terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-115 - O Imperador e o Monstro - William Voltz [Parte 3]

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Hanoor era o mais velho entre os sacerdotes que se encontravam em Saós. Talvez fosse este o motivo por que o elegeram a título provisório para exercer as funções de sumo sacerdote, depois que Kutlós e seu representante Tasnor começaram a vagar pelos destroços da unidade energética, a fim de travarem com Hepna-Kaloot os últimos lances do mortífero jogo de Paloot.
A nova tarefa não representou qualquer peso para Hanoor. Era um velho que vira e conseguira muito durante a vida. Em seu espírito reinava uma calma toda especial. Só fazia o que fosse absolutamente necessário.
Quando os homens que controlavam os aparelhos de localização o informaram de que a frota arcônida se retirava e entrava numa formação esférica em torno do sistema Saós, Hanoor começou a desconfiar de que por enquanto Gonozal VIII pretendia manter-se na posição de espectador.
Hanoor mandou guarnecer todas as bases de artilharia e prepará-las para abrir fogo. As instalações defensivas subterrâneas abriram-se, deixando sair os pesados canhões de radiações. Hanoor também mandou distribuir armas de radiações portáteis, pois as lutas de corpo a corpo seriam inevitáveis. O velho sacerdote não se deixou embalar na ilusão de que seria possível rechaçar as naves terranas em pleno vôo.
Observou com a maior tranqüilidade as mudanças de posição das naves esféricas arcônidas. O fato de o imperador se manter numa atitude de expectativa não o apavorou nem um pouco. Sua calma inabalável transmitiu-se aos outros sacerdotes. Todos cumpriam com a maior solicitude as ordens do velho barbudo que, envergando uma manta larga, corria de um posto de defesa para outro, a fim de convencer-se pessoalmente do espírito de luta dos antis.
Voltou à sala de imagem da pirâmide que servia de templo e fez uma ligeira alocução.
Se Gonozal VIII não nos ajudar, seremos derrotados — disse com a voz embargada. — Apesar disso não nos consideraremos vencidos. Cada um de nós tem o dever de resistir com todas as forças.
Controlou a capacidade de tiro de sua arma de radiações e sentou-se à frente da tela panorâmica. De todos os lados gritavam-lhe informações. Cada manobra das espaçonaves era observada.
Hanoor contemplou suas mãos, que já haviam perdido o vigor juvenil.
Que idade deve atingir um homem para não ser obrigado a lutar?”, pensou.
Nunca se fica velho demais — disse, admirado com a lentidão do seu pensamento. — Quando o homem fica muito velho, ele morre... e tudo passou.
Um sorriso esboçou-se em seu rosto. Os sacerdotes que se encontravam mais próximos fitaram-no com uma expressão de perplexidade.
Está bem”, pensou Hanoor, muito alegre. “Se é assim, morrerei.”
Antigamente uma idéia como esta o teria deixado nervoso. A proximidade da morte deixaria seu espírito revolto.
Hanoor! — gritou alguém em voz alta.
Hanoor sobressaltou-se. Percebeu imediatamente o que tinha acontecido. A tela retratava perfeitamente o que se passava nas camadas superiores da atmosfera.
Dez naves terranas se haviam separado da frota e trovejavam em direção à superfície de Saós. Hanoor escorregou para a frente, colocando-se bem perto da tela. Seus olhos apagados moveram-se como se fossem seixos descoloridos.
Postos de defesa e posições de artilharia, atenção! — gritou Hanoor. Sua voz de ancião parecia rouca. — Preparem-se para disparar.
O recebimento da imagem foi prontamente confirmado. Os antis que manipulavam os pesados canhões de radiações e as rampas dos torpedos prepararam-se. Mais uma vez, uma atividade febril tomou conta da base de Saós.
A voz calma de Hanoor soou em todos os alto-falantes:
Preparem-lhes uma recepção de que não se esqueçam tão depressa.
O antigo sumo sacerdote de Saós, chamado Kutlós, ouviu essas palavras, mas não teve tempo para refletir sobre as mesmas. A cinqüenta metros do lugar em que se encontrava, Tasnor estava estendido no chão. E vinte metros adiante seu adversário se mantinha na espreita.

* * *

Kutlós achava-se estendido no chão. Seu coração batia acelerado. À sua frente, no lugar em que estava deitada a figura contorcida de Tasnor, um véu de poeira enchia o ar. Tasnor estava estendido entre os restos de um muro caído, que não resistira ao ataque simulado dos saltadores.
Tasnor estava gravemente ferido. O ataque traiçoeiro de Hepna-Kaloot fora uma surpresa muito grande para aquele jovem. Numa manobra rapidíssima o pequeno sacerdote fizera o espia descer sobre
Tasnor e, antes que este pudesse esquivar-se, o objeto oval batera na cabeça do mesmo. Kutlós não se atreveu a atirar contra o espia, pois nesse caso poderia atingir seu informante Tasnor. O espia afastara-se rapidamente junto ao solo.
Desde então Hepna-Kaloot o mantivera escondido. Sob Kutlós, o chão mantinha-se estranhamente quieto. As vibrações e os ruídos das gigantescas instalações, destinadas à produção de projetores de campos defensivos individuais, já cessara. Para Kutlós, os ruídos da fábrica automática faziam parte da vida em Saós. E agora as linhas de montagem se encontravam nas naves cargueiras, estacionadas no porto espacial. Os centros de produção, comandados por robôs, haviam sido paralisados antes do ataque simulado dos saltadores. E, ao que tudo indicava, os preciosos mecanismos que se encontravam nas naves não poderiam ser levados a um lugar seguro. A Frota Solar aparecera mais cedo do que se esperava.
Kutlós olhou cautelosamente em torno. Tinha de verificar constantemente se o espia não se aproximava em silêncio, fornecendo a Hepna-Kaloot uma imagem perfeita do lugar em que se encontrava. Mas o recinto estava vazio até o teto.
O equilíbrio das forças deslocara-se ainda mais a favor de Hepna-Kaloot. Tasnor, o informante de Kutlós, achava-se gravemente ferido e não estava em condições de prestar qualquer serviço, enquanto Hepna-Kaloot continuava a ter à sua disposição todas as armas que escolhera.
Apesar disso o anti mais baixo manteve uma atitude propositadamente passiva. Afastava-se cada vez mais de Kutlós, que não teve outra alternativa senão seguir a pista do inimigo. Depois do ataque brutal contra Tasnor, a retirada de Hepna-Kaloot cessara, pois Kutlós continuava no mesmo lugar. A utilização traiçoeira do espia fizera com que agisse com muita cautela.
Kutlós continuava sem saber o que Hepna-Kaloot pretendia fazer com o bule de água. Por mais que forçasse o cérebro, não conseguia imaginar a finalidade do líquido. Acontece que seu adversário confessara que era um experimentado lutador de Paloot. Devia ter um plano bem definido, e por certo estava convencido de que conseguiria derrotar Kutlós.
Segurando firmemente a arma de radiações, Kutlós mantinha-se deitado atrás de seu abrigo. Refletiu sobre as ordens transmitidas por Hanoor, que acabara de ouvir por um alto-falante que se encontrava a grande distância. Ao que parecia, os terranos não queriam desistir do seu intento.
Tanto melhor”, pensou Kutlós, “pois nesse caso deixarão o imperador irritado e farão com que ele dê ordem de atacar.”
Tasnor gemeu baixinho, interrompendo as reflexões de Kutlós.
Preferiu não dizer nenhuma palavra animadora ao jovem, pois com isso trairia sua posição. Kutlós admitia a possibilidade de que Hepna-Kaloot soubesse onde estava, mas preferia não assumir nenhum risco.
A poeira, que se levantara com a queda da muralha, começou a baixar, formando uma camada cinzenta sobre as vestes negras do sacerdote. Kutlós rastejou em torno de dois grandes montões de tijolos. As vestes pouco confortáveis prendiam-no constantemente. Apesar disso hesitava em desfazer-se do símbolo de sua dignidade.
Foi então que viu o espia!
Durante todo o tempo estivera bem perto do lugar em que se encontrava, não acima dele, conforme esperara, mas à sua frente, entre dois montes de escombros. A objetiva de televisão brilhava atrás da fenda estreita como um fogo que se apaga. Kutlós a descobrira por puro acaso.
Hepna-Kaloot sabia perfeitamente o que fazia o sumo sacerdote e onde se abrigara. Kutlós sentiu uma leve admiração sobre a utilização sagaz do espia.
Com muito esforço dominou sua primeira reação, que era o desejo de atirar contra o espião robotizado. Sem dúvida, Hepna-Kaloot observava-o com um máximo de concentração. Ao menor movimento suspeito faria o espia subir abruptamente.
O sumo sacerdote evitava olhar diretamente para o esconderijo da objetiva de televisão. Não devia dar a perceber que descobrira o espia. Muito tenso, Kutlós ficou deitado. Tinha uma chance única para dar seu contragolpe. Mas teria de agir com muita habilidade. Um tiro muito rápido com a arma de radiações estava fora de cogitação, pois Hepna-Kaloot reagiria imediatamente. Além disso, os fragmentos do muro protegiam a câmara voadora.
Kutlós mordeu o lábio. Deitou de lado e lançou um olhar discreto para o espia.
Naquele momento teve uma idéia.
Com a maior calma começou a desenrolar a corda de Lagoo. Devia fazê-lo de tal forma que Hepna-Kaloot supusesse que apenas queria examiná-la. O sumo sacerdote deixou que o material elástico passasse por suas mãos. A substância sintética cedia com a maior facilidade. Kutlós teve a sensação- de que uma cobra deslizava por entre suas mãos, e de certa forma a corda de Lagoo preenchia as finalidades desse réptil. Via de regra os sacerdotes costumavam usá-la para amarrar os prisioneiros. A corda de Lagoo tinha quase vida própria. Uma vez movimentada por seu possuidor, o inimigo praticamente estava reduzido à impotência.
Kutlós pretendia usar a corda numa luta corpo a corpo com Hepna-Kaloot. Agora, modificou seu plano. Usá-la-ia contra a arma mais perigosa do sacerdote.
Contra o espia!

