O fato
deixou-o bastante impressionado, mas não prejudicou seu apetite.
Gerard recusou em tom mal-humorado a sugestão de comerem alguma
coisa.
— Não
tenho dinheiro — resmungou.
Ron bateu
na testa.
— Santo
Deus, o senhor acaba de me dar uma idéia. Quem sabe se essa gente...
Interrompeu-se
em meio à frase e pôs a mão no bolso. Encontrou a carteira. Ao
abrir o fecho magnético, viu que o dinheiro estava intato.
— Eu o
convido — disse alegremente, batendo no ombro de Gerard.
Por uma
fração de segundo, os olhos deste iluminaram-se. Ron notou-o, mas
apenas desconfiou de que a fome de Gerard Lobson não fosse menor que
a sua.
A algumas
centenas de metros do edifício da Missão Comercial Terrana,
encontraram um restaurante que servia refeições rápidas, e que
parecia não ser muito exigente quanto aos trajes dos seus
freqüentadores. O robô porteiro indicou-lhes uma mesa nos fundos do
salão. Enquanto Ron girava rapidamente o disco seletor embutido na
mesa, a fim de compor um menu bastante rico em conformidade com o
código exposto nas proximidades, aconteceu pela primeira vez que
Gerard Lobson dissesse algo sem ser perguntado.
— O que
foi isso? — perguntou; sua voz ainda estava insegura. — Refiro-me
ao que aconteceu no porão.
— Ora,
não foi nada de especial. Um amigo meu agiu no momento apropriado.
Ron virou
a cabeça e procurou olhar pela janela que dava para a rua. Não teve
muita certeza, mas parecia que naquele momento um recinto cúbico com
uma grande vidraça passava à frente da ampla janela. Resistiu ao
desejo de levantar-se e ir até a porta.
Era
preferível não revelar todos os detalhes a Gerard Lobson — ao
menos por enquanto.
Gerard fez
questão de pedir um licor idêntico ao que os saltadores haviam
introduzido em sua boca e na de Landry. Ron disse:
— Eu o
convidei, Gerard, mas o convite não inclui a misteriosa bebida. O
senhor já deve ter percebido que há algo de errado com aquilo.
Contém uma droga.
Gerard
fitou-o prolongadamente.
— Pode
ser. Acontece que eu gosto — respondeu.
Como Ron
tivesse o dinheiro, seu desejo prevaleceu. Gerard não recebeu o
licor. Não parecia importar-se muito com isso. Tomou cinco copos de
cerveja terrana de alta fermentação, isso em trinta minutos. Quando
Ron concluiu a refeição, sentiu-o ligeiramente tocado. Ron não se
importou. Deu-se por satisfeito ao notar que Gerard se mantinha num
estado de modorra. Isso lhe ensejou a oportunidade de pôr seus
pensamentos em ordem. E o volume destes era tamanho que se tornava
difícil processá-los de uma só vez.
Quer dizer
que os saltadores se haviam fixado no edifício da Missão Comercial
Terrana.
A palestra
que o Dr. Zuglert mantivera com a Flórida, pouco antes de seu
desaparecimento, fora registrada num dos números da Missão. E o
Inspetor Neary afirmara que na Missão nunca existira nenhuma pessoa
que correspondesse à descrição de Zuglert, e que muito menos este
chegara perto de seu fone particular, do qual, segundo se dizia, fora
mantida a palestra.
Nesse meio
tempo, Ron soubera, que o serviço de rádio do governo de Lepso
debitara a Missão Comercial Terrana por uma ligação TTT de
telecomunicação com a duração de cinqüenta segundos. Concluía-se
que não havia nenhum mistério, e a essa hora o Inspetor Neary já
devia ter percebido que cometera uma injustiça contra Dick Kindsom,
quando manifestou a suspeita de que o major queria fazê-lo de bobo.
Será que
Neary estava ligado aos saltadores? Será que estes se haviam
apoderado de Zuglert? Como foi que este conseguiu aproximar-se do
aparelho de telecomunicação? Teriam relaxado em sua vigilância?
Ron teve a impressão de que não poderia deixar de aceitar esta
última tese, pouco importando o que pensasse a respeito dos
acontecimentos passados. Zuglert só conseguira entrar em contato com
a Flórida por ter escapado à vigilância, durante alguns instantes.
Provavelmente julgaram que uma pessoa semimorta já não seria capaz
de desenvolver qualquer atividade.
“Até
aqui não há a menor dúvida”,
concluiu Ron. “Mas
de onde Zuglert teria chamado?”
De início
quis afastar a idéia de que Neary pudesse estar ligado aos bandidos.
Os funcionários terranos, que iriam servir no exterior, eram
cuidadosamente selecionados e submetidos a um treinamento intensivo,
que os preparava para suas funções. Dificilmente um deles falharia
no desempenho de suas missões.
“Isso
em condições normais”,
apressou-se Ron a retificar.
Lembrou-se
do ara que vira no escritório do Dr. Zuglert. Sempre que um ara
estava metido em alguma coisa, devia-se ter o maior cuidado. Os
médicos galácticos eram mestres no preparo de modernos caldos de
bruxas. Era possível que Neary cooperasse com os saltadores por
estar submetido à vontade de outra pessoa.
Mas havia
outra possibilidade. Talvez Neary nem soubesse o que se passava em
torno dele. Talvez os saltadores, que tinham seu esconderijo no mesmo
edifício em que ficava a Missão dirigida por Neary, se tivessem
apoderado do canal de comunicação terrano e possuíssem um aparelho
que lhes permitisse realizar palestras sob o mesmo número-código da
Missão Comercial... Seriam perfeitamente capazes disso, ainda mais
que a ligação clandestina lhes permitiria ouvir as palestras que
Neary realizasse em seu aparelho.
Ron
resolveu procurar o inspetor o quanto antes e falar-lhe a respeito
daquilo em que acabara de pensar. Ficou refletindo sobre se valeria a
pena voltar imediatamente ao edifício da Missão Comercial e
entregar à polícia de Lepso os dois saltadores inconscientes, que
se encontravam no subsolo. Mas chegou à conclusão de que nem
deveria pensar nisso. Os saltadores saberiam o que dizer à polícia.
E ele, que podia contar apenas com Gerard Lobson — uma testemunha
nada segura — ainda poderia ser acusado de autor da agressão.
Não era
este o caminho que devia seguir. Mas de qualquer maneira tinha de
falar o quanto antes com Neary.
Levantou
os olhos. Gerard começou a resmungar sons ininteligíveis. Seus
olhos estavam injetados de sangue. Seu aspecto não era nada
atraente. De repente levantou a cabeça e olhou para além do ombro
de Ron.
A
expressão de seu rosto alterou-se. Os olhos, que até então
pareciam vidrados e inchados, arregalaram-se e fitaram com uma
expressão de pavor um ponto situado além das costas de Ron. Este
teve imediatamente a impressão de que Gerard estava lançando mão
de um velho truque para desviar sua atenção, a fim de fazer alguma
coisa que ele, Ron, não deveria saber. Mas, de repente, ouviu as
cadeiras serem empurradas em torno dele pelas numerosas pessoas que
se levantavam ao mesmo tempo. Alguém gritou:
— Chamem
um médico! Depressa!
