Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
DANIEL
BRAGA
Revisão
ARLINDO_SAN
O ativador
celular enlouquece
e tumultua
um planeta...
Thomas
Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan, passando a
desempenhar as funções de Administrador do Império Solar. Ninguém,
nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan e os mutantes,
imagina que o governo vem sendo exercido por quem não tem direito ao
mesmo.
É bem
verdade que os atos de Cardif não correspondem ao que se esperava de
Perry Rhodan, mas o comportamento estranho do administrador é
explicado pelo fato de sua mente ter sido afetada, durante o tempo em
que ele esteve em mãos dos antis.
Cardif
o usurpador, pode proclamar em tom triunfante que ninguém descobriu
sua trama. Portanto, pode agir conforme lhe aprouver.
Resta
saber por quanto tempo isso dará certo. Afinal, os protetores e
cúmplices de Cardif, os antis, a qualquer momento poderão
desmascarar o falso administrador.
Ainda
acontece que Aquilo, o misterioso Ser espiritual do planeta
Peregrino, há muito descobriu a trama e deu início a uma série de
ações. A Flor Milagrosa de Utik apenas representa a primeira fase
dessas ações!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Kalal
— Um
anti que é considerado uma flor...
Ron
Landry,
Larry
Randall
e Lofty
Patterson
— Agentes
da Divisão III.
Ele
ou Aquilo
— O
Ser de Peregrino que se compraz numa brincadeira.
Kazek
— Um
utikense que nunca mais quer ter relações com os terranos...
1
A palestra
que segue foi mantida no planeta Peregrino. Quem participou da
conversa foi o bio-robô Homunc e seu senhor, o Ser coletivo que
governa Peregrino. Em virtude da concepção toda especial que tanto
o Ser coletivo como Homunc tinham em relação ao tempo, a palestra,
que só consistiu em umas poucas frases, demorou bastante pelos
padrões terranos.
Homunc:
— Estou
notando uma alegria toda especial no senhor. Será que posso
participar do seu prazer?
Aquilo:
— Naturalmente.
Não há nenhum segredo.
Homunc:
— Fico-lhe
muito grato.
Aquilo:
— Trata-se
dos ativadores celulares que há pouco tempo foram entregues a um ser
que usava o nome de Perry Rhodan...
*
* *
Kalal
acabara de ser transportado do suave mecanismo transportador —
formado pela fita rolante — para o chão firme do pequeno
espaçoporto, quando pela primeira vez ouviu a estrondosa gargalhada.
O fato de
alguém que se encontrava nas suas proximidades se atrever a rir
representava um acontecimento tão extraordinário que Kalal se virou
instantaneamente, bastante indignado. Viu a grande nave dos
saltadores, com o aspecto de uma torre. Acabara de chegar e estava
pousada no asfalto artificial branco-cinza. Kalal viu, também,
alguns tripulantes, que se dispunham a deixar a nave depois do
passageiro; e viu alguns homens da equipe do espaçoporto, que
realizavam um exame minucioso do sistema hidráulico de apoio da
gigantesca nave. Por cima de tudo estendia-se o céu muito azul de
Utik, cujo sol branco, muito forte, fazia o suor gotejar da testa de
Kalal.
Mas não
havia ninguém que tivesse dado uma gargalhada.
Com um
ligeiro suspiro de indignação, Kalal dirigiu-se ao carro automático
que o aguardava a poucos metros do passadiço. Mal dera alguns
passos, voltou a ouvir a gargalhada. Virou-se abruptamente e percebeu
que o cenário estava totalmente mudado.
De repente
os saltadores, que desceram a escada atrás dele, pareciam
transformados em estátuas e o fitaram, perplexos. Os homens da
equipe do espaçoporto haviam interrompido seu trabalho e também
olharam em sua direção. Kalal sentiu-se confuso.
O que
acontecera? Era bem possível que para o pessoal de superfície um
servo da Verdade Absoluta fosse uma figura notável. Mas por que
motivo os saltadores estavam parados e o fitavam tão intensamente?
Pela
terceira vez Kalal ouviu a gargalhada. Desta vez viu que nenhuma das
pessoas que o fitavam rira. A manifestação de hilaridade vinha de
outro lugar. De onde seria?
Os homens
que haviam trabalhado junto às colunas hidráulicas saíram de baixo
da nave. De repente seus rostos, que até então pareciam sérios e
ligeiramente marcados pelo tédio, assumiram uma expressão
totalmente diversa. Os olhos brilharam e a boca estava aberta numa
expressão de ansiedade. Estenderam os braços, como se quisessem
pegar alguma coisa antes que escapasse. O que mais espantou Kalal foi
o fato de que todos eles tinham mais ou menos o mesmo aspecto.
Além
disso, era em sua direção que estendiam as mãos, e aproximavam-se
dele como quem quer agarrar uma caça de carne saborosa.
Kalal não
se sentiu nada à vontade.
Recorreu
aos dons que possuía para penetrar nos pensamentos daqueles homens e
descobrir o motivo de seu estranho comportamento. Não conseguiu.
Talvez estivesse muito confuso para concentrar-se, ou então havia
algo mais em jogo.
De
qualquer maneira, sentiu que a situação se tornava perigosa quando
os saltadores junto ao passadiço também se movimentaram, seguindo
os mecânicos com a mesma expressão de enlevo desenhada no rosto.
Perplexo, sem que tivesse a menor idéia do que acontecera, virou-se
e correu em direção ao carro automático. Seus trajes coloridos,
que quase chegavam a ser pomposos, não haviam sido criados para
permitir movimentos tão rápidos. Kalal tropeçou e por pouco não
caiu. Mas naquele instante ouviu o fungar ansioso dos homens que o
perseguiam. Isso fez com que voltasse a erguer o corpo.
Com um
salto enorme pela janela aberta do carro, pôs-se a salvo. A janela
fechou-se no momento em que tocou o botão que se encontrava junto ao
seu assento. Apavorado, Kalal viu que os homens dominados pela ânsia
batiam na carroçaria do veículo, caíam para trás e a seguir
comprimiam os rostos contra os vidros do carro.
— Vamos
ao Templo da Verdade! — gritou em arcônida, fustigado pelo medo.
O piloto
automático — uma pequena caixa recheada de sabedoria positrônica,
dotada de um microfone que saia do painel de instrumentos,
estendendo-se carro a dentro — compreendeu a ordem. Ouviu-se um
zumbido. Kalal soltou um suspiro de alívio ao ver o pavimento liso
do campo de pouso recuar para baixo, juntamente com a multidão de
homens possuídos pelo entusiasmo.
Escapara
ao pesadelo, por assim dizer, no último instante. Tinha motivo para
sentir-se aliviado. Mas o sentimento não durou muito. A preocupação
voltou a instalar-se em sua mente.
O que
acontecera?
*
* *
A onda de
exaltação sussurrante atingiu Meech Hannigan quando este se dirigia
à lanchonete, onde pretendia ingerir uma xícara de café terrano, a
fim de guardar as aparências.
Parou no
meio da calçada, sem dar atenção aos dois homens mergulhados numa
palestra, que esbarraram nele. Os estranhos desculparam-se
apressadamente e prosseguiram no seu caminho. Procurou verificar o
que lhe causava tamanho excitamento.
Uma vez
que tivesse sido especialmente treinado para esse tipo de problema,
não demorou a perceber.
Eram
irradiações muito intensas de um cérebro estranho. A intensidade
era tamanha que Meech não teve a menor dificuldade em reconhecer as
emanações provocadas pelos milhares de cérebros dos transeuntes
das imediações. Não conseguia interpretar as emanações, pois não
fora treinado para isso. Mas compreendeu imediatamente que o cérebro
que as provocava pertencia à classe daquelas pessoas que fora
incumbido de localizar.
O fato de
as irradiações terem surgido tão repentinamente deixou-o perplexo.
Esperava que de início fossem fracas, enquanto viessem de longe,
para depois se tornarem cada vez mais nítidas. No entanto, surgiram
de repente, muito nítidas e a uma distância não muito grande.
Meech
refletiu, o que apenas consumiu uma fração de segundo, e chegou à
conclusão de que o dono desse cérebro superpotente deveria ter-se
aproximado com uma velocidade extraordinária. E o fato de ele ter-se
aproximado a uma velocidade extraordinária, por sua vez, levava à
conclusão de que viera num veículo veloz. E os veículos
verdadeiramente velozes eram as espaçonaves.
Meech
concluiu que, fosse quem fosse o dono daquele estranho cérebro, este
ser viera numa espaçonave que acabara de pousar em Utik. E o pouso
certamente fora realizado no espaçoporto de Massenock, que servia à
capital do planeta, pois, do contrário, Meech não teria percebido
as emanações.
Com isso
as coisas tornavam-se mais simples. Meech ficou parado junto ao
meio-fio e chamou o primeiro carro automático desocupado que passou
por ali. O veículo parou à sua frente e a porta destinada aos
passageiros abriu-se. Meech entrou e comunicou seu destino ao piloto
automático.