* * *

A excitação provocou palpitações, fez com que o sangue corresse mais depressa pelas veias e provocou uma sensação de calor cerebral. Hepna-Kaloot tinha a tela à sua frente e observava atentamente os acontecimentos que se desenrolavam no abrigo do sumo sacerdote. Tudo lhe era transmitido pelo espia.
O espião robotizado possuía três olhos, que podiam ser ativados à vontade por quem controlasse o aparelho. Havia o olho frontal, que era apoiado por dois olhos laterais. Na atual posição do espia bastava manter ativado o olho frontal, pois era o único que podia ver o abrigo de Kutlós, através da fenda nos destroços do muro.
Muito satisfeito, Hepna-Kaloot constatou os sinais de nervosismo crescente de seu adversário. Kutlós vivia olhando para cima e mexendo na corda de Lagoo.
Tasnor já havia sido colocado fora de combate. Hepna-Kaloot acariciou o bule de água e o punhal de Sostoos. Antes de morrer sob a chuva dos projéteis terranos, queria mostrar ao sumo sacerdote e a si mesmo que ele, o pequeno sacerdote despretensioso, o homem sem influência e valor, era o mais forte.
Na tela via-se perfeitamente Kutlós mexer na corda de Lagoo, enquanto a arma de radiações jazia a seu lado, numa posição em que facilmente poderia pegá-la.
Ele não agüentará muito tempo por lá”, pensou Hepna-Kaloot. “Daqui a pouco abandonará seu esconderijo para me procurar. Quando isso acontecer, seu fim estará próximo.
Uma sombra escura atravessou a tela. Aquilo foi tão rápido que, por alguns segundos, o raciocínio de Hepna-Kaloot ficou paralisado. A tela tremeluziu, os contornos da imagem tornaram-se cada vez menos nítidos e por fim esta apagou-se. Hepna-Kaloot praguejou e balançou o aparelho.
Subitamente os movimentos cessaram.
Pelo Grande Baalol”, pensou apavorado. “Ele atirou a corda de Lagoo contra o espia.
Agiu imediatamente, pois uma das várias pontas da corda se enrolara em torno do olho frontal do espia e procurava arrastá-lo para cima, a fim de colocar o aparelho dentro da linha de tiro de Kutlós. Hepna-Kaloot, então, girou abruptamente a chave principal do controle remoto. Todas as reservas energéticas do sistema de propulsão do espião robotizado foram ativadas. A imagem tremeu, produzindo diversos tipos de ondulação. E entre estas se via, vez por outra, o rosto enraivecido do sumo sacerdote.
Hepna-Kaloot ativou um dos olhos laterais. Viu que duas pontas da corda se haviam enrolado em torno do espia. Uma delas passava diretamente por cima do olho frontal, perturbando a recepção da imagem. E, da posição em que se encontrava o olho lateral, Kutlós não podia ser visto.
Hepna-Kaloot ligou o controle remoto para a potência máxima e fez o espia deslocar-se para trás, junto ao solo. A corda foi arrastada um pedaço, mas logo se prendeu a alguns blocos de pedra. Tudo se passava junto ao solo, a uns cinco metros do lugar em que se achava Kutlós. Hepna-Kaloot ligou o outro olho lateral e ficou apavorado ao ver outra ponta da corda que se aproximava. Apertou o botão direcional e fez o espião robotizado descer. A corda de Lagoo torcia-se como se fosse de borracha. As pedras nas quais se agarrara eram arrastadas.
Hepna-Kaloot sabia que o sistema de propulsão do espia não poderia ser mantido indefinidamente na potência máxima. Isso causaria o esgotamento das baterias.
Hepna-Kaloot girou a chave do sistema de propulsão para baixo e fez o espião robotizado deslocar-se a toda força em direção ao esconderijo de Kutlós. O aparelho libertou-se da corda e disparou rumo ao lugar onde estava o sumo sacerdote.
Um grito de triunfo saiu da boca de Hepna-Kaloot. Naquele momento, uma das pontas da corda de Lagoo chicoteou o ar e agarrou o olho lateral do espia. O resto da corda foi atrás do espia como se fosse uma mola, enquanto Hepna-Kaloot fitava, com o rosto sombrio, a imagem transmitida pelo olho frontal. Na posição em que o aparelho se encontrava, Kutlós não podia ser visto, mas Hepna-Kaloot imaginava que o sumo sacerdote apenas aguardava uma oportunidade de atirar contra o aparelho.
As diversas pontas da corda envolveram o espia como se fossem tentáculos. Hepna-Kaloot desligou o sistema de propulsão, pois, naquele momento, qualquer tentativa de fuga seria inútil. Aproveitara mal a chance de libertar seu espião robotizado. Em vez de dirigi-lo para cima, deixara que permanecesse no campo de ação da corda.
Mas não valia a pena refletir sobre o erro que acabara de cometer. Hepna-Kaloot ligou alternadamente os três olhos do espia, mas nenhum deles proporcionou uma boa imagem. A corda de Lagoo envolvera completamente o espião robotizado.
Aos poucos, a corda sintética foi comprimindo o espia para cima. Hepna-Kaloot imaginava que isso continuaria até que o aparelho ficasse na linha de tiro de Kutlós. Quando tal acontecesse deveria reagir muito depressa. Kutlós só poderia disparar depois que a corda se desprendesse do olho remoto, a não ser que quisesse arriscar a destruição de uma de suas armas. Na fração de segundo em que o espia flutuaria livremente no ar, tudo dependeria de quem fosse mais rápido. Poderia ser Hepna-Kaloot no controle remoto do aparelho, ou Kutlós no gatilho de sua arma.
Os dois antis estavam tão entretidos em sua luta que só tomaram conhecimento do ataque dos dez cruzadores terranos, quando a quarta unidade energética se desfez numa explosão uníssona.
6