Só então
Ron virou a cabeça. Olhando por entre duas pessoas, que se dirigiam
a outra mesa, viu por um instante o vulto de um homem que, segundo
parecia, acabara de levantar-se da cadeira. Provavelmente concluíra
sua refeição e pretendia sair do restaurante.
Mal e mal,
o tal homem tinha forças para manter-se de pé. Segurou-se com ambas
as mãos na borda da mesa. Cambaleou e abriu a boca, respirando com
dificuldade. A boca era apenas um buraco escuro em meio a uma
horrível máscara marrom-amarelenta, que antes parecia uma caveira
que a cabeça de uma pessoa viva.
A memória
de Ron começou a funcionar. O setor implantado pelos aparelhos
misteriosos do Coronel Nike Quinto entrou em atividade. Lembrou-se da
palestra que Kindsom mantivera com o Dr. Zuglert, e do aspecto que
este último oferecia.
Zuglert
tinha exatamente o aspecto do homem que se encontrava à sua frente.
Ron agiu
com uma rapidez fulminante. Com um gesto rápido arrancou Gerard
Lobson de cima da cadeira.
— Fique
logo atrás de mim — ordenou.
Gerard
confirmou com um gesto automático. Continuava a dirigir os olhos
para o lugar onde se encontrava o homem-caveira, que agora estava
escondido atrás de um grupo de pessoas.
Ron
afastou os que se encontravam mais próximos.
— Abram
caminho! — exclamou. — Aqui vem um médico.
Olhando de
relance, viu que Gerard o seguia conforme ordenara. As pessoas abriam
caminho.
Ninguém
pediu documentos que os identificassem. Tratava-se de pessoas
desconhecidas, que se encontravam por acaso em determinado local, e
testemunharam o desenvolvimento da doença de um deles. Estariam
dispostos a aceitar a atuação de qualquer pessoa que se
apresentasse como médico.
Ron
avançou habilmente até a mesa em que se achava o desconhecido. A
caveira parecia nem notar sua presença. Não havia a menor dúvida
de que era um terrano. Ron segurou-o pelo braço direito.
— Venha
comigo; sou médico — disse em inglês. — Estou disposto a
ajudá-lo.
O homem
girou ligeiramente a cabeça.
— Ajudar...?
— disse num estertor.
— Sim,
pretendo ajudar — confirmou Ron. — O senhor pode andar, ou
prefere ser carregado?
Em vez de
responder, o homem deu um passo para a frente, soltando a mesa. Teve
de apoiar-se no braço de Ron, mas conseguiu manter-se de pé. Quando
se dispôs a dar o segundo passo, os circunstantes afastaram-se.
Ron olhou
para Gerard, que se encontrava a seu lado, e suplicou aos deuses para
que o parceiro não fizesse tolices.
De início
tudo foi bem. Acompanhado do homem com aspecto de caveira e de Gerard
e, a uma distância maior, do grupo de curiosos que ia diminuindo,
Ron dirigiu-se lentamente para a saída do restaurante.
Finalmente
viram-se na rua. Ron olhou em torno, à procura de um táxi, mas não
havia nenhum por ali. O fato deixou-o espantado. Percebeu que,
naquele trecho da calçada, não havia pedestres.
De
repente, Gerard soltou um grito de espanto abafado. Ron imaginou,
mesmo sem ver, que seu parceiro pretendia fugir. Num movimento
rápido, sua mão livre agarrou a jaqueta do bêbado.
— Fique
aqui! — gritou.
Mal
pronunciara estas palavras, uma voz áspera, vinda de detrás dele,
disse:
— Entregue-me
este homem!
Ron
virou-se abruptamente. Às suas costas, um homem uniformizado saíra
da sombra projetada pelo restaurante. Reconheceu o uniforme da
polícia de Lepso.
— Por
quê? — perguntou o terrano. — Este homem está doente. Precisa
de um médico, não de um policial.
Um sorriso
de escárnio surgiu no rosto do homem.
— O
senhor é médico? — perguntou num péssimo inglês.
Ron julgou
preferível não repetir a mentira.
— Não —
respondeu. — Mas pretendo levá-lo à presença de um médico.
— Nós
temos condições muito melhores para isso — afirmou o homem
uniformizado. — Olhe.
Não teve
necessidade de olhar, pois ouviu. Um potente veículo giromático
desceu e pousou junto ao meio-fio, num trecho do qual todos os
veículos haviam sido removidos. De repente apareceram mais alguns
policiais e cercaram Ron e o homem com aspecto de caveira.
“Bloquearam
uma parte da rua”,
pensou Ron.
Mais cinco
policiais saltaram do veículo giromático. O terrano sabia
perfeitamente que não teria a menor chance contra os milicianos.
Isso deixou-o furioso. E, o pior: foi obrigado a esconder sua raiva.
— Acho
que o senhor tem razão — disse, dirigindo-se ao policial que agora
se encontrava à sua frente. — O senhor tem melhores
possibilidades. Leve-o.
O policial
segurou o braço do velho doente e arrastou-o em direção ao veículo
giromático. Ron ficou parado até que a porta do carro espacial se
fechasse atrás do doente e do policial. Viu que o tráfego noturno
voltou a fluir sobre o trecho da rua que até então ficara
bloqueado. O veículo giromático subiu num salto arrojado, ganhou
altura em meio à luz dos anúncios luminosos e acabou desaparecendo
num mar colorido de luminosidade.
Só agora
Ron deu-se conta de que continuava a segurar a jaqueta de Gerard. Fez
sinal com a mão livre, a fim de chamar um táxi que seguia
lentamente junto ao meio-fio. O carro parou e a porta lateral
traseira abriu-se. Ron empurrou Gerard para dentro do veículo escuro
e depois entrou. A porta fechou-se automaticamente atrás dele.
O
motorista manteve-se imóvel atrás da direção. Não passava de um
contorno vago na escuridão.
— O
senhor viu a viatura policial que acabou de decolar desta rua? —
perguntou Ron.
O
motorista confirmou com um aceno de cabeça.
— Pode
fazer o favor de segui-la? Saberei recompensá-lo.
A cabeça
virou-se e inclinou-se para trás.
— Farei
isso pelo senhor, homem da Terra — disse o motorista.
Por uma
fração de segundo, a luz de um letreiro luminoso iluminou-lhe a
face. Era o homem do planeta de Goszul, o mesmo que levara Ron Landry
do espaçoporto à cidade.
5
Ron
ocultou a surpresa.
— Acho
que o senhor está em toda parte, não está? — perguntou em tom
irônico.
O
motorista já voltara a colocar em movimento o veículo, e o fizera
decolar da rua.
— Em
toda parte onde precisam de mim — confessou. — Ao menos costumo
estar.
