— O
senhor falou muito claro — disse Morris. — O que acontecerá
depois de uma semana? Esperam-se novas remessas? O abastecimento
posterior estará garantido?
— Sinto
muito, mas sobre isso não lhe posso dar qualquer informação.
Rebok
lamentava. Dirigindo-se a Rascall, disse:
— Se
soubesse antes, não haveria nenhum problema em arranjar algumas
garrafas para você.
Mas da
forma que estão as coisas... Bem, sinto muito, Harry.
— Não
há problema. A culpa não é sua. Ontem de noite me roubaram
novecentas garrafas de liquitivo. Talvez a polícia esteja
interessada em saber disso.
Os dois
funcionários uniformizados realmente se interessaram e reduziram a
termo as declarações de Rascall. Quando este as assinou, um deles
disse:
— Novecentas
garrafas! Isso significa que novecentas pessoas deixarão de ser
abastecidas. Vê o que significa sonegar o material?
— Serão
apenas oitocentos e noventa e nove pessoas — retificou Rascall com
a voz tranqüila. — Não devemos contar o ladrão.
Quando
deixaram a cidade para trás, ligaram o rádio do carro e ouviram que
o governo decretara o estado de emergência. Na Europa já houvera
choques entre os viciados e a polícia.
Havia
mortes a lamentar. Os governos dos diversos países pediram que a
população se mantivesse calma. Afirmavam que dentro de uma semana
haveria quantidades suficientes de liquitivo para atender às
necessidades de todos.
Phil
Morris contemplava a paisagem.
— O
senhor acredita nisso? — perguntou em tom sombrio.
Rascall
fez que não.
— Não
acredito muito, doutor. Isso apenas representa um calmante para o
povo.
— E o
calmante não produzirá o menor efeito. Nem poderia produzir! Uma
pessoa que adquiriu o vício continuará viciada pelo resto da vida.
Se o licor não chegar dentro de uma semana, haverá uma catástrofe.
Acontece
que a catástrofe já começara!
Nos portos
espaciais dos diversos continentes grandes massas de gente se
comprimiam.
Recorriam
ao dinheiro ou às ameaças para conseguir passagens para os destinos
mais impossíveis, na esperança absurda de que em outros mundos
habitados encontrariam liquitivo à vontade. As primeiras noticias de
catástrofe pareciam relativamente insignificantes. Um grupo de
homens inescrupulosos dominara a tripulação de uma pequena nave
cargueira e obrigara a decolar. A nave desaparecera e nunca mais fora
encontrada.
Mas da
América do Sul chegou a notícia de que o maior porto espacial dessa
parte do mundo fora tomado de assalto por uma multidão. A polícia
era impotente. Várias instalações foram destruídas e três naves
caíram e explodiram em virtude de decolagens mal executadas.
Era o
princípio do fim. Em todo o mundo, as pessoas viciadas no liquitivo
revoltavam-se contra a lei e a ordem, exigindo que lhes fosse
fornecido o entorpecente.
A ordem da
Terra estava prestes a entrar em colapso.
*
* *
— Não
tenho outra alternativa — disse Perry Rhodan, ao notar o olhar
indagador de Jefe Claudrin e Bell. — Se o blefe não for
bem-sucedido, tudo estará perdido. Em hipótese alguma posso ordenar
a prisão de duzentos milhões de terranos. E a prisão é a única
maneira de afastar a periculosidade de um louco.
— E os
cientistas? — perguntou Bell em voz baixa. — Afinal, eles têm à
sua disposição mais de cinco mil fura-lamas. Devem estar em
condições de produzir liquitivo. Basta que eles se apressem, para
que os viciados...
Rhodan
interrompeu-o.
— Você
não ouviu a penúltima mensagem vinda de Terrânia. Todas as
sumidades estão de acordo em que a substância ativa, cuja
composição química nos é conhecida, não é um tóxico, mas um
excelente preparado rejuvenescedor. E essa substância não é outra
coisa senão o produto da secreção das glândulas dos fura-lamas.
Bell
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— Serei
capaz de acreditar em muita coisa, Perry, mas qual é a causa do
vício maldito, e qual é a substância que, depois de doze anos de
consumo da droga, leva à morte?
— Nossos
cientistas ainda não descobriram. Supõem que no liquitivo exista
outra substância ativa, que ainda não conseguiram identificar.
— Será
possível? — Bell parecia apavorado.
— Só
posso acreditar no que dizem os entendidos. Com isso torna-se cada
vez mais patente que nossa única esperança são os antis, que se
mantêm escondidos no fundo do mar de Okul. Não respondem às
mensagens que lhes enviamos pelo rádio, mas tenho certeza de que nos
ouvem.
Por isso
temos de irradiar uma mensagem à qual terão de responder, a não
ser que queiram arriscar suas vidas.
— E
Lepso? — perguntou Claudrin.
— Isso
está liquidado — responde Rhodan. — Os estoques existentes no
planeta foram levados à Terra e distribuídos. A semana de que
dispúnhamos está chegando ao fim. As notícias vindas da Terra são
cada vez mais alarmantes. Já temos a lamentar mais de dois mil
mortos e feridos. Temos de agir. Assim chegaremos uma conclusão,
seja ela qual for. Afinal, antis não têm vocação para o suicídio.
Claudrin
soltou um suspiro e transferiu sua figura maciça para o outro lado
da poltrona.
— Está
bem, sir. Dê-me o texto exato. Providenciarei para que seja
irradiado por todos os transmissores, inclusive os dos submarinos —
tirou papel e lápis. — Pode dizer.
Rhodan
refletiu por um instante e começou a ditar:
— Chamo
Thomas Cardif e os antis. O planeta Okul está cercado. A fuga será
impossível.
Coloquei
cinco mil fura-lamas a bordo da minha nave, o que me permitirá
prosseguir nos ensaios científicos, mesmo quando o planeta não
exista mais. Pelo presente concedo-lhes um prazo de exatamente três
horas. Se até o fim desse prazo não tiver em mãos a fórmula de um
antídoto do liquitivo, mandarei destruir o planeta por meio de
bombas arcônidas. A partir deste momento nosso equipamento de rádio
permanecerá continuamente em recepção. Repito...
Claudrin
levantou a cabeça.
— Acredita
que os antis morderão a isca?
— Não
terão outra alternativa, dentro da lógica. Por outro lado, é certo
que sabem pensar e agir com toda coerência. Cardif estará disposto
a negociar. É ao menos isto que espero conseguir com nosso ultimato.
— Queira
perdoar, sir, mas não confio em Cardif.
Um sorriso
amargo surgiu no rosto de Rhodan.
— Não
há nada para perdoar, major. Também não confio nele. Esperemos
para ver o que pode oferecer-nos. Providencie para que a mensagem
seja irradiada imediatamente por todos os transmissores. Deverá ser
repetida dez vezes. Depois disso os rádios ficarão constantemente
em recepção. Aposto qualquer coisa como responderão. Preparem o
equipamento goniométrico para essa eventualidade. Temos de saber
onde se encontra o transmissor dos antis. Mesmo que a resposta seja
negativa, teremos ao menos a possibilidade de colocá-los fora de
ação sem destruir o planeta.