No interior da nave girino o repuxo de terra atirada para o alto, peças de metal e de plástico derretido, madeira queimada e partículas de vidro transformadas em minúsculas bolhas, tudo isso só foi registrado sob a forma de oscilação do ponteiro do rastreador energético.
O espetáculo começou! — gritou o Tenente Stana Nolinow e ligou o propulsor da pequena nave.
As imensas eclusas de ar do hangar abriram-se. Sob os efeitos da sucção provocada pelo ar que escapava para o espaço, os revestimentos de borracha da porta contorceram-se.
O rosto sardento de Bell apareceu na tela do videofone.
O senhor sabe o que está em jogo — disse em tom muito sério. — Não assuma riscos desnecessários. Nossas naves foram recebidas com um violento fogo de artilharia. A batalha ainda poderá durar uma hora. Sabem qual é sua tarefa.
Tenha confiança em nós, sir! — exclamou Nolinow.
Alkher acrescentou:
Tudo em ordem, sir.
Uma das construções abobadadas acaba de ser destruída — anunciou Bell.
Só pode ser uma das quatro unidades energéticas dos antis — disse Alkher. — Constatamos a explosão em nossos aparelhos.
Podem decolar — disse Bell. — Boa sorte.
A tela escureceu. A nave girino G-32 saiu do hangar e penetrou no setor espacial de Saós. A bordo havia trinta e dois homens, que obedeciam a ordens específicas de Reginald Bell e Allan D. Mercant. O comando estava equipado com armas especiais ultramodernas. Tratava-se de uma combinação funcional do radiador de impulsos com a carabina automática. Dois canos paralelos disparavam simultaneamente um raio térmico e uma série de projéteis de plástico antimagnético. E os projéteis normais saíam do cano uma fração de segundo antes do raio, para que a energia, que se deslocava a velocidade pouco inferior à da luz, atingisse o alvo juntamente com o projétil, que era muito mais lento.
A arma fora criada para romper o campo defensivo mental dos antis com o projétil de plástico; se a pessoa modificasse seu campo individual para a função normal, o mesmo seria rompido pelo raio térmico. Para os antis seria inútil modificar a carga de seus campos defensivos individuais numa seqüência rapidíssima, conforme a natureza do disparo a que estavam expostos.
A tarefa dos dois tenentes estava perfeitamente definida. Nolinow e Alkher, que conheciam muito bem o planeta Saós, onde já estiveram presos, deveriam aproveitar a confusão criada pelo ataque das dez naves comandadas pelo administrador, a fim de prender o sumo sacerdote em exercício na base dos antis. Bell e Mercant esperavam que o interrogatório desse importante anti lhes proporcionasse informações valiosas sobre o lendário planeta Trakarat que, segundo se dizia, abrigava a sede da seita de Baalol.
Bell e Mercant tiveram suas dúvidas de que Cardif conseguiria atingir seus objetivos por meio de um ataque frontal à base. Por isso colocaram a nave girino à disposição dos dois tenentes. Trinta homens resolutos acompanharam os dois oficiais. Todos haviam iniciado sua carreira a bordo da primeira nave linear, a Fantasy. Não havia mutantes no grupo, pois, face às faculdades paramentais dos antis, sua atuação seria inútil.
Stana Nolinow fez a pequena nave descer em curvas muito amplas para dentro da atmosfera do planeta. A nave girino não pousaria. Todos os ocupantes usavam os trajes arcônidas de combate, que possibilitavam o salto a grande altura. Além disso, os defletores faziam com que se tornassem praticamente invisíveis. Em outras palavras, o incrível aparelho impedia que os soldados refletissem a luz. Em qualquer planeta do Universo, a visão ótica não é outra coisa senão a percepção de certos reflexos luminosos selecionados pelo cérebro, em meio a uma série confusa de reflexos desse tipo, transformando-os nos objetos a que correspondem.
O piloto automático levaria o girino de volta ao hangar da nave-mãe. A qualquer momento, os homens poderiam usar o rádio para chamar de volta o barco espacial.
Brazo Alkher observava os instrumentos de localização.
Parece que os antis nem pensam em capitular — disse.
Talvez ainda tenham esperança de que Atlan os ajude — disse Stana Nolinow.
As pontas dos seus cabelos cortados à escovinha refletiam as luzes de controle, produzindo um brilho dourado.
Alkher cocou a cabeça; parecia pensativo. Fitou o amigo.
Será preferível saltarmos nas proximidades do porto espacial — sugeriu. —
Acho que a luta pesada se desenvolverá em torno da pirâmide e das unidades energéticas.
Será que as naves cargueiras de que o senhor nos falou não estão sendo vigiadas, sir? — perguntou Miguel Arcanjo, um jovem cabo de braços incrivelmente compridos.
É possível — confessou Alkher. — Acontece que temos a vantagem da surpresa. Não se esqueça de que os antis só nos verão quando colocarmos nossas armas versáteis sob seu nariz.
Armas versáteis, era esta a expressão que Bell cunhara para as novas armas especiais.
Miguel Arcanjo manipulou uma arma imaginária. Como não houvesse nenhum inimigo por perto, estendeu os longos braços em direção do homem que se encontrava mais próximo. Este recuou, fingindo-se de apavorado. Quando Miguel sacudia os braços, o espetáculo era digno de ser visto. Em sua terra natal, na América do Sul, corria o boato de que ele poderia facilmente apertar a mão de um amigo que se encontrasse na margem oposta do rio Amazonas.
Procure dominar sua ânsia de entrar em ação — disse Alkher, com um sorriso. — Daqui a pouco precisará de todas as energias que puder reunir.
Stana Nolinow fez a nave girino descer em espiral. Alkher, que controlava os aparelhos, fez um gesto e disse:
Colocamo-nos em boa altura, Stana. Nolinow ligou o piloto automático e deixou que a nave flutuasse sobre seus campos antigravitacionais.
Vamos descer, sir! — gritou para dentro do microfone.
Bell, que se encontrava a grande distância, a bordo da Ironduke, não usou o videofone.
Está bem, tenente! — respondeu. — Vamos buscar a G-32.
Brazo Alkher guardou a arma no cinto do traje de combate.
Sairemos da eclusa em intervalos de três segundos de um para o outro — disse aos homens. — Não se esqueçam de ligar os defletores. Assim que tocarmos o chão, ficaremos visíveis e atacaremos. Se o porto espacial estiver sendo vigiado, voaremos imediatamente para a sede. Quando chegarmos lá, os primeiros contingentes de desembarque espacial terão saído das naves.
Os três homens reuniram-se no interior da eclusa. O sistema de propulsão antigravitacional dos trajes de combate foi ativado. Alkher, que se encontrava à frente do grupo, fez um sinal para Nolinow. Por um instante seu perfil magro ainda se destacou contra a atmosfera sombria. Depois desapareceu.
Vamos atrás dele! — gritou Nolinow com a voz rouca.
No momento em que saltou atrás dos outros, Nolinow viu bem ao longe um enorme lampejo seguido de um trovão prolongado.
É a segunda unidade energética, Stana! — disse Alkher pelo rádio.
Nolinow abriu os braços, embora não houvesse nenhuma necessidade disso. O sistema de propulsão mantinha-o em posição estável. Virou a cabeça e viu que a G-32 já se transformara num ponto minúsculo, que não demorou a desaparecer.
O ruído da luta tornou-se cada vez mais forte. O rugido que, vez por outra, sobrepujava o chiado forte das armas, era provocado pelos jatos-propulsores dos cruzadores.
Nolinow sacudiu a cabeça. Não compreendia por que Rhodan fazia as naves descerem justamente nesse lugar. Por que não parava acima da sede e mandava que os homens saltassem? Mais tarde ficou sabendo que só dois cruzadores haviam pousado em Saós, isto porque o fogo cerrado dos antis os tornara incapazes de manobrar no espaço.
O Tenente Brazo Alkher, que voava à frente do pequeno grupo, viu a superfície plana do porto espacial, que aparecia atrás da montanha. As naves cargueiras dos antis, ali estacionadas, eram obrigadas a aguardar o destino que os atingiria; pareciam brinquedos. Por enquanto os sacerdotes ainda ofereciam uma resistência acirrada.
Alkher foi o primeiro a pousar. Desligou o defletor. Descera entre duas naves. Não viu nenhum anti. Aos poucos, os membros do comando foram-se reunindo em torno dele. Nolinow foi o último a aparecer. Seu vulto movia-se constantemente. Correu pelo pavimento de aço plastificado em direção à proa da nave dos antis. Uma vez chegado lá, deixou que seu traje o levasse para cima, a fim de obter uma visão de conjunto do porto espacial.
Está deserto — falou, dirigindo-se a seu colega de patente. — Concentraram suas defesas na sede.
Miguel terá uma oportunidade de provar sua coragem — disse Alkher com um sorriso. — Vamos ligar os defletores; voaremos para a pirâmide.
Ergueram-se do pavimento liso do campo de pouso e voaram em direção ao lugar em que os terranos estavam empenhados na luta com os antis.

