terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-115 - O Imperador e o Monstro - William Voltz [Parte 2]

Confiava cegamente num plano de vingança que colocaria o planeta Saós em suas mãos. E ali esperava obter as informações de que precisava para curar-se.
Mostraria aos homens que ainda sabia comandar uma frota. Gemeu e virou-se na cama remexida. Apalpou o pulôver. Será que o mesmo não começava a ficar apertado?
Arrumou o cabelo e trocou de calça. Com um gesto de desprezo atirou para longe os óculos protetores.
Um administrador não tem necessidade de esconder o rosto!”, pensou.
Era bom que os oficiais vissem o rosto do homem que os conduziria para a vitória sobre os antis. O tempo das hesitações chegara ao fim. Nunca deveria ter permitido que as advertências de Bell o detivessem. Quando seu poder estivesse consolidado, Bell seria um dos primeiros homens que mandaria liquidar.
Cardif verificou sua aparência. Não queria confessar o desespero e o pânico que haviam tomado conta de seu espírito. Preparou-se para desempenhar o papel que combinava cada vez menos com sua pessoa: o de Administrador do Império Solar.
Seu aparecimento na sala de comando provocou várias reações diferentes. O comportamento do falso Rhodan representava uma carga pesada para os oficiais da Ironduke.
Cardif parou na porta e colocou as mãos nos quadris. Lançou um olhar atento para os homens. Sentiu a antipatia instintiva dos mesmos. Empertigou-se e seus cabelos tocaram na parte superior da entrada.
Isso significava que crescera mais um pedaço.
Entrou de vez na sala de comando.
Expeça uma ordem dirigida a todas as naves, major — gritou para Jefe Claudrin. — Desfechar o ataque a Saós.
Claudrin virou-se abruptamente. Seu corpo volumoso atravessou a sala de comando como se fosse um tanque humano. Estabeleceu ligação de rádio comum com os comandantes de todas as naves.
Talvez fosse preferível que o senhor falasse pessoalmente, sir — disse com a voz tranqüila. — Isso representaria um estímulo para a luta que se aproxima.
Um sorriso de desprezo surgiu no rosto de Thomas Cardif, o que constituía mais uma prova de que não possuía o gabarito do pai.
Para derrotarmos essa base ridícula, o tom de sua voz será suficiente, major — disse numa ironia mordaz.
Naturalmente, sir — respondeu o homem nascido em Epsal e executou a ordem, sem dizer mais nada.
Cardif olhou para o relógio de bordo.
Dentro de uma hora terrana, exatamente, as primeiras naves pousarão em Saós — disse.
Não sei por que, Perry, mas isso me dá uma sensação desagradável — disse Bell, sem sair do lugar. — O silêncio dos antis é altamente suspeito.
Cardif soltou uma risada estridente. Seu rosto movimentou-se. A maior parte dos oficiais abaixou a cabeça diante do olhar selvagem do administrador.
Naquele momento todos os homens a bordo da Ironduke compreenderam que Rhodan nunca desistira do seu intento.
A voz monótona de Jefe Claudrin avisou as outras naves. Os comandantes aceitaram as ordens com a maior tranqüilidade. Nenhum deles formulou qualquer objeção. A confiança na pessoa de Rhodan continuava inabalável.
Ninguém nos de terá! — exclamou Cardif. — Vamos limpar esse ninho de ratos.
Naquele momento nem desconfiava de que estava muito enganado...

* * *

Fosse qual fosse o ângulo sob o qual Kutlós examinava, agora, sua palestra com Gonozal VIII, o resultado lhe parecia pouco satisfatório. A reação do imperador não fora tão violenta como Kutlós esperara. O sumo sacerdote compreendeu que cometera um erro ao irritar desnecessariamente Atlan. Com isso só aumentara a antipatia do imperador para com sua seita. Por isso tornava-se duvidoso que parte da frota arcônida lutaria por Saós.
Mergulhado em pensamentos, o sumo sacerdote estava sentado na poltrona que correspondia à alta dignidade do cargo que ocupava. Vez por outra, o fragmento de uma palestra dos outros antis penetrava em sua consciência. Não se percebia qualquer otimismo. Todos sabiam que, se as naves terranas atacassem, não havia a menor esperança de salvação. A derrota sofrida em Okul constituía a melhor prova de que os campos defensivos individuais dos sacerdotes não representavam qualquer obstáculo para os terranos.
As naves terranas estão mudando de posição — gritou uma voz estridente.
Kutlós sobressaltou-se. Levou apenas alguns segundos para orientar-se. Os sacerdotes comprimiam-se diante das telas dos detectores de massa e dos indicadores de energia.
Deixem-me passar! — ordenou o sumo sacerdote e fez seu corpo magro passar, sem a menor consideração, por entre os outros.
Os reflexos verdes projetados pelos aparelhos de localização estavam se movimentando. Viam-se perfeitamente os lugares em que os mesmos se reuniam em grupos. Não era necessário que Kutlós fosse um profeta para compreender o significado dessa modificação. Seu rosto assumiu uma expressão sombria.
A invasão era iminente.
Tasnor disse com a voz desfigurada:
Seu plano falhou, Kutlós. Atacarão antes que Gonozal VIII possa vir em nosso auxílio. Duvido muito que ele apareça por aqui com suas naves.
O sumo sacerdote compreendeu que a crítica amarga daquele homem tinha sua origem exclusivamente no medo de morrer. Seria inútil envolver-se numa discussão com seu representante.
Hepna-Kaloot subiu numa cadeira e agitou os braços. O sumo sacerdote teve a impressão de que aquilo representava uma investida contra sua autoridade, mas não formulou nenhuma objeção. O comportamento daquele anti de estatura baixa desviaria as atenções dos antis da rebeldia de Tasnor.
Já não existe a menor dúvida de que teremos de morrer — disse Hepna-Kaloot. Seus olhos pequenos e atentos fitaram os sacerdotes reunidos. O interesse de Kutlós era maior que sua contrariedade; continuou a manter-se em silêncio.
Será que devemos esperar até que os terranos nos matem?
Fez uma pausa de efeito. Kutlós começou a desconfiar de alguma coisa.
Isso é um absurdo”, pensou. “Não é possível que pretenda fazer uma coisa dessas.”
Podia ser ilusão, mas teve a impressão de que Hepna-Kaloot o fitava com uma expressão irônica. Kutlós sentiu que sou poder de decisão estava praticamente paralisado. Não conseguiu formular uma advertência dirigida àquele sacerdote e interromper-lhe a fala.
Não somos animais para esperarmos a morte! — gritou Hepna-Kaloot.
Kutlós viu sinais de infinita brutalidade naquele homem. Isso o deixou mais apavorado que o ataque iminente da Frota Solar.
Saberemos preencher o tempo que nos separa do fim. Vamos sortear dois lutadores para o jogo de Paloot.