— Registro
Central.
Enquanto o
carro o levava velozmente e em segurança através do tráfego
intenso da área central da cidade, Meech continuou a prestar atenção
às emanações do cérebro estranho.
Percebeu
que, decorridos poucos minutos depois do instante em que as notara
pela primeira vez, as mesmas já se tornavam mais intensas. Os
pensamentos que ocupavam aquele cérebro não pareciam nada
agradáveis. O dono dessa mente devia encontrar-se num estado de
pânico. Depois de algum tempo, a recepção tornou-se menos nítida,
o que levou Meech à conclusão de que o dono do cérebro se
afastava.
Meech
levou dezessete minutos para chegar ao edifício em que ficava o
Registro Central. Atirou uma moeda especial no computador programado
para pagar o preço das corridas do veículo, esperou que lhe desse o
troco e saltou. Contou o troco, conforme era de seu hábito, e
constatou que a viagem lhe custara dois lodiques e quarenta. Em
comparação com os padrões terranos, era barato. Em Utik recebia-se
aproximadamente onze lodiques por um solar. Na Terra uma importância
como essa nem sequer bastaria para ir do Paschek’s, na Sexta
Avenida, até a esquina da Terceira Avenida.
Meech
subiu pela escada rolante que levava à entrada principal do Registro
Central. Olhou para os pés e notou que o degrau sobre o qual estava
parado vergava sob o peso de seu corpo. Sabia perfeitamente que um
dia isso o trairia. Talvez “trair”
não fosse a palavra adequada. Dificilmente algum dos habitantes de
Utik ou de qualquer outro lugar se interessaria em saber que não era
membro da raça a qual dizia pertencer.
No hall de
recepção do edifício havia um setor automatizado de informações.
Meech
perguntou pela sala onde poderia obter informações sobre as
espaçonaves chegadas ao planeta. Foi encaminhado ao quadragésimo
oitavo andar. Usou o elevador antigravitacional. Não se irritou com
o fato de que o campo gravitacional artificial deixou que descesse um
pedaço em direção ao subsolo, antes que registrasse seu peso
correto e o levasse ao lugar pretendido.
O
escritório que lhe fora indicado ainda não estava totalmente
automatizado. Havia alguns aparelhos robotizados que davam ao
visitante qualquer informação que este desejasse, desde que a mesma
estivesse disponível. Acontece que Meech receava que a informação
de que precisava não estivesse disponível. Por isso foi obrigado a
formular sua pergunta de maneira que nenhum dos autômatos soubesse
interpretá-la. Sendo assim o robô-porteiro o encaminhou ao chefe do
escritório.
Dali a
pouco Meech viu-se no interior de uma pequena sala, decorada com bom
gosto, numa tendência ao conforto à moda moderna.
O chefe do
escritório deixou-o surpreso!
Assim que
passou pela porta, Meech viu-se diante de uma jovem mulher, que o
fitava por cima da escrivaninha com certa curiosidade, mas também
com uma expressão de simpatia.
Meech
conseguiu sorrir ligeiramente e cumprimentou a mulher.
— Sinto
incomodá-la — disse. — Acontece que lá fora — apontou por
cima do ombro — ninguém estava a par.
A moça
atirou a cabeça para trás, fazendo esvoaçar alegremente a
cabeleira loura, e soltou uma risada cristalina.
— Infelizmente
isso acontece com certa freqüência — confessou, falando em
arcônida. — Aquelas caixas de lata ainda estão longe de terem
assimilado todos os nossos conhecimentos.
Apontou
para uma poltrona.
— Faça
o favor de sentar... — disse, esticando um pouco a última palavra
e lançando um olhar indagador para Meech.
— Hannigan
— disse Meech prontamente, enquanto tomava lugar na poltrona.
— Hannigan
— repetiu a moça. — Parece um nome terrano.
— E é
mesmo — respondeu Meech. — Sou terrano.
— Oh,
para mim isto é muito interessante — arregalou os olhos e
inclinou-se por cima da escrivaninha. — Conte-me alguma coisa sobre
a Terra, Hannigan. Nunca estive lá.
Meech
constatou que a moça não fazia a menor alusão à finalidade de sua
visita. Queria conversar. Não era a primeira vez que Meech passava
por uma situação como esta. Seu dever obrigava-o a entrar em
contato com uma mulher, e esta simpatizava com ele. No inicio
costumava divertir-se com isso. Mostrava-se interessado e combinava
um encontro, saindo com ela de noite. Mas um belo dia teria de chegar
o momento em que a mulher percebesse que ele não era o tipo de homem
que esperava. Meech imaginava perfeitamente que a decepção seria
enorme, e por isso nunca costumava aparecer depois do primeiro
encontro.
No
presente caso a situação era diferente. Não tinha tempo para
brincadeiras. Teria de mostrar-se frio a partir do primeiro instante.
— Infelizmente
vejo-me obrigado a decepcioná-la — respondeu com um sorriso
triste. — Nasci na Terra, mas vim para Utik quando ainda era
criança. Não sei...
— Compreendo
— interrompeu-o a moça, em tom muito mais frio que antes. — Quer
dizer que não conhece a Terra, O que o trouxe para cá?
— Há
quarenta e três minutos e vinte segundos uma nave pousou no porto
espacial de Massenock — disse Meech em tom decidido. — Gostaria
de saber de onde veio, e ainda se desembarcou passageiros em Utik.
A moça
fitou-o, espantada.
— Há
quarenta e três minutos... — repetiu, confusa.
— E
vinte segundos — completou Meech.
A moça
fez-lhe um sinal.
— Um
momento.
Meech
viu-a comprimir vários botões do painel que havia sobre sua mesa.
Depois ouviu-se o zumbido da aparelhagem positrônica, que procurava
localizar em sua memória a informação desejada, imprimiu a mesma
num cartão e fez o mesmo cair sobre a escrivaninha. A moça pegou o
cartão e examinou-o. Meech notou uma expressão de desconfiança em
seu olhar.
— O
senhor tem razão — respondeu lentamente. — Com a precisão de um
segundo.
Meech
lamentou-se por ter indicado o momento da chegada com tamanha
precisão. Desse jeito acabaria provocando suspeitas.
— Qual é
o nome da nave, por favor? — perguntou em tom amável.
— E a
Loral LXXX VII — respondeu a moça. — Trata-se de uma nave
mercante que só trouxe um único passageiro.
Meech
sabia que não deveria formular outras perguntas. Ninguém estava
autorizado a dar informações sobre os nomes dos passageiros. Meech
levantou-se.
— Quer
dizer que foi uma nave saltadora — balbuciou. — Fico-lhe muito
grato.
— Não
há de quê — disse a moça com um gesto de desprezo e voltou a
inclinar-se sobre o trabalho no qual fora interrompida por Meech.
Meech teve
pena dela. A vida das mulheres de Utik não era nada fácil. A
evolução do planeta seguira um caminho estranho. Os habitantes do
planeta eram imigrantes arcônidas. No curso dos milênios, os homens
degeneraram, transformando-se em criaturas calvas e indolentes,
enquanto as mulheres, em linhas gerais, continuaram a ser as mesmas
que eram no começo.
Quer dizer
que Meech teve pena da moça. Mas a capacidade de seu cérebro
bastava para que compreendesse — nitidamente — que o setor da
simpatia teria que ficar desligado.
Meech
saiu. Chegando à rua, poucos instantes depois, buscou outro carro
automático. Pegou-o para ir ao porto espacial. Ou melhor, pretendia
ir para lá. O porto ficava a uns trinta quilômetros da cidade.
Quando Meech tinha percorrido os primeiros cinco quilômetros, o
carro entrou numa rua em que os homens se comprimiam às centenas na
pista de rolamento, empurravam-se uns aos outros e falavam
confusamente. Meech espantou-se, mas teve a impressão de que aquele
tumulto não tinha nada a ver com a sua missão. Por isso não teve
nada a objetar quando viu que o piloto automático fez meia-volta,
para tentar a sorte em outra direção.
Realmente
conseguiu avançar mais um pedaço — cerca de um quilômetro. Logo
a mesma cena surgiu diante de seus olhos na outra via de saída. O
piloto automático compreendeu que seus esforços seriam inúteis e
perguntou ao passageiro se concordava em que prosseguissem viagem
pelo ar. Naquela altura Meech já estava desconfiado. Pagou o preço
pelo trecho até então percorrido, ordenou ao carro que esperasse e
desceu.
No mesmo
instante viu-se envolvido pela multidão que vagava na rua,
bloqueando o tráfego.
Com uma
rapidez tremenda foi cercado por alguns homens e mulheres que lhe
dirigiam a palavra. Falavam todos ao mesmo tempo, fazendo com que
Meech só compreendesse alguns fragmentos das frases que proferiam.
— ...já
ouviu falar...?
— ...uma
planta maravilhosa, fantástica...
— ...e
o perfume. É inacreditável...
