segunda-feira, 5 de setembro de 2016

P-113 - A Flor Milagrosa de Utik - Kurt Mahr [Parte 1]


Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
DANIEL BRAGA



Revisão
ARLINDO_SAN



O ativador celular enlouquece
e tumultua um planeta...


Thomas Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan, passando a desempenhar as funções de Administrador do Império Solar. Ninguém, nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan e os mutantes, imagina que o governo vem sendo exercido por quem não tem direito ao mesmo.
É bem verdade que os atos de Cardif não correspondem ao que se esperava de Perry Rhodan, mas o comportamento estranho do administrador é explicado pelo fato de sua mente ter sido afetada, durante o tempo em que ele esteve em mãos dos antis.
Cardif o usurpador, pode proclamar em tom triunfante que ninguém descobriu sua trama. Portanto, pode agir conforme lhe aprouver.
Resta saber por quanto tempo isso dará certo. Afinal, os protetores e cúmplices de Cardif, os antis, a qualquer momento poderão desmascarar o falso administrador.
Ainda acontece que Aquilo, o misterioso Ser espiritual do planeta Peregrino, há muito descobriu a trama e deu início a uma série de ações. A Flor Milagrosa de Utik apenas representa a primeira fase dessas ações!





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

KalalUm anti que é considerado uma flor...

Ron Landry, Larry Randall e Lofty PattersonAgentes da Divisão III.

Meech HanniganUm robô com um defeito de dicção.

Ele ou AquiloO Ser de Peregrino que se compraz numa brincadeira.

KazekUm utikense que nunca mais quer ter relações com os terranos...
1



A palestra que segue foi mantida no planeta Peregrino. Quem participou da conversa foi o bio-robô Homunc e seu senhor, o Ser coletivo que governa Peregrino. Em virtude da concepção toda especial que tanto o Ser coletivo como Homunc tinham em relação ao tempo, a palestra, que só consistiu em umas poucas frases, demorou bastante pelos padrões terranos.
Homunc:
Estou notando uma alegria toda especial no senhor. Será que posso participar do seu prazer?
Aquilo:
Naturalmente. Não há nenhum segredo.
Homunc:
Fico-lhe muito grato.
Aquilo:
Trata-se dos ativadores celulares que há pouco tempo foram entregues a um ser que usava o nome de Perry Rhodan...

* * *

Kalal acabara de ser transportado do suave mecanismo transportador — formado pela fita rolante — para o chão firme do pequeno espaçoporto, quando pela primeira vez ouviu a estrondosa gargalhada.
O fato de alguém que se encontrava nas suas proximidades se atrever a rir representava um acontecimento tão extraordinário que Kalal se virou instantaneamente, bastante indignado. Viu a grande nave dos saltadores, com o aspecto de uma torre. Acabara de chegar e estava pousada no asfalto artificial branco-cinza. Kalal viu, também, alguns tripulantes, que se dispunham a deixar a nave depois do passageiro; e viu alguns homens da equipe do espaçoporto, que realizavam um exame minucioso do sistema hidráulico de apoio da gigantesca nave. Por cima de tudo estendia-se o céu muito azul de Utik, cujo sol branco, muito forte, fazia o suor gotejar da testa de Kalal.
Mas não havia ninguém que tivesse dado uma gargalhada.
Com um ligeiro suspiro de indignação, Kalal dirigiu-se ao carro automático que o aguardava a poucos metros do passadiço. Mal dera alguns passos, voltou a ouvir a gargalhada. Virou-se abruptamente e percebeu que o cenário estava totalmente mudado.
De repente os saltadores, que desceram a escada atrás dele, pareciam transformados em estátuas e o fitaram, perplexos. Os homens da equipe do espaçoporto haviam interrompido seu trabalho e também olharam em sua direção. Kalal sentiu-se confuso.
O que acontecera? Era bem possível que para o pessoal de superfície um servo da Verdade Absoluta fosse uma figura notável. Mas por que motivo os saltadores estavam parados e o fitavam tão intensamente?
Pela terceira vez Kalal ouviu a gargalhada. Desta vez viu que nenhuma das pessoas que o fitavam rira. A manifestação de hilaridade vinha de outro lugar. De onde seria?
Os homens que haviam trabalhado junto às colunas hidráulicas saíram de baixo da nave. De repente seus rostos, que até então pareciam sérios e ligeiramente marcados pelo tédio, assumiram uma expressão totalmente diversa. Os olhos brilharam e a boca estava aberta numa expressão de ansiedade. Estenderam os braços, como se quisessem pegar alguma coisa antes que escapasse. O que mais espantou Kalal foi o fato de que todos eles tinham mais ou menos o mesmo aspecto.
Além disso, era em sua direção que estendiam as mãos, e aproximavam-se dele como quem quer agarrar uma caça de carne saborosa.
Kalal não se sentiu nada à vontade.
Recorreu aos dons que possuía para penetrar nos pensamentos daqueles homens e descobrir o motivo de seu estranho comportamento. Não conseguiu. Talvez estivesse muito confuso para concentrar-se, ou então havia algo mais em jogo.
De qualquer maneira, sentiu que a situação se tornava perigosa quando os saltadores junto ao passadiço também se movimentaram, seguindo os mecânicos com a mesma expressão de enlevo desenhada no rosto. Perplexo, sem que tivesse a menor idéia do que acontecera, virou-se e correu em direção ao carro automático. Seus trajes coloridos, que quase chegavam a ser pomposos, não haviam sido criados para permitir movimentos tão rápidos. Kalal tropeçou e por pouco não caiu. Mas naquele instante ouviu o fungar ansioso dos homens que o perseguiam. Isso fez com que voltasse a erguer o corpo.
Com um salto enorme pela janela aberta do carro, pôs-se a salvo. A janela fechou-se no momento em que tocou o botão que se encontrava junto ao seu assento. Apavorado, Kalal viu que os homens dominados pela ânsia batiam na carroçaria do veículo, caíam para trás e a seguir comprimiam os rostos contra os vidros do carro.
Vamos ao Templo da Verdade! — gritou em arcônida, fustigado pelo medo.
O piloto automático — uma pequena caixa recheada de sabedoria positrônica, dotada de um microfone que saia do painel de instrumentos, estendendo-se carro a dentro — compreendeu a ordem. Ouviu-se um zumbido. Kalal soltou um suspiro de alívio ao ver o pavimento liso do campo de pouso recuar para baixo, juntamente com a multidão de homens possuídos pelo entusiasmo.
Escapara ao pesadelo, por assim dizer, no último instante. Tinha motivo para sentir-se aliviado. Mas o sentimento não durou muito. A preocupação voltou a instalar-se em sua mente.
O que acontecera?