Por um instante Kutlós fechou os olhos. Os gritos de aprovação dos sacerdotes arrancaram-no da rigidez. Hepna-Kaloot desceu da cadeira e misturou-se aos homens que discutiam animadamente. A testa do sumo sacerdote estava coberta de suor. Tasnor, que se mantinha em posição afastada, parecia perdido em meio à confusão. Seu ataque a Kutlós não produzira o menor efeito. Hepna-Kaloot dominava a situação.
Parem! — gritou o sumo sacerdote.
Um ajuntamento de homens, usando mantas largas, abriu-se e pôs-se à vista o pequeno sacerdote, que já preparava os bilhetes de rifa.
O jogo é proibido — disse Kutlós, esforçando-se para dar um tom enérgico à voz.
Hepna-Kaloot atirou o primeiro bilhete para o sumo sacerdote e perguntou:
Quem nos julgará depois que tivermos morrido?
Kutlós pegou o bilhete e rasgou-o.
O jogo é proibido — repetiu em tom obstinado, se esforçando para apresentar algum argumento.
Não se lembrou de nenhum.
O sumo sacerdote não participa do jogo — disse Hepna-Kaloot, em tom de desprezo. — Basta sortear um combatente. Apresento-me como voluntário.
Kutlós já acreditara não haver nada que pudesse deixá-lo com raiva. Agora, porém, não conseguiu reprimir um violento acesso de cólera. Lançou um olhar penetrante para o sacerdote mais baixo. Os olhos de Hepna-Kaloot formularam uma indagação muda.
Kutlós ouviu sua própria voz, enquanto as mãos tremiam levemente:
Não precisamos tirar a sorte. Lutarei contra Hepna-Kaloot.
Ao que parecia, Hepna-Kaloot não esperara outra coisa. Não perdeu tempo. Com movimentos rápidos começou a tirar as vestes.
Um momento — disse o sumo sacerdote, com a voz apagada. — Não conheço as regras do jogo.
O outro anti atirou as vestes sobre uma cadeira.
Se prosseguirmos na luta até o taloosei, tudo será permitido — respondeu com um sorriso.
Não vejo motivo para terminarmos antes — disse Kutlós. — Vamos escolher o árbitro. Sugiro que seja Egtoor.
Hepna-Kaloot concordou. Egtoor fitou o sumo sacerdote com uma expressão de dúvida.
Quem começa com a escolha das armas? — perguntou com a voz insegura.
Aquele que escolhesse em primeiro lugar sofria uma grande desvantagem, porque seu adversário poderia escolher armas que o protegessem. Era bem verdade que a pessoa que escolhia em segundo lugar não poderia usar nenhuma arma que já tivesse sido escolhida.
Sou de opinião que cada um deve escolher três armas — propôs Hepna-Kaloot. — Se o sumo sacerdote não tiver nenhuma objeção, escolherei em primeiro lugar.
Essa proposta exprimia o menosprezo que Hepna-Kaloot sentia diante da capacidade de luta de Kutlós.
Lutarei com um espia, um punhal de Sostoos e um bule de água — decidiu o adversário de Kutlós.
O sumo sacerdote teve a impressão de que a escolha do espia representava um golpe muito hábil, mas não tinha a menor idéia do que Hepna-Kaloot pretendia fazer com um bule de água. O punhal também não era uma arma muito perigosa. O sumo sacerdote sabia que não poderia usar nenhum espia.
Uma arma de radiações, uma corda de Lagoo e... —Kutlós hesitou — ...e Tasnor como informante.
O informante representava a única chance de compensar o espia. Tasnor permanecera em silêncio quando ouvira sua escolha como terceira arma. Seus olhos chamejaram de ódio, mas não teve outra alternativa senão aceitar a tarefa de informante. Tasnor não poderia atacar, mas corria um perigo constante. Hepna-Kaloot poderia usar todas as armas contra ele. Restava saber se, na qualidade de informante, Tasnor representava um perigo para ele. Kutlós esperava que seu representante causasse certas dificuldades a Hepna-Kaloot, aliviando-o um pouco. Naturalmente era possível que o sacerdote não se interessaria pelo informante, avançando diretamente sobre Kutlós.
Será uma luta muito interessante — disse Hepna-Kaloot. — Infelizmente será curta, pois o sumo sacerdote não possui a minha experiência.
Essas palavras representavam uma confissão de que o sacerdote já participara do jogo proibido.
Lutei por sete vezes até o taloosei — disse em tom de orgulho. — Nem sei dizer quantas vezes participei de jogos mais suaves... Para sua desgraça foram muitas vozes, Kutlós.
Nesse instante, o sumo sacerdote de Saós recuperou seu senso estratégico. Limitou-se a responder com um aceno de cabeça. Enquanto tirava a roupa, Tasnor, que era seu informante, estava com o rosto muito pálido. Agtlos, outro sacerdote, ajudou Egtoor, o árbitro, a trazer as armas.
Hepna-Kaloot foi o primeiro a avançar. Segurava o bule de água na mão direita. O punhal saía do cinto da calça grudada à pele. O espia oval flutuava acima de sua cabeça. O transmissor pertencente a Kaloot estava pendurado sobre os ombros do sacerdote. A pequena tela lhe permitiria acompanhar todos os movimentos de Kutlós, a não ser que este conseguisse destruir o espia.
Boa sorte, Hepna-Kaloot — disse Egtoor, seguindo as tradições.
Persiga-o — ordenou Kutlós a Tasnor, que se sentia muito infeliz. — Quero ser informado constantemente sobre sua posição. E preciso saber o que pretende fazer com a água.
Guardou a arma de radiações e pendurou a corda de Lagoo sobre o ombro. Estava equipado.
Por que não tira a roupa, Kutlós? — perguntou Egtoor.
Estou envergando as vestes do sumo sacerdote — respondeu Kutlós, em tom compenetrado. — Usei-as por muito tempo, e não me despojarei delas, nem mesmo durante a luta.
Os rostos dos sacerdotes retratavam seus pensamentos. Kutlós imaginava o que ia por suas cabeças.
Vivera dentro dessas vestes e dentro delas lutaria.
Continuaria a usá-las, mesmo depois que Hepna-Kaloot o obrigasse a iniciar o taloosei.
A palavra taloosei é de difícil tradução. Seu sentido equivale ao de um suicídio por desespero.
Em sua forma mais violenta, o jogo de Paloot trazia a morte a um dos lutadores.
Tasnor saiu da sala sem dizer uma palavra. Chegara a hora de Kutlós também se retirar. Caminhou com o corpo ereto em direção à porta. Antes que chegasse a ela, ouviu-se o alarma estridente do sistema de localização de abalos estruturais. Kutlós parou. Não era possível que tivesse tanta sorte.
Sumo sacerdote! — gritou uma voz exaltada.