Quando o
homem de Goszul teve de concentrar sua atenção na manobra de erguer
o carro por cima do tráfego intenso, que se desenvolvia sobre a rua,
a conversa morreu. Uma vez atingida a altura de dez metros, as piores
dificuldades já haviam sido superadas. Quem quisesse voar mais alto
precisava de licença, e a polícia de Lepso não gostava de
concedê-la. O veículo ganhou altura rapidamente e passou por uma
abertura existente na enorme muralha, formada pelos edifícios de
escritórios, dirigindo-se para o noroeste.
— Sabe
para onde voou a viatura policial? — perguntou Ron.
— Não
tenho a menor dúvida — respondeu o motorista. — Já observei
muitas vezes casos idênticos àquele em que o senhor esteve
envolvido. Nesses, a polícia sempre segue na mesma direção.
Ron olhou
pela janela. Ali em cima era escuro. A nuvem de poluição produzida
pela cidade cobria a paisagem. Viam-se apenas algumas estrelas. Ron
não percebeu o menor sinal do carro de polícia.
— Como é
que o senhor consegue enxergar? — perguntou Ron. — Será que está
seguindo o veículo da polícia em vôo visual?
O
motorista soltou uma gostosa gargalhada.
— Pelos
deuses dos bosques, garanto que não. Daqui de cima não se enxerga
nem um palmo além do nariz — inclinou-se para a frente e pôs o
dedo num instrumento do painel. — Tenho licença para trafegar em
grande altitude, e por isso sou obrigado a possuir um instrumento de
localização.
Ron também
se inclinou para a frente e viu na tela, que projetava os reflexos,
uma profusão de pontos amarelos, verde-claros e azul-turquesa.
— Se o
senhor me perguntar qual é a viatura policial, provavelmente não
saberei responder — disse em tom de perplexidade.
— Isso
não tem importância — contestou o motorista, com uma risada. —
Afinal, sou eu que tenho de encontrar o caminho.
Ron
reclinou-se no assento. Estava surpreso com as atitudes do homem de
Goszul. Ele surgira na hora exata de seguir a viatura policial. E Ron
tinha certeza de que dificilmente outro motorista se teria mostrado
disposto a fazer isso. Por coincidência também tinha uma licença
de tráfego para grande altitude, sem o que seria impossível atender
ao desejo de Ron, e evidentemente possuía os instrumentos que lhe
permitiam identificar e seguir determinado veículo, em meio a
dezenas de milhares de outros. Ron não pôde livrar-se da impressão
de que eram muitos acasos reunidos de uma só vez.
De repente
sentiu certa desconfiança pelo motorista. No entanto, não conseguiu
convencer-se de que o amável homem de Goszul pretendia fazer-lhe
qualquer coisa.
Olhou para
Gerard Lobson, que estava recostado, em posição inclinada, com os
olhos fechados e a boca aberta. Estava totalmente embriagado.
Ron voltou
a inclinar-se para a frente. Viu que o amontoamento de pontos na tela
se tornara mais ralo. Restavam apenas uns cem reflexos, e a cada
segundo que se passava, seu número diminuía. Ao que parecia, a
viatura policial seguia por uma rota de tráfego pouco intenso.
De
repente, Ron sentiu o desejo de ter a seu lado Larry Randall, um
velho companheiro de lutas. Sentiu que não estava em condições de
enfrentar sozinho o mundo de Lepso e as coisas que aconteciam por
ali. Perguntou a si mesmo qual seria a tarefa que Nike Quinto
resolvera confiar a Larry. Enquanto se encontrava na Terra, não
tivera tempo de formular esta pergunta. Quinto costumava distribuir
as missões de uma hora para outra. Via de regra, as pessoas enviadas
por ele só descobriam a centenas de anos-luz da Terra que se haviam
esquecido de perguntar, levar ou deixar alguma coisa.
“Onde
estaria Larry?”,
pensou.
— O que
está fazendo seu companheiro? — perguntou o motorista, naquele
instante.
— Está
dormindo — respondeu Ron. — Está mergulhado num sono profundo e
repousante.
— Ainda
bem. Quando entrou no carro, parecia não ter vontade de nada.
— Realmente
não tinha. Acho que bebeu demais.
O número
dos pontos na tela do localizador continuava a diminuir. Depois de
algum tempo, só restavam dois. Um deles encontrava-se próximo ao
centro da tela, enquanto o outro se deslocava em direção à
periferia e deveria desaparecer dentro de alguns segundos.
— Já
que nos conhecemos um pouco melhor — disse o homem de Goszul,
reiniciando a conversa — peço licença para perguntar por que
deseja seguir a viatura policial.
A resposta
de Ron foi imediata.
— Quero
ver se o doente realmente será levado para junto de um médico.
— De um
médico?
— Isso
mesmo. O doente sofreu um ataque agudo de fraqueza no interior do
restaurante. Mal conseguiu manter-se de pé, e sua cabeça parecia
uma caveira.
O homem de
Goszul resmungou alguma coisa incompreensível. Depois disse:
— Já vi
muitos casos iguais a este. Uma pessoa, alegre e bem-disposta,
passeia tranqüilamente pela rua. De repente transforma-se num
fantasma vivo. O rosto fica flácido, a pele torna-se seca, amarela e
quebradiça...
— É
isso mesmo — confirmou Ron, em tom animado.
— ...e,
depois de algum tempo, aparece a polícia, coloca-o no veículo e o
leva. Gostaria de saber se lá nos confins do deserto de Sukussum
realmente existe um médico.
— Onde?
— No
deserto de Sukussum. É o lugar ao qual nos dirigimos, e para onde
costumam ir os veículos da polícia que levam doentes a bordo. Esse
deserto tem mil nomes. Cada raça que vive em Lepso lhe deu um nome
diferente. O que gosto mais é Sukussum.
Ron pôs-se
a refletir. Então os doentes eram levados para o deserto. Será que
Zuglert também se encontrava lá?
— Como é
seu nome? — perguntou, dirigindo-se ao motorista.
— Roll —
respondeu este. — Vivo em Lepso há cinco anos e meio, estou
devidamente registrado como motorista de táxi, possuo licença de
tráfego em grandes altitudes e...
— Está
bem, está bem — interrompeu Ron. — Não tive a intenção de
submetê-lo a um interrogatório. Qual é a área do deserto?
— Na
direção noroeste segue por uns mil e oitocentos quilômetros, até
a costa do mar de Seyfour. Para o nordeste e o sudoeste mede uns
trezentos quilômetros, a partir daqui. Estamos voando exatamente
pela linha do centro. É um bom pedaço de terra. Ron confirmou com
um gesto. Fazia votos de que o ponto de destino escolhido pela
viatura policial não ficasse na extremidade oposta do deserto.
Duvidava de que as reservas energéticas do táxi de Roll fossem
suficientes para voar até o fim do deserto e voltar a Zanithon.
Transmitiu seus receios a Roll.
— Não
se preocupe com isso — disse o homem de Goszul, em tom
tranqüilizador. — Já atravessamos metade.
