Confiava
cegamente num plano de vingança que colocaria o planeta Saós em
suas mãos. E ali esperava obter as informações de que precisava
para curar-se.
Mostraria
aos homens que ainda sabia comandar uma frota. Gemeu e virou-se na
cama remexida. Apalpou o pulôver. Será que o mesmo não começava a
ficar apertado?
Arrumou o
cabelo e trocou de calça. Com um gesto de desprezo atirou para longe
os óculos protetores.
“Um
administrador não tem necessidade de esconder o rosto!”,
pensou.
Era bom
que os oficiais vissem o rosto do homem que os conduziria para a
vitória sobre os antis. O tempo das hesitações chegara ao fim.
Nunca deveria ter permitido que as advertências de Bell o
detivessem. Quando seu poder estivesse consolidado, Bell seria um dos
primeiros homens que mandaria liquidar.
Cardif
verificou sua aparência. Não queria confessar o desespero e o
pânico que haviam tomado conta de seu espírito. Preparou-se para
desempenhar o papel que combinava cada vez menos com sua pessoa: o de
Administrador do Império Solar.
Seu
aparecimento na sala de comando provocou várias reações
diferentes. O comportamento do falso Rhodan representava uma carga
pesada para os oficiais da Ironduke.
Cardif
parou na porta e colocou as mãos nos quadris. Lançou um olhar
atento para os homens. Sentiu a antipatia instintiva dos mesmos.
Empertigou-se e seus cabelos tocaram na parte superior da entrada.
Isso
significava que crescera mais um pedaço.
Entrou de
vez na sala de comando.
— Expeça
uma ordem dirigida a todas as naves, major — gritou para Jefe
Claudrin. — Desfechar o ataque a Saós.
Claudrin
virou-se abruptamente. Seu corpo volumoso atravessou a sala de
comando como se fosse um tanque humano. Estabeleceu ligação de
rádio comum com os comandantes de todas as naves.
— Talvez
fosse preferível que o senhor falasse pessoalmente, sir — disse
com a voz tranqüila. — Isso representaria um estímulo para a luta
que se aproxima.
Um sorriso
de desprezo surgiu no rosto de Thomas Cardif, o que constituía mais
uma prova de que não possuía o gabarito do pai.
— Para
derrotarmos essa base ridícula, o tom de sua voz será suficiente,
major — disse numa ironia mordaz.
— Naturalmente,
sir — respondeu o homem nascido em Epsal e executou a ordem, sem
dizer mais nada.
Cardif
olhou para o relógio de bordo.
— Dentro
de uma hora terrana, exatamente, as primeiras naves pousarão em Saós
— disse.
— Não
sei por que, Perry, mas isso me dá uma sensação desagradável —
disse Bell, sem sair do lugar. — O silêncio dos antis é altamente
suspeito.
Cardif
soltou uma risada estridente. Seu rosto movimentou-se. A maior parte
dos oficiais abaixou a cabeça diante do olhar selvagem do
administrador.
Naquele
momento todos os homens a bordo da Ironduke compreenderam que Rhodan
nunca desistira do seu intento.
A voz
monótona de Jefe Claudrin avisou as outras naves. Os comandantes
aceitaram as ordens com a maior tranqüilidade. Nenhum deles formulou
qualquer objeção. A confiança na pessoa de Rhodan continuava
inabalável.
— Ninguém
nos de terá! — exclamou Cardif. — Vamos limpar esse ninho de
ratos.
Naquele
momento nem desconfiava de que estava muito enganado...
*
* *
Fosse qual
fosse o ângulo sob o qual Kutlós examinava, agora, sua palestra com
Gonozal VIII, o resultado lhe parecia pouco satisfatório. A reação
do imperador não fora tão violenta como Kutlós esperara. O sumo
sacerdote compreendeu que cometera um erro ao irritar
desnecessariamente Atlan. Com isso só aumentara a antipatia do
imperador para com sua seita. Por isso tornava-se duvidoso que parte
da frota arcônida lutaria por Saós.
Mergulhado
em pensamentos, o sumo sacerdote estava sentado na poltrona que
correspondia à alta dignidade do cargo que ocupava. Vez por outra, o
fragmento de uma palestra dos outros antis penetrava em sua
consciência. Não se percebia qualquer otimismo. Todos sabiam que,
se as naves terranas atacassem, não havia a menor esperança de
salvação. A derrota sofrida em Okul constituía a melhor prova de
que os campos defensivos individuais dos sacerdotes não
representavam qualquer obstáculo para os terranos.
— As
naves terranas estão mudando de posição — gritou uma voz
estridente.
Kutlós
sobressaltou-se. Levou apenas alguns segundos para orientar-se. Os
sacerdotes comprimiam-se diante das telas dos detectores de massa e
dos indicadores de energia.
— Deixem-me
passar! — ordenou o sumo sacerdote e fez seu corpo magro passar,
sem a menor consideração, por entre os outros.
Os
reflexos verdes projetados pelos aparelhos de localização estavam
se movimentando. Viam-se perfeitamente os lugares em que os mesmos se
reuniam em grupos. Não era necessário que Kutlós fosse um profeta
para compreender o significado dessa modificação. Seu rosto assumiu
uma expressão sombria.
A invasão
era iminente.
Tasnor
disse com a voz desfigurada:
— Seu
plano falhou, Kutlós. Atacarão antes que Gonozal VIII possa vir em
nosso auxílio. Duvido muito que ele apareça por aqui com suas
naves.
O sumo
sacerdote compreendeu que a crítica amarga daquele homem tinha sua
origem exclusivamente no medo de morrer. Seria inútil envolver-se
numa discussão com seu representante.
Hepna-Kaloot
subiu numa cadeira e agitou os braços. O sumo sacerdote teve a
impressão de que aquilo representava uma investida contra sua
autoridade, mas não formulou nenhuma objeção. O comportamento
daquele anti de estatura baixa desviaria as atenções dos antis da
rebeldia de Tasnor.
— Já
não existe a menor dúvida de que teremos de morrer — disse
Hepna-Kaloot. Seus olhos pequenos e atentos fitaram os sacerdotes
reunidos. O interesse de Kutlós era maior que sua contrariedade;
continuou a manter-se em silêncio.
— Será
que devemos esperar até que os terranos nos matem?
Fez uma
pausa de efeito. Kutlós começou a desconfiar de alguma coisa.
“Isso
é um absurdo”,
pensou. “Não
é possível que pretenda fazer uma coisa dessas.”
Podia ser
ilusão, mas teve a impressão de que Hepna-Kaloot o fitava com uma
expressão irônica. Kutlós sentiu que sou poder de decisão estava
praticamente paralisado. Não conseguiu formular uma advertência
dirigida àquele sacerdote e interromper-lhe a fala.
— Não
somos animais para esperarmos a morte! — gritou Hepna-Kaloot.
Kutlós
viu sinais de infinita brutalidade naquele homem. Isso o deixou mais
apavorado que o ataque iminente da Frota Solar.
— Saberemos
preencher o tempo que nos separa do fim. Vamos sortear dois lutadores
para o jogo de Paloot.