Kutlós fez meia-volta e retornou para junto dos companheiros. Os reflexos das naves terranas já se haviam imobilizado. Percebia-se nitidamente o motivo. Pelo menos dez mil naves haviam surgido do hiperespaço e penetravam no sistema Saós.
Não eram unidades solares. Kutlós teve de apoiar-se com ambas as mãos para dissimular seus sentimentos.
Estão chegando!? — gritou fora de si. — O imperador vem em nosso auxílio?!
A resposta veio sob a forma de um grito de júbilo. Os aparelhos de localização tremiam sob a formidável carga. Um abalo leve fazia estremecer o edifício. Isso significava que as unidades arcônidas haviam emergido do hiperespaço numa perigosa proximidade. As tremendas cargas energéticas faziam com que ondas de tremor de terra percorressem o planeta Saós.
Kutlós teve uma sensação de triunfo. Mais uma vez sua tática fora vitoriosa. Alcançara a maior de todas as vitórias. Era só uma questão de tempo para que as duas frotas entrassem em choque.
Ouviu-se um rangido, vindo da porta da sala dos instrumentos. Kutlós levantou os olhos. Com uma expressão de incredulidade fitou o objeto que flutuava a meia altura entre o chão e o teto.
Era o espia de Hepna-Kaloot!
O sacerdote não tomara conhecimento da mudança da situação, ou então agia por puro desespero. Fora a primeira vez que Kutlós se afastara de sua tática, e a conseqüência era esta luta absurda com Hepna-Kaloot. A batalha das espaçonaves, que Saós esperava, tornar-se-ia de importância secundária.
A presença do espia não permitia a menor dúvida. Hepna-Kaloot abrira o jogo.
Num gesto discreto Kutlós pegou a arma de radiações. O espia planava acima da porta como um inseto ofuscado pela luz. Hepna-Kaloot estava escondido em algum lugar, esperando o adversário. O espia permitia-lhe ver todos os movimentos do sumo sacerdote projetados na tela.
Num movimento rapidíssimo Kutlós levantou a arma. O objeto voador desceu rapidamente. O tiro disparado pelo sacerdote fez uma abertura negra na parede. O espia saiu apressadamente da sala.
Os instrumentos de localização transmitiram o ruído rítmico dos rastreadores energéticos. A frota arcônida aproximava-se rapidamente. As naves esféricas dos terranos também voltaram a movimentar-se. O cerco se desfazia. Kutlós quase chegou a acreditar que a Frota Solar fugiria. No entanto, as unidades da mesma apenas mudavam de posição.
Tasnor entrou. Tinha os cabelos caídos na testa. Fitou Kutlós; parecia olhar através dele.
Hepna-Kaloot está na unidade energética número três — anunciou com a voz apagada. — A mesma foi parcialmente destruída durante o ataque simulado dos saltadores. Está escondido nos destroços.
Arregalou os olhos e concluiu:
Avançou contra mim com o punhal.
Kutlós acenou com a cabeça. Parecia zangado. Seu rosto magro e flácido assumiu uma expressão dura. Teria de pagar por seu triunfo. Lançou mais um olhar para as telas. O plano dera certo.
Continue a observá-lo — disse, dirigindo-se a Tasnor.
Seu representante afastou-se para prosseguir em sua tarefa macabra. Kutlós não sentiu nenhuma compaixão pelo jovem sacerdote. Pensou em seu grande triunfo. E em Hepna-Kaloot, que o esperava para levá-lo até o taloosei.
Kutlós retirou-se da sala para pagar o preço que em sua opinião era devido por um homem de seu tipo que se afastava de sua tática, por uma só vez que fosse.
Saiu andando, magro e alto, com as passadas cautelosas e as mãos pálidas de tão firmemente que seguravam a arma.
Nunca mais voltaria.
4



Quando o General Alter Toseff venceu de vez a dor causada pela transição, o imperador já estava de pé diante dos aparelhos de localização. Toseff balançou a cabeça e ergueu-se do leito. Atlan virou-se para ele.
O sacerdote falou a verdade. Quatro mil naves dos bárbaros estão reunidas em torno de Saós. Pelo que se conclui de sua posição, estão empenhadas nos preparativos da invasão.
Os ponteiros dos localizadores de massa subiram para a posição máxima. Inúmeras luzes acenderam-se nas telas dos oscilógrafos. O planeta Saós aparecia nas telas sob a forma de um segmento de círculo. Os campos gravitacionais do planeta já começavam a atingir as naves arcônidas, mas seus jatos-propulsores superpotentes venceram-nos com a maior facilidade.
Atlan sabia perfeitamente que naquele momento seria inútil assumir o comando das dez mil unidades robotizadas. Os computadores de bordo controlavam as naves. Todas elas mantinham contato com o centro de computação de Árcon, que numa questão de segundos interpretava os dados e orientava a ação das naves de acordo com essa interpretação. Atlan deixara que naquele momento o piloto automático cuidasse até mesmo das manobras da nave capitania.
Gonozal VIII não tinha a intenção de atacar sem aviso. Sabia que o centro de computação faria com que as diversas unidades se colocassem em posição de ataque, mas depois disso ele o consultaria. Do lado de Árcon não seria disparado um único tiro sem ordens expressas de sua parte. A disposição das naves arcônidas era uma ameaça em forma de ultimato, e Atlan queria que Rhodan a interpretasse dessa forma.
Atlan continuava a nutrir esperanças de que conseguiria estabelecer um entendimento razoável com o amigo.
Ao que parece ainda não pousaram no planeta, majestade — conjeturou Toseff, depois de lançar um olhar para os instrumentos.
Suspenderam as manobras de pouso — respondeu Atlan. — Perceberam imediatamente a nossa presença. A esta hora devem estar refletindo sobre a maneira de enfrentar simultaneamente dez mil naves e a base.
O arcônida de Saratan pôs-se a refletir e disse:
Tomara que não tenham alguma idéia que nos possa trazer dificuldades.
Atlan sorriu. Algumas rugas surgiram em seu rosto.
Estão num beco sem saída — disse. — Eles sabem avaliar situações como esta. Daqui a pouco tentarão entrar em contato conosco.
Para o general, aquilo tinha o encanto forte da novidade. Passara a maior parte da vida em Saratan, um pequeno planeta muito fértil, coberto de colinas suaves e habitado de animais peludos de olhos grandes. Ao olhar para trás, não compreendeu como conseguira sentir-se satisfeito num lugar como este. De repente teve a impressão de que Saratan seria apenas o lugar ideal para um velho que quisesse passar seus últimos dias de vida na santa paz.
Nunca me teria dado conta disso”, refletiu, muito perplexo. “Minha vida se teria desvanecido sem que nada me perturbasse.”
Naquele momento Toseff compreendeu o significado da inquietude interior que muitas vezes sentira. Era apenas a expressão de uma busca inconsciente por um novo campo de atividade.