* * *

A onda de exaltação sussurrante atingiu Meech Hannigan quando este se dirigia à lanchonete, onde pretendia ingerir uma xícara de café terrano, a fim de guardar as aparências.
Parou no meio da calçada, sem dar atenção aos dois homens mergulhados numa palestra, que esbarraram nele. Os estranhos desculparam-se apressadamente e prosseguiram no seu caminho. Procurou verificar o que lhe causava tamanho excitamento.
Uma vez que tivesse sido especialmente treinado para esse tipo de problema, não demorou a perceber.
Eram irradiações muito intensas de um cérebro estranho. A intensidade era tamanha que Meech não teve a menor dificuldade em reconhecer as emanações provocadas pelos milhares de cérebros dos transeuntes das imediações. Não conseguia interpretar as emanações, pois não fora treinado para isso. Mas compreendeu imediatamente que o cérebro que as provocava pertencia à classe daquelas pessoas que fora incumbido de localizar.
O fato de as irradiações terem surgido tão repentinamente deixou-o perplexo. Esperava que de início fossem fracas, enquanto viessem de longe, para depois se tornarem cada vez mais nítidas. No entanto, surgiram de repente, muito nítidas e a uma distância não muito grande.
Meech refletiu, o que apenas consumiu uma fração de segundo, e chegou à conclusão de que o dono desse cérebro superpotente deveria ter-se aproximado com uma velocidade extraordinária. E o fato de ele ter-se aproximado a uma velocidade extraordinária, por sua vez, levava à conclusão de que viera num veículo veloz. E os veículos verdadeiramente velozes eram as espaçonaves.
Meech concluiu que, fosse quem fosse o dono daquele estranho cérebro, este ser viera numa espaçonave que acabara de pousar em Utik. E o pouso certamente fora realizado no espaçoporto de Massenock, que servia à capital do planeta, pois, do contrário, Meech não teria percebido as emanações.
Com isso as coisas tornavam-se mais simples. Meech ficou parado junto ao meio-fio e chamou o primeiro carro automático desocupado que passou por ali. O veículo parou à sua frente e a porta destinada aos passageiros abriu-se. Meech entrou e comunicou seu destino ao piloto automático.
Registro Central.
Enquanto o carro o levava velozmente e em segurança através do tráfego intenso da área central da cidade, Meech continuou a prestar atenção às emanações do cérebro estranho.
Percebeu que, decorridos poucos minutos depois do instante em que as notara pela primeira vez, as mesmas já se tornavam mais intensas. Os pensamentos que ocupavam aquele cérebro não pareciam nada agradáveis. O dono dessa mente devia encontrar-se num estado de pânico. Depois de algum tempo, a recepção tornou-se menos nítida, o que levou Meech à conclusão de que o dono do cérebro se afastava.
Meech levou dezessete minutos para chegar ao edifício em que ficava o Registro Central. Atirou uma moeda especial no computador programado para pagar o preço das corridas do veículo, esperou que lhe desse o troco e saltou. Contou o troco, conforme era de seu hábito, e constatou que a viagem lhe custara dois lodiques e quarenta. Em comparação com os padrões terranos, era barato. Em Utik recebia-se aproximadamente onze lodiques por um solar. Na Terra uma importância como essa nem sequer bastaria para ir do Paschek’s, na Sexta Avenida, até a esquina da Terceira Avenida.
Meech subiu pela escada rolante que levava à entrada principal do Registro Central. Olhou para os pés e notou que o degrau sobre o qual estava parado vergava sob o peso de seu corpo. Sabia perfeitamente que um dia isso o trairia. Talvez “trair” não fosse a palavra adequada. Dificilmente algum dos habitantes de Utik ou de qualquer outro lugar se interessaria em saber que não era membro da raça a qual dizia pertencer.
No hall de recepção do edifício havia um setor automatizado de informações.
Meech perguntou pela sala onde poderia obter informações sobre as espaçonaves chegadas ao planeta. Foi encaminhado ao quadragésimo oitavo andar. Usou o elevador antigravitacional. Não se irritou com o fato de que o campo gravitacional artificial deixou que descesse um pedaço em direção ao subsolo, antes que registrasse seu peso correto e o levasse ao lugar pretendido.
O escritório que lhe fora indicado ainda não estava totalmente automatizado. Havia alguns aparelhos robotizados que davam ao visitante qualquer informação que este desejasse, desde que a mesma estivesse disponível. Acontece que Meech receava que a informação de que precisava não estivesse disponível. Por isso foi obrigado a formular sua pergunta de maneira que nenhum dos autômatos soubesse interpretá-la. Sendo assim o robô-porteiro o encaminhou ao chefe do escritório.
Dali a pouco Meech viu-se no interior de uma pequena sala, decorada com bom gosto, numa tendência ao conforto à moda moderna.
O chefe do escritório deixou-o surpreso!
Assim que passou pela porta, Meech viu-se diante de uma jovem mulher, que o fitava por cima da escrivaninha com certa curiosidade, mas também com uma expressão de simpatia.
Meech conseguiu sorrir ligeiramente e cumprimentou a mulher.
Sinto incomodá-la — disse. — Acontece que lá fora — apontou por cima do ombro — ninguém estava a par.
A moça atirou a cabeça para trás, fazendo esvoaçar alegremente a cabeleira loura, e soltou uma risada cristalina.
Infelizmente isso acontece com certa freqüência — confessou, falando em arcônida. — Aquelas caixas de lata ainda estão longe de terem assimilado todos os nossos conhecimentos.
Apontou para uma poltrona.
Faça o favor de sentar... — disse, esticando um pouco a última palavra e lançando um olhar indagador para Meech.
Hannigan — disse Meech prontamente, enquanto tomava lugar na poltrona.
Hannigan — repetiu a moça. — Parece um nome terrano.
E é mesmo — respondeu Meech. — Sou terrano.
Oh, para mim isto é muito interessante — arregalou os olhos e inclinou-se por cima da escrivaninha. — Conte-me alguma coisa sobre a Terra, Hannigan. Nunca estive lá.
Meech constatou que a moça não fazia a menor alusão à finalidade de sua visita. Queria conversar. Não era a primeira vez que Meech passava por uma situação como esta. Seu dever obrigava-o a entrar em contato com uma mulher, e esta simpatizava com ele. No inicio costumava divertir-se com isso. Mostrava-se interessado e combinava um encontro, saindo com ela de noite. Mas um belo dia teria de chegar o momento em que a mulher percebesse que ele não era o tipo de homem que esperava. Meech imaginava perfeitamente que a decepção seria enorme, e por isso nunca costumava aparecer depois do primeiro encontro.
No presente caso a situação era diferente. Não tinha tempo para brincadeiras. Teria de mostrar-se frio a partir do primeiro instante.
Infelizmente vejo-me obrigado a decepcioná-la — respondeu com um sorriso triste. — Nasci na Terra, mas vim para Utik quando ainda era criança. Não sei...
Compreendo — interrompeu-o a moça, em tom muito mais frio que antes. — Quer dizer que não conhece a Terra, O que o trouxe para cá?
Há quarenta e três minutos e vinte segundos uma nave pousou no porto espacial de Massenock — disse Meech em tom decidido. — Gostaria de saber de onde veio, e ainda se desembarcou passageiros em Utik.
A moça fitou-o, espantada.
Há quarenta e três minutos... — repetiu, confusa.
E vinte segundos — completou Meech.
A moça fez-lhe um sinal.
Um momento.
Meech viu-a comprimir vários botões do painel que havia sobre sua mesa. Depois ouviu-se o zumbido da aparelhagem positrônica, que procurava localizar em sua memória a informação desejada, imprimiu a mesma num cartão e fez o mesmo cair sobre a escrivaninha. A moça pegou o cartão e examinou-o. Meech notou uma expressão de desconfiança em seu olhar.
O senhor tem razão — respondeu lentamente. — Com a precisão de um segundo.
Meech lamentou-se por ter indicado o momento da chegada com tamanha precisão. Desse jeito acabaria provocando suspeitas.
Qual é o nome da nave, por favor? — perguntou em tom amável.
E a Loral LXXX VII — respondeu a moça. — Trata-se de uma nave mercante que só trouxe um único passageiro.
Meech sabia que não deveria formular outras perguntas. Ninguém estava autorizado a dar informações sobre os nomes dos passageiros. Meech levantou-se.
Quer dizer que foi uma nave saltadora — balbuciou. — Fico-lhe muito grato.
Não há de quê — disse a moça com um gesto de desprezo e voltou a inclinar-se sobre o trabalho no qual fora interrompida por Meech.
Meech teve pena dela. A vida das mulheres de Utik não era nada fácil. A evolução do planeta seguira um caminho estranho. Os habitantes do planeta eram imigrantes arcônidas. No curso dos milênios, os homens degeneraram, transformando-se em criaturas calvas e indolentes, enquanto as mulheres, em linhas gerais, continuaram a ser as mesmas que eram no começo.
Quer dizer que Meech teve pena da moça. Mas a capacidade de seu cérebro bastava para que compreendesse — nitidamente — que o setor da simpatia teria que ficar desligado.
Meech saiu. Chegando à rua, poucos instantes depois, buscou outro carro automático. Pegou-o para ir ao porto espacial. Ou melhor, pretendia ir para lá. O porto ficava a uns trinta quilômetros da cidade. Quando Meech tinha percorrido os primeiros cinco quilômetros, o carro entrou numa rua em que os homens se comprimiam às centenas na pista de rolamento, empurravam-se uns aos outros e falavam confusamente. Meech espantou-se, mas teve a impressão de que aquele tumulto não tinha nada a ver com a sua missão. Por isso não teve nada a objetar quando viu que o piloto automático fez meia-volta, para tentar a sorte em outra direção.
Realmente conseguiu avançar mais um pedaço — cerca de um quilômetro. Logo a mesma cena surgiu diante de seus olhos na outra via de saída. O piloto automático compreendeu que seus esforços seriam inúteis e perguntou ao passageiro se concordava em que prosseguissem viagem pelo ar. Naquela altura Meech já estava desconfiado. Pagou o preço pelo trecho até então percorrido, ordenou ao carro que esperasse e desceu.
No mesmo instante viu-se envolvido pela multidão que vagava na rua, bloqueando o tráfego.
Com uma rapidez tremenda foi cercado por alguns homens e mulheres que lhe dirigiam a palavra. Falavam todos ao mesmo tempo, fazendo com que Meech só compreendesse alguns fragmentos das frases que proferiam.
...já ouviu falar...?
...uma planta maravilhosa, fantástica...
...e o perfume. É inacreditável...
Meech Hannigan era livre de preconceitos por natureza. Não seria capaz de rir de alguma coisa que lhe parecesse absurda. Por isso prestou atenção aos fragmentos da história que lhe era contada e os uniu rapidamente, graças ao seu poder de análise, transformando-os num quadro inteligível.
Ao que tudo indicava, a exaltação que se verificava nas ruas de Massenock estava sendo causada por uma planta vinda numa espaçonave. Esta há pouco pousara em Utik.
As descrições da planta, que Meech ouviu de vários homens e mulheres, não coincidiam em todos os pontos. De qualquer maneira, devia tratar-se de uma linda flor, dotada de perfume irresistível. Pelo que se dizia, esse perfume fora sentido desde o porto espacial até o centro da cidade. Era uma distância de aproximadamente vinte e cinco quilômetros.
A inteligência de Meech classificou esta informação na categoria dos fatos inconcebíveis.
O que mais o impressionava era o fato de que nenhuma das pessoas com as quais falara chegara a ver a estranha flor. Apenas haviam sentido seu cheiro. Apesar disso as descrições do aspecto exterior da planta coincidiam num ponto: era de cor violeta, com um núcleo amarelo reluzente. As divergências diziam respeito exclusivamente à forma das pétalas e ao tamanho da planta.
Meech perguntou se o perfume da flor ainda era perceptível. A resposta foi negativa. Ao mesmo tempo constatou que essa gente seria capaz de correr muito mais, caso alguém lhes fizesse acreditar que a flor se encontrava num lugar bastante afastado.
Meech registrou cuidadosamente esses fatos e voltou ao carro. Já não tinha nenhuma objeção a que a viagem prosseguisse pelo ar. O veículo corria bem alto acima dos homens exaltados. Poucos minutos depois chegou ao porto espacial.
Verificou-se que seria impossível encontrar um local de estacionamento. As massas inundavam o porto e as áreas adjacentes, salvo nos lugares em que os cordões de isolamento afastavam as multidões das rampas de embarque e desembarque das espaçonaves.
Meech viu que do tumulto também participavam alguns funcionários do porto espacial. E também percebeu que depois de algum tempo a gigantesca massa humana tomou uma decisão. O nervosismo cessou e as pessoas começavam a agrupar-se de certa maneira.
Segundo parecia, alguém dissera onde estava a flor milagrosa. A multidão começou a deslocar-se para o leste. Meech não perdeu tempo: seguiu na mesma direção. Já não estava tão certo de que o nervosismo reinante em Massenock não possuía qualquer relação com a tarefa que teria de cumprir. E, como era uma criatura coerente, queria obter esclarecimentos a este respeito.
Mandou que o piloto automático seguisse para o leste. Enquanto sobrevoava a periferia do gigantesco campo de pouso, avistou o grande vulto cilíndrico que, segundo supunha, trouxera o dono do cérebro que emitira as emanações tão intensas. Na popa estava escrito em letras luminosas, numa visão angulosa do alfabeto arcônida:
Loral LXXX VII. Meech chegou à conclusão de que talvez se tornasse necessário fazer uma visita a essa nave.
Dali a alguns minutos mudou de opinião. Notou que as emanações do cérebro superpotente voltavam a tornar-se mais intensas. Compreendeu que se aproximava do seu dono.
Costumava ter muita cautela ao avaliar uma situação, mas achou pouco provável que fosse unicamente por obra do acaso que a direção, para a qual se deslocava a multidão exaltada, coincidia com aquela em que ele mesmo se aproximava do estranho cérebro. Devia haver alguma relação entre os dois fatos; e não demorou a descobrir qual era essa relação.
O carro automático sobrevoou o complexo de edifícios em forma piramidal, esférica e cúbica que formavam o templo de Baalol em Massenock. Meech notou perfeitamente que, depois de sobrevoar o templo, as emanações do estranho cérebro se tornavam menos intensas. Mandou que o carro voltasse e percebeu que as massas exaltadas, que avançavam em direção ao templo, não vinham apenas do oeste, ou seja, do porto espacial, mas acorriam de todas as direções. A flor milagrosa, ou aquilo que para as massas obsessas vinha a constituir a mesma, devia encontrar-se no interior do templo de Baalol. E no interior do complexo templário também se encontrava o ser cuja estranha e intensa atividade mental atingira Hannigan com tamanha nitidez.
Meech percebeu que com isso sua missão estava cumprida. Viera para Utik, a fim de vigiar as atividades da seita de Baalol. Devia avisar seu contato terrano assim que notasse algo de estranho que se relacionasse com o culto de Baalol.
Meech foi de opinião que a flor milagrosa e o cérebro que desenvolvia uma atividade tão intensa constituíam fatos bastante estranhos. Mandou que seu carro voltasse ao centro da cidade e desceu em frente ao edifício de apartamentos em que morava. Entrou no elevador antigravitacional, subiu ao andar em que ficava seu apartamento, trancou cautelosamente a porta, pegou o transmissor de telecomunicação que, por assim dizer, trazia junto ao corpo, e começou a enviar uma mensagem codificada à Terra.
Depois disso pôs-se a esperar. Sabia que a resposta não demoraria.