Por um
instante Kutlós fechou os olhos. Os gritos de aprovação dos
sacerdotes arrancaram-no da rigidez. Hepna-Kaloot desceu da cadeira e
misturou-se aos homens que discutiam animadamente. A testa do sumo
sacerdote estava coberta de suor. Tasnor, que se mantinha em posição
afastada, parecia perdido em meio à confusão. Seu ataque a Kutlós
não produzira o menor efeito. Hepna-Kaloot dominava a situação.
— Parem!
— gritou o sumo sacerdote.
Um
ajuntamento de homens, usando mantas largas, abriu-se e pôs-se à
vista o pequeno sacerdote, que já preparava os bilhetes de rifa.
— O jogo
é proibido — disse Kutlós, esforçando-se para dar um tom
enérgico à voz.
Hepna-Kaloot
atirou o primeiro bilhete para o sumo sacerdote e perguntou:
— Quem
nos julgará depois que tivermos morrido?
Kutlós
pegou o bilhete e rasgou-o.
— O jogo
é proibido — repetiu em tom obstinado, se esforçando para
apresentar algum argumento.
Não se
lembrou de nenhum.
— O sumo
sacerdote não participa do jogo — disse Hepna-Kaloot, em tom de
desprezo. — Basta sortear um combatente. Apresento-me como
voluntário.
Kutlós já
acreditara não haver nada que pudesse deixá-lo com raiva. Agora,
porém, não conseguiu reprimir um violento acesso de cólera. Lançou
um olhar penetrante para o sacerdote mais baixo. Os olhos de
Hepna-Kaloot formularam uma indagação muda.
Kutlós
ouviu sua própria voz, enquanto as mãos tremiam levemente:
— Não
precisamos tirar a sorte. Lutarei contra Hepna-Kaloot.
Ao que
parecia, Hepna-Kaloot não esperara outra coisa. Não perdeu tempo.
Com movimentos rápidos começou a tirar as vestes.
— Um
momento — disse o sumo sacerdote, com a voz apagada. — Não
conheço as regras do jogo.
O outro
anti atirou as vestes sobre uma cadeira.
— Se
prosseguirmos na luta até o taloosei,
tudo será permitido — respondeu com um sorriso.
— Não
vejo motivo para terminarmos antes — disse Kutlós. — Vamos
escolher o árbitro. Sugiro que seja Egtoor.
Hepna-Kaloot
concordou. Egtoor fitou o sumo sacerdote com uma expressão de
dúvida.
— Quem
começa com a escolha das armas? — perguntou com a voz insegura.
Aquele que
escolhesse em primeiro lugar sofria uma grande desvantagem, porque
seu adversário poderia escolher armas que o protegessem. Era bem
verdade que a pessoa que escolhia em segundo lugar não poderia usar
nenhuma arma que já tivesse sido escolhida.
— Sou de
opinião que cada um deve escolher três armas — propôs
Hepna-Kaloot. — Se o sumo sacerdote não tiver nenhuma objeção,
escolherei em primeiro lugar.
Essa
proposta exprimia o menosprezo que Hepna-Kaloot sentia diante da
capacidade de luta de Kutlós.
— Lutarei
com um espia, um punhal de Sostoos e um bule de água — decidiu o
adversário de Kutlós.
O sumo
sacerdote teve a impressão de que a escolha do espia representava um
golpe muito hábil, mas não tinha a menor idéia do que Hepna-Kaloot
pretendia fazer com um bule de água. O punhal também não era uma
arma muito perigosa. O sumo sacerdote sabia que não poderia usar
nenhum espia.
— Uma
arma de radiações, uma corda de Lagoo e... —Kutlós hesitou —
...e Tasnor como informante.
O
informante representava a única chance de compensar o espia. Tasnor
permanecera em silêncio quando ouvira sua escolha como terceira
arma. Seus olhos chamejaram de ódio, mas não teve outra alternativa
senão aceitar a tarefa de informante. Tasnor não poderia atacar,
mas corria um perigo constante. Hepna-Kaloot poderia usar todas as
armas contra ele. Restava saber se, na qualidade de informante,
Tasnor representava um perigo para ele. Kutlós esperava que seu
representante causasse certas dificuldades a Hepna-Kaloot,
aliviando-o um pouco. Naturalmente era possível que o sacerdote não
se interessaria pelo informante, avançando diretamente sobre Kutlós.
— Será
uma luta muito interessante — disse Hepna-Kaloot. — Infelizmente
será curta, pois o sumo sacerdote não possui a minha experiência.
Essas
palavras representavam uma confissão de que o sacerdote já
participara do jogo proibido.
— Lutei
por sete vezes até o taloosei — disse em tom de orgulho. — Nem
sei dizer quantas vezes participei de jogos mais suaves... Para sua
desgraça foram muitas vozes, Kutlós.
Nesse
instante, o sumo sacerdote de Saós recuperou seu senso estratégico.
Limitou-se a responder com um aceno de cabeça. Enquanto tirava a
roupa, Tasnor, que era seu informante, estava com o rosto muito
pálido. Agtlos, outro sacerdote, ajudou Egtoor, o árbitro, a trazer
as armas.
Hepna-Kaloot
foi o primeiro a avançar. Segurava o bule de água na mão direita.
O punhal saía do cinto da calça grudada à pele. O espia oval
flutuava acima de sua cabeça. O transmissor pertencente a Kaloot
estava pendurado sobre os ombros do sacerdote. A pequena tela lhe
permitiria acompanhar todos os movimentos de Kutlós, a não ser que
este conseguisse destruir o espia.
— Boa
sorte, Hepna-Kaloot — disse Egtoor, seguindo as tradições.
— Persiga-o
— ordenou Kutlós a Tasnor, que se sentia muito infeliz. — Quero
ser informado constantemente sobre sua posição. E preciso saber o
que pretende fazer com a água.
Guardou a
arma de radiações e pendurou a corda de Lagoo sobre o ombro. Estava
equipado.
— Por
que não tira a roupa, Kutlós? — perguntou Egtoor.
— Estou
envergando as vestes do sumo sacerdote — respondeu Kutlós, em tom
compenetrado. — Usei-as por muito tempo, e não me despojarei
delas, nem mesmo durante a luta.
Os rostos
dos sacerdotes retratavam seus pensamentos. Kutlós imaginava o que
ia por suas cabeças.
Vivera
dentro dessas vestes e dentro delas lutaria.
Continuaria
a usá-las, mesmo depois que Hepna-Kaloot o obrigasse a iniciar o
taloosei.
A palavra
taloosei é de difícil tradução. Seu sentido equivale ao de um
suicídio por desespero.
Em sua
forma mais violenta, o jogo de Paloot trazia a morte a um dos
lutadores.
Tasnor
saiu da sala sem dizer uma palavra. Chegara a hora de Kutlós também
se retirar. Caminhou com o corpo ereto em direção à porta. Antes
que chegasse a ela, ouviu-se o alarma estridente do sistema de
localização de abalos estruturais. Kutlós parou. Não era possível
que tivesse tanta sorte.
— Sumo
sacerdote! — gritou uma voz exaltada.