Jefe
Claudrin levantou-se. Caminhando pesadamente, saiu do camarote de
Rhodan.
Bell
permaneceu em companhia deste. Coçando os cabelos rebeldes, num
gesto pensativo, disse em tom contrariado:
— O que
pretende fazer se não responderem ao ultimato, Perry?
Rhodan
fitou-o.
— Transformarei
Okul num sol. Se quisermos extinguir o mal pela raiz, não teremos
outra alternativa. Se Cardif for eliminado, os antis ao menos
abandonarão seu plano decenal. Conseguiremos a pausa de que tanto
precisamos. Não me olhe assim Bell. Você acha que é fácil
condenar à morte um mundo inteiro, mesmo desabitado?
Bell fitou
o teto. Não respondeu.
*
* *
Cento e
oitenta minutos podem transformar-se numa eternidade.
Depois de
decorrida uma hora do prazo, Rhodan mandou tomar todos os
preparativos para a destruição do planeta. Transmitiu uma mensagem
não codificada à frota estacionada no espaço, ordenando-lhe que
preparasse cinco bombas arcônidas.
Rhodan
esperava que os receptores dos antis captassem essa ordem. Foi por
isso que não se esforçou para ocultar os preparativos do ataque.
Queria que se convencessem que desta vez estava falando sério, e que
não teria a menor consideração pelo filho.
Mais uma
hora passou-se sem que os antis dessem sinal de vida.
Os
submarinos continuavam estacionados na superfície, cada um em sua
área de operações.
Seus
goniômetros funcionavam ininterruptamente, mas não localizaram
nada. Os radiogoniômetros estavam prontos para entrar em
funcionamento. Assim que o transmissor dos antis desse qualquer
sinal, determinariam a direção de onde este fora emitido. Sem
dúvida ao menos três submarinos conseguiriam captar os sinais dos
antis, e a interseção das respectivas linhas direcionais
corresponderia à posição do transmissor dos antis.
O
cargueiro estava atracado à margem da grande baía, com as máquinas
já aquecidas. Poderia partir a qualquer momento para recolher os
submarinos. Isso demoraria cinco horas, motivo por que o ataque
mortífero a Okul só poderia ser iniciado depois de seis horas.
A Ironduke
circulava a pequena altitude em torno do planeta selvático.
Rhodan
encontrava-se na sala de comando. Mantinha-se silencioso, com os
lábios cerrados, diante das telas. Embaixo da nave deslizava a
paisagem de Okul. Era uma paisagem monótona, que não oferecia a
menor variação.
Claudrin
conversava com o professor Amo Kalup, o gênio que inventara o
sistema de propulsão linear. Aquele técnico não quis privar-se do
prazer de participar dessa missão.
— Nunca
se sabe o que pode acontecer. Se houver um imprevisto, quero estar
presente — dissera em tom categórico.
Era um
verdadeiro gigante. Sua calva reluzia que nem uma bola de bilhar, e
bochechas flácidas lembravam uma marmota satisfeita. Naquele momento
parecia ter perdido o espírito de ironia que geralmente costumava
revelar perante os outros.
Dava
respostas lacônicas e objetivas às perguntas de Claudrin, que
versavam exclusivamente sobre assuntos técnicos.
Rhodan mal
e mal os ouvia. Seus pensamentos vagavam em outro lugar. Olhava
constantemente para o relógio.
Duas horas
e treze minutos já se haviam passado.
Por que o
tempo passava tão devagar? Será que os antis confiavam em que ele
recuaria diante da destruição do planeta? Esperariam que não
condenaria o filho à morte?
“Seja
como for”,
pensou, “estão
muito enganados.”
Rhodan
estava firmemente decidido a transmitir a ordem fatal à frota,
exatamente dentro de — voltou a olhar para o relógio — quarenta
e cinco minutos.
A vida de
milhões de seres humanos e bilhões de outros habitantes
inteligentes da Via Láctea estava em jogo.
E isso
pesava mais que a vida de duzentos e cinqüenta antis e de um
traidor.
4
A
superfície revolta do mar não fazia desconfiar de nada.
Acontece
que a mil metros abaixo dessa superfície jaziam os cumes
entrecortados de uma cadeia submarina montanhosa mergulhada em eterna
escuridão. De ambos os lados, as encostas desciam a uma profundidade
de mais de quatro mil metros. Não havia nada que crescesse nessas
montanhas; nem mesmo nos topos das mesmas havia qualquer forma de
vegetação.
Em certo
lugar, um paredão de rocha quase vertical abaulava-se para dentro,
fazendo surgir uma saliência. Esta nunca poderia ser descoberta de
cima, mesmo que os aparelhos de localização fossem postos a
funcionar bem acima da saliência. Aquele degrau de dez metros fazia
surgir uma cobertura de rocha que era tão grossa que não permitia a
penetração de qualquer tipo de radiação.
Se um
submarino tivesse mergulhado exatamente nesse lugar, o observador
atento não poderia ter deixado de notar que, em certo ponto, o
paredão de rocha, que descia sob a saliência, era tão liso e
regular que, de forma alguma, poderia ter sido produzido pela
natureza. Havia uma mancha redonda de pelo menos trinta metros de
diâmetro. Bem no centro havia uma fresta finíssima, que
representava a separação entre os gigantescos portões embutidos
nas paredes de rocha. Dessa forma poderia ser aberta à vontade a
entrada de um gigantesco túnel cheio de água, que levava para o
interior da cadeia de montanhas.
Era a
fortaleza dos antis, o último refúgio de Thomas Cardif.
Havia uma
eclusa, que separava o túnel da fortaleza propriamente dita, cheia
de ar. As instalações montadas nas profundezas da montanha
trabalhavam ininterruptamente, a fim de encher os gigantescos espaços
internos de ar puro. As luminárias instaladas em toda parte nunca
permitiam que a noite descesse sobre a fortaleza. Os corredores, os
aposentos e os laboratórios dispunham de calefação. Uma pessoa
desavisada nunca seria capaz de imaginar que se encontrava a mais de
mil metros abaixo da superfície do mar.
Os antis
haviam dispensado todo o cuidado à construção de seu esconderijo,
pesando todas as alternativas, inclusive a situação de emergência
em que se achavam. Sabiam que seria impossível localizá-los por
meio do equipamento de goniometria, e que nunca seriam encontrados.
No entanto, haviam instalado o equipamento técnico que lhes permitia
observar atentamente todos os movimentos do inimigo.
Uma
galeria descia da fortaleza até o fundo do mar, onde prosseguia em
sentido horizontal.
Mantendo-se
sempre cem metros abaixo do fundo do oceano e percorrendo a dura
rocha primitiva, um cabo seguia mais dois mil quilômetros para
terminar numa estação de rádio controlada a distância. Esta
consistia num recipiente à prova de pressão, que podia ser
escamoteado à vontade, para transmitir ou receber. Se a estação
fosse localizada por um goniômetro, poderiam fazê-la descer a
qualquer momento para dentro da pedra. Dessa forma dispunham de uma
antena que subia bem alta e lhes permitia receber imagens da
superfície. Tais imagens posteriormente eram interpretadas. A
transmissão podia ser realizada a partir do fundo do mar.
