sábado, 3 de setembro de 2016

P-110 - Na Pista dos Antis - Willian Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAN VOLTZ



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


A semente do mal traz seus frutos — Milhões de
seres humanos estão irremediavelmente perdidos...



As pesquisas relativas ao liquitivo prosseguem febrilmente. Um assunto, que de início só merecia a atenção de uns poucos agentes da Divisão III, já mantém sobressaltado todo o alto comando do Império Solar, pois a situação na Terra, nos planetas coloniais terranos e nos mundos de Árcon ficou desesperadora.
Por anos a fio, deixaram de ser adotadas as necessárias cautelas, uma vez que cientistas de renome haviam chegado à conclusão de que o novo licor, denominado liquitivo, era um excelente meio de retardar o processo de envelhecimento do organismo humano e propiciar novas energias aos indivíduos que tomavam o preparado.
Já se reconheceu o engano funesto, e é por isso que os dirigentes do Império Solar se mantêm obstinadamente Na Pista dos Antis...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Henry MulvaneyUm homem desesperado.

Perry RhodanAdministrador do Império Solar.

Reginald BellAmigo íntimo de Perry Rhodan.

John ClaytonUm policial.

Sargento John EmeryUm valente graduado.

Thomas CardifQue está do lado dos antis.
1



O plano de Mulvaney fora fruto de um profundo desespero. Sob o ponto de vista legal era um plano considerável, já que previa a possibilidade de Mulvaney assassinar o velho Lansing. Se estivesse em seu estado normal, Mulvaney nunca teria pensado em matar quem quer que fosse. Acontece que se encontrava num estágio que tornava impossível qualquer forma de raciocínio sensato. Estava em vias de ficar irremediavelmente louco.
De forma alguma, o motivo das intenções de Mulvaney consistia na pessoa do velho Lansing; ninguém tinha motivo para odiá-lo. O objetivo visado por Mulvaney eram algumas garrafinhas de plástico, que, segundo supunha, se encontravam em poder de sua vítima. Não era de se imaginar que Lansing entregasse voluntariamente as garrafas que possuía. Depois de o governo ter proibido a venda do licor, os estoques restantes foram guardados cuidadosamente pelos possuidores. Até que a última garrafa de liquitivo tivesse sido consumida pelos viciados, era apenas uma questão de tempo.
Henry Mulvaney não pensava nisso. Nem se lembrava de que mais de cinqüenta milhões de terranos estavam viciados, e dariam tudo para conseguir apossar-se de uma garrafinha do licor.
As mãos trêmulas de Mulvaney seguraram a coluna que ladeava a porta da casa de Lansing. Já passava da meia-noite. A rua estava deserta.
Albert Lansing era um velho esquisitão. Seu corpo achava-se paralisado da cintura para baixo. De dia, o doente dispunha de um robô de serviço. Mas de noite, a máquina tinha que abandonar a casa. Esse robô representava a única concessão que Lansing fizera ao desenvolvimento tecnológico. Sua cadeira de rodas era de um modelo antigo; apresentava uma grande roda de cada lado. A habilidade com que Lansing movimentava seu veículo dificilmente seria excedida por um produto automático da mesma espécie.
Mulvaney puxou o corpo para cima, segurando-se à coluna. A pedra parecia fria e áspera; a casa, quieta. Mulvaney virou a cabeça. A luz fosforescente que vinha do outro lado da rua provocou um reflexo em seus olhos. O rosto demonstrava uma estranha tensão.
Por um instante, Mulvaney ficou em cima da coluna. Finalmente saltou para o quintal da casa. A terra mole evitou o ruído. Ergueu-se. Ao arrastar-se, não se preocupou com as flores e os arbustos que seus pés esmagavam. Seus passos rangiam sobre o caminho coberto de areia colorida. Tirou a chave magnética do bolso. Foi acolhido pela sombra da casa, que o retirou do âmbito de visão de quem se encontrava na rua e lhe conferiu tranqüilidade e segurança. Um gato com o rabo muito levantado passou pelo jardim. Seus olhos faiscaram enquanto virava a cabeça ligeiramente em direção a Mulvaney. Mas seu corpo ágil logo desapareceu em meio às flores.
Mulvaney resmungou baixinho sem dar-se conta disso. O desejo de obter o liquitivo enchia todo seu pensamento. À medida que se aproximava do objetivo, mais crescia sua ânsia. Até então tomara regularmente uma garrafa de três em três dias.
Seguiu-se o efeito anunciado: a energia juvenil e a cessação do processo de envelhecimento. Mulvaney não compreendia por que o governo proibia o uso de um preparado como este. Não tinha o menor conhecimento sobre o estado dos destroços humanos, trazidos de Lepso para a Terra, onde se travava uma luta vã por sua salvação. Não sabia que, mesmo que pudesse continuar a tomar o licor, a decadência e a morte se verificariam doze anos e quatro meses depois do dia em que pela primeira vez experimentara a droga.
Mulvaney chegou à porta da casa. Parou e aguçou o ouvido. No interior da residência reinava o silêncio. A moradia era assobradada. Lansing mandara instalar um elevador junto à escada, a fim de levá-lo para cima e para baixo sempre que o desejasse. Mulvaney conhecia perfeitamente a divisão das peças da casa, pois muitas vezes estivera com o velho Lansing para jogar xadrez. Por isso sabia que aquele homem paralítico tomava regularmente o liquitivo. Lansing confessara perante Mulvaney que esperava que isso lhe trouxesse uma melhoria ou mesmo a cura de sua doença. No entanto, não houvera nenhuma cura. Lansing rejuvenescera, sua pele tornara-se mais lisa, e seus poucos amigos acharam-no mais enérgico.
Mas a paralisia continuou inalterada.
Mulvaney empurrou a chave magnética para dentro da fechadura. O dispositivo de segurança saiu imediatamente do suporte. Sob a pressão leve exercida pelas mãos de Mulvaney, a porta abriu-se.
O visitante clandestino teve a impressão de que a peça que tinha pela frente era um buraco negro, já que parecia impossível romper a escuridão. Não hesitou: entrou imediatamente. Voltou a trancar a porta atrás de si. Conteve a respiração e procurou captar qualquer ruído que lhe permitisse uma conclusão sobre o paradeiro atual de Lansing. Mas tudo estava em silêncio.
Mulvaney deu um passo para a frente. A ânsia furiosa tornara-se ainda mais intensa.
Tenho que arranjar o liquitivo!”, pensou.
Aquele ruído não era da cadeira de rodas que se aproximava?
Mulvaney esgueirou-se para o lado. Mas não havia nada que se aproximasse na escuridão. Os dedos do intruso tocaram na parede. Mais adiante encontraram resistência: era um cabide. Mulvaney tateou uma fazenda macia: a da capa de trabalho do robô de serviço. Era mais uma das idéias esquisitas de Lansing, fazer com que o robô vestisse uma capa. Naquele momento, Mulvaney não estava em condições de divertir-se com isso. Continuou a apalpar, até que houvesse uma interrupção na parede.
A entrada da cozinha! No interior da casa não havia portas, já que estas dificultariam a locomoção de Lansing. As entradas das diversas peças eram fechadas com cortinas duplas.
Mulvaney empurrou para o lado a fazenda pesada e entrou na cozinha. Um cheiro estranho impregnava o ar. Parecia que alguém havia derramado uma quantidade excessiva de detergentes no assoalho. Mulvaney esbarrou na mesa, que tinha uma reentrância, na qual Lansing entrava com sua cadeira de rodas, quando pretendia fazer suas refeições.
Onde é que o velho esconde o licor?”, pôs-se a refletir.
Não poderia começar a procurar ao acaso. Levaria várias horas. Além disso, seria impossível realizar esse tipo de trabalho, sem provocar barulho. Por isso tornava-se necessário localizar Lansing.
Mulvaney contornou a mesa. Tropeçou numa cadeira. Tratava-se de uma peça bastante rara na residência de Lansing. Felizmente a perna da cadeira achava-se envolta numa massa elástica, de forma que não houve um ruído mais forte. Mulvaney estava convencido de que não havia ninguém na cozinha. Lansing não se encontrava por ali. De repente Mulvaney lembrou-se de que o paralítico talvez já tivesse notado que entrara na casa e o esperava em algum lugar, de arma em punho. A idéia obsessiva de que o velho possuía uma arma fez com que Mulvaney sentisse calafrios. Por algum tempo viu-se incapaz de fazer qualquer coisa. Ficou parado, tremendo por todo o corpo. Mas logo seu organismo deu sinal de vida, exigindo sua dose de liquitivo. Aquela sensação angustiante era pior que o medo mais terrível.
Saiu da cozinha. No pavimento térreo havia mais duas peças, a biblioteca e o chamado escritório. Naturalmente Lansing nunca trabalhava, embora quase sempre ficasse no escritório. Recebia uma renda mensal e, além disso, contava com o apoio financeiro voluntário de parentes na Europa. Para uma pessoa não avisada, o aspecto do escritório de Lansing era bastante estranho. Da entrada partiam duas barras metálicas, que se dirigiam à janela. Formavam uma espécie de corredor, que tinha a largura exata para permitir a passagem da cadeira de rodas. Por uma única vez, Mulvaney tivera oportunidade de ver qual era a verdadeira finalidade da peça. Para o homem paralítico, representava a única possibilidade de sair da cadeira de rodas sem auxílio de ninguém. Fazia a cadeira rolar até as barras metálicas, pendurava os braços sobre as mesmas e arrastava-se até a Janela, onde permanecia por horas a fio, observando o movimento na rua. Quando Mulvaney o surpreendera nessa posição, Lansing ficara zangado pelo resto da noite e se mostrara bastante “distraído” durante o jogo.
Por que não ri de mim? — indagara Lansing, depois que Mulvaney afastara a cortina e fitara o recinto com uma expressão de perplexidade. — Pelo menos deveria rir de mim.
Essa experiência deixara Mulvaney pensativo por várias semanas. Evitara Lansing, até que este lhe telefonasse, convidando-o para outro jogo.
Enquanto Mulvaney avançava pela escuridão, em direção ao escritório, lembrou-se dessas palavras do doente. Sentiu no seu subconsciente um ligeiro temor de afastar a cortina e penetrar na peça.
Uma vez vencido esse temor, constatou que Lansing não se encontrava nessa peça. Também não estava na biblioteca. Concluía-se que só poderia estar no pavimento superior. Um tanto perturbado, Mulvaney caminhou sorrateiramente em direção à escada.
Tropeçou numa das rodas da cadeira e bateu com o rosto no chão. Agitou violentamente os braços, e suas mãos tocaram em outras peças do meio de locomoção do doente. A cadeira de rodas de Lansing estava ao pé da escada, totalmente destruída. Mulvaney soltou um gemido e libertou-se da profusão de peças metálicas.
O barulho não poderia ter deixado de atrair a atenção de Lansing, se este se encontrasse por ali. Mas tudo continuava em silêncio no interior da casa, com exceção dos ruídos provocados pelo próprio Mulvaney. O invasor levantou-se com uma terrível pressa. Não se importava com mais nada. Sentia-se completamente dominado pela ânsia de obter aquilo que, para ele, era um preparado rejuvenescedor. Cambaleou na direção em que, segundo acreditava, ficava o interruptor de luz. Sentiu-se gelado de pavor ao lembrar-se da possibilidade de que outro poderia ter chegado antes dele. Talvez alguém já tivesse roubado o estoque de Lansing.
Soltou uma praga e acendeu a luz.
Viu que a cadeira de rodas caíra pela escada. Estava completamente destruída.
Albert Lansing estava deitado num degrau da escada...
Estava morto!
Estendido em posição inclinada, estava apoiado no corrimão, com os olhos muito arregalados e o rosto cor de cera. Mulvaney ficou rígido de pavor. E seu instinto lhe disse que por ali não encontraria nenhum liquitivo.
Foi-se aproximando de Lansing. Havia um bilhete na mão direita do velho. Mulvaney pegou-o e leu as poucas frases, escritas com letras trêmulas:

Hoje terminou meu estoque de liquitivo. Já não tenho forças para viver sem o licor. Que Deus me perdoe.

Mulvaney deixou cair o papel. Lansing se suicidara. Não havia nenhum licor naquela casa. O homem paralítico fizera a cadeira de rodas descer pela escada e capotara várias vezes.
Por que não ri? — soou a voz de Lansing na mente de Mulvaney. — Pelo menos deveria rir de mim.
Mulvaney começou a rir que nem um louco. Seu corpo tremia. Precisava de liquitivo. Precisava da droga com urgência, com muita urgência. Acontece que o governo suspendera as vendas do produto. Não havia meio de conseguir o licor.
Mulvaney abandonou a casa, cambaleando que nem um bêbado.
Era um ser humano solitário. Um ser humano viciado e perdido.
Era um entre mais de cinqüenta milhões.
2



Mais de cinqüenta milhões de seres humanos ameaçavam desencadear uma revolta. A Terra transformara-se num hospício. Os viciados precisavam do licor geralmente conhecido como liquitivo, da mesma maneira que o homem normal precisava do ar para continuar vivo.
Nos planetas coloniais, a situação não era muito melhor. Atlan, o imperador do grande império, lutava com os mesmos problemas nos mundos de Árcon. Os planetas dos dois impérios aliados haviam sido inundados por quantidades gigantescas da droga traiçoeira.
Perry Rhodan, o administrador, encontrava-se de pé no centro da sala simples que lhe servia de escritório. Não estava só. Perto da escrivaninha, bem à sua frente, havia um grupo de mulheres e homens que fitavam o chefe supremo do governo com os olhos chamejantes. Rhodan não descobriu nenhuma simpatia naqueles olhares. De início sentiu-se aborrecido com o pedido de receber os viciados, mas acabou cedendo aos insistentes apelos de Reginald Bell.
O corpo daquele homem alto e esbelto parecia adquirir vida. Revelando uma tranqüilidade extraordinária, acomodou-se atrás da escrivaninha.
No mesmo instante, os doze homens e mulheres começaram a dirigir-lhe a palavra. Compreendia o estado de exaltação em que se encontravam os viciados, mas se quisesse ajudá-los teria de agir metodicamente.
Escolham um porta-voz — pediu. — Não adianta nada todos falarem ao mesmo tempo.
Um homem, mais alto que Rhodan e de aspecto grosseiro, adiantou-se, sem que os companheiros o tivessem indicado.
Meu nome é Godfrey Hunter — disse.
Sem dúvida, a falta de respeito que se notava no tom de sua voz era causada pela exaltação interior que Hunter não conseguia dominar. Rhodan percebeu que tinha diante de si um homem que levara uma vida pacata e bem organizada. Mas agora as coisas haviam mudado. A proibição da venda do liquitivo começava a produzir resultados.
Sir, somos porta-vozes de um grupo mais numeroso — prosseguiu Hunter.
Enquanto falava, seus dentes mastigavam nervosamente. Seu autodomínio não parecia muito convincente.
Sir, pedimos-lhe que volte a autorizar imediatamente a venda pública do licor.
Os outros viciados fizeram ouvir um murmúrio de aprovação. Aproximaram-se da mesa de Rhodan.
Este lançou um olhar pensativo para Hunter. Sentia pena por essa gente, mas não devia deixar que eles o percebessem. Perguntou com uma expressão de indiferença no rosto:
Há quanto tempo estão tomando esse álcool?
Faz cerca de três anos, sir — respondeu Hunter. — Ainda me lembro perfeitamente do dia em que minha esposa trouxe para casa uma garrafa do produto. Não vejo o menor perigo nessa bebida. Pelo contrário. Depois que minha esposa e eu passamos a tomá-la, houve uma modificação evidente em nosso estado geral. Sinto-me inclinado a afirmar que, desse dia em diante, não envelheci mais, sir.
Pobre-diabo”, pensou Rhodan. “Gostaria que você tivesse visto as pessoas que encontramos em Lepso. Nesse caso compreenderia o que estou fazendo.”
Acredito no que está dizendo — disse em voz alta. — Peço-lhes que respondam a uma pergunta. Há quantos dias não tomam mais o licor?
Há seis dias — respondeu Hunter, em tom indignado.
Via-se, pelo modo como respondeu, que admitia o administrador como responsável por esse fato.
Rhodan fez um gesto de assentimento. Seis dias representavam o limite de tempo. Segundo as experiências até então colhidas, depois desse prazo surgiam manifestações de cansaço. Num segundo estágio verificavam-se vertigens. O fim era lamentável. O corpo dos viciados era sacudido por convulsões nervosas.
Rhodan fitou o homem desamparado com uma expressão dura. Ainda não havia recebido o relatório dos médicos especializados, que trabalhavam febrilmente nos tratamentos de desintoxicação. Até então todas as tentativas de curar um viciado haviam fracassado.
Uma visão sinistra surgiu na mente de Rhodan. Viu milhões de terranos, que levavam uma vida miserável, mergulhados num estado de confusão mental. Ao que tudo indicava, a situação evoluíra a um ponto tal que era muito mais perigosa que a que surgira ao tempo do traficante de drogas Vincent Aplied. Este e os mercadores galácticos distribuíam os entorpecentes terranos, a fim de debilitar a posição econômica da Terra.
Os antis não conheciam escrúpulos. Para eles, qualquer meio era legítimo, desde que conseguissem colocar o poder em suas mãos criminosas. A seita espalhara-se pela Galáxia que nem uma teia de aranha. Um planeta após o outro ia caindo na mesma. Os antis não precisavam de frotas espaciais. Trabalhavam na sombra. Deixavam que outros fizessem o trabalho sujo.
Outros, como, por exemplo, o filho de Rhodan.
Ao lembrar-se de Thomas Cardif, a vista de Rhodan turvou-se.
Seria possível que sua carne e seu sangue se deixasse arrastar a atos desse tipo?
Rhodan cerrou os lábios. Lembrou-se do dia em que Allan D. Mercant lhe mostrara o retrato de um certo Dr. Edmond Hugher, que informava qualquer pessoa, que estivesse interessada, sobre as qualidades maravilhosas do novo licor. Uma das pessoas que haviam acreditado nele fora o Dr. Zuglert.
Zuglert já estava morto. Mas possuíra um retrato do tal do Dr. Hugher, já que trabalhara com este em Lepso.
E o Dr. Hugher não era outro senão Thomas Cardif, filho de Rhodan.
Já tomou uma decisão, sir? — disse a voz nervosa de Hunter, interrompendo as reflexões do homem esbelto que se encontrava atrás da escrivaninha.
Por enquanto não lhes posso dar qualquer informação — respondeu Rhodan, em tom tranqüilo. — Enquanto os médicos não constatarem fora de qualquer dúvida que o uso permanente do licor não oferece perigo, a venda do produto não será liberada.
Que diabo! — gritou Hunter.
Aquela palavra pareceu encher a sala.
O silêncio passou a reinar no recinto. Então o produto dos antis podia levar um ser humano a este ponto. O rosto de Hunter ficou desfigurado. Notou que havia sido imprudente.
Rhodan levantou-se lentamente. Até mesmo um observador, nutrido de sentimentos imparciais, não teria reconhecido naquele momento os pensamentos do administrador no seu rosto impassível.
O corpo inclinado de Hunter executava movimentos pendulares. Eram movimentos estranhos, mas Rhodan sabia o que significavam.
Alguma coisa dentro de Hunter parecia dizer-lhe que devia sair dali, abandonando a sala em fuga desabalada. Mas um resto de orgulho deixou-o preso ao lugar em que se encontrava. O olhar treinado de Rhodan notou este resto de obstinação, isto é, esta luta que se travava no interior daquele homem. Hunter ainda não desmoronara por completo, mas não faltava muito para isso.
Outro homem adiantou-se e pegou o braço de Hunter.
Vamos embora, Godfrey — disse.
Enquanto se esforçava para arrastar Hunter, gritou em tom furioso para Rhodan:
Será que o senhor não sabe que a constituição do Império Solar nos confere certos direitos?
Rhodan manteve-se calado. O homem soltou o braço de Hunter. Estava com o rosto vermelho; até parecia que acabara de correr um bom pedaço. Seus olhos achavam-se inchados. O silêncio de Rhodan não o estimulava, mas o deixava nervoso.
As liberdades democráticas devem garantir-nos o licor — disse com a voz aguda.
O senhor não está em condições de conversar sobre Democracia — disse Rhodan, em voz baixa e comprimiu o botão do sistema de intercomunicação.
Mr. Kenwood, faça o favor de comparecer ao meu gabinete e levar os visitantes de volta — disse. — A palestra já terminou.
Um dos homens pertencentes ao grupo exclamou em tom odiento:
Ele deve ter reservado sua ração de liquitivo.
Todos colocavam-se contra ele. Suas mentes estavam perturbadas, e por isso tornavam-se injustos. Perdiam o controle. Rhodan compreendeu a reação dos presentes, mas mesmo para ele não era fácil aceitar as ofensas como se nunca tivessem sido proferidas. Contudo as acatou, pois se via diante de um grupo de doentes. E nesse caso aplicavam-se outras leis.
Kenwood entrou em atitude correta; estava limpo e disciplinado. Cumprimentou à sua maneira formalista típica. Atrás dele apareceu outro homem. Era Reginald Bell.
Façam o favor! — disse Kenwood.
Hunter limitou-se a fazer um gesto afirmativo.
Ele não nos pode mandar embora sem mais aquela — disse o homem que segurara Hunter pelo braço. — Tem de fazer alguma coisa por nós.
Rhodan e Bell trocaram um olhar. Perry tinha de fazer alguma coisa. Até agora sempre fizera. Seu nome estava tão intimamente ligado ao progresso da Humanidade que a simples idéia de que poderia fracassar era inconcebível.
Rhodan sentiu alguma coisa apertar sua garganta. Não era medo, mas apenas uma sensação aflitiva. Sem que o quisesse, vira-se colocado numa situação nada invejável. A Humanidade identificava-se com sua pessoa.
Quase chegara a ser uma figura mística. Na mente de bilhões de pessoas, Rhodan encontrava-se num plano existencial mais elevado, que lhe permitia dispor das coisas segundo sua vontade.