Kutlós
fez meia-volta e retornou para junto dos companheiros. Os reflexos
das naves terranas já se haviam imobilizado. Percebia-se nitidamente
o motivo. Pelo menos dez mil naves haviam surgido do hiperespaço e
penetravam no sistema Saós.
Não eram
unidades solares. Kutlós teve de apoiar-se com ambas as mãos para
dissimular seus sentimentos.
— Estão
chegando!? — gritou fora de si. — O imperador vem em nosso
auxílio?!
A resposta
veio sob a forma de um grito de júbilo. Os aparelhos de localização
tremiam sob a formidável carga. Um abalo leve fazia estremecer o
edifício. Isso significava que as unidades arcônidas haviam
emergido do hiperespaço numa perigosa proximidade. As tremendas
cargas energéticas faziam com que ondas de tremor de terra
percorressem o planeta Saós.
Kutlós
teve uma sensação de triunfo. Mais uma vez sua tática fora
vitoriosa. Alcançara a maior de todas as vitórias. Era só uma
questão de tempo para que as duas frotas entrassem em choque.
Ouviu-se
um rangido, vindo da porta da sala dos instrumentos. Kutlós levantou
os olhos. Com uma expressão de incredulidade fitou o objeto que
flutuava a meia altura entre o chão e o teto.
Era o
espia de Hepna-Kaloot!
O
sacerdote não tomara conhecimento da mudança da situação, ou
então agia por puro desespero. Fora a primeira vez que Kutlós se
afastara de sua tática, e a conseqüência era esta luta absurda com
Hepna-Kaloot. A batalha das espaçonaves, que Saós esperava,
tornar-se-ia de importância secundária.
A presença
do espia não permitia a menor dúvida. Hepna-Kaloot abrira o jogo.
Num gesto
discreto Kutlós pegou a arma de radiações. O espia planava acima
da porta como um inseto ofuscado pela luz. Hepna-Kaloot estava
escondido em algum lugar, esperando o adversário. O espia
permitia-lhe ver todos os movimentos do sumo sacerdote projetados na
tela.
Num
movimento rapidíssimo Kutlós levantou a arma. O objeto voador
desceu rapidamente. O tiro disparado pelo sacerdote fez uma abertura
negra na parede. O espia saiu apressadamente da sala.
Os
instrumentos de localização transmitiram o ruído rítmico dos
rastreadores energéticos. A frota arcônida aproximava-se
rapidamente. As naves esféricas dos terranos também voltaram a
movimentar-se. O cerco se desfazia. Kutlós quase chegou a acreditar
que a Frota Solar fugiria. No entanto, as unidades da mesma apenas
mudavam de posição.
Tasnor
entrou. Tinha os cabelos caídos na testa. Fitou Kutlós; parecia
olhar através dele.
— Hepna-Kaloot
está na unidade energética número três — anunciou com a voz
apagada. — A mesma foi parcialmente destruída durante o ataque
simulado dos saltadores. Está escondido nos destroços.
Arregalou
os olhos e concluiu:
— Avançou
contra mim com o punhal.
Kutlós
acenou com a cabeça. Parecia zangado. Seu rosto magro e flácido
assumiu uma expressão dura. Teria de pagar por seu triunfo. Lançou
mais um olhar para as telas. O plano dera certo.
— Continue
a observá-lo — disse, dirigindo-se a Tasnor.
Seu
representante afastou-se para prosseguir em sua tarefa macabra.
Kutlós não sentiu nenhuma compaixão pelo jovem sacerdote. Pensou
em seu grande triunfo. E em Hepna-Kaloot, que o esperava para levá-lo
até o taloosei.
Kutlós
retirou-se da sala para pagar o preço que em sua opinião era devido
por um homem de seu tipo que se afastava de sua tática, por uma só
vez que fosse.
Saiu
andando, magro e alto, com as passadas cautelosas e as mãos pálidas
de tão firmemente que seguravam a arma.
Nunca mais
voltaria.
4
Quando o
General Alter Toseff venceu de vez a dor causada pela transição, o
imperador já estava de pé diante dos aparelhos de localização.
Toseff balançou a cabeça e ergueu-se do leito. Atlan virou-se para
ele.
— O
sacerdote falou a verdade. Quatro mil naves dos bárbaros estão
reunidas em torno de Saós. Pelo que se conclui de sua posição,
estão empenhadas nos preparativos da invasão.
Os
ponteiros dos localizadores de massa subiram para a posição máxima.
Inúmeras luzes acenderam-se nas telas dos oscilógrafos. O planeta
Saós aparecia nas telas sob a forma de um segmento de círculo. Os
campos gravitacionais do planeta já começavam a atingir as naves
arcônidas, mas seus jatos-propulsores superpotentes venceram-nos com
a maior facilidade.
Atlan
sabia perfeitamente que naquele momento seria inútil assumir o
comando das dez mil unidades robotizadas. Os computadores de bordo
controlavam as naves. Todas elas mantinham contato com o centro de
computação de Árcon, que numa questão de segundos interpretava os
dados e orientava a ação das naves de acordo com essa
interpretação. Atlan deixara que naquele momento o piloto
automático cuidasse até mesmo das manobras da nave capitania.
Gonozal
VIII não tinha a intenção de atacar sem aviso. Sabia que o centro
de computação faria com que as diversas unidades se colocassem em
posição de ataque, mas depois disso ele o consultaria. Do lado de
Árcon não seria disparado um único tiro sem ordens expressas de
sua parte. A disposição das naves arcônidas era uma ameaça em
forma de ultimato, e Atlan queria que Rhodan a interpretasse dessa
forma.
Atlan
continuava a nutrir esperanças de que conseguiria estabelecer um
entendimento razoável com o amigo.
— Ao que
parece ainda não pousaram no planeta, majestade — conjeturou
Toseff, depois de lançar um olhar para os instrumentos.
— Suspenderam
as manobras de pouso — respondeu Atlan. — Perceberam
imediatamente a nossa presença. A esta hora devem estar refletindo
sobre a maneira de enfrentar simultaneamente dez mil naves e a base.
O arcônida
de Saratan pôs-se a refletir e disse:
— Tomara
que não tenham alguma idéia que nos possa trazer dificuldades.
Atlan
sorriu. Algumas rugas surgiram em seu rosto.
— Estão
num beco sem saída — disse. — Eles sabem avaliar situações
como esta. Daqui a pouco tentarão entrar em contato conosco.
Para o
general, aquilo tinha o encanto forte da novidade. Passara a maior
parte da vida em Saratan, um pequeno planeta muito fértil, coberto
de colinas suaves e habitado de animais peludos de olhos grandes. Ao
olhar para trás, não compreendeu como conseguira sentir-se
satisfeito num lugar como este. De repente teve a impressão de que
Saratan seria apenas o lugar ideal para um velho que quisesse passar
seus últimos dias de vida na santa paz.
“Nunca
me teria dado conta disso”,
refletiu, muito perplexo. “Minha
vida se teria desvanecido sem que nada me perturbasse.”
Naquele
momento Toseff compreendeu o significado da inquietude interior que
muitas vezes sentira. Era apenas a expressão de uma busca
inconsciente por um novo campo de atividade.