Meech
Hannigan era livre de preconceitos por natureza. Não seria capaz de
rir de alguma coisa que lhe parecesse absurda. Por isso prestou
atenção aos fragmentos da história que lhe era contada e os uniu
rapidamente, graças ao seu poder de análise, transformando-os num
quadro inteligível.
Ao que
tudo indicava, a exaltação que se verificava nas ruas de Massenock
estava sendo causada por uma planta vinda numa espaçonave. Esta há
pouco pousara em Utik.
As
descrições da planta, que Meech ouviu de vários homens e mulheres,
não coincidiam em todos os pontos. De qualquer maneira, devia
tratar-se de uma linda flor, dotada de perfume irresistível. Pelo
que se dizia, esse perfume fora sentido desde o porto espacial até o
centro da cidade. Era uma distância de aproximadamente vinte e cinco
quilômetros.
A
inteligência de Meech classificou esta informação na categoria dos
fatos inconcebíveis.
O que mais
o impressionava era o fato de que nenhuma das pessoas com as quais
falara chegara a ver a estranha flor. Apenas haviam sentido seu
cheiro. Apesar disso as descrições do aspecto exterior da planta
coincidiam num ponto: era de cor violeta, com um núcleo amarelo
reluzente. As divergências diziam respeito exclusivamente à forma
das pétalas e ao tamanho da planta.
Meech
perguntou se o perfume da flor ainda era perceptível. A resposta foi
negativa. Ao mesmo tempo constatou que essa gente seria capaz de
correr muito mais, caso alguém lhes fizesse acreditar que a flor se
encontrava num lugar bastante afastado.
Meech
registrou cuidadosamente esses fatos e voltou ao carro. Já não
tinha nenhuma objeção a que a viagem prosseguisse pelo ar. O
veículo corria bem alto acima dos homens exaltados. Poucos minutos
depois chegou ao porto espacial.
Verificou-se
que seria impossível encontrar um local de estacionamento. As massas
inundavam o porto e as áreas adjacentes, salvo nos lugares em que os
cordões de isolamento afastavam as multidões das rampas de embarque
e desembarque das espaçonaves.
Meech viu
que do tumulto também participavam alguns funcionários do porto
espacial. E também percebeu que depois de algum tempo a gigantesca
massa humana tomou uma decisão. O nervosismo cessou e as pessoas
começavam a agrupar-se de certa maneira.
Segundo
parecia, alguém dissera onde estava a flor milagrosa. A multidão
começou a deslocar-se para o leste. Meech não perdeu tempo: seguiu
na mesma direção. Já não estava tão certo de que o nervosismo
reinante em Massenock não possuía qualquer relação com a tarefa
que teria de cumprir. E, como era uma criatura coerente, queria obter
esclarecimentos a este respeito.
Mandou que
o piloto automático seguisse para o leste. Enquanto sobrevoava a
periferia do gigantesco campo de pouso, avistou o grande vulto
cilíndrico que, segundo supunha, trouxera o dono do cérebro que
emitira as emanações tão intensas. Na popa estava escrito em
letras luminosas, numa visão angulosa do alfabeto arcônida:
Loral LXXX
VII. Meech chegou à conclusão de que talvez se tornasse necessário
fazer uma visita a essa nave.
Dali a
alguns minutos mudou de opinião. Notou que as emanações do cérebro
superpotente voltavam a tornar-se mais intensas. Compreendeu que se
aproximava do seu dono.
Costumava
ter muita cautela ao avaliar uma situação, mas achou pouco provável
que fosse unicamente por obra do acaso que a direção, para a qual
se deslocava a multidão exaltada, coincidia com aquela em que ele
mesmo se aproximava do estranho cérebro. Devia haver alguma relação
entre os dois fatos; e não demorou a descobrir qual era essa
relação.
O carro
automático sobrevoou o complexo de edifícios em forma piramidal,
esférica e cúbica que formavam o templo de Baalol em Massenock.
Meech notou perfeitamente que, depois de sobrevoar o templo, as
emanações do estranho cérebro se tornavam menos intensas. Mandou
que o carro voltasse e percebeu que as massas exaltadas, que
avançavam em direção ao templo, não vinham apenas do oeste, ou
seja, do porto espacial, mas acorriam de todas as direções. A flor
milagrosa, ou aquilo que para as massas obsessas vinha a constituir a
mesma, devia encontrar-se no interior do templo de Baalol. E no
interior do complexo templário também se encontrava o ser cuja
estranha e intensa atividade mental atingira Hannigan com tamanha
nitidez.
Meech
percebeu que com isso sua missão estava cumprida. Viera para Utik, a
fim de vigiar as atividades da seita de Baalol. Devia avisar seu
contato terrano assim que notasse algo de estranho que se
relacionasse com o culto de Baalol.
Meech foi
de opinião que a flor milagrosa e o cérebro que desenvolvia uma
atividade tão intensa constituíam fatos bastante estranhos. Mandou
que seu carro voltasse ao centro da cidade e desceu em frente ao
edifício de apartamentos em que morava. Entrou no elevador
antigravitacional, subiu ao andar em que ficava seu apartamento,
trancou cautelosamente a porta, pegou o transmissor de
telecomunicação que, por assim dizer, trazia junto ao corpo, e
começou a enviar uma mensagem codificada à Terra.
Depois
disso pôs-se a esperar. Sabia que a resposta não demoraria.
*
* *
Naquele
mesmo instante Kalal, sumo sacerdote do culto de Baalol, estava
sentado no interior do Templo da Verdade. Tomado de raiva impotente,
prestava atenção à estrondosa gargalhada que constantemente
ressoava em seu ouvido.
Ainda não
sabia quem estava rindo. Mas, aos poucos, uma suspeita começou a
surgir em sua mente.
Naquele
momento apareceu um sacerdote subalterno e disse que, fora das
muralhas do templo, uma imensa multidão se reunira e queria ver a
flor milagrosa.
Kalal não
tinha a menor idéia de que flor seria esta. No mesmo instante voltou
a ouvir a gargalhada retumbante. Furioso e desorientado, Kalal teve
impressão de que a criatura medonha que soltava as gargalhadas sabia
melhor do que ele o que havia com essa flor.
*
* *
Naquele
instante uma mensagem de telecomunicação foi expedida na Terra.
Essa mensagem dizia que certo agente que se encontrava em Utik devia
pegar a primeira nave disponível para ir à Terra. A mensagem estava
encerrada em impulsos codificados. Embora contivesse cerca de
cinqüenta palavras, sua duração não ultrapassou um e meio
microssegundos.
O mais
estranho era que o destinatário da mensagem não teve necessidade de
recorrer a um aparelho decifrador para compreender a ordem. Recebeu-a
tal qual estava concebida e entendeu-a dessa forma.
Dali a
meia hora, Meech Hannigan foi visto no porto espacial de Massenock,
que já ficara livre das massas exaltadas, a fim de reservar passagem
para a Terra numa nave expressa. Meech assinou a passagem com seu
nome verdadeiro: Mitchell Hannigan. Só costumava ser chamado de
Meech porque no seu sistema de cordas vocais um elemento de regulagem
de tempo estava mal ajustado, fazendo com que a palavra Mitch, que
correspondia à abreviatura de seu nome, fosse pronunciada com um i
longo — e ainda porque certas pessoas haviam chegado à conclusão
de que, para os fins que tinham em vista, um robô com um pequeno
erro de dicção era mais vantajoso que uma máquina cujo setor vocal
havia sido provido de um novo mecanismo de regulagem de tempo, a um
custo bastante elevado.
2
Ele:
— Os
ativadores não correspondem exatamente àquilo que a outra parte
espera.
Homunc:
— Quer
dizer...
Ele:
— Quer
dizer que, de forma alguma, cumprem a finalidade que um ativador
deveria cumprir.
Homunc:
— Será
que cumprem alguma finalidade?
Ele:
— Naturalmente...!
*
* *
A primeira
idéia que veio à mente de Ron Landry, depois de sua chegada a Utik,
foi esta: “Bem
que o velho poderia ter-me enviado a outro lugar.”
A mesma
idéia já lhe ocorrera várias vezes, nas últimas trinta e oito
horas. Ron não conseguia gostar de sua nova tarefa, O Coronel Quinto
e seus aparelhos de ensino hipnótico o haviam preparado para aquilo
que o esperava em Utik. Embora na execução de sua tarefa pudesse
contar com a colaboração de um especialista muito competente, teria
preferido que o tivessem enviado a algum lugar em que tivesse uma
coisa definida a fazer, em vez de mandá-lo para Utik onde, ao que
tudo indicava, os portadores de certas capacidades parapsicológicas
intangíveis haviam marcado encontro. Além do mais a tarefa de Ron
não estava muito bem definida. Por enquanto deveria colher
informações. Era uma formulação pouco nítida, que abria margem a
inúmeras alternativas, a numerosos caminhos de penetrar em alguma
coisa da qual posteriormente não conseguiria livrar-se por suas
próprias forças.