* * *

O deslocamento de ar causado pela segunda explosão foi tão violento que Kutlós teve a impressão de que alguém lhe esmagava os pulmões. Respirava com dificuldade e deitou de costas. Ouviu-se o ruído das pedras que caíam. Kutlós ergueu-se sobre os cotovelos e procurou enxergar em meio à poeira levantada.
O espia de Hepna-Kaloot fora destroçado nas proximidades de Tasnor. A corda de Lagoo havia desaparecido. O sumo sacerdote foi sacudido por sucessivos acessos de tosse.
Os terranos atacavam, muito embora a frota arcônida, da qual Kutlós esperava auxílio, se encontrasse reunida no espaço em torno de Saós. Pela primeira vez se deu conta de que se deixara envolver num jogo condenável com Hepna-Kaloot. Embora o inimigo os ameaçasse, ele se ocupara com seus assuntos particulares e se deixara levar pela provocação grosseira de Hepna-Kaloot.
O pavor que essa idéia lhe provocava era maior que o medo que sentia dos terranos. Devia voltar imediatamente à sala de imagem, a fim de comandar a defesa.
Levantou-se e, por um momento, ficou cambaleando entre os destroços. Um ruído arrastado fê-lo virar-se abruptamente. Um vulto também cambaleava em meio ao pó.
Hepna-Kaloot! — gritou Kutlós. — A Frota Solar está atacando.
Hepna-Kaloot carregava o bule de água, que tinha uma rachadura e estava vazio. Kutlós não lhe deu mais atenção e disparou pelo corredor. Constantemente tinha de passar por cima de destroços. O chiado agudo, que ouvia a intervalos regulares, provava que as rampas de disparo dos foguetes haviam entrado em ação. Alguém devia ter assumido o comando. Kutlós suspirou aliviado. Talvez ainda seria possível salvar a situação.
Um grupo de sacerdotes fortemente armados correu em sua direção.
Venham cá! — gritou Kutlós. — Sigam-me. Precisamos ir ao porto espacial.
Ao que parecia, ninguém o estava reconhecendo. Os homens pararam, desconfiados, e apontaram as armas. Kutlós olhou seu corpo e viu as vestes sujas e esfaceladas.
É o sumo sacerdote! — gritou um dos antis.
Kutlós passou a mão pelo rosto. Olhou pela janela no momento em que uma das construções explodia. O telhado ergueu-se, foi envolvido imediatamente por nuvens de fumaça e vapores, e as resistentes paredes ruíram, se romperam e foram pulverizadas.
Vamos ao porto espacial! — voltou a gritar Kutlós.
O cheiro acre de queimado penetrou no corredor. Mais adiante, uma grossa nuvem penetrava por uma abertura e impedia a visão.
A voz de Hanoor saída dos alto-falantes sobrepujou os ruídos. Kutlós não entendeu as ordens do velho sacerdote. O grupo de antis armados uniu-se a ele e saíram correndo. Alguém aproximou uma arma de seus braços. Ele a segurou sem parar de correr. A pressão do metal duro, que sentia nos quadris, teve um efeito tranqüilizante. Os homens que corriam atrás dele tossiam e fungavam. A fumaça causticante fez os olhos lacrimejarem. Os homens tropeçavam nas pedras e nos destroços. Passaram pelo lugar em que Kutlós se abrigava durante a luta com Hepna-Kaloot Não se via o menor sinal do mesmo. Tasnor estava apoiado nos cotovelos e murmurava coisas incompreensíveis. Kutlós aproximou-se do jovem e inclinou-se sobre o mesmo. Os olhos de Tasnor estavam sem brilho e dirigiam-se a regiões longínquas, das quais, segundo imaginava Kutlós, vinha a morte.
Vá embora! — balbuciou Tasnor.
Não havia ódio nem raiva em sua voz, apenas rejeição e uma necessidade infinita de paz. Kutlós enfiou os braços sob as costas do rapaz e apoiou-o.
Você tem de sair daqui — disse em voz baixa. — Os terranos estão atacando com suas naves.
Por um instante teve a impressão de que conseguiria fazer com que aqueles olhos retornassem ao presente e de que conseguiria restituir-lhes a vida. Mas o ligeiro brilho nascera do subconsciente. Não era guiado pela vontade de Tasnor.
Num movimento suave, Kutlós deixou que o jovem voltasse a estender-se no solo. Levantou-se e fitou o pequeno grupo.
Vamos! — disse com a voz apagada.
Contornaram Tasnor sem olhá-lo. Apressaram o passo, a fim de afastar-se do moribundo.
Kutlós compreendeu que o ataque dos terranos concentrava-se sobre a sede. Só umas poucas naves terranas bombardeavam a base. Talvez o grosso da frota estivesse envolvido numa batalha espacial com as unidades robotizadas do imperador. O sumo sacerdote sentiu-se reconfortado diante da idéia, embora não tivesse a menor prova de que a mesma correspondia à realidade.
Interrompeu suas reflexões quando, bem próximo do lugar em que se encontrava, vários homens passaram pelos muros destroçados e penetraram no corredor. Estavam quase irreconhecíveis em meio ao pó e à fumaça. De qualquer maneira representavam um valioso reforço para o grupo.
De repente Kutlós estacou.
Os homens que via à sua frente não eram servos da seita de Baalol, nem arcônidas...
Eram terranos!
Num gesto automático o sacerdote ativou seu campo defensivo individual e abriu fogo.

