo dos antis já se
tornava mais fraco. Buster Coleman colocou-se ao lado de Alkher e
disse:
— Veja,
sir! Os muros ruíram. Podemos entrar sem ter de abrir caminho a
tiro.
— Miguel!
— gritou Alkher.
O homem
nascido no Brasil colocou-se a seu lado e fltou-o numa atitude de
expectativa.
— Pegue
três homens e dê uma olhada nesse muro destruído. Se tudo estiver
calmo atrás dele, poderemos entrar por lá.
— Sim,
senhor — disse Miguel e reuniu três soldados.
Alkher
observou os quatro homens que saíam correndo, com as armas nas mãos.
Passaram por cima dos destroços e Miguel foi o primeiro a penetrar
no edifício. Dali a pouco apareceu de novo e gesticulou com seus
longos braços.
— Não
há perigo — observou Nolinow com a voz seca, muito embora naquele
instante um pequeno depósito se derretesse nas imediações, sob o
efeito de um raio de impulso. No momento, o perigo de ser atingido
pelos disparos das naves terranas era maior que o que provinha dos
antis, ocupados exclusivamente com sua defesa.
Brazo
Alkher levantou a arma.
— Vamos!
— gritou.
Quando
chegaram ao lugar em que estava Miguel, o vulto comprido deste estava
envolto no pó e na fumaça.
— Tudo
bem, sir — anunciou o brasileiro. — Lá dentro está tudo em paz
— disse, apontando para o edifício.
Espremeram-se
pela abertura causada por uma explosão e viram-se num corredor cheio
de fumaça. A visibilidade não ultrapassava os vinte metros.
— Sir,
seria pos... — principiou Miguel. Fosse lá o que quis dizer, não
conseguiu prosseguir. Apavorado, Alkher viu seus braços girarem pelo
ar. Depois Miguel caiu. Viu à sua frente, em meio às nuvens opacas,
alguns vultos em trajes ondulantes.
— São
os antis! — gritou Nolinow. Alkher agiu quase instintivamente.
Com um
salto abrigou-se atrás do muro e apontou a arma versátil. Alguém
soltou um grito de dor e o corredor encheu-se com os rugidos e os
chiados das armas. Alkher sentiu uma dor lancinante na região do
estômago. À sua frente, pelo menos quatro terranos mortos jaziam no
chão. Eram homens que não conseguiram abrigar-se em tempo. O
tenente mordeu os lábios e começou a atirar.
Teve uma
idéia estranha. Lembrou-se de que, enquanto lutava pela vida num
planeta estranho, inúmeros jovens que se encontravam na Terra
estavam empenhados em alguma ocupação agradável, sem pensar nem de
leve num certo Tenente Brazo Alkher, cuja presença nesse planeta,
juntamente com a dos membros da Frota Solar, garantia a paz dos
homens na Terra e em seus planetas coloniais.
“É
duro, Brazo... é duro”,
refletia.
*
* *
Quando foi
atingido pela primeira vez, Kutlós compreendeu que não chegaria
vivo às espaçonaves. Seu campo defensivo individual não o defendia
contra as armas dos terranos. Mantinha-se imóvel atrás dos
destroços de um painel de controle, e comprimiu o rosto contra o
metal frio. Todos os antis acabariam assim. Gonozal VIII os
abandonara. O plano do Grande Baalol estava condenado ao fracasso.
Ouviu um
gemido bem ao seu Indo. Kutlós abandonou o abrigo do painel de
controle. As dores fustigavam seu corpo, olhou por cima da confusão
de fios, bobinas e tubos quebrados. Antes que conseguisse enxergar o
ferido, foi atingido pela segunda vez. Desta vez não sentiu quase
nada. Apenas, o poder de sustentação das pernas diminuiu
rapidamente.
O
desconhecido voltou a gemer. Kutlós segurou em duas barras e
arrastou-se por cima da superfície lisa do painel. Deixou-se cair
para a frente e parou no chão. Não viu ninguém. Uma sensação
estranha espalhou-se pela parte inferior do corpo. Teve a impressão
de que as pernas eram de cera.