O fato de
que o Capitão Larry Randall e um novo agente, Lofty Patterson, que
lhe dariam apoio, também terem chegado a Utik, representava um
consolo muito fraco. Simplesmente não gostava da tarefa que lhe fora
confiada, e por enquanto não havia nada que pudesse modificar tal
opinião.
O sargento
Hannigan conhecia a cidade. Arranjou um carro e levou seu superior
hierárquico a um hotel situado no centro da cidade. Depois disso Ron
Landry mandou que voltasse a sair imediatamente, a fim de colher
informações sobre os fatos que se desenrolavam nas proximidades do
templo de Baalol. Perto de seis dias já se haviam passado desde que
o sargento Hannigan partira de Utik. Era de supor que nesse meio
tempo tivesse acontecido alguma coisa.
Meech
regressou dentro de uma hora. Além de uma pilha de jornais trouxe
certa quantidade de cassetes de microfilme e fitas gravadas com
informações.
As
notícias e os relatórios sonoros e visuais revelavam que os órgãos
oficiais de Massenock começavam a preocupar-se com os estranhos
acontecimentos ocorridos nas cercanias do templo de Baalol. Vários
observadores haviam sido destacados para a área, mas, ao que
parecia, nenhum deles encontrara o caminho de volta. O pessoal do
templo foi interrogado sobre o motivo do tumulto. Entretanto os
próprios sacerdotes pareciam não ter a menor idéia do que se
tratava. As massas enlevadas sitiavam os portões do templo. Pela
primeira vez desde a inauguração, os portões tiveram de permanecer
fechados. Os sacerdotes mal conseguiam sair num carro automático que
se deslocava pelo ar, pois os possessos também usavam esse caminho
para aproximar-se do objeto de seus desejos. O campo defensivo, que
os sacerdotes haviam levantado em torno do templo, era o único
obstáculo a impedir que os edifícios fossem tomados de assalto numa
questão de minutos.
A polícia
de Massenock saíra para dispersar a multidão. Mas em vez de cumprir
essa tarefa, os policiais atiraram fora suas armas e juntaram-se aos
grupos que sitiavam o templo. As áreas adjacentes, num raio de vinte
e cinco quilômetros, pareciam um acampamento militar. Uma vez que os
meios usuais de informação falhavam por completo, não havia em
Massenock ninguém que soubesse exatamente qual era ao certo o motivo
do tumulto. O resultado era um estado de impotência e desorientação.
Circulavam boatos relativos a uma flor milagrosa, escondida no Templo
da Verdade.
Mas
ninguém queria acreditar nesses boatos.
Dessa
forma Ron Landry viu frustradas suas esperanças de elaborar um plano
com base nas informações disponíveis. Não se sentiu muito
entusiasmado ao constatar que teria de fazer uma verificação in
loco.
Não
perdeu tempo. Uma vez examinadas as informações recebidas, pôs-se
a caminho juntamente com Meech Hannigan.
*
* *
As
autoridades de Massenock haviam conseguido pelo menos uma coisa:
isolaram as áreas adjacentes ao templo numa linha que corria um
quilômetro atrás dos últimos sitiantes. Ninguém podia cruzar essa
linha sem uma licença especial.
Ron Landry
não possuía essa licença, mas isso não o preocupava.
Passando
por uma rua em que grupos de curiosos discutiam animadamente,
aproximou-se, juntamente com Meech Hannigan, da barreira policial. Um
destacamento de cinco policiais ocupava um cruzamento bastante amplo.
Mais adiante, a multidão que sitiava o templo parecia uma muralha.
Ron e
Meech deixaram para trás os curiosos que discutiam. Um policial
destacou-se do grupo e deu alguns passos em direção aos dois.
— O
senhor não pode passar por aqui — disse no dialeto arcônida usado
em seu mundo. — Esta rua foi interditada.
— Posso,
sim — respondeu Ron, laconicamente. — Onde está seu superior?
Ao que
parecia, o tom resoluto usado por Ron causara certa impressão no
policial.
— O
Tenente Nazdek — respondeu, pronunciando o nome com a voz tão
forte que a pessoa que se chamava Nazdek virou-se e lançou um olhar
indagador para Ron.
— Meu
nome é Landry — disse Ron. — Sou major da Frota Terrana. Faça o
favor de examinar isto.
Pôs a mão
no bolso e tirou um pequeno objeto reluzente com o aspecto de uma
medalha. Bastou um ligeiro olhar para que o tenente soubesse que tipo
de pessoa tinha diante de si. Qualquer habitante da Galáxia, quer
fosse súdito do Império Solar, quer do Império de Árcon, sabia o
que significava uma medalha P violeta. E também sabia que teria
problemas pela frente, se não concedesse imediatamente ao portador
dessa medalha aquilo que representava a letra P: prioridade.
— Naturalmente
pode passar, major — disse o tenente e prestou continência.
— Confio
na sua discrição, tenente — disse Ron com um sorriso.
Fez um
sinal para Meech e os dois atravessaram o cruzamento.
Ron seguiu
para a esquerda. A idéia de penetrar na área de perigo em plena via
pública podia ser tudo, menos simpática.
As paredes
altas dos edifícios ofereciam um pouco de proteção. Era bem
verdade que no momento Ron não saberia dizer contra o
Ao
contrário do que acontecia nas casas situadas do outro lado do
cruzamento, as janelas estavam fechadas. As casas pareciam
abandonadas. Por certo o nervosismo generalizado levara todos para a
rua e em direção ao templo.
De repente
Meech parou. Ron não ouviu mais as batidas de seus passos e
virou-se, espantado.
— Há
alguém por aí — disse Meech em voz baixa.
Ron
compreendeu.
Quando
Meech dizia que havia alguém, não aludia a uma pessoa igual a
qualquer outra.
Ron olhou
em torno.
— Onde?
— perguntou.
— No
próximo edifício ou no edifício subseqüente — respondeu Meech,
laconicamente. — Entre o décimo e o décimo quinto andar.
Ron
preferiu não olhar para cima. Sua mente desenvolvia uma atividade
febril. Sabia que em Utik não existiam mutantes nativos, isto é,
pessoas cujas faculdades paranormais davam origem a emanações
mentais perceptíveis a Meech. Qualquer ser que produzisse emanações
desse tipo em Utik não poderia ser um nativo do planeta.
Os
mutantes arcônidas eram muito raros. E em Utik não havia um único
mutante terrano. Dessa forma o ser que se encontrava nas proximidades
só poderia ser uma criatura totalmente estranha, ou então um anti,
um sacerdote do culto de Baalol.
De repente
Ron compreendeu que havia muito mais sob a tarefa a ser cumprida em
Utik do que acreditara no início.
Estava
sendo esperado!
Levou
apenas alguns segundos para elaborar seu plano.
— Vamos
prosseguir como se nada tivesse acontecido — resolveu. — Cuide do
sujeito que está lá em cima.
Os dois
homens caminhavam lado a lado, com uma tranqüilidade aparente, como
se estivessem passeando. Qualquer observador teria a impressão de
que conversavam sobre um assunto de pouca importância. Vez por
outra, um dos dois sorria com as palavras do outro, mas de um modo
geral a conversa parecia ser interessante.
— Não
se mexe — disse Meech, sacudindo a cabeça como se não concordasse
com alguma coisa.
Houve uma
onda de alarido, vinda do fim da rua.
— Gostaria
de saber quais são suas intenções — disse Ron com a voz mais
alta que antes, fazendo uma careta.
— Não
consigo decifrar seus pensamentos — informou Meech. — Parece que
apenas nos observa.
Esteve a
ponto de dizer mais alguma coisa, mas naquele instante voltou a
captar as emanações do estranho cérebro, que lhe chamaram a
atenção pela primeira vez quando o portador de tal mente pisara no
porto espacial de Massenock. Fora há seis dias.
Meech
constatou que as emanações não identificadas vinham da direção
nordeste, ou seja, do lugar em que ficava o Templo da Verdade. Fez
menção de avisar Ron, Mas antes que pudesse fazê-lo aconteceu uma
coisa.
*
* *
Parecia
uma nuvem feita de doçura indescritível e de uma ânsia incontida.
Era o perfume que descia sobre a rua. Ron parou, perplexo. Levantou a
cabeça e pôs-se a aspirar o ar.
Aquele
perfume encerrava certas idéias. Eram idéias relativas a uma flor
milagrosa, incrivelmente bela, que crescia lá em... No mesmo
instante Ron convenceu-se de que nunca mais alcançaria a felicidade,
se não conseguisse vê-la o mais cedo possível. Sabia que era
frágil e delicada. Poderia perecer a qualquer momento.
Que idéia
repugnante! A flor poderia ser conservada. E merecia ser conservada.
Se todos se esforçassem para tratá-la como deviam, a mesma não
morreria.
Era isso
mesmo! Precisava ver a flor e fazer sua parte para protegê-la e
conservá-la. Virou-se abruptamente e bateu no ombro de Meech.
— Queremos
ver a flor, não queremos, Meech? — perguntou em voz alta.