* * *

Pousaram nas proximidades da terceira unidade energética. Brazo Alkher desligou o defletor. Nolinow surgiu ao seu lado. Estava banhado de suor, mas sorria.
Estamos em território conhecido! — gritou para Brazo. — Foi aqui que estivemos presos.
Alkher olhou cautelosamente em torno. Por enquanto Cardif não havia desembarcado nenhum contingente de tropas. O fogo dos antis já se tornava mais fraco. Buster Coleman colocou-se ao lado de Alkher e disse:
Veja, sir! Os muros ruíram. Podemos entrar sem ter de abrir caminho a tiro.
Miguel! — gritou Alkher.
O homem nascido no Brasil colocou-se a seu lado e fltou-o numa atitude de expectativa.
Pegue três homens e dê uma olhada nesse muro destruído. Se tudo estiver calmo atrás dele, poderemos entrar por lá.
Sim, senhor — disse Miguel e reuniu três soldados.
Alkher observou os quatro homens que saíam correndo, com as armas nas mãos. Passaram por cima dos destroços e Miguel foi o primeiro a penetrar no edifício. Dali a pouco apareceu de novo e gesticulou com seus longos braços.
Não há perigo — observou Nolinow com a voz seca, muito embora naquele instante um pequeno depósito se derretesse nas imediações, sob o efeito de um raio de impulso. No momento, o perigo de ser atingido pelos disparos das naves terranas era maior que o que provinha dos antis, ocupados exclusivamente com sua defesa.
Brazo Alkher levantou a arma.
Vamos! — gritou.
Quando chegaram ao lugar em que estava Miguel, o vulto comprido deste estava envolto no pó e na fumaça.
Tudo bem, sir — anunciou o brasileiro. — Lá dentro está tudo em paz — disse, apontando para o edifício.
Espremeram-se pela abertura causada por uma explosão e viram-se num corredor cheio de fumaça. A visibilidade não ultrapassava os vinte metros.
Sir, seria pos... — principiou Miguel. Fosse lá o que quis dizer, não conseguiu prosseguir. Apavorado, Alkher viu seus braços girarem pelo ar. Depois Miguel caiu. Viu à sua frente, em meio às nuvens opacas, alguns vultos em trajes ondulantes.
São os antis! — gritou Nolinow. Alkher agiu quase instintivamente.
Com um salto abrigou-se atrás do muro e apontou a arma versátil. Alguém soltou um grito de dor e o corredor encheu-se com os rugidos e os chiados das armas. Alkher sentiu uma dor lancinante na região do estômago. À sua frente, pelo menos quatro terranos mortos jaziam no chão. Eram homens que não conseguiram abrigar-se em tempo. O tenente mordeu os lábios e começou a atirar.
Teve uma idéia estranha. Lembrou-se de que, enquanto lutava pela vida num planeta estranho, inúmeros jovens que se encontravam na Terra estavam empenhados em alguma ocupação agradável, sem pensar nem de leve num certo Tenente Brazo Alkher, cuja presença nesse planeta, juntamente com a dos membros da Frota Solar, garantia a paz dos homens na Terra e em seus planetas coloniais.
É duro, Brazo... é duro”, refletia.

* * *

Quando foi atingido pela primeira vez, Kutlós compreendeu que não chegaria vivo às espaçonaves. Seu campo defensivo individual não o defendia contra as armas dos terranos. Mantinha-se imóvel atrás dos destroços de um painel de controle, e comprimiu o rosto contra o metal frio. Todos os antis acabariam assim. Gonozal VIII os abandonara. O plano do Grande Baalol estava condenado ao fracasso.
Ouviu um gemido bem ao seu Indo. Kutlós abandonou o abrigo do painel de controle. As dores fustigavam seu corpo, olhou por cima da confusão de fios, bobinas e tubos quebrados. Antes que conseguisse enxergar o ferido, foi atingido pela segunda vez. Desta vez não sentiu quase nada. Apenas, o poder de sustentação das pernas diminuiu rapidamente.
O desconhecido voltou a gemer. Kutlós segurou em duas barras e arrastou-se por cima da superfície lisa do painel. Deixou-se cair para a frente e parou no chão. Não viu ninguém. Uma sensação estranha espalhou-se pela parte inferior do corpo. Teve a impressão de que as pernas eram de cera.
Apalpou o abdômen. Quando voltou a olhar as mãos, as mesmas estavam sujas de sangue. Começou a admirar-se porque não havia por ali ninguém que oferecesse resistência aos terranos.
Fugiram — constatou, amargurado.
E então percebeu que os ruídos da batalha no interior do corredor haviam cessado.
Ouviu passos que se aproximavam. Kutlós fez um esforço tremendo para levantar-se, mas não conseguiu erguer o corpo. O cansaço provocado pela tentativa foi tamanho que teve de fechar os olhos.
Alguém arrastou o painel destruído. O ruído causado pelo revestimento metálico parecia incrivelmente forte.
Kutlós abriu os olhos e viu uma fileira de botas. Quando olhou para cima viu os homens que usavam as botas e seus rostos. Parecia enxergá-los através de um nevoeiro. Eram terranos.
Um dos rostos desceu sobre ele. Era magro e anguloso, e nele se via um par de olhos castanhos muito sérios. Teve a impressão de que já conhecia esse homem. De repente lembrou-se. Era um dos dois prisioneiros que deixaram escapar depois da batalha simulada.
Kutlós! — exclamou o terrano em intercosmo.
Ouço o que você diz — respondeu o anti em tom compenetrado. — Seja lá o que você deseja, ande depressa para manifestar seu desejo, pois não terei mais muito tempo de vida.
Brazo Alkher examinou-o rapidamente. Viu que o anti levara dois tiros no abdômen. O tenente cerrou o sobrecenho. Esforçou-se para dissimular seus sentimentos. Lá atrás o jovem e valente Miguel jazia morto.
O planeta Trakarat é o mundo que serve de sede à seita de Baalol, Kutlós? — perguntou Brazo.
O sacerdote limitou-se a responder com um aceno de cabeça, já que tinha muita dificuldade em falar.
Poderia fornecer a posição de Trakarat ou outras informações sobre esse mundo? — perguntou o tenente, em tom apressado.
Poderia — respondeu Kutlós, com dificuldade.
Pois fale! — pediu o terrano. Kutlós recusou.
Não — limitou-se a dizer.
Foi a última coisa que disse antes de morrer. Ficou mudo diante das outras perguntas de Alkher, limitando-se a esboçar um sorriso de desprezo.
