Autor
WILLIAN
VOLTZ
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
A semente
do mal traz seus frutos — Milhões de
seres
humanos estão irremediavelmente perdidos...
As
pesquisas relativas ao liquitivo prosseguem febrilmente. Um assunto,
que de início só merecia a atenção de uns poucos agentes da
Divisão III, já mantém sobressaltado todo o alto comando do
Império Solar, pois a situação na Terra, nos planetas coloniais
terranos e nos mundos de Árcon ficou desesperadora.
Por
anos a fio, deixaram de ser adotadas as necessárias cautelas, uma
vez que cientistas de renome haviam chegado à conclusão de que o
novo licor, denominado liquitivo, era um excelente meio de retardar o
processo de envelhecimento do organismo humano e propiciar novas
energias aos indivíduos que tomavam o preparado.
Já se
reconheceu o engano funesto, e é por isso que os dirigentes do
Império Solar se mantêm obstinadamente Na Pista dos Antis...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Henry
Mulvaney
— Um
homem desesperado.
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Reginald
Bell
— Amigo
íntimo de Perry
Rhodan.
John
Clayton
— Um
policial.
Sargento
John
Emery
— Um
valente graduado.
Thomas
Cardif
— Que
está do lado dos antis.
1
O plano de
Mulvaney fora fruto de um profundo desespero. Sob o ponto de vista
legal era um plano considerável, já que previa a possibilidade de
Mulvaney assassinar o velho Lansing. Se estivesse em seu estado
normal, Mulvaney nunca teria pensado em matar quem quer que fosse.
Acontece que se encontrava num estágio que tornava impossível
qualquer forma de raciocínio sensato. Estava em vias de ficar
irremediavelmente louco.
De forma
alguma, o motivo das intenções de Mulvaney consistia na pessoa do
velho Lansing; ninguém tinha motivo para odiá-lo. O objetivo visado
por Mulvaney eram algumas garrafinhas de plástico, que, segundo
supunha, se encontravam em poder de sua vítima. Não era de se
imaginar que Lansing entregasse voluntariamente as garrafas que
possuía. Depois de o governo ter proibido a venda do licor, os
estoques restantes foram guardados cuidadosamente pelos possuidores.
Até que a última garrafa de liquitivo tivesse sido consumida pelos
viciados, era apenas uma questão de tempo.
Henry
Mulvaney não pensava nisso. Nem se lembrava de que mais de cinqüenta
milhões de terranos estavam viciados, e dariam tudo para conseguir
apossar-se de uma garrafinha do licor.
As mãos
trêmulas de Mulvaney seguraram a coluna que ladeava a porta da casa
de Lansing. Já passava da meia-noite. A rua estava deserta.
Albert
Lansing era um velho esquisitão. Seu corpo achava-se paralisado da
cintura para baixo. De dia, o doente dispunha de um robô de serviço.
Mas de noite, a máquina tinha que abandonar a casa. Esse robô
representava a única concessão que Lansing fizera ao
desenvolvimento tecnológico. Sua cadeira de rodas era de um modelo
antigo; apresentava uma grande roda de cada lado. A habilidade com
que Lansing movimentava seu veículo dificilmente seria excedida por
um produto automático da mesma espécie.
Mulvaney
puxou o corpo para cima, segurando-se à coluna. A pedra parecia fria
e áspera; a casa, quieta. Mulvaney virou a cabeça. A luz
fosforescente que vinha do outro lado da rua provocou um reflexo em
seus olhos. O rosto demonstrava uma estranha tensão.
Por um
instante, Mulvaney ficou em cima da coluna. Finalmente saltou para o
quintal da casa. A terra mole evitou o ruído. Ergueu-se. Ao
arrastar-se, não se preocupou com as flores e os arbustos que seus
pés esmagavam. Seus passos rangiam sobre o caminho coberto de areia
colorida. Tirou a chave magnética do bolso. Foi acolhido pela sombra
da casa, que o retirou do âmbito de visão de quem se encontrava na
rua e lhe conferiu tranqüilidade e segurança. Um gato com o rabo
muito levantado passou pelo jardim. Seus olhos faiscaram enquanto
virava a cabeça ligeiramente em direção a Mulvaney. Mas seu corpo
ágil logo desapareceu em meio às flores.
Mulvaney
resmungou baixinho sem dar-se conta disso. O desejo de obter o
liquitivo enchia todo seu pensamento. À medida que se aproximava do
objetivo, mais crescia sua ânsia. Até então tomara regularmente
uma garrafa de três em três dias.
Seguiu-se
o efeito anunciado: a energia juvenil e a cessação do processo de
envelhecimento. Mulvaney não compreendia por que o governo proibia o
uso de um preparado como este. Não tinha o menor conhecimento sobre
o estado dos destroços humanos, trazidos de Lepso para a Terra, onde
se travava uma luta vã por sua salvação. Não sabia que, mesmo que
pudesse continuar a tomar o licor, a decadência e a morte se
verificariam doze anos e quatro meses depois do dia em que pela
primeira vez experimentara a droga.
Mulvaney
chegou à porta da casa. Parou e aguçou o ouvido. No interior da
residência reinava o silêncio. A moradia era assobradada. Lansing
mandara instalar um elevador junto à escada, a fim de levá-lo para
cima e para baixo sempre que o desejasse. Mulvaney conhecia
perfeitamente a divisão das peças da casa, pois muitas vezes
estivera com o velho Lansing para jogar xadrez. Por isso sabia que
aquele homem paralítico tomava regularmente o liquitivo. Lansing
confessara perante Mulvaney que esperava que isso lhe trouxesse uma
melhoria ou mesmo a cura de sua doença. No entanto, não houvera
nenhuma cura. Lansing rejuvenescera, sua pele tornara-se mais lisa, e
seus poucos amigos acharam-no mais enérgico.
Mas a
paralisia continuou inalterada.
Mulvaney
empurrou a chave magnética para dentro da fechadura. O dispositivo
de segurança saiu imediatamente do suporte. Sob a pressão leve
exercida pelas mãos de Mulvaney, a porta abriu-se.
O
visitante clandestino teve a impressão de que a peça que tinha pela
frente era um buraco negro, já que parecia impossível romper a
escuridão. Não hesitou: entrou imediatamente. Voltou a trancar a
porta atrás de si. Conteve a respiração e procurou captar qualquer
ruído que lhe permitisse uma conclusão sobre o paradeiro atual de
Lansing. Mas tudo estava em silêncio.
Mulvaney
deu um passo para a frente. A ânsia furiosa tornara-se ainda mais
intensa.
“Tenho
que arranjar o liquitivo!”,
pensou.
Aquele
ruído não era da cadeira de rodas que se aproximava?
Mulvaney
esgueirou-se para o lado. Mas não havia nada que se aproximasse na
escuridão. Os dedos do intruso tocaram na parede. Mais adiante
encontraram resistência: era um cabide. Mulvaney tateou uma fazenda
macia: a da capa de trabalho do robô de serviço. Era mais uma das
idéias esquisitas de Lansing, fazer com que o robô vestisse uma
capa. Naquele momento, Mulvaney não estava em condições de
divertir-se com isso. Continuou a apalpar, até que houvesse uma
interrupção na parede.
A entrada
da cozinha! No interior da casa não havia portas, já que estas
dificultariam a locomoção de Lansing. As entradas das diversas
peças eram fechadas com cortinas duplas.
Mulvaney
empurrou para o lado a fazenda pesada e entrou na cozinha. Um cheiro
estranho impregnava o ar. Parecia que alguém havia derramado uma
quantidade excessiva de detergentes no assoalho. Mulvaney esbarrou na
mesa, que tinha uma reentrância, na qual Lansing entrava com sua
cadeira de rodas, quando pretendia fazer suas refeições.
“Onde
é que o velho esconde o licor?”,
pôs-se a refletir.
Não
poderia começar a procurar ao acaso. Levaria várias horas. Além
disso, seria impossível realizar esse tipo de trabalho, sem provocar
barulho. Por isso tornava-se necessário localizar Lansing.
Mulvaney
contornou a mesa. Tropeçou numa cadeira. Tratava-se de uma peça
bastante rara na residência de Lansing. Felizmente a perna da
cadeira achava-se envolta numa massa elástica, de forma que não
houve um ruído mais forte. Mulvaney estava convencido de que não
havia ninguém na cozinha. Lansing não se encontrava por ali. De
repente Mulvaney lembrou-se de que o paralítico talvez já tivesse
notado que entrara na casa e o esperava em algum lugar, de arma em
punho. A idéia obsessiva de que o velho possuía uma arma fez com
que Mulvaney sentisse calafrios. Por algum tempo viu-se incapaz de
fazer qualquer coisa. Ficou parado, tremendo por todo o corpo. Mas
logo seu organismo deu sinal de vida, exigindo sua dose de liquitivo.
Aquela sensação angustiante era pior que o medo mais terrível.
Saiu da
cozinha. No pavimento térreo havia mais duas peças, a biblioteca e
o chamado escritório. Naturalmente Lansing nunca trabalhava, embora
quase sempre ficasse no escritório. Recebia uma renda mensal e, além
disso, contava com o apoio financeiro voluntário de parentes na
Europa. Para uma pessoa não avisada, o aspecto do escritório de
Lansing era bastante estranho. Da entrada partiam duas barras
metálicas, que se dirigiam à janela. Formavam uma espécie de
corredor, que tinha a largura exata para permitir a passagem da
cadeira de rodas. Por uma única vez, Mulvaney tivera oportunidade de
ver qual era a verdadeira finalidade da peça. Para o homem
paralítico, representava a única possibilidade de sair da cadeira
de rodas sem auxílio de ninguém. Fazia a cadeira rolar até as
barras metálicas, pendurava os braços sobre as mesmas e
arrastava-se até a Janela, onde permanecia por horas a fio,
observando o movimento na rua. Quando Mulvaney o surpreendera nessa
posição, Lansing ficara zangado pelo resto da noite e se mostrara
bastante “distraído”
durante o jogo.