Apalpou o
abdômen. Quando voltou a olhar as mãos, as mesmas estavam sujas de
sangue. Começou a admirar-se porque não havia por ali ninguém que
oferecesse resistência aos terranos.
— Fugiram
— constatou, amargurado.
E então
percebeu que os ruídos da batalha no interior do corredor haviam
cessado.
Ouviu
passos que se aproximavam. Kutlós fez um esforço tremendo para
levantar-se, mas não conseguiu erguer o corpo. O cansaço provocado
pela tentativa foi tamanho que teve de fechar os olhos.
Alguém
arrastou o painel destruído. O ruído causado pelo revestimento
metálico parecia incrivelmente forte.
Kutlós
abriu os olhos e viu uma fileira de botas. Quando olhou para cima viu
os homens que usavam as botas e seus rostos. Parecia enxergá-los
através de um nevoeiro. Eram terranos.
Um dos
rostos desceu sobre ele. Era magro e anguloso, e nele se via um par
de olhos castanhos muito sérios. Teve a impressão de que já
conhecia esse homem. De repente lembrou-se. Era um dos dois
prisioneiros que deixaram escapar depois da batalha simulada.
— Kutlós!
— exclamou o terrano em intercosmo.
— Ouço
o que você diz — respondeu o anti em tom compenetrado. — Seja lá
o que você deseja, ande depressa para manifestar seu desejo, pois
não terei mais muito tempo de vida.
Brazo
Alkher examinou-o rapidamente. Viu que o anti levara dois tiros no
abdômen. O tenente cerrou o sobrecenho. Esforçou-se para dissimular
seus sentimentos. Lá atrás o jovem e valente Miguel jazia morto.
— O
planeta Trakarat é o mundo que serve de sede à seita de Baalol,
Kutlós? — perguntou Brazo.
O
sacerdote limitou-se a responder com um aceno de cabeça, já que
tinha muita dificuldade em falar.
— Poderia
fornecer a posição de Trakarat ou outras informações sobre esse
mundo? — perguntou o tenente, em tom apressado.
— Poderia
— respondeu Kutlós, com dificuldade.
— Pois
fale! — pediu o terrano. Kutlós recusou.
— Não —
limitou-se a dizer.
Foi a
última coisa que disse antes de morrer. Ficou mudo diante das outras
perguntas de Alkher, limitando-se a esboçar um sorriso de desprezo.
Pouco
depois sua cabeça caiu para trás e seus olhos ficaram vidrados.
Brazo Alkher levantou-se. Engolia em seco.
— Foi
tudo em vão — disse em tom de desespero.
As linhas
defensivas dos antis começavam a cair. O ataque comandado por Cardif
se dirigia, agora, contra as últimas fortificações.
O comando
dirigido pelos tenentes Alkher e Nolinow retirou-se para o porto
espacial. Alkher e Nolinow não diziam nada. Cinco homens haviam
ficado em meio às ruínas, cinco homens para os quais não havia
mais salvação. Dois homens gravemente feridos estavam sendo
transportados cautelosamente. A idéia de que a tentativa de obter
informações sobre Trakarat fracassara, e isso em meio ao sacrifício
de vidas, deixou os homens deprimidos.
— Talvez
Rhodan teve mais sorte — disse Nolinow num acesso de esperança.
Alkher
continuava cético.
— Os
antis lutavam desesperadamente, e os dez cruzadores não lhes deram
um tratamento muito suave.
— Sir! —
gritou Coleman de repente. Brazo Alkher virou-se abruptamente.
Viu dois
vultos que corriam pela área. Não usavam as vestes dos sacerdotes
nem envergavam o uniforme dos terranos. Ao que tudo indicava, estavam
fugindo. Só podiam dirigir-se ao porto espacial.
— Atrás
deles! — ordenou Brazo Alkher.
Escolheu
quatro homens. Estes se elevaram sob a ação dos propulsores
antigravitacionais dos trajes de combate e voaram atrás dos
fugitivos.
Pensativo,
Nolinow falou, dirigindo-se a Alkher:
— Não
sei por quê, mas tenho a impressão de que conheço esses sujeitos.
— Não é
possível — disse Brazo. — De onde poderia conhecê-los?