* * *

Naquele mesmo instante Kalal, sumo sacerdote do culto de Baalol, estava sentado no interior do Templo da Verdade. Tomado de raiva impotente, prestava atenção à estrondosa gargalhada que constantemente ressoava em seu ouvido.
Ainda não sabia quem estava rindo. Mas, aos poucos, uma suspeita começou a surgir em sua mente.
Naquele momento apareceu um sacerdote subalterno e disse que, fora das muralhas do templo, uma imensa multidão se reunira e queria ver a flor milagrosa.
Kalal não tinha a menor idéia de que flor seria esta. No mesmo instante voltou a ouvir a gargalhada retumbante. Furioso e desorientado, Kalal teve impressão de que a criatura medonha que soltava as gargalhadas sabia melhor do que ele o que havia com essa flor.

* * *

Naquele instante uma mensagem de telecomunicação foi expedida na Terra. Essa mensagem dizia que certo agente que se encontrava em Utik devia pegar a primeira nave disponível para ir à Terra. A mensagem estava encerrada em impulsos codificados. Embora contivesse cerca de cinqüenta palavras, sua duração não ultrapassou um e meio microssegundos.
O mais estranho era que o destinatário da mensagem não teve necessidade de recorrer a um aparelho decifrador para compreender a ordem. Recebeu-a tal qual estava concebida e entendeu-a dessa forma.
Dali a meia hora, Meech Hannigan foi visto no porto espacial de Massenock, que já ficara livre das massas exaltadas, a fim de reservar passagem para a Terra numa nave expressa. Meech assinou a passagem com seu nome verdadeiro: Mitchell Hannigan. Só costumava ser chamado de Meech porque no seu sistema de cordas vocais um elemento de regulagem de tempo estava mal ajustado, fazendo com que a palavra Mitch, que correspondia à abreviatura de seu nome, fosse pronunciada com um i longo — e ainda porque certas pessoas haviam chegado à conclusão de que, para os fins que tinham em vista, um robô com um pequeno erro de dicção era mais vantajoso que uma máquina cujo setor vocal havia sido provido de um novo mecanismo de regulagem de tempo, a um custo bastante elevado.

2



Ele:
Os ativadores não correspondem exatamente àquilo que a outra parte espera. Homunc:
Quer dizer...
Ele:
Quer dizer que, de forma alguma, cumprem a finalidade que um ativador deveria cumprir.
Homunc:
Será que cumprem alguma finalidade?
Ele:
Naturalmente...!