— Por
que não ri de mim? — indagara Lansing, depois que Mulvaney
afastara a cortina e fitara o recinto com uma expressão de
perplexidade. — Pelo menos deveria rir de mim.
Essa
experiência deixara Mulvaney pensativo por várias semanas. Evitara
Lansing, até que este lhe telefonasse, convidando-o para outro jogo.
Enquanto
Mulvaney avançava pela escuridão, em direção ao escritório,
lembrou-se dessas palavras do doente. Sentiu no seu subconsciente um
ligeiro temor de afastar a cortina e penetrar na peça.
Uma vez
vencido esse temor, constatou que Lansing não se encontrava nessa
peça. Também não estava na biblioteca. Concluía-se que só
poderia estar no pavimento superior. Um tanto perturbado, Mulvaney
caminhou sorrateiramente em direção à escada.
Tropeçou
numa das rodas da cadeira e bateu com o rosto no chão. Agitou
violentamente os braços, e suas mãos tocaram em outras peças do
meio de locomoção do doente. A cadeira de rodas de Lansing estava
ao pé da escada, totalmente destruída. Mulvaney soltou um gemido e
libertou-se da profusão de peças metálicas.
O barulho
não poderia ter deixado de atrair a atenção de Lansing, se este se
encontrasse por ali. Mas tudo continuava em silêncio no interior da
casa, com exceção dos ruídos provocados pelo próprio Mulvaney. O
invasor levantou-se com uma terrível pressa. Não se importava com
mais nada. Sentia-se completamente dominado pela ânsia de obter
aquilo que, para ele, era um preparado rejuvenescedor. Cambaleou na
direção em que, segundo acreditava, ficava o interruptor de luz.
Sentiu-se gelado de pavor ao lembrar-se da possibilidade de que outro
poderia ter chegado antes dele. Talvez alguém já tivesse roubado o
estoque de Lansing.
Soltou uma
praga e acendeu a luz.
Viu que a
cadeira de rodas caíra pela escada. Estava completamente destruída.
Albert
Lansing estava deitado num degrau da escada...
Estava
morto!
Estendido
em posição inclinada, estava apoiado no corrimão, com os olhos
muito arregalados e o rosto cor de cera. Mulvaney ficou rígido de
pavor. E seu instinto lhe disse que por ali não encontraria nenhum
liquitivo.
Foi-se
aproximando de Lansing. Havia um bilhete na mão direita do velho.
Mulvaney pegou-o e leu as poucas frases, escritas com letras
trêmulas:
Hoje
terminou meu estoque de liquitivo. Já não tenho forças para viver
sem o licor. Que Deus me perdoe.
Mulvaney
deixou cair o papel. Lansing se suicidara. Não havia nenhum licor
naquela casa. O homem paralítico fizera a cadeira de rodas descer
pela escada e capotara várias vezes.
— Por
que não ri?
— soou a voz de Lansing na mente de Mulvaney. — Pelo
menos deveria rir de mim.
Mulvaney
começou a rir que nem um louco. Seu corpo tremia. Precisava de
liquitivo. Precisava da droga com urgência, com muita urgência.
Acontece que o governo suspendera as vendas do produto. Não havia
meio de conseguir o licor.
Mulvaney
abandonou a casa, cambaleando que nem um bêbado.
Era um ser
humano solitário. Um ser humano viciado e perdido.
Era um
entre mais de cinqüenta milhões.
2
Mais de
cinqüenta milhões de seres humanos ameaçavam desencadear uma
revolta. A Terra transformara-se num hospício. Os viciados
precisavam do licor geralmente conhecido como liquitivo, da mesma
maneira que o homem normal precisava do ar para continuar vivo.
Nos
planetas coloniais, a situação não era muito melhor. Atlan, o
imperador do grande império, lutava com os mesmos problemas nos
mundos de Árcon. Os planetas dos dois impérios aliados haviam sido
inundados por quantidades gigantescas da droga traiçoeira.
Perry
Rhodan, o administrador, encontrava-se de pé no centro da sala
simples que lhe servia de escritório. Não estava só. Perto da
escrivaninha, bem à sua frente, havia um grupo de mulheres e homens
que fitavam o chefe supremo do governo com os olhos chamejantes.
Rhodan não descobriu nenhuma simpatia naqueles olhares. De início
sentiu-se aborrecido com o pedido de receber os viciados, mas acabou
cedendo aos insistentes apelos de Reginald Bell.
O corpo
daquele homem alto e esbelto parecia adquirir vida. Revelando uma
tranqüilidade extraordinária, acomodou-se atrás da escrivaninha.
No mesmo
instante, os doze homens e mulheres começaram a dirigir-lhe a
palavra. Compreendia o estado de exaltação em que se encontravam os
viciados, mas se quisesse ajudá-los teria de agir metodicamente.
— Escolham
um porta-voz — pediu. — Não adianta nada todos falarem ao mesmo
tempo.
Um homem,
mais alto que Rhodan e de aspecto grosseiro, adiantou-se, sem que os
companheiros o tivessem indicado.
— Meu
nome é Godfrey Hunter — disse.
Sem
dúvida, a falta de respeito que se notava no tom de sua voz era
causada pela exaltação interior que Hunter não conseguia dominar.
Rhodan percebeu que tinha diante de si um homem que levara uma vida
pacata e bem organizada. Mas agora as coisas haviam mudado. A
proibição da venda do liquitivo começava a produzir resultados.
— Sir,
somos porta-vozes de um grupo mais numeroso — prosseguiu Hunter.
Enquanto
falava, seus dentes mastigavam nervosamente. Seu autodomínio não
parecia muito convincente.
— Sir,
pedimos-lhe que volte a autorizar imediatamente a venda pública do
licor.
Os outros
viciados fizeram ouvir um murmúrio de aprovação. Aproximaram-se da
mesa de Rhodan.
Este
lançou um olhar pensativo para Hunter. Sentia pena por essa gente,
mas não devia deixar que eles o percebessem. Perguntou com uma
expressão de indiferença no rosto:
— Há
quanto tempo estão tomando esse álcool?
— Faz
cerca de três anos, sir — respondeu Hunter. — Ainda me lembro
perfeitamente do dia em que minha esposa trouxe para casa uma garrafa
do produto. Não vejo o menor perigo nessa bebida. Pelo contrário.
Depois que minha esposa e eu passamos a tomá-la, houve uma
modificação evidente em nosso estado geral. Sinto-me inclinado a
afirmar que, desse dia em diante, não envelheci mais, sir.
“Pobre-diabo”,
pensou Rhodan. “Gostaria
que você tivesse visto as pessoas que encontramos em Lepso. Nesse
caso compreenderia o que estou fazendo.”
— Acredito
no que está dizendo — disse em voz alta. — Peço-lhes que
respondam a uma pergunta. Há quantos dias não tomam mais o licor?
— Há
seis dias — respondeu Hunter, em tom indignado.
Via-se,
pelo modo como respondeu, que admitia o administrador como
responsável por esse fato.
Rhodan fez
um gesto de assentimento. Seis dias representavam o limite de tempo.
Segundo as experiências até então colhidas, depois desse prazo
surgiam manifestações de cansaço. Num segundo estágio
verificavam-se vertigens. O fim era lamentável. O corpo dos viciados
era sacudido por convulsões nervosas.
Rhodan
fitou o homem desamparado com uma expressão dura. Ainda não havia
recebido o relatório dos médicos especializados, que trabalhavam
febrilmente nos tratamentos de desintoxicação. Até então todas as
tentativas de curar um viciado haviam fracassado.
Uma visão
sinistra surgiu na mente de Rhodan. Viu milhões de terranos, que
levavam uma vida miserável, mergulhados num estado de confusão
mental. Ao que tudo indicava, a situação evoluíra a um ponto tal
que era muito mais perigosa que a que surgira ao tempo do traficante
de drogas Vincent Aplied. Este e os mercadores galácticos
distribuíam os entorpecentes terranos, a fim de debilitar a posição
econômica da Terra.
Os antis
não conheciam escrúpulos. Para eles, qualquer meio era legítimo,
desde que conseguissem colocar o poder em suas mãos criminosas. A
seita espalhara-se pela Galáxia que nem uma teia de aranha. Um
planeta após o outro ia caindo na mesma. Os antis não precisavam de
frotas espaciais. Trabalhavam na sombra. Deixavam que outros fizessem
o trabalho sujo.
Outros,
como, por exemplo, o filho de Rhodan.
Ao
lembrar-se de Thomas Cardif, a vista de Rhodan turvou-se.
Seria
possível que sua carne e seu sangue se deixasse arrastar a atos
desse tipo?
Rhodan
cerrou os lábios. Lembrou-se do dia em que Allan D. Mercant lhe
mostrara o retrato de um certo Dr. Edmond Hugher, que informava
qualquer pessoa, que estivesse interessada, sobre as qualidades
maravilhosas do novo licor. Uma das pessoas que haviam acreditado
nele fora o Dr. Zuglert.
Zuglert já
estava morto. Mas possuíra um retrato do tal do Dr. Hugher, já que
trabalhara com este em Lepso.
E o Dr.
Hugher não era outro senão Thomas Cardif, filho de Rhodan.
— Já
tomou uma decisão, sir? — disse a voz nervosa de Hunter,
interrompendo as reflexões do homem esbelto que se encontrava atrás
da escrivaninha.