O general observou a tela. Viu o segmento esférico de Saós como parte apagada de um mundo estranho. Teve a impressão de estar sonhando.
Adeus, Saratan — disse em voz baixa.
O imperador não respondeu à observação, se é que a ouviu. Alter Toseff respirou profundamente. Seria um instinto mau que provocava a combatividade em seu espírito? Ou seria apenas uma reação natural? Havia alguma coisa represada dentro dele, alguma coisa que procurava libertar-se a toda força.
Sem dizer uma palavra, ficou de pé ao lado de Atlan e acompanhou os acontecimentos nas telas. As naves terranas continuavam a modificar sua posição. Mas notava-se perfeitamente que os grupos de ataque se iam dissolvendo. As naves esféricas do planeta Terra assumiam típica posição defensiva. Três naves formavam uma espécie de vanguarda à frente de cada grupo. Atrás, abaixo e acima delas oito espaçonaves mantinham-se em movimento. Os flancos dessa formação esférica eram defendidos por cruzadores ligeiros. Toseff sabia avaliar a eficiência dessa formação defensiva.
No caso de um ataque desfechado por unidades inimigas, as três naves da frente avançariam rapidamente, tentando romper a falange dos atacantes. Na maior parte das vezes devia-se contar com a perda dessas naves arrojadas. De qualquer maneira elas mantinham ocupado o inimigo, impedindo-o de concentrar todas as forças no ataque ao grupo...
Tal formação, enfim, servia para proteger os flancos, desempenhando um papel importante, para arrumação da retaguarda.
Aos poucos, os comandantes terranos foram formando inúmeros triângulos defensivos desse tipo em torno de Saós.
Nós os obrigamos a entrar na defensiva — disse Atlan, satisfeito. — Dessa forma se mostrarão mais dispostos a negociar.
No seu íntimo não estava muito convencido disso. Suas palavras apenas exprimiam alguma coisa pela qual ansiava fortemente. Quando alguém queria obrigá-los a capitularem, os terranos costumavam ser bastante inacessíveis. E era exatamente essa a finalidade da reunião das dez mil naves arcônidas.
O planeta Saós não possuía nenhum valor. Sob o ponto de vista econômico, sua destruição não significaria qualquer prejuízo para o Grande Império. O que estava em jogo era tão-somente o prestígio militar. Atlan não podia permitir que frotas estranhas atacassem planetas situados sob o domínio de Árcon. Devia resguardar seu prestígio face aos numerosos aliados e mundos coloniais.
Um tanto abatido, Atlan entrou em contato com o gigantesco computador, que nestas horas lhe prestava inestimáveis serviços.
Mantenha as naves em posição de ataque — ordenou com a voz calma. — Todas as armas devem ficar prontas para disparar. Daqui em diante, eu comandarei as unidades robotizadas.
O gigantesco centro de computação confirmou o recebimento da mensagem. Atlan dirigiu-se ao General Toseff. A boa iluminação da sala de comando permitiu-lhe reconhecer as linhas finas que se desenhavam no rosto do saratanense.
Dar-lhes-emos trinta minutos para entrar em contato conosco — disse.
Os olhos de Toseff formularam uma indagação muda.
Depois disso atacaremos! — disse Atlan.
Até então essas palavras para ele nunca tinham sido mais que um pesadelo. Mas, naquela hora amarga, elas se transformaram em realidade.

* * *

Thomas Cardif sentiu a crescente debilidade de sua substância espiritual. Podia acompanhar o processo com toda nitidez, como quem assiste a um filme. A parte instintiva de seu ser sobrepujava cada vez mais os setores da lógica e do raciocínio.
Quando as naves arcônidas saíram do hiperespaço, berrou durante alguns minutos e ordenou o ataque imediato — ordem que só abandonou depois de grandes esforços desenvolvidos por Bell. Tais atos provavam que seu intelecto já não possuía a mesma capacidade de discernimento de antes.
Cardif, que lutava contra sua deficiência mental, obrigou-se a agir refletidamente e a falar com lógica. No entanto, seus instintos, seu espírito revolto e suas imprevisíveis irrupções sentimentais constantemente levavam de roldão essas débeis tentativas de ação coerente. Cardif transformava-se progressivamente num prisioneiro de sua dupla personalidade.
A preocupação muda de seus oficiais, os olhares sérios trocados pelos mesmos e o clima tenso, que reinava a bordo da Ironduke, não ajudavam Cardif a ter mais paciência. Parecia mais irritadiço que um touro ferido. Qualquer crítica, por mais diplomática que fosse, fazia com que perdesse o controle dos nervos.
Seus olhos chamejantes fitavam as telas que retratavam nitidamente as posições de ataque das naves arcônidas. As unidades aproximavam-se como se fossem pérolas fulgurantes em meio ao negrume das telas, formando correntes luminosas.
Parece que é uma frota de dez mil naves robotizadas — observou g Bell, em tom indiferente.
Cardif teve a impressão de que havia um tom de advertência na voz do gorducho.
E daí? — perguntou em tom furioso. — Elas não me deterão.
Fitou seu próprio corpo e ajeitou o pulôver.
Quero que os robôs façam imediatamente outra jaqueta de uniforme e que tragam uma que caiba no meu corpo — disse em tom contrariado. — Quero apresentar-me a esse rei estelar arrogante com todas as minhas condecorações, caso ele queira conversar comigo.
Um olhar cético de Bell fê-lo saber que ninguém acreditava que Atlan entrasse em contato de rádio com a frota terrana. Pelo contrário, na opinião dos oficiais seria Rhodan quem teria de entrar em contato com Atlan.
O Major Krefenbac deu ordem para que trouxessem a nova jaqueta. Até então Cardif não voltara a tentar a substituição do imediato da nave.
Tenho a impressão de que não cairão imediatamente sobre nós — disse Bell, depois de lançar ligeiro olhar para os instrumentos de localização. Parecia visivelmente aliviado. — Estão mantendo suas posições.
Esse bando de insetos — gritou Cardif, em tom odiento.
Corria diante dos registros dos rastreadores estruturais que nem ura animal enjaulado. Seu olhar parecia martirizado. Era mais alto que qualquer outro dos homens que se encontravam a bordo. E seu rosto sofrerá uma modificação horrível. Perdeu a expressividade e foi-se transformando progressivamente numa massa carnuda, sem contornos definidos. O tamanho dos poros estava aumentado, o que causava uma impressão repugnante quando havia alguma transpiração. Só os olhos, amarelos como os de um felino, conferiam certa característica a esse rosto que se ia desmanchando. Dominavam inteiramente esse rosto, da mesma forma que duas luzes fortes podem dar a impressão de que dominam uma paisagem escura.
O homem que, segundo todos acreditavam, era Perry Rhodan, transformou-se numa criatura monstruosa, cujo aspecto bastava para deixar preocupadas as pessoas que a cercavam.