* * *

A primeira idéia que veio à mente de Ron Landry, depois de sua chegada a Utik, foi esta: “Bem que o velho poderia ter-me enviado a outro lugar.”
A mesma idéia já lhe ocorrera várias vezes, nas últimas trinta e oito horas. Ron não conseguia gostar de sua nova tarefa, O Coronel Quinto e seus aparelhos de ensino hipnótico o haviam preparado para aquilo que o esperava em Utik. Embora na execução de sua tarefa pudesse contar com a colaboração de um especialista muito competente, teria preferido que o tivessem enviado a algum lugar em que tivesse uma coisa definida a fazer, em vez de mandá-lo para Utik onde, ao que tudo indicava, os portadores de certas capacidades parapsicológicas intangíveis haviam marcado encontro. Além do mais a tarefa de Ron não estava muito bem definida. Por enquanto deveria colher informações. Era uma formulação pouco nítida, que abria margem a inúmeras alternativas, a numerosos caminhos de penetrar em alguma coisa da qual posteriormente não conseguiria livrar-se por suas próprias forças.
O fato de que o Capitão Larry Randall e um novo agente, Lofty Patterson, que lhe dariam apoio, também terem chegado a Utik, representava um consolo muito fraco. Simplesmente não gostava da tarefa que lhe fora confiada, e por enquanto não havia nada que pudesse modificar tal opinião.
O sargento Hannigan conhecia a cidade. Arranjou um carro e levou seu superior hierárquico a um hotel situado no centro da cidade. Depois disso Ron Landry mandou que voltasse a sair imediatamente, a fim de colher informações sobre os fatos que se desenrolavam nas proximidades do templo de Baalol. Perto de seis dias já se haviam passado desde que o sargento Hannigan partira de Utik. Era de supor que nesse meio tempo tivesse acontecido alguma coisa.
Meech regressou dentro de uma hora. Além de uma pilha de jornais trouxe certa quantidade de cassetes de microfilme e fitas gravadas com informações.
As notícias e os relatórios sonoros e visuais revelavam que os órgãos oficiais de Massenock começavam a preocupar-se com os estranhos acontecimentos ocorridos nas cercanias do templo de Baalol. Vários observadores haviam sido destacados para a área, mas, ao que parecia, nenhum deles encontrara o caminho de volta. O pessoal do templo foi interrogado sobre o motivo do tumulto. Entretanto os próprios sacerdotes pareciam não ter a menor idéia do que se tratava. As massas enlevadas sitiavam os portões do templo. Pela primeira vez desde a inauguração, os portões tiveram de permanecer fechados. Os sacerdotes mal conseguiam sair num carro automático que se deslocava pelo ar, pois os possessos também usavam esse caminho para aproximar-se do objeto de seus desejos. O campo defensivo, que os sacerdotes haviam levantado em torno do templo, era o único obstáculo a impedir que os edifícios fossem tomados de assalto numa questão de minutos.
A polícia de Massenock saíra para dispersar a multidão. Mas em vez de cumprir essa tarefa, os policiais atiraram fora suas armas e juntaram-se aos grupos que sitiavam o templo. As áreas adjacentes, num raio de vinte e cinco quilômetros, pareciam um acampamento militar. Uma vez que os meios usuais de informação falhavam por completo, não havia em Massenock ninguém que soubesse exatamente qual era ao certo o motivo do tumulto. O resultado era um estado de impotência e desorientação. Circulavam boatos relativos a uma flor milagrosa, escondida no Templo da Verdade.
Mas ninguém queria acreditar nesses boatos.
Dessa forma Ron Landry viu frustradas suas esperanças de elaborar um plano com base nas informações disponíveis. Não se sentiu muito entusiasmado ao constatar que teria de fazer uma verificação in loco.
Não perdeu tempo. Uma vez examinadas as informações recebidas, pôs-se a caminho juntamente com Meech Hannigan.

* * *

As autoridades de Massenock haviam conseguido pelo menos uma coisa: isolaram as áreas adjacentes ao templo numa linha que corria um quilômetro atrás dos últimos sitiantes. Ninguém podia cruzar essa linha sem uma licença especial.
Ron Landry não possuía essa licença, mas isso não o preocupava.
Passando por uma rua em que grupos de curiosos discutiam animadamente, aproximou-se, juntamente com Meech Hannigan, da barreira policial. Um destacamento de cinco policiais ocupava um cruzamento bastante amplo. Mais adiante, a multidão que sitiava o templo parecia uma muralha.
Ron e Meech deixaram para trás os curiosos que discutiam. Um policial destacou-se do grupo e deu alguns passos em direção aos dois.
O senhor não pode passar por aqui — disse no dialeto arcônida usado em seu mundo. — Esta rua foi interditada.
Posso, sim — respondeu Ron, laconicamente. — Onde está seu superior?
Ao que parecia, o tom resoluto usado por Ron causara certa impressão no policial.
O Tenente Nazdek — respondeu, pronunciando o nome com a voz tão forte que a pessoa que se chamava Nazdek virou-se e lançou um olhar indagador para Ron.
Meu nome é Landry — disse Ron. — Sou major da Frota Terrana. Faça o favor de examinar isto.
Pôs a mão no bolso e tirou um pequeno objeto reluzente com o aspecto de uma medalha. Bastou um ligeiro olhar para que o tenente soubesse que tipo de pessoa tinha diante de si. Qualquer habitante da Galáxia, quer fosse súdito do Império Solar, quer do Império de Árcon, sabia o que significava uma medalha P violeta. E também sabia que teria problemas pela frente, se não concedesse imediatamente ao portador dessa medalha aquilo que representava a letra P: prioridade.
Naturalmente pode passar, major — disse o tenente e prestou continência.
Confio na sua discrição, tenente — disse Ron com um sorriso.
Fez um sinal para Meech e os dois atravessaram o cruzamento.
Ron seguiu para a esquerda. A idéia de penetrar na área de perigo em plena via pública podia ser tudo, menos simpática.
As paredes altas dos edifícios ofereciam um pouco de proteção. Era bem verdade que no momento Ron não saberia dizer contra o
Ao contrário do que acontecia nas casas situadas do outro lado do cruzamento, as janelas estavam fechadas. As casas pareciam abandonadas. Por certo o nervosismo generalizado levara todos para a rua e em direção ao templo.
De repente Meech parou. Ron não ouviu mais as batidas de seus passos e virou-se, espantado.
Há alguém por aí — disse Meech em voz baixa.
Ron compreendeu.
Quando Meech dizia que havia alguém, não aludia a uma pessoa igual a qualquer outra.
Ron olhou em torno.
Onde? — perguntou.
No próximo edifício ou no edifício subseqüente — respondeu Meech, laconicamente. — Entre o décimo e o décimo quinto andar.
Ron preferiu não olhar para cima. Sua mente desenvolvia uma atividade febril. Sabia que em Utik não existiam mutantes nativos, isto é, pessoas cujas faculdades paranormais davam origem a emanações mentais perceptíveis a Meech. Qualquer ser que produzisse emanações desse tipo em Utik não poderia ser um nativo do planeta.
Os mutantes arcônidas eram muito raros. E em Utik não havia um único mutante terrano. Dessa forma o ser que se encontrava nas proximidades só poderia ser uma criatura totalmente estranha, ou então um anti, um sacerdote do culto de Baalol.
De repente Ron compreendeu que havia muito mais sob a tarefa a ser cumprida em Utik do que acreditara no início.
Estava sendo esperado!
Levou apenas alguns segundos para elaborar seu plano.
Vamos prosseguir como se nada tivesse acontecido — resolveu. — Cuide do sujeito que está lá em cima.
Os dois homens caminhavam lado a lado, com uma tranqüilidade aparente, como se estivessem passeando. Qualquer observador teria a impressão de que conversavam sobre um assunto de pouca importância. Vez por outra, um dos dois sorria com as palavras do outro, mas de um modo geral a conversa parecia ser interessante.
Não se mexe — disse Meech, sacudindo a cabeça como se não concordasse com alguma coisa.
Houve uma onda de alarido, vinda do fim da rua.
Gostaria de saber quais são suas intenções — disse Ron com a voz mais alta que antes, fazendo uma careta.
Não consigo decifrar seus pensamentos — informou Meech. — Parece que apenas nos observa.
Esteve a ponto de dizer mais alguma coisa, mas naquele instante voltou a captar as emanações do estranho cérebro, que lhe chamaram a atenção pela primeira vez quando o portador de tal mente pisara no porto espacial de Massenock. Fora há seis dias.
Meech constatou que as emanações não identificadas vinham da direção nordeste, ou seja, do lugar em que ficava o Templo da Verdade. Fez menção de avisar Ron, Mas antes que pudesse fazê-lo aconteceu uma coisa.