O cérebro
de Meech deu um clique. Era um robô, e por isso estava em condições
de superar qualquer tipo de espanto numa questão de milionésimos de
segundo. Fez um gesto indiferente e concordou:
— A
idéia não é nada má. Vamos andando.
Ron
caminhava à frente. De repente tornou-se apressado. A muralha de
pessoas exaltadas aproximava-se rapidamente. Meech não lhe deu a
menor atenção. Era fácil acompanhar a marcha de Ron. Além disso,
precisava concentrar sua atenção sobre o cérebro estranho que
ainda continuava acima deles, em algum daqueles edifícios.
Começou a
mexer-se. Meech notou perfeitamente que os seguia. Sabia que os
edifícios residenciais, junto aos quais caminhavam, eram
atravessados por inúmeros corredores. E, via de regra, estes corriam
de uma esquina a outra, ou seja, de uma rua até a rua mais próxima.
Uma pessoa que se encontrasse num desses edifícios não teria a
menor dificuldade em seguir alguém, que caminhasse pela rua, de um
quarteirão a outro.
Meech logo
se conformou com a alteração ocorrida com o comportamento de Ron.
Aliás, isso não o abalou, pois, muito antes de se aproximarem da
muralha humana, Ron já manifestara o desejo de ir ao encontro da
flor.
Depois
concluiu que o alcance das medonhas emanações do cérebro estranho
chegava quase até a esquina, onde fora erguida a barreira policial.
Meech
estava preparado para o fato de que, ao penetrar na área de perigo,
Ron Landry perderia o juízo tal qual os outros. Fora este um dos
motivos por que o haviam destacado para acompanhar Ron. Assim que a
situação ficasse perigosa demais, procuraria convencer Ron a
voltar; se necessário, usaria a força para retirá-lo da zona
perigosa. Isso seria fácil, pois não havia ninguém que conseguisse
resistir à força de um robô.
O único
fator de complicação era o observador desconhecido que se ocultava
num daqueles edifícios. A programação de Meech não previa essa
circunstância. Portanto, teria de inventar alguma coisa, uma saída.
Finalmente
Ron aproximou-se por trás da massa que se comprimia em torno do
templo e não conseguia avançar mais, porque dezenas de milhares de
pessoas imbuídas da mesma idéia entupiam cada metro quadrado de rua
que se estendia à sua frente. Ron não pretendia deixar que isso o
detivesse. Pegou os dois homens calvos, que se encontravam mais
próximos, e com a maior facilidade empurrou-os para o lado.
— Deixem-me
passar, gente! — gritou com a voz potente. — Precisamos ver a
flor e tratá-la.
Um dos
dois homens, que acabavam de ser empurrados para o lado, ficou tão
perplexo que não conseguiu dizer nada. Mas o outro segurou a gola do
casaco de Ron e procurou puxá-lo para trás.
— Ei! —
gritou com a voz zangada. — Assim não é possível! Estamos
parados há várias horas, à espera de uma oportunidade de avançar.
Ouviu-se
um murmúrio de aprovação de todos os lados. Meech preparou-se para
lutar. O gênio impetuoso de Ron lhe causaria dificuldades. Este
virou-se, livrou-se da mão que o prendia, e segurou o utikense
exaltado pelos ombros.
— Se
você é tolo demais para abrir passagem, isso não quer dizer que eu
também o seja, meu caro — disse com um sorriso de deboche.
Mal acabou
de proferir estas palavras, golpeou fortemente. O homem calvo recuou
cambaleando e foi parar em meio à massa de homens que ainda há
pouco tinham concordado com o calvo. Houve gritaria e confusão.
Quando o montão de gente, que perdera o equilíbrio, voltou a pôr-se
de pé, Ron já havia desaparecido entre os espectadores. Meech
seguia-o de perto.
Dali em
diante, Ron quase não teve mais nenhuma dificuldade. A notícia do
incidente espalhou-se rapidamente. Todos preferiram comprimir-se
ainda mais, para dar-lhe passagem, a envolver-se numa luta com ele.
Dessa
forma Meech, que continuava a seguir seu superior, chegou ao
cruzamento mais próximo. A fileira de edifícios residenciais
situada à sua esquerda, chegou ao fim. Por isso o desconhecido que
os seguira pelos corredores teria de tomar uma decisão sobre o que
fazer. Meech resolveu dar-lhe uma chance.
A rua que
ia para a esquerda parecia estar mais vazia que a que prosseguia em
frente. Meech segurou Ron pelo braço.
— Vá
para lá — cochichou em inglês. — Assim conseguiremos andar mais
depressa.
Ron dobrou
prontamente para a esquerda. Meech empurrou-o para a extremidade do
quarteirão residencial.
A massa
humana ficava cada vez menos densa. A vinte metros do cruzamento, a
rua estava praticamente vazia. Ron Landry caminhava a passos largos
para avançar mais depressa.
Mas Meech
sabia que não chegariam muito longe. O cérebro desconhecido estava
bem próximo e, a julgar pela intensidade de suas emanações, já
devia ter concebido um plano. Meech preparou-se para a luta, embora
não acreditasse que precisaria intervir no incidente que estava por
surgir.
Ron chegou
ao pé da faixa transportadora luminosa que subia do nível da rua
para o grande portal de entrada do edifício. Nem olhou para a
esquerda. Só quando ouviu a voz áspera, parou e virou-se
abruptamente.
— Vocês
aí! Não se movam! — disse a voz.
Na opinião
de Meech, o homem que se encontrava na entrada do edifício tinha um
aspecto bastante normal. Usava um terno talhado segundo a moda não
muito sofisticada de Utik. A única coisa que o distinguia dos outros
habitantes do planeta era a cabeleira espessa.
E
evidentemente a arma de radiações de cano curto, em sua mão.
Meech não
sabia qual seria a reação de Ron. Sua atenção teria que
dividir-se por dois objetos.
Teria de
vigiar as reações de Ron, e ainda tomar cuidado para que o
desconhecido não tivesse oportunidade de disparar sua arma.
Colocou-se em posição oblíqua, a fim de ficar de olho em Ron e no
desconhecido, e foi erguendo os braços. Sentiu-se aliviado ao notar
que, depois de um instante de hesitação, Ron seguiu seu exemplo.
— Subam
para cá! — ordenou o desconhecido, acenando com a arma.
Meech
colocou-se sobre a fita transportadora e foi subindo lentamente em
direção à entrada do edifício. Sentiu que Ron o seguia de perto.
O
desconhecido afastou-se para o lado e deixou que Meech entrasse no
edifício. Como logo a seguir deixasse de ficar de olho nele, o robô
compreendeu que atrás da entrada havia mais alguém que deveria
“recepcioná-los”.
Por isso não se espantou ao notar que um objeto volumoso desceu da
penumbra reinante no hall, atingindo-o pesadamente na cabeça. Meech
não tinha a menor receptividade para esses métodos antiquados de
tratamento, mas sabia perfeitamente o que esperavam dele. Soltou um
gemido de dor, dobrou os joelhos e deixou-se cair lentamente de lado,
a fim de evitar que o impacto de seu pesado corpo sacudisse
demasiadamente o hall.
Uma vez
deitado, entreabriu os olhos e viu que a Ron Landry acabara de ser
dispensado o mesmo tratamento, com a diferença de que Ron realmente
desmaiou.
*
* *
Quatro
homens vindos dos fundos do hall aproximaram-se. Dois deles tinham
nas mãos barras de plástico. Eram as armas com que Meech e Ron
acabavam de ser abatidos.
Enquanto
se aproximavam, Meech percebeu que seus cérebros também possuíam a
estranha capacidade de produzir emanações, registradas por seu
aparelho receptor. Mas suas emanações eram muito menos intensas que
as do homem que segurava a arma de radiações. Meech acreditou que
fosse este o motivo por que até então não notara sua presença.
— Levem-nos
para cima! — ordenou o homem que portava a pistola.
Meech não
conseguia vê-lo. Estava deitado de costas para a entrada. Mas sabia
que teria de fazer alguma coisa. No momento em que tentassem
levantá-lo, notariam seu peso e, provavelmente, não demorariam em
perceber que era um robô. E isso não lhe serviria.
Viu dois
dos desconhecidos levantarem e carregarem Ron para um dos elevadores
antigravitacionais nos fundos do hall. Enquanto isso os outros dois
passaram a ocupar-se dele.
Meech
sentiu que o seguravam pelas pernas e pela cabeça. Ouviu um gemido,
seguido de um grito de pavor:
— Santa
verdade! Este sujeito até parece ser de pedra.
Os dois
homens que se encontravam junto ao elevador e o que guardava a porta
tiveram sua curiosidade despertada. Aproximaram-se. Ron ficou
estendido no chão do elevador. Era o que Meech esperara. Queria que
Ron ficasse fora da área de combate, se é que haveria luta.
Saltou de
repente. O impulso de seu corpo pesado foi suficiente para atirar ao
chão os dois homens que tentavam carregá-lo. Ainda enquanto
levantava o corpo, Meech girou-se instantaneamente. Não se enganara.