Ao que
parecia, Nolinow não estava disposto a manifestar a suposição que
trazia na mente. Envolveu-se no silêncio. Prosseguiram na marcha.
Por causa dos feridos os dois tenentes preferiram não utilizar os
propulsores antigravitacionais.
Dali a dez
minutos atingiram os quatro membros de seu comando que acabavam de
prender os dois fugitivos. Eram grandes, de aspecto selvagem, cujos
olhos exprimiam o medo.
Um deles
fitou Nolinow e Alkher com uma expressão de incredulidade.
— É
isso mesmo! — exclamou o Tenente Nolinow com uma expressão de
triunfo.
Alkher
fitou-o como quem não compreende nada. Com um sorriso Nolinow
apontou para os prisioneiros.
— São
velhos amigos nossos, Brazo — disse em tom sarcástico. —
Acontece que, segundo diziam, estavam gravemente feridos quando nós
os vimos pela última vez.
— São
saltadores! — exclamou Alkher e, imediatamente, lembrou-se dos
detalhes.
Durante a
fuga, encenada pelos antis, haviam visto os dois homens. Eram os
feridos retirados da pequena nave espacial que fora dirigida
justamente até o platô para onde os dois terranos haviam sido
“orientados”
pelos sacerdotes. Naturalmente nenhum dos dois saltadores estava
ferido; apenas contribuíram para o espetáculo oferecido aos dois
terranos. Ao que parecia, não conseguiram voltar às naves de seu
clã. E agora tinham de assistir a uma grande derrota de seus
aliados.
Brazo
Alkher adiantou-se e bateu fortemente nos ombros de um dos
saltadores.
— Como
estão os ferimentos? — perguntou em tom irônico. — Já estão
curados?
— Somos
pacíficos mercadores — respondeu o homem. — Não temos nada a
ver com isto.
Seu
companheiro confirmou com um aceno de cabeça. Numa disposição
irônica, Alkher observou que o gênio pacífico dos mercadores
galácticos costumava manifestar-se quando sua vida estivesse
ameaçada. Fora disso não recuavam diante de qualquer violência.
— Ah, é?
— perguntou Nolinow, fingindo-se de espantado e colocando-se ao
lado do amigo. Apontou a arma versátil para o prisioneiro. — Então
— disse em tom áspero.
— Vejamos
o que há realmente atrás de seu gênio pacífico seus cordeiros
inocentes.
Qualquer
pessoa que não conhecesse Stana Nolinow sentiria medo dele. Um
brilho ameaçador surgiu em seus olhos e seu rosto se contorceu.
Os dois
saltadores, que já estavam amedrontados, estremeceram. Refletiam
desesperadamente sobre como poderiam escapar.
— Fornecer-lhes-emos
qualquer informação que possuímos — apressou-se a dizer um dos
saltadores.
— Estamos
à procura de certo planeta — disse Alkher, prosseguindo no
interrogatório. — Pelo que dizem, é o mundo central da seita de
Baalol. Seu nome é Trakarat... que sabem a respeito dele?
Olhando de
soslaio para a arma de Nolinow, o homem respondeu:
— Muitas
vezes ouvimos os sacerdote:, falarem sobre esse planeta. Não conhece
mos a posição desse mundo, mas o mesmo parece apresentar-se como um
fenômeno.
— O que
quer dizer com isso? — perguntou Nolinow, em tom insistente.
— Trakarat
possui um anel duplo, tal qual certo planeta do sistema solar —
respondeu o saltador. — Se não me engano, vocês chamam esse
planeta de Saturno.
Alkher
acenou com a cabeça. Depois de ligeira hesitação o mercador
prosseguiu:
— Trakarat
circula em torno de um sol geminado vermelho, juntamente com mais
quinze planetas. O nome desse sol é Aptut. Pelo que se conclui das
palestras dos sacerdotes, deve ficar perto do centro da Via Láctea.
Os dois
tenentes entreolharam-se. Nolinow baixou a arma, o que provocou um
alívio visível nos saltadores.
— Vocês
ficarão presos até que tenhamos conferido a exatidão das suas
informações — disse Alkher. — Se tiverem contado alguma
mentira, não terão outra alternativa senão retificá-la o mais
depressa possível.