O general
observou a tela. Viu o segmento esférico de Saós como parte apagada
de um mundo estranho. Teve a impressão de estar sonhando.
— Adeus,
Saratan — disse em voz baixa.
O
imperador não respondeu à observação, se é que a ouviu. Alter
Toseff respirou profundamente. Seria um instinto mau que provocava a
combatividade em seu espírito? Ou seria apenas uma reação natural?
Havia alguma coisa represada dentro dele, alguma coisa que procurava
libertar-se a toda força.
Sem dizer
uma palavra, ficou de pé ao lado de Atlan e acompanhou os
acontecimentos nas telas. As naves terranas continuavam a modificar
sua posição. Mas notava-se perfeitamente que os grupos de ataque se
iam dissolvendo. As naves esféricas do planeta Terra assumiam típica
posição defensiva. Três naves formavam uma espécie de vanguarda à
frente de cada grupo. Atrás, abaixo e acima delas oito espaçonaves
mantinham-se em movimento. Os flancos dessa formação esférica eram
defendidos por cruzadores ligeiros. Toseff sabia avaliar a eficiência
dessa formação defensiva.
No caso de
um ataque desfechado por unidades inimigas, as três naves da frente
avançariam rapidamente, tentando romper a falange dos atacantes. Na
maior parte das vezes devia-se contar com a perda dessas naves
arrojadas. De qualquer maneira elas mantinham ocupado o inimigo,
impedindo-o de concentrar todas as forças no ataque ao grupo...
Tal
formação, enfim, servia para proteger os flancos, desempenhando um
papel importante, para arrumação da retaguarda.
Aos
poucos, os comandantes terranos foram formando inúmeros triângulos
defensivos desse tipo em torno de Saós.
— Nós
os obrigamos a entrar na defensiva — disse Atlan, satisfeito. —
Dessa forma se mostrarão mais dispostos a negociar.
No seu
íntimo não estava muito convencido disso. Suas palavras apenas
exprimiam alguma coisa pela qual ansiava fortemente. Quando alguém
queria obrigá-los a capitularem, os terranos costumavam ser bastante
inacessíveis. E era exatamente essa a finalidade da reunião das dez
mil naves arcônidas.
O planeta
Saós não possuía nenhum valor. Sob o ponto de vista econômico,
sua destruição não significaria qualquer prejuízo para o Grande
Império. O que estava em jogo era tão-somente o prestígio militar.
Atlan não podia permitir que frotas estranhas atacassem planetas
situados sob o domínio de Árcon. Devia resguardar seu prestígio
face aos numerosos aliados e mundos coloniais.
Um tanto
abatido, Atlan entrou em contato com o gigantesco computador, que
nestas horas lhe prestava inestimáveis serviços.
— Mantenha
as naves em posição de ataque — ordenou com a voz calma. —
Todas as armas devem ficar prontas para disparar. Daqui em diante, eu
comandarei as unidades robotizadas.
O
gigantesco centro de computação confirmou o recebimento da
mensagem. Atlan dirigiu-se ao General Toseff. A boa iluminação da
sala de comando permitiu-lhe reconhecer as linhas finas que se
desenhavam no rosto do saratanense.
— Dar-lhes-emos
trinta minutos para entrar em contato conosco — disse.
Os olhos
de Toseff formularam uma indagação muda.
— Depois
disso atacaremos! — disse Atlan.
Até então
essas palavras para ele nunca tinham sido mais que um pesadelo. Mas,
naquela hora amarga, elas se transformaram em realidade.
*
* *
Thomas
Cardif sentiu a crescente debilidade de sua substância espiritual.
Podia acompanhar o processo com toda nitidez, como quem assiste a um
filme. A parte instintiva de seu ser sobrepujava cada vez mais os
setores da lógica e do raciocínio.
Quando as
naves arcônidas saíram do hiperespaço, berrou durante alguns
minutos e ordenou o ataque imediato — ordem que só abandonou
depois de grandes esforços desenvolvidos por Bell. Tais atos
provavam que seu intelecto já não possuía a mesma capacidade de
discernimento de antes.
Cardif,
que lutava contra sua deficiência mental, obrigou-se a agir
refletidamente e a falar com lógica. No entanto, seus instintos, seu
espírito revolto e suas imprevisíveis irrupções sentimentais
constantemente levavam de roldão essas débeis tentativas de ação
coerente. Cardif transformava-se progressivamente num prisioneiro de
sua dupla personalidade.
A
preocupação muda de seus oficiais, os olhares sérios trocados
pelos mesmos e o clima tenso, que reinava a bordo da Ironduke, não
ajudavam Cardif a ter mais paciência. Parecia mais irritadiço que
um touro ferido. Qualquer crítica, por mais diplomática que fosse,
fazia com que perdesse o controle dos nervos.
Seus olhos
chamejantes fitavam as telas que retratavam nitidamente as posições
de ataque das naves arcônidas. As unidades aproximavam-se como se
fossem pérolas fulgurantes em meio ao negrume das telas, formando
correntes luminosas.
— Parece
que é uma frota de dez mil naves robotizadas — observou g Bell, em
tom indiferente.
Cardif
teve a impressão de que havia um tom de advertência na voz do
gorducho.
— E daí?
— perguntou em tom furioso. — Elas não me deterão.
Fitou seu
próprio corpo e ajeitou o pulôver.
— Quero
que os robôs façam imediatamente outra jaqueta de uniforme e que
tragam uma que caiba no meu corpo — disse em tom contrariado. —
Quero apresentar-me a esse rei estelar arrogante com todas as minhas
condecorações, caso ele queira conversar comigo.
Um olhar
cético de Bell fê-lo saber que ninguém acreditava que Atlan
entrasse em contato de rádio com a frota terrana. Pelo contrário,
na opinião dos oficiais seria Rhodan quem teria de entrar em contato
com Atlan.
O Major
Krefenbac deu ordem para que trouxessem a nova jaqueta. Até então
Cardif não voltara a tentar a substituição do imediato da nave.
— Tenho
a impressão de que não cairão imediatamente sobre nós — disse
Bell, depois de lançar ligeiro olhar para os instrumentos de
localização. Parecia visivelmente aliviado. — Estão mantendo
suas posições.
— Esse
bando de insetos — gritou Cardif, em tom odiento.
Corria
diante dos registros dos rastreadores estruturais que nem ura animal
enjaulado. Seu olhar parecia martirizado. Era mais alto que qualquer
outro dos homens que se encontravam a bordo. E seu rosto sofrerá uma
modificação horrível. Perdeu a expressividade e foi-se
transformando progressivamente numa massa carnuda, sem contornos
definidos. O tamanho dos poros estava aumentado, o que causava uma
impressão repugnante quando havia alguma transpiração. Só os
olhos, amarelos como os de um felino, conferiam certa característica
a esse rosto que se ia desmanchando. Dominavam inteiramente esse
rosto, da mesma forma que duas luzes fortes podem dar a impressão de
que dominam uma paisagem escura.
O homem
que, segundo todos acreditavam, era Perry Rhodan, transformou-se numa
criatura monstruosa, cujo aspecto bastava para deixar preocupadas as
pessoas que a cercavam.