São mais perigosos que insetos — disse o Major Claudrin, pensativo. — Se Atlan der ordem de atacar, não poderemos resistir por muito tempo às investidas de suas naves robotizadas.
O homem nascido em Epsal já não via a menor possibilidade de descobrir qualquer sentimento no rosto inchado do administrador. E isso fazia com que se sentisse inseguro. Estava acostumado a informar-se sobre os pensamentos íntimos dos seus interlocutores através da mímica. Não que o rosto de Rhodan fosse inexpressivo, mas era praticamente impossível interpretar as modificações que o mesmo sofria. Para Claudrin, o tremor das carnes volumosas e os repuxos quase imperceptíveis da pele flácida não significavam nada. O próprio major não era uma figura humana ideal, no que dizia respeito ao aspecto exterior. A gravitação de Epsal, que superava em muito os padrões terranos, fizera dele um homem que tinha o aspecto de um urso que anda sobre as patas traseiras. A largura de Claudrin era quase igual à sua altura, que alcançava pouco mais de um metro e sessenta centímetros. Apesar de tudo seu aspecto não era repugnante. Sua constituição orgânica adaptara-se às condições reinantes em Epsal, pois, desde o nascimento, ele se desenvolvera sob os efeitos de uma gravitação mais elevada.
Sob o ponto de vista de Claudrin — ou seja, sob o ponto de vista de um homem nascido em Epsal — os terranos também eram criaturas disformes, tal qual certas inteligências humanóides. Um homem pode achar que um sapo é uma criatura repugnante. E, como estas não têm nenhum meio de comunicar-se conosco, elas não nos podem dizer que nos acham muito feios. A questão da beleza, e do seu oposto, a feiúra, é algo relativo, que só pode ser formulada no seio de cada espécie.
Provavelmente uma mulher de Terrânia veria em Jefe Claudrin uma figura bizarra, enquanto as moças de Epsal, cuja largura era quase igual à de Claudrin, se sentiriam enlevadas diante da figura marcante do major.
Mas a feiúra de Rhodan não era desse tipo. Até mesmo os terranos, ou seja, os membros de sua raça, viam nele uma criatura fisicamente anormal. Certas raças de pássaros da Terra costumam matar os filhotes malformados, atirando-os para fora do ninho sem a menor compaixão. Qualquer espécie, inclusive a humana, traz dentro de si certos preconceitos contra as criaturas disformes. Sob o ponto de vista psicológico, essa atitude não chega a ser condenável, já que tem sua origem no instinto eterno, que garante a sobrevivência da espécie. Mas o homem, um ser inteligente, capaz de raciocinar, criou certas leis que determinam a tolerância e a igualdade de direitos.
A sensação desagradável continuou. A compaixão e a vontade de ajudar não podiam apagar o fato de que o complexo de Frankenstein está indissoluvelmente ligado à condição humana. Uma criatura humana desfigurada por queimaduras provoca compaixão, mas ninguém se aproximará dela mais do que o estritamente necessário.
O homem não costuma matar as criaturas disformes de sua raça, mas inconscientemente faz uma coisa que talvez seja muito mais cruel. Elimina psiquicamente essas lamentáveis criaturas, evitando todo o contato com as mesmas.
Os oficiais da Ironduke eram apenas criaturas humanas, tangidas e dirigidas pelos sentimentos humanos. Aos poucos, Rhodan transformava-se numa criatura proscrita, num estranho. À medida que se tornava mais deformado, crescia a compaixão e o desejo de isolar-se dessa criatura.
O Major Jefe Claudrin, que era um modelo de tolerância humana, sentiu que tal compaixão crescia perceptivelmente entre ele e Rhodan. Este estava sujeito a uma metamorfose que fazia com que não mais parecesse um homem no sentido normal e convencional.
É que tudo que acontecia com ele era inumano.
Cardif interrompeu suas andanças diante dos indicadores.
Atlan procura intimidar-nos. Acredita que poderá exercer pressão contra nós para tornar-nos submissos. Nós lhe faremos uma surpresa nada agradável, não é mesmo, Bell?
A pergunta foi proferida aos berros. O rosto de Bell continuou muito sério. Respondeu com a voz embargada:
Atlan dispõe de muito mais que o dobro das nossas naves. Nestas condições acho que qualquer tentativa de pousarmos em Saós seria puro suicídio, e nunca passaria de uma tentativa.
Cardif soltou uma risada.
Vou recolher-me ao camarote — disse. — Assim que os robôs tiverem terminado o novo uniforme, estarei disposto a falar com Atlan.
Saiu apressadamente da sala de comando. O Major Claudrin pigarreou.
Queira desculpar, sir — disse, dirigindo-se a Bell. — Acho que nossa situação é insustentável. Sob o ponto de vista estratégico estamos perdidos. Se o arcônida mandar que suas naves abram fogo, seremos esmagados.
Bell acenou com a cabeça. Parecia desesperado. Estavam empenhados num jogo de azar de natureza militar; acontecia que jogavam sem trunfos. Nem sequer poderiam blefar, pois até mesmo um cadete da Academia Espacial seria capaz de interpretar qualquer lance da frota terrana que estava cercada.
Só nos resta fazer votos de que o... — principiou Bell.
Mas foi interrompido pela exclamação nervosa do Major Krefenbac:
Sir, uma mensagem. Alguém está chamando pelo rádio comum.
Com alguns passos, o representante de Rhodan colocou-se à frente do aparelho e colocou-o em recepção. Muito tensos, os homens fitaram a tela do videofone. Todos esperavam ver o rosto marcante de Atlan.
Acontece que não era Atlan que chamava a Ironduke. O homem que surgiu na tela era calvo; apenas tinha um círculo de cabelos ralos. Seu rosto inteligente estava marcado pela preocupação.
Mercant! — gritou Reginald Bell, surpreso. — De onde veio o senhor?
Se as dez mil belonaves arcônidas não o mantivessem tão ocupado, o senhor não teria deixado de notar que os rastreadores estruturais da Ironduke deram um sinal — respondeu o chefe da Segurança Solar, aparentando autocontrole. — Neste momento estou solicitando passagem livre entre as unidades da frota de Atlan. Encontro-me a bordo do cruzador ligeiro Acapulco. O comandante é o Major Burggraf.
De certa forma a presença de Mercant fez com que Bell se sentisse mais aliviado. Aquele homem era também um dos maiores confidentes de Rhodan. Talvez a influência que exercia sobre o chefe ainda poderia salvar a situação.
Allan — disse Bell em tom cordial. — Sinto-me feliz porque o senhor veio.
Mercant sorriu.
O senhor não pode esperar que esta pequena nave restabeleça o equilíbrio militar neste setor espacial.
