sexta-feira, 2 de setembro de 2016

P-108 - O Deserto da Morte - Kurt Mahr [Parte 2]

O fato deixou-o bastante impressionado, mas não prejudicou seu apetite. Gerard recusou em tom mal-humorado a sugestão de comerem alguma coisa.
Não tenho dinheiro — resmungou.
Ron bateu na testa.
Santo Deus, o senhor acaba de me dar uma idéia. Quem sabe se essa gente...
Interrompeu-se em meio à frase e pôs a mão no bolso. Encontrou a carteira. Ao abrir o fecho magnético, viu que o dinheiro estava intato.
Eu o convido — disse alegremente, batendo no ombro de Gerard.
Por uma fração de segundo, os olhos deste iluminaram-se. Ron notou-o, mas apenas desconfiou de que a fome de Gerard Lobson não fosse menor que a sua.
A algumas centenas de metros do edifício da Missão Comercial Terrana, encontraram um restaurante que servia refeições rápidas, e que parecia não ser muito exigente quanto aos trajes dos seus freqüentadores. O robô porteiro indicou-lhes uma mesa nos fundos do salão. Enquanto Ron girava rapidamente o disco seletor embutido na mesa, a fim de compor um menu bastante rico em conformidade com o código exposto nas proximidades, aconteceu pela primeira vez que Gerard Lobson dissesse algo sem ser perguntado.
O que foi isso? — perguntou; sua voz ainda estava insegura. — Refiro-me ao que aconteceu no porão.
Ora, não foi nada de especial. Um amigo meu agiu no momento apropriado.
Ron virou a cabeça e procurou olhar pela janela que dava para a rua. Não teve muita certeza, mas parecia que naquele momento um recinto cúbico com uma grande vidraça passava à frente da ampla janela. Resistiu ao desejo de levantar-se e ir até a porta.
Era preferível não revelar todos os detalhes a Gerard Lobson — ao menos por enquanto.
Gerard fez questão de pedir um licor idêntico ao que os saltadores haviam introduzido em sua boca e na de Landry. Ron disse:
Eu o convidei, Gerard, mas o convite não inclui a misteriosa bebida. O senhor já deve ter percebido que há algo de errado com aquilo. Contém uma droga.
Gerard fitou-o prolongadamente.
Pode ser. Acontece que eu gosto — respondeu.
Como Ron tivesse o dinheiro, seu desejo prevaleceu. Gerard não recebeu o licor. Não parecia importar-se muito com isso. Tomou cinco copos de cerveja terrana de alta fermentação, isso em trinta minutos. Quando Ron concluiu a refeição, sentiu-o ligeiramente tocado. Ron não se importou. Deu-se por satisfeito ao notar que Gerard se mantinha num estado de modorra. Isso lhe ensejou a oportunidade de pôr seus pensamentos em ordem. E o volume destes era tamanho que se tornava difícil processá-los de uma só vez.
Quer dizer que os saltadores se haviam fixado no edifício da Missão Comercial Terrana.
A palestra que o Dr. Zuglert mantivera com a Flórida, pouco antes de seu desaparecimento, fora registrada num dos números da Missão. E o Inspetor Neary afirmara que na Missão nunca existira nenhuma pessoa que correspondesse à descrição de Zuglert, e que muito menos este chegara perto de seu fone particular, do qual, segundo se dizia, fora mantida a palestra.
Nesse meio tempo, Ron soubera, que o serviço de rádio do governo de Lepso debitara a Missão Comercial Terrana por uma ligação TTT de telecomunicação com a duração de cinqüenta segundos. Concluía-se que não havia nenhum mistério, e a essa hora o Inspetor Neary já devia ter percebido que cometera uma injustiça contra Dick Kindsom, quando manifestou a suspeita de que o major queria fazê-lo de bobo.
Será que Neary estava ligado aos saltadores? Será que estes se haviam apoderado de Zuglert? Como foi que este conseguiu aproximar-se do aparelho de telecomunicação? Teriam relaxado em sua vigilância? Ron teve a impressão de que não poderia deixar de aceitar esta última tese, pouco importando o que pensasse a respeito dos acontecimentos passados. Zuglert só conseguira entrar em contato com a Flórida por ter escapado à vigilância, durante alguns instantes. Provavelmente julgaram que uma pessoa semimorta já não seria capaz de desenvolver qualquer atividade.
Até aqui não há a menor dúvida”, concluiu Ron. “Mas de onde Zuglert teria chamado?
De início quis afastar a idéia de que Neary pudesse estar ligado aos bandidos. Os funcionários terranos, que iriam servir no exterior, eram cuidadosamente selecionados e submetidos a um treinamento intensivo, que os preparava para suas funções. Dificilmente um deles falharia no desempenho de suas missões.
Isso em condições normais”, apressou-se Ron a retificar.
Lembrou-se do ara que vira no escritório do Dr. Zuglert. Sempre que um ara estava metido em alguma coisa, devia-se ter o maior cuidado. Os médicos galácticos eram mestres no preparo de modernos caldos de bruxas. Era possível que Neary cooperasse com os saltadores por estar submetido à vontade de outra pessoa.
Mas havia outra possibilidade. Talvez Neary nem soubesse o que se passava em torno dele. Talvez os saltadores, que tinham seu esconderijo no mesmo edifício em que ficava a Missão dirigida por Neary, se tivessem apoderado do canal de comunicação terrano e possuíssem um aparelho que lhes permitisse realizar palestras sob o mesmo número-código da Missão Comercial... Seriam perfeitamente capazes disso, ainda mais que a ligação clandestina lhes permitiria ouvir as palestras que Neary realizasse em seu aparelho.
Ron resolveu procurar o inspetor o quanto antes e falar-lhe a respeito daquilo em que acabara de pensar. Ficou refletindo sobre se valeria a pena voltar imediatamente ao edifício da Missão Comercial e entregar à polícia de Lepso os dois saltadores inconscientes, que se encontravam no subsolo. Mas chegou à conclusão de que nem deveria pensar nisso. Os saltadores saberiam o que dizer à polícia. E ele, que podia contar apenas com Gerard Lobson — uma testemunha nada segura — ainda poderia ser acusado de autor da agressão.
Não era este o caminho que devia seguir. Mas de qualquer maneira tinha de falar o quanto antes com Neary.
Levantou os olhos. Gerard começou a resmungar sons ininteligíveis. Seus olhos estavam injetados de sangue. Seu aspecto não era nada atraente. De repente levantou a cabeça e olhou para além do ombro de Ron.