No seu
íntimo estava convencido da veracidade das informações que acabara
de receber. O medo dos dois mercadores era tamanho que não se
arriscariam a irritar os terranos com alguma informação falsa.
— Vamos
chamar a Ironduke — disse Alkher, dirigindo-se a Nolinow. — Bell
e Mercant ficarão satisfeitos com o resultado do nosso trabalho.
Afinal, já descobrimos muita coisa. Um sistema como o de Aptut
representa algo fora do comum.
— Vou
pedir que mandem o girino — disse Nolinow. — Nossa missão em
Saós está concluída.
Enquanto
proferia essas palavras, acionou o rádio. Já se encontravam fora da
área atingida pelo fogo dos cruzadores. Dentro de alguns minutos as
últimas resistências dos antis cairiam e Rhodan penetraria nos
destroços do estabelecimento.
7
Passou por
cima de montões de destroços, cambaleava entre paredes caídas,
corria nos curtos trechos desimpedidos e espremia o corpo pelos
lugares apertados. Não olhava para trás a fim de ver se a tropa o
acompanhava. Havia um zumbido constante nos seus ouvidos, que
sobrepujava todos os ruídos exteriores. Na estranha penumbra da
pirâmide destruída surgiam inúmeros corredores e galerias. Havia
elevadores destroçados e escadas reduzidas a fragmentos.
Thomas
Cardif sentiu uma dor forte na região do coração. Teve de parar.
Seu corpo estava banhado em suor. Seus olhos ardiam.
De repente
sentiu que havia gente por perto. Percebeu sua presença e, quando se
voltou com uma expressão de cólera, viu-os parados atrás de si.
Encostados lado a lado, com as armas versáteis semi-erguidas, mudos,
com os olhos semicerrados e os lábios apertados, estavam reunidos
ali.
Era a
infantaria espacial da Frota Solar. Pela primeira vez Cardif sentiu o
que significaria para ele se realmente fosse Perry Rhodan. Aqueles
homens o acompanhavam numa luta que deviam achar inútil, combatiam a
seu lado por uma idéia, por uma lenda, por um símbolo chamado Perry
Rhodan.
Cardif
deixou pender os braços junto ao corpo e olhou os soldados. Havia um
sabor salino em sua boca.
Por mais
que investisse sobre os médicos terranos pelo hiper-rádio, as
respostas dos doutores sempre foram um fraco consolo. Os maiores
especialistas trabalhavam dia e noite, mas não havia nenhum
medicamento capaz de deter os efeitos desastrosos do ativador
celular. E, segundo disseram repetidamente, uma intervenção
cirúrgica seria mortal.
— Sir! —
gritou uma voz atrás dele.
Cardif
parou e deixou que o sargento Mulford se aproximasse. Era um homem de
meia-idade com um pequeno bigode e um par de olhos cinzentos e
francos.
Mulford
apontou para os montes de destroços.
— Devemos
tentar ir ao alto da pirâmide. Sugiro que alguns homens voem pelos
poços dos elevadores, usando os trajes de combate, a fim de
verificar como estão as coisas lá em cima.
— Isso
mesmo, sir — reforçou o tenente Yakinawo, olhando para Cardif. —
Pelo jeito que estamos fazendo não conseguiremos nada.
Não havia
nenhuma objeção válida contra esses argumentos, mas Cardif disse:
— Não
sou da mesma opinião. Os soldados poderiam ser surpreendidos. Em
qualquer lugar pode haver um ninho remanescente dos antis. Do jeito
que estamos fazendo também chegaremos aos pavimentos superiores.
Yakinawo
fitou-o com uma expressão de perplexidade e conservou-se em
silêncio. Cardif prosseguia obstinadamente. A idéia de Mulford lhe
parecera válida e ele a teria adotado, se tivesse certeza de que
havia um traje de combate que coubesse em seu corpo. Mas, como
provavelmente não fosse possível encontrar um traje nessas
condições, obrigou o comando a prosseguir nas buscas pelo caminho
normal, pois, quando o grupo descobrisse um anti, fazia questão de
estar presente. Desconfiava tanto dos homens que o cercavam que
jamais confiaria o comando do grupo a um dos oficiais.