— Metade
de quê? — perguntou Ron, perplexo.
— Do
deserto. Já deixamos para trás quase mil quilômetros.
Ron
realizou alguns cálculos rápidos. Não fazia mais de trinta minutos
que haviam decolado da Avenida dos Cinco Mares.
— Que
velocidade estamos desenvolvendo? — perguntou.
— No
momento estamos voando a cerca de dois mil e quinhentos quilômetros
por hora, numa altitude de quinze quilômetros — respondeu Roll, em
tom indiferente.
Ron teve a
impressão de que, para um simples táxi-planador, esses dados eram
estranhos.
*
* *
Teve
certeza de que havia algum mistério envolvendo Roll. Mas acreditava
firmemente que era um mistério agradável. Por isso resolveu não
perguntar. Roll lhe revelaria os fatos quando achasse adequado.
Poucos
minutos depois do momento em que Ron teve conhecimento do desempenho
espantoso do táxi, o reflexo luminoso produzido pela viatura
policial começou a afastar-se do centro da tela.
— Estão
pousando — anunciou Roll, com a voz tranqüila.
— O
senhor conhece o terreno? — perguntou Ron.
— Não.
Ninguém conhece. O deserto de Sukussum pode ser considerado
tranqüilamente como área inexplorada. Ninguém jamais penetrou nele
mais de vinte quilômetros e as linhas de navegação aérea traçam
suas rotas de maneira a evitar o deserto. Preferem percorrer um
trajeto mais longo.
Ron não
teve outra alternativa senão tomar sua própria decisão. Procurou
avaliar que distância da viatura policial, pousada no deserto,
representava a combinação mais favorável entre a prudência e os
limites do raio de ação. Instruiu Roll a baixar cinqüenta metros e
prosseguir mais um trecho em direção ao noroeste.
Roll
seguiu as instruções. Enquanto o táxi estava descendo, determinou
o ponto em que o veículo da polícia pousara. Assinalou-o num cartão
vazio, introduziu-o num traçador de rota e deixou que este, depois
de ter apurado a posição de seu veículo em relação ao da
polícia, registrasse a rota do táxi no cartão.
Dali a
alguns minutos, o planador pousou. Ron viu as vagas sucessivas de
dunas amarelas iluminadas pela luz débil das estrelas. Notou as
nuvens de areia fina brincarem, tangidas pelo vento, em torno das
linhas de cumeeira e ouviu o canto e o tilintar dos grãos de areia
sob a ação constante do deslocamento do ar.
Roll
ligara a luz de posição e entregou a Ron o cartão do registrador
de rota. Via-se que o veículo policial se encontrava quase
exatamente na direção norte, numa distância não superior a um
quilômetro e meio do táxi de Roll.
Ron
resolveu agir imediatamente. Pediu a Roll que cuidasse de Gerard, que
continuava a dormir, mas Roll recusou-se a isso.
— Quer
saber uma coisa? — disse. — Acompanhei o começo da aventura e
também quero assistir ao fim. Por que não o trancamos no carro e
deixamos que continue a dormir?
— O
senhor sabe o que isso significa? — perguntou Ron, em tom de
surpresa. — É possível que a polícia não goste de que eu fique
espionando o que ela está fazendo. Talvez haja um tiroteio e...
— Não
me importo — respondeu Roll. — Para mim, isso é muito
interessante.
No fundo,
o agente ficou satisfeito em saber que teria um companheiro. Formulou
uma pergunta:
— O
senhor pode desligar o mecanismo propulsor de tal forma que Gerard
não possa fazer nada quando acordar?
Roll
soltou uma risada.
— É
claro que posso. Andei pensando a este respeito. Nem precisamos
trancá-lo. Não vai ser idiota a ponto de sair correndo pelo deserto
de Sukussum.
Ron
ponderou que Gerard nem sabia em que lugar haviam pousado. Resolveram
não trancar o carro e deixar um pequeno recado para Gerard.
Roll
desligou o mecanismo de propulsão e tirou a chave codificada. Depois
disso puseram-se a caminho. Tomaram a direção norte, percorrendo um
vale formado por duas fileiras de dunas.
O ar
estava fresco. A areia já irradiara o calor do dia anterior.
Caminhavam vigorosamente, a fim de esquentar o corpo. Via de regra,
Roll ia alguns passos à frente de Ron, como se já conhecesse o
caminho. Na luz mortiça das estrelas, só se via uma silhueta, dando
ao agente terrano a impressão de que Larry Randall caminhava à sua
frente.
A visão
teve um efeito tranqüilizador sobre Ron.
Mas este
logo chegou à conclusão de que não havia o menor motivo para ficar
tranqüilo. Roll tinha um segredo. E era possível que ele, Ron,
estivesse enganado ao supor que tal segredo fosse agradável.
Como
explicar, por exemplo, que ele se mostrara disposto a participar de
uma ação perigosa, como a de aproximar-se furtivamente de uma
viatura policial?
*
* *
Quando
haviam caminhado cerca de um quilômetro, ouviram o ruído surdo de
um motor de fusão, vindo da esquerda.
Ron subiu
correndo a encosta suave da duna mais próxima. Afundou até os
joelhos na areia macia. Mas chegou em tempo de ver alguma coisa
escura levantar-se nas proximidades, entre as dobras formadas pelas
dunas, e subir para o céu.
O veículo
da polícia acabara de decolar.
Ron não
teve a menor possibilidade de determinar-lhe a rota. Contrariando
todas as regras, os policiais deixaram de colocar as luzes de
posição. O zumbido do motor diminuiu rapidamente e logo cessou de
vez.
Muito
pensativo, Ron voltou para junto de Roll, que o esperava.
— Já
decolaram, não é? — perguntou Roll.
— Já.
Gostaria de saber o que significa isso.
Roll cocou
a cabeça. Era um gesto tipicamente terrano. Por um instante Ron
espantou-se.
— Isso
só pode significar que largaram o doente nas proximidades — disse
Roll.
— Talvez
não — objetou Ron. — Também pode significar que tenham pousado
devido a uma avaria na máquina, e que tenham levantado vôo depois
de repará-la.
Roll
fitou-o. Finalmente declarou em tom convicto:
— Não;
não pode ser isso.
Ron
sentiu-se perplexo.
— Por
que tem tanta certeza disso?
Roll fez
um gesto de impaciência.
— Que
diabo! Vamos deixar cair as máscaras — disse sem maiores
explicações.
Ron ficou
rijo de espanto ao ver seu acompanhante pôr a mão na boca e tirar
alguma coisa, que jogou fora. Levantou os olhos. Quando Roll voltou a
falar, o timbre de sua voz era totalmente diferente.
— O fato
é que eu sei, Ron — disse. — Lá atrás existe uma construção.
Certa vez eu a vi de uma grande altura, mas...
Surpreso,
Ron deu um passo para trás. Conhecia aquela voz; e durante toda a
viagem desejara ouvi-la a seu lado.