Praticamente só havia uma possibilidade de Rhodan descer desse pedestal imaginário: teria de morrer. De repente ele, o imortal, sentiu que se perdia cada vez mais em meio à solidão. Afastava-se progressivamente de sua raça, dessa raça pela qual queria fazer tudo que estava ao seu alcance. Se quisesse encontrar o caminho de volta para junto desta, teria de pagar um preço: a morte.
Foram embora — disse Bell, em voz baixa.
Rhodan esboçou um sorriso. Não estava só em seu pedestal. Havia outros a seu lado.
Acho que cometemos um erro ao recebê-los — disse Bell, em tom de autocrítica. — A única coisa que conseguimos com isso foi ouvir algumas ofensas.
Rhodan olhou para o relógio.
Daqui a uma hora começará a conferência — anunciou. — É bom que eu tenha uma idéia exata sobre o estado de ânimo dos viciados.
Até parecia que as paisagens desoladas de Lepso fizeram com que Bell perdesse seu senso de humor. Fora um dos poucos que constantemente tentara convencer Rhodan de que, no fundo, Thomas Cardif não era uma pessoa má. Muitas vezes, aquele homem atarracado lembrara ao amigo de que Cardif fora criado sem os pais. Além disso, aquele homem que tinha uma dose de sangue arcônida acreditava que Perry Rhodan assassinara sua mãe. Acreditava no boato, segundo o qual Rhodan confiara uma missão absurda a sua esposa, a fim de livrar-se dela.
Temos outras possibilidades de conhecer o estado de ânimo destas pobres criaturas — disse Bell, compenetrado.
Ligou o interfone.
Kenny, transfira as transmissões de TV vindas de Paris para nosso canal. O chefe quer assistir às mesmas.
Sim, senhor — respondeu a voz de Kenwood.
Bell colocou-se diante da tela que ficava atrás da escrivaninha de Rhodan. O videofone permitia a recepção de qualquer transmissão de TV, desde que a pessoa que se encontrava na ante-sala transmitisse as ordens necessárias à central.
Já avisei a central, sir — anunciou Kenwood. — A transmissão já está sendo transferida.
Certo — disse Bell e voltou-se para Rhodan. — A transmissão foi iniciada há cerca de dois minutos. Por isso é bom que eu lhe explique que os habitantes de Paris já estão passando sem liquitivo, mais dois dias que a média de viciados de outras cidades. Isso aconteceu por pura coincidência. Houve um atraso nas remessas, motivo por que os estoques de Paris se esgotaram dois dias antes que fosse emitida a proibição de venda. Esta impediu que os estoques fossem renovados.
A tela começou a tremeluzir. A lâmina fosca iluminou-se.
A primeira coisa que Rhodan viu foi uma aglomeração de gente. O repórter dirigira a câmara sobre uma massa ondulante. Filmava de cima, em direção oblíqua, talvez da escada de uma casa. O som ainda não fora ligado. Os dois dirigentes do Império Solar contemplaram o mudo ajuntamento. O branco dos rostos contrastava fortemente com as vestes escuras. Vários grupos carregavam faixas e cartazes, cujos dizeres exigiam a revogação imediata da proibição da venda do liquitivo.
Queira desculpar, sir — disse Kenwood pelo sistema de intercomunicação. — Houve uma ligeira falha de som.
Finalmente Rhodan conseguiu ouvir as pessoas aglomeradas. Aquelas fileiras de gente resmungavam constantemente. Não gritavam nem esbravejavam. Rhodan teve a impressão de ouvir o rugir de uma fera faminta.
Algumas viaturas policiais pesadas, vindas de todos os lados, aproximam-se — disse a voz abafada do repórter.
A câmara efetuou um giro e mostrou vários veículos especiais que atravessavam a praça. Rhodan reconheceu os lança-esguichos.
Faço votos de que nunca sejamos obrigados a atirar em pessoas que tenham caído nas garras do vício — disse Bell em tom deprimido.
A exaltação da multidão está crescendo — exclamou o repórter. — Vários grupos falam em coro. Os policiais isolaram o edifício da sede do governo. As pessoas aqui reunidas não compreendem por que lhes proíbem o uso de um licor que apresenta inequívocos efeitos rejuvenescedores e regeneradores das células.
A voz do repórter assumiu um tom dramático:
Sabemos que vários membros do governo e alguns integrantes da Frota Solar gostam de viver mais que o normal. Nosso princípio supremo impõe iguais direitos para todos.
Será que esse sujeito está louco? — gritou Bell em tom indignado. — Para esses tipos foi que tiramos as castanhas do fogo?
Isso é uma reação perfeitamente humana — respondeu Rhodan. — Até é possível que o repórter seja um viciado. Entretanto sua atitude exercerá uma influência nada favorável sobre o estado de ânimo do público.
Bell bateu com o punho cerrado na mesa.
No dia em que alguém lhe cortar a garganta, você ainda perguntará se esse alguém não tem um motivo compreensível para isso — observou em tom exaltado. — Uma reação perfeitamente humana... qual o quê! Este sujeito quer fazer sensacionalismo.
Vejo que você já se sente melhor — disse Rhodan, em tom tranqüilo. — Afinal, o sensacionalismo é parte da profissão do repórter, que aproveita toda oportunidade que se oferece para intensificá-lo.
Acontece que existe boa probabilidade de que essa gente esteja condenada a enlouquecer — objetou Bell. — É uma falta de gosto organizar uma transmissão a este respeito.
Muitas vezes o sensacionalismo e a falta de gosto andam juntos — disse Rhodan. — E há muita coisa que pode ser sensacional. Inclusive a morte.
Isso é uma visão muito realista — exclamou Bell, em tom nervoso.
Por enquanto não temos uma idéia exata do número de viciados existentes na Terra. Além disso, temos também viciados nos planetas coloniais. E Atlan enfrenta as mesmas dificuldades que nós, motivo por que dificilmente poderá dar-nos qualquer tipo de auxílio.
Notava-se perfeitamente que a atitude de Rhodan deixava Bell um tanto perplexo. Até então, o administrador sempre esclarecera as coisas com algumas ordens rápidas, fosse qual fosse a situação. Mas desta vez Rhodan parecia manter uma atitude retraída. As primeiras medidas a serem adotadas teriam que dirigir-se contra a raça humana, contra pessoas inocentes que se deixaram levar por uma propaganda bem organizada. — Infelizmente perdemos a pista de Cardif — disse Rhodan. — Conseguimos desmantelar os locais de fabricação situados em Lepso, mas sabemos perfeitamente que de forma alguma este era o único local onde se fabricava o entorpecente. A nave dos saltadores salvou os antis no último instante, retirando-os a tempo de nossos disparos.
Soltou uma risada amargurada e concluiu:
Nem sequer conseguimos determinar o ponto em que a nave mergulhou no hiperespaço.
As energias mentais reforçaram os efeitos do dispositivo de absorção de abalos estruturais, a tal ponto que não conseguimos uma localização perfeita do hipersalto — disse Bell.
Rhodan desligou o receptor. Parecia ter tomado uma decisão.
Devemos impedir a revolta que talvez possa irromper. Essa gente desesperada é capaz de tudo. Durante a conferência darei ordens para ser realizada uma grande campanha de esclarecimento público. A Humanidade tem de conhecer os efeitos desastrosos do liquitivo. A televisão, a imprensa, o rádio e todos os meios de comunicação de massa deverão esforçar-se para acabar com a idéia de que o liquitivo é um elixir da longa vida.
Bell continuou cético. Apesar disso aquele homem, geralmente tão exaltado, levou algum tempo para dar uma resposta. Refletira intensamente sobre as palavras de Rhodan.
Os homens não compreenderão e não acreditarão — disse depois de algum tempo. — Muitos deles tomam o “veneno” há vários anos, e por enquanto seus resultados foram excelentes, já que ainda não se passaram os doze anos e quatro meses. Invocarão os testes realizados com o preparado, antes que este fosse colocado no mercado. O licor foi recomendado por cientistas de primeira linha, que afirmam que a bebida é totalmente inofensiva. E essas idéias estão firmemente cravadas na mente dos viciados. Estes homens não querem acreditar em outra coisa, senão na possibilidade de prolongar a vida por meio desse entorpecente saboroso.
Rhodan apontou para a tela que estava às suas costas.
Devemos apresentar alguma coisa contra isso. Naturalmente não podemos convencer as pessoas que ainda continuam sadias de que, um dia, a bebida os levará a um estado de perturbação mental. Porém poderemos evitar a eclosão de revoltas de grandes proporções. Se conseguirmos fazer com que os viciados sintam que estamos interessados neles, já teremos ganho muita coisa. Temos de convencê-los de que devem esperar.
Desta vez, só um milagre nos salvará”, pensou Bell, desesperado.
Não existia nada que conseguisse refrear a ânsia das pessoas que já haviam experimentado o liquitivo. Antes de se tornarem loucos, causaram muita desgraça.
A idéia de fazer com que os viciados se tornassem razoáveis era como que o plano de um único homem que vigia um poço e quer evitar que duzentos homens, mortos de sede, bebam a água do mesmo.
Bell começou a imaginar as terríveis conseqüências da ação. Ao entreolhar-se com Rhodan, percebeu que as idéias do administrador deviam ser idênticas às suas. Até então haviam passado por terríveis experiências sempre que se encontraram com os antis. Mas tudo isso parecia uma insignificância em comparação com aquilo que agora os ameaçava.
A teia dos antimutantes começava a fechar-se.
Uma aranha pode locomover-se para qualquer ponto de sua teia. Ninguém pode prever onde desfechará seu ataque. E, uma vez que sua vítima está presa na teia, tem tempo de sobra. Espera que esta se enleie cada vez mais, até ficar indefesa à sua frente.
Rhodan e Bell sabiam que qualquer medida defensiva apenas abreviaria a chegada do desastre final. A conclusão lógica ora que deveriam agir de outra forma.
Aguardar. Não demonstrar qualquer disposição defensiva.
Nem Rhodan, nem seu representante exprimiram esta idéia. Mas ambos sabiam que pensavam da mesma forma.
3