* * *

Parecia uma nuvem feita de doçura indescritível e de uma ânsia incontida. Era o perfume que descia sobre a rua. Ron parou, perplexo. Levantou a cabeça e pôs-se a aspirar o ar.
Aquele perfume encerrava certas idéias. Eram idéias relativas a uma flor milagrosa, incrivelmente bela, que crescia lá em... No mesmo instante Ron convenceu-se de que nunca mais alcançaria a felicidade, se não conseguisse vê-la o mais cedo possível. Sabia que era frágil e delicada. Poderia perecer a qualquer momento.
Que idéia repugnante! A flor poderia ser conservada. E merecia ser conservada. Se todos se esforçassem para tratá-la como deviam, a mesma não morreria.
Era isso mesmo! Precisava ver a flor e fazer sua parte para protegê-la e conservá-la. Virou-se abruptamente e bateu no ombro de Meech.
Queremos ver a flor, não queremos, Meech? — perguntou em voz alta.
O cérebro de Meech deu um clique. Era um robô, e por isso estava em condições de superar qualquer tipo de espanto numa questão de milionésimos de segundo. Fez um gesto indiferente e concordou:
A idéia não é nada má. Vamos andando.
Ron caminhava à frente. De repente tornou-se apressado. A muralha de pessoas exaltadas aproximava-se rapidamente. Meech não lhe deu a menor atenção. Era fácil acompanhar a marcha de Ron. Além disso, precisava concentrar sua atenção sobre o cérebro estranho que ainda continuava acima deles, em algum daqueles edifícios.
Começou a mexer-se. Meech notou perfeitamente que os seguia. Sabia que os edifícios residenciais, junto aos quais caminhavam, eram atravessados por inúmeros corredores. E, via de regra, estes corriam de uma esquina a outra, ou seja, de uma rua até a rua mais próxima. Uma pessoa que se encontrasse num desses edifícios não teria a menor dificuldade em seguir alguém, que caminhasse pela rua, de um quarteirão a outro.
Meech logo se conformou com a alteração ocorrida com o comportamento de Ron. Aliás, isso não o abalou, pois, muito antes de se aproximarem da muralha humana, Ron já manifestara o desejo de ir ao encontro da flor.
Depois concluiu que o alcance das medonhas emanações do cérebro estranho chegava quase até a esquina, onde fora erguida a barreira policial.
Meech estava preparado para o fato de que, ao penetrar na área de perigo, Ron Landry perderia o juízo tal qual os outros. Fora este um dos motivos por que o haviam destacado para acompanhar Ron. Assim que a situação ficasse perigosa demais, procuraria convencer Ron a voltar; se necessário, usaria a força para retirá-lo da zona perigosa. Isso seria fácil, pois não havia ninguém que conseguisse resistir à força de um robô.
O único fator de complicação era o observador desconhecido que se ocultava num daqueles edifícios. A programação de Meech não previa essa circunstância. Portanto, teria de inventar alguma coisa, uma saída.
Finalmente Ron aproximou-se por trás da massa que se comprimia em torno do templo e não conseguia avançar mais, porque dezenas de milhares de pessoas imbuídas da mesma idéia entupiam cada metro quadrado de rua que se estendia à sua frente. Ron não pretendia deixar que isso o detivesse. Pegou os dois homens calvos, que se encontravam mais próximos, e com a maior facilidade empurrou-os para o lado.
Deixem-me passar, gente! — gritou com a voz potente. — Precisamos ver a flor e tratá-la.
Um dos dois homens, que acabavam de ser empurrados para o lado, ficou tão perplexo que não conseguiu dizer nada. Mas o outro segurou a gola do casaco de Ron e procurou puxá-lo para trás.
Ei! — gritou com a voz zangada. — Assim não é possível! Estamos parados há várias horas, à espera de uma oportunidade de avançar.
Ouviu-se um murmúrio de aprovação de todos os lados. Meech preparou-se para lutar. O gênio impetuoso de Ron lhe causaria dificuldades. Este virou-se, livrou-se da mão que o prendia, e segurou o utikense exaltado pelos ombros.
Se você é tolo demais para abrir passagem, isso não quer dizer que eu também o seja, meu caro — disse com um sorriso de deboche.
Mal acabou de proferir estas palavras, golpeou fortemente. O homem calvo recuou cambaleando e foi parar em meio à massa de homens que ainda há pouco tinham concordado com o calvo. Houve gritaria e confusão. Quando o montão de gente, que perdera o equilíbrio, voltou a pôr-se de pé, Ron já havia desaparecido entre os espectadores. Meech seguia-o de perto.
Dali em diante, Ron quase não teve mais nenhuma dificuldade. A notícia do incidente espalhou-se rapidamente. Todos preferiram comprimir-se ainda mais, para dar-lhe passagem, a envolver-se numa luta com ele.
Dessa forma Meech, que continuava a seguir seu superior, chegou ao cruzamento mais próximo. A fileira de edifícios residenciais situada à sua esquerda, chegou ao fim. Por isso o desconhecido que os seguira pelos corredores teria de tomar uma decisão sobre o que fazer. Meech resolveu dar-lhe uma chance.
A rua que ia para a esquerda parecia estar mais vazia que a que prosseguia em frente. Meech segurou Ron pelo braço.
Vá para lá — cochichou em inglês. — Assim conseguiremos andar mais depressa.
Ron dobrou prontamente para a esquerda. Meech empurrou-o para a extremidade do quarteirão residencial.
A massa humana ficava cada vez menos densa. A vinte metros do cruzamento, a rua estava praticamente vazia. Ron Landry caminhava a passos largos para avançar mais depressa.
Mas Meech sabia que não chegariam muito longe. O cérebro desconhecido estava bem próximo e, a julgar pela intensidade de suas emanações, já devia ter concebido um plano. Meech preparou-se para a luta, embora não acreditasse que precisaria intervir no incidente que estava por surgir.
Ron chegou ao pé da faixa transportadora luminosa que subia do nível da rua para o grande portal de entrada do edifício. Nem olhou para a esquerda. Só quando ouviu a voz áspera, parou e virou-se abruptamente.
Vocês aí! Não se movam! — disse a voz.
Na opinião de Meech, o homem que se encontrava na entrada do edifício tinha um aspecto bastante normal. Usava um terno talhado segundo a moda não muito sofisticada de Utik. A única coisa que o distinguia dos outros habitantes do planeta era a cabeleira espessa.
E evidentemente a arma de radiações de cano curto, em sua mão.
Meech não sabia qual seria a reação de Ron. Sua atenção teria que dividir-se por dois objetos.
Teria de vigiar as reações de Ron, e ainda tomar cuidado para que o desconhecido não tivesse oportunidade de disparar sua arma. Colocou-se em posição oblíqua, a fim de ficar de olho em Ron e no desconhecido, e foi erguendo os braços. Sentiu-se aliviado ao notar que, depois de um instante de hesitação, Ron seguiu seu exemplo.
Subam para cá! — ordenou o desconhecido, acenando com a arma.
Meech colocou-se sobre a fita transportadora e foi subindo lentamente em direção à entrada do edifício. Sentiu que Ron o seguia de perto.
O desconhecido afastou-se para o lado e deixou que Meech entrasse no edifício. Como logo a seguir deixasse de ficar de olho nele, o robô compreendeu que atrás da entrada havia mais alguém que deveria “recepcioná-los”. Por isso não se espantou ao notar que um objeto volumoso desceu da penumbra reinante no hall, atingindo-o pesadamente na cabeça. Meech não tinha a menor receptividade para esses métodos antiquados de tratamento, mas sabia perfeitamente o que esperavam dele. Soltou um gemido de dor, dobrou os joelhos e deixou-se cair lentamente de lado, a fim de evitar que o impacto de seu pesado corpo sacudisse demasiadamente o hall.
Uma vez deitado, entreabriu os olhos e viu que a Ron Landry acabara de ser dispensado o mesmo tratamento, com a diferença de que Ron realmente desmaiou.