— São
mais perigosos que insetos — disse o Major Claudrin, pensativo. —
Se Atlan der ordem de atacar, não poderemos resistir por muito tempo
às investidas de suas naves robotizadas.
O homem
nascido em Epsal já não via a menor possibilidade de descobrir
qualquer sentimento no rosto inchado do administrador. E isso fazia
com que se sentisse inseguro. Estava acostumado a informar-se sobre
os pensamentos íntimos dos seus interlocutores através da mímica.
Não que o rosto de Rhodan fosse inexpressivo, mas era praticamente
impossível interpretar as modificações que o mesmo sofria. Para
Claudrin, o tremor das carnes volumosas e os repuxos quase
imperceptíveis da pele flácida não significavam nada. O próprio
major não era uma figura humana ideal, no que dizia respeito ao
aspecto exterior. A gravitação de Epsal, que superava em muito os
padrões terranos, fizera dele um homem que tinha o aspecto de um
urso que anda sobre as patas traseiras. A largura de Claudrin era
quase igual à sua altura, que alcançava pouco mais de um metro e
sessenta centímetros. Apesar de tudo seu aspecto não era
repugnante. Sua constituição orgânica adaptara-se às condições
reinantes em Epsal, pois, desde o nascimento, ele se desenvolvera sob
os efeitos de uma gravitação mais elevada.
Sob o
ponto de vista de Claudrin — ou seja, sob o ponto de vista de um
homem nascido em Epsal — os terranos também eram criaturas
disformes, tal qual certas inteligências humanóides. Um homem pode
achar que um sapo é uma criatura repugnante. E, como estas não têm
nenhum meio de comunicar-se conosco, elas não nos podem dizer que
nos acham muito feios. A questão da beleza, e do seu oposto, a
feiúra, é algo relativo, que só pode ser formulada no seio de cada
espécie.
Provavelmente
uma mulher de Terrânia veria em Jefe Claudrin uma figura bizarra,
enquanto as moças de Epsal, cuja largura era quase igual à de
Claudrin, se sentiriam enlevadas diante da figura marcante do major.
Mas a
feiúra de Rhodan não era desse tipo. Até mesmo os terranos, ou
seja, os membros de sua raça, viam nele uma criatura fisicamente
anormal. Certas raças de pássaros da Terra costumam matar os
filhotes malformados, atirando-os para fora do ninho sem a menor
compaixão. Qualquer espécie, inclusive a humana, traz dentro de si
certos preconceitos contra as criaturas disformes. Sob o ponto de
vista psicológico, essa atitude não chega a ser condenável, já
que tem sua origem no instinto eterno, que garante a sobrevivência
da espécie. Mas o homem, um ser inteligente, capaz de raciocinar,
criou certas leis que determinam a tolerância e a igualdade de
direitos.
A sensação
desagradável continuou. A compaixão e a vontade de ajudar não
podiam apagar o fato de que o complexo de Frankenstein está
indissoluvelmente ligado à condição humana. Uma criatura humana
desfigurada por queimaduras provoca compaixão, mas ninguém se
aproximará dela mais do que o estritamente necessário.
O homem
não costuma matar as criaturas disformes de sua raça, mas
inconscientemente faz uma coisa que talvez seja muito mais cruel.
Elimina psiquicamente essas lamentáveis criaturas, evitando todo o
contato com as mesmas.
Os
oficiais da Ironduke eram apenas criaturas humanas, tangidas e
dirigidas pelos sentimentos humanos. Aos poucos, Rhodan
transformava-se numa criatura proscrita, num estranho. À medida que
se tornava mais deformado, crescia a compaixão e o desejo de
isolar-se dessa criatura.
O Major
Jefe Claudrin, que era um modelo de tolerância humana, sentiu que
tal compaixão crescia perceptivelmente entre ele e Rhodan. Este
estava sujeito a uma metamorfose que fazia com que não mais
parecesse um homem no sentido normal e convencional.
É que
tudo que acontecia com ele era inumano.
Cardif
interrompeu suas andanças diante dos indicadores.
— Atlan
procura intimidar-nos. Acredita que poderá exercer pressão contra
nós para tornar-nos submissos. Nós lhe faremos uma surpresa nada
agradável, não é mesmo, Bell?
A pergunta
foi proferida aos berros. O rosto de Bell continuou muito sério.
Respondeu com a voz embargada:
— Atlan
dispõe de muito mais que o dobro das nossas naves. Nestas condições
acho que qualquer tentativa de pousarmos em Saós seria puro
suicídio, e nunca passaria de uma tentativa.
Cardif
soltou uma risada.
— Vou
recolher-me ao camarote — disse. — Assim que os robôs tiverem
terminado o novo uniforme, estarei disposto a falar com Atlan.
Saiu
apressadamente da sala de comando. O Major Claudrin pigarreou.
— Queira
desculpar, sir — disse, dirigindo-se a Bell. — Acho que nossa
situação é insustentável. Sob o ponto de vista estratégico
estamos perdidos. Se o arcônida mandar que suas naves abram fogo,
seremos esmagados.
Bell
acenou com a cabeça. Parecia desesperado. Estavam empenhados num
jogo de azar de natureza militar; acontecia que jogavam sem trunfos.
Nem sequer poderiam blefar, pois até mesmo um cadete da Academia
Espacial seria capaz de interpretar qualquer lance da frota terrana
que estava cercada.
— Só
nos resta fazer votos de que o... — principiou Bell.
Mas foi
interrompido pela exclamação nervosa do Major Krefenbac:
— Sir,
uma mensagem. Alguém está chamando pelo rádio comum.
Com alguns
passos, o representante de Rhodan colocou-se à frente do aparelho e
colocou-o em recepção. Muito tensos, os homens fitaram a tela do
videofone. Todos esperavam ver o rosto marcante de Atlan.
Acontece
que não era Atlan que chamava a Ironduke. O homem que surgiu na tela
era calvo; apenas tinha um círculo de cabelos ralos. Seu rosto
inteligente estava marcado pela preocupação.
— Mercant!
— gritou Reginald Bell, surpreso. — De onde veio o senhor?
— Se as
dez mil belonaves arcônidas não o mantivessem tão ocupado, o
senhor não teria deixado de notar que os rastreadores estruturais da
Ironduke deram um sinal — respondeu o chefe da Segurança Solar,
aparentando autocontrole. — Neste momento estou solicitando
passagem livre entre as unidades da frota de Atlan. Encontro-me a
bordo do cruzador ligeiro Acapulco. O comandante é o Major Burggraf.
De certa
forma a presença de Mercant fez com que Bell se sentisse mais
aliviado. Aquele homem era também um dos maiores confidentes de
Rhodan. Talvez a influência que exercia sobre o chefe ainda poderia
salvar a situação.
— Allan
— disse Bell em tom cordial. — Sinto-me feliz porque o senhor
veio.
Mercant
sorriu.
— O
senhor não pode esperar que esta pequena nave restabeleça o
equilíbrio militar neste setor espacial.
— Quer
dizer que o senhor já percebeu que as naves robotizadas de Árcon
não estão aqui para apoiar-nos?