Thomas
Cardif e um velho sacerdote de Baalol estavam sentados na sala de
rádio da fortaleza e contemplaram as telas que se enfileiravam na
parede. Uma disposição adequada das antenas permitia que um só
receptor captasse varias imagens. Dessa forma os antis tiveram uma
boa visão de conjunto dos acontecimentos que se desenrolavam na
superfície.
Quando
receberam a mensagem de Rhodan, sabiam perfeitamente que o terrano
não estava blefando. Sabiam que Okul estava cercado por uma frota
gigantesca. E imaginavam que Rhodan estaria firmemente decidido a
transformar em realidade a destruição do planeta.
Cardif era
a imagem perfeita do pai. Só mesmo um observador muito atento que
visse Cardif e Rhodan ao mesmo tempo teria notado a ausência de uma
ou outra ruga no rosto. Os olhos de Cardif eram cinzentos, mas além
disso apresentavam um brilho amarelento. Era esta a única diferença
real. Sentado numa poltrona pouco confortável, fitava as telas com o
rosto sombrio.
— Não
vejo nenhuma saída — disse.
O
sacerdote lançou-lhe um olhar perscrutador. Sua barba espessa
lembrava a de um comandante dos saltadores. Talvez um dos seus
antepassados tivesse sido patriarca.
— Existe
uma saída — disse em tom lacônico — e nós a encontraremos.
O
alto-falante repetiu pela décima vez o ultimato de Rhodan e
calou-se. Um ligeiro dique revelava que o aparelho dos terranos fora
colocado em recepção.
Cardif
olhou para o relógio.
— Dispomos
de menos de duas horas, Rhabol. É muito pouco para elaborar qualquer
plano. Rhodan apenas quer que o abastecimento de liquitivo seja
garantido. Assim que os fura-lamas chegarem aos seus laboratórios, o
problema estará resolvido. Descobrirão a secreção de suas
glândulas e logo iniciarão a produção.
Um sorriso
confidente surgiu no rosto do sacerdote.
— Você
está enganado, Cardif. Naturalmente os pesquisadores de Rhodan
descobrirão a secreção, mas isso não lhe adiantará nada. Até
poderão produzir liquitivo, mas não será o liquitivo que lhes tem
sido fornecido. Apenas terão um regenerador das células de efeito
limitado. Você devia saber disso. Até parece que o ultimato de
Rhodan lhe roubou parte do sangue-frio pois, do contrário, essa
observação nunca teria saído da sua boca. Será que o efeito duplo
do liquitivo não representa uma chance para nós?
Cardif
refletiu. Finalmente fez um gesto negativo.
— Não
vejo como isso poderá ser-nos útil. Antes que Perry reconheça seu
engano estaremos mortos. Em hipótese alguma deixará de cumprir seu
ultimato. Daqui a duas horas dará início à destruição do
planeta. Com isso privará os habitantes da Via Láctea do liquitivo.
Haverá uma catástrofe imprevisível, quando os viciados começarem
a ficar furiosos. E isso não acontecerá apenas na Terra, mas em
todos os lugares em que se realiza o comércio galáctico. É uma
pena que não poderei assistir a isso.
A voz de
Cardif realmente parecia triste. Lamentava-se por não poder assistir
pessoalmente à concretização de seu plano diabólico. Sua morte
transformava-se, para ele mesmo, num acontecimento secundário.
Rhabol
olhou para os dois antis que estavam sentados diante do equipamento
de rádio.
— Devemos
procurar ganhar tempo. Como poderemos conseguir que Rhodan nos
conceda o adiamento? Se ficarmos calados não conseguiremos.
— Só
poderemos aceitar ou rejeitar o ultimato.
O
sacerdote parecia decepcionado.
— Pense
um pouco, Cardif. Deve haver uma possibilidade.
Thomas
Cardif tornara-se criminoso por ódio. Odiava o pai como nunca homem
algum odiara um outro. Julgava-o responsável pela morte da mãe.
Thora, a arcônida, não recebera a ducha celular no planeta
Peregrino e envelhecera, enquanto Rhodan continuara jovem. Na opinião
de Cardif isso bastava para julgar Rhodan capaz de cometer um
assassinato por via indireta. Queria livrar-se da mulher que estava
envelhecendo, e por isso confiou-lhe uma missão perigosa. Era o que
acreditava Cardif, e não havia quem o demovesse dessa crença.
Ninguém conseguia convencê-lo de que Thora aceitara a missão por
sua livre e espontânea vontade.
Mas havia
outros motivos para aquele ódio. Seu pai, com quem tanto se parecia,
tivera êxito na vida. Cardif não fora bem-sucedido. Nunca seria
capaz de confessar que ele mesmo era culpado do fracasso. O caráter
de Rhodan não lhe permitia concordar com qualquer exceção que
favorecesse seu filho. Dispensara-lhe o mesmo tratamento de qualquer
outro oficial e nunca lhe dera qualquer tipo de preferência. Quando
Cardif soube que Rhodan era seu pai, a admiração discreta
transformou-se num ódio apaixonado.
Havia um
terceiro motivo. Rhodan concordara com a aplicação do bloqueio
hipnótico que transformara a personalidade de Cardif, fazendo dele
um homem totalmente diferente. A verdadeira memória ficou apagada,
até que os antis lhe restituíssem a mesma. E com essa memória
restituíram-lhe o tremendo ódio ao pai, que lhe roubara mais de
cinqüenta dos melhores anos de sua vida. Cardif também permanecera
relativamente jovem, graças à herança de Thora, a arcônida, já
que a expectativa de vida dos arcônidas era maior que a dos
terranos. Pelo aspecto exterior parecia ter a mesma idade que Rhodan.
— Sim,
talvez exista uma possibilidade — disse Cardif em tom amargurado e
fitou o sacerdote. — Devemos fazer com que Rhodan compreenda que
logicamente não terá a menor chance de, num prazo não muito longo,
conseguir quantidades suficientes de liquitivo, caso destrua Okul. Se
conseguirmos fazê-lo acreditar nisso, estará disposto a negociar.
— Negociar?
Acredita que nos concederá livre trânsito?
— Talvez
concorde até com isso, mesmo que seja a contragosto. Deve perceber
que, se quiser evitar a catástrofe, esta será a única
possibilidade. Para isso devemos levantar um pouco o véu de mistério
que envolve a produção do liquitivo.
— Não
venha me dizer...
— Não.
Não lhe fornecerei nenhuma informação. Apenas lhe garantirei que
nem poderá pensar em iniciar a produção do entorpecente antes de
três meses.
Rhabol
olhou para os radioperadores.
— Se
quiser, pode falar com Rhodan.
— É o
que farei! — exclamou Cardif e levantou-se. — Ninguém poderá
localizar— nos. Seria uma calamidade se Rhodan descobrisse a
fortaleza. Poderia destruir-nos, sem arriscar-se a perder o planeta
Okul. Mas não faria isso, pois precisa de outra coisa. E nós lhe
ofereceremos esta outra coisa, Rhabol.