A expressão de seu rosto alterou-se. Os olhos, que até então pareciam vidrados e inchados, arregalaram-se e fitaram com uma expressão de pavor um ponto situado além das costas de Ron. Este teve imediatamente a impressão de que Gerard estava lançando mão de um velho truque para desviar sua atenção, a fim de fazer alguma coisa que ele, Ron, não deveria saber. Mas, de repente, ouviu as cadeiras serem empurradas em torno dele pelas numerosas pessoas que se levantavam ao mesmo tempo. Alguém gritou:
Chamem um médico! Depressa!
Só então Ron virou a cabeça. Olhando por entre duas pessoas, que se dirigiam a outra mesa, viu por um instante o vulto de um homem que, segundo parecia, acabara de levantar-se da cadeira. Provavelmente concluíra sua refeição e pretendia sair do restaurante.
Mal e mal, o tal homem tinha forças para manter-se de pé. Segurou-se com ambas as mãos na borda da mesa. Cambaleou e abriu a boca, respirando com dificuldade. A boca era apenas um buraco escuro em meio a uma horrível máscara marrom-amarelenta, que antes parecia uma caveira que a cabeça de uma pessoa viva.
A memória de Ron começou a funcionar. O setor implantado pelos aparelhos misteriosos do Coronel Nike Quinto entrou em atividade. Lembrou-se da palestra que Kindsom mantivera com o Dr. Zuglert, e do aspecto que este último oferecia.
Zuglert tinha exatamente o aspecto do homem que se encontrava à sua frente.
Ron agiu com uma rapidez fulminante. Com um gesto rápido arrancou Gerard Lobson de cima da cadeira.
Fique logo atrás de mim — ordenou.
Gerard confirmou com um gesto automático. Continuava a dirigir os olhos para o lugar onde se encontrava o homem-caveira, que agora estava escondido atrás de um grupo de pessoas.
Ron afastou os que se encontravam mais próximos.
Abram caminho! — exclamou. — Aqui vem um médico.
Olhando de relance, viu que Gerard o seguia conforme ordenara. As pessoas abriam caminho.
Ninguém pediu documentos que os identificassem. Tratava-se de pessoas desconhecidas, que se encontravam por acaso em determinado local, e testemunharam o desenvolvimento da doença de um deles. Estariam dispostos a aceitar a atuação de qualquer pessoa que se apresentasse como médico.
Ron avançou habilmente até a mesa em que se achava o desconhecido. A caveira parecia nem notar sua presença. Não havia a menor dúvida de que era um terrano. Ron segurou-o pelo braço direito.
Venha comigo; sou médico — disse em inglês. — Estou disposto a ajudá-lo.
O homem girou ligeiramente a cabeça.
Ajudar...? — disse num estertor.
Sim, pretendo ajudar — confirmou Ron. — O senhor pode andar, ou prefere ser carregado?
Em vez de responder, o homem deu um passo para a frente, soltando a mesa. Teve de apoiar-se no braço de Ron, mas conseguiu manter-se de pé. Quando se dispôs a dar o segundo passo, os circunstantes afastaram-se.
Ron olhou para Gerard, que se encontrava a seu lado, e suplicou aos deuses para que o parceiro não fizesse tolices.
De início tudo foi bem. Acompanhado do homem com aspecto de caveira e de Gerard e, a uma distância maior, do grupo de curiosos que ia diminuindo, Ron dirigiu-se lentamente para a saída do restaurante.
Finalmente viram-se na rua. Ron olhou em torno, à procura de um táxi, mas não havia nenhum por ali. O fato deixou-o espantado. Percebeu que, naquele trecho da calçada, não havia pedestres.
De repente, Gerard soltou um grito de espanto abafado. Ron imaginou, mesmo sem ver, que seu parceiro pretendia fugir. Num movimento rápido, sua mão livre agarrou a jaqueta do bêbado.
Fique aqui! — gritou.
Mal pronunciara estas palavras, uma voz áspera, vinda de detrás dele, disse:
Entregue-me este homem!
Ron virou-se abruptamente. Às suas costas, um homem uniformizado saíra da sombra projetada pelo restaurante. Reconheceu o uniforme da polícia de Lepso.
Por quê? — perguntou o terrano. — Este homem está doente. Precisa de um médico, não de um policial.
Um sorriso de escárnio surgiu no rosto do homem.
O senhor é médico? — perguntou num péssimo inglês.
Ron julgou preferível não repetir a mentira.
Não — respondeu. — Mas pretendo levá-lo à presença de um médico.
Nós temos condições muito melhores para isso — afirmou o homem uniformizado. — Olhe.
Não teve necessidade de olhar, pois ouviu. Um potente veículo giromático desceu e pousou junto ao meio-fio, num trecho do qual todos os veículos haviam sido removidos. De repente apareceram mais alguns policiais e cercaram Ron e o homem com aspecto de caveira.
Bloquearam uma parte da rua”, pensou Ron.
Mais cinco policiais saltaram do veículo giromático. O terrano sabia perfeitamente que não teria a menor chance contra os milicianos. Isso deixou-o furioso. E, o pior: foi obrigado a esconder sua raiva.
Acho que o senhor tem razão — disse, dirigindo-se ao policial que agora se encontrava à sua frente. — O senhor tem melhores possibilidades. Leve-o.
O policial segurou o braço do velho doente e arrastou-o em direção ao veículo giromático. Ron ficou parado até que a porta do carro espacial se fechasse atrás do doente e do policial. Viu que o tráfego noturno voltou a fluir sobre o trecho da rua que até então ficara bloqueado. O veículo giromático subiu num salto arrojado, ganhou altura em meio à luz dos anúncios luminosos e acabou desaparecendo num mar colorido de luminosidade.
Só agora Ron deu-se conta de que continuava a segurar a jaqueta de Gerard. Fez sinal com a mão livre, a fim de chamar um táxi que seguia lentamente junto ao meio-fio. O carro parou e a porta lateral traseira abriu-se. Ron empurrou Gerard para dentro do veículo escuro e depois entrou. A porta fechou-se automaticamente atrás dele.
O motorista manteve-se imóvel atrás da direção. Não passava de um contorno vago na escuridão.
O senhor viu a viatura policial que acabou de decolar desta rua? — perguntou Ron.
O motorista confirmou com um aceno de cabeça.
Pode fazer o favor de segui-la? Saberei recompensá-lo.
A cabeça virou-se e inclinou-se para trás.
Farei isso pelo senhor, homem da Terra — disse o motorista.
Por uma fração de segundo, a luz de um letreiro luminoso iluminou-lhe a face. Era o homem do planeta de Goszul, o mesmo que levara Ron Landry do espaçoporto à cidade.
5