O policial desceu do veículo. Seu rosto largo movimentava-se no ritmo mastigatório com o qual empurrava de um lado para outro o pedaço de borracha que trazia na boca. Sua atitude não exprimia medo, mas antes curiosidade. Agitava lentamente o cassetete elétrico. A outra mão estava enfiada entre dois botões de seu uniforme.
De ambos os lados de sua viatura havia uma faixa na qual estavam escritas em enormes letras vermelhas as seguintes palavras:

QUEM TOMAR LIQUITIVO FICARÁ DOENTE.

Estes dizeres haviam sido colocados em todos os edifícios e veículos do governo. Esperava-se que estas palavras fizessem com que os viciados compreendessem o que os esperava. Além disso, os policiais e os médicos distribuíam folhetos que descreviam as conseqüências causadas pelo entorpecente.
O policial, chamado John Clayton, fitou calmamente a massa furiosa que se agitava à sua frente. Normalmente Andy Smither e Jonas de Werth deviam estar a seu lado. Mas foram mandados para casa. Smither e De Werth também eram viciados. Dessa forma, Clayton se via só naquele fim de rua, face a mais de cinqüenta homens exaltados. Henry Mulvaney, um dos homens que se encontrava na massa agitada, não sabia quem era John Clayton. Para ele, o policial era um inimigo. O uniforme escuro representava o único obstáculo em seu caminho. Atrás de Clayton ficava o objetivo dos viciados: uma pequena loja de bebidas.
O dono da mesma estava encostado à entrada. Sua mão trêmula segurava uma pistola de efeito moral. Ao lado da entrada, uma pequena vitrina. As mercadorias nela expostas haviam sido retiradas. Em compensação havia um letreiro com estes dizeres:

QUEM TOMAR LIQUITIVO FICARÁ DOENTE.