Houve uma
demora na transmissão. Constantemente eram captadas as mensagens
trocadas entre a Ironduke e a frota que aguardava no espaço. Dessa
forma os antis tomaram conhecimento de que as cinco bombas arcônidas
destinadas à destruição do planeta estavam sendo preparadas. Ao
saber disso, qualquer dúvida que Cardif ainda pudesse nutrir
desapareceu.
Era bem
verdade que indagava em vão quando começaria o ataque, já que
ainda havia os vinte submarinos que aguardavam nos mares do planeta.
Rhodan não sacrificaria essas unidades.
Concluiu
que ainda dispunha de mais de duas horas.
Mas não
estava disposto a assumir qualquer risco. Dez minutos antes do fim do
prazo do ultimato irradiou uma mensagem; disse que queria falar com
Rhodan.
No mesmo
instante em que a mensagem foi captada, os goniômetros entraram em
funcionamento. Enquanto Rhodan formulava sua resposta, a posição do
transmissor foi determinada. Ficava quatro mil metros abaixo da
superfície do mar e a milhares de quilômetros da costa. Os três
submarinos que se encontravam mais próximos partiram. Traziam a
bordo bombas submarinas de grande calibre.
Thomas
Cardif esperou. Longos minutos se passaram até que a voz da criatura
odiada soasse no alto-falante.
— Aqui
fala Rhodan. Dentro de cinco minutos termina o prazo do ultimato.
— Já
sabemos disso. O que esperam conseguir com a destruição de Okul? Os
cinco mil fura-lamas não serão suficientes para produzir uma
quantidade adequada de liquitivo. Se Okul for destruído e nós
morrermos, não haverá salvação para bilhões de seres
inteligentes.
— Será
que a culpa é minha?
— Estamos
dispostos a ajudar.
Rhodan
pareceu ter perdido a fala por alguns segundos, pois sua resposta
demorou bastante.
— Querem
ajudar-nos? Estou curioso para saber como. Sou todo ouvidos.
Thomas
Cardif lançou um olhar de triunfo para Rhabol. Sentiu-se vitorioso.
Evidentemente não se entregava a qualquer otimismo exagerado, mas
num canto de seu cérebro começaram a desenhar-se os contornos
imprecisos de um plano arrojado, cuja execução apenas exigia tempo.
Umas
poucas horas seriam suficientes.
— Vocês
conseguirão fabricar liquitivo dentro de três meses. Talvez. Mas o
que acontecerá até lá?
— É um
erro subestimar nossos cientistas.
— É um
erro ainda maior superestimá-los.
— Deixemos
de palavras vazias — respondeu Rhodan, com um tom de voz que
revelava certa impaciência. — Só faltam dois minutos. Depois
disso mandarei dar inicio à ação de destruição. Se tiver uma
oferta, diga logo. Ande depressa!
Cardif
estremeceu. Seu rosto retratava um ódio profundo, mas a voz
continuava firme e tranqüila. Possuía o mesmo dom de autodomínio
que o pai.
— Estamos
dispostos a entregar-lhes três depósitos dos saltadores. Os
estoques de liquitivo existentes nos mesmos poderão abastecer os
mundos solares por vários meses.
— Nada
mau — respondeu Rhodan. — O que você exige em troca?
— Okul
não deverá ser destruído — disse Cardif. — Além disso, vocês
colocarão à nossa disposição uma espaçonave capaz de transportar
duzentas e cinqüenta pessoas, com uma provisão adequada de água e
mantimentos. É só isso.
— É só
isso — disse a voz saída do alto-falante em tom ligeiramente
irônico.
Cardif
imaginava o sorriso de Rhodan, e seu rosto ficou desfigurado pela
cólera. Mas soube dominar-se. Em hipótese alguma deveria trair suas
emoções.
“Quem
ri por último sempre ri melhor”,
pensou. “E
eu, Cardif, serei a pessoa que rirá por último.”
— Não é
muito, se considerarmos o que vocês receberão em troca.
Naquele
instante terminou o prazo do ultimato.
— Está
bem: concordo. Dê-me os nomes dos planetas em que se encontram os
depósitos dos saltadores.
Depois de
Cardif ter citado os nomes, Rhodan acrescentou:
— Cumprirei
um acordo, mas há uma restrição. A espaçonave que será entregue
por mim não levará duzentas e cinqüenta pessoas, mas apenas
duzentas e quarenta e nove. Entendido?
— O que
quer dizer com isso?
— O que
quero dizer é que você não irá com os antis, mas viajará
conosco. Você será meu prisioneiro.
— Não.
— Tanto
faz. Nesse caso iremos buscar o liquitivo nos planetas que você
acaba de indicar sem levá-lo a bordo, já que você estará morto.
Cardif
cerrou os dentes para não berrar para dentro do microfone. Revelou
um autodomínio que nem mesmo o sacerdote pôde deixar de admirar.
Falando no tom mais tranqüilo de que era capaz, disse:
— Isso é
coação e chantagem. Posso refletir calmamente sobre isso?
— Você
pode refletir, mas não calmamente. Nesse meio tempo arranjarei a
nave e a mandarei pousar. Nossos instrumentos de localização já
apuraram a posição de sua fortaleza, e por isso não teremos a
menor dificuldade em encontrar um local de pouso adequado.
— Já
conhecem a localização de nossa fortaleza? — repetiu Cardif, e
sorriu desapontado. — Que interessante! — soltou uma risadinha. —
Aliás, você se enganou nos cálculos, Rhodan. Os antis são
duzentos e cinqüenta, sem contar minha pessoa. Não se esqueça
desse detalhe.
— Você
dispõe de mais uma hora. Não se esqueça disso — respondeu Rhodan
com a voz fria. — Exatamente dentro de uma hora quero ouvir sua
resposta. E dessa resposta dependerá seu destino. Pense bem. Daqui a
uma hora voltarei a chamar.
O
alto-falante emitiu um ligeiro estalido. Depois disso só restou um
zumbido no interior da sala.
O
sacerdote esperou até que o radioperador desligasse o transmissor.
Depois disse, dirigindo-se a Cardif:
— Nós,
os sacerdotes de Baalol, estamos salvos. Rhodan só está interessado
em você.
— Você
acredita que ele conseguirá pôr as mãos em mim? — perguntou
Cardif em tom sarcástico.
— Não
pense que vocês poderão comprar sua liberdade à minha custa. Antes
que Isso aconteça, revelo a Rhodan a situação desta fortaleza e
das outras bases. As coisas não serão tão fáceis como você
pensa. Além disso, tenho um plano.
Rhabol
aproximou-se. Havia um tom de espreita em sua voz.
— Que
plano é esse?
Um sorriso
irônico surgiu no rosto de Thomas Cardif.
— Avise
seu pessoal para que compareça ao laboratório e prepare uma
operação. Mande que os médicos se dirijam ao setor cerebral.
Preciso falar com eles. Todos os especialistas deverão aguardar-me
no grande auditório. Comparecerei dentro de dez minutos.
— O que
pretende fazer? — perguntou o sacerdote em tom impaciente.
Thomas
Cardif expôs seu plano.