— Deram-me
a entender isso de forma bastante drástica — informou Mercant com
a maior tranqüilidade, como se estivesse relatando um piquenique. —
Um certo General Toseff ameaçou-me, por ordem de Atlan, com os
canhões de impulsos de uma daquelas naves gigantescas. Suponho que o
imperador também se encontre a bordo — sorriu. — Obtive
permissão para avançar até aqui. Ao que parece não me julgam
muito perigoso.
— Recolheremos
o senhor — retumbou a voz do Major Claudrin, que observava na tela
a aproximação da Acapulco.
— Está
bem — disse o chefe da Segurança. — O Major Burggraf receia que
só nos deixaram passar porque têm certeza de que não conseguiremos
voltar se por aqui as coisas ficarem realmente sérias.
— Talvez
o major tenha razão — disse Bell. — Perry não permite que
ninguém o convença de que não deve atacar Saós. Ele está... —
hesitou Bell. — Bem, veja com seus próprios olhos.
— O
senhor quer dizer que suas alterações físicas continuam.
— As
alterações não são apenas físicas, Mercant.
— Compreendo.
O homem
que controlava o gigantesco serviço secreto da Galáxia fechou os
olhos por alguns segundos e depois falou.
— O
Major Burggraf acaba de anunciar que o jato espacial está pronto.
Vou me transferir para a Ironduke. Depois disso conferenciaremos
sobre o que ainda poderemos fazer para evitar que aconteça o pior.
— Está
bem, Mercant — concordou Bell.
O rosto do
chefe de Segurança foi-se apagando, deixando para trás um pouco de
esperança de que ainda encontrariam uma saída do beco em que se
haviam metido.
*
* *
Quando
Allan D. Mercant entrou na sala de comando e pilotagem da nave linear
Ironduke, lançou um olhar indagador para os oficiais reunidos.
— Onde
está ele? — perguntou.
— No
camarote — informou Bell. — Está esperando que os robôs
confeccionem um uniforme novo para ele. O que usava ficou muito
apertado. Faz questão de usar todos os distintivos no momento em que
se defrontar com Atlan.
— É
estranho — disse o homem calvo que comandava a Segurança. — Não
me lembro de que antigamente Rhodan fosse de opinião que o uniforme
faz o homem.
— Suas
opiniões também mudaram em outros pontos — disse Bell, sem o
menor ressentimento. — Às vezes chego a acreditar que o chefe se
transformou num homem totalmente diferente.
Reginald
Bell se aproximara muito da verdade. Não tinha a menor suspeita de
Cardif-Rhodan, mas constatava as modificações que se verificavam na
personalidade do amigo. Dificilmente alguém conhecera Rhodan melhor
que Bell.
— Um dia
superará tudo isso — disse Mercant. — Enquanto isso devemos
fazer o possível para evitar que a Humanidade sofra algum
prejuízo... irreparável.
O Dr.
Riebsam apontou para os instrumentos de localização. Seu raciocínio
lógico fez com que formulasse uma objeção:
— O que
vem a ser isso, sir?
— Falaremos
com Atlan — disse Mercant, em tom resoluto. — O que acha da
idéia, Bell?
Num gesto
nervoso, Bell passou a mão pelo cabelo ruivo espinhento. Mordeu o
lábio inferior. Mercant observava-o numa atitude de expectativa.
— Acha
que devemos agir por conta própria, sem informar Perry?
O chefe da
Segurança abriu os braços. Suas mãos eram muito bem cuidadas.
Usava, como sempre, um uniforme simples.
— Não
temos outra alternativa. O imperador deve ser informado sobre o
estado em que se encontra o chefe. Dessa forma talvez consigamos
evitar que ele nos ataque.
— Concordo
com o senhor! — exclamou Jefe Claudrin.
Sua pele
com aspecto de couro começou a mostrar manchas causadas pelo
nervosismo. Era esta a chance pela qual todos haviam esperado. Mas,
em última análise, tudo dependeria da concordância de Bell. Ele e
Mercant carregariam a responsabilidade por um procedimento desse
tipo.
— Quando
o administrador se encontra a bordo de uma nave, assume
automaticamente o comando da mesma — lembrou Bell, em tom
preocupado. — Rhodan é o comandante desta frota. Todas as ordens
devem partir dele. Se ficar sabendo que agimos atrás das suas
costas...
Bell não
disse o que aconteceria nesse caso.
— Compreendo
suas preocupações — falou Mercant erguendo ligeiramente a voz. —
Apesar disso deveríamos arriscar. Afinal, não existe qualquer ordem
de Rhodan que nos proíba falar com o almirante.
— Perry
deu a entender que as negociações deveriam ser iniciadas por Atlan
— lembrou o representante de Rhodan, em tom pensativo.
Dirigiu-se
ao Major Krefenbac.
— Major,
procure saber quando os robôs terminarão a confecção do uniforme.
Krefenbac
usou o sistema de intercomunicação para entrar em contato com o
setor da Ironduke em que trabalhavam os robôs. Dali a alguns
segundos anunciou:
— Demorará
mais algum tempo, sir.
— É uma
decisão muito difícil — disse Bell, em voz baixa. — Isto parece
cheirar a conspiração.
— Será
que estaremos praticando um ato de traição se conseguirmos salvar a
vida de alguns milhares de homens? — perguntou Mercant. —
Queremos ajudar o chefe. E para isso temos de evitar qualquer
conflito que possa degenerar numa guerra cósmica. Não precisamos
usar cada minuto de que dispomos para combater a terrível doença de
Rhodan? Em Saós nunca descobriremos nada sobre o misterioso planeta
Trakarat, se matarmos todos os antis. Além disso, Atlan nunca
permitiria que fizéssemos isso.
— Está
bem; o senhor ganhou — disse Bell. — Jefe, procure estabelecer
contato com a nave capitania dos arcônidas.
Claudrin,
que face à sua constituição física sempre parecia lento, cumpriu
a ordem com uma espantosa rapidez.
— Peçam
que nos avisem quando o novo uniforme for entregue a Rhodan — disse
Bell, dirigindo-se ao Major Krefenbac.
— Não
quero que entre aqui, no momento em que estivermos falando com Atlan.
Em sua
imaginação desenhou-se o quadro deprimente de um Rhodan, entrando
na sala de comando e gritando com os olhos chamejantes, à procura do
culpado.
Essa idéia
provocou uma sensação estranha em Bell. No primeiro momento não
conseguiu defini-la, mas depois de algum tempo deu-se conta do que
estava sentindo.
Era medo!
Não sabia
se esse medo tinha sua origem na possibilidade de perder o amigo de
vez. No momento isso não lhe importava nem um pouco. O que lhe
importava era que a sensação de desconforto que experimentava se
transformara em medo. Não demoraria, e o medo seria substituído por
um leve pavor.
“E
então?”,
indagou-se mentalmente.
Bell
fechou os olhos. De repente desejou que estivesse bem longe dali,
longe de Saós, longe da Ironduke e longe de todos esses
acontecimentos. Ansiava pela calma e pela solidão.
“São
os nervos”,
pensou. “A
sobrecarga constante vem me prejudicando.”