O desconhecido que segurava a arma de radiações reagira
instantaneamente. O cano curto foi girado e Meech deparou-se com o
quadro feio, oferecido pela boca da arma. Acontece que para um robô
o centésimo milésimo de segundo, que um ser orgânico gasta para
puxar o gatilho, representa uma eternidade. Antes que qualquer um
pudesse ver alguma coisa, Meech levantou a mão direita e disparou a
arma de choques, cujo cano ficava sob o dedo indicador. O
desconhecido soltou um grito, encolheu-se, enrijeceu o corpo e
tombou. A arma caiu ruidosamente sobre o chão de pedra.
Meech
estendeu os braços para o lado e voltou a virar-se. Sua tática fora
correta.
Dois dos
combatentes restantes haviam reconhecido a situação e avançavam
sobre ele, armados de porretes. Meech atirou os braços para a frente
e atingiu-os na testa. Ambos caíram para trás sem o menor ruído e
permaneceram imóveis. Meech deixou inconscientes os dois que
quiseram carregá-lo antes que tivessem tempo de levantar-se de novo.
Com isso a batalha chegou ao fim.
Meech
olhou cuidadosamente em torno, para verificar se havia mais um
inimigo nas proximidades.
Os
cérebros dos cinco homens inconscientes estavam mudos. Meech captou
o murmúrio abafado da multidão que esperava na rua e, superando
tudo, o trovejar do misterioso desconhecido que ouvira pela primeira
vez há seis dias, quando o tal sujeito chegara a Utik.
Era desse
desconhecido que emanava o encanto misterioso que mantinha as
multidões presas nas ruas dos subúrbios de Massenock. Meech não
tinha a menor dúvida quanto a isso.
De
qualquer maneira, não havia ninguém por perto. Os cinco homens que
jaziam inconscientes representavam toda a força combatente inimiga.
Meech não
teve necessidade de refletir sobre o que deveria fazer. Tinha à sua
frente cinco presos importantes, que deviam ser colocados em lugar
seguro. Havia, também, um superior inconsciente que, quando
recuperasse os sentidos, teria de ser conduzido até um lugar fora da
área de encantamento. Dentro de tal área todos acreditavam não ter
outra coisa a fazer senão cuidar da flor milagrosa, a fim de
protegê-la das intempéries...
Tudo isso
tinha de ser feito sem despertar a atenção de ninguém. Meech
precisaria de um grande carro automático, mas nessa área isolada da
cidade não havia como conseguir um veículo desse tipo. Lembrou-se
de que se encontrava na parte nordeste de um quarteirão residencial
que terminava no cruzamento ocupado pelo destacamento sob o comando
do Tenente Nazdek. Se conseguisse arrastar Ron e os prisioneiros até
a saída oposta dos edifícios residenciais, teria oportunidade de
fazer um sinal para Nazdek e arranjar um carro automático.
Pôs-se
imediatamente a caminho. Um dos corredores principais do edifício
começava logo após o hall de entrada. Meech carregou Ron nos braços
e um dos prisioneiros, e levou-os consigo de tal forma que os pés de
ambos arrastavam pelo chão. Calculou que gastaria uns cinco minutos
para alcançar a outra extremidade do edifício. E os efeitos da arma
de choque durariam pelo menos duas horas.
Não teria
motivo para preocupar-se com os outros prisioneiros.
3
Ele:
— ...os
aparelhos servem para distrair-me.
Homunc
(depois de refletir ligeiramente):
— Posso
perguntar de que forma?
Ele:
— O
ativador celular funciona em estreita conjunção com o cérebro de
seu portador. A energia utilizada na regeneração ininterrupta das
células é muito semelhante à energia geralmente produzida pelo
cérebro. Quer dizer que, sob o ponto de vista técnico, o ativador
pode ser visto perfeitamente como elemento de reforço.
Homunc:
— Compreendo...
*
* *
Kalal
sabia achar-se praticamente. Ignorava o que estava acontecendo para
os homens que se comprimiam do outro lado das sólidas muralhas do
templo, mas não tinha a menor dúvida de que o fenômeno era causado
pelo aparelho que trazia sobre o peito. Já levava o aparelho consigo
há muito tempo e não sabia por que não produzira o mesmo efeito
nos tripulantes da espaçonave em que viajara. No entanto, tinha
certeza de que era a causa de tudo.
Naquele
momento não havia nada que representasse um obstáculo maior aos
objetivos do culto de Baalol do que o alvoroço do público. Kalal
sabia perfeitamente que perderia o cargo de sumo sacerdote, e até
mesmo a vida, se o supremo Baalol soubesse de sua desgraça, quer
fosse culpado da mesma, quer não.
Tentara
remover o aparelho que trazia no peito. Nem ele, nem o especialista
ara que se encontrava no interior do templo conseguira fazê-lo. O
ativador celular penetrara nos tecidos e se alojara junto ao coração.
Até parecia que fora dirigido por uma inteligência diabólica, pois
se acomodara numa situação tal que nem se podia pensar numa
intervenção cirúrgica, a não ser que se quisesse sacrificar a
vida de Kalal.
Depois
disso, o sumo sacerdote exigira que o aparelho continuasse no mesmo
lugar, mas fosse destruído. Os médicos aras realizaram um exame
minucioso e constataram que o ativador passara a exercer parte das
funções do coração, passando a prover parcialmente a circulação
orgânica de seu portador.
Por isso
sua destruição provocaria uma estagnação circulatória de efeitos
mortíferos.
Mais uma
esperança de Kalal se frustrara. Teria de carregar o aparelho
infernal e não poderia evitar que, em todos os lugares em que
andasse, os homens se precipitassem sobre ele com os rostos
extasiados, o farejassem e acariciassem e, desde que dispusessem de
um recipiente com o líquido necessário, o regassem... com água.
Sabia que
os inimigos do culto de Baalol há muito tiveram conhecimento do
tumulto que se verificava em Utik. Certos elementos de toda confiança
o haviam informado de que há algumas horas dois agentes terranos se
encontravam a caminho, a fim de investigar as causas do estranho
incidente. Sob ordem de Kalal um grupo de sacerdotes subalternos,
dirigido por um sacerdote graduado, saíra ao encontro dos terranos,
a fim de prendê-los assim que penetrassem na área de atuação do
instrumento diabólico, que desviaria sua atenção. Kalal queria
saber até que ponto chegava a desconfiança das potências inimigas.
Acontece
que fazia uma hora que o sacerdote Doosdal não dava sinal de vida.
Kalal já estava acreditando que o golpe não fora executado conforme
ele planejara.
O fato de
que os sacerdotes graduados e os aras estavam imunes à influência
hipnótica irradiada pelo ativador, isso em virtude de sua
constituição psíquica especial, representava a única réstia de
luz em meio à confusão.
Kalal
sabia o que deveria fazer se Doosdal não desse sinal de vida dentro
de alguns minutos.
Havia o
perigo de que algum dos sacerdotes tivesse a idéia de que sua
presença — isto é, a de Kalal — representava um perigo para os
objetivos do culto de Baalol, e de que, antes de aceitar um risco
para as finalidades do culto, seria necessário matar o sumo
sacerdote, já que não havia outro meio de remover o perigo. Kalal
sabia perfeitamente que essa idéia ocorreria a alguém, e logo.
Só havia
uma possibilidade de subtrair-se a esse destino.
A fuga!
*
* *
— Pare
de falar nessa flor idiota — resmungou Larry Randall, bastante
contrariado. — Não estou interessado em vê-la. Venha cá
Era o
superior de Lofty Patterson. Acontece que Lofty, um homenzinho idoso
de cabelos grisalhos, rosto ladino e olhos alegres, nos quais naquele
momento se via uma expressão pensativa, não saiu do lugar.
— Preciso
vê-la, capitão — insistiu. — O senhor não pode proibir.
Larry
encontrava-se em situação muito desagradável. Lofty encontrava-se
a apenas dois metros de distância, mas em algum lugar, nessa
extensão de dois metros, erguia-se a barreira invisível que naquela
cidade separava os loucos das pessoas normais.
“Arriscamo-nos
demais”,
pensou Larry. “E
agora?”
O posto
policial ficara bem longe atrás deles. Os policiais deixaram passar
Larry e seu companheiro com a mesma facilidade com que, horas antes e
num lugar diferente, outros policiais haviam permitido a passagem de
Ron Landry e Meech Hannigan. Larry vira a massa humana submetida ao
encanto hipnótico bem à frente, em plena rua, a mais de um
quilômetro do posto policial. Não acreditara que o círculo de ação
hipnótica já começasse tão longe desse aglomeramento.
Agora
sabia perfeitamente, mas teria sido preferível que tivesse tomado
conhecimento do fato de forma menos enfática.
Lofty
virou-se e fez menção de prosseguir em sua caminhada.
— Pare
aí, Lofty! — ordenou Larry.
Lofty
olhou-o sobre o ombro, mas não parou. Larry puxou a arma e fez
pontaria. Na verdade, nem pensava em atirar. Aquilo representava uma
boa oportunidade de descobrir até que ponto o efeito hipnótico
afetava a mente sadia.