— Neste
caso vamos subir pela escada, sir — sugeriu Mulford em tom
lacônico, apontando para a confusão de fios e pedras que ainda
restavam.
Cardif
fitou o sargento com uma expressão pensativa.
— Está
bem, Mulford — disse depois de algum tempo. — Vá na frente.
Mulford
era um velho soldado que não se abalava por pouca coisa. Mas agora
arregalou os olhos numa expressão de incredulidade.
— Quer
dizer que eu devo passar pela escada, sir?
— O
senhor acaba de fazer a sugestão — disse Cardif, com a voz
penetrante. — Será que a esta altura suas pernas já estão
tremendo?
— Não,
senhor — disse Mulford e fez continência.
Pendurou
uma arma versátil sobre o ombro e aproximou-se do que sobrou da
escada. Não hesitou. Agarrou-se numa barra metálica saliente e
puxou seu corpo para cima. As pedras espalhadas pelos degraus
deformados caíram ruidosamente. A estrutura, feita de metal leve
meio derretido, começou a balançar. O sargento parecia um inseto
num gigantesco balanço, o que o sacudia lentamente.
— Parece
que vai agüentar — gritou Mulford com a maior tranqüilidade. —
Pode seguir-me.
“Que
sujeito!”,
pensou Cardif, enfurecido. “Ele
quer me experimentar. Será que pensa que estou com medo?”
Subiu
atrás de Mulford, seguido por Yakinawo.
— Cuidado,
sir! — disse Mulford. — Aqui em cima a coisa começa a ficar
perigosa.
Cardif
olhou para o sargento. Em certo lugar, a escada se quebrara de vez.
Praticamente consistia apenas em duas barras, em cujas pontas havia
suportes tão finos quanto uma agulha. Mulford passou entre as barras
que nem um macaco.
Outros
homens subiram pelo esqueleto metálico, que reagia através de
balanços violentos e se dobrou com um forte rangido. Cardif pensou
que seria melhor ter aceito a sugestão de Mulford. Um dos lados da
pirâmide se abrira numa violenta explosão, e na queda esmagara
completamente um dos edifícios. Cardif não se atreveu a olhar para
baixo.
— Pronto!
— gritou Mulford, satisfeito. — Acho que não conseguiremos subir
muito mais, sir. É o último andar. Antigamente havia outros
pavimentos, mas nossas armas os arrasaram.
De pé
numa saliência que lhe oferecia, sorriu para Cardif, que avançava
lentamente.
— Está
vendo alguém? — perguntou o administrador.
Mulford
olhou em torno.
— É
difícil dizer. Por aqui tudo está reduzido a destroços. Sinto o
cheiro de fios queimados. Certamente havia muitos aparelhos por aqui.
A fala
primitiva de Mulford começou a enervar Cardif, mas este obrigou-se a
permanecer calmo, pois havia coisa mais importante a fazer que
repreender um soldado.
— Será
que o senhor consegue? — perguntou a voz preocupada de Yakinawo
atrás dele.
Não
respondeu e continuou a subir. Finalmente Mulford pôde estender-lhe
a mão para ajudá-lo a subir. Dali a pouco viu-se ao lado do velho
soldado.
Ajudaram
Yakinawo e os outros homens que vinham atrás do tenente.
— Acho
que não deveríamos deixar subir tantos soldados, sir — disse o
tenente. — Isto aqui parece bastante frágil.
Cardif
confirmou com um aceno de cabeça, e o japonês berrou algumas
ordens. Sua voz produziu numerosos ecos nos extensos corredores e
poços de elevador. Cardif olhou em torno. De início viu o mesmo
quadro com que já se deparara lá embaixo, um quadro formado por
destroços cinzentos e construções destruídas.
Depois viu
o anti. Era um vulto escuro num ambiente também escuro, que se
mantinha imóvel nos restos de uma poltrona.
Cardif
segurou o braço do Tenente Yakinawo. O japonês confirmou com um
gesto. Juntamente com Mulford aproximaram-se do anti que parecia
petrificado. Era um velho sacerdote, um dos velhos que Cardif já
vira.