Quer dizer que o senhor já percebeu que as naves robotizadas de Árcon não estão aqui para apoiar-nos?
Deram-me a entender isso de forma bastante drástica — informou Mercant com a maior tranqüilidade, como se estivesse relatando um piquenique. — Um certo General Toseff ameaçou-me, por ordem de Atlan, com os canhões de impulsos de uma daquelas naves gigantescas. Suponho que o imperador também se encontre a bordo — sorriu. — Obtive permissão para avançar até aqui. Ao que parece não me julgam muito perigoso.
Recolheremos o senhor — retumbou a voz do Major Claudrin, que observava na tela a aproximação da Acapulco.
Está bem — disse o chefe da Segurança. — O Major Burggraf receia que só nos deixaram passar porque têm certeza de que não conseguiremos voltar se por aqui as coisas ficarem realmente sérias.
Talvez o major tenha razão — disse Bell. — Perry não permite que ninguém o convença de que não deve atacar Saós. Ele está... — hesitou Bell. — Bem, veja com seus próprios olhos.
O senhor quer dizer que suas alterações físicas continuam.
As alterações não são apenas físicas, Mercant.
Compreendo.
O homem que controlava o gigantesco serviço secreto da Galáxia fechou os olhos por alguns segundos e depois falou.
O Major Burggraf acaba de anunciar que o jato espacial está pronto. Vou me transferir para a Ironduke. Depois disso conferenciaremos sobre o que ainda poderemos fazer para evitar que aconteça o pior.
Está bem, Mercant — concordou Bell.
O rosto do chefe de Segurança foi-se apagando, deixando para trás um pouco de esperança de que ainda encontrariam uma saída do beco em que se haviam metido.

* * *

Quando Allan D. Mercant entrou na sala de comando e pilotagem da nave linear Ironduke, lançou um olhar indagador para os oficiais reunidos.
Onde está ele? — perguntou.
No camarote — informou Bell. — Está esperando que os robôs confeccionem um uniforme novo para ele. O que usava ficou muito apertado. Faz questão de usar todos os distintivos no momento em que se defrontar com Atlan.
É estranho — disse o homem calvo que comandava a Segurança. — Não me lembro de que antigamente Rhodan fosse de opinião que o uniforme faz o homem.
Suas opiniões também mudaram em outros pontos — disse Bell, sem o menor ressentimento. — Às vezes chego a acreditar que o chefe se transformou num homem totalmente diferente.
Reginald Bell se aproximara muito da verdade. Não tinha a menor suspeita de Cardif-Rhodan, mas constatava as modificações que se verificavam na personalidade do amigo. Dificilmente alguém conhecera Rhodan melhor que Bell.
Um dia superará tudo isso — disse Mercant. — Enquanto isso devemos fazer o possível para evitar que a Humanidade sofra algum prejuízo... irreparável.
O Dr. Riebsam apontou para os instrumentos de localização. Seu raciocínio lógico fez com que formulasse uma objeção:
O que vem a ser isso, sir?
Falaremos com Atlan — disse Mercant, em tom resoluto. — O que acha da idéia, Bell?
Num gesto nervoso, Bell passou a mão pelo cabelo ruivo espinhento. Mordeu o lábio inferior. Mercant observava-o numa atitude de expectativa.
Acha que devemos agir por conta própria, sem informar Perry?
O chefe da Segurança abriu os braços. Suas mãos eram muito bem cuidadas. Usava, como sempre, um uniforme simples.
Não temos outra alternativa. O imperador deve ser informado sobre o estado em que se encontra o chefe. Dessa forma talvez consigamos evitar que ele nos ataque.
Concordo com o senhor! — exclamou Jefe Claudrin.
Sua pele com aspecto de couro começou a mostrar manchas causadas pelo nervosismo. Era esta a chance pela qual todos haviam esperado. Mas, em última análise, tudo dependeria da concordância de Bell. Ele e Mercant carregariam a responsabilidade por um procedimento desse tipo.
Quando o administrador se encontra a bordo de uma nave, assume automaticamente o comando da mesma — lembrou Bell, em tom preocupado. — Rhodan é o comandante desta frota. Todas as ordens devem partir dele. Se ficar sabendo que agimos atrás das suas costas...
Bell não disse o que aconteceria nesse caso.
Compreendo suas preocupações — falou Mercant erguendo ligeiramente a voz. — Apesar disso deveríamos arriscar. Afinal, não existe qualquer ordem de Rhodan que nos proíba falar com o almirante.
Perry deu a entender que as negociações deveriam ser iniciadas por Atlan — lembrou o representante de Rhodan, em tom pensativo.
Dirigiu-se ao Major Krefenbac.
Major, procure saber quando os robôs terminarão a confecção do uniforme.
Krefenbac usou o sistema de intercomunicação para entrar em contato com o setor da Ironduke em que trabalhavam os robôs. Dali a alguns segundos anunciou:
Demorará mais algum tempo, sir.
É uma decisão muito difícil — disse Bell, em voz baixa. — Isto parece cheirar a conspiração.
Será que estaremos praticando um ato de traição se conseguirmos salvar a vida de alguns milhares de homens? — perguntou Mercant. — Queremos ajudar o chefe. E para isso temos de evitar qualquer conflito que possa degenerar numa guerra cósmica. Não precisamos usar cada minuto de que dispomos para combater a terrível doença de Rhodan? Em Saós nunca descobriremos nada sobre o misterioso planeta Trakarat, se matarmos todos os antis. Além disso, Atlan nunca permitiria que fizéssemos isso.
Está bem; o senhor ganhou — disse Bell. — Jefe, procure estabelecer contato com a nave capitania dos arcônidas.
Claudrin, que face à sua constituição física sempre parecia lento, cumpriu a ordem com uma espantosa rapidez.
Peçam que nos avisem quando o novo uniforme for entregue a Rhodan — disse Bell, dirigindo-se ao Major Krefenbac.
Não quero que entre aqui, no momento em que estivermos falando com Atlan.
Em sua imaginação desenhou-se o quadro deprimente de um Rhodan, entrando na sala de comando e gritando com os olhos chamejantes, à procura do culpado.
Essa idéia provocou uma sensação estranha em Bell. No primeiro momento não conseguiu defini-la, mas depois de algum tempo deu-se conta do que estava sentindo.
Era medo!
Não sabia se esse medo tinha sua origem na possibilidade de perder o amigo de vez. No momento isso não lhe importava nem um pouco. O que lhe importava era que a sensação de desconforto que experimentava se transformara em medo. Não demoraria, e o medo seria substituído por um leve pavor.
E então?”, indagou-se mentalmente.
Bell fechou os olhos. De repente desejou que estivesse bem longe dali, longe de Saós, longe da Ironduke e longe de todos esses acontecimentos. Ansiava pela calma e pela solidão.
São os nervos”, pensou. “A sobrecarga constante vem me prejudicando.”