*
* *
Quando
Rhodan desligou, Bell não conseguiu controlar-se mais. Durante todo
o tempo mantivera-se junto a Rhodan, com os dentes cerrados,
dominando-se a muito custo.
— Pretende
deixar que se vá, se insistir nisso?
Rhodan
virou-se lentamente. Seu rosto parecia impassível.
— Temos
uma hora para pensar sobre isso — limitou-se a dizer, dando a
entender que a decisão final ainda não fora tomada.
— Não
tenho certeza de que realmente encontramos a fortaleza. Apenas
localizamos o transmissor, que fica a quatro metros de profundidade.
Não existe submarino que possa mergulhar tão fundo. Nem mesmo o dos
antis. Se a fortaleza fica no fundo do mar, resta saber como
conseguiram chegar lá.
Bell fitou
Rhodan.
— Acredita
num blefe? Como poderiam transmitir de uma profundidade dessas sem
que eles mesmos...?
— Por
meio de um dispositivo teleguiado, Bell. Deveríamos ter pensado
nessa possibilidade.
A porta
abriu-se. O General Deringhouse entrou.
— Alguma
ordem, sir?
— Por
enquanto não. Apenas, a ação planejada sofre um adiamento de uma
hora. Providencie para que as respectivas ordens sejam expedidas
através de mensagens de rádio não codificadas. As bombas arcônidas
continuarão a ser mantidas de prontidão. Quanto à nave destinada
aos antis, pode ser providenciada posteriormente.
— Talvez
consigamos convencer os saltadores a recolher o bando a bordo de sua
nave — sugeriu Bell. — Há muitos por aqui.
— Isso é
uma afirmativa um tanto exagerada — disse Perry Rhodan com um
ligeiro sorriso. — De qualquer maneira, acho que conseguiremos
arranjar uma nave mercante saltadora que disponha de espaço em seus
porões de carga. Mas vamos aguardar até que o prazo de uma hora
chegue ao fim.
Aquela
hora custaria muito a passar e, antes que chegasse ao fim, aconteceu
algo totalmente imprevisto.
Rhodan
encontrava-se na sala de comando da Ironduke, juntamente com Bell.
Estava discutindo com o General Deringhouse as próximas medidas a
serem tomadas. Subitamente a porta que dava para a sala de rádio foi
aberta com grandes demonstrações de nervosismo. Era o chefe da
equipe de rádio, que exclamou:
— Sir, é
Thomas Cardif!
Rhodan não
perdeu a calma.
— Estávamos
aguardando sua mensagem. Já vou.
— Não é
isso, sir. Cardif está chamando pela comunicação audiovisual.
Acha-se na superfície.
Temos a
nova posição em que se encontra.
Rhodan não
respondeu. Dirigiu-se apressadamente à sala de rádio, onde o rosto
do filho o fitava de uma pequena tela. O transmissor devia funcionar
com uma intensidade mínima, pois a imagem era pouco nítida, com os
contornos apagados, embora se reconhecesse perfeitamente o rosto de
Cardif.
— Aqui
fala Rhodan. Resolveu alguma coisa?
Rhodan
preferiu não ligar a câmara.
Dessa
forma via Cardif, mas este não podia vê-lo.
— Resolvi,
sim.
Parecia
haver um certo tom de espreita na voz de Cardif. Rhodan resolveu agir
com cuidado.
Mas as
palavras que se seguiram fizeram com que se esquecesse da cautela,
que foi substituída por uma tremenda curiosidade.
— Refleti
demoradamente sobre o assunto. Quero falar com você. A sós...
Rhodan.
— Nossa
palestra não está sendo ouvida por nenhuma pessoa que não possa
conhecer a decisão tomada por você.
— Você
não me entendeu. Acho que deveríamos encontrar-nos, para conversar
a sós sobre todos os detalhes.
— Encontrar-nos?
Rhodan
ficou perplexo. A resposta demorou um pouco. Milhares de idéias e
alternativas passaram por seu cérebro. Bell e Deringhouse, que
também se achavam na sala de rádio, entreolharam-se. Encontravam-se
numa posição em que Cardif não poderia vê-los, mesmo que a câmara
da Ironduke estivesse ligada.
— Será
que há algo demais na minha proposta? — perguntou Cardif em tom
impaciente. — Você acha que isto é um truque, não é? Acontece
que a esta altura um blefe não adiantaria mais nada. Vim só à
superfície. Meus aliados encontram-se numa fortaleza segura, situada
no topo de uma montanha. Minha posição já foi determinada por seus
radiogoniômetros. Você realmente acha que eu seria capaz de assumir
um risco como este, se não confiasse em você?
— Você
confia em mim?
— Confio,
sim, e peço-lhe que retribua esta confiança. Refleti sobre tudo, e
começo a não compreender a mim mesmo. É verdade que o odiei porque
acreditava que tivesse assassinado minha mãe e...
— Acreditava?
— repetiu Rhodan em tom de perplexidade. — O que quer dizer com
isso?
— Já
começo a duvidar disso. Você poderá explicar tudo, e já estou
disposto a acreditar em você. Poderíamos esquecer muitas coisas do
passado.
— Para
falar com franqueza, Thomas, a reviravolta é muito repentina. Além
disso, você resolveu professar idéias e tomar atitudes mais
recomendáveis, justamente no momento em que o perigo é maior. Você
há de concordar, pois, que uma conduta dessas não é muito
convincente.
— Você
não deixa de ter sua razão, mas deve considerar certas
circunstâncias. Os sacerdotes libertaram-me contra minha vontade.
Submeteram-me à força a um tratamento de choque, que me restituiu a
memória e a personalidade. Talvez até tenham atiçado meu ódio
contra você e contra a Terra. Não sei. A situação desesperadora
em que me encontro levou-me a refletir, e minhas reflexões
produziram o resultado que você por certo considera surpreendente.
Rhodan
continuava desconfiado. Era incapaz de imaginar que num tempo tão
curto pudesse haver uma modificação tão radical, que correspondia
exatamente aos desejos mais arraigados nas profundezas de seu
coração.
Seria
possível que o tratamento de choque que rompera o bloqueio hipnótico
poderia produzir um resultado como este?
— Não
acredito na mudança de atitude que você quer exibir — disse
depois de algum tempo, mas teve uma dificuldade tremenda em
pronunciar estas palavras. Gostaria tanto de acreditar no filho. —
Você apenas quer atrair-me a uma armadilha — um sorriso frio
surgiu em seu rosto. — Talvez pretenda ganhar tempo, à espera de
auxilio. Mas isso não adiantaria, porque este planeta está
bloqueado. Nem mesmo a força dos antis será capaz de romper o
bloqueio.
— Sei
disso. Justamente por isso qualquer armadilha seria inútil —
confessou Cardif, e sua voz parecia exprimir tristeza.
— Agora,
que finalmente cheguei à decisão de dialogar, você se recusa a
acreditar em mim. Se é que existe algo de bom dentro de mim, sua
desconfiança o sufocará. Como é que o substrato bom de minha alma
pode manifestar-se?