Pouco depois sua cabeça caiu para trás e seus olhos ficaram vidrados. Brazo Alkher levantou-se. Engolia em seco.
Foi tudo em vão — disse em tom de desespero.
As linhas defensivas dos antis começavam a cair. O ataque comandado por Cardif se dirigia, agora, contra as últimas fortificações.
O comando dirigido pelos tenentes Alkher e Nolinow retirou-se para o porto espacial. Alkher e Nolinow não diziam nada. Cinco homens haviam ficado em meio às ruínas, cinco homens para os quais não havia mais salvação. Dois homens gravemente feridos estavam sendo transportados cautelosamente. A idéia de que a tentativa de obter informações sobre Trakarat fracassara, e isso em meio ao sacrifício de vidas, deixou os homens deprimidos.
Talvez Rhodan teve mais sorte — disse Nolinow num acesso de esperança.
Alkher continuava cético.
Os antis lutavam desesperadamente, e os dez cruzadores não lhes deram um tratamento muito suave.
Sir! — gritou Coleman de repente. Brazo Alkher virou-se abruptamente.
Viu dois vultos que corriam pela área. Não usavam as vestes dos sacerdotes nem envergavam o uniforme dos terranos. Ao que tudo indicava, estavam fugindo. Só podiam dirigir-se ao porto espacial.
Atrás deles! — ordenou Brazo Alkher.
Escolheu quatro homens. Estes se elevaram sob a ação dos propulsores antigravitacionais dos trajes de combate e voaram atrás dos fugitivos.
Pensativo, Nolinow falou, dirigindo-se a Alkher:
Não sei por quê, mas tenho a impressão de que conheço esses sujeitos.
Não é possível — disse Brazo. — De onde poderia conhecê-los?
Ao que parecia, Nolinow não estava disposto a manifestar a suposição que trazia na mente. Envolveu-se no silêncio. Prosseguiram na marcha. Por causa dos feridos os dois tenentes preferiram não utilizar os propulsores antigravitacionais.
Dali a dez minutos atingiram os quatro membros de seu comando que acabavam de prender os dois fugitivos. Eram grandes, de aspecto selvagem, cujos olhos exprimiam o medo.
Um deles fitou Nolinow e Alkher com uma expressão de incredulidade.
É isso mesmo! — exclamou o Tenente Nolinow com uma expressão de triunfo.
Alkher fitou-o como quem não compreende nada. Com um sorriso Nolinow apontou para os prisioneiros.
São velhos amigos nossos, Brazo — disse em tom sarcástico. — Acontece que, segundo diziam, estavam gravemente feridos quando nós os vimos pela última vez.
São saltadores! — exclamou Alkher e, imediatamente, lembrou-se dos detalhes.
Durante a fuga, encenada pelos antis, haviam visto os dois homens. Eram os feridos retirados da pequena nave espacial que fora dirigida justamente até o platô para onde os dois terranos haviam sido “orientados” pelos sacerdotes. Naturalmente nenhum dos dois saltadores estava ferido; apenas contribuíram para o espetáculo oferecido aos dois terranos. Ao que parecia, não conseguiram voltar às naves de seu clã. E agora tinham de assistir a uma grande derrota de seus aliados.
Brazo Alkher adiantou-se e bateu fortemente nos ombros de um dos saltadores.
Como estão os ferimentos? — perguntou em tom irônico. — Já estão curados?
Somos pacíficos mercadores — respondeu o homem. — Não temos nada a ver com isto.
Seu companheiro confirmou com um aceno de cabeça. Numa disposição irônica, Alkher observou que o gênio pacífico dos mercadores galácticos costumava manifestar-se quando sua vida estivesse ameaçada. Fora disso não recuavam diante de qualquer violência.
Ah, é? — perguntou Nolinow, fingindo-se de espantado e colocando-se ao lado do amigo. Apontou a arma versátil para o prisioneiro. — Então — disse em tom áspero.
Vejamos o que há realmente atrás de seu gênio pacífico seus cordeiros inocentes.
Qualquer pessoa que não conhecesse Stana Nolinow sentiria medo dele. Um brilho ameaçador surgiu em seus olhos e seu rosto se contorceu.
Os dois saltadores, que já estavam amedrontados, estremeceram. Refletiam desesperadamente sobre como poderiam escapar.
Fornecer-lhes-emos qualquer informação que possuímos — apressou-se a dizer um dos saltadores.
Estamos à procura de certo planeta — disse Alkher, prosseguindo no interrogatório. — Pelo que dizem, é o mundo central da seita de Baalol. Seu nome é Trakarat... que sabem a respeito dele?
Olhando de soslaio para a arma de Nolinow, o homem respondeu:
Muitas vezes ouvimos os sacerdote:, falarem sobre esse planeta. Não conhece mos a posição desse mundo, mas o mesmo parece apresentar-se como um fenômeno.
O que quer dizer com isso? — perguntou Nolinow, em tom insistente.
Trakarat possui um anel duplo, tal qual certo planeta do sistema solar — respondeu o saltador. — Se não me engano, vocês chamam esse planeta de Saturno.
Alkher acenou com a cabeça. Depois de ligeira hesitação o mercador prosseguiu:
Trakarat circula em torno de um sol geminado vermelho, juntamente com mais quinze planetas. O nome desse sol é Aptut. Pelo que se conclui das palestras dos sacerdotes, deve ficar perto do centro da Via Láctea.
Os dois tenentes entreolharam-se. Nolinow baixou a arma, o que provocou um alívio visível nos saltadores.
Vocês ficarão presos até que tenhamos conferido a exatidão das suas informações — disse Alkher. — Se tiverem contado alguma mentira, não terão outra alternativa senão retificá-la o mais depressa possível.
No seu íntimo estava convencido da veracidade das informações que acabara de receber. O medo dos dois mercadores era tamanho que não se arriscariam a irritar os terranos com alguma informação falsa.
Vamos chamar a Ironduke — disse Alkher, dirigindo-se a Nolinow. — Bell e Mercant ficarão satisfeitos com o resultado do nosso trabalho. Afinal, já descobrimos muita coisa. Um sistema como o de Aptut representa algo fora do comum.
Vou pedir que mandem o girino — disse Nolinow. — Nossa missão em Saós está concluída.
Enquanto proferia essas palavras, acionou o rádio. Já se encontravam fora da área atingida pelo fogo dos cruzadores. Dentro de alguns minutos as últimas resistências dos antis cairiam e Rhodan penetraria nos destroços do estabelecimento.
7