O negociante tomara o partido do governo e adotara suas divisas. A fúria dos viciados concentrou-se sobre ele. Naquele instante John Clayton era o único obstáculo que impedia cinqüenta pessoas de entrarem na loja e a depenarem.
Henry Mulvaney lançou um olhar ansioso para o prédio. Desde que realizara a excursão mal sucedida à casa de Albert Lansing, dois dias já se haviam passado. Sentia vertigens constantes, motivo por que sua disposição de ânimo não era das melhores. Atingira o limite do estágio que precede o desmoronamento total da pessoa.
Seus pensamentos confusos e sua fantasia descontrolada diziam-lhe que naquela loja devia haver grandes quantidades de liquitivo. A inscrição na vitrina só servia para enganar os antigos fregueses.
Mulvaney não demorara em encontrar grande número de adeptos que se encontravam no mesmo estado que ele. Tiveram “muita pressa” em acreditar no que dizia. Numa situação como aquela os homens desesperados procuravam agarrar-se a uma palha.
O policial interrompeu seus movimentos mastigatórios. Gritou em tom muito calmo:
Vamos para casa, gente!
O dono da loja, que continuava junto à entrada, brandia ameaçadoramente sua ridícula pistola, como se com isso pudesse dar um bom apoio às palavras do policial.
John Clayton, que até então só executara serviços leves e rotineiros, agindo contra os infratores das regras de tráfego, foi-se aproximando lentamente do grupo.
Num movimento de lucidez, Mulvaney teve a idéia de que a mão do policial, enfiada embaixo do uniforme, talvez estivesse segurando uma pistola muito mais perigosa que o cassetete.
Saia do nosso caminho! — gritou para o homem de uniforme. — Aquele sujeito está escondendo seu estoque de liquitivo. Nós o queremos.
Estas palavras foram seguidas de um murmúrio de aprovação. Mais da metade dos presentes já acreditava firmemente que encontraria o licor. Se não fosse assim, o policial não teria aparecido.
Não estou escondendo coisa alguma — gritou o dono da loja, com a voz estridente.
Na placa da loja lia-se que seu nome era Gary P. Mocaaro.
Está ouvindo? — disse Clayton, em tom apaziguador. — Ele não tem nada para vocês.
Mulvaney sentiu-se tão mal que pensou que teria de vomitar. O uniforme escuro à sua frente multiplicou-se. Sua vista começou a turvar-se.
Preferimos dar uma olhada — debochou alguém que se encontrava ao lado de Mulvaney.
Mulvaney gemeu baixinho. Cambaleou para a frente, em direção ao policial. Nunca se sentira tão mal como naquele momento.
Pare! — ordenou Clayton, em tom enérgico.
O cassetete deixou de executar movimentos giratórios. Parecia o prolongamento de seu braço. Os movimentos mastigatórios cessaram de vez.
Talvez esteja com medo”, pensou Mulvaney.
Deu mais um passo em direção a Clayton.
Cuidado, sir! — disse Mocaaro com a voz rouca. — Estão tramando alguma coisa.
Mocaaro não se preocupava com o policial, nem com a viatura. Suas preocupações eram de natureza egoísta. O negociante temia por sua vida e propriedade. Seu instinto lhe dizia que Clayton representava a débil resistência que poderia conservar-lhe uma coisa e outra.
Dali surgiu-lhe a idéia de ajudar o homem de uniforme. Levantou o braço, fez pontaria — o que era completamente inútil numa pistola de efeitos morais — e disparou para além de Clayton.
Quando Mocaaro compreendeu que acabara de cometer um erro, o tiro ainda estava reboando. Clayton praguejou e levantou o cassetete. Como se aquilo representasse um sinal, a massa enfurecida dos viciados começou a movimentar-se.
Clayton esperou-os em atitude resoluta. Mulvaney saiu correndo com os olhos lacrimejantes. Percebeu que as pessoas que o rodeavam corriam mais depressa que ele. Ficou apavorado ao pensar que chegariam antes dele ao lugar em que se encontrava o liquitivo. Sentia-se tão fraco que não conseguia avançar com a mesma rapidez dos outros. Um ódio cego passou a dominá-lo. Queria ter sua parte. Afinal, fora ele que os conduzira para cá. Nem por isso deixariam de apoderar-se de todo o liquitivo em que conseguissem pôr as mãos. Ninguém se interessaria por Henry Mulvaney.
Viu que o policial conseguiu aplicar um choque em três dos atacantes.
Por que não usa a outra mão?”, pensou Mulvaney, perplexo.
Clayton defendia-se obstinadamente. Pelo menos dez pessoas já haviam passado por eles. Soltando gritos selvagens, correram em direção à viatura policial e arrancaram a faixa. Os gritos ressoaram em seus ouvidos. Depois tombaram o carro. Uma nuvem de poeira subiu ao ar. Clayton ouviu Mocaaro gritar de medo. Brandia o cassetete com movimentos quase automáticos.
Alguém agarrou-o por trás. Clayton dobrou os joelhos e caiu. Durante a queda conseguiu lançar um olhar para o interior da loja. Mocaaro havia desaparecido. A vitrina estava quebrada, e alguns homens se movimentavam entre os cacos de vidro. Um deles enrolara a faixa de propaganda na cabeça, como se fosse um turbante. O barulho era indescritível.
Mesmo estendido no chão, Clayton continuava a defender-se. Alguém arrancou-lhe o cassetete da mão e deu-lhe um golpe que fez com que perdesse os sentidos. As pessoas que o rodeavam afastaram-se e precipitaram-se para o interior da pequena loja.
Mulvaney foi o último a chegar ao local onde se encontrava o policial. Viu o homem de uniforme rasgado, estendido no chão. Os ruídos, que vinham da loja de Mocaaro, davam a entender que por enquanto não haviam encontrado nenhum liquitivo.
Mulvaney soluçou baixinho. Sentia a boca ressequida. Dobrou os joelhos. Fitou o rosto do policial por algum tempo. Depois olhou para a viatura tombada.
Retirou cuidadosamente a mão de Clayton de sob o uniforme. Ouviu o ranger e o estalar de madeira, vindo do interior da loja. Vidros eram quebrados, e os golpes surdos saídos da loja faziam supor que os viciados tentavam arrombar um armário.
Ouviu a sereia de uma viatura policial. O ruído vinha de longe.
Mulvaney olhou para a mão de Clayton, ou melhor, para aquilo que estava escondido sob o uniforme do mesmo. Aquele homem estava usando uma prótese.
Tinham derrubado um homem maneta.
Pobre idiota valente”, pensou Mulvaney.
Levantou-se e cambaleou em direção à loja. A placa estava quebrada. Só se liam as últimas duas letras do nome do proprietário. Mulvaney pisou em vidro e escorregou. Um homem saiu da loja. Seu rosto estava borrado de sangue. Seus olhos chamejavam que nem brasas.
Não encontramos nenhum liquitivo — disse em tom de desespero.
Morreremos todos — respondeu Mulvaney, abatido.
O ruído da sereia da viatura policial, que se aproximava, era cada vez mais intenso.
4