Ron ocultou a surpresa.
Acho que o senhor está em toda parte, não está? — perguntou em tom irônico.
O motorista já voltara a colocar em movimento o veículo, e o fizera decolar da rua.
Em toda parte onde precisam de mim — confessou. — Ao menos costumo estar.
Quando o homem de Goszul teve de concentrar sua atenção na manobra de erguer o carro por cima do tráfego intenso, que se desenvolvia sobre a rua, a conversa morreu. Uma vez atingida a altura de dez metros, as piores dificuldades já haviam sido superadas. Quem quisesse voar mais alto precisava de licença, e a polícia de Lepso não gostava de concedê-la. O veículo ganhou altura rapidamente e passou por uma abertura existente na enorme muralha, formada pelos edifícios de escritórios, dirigindo-se para o noroeste.
Sabe para onde voou a viatura policial? — perguntou Ron.
Não tenho a menor dúvida — respondeu o motorista. — Já observei muitas vezes casos idênticos àquele em que o senhor esteve envolvido. Nesses, a polícia sempre segue na mesma direção.
Ron olhou pela janela. Ali em cima era escuro. A nuvem de poluição produzida pela cidade cobria a paisagem. Viam-se apenas algumas estrelas. Ron não percebeu o menor sinal do carro de polícia.
Como é que o senhor consegue enxergar? — perguntou Ron. — Será que está seguindo o veículo da polícia em vôo visual?
O motorista soltou uma gostosa gargalhada.
Pelos deuses dos bosques, garanto que não. Daqui de cima não se enxerga nem um palmo além do nariz — inclinou-se para a frente e pôs o dedo num instrumento do painel. — Tenho licença para trafegar em grande altitude, e por isso sou obrigado a possuir um instrumento de localização.
Ron também se inclinou para a frente e viu na tela, que projetava os reflexos, uma profusão de pontos amarelos, verde-claros e azul-turquesa.
Se o senhor me perguntar qual é a viatura policial, provavelmente não saberei responder — disse em tom de perplexidade.
Isso não tem importância — contestou o motorista, com uma risada. — Afinal, sou eu que tenho de encontrar o caminho.
Ron reclinou-se no assento. Estava surpreso com as atitudes do homem de Goszul. Ele surgira na hora exata de seguir a viatura policial. E Ron tinha certeza de que dificilmente outro motorista se teria mostrado disposto a fazer isso. Por coincidência também tinha uma licença de tráfego para grande altitude, sem o que seria impossível atender ao desejo de Ron, e evidentemente possuía os instrumentos que lhe permitiam identificar e seguir determinado veículo, em meio a dezenas de milhares de outros. Ron não pôde livrar-se da impressão de que eram muitos acasos reunidos de uma só vez.
De repente sentiu certa desconfiança pelo motorista. No entanto, não conseguiu convencer-se de que o amável homem de Goszul pretendia fazer-lhe qualquer coisa.
Olhou para Gerard Lobson, que estava recostado, em posição inclinada, com os olhos fechados e a boca aberta. Estava totalmente embriagado.
Ron voltou a inclinar-se para a frente. Viu que o amontoamento de pontos na tela se tornara mais ralo. Restavam apenas uns cem reflexos, e a cada segundo que se passava, seu número diminuía. Ao que parecia, a viatura policial seguia por uma rota de tráfego pouco intenso.
De repente, Ron sentiu o desejo de ter a seu lado Larry Randall, um velho companheiro de lutas. Sentiu que não estava em condições de enfrentar sozinho o mundo de Lepso e as coisas que aconteciam por ali. Perguntou a si mesmo qual seria a tarefa que Nike Quinto resolvera confiar a Larry. Enquanto se encontrava na Terra, não tivera tempo de formular esta pergunta. Quinto costumava distribuir as missões de uma hora para outra. Via de regra, as pessoas enviadas por ele só descobriam a centenas de anos-luz da Terra que se haviam esquecido de perguntar, levar ou deixar alguma coisa.
Onde estaria Larry?”, pensou.
O que está fazendo seu companheiro? — perguntou o motorista, naquele instante.
Está dormindo — respondeu Ron. — Está mergulhado num sono profundo e repousante.
Ainda bem. Quando entrou no carro, parecia não ter vontade de nada.
Realmente não tinha. Acho que bebeu demais.
O número dos pontos na tela do localizador continuava a diminuir. Depois de algum tempo, só restavam dois. Um deles encontrava-se próximo ao centro da tela, enquanto o outro se deslocava em direção à periferia e deveria desaparecer dentro de alguns segundos.
Já que nos conhecemos um pouco melhor — disse o homem de Goszul, reiniciando a conversa — peço licença para perguntar por que deseja seguir a viatura policial.
A resposta de Ron foi imediata.
Quero ver se o doente realmente será levado para junto de um médico.
De um médico?
Isso mesmo. O doente sofreu um ataque agudo de fraqueza no interior do restaurante. Mal conseguiu manter-se de pé, e sua cabeça parecia uma caveira.
O homem de Goszul resmungou alguma coisa incompreensível. Depois disse:
Já vi muitos casos iguais a este. Uma pessoa, alegre e bem-disposta, passeia tranqüilamente pela rua. De repente transforma-se num fantasma vivo. O rosto fica flácido, a pele torna-se seca, amarela e quebradiça...
É isso mesmo — confirmou Ron, em tom animado.
...e, depois de algum tempo, aparece a polícia, coloca-o no veículo e o leva. Gostaria de saber se lá nos confins do deserto de Sukussum realmente existe um médico.
Onde?
No deserto de Sukussum. É o lugar ao qual nos dirigimos, e para onde costumam ir os veículos da polícia que levam doentes a bordo. Esse deserto tem mil nomes. Cada raça que vive em Lepso lhe deu um nome diferente. O que gosto mais é Sukussum.
Ron pôs-se a refletir. Então os doentes eram levados para o deserto. Será que Zuglert também se encontrava lá?
Como é seu nome? — perguntou, dirigindo-se ao motorista.
Roll — respondeu este. — Vivo em Lepso há cinco anos e meio, estou devidamente registrado como motorista de táxi, possuo licença de tráfego em grandes altitudes e...
Está bem, está bem — interrompeu Ron. — Não tive a intenção de submetê-lo a um interrogatório. Qual é a área do deserto?
Na direção noroeste segue por uns mil e oitocentos quilômetros, até a costa do mar de Seyfour. Para o nordeste e o sudoeste mede uns trezentos quilômetros, a partir daqui. Estamos voando exatamente pela linha do centro. É um bom pedaço de terra. Ron confirmou com um gesto. Fazia votos de que o ponto de destino escolhido pela viatura policial não ficasse na extremidade oposta do deserto. Duvidava de que as reservas energéticas do táxi de Roll fossem suficientes para voar até o fim do deserto e voltar a Zanithon. Transmitiu seus receios a Roll.
Não se preocupe com isso — disse o homem de Goszul, em tom tranqüilizador. — Já atravessamos metade.
Metade de quê? — perguntou Ron, perplexo.
Do deserto. Já deixamos para trás quase mil quilômetros.
Ron realizou alguns cálculos rápidos. Não fazia mais de trinta minutos que haviam decolado da Avenida dos Cinco Mares.
Que velocidade estamos desenvolvendo? — perguntou.
No momento estamos voando a cerca de dois mil e quinhentos quilômetros por hora, numa altitude de quinze quilômetros — respondeu Roll, em tom indiferente.
Ron teve a impressão de que, para um simples táxi-planador, esses dados eram estranhos.