Passou por cima de montões de destroços, cambaleava entre paredes caídas, corria nos curtos trechos desimpedidos e espremia o corpo pelos lugares apertados. Não olhava para trás a fim de ver se a tropa o acompanhava. Havia um zumbido constante nos seus ouvidos, que sobrepujava todos os ruídos exteriores. Na estranha penumbra da pirâmide destruída surgiam inúmeros corredores e galerias. Havia elevadores destroçados e escadas reduzidas a fragmentos.
Thomas Cardif sentiu uma dor forte na região do coração. Teve de parar. Seu corpo estava banhado em suor. Seus olhos ardiam.
De repente sentiu que havia gente por perto. Percebeu sua presença e, quando se voltou com uma expressão de cólera, viu-os parados atrás de si. Encostados lado a lado, com as armas versáteis semi-erguidas, mudos, com os olhos semicerrados e os lábios apertados, estavam reunidos ali.
Era a infantaria espacial da Frota Solar. Pela primeira vez Cardif sentiu o que significaria para ele se realmente fosse Perry Rhodan. Aqueles homens o acompanhavam numa luta que deviam achar inútil, combatiam a seu lado por uma idéia, por uma lenda, por um símbolo chamado Perry Rhodan.
Cardif deixou pender os braços junto ao corpo e olhou os soldados. Havia um sabor salino em sua boca.
Por mais que investisse sobre os médicos terranos pelo hiper-rádio, as respostas dos doutores sempre foram um fraco consolo. Os maiores especialistas trabalhavam dia e noite, mas não havia nenhum medicamento capaz de deter os efeitos desastrosos do ativador celular. E, segundo disseram repetidamente, uma intervenção cirúrgica seria mortal.
Sir! — gritou uma voz atrás dele.
Cardif parou e deixou que o sargento Mulford se aproximasse. Era um homem de meia-idade com um pequeno bigode e um par de olhos cinzentos e francos.
Mulford apontou para os montes de destroços.
Devemos tentar ir ao alto da pirâmide. Sugiro que alguns homens voem pelos poços dos elevadores, usando os trajes de combate, a fim de verificar como estão as coisas lá em cima.
Isso mesmo, sir — reforçou o tenente Yakinawo, olhando para Cardif. — Pelo jeito que estamos fazendo não conseguiremos nada.
Não havia nenhuma objeção válida contra esses argumentos, mas Cardif disse:
Não sou da mesma opinião. Os soldados poderiam ser surpreendidos. Em qualquer lugar pode haver um ninho remanescente dos antis. Do jeito que estamos fazendo também chegaremos aos pavimentos superiores.
Yakinawo fitou-o com uma expressão de perplexidade e conservou-se em silêncio. Cardif prosseguia obstinadamente. A idéia de Mulford lhe parecera válida e ele a teria adotado, se tivesse certeza de que havia um traje de combate que coubesse em seu corpo. Mas, como provavelmente não fosse possível encontrar um traje nessas condições, obrigou o comando a prosseguir nas buscas pelo caminho normal, pois, quando o grupo descobrisse um anti, fazia questão de estar presente. Desconfiava tanto dos homens que o cercavam que jamais confiaria o comando do grupo a um dos oficiais.
Neste caso vamos subir pela escada, sir — sugeriu Mulford em tom lacônico, apontando para a confusão de fios e pedras que ainda restavam.
Cardif fitou o sargento com uma expressão pensativa.
Está bem, Mulford — disse depois de algum tempo. — Vá na frente.
Mulford era um velho soldado que não se abalava por pouca coisa. Mas agora arregalou os olhos numa expressão de incredulidade.
Quer dizer que eu devo passar pela escada, sir?
O senhor acaba de fazer a sugestão — disse Cardif, com a voz penetrante. — Será que a esta altura suas pernas já estão tremendo?
Não, senhor — disse Mulford e fez continência.
Pendurou uma arma versátil sobre o ombro e aproximou-se do que sobrou da escada. Não hesitou. Agarrou-se numa barra metálica saliente e puxou seu corpo para cima. As pedras espalhadas pelos degraus deformados caíram ruidosamente. A estrutura, feita de metal leve meio derretido, começou a balançar. O sargento parecia um inseto num gigantesco balanço, o que o sacudia lentamente.
Parece que vai agüentar — gritou Mulford com a maior tranqüilidade. — Pode seguir-me.
Que sujeito!”, pensou Cardif, enfurecido. “Ele quer me experimentar. Será que pensa que estou com medo?
Subiu atrás de Mulford, seguido por Yakinawo.
Cuidado, sir! — disse Mulford. — Aqui em cima a coisa começa a ficar perigosa.
Cardif olhou para o sargento. Em certo lugar, a escada se quebrara de vez. Praticamente consistia apenas em duas barras, em cujas pontas havia suportes tão finos quanto uma agulha. Mulford passou entre as barras que nem um macaco.
Outros homens subiram pelo esqueleto metálico, que reagia através de balanços violentos e se dobrou com um forte rangido. Cardif pensou que seria melhor ter aceito a sugestão de Mulford. Um dos lados da pirâmide se abrira numa violenta explosão, e na queda esmagara completamente um dos edifícios. Cardif não se atreveu a olhar para baixo.
Pronto! — gritou Mulford, satisfeito. — Acho que não conseguiremos subir muito mais, sir. É o último andar. Antigamente havia outros pavimentos, mas nossas armas os arrasaram.
De pé numa saliência que lhe oferecia, sorriu para Cardif, que avançava lentamente.
Está vendo alguém? — perguntou o administrador.
Mulford olhou em torno.
É difícil dizer. Por aqui tudo está reduzido a destroços. Sinto o cheiro de fios queimados. Certamente havia muitos aparelhos por aqui.
A fala primitiva de Mulford começou a enervar Cardif, mas este obrigou-se a permanecer calmo, pois havia coisa mais importante a fazer que repreender um soldado.
Será que o senhor consegue? — perguntou a voz preocupada de Yakinawo atrás dele.
Não respondeu e continuou a subir. Finalmente Mulford pôde estender-lhe a mão para ajudá-lo a subir. Dali a pouco viu-se ao lado do velho soldado.
Ajudaram Yakinawo e os outros homens que vinham atrás do tenente.
Acho que não deveríamos deixar subir tantos soldados, sir — disse o tenente. — Isto aqui parece bastante frágil.
Cardif confirmou com um aceno de cabeça, e o japonês berrou algumas ordens. Sua voz produziu numerosos ecos nos extensos corredores e poços de elevador. Cardif olhou em torno. De início viu o mesmo quadro com que já se deparara lá embaixo, um quadro formado por destroços cinzentos e construções destruídas.
Depois viu o anti. Era um vulto escuro num ambiente também escuro, que se mantinha imóvel nos restos de uma poltrona.
Cardif segurou o braço do Tenente Yakinawo. O japonês confirmou com um gesto. Juntamente com Mulford aproximaram-se do anti que parecia petrificado. Era um velho sacerdote, um dos velhos que Cardif já vira.
E aquele velho ainda estava vivo. Seus olhos descoloridos vagavam nervosamente entre Cardif e o tenente. De repente Cardif imaginou o motivo disso e ergueu a arma.
Ele sabe quem é a pessoa que se encontra à sua frente”, pensou. “Pode dizer ao tenente quem eu sou. Neste caso será o fim.”
Mas o velho manteve-se calado. Cardif, que por pouco não disparara contra ele, baixou a arma. Seu desespero era enorme e sua confusão mental progredira tanto que não teria o menor escrúpulo em atirar naquele velho.
Onde podemos encontrar o sumo sacerdote em exercício? — perguntou Cardif, em tom enérgico.
Hanoor fitou-o com uma expressão de indiferença.
Quem pode saber? — falava em voz tão baixa que Cardif teve de inclinar-se para compreender suas palavras. — Os campos da morte são infinitos. Kutlós pode estar em qualquer lugar.
Algum dos seus representantes ainda está vivo?
Está — disse Hanoor. — Sou eu.
Preciso conhecer a posição do planeta Trakarat, meu velho — disse Cardif, em tom insistente. — Revele-nos a mesma, e nós lhe daremos a liberdade.
O conceito de liberdade é muito vago — disse o anti, em tom pensativo. — Não existe nenhuma forma de restrição à liberdade que possa assustar um velho como eu.
Cardif já estava perdendo o autocontrole.
Quero a posição do planeta; diga logo! — gritou para o sacerdote.
Estou cansado; não me martirize — disse Hanoor em voz baixa.
Cardif fez menção de precipitar-se sobre aquele homem indefeso, porém mais uma vez a voz do japonês o deteve.
Ele não falará, sir — conjeturou Yakinawo.
Hanoor fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto rachado. Cruzou os braços sobre o peito. Seu rosto continuou impassível.
Naquele momento, o terrano Thomas Cardif compreendeu que o velho sacerdote não lhe revelaria nada sobre a posição do planeta Trakarat. Nem ele, nem qualquer dos antis que ainda se encontrassem entre os destroços.
A mão levantada caiu sem forças. Sem dizer uma palavra, Cardif passou entre Yakinawo e dirigiu-se à escada.
O japonês, que o seguia com os olhos, teve a impressão de ver um homem perdido.