Rhodan
percebeu que se defrontava com a decisão mais difícil de toda a sua
vida. Era uma decisão que lhe estava sendo imposta. Mas ao mesmo
tempo era uma decisão pela qual ansiara com todas as fibras do
coração, mas que já não tivera esperanças de alcançar.
— Sou
seu pai, Thomas — disse em tom menos duro. — Acontece que você
também é meu inimigo mortal. Você trouxe um sofrimento imenso para
a Terra e para outros mundos, apenas para atingir a mim, que afinal
sou apenas uma pessoa. Cometeu crimes porque estava perseguindo um
fantasma. Muitas pessoas já o condenaram à morte, e eu sou uma
delas. Gostaria de acreditar em você, mas não sei se posso, se devo
assumir a responsabilidade por um passo como este.
— Todos
cometem erros, e eu estou reconhecendo os que pratiquei. Tentarei
repará-los. Foi eu quem criou o liquitivo, e sei como fabricá-lo.
Até poderia ajudá-lo a produzir um anti-soro que neutraliza os
efeitos do vício e talvez possa mesmo evitar a morte, que constitui
a fase final do processo mórbido. Se puder dispor dos pesquisadores
mais competentes e dos laboratórios mais bem equipados, talvez
consiga. Só assim poderei reduzir a carga de culpa que pesa sobre
meus ombros. Mas se você recusar a mão que lhe estendo, não sei o
que será de mim.
Rhodan
lançou um olhar para Deringhouse e Bell. Parecia que estava pedindo
socorro.
Ambos
fitaram-no com uma expressão de dúvida e insegurança. Os dois se
mantiveram parados.
Conforme
esperava, Rhodan se viu só. A decisão teria que ser dele. Sentiu
que essa decisão não seria determinada apenas pela inteligência,
pois sofreria um condicionamento sentimental.
Deveria
assumir a responsabilidade por isso? As decisões condicionadas pelo
sentimento muitas vezes entravam em conflito com a razão. E agora
seu raciocínio lhe dizia que o ódio obstinado de seu filho não
poderia modificar-se tão repentinamente, para transformar-se em
arrependimento e mesmo simpatia.
Procurou
uma saída para suas dúvidas.
E
encontrou-a. Chegou mesmo a revelá-la abertamente.
— Não é
fácil acreditar em você, Thomas Cardif, mesmo sendo meu filho. Se
eu concordar com um encontro com você, apenas o faço para conhecer
suas intenções. Quero descobrir os motivos da pretensa modificação
de seu estado de ânimo. Mas nem pense em armar-me uma cilada. Meus
homens estarão à espera nas proximidades e...
— Irei
só, e espero que você também. O platô em que nos encontraremos é
muito pequeno. Nenhuma nave pode pousar no mesmo. Foi um planador que
me deixou aqui juntamente com o aparelho de rádio. Se você quisesse
atacar-me, eu estaria praticamente indefeso. Se vier só,
defrontar-nos-emos a sós, e acho que você não tem medo de mim. Não
estou armado.
“Isso
também pode ser uma armadilha e uma mentira”,
pensou Rhodan, que já estava decidido a arriscar a experiência.
Não
deveria garantir sua retirada? Qualquer passo em falso colocaria em
risco o êxito já alcançado. Mas, por outro lado, não devia perder
nenhuma chance de conseguir a colaboração do filho a favor da
Terra.
— Está
bem; irei. Se possível, a pé.
— Será
fácil. Cem metros abaixo do platô existe uma planície na qual pode
pousar uma nave. A partir de lá, você deverá ir sozinho. Concordo
plenamente em que a nave fique à sua espera. Você há de reconhecer
que a mesma pode estar em cima do platô dentro de poucos segundos,
se houver algo de suspeito. Ninguém deverá vir ao platô sem que
seus homens o vejam.
Essas
palavras pareciam convincentes.
As últimas
dúvidas de Rhodan desfizeram-se.
Surgiu uma
ligeira pausa, quando chegaram os resultados da determinação
goniométrica. Rhodan examinou-os. A mensagem de Cardif fora expedida
numa pequena ilha rochosa, situada em meio a um dos grandes oceanos.
O continente mais próximo distava quinhentos quilômetros.
Mas havia
um detalhe que Rhodan não conhecia. A pouco menos de cem quilômetros
da ilha, uma gigantesca cadeia de montanhas submarinas estendia seus
cumes a mil metros abaixo da superfície.
— Chegarei
à ilha dentro de trinta minutos — disse Rhodan em tom resoluto. —
Mas quero fazer-lhe uma advertência, Thomas. Se houver qualquer
movimento suspeito, não terei mais nenhuma contemplação. Esta é a
última tentativa de estender-lhe a mão. Não se esqueça disso.
— Eu o
espero — disse Cardif.
A tela
apagou-se. O radioperador da Ironduke desligou o aparelho.
Rhodan
caminhou lentamente em direção à sala de comando, seguido por
Deringhouse e Bell. Os dois não pareciam muito confiantes, e não
ocultaram sua opinião.
— Não
sei como você pode cometer a leviandade de confiar em Cardif, por um
segundo que seja — esbravejou Bell, dando vazão à indignação
que sentia. — Você acredita realmente nessa transformação
milagrosa de seu caráter? Se o choque produzido pelo tratamento
produziu alguma alteração, Cardif levou muito tempo para senti-la.
Deringhouse
manifestou a mesma opinião.
— Não
acredito que Cardif tenha levado tanto tempo para notar a reviravolta
em seu interior, se é que ela realmente ocorreu.
— Não
digo que confiarei nele sem restrições — respondeu Rhodan,
falando devagar e examinando o mapa que estava estendido sobre a
mesa, onde a ilha já havia sido assinalada. — Como poderia
armar-me uma cilada? Afinal, encontra-se numa ilha solitária. A
Ironduke ficará nas proximidades. Ninguém poderá aproximar-se do
platô sem ser notado. Tenho de arriscar!
— Quer
dizer que a manobra se inspira principalmente na curiosidade —
disse Deringhouse, numa tentativa de análise. — Se estivesse na
sua situação, provavelmente agiria da mesma forma, sir.
— Obrigado,
general! — agradeceu Rhodan e fitou-o com uma expressão de alívio.
— No fundo não tenho outra alternativa, e Thomas Cardif sabe disso
tão bem quanto eu.
Não é só
por ser meu filho. Devemos tentar tudo para pôr as mãos no
fabricante do liquitivo. O que estamos esperando? Transmita as
instruções necessárias à frota, que deverá ficar em rigorosa
prontidão. Se a Ironduke for atacada, a destruição do planeta será
iniciada imediatamente. Nesse caso interromperei todos os contatos
com Cardif. Entendido?
Deringhouse
confirmou com um gesto.
— Pois
siga em direção à ilha, general!
Enquanto a
Ironduke abandonava sua órbita, desacelerando e mergulhando na
atmosfera, Rhodan preparou-se para o encontro com o filho. Refletiu
por muito tempo, e finalmente resolveu compartilhar a desconfiança
dos amigos. Colocou um pequeno radiador portátil no bolso do lado
direito da calça do uniforme. Não estava disposto a colocar-se à
mercê de seu pior inimigo, sem dispor de uma única arma. Talvez
estivesse cometendo uma injustiça contra ele, talvez não estivesse.