* * *

Teve certeza de que havia algum mistério envolvendo Roll. Mas acreditava firmemente que era um mistério agradável. Por isso resolveu não perguntar. Roll lhe revelaria os fatos quando achasse adequado.
Poucos minutos depois do momento em que Ron teve conhecimento do desempenho espantoso do táxi, o reflexo luminoso produzido pela viatura policial começou a afastar-se do centro da tela.
Estão pousando — anunciou Roll, com a voz tranqüila.
O senhor conhece o terreno? — perguntou Ron.
Não. Ninguém conhece. O deserto de Sukussum pode ser considerado tranqüilamente como área inexplorada. Ninguém jamais penetrou nele mais de vinte quilômetros e as linhas de navegação aérea traçam suas rotas de maneira a evitar o deserto. Preferem percorrer um trajeto mais longo.
Ron não teve outra alternativa senão tomar sua própria decisão. Procurou avaliar que distância da viatura policial, pousada no deserto, representava a combinação mais favorável entre a prudência e os limites do raio de ação. Instruiu Roll a baixar cinqüenta metros e prosseguir mais um trecho em direção ao noroeste.
Roll seguiu as instruções. Enquanto o táxi estava descendo, determinou o ponto em que o veículo da polícia pousara. Assinalou-o num cartão vazio, introduziu-o num traçador de rota e deixou que este, depois de ter apurado a posição de seu veículo em relação ao da polícia, registrasse a rota do táxi no cartão.
Dali a alguns minutos, o planador pousou. Ron viu as vagas sucessivas de dunas amarelas iluminadas pela luz débil das estrelas. Notou as nuvens de areia fina brincarem, tangidas pelo vento, em torno das linhas de cumeeira e ouviu o canto e o tilintar dos grãos de areia sob a ação constante do deslocamento do ar.
Roll ligara a luz de posição e entregou a Ron o cartão do registrador de rota. Via-se que o veículo policial se encontrava quase exatamente na direção norte, numa distância não superior a um quilômetro e meio do táxi de Roll.
Ron resolveu agir imediatamente. Pediu a Roll que cuidasse de Gerard, que continuava a dormir, mas Roll recusou-se a isso.
Quer saber uma coisa? — disse. — Acompanhei o começo da aventura e também quero assistir ao fim. Por que não o trancamos no carro e deixamos que continue a dormir?
O senhor sabe o que isso significa? — perguntou Ron, em tom de surpresa. — É possível que a polícia não goste de que eu fique espionando o que ela está fazendo. Talvez haja um tiroteio e...
Não me importo — respondeu Roll. — Para mim, isso é muito interessante.
No fundo, o agente ficou satisfeito em saber que teria um companheiro. Formulou uma pergunta:
O senhor pode desligar o mecanismo propulsor de tal forma que Gerard não possa fazer nada quando acordar?
Roll soltou uma risada.
É claro que posso. Andei pensando a este respeito. Nem precisamos trancá-lo. Não vai ser idiota a ponto de sair correndo pelo deserto de Sukussum.
Ron ponderou que Gerard nem sabia em que lugar haviam pousado. Resolveram não trancar o carro e deixar um pequeno recado para Gerard.
Roll desligou o mecanismo de propulsão e tirou a chave codificada. Depois disso puseram-se a caminho. Tomaram a direção norte, percorrendo um vale formado por duas fileiras de dunas.
O ar estava fresco. A areia já irradiara o calor do dia anterior. Caminhavam vigorosamente, a fim de esquentar o corpo. Via de regra, Roll ia alguns passos à frente de Ron, como se já conhecesse o caminho. Na luz mortiça das estrelas, só se via uma silhueta, dando ao agente terrano a impressão de que Larry Randall caminhava à sua frente.
A visão teve um efeito tranqüilizador sobre Ron.
Mas este logo chegou à conclusão de que não havia o menor motivo para ficar tranqüilo. Roll tinha um segredo. E era possível que ele, Ron, estivesse enganado ao supor que tal segredo fosse agradável.
Como explicar, por exemplo, que ele se mostrara disposto a participar de uma ação perigosa, como a de aproximar-se furtivamente de uma viatura policial?

* * *

Quando haviam caminhado cerca de um quilômetro, ouviram o ruído surdo de um motor de fusão, vindo da esquerda.
Ron subiu correndo a encosta suave da duna mais próxima. Afundou até os joelhos na areia macia. Mas chegou em tempo de ver alguma coisa escura levantar-se nas proximidades, entre as dobras formadas pelas dunas, e subir para o céu.
O veículo da polícia acabara de decolar.
Ron não teve a menor possibilidade de determinar-lhe a rota. Contrariando todas as regras, os policiais deixaram de colocar as luzes de posição. O zumbido do motor diminuiu rapidamente e logo cessou de vez.
Muito pensativo, Ron voltou para junto de Roll, que o esperava.
Já decolaram, não é? — perguntou Roll.
Já. Gostaria de saber o que significa isso.
Roll cocou a cabeça. Era um gesto tipicamente terrano. Por um instante Ron espantou-se.
Isso só pode significar que largaram o doente nas proximidades — disse Roll.
Talvez não — objetou Ron. — Também pode significar que tenham pousado devido a uma avaria na máquina, e que tenham levantado vôo depois de repará-la.
Roll fitou-o. Finalmente declarou em tom convicto:
Não; não pode ser isso.
Ron sentiu-se perplexo.
Por que tem tanta certeza disso?
Roll fez um gesto de impaciência.
Que diabo! Vamos deixar cair as máscaras — disse sem maiores explicações.
Ron ficou rijo de espanto ao ver seu acompanhante pôr a mão na boca e tirar alguma coisa, que jogou fora. Levantou os olhos. Quando Roll voltou a falar, o timbre de sua voz era totalmente diferente.
O fato é que eu sei, Ron — disse. — Lá atrás existe uma construção. Certa vez eu a vi de uma grande altura, mas...
Surpreso, Ron deu um passo para trás. Conhecia aquela voz; e durante toda a viagem desejara ouvi-la a seu lado.
Percebeu que Nike Quinto lhe pregara uma peça. Não o mandara só para Lepso.
Larry, seu safado! — disse numa alegre exaltação.