Sem dizer uma palavra, viu Claudrin mover os controles necessários para irradiar uma mensagem destinada à frota arcônida. Muito nervoso, fitava constantemente a porta de entrada da sala de comando. O comportamento de Rhodan era imprevisível, motivo por que tinham de contar com a possibilidade de que entrasse a qualquer momento.
Acabo de completar a ligação, sir — anunciou Claudrin, que de tão nervoso esquecera-se da sala de rádio e havia ligado a tela comum.
Bell aproximou-se lentamente. Era desagradável informar Atlan dessa maneira. Sentia-se culpado diante do imperador, que substituíra o grande centro de computação de Árcon III no governo do império.
Mas o rosto que surgiu na tela não era o do almirante. Bell viu um arcônida desconhecido de pele morena e cabelos curtos.
Sou o General Toseff — disse o desconhecido a título de apresentação. — O que deseja, terrano?
A voz era fria e arrogante. Para um arcônida, aquele general irradiava uma dose surpreendente de energia. Bell empertigou-se. Não era hora de bancar o ofendido. Precisava agir.
Meu nome é Bell — disse com a maior tranqüilidade. — Ligue-me com Gonozal VIII, imperador de Árcon.
Toseff sorriu apenas o suficiente para dar uma expressão irônica e arrogante ao seu rosto.
Sua Majestade só falará com o administrador da Terra — anunciou.
Instintivamente Bell deu um passo em direção ao aparelho. Cerrou os punhos. Mercant parecia sentir a indignação que se apossara de Bell. Falando em tom apressado, disse:
Rhodan está doente. Informe o imperador sobre isso. Diga-lhe que temos muita urgência em falar...
Toseff interrompeu-o em tom áspero:
Não adianta tentar dessa maneira.
Antes que Bell tivesse tempo de informar o arcônida de que ele o considerava um convencido arrogante, o general desapareceu da tela e o rosto de Atlan surgiu na mesma. Gonozal VIII parecia cansado.
Está bem, Bell — disse com a voz tranqüila. — O General Toseff agiu assim por minha ordem.
A expressão sombria do rosto de Bell não se modificou.
Perry não sabe que estamos falando com você — disse. — Mercant, John Marshall, Freyt, Claudrin, todos querem retirar a Frota Solar do setor pertencente ao Grande Império. Mas isso não é tão simples assim. Depois que Perry ficou preso em Okul, ele está mudado. Ainda não se recuperou do choque. Além disso, sofre de uma tal de cisão celular explosiva. É o nome que os médicos deram à doença. Na verdade, parece que cresce e incha ininterruptamente. Você dificilmente o reconheceria.
Já não entendo mais nada — respondeu Atlan, com a voz fria. — O que é que sua doença tem que ver com Saós?
Perry supõe que os antis sejam culpados de sua doença. Quer obrigá-los a ajudá-lo. Em sua opinião devem ser capazes de paralisar o ativador celular que funciona sem o menor controle. Estamos à procura de um planeta misterioso. O nome é Trakarat. Pelo que dizem, é o mundo central dos antis. Os sacerdotes usaram um truque para levar-nos a acreditar que Saós é o planeta Trakarat.
As violações cometidas pela Frota Solar são cada vez mais numerosas — queixou-se o imperador. — Ninguém pode exigir que cedamos constantemente às perigosas extravagâncias de Rhodan.
Mercant, que se mantivera quieto durante todo o tempo, disse com a voz insistente:
Somos amigos de Rhodan, Atlan. O senhor também se diz amigo dele. Apóie-nos em nossos esforços de curá-lo o mais rápido possível. Seu estado é inquietante. Devemos recear o pior. Dá ordens e instruções que antigamente lhe teriam provocado risos.
Retire as naves terranas deste setor — exigiu Atlan, — É a única possibilidade.
Bem que eu gostaria que você o visse! — exclamou Bell, em tom exaltado. — Será que você é mesmo capaz de recusar o apoio que lhe pedimos? Será que se esqueceu do que ele fez por você e pelo seu império? Acredita que ele fez isso para destruir tudo mais tarde? Não; Perry está doente, e por isso não podemos condená-lo. Precisamos pôr as mãos no sumo sacerdote que está em exercício em Saós. Só ele deve possuir informações que nos permitam tomar outras medidas.
Uma ruga profunda surgiu na testa de Atlan. Por um momento sua mão entrou no campo de visão. Passou-a sobre os olhos.
Como se parecem!”, pensou Bell, profundamente abalado. “Atlan e Perry... o Perry de antigamente.”
Depois de um momento de silenciosa reflexão, interrompida apenas pelo zumbido dos aparelhos, Gonozal VIII disse:
Quer dizer que vocês pretendem atacar Saós?
Pretendemos — responderam Bell e Mercant a uma voz.
Naturalmente existe uma possibilidade de que esta mensagem de rádio não passe de um truque — disse Atlan. — Mas, mesmo assim, vejo-me obrigado a confiar em que vocês estejam dizendo a verdade.
Isso já aconteceu tantas vezes — disse Bell, em tom suave.
Não recriminava Atlan pela atitude que estava tomando. Se estivesse em seu lugar, certamente não teria agido de outra maneira. No entanto, não poderia fazer mal nenhum lembrar Atlan de que no passado costumava confiar em seus amigos terranos.
É possível que eu esteja cometendo um erro grave, mas por enquanto darei ordens para que a frota não intervenha — disse Atlan. — Mandarei que as naves ocupem uma posição tal que o sistema Saós seja bloqueado por uma formação esférica. Se acontecer qualquer coisa que não corresponda ao que combinamos, darei imediatamente ordem de ataque. Nenhuma unidade terrana conseguirá romper a esfera formada pelas pesadas unidades robotizadas.
Existe uma possibilidade de evitar um ataque global das nossas espaçonaves esféricas ao planeta Saós — anunciou Bell.
Pela primeira vez um sorriso surgiu no rosto do gorducho.
Atlan e Mercant pareciam muito interessados. Mas, ao que parecia, Bell não estava disposto a dar maiores informações.
Foi apenas uma idéia — disse. — Tudo depende do que Perry queira fazer.
Sir! — gritou o Major Krefenbac, que se mantinha nos fundos da sala de comando. — Os robôs terminaram o uniforme. Neste momento, está sendo entregue no camarote de Rhodan.
Vamos ficar por aqui, almirante. — disse Bell. — Torça para que tudo dê certo.
Atlan levantou as mãos para que aparecessem na tela e acenou. Pela primeira vez aparentou amabilidade.
Não houve necessidade de explicar aos oficiais da Ironduke o que Atlan quis dizer com isso. O imperador não acreditava que isso fosse dar certo. As duas partes já se haviam envolvido demais.
Jefe Claudrin desligou o rádio.
Por enquanto ainda podemos agüentar nosso amigo — disse.