Percebeu
que Nike Quinto lhe pregara uma peça. Não o mandara só para Lepso.
— Larry,
seu safado! — disse numa alegre exaltação.
*
* *
— Espere
até que eu tenha tirado tudo isto que fizeram com meu rosto —
falou Larry Randall, em tom contrariado. — Depois voltarei a ser o
Capitão Randall.
Ron tinha
uma porção de indagações na ponta da língua. Como veio parar
aqui, por que usou o disfarce de motorista de táxi, qual a missão
que lhe foi confiada por Nike Quinto, por que usou máscara? Mas
sabia que teria de deixar as perguntas para outra oportunidade.
— O que
há com essa construção? — indagou.
— A
frota forneceu-me algumas fotografias aéreas — disse Larry. —
Nesta região existe uma construção, ou melhor, um grupo de
construções que nenhuma pessoa em Zanithon ou em qualquer outro
lugar sabe para que servem, quem as ocupa e quem as fez. E, o que é
pior, em Zanithon ninguém parece saber da existência dessas
construções.
Ron
confirmou com um sorriso.
— Isso
mesmo. Pelo que contou meu motorista de táxi, o deserto de Sukussum
é uma área inexplorada.
— Não
tenha a menor dúvida — confirmou Larry, em tom tranqüilo. — De
qualquer maneira, tenho certeza de que foi lá que os policiais
deixaram o doente. Feito isso, voltaram a levantar vôo.
— Bem —
disse Ron. — Vamos dar uma olhada nesse lugar.
Larry
concordou. Ron dirigiu-se até a duna da qual descera há pouco.
Subiu-a, e voltou a olhar em torno. Porém a luz das estrelas não
lhe permitiu reconhecer o grupo de edifícios que, segundo Larry
acabara de informar, devia ficar por lá.
O capitão
parou a seu lado.
— Pelo
que se conclui das fotografias, os edifícios são baixos — disse
em tom comedido. — É bem possível que só consigamos vê-los do
ponto mais alto da próxima duna.
Mas Ron
acabara de descobrir outra coisa. A fileira de dunas não continuava
indefinidamente na direção oeste. Pelo que pôde ver à luz mortiça
das estrelas, só havia mais dois montes de areia à sua frente.
Atrás deles parecia estender-se uma área plana, até onde a vista
alcançava. Se havia algum edifício no meio do deserto, este só
podia ficar nessa área.
Voltaram a
pôr-se a caminho. Era difícil caminhar na areia. Tiveram de poupar
suas forças, pois, após cada passo, gastavam energias ao puxarem
seus pés que afundavam na massa pulverizada. Apesar do frio raiar do
dia, o suor começou a correr por suas testas.
Mas, dali
a meia hora, conseguiram. Abrigados atrás da última fileira de
dunas, olhavam por cima do cume. Embaixo deles estendia-se um trecho
de muralha cinzenta, que corria na direção norte-sul, e atrás dela
amontoava-se uma quantidade enorme de edifícios de vários tamanhos.
Alguns deles eram cúbicos ou retangulares, enquanto outros imitavam
uma pirâmide ou uma esfera.
Em seu
conjunto, o complexo realmente era impressionante. Ron gostaria de
saber por que haviam construído uma cidadezinha nesse lugar, longe
do tráfego e das amenidades que a vida de Lepso oferecia. Só no
primeiro instante espantou-se com o formato estranho das casas. Logo
se lembrou de que em Lepso não havia motivo para admirar-se com tal
tipo de construção. Lepso era um cadinho em que se fundiam as raças
galácticas. Ao construir, cada um agia segundo seus hábitos.
Era
verdade que Ron não sabia que em Lepso havia cidades inteiras
construídas num só estilo estranho.
Examinou
cuidadosamente o núcleo populacional. Se por ali vivia gente ou
outros seres, estes habitantes ainda estavam dormindo ou permaneciam
no interior das casas. O lugar parecia deserto, e se as
circunstâncias da descoberta fossem diferentes, Ron teria chegado à
conclusão de que o local era desabitado.
Acontece
que o doente desaparecera por lá. Em hipótese alguma, os policiais
o teriam levado a uma cidade sem população. Quer dizer que lá
embaixo devia haver vida.
Ron fitou
o maior edifício: uma pirâmide erguida no centro do grupo de
construções. De repente teve a impressão de que um perigo
irradiava da cidade construída em meio ao deserto.
Não sabia
explicar por que motivo fora erguido o pedaço de muralha. Bastaria
contorná-lo para atingir a cidade.
O céu
começou a mudar de cor. As estrelas empalideceram, e a claridade de
um novo dia raiou no norte. As sombras, que Ron e Larry viam à sua
frente, transformaram-se em silhuetas.
Naquele
momento Ron lembrou-se de que, enquanto fora mantido preso pelos
saltadores, devia ter dormido um dia inteiro. Do contrário sua
contagem do tempo não dava certo.
Aproximaram-se
cautelosamente do primeiro edifício que se erguia na areia, e que
tinha a forma de um cubo. Não havia janelas. As paredes pareciam ser
de pedra. No momento não se via ninguém junto à entrada.
Contornaram
o cubo e encontraram uma fenda do lado voltado para a pirâmide, que
localizava-se no centro do grupo de edifícios. Esta delineava um
quadrado de metro e meio que se desenhava na parede de pedra. Não
havia nenhum mecanismo capaz de mover a porta, se é que realmente se
tratava de uma porta. Por isso Larry não teve muita esperança de
sucesso, quando procurou forçá-la com o ombro.
E
justamente por isso quase caiu, no momento em que a pedra cedeu, sem
oferecer a menor resistência. A peça cercada pela fenda girou leve
e silenciosamente para o lado de dentro, pondo a descoberto um
recinto escuro, quente, úmido e malcheiroso.
Ron
segurou a arma que tomara dos saltadores. Larry pulou para o lado. Da
escuridão que reinava no lado de dentro, saiu um forte chiado. Ron
esperou. Teve a impressão de que alguma coisa se movia na escuridão.
Dali a alguns segundos viu que não se enganara.
Alguma
coisa saiu rastejando.
De início
Ron vislumbrou uma figura semelhante a uma vara fina e branca.
Acontece que na parte superior desta havia uma articulação.
Seguiu-se mais um pedaço de vara, enrolado numa espécie de pano.
Era uma
perna humana!
Ron
obrigou-se a permanecer tranqüilo. Esperou até que aquela incrível
criatura conseguisse deslocar-se totalmente para a claridade do
início do dia. Teve de esforçar-se para fitar a criatura. Sentiu
pena como nunca sentira, e repugnância por aqueles que deixavam que
esse destroço humano se acabasse no deserto.
O homem,
que haviam visto no restaurante de Zanithon e que fora entregue à
polícia, era um modelo de aparência sadia em comparação à
criatura estendida no chão à frente de Ron, o major, e Larry, o
capitão. A triste figura mal conseguiu levantar a cabeça do chão.
Fez algumas tentativas, mas sempre voltava a cair na areia.