* * *

Espere até que eu tenha tirado tudo isto que fizeram com meu rosto — falou Larry Randall, em tom contrariado. — Depois voltarei a ser o Capitão Randall.
Ron tinha uma porção de indagações na ponta da língua. Como veio parar aqui, por que usou o disfarce de motorista de táxi, qual a missão que lhe foi confiada por Nike Quinto, por que usou máscara? Mas sabia que teria de deixar as perguntas para outra oportunidade.
O que há com essa construção? — indagou.
A frota forneceu-me algumas fotografias aéreas — disse Larry. — Nesta região existe uma construção, ou melhor, um grupo de construções que nenhuma pessoa em Zanithon ou em qualquer outro lugar sabe para que servem, quem as ocupa e quem as fez. E, o que é pior, em Zanithon ninguém parece saber da existência dessas construções.
Ron confirmou com um sorriso.
Isso mesmo. Pelo que contou meu motorista de táxi, o deserto de Sukussum é uma área inexplorada.
Não tenha a menor dúvida — confirmou Larry, em tom tranqüilo. — De qualquer maneira, tenho certeza de que foi lá que os policiais deixaram o doente. Feito isso, voltaram a levantar vôo.
Bem — disse Ron. — Vamos dar uma olhada nesse lugar.
Larry concordou. Ron dirigiu-se até a duna da qual descera há pouco. Subiu-a, e voltou a olhar em torno. Porém a luz das estrelas não lhe permitiu reconhecer o grupo de edifícios que, segundo Larry acabara de informar, devia ficar por lá.
O capitão parou a seu lado.
Pelo que se conclui das fotografias, os edifícios são baixos — disse em tom comedido. — É bem possível que só consigamos vê-los do ponto mais alto da próxima duna.
Mas Ron acabara de descobrir outra coisa. A fileira de dunas não continuava indefinidamente na direção oeste. Pelo que pôde ver à luz mortiça das estrelas, só havia mais dois montes de areia à sua frente. Atrás deles parecia estender-se uma área plana, até onde a vista alcançava. Se havia algum edifício no meio do deserto, este só podia ficar nessa área.
Voltaram a pôr-se a caminho. Era difícil caminhar na areia. Tiveram de poupar suas forças, pois, após cada passo, gastavam energias ao puxarem seus pés que afundavam na massa pulverizada. Apesar do frio raiar do dia, o suor começou a correr por suas testas.
Mas, dali a meia hora, conseguiram. Abrigados atrás da última fileira de dunas, olhavam por cima do cume. Embaixo deles estendia-se um trecho de muralha cinzenta, que corria na direção norte-sul, e atrás dela amontoava-se uma quantidade enorme de edifícios de vários tamanhos. Alguns deles eram cúbicos ou retangulares, enquanto outros imitavam uma pirâmide ou uma esfera.
Em seu conjunto, o complexo realmente era impressionante. Ron gostaria de saber por que haviam construído uma cidadezinha nesse lugar, longe do tráfego e das amenidades que a vida de Lepso oferecia. Só no primeiro instante espantou-se com o formato estranho das casas. Logo se lembrou de que em Lepso não havia motivo para admirar-se com tal tipo de construção. Lepso era um cadinho em que se fundiam as raças galácticas. Ao construir, cada um agia segundo seus hábitos.
Era verdade que Ron não sabia que em Lepso havia cidades inteiras construídas num só estilo estranho.
Examinou cuidadosamente o núcleo populacional. Se por ali vivia gente ou outros seres, estes habitantes ainda estavam dormindo ou permaneciam no interior das casas. O lugar parecia deserto, e se as circunstâncias da descoberta fossem diferentes, Ron teria chegado à conclusão de que o local era desabitado.
Acontece que o doente desaparecera por lá. Em hipótese alguma, os policiais o teriam levado a uma cidade sem população. Quer dizer que lá embaixo devia haver vida.
Ron fitou o maior edifício: uma pirâmide erguida no centro do grupo de construções. De repente teve a impressão de que um perigo irradiava da cidade construída em meio ao deserto.
Não sabia explicar por que motivo fora erguido o pedaço de muralha. Bastaria contorná-lo para atingir a cidade.
O céu começou a mudar de cor. As estrelas empalideceram, e a claridade de um novo dia raiou no norte. As sombras, que Ron e Larry viam à sua frente, transformaram-se em silhuetas.
Naquele momento Ron lembrou-se de que, enquanto fora mantido preso pelos saltadores, devia ter dormido um dia inteiro. Do contrário sua contagem do tempo não dava certo.
Aproximaram-se cautelosamente do primeiro edifício que se erguia na areia, e que tinha a forma de um cubo. Não havia janelas. As paredes pareciam ser de pedra. No momento não se via ninguém junto à entrada.
Contornaram o cubo e encontraram uma fenda do lado voltado para a pirâmide, que localizava-se no centro do grupo de edifícios. Esta delineava um quadrado de metro e meio que se desenhava na parede de pedra. Não havia nenhum mecanismo capaz de mover a porta, se é que realmente se tratava de uma porta. Por isso Larry não teve muita esperança de sucesso, quando procurou forçá-la com o ombro.
E justamente por isso quase caiu, no momento em que a pedra cedeu, sem oferecer a menor resistência. A peça cercada pela fenda girou leve e silenciosamente para o lado de dentro, pondo a descoberto um recinto escuro, quente, úmido e malcheiroso.
Ron segurou a arma que tomara dos saltadores. Larry pulou para o lado. Da escuridão que reinava no lado de dentro, saiu um forte chiado. Ron esperou. Teve a impressão de que alguma coisa se movia na escuridão. Dali a alguns segundos viu que não se enganara.
Alguma coisa saiu rastejando.
De início Ron vislumbrou uma figura semelhante a uma vara fina e branca. Acontece que na parte superior desta havia uma articulação. Seguiu-se mais um pedaço de vara, enrolado numa espécie de pano.