Avistaram
a ilha. A gigantesca nave aproximou-se lentamente e sobrevoou a pouca
altura a única montanha existente. Realmente havia um platô no cume
dessa montanha. Era pequeno. Devia medir menos de trinta metros de
diâmetro. Uma nave de grandes dimensões dificilmente conseguiria
pousar ali.
Um vulto
solitário estava de pé no centro do platô e olhava para cima.
Via-se perfeitamente o rosto. Thomas Cardif estava só. Na rocha nua
não havia o menor esconderijo. Ninguém poderia esconder-se sobre o
platô ou nas proximidades do mesmo sem que as pessoas que se
encontravam na nave o vissem.
— Se
isso for uma armadilha — disse Deringhouse em tom de ceticismo —
estou curioso para ver como funcionará. Acho que Cardif
desacompanhado dificilmente representará um perigo para o senhor.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Também
penso assim. Vamos pousar. Perto do platô, conforme Cardif pediu. A
planície permite o pouso.
A
gigantesca nave desceu lentamente sobre a superfície e pousou com um
movimento suave.
Bell
acompanhou Rhodan até a saída.
— Não
consigo livrar-me da impressão de que há algo de errado nisso,
Perry. Como poderemos saber o que estará acontecendo? Daqui não se
vê a face oposta do platô.
Rhodan
parou na saída da eclusa. Bem à frente dele tremeluzia o campo
antigravitacional que o levaria para baixo. Finalmente disse:
— Trago
o emissor no bolso. O aparelho emitirá um sinal goniométrico, que
indicará ininterruptamente a minha posição. Além disso, poderei
chamar a qualquer momento pelo rádio — apontou para o aparelho
versátil que trazia no pulso. — Além disso, concordo plenamente
em que a Ironduke decole dentro de quinze minutos e aguarde minhas
ordens numa altitude maior. Você acha que isso basta?
Bell
parecia mais tranqüilo.
— Acredito
que sim — apertou a mão de Rhodan. — Quer dizer que decolaremos
dentro de quinze minutos. Até lá você mal e mal conseguirá chegar
ao cume da montanha. Boa sorte.
*
* *
Os médicos
de Terrânia rejubilavam-se. Durante três dias e oito horas não
haviam notado que na tromba dos fura-lamas havia outra glândula que
também produzia uma secreção. No momento os primeiros ensaios de
laboratório com essa secreção estavam sendo realizados em células
vivas envelhecidas e nos condutos nervosos. A gigantesca tela,
límpida como um cristal, projetava a visão proporcionada pelo
microscópio dos aras, que produzia uma ampliação de três milhões
de vezes.
Ficaram
muito surpresos ao notarem que a secreção da segunda glândula
tinha as mesmas características químicas da outra. Embora pouco
tempo se tivesse passado desde o momento do descobrimento da
secreção, os resultados alcançados bastavam para provar
inequivocamente que o principio ativo era idêntico. Apesar disso os
cientistas ainda não estavam satisfeitos. Realizavam ensaios de
laboratório com células e substâncias nervosas.
No
entanto, a decepção revelou-se na tela.
A
substância extraída da outra glândula também era um produto de
efeitos rejuvenescedores.
Não
atacava os nervos. Não era o veneno dos nervos que criava uma
dependência irremediável, produzia a loucura e levava à morte.
Em meio à
apresentação o professor Wild saiu correndo. Disparando o mais que
podia, aquele homem de sessenta anos dirigiu-se à sala de autópsia,
na qual fora descoberta a segunda glândula dos fura-lamas.
O chefe
dessa seção era o Dr. A. Hughens. Este ouviu o relato exaltado do
professor. Não podia deixar de partilhar das suspeitas do eminente
sábio.
— Venha,
professor — disse Hughens de repente em tom impulsivo e levou-o
para junto do microscópio.
O
professor Wild contemplou a glândula descoberta por acaso, ampliada
1,5 milhões de vezes. À medida que observava sua estrutura, mais se
exaltava. Guardava na memória a estrutura orgânica da glândula dos
fura-lamas que fora descoberta em Okul.
— Hughens
— disse num cochicho, sem interromper seu exame. — Esta glândula
não pode produzir a mesma substância ativa que a outra! Dê uma
olhada na parte superior esquerda...
Afastou-se,
para que Hughens pudesse acomodar-se junto ao microscópio. O biólogo
viu a reprodução, que apresentava uma nitidez inacreditável. O
professor Wild tinha razão. Acontece que, segundo as análises
químicas, as substâncias eram idênticas.
Wild
entrou em contato com a sala de projeção. Ouviu um resultado
desalentador. A secreção da segunda glândula também era uma
substância rejuvenescedora, cujas características químicas eram
idênticas às da primeira.
— Não
acredito! — esbravejou Wild. — Mesmo que os testes confirmem
milhões de vezes. Nesse caso direi que os testes estão errados.
Deve haver outros métodos de exame.
***
As selvas
fumegantes jaziam lá embaixo, nas planícies da ilha. Nos lugares em
que Rhodan se encontrava, não crescia nada, embora o calor
favorecesse o crescimento. Faltava a umidade.
Nas rochas
não havia um centímetro sequer de terra; as mesmas estavam secas e
cobertas de pó.
A
diferença de altitude que realmente o separava do platô de cima era
de menos de cinqüenta metros. A Ironduke, com seus oitocentos metros
de diâmetro, parecia outra montanha. Sua altura ultrapassava a do
cume propriamente dito. Apesar disso, nem mesmo as câmaras de
televisão, instaladas na parte superior da nave, seriam capazes de
registrar o que se passava atrás do platô situado no cume da
montanha.
Rhodan não
se apressou.
Recriminou-se
por ser um otimista, já que acreditara que finalmente o lado bom de
Thomas saíra vitorioso. Sua responsabilidade para com a Terra era
maior que a que tinha para com o filho.
Mas
poderia perder qualquer chance de dialogar com Cardif? Estaria
realmente agindo apenas em benefício próprio? Não tinha diante de
si a possibilidade de livrar a Terra e o Império Solar de um pesado
fardo, neutralizando um inimigo poderoso ou talvez transformando-o
num amigo?
Contornou
um pedaço de rocha e viu à sua frente a última parte do caminho
que tinha a percorrer. A figura de Cardif destacava-se nitidamente
contra o céu. Não via o rosto, porque a luz vinda da frente o
ofuscava. Mas não havia a menor dúvida de que a pessoa que via à
sua frente era Cardif.
Percorreu
os últimos metros e viu-se à frente do filho, que recuou até o
centro do platô.
Os dois
homens entreolharam-se, examinaram o rosto um do outro e
mantiveram-se em silêncio.
Rhodan
assustou-se. No primeiro instante teve a impressão de encontrar-se
diante de um espelho. O homem à sua frente era-lhe a cópia fiel.
Mostrava o mesmo rosto magro e os mesmos cabelos, apenas um pouco
mais claros.
Os olhos
também eram iguais, com exceção do brilho amarelento quase
imperceptível, que se tornara ainda mais débil. E a figura alta e
esbelta também era idêntica à sua.