Voltou a
gritar uma advertência para Lofty. Mais uma vez este limitou-se a
olhá-lo por cima do ombro. Desta vez viu a arma, virou-se e parou.
— Será
que o senhor vai atirar contra mim? — lamentou-se com a voz aguda.
— Vou,
sim — disse Larry em tom resoluto. — Acabo de lhe dar uma ordem,
e você se recusa a obedecer. Afinal, estamos em combate e você está
submetido à lei marcial.
O
argumento era um tanto forçado, mas Lofty parecia impressionar-se.
Deu um passo hesitante em direção a Larry. Percebia-se que teve de
fazer um grande esforço.
— Por
que me proíbe de ver essa flor maravilhosa? — disse, prosseguindo
em suas lamentações. — É tão bela, tão perfumada...
— Como é
essa flor? — interrompeu-o Larry.
Antes que
tivesse tempo para responder, Lofty estremeceu. Até parecia que
acabara de levar uma descarga elétrica. No entanto, não tocara em
nada, com exceção do pavimento da rua.
— Como é
o quê? — perguntou em tom de espanto.
Larry
arregalou os olhos.
— Ora, a
flor de que você acaba de falar.
Lofty
fitou seu interlocutor como se duvidasse de suas faculdades mentais.
— Eu? O
senhor diz que eu falei numa flor? Sir...
De repente
viu a arma que Larry segurava.
— O
que... o que houve, sir? Por que...?
Larry
interrompeu-o com um gesto. Compreendeu o que acabara de acontecer.
Lofty Patterson já não estava submetido à influência hipnótica.
Alguma coisa devia ter acontecido naquele instante com o objeto que
produzia o efeito hipnótico. Larry voltou a guardar a arma e
observou a massa humana.
Não notou
a menor modificação. Larry esperou, enquanto Lofty caminhava
devagar em sua direção, com um olhar confuso.
As pessoas
que se encontravam mais adiante permaneciam imóveis. Continuavam de
costas para Larry e ao que parecia aguardavam apenas que a
aglomeração à sua frente se tornasse menos densa, para que
pudessem avançar até o lugar onde se encontrava o objeto de seus
desejos. Não havia a menor dúvida de que continuavam sujeitos ao
efeito hipnótico.
A primeira
vista a situação parecia perturbadora. Mas Larry logo percebeu o
que devia ter acontecido. Fosse qual fosse a causa da influência
mecano-hipnótica, seu raio de ação parecia ser bem delimitado.
Dentro da área de influência, o efeito se exercia com a mesma
intensidade em todos os pontos. Mas um pouco antes da periferia do
circulo, o efeito cessava.
A
periferia da área de influência passara para o outro lado da rua, e
Lofty atravessara a linha limítrofe. Agora essa linha se deslocara,
e o ponto crítico ficava mais adiante, entre Lofty e a massa que se
comprimia na rua.
Dali se
concluía que o objeto que irradiava o efeito hipnótico acabara de
deslocar-se.
Larry
sabia que essa constatação praticamente equivalia à prova da
exatidão da hipótese de Meech Hannigan, segundo a qual as estranhas
irradiações provinham de um ser vivo, e que esse ser provavelmente
se encontrava no interior do Templo da Verdade, que era a sede da
seita de Baalol no planeta Utik. O ser deslocara-se no interior do
templo; talvez apenas tivesse passado de um recinto a outro. Com isso
o limite do efeito hipnótico se deslocara o suficiente para que
Lofty Patterson ficasse livre do mesmo.
Lofty não
compreendeu muito bem do que se tratava, nem quando, durante o
caminho de volta, Larry lhe explicou minuciosamente o fenômeno.
Perdera toda e qualquer lembrança dos minutos durante os quais
estivera submetido à estranha influência.
Passaram
sem a menor dificuldade pelos dois postos policiais instalados num
cruzamento. Larry mantinha-se em silêncio. Sua mente trabalhava de
modo intenso, à procura de uma solução para o problema.
Enquanto
Lofty Patterson procurava localizar um carro automático, subitamente
lhe ocorreu uma idéia.
*
* *
Por
enquanto a posição de Kalal era tão segura que podia solicitar
tranqüilamente um veículo, sem dizer por que motivo o sumo
sacerdote pretendia abandonar o templo justamente num momento de
crise.
Recomendou
encarecidamente aos seus subordinados para que acompanhassem com o
maior cuidado as atividades de agentes estranhos em Massenock e Utik.
Depois disso entrou no veículo que o aguardava no interior do templo
e acionou a partida assim que o sinal luminoso do painel mostrou que
o campo defensivo, que cercava as instalações templárias, acabara
de ser desativado.
O carro
subiu rapidamente. Kalal acelerara ao máximo, pois, do outro lado do
campo defensivo, dezenas de veículos automáticos aguardavam o
momento em que se desfizesse a barreira que os separava da flor
milagrosa. Todos supunham-na guardada no templo. Alguns deles estavam
literalmente pousados sobre o campo defensivo, com os motores
funcionando em marcha lenta. Kalal viu os veículos caírem
desajeitadamente, para só se levantarem pouco acima do pavimento
duro do pátio do templo, quando os pilotos compreenderam o que havia
acontecido. Kalal pensou em aproveitar a súbita confusão para
escapar em meio ás esquadrilhas que o esperavam.
Mas viu
que se enganara. Carregava o ativador indestrutível, que era a causa
da desgraça que o mantinha cativo há dias. As pessoas que
aguardavam em seus veículos há algumas horas, ou mesmo mais, por
uma chance, não deixaram de notar que a flor pela qual tanto
ansiavam estava prestes a escapar.
A recepção
das radiações mecano-hipnóticas era determinada em larga escala
pelo ângulo de incidência. A pessoa hipnotizada sabia a qualquer
momento em que direção se encontrava o objeto de seus desejos. Nem
por um segundo, Kalal conseguiu enganar os que o esperavam.
O anel dos
“enlevados”
fechou-se em torno dele com uma rapidez apavorante. Teve de reduzir a
velocidade do seu veículo, a fim de evitar uma colisão com os
delirantes. Via seus rostos atrás dos vidros dos carros. Os olhos
estavam muito arregalados, as bocas arreganhadas de avidez e o nariz
achatado de encontro aos vidros. Tentavam não perder qualquer
movimento do veículo em cujo interior se encontrava a flor.
Quando se
encontrava duzentos metros acima do telhado do templo, Kalal percebeu
que não tinha a menor chance. Os outros carros estavam acima dele, à
sua direita, à sua esquerda, em todos os lugares em que poderia
encontrar uma saída para a liberdade. Apenas atrás dele o caminho
continuava livre. Não perdeu tempo; resolveu aproveitar a única
oportunidade que ainda lhe restava. Inverteu a marcha do veículo o
mais rápido possível e desceu vertiginosamente. Desta vez não
tinha motivo para recear uma colisão. Durante a descida emitiu o
sinal que faria com que o campo defensivo voltasse a abrir-se. Não
perdeu tempo para certificar-se de que o sinal fora compreendido.
Prosseguiu
na descida. De tão desesperado que se sentia, não se teria
importado muito caso o campo defensivo estivesse fechado e ele se
despedaçasse de encontro ao mesmo.
Teve
sorte. Seu veículo passou pelo lugar em que costumava ficar o
obstáculo invisível e pousou no pátio interno principal. O campo
defensivo voltou a fechar-se bem à frente dos seus perseguidores,
que não demoraram a compreender a situação.
Kalal
desceu. Tremia por todo o corpo. Alguns sacerdotes saíram da grande
pirâmide do templo e vieram ao seu encontro. Pararam à sua frente e
inclinaram ligeiramente o corpo.
Kalal
sentiu que suas horas estavam contadas.
*
* *
Larry fez
a figura duma mulher, que usava um avental leve, saltar por cima de
um quadrado e disse com um sorriso:
— É
assim que o senhor acabará se continuar a ser tão leviano como está
sendo aqui. Casado...!
Seu
parceiro assustou-se. Estremeceu visivelmente, tirou o queixo da mão
em que se apoiava e fitou o tabuleiro de jogo. Larry notou que,
depois de um momento de contrariedade, seus olhos voltaram a
iluminar-se. Estendeu a mão e exclamou:
— Ainda
não, amigo! Ainda não. Aqui ainda há um clube de cavalheiros onde
posso refugiar-me.
— Quero
ver como — observou Larry.
— Aqui.
Coloco um galanteador diante desta mulher — empurrou uma pequena
figura masculina. — Espero que ele lhe dê mais apetite que eu.
— Isso
lhe custará alguma coisa — disse. — É seu galanteador, e essa
figura honorável não pode cometer mais nenhum deslize.
Kazek, um
homem baixo e calvo, que era seu parceiro de jogo, passou a mão pela
calva.
— Realmente
— confessou. — Como poderei atingir o clube de cavalheiros se não
estou bem à frente do mesmo?
— Pois
eu lhe disse: o senhor não deve ser tão leviano. Seja qual for seu
próximo lance, no outro estará casado.