O funcionário do Império Solar que cuidava do Setor Vermelho III/b 1245 II era um homem importante. A designação numérica de seu setor destinava-se unicamente aos fichários e aos bancos de dados positrônicos, motivo por que o setor de que cuidava também era conhecido pelo nome de sistema Capra. Capra — um sol em torno do qual gravitavam nada menos de vinte e quatro planetas. O que havia de especial naquele sistema era que seis dos vinte e quatro mundos eram planetas de oxigênio, e por isso foram ocupados por colonos terranos. Face à extensão do sistema solar e ao número de planetas, Oliver Gibson simbolizava poderio.
O fato de encontrar-se ele em Terrânia fazia concluir que havia um motivo muito importante para isso. Perry Rhodan estava perfeitamente ciente da responsabilidade que pesava sobre os ombros desses encarregados, e sabia que era bom que permanecessem ininterruptamente na sua área de atuação.
Naquele momento, Oliver Gibson encontrava-se a vinte mil anos-luz do lugar em que costumava dirigir os destinos das colônias terranas. Gibson achava-se no grande auditório, situado no interior de um dos maiores edifícios de Terrânia.
Além dele havia por ali mais cinqüenta homens, que se contavam entre as figuras mais destacadas do Império Solar. O homem esbelto, bem próximo a Perry Rhodan, devia ser John Marshall, chefe do lendário Exército de Mutantes. Gibson ainda reconheceu Reginald Bell, o Marechal Solar Freyt e Allan D. Mercant, comandante do Serviço de Segurança Solar. Acreditava que havia vários mutantes no recinto. O General Deringhouse entretinha-se numa palestra com o encarregado do sistema Vega. Atrás de Rhodan estavam sentados dois homens de jaleco branco. Até parecia que haviam sido trazidos diretamente de seu local de trabalho.
Por um instante, Gibson teve sua atenção atraída para um homem que parecia um tanque e ocupava duas cadeiras. Seria Jefe Claudrin, o homem que juntamente com Rhodan fizera a Fantasy, a nave terrana equipada com um sistema de propulsão linear, passar por dentro de um sol?
De repente Gibson viu o animal!
Tinha cerca de um metro de altura e parecia um rato de dimensões descomunais, que devia ter parentesco bastante próximo com um castor. Os olhos redondos da estranha criatura fitaram Gibson. Trajava o uniforme de tenente da Frota Solar. Evidentemente tratava-se de uma peça feita sob encomenda. Apresentava até uma abertura por onde passava a larga cauda de castor.
O animal pareceu ter notado o interesse que despertara em Gibson, pois ergueu-se ligeiramente. O encarregado ficou espantado ao constatar que aquela criatura ocupava a única poltrona estofada que havia naquele auditório.
Gibson engoliu em seco. Já ouvira falar muitas vezes em Gucky. Mas escutar e ver são duas coisas muito diferentes.
Os olhos escuros do rato-castor fitaram-no. Depois de algum tempo pôs à vista um dente roedor muito feio e sorriu para Gibson. O rosto do encarregado ficou vermelho. Não sabia como agir. Afinal, aquela criatura era um oficial, e as notícias de seus feitos haviam chegado até o sistema Capra. Muito embaraçado, Gibson fez uma ligeira mesura.
Gucky cumprimentou com um gesto condescendente da cabeça. Seus olhos pareciam sonolentos.
Perry Rhodan levantou-se, obrigando Gibson a olhar em sua direção. O silêncio passou a reinar no auditório, onde se achavam reunidos homens cônscios de sua responsabilidade, que ocupavam posições elevadíssimas.
Há algumas semanas dei ordem para que a importação de liquitivo fosse suspensa, tanto na Terra como nos planetas coloniais — principiou Rhodan. — Além disso, mandei proibir a venda do preparado. Sabíamos perfeitamente que não conseguiríamos que, de uma hora para outra, todos os estoques fossem retidos. Algumas pessoas compraram a bebida às pressas e o mercado negro começou a florescer. Apesar disso, cinqüenta milhões de seres humanos já não têm meios de obter a droga. E o número das pessoas que se encontram nessa situação cresce constantemente. Até tenho medo de pensar no número de viciados que devem estar entre nós. Prefiro nem falar nos mundos coloniais ou nos planetas de Árcon. Os antimutantes da seita de Baalol executaram um plano diabólico. Antes de inundar a Terra e os planetas de Árcon com o liquitivo, viciaram mundos afastados.
Rhodan interrompeu sua fala e fitou os assistentes com uma expressão grave. Pegou algumas folhas de papel que se encontravam à sua frente.
Ao que tudo indica, dentro em breve teremos uma revolta — informou. — Tenho em mãos várias notícias que me deixam profundamente preocupado. Em Des Moines, a residência do prefeito foi saqueada. Em Paris, a turbulência dos homens que participam das demonstrações cresce a cada hora que passa. As tentativas de assalto aos edifícios públicos foram abafadas pela polícia por meio de jatos de água. Em Gettysburg houve uma verdadeira batalha na rua, entre um policial e um grupo de cinqüenta viciados. O policial foi posto fora do combate e seu veículo foi destruído. Uma loja foi saqueada. Na mesma cidade registrou-se o primeiro suicídio. Um homem paralítico matou-se porque não conseguia mais liquitivo.
Balançou a cabeça, num gesto de lástima.
São apenas algumas notícias entre muitas — disse. — Mr. Bell e eu resolvemos iniciar uma grande campanha de esclarecimento público, que já está sendo levada avante. Devemos prevenir a Humanidade contra os perigos que a droga envolve.
Existem quantidades gigantescas da bebida que não puderam ser apreendidas. A mesma é vendida mais ou menos publicamente, a preços absurdos. Por isso torna-se imprescindível que toda a população seja esclarecida sobre o perigo ligado ao uso do licor.
O General Deringhouse levantou-se.
Sir, o senhor acredita que, com isso, os homens se tornem menos brutais em suas tentativas de conseguir o entorpecente?
É o que espero.
Oliver Gibson pensou que era chegado o momento de falar em seu problema. Levantou o braço, para pedir a palavra. Rhodan assentiu com um gesto.
A maior parte dos senhores já me conhece — principiou. — Apesar disso quero dizer quem sou e de onde venho. Sou o encarregado do sistema Capra, onde seis planetas coloniais da Terra se encontram em desenvolvimento. A situação dos homens que vivem lá não pode ser comparada com a da população terrana. A vida dos colonos é muito dura. Sentem-se felizes e satisfeitos com qualquer tipo de distração, que quebre a monotonia. Por isso é perfeitamente compreensível que, num lugar como este, o entorpecente tenha sido vendido em quantidades maiores que na Terra. Acho que a mesma coisa aconteceu com outras colônias.
Sorriu.
Senhores — disse — eu mesmo sou um viciado.
Os homens reunidos naquele auditório estavam acostumados a toda sorte de surpresas. Depois da confissão de Gibson, os rostos continuaram impassíveis. Alguns pareciam mais sérios e resolutos, enquanto outros só agora pareciam interessar-se pelo encarregado, mas ninguém fez qualquer aparte.
Gibson olhou para Perry Rhodan. Já informara o administrador, em confiança, sobre a situação miserável em que se encontrava. Rhodan não era capaz de proferir uma condenação imediata e total contra qualquer homem. Gibson não viu nenhuma recriminação nos olhos cinzentos do administrador, mas apenas um estímulo mudo para que prosseguisse no seu discurso.
Há três dias vivo sem o licor — prosseguiu Oliver Gibson.
Sem que o quisesse, olhou para Gucky. O rato-castor mantinha os olhos fechados. Apesar disso, Gibson sentiu um fluxo inexplicável de calor humano. Sabia que tinha amigos por ali. Seus ombros se entesaram.
Falo em nome de seis planetas coloniais terranos. Quero resumir minha contribuição nos debates num pequeníssimo discurso: devemos encontrar com a maior urgência uma solução que atenda às necessidades dos viciados e do resto da Humanidade.
Gibson concluiu com um gesto e voltou a sentar-se. Naquele recinto não havia ninguém que o desprezasse. Todos se sentiam animados do desejo de ajudar.
Rhodan virou o rosto para os dois homens de jaleco branco. Um deles levantou-se. Estava muito nervoso. Uma das mãos achava-se escondida no bolso do jaleco, enquanto a outra endireitava a gola.
Meu colega, o Dr. Topezzi, e eu, fomos incumbidos de coordenar todas as informações recebidas da equipe médica que realiza um urgente trabalho de pesquisa, para descobrir as características perigosíssimas do entorpecente.
Pigarreou fortemente e lançou um olhar de súplica ao Dr. Topezzi que, segundo parecia, estava satisfeito por não se encontrar no lugar do orador.
Por enquanto — prosseguiu o médico — não se conseguiu apurar de que forma os antis fabricam o veneno. Não existe a menor dúvida de que o liquitivo produz um efeito rejuvenescedor. Há um detalhe interessante: o vício só se manifesta, depois de a droga ter sido usada umas quatro ou cinco vezes. Isso permite certas conclusões, mas estas são de natureza puramente teórica e no momento não oferecem o menor interesse. O que parece certo é que o licor só se transforma num veneno, que afeta os nervos, depois de ter sido ingerido por um ser humano. Algum fermento do estômago combina-se com o licor. Como sabemos, os fermentes funcionam como catalisadores. Antes de ser ingerido, o produto não é venenoso. Só depois de entrar em contato com o fermento, adquire essa qualidade. Acho desnecessário mencionar que o liquitivo é fabricado com base em hormônios. De outra maneira não haveria como explicar o efeito rejuvenescedor.
Está bem, doutor — disse Reginald Bell.
Era o único homem que demonstrava certa impaciência.
Diga-nos alguma coisa sobre os tratamentos de desintoxicação; qual foi o resultado dos mesmos? — pediu Rhodan.
Para resumir, em todos eles o resultado foi negativo — informou o médico. — Os maiores especialistas em tratamentos de desintoxicação fracassaram. Todos sabemos que uma pessoa viciada pela morfina ou pelo álcool pode ser libertada do vício. Ao que parece, isso não acontece com o liquitivo. Depois de trinta dias, a loucura é o destino fatal das pessoas que adquiriram a dependência.
Fez um sinal com as mãos. Falando muito baixo, acrescentou:
Só podemos recomendar aos responsáveis que suspendam a proibição da importação e venda do liquitivo, pois, do contrário, correremos o risco de ver enlouquecer inúmeras pessoas.
Aquilo que Gibson não conseguira com sua exposição, o médico alcançou com sua proposta chocante: os ouvintes tornaram-se inquietos. Jefe Claudrin levantou-se instintivamente. O corpo gigantesco daquele homem de Epsal, parecia querer arrebentar o uniforme. John Marshall trocou um ligeiro olhar com outro dos presentes. Tratava-se de um japonezinho, em cujo rosto pairava um sorriso suave.
Será que o senhor acha que devemos levantar o bloqueio, Dr. Whitman? Sabe o que significa isso? As organizações mercantis galácticas, especialmente nossos velhos amigos, os saltadores, voltarão a entrar livremente em nosso sistema.
É verdade, sir — disse o Dr. Whitman.
Deringhouse era dotado de um raciocínio frio. Apesar disso era antes de tudo um soldado, e suas idéias logicamente se moviam principalmente na área militar. Como general, achava que sua tarefa consistia em usar a Frota Solar para manter todo mal afastado da Terra. Não era dado aos lances astuciosos, às intrigas políticas ou às hábeis manobras diversionistas.
Isso equivaleria a uma capitulação — disse em tom amargurado.
Gucky piscou os olhos; estava bastante interessado pela discussão. Nem mesmo aquele nativo do planeta Vagabundo, sempre brincalhão, subestimava o significado da palavra capitulação.
Rhodan foi o único que conservou a calma.
A palavra capitulação parece muito dura — disse o Dr. Topezzi. — Se falássemos numa solução de compromisso, talvez estaríamos usando termos mais adequados.
Pouco importa que palavra queiramos usar — disse o general, em tom exaltado. — O que adianta encobrir a derrota com palavras bonitas? Sou contra a suspensão do bloqueio.
Uma exclamação surda saiu da boca de Jefe Claudrin. Todos a interpretaram como uma manifestação de concordância. Era comandante da primeira nave linear terrana, e por isso sua opinião pesava um pouco.
Perry Rhodan compreendeu que, se não interviesse imediatamente, os homens que se encontravam reunidos se dividiriam em dois partidos. Estava cônscio de sua responsabilidade. Era necessário tomar uma decisão, e dela provavelmente dependeria a existência de toda a Humanidade, tanto da que vivia na Terra como da que habitava os planetas coloniais.
Naquele momento histórico, o homem que até merecera certo respeito de Auris de Las-Toor, representante do Conselho de Ácon, e cujo nome estava indissoluvelmente ligado ao futuro da raça humana, disse:
O bloqueio será levantado. A partir deste momento voltará a ser permitida a venda do liquitivo na Terra e em suas colônias. Vamos recomendar a Gonozal VIII, Atlan, para que adapte seu procedimento ao nosso.
Perry Rhodan fitou prolongadamente os homens ali reunidos. Notou que o General Deringhouse empalidecera e que Claudrin franziu os sobrolhos, numa expressão de contrariedade. Alguns homens engoliram em seco, e seus rostos assumiram uma expressão dura. Mas a confiança que depositavam no administrador pesava mais que seus sentimentos.
A voz de Rhodan cortou o silêncio sepulcral.
Com isso evitaremos que milhões de seres humanos se transformem em loucos. Nossa campanha de esclarecimento deverá ser intensificada, a fim de que as pessoas sadias não se transformem em viciados. O fato de que o uso do liquitivo representa um perigo para a vida deve ser divulgado em todos os cantos do império.
Sorriu sem demonstrar muito senso de humor.
Isso evidentemente não significa que admitimos nossa derrota — disse. — Iniciaremos um programa de pesquisas como este planeta nunca viu igual. Os maiores cientistas de todos os mundos utilizarão todos os meios para descobrir um antídoto.
Rhodan irradiava resolução. — E eles o descobrirão, da mesma maneira que eu descobrirei Thomas Cardif.
Apavorado, Gucky pôs à mostra o dente roedor. Mas não disse nada. Quando o chefe se encontrava neste estado de ânimo, era preferível ficar calado. Todos os presentes sentiram a feroz resolução que animava Rhodan.
Sua energia espalhou um otimismo que, lace aos acontecimentos posteriores, não tinha a menor razão de ser.
Alguém que está enleado na teia, dificilmente consegue libertar-se. Mesmo que se mantenha aparentemente quieto, a fim de não irritar o atacante.
Dois dias depois dessa reunião, o entorpecente voltava a ser vendido livremente em todos os pontos da Terra. Para algumas centenas de homens, já era tarde.
Em Gettysburg, um homem foi internado num hospital para doentes nervosos. Seu espírito estava totalmente perturbado.
Chamava-se Henry Mulvaney.
A semente má, lançada pelos antis, estava germinando. Nos laboratórios da Terra e dos planetas de Árcon, testes eram realizados. Rhodan não descansava. Interessava-se pessoalmente pelos resultados de todos os exames.
De repente aconteceu uma coisa que imprimiu um rumo totalmente diferente aos acontecimentos...
5