Ron
abaixou-se e ajudou-o. A caveira fitou-o com os olhos apagados. Os
lábios moveram-se, e num grasnado saíram estas palavras,
pronunciadas em inglês:
— Eternamente...
eu vos sirvo... meus senhores.
Ron não
quis perder tempo.
— Coragem,
amigo — disse à criatura. — Nós o tiraremos daqui. Quem é
você? Como foi parar neste lugar?
A cabeça
esteve a ponto de cair para a frente, mas Ron segurou-a e obrigou a
criatura a fitar seus olhos.
— Eternamente...
— repetiu a criatura, num estertor.
Não teve
forças para pronunciar outra palavra.
Ron
largou-a cuidadosamente na areia e levantou-se.
— Não
adianta — disse em tom de resignação. — Vamos ver se
encontramos alguém que tenha mais saúde e vigor.
Caminharam
em silêncio. Ron refletiu sobre o significado das palavras que
aquela criatura lhe dissera. Evidentemente achava essas palavras
muito importantes, pois continuava a pronunciá-las num estado de
total abatimento.
A quem
pretendia servir? Quem eram os senhores a que aludira?
Ron quase
chegou a acreditar que se tratava de uma espécie de oração.
Mas não
conseguira descobrir qualquer sentido nisso.
Aproximaram-se
do segundo edifício, que também tinha a forma de um cubo, e
abriram-no com a mesma facilidade do primeiro.
Mas desta
vez uma surpresa lhes estava reservada.
Um pedaço
de material com o formato de caixa caiu para fora, vindo de trás da
porta, e parou diante de seus pés. Ron fitou-o, perplexo.
Apresentava uma configuração cúbica, tal qual o edifício no qual
estivera deitado e era tão leve que parecia oco. Virou-o e descobriu
a janela quebrada de um dos lados.
Compreendeu
que acabara de encontrar uma pista do ser de Pisalam.
Era uma
pista triste, pois o destino que aguardava um pisalamense, que
perdesse seu traje protetor em Lepso, só poderia ser um: a morte.
Ron ainda
estava refletindo sobre o macabro achado, quando um gongo soou
fortemente em algum lugar, ressonando num zumbido que feriu os
ouvidos de Ron.
Virou-se
apressadamente. Lançou um olhar indagador para Larry, mas este
limitou-se a dar de ombros.
— Também
não sei o que é isso. Ao que parece, o som vem de dentro do chão.
Por
coincidência o major olhou para a grande pirâmide, cuja ponta
sobressaía sobre os telhados planos e as cumeeiras dos outros
edifícios. Larry ouviu o amigo soltar um grito de espanto e virou-se
abruptamente.
No topo
havia um vulto que, do lugar em que se encontravam, parecia muito
pequeno. Até mesmo sob a luz fraca do amanhecer, a figura cintilava
de tantas jóias que se encontravam penduradas em seu corpo.
Movia-se. Parecia que se inclinava em diversas direções. De
repente, Ron teve certeza de que sua suposição fora correta. A
cidade, os doentes com cabeça de caveira, que se encontravam no
interior das cabanas de pedra, a figura, que acabara de surgir no
topo da pirâmide — tudo isso fazia parte de algum culto. A pessoa,
que se achava no alto da pirâmide, parecia ser um sacerdote. Talvez
fosse um daqueles aos quais o terrano semimorto prometera servir
eternamente.
A idéia
deixou Ron furioso.
— Vamos
até lá — gritou para Larry. — Temos de pegar esse sujeito.
Contornaram
apressadamente o cubo mais próximo e correram em direção à
pirâmide, passando por uma viela que seguia entre as construções
pequenas. A batida de gongo parecia não modificar em nada a
inatividade que se notava na cidade. Tudo continuava quieto e vazio
como antes.
Com uma
única exceção...
Quando
chegaram mais perto da pirâmide, ouviram que o homem reluzente no
topo desta estava cantando. Era uma cantoria triste, desfiada em tom
de ladainha. Comunicava-se com um dos pretensos ídolos, em homenagem
ao qual deixava que terranos, pisalamenses e outros seres
definhassem.
Era ao
menos o que Ron pensava, e sua raiva aumentou.
De cada um
dos lados da pirâmide, uma série de largos degraus levava para o
alto. Ron não perdeu tempo. Empunhando a arma, correu escada acima.
Larry gritou alguma coisa, mas Ron não ouviu. Só viu o ser envolto
em trajes reluzentes, que continuava de pé lá em cima. Mas, de tão
surpreso que ficou, o “pajé”
parou em meio à cantoria.
— Desça
daí — gritou Ron. — Desça para ser responsabilizado por seus
atos de crueldade.
Não
esperou para ver se o ser estaria disposto a obedecer à ordem.
Continuou a correr escada acima. Faltavam poucos degraus para chegar
ao topo da pirâmide, apenas uns dez ou doze. Logo estaria lá. Mas
de repente...
De
repente!
Por alguns
segundos Ron viu o rosto daquele ser, do sacerdote, bem à sua
frente. A raiva e o esforço dispendido fizeram com que, na mente do
terrano, o rosto do “feiticeiro”
se transformasse numa careta. Por um segundo teve a impressão de que
bastaria estender os braços para agarrar aquele homem.
Mas de
repente, o gongo soou pela segunda vez e, de súbito, Ron Landry
viu-se num lugar totalmente diverso.
*
* *
Em torno
dele ouviram-se sons estridentes, gritos, guinchos e choros nos mais
diversos tons. Sentiu que alguma força o fazia girar loucamente em
torno de seu próprio eixo. Sentiu-se perdido.
O cérebro
recusou-se a pensar.
Deixou-se
girar e reprimiu a dor lancinante causada pelo barulho, que se
desenvolvia em torno dele. Com um ligeiro resquício de curiosidade,
procurou reconhecer se sentia alguma coisa além da dor, como por
exemplo o deslocamento do ar, já que estava sendo girado
violentamente, ou a dificuldade de respiração, enquanto se sentia
cada vez pior.
Mas não
havia ar e parecia não estar respirando. Ron procurou mover os
braços, mas não havia nada que pudesse ser movido. Transformara-se
em algo de incorporal, que girava num espaço irreal.
De
repente, fragmentos de idéias estranhas começaram a atropelar-se em
seu cérebro.
— Você
insultou Baalol. Por isso terá a pior das mortes. Você insultou
Baalol.
Ron não
sabia quem ou o que vinha a ser Baalol. Não se interessava por isso.
Mas se estava prestes a sofrer a pior das mortes, queria que tudo se
passasse o mais depressa possível, principalmente a gritaria em
torno dele.
Mas, ao
que parecia, o desejo de Ron não iria cumprir-se. Os uivos
tornaram-se cada vez mais fortes. De repente surgiram outros
pensamentos.
— Não
matem... Vocês não o matarão... Seus idiotas... Encontraram alguém
mais poderoso.