— Por
enquanto não lhes posso dar qualquer informação — respondeu
Rhodan, em tom tranqüilo. — Enquanto os médicos não constatarem
fora de qualquer dúvida que o uso permanente do licor não oferece
perigo, a venda do produto não será liberada.
— Que
diabo! — gritou Hunter.
Aquela
palavra pareceu encher a sala.
O silêncio
passou a reinar no recinto. Então o produto dos antis podia levar um
ser humano a este ponto. O rosto de Hunter ficou desfigurado. Notou
que havia sido imprudente.
Rhodan
levantou-se lentamente. Até mesmo um observador, nutrido de
sentimentos imparciais, não teria reconhecido naquele momento os
pensamentos do administrador no seu rosto impassível.
O corpo
inclinado de Hunter executava movimentos pendulares. Eram movimentos
estranhos, mas Rhodan sabia o que significavam.
Alguma
coisa dentro de Hunter parecia dizer-lhe que devia sair dali,
abandonando a sala em fuga desabalada. Mas um resto de orgulho
deixou-o preso ao lugar em que se encontrava. O olhar treinado de
Rhodan notou este resto de obstinação, isto é, esta luta que se
travava no interior daquele homem. Hunter ainda não desmoronara por
completo, mas não faltava muito para isso.
Outro
homem adiantou-se e pegou o braço de Hunter.
— Vamos
embora, Godfrey — disse.
Enquanto
se esforçava para arrastar Hunter, gritou em tom furioso para
Rhodan:
— Será
que o senhor não sabe que a constituição do Império Solar nos
confere certos direitos?
Rhodan
manteve-se calado. O homem soltou o braço de Hunter. Estava com o
rosto vermelho; até parecia que acabara de correr um bom pedaço.
Seus olhos achavam-se inchados. O silêncio de Rhodan não o
estimulava, mas o deixava nervoso.
— As
liberdades democráticas devem garantir-nos o licor — disse com a
voz aguda.
— O
senhor não está em condições de conversar sobre Democracia —
disse Rhodan, em voz baixa e comprimiu o botão do sistema de
intercomunicação.
— Mr.
Kenwood, faça o favor de comparecer ao meu gabinete e levar os
visitantes de volta — disse. — A palestra já terminou.
Um dos
homens pertencentes ao grupo exclamou em tom odiento:
— Ele
deve ter reservado sua ração de liquitivo.
Todos
colocavam-se contra ele. Suas mentes estavam perturbadas, e por isso
tornavam-se injustos. Perdiam o controle. Rhodan compreendeu a reação
dos presentes, mas mesmo para ele não era fácil aceitar as ofensas
como se nunca tivessem sido proferidas. Contudo as acatou, pois se
via diante de um grupo de doentes. E nesse caso aplicavam-se outras
leis.
Kenwood
entrou em atitude correta; estava limpo e disciplinado. Cumprimentou
à sua maneira formalista típica. Atrás dele apareceu outro homem.
Era Reginald Bell.
— Façam
o favor! — disse Kenwood.
Hunter
limitou-se a fazer um gesto afirmativo.
— Ele
não nos pode mandar embora sem mais aquela — disse o homem que
segurara Hunter pelo braço. — Tem de fazer alguma coisa por nós.
Rhodan e
Bell trocaram um olhar. Perry tinha de fazer alguma coisa. Até agora
sempre fizera. Seu nome estava tão intimamente ligado ao progresso
da Humanidade que a simples idéia de que poderia fracassar era
inconcebível.
Rhodan
sentiu alguma coisa apertar sua garganta. Não era medo, mas apenas
uma sensação aflitiva. Sem que o quisesse, vira-se colocado numa
situação nada invejável. A Humanidade identificava-se com sua
pessoa.
Quase
chegara a ser uma figura mística. Na mente de bilhões de pessoas,
Rhodan encontrava-se num plano existencial mais elevado, que lhe
permitia dispor das coisas segundo sua vontade.
Praticamente
só havia uma possibilidade de Rhodan descer desse pedestal
imaginário: teria de morrer. De repente ele, o imortal, sentiu que
se perdia cada vez mais em meio à solidão. Afastava-se
progressivamente de sua raça, dessa raça pela qual queria fazer
tudo que estava ao seu alcance. Se quisesse encontrar o caminho de
volta para junto desta, teria de pagar um preço: a morte.
— Foram
embora — disse Bell, em voz baixa.
Rhodan
esboçou um sorriso. Não estava só em seu pedestal. Havia outros a
seu lado.
— Acho
que cometemos um erro ao recebê-los — disse Bell, em tom de
autocrítica. — A única coisa que conseguimos com isso foi ouvir
algumas ofensas.
Rhodan
olhou para o relógio.
— Daqui
a uma hora começará a conferência — anunciou. — É bom que eu
tenha uma idéia exata sobre o estado de ânimo dos viciados.
Até
parecia que as paisagens desoladas de Lepso fizeram com que Bell
perdesse seu senso de humor. Fora um dos poucos que constantemente
tentara convencer Rhodan de que, no fundo, Thomas Cardif não era uma
pessoa má. Muitas vezes, aquele homem atarracado lembrara ao amigo
de que Cardif fora criado sem os pais. Além disso, aquele homem que
tinha uma dose de sangue arcônida acreditava que Perry Rhodan
assassinara sua mãe. Acreditava no boato, segundo o qual Rhodan
confiara uma missão absurda a sua esposa, a fim de livrar-se dela.
— Temos
outras possibilidades de conhecer o estado de ânimo destas pobres
criaturas — disse Bell, compenetrado.
Ligou o
interfone.
— Kenny,
transfira as transmissões de TV vindas de Paris para nosso canal. O
chefe quer assistir às mesmas.
— Sim,
senhor — respondeu a voz de Kenwood.
Bell
colocou-se diante da tela que ficava atrás da escrivaninha de
Rhodan. O videofone permitia a recepção de qualquer transmissão de
TV, desde que a pessoa que se encontrava na ante-sala transmitisse as
ordens necessárias à central.
— Já
avisei a central, sir — anunciou Kenwood. — A transmissão já
está sendo transferida.
— Certo
— disse Bell e voltou-se para Rhodan. — A transmissão foi
iniciada há cerca de dois minutos. Por isso é bom que eu lhe
explique que os habitantes de Paris já estão passando sem
liquitivo, mais dois dias que a média de viciados de outras cidades.
Isso aconteceu por pura coincidência. Houve um atraso nas remessas,
motivo por que os estoques de Paris se esgotaram dois dias antes que
fosse emitida a proibição de venda. Esta impediu que os estoques
fossem renovados.
A tela
começou a tremeluzir. A lâmina fosca iluminou-se.
A primeira
coisa que Rhodan viu foi uma aglomeração de gente. O repórter
dirigira a câmara sobre uma massa ondulante. Filmava de cima, em
direção oblíqua, talvez da escada de uma casa. O som ainda não
fora ligado. Os dois dirigentes do Império Solar contemplaram o mudo
ajuntamento. O branco dos rostos contrastava fortemente com as vestes
escuras. Vários grupos carregavam faixas e cartazes, cujos dizeres
exigiam a revogação imediata da proibição da venda do liquitivo.
— Queira
desculpar, sir — disse Kenwood pelo sistema de intercomunicação.
— Houve uma ligeira falha de som.
Finalmente
Rhodan conseguiu ouvir as pessoas aglomeradas. Aquelas fileiras de
gente resmungavam constantemente. Não gritavam nem esbravejavam.
Rhodan teve a impressão de ouvir o rugir de uma fera faminta.
— Algumas
viaturas policiais pesadas, vindas de todos os lados, aproximam-se —
disse a voz abafada do repórter.
A câmara
efetuou um giro e mostrou vários veículos especiais que
atravessavam a praça. Rhodan reconheceu os lança-esguichos.
— Faço
votos de que nunca sejamos obrigados a atirar em pessoas que tenham
caído nas garras do vício — disse Bell em tom deprimido.
— A
exaltação da multidão está crescendo — exclamou o repórter. —
Vários grupos falam em coro. Os policiais isolaram o edifício da
sede do governo. As pessoas aqui reunidas não compreendem por que
lhes proíbem o uso de um licor que apresenta inequívocos efeitos
rejuvenescedores e regeneradores das células.
A voz do
repórter assumiu um tom dramático:
— Sabemos
que vários membros do governo e alguns integrantes da Frota Solar
gostam de viver mais que o normal. Nosso princípio supremo impõe
iguais direitos para todos.
— Será
que esse sujeito está louco? — gritou Bell em tom indignado. —
Para esses tipos foi que tiramos as castanhas do fogo?
— Isso é
uma reação perfeitamente humana — respondeu Rhodan. — Até é
possível que o repórter seja um viciado. Entretanto sua atitude
exercerá uma influência nada favorável sobre o estado de ânimo do
público.
Bell bateu
com o punho cerrado na mesa.
— No dia
em que alguém lhe cortar a garganta, você ainda perguntará se esse
alguém não tem um motivo compreensível para isso — observou em
tom exaltado. — Uma reação perfeitamente humana... qual o quê!
Este sujeito quer fazer sensacionalismo.
— Vejo
que você já se sente melhor — disse Rhodan, em tom tranqüilo. —
Afinal, o sensacionalismo é parte da profissão do repórter, que
aproveita toda oportunidade que se oferece para intensificá-lo.
— Acontece
que existe boa probabilidade de que essa gente esteja condenada a
enlouquecer — objetou Bell. — É uma falta de gosto organizar uma
transmissão a este respeito.
— Muitas
vezes o sensacionalismo e a falta de gosto andam juntos — disse
Rhodan. — E há muita coisa que pode ser sensacional. Inclusive a
morte.