Sob o ponto de vista puramente estético, a cidade era um amontoado de edifícios cinzentos. As ruas eram estreitas e havia muitos cantos imundos. Atualmente não tinha a menor importância, e por isso sua feiúra destacava-se ainda mais. Antigamente, quando Lepso ainda era uma espécie de Tânger intercósmico, aquela cidade, e muitas outras do mesmo planeta, costumavam abrigar os representantes de inúmeras raças.
Depois que as tropas do Império Solar ocuparam Lepso, esta cidade e muitas outras do mesmo planeta passaram a ser monótonas. Os contrabandistas não vagavam mais durante a noite pelos portões arqueados, os tiros de radiações deixaram de ser trocados entre os “negociantes” que não conseguiam chegar a acordo sobre o preço de suas mercadorias escusas.
A cidade estava morta, porque Lepso estava morto. A corrupção do governo, apoiada pelos antis, chegara ao fim, pois naquele planeta já não existiam os chamados sacerdotes divinos. Rhodan mandara atacar o templo dos antis. Alguns sacerdotes haviam fugido no último instante, juntamente com Thomas Cardif. Os soldados terranos, equipados com instrumentos de localização, não tardaram em descobrir os locais de fabricação do liquitivo. Os comandos de robôs e as tropas de elite penetraram nos subterrâneos e ocuparam todos os pontos que pareciam ter alguma importância. Mas os cálculos logo demonstraram que as quantidades imensas de entorpecente, distribuídas pela Galáxia, não poderiam ter sido produzidas exclusivamente em Lepso.
Constantemente realizavam-se vôos de controle, a fim de localizar eventuais bases em Lepso que ainda permanecessem ocultas.
Stephen Elliot cruzava sobre a cidade cinzenta, atrás da qual se estendia a paisagem desolada de Lepso. Fez seu planador descer um pouco. O vôo diário de rotina estava concluído.
Olá, Stephen — disse uma voz alegre.
Elliot sobressaltou-se. Desoga tinha uma maneira pouco convencional de se comunicar pelo rádio. Elliot ligou seu aparelho de radiofonia. Imaginou o espanhol magro sentado na central, fumando um charuto mais grosso que seu polegar.
Aqui fala o planador FTP 34 — disse Elliot. — Pode falar.
Desoga tossiu. Era o superior hierárquico de Elliot. Mas este vivia perguntando-se como era possível que um homem de atitudes pouco militares tal qual Desoga podia dirigir um trabalho que exigia elevada dose de responsabilidade.
Se eu olhar pela janela, eu o vejo — disse Desoga.
Perplexo, Elliot olhou para baixo. Não seria capaz de dizer qual dos edifícios cinzentos, que via lá embaixo, abrigava a central. Vistos de cima, todos pareciam iguais. Além disso, pouco lhe importava que Desoga pudesse vê-lo ou não.
Não pouse por enquanto, Stephen — ordenou Desoga.
Elliot lançou os olhos pela carlinga panorâmica. Desoga fungou e, ao que tudo indicava, estava esperando que Elliot dissesse alguma coisa. O piloto ficou imaginando o que aconteceria se um dia os charutos do espanhol acabassem.
Tem mais alguma ordem, sir? — conseguiu dizer com grande esforço.
No seu íntimo rogou pragas contra Desoga e seus charutos, contra aquela cidade e o planeta que parecia ser formado unicamente de pedras e montanhas desoladas. Antes que pudesse praguejar contra mais alguma coisa, Desoga disse:
Tenho, Stephen — respondeu e pigarreou.
Elliot pensou: “Está na hora.”
Voe até o quadrado X45-D-3 — ordenou Desoga. — Recebemos uma informação do destacamento que vigia a área. Dizem ter descoberto uma pequena base que ainda não tínhamos localizado.
Desoga não havia localizado uma única base, mas falava como quem tivesse descoberto todas elas.
Há um mutante em companhia dos homens, Stephen. É telepata. Pelo que dizem, existe alguém nessa base. Veja o que pode fazer.
Era a maneira típica de dar ordens daquele espanhol. Não dera nenhuma indicação precisa sobre o que Elliot deveria fazer. O piloto dirigiu o planador para o ponto que lhe fora indicado.
Talvez seria conveniente — observou Desoga em tom bonachão — se conseguíssemos prender esse sujeito vivo.
Ao que parecia, o espanhol sabia mais do que desejava confiar a Elliot. Desoga sempre parecia saber mais que os outros. De repente, o piloto se lembrou de que talvez fosse esse o motivo por que aquele magricela era seu superior, e ficava sentado na central, envenenando-se com nicotina.
Sim, senhor — disse Elliot.
Desoga parecia nem ouvi-lo mais. A cidade desapareceu embaixo de Elliot. Olhando para trás, via apenas sua silhueta sombria desenhada no horizonte. O pequeno sol amarelo de Firing fornecia bastante luz para iluminar a paisagem que deslizava sob o planador.
Quando chegou ao lugar indicado por Desoga, viu um grupo de homens que agitavam os braços em meio à desolação. Elliot pousou habilmente. Dos uniformes dos soldados concluía-se que estes pertenciam à Frota Solar. Estavam armados até os dentes. Dois robôs de guerra mantinham-se num ponto mais afastado.
Elliot saiu do pequeno veículo aéreo. Lepso era um planeta de oxigênio, motivo por que os terranos não tinham necessidade de usar traje protetor. Elliot mal conseguia imaginar que o contrabando intercósmico tivesse florescido justamente num mundo insignificante como este. Lepso fora o ponto de entroncamento de todos os negócios escusos, até o momento em que Rhodan aparecera com a Frota Solar. Nem mesmo as naves cilíndricas dos mercadores galácticos conseguiram impedir a atuação enérgica de Rhodan, dirigida contra os antis.
O senhor deve ser Elliot — disse um homem baixo a título de cumprimento. — Desoga já anunciou sua vinda. Recebemos ordem para não fazer nada enquanto o senhor não chegasse. Sou o cabo Higgins; dirijo este grupo.
Elliot fitou os dezesseis homens que se encontravam à sua frente. Onde estaria o mutante mencionado pelo espanhol? Elliot julgava-se capaz de reconhecer imediatamente, em meio a um grupo de homens, um membro desse exército lendário.
Higgins até parecia ter adivinhado seus pensamentos, pois disse:
O telepata encontra-se num outro grupo, que foi ao encontro do Tenente Lechner e seus homens. Lechner prendeu alguns arcônidas suspeitos, vindos de alguma colônia, que se encontravam em Lepso por motivos dificilmente explicáveis quando iniciamos nosso ataque.
Evidentemente Higgins esperava que o piloto assumisse o comando. Elliot lançou um olhar para a paisagem desolada. Sentia-se inseguro.
O que aconteceu? — perguntou.
O mutante constatou que ali deve haver uma base oculta — disse Higgins, em tom apressado.
Apontou na direção de uma colina baixa, que não parecia nada suspeita aos olhos de Elliot.
Higgins sentia-se indeciso. Via-se que não compreendia a forma de trabalho dos mutantes. E, ao que parecia, não se achava muito interessado em compreender. Estava satisfeito com aquilo que já conseguira. Preferia deixar as decisões mais importantes por conta de outra pessoa.
O membro do Exército de Mutantes afirma que ali só há um único terrano — prosseguiu Higgins. — Pelo que diz, está armado. Na opinião do telepata não é perigoso.
Logo descobriremos — disse Elliot.
O cabo Higgins concordou com o ar sério de um velho soldado.
Não há dúvida, sir.
Elliot não tinha uma idéia precisa sobre como fariam para atingir a base. Mas, como aqueles homens esperavam que fizesse alguma coisa, começou a deslocar-se em direção à colina.
Já tentamos estabelecer contato pelo rádio com o misterioso terrano — observou Higgins. — Nossas tentativas não foram bem-sucedidas.
Quando haviam percorrido aproximadamente metade da distância que os separava da colina, os problemas de Elliot foram resolvidos de forma misteriosa. Um vulto cambaleante apareceu no topo da colina.
Vamos — gritou Higgins e passou correndo por Elliot.
O tal vulto era uma figura esquisita. Tinha pernas curtas e tortas. Elliot apressou o passo.
O homem deve ser este, sir — gritou Higgins, como se estivesse prestes a tomar de assalto um cruzador dos saltadores.
Pasmo, Elliot perguntou-se por que motivo um homem, que se mantivera escondido por tanto tempo, resolvera aparecer no momento exato em que surgiam as pessoas das quais devia ter fugido.
O homem à sua frente estava esgotado ou doente. Cambaleou colina abaixo.
Tratem-no com cuidado — ordenou Elliot. — Parece que está ferido.
Juntamente com Higgins e dois soldados, foi o primeiro a chegar ao lugar onde estava o desconhecido. Não havia a menor dúvida de que era um terrano. Era de estatura mediana e muito magro, quase tão magro como Desoga. O rosto estava encovado e com a barba por fazer. A roupa estava muito estragada. Uma atadura precária cobria a coxa direita.
O homem fitou os olhos de Elliot. Ao que parecia, nem notava sua presença. O piloto sentiu que o estado daquele fugitivo não era causado exclusivamente pelo ferimento que trazia na perna. Elliot tinha a impressão de conhecer o porquê desse olhar vazio.
De repente lembrou-se do que vira em Lepso várias semanas atrás. Já sabia o que havia com esse homem.
É um viciado”, pensou. “Encontra-se sob a influência do terrível liquitivo!”
Elliot teve um calafrio. Desoga determinara que esse homem fosse recolhido vivo.
Estava certo de que devia apressar-se bastante se quisesse cumprir essa ordem.
Apóie-o! — ordenou Higgins.
Reunindo suas forças, arrastaram o homem semimorto em direção ao planador.
Naquele momento, ninguém desconfiava de que aquilo representava o início de uma nova pista, de uma pista que levava diretamente ao centro da Via Láctea. Desoga, o oficial magricela que se encontrava na central, lá na cidade, aguardava muito tenso que Elliot retornasse.