Ron aguçou
o ouvido. Eram apenas pensamentos, e o pensamento não tem voz. Mas
teve a impressão de que reconhecia a voz de alguém. Teve a
impressão de que sabia quem falava — ou pensava.
Era alguém
que lutava pela sua vida. Isso mesmo, pela sua vida.
Quem
seria?
Girava
loucamente no nada, sem a menor resistência, e o que mais desejava
era que o sofrimento terminasse o quanto antes.
Reuniu as
últimas energias. Começou a recear pela vida. Resistiu ao destino
que forças fantásticas e selvagens lhe haviam atribuído. Ajudou o
alguém que lutava a seu lado contra os estranhos para salvá-lo.
Passou a
girar mais lentamente. A gritaria tornou-se mais fraca. Mais uma vez,
Ron captou os pensamentos estranhos:
— Estão
vendo? Vocês não conseguem nada... Venci... Maldito seja Baalol!
Subitamente
surgiu o silêncio. Por um instante, o major teve uma impressão
confusa: parecia estar caindo num vazio. Realmente devia ter caído,
pois bateu fortemente em alguma coisa. Depois começou a rolar,
voltou a declinar e acabou por se segurar numa pedra.
Abriu os
olhos. Sentiu-se ofuscado pelo sol. Viu à sua frente uma pequena
superfície de pedra, seguida de uma aresta abaixo da qual vinha
outra superfície de pedra.
Era a
escada! Estava deitado nos degraus da escada que subia pela pirâmide.
Ergueu-se
sobre os joelhos e olhou em torno. Seu olhar foi atraído por alguma
coisa brilhante, cintilante. Eram as vestes do sacerdote. Estava
deitado, pouco acima de Ron. A cabeça mantinha uma estranha posição
e os olhos vidrados achavam-se muito arregalados.
Estava
morto. Não havia a menor dúvida. O olhar de Ron continuou a
caminhar pela pirâmide e deu com outro sacerdote, que escorregara
escada abaixo, tal qual o primeiro, e se encontrava deitado, imóvel.
Alguns degraus mais embaixo havia um terceiro sacerdote, e um quarto
descera por toda a escada e estava jogado na areia, com o corpo
contorcido.
Ron pôs a
mão na cabeça.
“O
que aconteceu?”,
pensou. “Onde
estará Larry?”
Viu alguma
coisa mover-se na sombra de um dos pequenos edifícios de formato
cúbico. Num gesto apressado, pôs a mão na arma — ou melhor, quis
colocá-la, mas teve de constatar que já não trazia a pistola.
Devia tê-la perdido.
A sombra
penetrou na luz e transformou-se na figura esbelta e de estatura
média de Larry Randall. Ron levantou-se de vez e desceu a escada com
as pernas cansadas. Quando se encontrava a meio caminho, viu um
radiador térmico jogado nos degraus. Levantou-o e colocou-o no
cinto.
Larry
lançou-lhe um olhar indagador.
— O que
foi isso? — perguntou.
— O que
foi o quê? — replicou Ron, por sua vez.
— Esse
espaço estranho... o movimento giratório... as vozes...
Ron
arregalou os olhos.
— Você
também? — perguntou em tom de perplexidade.
Larry fez
que sim e relatou:
— Vi
você subir os degraus que nem um louco. Gritei para que não o
fizesse. Lá no topo da pirâmide, surgiram mais alguns desses
sujeitos reluzentes. Não davam a impressão de que ficariam quietos
enquanto você lhes dissesse umas verdades. Quis preveni-lo, mas você
não me ouviu. E de repente começou... Não estava mais aqui.
Flutuava em algum lugar e não via mais nada. Em torno de mim havia
um barulho infernal. Alguém disse que iria matar-me porque faltei
com o devido respeito, ou coisa que o valha, perante... bem, esqueci
o nome. Mas houve outro alguém que se opôs a isso. De súbito tudo
cessou, e caí na areia.
Continuava
a fitar Ron, como se esperasse que este lhe desse uma explicação.
Mas Ron limitou-se a dizer:
— Vamos
voltar.
Lançou os
olhos para o sol e viu que pelo menos duas horas deviam ter passado,
desde o momento em que avistara o sacerdote no topo da pirâmide e
depressa dirigira-se até ele. O relógio confirmou a suposição. O
movimento giratório consumira bastante tempo.
Lembrou-se
de Gerard Lobson. Provavelmente, já havia acordado da embriaguez.
Talvez tomasse uma atitude absurda e saísse correndo por aí. Assim
que visse que em torno dele apenas havia areia, vento e uma
cidade-fantasma, naturalmente voltaria. Mas até lá se perderia
tempo, um tempo precioso. E Ron não tinha tempo...
Saíram. A
cidade voltara a ficar silente como no momento em que a viram pela
primeira vez. Estava abandonada, com exceção dos vultos imóveis
jogados ao pé e nos degraus da pirâmide.
Ron
perguntou a si mesmo o que significava isso. Em pleno deserto havia
uma cidadezinha, ou melhor, uma série de construções, que se
agrupavam em torno de uma pirâmide que, segundo tudo indicava, era
um templo. A finalidade das construções parecia consistir
unicamente em abrigar os servos dos sacerdotes, que eram as criaturas
semimortas recolhidas em Zanithon e, provavelmente, também em outras
cidades.
Que doença
seria esta, que atacava as pessoas em plena rua, durante as refeições
ou numa conversa, e transformava criaturas vigorosas em cadáveres
ambulantes? E que seita seria esta, cujos sacerdotes recrutavam estes
enfermos como servos, e isso com o apoio da polícia do planeta?
Ron
acreditou ter uma explicação para aquilo que lhe acontecera quando
procurara atacar o sacerdote. Este não utilizara nenhuma arma
material. Lutara com as armas do espírito. Ele e os que acorreram em
seu auxílio deviam ser certos tipos de mutantes. Dispunham de
faculdades parapsicológicas. Ao que tudo indicava, entre estas se
incluía a de transportar aquele que os atacasse para uma outra
dimensão e fazê-lo girar até que morresse. O estranho em tudo isso
era que ele mesmo pouco sabia a respeito dos tais sacerdotes! Será
que eles apenas existiam em Lepso, ou também estariam em outros
lugares, onde trabalhavam às escondidas como aqui?
Era uma
pergunta atrás da outra. Ron teve a impressão de que vislumbrava
uma pista. De repente, o nome Baalol despertou sua memória para
alguma coisa. Não sabia o que era. Mas lembrou-se de que esse nome
tivera uma relação nada agradável com a História da Terra dos
últimos meses ou anos.
Quanto à
voz estranha, que lutara com os sacerdotes de Baalol pela vida dos
dois prisioneiros e acabara por libertá-los do espaço irreal, cheio
de gritos e uivos, não havia por que fazer conjeturas. Agora Ron
poderia até apostar, pois tinha certeza de quem se tratava.
Seu amigo
de Pisalam realmente dispunha de faculdades espantosas!