Cardif
também contemplava o homem que se encontrava à sua frente, embora o
fizesse por motivos totalmente diversos. Ficou satisfeito por
constatar que até então seu plano perigoso fora bem-sucedido. Seu
sósia Rhodan comparecera só ao platô. A vizinhança da grande nave
não lhe causava nenhuma preocupação. A mesma não poderia
impedi-lo de realizar seu intento. E agora, depois de decorridos
cinqüenta e oito anos, Rhodan era igualzinho a ele.
Naquele
instante, os propulsores da Ironduke começaram a uivar, e a nave
ergueu-se lenta e majestosamente.
— Os
homens acham que a uma altura maior terão uma visão mais ampla —
disse Rhodan a título de desculpa. — Isso não tem nada a ver com
nosso acordo. Vim só.
Cardif
olhou para a Ironduke, que estacionou a dez quilômetros de altura. A
mancha redonda cintilante mantinha-se imóvel. Rhodan sabia que as
câmaras estavam apontadas para o pequeno platô e seriam capazes de
detectar instantaneamente qualquer perigo que surgisse. Aquilo lhe
dava uma sensação tranqüilizadora.
— A nave
não me preocupa — disse Cardif, enfrentando o olhar de Rhodan. —
Você veio só; era apenas isso que eu queria. Aliás, por que
resolveu acreditar em mim?
Rhodan
sentiu-se pasmo. Qual seria a finalidade da pergunta?
Respondeu
com a maior tranqüilidade:
— Talvez
muitas das suas alegações poderiam corresponder à verdade. Resolvi
verificar pessoalmente. Se suas intenções forem honestas, venha
comigo. Você terá à sua disposição nossos cientistas mais
competentes e os laboratórios mais bem equipados. Até poderíamos
esquecer o passado.
— Poderíamos
mesmo, Perry Rhodan?
“O
tom não combina com o arrependimento anteriormente manifestado”,
pensou Rhodan, perplexo, e resolveu ter muita cautela.
Seu
instinto preveniu-o, embora ainda não visse nenhum perigo. Onde
poderia estar o risco?
Cardif
encontrava-se a poucos passos, desarmado, com um sorriso irônico nos
lábios. As mãos pendiam junto ao corpo. Parecia despreocupado —
despreocupado demais face à situação em que se encontrava.
— Mais
tarde poderemos conversar sobre tudo, Thomas. Vim para apertar a mão
que você me estende. Por que não me dá a mão? — estendeu a mão,
sem sair do lugar. — O que houve?
Fitou o
rosto do filho, no qual parecia haver uma expressão de expectativa,
de espreita. O calor tornou-se quase insuportável, e Rhodan teve a
impressão de que o ar começava a tremeluzir sobre o platô de
rocha. De repente os contornos do rosto de Cardif tornaram-se menos
nítidos.
Parecia
flutuar atrás de um véu de ar aquecido.
O ar
tornou-se sufocante.
Subitamente
Rhodan compreendeu. Já era tarde. Pôs a mão direita no bolso e
tirou a arma portátil. Deu um salto em direção a Cardif, que
continuou tranqüilamente no mesmo lugar.
Esbarrou
contra o ar tremeluzente.
Era um
campo protetor feito de energia, conforme imaginara. Acontece que o
campo abobadado envolvia a ele, Rhodan, não a Cardif. A abóbada
isolava-o do mundo exterior.
Ainda bem
que percebera em tempo. Na situação em que se encontrava, um
disparo da arma de radiações poderia ser-lhe fatal. E as ondas de
rádio não mais seriam capazes de chegar até a Ironduke, mas isso
não fazia a menor diferença. Se estas deixassem de ser captadas,
Deringhouse ou Bell entrariam em alarma.
Então era
mesmo uma cilada.
A decepção
foi excessiva para Rhodan. Ainda não conseguia imaginar o que Cardif
pretendia alcançar, pois não poderia levá-lo dali sem correr
perigo. Não foi só essa certeza que fez com que Rhodan hesitasse. O
que poderia fazer na situação em que se encontrava?
Revelara a
Cardif que estava armado.
Fora um
erro imperdoável. Com um gesto de resignação voltou a guardar o
radiador.
O campo
energético não poderia ser mantido para sempre. Como se formara? De
que forma era alimentado?
Os antis!
Só eles
seriam capazes de erigir um campo energético como este por meio de
suas energias mentais. Deviam estar muito próximos. Onde? No platô
não havia nenhum esconderijo.
Estariam
debaixo do solo?
De repente
Rhodan teve a impressão de ter encontrado a resposta. Sentiu um
abalo no chão. O trecho do platô onde se encontravam começou a
descer. Então foi por isso que Thomas recuou. Quis atraí-lo para a
plataforma que era o piso de um elevador.
E era
incapaz de fazer qualquer coisa! Reduzido à impotência, ficou
parado sob a pequena abóbada energética, que nem sequer deixava
passar o ar. A atmosfera estava quente e abafada.
Lá no
céu, a Ironduke crescia rapidamente. Caía que nem uma pedra. As
telas da sala de comando deviam revelar com toda nitidez o que se
passava ali embaixo. Mas será que Deringhouse conseguiria chegar em
tempo?
A placa
começou a descer mais depressa. Cardif não fazia o menor movimento.
Seu rosto assumira uma expressão tensa, mas não conseguia ocultar o
triunfo. Disse alguma coisa, mas as ondas sonoras não chegaram a
Rhodan. Perry caíra na cilada mais perfeita que já lhe fora armada.
O chão
fechou-se por cima da galeria. O céu e a Ironduke, que descia
vertiginosamente, desapareceram. Deringhouse nem pensaria em
bombardear a montanha, pois colocaria em perigo a vida de Rhodan.
Cardif devia ter contado com isso, pois, do contrário, não poderia
ter executado o plano.
O poço
ficou iluminado. Rhodan viu que continuavam a descer. Três antis
colocaram-se ao lado de Cardif. Eram fáceis de serem reconhecidos
por causa das capas que usavam. Um deles chamava a atenção pela
barba espessa, que lhe dava o aspecto de um saltador, falava com
Cardif e apontou várias vezes para Rhodan. Cardif fez que sim.
Rhodan
sabia que ainda tinha uma última chance. Os antis não poderiam
continuar a alimentar indefinidamente a abóbada energética. E seria
impossível realizar qualquer transporte enquanto o prisioneiro não
tivesse sido dominado. Rhodan teria de agir no momento em que fosse
retirado o anteparo.
Finalmente,
depois de alguns minutos infindáveis de descida, a plataforma parou
com um forte solavanco. Durante o solavanco, a abóbada energética
desapareceu. Rhodan ficou surpreso, pois ainda não contara com isso.
Mesmo assim não levou um segundo para segurar a arma.
Mas antes
que pudesse levantá-la e disparar contra Cardif, foi atingido pelo
raio de choque concentrado do anti, que apenas parecia ter esperado
este momento. Rhodan sentiu um frio terrível cingir seu corpo e
imobilizá-lo. A mão deixou cair a arma.
Perry foi
tombando lentamente e perdeu os sentidos.

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