* * *

Havia uma coisa que Elliot não podia saber, por um motivo muito simples: ninguém lho havia dito. Desoga era um especialista da Segurança Solar. Depois de uma demorada reunião, Rhodan e Mercant haviam resolvido colocar em cada cidade de Lepso um mutante e um especialista em matéria de segurança. Essa resolução prevaleceria inicialmente pelo prazo de dois meses, até que se tivesse certeza de que, no segundo planeta do sol de Firing, não se escondia mais ninguém que pudesse fornecer informações importantes.
Fazia duas horas que Miguel Desoga pedira ao piloto que se retirasse de seu gabinete. Naquele momento, só se encontrava presente o médico, que se esforçara para, por meio de injeções e medicamentos, colocar o homem inconsciente em condições de ser interrogado.
Perdeu muito sangue — explicou o Dr. Silverman. — Não gosto nem um pouco da ferida na coxa, provocada por um tiro. Além disso, temos os efeitos desastrosos do entorpecente. Estou quase certo de que este homem é um viciado de longa data. É ao menos o que indicam os sintomas.
Os olhos escuros do espanhol estreitaram-se. O eterno charuto, que trazia entre os lábios, formava um contraste marcante com o rosto magro.
Quer dizer que ele morrerá? — perguntou Desoga.
O Dr. Silverman lançou um olhar recriminador para o agente, quando este tirou uma enorme baforada de seu charuto.
Isso mesmo; não demorará nada.
Hum! — fez Desoga, lançando um olhar pensativo para o traste humano, encolhido na poltrona, a poucos metros do lunar onde se encontrava.
Aquele homem moribundo parecia ser uma pessoa culta.
Está bem, doutor — disse Desoga, em tom rabugento. — Faça-o falar.
O médico sabia perfeitamente que seria inútil discutir com um agente. Fazia vinte anos que trabalhava com esse tipo de gente. Suas decisões sempre eram bem pensadas.
O Dr. Silverman preparou outra injeção. Desoga parecia interessar-se unicamente pela cinza de seu charuto. Esperou até que o médico concluísse seu trabalho.
Se tivermos sorte, recuperará os sentidos dentro de dez minutos — anunciou o Dr. Silverman. — Depois disso poderá interrogá-lo.
Por quanto tempo?
Silverman ergueu os ombros angulosos.
Isso depende de sua resistência orgânica. Se tiver azar, só falará por alguns minutos. Na melhor das hipóteses, disporá de uma hora.
Desoga resolveu que, de qualquer maneira, faria uma gravação em fita. Ligou o aparelho. Teria de andar depressa com o interrogatório, caso contrário dificilmente conseguiria tempo para repetir suas perguntas. O gravador de fita não poderia ser enganado. Registraria todos os detalhes e, posteriormente, repetiria tudo com muito mais perfeição do que Desoga seria capaz de fazê-lo.
Assim que o agente concluiu seu trabalho, o Dr. Silverman disse:
Está recuperando os sentidos.
Desoga puxou uma cadeira e acomodou-se de frente para o encosto. O doente gemia baixinho. Suas pálpebras tremiam.
Pode retirar-se, doutor — disse Desoga. — É possível que mais tarde volte a precisar do senhor. Peço-lhe que se mantenha de prontidão.
Este homem nunca mais precisará de mim — disse o Dr. Silverman e saiu.
Desoga aproximou a cadeira do desconhecido.
O senhor me ouve? — perguntou em tom insistente. — Compreende minhas palavras?
O homem fez um gesto afirmativo. Abriu os olhos, que estavam injetados de sangue. Fitou o espanhol com uma expressão de perplexidade. Desoga resolveu conceder-lhe um minuto, para que pudesse; recuperar-se.
Onde estou? — balbuciou o ferido.
Na Terra — mentiu Desoga. Aquele homem sentia que a morte se aproximava, e qualquer terrano que se encontra nessa situação anseia por estar na Terra antes que chegue o fim.
O senhor está num hospital.
Num hospital? — repetiu a voz monótona do viciado.
Desoga pegou a mão de seu interlocutor e sacudiu-a suavemente.
Queremos saber quem é o senhor.
Sou o Dr. Nearman — disse o homem com certo orgulho. — Sou o conhecido biólogo e astromédico.
Desoga nunca ouvira falar no Dr. Nearman. Este prosseguiu em suas explicações, sem que tivesse sido formulada outra pergunta.
Saí da Terra há trinta e oito anos — disse.
Desoga ficou apavorado ao notar que as pupilas do homem se modificavam constantemente, embora a luminosidade permanecesse sempre a mesma naquele recinto.
Seria o efeito estimulante da injeção, ou seria o prenuncio do fim?
O que fez em Lepso? — perguntou Desoga.
Nos trinta minutos que se seguiram, o Dr. Nearman apresentou um relato desconexo. A todo instante, Desoga teve de interrompê-lo com perguntas, a fim de esclarecer determinados pontos.
O Dr. Nearman fizera amizade com um homem chamado Dr. Edmond Hugher, que não era outro senão Thomas Cardif. Haviam trabalhado juntos na descoberta e no aperfeiçoamento do liquitivo. Desoga foi de opinião que deram o liquitivo ao Dr. Nearman apenas no intuito de prendê-lo à organização criminosa. A suposição do Dr. Silverman, segundo a qual o doente se encontrava no último estágio, revelava-se correta. Quando a Frota Solar surgiu em Lepso, a consciência acusou pela primeira vez o Dr. Nearman pelos atos que praticara. Fugira e, na oportunidade, fora ferido por um robô de guerra. Em meio ao nervosismo geral conseguira chegar ao esconderijo em que fora localizado pelo mutante. Totalmente exausto, resolvera entregar-se.
Desoga constatou que o Dr. Nearman era muito entendido na determinação de posições galácticas. Falava constantemente num misterioso planeta designado pelo nome de Okul. Desoga estabeleceu uma ligação entre este mundo e Thomas Cardif e os antis, pois o Dr. Nearman mencionou o fato de que a organização tinha certeza de que Okul representava um refúgio seguro. O espanhol fez o possível para obter do moribundo os dados sobre aquele mundo misterioso, que parecia conhecer.
Depois de um ligeiro olhar para o gravador, Desoga soltou um suspiro de alívio. Tinha certeza de que em Terrânia saberiam fazer muito mais com as informações fornecidas pelo Dr. Nearman do que ele, ali em Lepso. Desoga resolveu enviar a fita à Terra pelo caminho mais rápido possível.
Okul deve ser um planeta coberto por selvas — informou o Dr. Nearman, e sua voz tornava-se cada vez mais débil. — Pelo que diz o Dr. Hugher, por lá não existem seres inteligentes. Por isso os sacerdotes da seita de Baalol acharam que seria conveniente criar um estabelecimento nesse mundo.
Desoga percebeu que seu charuto se apagara.
Prossiga, Dr. Nearman — pediu com a voz tranqüila.
De repente, o biólogo sentiu a estranha desconfiança que constitui uma característica de todas as pessoas gravemente enfermas.
O senhor é médico? — perguntou. — O que deseja de mim?
Está tudo em ordem — disse o agente, em tom tranqüilizador. — O senhor está em lugar seguro. Nada lhe acontecerá.
Porém os olhos do Dr. Nearman assumiram uma expressão rígida.
Desoga compreendeu que o biólogo estava morto.
Levantou-se e foi até a porta. O Dr. Silverman encontrava-se sentado no corredor, de pernas cruzadas, e fazia anotações. O bloco estava apoiado sobre o joelho.
Venha, doutor — disse Desoga.

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