*
* *
Durante a
caminhada de volta, não disseram uma única palavra. Atravessaram as
fileiras de dunas e perderam de vista a cidade que se estendia em
torno do templo. Vez por outra voltavam a cabeça, a fim de verificar
se, por acaso, os sacerdotes os perseguiam. Mas a luta espiritual
contra o pisalamense parecia ter consumido todas as energias dos tais
sacerdotes. O deserto jazia em silêncio, e o ar tremeluzia sob a
ação do calor.
Finalmente
o táxi surgiu à sua frente. Cansados e suarentos desceram pela
encosta da última duna. Caminhando lado a lado, foram-se aproximando
do veículo.
Subitamente
Ron estacou e segurou Larry pelo ombro.
O carro
estava vazio. Gerard Lobson havia desaparecido.
— Que
idiota! — exclamou Larry em tom furioso. — Para onde será que
ele foi?
Procuraram
localizar o rastro, mas o vento parecia ter desenvolvido uma
atividade muito intensa. Havia algumas impressões apagadas, que se
perdiam entre as dunas, na direção norte. Mas ninguém poderia
dizer se foram as que os dois homens haviam produzido na manha
daquele dia, ou se provinham de Gerard Lobson.
Larry
contornou o veículo. Ron parou e refletiu sobre se convinha subir à
próxima duna, a fim de ter uma visão mais ampla. Mas não teve
tempo para tomar uma decisão. Ouviu um ruído atrás de si e
virou-se abruptamente.
Mas Gerard
Lobson foi mais rápido. Ergueu-se do buraco que ele mesmo cavara na
areia.
Gerard
estava inclinado para a frente. Achava aquilo divertido. Era ao menos
o que se concluía de seu sorriso.
Mas o pior
de tudo: segurava um pequeno radiador de tiro concentrado, e seus
efeitos eram mortíferos.
6
Parecia
uma situação louca. Gerard se via obrigado a dirigir sua atenção
para dois lados, e os homens à sua frente estavam armados. Não
tinha a menor chance de ser bem-sucedido.
Mas a um
novo exame crítico, as coisas mudavam de feitio. Gerard tivera tempo
para refletir, e aproveitara bem esse tempo. Encontrava-se a cerca de
quinze metros do táxi. Achava-se bem próximo para realizar um
disparo seguro, e bastante longe para ficar de olho nos dois homens
ao mesmo tempo, sem virar a cabeça. Em compensação Larry e Ron não
viam um ao outro. Larry encontrava-se atrás do planador, onde ficara
parado. Provavelmente, Gerard “protestaria”
se fizessem qualquer movimento. Isso significava que não podiam
recorrer a gestos ou olhares para combinar uma ação conjunta.
Nenhum dos dois sabia o que o outro estava fazendo.
Ao que
parecia, Gerard já se deleitara bastante com a visão dos dois
homens. Pôs-se a falar, e sua voz tinha um timbre estranho.
— Os
senhores e eu voltaremos juntos para Zanithon — anunciou. — Irão
no assento da frente, e eu no de trás. Irão sem armas, enquanto eu
levarei este radiador.
Ao que
parecia, Larry acabara de fazer um movimento. Num rápido giro,
Gerard mudou ligeiramente a direção de sua arma e gritou:
— Pare!
Evidentemente
Larry obedeceu, pois Gerard voltou a descontrair-se.
— De
qualquer maneira pretendíamos ir para Zanithon — disse Ron, em tom
indiferente. — Para que serve essa palhaçada?
— Acontece
que os senhores não iriam ao lugar que eu quero — disse Gerard.
— Para
onde pretende ir?
— Para
onde estão meus amigos, que, quando eu os entregar, me ficarão
devendo alguma coisa.
— Para
onde estão os saltadores, não é? — perguntou o major, em tom
irônico.
Aquilo não
passara de uma adivinhação. Ron não tinha qualquer prova de que
Gerard colaborava espontaneamente com os saltadores. Mas acertou.
Gerard arregalou os olhos.
— Como
soube disso? — replicou surpreso.
Ron soltou
uma risada irônica.
— Ora,
Lobson, o senhor me contou tantas mentiras que tive de construir
minha própria história. O senhor estava sentado com os dois
saltadores e o ara no escritório de Zuglert, não é? De repente um
dos saltadores levantou-se e saiu da sala. Não foi o que o senhor
disse? Quando voltou, trazia-me nos braços. Santo Deus, da próxima
vez o senhor terá de aprender a mentir melhor. O senhor estava
montando guarda lá embaixo; a verdade é esta.
“Os
saltadores desconfiaram de mim, desde que cheguei a Lepso na nave
Efraim. O melhor meio de descobrir se a suspeita era fundada
consistia em aguardar para ver se eu faria uma visita ao escritório
de Zuglert. Nem havia necessidade de manter-me sob vigilância.
Bastava colocar um guarda no edifício da Rua Oitenta e Seis, e tomar
certos preparativos de ordem técnica. O guarda foi o senhor, Lobson,
e os preparativos foram realizados de tal forma que o campo
antigravitacional de cada poço de elevador pudesse ser desligado a
qualquer momento.
“Quer
dizer que seu trabalho era ficar atento e avisá-los quando eu
chegasse. Não venha me dizer que um único saltador me levou para
cima. Haveria necessidade de pelo menos dois homens. Afinal, a ação
tinha que ser rápida, pois naquele edifício havia gente que não
tinha nada a ver com aquilo. O senhor o ajudou a carregar-me, não é
mesmo?”
Por algum
tempo Gerard parecia totalmente perplexo. Mas logo recuperou o
autocontrole e um sorriso atrevido surgiu em seu rosto:
— Pois
bem. E daí? Tem alguma objeção?
Ron
balançou a cabeça.
— Nenhuma
— respondeu em tom sério. — Ainda mais que eu sei que o senhor
não é responsável pelo que fez.
Gerard
voltou a assustar-se.
— O que
quer dizer com isso? — perguntou furiosamente.
Ron fez um
gesto de desprezo.
— Deixemos
isso para depois — disse. — O senhor, que por assim dizer nos tem
nas mãos, poderia responder a algumas perguntas?
Avaliara
corretamente a personalidade de Gerard. Agora, que sentia-se
vitorioso, estava disposto a exibir seus conhecimentos. Fez um gesto
benevolente e respondeu:
— Pergunte!
— Seus
amigos, os saltadores, violaram uma linha de telecomunicação da
Missão Comercial Terrana, não é?
Gerard fez
um gesto afirmativo.
— Zuglert
falou por essa linha?
— Pelo
que sei, sim. Mas não falou do edifício da Missão. Por uma questão
de comodidade, a linha violada foi transferida para a sede da
representação comercial dos saltadores. Foi de lá que Zuglert
falou, num momento em que relaxaram em sua vigilância.
— Como
foi parar lá?
— Depois
que o deixei, ele conseguiu reunir forças e saiu de seu escritório
para pedir auxílio.
— Um
instante — interrompeu-o Ron. — Em seu escritório havia um
videofone. Por que não chamou de lá?
Gerard
hesitou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário