domingo, 4 de setembro de 2016

P-111 - Sob Uma Falsa Bandeira - Kurt Brand [Parte 2]

O senhor falou muito claro — disse Morris. — O que acontecerá depois de uma semana? Esperam-se novas remessas? O abastecimento posterior estará garantido?
Sinto muito, mas sobre isso não lhe posso dar qualquer informação.
Rebok lamentava. Dirigindo-se a Rascall, disse:
Se soubesse antes, não haveria nenhum problema em arranjar algumas garrafas para você.
Mas da forma que estão as coisas... Bem, sinto muito, Harry.
Não há problema. A culpa não é sua. Ontem de noite me roubaram novecentas garrafas de liquitivo. Talvez a polícia esteja interessada em saber disso.
Os dois funcionários uniformizados realmente se interessaram e reduziram a termo as declarações de Rascall. Quando este as assinou, um deles disse:
Novecentas garrafas! Isso significa que novecentas pessoas deixarão de ser abastecidas. Vê o que significa sonegar o material?
Serão apenas oitocentos e noventa e nove pessoas — retificou Rascall com a voz tranqüila. — Não devemos contar o ladrão.
Quando deixaram a cidade para trás, ligaram o rádio do carro e ouviram que o governo decretara o estado de emergência. Na Europa já houvera choques entre os viciados e a polícia.
Havia mortes a lamentar. Os governos dos diversos países pediram que a população se mantivesse calma. Afirmavam que dentro de uma semana haveria quantidades suficientes de liquitivo para atender às necessidades de todos.
Phil Morris contemplava a paisagem.
O senhor acredita nisso? — perguntou em tom sombrio.
Rascall fez que não.
Não acredito muito, doutor. Isso apenas representa um calmante para o povo.
E o calmante não produzirá o menor efeito. Nem poderia produzir! Uma pessoa que adquiriu o vício continuará viciada pelo resto da vida. Se o licor não chegar dentro de uma semana, haverá uma catástrofe.
Acontece que a catástrofe já começara!
Nos portos espaciais dos diversos continentes grandes massas de gente se comprimiam.
Recorriam ao dinheiro ou às ameaças para conseguir passagens para os destinos mais impossíveis, na esperança absurda de que em outros mundos habitados encontrariam liquitivo à vontade. As primeiras noticias de catástrofe pareciam relativamente insignificantes. Um grupo de homens inescrupulosos dominara a tripulação de uma pequena nave cargueira e obrigara a decolar. A nave desaparecera e nunca mais fora encontrada.
Mas da América do Sul chegou a notícia de que o maior porto espacial dessa parte do mundo fora tomado de assalto por uma multidão. A polícia era impotente. Várias instalações foram destruídas e três naves caíram e explodiram em virtude de decolagens mal executadas.
Era o princípio do fim. Em todo o mundo, as pessoas viciadas no liquitivo revoltavam-se contra a lei e a ordem, exigindo que lhes fosse fornecido o entorpecente.
A ordem da Terra estava prestes a entrar em colapso.

* * *

Não tenho outra alternativa — disse Perry Rhodan, ao notar o olhar indagador de Jefe Claudrin e Bell. — Se o blefe não for bem-sucedido, tudo estará perdido. Em hipótese alguma posso ordenar a prisão de duzentos milhões de terranos. E a prisão é a única maneira de afastar a periculosidade de um louco.
E os cientistas? — perguntou Bell em voz baixa. — Afinal, eles têm à sua disposição mais de cinco mil fura-lamas. Devem estar em condições de produzir liquitivo. Basta que eles se apressem, para que os viciados...
Rhodan interrompeu-o.
Você não ouviu a penúltima mensagem vinda de Terrânia. Todas as sumidades estão de acordo em que a substância ativa, cuja composição química nos é conhecida, não é um tóxico, mas um excelente preparado rejuvenescedor. E essa substância não é outra coisa senão o produto da secreção das glândulas dos fura-lamas.
Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Serei capaz de acreditar em muita coisa, Perry, mas qual é a causa do vício maldito, e qual é a substância que, depois de doze anos de consumo da droga, leva à morte?
Nossos cientistas ainda não descobriram. Supõem que no liquitivo exista outra substância ativa, que ainda não conseguiram identificar.
Será possível? — Bell parecia apavorado.
Só posso acreditar no que dizem os entendidos. Com isso torna-se cada vez mais patente que nossa única esperança são os antis, que se mantêm escondidos no fundo do mar de Okul. Não respondem às mensagens que lhes enviamos pelo rádio, mas tenho certeza de que nos ouvem.
Por isso temos de irradiar uma mensagem à qual terão de responder, a não ser que queiram arriscar suas vidas.
E Lepso? — perguntou Claudrin.
Isso está liquidado — responde Rhodan. — Os estoques existentes no planeta foram levados à Terra e distribuídos. A semana de que dispúnhamos está chegando ao fim. As notícias vindas da Terra são cada vez mais alarmantes. Já temos a lamentar mais de dois mil mortos e feridos. Temos de agir. Assim chegaremos uma conclusão, seja ela qual for. Afinal, antis não têm vocação para o suicídio.
Claudrin soltou um suspiro e transferiu sua figura maciça para o outro lado da poltrona.
Está bem, sir. Dê-me o texto exato. Providenciarei para que seja irradiado por todos os transmissores, inclusive os dos submarinos — tirou papel e lápis. — Pode dizer.
Rhodan refletiu por um instante e começou a ditar:
Chamo Thomas Cardif e os antis. O planeta Okul está cercado. A fuga será impossível.
Coloquei cinco mil fura-lamas a bordo da minha nave, o que me permitirá prosseguir nos ensaios científicos, mesmo quando o planeta não exista mais. Pelo presente concedo-lhes um prazo de exatamente três horas. Se até o fim desse prazo não tiver em mãos a fórmula de um antídoto do liquitivo, mandarei destruir o planeta por meio de bombas arcônidas. A partir deste momento nosso equipamento de rádio permanecerá continuamente em recepção. Repito...
Claudrin levantou a cabeça.
Acredita que os antis morderão a isca?
Não terão outra alternativa, dentro da lógica. Por outro lado, é certo que sabem pensar e agir com toda coerência. Cardif estará disposto a negociar. É ao menos isto que espero conseguir com nosso ultimato.
Queira perdoar, sir, mas não confio em Cardif.
Um sorriso amargo surgiu no rosto de Rhodan.
Não há nada para perdoar, major. Também não confio nele. Esperemos para ver o que pode oferecer-nos. Providencie para que a mensagem seja irradiada imediatamente por todos os transmissores. Deverá ser repetida dez vezes. Depois disso os rádios ficarão constantemente em recepção. Aposto qualquer coisa como responderão. Preparem o equipamento goniométrico para essa eventualidade. Temos de saber onde se encontra o transmissor dos antis. Mesmo que a resposta seja negativa, teremos ao menos a possibilidade de colocá-los fora de ação sem destruir o planeta.
Jefe Claudrin levantou-se. Caminhando pesadamente, saiu do camarote de Rhodan.
Bell permaneceu em companhia deste. Coçando os cabelos rebeldes, num gesto pensativo, disse em tom contrariado:
O que pretende fazer se não responderem ao ultimato, Perry?
Rhodan fitou-o.
Transformarei Okul num sol. Se quisermos extinguir o mal pela raiz, não teremos outra alternativa. Se Cardif for eliminado, os antis ao menos abandonarão seu plano decenal. Conseguiremos a pausa de que tanto precisamos. Não me olhe assim Bell. Você acha que é fácil condenar à morte um mundo inteiro, mesmo desabitado?
Bell fitou o teto. Não respondeu.

* * *

Cento e oitenta minutos podem transformar-se numa eternidade.
Depois de decorrida uma hora do prazo, Rhodan mandou tomar todos os preparativos para a destruição do planeta. Transmitiu uma mensagem não codificada à frota estacionada no espaço, ordenando-lhe que preparasse cinco bombas arcônidas.
Rhodan esperava que os receptores dos antis captassem essa ordem. Foi por isso que não se esforçou para ocultar os preparativos do ataque. Queria que se convencessem que desta vez estava falando sério, e que não teria a menor consideração pelo filho.
Mais uma hora passou-se sem que os antis dessem sinal de vida.
Os submarinos continuavam estacionados na superfície, cada um em sua área de operações.
Seus goniômetros funcionavam ininterruptamente, mas não localizaram nada. Os radiogoniômetros estavam prontos para entrar em funcionamento. Assim que o transmissor dos antis desse qualquer sinal, determinariam a direção de onde este fora emitido. Sem dúvida ao menos três submarinos conseguiriam captar os sinais dos antis, e a interseção das respectivas linhas direcionais corresponderia à posição do transmissor dos antis.
O cargueiro estava atracado à margem da grande baía, com as máquinas já aquecidas. Poderia partir a qualquer momento para recolher os submarinos. Isso demoraria cinco horas, motivo por que o ataque mortífero a Okul só poderia ser iniciado depois de seis horas.
A Ironduke circulava a pequena altitude em torno do planeta selvático.
Rhodan encontrava-se na sala de comando. Mantinha-se silencioso, com os lábios cerrados, diante das telas. Embaixo da nave deslizava a paisagem de Okul. Era uma paisagem monótona, que não oferecia a menor variação.
Claudrin conversava com o professor Amo Kalup, o gênio que inventara o sistema de propulsão linear. Aquele técnico não quis privar-se do prazer de participar dessa missão.
Nunca se sabe o que pode acontecer. Se houver um imprevisto, quero estar presente — dissera em tom categórico.
Era um verdadeiro gigante. Sua calva reluzia que nem uma bola de bilhar, e bochechas flácidas lembravam uma marmota satisfeita. Naquele momento parecia ter perdido o espírito de ironia que geralmente costumava revelar perante os outros.
Dava respostas lacônicas e objetivas às perguntas de Claudrin, que versavam exclusivamente sobre assuntos técnicos.
Rhodan mal e mal os ouvia. Seus pensamentos vagavam em outro lugar. Olhava constantemente para o relógio.
Duas horas e treze minutos já se haviam passado.
Por que o tempo passava tão devagar? Será que os antis confiavam em que ele recuaria diante da destruição do planeta? Esperariam que não condenaria o filho à morte?
Seja como for”, pensou, “estão muito enganados.”
Rhodan estava firmemente decidido a transmitir a ordem fatal à frota, exatamente dentro de — voltou a olhar para o relógio — quarenta e cinco minutos.
A vida de milhões de seres humanos e bilhões de outros habitantes inteligentes da Via Láctea estava em jogo.
E isso pesava mais que a vida de duzentos e cinqüenta antis e de um traidor.

4



A superfície revolta do mar não fazia desconfiar de nada.
Acontece que a mil metros abaixo dessa superfície jaziam os cumes entrecortados de uma cadeia submarina montanhosa mergulhada em eterna escuridão. De ambos os lados, as encostas desciam a uma profundidade de mais de quatro mil metros. Não havia nada que crescesse nessas montanhas; nem mesmo nos topos das mesmas havia qualquer forma de vegetação.
Em certo lugar, um paredão de rocha quase vertical abaulava-se para dentro, fazendo surgir uma saliência. Esta nunca poderia ser descoberta de cima, mesmo que os aparelhos de localização fossem postos a funcionar bem acima da saliência. Aquele degrau de dez metros fazia surgir uma cobertura de rocha que era tão grossa que não permitia a penetração de qualquer tipo de radiação.
Se um submarino tivesse mergulhado exatamente nesse lugar, o observador atento não poderia ter deixado de notar que, em certo ponto, o paredão de rocha, que descia sob a saliência, era tão liso e regular que, de forma alguma, poderia ter sido produzido pela natureza. Havia uma mancha redonda de pelo menos trinta metros de diâmetro. Bem no centro havia uma fresta finíssima, que representava a separação entre os gigantescos portões embutidos nas paredes de rocha. Dessa forma poderia ser aberta à vontade a entrada de um gigantesco túnel cheio de água, que levava para o interior da cadeia de montanhas.
Era a fortaleza dos antis, o último refúgio de Thomas Cardif.
Havia uma eclusa, que separava o túnel da fortaleza propriamente dita, cheia de ar. As instalações montadas nas profundezas da montanha trabalhavam ininterruptamente, a fim de encher os gigantescos espaços internos de ar puro. As luminárias instaladas em toda parte nunca permitiam que a noite descesse sobre a fortaleza. Os corredores, os aposentos e os laboratórios dispunham de calefação. Uma pessoa desavisada nunca seria capaz de imaginar que se encontrava a mais de mil metros abaixo da superfície do mar.
Os antis haviam dispensado todo o cuidado à construção de seu esconderijo, pesando todas as alternativas, inclusive a situação de emergência em que se achavam. Sabiam que seria impossível localizá-los por meio do equipamento de goniometria, e que nunca seriam encontrados. No entanto, haviam instalado o equipamento técnico que lhes permitia observar atentamente todos os movimentos do inimigo.
Uma galeria descia da fortaleza até o fundo do mar, onde prosseguia em sentido horizontal.
Mantendo-se sempre cem metros abaixo do fundo do oceano e percorrendo a dura rocha primitiva, um cabo seguia mais dois mil quilômetros para terminar numa estação de rádio controlada a distância. Esta consistia num recipiente à prova de pressão, que podia ser escamoteado à vontade, para transmitir ou receber. Se a estação fosse localizada por um goniômetro, poderiam fazê-la descer a qualquer momento para dentro da pedra. Dessa forma dispunham de uma antena que subia bem alta e lhes permitia receber imagens da superfície. Tais imagens posteriormente eram interpretadas. A transmissão podia ser realizada a partir do fundo do mar.
Thomas Cardif e um velho sacerdote de Baalol estavam sentados na sala de rádio da fortaleza e contemplaram as telas que se enfileiravam na parede. Uma disposição adequada das antenas permitia que um só receptor captasse varias imagens. Dessa forma os antis tiveram uma boa visão de conjunto dos acontecimentos que se desenrolavam na superfície.
Quando receberam a mensagem de Rhodan, sabiam perfeitamente que o terrano não estava blefando. Sabiam que Okul estava cercado por uma frota gigantesca. E imaginavam que Rhodan estaria firmemente decidido a transformar em realidade a destruição do planeta.
Cardif era a imagem perfeita do pai. Só mesmo um observador muito atento que visse Cardif e Rhodan ao mesmo tempo teria notado a ausência de uma ou outra ruga no rosto. Os olhos de Cardif eram cinzentos, mas além disso apresentavam um brilho amarelento. Era esta a única diferença real. Sentado numa poltrona pouco confortável, fitava as telas com o rosto sombrio.
Não vejo nenhuma saída — disse.
O sacerdote lançou-lhe um olhar perscrutador. Sua barba espessa lembrava a de um comandante dos saltadores. Talvez um dos seus antepassados tivesse sido patriarca.
Existe uma saída — disse em tom lacônico — e nós a encontraremos.
O alto-falante repetiu pela décima vez o ultimato de Rhodan e calou-se. Um ligeiro dique revelava que o aparelho dos terranos fora colocado em recepção.
Cardif olhou para o relógio.
Dispomos de menos de duas horas, Rhabol. É muito pouco para elaborar qualquer plano. Rhodan apenas quer que o abastecimento de liquitivo seja garantido. Assim que os fura-lamas chegarem aos seus laboratórios, o problema estará resolvido. Descobrirão a secreção de suas glândulas e logo iniciarão a produção.
Um sorriso confidente surgiu no rosto do sacerdote.
Você está enganado, Cardif. Naturalmente os pesquisadores de Rhodan descobrirão a secreção, mas isso não lhe adiantará nada. Até poderão produzir liquitivo, mas não será o liquitivo que lhes tem sido fornecido. Apenas terão um regenerador das células de efeito limitado. Você devia saber disso. Até parece que o ultimato de Rhodan lhe roubou parte do sangue-frio pois, do contrário, essa observação nunca teria saído da sua boca. Será que o efeito duplo do liquitivo não representa uma chance para nós?
Cardif refletiu. Finalmente fez um gesto negativo.
Não vejo como isso poderá ser-nos útil. Antes que Perry reconheça seu engano estaremos mortos. Em hipótese alguma deixará de cumprir seu ultimato. Daqui a duas horas dará início à destruição do planeta. Com isso privará os habitantes da Via Láctea do liquitivo. Haverá uma catástrofe imprevisível, quando os viciados começarem a ficar furiosos. E isso não acontecerá apenas na Terra, mas em todos os lugares em que se realiza o comércio galáctico. É uma pena que não poderei assistir a isso.
A voz de Cardif realmente parecia triste. Lamentava-se por não poder assistir pessoalmente à concretização de seu plano diabólico. Sua morte transformava-se, para ele mesmo, num acontecimento secundário.
Rhabol olhou para os dois antis que estavam sentados diante do equipamento de rádio.
Devemos procurar ganhar tempo. Como poderemos conseguir que Rhodan nos conceda o adiamento? Se ficarmos calados não conseguiremos.
Só poderemos aceitar ou rejeitar o ultimato.
O sacerdote parecia decepcionado.
Pense um pouco, Cardif. Deve haver uma possibilidade.
Thomas Cardif tornara-se criminoso por ódio. Odiava o pai como nunca homem algum odiara um outro. Julgava-o responsável pela morte da mãe. Thora, a arcônida, não recebera a ducha celular no planeta Peregrino e envelhecera, enquanto Rhodan continuara jovem. Na opinião de Cardif isso bastava para julgar Rhodan capaz de cometer um assassinato por via indireta. Queria livrar-se da mulher que estava envelhecendo, e por isso confiou-lhe uma missão perigosa. Era o que acreditava Cardif, e não havia quem o demovesse dessa crença. Ninguém conseguia convencê-lo de que Thora aceitara a missão por sua livre e espontânea vontade.
Mas havia outros motivos para aquele ódio. Seu pai, com quem tanto se parecia, tivera êxito na vida. Cardif não fora bem-sucedido. Nunca seria capaz de confessar que ele mesmo era culpado do fracasso. O caráter de Rhodan não lhe permitia concordar com qualquer exceção que favorecesse seu filho. Dispensara-lhe o mesmo tratamento de qualquer outro oficial e nunca lhe dera qualquer tipo de preferência. Quando Cardif soube que Rhodan era seu pai, a admiração discreta transformou-se num ódio apaixonado.
Havia um terceiro motivo. Rhodan concordara com a aplicação do bloqueio hipnótico que transformara a personalidade de Cardif, fazendo dele um homem totalmente diferente. A verdadeira memória ficou apagada, até que os antis lhe restituíssem a mesma. E com essa memória restituíram-lhe o tremendo ódio ao pai, que lhe roubara mais de cinqüenta dos melhores anos de sua vida. Cardif também permanecera relativamente jovem, graças à herança de Thora, a arcônida, já que a expectativa de vida dos arcônidas era maior que a dos terranos. Pelo aspecto exterior parecia ter a mesma idade que Rhodan.
Sim, talvez exista uma possibilidade — disse Cardif em tom amargurado e fitou o sacerdote. — Devemos fazer com que Rhodan compreenda que logicamente não terá a menor chance de, num prazo não muito longo, conseguir quantidades suficientes de liquitivo, caso destrua Okul. Se conseguirmos fazê-lo acreditar nisso, estará disposto a negociar.
Negociar? Acredita que nos concederá livre trânsito?
Talvez concorde até com isso, mesmo que seja a contragosto. Deve perceber que, se quiser evitar a catástrofe, esta será a única possibilidade. Para isso devemos levantar um pouco o véu de mistério que envolve a produção do liquitivo.
Não venha me dizer...
Não. Não lhe fornecerei nenhuma informação. Apenas lhe garantirei que nem poderá pensar em iniciar a produção do entorpecente antes de três meses.
Rhabol olhou para os radioperadores.
Se quiser, pode falar com Rhodan.
É o que farei! — exclamou Cardif e levantou-se. — Ninguém poderá localizar— nos. Seria uma calamidade se Rhodan descobrisse a fortaleza. Poderia destruir-nos, sem arriscar-se a perder o planeta Okul. Mas não faria isso, pois precisa de outra coisa. E nós lhe ofereceremos esta outra coisa, Rhabol.
Houve uma demora na transmissão. Constantemente eram captadas as mensagens trocadas entre a Ironduke e a frota que aguardava no espaço. Dessa forma os antis tomaram conhecimento de que as cinco bombas arcônidas destinadas à destruição do planeta estavam sendo preparadas. Ao saber disso, qualquer dúvida que Cardif ainda pudesse nutrir desapareceu.
Era bem verdade que indagava em vão quando começaria o ataque, já que ainda havia os vinte submarinos que aguardavam nos mares do planeta. Rhodan não sacrificaria essas unidades.
Concluiu que ainda dispunha de mais de duas horas.
Mas não estava disposto a assumir qualquer risco. Dez minutos antes do fim do prazo do ultimato irradiou uma mensagem; disse que queria falar com Rhodan.
No mesmo instante em que a mensagem foi captada, os goniômetros entraram em funcionamento. Enquanto Rhodan formulava sua resposta, a posição do transmissor foi determinada. Ficava quatro mil metros abaixo da superfície do mar e a milhares de quilômetros da costa. Os três submarinos que se encontravam mais próximos partiram. Traziam a bordo bombas submarinas de grande calibre.
Thomas Cardif esperou. Longos minutos se passaram até que a voz da criatura odiada soasse no alto-falante.
Aqui fala Rhodan. Dentro de cinco minutos termina o prazo do ultimato.
Já sabemos disso. O que esperam conseguir com a destruição de Okul? Os cinco mil fura-lamas não serão suficientes para produzir uma quantidade adequada de liquitivo. Se Okul for destruído e nós morrermos, não haverá salvação para bilhões de seres inteligentes.
Será que a culpa é minha?
Estamos dispostos a ajudar.
Rhodan pareceu ter perdido a fala por alguns segundos, pois sua resposta demorou bastante.
Querem ajudar-nos? Estou curioso para saber como. Sou todo ouvidos.
Thomas Cardif lançou um olhar de triunfo para Rhabol. Sentiu-se vitorioso. Evidentemente não se entregava a qualquer otimismo exagerado, mas num canto de seu cérebro começaram a desenhar-se os contornos imprecisos de um plano arrojado, cuja execução apenas exigia tempo.
Umas poucas horas seriam suficientes.
Vocês conseguirão fabricar liquitivo dentro de três meses. Talvez. Mas o que acontecerá até lá?
É um erro subestimar nossos cientistas.
É um erro ainda maior superestimá-los.
Deixemos de palavras vazias — respondeu Rhodan, com um tom de voz que revelava certa impaciência. — Só faltam dois minutos. Depois disso mandarei dar inicio à ação de destruição. Se tiver uma oferta, diga logo. Ande depressa!
Cardif estremeceu. Seu rosto retratava um ódio profundo, mas a voz continuava firme e tranqüila. Possuía o mesmo dom de autodomínio que o pai.
Estamos dispostos a entregar-lhes três depósitos dos saltadores. Os estoques de liquitivo existentes nos mesmos poderão abastecer os mundos solares por vários meses.
Nada mau — respondeu Rhodan. — O que você exige em troca?
Okul não deverá ser destruído — disse Cardif. — Além disso, vocês colocarão à nossa disposição uma espaçonave capaz de transportar duzentas e cinqüenta pessoas, com uma provisão adequada de água e mantimentos. É só isso.
É só isso — disse a voz saída do alto-falante em tom ligeiramente irônico.
Cardif imaginava o sorriso de Rhodan, e seu rosto ficou desfigurado pela cólera. Mas soube dominar-se. Em hipótese alguma deveria trair suas emoções.
Quem ri por último sempre ri melhor”, pensou. “E eu, Cardif, serei a pessoa que rirá por último.
Não é muito, se considerarmos o que vocês receberão em troca.
Naquele instante terminou o prazo do ultimato.
Está bem: concordo. Dê-me os nomes dos planetas em que se encontram os depósitos dos saltadores.
Depois de Cardif ter citado os nomes, Rhodan acrescentou:
Cumprirei um acordo, mas há uma restrição. A espaçonave que será entregue por mim não levará duzentas e cinqüenta pessoas, mas apenas duzentas e quarenta e nove. Entendido?
O que quer dizer com isso?
O que quero dizer é que você não irá com os antis, mas viajará conosco. Você será meu prisioneiro.
Não.
Tanto faz. Nesse caso iremos buscar o liquitivo nos planetas que você acaba de indicar sem levá-lo a bordo, já que você estará morto.
Cardif cerrou os dentes para não berrar para dentro do microfone. Revelou um autodomínio que nem mesmo o sacerdote pôde deixar de admirar. Falando no tom mais tranqüilo de que era capaz, disse:
Isso é coação e chantagem. Posso refletir calmamente sobre isso?
Você pode refletir, mas não calmamente. Nesse meio tempo arranjarei a nave e a mandarei pousar. Nossos instrumentos de localização já apuraram a posição de sua fortaleza, e por isso não teremos a menor dificuldade em encontrar um local de pouso adequado.
Já conhecem a localização de nossa fortaleza? — repetiu Cardif, e sorriu desapontado. — Que interessante! — soltou uma risadinha. — Aliás, você se enganou nos cálculos, Rhodan. Os antis são duzentos e cinqüenta, sem contar minha pessoa. Não se esqueça desse detalhe.
Você dispõe de mais uma hora. Não se esqueça disso — respondeu Rhodan com a voz fria. — Exatamente dentro de uma hora quero ouvir sua resposta. E dessa resposta dependerá seu destino. Pense bem. Daqui a uma hora voltarei a chamar.
O alto-falante emitiu um ligeiro estalido. Depois disso só restou um zumbido no interior da sala.
O sacerdote esperou até que o radioperador desligasse o transmissor. Depois disse, dirigindo-se a Cardif:
Nós, os sacerdotes de Baalol, estamos salvos. Rhodan só está interessado em você.
Você acredita que ele conseguirá pôr as mãos em mim? — perguntou Cardif em tom sarcástico.
Não pense que vocês poderão comprar sua liberdade à minha custa. Antes que Isso aconteça, revelo a Rhodan a situação desta fortaleza e das outras bases. As coisas não serão tão fáceis como você pensa. Além disso, tenho um plano.
Rhabol aproximou-se. Havia um tom de espreita em sua voz.
Que plano é esse?
Um sorriso irônico surgiu no rosto de Thomas Cardif.
Avise seu pessoal para que compareça ao laboratório e prepare uma operação. Mande que os médicos se dirijam ao setor cerebral. Preciso falar com eles. Todos os especialistas deverão aguardar-me no grande auditório. Comparecerei dentro de dez minutos.
O que pretende fazer? — perguntou o sacerdote em tom impaciente.
Thomas Cardif expôs seu plano.

* * *

Quando Rhodan desligou, Bell não conseguiu controlar-se mais. Durante todo o tempo mantivera-se junto a Rhodan, com os dentes cerrados, dominando-se a muito custo.
Pretende deixar que se vá, se insistir nisso?
Rhodan virou-se lentamente. Seu rosto parecia impassível.
Temos uma hora para pensar sobre isso — limitou-se a dizer, dando a entender que a decisão final ainda não fora tomada.
Não tenho certeza de que realmente encontramos a fortaleza. Apenas localizamos o transmissor, que fica a quatro metros de profundidade. Não existe submarino que possa mergulhar tão fundo. Nem mesmo o dos antis. Se a fortaleza fica no fundo do mar, resta saber como conseguiram chegar lá.
Bell fitou Rhodan.
Acredita num blefe? Como poderiam transmitir de uma profundidade dessas sem que eles mesmos...?
Por meio de um dispositivo teleguiado, Bell. Deveríamos ter pensado nessa possibilidade.
A porta abriu-se. O General Deringhouse entrou.
Alguma ordem, sir?
Por enquanto não. Apenas, a ação planejada sofre um adiamento de uma hora. Providencie para que as respectivas ordens sejam expedidas através de mensagens de rádio não codificadas. As bombas arcônidas continuarão a ser mantidas de prontidão. Quanto à nave destinada aos antis, pode ser providenciada posteriormente.
Talvez consigamos convencer os saltadores a recolher o bando a bordo de sua nave — sugeriu Bell. — Há muitos por aqui.
Isso é uma afirmativa um tanto exagerada — disse Perry Rhodan com um ligeiro sorriso. — De qualquer maneira, acho que conseguiremos arranjar uma nave mercante saltadora que disponha de espaço em seus porões de carga. Mas vamos aguardar até que o prazo de uma hora chegue ao fim.
Aquela hora custaria muito a passar e, antes que chegasse ao fim, aconteceu algo totalmente imprevisto.
Rhodan encontrava-se na sala de comando da Ironduke, juntamente com Bell. Estava discutindo com o General Deringhouse as próximas medidas a serem tomadas. Subitamente a porta que dava para a sala de rádio foi aberta com grandes demonstrações de nervosismo. Era o chefe da equipe de rádio, que exclamou:
Sir, é Thomas Cardif!
Rhodan não perdeu a calma.
Estávamos aguardando sua mensagem. Já vou.
Não é isso, sir. Cardif está chamando pela comunicação audiovisual. Acha-se na superfície.
Temos a nova posição em que se encontra.
Rhodan não respondeu. Dirigiu-se apressadamente à sala de rádio, onde o rosto do filho o fitava de uma pequena tela. O transmissor devia funcionar com uma intensidade mínima, pois a imagem era pouco nítida, com os contornos apagados, embora se reconhecesse perfeitamente o rosto de Cardif.
Aqui fala Rhodan. Resolveu alguma coisa?
Rhodan preferiu não ligar a câmara.
Dessa forma via Cardif, mas este não podia vê-lo.
Resolvi, sim.
Parecia haver um certo tom de espreita na voz de Cardif. Rhodan resolveu agir com cuidado.
Mas as palavras que se seguiram fizeram com que se esquecesse da cautela, que foi substituída por uma tremenda curiosidade.
Refleti demoradamente sobre o assunto. Quero falar com você. A sós... Rhodan.
Nossa palestra não está sendo ouvida por nenhuma pessoa que não possa conhecer a decisão tomada por você.
Você não me entendeu. Acho que deveríamos encontrar-nos, para conversar a sós sobre todos os detalhes.
Encontrar-nos?
Rhodan ficou perplexo. A resposta demorou um pouco. Milhares de idéias e alternativas passaram por seu cérebro. Bell e Deringhouse, que também se achavam na sala de rádio, entreolharam-se. Encontravam-se numa posição em que Cardif não poderia vê-los, mesmo que a câmara da Ironduke estivesse ligada.
Será que há algo demais na minha proposta? — perguntou Cardif em tom impaciente. — Você acha que isto é um truque, não é? Acontece que a esta altura um blefe não adiantaria mais nada. Vim só à superfície. Meus aliados encontram-se numa fortaleza segura, situada no topo de uma montanha. Minha posição já foi determinada por seus radiogoniômetros. Você realmente acha que eu seria capaz de assumir um risco como este, se não confiasse em você?
Você confia em mim?
Confio, sim, e peço-lhe que retribua esta confiança. Refleti sobre tudo, e começo a não compreender a mim mesmo. É verdade que o odiei porque acreditava que tivesse assassinado minha mãe e...
Acreditava? — repetiu Rhodan em tom de perplexidade. — O que quer dizer com isso?
Já começo a duvidar disso. Você poderá explicar tudo, e já estou disposto a acreditar em você. Poderíamos esquecer muitas coisas do passado.
Para falar com franqueza, Thomas, a reviravolta é muito repentina. Além disso, você resolveu professar idéias e tomar atitudes mais recomendáveis, justamente no momento em que o perigo é maior. Você há de concordar, pois, que uma conduta dessas não é muito convincente.
Você não deixa de ter sua razão, mas deve considerar certas circunstâncias. Os sacerdotes libertaram-me contra minha vontade. Submeteram-me à força a um tratamento de choque, que me restituiu a memória e a personalidade. Talvez até tenham atiçado meu ódio contra você e contra a Terra. Não sei. A situação desesperadora em que me encontro levou-me a refletir, e minhas reflexões produziram o resultado que você por certo considera surpreendente.
Rhodan continuava desconfiado. Era incapaz de imaginar que num tempo tão curto pudesse haver uma modificação tão radical, que correspondia exatamente aos desejos mais arraigados nas profundezas de seu coração.
Seria possível que o tratamento de choque que rompera o bloqueio hipnótico poderia produzir um resultado como este?
Não acredito na mudança de atitude que você quer exibir — disse depois de algum tempo, mas teve uma dificuldade tremenda em pronunciar estas palavras. Gostaria tanto de acreditar no filho. — Você apenas quer atrair-me a uma armadilha — um sorriso frio surgiu em seu rosto. — Talvez pretenda ganhar tempo, à espera de auxilio. Mas isso não adiantaria, porque este planeta está bloqueado. Nem mesmo a força dos antis será capaz de romper o bloqueio.
Sei disso. Justamente por isso qualquer armadilha seria inútil — confessou Cardif, e sua voz parecia exprimir tristeza.
Agora, que finalmente cheguei à decisão de dialogar, você se recusa a acreditar em mim. Se é que existe algo de bom dentro de mim, sua desconfiança o sufocará. Como é que o substrato bom de minha alma pode manifestar-se?
Rhodan percebeu que se defrontava com a decisão mais difícil de toda a sua vida. Era uma decisão que lhe estava sendo imposta. Mas ao mesmo tempo era uma decisão pela qual ansiara com todas as fibras do coração, mas que já não tivera esperanças de alcançar.
Sou seu pai, Thomas — disse em tom menos duro. — Acontece que você também é meu inimigo mortal. Você trouxe um sofrimento imenso para a Terra e para outros mundos, apenas para atingir a mim, que afinal sou apenas uma pessoa. Cometeu crimes porque estava perseguindo um fantasma. Muitas pessoas já o condenaram à morte, e eu sou uma delas. Gostaria de acreditar em você, mas não sei se posso, se devo assumir a responsabilidade por um passo como este.
Todos cometem erros, e eu estou reconhecendo os que pratiquei. Tentarei repará-los. Foi eu quem criou o liquitivo, e sei como fabricá-lo. Até poderia ajudá-lo a produzir um anti-soro que neutraliza os efeitos do vício e talvez possa mesmo evitar a morte, que constitui a fase final do processo mórbido. Se puder dispor dos pesquisadores mais competentes e dos laboratórios mais bem equipados, talvez consiga. Só assim poderei reduzir a carga de culpa que pesa sobre meus ombros. Mas se você recusar a mão que lhe estendo, não sei o que será de mim.
Rhodan lançou um olhar para Deringhouse e Bell. Parecia que estava pedindo socorro.
Ambos fitaram-no com uma expressão de dúvida e insegurança. Os dois se mantiveram parados.
Conforme esperava, Rhodan se viu só. A decisão teria que ser dele. Sentiu que essa decisão não seria determinada apenas pela inteligência, pois sofreria um condicionamento sentimental.
Deveria assumir a responsabilidade por isso? As decisões condicionadas pelo sentimento muitas vezes entravam em conflito com a razão. E agora seu raciocínio lhe dizia que o ódio obstinado de seu filho não poderia modificar-se tão repentinamente, para transformar-se em arrependimento e mesmo simpatia.
Procurou uma saída para suas dúvidas.
E encontrou-a. Chegou mesmo a revelá-la abertamente.
Não é fácil acreditar em você, Thomas Cardif, mesmo sendo meu filho. Se eu concordar com um encontro com você, apenas o faço para conhecer suas intenções. Quero descobrir os motivos da pretensa modificação de seu estado de ânimo. Mas nem pense em armar-me uma cilada. Meus homens estarão à espera nas proximidades e...
Irei só, e espero que você também. O platô em que nos encontraremos é muito pequeno. Nenhuma nave pode pousar no mesmo. Foi um planador que me deixou aqui juntamente com o aparelho de rádio. Se você quisesse atacar-me, eu estaria praticamente indefeso. Se vier só, defrontar-nos-emos a sós, e acho que você não tem medo de mim. Não estou armado.
Isso também pode ser uma armadilha e uma mentira”, pensou Rhodan, que já estava decidido a arriscar a experiência.
Não deveria garantir sua retirada? Qualquer passo em falso colocaria em risco o êxito já alcançado. Mas, por outro lado, não devia perder nenhuma chance de conseguir a colaboração do filho a favor da Terra.
Está bem; irei. Se possível, a pé.
Será fácil. Cem metros abaixo do platô existe uma planície na qual pode pousar uma nave. A partir de lá, você deverá ir sozinho. Concordo plenamente em que a nave fique à sua espera. Você há de reconhecer que a mesma pode estar em cima do platô dentro de poucos segundos, se houver algo de suspeito. Ninguém deverá vir ao platô sem que seus homens o vejam.
Essas palavras pareciam convincentes.
As últimas dúvidas de Rhodan desfizeram-se.
Surgiu uma ligeira pausa, quando chegaram os resultados da determinação goniométrica. Rhodan examinou-os. A mensagem de Cardif fora expedida numa pequena ilha rochosa, situada em meio a um dos grandes oceanos. O continente mais próximo distava quinhentos quilômetros.
Mas havia um detalhe que Rhodan não conhecia. A pouco menos de cem quilômetros da ilha, uma gigantesca cadeia de montanhas submarinas estendia seus cumes a mil metros abaixo da superfície.
Chegarei à ilha dentro de trinta minutos — disse Rhodan em tom resoluto. — Mas quero fazer-lhe uma advertência, Thomas. Se houver qualquer movimento suspeito, não terei mais nenhuma contemplação. Esta é a última tentativa de estender-lhe a mão. Não se esqueça disso.
Eu o espero — disse Cardif.
A tela apagou-se. O radioperador da Ironduke desligou o aparelho.
Rhodan caminhou lentamente em direção à sala de comando, seguido por Deringhouse e Bell. Os dois não pareciam muito confiantes, e não ocultaram sua opinião.
Não sei como você pode cometer a leviandade de confiar em Cardif, por um segundo que seja — esbravejou Bell, dando vazão à indignação que sentia. — Você acredita realmente nessa transformação milagrosa de seu caráter? Se o choque produzido pelo tratamento produziu alguma alteração, Cardif levou muito tempo para senti-la.
Deringhouse manifestou a mesma opinião.
Não acredito que Cardif tenha levado tanto tempo para notar a reviravolta em seu interior, se é que ela realmente ocorreu.
Não digo que confiarei nele sem restrições — respondeu Rhodan, falando devagar e examinando o mapa que estava estendido sobre a mesa, onde a ilha já havia sido assinalada. — Como poderia armar-me uma cilada? Afinal, encontra-se numa ilha solitária. A Ironduke ficará nas proximidades. Ninguém poderá aproximar-se do platô sem ser notado. Tenho de arriscar!
Quer dizer que a manobra se inspira principalmente na curiosidade — disse Deringhouse, numa tentativa de análise. — Se estivesse na sua situação, provavelmente agiria da mesma forma, sir.
Obrigado, general! — agradeceu Rhodan e fitou-o com uma expressão de alívio. — No fundo não tenho outra alternativa, e Thomas Cardif sabe disso tão bem quanto eu.
Não é só por ser meu filho. Devemos tentar tudo para pôr as mãos no fabricante do liquitivo. O que estamos esperando? Transmita as instruções necessárias à frota, que deverá ficar em rigorosa prontidão. Se a Ironduke for atacada, a destruição do planeta será iniciada imediatamente. Nesse caso interromperei todos os contatos com Cardif. Entendido?
Deringhouse confirmou com um gesto.
Pois siga em direção à ilha, general!
Enquanto a Ironduke abandonava sua órbita, desacelerando e mergulhando na atmosfera, Rhodan preparou-se para o encontro com o filho. Refletiu por muito tempo, e finalmente resolveu compartilhar a desconfiança dos amigos. Colocou um pequeno radiador portátil no bolso do lado direito da calça do uniforme. Não estava disposto a colocar-se à mercê de seu pior inimigo, sem dispor de uma única arma. Talvez estivesse cometendo uma injustiça contra ele, talvez não estivesse.
Avistaram a ilha. A gigantesca nave aproximou-se lentamente e sobrevoou a pouca altura a única montanha existente. Realmente havia um platô no cume dessa montanha. Era pequeno. Devia medir menos de trinta metros de diâmetro. Uma nave de grandes dimensões dificilmente conseguiria pousar ali.
Um vulto solitário estava de pé no centro do platô e olhava para cima. Via-se perfeitamente o rosto. Thomas Cardif estava só. Na rocha nua não havia o menor esconderijo. Ninguém poderia esconder-se sobre o platô ou nas proximidades do mesmo sem que as pessoas que se encontravam na nave o vissem.
Se isso for uma armadilha — disse Deringhouse em tom de ceticismo — estou curioso para ver como funcionará. Acho que Cardif desacompanhado dificilmente representará um perigo para o senhor.
Rhodan confirmou com um gesto.
Também penso assim. Vamos pousar. Perto do platô, conforme Cardif pediu. A planície permite o pouso.
A gigantesca nave desceu lentamente sobre a superfície e pousou com um movimento suave.
Bell acompanhou Rhodan até a saída.
Não consigo livrar-me da impressão de que há algo de errado nisso, Perry. Como poderemos saber o que estará acontecendo? Daqui não se vê a face oposta do platô.
Rhodan parou na saída da eclusa. Bem à frente dele tremeluzia o campo antigravitacional que o levaria para baixo. Finalmente disse:
Trago o emissor no bolso. O aparelho emitirá um sinal goniométrico, que indicará ininterruptamente a minha posição. Além disso, poderei chamar a qualquer momento pelo rádio — apontou para o aparelho versátil que trazia no pulso. — Além disso, concordo plenamente em que a Ironduke decole dentro de quinze minutos e aguarde minhas ordens numa altitude maior. Você acha que isso basta?
Bell parecia mais tranqüilo.
Acredito que sim — apertou a mão de Rhodan. — Quer dizer que decolaremos dentro de quinze minutos. Até lá você mal e mal conseguirá chegar ao cume da montanha. Boa sorte.

* * *

Os médicos de Terrânia rejubilavam-se. Durante três dias e oito horas não haviam notado que na tromba dos fura-lamas havia outra glândula que também produzia uma secreção. No momento os primeiros ensaios de laboratório com essa secreção estavam sendo realizados em células vivas envelhecidas e nos condutos nervosos. A gigantesca tela, límpida como um cristal, projetava a visão proporcionada pelo microscópio dos aras, que produzia uma ampliação de três milhões de vezes.
Ficaram muito surpresos ao notarem que a secreção da segunda glândula tinha as mesmas características químicas da outra. Embora pouco tempo se tivesse passado desde o momento do descobrimento da secreção, os resultados alcançados bastavam para provar inequivocamente que o principio ativo era idêntico. Apesar disso os cientistas ainda não estavam satisfeitos. Realizavam ensaios de laboratório com células e substâncias nervosas.
No entanto, a decepção revelou-se na tela.
A substância extraída da outra glândula também era um produto de efeitos rejuvenescedores.
Não atacava os nervos. Não era o veneno dos nervos que criava uma dependência irremediável, produzia a loucura e levava à morte.
Em meio à apresentação o professor Wild saiu correndo. Disparando o mais que podia, aquele homem de sessenta anos dirigiu-se à sala de autópsia, na qual fora descoberta a segunda glândula dos fura-lamas.
O chefe dessa seção era o Dr. A. Hughens. Este ouviu o relato exaltado do professor. Não podia deixar de partilhar das suspeitas do eminente sábio.
Venha, professor — disse Hughens de repente em tom impulsivo e levou-o para junto do microscópio.
O professor Wild contemplou a glândula descoberta por acaso, ampliada 1,5 milhões de vezes. À medida que observava sua estrutura, mais se exaltava. Guardava na memória a estrutura orgânica da glândula dos fura-lamas que fora descoberta em Okul.
Hughens — disse num cochicho, sem interromper seu exame. — Esta glândula não pode produzir a mesma substância ativa que a outra! Dê uma olhada na parte superior esquerda...
Afastou-se, para que Hughens pudesse acomodar-se junto ao microscópio. O biólogo viu a reprodução, que apresentava uma nitidez inacreditável. O professor Wild tinha razão. Acontece que, segundo as análises químicas, as substâncias eram idênticas.
Wild entrou em contato com a sala de projeção. Ouviu um resultado desalentador. A secreção da segunda glândula também era uma substância rejuvenescedora, cujas características químicas eram idênticas às da primeira.
Não acredito! — esbravejou Wild. — Mesmo que os testes confirmem milhões de vezes. Nesse caso direi que os testes estão errados. Deve haver outros métodos de exame.

***

As selvas fumegantes jaziam lá embaixo, nas planícies da ilha. Nos lugares em que Rhodan se encontrava, não crescia nada, embora o calor favorecesse o crescimento. Faltava a umidade.
Nas rochas não havia um centímetro sequer de terra; as mesmas estavam secas e cobertas de pó.
A diferença de altitude que realmente o separava do platô de cima era de menos de cinqüenta metros. A Ironduke, com seus oitocentos metros de diâmetro, parecia outra montanha. Sua altura ultrapassava a do cume propriamente dito. Apesar disso, nem mesmo as câmaras de televisão, instaladas na parte superior da nave, seriam capazes de registrar o que se passava atrás do platô situado no cume da montanha.
Rhodan não se apressou.
Recriminou-se por ser um otimista, já que acreditara que finalmente o lado bom de Thomas saíra vitorioso. Sua responsabilidade para com a Terra era maior que a que tinha para com o filho.
Mas poderia perder qualquer chance de dialogar com Cardif? Estaria realmente agindo apenas em benefício próprio? Não tinha diante de si a possibilidade de livrar a Terra e o Império Solar de um pesado fardo, neutralizando um inimigo poderoso ou talvez transformando-o num amigo?
Contornou um pedaço de rocha e viu à sua frente a última parte do caminho que tinha a percorrer. A figura de Cardif destacava-se nitidamente contra o céu. Não via o rosto, porque a luz vinda da frente o ofuscava. Mas não havia a menor dúvida de que a pessoa que via à sua frente era Cardif.
Percorreu os últimos metros e viu-se à frente do filho, que recuou até o centro do platô.
Os dois homens entreolharam-se, examinaram o rosto um do outro e mantiveram-se em silêncio.
Rhodan assustou-se. No primeiro instante teve a impressão de encontrar-se diante de um espelho. O homem à sua frente era-lhe a cópia fiel. Mostrava o mesmo rosto magro e os mesmos cabelos, apenas um pouco mais claros.
Os olhos também eram iguais, com exceção do brilho amarelento quase imperceptível, que se tornara ainda mais débil. E a figura alta e esbelta também era idêntica à sua.
Cardif também contemplava o homem que se encontrava à sua frente, embora o fizesse por motivos totalmente diversos. Ficou satisfeito por constatar que até então seu plano perigoso fora bem-sucedido. Seu sósia Rhodan comparecera só ao platô. A vizinhança da grande nave não lhe causava nenhuma preocupação. A mesma não poderia impedi-lo de realizar seu intento. E agora, depois de decorridos cinqüenta e oito anos, Rhodan era igualzinho a ele.
Naquele instante, os propulsores da Ironduke começaram a uivar, e a nave ergueu-se lenta e majestosamente.
Os homens acham que a uma altura maior terão uma visão mais ampla — disse Rhodan a título de desculpa. — Isso não tem nada a ver com nosso acordo. Vim só.
Cardif olhou para a Ironduke, que estacionou a dez quilômetros de altura. A mancha redonda cintilante mantinha-se imóvel. Rhodan sabia que as câmaras estavam apontadas para o pequeno platô e seriam capazes de detectar instantaneamente qualquer perigo que surgisse. Aquilo lhe dava uma sensação tranqüilizadora.
A nave não me preocupa — disse Cardif, enfrentando o olhar de Rhodan. — Você veio só; era apenas isso que eu queria. Aliás, por que resolveu acreditar em mim?
Rhodan sentiu-se pasmo. Qual seria a finalidade da pergunta?
Respondeu com a maior tranqüilidade:
Talvez muitas das suas alegações poderiam corresponder à verdade. Resolvi verificar pessoalmente. Se suas intenções forem honestas, venha comigo. Você terá à sua disposição nossos cientistas mais competentes e os laboratórios mais bem equipados. Até poderíamos esquecer o passado.
Poderíamos mesmo, Perry Rhodan?
O tom não combina com o arrependimento anteriormente manifestado”, pensou Rhodan, perplexo, e resolveu ter muita cautela.
Seu instinto preveniu-o, embora ainda não visse nenhum perigo. Onde poderia estar o risco?
Cardif encontrava-se a poucos passos, desarmado, com um sorriso irônico nos lábios. As mãos pendiam junto ao corpo. Parecia despreocupado — despreocupado demais face à situação em que se encontrava.
Mais tarde poderemos conversar sobre tudo, Thomas. Vim para apertar a mão que você me estende. Por que não me dá a mão? — estendeu a mão, sem sair do lugar. — O que houve?
Fitou o rosto do filho, no qual parecia haver uma expressão de expectativa, de espreita. O calor tornou-se quase insuportável, e Rhodan teve a impressão de que o ar começava a tremeluzir sobre o platô de rocha. De repente os contornos do rosto de Cardif tornaram-se menos nítidos.
Parecia flutuar atrás de um véu de ar aquecido.
O ar tornou-se sufocante.
Subitamente Rhodan compreendeu. Já era tarde. Pôs a mão direita no bolso e tirou a arma portátil. Deu um salto em direção a Cardif, que continuou tranqüilamente no mesmo lugar.
Esbarrou contra o ar tremeluzente.
Era um campo protetor feito de energia, conforme imaginara. Acontece que o campo abobadado envolvia a ele, Rhodan, não a Cardif. A abóbada isolava-o do mundo exterior.
Ainda bem que percebera em tempo. Na situação em que se encontrava, um disparo da arma de radiações poderia ser-lhe fatal. E as ondas de rádio não mais seriam capazes de chegar até a Ironduke, mas isso não fazia a menor diferença. Se estas deixassem de ser captadas, Deringhouse ou Bell entrariam em alarma.
Então era mesmo uma cilada.
A decepção foi excessiva para Rhodan. Ainda não conseguia imaginar o que Cardif pretendia alcançar, pois não poderia levá-lo dali sem correr perigo. Não foi só essa certeza que fez com que Rhodan hesitasse. O que poderia fazer na situação em que se encontrava?
Revelara a Cardif que estava armado.
Fora um erro imperdoável. Com um gesto de resignação voltou a guardar o radiador.
O campo energético não poderia ser mantido para sempre. Como se formara? De que forma era alimentado?
Os antis!
Só eles seriam capazes de erigir um campo energético como este por meio de suas energias mentais. Deviam estar muito próximos. Onde? No platô não havia nenhum esconderijo.
Estariam debaixo do solo?
De repente Rhodan teve a impressão de ter encontrado a resposta. Sentiu um abalo no chão. O trecho do platô onde se encontravam começou a descer. Então foi por isso que Thomas recuou. Quis atraí-lo para a plataforma que era o piso de um elevador.
E era incapaz de fazer qualquer coisa! Reduzido à impotência, ficou parado sob a pequena abóbada energética, que nem sequer deixava passar o ar. A atmosfera estava quente e abafada.
Lá no céu, a Ironduke crescia rapidamente. Caía que nem uma pedra. As telas da sala de comando deviam revelar com toda nitidez o que se passava ali embaixo. Mas será que Deringhouse conseguiria chegar em tempo?
A placa começou a descer mais depressa. Cardif não fazia o menor movimento. Seu rosto assumira uma expressão tensa, mas não conseguia ocultar o triunfo. Disse alguma coisa, mas as ondas sonoras não chegaram a Rhodan. Perry caíra na cilada mais perfeita que já lhe fora armada.
O chão fechou-se por cima da galeria. O céu e a Ironduke, que descia vertiginosamente, desapareceram. Deringhouse nem pensaria em bombardear a montanha, pois colocaria em perigo a vida de Rhodan. Cardif devia ter contado com isso, pois, do contrário, não poderia ter executado o plano.
O poço ficou iluminado. Rhodan viu que continuavam a descer. Três antis colocaram-se ao lado de Cardif. Eram fáceis de serem reconhecidos por causa das capas que usavam. Um deles chamava a atenção pela barba espessa, que lhe dava o aspecto de um saltador, falava com Cardif e apontou várias vezes para Rhodan. Cardif fez que sim.
Rhodan sabia que ainda tinha uma última chance. Os antis não poderiam continuar a alimentar indefinidamente a abóbada energética. E seria impossível realizar qualquer transporte enquanto o prisioneiro não tivesse sido dominado. Rhodan teria de agir no momento em que fosse retirado o anteparo.
Finalmente, depois de alguns minutos infindáveis de descida, a plataforma parou com um forte solavanco. Durante o solavanco, a abóbada energética desapareceu. Rhodan ficou surpreso, pois ainda não contara com isso. Mesmo assim não levou um segundo para segurar a arma.
Mas antes que pudesse levantá-la e disparar contra Cardif, foi atingido pelo raio de choque concentrado do anti, que apenas parecia ter esperado este momento. Rhodan sentiu um frio terrível cingir seu corpo e imobilizá-lo. A mão deixou cair a arma.
Perry foi tombando lentamente e perdeu os sentidos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html