— Isso é
uma visão muito realista — exclamou Bell, em tom nervoso.
— Por
enquanto não temos uma idéia exata do número de viciados
existentes na Terra. Além disso, temos também viciados nos planetas
coloniais. E Atlan enfrenta as mesmas dificuldades que nós, motivo
por que dificilmente poderá dar-nos qualquer tipo de auxílio.
Notava-se
perfeitamente que a atitude de Rhodan deixava Bell um tanto perplexo.
Até então, o administrador sempre esclarecera as coisas com algumas
ordens rápidas, fosse qual fosse a situação. Mas desta vez Rhodan
parecia manter uma atitude retraída. As primeiras medidas a serem
adotadas teriam que dirigir-se contra a raça humana, contra pessoas
inocentes que se deixaram levar por uma propaganda bem organizada. —
Infelizmente perdemos a pista de Cardif — disse Rhodan. —
Conseguimos desmantelar os locais de fabricação situados em Lepso,
mas sabemos perfeitamente que de forma alguma este era o único local
onde se fabricava o entorpecente. A nave dos saltadores salvou os
antis no último instante, retirando-os a tempo de nossos disparos.
Soltou uma
risada amargurada e concluiu:
— Nem
sequer conseguimos determinar o ponto em que a nave mergulhou no
hiperespaço.
— As
energias mentais reforçaram os efeitos do dispositivo de absorção
de abalos estruturais, a tal ponto que não conseguimos uma
localização perfeita do hipersalto — disse Bell.
Rhodan
desligou o receptor. Parecia ter tomado uma decisão.
— Devemos
impedir a revolta que talvez possa irromper. Essa gente desesperada é
capaz de tudo. Durante a conferência darei ordens para ser realizada
uma grande campanha de esclarecimento público. A Humanidade tem de
conhecer os efeitos desastrosos do liquitivo. A televisão, a
imprensa, o rádio e todos os meios de comunicação de massa deverão
esforçar-se para acabar com a idéia de que o liquitivo é um elixir
da longa vida.
Bell
continuou cético. Apesar disso aquele homem, geralmente tão
exaltado, levou algum tempo para dar uma resposta. Refletira
intensamente sobre as palavras de Rhodan.
— Os
homens não compreenderão e não acreditarão — disse depois de
algum tempo. — Muitos deles tomam o “veneno”
há vários anos, e por enquanto seus resultados foram excelentes, já
que ainda não se passaram os doze anos e quatro meses. Invocarão os
testes realizados com o preparado, antes que este fosse colocado no
mercado. O licor foi recomendado por cientistas de primeira linha,
que afirmam que a bebida é totalmente inofensiva. E essas idéias
estão firmemente cravadas na mente dos viciados. Estes homens não
querem acreditar em outra coisa, senão na possibilidade de prolongar
a vida por meio desse entorpecente saboroso.
Rhodan
apontou para a tela que estava às suas costas.
— Devemos
apresentar alguma coisa contra isso. Naturalmente não podemos
convencer as pessoas que ainda continuam sadias de que, um dia, a
bebida os levará a um estado de perturbação mental. Porém
poderemos evitar a eclosão de revoltas de grandes proporções. Se
conseguirmos fazer com que os viciados sintam que estamos
interessados neles, já teremos ganho muita coisa. Temos de
convencê-los de que devem esperar.
“Desta
vez, só um milagre nos salvará”,
pensou Bell, desesperado.
Não
existia nada que conseguisse refrear a ânsia das pessoas que já
haviam experimentado o liquitivo. Antes de se tornarem loucos,
causaram muita desgraça.
A idéia
de fazer com que os viciados se tornassem razoáveis era como que o
plano de um único homem que vigia um poço e quer evitar que
duzentos homens, mortos de sede, bebam a água do mesmo.
Bell
começou a imaginar as terríveis conseqüências da ação. Ao
entreolhar-se com Rhodan, percebeu que as idéias do administrador
deviam ser idênticas às suas. Até então haviam passado por
terríveis experiências sempre que se encontraram com os antis. Mas
tudo isso parecia uma insignificância em comparação com aquilo que
agora os ameaçava.
A teia dos
antimutantes começava a fechar-se.
Uma aranha
pode locomover-se para qualquer ponto de sua teia. Ninguém pode
prever onde desfechará seu ataque. E, uma vez que sua vítima está
presa na teia, tem tempo de sobra. Espera que esta se enleie cada vez
mais, até ficar indefesa à sua frente.
Rhodan e
Bell sabiam que qualquer medida defensiva apenas abreviaria a chegada
do desastre final. A conclusão lógica ora que deveriam agir de
outra forma.
Aguardar.
Não demonstrar qualquer disposição defensiva.
Nem
Rhodan, nem seu representante exprimiram esta idéia. Mas ambos
sabiam que pensavam da mesma forma.
3
O policial
desceu do veículo. Seu rosto largo movimentava-se no ritmo
mastigatório com o qual empurrava de um lado para outro o pedaço de
borracha que trazia na boca. Sua atitude não exprimia medo, mas
antes curiosidade. Agitava lentamente o cassetete elétrico. A outra
mão estava enfiada entre dois botões de seu uniforme.
De ambos
os lados de sua viatura havia uma faixa na qual estavam escritas em
enormes letras vermelhas as seguintes palavras:
QUEM
TOMAR LIQUITIVO FICARÁ DOENTE.
Estes
dizeres haviam sido colocados em todos os edifícios e veículos do
governo. Esperava-se que estas palavras fizessem com que os viciados
compreendessem o que os esperava. Além disso, os policiais e os
médicos distribuíam folhetos que descreviam as conseqüências
causadas pelo entorpecente.
O
policial, chamado John Clayton, fitou calmamente a massa furiosa que
se agitava à sua frente. Normalmente Andy Smither e Jonas de Werth
deviam estar a seu lado. Mas foram mandados para casa. Smither e De
Werth também eram viciados. Dessa forma, Clayton se via só naquele
fim de rua, face a mais de cinqüenta homens exaltados. Henry
Mulvaney, um dos homens que se encontrava na massa agitada, não
sabia quem era John Clayton. Para ele, o policial era um inimigo. O
uniforme escuro representava o único obstáculo em seu caminho.
Atrás de Clayton ficava o objetivo dos viciados: uma pequena loja de
bebidas.
O dono da
mesma estava encostado à entrada. Sua mão trêmula segurava uma
pistola de efeito moral. Ao lado da entrada, uma pequena vitrina. As
mercadorias nela expostas haviam sido retiradas. Em compensação
havia um letreiro com estes dizeres:
QUEM
TOMAR LIQUITIVO FICARÁ DOENTE.
O
negociante tomara o partido do governo e adotara suas divisas. A
fúria dos viciados concentrou-se sobre ele. Naquele instante John
Clayton era o único obstáculo que impedia cinqüenta pessoas de
entrarem na loja e a depenarem.
Henry
Mulvaney lançou um olhar ansioso para o prédio. Desde que realizara
a excursão mal sucedida à casa de Albert Lansing, dois dias já se
haviam passado. Sentia vertigens constantes, motivo por que sua
disposição de ânimo não era das melhores. Atingira o limite do
estágio que precede o desmoronamento total da pessoa.
Seus
pensamentos confusos e sua fantasia descontrolada diziam-lhe que
naquela loja devia haver grandes quantidades de liquitivo. A
inscrição na vitrina só servia para enganar os antigos fregueses.
Mulvaney
não demorara em encontrar grande número de adeptos que se
encontravam no mesmo estado que ele. Tiveram “muita
pressa”
em acreditar no que dizia. Numa situação como aquela os homens
desesperados procuravam agarrar-se a uma palha.
O policial
interrompeu seus movimentos mastigatórios. Gritou em tom muito
calmo:
— Vamos
para casa, gente!
O dono da
loja, que continuava junto à entrada, brandia ameaçadoramente sua
ridícula pistola, como se com isso pudesse dar um bom apoio às
palavras do policial.
John
Clayton, que até então só executara serviços leves e rotineiros,
agindo contra os infratores das regras de tráfego, foi-se
aproximando lentamente do grupo.
Num
movimento de lucidez, Mulvaney teve a idéia de que a mão do
policial, enfiada embaixo do uniforme, talvez estivesse segurando uma
pistola muito mais perigosa que o cassetete.
— Saia
do nosso caminho! — gritou para o homem de uniforme. — Aquele
sujeito está escondendo seu estoque de liquitivo. Nós o queremos.
Estas
palavras foram seguidas de um murmúrio de aprovação. Mais da
metade dos presentes já acreditava firmemente que encontraria o
licor. Se não fosse assim, o policial não teria aparecido.
— Não
estou escondendo coisa alguma — gritou o dono da loja, com a voz
estridente.
Na placa
da loja lia-se que seu nome era Gary P. Mocaaro.
— Está
ouvindo? — disse Clayton, em tom apaziguador. — Ele não tem nada
para vocês.
Mulvaney
sentiu-se tão mal que pensou que teria de vomitar. O uniforme escuro
à sua frente multiplicou-se. Sua vista começou a turvar-se.
— Preferimos
dar uma olhada — debochou alguém que se encontrava ao lado de
Mulvaney.
Mulvaney
gemeu baixinho. Cambaleou para a frente, em direção ao policial.
Nunca se sentira tão mal como naquele momento.
— Pare!
— ordenou Clayton, em tom enérgico.
O
cassetete deixou de executar movimentos giratórios. Parecia o
prolongamento de seu braço. Os movimentos mastigatórios cessaram de
vez.
“Talvez
esteja com medo”,
pensou Mulvaney.
Deu mais
um passo em direção a Clayton.
— Cuidado,
sir! — disse Mocaaro com a voz rouca. — Estão tramando alguma
coisa.
Mocaaro
não se preocupava com o policial, nem com a viatura. Suas
preocupações eram de natureza egoísta. O negociante temia por sua
vida e propriedade. Seu instinto lhe dizia que Clayton representava a
débil resistência que poderia conservar-lhe uma coisa e outra.
Dali
surgiu-lhe a idéia de ajudar o homem de uniforme. Levantou o braço,
fez pontaria — o que era completamente inútil numa pistola de
efeitos morais — e disparou para além de Clayton.
Quando
Mocaaro compreendeu que acabara de cometer um erro, o tiro ainda
estava reboando. Clayton praguejou e levantou o cassetete. Como se
aquilo representasse um sinal, a massa enfurecida dos viciados
começou a movimentar-se.
Clayton
esperou-os em atitude resoluta. Mulvaney saiu correndo com os olhos
lacrimejantes. Percebeu que as pessoas que o rodeavam corriam mais
depressa que ele. Ficou apavorado ao pensar que chegariam antes dele
ao lugar em que se encontrava o liquitivo. Sentia-se tão fraco que
não conseguia avançar com a mesma rapidez dos outros. Um ódio cego
passou a dominá-lo. Queria ter sua parte. Afinal, fora ele que os
conduzira para cá. Nem por isso deixariam de apoderar-se de todo o
liquitivo em que conseguissem pôr as mãos. Ninguém se interessaria
por Henry Mulvaney.
Viu que o
policial conseguiu aplicar um choque em três dos atacantes.
“Por
que não usa a outra mão?”,
pensou Mulvaney, perplexo.
Clayton
defendia-se obstinadamente. Pelo menos dez pessoas já haviam passado
por eles. Soltando gritos selvagens, correram em direção à viatura
policial e arrancaram a faixa. Os gritos ressoaram em seus ouvidos.
Depois tombaram o carro. Uma nuvem de poeira subiu ao ar. Clayton
ouviu Mocaaro gritar de medo. Brandia o cassetete com movimentos
quase automáticos.
Alguém
agarrou-o por trás. Clayton dobrou os joelhos e caiu. Durante a
queda conseguiu lançar um olhar para o interior da loja. Mocaaro
havia desaparecido. A vitrina estava quebrada, e alguns homens se
movimentavam entre os cacos de vidro. Um deles enrolara a faixa de
propaganda na cabeça, como se fosse um turbante. O barulho era
indescritível.
Mesmo
estendido no chão, Clayton continuava a defender-se. Alguém
arrancou-lhe o cassetete da mão e deu-lhe um golpe que fez com que
perdesse os sentidos. As pessoas que o rodeavam afastaram-se e
precipitaram-se para o interior da pequena loja.
Mulvaney
foi o último a chegar ao local onde se encontrava o policial. Viu o
homem de uniforme rasgado, estendido no chão. Os ruídos, que vinham
da loja de Mocaaro, davam a entender que por enquanto não haviam
encontrado nenhum liquitivo.
Mulvaney
soluçou baixinho. Sentia a boca ressequida. Dobrou os joelhos. Fitou
o rosto do policial por algum tempo. Depois olhou para a viatura
tombada.
Retirou
cuidadosamente a mão de Clayton de sob o uniforme. Ouviu o ranger e
o estalar de madeira, vindo do interior da loja. Vidros eram
quebrados, e os golpes surdos saídos da loja faziam supor que os
viciados tentavam arrombar um armário.
Ouviu a
sereia de uma viatura policial. O ruído vinha de longe.
Mulvaney
olhou para a mão de Clayton, ou melhor, para aquilo que estava
escondido sob o uniforme do mesmo. Aquele homem estava usando uma
prótese.
Tinham
derrubado um homem maneta.
“Pobre
idiota valente”,
pensou Mulvaney.
Levantou-se
e cambaleou em direção à loja. A placa estava quebrada. Só se
liam as últimas duas letras do nome do proprietário. Mulvaney pisou
em vidro e escorregou. Um homem saiu da loja. Seu rosto estava
borrado de sangue. Seus olhos chamejavam que nem brasas.
— Não
encontramos nenhum liquitivo — disse em tom de desespero.
— Morreremos
todos — respondeu Mulvaney, abatido.
O ruído
da sereia da viatura policial, que se aproximava, era cada vez mais
intenso.
4
O
funcionário do Império Solar que cuidava do Setor Vermelho III/b
1245 II era um homem importante. A designação numérica de seu
setor destinava-se unicamente aos fichários e aos bancos de dados
positrônicos, motivo por que o setor de que cuidava também era
conhecido pelo nome de sistema Capra. Capra — um sol em torno do
qual gravitavam nada menos de vinte e quatro planetas. O que havia de
especial naquele sistema era que seis dos vinte e quatro mundos eram
planetas de oxigênio, e por isso foram ocupados por colonos
terranos. Face à extensão do sistema solar e ao número de
planetas, Oliver Gibson simbolizava poderio.
O fato de
encontrar-se ele em Terrânia fazia concluir que havia um motivo
muito importante para isso. Perry Rhodan estava perfeitamente ciente
da responsabilidade que pesava sobre os ombros desses encarregados, e
sabia que era bom que permanecessem ininterruptamente na sua área de
atuação.
Naquele
momento, Oliver Gibson encontrava-se a vinte mil anos-luz do lugar em
que costumava dirigir os destinos das colônias terranas. Gibson
achava-se no grande auditório, situado no interior de um dos maiores
edifícios de Terrânia.
Além dele
havia por ali mais cinqüenta homens, que se contavam entre as
figuras mais destacadas do Império Solar. O homem esbelto, bem
próximo a Perry Rhodan, devia ser John Marshall, chefe do lendário
Exército de Mutantes. Gibson ainda reconheceu Reginald Bell, o
Marechal Solar Freyt e Allan D. Mercant, comandante do Serviço de
Segurança Solar. Acreditava que havia vários mutantes no recinto. O
General Deringhouse entretinha-se numa palestra com o encarregado do
sistema Vega. Atrás de Rhodan estavam sentados dois homens de jaleco
branco. Até parecia que haviam sido trazidos diretamente de seu
local de trabalho.
Por um
instante, Gibson teve sua atenção atraída para um homem que
parecia um tanque e ocupava duas cadeiras. Seria Jefe Claudrin, o
homem que juntamente com Rhodan fizera a Fantasy, a nave terrana
equipada com um sistema de propulsão linear, passar por dentro de um
sol?
De repente
Gibson viu o animal!
Tinha
cerca de um metro de altura e parecia um rato de dimensões
descomunais, que devia ter parentesco bastante próximo com um
castor. Os olhos redondos da estranha criatura fitaram Gibson.
Trajava o uniforme de tenente da Frota Solar. Evidentemente
tratava-se de uma peça feita sob encomenda. Apresentava até uma
abertura por onde passava a larga cauda de castor.
O animal
pareceu ter notado o interesse que despertara em Gibson, pois
ergueu-se ligeiramente. O encarregado ficou espantado ao constatar
que aquela criatura ocupava a única poltrona estofada que havia
naquele auditório.
Gibson
engoliu em seco. Já ouvira falar muitas vezes em Gucky. Mas escutar
e ver são duas coisas muito diferentes.
Os olhos
escuros do rato-castor fitaram-no. Depois de algum tempo pôs à
vista um dente roedor muito feio e sorriu para Gibson. O rosto do
encarregado ficou vermelho. Não sabia como agir. Afinal, aquela
criatura era um oficial, e as notícias de seus feitos haviam chegado
até o sistema Capra. Muito embaraçado, Gibson fez uma ligeira
mesura.
Gucky
cumprimentou com um gesto condescendente da cabeça. Seus olhos
pareciam sonolentos.
Perry
Rhodan levantou-se, obrigando Gibson a olhar em sua direção. O
silêncio passou a reinar no auditório, onde se achavam reunidos
homens cônscios de sua responsabilidade, que ocupavam posições
elevadíssimas.
— Há
algumas semanas dei ordem para que a importação de liquitivo fosse
suspensa, tanto na Terra como nos planetas coloniais — principiou
Rhodan. — Além disso, mandei proibir a venda do preparado.
Sabíamos perfeitamente que não conseguiríamos que, de uma hora
para outra, todos os estoques fossem retidos. Algumas pessoas
compraram a bebida às pressas e o mercado negro começou a
florescer. Apesar disso, cinqüenta milhões de seres humanos já não
têm meios de obter a droga. E o número das pessoas que se encontram
nessa situação cresce constantemente. Até tenho medo de pensar no
número de viciados que devem estar entre nós. Prefiro nem falar nos
mundos coloniais ou nos planetas de Árcon. Os antimutantes da seita
de Baalol executaram um plano diabólico. Antes de inundar a Terra e
os planetas de Árcon com o liquitivo, viciaram mundos afastados.
Rhodan
interrompeu sua fala e fitou os assistentes com uma expressão grave.
Pegou algumas folhas de papel que se encontravam à sua frente.
— Ao que
tudo indica, dentro em breve teremos uma revolta — informou. —
Tenho em mãos várias notícias que me deixam profundamente
preocupado. Em Des Moines, a residência do prefeito foi saqueada. Em
Paris, a turbulência dos homens que participam das demonstrações
cresce a cada hora que passa. As tentativas de assalto aos edifícios
públicos foram abafadas pela polícia por meio de jatos de água. Em
Gettysburg houve uma verdadeira batalha na rua, entre um policial e
um grupo de cinqüenta viciados. O policial foi posto fora do combate
e seu veículo foi destruído. Uma loja foi saqueada. Na mesma cidade
registrou-se o primeiro suicídio. Um homem paralítico matou-se
porque não conseguia mais liquitivo.
Balançou
a cabeça, num gesto de lástima.
— São
apenas algumas notícias entre muitas — disse. — Mr. Bell e eu
resolvemos iniciar uma grande campanha de esclarecimento público,
que já está sendo levada avante. Devemos prevenir a Humanidade
contra os perigos que a droga envolve.
Existem
quantidades gigantescas da bebida que não puderam ser apreendidas. A
mesma é vendida mais ou menos publicamente, a preços absurdos. Por
isso torna-se imprescindível que toda a população seja esclarecida
sobre o perigo ligado ao uso do licor.
O General
Deringhouse levantou-se.
— Sir, o
senhor acredita que, com isso, os homens se tornem menos brutais em
suas tentativas de conseguir o entorpecente?
— É o
que espero.
Oliver
Gibson pensou que era chegado o momento de falar em seu problema.
Levantou o braço, para pedir a palavra. Rhodan assentiu com um
gesto.
— A
maior parte dos senhores já me conhece — principiou. — Apesar
disso quero dizer quem sou e de onde venho. Sou o encarregado do
sistema Capra, onde seis planetas coloniais da Terra se encontram em
desenvolvimento. A situação dos homens que vivem lá não pode ser
comparada com a da população terrana. A vida dos colonos é muito
dura. Sentem-se felizes e satisfeitos com qualquer tipo de distração,
que quebre a monotonia. Por isso é perfeitamente compreensível que,
num lugar como este, o entorpecente tenha sido vendido em quantidades
maiores que na Terra. Acho que a mesma coisa aconteceu com outras
colônias.
Sorriu.
— Senhores
— disse — eu mesmo sou um viciado.
Os homens
reunidos naquele auditório estavam acostumados a toda sorte de
surpresas. Depois da confissão de Gibson, os rostos continuaram
impassíveis. Alguns pareciam mais sérios e resolutos, enquanto
outros só agora pareciam interessar-se pelo encarregado, mas ninguém
fez qualquer aparte.
Gibson
olhou para Perry Rhodan. Já informara o administrador, em confiança,
sobre a situação miserável em que se encontrava. Rhodan não era
capaz de proferir uma condenação imediata e total contra qualquer
homem. Gibson não viu nenhuma recriminação nos olhos cinzentos do
administrador, mas apenas um estímulo mudo para que prosseguisse no
seu discurso.
— Há
três dias vivo sem o licor — prosseguiu Oliver Gibson.
Sem que o
quisesse, olhou para Gucky. O rato-castor mantinha os olhos fechados.
Apesar disso, Gibson sentiu um fluxo inexplicável de calor humano.
Sabia que tinha amigos por ali. Seus ombros se entesaram.
— Falo
em nome de seis planetas coloniais terranos. Quero resumir minha
contribuição nos debates num pequeníssimo discurso: devemos
encontrar com a maior urgência uma solução que atenda às
necessidades dos viciados e do resto da Humanidade.
Gibson
concluiu com um gesto e voltou a sentar-se. Naquele recinto não
havia ninguém que o desprezasse. Todos se sentiam animados do desejo
de ajudar.
Rhodan
virou o rosto para os dois homens de jaleco branco. Um deles
levantou-se. Estava muito nervoso. Uma das mãos achava-se escondida
no bolso do jaleco, enquanto a outra endireitava a gola.
— Meu
colega, o Dr. Topezzi, e eu, fomos incumbidos de coordenar todas as
informações recebidas da equipe médica que realiza um urgente
trabalho de pesquisa, para descobrir as características
perigosíssimas do entorpecente.
Pigarreou
fortemente e lançou um olhar de súplica ao Dr. Topezzi que, segundo
parecia, estava satisfeito por não se encontrar no lugar do orador.
— Por
enquanto — prosseguiu o médico — não se conseguiu apurar de que
forma os antis fabricam o veneno. Não existe a menor dúvida de que
o liquitivo produz um efeito rejuvenescedor. Há um detalhe
interessante: o vício só se manifesta, depois de a droga ter sido
usada umas quatro ou cinco vezes. Isso permite certas conclusões,
mas estas são de natureza puramente teórica e no momento não
oferecem o menor interesse. O que parece certo é que o licor só se
transforma num veneno, que afeta os nervos, depois de ter sido
ingerido por um ser humano. Algum fermento do estômago combina-se
com o licor. Como sabemos, os fermentes funcionam como catalisadores.
Antes de ser ingerido, o produto não é venenoso. Só depois de
entrar em contato com o fermento, adquire essa qualidade. Acho
desnecessário mencionar que o liquitivo é fabricado com base em
hormônios. De outra maneira não haveria como explicar o efeito
rejuvenescedor.
— Está
bem, doutor — disse Reginald Bell.
Era o
único homem que demonstrava certa impaciência.
— Diga-nos
alguma coisa sobre os tratamentos de desintoxicação; qual foi o
resultado dos mesmos? — pediu Rhodan.
— Para
resumir, em todos eles o resultado foi negativo — informou o
médico. — Os maiores especialistas em tratamentos de
desintoxicação fracassaram. Todos sabemos que uma pessoa viciada
pela morfina ou pelo álcool pode ser libertada do vício. Ao que
parece, isso não acontece com o liquitivo. Depois de trinta dias, a
loucura é o destino fatal das pessoas que adquiriram a dependência.
Fez um
sinal com as mãos. Falando muito baixo, acrescentou:
— Só
podemos recomendar aos responsáveis que suspendam a proibição da
importação e venda do liquitivo, pois, do contrário, correremos o
risco de ver enlouquecer inúmeras pessoas.
Aquilo que
Gibson não conseguira com sua exposição, o médico alcançou com
sua proposta chocante: os ouvintes tornaram-se inquietos. Jefe
Claudrin levantou-se instintivamente. O corpo gigantesco daquele
homem de Epsal, parecia querer arrebentar o uniforme. John Marshall
trocou um ligeiro olhar com outro dos presentes. Tratava-se de um
japonezinho, em cujo rosto pairava um sorriso suave.
— Será
que o senhor acha que devemos levantar o bloqueio, Dr. Whitman? Sabe
o que significa isso? As organizações mercantis galácticas,
especialmente nossos velhos amigos, os saltadores, voltarão a entrar
livremente em nosso sistema.
— É
verdade, sir — disse o Dr. Whitman.
Deringhouse
era dotado de um raciocínio frio. Apesar disso era antes de tudo um
soldado, e suas idéias logicamente se moviam principalmente na área
militar. Como general, achava que sua tarefa consistia em usar a
Frota Solar para manter todo mal afastado da Terra. Não era dado aos
lances astuciosos, às intrigas políticas ou às hábeis manobras
diversionistas.
— Isso
equivaleria a uma capitulação — disse em tom amargurado.
Gucky
piscou os olhos; estava bastante interessado pela discussão. Nem
mesmo aquele nativo do planeta Vagabundo, sempre brincalhão,
subestimava o significado da palavra capitulação.
Rhodan foi
o único que conservou a calma.
— A
palavra capitulação parece muito dura — disse o Dr. Topezzi. —
Se falássemos numa solução de compromisso, talvez estaríamos
usando termos mais adequados.
— Pouco
importa que palavra queiramos usar — disse o general, em tom
exaltado. — O que adianta encobrir a derrota com palavras bonitas?
Sou contra a suspensão do bloqueio.
Uma
exclamação surda saiu da boca de Jefe Claudrin. Todos a
interpretaram como uma manifestação de concordância. Era
comandante da primeira nave linear terrana, e por isso sua opinião
pesava um pouco.
Perry
Rhodan compreendeu que, se não interviesse imediatamente, os homens
que se encontravam reunidos se dividiriam em dois partidos. Estava
cônscio de sua responsabilidade. Era necessário tomar uma decisão,
e dela provavelmente dependeria a existência de toda a Humanidade,
tanto da que vivia na Terra como da que habitava os planetas
coloniais.
Naquele
momento histórico, o homem que até merecera certo respeito de Auris
de Las-Toor, representante do Conselho de Ácon, e cujo nome estava
indissoluvelmente ligado ao futuro da raça humana, disse:
— O
bloqueio será levantado. A partir deste momento voltará a ser
permitida a venda do liquitivo na Terra e em suas colônias. Vamos
recomendar a Gonozal VIII, Atlan, para que adapte seu procedimento ao
nosso.
Perry
Rhodan fitou prolongadamente os homens ali reunidos. Notou que o
General Deringhouse empalidecera e que Claudrin franziu os sobrolhos,
numa expressão de contrariedade. Alguns homens engoliram em seco, e
seus rostos assumiram uma expressão dura. Mas a confiança que
depositavam no administrador pesava mais que seus sentimentos.
A voz de
Rhodan cortou o silêncio sepulcral.
— Com
isso evitaremos que milhões de seres humanos se transformem em
loucos. Nossa campanha de esclarecimento deverá ser intensificada, a
fim de que as pessoas sadias não se transformem em viciados. O fato
de que o uso do liquitivo representa um perigo para a vida deve ser
divulgado em todos os cantos do império.
Sorriu sem
demonstrar muito senso de humor.
— Isso
evidentemente não significa que admitimos nossa derrota — disse. —
Iniciaremos um programa de pesquisas como este planeta nunca viu
igual. Os maiores cientistas de todos os mundos utilizarão todos os
meios para descobrir um antídoto.
Rhodan
irradiava resolução. — E eles o descobrirão, da mesma maneira
que eu descobrirei Thomas Cardif.
Apavorado,
Gucky pôs à mostra o dente roedor. Mas não disse nada. Quando o
chefe se encontrava neste estado de ânimo, era preferível ficar
calado. Todos os presentes sentiram a feroz resolução que animava
Rhodan.