* * *

Quatro homens vindos dos fundos do hall aproximaram-se. Dois deles tinham nas mãos barras de plástico. Eram as armas com que Meech e Ron acabavam de ser abatidos.
Enquanto se aproximavam, Meech percebeu que seus cérebros também possuíam a estranha capacidade de produzir emanações, registradas por seu aparelho receptor. Mas suas emanações eram muito menos intensas que as do homem que segurava a arma de radiações. Meech acreditou que fosse este o motivo por que até então não notara sua presença.
Levem-nos para cima! — ordenou o homem que portava a pistola.
Meech não conseguia vê-lo. Estava deitado de costas para a entrada. Mas sabia que teria de fazer alguma coisa. No momento em que tentassem levantá-lo, notariam seu peso e, provavelmente, não demorariam em perceber que era um robô. E isso não lhe serviria.
Viu dois dos desconhecidos levantarem e carregarem Ron para um dos elevadores antigravitacionais nos fundos do hall. Enquanto isso os outros dois passaram a ocupar-se dele.
Meech sentiu que o seguravam pelas pernas e pela cabeça. Ouviu um gemido, seguido de um grito de pavor:
Santa verdade! Este sujeito até parece ser de pedra.
Os dois homens que se encontravam junto ao elevador e o que guardava a porta tiveram sua curiosidade despertada. Aproximaram-se. Ron ficou estendido no chão do elevador. Era o que Meech esperara. Queria que Ron ficasse fora da área de combate, se é que haveria luta.
Saltou de repente. O impulso de seu corpo pesado foi suficiente para atirar ao chão os dois homens que tentavam carregá-lo. Ainda enquanto levantava o corpo, Meech girou-se instantaneamente. Não se enganara. O desconhecido que segurava a arma de radiações reagira instantaneamente. O cano curto foi girado e Meech deparou-se com o quadro feio, oferecido pela boca da arma. Acontece que para um robô o centésimo milésimo de segundo, que um ser orgânico gasta para puxar o gatilho, representa uma eternidade. Antes que qualquer um pudesse ver alguma coisa, Meech levantou a mão direita e disparou a arma de choques, cujo cano ficava sob o dedo indicador. O desconhecido soltou um grito, encolheu-se, enrijeceu o corpo e tombou. A arma caiu ruidosamente sobre o chão de pedra.
Meech estendeu os braços para o lado e voltou a virar-se. Sua tática fora correta.
Dois dos combatentes restantes haviam reconhecido a situação e avançavam sobre ele, armados de porretes. Meech atirou os braços para a frente e atingiu-os na testa. Ambos caíram para trás sem o menor ruído e permaneceram imóveis. Meech deixou inconscientes os dois que quiseram carregá-lo antes que tivessem tempo de levantar-se de novo. Com isso a batalha chegou ao fim.
Meech olhou cuidadosamente em torno, para verificar se havia mais um inimigo nas proximidades.
Os cérebros dos cinco homens inconscientes estavam mudos. Meech captou o murmúrio abafado da multidão que esperava na rua e, superando tudo, o trovejar do misterioso desconhecido que ouvira pela primeira vez há seis dias, quando o tal sujeito chegara a Utik.
Era desse desconhecido que emanava o encanto misterioso que mantinha as multidões presas nas ruas dos subúrbios de Massenock. Meech não tinha a menor dúvida quanto a isso.
De qualquer maneira, não havia ninguém por perto. Os cinco homens que jaziam inconscientes representavam toda a força combatente inimiga.
Meech não teve necessidade de refletir sobre o que deveria fazer. Tinha à sua frente cinco presos importantes, que deviam ser colocados em lugar seguro. Havia, também, um superior inconsciente que, quando recuperasse os sentidos, teria de ser conduzido até um lugar fora da área de encantamento. Dentro de tal área todos acreditavam não ter outra coisa a fazer senão cuidar da flor milagrosa, a fim de protegê-la das intempéries...
Tudo isso tinha de ser feito sem despertar a atenção de ninguém. Meech precisaria de um grande carro automático, mas nessa área isolada da cidade não havia como conseguir um veículo desse tipo. Lembrou-se de que se encontrava na parte nordeste de um quarteirão residencial que terminava no cruzamento ocupado pelo destacamento sob o comando do Tenente Nazdek. Se conseguisse arrastar Ron e os prisioneiros até a saída oposta dos edifícios residenciais, teria oportunidade de fazer um sinal para Nazdek e arranjar um carro automático.
Pôs-se imediatamente a caminho. Um dos corredores principais do edifício começava logo após o hall de entrada. Meech carregou Ron nos braços e um dos prisioneiros, e levou-os consigo de tal forma que os pés de ambos arrastavam pelo chão. Calculou que gastaria uns cinco minutos para alcançar a outra extremidade do edifício. E os efeitos da arma de choque durariam pelo menos duas horas.
Não teria motivo para preocupar-se com os outros prisioneiros.

3



Ele:
...os aparelhos servem para distrair-me.
Homunc (depois de refletir ligeiramente):
Posso perguntar de que forma?
Ele:
O ativador celular funciona em estreita conjunção com o cérebro de seu portador. A energia utilizada na regeneração ininterrupta das células é muito semelhante à energia geralmente produzida pelo cérebro. Quer dizer que, sob o ponto de vista técnico, o ativador pode ser visto perfeitamente como elemento de reforço.
Homunc:
Compreendo...

* * *

Kalal sabia achar-se praticamente. Ignorava o que estava acontecendo para os homens que se comprimiam do outro lado das sólidas muralhas do templo, mas não tinha a menor dúvida de que o fenômeno era causado pelo aparelho que trazia sobre o peito. Já levava o aparelho consigo há muito tempo e não sabia por que não produzira o mesmo efeito nos tripulantes da espaçonave em que viajara. No entanto, tinha certeza de que era a causa de tudo.
Naquele momento não havia nada que representasse um obstáculo maior aos objetivos do culto de Baalol do que o alvoroço do público. Kalal sabia perfeitamente que perderia o cargo de sumo sacerdote, e até mesmo a vida, se o supremo Baalol soubesse de sua desgraça, quer fosse culpado da mesma, quer não.
Tentara remover o aparelho que trazia no peito. Nem ele, nem o especialista ara que se encontrava no interior do templo conseguira fazê-lo. O ativador celular penetrara nos tecidos e se alojara junto ao coração. Até parecia que fora dirigido por uma inteligência diabólica, pois se acomodara numa situação tal que nem se podia pensar numa intervenção cirúrgica, a não ser que se quisesse sacrificar a vida de Kalal.
Depois disso, o sumo sacerdote exigira que o aparelho continuasse no mesmo lugar, mas fosse destruído. Os médicos aras realizaram um exame minucioso e constataram que o ativador passara a exercer parte das funções do coração, passando a prover parcialmente a circulação orgânica de seu portador.
Por isso sua destruição provocaria uma estagnação circulatória de efeitos mortíferos.
Mais uma esperança de Kalal se frustrara. Teria de carregar o aparelho infernal e não poderia evitar que, em todos os lugares em que andasse, os homens se precipitassem sobre ele com os rostos extasiados, o farejassem e acariciassem e, desde que dispusessem de um recipiente com o líquido necessário, o regassem... com água.
Sabia que os inimigos do culto de Baalol há muito tiveram conhecimento do tumulto que se verificava em Utik. Certos elementos de toda confiança o haviam informado de que há algumas horas dois agentes terranos se encontravam a caminho, a fim de investigar as causas do estranho incidente. Sob ordem de Kalal um grupo de sacerdotes subalternos, dirigido por um sacerdote graduado, saíra ao encontro dos terranos, a fim de prendê-los assim que penetrassem na área de atuação do instrumento diabólico, que desviaria sua atenção. Kalal queria saber até que ponto chegava a desconfiança das potências inimigas.
Acontece que fazia uma hora que o sacerdote Doosdal não dava sinal de vida. Kalal já estava acreditando que o golpe não fora executado conforme ele planejara.
O fato de que os sacerdotes graduados e os aras estavam imunes à influência hipnótica irradiada pelo ativador, isso em virtude de sua constituição psíquica especial, representava a única réstia de luz em meio à confusão.
Kalal sabia o que deveria fazer se Doosdal não desse sinal de vida dentro de alguns minutos.
Havia o perigo de que algum dos sacerdotes tivesse a idéia de que sua presença — isto é, a de Kalal — representava um perigo para os objetivos do culto de Baalol, e de que, antes de aceitar um risco para as finalidades do culto, seria necessário matar o sumo sacerdote, já que não havia outro meio de remover o perigo. Kalal sabia perfeitamente que essa idéia ocorreria a alguém, e logo.
Só havia uma possibilidade de subtrair-se a esse destino.
A fuga!