E aquele
velho ainda estava vivo. Seus olhos descoloridos vagavam nervosamente
entre Cardif e o tenente. De repente Cardif imaginou o motivo disso e
ergueu a arma.
“Ele
sabe quem é a pessoa que se encontra à sua frente”,
pensou. “Pode
dizer ao tenente quem eu sou. Neste caso será o fim.”
Mas o
velho manteve-se calado. Cardif, que por pouco não disparara contra
ele, baixou a arma. Seu desespero era enorme e sua confusão mental
progredira tanto que não teria o menor escrúpulo em atirar naquele
velho.
— Onde
podemos encontrar o sumo sacerdote em exercício? — perguntou
Cardif, em tom enérgico.
Hanoor
fitou-o com uma expressão de indiferença.
— Quem
pode saber? — falava em voz tão baixa que Cardif teve de
inclinar-se para compreender suas palavras. — Os campos da morte
são infinitos. Kutlós pode estar em qualquer lugar.
— Algum
dos seus representantes ainda está vivo?
— Está
— disse Hanoor. — Sou eu.
— Preciso
conhecer a posição do planeta Trakarat, meu velho — disse Cardif,
em tom insistente. — Revele-nos a mesma, e nós lhe daremos a
liberdade.
— O
conceito de liberdade é muito vago — disse o anti, em tom
pensativo. — Não existe nenhuma forma de restrição à liberdade
que possa assustar um velho como eu.
Cardif já
estava perdendo o autocontrole.
— Quero
a posição do planeta; diga logo! — gritou para o sacerdote.
— Estou
cansado; não me martirize — disse Hanoor em voz baixa.
Cardif fez
menção de precipitar-se sobre aquele homem indefeso, porém mais
uma vez a voz do japonês o deteve.
— Ele
não falará, sir — conjeturou Yakinawo.
Hanoor
fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto rachado. Cruzou os
braços sobre o peito. Seu rosto continuou impassível.
Naquele
momento, o terrano Thomas Cardif compreendeu que o velho sacerdote
não lhe revelaria nada sobre a posição do planeta Trakarat. Nem
ele, nem qualquer dos antis que ainda se encontrassem entre os
destroços.
A mão
levantada caiu sem forças. Sem dizer uma palavra, Cardif passou
entre Yakinawo e dirigiu-se à escada.
O japonês,
que o seguia com os olhos, teve a impressão de ver um homem perdido.
*
* *
O tenente
concluiu com um gesto em direção a Reginald Bell:
— Foi só
o que conseguimos saber dos saltadores.
Os dois
tenentes já haviam retornado à sala de comando da Ironduke, onde
apresentaram seu relato a Bell, Mercant e outros oficiais. Allan D.
Mercant cocou o queixo. Parecia pensativo.
— Já é
alguma coisa, mas não podemos fazer muita coisa com isso — disse,
falando lentamente. — Talvez o centro de computação de Árcon III
possa fazer alguma coisa com estes dados.
— Para
isto precisaríamos do apoio de Atlan — ponderou Bell. — Na
situação em que nos encontramos, sua disposição não será muito
amistosa, embora tenha afastado as naves robotizadas.
Claudrin
interveio na conversa.
— Acho
que temos a obrigação de informar o arcônida sobre o resultado da
operação, pois só conseguimos levá-la avante porque ele se
manteve quieto — disse.
— Muito
bem, Jefe — concordou Mercant. — Faça uma ligação com Atlan.
*
* *
O General
Alter Toseff acompanhara os acontecimentos com os olhos em fogo. Não
tirava os olhos das telas e esperava o momento em que Gonozal VIII
resolvesse intervir. Acontece que o imperador ficara mergulhado em
seus aposentos e observara tudo em silêncio. Toseff não se atreveu
a arrancá-lo de suas reflexões, mas sentia um tremendo ódio dos
terranos, que haviam atacado um planeta do Grande Império na
presença de uma frota arcônida.
Se o
General Toseff desconfiasse de que, no seu íntimo, Atlan desejava
que seus antigos aliados fossem bem-sucedidos para que tivessem
condições de ajudar Perry Rhodan, sua contrariedade provavelmente
seria ainda maior.