Era uma perna humana!
Ron obrigou-se a permanecer tranqüilo. Esperou até que aquela incrível criatura conseguisse deslocar-se totalmente para a claridade do início do dia. Teve de esforçar-se para fitar a criatura. Sentiu pena como nunca sentira, e repugnância por aqueles que deixavam que esse destroço humano se acabasse no deserto.
O homem, que haviam visto no restaurante de Zanithon e que fora entregue à polícia, era um modelo de aparência sadia em comparação à criatura estendida no chão à frente de Ron, o major, e Larry, o capitão. A triste figura mal conseguiu levantar a cabeça do chão. Fez algumas tentativas, mas sempre voltava a cair na areia.
Ron abaixou-se e ajudou-o. A caveira fitou-o com os olhos apagados. Os lábios moveram-se, e num grasnado saíram estas palavras, pronunciadas em inglês:
Eternamente... eu vos sirvo... meus senhores.
Ron não quis perder tempo.
Coragem, amigo — disse à criatura. — Nós o tiraremos daqui. Quem é você? Como foi parar neste lugar?
A cabeça esteve a ponto de cair para a frente, mas Ron segurou-a e obrigou a criatura a fitar seus olhos.
Eternamente... — repetiu a criatura, num estertor.
Não teve forças para pronunciar outra palavra.
Ron largou-a cuidadosamente na areia e levantou-se.
Não adianta — disse em tom de resignação. — Vamos ver se encontramos alguém que tenha mais saúde e vigor.
Caminharam em silêncio. Ron refletiu sobre o significado das palavras que aquela criatura lhe dissera. Evidentemente achava essas palavras muito importantes, pois continuava a pronunciá-las num estado de total abatimento.
A quem pretendia servir? Quem eram os senhores a que aludira?
Ron quase chegou a acreditar que se tratava de uma espécie de oração.
Mas não conseguira descobrir qualquer sentido nisso.
Aproximaram-se do segundo edifício, que também tinha a forma de um cubo, e abriram-no com a mesma facilidade do primeiro.
Mas desta vez uma surpresa lhes estava reservada.
Um pedaço de material com o formato de caixa caiu para fora, vindo de trás da porta, e parou diante de seus pés. Ron fitou-o, perplexo. Apresentava uma configuração cúbica, tal qual o edifício no qual estivera deitado e era tão leve que parecia oco. Virou-o e descobriu a janela quebrada de um dos lados.
Compreendeu que acabara de encontrar uma pista do ser de Pisalam.
Era uma pista triste, pois o destino que aguardava um pisalamense, que perdesse seu traje protetor em Lepso, só poderia ser um: a morte.
Ron ainda estava refletindo sobre o macabro achado, quando um gongo soou fortemente em algum lugar, ressonando num zumbido que feriu os ouvidos de Ron.
Virou-se apressadamente. Lançou um olhar indagador para Larry, mas este limitou-se a dar de ombros.
Também não sei o que é isso. Ao que parece, o som vem de dentro do chão.
Por coincidência o major olhou para a grande pirâmide, cuja ponta sobressaía sobre os telhados planos e as cumeeiras dos outros edifícios. Larry ouviu o amigo soltar um grito de espanto e virou-se abruptamente.
No topo havia um vulto que, do lugar em que se encontravam, parecia muito pequeno. Até mesmo sob a luz fraca do amanhecer, a figura cintilava de tantas jóias que se encontravam penduradas em seu corpo. Movia-se. Parecia que se inclinava em diversas direções. De repente, Ron teve certeza de que sua suposição fora correta. A cidade, os doentes com cabeça de caveira, que se encontravam no interior das cabanas de pedra, a figura, que acabara de surgir no topo da pirâmide — tudo isso fazia parte de algum culto. A pessoa, que se achava no alto da pirâmide, parecia ser um sacerdote. Talvez fosse um daqueles aos quais o terrano semimorto prometera servir eternamente.
A idéia deixou Ron furioso.
Vamos até lá — gritou para Larry. — Temos de pegar esse sujeito.
Contornaram apressadamente o cubo mais próximo e correram em direção à pirâmide, passando por uma viela que seguia entre as construções pequenas. A batida de gongo parecia não modificar em nada a inatividade que se notava na cidade. Tudo continuava quieto e vazio como antes.
Com uma única exceção...
Quando chegaram mais perto da pirâmide, ouviram que o homem reluzente no topo desta estava cantando. Era uma cantoria triste, desfiada em tom de ladainha. Comunicava-se com um dos pretensos ídolos, em homenagem ao qual deixava que terranos, pisalamenses e outros seres definhassem.
Era ao menos o que Ron pensava, e sua raiva aumentou.
De cada um dos lados da pirâmide, uma série de largos degraus levava para o alto. Ron não perdeu tempo. Empunhando a arma, correu escada acima. Larry gritou alguma coisa, mas Ron não ouviu. Só viu o ser envolto em trajes reluzentes, que continuava de pé lá em cima. Mas, de tão surpreso que ficou, o “pajé” parou em meio à cantoria.
Desça daí — gritou Ron. — Desça para ser responsabilizado por seus atos de crueldade.
Não esperou para ver se o ser estaria disposto a obedecer à ordem. Continuou a correr escada acima. Faltavam poucos degraus para chegar ao topo da pirâmide, apenas uns dez ou doze. Logo estaria lá. Mas de repente...
De repente!
Por alguns segundos Ron viu o rosto daquele ser, do sacerdote, bem à sua frente. A raiva e o esforço dispendido fizeram com que, na mente do terrano, o rosto do “feiticeiro” se transformasse numa careta. Por um segundo teve a impressão de que bastaria estender os braços para agarrar aquele homem.
Mas de repente, o gongo soou pela segunda vez e, de súbito, Ron Landry viu-se num lugar totalmente diverso.