Sem dizer
uma palavra, viu Claudrin mover os controles necessários para
irradiar uma mensagem destinada à frota arcônida. Muito nervoso,
fitava constantemente a porta de entrada da sala de comando. O
comportamento de Rhodan era imprevisível, motivo por que tinham de
contar com a possibilidade de que entrasse a qualquer momento.
— Acabo
de completar a ligação, sir — anunciou Claudrin, que de tão
nervoso esquecera-se da sala de rádio e havia ligado a tela comum.
Bell
aproximou-se lentamente. Era desagradável informar Atlan dessa
maneira. Sentia-se culpado diante do imperador, que substituíra o
grande centro de computação de Árcon III no governo do império.
Mas o
rosto que surgiu na tela não era o do almirante. Bell viu um
arcônida desconhecido de pele morena e cabelos curtos.
— Sou o
General Toseff — disse o desconhecido a título de apresentação.
— O que deseja, terrano?
A voz era
fria e arrogante. Para um arcônida, aquele general irradiava uma
dose surpreendente de energia. Bell empertigou-se. Não era hora de
bancar o ofendido. Precisava agir.
— Meu
nome é Bell — disse com a maior tranqüilidade. — Ligue-me com
Gonozal VIII, imperador de Árcon.
Toseff
sorriu apenas o suficiente para dar uma expressão irônica e
arrogante ao seu rosto.
— Sua
Majestade só falará com o administrador da Terra — anunciou.
Instintivamente
Bell deu um passo em direção ao aparelho. Cerrou os punhos. Mercant
parecia sentir a indignação que se apossara de Bell. Falando em tom
apressado, disse:
— Rhodan
está doente. Informe o imperador sobre isso. Diga-lhe que temos
muita urgência em falar...
Toseff
interrompeu-o em tom áspero:
— Não
adianta tentar dessa maneira.
Antes que
Bell tivesse tempo de informar o arcônida de que ele o considerava
um convencido arrogante, o general desapareceu da tela e o rosto de
Atlan surgiu na mesma. Gonozal VIII parecia cansado.
— Está
bem, Bell — disse com a voz tranqüila. — O General Toseff agiu
assim por minha ordem.
A
expressão sombria do rosto de Bell não se modificou.
— Perry
não sabe que estamos falando com você — disse. — Mercant, John
Marshall, Freyt, Claudrin, todos querem retirar a Frota Solar do
setor pertencente ao Grande Império. Mas isso não é tão simples
assim. Depois que Perry ficou preso em Okul, ele está mudado. Ainda
não se recuperou do choque. Além disso, sofre de uma tal de cisão
celular explosiva. É o nome que os médicos deram à doença. Na
verdade, parece que cresce e incha ininterruptamente. Você
dificilmente o reconheceria.
— Já
não entendo mais nada — respondeu Atlan, com a voz fria. — O que
é que sua doença tem que ver com Saós?
— Perry
supõe que os antis sejam culpados de sua doença. Quer obrigá-los a
ajudá-lo. Em sua opinião devem ser capazes de paralisar o ativador
celular que funciona sem o menor controle. Estamos à procura de um
planeta misterioso. O nome é Trakarat. Pelo que dizem, é o mundo
central dos antis. Os sacerdotes usaram um truque para levar-nos a
acreditar que Saós é o planeta Trakarat.
— As
violações cometidas pela Frota Solar são cada vez mais numerosas —
queixou-se o imperador. — Ninguém pode exigir que cedamos
constantemente às perigosas extravagâncias de Rhodan.
Mercant,
que se mantivera quieto durante todo o tempo, disse com a voz
insistente:
— Somos
amigos de Rhodan, Atlan. O senhor também se diz amigo dele.
Apóie-nos em nossos esforços de curá-lo o mais rápido possível.
Seu estado é inquietante. Devemos recear o pior. Dá ordens e
instruções que antigamente lhe teriam provocado risos.
— Retire
as naves terranas deste setor — exigiu Atlan, — É a única
possibilidade.
— Bem
que eu gostaria que você o visse! — exclamou Bell, em tom
exaltado. — Será que você é mesmo capaz de recusar o apoio que
lhe pedimos? Será que se esqueceu do que ele fez por você e pelo
seu império? Acredita que ele fez isso para destruir tudo mais
tarde? Não; Perry está doente, e por isso não podemos condená-lo.
Precisamos pôr as mãos no sumo sacerdote que está em exercício em
Saós. Só ele deve possuir informações que nos permitam tomar
outras medidas.
Uma ruga
profunda surgiu na testa de Atlan. Por um momento sua mão entrou no
campo de visão. Passou-a sobre os olhos.
“Como
se parecem!”,
pensou Bell, profundamente abalado. “Atlan
e Perry... o Perry de antigamente.”
Depois de
um momento de silenciosa reflexão, interrompida apenas pelo zumbido
dos aparelhos, Gonozal VIII disse:
— Quer
dizer que vocês pretendem atacar Saós?
— Pretendemos
— responderam Bell e Mercant a uma voz.
— Naturalmente
existe uma possibilidade de que esta mensagem de rádio não passe de
um truque — disse Atlan. — Mas, mesmo assim, vejo-me obrigado a
confiar em que vocês estejam dizendo a verdade.
— Isso
já aconteceu tantas vezes — disse Bell, em tom suave.
Não
recriminava Atlan pela atitude que estava tomando. Se estivesse em
seu lugar, certamente não teria agido de outra maneira. No entanto,
não poderia fazer mal nenhum lembrar Atlan de que no passado
costumava confiar em seus amigos terranos.
— É
possível que eu esteja cometendo um erro grave, mas por enquanto
darei ordens para que a frota não intervenha — disse Atlan. —
Mandarei que as naves ocupem uma posição tal que o sistema Saós
seja bloqueado por uma formação esférica. Se acontecer qualquer
coisa que não corresponda ao que combinamos, darei imediatamente
ordem de ataque. Nenhuma unidade terrana conseguirá romper a esfera
formada pelas pesadas unidades robotizadas.
— Existe
uma possibilidade de evitar um ataque global das nossas espaçonaves
esféricas ao planeta Saós — anunciou Bell.
Pela
primeira vez um sorriso surgiu no rosto do gorducho.
Atlan e
Mercant pareciam muito interessados. Mas, ao que parecia, Bell não
estava disposto a dar maiores informações.
— Foi
apenas uma idéia — disse. — Tudo depende do que Perry queira
fazer.
— Sir! —
gritou o Major Krefenbac, que se mantinha nos fundos da sala de
comando. — Os robôs terminaram o uniforme. Neste momento, está
sendo entregue no camarote de Rhodan.
— Vamos
ficar por aqui, almirante. — disse Bell. — Torça para que tudo
dê certo.
Atlan
levantou as mãos para que aparecessem na tela e acenou. Pela
primeira vez aparentou amabilidade.
Não houve
necessidade de explicar aos oficiais da Ironduke o que Atlan quis
dizer com isso. O imperador não acreditava que isso fosse dar certo.
As duas partes já se haviam envolvido demais.
Jefe
Claudrin desligou o rádio.
— Por
enquanto ainda podemos agüentar nosso amigo — disse.