* * *

Pare de falar nessa flor idiota — resmungou Larry Randall, bastante contrariado. — Não estou interessado em vê-la. Venha cá
Era o superior de Lofty Patterson. Acontece que Lofty, um homenzinho idoso de cabelos grisalhos, rosto ladino e olhos alegres, nos quais naquele momento se via uma expressão pensativa, não saiu do lugar.
Preciso vê-la, capitão — insistiu. — O senhor não pode proibir.
Larry encontrava-se em situação muito desagradável. Lofty encontrava-se a apenas dois metros de distância, mas em algum lugar, nessa extensão de dois metros, erguia-se a barreira invisível que naquela cidade separava os loucos das pessoas normais.
Arriscamo-nos demais”, pensou Larry. “E agora?
O posto policial ficara bem longe atrás deles. Os policiais deixaram passar Larry e seu companheiro com a mesma facilidade com que, horas antes e num lugar diferente, outros policiais haviam permitido a passagem de Ron Landry e Meech Hannigan. Larry vira a massa humana submetida ao encanto hipnótico bem à frente, em plena rua, a mais de um quilômetro do posto policial. Não acreditara que o círculo de ação hipnótica já começasse tão longe desse aglomeramento.
Agora sabia perfeitamente, mas teria sido preferível que tivesse tomado conhecimento do fato de forma menos enfática.
Lofty virou-se e fez menção de prosseguir em sua caminhada.
Pare aí, Lofty! — ordenou Larry.
Lofty olhou-o sobre o ombro, mas não parou. Larry puxou a arma e fez pontaria. Na verdade, nem pensava em atirar. Aquilo representava uma boa oportunidade de descobrir até que ponto o efeito hipnótico afetava a mente sadia.
Voltou a gritar uma advertência para Lofty. Mais uma vez este limitou-se a olhá-lo por cima do ombro. Desta vez viu a arma, virou-se e parou.
Será que o senhor vai atirar contra mim? — lamentou-se com a voz aguda.
Vou, sim — disse Larry em tom resoluto. — Acabo de lhe dar uma ordem, e você se recusa a obedecer. Afinal, estamos em combate e você está submetido à lei marcial.
O argumento era um tanto forçado, mas Lofty parecia impressionar-se. Deu um passo hesitante em direção a Larry. Percebia-se que teve de fazer um grande esforço.
Por que me proíbe de ver essa flor maravilhosa? — disse, prosseguindo em suas lamentações. — É tão bela, tão perfumada...
Como é essa flor? — interrompeu-o Larry.
Antes que tivesse tempo para responder, Lofty estremeceu. Até parecia que acabara de levar uma descarga elétrica. No entanto, não tocara em nada, com exceção do pavimento da rua.
Como é o quê? — perguntou em tom de espanto.
Larry arregalou os olhos.
Ora, a flor de que você acaba de falar.
Lofty fitou seu interlocutor como se duvidasse de suas faculdades mentais.
Eu? O senhor diz que eu falei numa flor? Sir...
De repente viu a arma que Larry segurava.
O que... o que houve, sir? Por que...?
Larry interrompeu-o com um gesto. Compreendeu o que acabara de acontecer. Lofty Patterson já não estava submetido à influência hipnótica. Alguma coisa devia ter acontecido naquele instante com o objeto que produzia o efeito hipnótico. Larry voltou a guardar a arma e observou a massa humana.
Não notou a menor modificação. Larry esperou, enquanto Lofty caminhava devagar em sua direção, com um olhar confuso.
As pessoas que se encontravam mais adiante permaneciam imóveis. Continuavam de costas para Larry e ao que parecia aguardavam apenas que a aglomeração à sua frente se tornasse menos densa, para que pudessem avançar até o lugar onde se encontrava o objeto de seus desejos. Não havia a menor dúvida de que continuavam sujeitos ao efeito hipnótico.
A primeira vista a situação parecia perturbadora. Mas Larry logo percebeu o que devia ter acontecido. Fosse qual fosse a causa da influência mecano-hipnótica, seu raio de ação parecia ser bem delimitado. Dentro da área de influência, o efeito se exercia com a mesma intensidade em todos os pontos. Mas um pouco antes da periferia do circulo, o efeito cessava.
A periferia da área de influência passara para o outro lado da rua, e Lofty atravessara a linha limítrofe. Agora essa linha se deslocara, e o ponto crítico ficava mais adiante, entre Lofty e a massa que se comprimia na rua.
Dali se concluía que o objeto que irradiava o efeito hipnótico acabara de deslocar-se.
Larry sabia que essa constatação praticamente equivalia à prova da exatidão da hipótese de Meech Hannigan, segundo a qual as estranhas irradiações provinham de um ser vivo, e que esse ser provavelmente se encontrava no interior do Templo da Verdade, que era a sede da seita de Baalol no planeta Utik. O ser deslocara-se no interior do templo; talvez apenas tivesse passado de um recinto a outro. Com isso o limite do efeito hipnótico se deslocara o suficiente para que Lofty Patterson ficasse livre do mesmo.
Lofty não compreendeu muito bem do que se tratava, nem quando, durante o caminho de volta, Larry lhe explicou minuciosamente o fenômeno. Perdera toda e qualquer lembrança dos minutos durante os quais estivera submetido à estranha influência.
Passaram sem a menor dificuldade pelos dois postos policiais instalados num cruzamento. Larry mantinha-se em silêncio. Sua mente trabalhava de modo intenso, à procura de uma solução para o problema.
Enquanto Lofty Patterson procurava localizar um carro automático, subitamente lhe ocorreu uma idéia.

* * *

Por enquanto a posição de Kalal era tão segura que podia solicitar tranqüilamente um veículo, sem dizer por que motivo o sumo sacerdote pretendia abandonar o templo justamente num momento de crise.
Recomendou encarecidamente aos seus subordinados para que acompanhassem com o maior cuidado as atividades de agentes estranhos em Massenock e Utik. Depois disso entrou no veículo que o aguardava no interior do templo e acionou a partida assim que o sinal luminoso do painel mostrou que o campo defensivo, que cercava as instalações templárias, acabara de ser desativado.
O carro subiu rapidamente. Kalal acelerara ao máximo, pois, do outro lado do campo defensivo, dezenas de veículos automáticos aguardavam o momento em que se desfizesse a barreira que os separava da flor milagrosa. Todos supunham-na guardada no templo. Alguns deles estavam literalmente pousados sobre o campo defensivo, com os motores funcionando em marcha lenta. Kalal viu os veículos caírem desajeitadamente, para só se levantarem pouco acima do pavimento duro do pátio do templo, quando os pilotos compreenderam o que havia acontecido. Kalal pensou em aproveitar a súbita confusão para escapar em meio ás esquadrilhas que o esperavam.
Mas viu que se enganara. Carregava o ativador indestrutível, que era a causa da desgraça que o mantinha cativo há dias. As pessoas que aguardavam em seus veículos há algumas horas, ou mesmo mais, por uma chance, não deixaram de notar que a flor pela qual tanto ansiavam estava prestes a escapar.
A recepção das radiações mecano-hipnóticas era determinada em larga escala pelo ângulo de incidência. A pessoa hipnotizada sabia a qualquer momento em que direção se encontrava o objeto de seus desejos. Nem por um segundo, Kalal conseguiu enganar os que o esperavam.
O anel dos “enlevados” fechou-se em torno dele com uma rapidez apavorante. Teve de reduzir a velocidade do seu veículo, a fim de evitar uma colisão com os delirantes. Via seus rostos atrás dos vidros dos carros. Os olhos estavam muito arregalados, as bocas arreganhadas de avidez e o nariz achatado de encontro aos vidros. Tentavam não perder qualquer movimento do veículo em cujo interior se encontrava a flor.
Quando se encontrava duzentos metros acima do telhado do templo, Kalal percebeu que não tinha a menor chance. Os outros carros estavam acima dele, à sua direita, à sua esquerda, em todos os lugares em que poderia encontrar uma saída para a liberdade. Apenas atrás dele o caminho continuava livre. Não perdeu tempo; resolveu aproveitar a única oportunidade que ainda lhe restava. Inverteu a marcha do veículo o mais rápido possível e desceu vertiginosamente. Desta vez não tinha motivo para recear uma colisão. Durante a descida emitiu o sinal que faria com que o campo defensivo voltasse a abrir-se. Não perdeu tempo para certificar-se de que o sinal fora compreendido.
Prosseguiu na descida. De tão desesperado que se sentia, não se teria importado muito caso o campo defensivo estivesse fechado e ele se despedaçasse de encontro ao mesmo.
Teve sorte. Seu veículo passou pelo lugar em que costumava ficar o obstáculo invisível e pousou no pátio interno principal. O campo defensivo voltou a fechar-se bem à frente dos seus perseguidores, que não demoraram a compreender a situação.
Kalal desceu. Tremia por todo o corpo. Alguns sacerdotes saíram da grande pirâmide do templo e vieram ao seu encontro. Pararam à sua frente e inclinaram ligeiramente o corpo.
Kalal sentiu que suas horas estavam contadas.