* * *

Em torno dele ouviram-se sons estridentes, gritos, guinchos e choros nos mais diversos tons. Sentiu que alguma força o fazia girar loucamente em torno de seu próprio eixo. Sentiu-se perdido.
O cérebro recusou-se a pensar.
Deixou-se girar e reprimiu a dor lancinante causada pelo barulho, que se desenvolvia em torno dele. Com um ligeiro resquício de curiosidade, procurou reconhecer se sentia alguma coisa além da dor, como por exemplo o deslocamento do ar, já que estava sendo girado violentamente, ou a dificuldade de respiração, enquanto se sentia cada vez pior.
Mas não havia ar e parecia não estar respirando. Ron procurou mover os braços, mas não havia nada que pudesse ser movido. Transformara-se em algo de incorporal, que girava num espaço irreal.
De repente, fragmentos de idéias estranhas começaram a atropelar-se em seu cérebro.
Você insultou Baalol. Por isso terá a pior das mortes. Você insultou Baalol.
Ron não sabia quem ou o que vinha a ser Baalol. Não se interessava por isso. Mas se estava prestes a sofrer a pior das mortes, queria que tudo se passasse o mais depressa possível, principalmente a gritaria em torno dele.
Mas, ao que parecia, o desejo de Ron não iria cumprir-se. Os uivos tornaram-se cada vez mais fortes. De repente surgiram outros pensamentos.
Não matem... Vocês não o matarão... Seus idiotas... Encontraram alguém mais poderoso.
Ron aguçou o ouvido. Eram apenas pensamentos, e o pensamento não tem voz. Mas teve a impressão de que reconhecia a voz de alguém. Teve a impressão de que sabia quem falava — ou pensava.
Era alguém que lutava pela sua vida. Isso mesmo, pela sua vida.
Quem seria?
Girava loucamente no nada, sem a menor resistência, e o que mais desejava era que o sofrimento terminasse o quanto antes.
Reuniu as últimas energias. Começou a recear pela vida. Resistiu ao destino que forças fantásticas e selvagens lhe haviam atribuído. Ajudou o alguém que lutava a seu lado contra os estranhos para salvá-lo.
Passou a girar mais lentamente. A gritaria tornou-se mais fraca. Mais uma vez, Ron captou os pensamentos estranhos:
Estão vendo? Vocês não conseguem nada... Venci... Maldito seja Baalol!
Subitamente surgiu o silêncio. Por um instante, o major teve uma impressão confusa: parecia estar caindo num vazio. Realmente devia ter caído, pois bateu fortemente em alguma coisa. Depois começou a rolar, voltou a declinar e acabou por se segurar numa pedra.
Abriu os olhos. Sentiu-se ofuscado pelo sol. Viu à sua frente uma pequena superfície de pedra, seguida de uma aresta abaixo da qual vinha outra superfície de pedra.
Era a escada! Estava deitado nos degraus da escada que subia pela pirâmide.
Ergueu-se sobre os joelhos e olhou em torno. Seu olhar foi atraído por alguma coisa brilhante, cintilante. Eram as vestes do sacerdote. Estava deitado, pouco acima de Ron. A cabeça mantinha uma estranha posição e os olhos vidrados achavam-se muito arregalados.
Estava morto. Não havia a menor dúvida. O olhar de Ron continuou a caminhar pela pirâmide e deu com outro sacerdote, que escorregara escada abaixo, tal qual o primeiro, e se encontrava deitado, imóvel. Alguns degraus mais embaixo havia um terceiro sacerdote, e um quarto descera por toda a escada e estava jogado na areia, com o corpo contorcido.
Ron pôs a mão na cabeça.
O que aconteceu?”, pensou. “Onde estará Larry?
Viu alguma coisa mover-se na sombra de um dos pequenos edifícios de formato cúbico. Num gesto apressado, pôs a mão na arma — ou melhor, quis colocá-la, mas teve de constatar que já não trazia a pistola. Devia tê-la perdido.
A sombra penetrou na luz e transformou-se na figura esbelta e de estatura média de Larry Randall. Ron levantou-se de vez e desceu a escada com as pernas cansadas. Quando se encontrava a meio caminho, viu um radiador térmico jogado nos degraus. Levantou-o e colocou-o no cinto.
Larry lançou-lhe um olhar indagador.
O que foi isso? — perguntou.
O que foi o quê? — replicou Ron, por sua vez.
Esse espaço estranho... o movimento giratório... as vozes...
Ron arregalou os olhos.
Você também? — perguntou em tom de perplexidade.
Larry fez que sim e relatou:
Vi você subir os degraus que nem um louco. Gritei para que não o fizesse. Lá no topo da pirâmide, surgiram mais alguns desses sujeitos reluzentes. Não davam a impressão de que ficariam quietos enquanto você lhes dissesse umas verdades. Quis preveni-lo, mas você não me ouviu. E de repente começou... Não estava mais aqui. Flutuava em algum lugar e não via mais nada. Em torno de mim havia um barulho infernal. Alguém disse que iria matar-me porque faltei com o devido respeito, ou coisa que o valha, perante... bem, esqueci o nome. Mas houve outro alguém que se opôs a isso. De súbito tudo cessou, e caí na areia.
Continuava a fitar Ron, como se esperasse que este lhe desse uma explicação. Mas Ron limitou-se a dizer:
Vamos voltar.
Lançou os olhos para o sol e viu que pelo menos duas horas deviam ter passado, desde o momento em que avistara o sacerdote no topo da pirâmide e depressa dirigira-se até ele. O relógio confirmou a suposição. O movimento giratório consumira bastante tempo.
Lembrou-se de Gerard Lobson. Provavelmente, já havia acordado da embriaguez. Talvez tomasse uma atitude absurda e saísse correndo por aí. Assim que visse que em torno dele apenas havia areia, vento e uma cidade-fantasma, naturalmente voltaria. Mas até lá se perderia tempo, um tempo precioso. E Ron não tinha tempo...
Saíram. A cidade voltara a ficar silente como no momento em que a viram pela primeira vez. Estava abandonada, com exceção dos vultos imóveis jogados ao pé e nos degraus da pirâmide.
Ron perguntou a si mesmo o que significava isso. Em pleno deserto havia uma cidadezinha, ou melhor, uma série de construções, que se agrupavam em torno de uma pirâmide que, segundo tudo indicava, era um templo. A finalidade das construções parecia consistir unicamente em abrigar os servos dos sacerdotes, que eram as criaturas semimortas recolhidas em Zanithon e, provavelmente, também em outras cidades.
Que doença seria esta, que atacava as pessoas em plena rua, durante as refeições ou numa conversa, e transformava criaturas vigorosas em cadáveres ambulantes? E que seita seria esta, cujos sacerdotes recrutavam estes enfermos como servos, e isso com o apoio da polícia do planeta?
Ron acreditou ter uma explicação para aquilo que lhe acontecera quando procurara atacar o sacerdote. Este não utilizara nenhuma arma material. Lutara com as armas do espírito. Ele e os que acorreram em seu auxílio deviam ser certos tipos de mutantes. Dispunham de faculdades parapsicológicas. Ao que tudo indicava, entre estas se incluía a de transportar aquele que os atacasse para uma outra dimensão e fazê-lo girar até que morresse. O estranho em tudo isso era que ele mesmo pouco sabia a respeito dos tais sacerdotes! Será que eles apenas existiam em Lepso, ou também estariam em outros lugares, onde trabalhavam às escondidas como aqui?
Era uma pergunta atrás da outra. Ron teve a impressão de que vislumbrava uma pista. De repente, o nome Baalol despertou sua memória para alguma coisa. Não sabia o que era. Mas lembrou-se de que esse nome tivera uma relação nada agradável com a História da Terra dos últimos meses ou anos.
Quanto à voz estranha, que lutara com os sacerdotes de Baalol pela vida dos dois prisioneiros e acabara por libertá-los do espaço irreal, cheio de gritos e uivos, não havia por que fazer conjeturas. Agora Ron poderia até apostar, pois tinha certeza de quem se tratava.
Seu amigo de Pisalam realmente dispunha de faculdades espantosas!