Os
pensamentos sombrios de Toseff foram interrompidos pelo zumbido do
rádio. Ligou o receptor de imagem para receber o chamado. Nesse
instante, o imperador despertou da letargia e aproximou-se de Toseff.
— Deixe
para lá, general — disse.
O rosto
franco de Reginald Bell surgiu na tela. Atrás dele estavam Allan D.
Mercant e um sujeito formidável chamado Claudrin, que era comandante
da Ironduke. Atlan não pôde reprimir sua simpatia por esses homens.
— Então?
— perguntou.
Bell
fitou-o com uma expressão de insegurança e pigarreou fortemente.
— Perry
destruiu a base de Saós — disse, e o tom de sua voz revelava
nitidamente sua desaprovação face a esse ato. — Daqui a pouco
deverá retornar a esta nave sem trazer as informações que
desejava, o plano elaborado por mim prometia ter êxito. Os tenentes
Alkher e Nolinow prenderam dois saltadores que sabem alguma coisa
sobre o mundo central de Baalol.
— Que
mundo é este? — perguntou Atlan.
— O nome
do sol em torno do qual circula o planeta é Aptut. Dizem que se
trata de um sol geminado vermelho. Trakarat, é este o nome do mundo,
tem dois anéis semelhantes a Saturno.
Atlan
trocou um olhar com o General Alter Toseff. O saratanense sacudiu a
cabeça.
— Nunca
ouvi falar nesse sistema — disse o imperador.
— Dizem
que fica nas proximidades do centro da Via Láctea — informou
Mercant. — Por lá as estrelas que têm planetas não são nenhuma
raridade, esse sistema é diferente dos outros, motivo por que talvez
tenha sido catalogado como ponto de referência. De qualquer maneira,
nos bancos de dados do centro de computação deve haver informações
armazenadas a respeito do mesmo.
Bell
acrescentou apressadamente:
— Queremos
pedir-lhes que nos ajude a encontrar Trakarat. Com a ajuda do
computador gigante deverá ser muito mais fácil interpretar os dados
de que dispomos.
Atlan
respondeu prontamente:
— Farei
tudo que estiver ao meu alcance para descobrir a posição desse
estranho sistema solar.
Os olhares
de gratidão dos terranos representaram uma verdadeira bênção para
ele. Aqueles homens ainda eram fiéis amigos, que o ajudariam em
qualquer situação difícil. Sofriam com a doença de Rhodan tanto
quanto o próprio.
— Nós
lhe transmitiremos todas as informações que nos foram fornecidas
pelos dois saltadores que prendemos — disse Bell. — Enviaremos um
registro completo do interrogatório.
— Qualquer
dado, por mais insignificante que possa parecer, poderá ser valioso
— lembrou Atlan. — Os mercadores deveriam ser interrogados de
novo.
— Prometo-lhe
uma coisa, imperador — disse Mercant em tom solene. — Assim que
esteja concluída esta ação, que ninguém de nós quis provocar, a
frota terrana será imediatamente retirada do Grande Império.
Depois de
combinar outros detalhes, o Major Krefenbac anunciou que os dez
cruzadores se haviam juntado novamente à Frota e que Perry Rhodan se
encontrava a bordo de um planador que o traria de volta à Ironduke.
Face a isso, a palestra foi interrompida a pedido de Reginald Bell.
Atlan, que
se sentia cada vez mais preocupado diante das informações relativas
à doença de Rhodan, resolveu entrar em contato pessoal com seu
velho amigo. Assim que este voltasse a assumir o comando da Ironduke.
Nem mesmo as objeções de Bell o fizeram desistir.
— Desta
vez ainda conseguimos evitar uma guerra entre os dois impérios —
disse Atlan, dirigindo-se ao General Toseff, assim que a ligação
com a nave terrana foi interrompida.
— Será
que o preço não foi muito elevado, majestade? — perguntou Toseff.
— Nosso
prestígio ficou resguardado, pois as naves da Frota Solar se
retirarão. Poderemos registrar um êxito militar, sem derramamento
de sangue.