Kazek
fitou o tabuleiro por algum tempo. Resolveu levar a coisa na
brincadeira. Levantou a figura com que Larry o pegara, contemplou-a
por algum tempo e sorriu.
— Se a
vejo assim, chego à conclusão de que a idéia até que não é má.
Infelizmente isso só existe no jogo.
Atirou a
figura na caixa de plástico que se encontrava sobre a mesa, ao lado
do tabuleiro, colocou as outras figuras na mesma caixa, fechou-a e
levantou-se.
— Vamos.
Eu lhe devo um zintchka.
— Foi só
por isso que joguei com tanta animação — afirmou Larry. — Não
estava disposto a pagar o zintchka.
Olhou em
torno. O estabelecimento pertencente a Kazek não estava tão lotado
como estivera à sua entrada. Alguns velhos mal-humorados estavam
sentados em suas mesas e serviam-se de bebidas coloridas feitas de
sucos de frutas momos.
Os velhos
não estavam interessados em nada, o que deixou Larry bastante
satisfeito. Para aquilo que tinha em vista, precisava de um Kazek que
não fosse distraído. Justamente por isso viera ao local. Gabara-se
diante de Kazek, com o qual só se encontrara uma única vez, de que
durante sua permanência na cidade já aprendera tão bem o jogo
casamenteiro que ninguém seria capaz de derrotá-lo. Kazek caíra em
sua conversa e se mostrara disposto a disputar um jogo que valeria
uma rodada de zintchka. Larry realmente ganhara, mas isso foi devido
menos ao seu talento que à falta de atenção de Kazek. De qualquer
maneira, atingira seu principal objetivo. Usara uma conversa bem
elaborada, para despertar em Kazek um sentimento de intimidade
tamanho que até parecia que já se conheciam há anos.
Qualquer
agente terrano conhecia ao menos uma dezena de modelos desse tipo de
conversa, cuja seqüência havia sido preparada por psicólogos.
Notou-se
isso perfeitamente pela maneira como Kazek bateu no ombro de Larry,
depois de ter colocado dois copos na mesa e os enchido de zintchka:
— Faça
bom proveito, amigo. O senhor realmente é um dos melhores jogadores
que já conheci.
Larry
engoliu o elogio. Levantou o copo e sorveu pequena quantidade da
bebida azul-clara, que exalava um cheiro penetrante.
— Nada
mau — constatou, levantando a cabeça e piscando para Kazek. —
Mas, para falar com franqueza, há algum tempo tomei uma bebida muito
mais gostosa.
Imediatamente
Kazek teve despertada sua curiosidade.
— Em
outros lugares também deve haver bebidas excelentes. O que foi mesmo
que o senhor tomou e gostou tanto?
— Não
me lembro do nome — disse Larry, esticando as palavras e piscando
os olhos com tamanha insistência que Kazek compreendeu imediatamente
que não queria dizer o nome. — A bebida costumava ser vendida em
garrafinhas muito pequenas.
Em
comparação com o conteúdo dos recipientes era muito cara, mas
valia a pena pagar o preço.
Era o
momento crítico. Segundo os relatórios policiais vindos da cidade
de Massenock, Kazek era um intermediário na venda de liquitivo. O
liquitivo era um entorpecente com o aspecto de licor, que há algum
tempo fora lançado no mercado galáctico pelos sacerdotes do culto
de Baalol.
Depois de
tomar a bebida por três, ou no máximo cinco vezes, um ser de
constituição normal adquiria o vício. E depois de se entregar ao
vício durante doze anos, o ser entrava num rapidíssimo processo de
decadência física e mental, que o transformava numa ruína.
Vários
mundos enfrentaram sérios problemas no combate ao vício do
liquitivo. Em Utik, um planeta situado no limite do grupo estelar
M-13, por assim dizer às portas da sede do Império de Árcon, nunca
chegara a haver um comércio extenso do produto. Assim que se teve
conhecimento dos riscos ligados ao consumo da bebida, a polícia
proibiu sua venda.
Providenciou-se
o internamento dos viciados, que não foram muitos.
Se o
caráter de Kazek cumprisse aquilo que os registros policiais
prometiam, não poderia deixar de morder a isca que acabara de ser
jogada.
— Quantas
vezes? — perguntou a Larry.
— Infelizmente
tomei aquilo apenas duas vezes. Bem que gostaria de tomar mais, mas
tive de ir a um lugar onde não se encontrava a bebida.
Kazek fez
um gesto de assentimento.
Parecia
pensativo.
— Trata-se
do liquitivo, não é verdade? — perguntou.
— Isso
mesmo! — exclamou Larry. — Foi o liquitivo. Costumava ser
fornecido pelo pessoal de Baalol, não é?
— É o
que dizem — admitiu Kazek em tom hesitante.
Larry
passou a mão pela boca, como alguém que se delicia com as
recordações de uma bebida gostosa. Finalmente perguntou:
— Será
que eles ainda têm a bebida?
De repente
Kazek não parecia mais interessado na conversa.
— Sei
lá. Aqui, em Utik, o produto não pode ser vendido mais.
— Sei
disso. Mas em muitos lugares conseguem-se várias coisas cuja venda é
proibida. Neste meio tempo ganhei um bom dinheiro e estou disposto a
empregar boa parte do mesmo na compra de alguns frascos de liquitivo.
Kazek
lançou-lhe um olhar atento.
Larry
examinou discretamente seus olhos e notou a centelha ligeira da
cobiça. Não se enganara.
— Às
vezes acontece alguém — disse Kazek em tom hesitante.
Larry
ergueu as sobrancelhas.
— O que
quer dizer com isso?
— Bem —
disse Kazek, esfregando as mãos. — Pelo que dizem, os sacerdotes
ainda têm um bom estoque do licor e, ao que consta, quando
simpatizam com alguém fornecem o produto.
— Com
quem eles simpatizam?
Kazek
parecia travar uma luta Íntima. Larry notou-o perfeitamente.
— Comigo,
por exemplo — respondeu o dono do estabelecimento, depois de algum
tempo. — Já lhes prestei bons serviços, e sempre que têm uma
oportunidade demonstram sua gratidão. Acredito que, se eu lhes
pedisse, eles me venderiam o liquitivo. É bem verdade que eu mesmo
teria de ir buscá-lo, e posso garantir-lhe que depois da proibição
da venda os preços não baixaram.
Larry
acenou com a cabeça. Parecia satisfeito.
— É uma
coisa que a gente gosta de ouvir — disse. — Onde costuma buscar o
licor? No templo?
— Sim.
— Tem
livre acesso ao mesmo?
— Não é
bem isso — respondeu Kazek em tom hesitante. — Os sacerdotes têm
de tomar suas precauções. São poderosos, e a polícia de Massenock
não poderia fazer-lhes nada. Mas têm de cuidar de sua reputação.
Portanto, não podem permitir que todos saibam que, vez por outra,
ainda vendem liquitivo.
— Hum —
fez Larry e depois de algum tempo perguntou: — O senhor me levará,
não é?
Kazek
abriu os braços.
— O que
está pensando? — perguntou em tom exaltado. — Não é possível.
A generosidade dos sacerdotes só se dirige à minha pessoa.
— Acontece
que quem tem o dinheiro sou eu — insistiu Larry.
— É
verdade — admitiu Kazek, perplexo.
— Sem
dinheiro o senhor não poderá arranjar o produto, a não ser que
esteja disposto a adiantar o valor da compra. É claro que só
pagarei na entrega da mercadoria. Mas deixemos isso para lá. Vamos
fazer um acordo. Eu lhe pagarei vinte por cento além do preço,
desde que me leve ao templo.
— Farei
o possível — disse Kazek depois de algum tempo. — Não será
nada fácil. É bem possível que com isso eu provoque ira nos
sacerdotes. Mas pelo senhor estou disposto a assumir o risco.
— E
também pelo dinheiro — acrescentou Larry, que sempre fazia questão
de deixar as coisas bem claras.
Neste
ponto a palestra foi interrompida. Larry sentiu o leve zumbido do
aparelho que trazia no pulso. Alguém queria falar, e o fato de usar
o aparelho de pulso provava que esse alguém tinha pressa. Talvez
fosse Lofty, que ficara no hotel, ou então Ron Landry. Larry
combinou às pressas um encontro com Kazek para dali a dois dias.
Depois saiu para a rua, tomou um carro automático e respondeu ao
chamado durante a viagem.
A voz de
Ron Landry saiu do pequeno receptor de pulso.
— Neste
meio tempo aconteceram algumas coisas bem importantes — disse Ron.
— Precisamos conversar. Vamos encontrar-nos...
Combinaram
um local de encontro. Larry confirmou a recepção da ordem. Ainda
dispunha de meia hora, e por isso resolveu parar no hotel a fim de
levar Lofty Patterson.
Sentia-se
dominado por uma estranha excitação. Até parecia que, depois de um
tempo tão prolongado de incerteza, as pedras finalmente iriam rolar.

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