* * *

Durante a caminhada de volta, não disseram uma única palavra. Atravessaram as fileiras de dunas e perderam de vista a cidade que se estendia em torno do templo. Vez por outra voltavam a cabeça, a fim de verificar se, por acaso, os sacerdotes os perseguiam. Mas a luta espiritual contra o pisalamense parecia ter consumido todas as energias dos tais sacerdotes. O deserto jazia em silêncio, e o ar tremeluzia sob a ação do calor.
Finalmente o táxi surgiu à sua frente. Cansados e suarentos desceram pela encosta da última duna. Caminhando lado a lado, foram-se aproximando do veículo.
Subitamente Ron estacou e segurou Larry pelo ombro.
O carro estava vazio. Gerard Lobson havia desaparecido.
Que idiota! — exclamou Larry em tom furioso. — Para onde será que ele foi?
Procuraram localizar o rastro, mas o vento parecia ter desenvolvido uma atividade muito intensa. Havia algumas impressões apagadas, que se perdiam entre as dunas, na direção norte. Mas ninguém poderia dizer se foram as que os dois homens haviam produzido na manha daquele dia, ou se provinham de Gerard Lobson.
Larry contornou o veículo. Ron parou e refletiu sobre se convinha subir à próxima duna, a fim de ter uma visão mais ampla. Mas não teve tempo para tomar uma decisão. Ouviu um ruído atrás de si e virou-se abruptamente.
Mas Gerard Lobson foi mais rápido. Ergueu-se do buraco que ele mesmo cavara na areia.
Gerard estava inclinado para a frente. Achava aquilo divertido. Era ao menos o que se concluía de seu sorriso.
Mas o pior de tudo: segurava um pequeno radiador de tiro concentrado, e seus efeitos eram mortíferos.
6



Parecia uma situação louca. Gerard se via obrigado a dirigir sua atenção para dois lados, e os homens à sua frente estavam armados. Não tinha a menor chance de ser bem-sucedido.
Mas a um novo exame crítico, as coisas mudavam de feitio. Gerard tivera tempo para refletir, e aproveitara bem esse tempo. Encontrava-se a cerca de quinze metros do táxi. Achava-se bem próximo para realizar um disparo seguro, e bastante longe para ficar de olho nos dois homens ao mesmo tempo, sem virar a cabeça. Em compensação Larry e Ron não viam um ao outro. Larry encontrava-se atrás do planador, onde ficara parado. Provavelmente, Gerard “protestaria” se fizessem qualquer movimento. Isso significava que não podiam recorrer a gestos ou olhares para combinar uma ação conjunta. Nenhum dos dois sabia o que o outro estava fazendo.
Ao que parecia, Gerard já se deleitara bastante com a visão dos dois homens. Pôs-se a falar, e sua voz tinha um timbre estranho.
Os senhores e eu voltaremos juntos para Zanithon — anunciou. — Irão no assento da frente, e eu no de trás. Irão sem armas, enquanto eu levarei este radiador.
Ao que parecia, Larry acabara de fazer um movimento. Num rápido giro, Gerard mudou ligeiramente a direção de sua arma e gritou:
Pare!
Evidentemente Larry obedeceu, pois Gerard voltou a descontrair-se.
De qualquer maneira pretendíamos ir para Zanithon — disse Ron, em tom indiferente. — Para que serve essa palhaçada?
Acontece que os senhores não iriam ao lugar que eu quero — disse Gerard.
Para onde pretende ir?
Para onde estão meus amigos, que, quando eu os entregar, me ficarão devendo alguma coisa.
Para onde estão os saltadores, não é? — perguntou o major, em tom irônico.
Aquilo não passara de uma adivinhação. Ron não tinha qualquer prova de que Gerard colaborava espontaneamente com os saltadores. Mas acertou. Gerard arregalou os olhos.
Como soube disso? — replicou surpreso.
Ron soltou uma risada irônica.
Ora, Lobson, o senhor me contou tantas mentiras que tive de construir minha própria história. O senhor estava sentado com os dois saltadores e o ara no escritório de Zuglert, não é? De repente um dos saltadores levantou-se e saiu da sala. Não foi o que o senhor disse? Quando voltou, trazia-me nos braços. Santo Deus, da próxima vez o senhor terá de aprender a mentir melhor. O senhor estava montando guarda lá embaixo; a verdade é esta.
Os saltadores desconfiaram de mim, desde que cheguei a Lepso na nave Efraim. O melhor meio de descobrir se a suspeita era fundada consistia em aguardar para ver se eu faria uma visita ao escritório de Zuglert. Nem havia necessidade de manter-me sob vigilância. Bastava colocar um guarda no edifício da Rua Oitenta e Seis, e tomar certos preparativos de ordem técnica. O guarda foi o senhor, Lobson, e os preparativos foram realizados de tal forma que o campo antigravitacional de cada poço de elevador pudesse ser desligado a qualquer momento.
Quer dizer que seu trabalho era ficar atento e avisá-los quando eu chegasse. Não venha me dizer que um único saltador me levou para cima. Haveria necessidade de pelo menos dois homens. Afinal, a ação tinha que ser rápida, pois naquele edifício havia gente que não tinha nada a ver com aquilo. O senhor o ajudou a carregar-me, não é mesmo?”
Por algum tempo Gerard parecia totalmente perplexo. Mas logo recuperou o autocontrole e um sorriso atrevido surgiu em seu rosto:
Pois bem. E daí? Tem alguma objeção?
Ron balançou a cabeça.
Nenhuma — respondeu em tom sério. — Ainda mais que eu sei que o senhor não é responsável pelo que fez.
Gerard voltou a assustar-se.
O que quer dizer com isso? — perguntou furiosamente.
Ron fez um gesto de desprezo.
Deixemos isso para depois — disse. — O senhor, que por assim dizer nos tem nas mãos, poderia responder a algumas perguntas?
Avaliara corretamente a personalidade de Gerard. Agora, que sentia-se vitorioso, estava disposto a exibir seus conhecimentos. Fez um gesto benevolente e respondeu:
Pergunte!
Seus amigos, os saltadores, violaram uma linha de telecomunicação da Missão Comercial Terrana, não é?
Gerard fez um gesto afirmativo.
Zuglert falou por essa linha?
Pelo que sei, sim. Mas não falou do edifício da Missão. Por uma questão de comodidade, a linha violada foi transferida para a sede da representação comercial dos saltadores. Foi de lá que Zuglert falou, num momento em que relaxaram em sua vigilância.
Como foi parar lá?
Depois que o deixei, ele conseguiu reunir forças e saiu de seu escritório para pedir auxílio.
Um instante — interrompeu-o Ron. — Em seu escritório havia um videofone. Por que não chamou de lá?
Gerard hesitou.

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