Via-se
perfeitamente que o general gostaria de formular uma objeção, mas
não tinha muita certeza do que iria dizer, ou então tinha medo de
Atlan.
Discutiram
por muito tempo sobre as próximas medidas a serem tomadas. Aos
poucos o General Toseff foi familiarizado com os planos que visavam
ao reerguimento do Grande Império. O chefe do governo de Saratan
ficou sabendo que Gonozal VIII pretendia utilizar colaboradores
terranos nas mais diversas posições. Teoricamente até se poderia
chegar à conclusão de que, uma vez alcançado o acordo, o Grande
Império ficaria sujeito a uma forte influência terrana, enquanto os
poderes dos dignitários decadentes sofreriam grandes restrições.
Depois de
algum tempo, Atlan disse:
— A essa
hora estou convencido de que, assim que Rhodan se restabelecer, as
antigas relações de amizade voltarão a firmar-se. Os colaboradores
terranos voltarão aos seus postos, e a confiança mútua será ainda
mais forte. General, eu lhe garanto que sem os terranos não
conseguiremos manter o Grande Império. Precisamos do reforço
representado por eles, pois, do contrário, nos esfacelaremos em
inúmeros reinos menores.
— Faço
votos de que o futuro lhe dê razão — aceitou Toseff.
— Agora
vou falar com meu amigo doente — disse Atlan. — Procure entrar em
contato com a Ironduke, general.
Dali a
alguns segundos, a tela iluminou-se. Atlan não pôde impedir que seu
estômago se contraísse. Sentiu uma sensação estranha ao ter que
rever Rhodan em sua nova forma.
De que
forma reagiria Perry ao seu chamado?
A tela
iluminou-se, e Atlan viu a sala de comando da Ironduke. Notou alguns
oficiais que se encontravam em posição mais afastada e manipulavam
os instrumentos.
Subitamente
alguém penetrou no campo de visão, vindo do lado. Tomado de pavor,
Atlan abriu a boca e disse:
— Oh,
não!
Teve de
fazer um esforço para continuar a fitar esse quadro monstruoso e
olhar o homem que, segundo se dizia, já fora Perry Rhodan.
O
administrador transformara-se num gigante disforme de rosto inchado.
— O que
quer? — disse a voz saída do alto-falante.
O
imperador sentiu-se profundamente abalado ao olhar para o terrano.
— Perry!
— disse num gemido. — Não sabia que as coisas estavam tão
ruins.
— Pare
com essa fala melosa, arcônida — respondeu Cardif-Rhodan com a voz
zangada. — Se tiver algum desejo, fale logo e não faça discursos
sentimentais de mulher velha.
Atlan
recebeu o insulto sem dar nenhuma resposta. Não viu que os dedos do
General Toseff perdiam a cor enquanto mantinham-se apertados contra o
painel de controle. Estava tomado de indignação.
Nesse
instante Atlan fez um juramento a si mesmo: ajudaria o amigo
desfigurado, custasse o que custasse.
— Você
pode contar com meu apoio integral, Perry — disse em voz baixa e
desligou o aparelho antes que Rhodan tivesse tempo de proferir outras
ofensas.
— O
senhor não pode tolerar uma coisa dessas — gritou Toseff fora de
si.
Atlan viu
desfilar diante dos olhos de sua mente as aventuras pelas quais ele e
Rhodan viveram juntos. Lembrou-se dos duelos que haviam travado num
passado distante, e lembrou-se da estranha compreensão que se
estabelecera entre eles. O general não sabia nada a esse respeito.
Só via o presente.
Em meio ao
silêncio da nave robotizada, a voz de Atlan soou firme e decidida:
— Ele é
um amigo, general, e farei tudo que estiver ao meu alcance para
salvá-lo.
Naquele
momento, Toseff compreendeu que não haveria nada que pudesse demover
o imperador do seu intento. Compreendeu a grandeza da decisão que
acabara de ser tomada. Saiu sem dizer uma palavra, pois sabia quando
um homem gostava de ficar só.
*
* *
*
*
*
Em,
Duelo
sob o Sol Geminado,
titulo do próximo volume, uma nova e vibrante aventura vai se
desenrolar...

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