Sua
energia espalhou um otimismo que, lace aos acontecimentos
posteriores, não tinha a menor razão de ser.
Alguém
que está enleado na teia, dificilmente consegue libertar-se. Mesmo
que se mantenha aparentemente quieto, a fim de não irritar o
atacante.
Dois dias
depois dessa reunião, o entorpecente voltava a ser vendido
livremente em todos os pontos da Terra. Para algumas centenas de
homens, já era tarde.
Em
Gettysburg, um homem foi internado num hospital para doentes
nervosos. Seu espírito estava totalmente perturbado.
Chamava-se
Henry Mulvaney.
A semente
má, lançada pelos antis, estava germinando. Nos laboratórios da
Terra e dos planetas de Árcon, testes eram realizados. Rhodan não
descansava. Interessava-se pessoalmente pelos resultados de todos os
exames.
De repente
aconteceu uma coisa que imprimiu um rumo totalmente diferente aos
acontecimentos...
5
Sob o
ponto de vista puramente estético, a cidade era um amontoado de
edifícios cinzentos. As ruas eram estreitas e havia muitos cantos
imundos. Atualmente não tinha a menor importância, e por isso sua
feiúra destacava-se ainda mais. Antigamente, quando Lepso ainda era
uma espécie de Tânger intercósmico, aquela cidade, e muitas outras
do mesmo planeta, costumavam abrigar os representantes de inúmeras
raças.
Depois que
as tropas do Império Solar ocuparam Lepso, esta cidade e muitas
outras do mesmo planeta passaram a ser monótonas. Os contrabandistas
não vagavam mais durante a noite pelos portões arqueados, os tiros
de radiações deixaram de ser trocados entre os “negociantes”
que não conseguiam chegar a acordo sobre o preço de suas
mercadorias escusas.
A cidade
estava morta, porque Lepso estava morto. A corrupção do governo,
apoiada pelos antis, chegara ao fim, pois naquele planeta já não
existiam os chamados sacerdotes divinos. Rhodan mandara atacar o
templo dos antis. Alguns sacerdotes haviam fugido no último
instante, juntamente com Thomas Cardif. Os soldados terranos,
equipados com instrumentos de localização, não tardaram em
descobrir os locais de fabricação do liquitivo. Os comandos de
robôs e as tropas de elite penetraram nos subterrâneos e ocuparam
todos os pontos que pareciam ter alguma importância. Mas os cálculos
logo demonstraram que as quantidades imensas de entorpecente,
distribuídas pela Galáxia, não poderiam ter sido produzidas
exclusivamente em Lepso.
Constantemente
realizavam-se vôos de controle, a fim de localizar eventuais bases
em Lepso que ainda permanecessem ocultas.
Stephen
Elliot cruzava sobre a cidade cinzenta, atrás da qual se estendia a
paisagem desolada de Lepso. Fez seu planador descer um pouco. O vôo
diário de rotina estava concluído.
— Olá,
Stephen — disse uma voz alegre.
Elliot
sobressaltou-se. Desoga tinha uma maneira pouco convencional de se
comunicar pelo rádio. Elliot ligou seu aparelho de radiofonia.
Imaginou o espanhol magro sentado na central, fumando um charuto mais
grosso que seu polegar.
— Aqui
fala o planador FTP 34 — disse Elliot. — Pode falar.
Desoga
tossiu. Era o superior hierárquico de Elliot. Mas este vivia
perguntando-se como era possível que um homem de atitudes pouco
militares tal qual Desoga podia dirigir um trabalho que exigia
elevada dose de responsabilidade.
— Se eu
olhar pela janela, eu o vejo — disse Desoga.
Perplexo,
Elliot olhou para baixo. Não seria capaz de dizer qual dos edifícios
cinzentos, que via lá embaixo, abrigava a central. Vistos de cima,
todos pareciam iguais. Além disso, pouco lhe importava que Desoga
pudesse vê-lo ou não.
— Não
pouse por enquanto, Stephen — ordenou Desoga.
Elliot
lançou os olhos pela carlinga panorâmica. Desoga fungou e, ao que
tudo indicava, estava esperando que Elliot dissesse alguma coisa. O
piloto ficou imaginando o que aconteceria se um dia os charutos do
espanhol acabassem.
— Tem
mais alguma ordem, sir? — conseguiu dizer com grande esforço.
No seu
íntimo rogou pragas contra Desoga e seus charutos, contra aquela
cidade e o planeta que parecia ser formado unicamente de pedras e
montanhas desoladas. Antes que pudesse praguejar contra mais alguma
coisa, Desoga disse:
— Tenho,
Stephen — respondeu e pigarreou.
Elliot
pensou: “Está
na hora.”
— Voe
até o quadrado X45-D-3 — ordenou Desoga. — Recebemos uma
informação do destacamento que vigia a área. Dizem ter descoberto
uma pequena base que ainda não tínhamos localizado.
Desoga não
havia localizado uma única base, mas falava como quem tivesse
descoberto todas elas.
— Há um
mutante em companhia dos homens, Stephen. É telepata. Pelo que
dizem, existe alguém nessa base. Veja o que pode fazer.
Era a
maneira típica de dar ordens daquele espanhol. Não dera nenhuma
indicação precisa sobre o que Elliot deveria fazer. O piloto
dirigiu o planador para o ponto que lhe fora indicado.
— Talvez
seria conveniente — observou Desoga em tom bonachão — se
conseguíssemos prender esse sujeito vivo.
Ao que
parecia, o espanhol sabia mais do que desejava confiar a Elliot.
Desoga sempre parecia saber mais que os outros. De repente, o piloto
se lembrou de que talvez fosse esse o motivo por que aquele magricela
era seu superior, e ficava sentado na central, envenenando-se com
nicotina.
— Sim,
senhor — disse Elliot.
Desoga
parecia nem ouvi-lo mais. A cidade desapareceu embaixo de Elliot.
Olhando para trás, via apenas sua silhueta sombria desenhada no
horizonte. O pequeno sol amarelo de Firing fornecia bastante luz para
iluminar a paisagem que deslizava sob o planador.
Quando
chegou ao lugar indicado por Desoga, viu um grupo de homens que
agitavam os braços em meio à desolação. Elliot pousou habilmente.
Dos uniformes dos soldados concluía-se que estes pertenciam à Frota
Solar. Estavam armados até os dentes. Dois robôs de guerra
mantinham-se num ponto mais afastado.
Elliot
saiu do pequeno veículo aéreo. Lepso era um planeta de oxigênio,
motivo por que os terranos não tinham necessidade de usar traje
protetor. Elliot mal conseguia imaginar que o contrabando
intercósmico tivesse florescido justamente num mundo insignificante
como este. Lepso fora o ponto de entroncamento de todos os negócios
escusos, até o momento em que Rhodan aparecera com a Frota Solar.
Nem mesmo as naves cilíndricas dos mercadores galácticos
conseguiram impedir a atuação enérgica de Rhodan, dirigida contra
os antis.
— O
senhor deve ser Elliot — disse um homem baixo a título de
cumprimento. — Desoga já anunciou sua vinda. Recebemos ordem para
não fazer nada enquanto o senhor não chegasse. Sou o cabo Higgins;
dirijo este grupo.
Elliot
fitou os dezesseis homens que se encontravam à sua frente. Onde
estaria o mutante mencionado pelo espanhol? Elliot julgava-se capaz
de reconhecer imediatamente, em meio a um grupo de homens, um membro
desse exército lendário.
Higgins
até parecia ter adivinhado seus pensamentos, pois disse:
— O
telepata encontra-se num outro grupo, que foi ao encontro do Tenente
Lechner e seus homens. Lechner prendeu alguns arcônidas suspeitos,
vindos de alguma colônia, que se encontravam em Lepso por motivos
dificilmente explicáveis quando iniciamos nosso ataque.
Evidentemente
Higgins esperava que o piloto assumisse o comando. Elliot lançou um
olhar para a paisagem desolada. Sentia-se inseguro.
— O que
aconteceu? — perguntou.
— O
mutante constatou que ali deve haver uma base oculta — disse
Higgins, em tom apressado.
Apontou na
direção de uma colina baixa, que não parecia nada suspeita aos
olhos de Elliot.
Higgins
sentia-se indeciso. Via-se que não compreendia a forma de trabalho
dos mutantes. E, ao que parecia, não se achava muito interessado em
compreender. Estava satisfeito com aquilo que já conseguira.
Preferia deixar as decisões mais importantes por conta de outra
pessoa.
— O
membro do Exército de Mutantes afirma que ali só há um único
terrano — prosseguiu Higgins. — Pelo que diz, está armado. Na
opinião do telepata não é perigoso.
— Logo
descobriremos — disse Elliot.
O cabo
Higgins concordou com o ar sério de um velho soldado.
— Não
há dúvida, sir.
Elliot não
tinha uma idéia precisa sobre como fariam para atingir a base. Mas,
como aqueles homens esperavam que fizesse alguma coisa, começou a
deslocar-se em direção à colina.
— Já
tentamos estabelecer contato pelo rádio com o misterioso terrano —
observou Higgins. — Nossas tentativas não foram bem-sucedidas.
Quando
haviam percorrido aproximadamente metade da distância que os
separava da colina, os problemas de Elliot foram resolvidos de forma
misteriosa. Um vulto cambaleante apareceu no topo da colina.
— Vamos
— gritou Higgins e passou correndo por Elliot.
O tal
vulto era uma figura esquisita. Tinha pernas curtas e tortas. Elliot
apressou o passo.
— O
homem deve ser este, sir — gritou Higgins, como se estivesse
prestes a tomar de assalto um cruzador dos saltadores.