Agora tudo dependeria de Rhodan. A idéia de que, dali a pouco, Rhodan voltaria à sala de comando fez Bell estremecer. Agora, uma responsabilidade dobrada pesava sobre seus ombros, pois também assumira obrigações perante Atlan.
Acho que já está na hora de o senhor nos informar sobre suas idéias — disse Allan D. Mercant, levantando a voz.

* * *

Thomas Cardif enfiou-se no uniforme e o abotoou. O robô que lhe trouxera a jaqueta já se retirara. Cardif contemplou seu corpo com os olhos embaçados. Teve a impressão de que aquela peça de roupa produzira uma modificação favorável em seu aspecto. Seu corpo inchado recebera nova “embalagem”. Não perdeu tempo. Prendeu ao uniforme as distinções a que seu pai fizera jus. Suas mãos tremiam, pois estava com pressa; queria ficar pronto em tempo.
Estava plenamente convencido de que Atlan falaria com ele para implorar a paz. Se fosse necessário, poderia chamar maior número de naves terranas para Saós.
Contemplou-se nos restos do espelho que ficaram presos na moldura. Uma grande rachadura dividiu seu rosto em duas partes, dando-lhe um aspecto ainda mais diabólico.
Cardif soltou uma risadinha. Estava na hora de voltar a entrar em contato com os médicos de Terrânia. Teriam de fazer alguma coisa para curá-lo.
Saiu do camarote arrastando os pés. O corredor pelo qual passou só estava iluminado em certos trechos. Toda vez que Cardif saía do círculo luminoso projetado por uma lâmpada, via uma sombra confusa no chão, que se desmanchava imediatamente assim que penetrava na luz de outra lâmpada. Cardif fitou a sombra que retornava constantemente. Estreitou os olhos. Preferiu não utilizar a fita transportadora. Continuou a caminhar pelo corredor. Cambaleava de uma luz para outra que nem uma mariposa. Tinha a impressão de que era repelido até pelas luzes...
De repente outro vulto surgiu à sua frente. Cardif teve uma idéia maluca; talvez fosse sua sombra transformada em carne e osso. Estendeu os braços e aproximou-se da mesma.
Sir... — disse alguém.
Cardif teve de fazer um grande esforço para libertar-se do estado de ânimo que se apossara dele. Fitou atentamente a pessoa que se encontrava à sua frente. Era um oficial da guarda de bordo.
O que houve? — perguntou em tom contrariado.
Pensei... pensei que o senhor não estivesse passando bem — gaguejou o homem, bastante confuso.
Com o corpo inclinado e as mãos abertas em garra, Cardif parecia uma ave de rapina. Viu o medo nos olhos de seu interlocutor e notou o tremor de suas bochechas.
O estado daquele oficial transmitiu uma sensação de superioridade a Cardif. E essa sensação salvou o homem da morte.
Saia do meu caminho! — ordenou o administrador. — Se eu estivesse doente, chamaria um médico.
Sim, senhor! — disse o oficial, muito embaraçado.
Afastou-se para o lado, comprimindo-se contra a parede. Cardif passou sem olhá-lo. Sabia que o oficial o seguia com os olhos.
Quando Thomas Cardif entrou na sala de comando, seu instinto lhe disse que acontecera algo de decisivo. Não conseguiu descobrir o que era, mas a sensação inconfundível fazia crescer sua desconfiança doentia. Aproximou-se dos instrumentos de localização numa atitude propositadamente relaxada. Constatou que as naves arcônidas haviam voltado a colocar-se em movimento, sem assumir a posição de ataque.
O que significa isso, major? — perguntou, dirigindo-se a Claudrin.
Eles nos cercam — respondeu o homem nascido em Epsal. — Formarão uma concha impenetrável em torno de Saós, sir. Isso significa que não poderemos sair do sistema, a não ser que Atlan nos deixe passar.
Cardif-Rhodan fez um gesto de desprezo.
É claro que o arcônida está com medo — constatou em tom de satisfação. — Se tivesse tanta certeza da vitória não deixaria de atacar.
Deu as costas a Claudrin e só então viu Allan D. Mercant.
De onde veio o senhor? — perguntou.
O chefe de segurança conseguiu sorrir. Apesar disso não pôde disfarçar o abalo que lhe causava o aspecto de Rhodan. O administrador transformara-se num gigante... disforme.
Pensei que o senhor talvez precisasse de mim — disse Mercant. — Quando atacarmos esse maldito ninho dos antis, eu lhe darei todo apoio.
Vejo que ainda existem terranos corajosos! — exclamou Cardif, entusiasmado. — A bordo da Ironduke só tenho ouvido vozes queixosas, recomendando cautela.
Mercant empertigou-se. Evidentemente sentia-se lisonjeado.
Esse sujeito deve ser artista”, pensou Claudrin, embora aquilo não o divertisse nem um pouco.
Só quem age pode colher os frutos do sucesso — disse Mercant, olhando em torno em atitude belicosa. — Mr. Bell e os outros oficiais acreditam que nosso ataque a essa base ridícula só será bem-sucedido se utilizarmos todas as naves.
Rhodan soltou uma risada de deboche. Bateu cordialmente no ombro de Mercant. Este teve uma sensação estranha ao contemplar os distintivos que Rhodan trazia no peito. Antigamente o administrador costumava envergar um simples uniforme de campanha.
O espírito confuso de Cardif não estava em condições de reconhecer a armadilha psicológica que o chefe de segurança lhe colocara. Mercant estimulara de propósito o espírito de contradição do administrador.
Todas as naves? — repetiu Rhodan, em tom de deboche. — Garanto que conquistaremos Saós com dez naves.
As naves que continuarão no espaço evitarão qualquer intervenção de Atlan — disse Mercant.
Não se esforçou mais para ocultar a satisfação que sentia.
Cardif interrompeu a palestra com um gesto relaxado.
Vamos atacar — ordenou.
Mercant e Bell olharam-se, sem dizer uma palavra. Enquanto Rhodan escolhia as dez naves que participariam da invasão, o plano de Reginald Bell começou a ser posto em ação. O grupo que o executaria seria comandado pelos tenentes Brazo Alkher e Stana Nolinow, bons conhecedores das condições reinantes na base dos antis.
Thomas Cardif não poderia imaginar que, no momento em que desfechasse o ataque a Saós, outro grupo desceria sobre o planeta.
Tudo dependia de que Atlan ficasse quieto por algum tempo. Suas gigantescas naves robotizadas estavam espalhadas estrategicamente em torno de Saós e suas torres de artilharia giravam ameaçadoramente.
Dez cruzadores pesados da frota terrana desprenderam-se do grupo a que pertenciam e penetraram na atmosfera rarefeita do planeta. Seus jatos-propulsores fizeram tremer o ar formado por nitrogênio e gás carbônico.
A missão Saós teve início.

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