* * *

Larry fez a figura duma mulher, que usava um avental leve, saltar por cima de um quadrado e disse com um sorriso:
É assim que o senhor acabará se continuar a ser tão leviano como está sendo aqui. Casado...!
Seu parceiro assustou-se. Estremeceu visivelmente, tirou o queixo da mão em que se apoiava e fitou o tabuleiro de jogo. Larry notou que, depois de um momento de contrariedade, seus olhos voltaram a iluminar-se. Estendeu a mão e exclamou:
Ainda não, amigo! Ainda não. Aqui ainda há um clube de cavalheiros onde posso refugiar-me.
Quero ver como — observou Larry.
Aqui. Coloco um galanteador diante desta mulher — empurrou uma pequena figura masculina. — Espero que ele lhe dê mais apetite que eu.
Isso lhe custará alguma coisa — disse. — É seu galanteador, e essa figura honorável não pode cometer mais nenhum deslize.
Kazek, um homem baixo e calvo, que era seu parceiro de jogo, passou a mão pela calva.
Realmente — confessou. — Como poderei atingir o clube de cavalheiros se não estou bem à frente do mesmo?
Pois eu lhe disse: o senhor não deve ser tão leviano. Seja qual for seu próximo lance, no outro estará casado.
Kazek fitou o tabuleiro por algum tempo. Resolveu levar a coisa na brincadeira. Levantou a figura com que Larry o pegara, contemplou-a por algum tempo e sorriu.
Se a vejo assim, chego à conclusão de que a idéia até que não é má. Infelizmente isso só existe no jogo.
Atirou a figura na caixa de plástico que se encontrava sobre a mesa, ao lado do tabuleiro, colocou as outras figuras na mesma caixa, fechou-a e levantou-se.
Vamos. Eu lhe devo um zintchka.
Foi só por isso que joguei com tanta animação — afirmou Larry. — Não estava disposto a pagar o zintchka.
Olhou em torno. O estabelecimento pertencente a Kazek não estava tão lotado como estivera à sua entrada. Alguns velhos mal-humorados estavam sentados em suas mesas e serviam-se de bebidas coloridas feitas de sucos de frutas momos.
Os velhos não estavam interessados em nada, o que deixou Larry bastante satisfeito. Para aquilo que tinha em vista, precisava de um Kazek que não fosse distraído. Justamente por isso viera ao local. Gabara-se diante de Kazek, com o qual só se encontrara uma única vez, de que durante sua permanência na cidade já aprendera tão bem o jogo casamenteiro que ninguém seria capaz de derrotá-lo. Kazek caíra em sua conversa e se mostrara disposto a disputar um jogo que valeria uma rodada de zintchka. Larry realmente ganhara, mas isso foi devido menos ao seu talento que à falta de atenção de Kazek. De qualquer maneira, atingira seu principal objetivo. Usara uma conversa bem elaborada, para despertar em Kazek um sentimento de intimidade tamanho que até parecia que já se conheciam há anos.
Qualquer agente terrano conhecia ao menos uma dezena de modelos desse tipo de conversa, cuja seqüência havia sido preparada por psicólogos.
Notou-se isso perfeitamente pela maneira como Kazek bateu no ombro de Larry, depois de ter colocado dois copos na mesa e os enchido de zintchka:
Faça bom proveito, amigo. O senhor realmente é um dos melhores jogadores que já conheci.
Larry engoliu o elogio. Levantou o copo e sorveu pequena quantidade da bebida azul-clara, que exalava um cheiro penetrante.
Nada mau — constatou, levantando a cabeça e piscando para Kazek. — Mas, para falar com franqueza, há algum tempo tomei uma bebida muito mais gostosa.
Imediatamente Kazek teve despertada sua curiosidade.
Em outros lugares também deve haver bebidas excelentes. O que foi mesmo que o senhor tomou e gostou tanto?
Não me lembro do nome — disse Larry, esticando as palavras e piscando os olhos com tamanha insistência que Kazek compreendeu imediatamente que não queria dizer o nome. — A bebida costumava ser vendida em garrafinhas muito pequenas.
Em comparação com o conteúdo dos recipientes era muito cara, mas valia a pena pagar o preço.
Era o momento crítico. Segundo os relatórios policiais vindos da cidade de Massenock, Kazek era um intermediário na venda de liquitivo. O liquitivo era um entorpecente com o aspecto de licor, que há algum tempo fora lançado no mercado galáctico pelos sacerdotes do culto de Baalol.
Depois de tomar a bebida por três, ou no máximo cinco vezes, um ser de constituição normal adquiria o vício. E depois de se entregar ao vício durante doze anos, o ser entrava num rapidíssimo processo de decadência física e mental, que o transformava numa ruína.
Vários mundos enfrentaram sérios problemas no combate ao vício do liquitivo. Em Utik, um planeta situado no limite do grupo estelar M-13, por assim dizer às portas da sede do Império de Árcon, nunca chegara a haver um comércio extenso do produto. Assim que se teve conhecimento dos riscos ligados ao consumo da bebida, a polícia proibiu sua venda.
Providenciou-se o internamento dos viciados, que não foram muitos.
Se o caráter de Kazek cumprisse aquilo que os registros policiais prometiam, não poderia deixar de morder a isca que acabara de ser jogada.
Quantas vezes? — perguntou a Larry.
Infelizmente tomei aquilo apenas duas vezes. Bem que gostaria de tomar mais, mas tive de ir a um lugar onde não se encontrava a bebida.
Kazek fez um gesto de assentimento.
Parecia pensativo.
Trata-se do liquitivo, não é verdade? — perguntou.
Isso mesmo! — exclamou Larry. — Foi o liquitivo. Costumava ser fornecido pelo pessoal de Baalol, não é?
É o que dizem — admitiu Kazek em tom hesitante.
Larry passou a mão pela boca, como alguém que se delicia com as recordações de uma bebida gostosa. Finalmente perguntou:
Será que eles ainda têm a bebida?
De repente Kazek não parecia mais interessado na conversa.
Sei lá. Aqui, em Utik, o produto não pode ser vendido mais.
Sei disso. Mas em muitos lugares conseguem-se várias coisas cuja venda é proibida. Neste meio tempo ganhei um bom dinheiro e estou disposto a empregar boa parte do mesmo na compra de alguns frascos de liquitivo.
Kazek lançou-lhe um olhar atento.
Larry examinou discretamente seus olhos e notou a centelha ligeira da cobiça. Não se enganara.
Às vezes acontece alguém — disse Kazek em tom hesitante.
Larry ergueu as sobrancelhas.
O que quer dizer com isso?
Bem — disse Kazek, esfregando as mãos. — Pelo que dizem, os sacerdotes ainda têm um bom estoque do licor e, ao que consta, quando simpatizam com alguém fornecem o produto.
Com quem eles simpatizam?
Kazek parecia travar uma luta Íntima. Larry notou-o perfeitamente.
Comigo, por exemplo — respondeu o dono do estabelecimento, depois de algum tempo. — Já lhes prestei bons serviços, e sempre que têm uma oportunidade demonstram sua gratidão. Acredito que, se eu lhes pedisse, eles me venderiam o liquitivo. É bem verdade que eu mesmo teria de ir buscá-lo, e posso garantir-lhe que depois da proibição da venda os preços não baixaram.
Larry acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
É uma coisa que a gente gosta de ouvir — disse. — Onde costuma buscar o licor? No templo?
Sim.
Tem livre acesso ao mesmo?
Não é bem isso — respondeu Kazek em tom hesitante. — Os sacerdotes têm de tomar suas precauções. São poderosos, e a polícia de Massenock não poderia fazer-lhes nada. Mas têm de cuidar de sua reputação. Portanto, não podem permitir que todos saibam que, vez por outra, ainda vendem liquitivo.
Hum — fez Larry e depois de algum tempo perguntou: — O senhor me levará, não é?
Kazek abriu os braços.
O que está pensando? — perguntou em tom exaltado. — Não é possível. A generosidade dos sacerdotes só se dirige à minha pessoa.
Acontece que quem tem o dinheiro sou eu — insistiu Larry.
É verdade — admitiu Kazek, perplexo.
Sem dinheiro o senhor não poderá arranjar o produto, a não ser que esteja disposto a adiantar o valor da compra. É claro que só pagarei na entrega da mercadoria. Mas deixemos isso para lá. Vamos fazer um acordo. Eu lhe pagarei vinte por cento além do preço, desde que me leve ao templo.
Farei o possível — disse Kazek depois de algum tempo. — Não será nada fácil. É bem possível que com isso eu provoque ira nos sacerdotes. Mas pelo senhor estou disposto a assumir o risco.
E também pelo dinheiro — acrescentou Larry, que sempre fazia questão de deixar as coisas bem claras.
Neste ponto a palestra foi interrompida. Larry sentiu o leve zumbido do aparelho que trazia no pulso. Alguém queria falar, e o fato de usar o aparelho de pulso provava que esse alguém tinha pressa. Talvez fosse Lofty, que ficara no hotel, ou então Ron Landry. Larry combinou às pressas um encontro com Kazek para dali a dois dias. Depois saiu para a rua, tomou um carro automático e respondeu ao chamado durante a viagem.
A voz de Ron Landry saiu do pequeno receptor de pulso.
Neste meio tempo aconteceram algumas coisas bem importantes — disse Ron. — Precisamos conversar. Vamos encontrar-nos...
Combinaram um local de encontro. Larry confirmou a recepção da ordem. Ainda dispunha de meia hora, e por isso resolveu parar no hotel a fim de levar Lofty Patterson.
Sentia-se dominado por uma estranha excitação. Até parecia que, depois de um tempo tão prolongado de incerteza, as pedras finalmente iriam rolar.

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