Pasmo,
Elliot perguntou-se por que motivo um homem, que se mantivera
escondido por tanto tempo, resolvera aparecer no momento exato em que
surgiam as pessoas das quais devia ter fugido.
O homem à
sua frente estava esgotado ou doente. Cambaleou colina abaixo.
— Tratem-no
com cuidado — ordenou Elliot. — Parece que está ferido.
Juntamente
com Higgins e dois soldados, foi o primeiro a chegar ao lugar onde
estava o desconhecido. Não havia a menor dúvida de que era um
terrano. Era de estatura mediana e muito magro, quase tão magro como
Desoga. O rosto estava encovado e com a barba por fazer. A roupa
estava muito estragada. Uma atadura precária cobria a coxa direita.
O homem
fitou os olhos de Elliot. Ao que parecia, nem notava sua presença. O
piloto sentiu que o estado daquele fugitivo não era causado
exclusivamente pelo ferimento que trazia na perna. Elliot tinha a
impressão de conhecer o porquê desse olhar vazio.
De repente
lembrou-se do que vira em Lepso várias semanas atrás. Já sabia o
que havia com esse homem.
“É
um viciado”,
pensou. “Encontra-se
sob a influência do terrível liquitivo!”
Elliot
teve um calafrio. Desoga determinara que esse homem fosse recolhido
vivo.
Estava
certo de que devia apressar-se bastante se quisesse cumprir essa
ordem.
— Apóie-o!
— ordenou Higgins.
Reunindo
suas forças, arrastaram o homem semimorto em direção ao planador.
Naquele
momento, ninguém desconfiava de que aquilo representava o início de
uma nova pista, de uma pista que levava diretamente ao centro da Via
Láctea. Desoga, o oficial magricela que se encontrava na central, lá
na cidade, aguardava muito tenso que Elliot retornasse.
*
* *
Havia uma
coisa que Elliot não podia saber, por um motivo muito simples:
ninguém lho havia dito. Desoga era um especialista da Segurança
Solar. Depois de uma demorada reunião, Rhodan e Mercant haviam
resolvido colocar em cada cidade de Lepso um mutante e um
especialista em matéria de segurança. Essa resolução prevaleceria
inicialmente pelo prazo de dois meses, até que se tivesse certeza de
que, no segundo planeta do sol de Firing, não se escondia mais
ninguém que pudesse fornecer informações importantes.
Fazia duas
horas que Miguel Desoga pedira ao piloto que se retirasse de seu
gabinete. Naquele momento, só se encontrava presente o médico, que
se esforçara para, por meio de injeções e medicamentos, colocar o
homem inconsciente em condições de ser interrogado.
— Perdeu
muito sangue — explicou o Dr. Silverman. — Não gosto nem um
pouco da ferida na coxa, provocada por um tiro. Além disso, temos os
efeitos desastrosos do entorpecente. Estou quase certo de que este
homem é um viciado de longa data. É ao menos o que indicam os
sintomas.
Os olhos
escuros do espanhol estreitaram-se. O eterno charuto, que trazia
entre os lábios, formava um contraste marcante com o rosto magro.
— Quer
dizer que ele morrerá? — perguntou Desoga.
O Dr.
Silverman lançou um olhar recriminador para o agente, quando este
tirou uma enorme baforada de seu charuto.
— Isso
mesmo; não demorará nada.
— Hum! —
fez Desoga, lançando um olhar pensativo para o traste humano,
encolhido na poltrona, a poucos metros do lunar onde se encontrava.
Aquele
homem moribundo parecia ser uma pessoa culta.
— Está
bem, doutor — disse Desoga, em tom rabugento. — Faça-o falar.
O médico
sabia perfeitamente que seria inútil discutir com um agente. Fazia
vinte anos que trabalhava com esse tipo de gente. Suas decisões
sempre eram bem pensadas.
O Dr.
Silverman preparou outra injeção. Desoga parecia interessar-se
unicamente pela cinza de seu charuto. Esperou até que o médico
concluísse seu trabalho.
— Se
tivermos sorte, recuperará os sentidos dentro de dez minutos —
anunciou o Dr. Silverman. — Depois disso poderá interrogá-lo.
— Por
quanto tempo?
Silverman
ergueu os ombros angulosos.
— Isso
depende de sua resistência orgânica. Se tiver azar, só falará por
alguns minutos. Na melhor das hipóteses, disporá de uma hora.
Desoga
resolveu que, de qualquer maneira, faria uma gravação em fita.
Ligou o aparelho. Teria de andar depressa com o interrogatório, caso
contrário dificilmente conseguiria tempo para repetir suas
perguntas. O gravador de fita não poderia ser enganado. Registraria
todos os detalhes e, posteriormente, repetiria tudo com muito mais
perfeição do que Desoga seria capaz de fazê-lo.
Assim que
o agente concluiu seu trabalho, o Dr. Silverman disse:
— Está
recuperando os sentidos.
Desoga
puxou uma cadeira e acomodou-se de frente para o encosto. O doente
gemia baixinho. Suas pálpebras tremiam.
— Pode
retirar-se, doutor — disse Desoga. — É possível que mais tarde
volte a precisar do senhor. Peço-lhe que se mantenha de prontidão.
— Este
homem nunca mais precisará de mim — disse o Dr. Silverman e saiu.
Desoga
aproximou a cadeira do desconhecido.
— O
senhor me ouve? — perguntou em tom insistente. — Compreende
minhas palavras?
O homem
fez um gesto afirmativo. Abriu os olhos, que estavam injetados de
sangue. Fitou o espanhol com uma expressão de perplexidade. Desoga
resolveu conceder-lhe um minuto, para que pudesse; recuperar-se.
— Onde
estou? — balbuciou o ferido.
— Na
Terra — mentiu Desoga. Aquele homem sentia que a morte se
aproximava, e qualquer terrano que se encontra nessa situação
anseia por estar na Terra antes que chegue o fim.
— O
senhor está num hospital.
— Num
hospital? — repetiu a voz monótona do viciado.
Desoga
pegou a mão de seu interlocutor e sacudiu-a suavemente.
— Queremos
saber quem é o senhor.
— Sou o
Dr. Nearman — disse o homem com certo orgulho. — Sou o conhecido
biólogo e astromédico.
Desoga
nunca ouvira falar no Dr. Nearman. Este prosseguiu em suas
explicações, sem que tivesse sido formulada outra pergunta.
— Saí
da Terra há trinta e oito anos — disse.
Desoga
ficou apavorado ao notar que as pupilas do homem se modificavam
constantemente, embora a luminosidade permanecesse sempre a mesma
naquele recinto.
Seria o
efeito estimulante da injeção, ou seria o prenuncio do fim?
— O que
fez em Lepso? — perguntou Desoga.
Nos trinta
minutos que se seguiram, o Dr. Nearman apresentou um relato
desconexo. A todo instante, Desoga teve de interrompê-lo com
perguntas, a fim de esclarecer determinados pontos.
O Dr.
Nearman fizera amizade com um homem chamado Dr. Edmond Hugher, que
não era outro senão Thomas Cardif. Haviam trabalhado juntos na
descoberta e no aperfeiçoamento do liquitivo. Desoga foi de opinião
que deram o liquitivo ao Dr. Nearman apenas no intuito de prendê-lo
à organização criminosa. A suposição do Dr. Silverman, segundo a
qual o doente se encontrava no último estágio, revelava-se correta.
Quando a Frota Solar surgiu em Lepso, a consciência acusou pela
primeira vez o Dr. Nearman pelos atos que praticara. Fugira e, na
oportunidade, fora ferido por um robô de guerra. Em meio ao
nervosismo geral conseguira chegar ao esconderijo em que fora
localizado pelo mutante. Totalmente exausto, resolvera entregar-se.
Desoga
constatou que o Dr. Nearman era muito entendido na determinação de
posições galácticas. Falava constantemente num misterioso planeta
designado pelo nome de Okul. Desoga estabeleceu uma ligação entre
este mundo e Thomas Cardif e os antis, pois o Dr. Nearman mencionou o
fato de que a organização tinha certeza de que Okul representava um
refúgio seguro. O espanhol fez o possível para obter do moribundo
os dados sobre aquele mundo misterioso, que parecia conhecer.
Depois de
um ligeiro olhar para o gravador, Desoga soltou um suspiro de alívio.
Tinha certeza de que em Terrânia saberiam fazer muito mais com as
informações fornecidas pelo Dr. Nearman do que ele, ali em Lepso.
Desoga resolveu enviar a fita à Terra pelo caminho mais rápido
possível.
— Okul
deve ser um planeta coberto por selvas — informou o Dr. Nearman, e
sua voz tornava-se cada vez mais débil. — Pelo que diz o Dr.
Hugher, por lá não existem seres inteligentes. Por isso os
sacerdotes da seita de Baalol acharam que seria conveniente criar um
estabelecimento nesse mundo.
Desoga
percebeu que seu charuto se apagara.
— Prossiga,
Dr. Nearman — pediu com a voz tranqüila.
De
repente, o biólogo sentiu a estranha desconfiança que constitui uma
característica de todas as pessoas gravemente enfermas.
— O
senhor é médico? — perguntou. — O que deseja de mim?
— Está
tudo em ordem — disse o agente, em tom tranqüilizador. — O
senhor está em lugar seguro. Nada lhe acontecerá.
Porém os
olhos do Dr. Nearman assumiram uma expressão rígida.
Desoga
compreendeu que o biólogo estava morto.
Levantou-se
e foi até a porta. O Dr. Silverman encontrava-se sentado no
corredor, de pernas cruzadas, e fazia anotações. O bloco estava
apoiado sobre o joelho.
— Venha,
doutor — disse Desoga.

Nenhum comentário:
Postar um comentário