Agora tudo
dependeria de Rhodan. A idéia de que, dali a pouco, Rhodan voltaria
à sala de comando fez Bell estremecer. Agora, uma responsabilidade
dobrada pesava sobre seus ombros, pois também assumira obrigações
perante Atlan.
— Acho
que já está na hora de o senhor nos informar sobre suas idéias —
disse Allan D. Mercant, levantando a voz.
*
* *
Thomas
Cardif enfiou-se no uniforme e o abotoou. O robô que lhe trouxera a
jaqueta já se retirara. Cardif contemplou seu corpo com os olhos
embaçados. Teve a impressão de que aquela peça de roupa produzira
uma modificação favorável em seu aspecto. Seu corpo inchado
recebera nova “embalagem”.
Não perdeu tempo. Prendeu ao uniforme as distinções a que seu pai
fizera jus. Suas mãos tremiam, pois estava com pressa; queria ficar
pronto em tempo.
Estava
plenamente convencido de que Atlan falaria com ele para implorar a
paz. Se fosse necessário, poderia chamar maior número de naves
terranas para Saós.
Contemplou-se
nos restos do espelho que ficaram presos na moldura. Uma grande
rachadura dividiu seu rosto em duas partes, dando-lhe um aspecto
ainda mais diabólico.
Cardif
soltou uma risadinha. Estava na hora de voltar a entrar em contato
com os médicos de Terrânia. Teriam de fazer alguma coisa para
curá-lo.
Saiu do
camarote arrastando os pés. O corredor pelo qual passou só estava
iluminado em certos trechos. Toda vez que Cardif saía do círculo
luminoso projetado por uma lâmpada, via uma sombra confusa no chão,
que se desmanchava imediatamente assim que penetrava na luz de outra
lâmpada. Cardif fitou a sombra que retornava constantemente.
Estreitou os olhos. Preferiu não utilizar a fita transportadora.
Continuou a caminhar pelo corredor. Cambaleava de uma luz para outra
que nem uma mariposa. Tinha a impressão de que era repelido até
pelas luzes...
De repente
outro vulto surgiu à sua frente. Cardif teve uma idéia maluca;
talvez fosse sua sombra transformada em carne e osso. Estendeu os
braços e aproximou-se da mesma.
— Sir...
— disse alguém.
Cardif
teve de fazer um grande esforço para libertar-se do estado de ânimo
que se apossara dele. Fitou atentamente a pessoa que se encontrava à
sua frente. Era um oficial da guarda de bordo.
— O que
houve? — perguntou em tom contrariado.
— Pensei...
pensei que o senhor não estivesse passando bem — gaguejou o homem,
bastante confuso.
Com o
corpo inclinado e as mãos abertas em garra, Cardif parecia uma ave
de rapina. Viu o medo nos olhos de seu interlocutor e notou o tremor
de suas bochechas.
O estado
daquele oficial transmitiu uma sensação de superioridade a Cardif.
E essa sensação salvou o homem da morte.
— Saia
do meu caminho! — ordenou o administrador. — Se eu estivesse
doente, chamaria um médico.
— Sim,
senhor! — disse o oficial, muito embaraçado.
Afastou-se
para o lado, comprimindo-se contra a parede. Cardif passou sem
olhá-lo. Sabia que o oficial o seguia com os olhos.
Quando
Thomas Cardif entrou na sala de comando, seu instinto lhe disse que
acontecera algo de decisivo. Não conseguiu descobrir o que era, mas
a sensação inconfundível fazia crescer sua desconfiança doentia.
Aproximou-se dos instrumentos de localização numa atitude
propositadamente relaxada. Constatou que as naves arcônidas haviam
voltado a colocar-se em movimento, sem assumir a posição de ataque.
— O que
significa isso, major? — perguntou, dirigindo-se a Claudrin.
— Eles
nos cercam — respondeu o homem nascido em Epsal. — Formarão uma
concha impenetrável em torno de Saós, sir. Isso significa que não
poderemos sair do sistema, a não ser que Atlan nos deixe passar.
Cardif-Rhodan
fez um gesto de desprezo.
— É
claro que o arcônida está com medo — constatou em tom de
satisfação. — Se tivesse tanta certeza da vitória não deixaria
de atacar.
Deu as
costas a Claudrin e só então viu Allan D. Mercant.
— De
onde veio o senhor? — perguntou.
O chefe de
segurança conseguiu sorrir. Apesar disso não pôde disfarçar o
abalo que lhe causava o aspecto de Rhodan. O administrador
transformara-se num gigante... disforme.
— Pensei
que o senhor talvez precisasse de mim — disse Mercant. — Quando
atacarmos esse maldito ninho dos antis, eu lhe darei todo apoio.
— Vejo
que ainda existem terranos corajosos! — exclamou Cardif,
entusiasmado. — A bordo da Ironduke só tenho ouvido vozes
queixosas, recomendando cautela.
Mercant
empertigou-se. Evidentemente sentia-se lisonjeado.
“Esse
sujeito deve ser artista”,
pensou Claudrin, embora aquilo não o divertisse nem um pouco.
— Só
quem age pode colher os frutos do sucesso — disse Mercant, olhando
em torno em atitude belicosa. — Mr. Bell e os outros oficiais
acreditam que nosso ataque a essa base ridícula só será
bem-sucedido se utilizarmos todas as naves.
Rhodan
soltou uma risada de deboche. Bateu cordialmente no ombro de Mercant.
Este teve uma sensação estranha ao contemplar os distintivos que
Rhodan trazia no peito. Antigamente o administrador costumava
envergar um simples uniforme de campanha.
O espírito
confuso de Cardif não estava em condições de reconhecer a
armadilha psicológica que o chefe de segurança lhe colocara.
Mercant estimulara de propósito o espírito de contradição do
administrador.
— Todas
as naves? — repetiu Rhodan, em tom de deboche. — Garanto que
conquistaremos Saós com dez naves.
— As
naves que continuarão no espaço evitarão qualquer intervenção de
Atlan — disse Mercant.
Não se
esforçou mais para ocultar a satisfação que sentia.
Cardif
interrompeu a palestra com um gesto relaxado.
— Vamos
atacar — ordenou.
Mercant e
Bell olharam-se, sem dizer uma palavra. Enquanto Rhodan escolhia as
dez naves que participariam da invasão, o plano de Reginald Bell
começou a ser posto em ação. O grupo que o executaria seria
comandado pelos tenentes Brazo Alkher e Stana Nolinow, bons
conhecedores das condições reinantes na base dos antis.
Thomas
Cardif não poderia imaginar que, no momento em que desfechasse o
ataque a Saós, outro grupo desceria sobre o planeta.
Tudo
dependia de que Atlan ficasse quieto por algum tempo. Suas
gigantescas naves robotizadas estavam espalhadas estrategicamente em
torno de Saós e suas torres de artilharia giravam ameaçadoramente.
Dez
cruzadores pesados da frota terrana desprenderam-se do grupo a que
pertenciam e penetraram na atmosfera rarefeita do planeta. Seus
jatos-propulsores fizeram tremer o ar formado por nitrogênio e gás
carbônico.
A missão
Saós teve início.

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