* * *

O tenente concluiu com um gesto em direção a Reginald Bell:
Foi só o que conseguimos saber dos saltadores.
Os dois tenentes já haviam retornado à sala de comando da Ironduke, onde apresentaram seu relato a Bell, Mercant e outros oficiais. Allan D. Mercant cocou o queixo. Parecia pensativo.
Já é alguma coisa, mas não podemos fazer muita coisa com isso — disse, falando lentamente. — Talvez o centro de computação de Árcon III possa fazer alguma coisa com estes dados.
Para isto precisaríamos do apoio de Atlan — ponderou Bell. — Na situação em que nos encontramos, sua disposição não será muito amistosa, embora tenha afastado as naves robotizadas.
Claudrin interveio na conversa.
Acho que temos a obrigação de informar o arcônida sobre o resultado da operação, pois só conseguimos levá-la avante porque ele se manteve quieto — disse.
Muito bem, Jefe — concordou Mercant. — Faça uma ligação com Atlan.

* * *

O General Alter Toseff acompanhara os acontecimentos com os olhos em fogo. Não tirava os olhos das telas e esperava o momento em que Gonozal VIII resolvesse intervir. Acontece que o imperador ficara mergulhado em seus aposentos e observara tudo em silêncio. Toseff não se atreveu a arrancá-lo de suas reflexões, mas sentia um tremendo ódio dos terranos, que haviam atacado um planeta do Grande Império na presença de uma frota arcônida.
Se o General Toseff desconfiasse de que, no seu íntimo, Atlan desejava que seus antigos aliados fossem bem-sucedidos para que tivessem condições de ajudar Perry Rhodan, sua contrariedade provavelmente seria ainda maior.
Os pensamentos sombrios de Toseff foram interrompidos pelo zumbido do rádio. Ligou o receptor de imagem para receber o chamado. Nesse instante, o imperador despertou da letargia e aproximou-se de Toseff.
Deixe para lá, general — disse.
O rosto franco de Reginald Bell surgiu na tela. Atrás dele estavam Allan D. Mercant e um sujeito formidável chamado Claudrin, que era comandante da Ironduke. Atlan não pôde reprimir sua simpatia por esses homens.
Então? — perguntou.
Bell fitou-o com uma expressão de insegurança e pigarreou fortemente.
Perry destruiu a base de Saós — disse, e o tom de sua voz revelava nitidamente sua desaprovação face a esse ato. — Daqui a pouco deverá retornar a esta nave sem trazer as informações que desejava, o plano elaborado por mim prometia ter êxito. Os tenentes Alkher e Nolinow prenderam dois saltadores que sabem alguma coisa sobre o mundo central de Baalol.
Que mundo é este? — perguntou Atlan.
O nome do sol em torno do qual circula o planeta é Aptut. Dizem que se trata de um sol geminado vermelho. Trakarat, é este o nome do mundo, tem dois anéis semelhantes a Saturno.
Atlan trocou um olhar com o General Alter Toseff. O saratanense sacudiu a cabeça.
Nunca ouvi falar nesse sistema — disse o imperador.
Dizem que fica nas proximidades do centro da Via Láctea — informou Mercant. — Por lá as estrelas que têm planetas não são nenhuma raridade, esse sistema é diferente dos outros, motivo por que talvez tenha sido catalogado como ponto de referência. De qualquer maneira, nos bancos de dados do centro de computação deve haver informações armazenadas a respeito do mesmo.
Bell acrescentou apressadamente:
Queremos pedir-lhes que nos ajude a encontrar Trakarat. Com a ajuda do computador gigante deverá ser muito mais fácil interpretar os dados de que dispomos.
Atlan respondeu prontamente:
Farei tudo que estiver ao meu alcance para descobrir a posição desse estranho sistema solar.
Os olhares de gratidão dos terranos representaram uma verdadeira bênção para ele. Aqueles homens ainda eram fiéis amigos, que o ajudariam em qualquer situação difícil. Sofriam com a doença de Rhodan tanto quanto o próprio.
Nós lhe transmitiremos todas as informações que nos foram fornecidas pelos dois saltadores que prendemos — disse Bell. — Enviaremos um registro completo do interrogatório.
Qualquer dado, por mais insignificante que possa parecer, poderá ser valioso — lembrou Atlan. — Os mercadores deveriam ser interrogados de novo.
Prometo-lhe uma coisa, imperador — disse Mercant em tom solene. — Assim que esteja concluída esta ação, que ninguém de nós quis provocar, a frota terrana será imediatamente retirada do Grande Império.
Depois de combinar outros detalhes, o Major Krefenbac anunciou que os dez cruzadores se haviam juntado novamente à Frota e que Perry Rhodan se encontrava a bordo de um planador que o traria de volta à Ironduke. Face a isso, a palestra foi interrompida a pedido de Reginald Bell.
Atlan, que se sentia cada vez mais preocupado diante das informações relativas à doença de Rhodan, resolveu entrar em contato pessoal com seu velho amigo. Assim que este voltasse a assumir o comando da Ironduke. Nem mesmo as objeções de Bell o fizeram desistir.
Desta vez ainda conseguimos evitar uma guerra entre os dois impérios — disse Atlan, dirigindo-se ao General Toseff, assim que a ligação com a nave terrana foi interrompida.
Será que o preço não foi muito elevado, majestade? — perguntou Toseff.
Nosso prestígio ficou resguardado, pois as naves da Frota Solar se retirarão. Poderemos registrar um êxito militar, sem derramamento de sangue.
Via-se perfeitamente que o general gostaria de formular uma objeção, mas não tinha muita certeza do que iria dizer, ou então tinha medo de Atlan.
Discutiram por muito tempo sobre as próximas medidas a serem tomadas. Aos poucos o General Toseff foi familiarizado com os planos que visavam ao reerguimento do Grande Império. O chefe do governo de Saratan ficou sabendo que Gonozal VIII pretendia utilizar colaboradores terranos nas mais diversas posições. Teoricamente até se poderia chegar à conclusão de que, uma vez alcançado o acordo, o Grande Império ficaria sujeito a uma forte influência terrana, enquanto os poderes dos dignitários decadentes sofreriam grandes restrições.
Depois de algum tempo, Atlan disse:
A essa hora estou convencido de que, assim que Rhodan se restabelecer, as antigas relações de amizade voltarão a firmar-se. Os colaboradores terranos voltarão aos seus postos, e a confiança mútua será ainda mais forte. General, eu lhe garanto que sem os terranos não conseguiremos manter o Grande Império. Precisamos do reforço representado por eles, pois, do contrário, nos esfacelaremos em inúmeros reinos menores.
Faço votos de que o futuro lhe dê razão — aceitou Toseff.
Agora vou falar com meu amigo doente — disse Atlan. — Procure entrar em contato com a Ironduke, general.
Dali a alguns segundos, a tela iluminou-se. Atlan não pôde impedir que seu estômago se contraísse. Sentiu uma sensação estranha ao ter que rever Rhodan em sua nova forma.
De que forma reagiria Perry ao seu chamado?
A tela iluminou-se, e Atlan viu a sala de comando da Ironduke. Notou alguns oficiais que se encontravam em posição mais afastada e manipulavam os instrumentos.
Subitamente alguém penetrou no campo de visão, vindo do lado. Tomado de pavor, Atlan abriu a boca e disse:
Oh, não!
Teve de fazer um esforço para continuar a fitar esse quadro monstruoso e olhar o homem que, segundo se dizia, já fora Perry Rhodan.
O administrador transformara-se num gigante disforme de rosto inchado.
O que quer? — disse a voz saída do alto-falante.
O imperador sentiu-se profundamente abalado ao olhar para o terrano.
Perry! — disse num gemido. — Não sabia que as coisas estavam tão ruins.
Pare com essa fala melosa, arcônida — respondeu Cardif-Rhodan com a voz zangada. — Se tiver algum desejo, fale logo e não faça discursos sentimentais de mulher velha.
Atlan recebeu o insulto sem dar nenhuma resposta. Não viu que os dedos do General Toseff perdiam a cor enquanto mantinham-se apertados contra o painel de controle. Estava tomado de indignação.
Nesse instante Atlan fez um juramento a si mesmo: ajudaria o amigo desfigurado, custasse o que custasse.
Você pode contar com meu apoio integral, Perry — disse em voz baixa e desligou o aparelho antes que Rhodan tivesse tempo de proferir outras ofensas.
O senhor não pode tolerar uma coisa dessas — gritou Toseff fora de si.
Atlan viu desfilar diante dos olhos de sua mente as aventuras pelas quais ele e Rhodan viveram juntos. Lembrou-se dos duelos que haviam travado num passado distante, e lembrou-se da estranha compreensão que se estabelecera entre eles. O general não sabia nada a esse respeito. Só via o presente.
Em meio ao silêncio da nave robotizada, a voz de Atlan soou firme e decidida:
Ele é um amigo, general, e farei tudo que estiver ao meu alcance para salvá-lo.
Naquele momento, Toseff compreendeu que não haveria nada que pudesse demover o imperador do seu intento. Compreendeu a grandeza da decisão que acabara de ser tomada. Saiu sem dizer uma palavra, pois sabia quando um homem gostava de ficar só.



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Em, Duelo sob o Sol Geminado, titulo do próximo volume, uma nova e vibrante aventura vai se desenrolar...

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