quarta-feira, 7 de setembro de 2016

P-117 - Frota Espacial Roubada - Clark Darlton [Parte 2]

O Tenente Groeder estava parado ao lado do Major Scott, quando o planador subiu e afastou-se rapidamente com Rhodan, em direção à capital não muito distante.
Jakobowski juntou-se a eles.
Isso foi um tanto inesperado — observou em tom de dúvida. — Será que Rhodan está sendo atraído para uma armadilha?
Não; em hipótese alguma! Podemos ficar bem tranqüilos, agindo em conformidade com as instruções de Rhodan. A Odin decolará dentro de dez minutos. Os acônidas já deram permissão para isso e ainda não voltaram a ativar o campo energético. Gucky e Wuriu Sengu realizarão uma excursão exploradora, a fim de verificar em que ponto estão os trabalhos nas naves. Em virtude da imprudência cometida pelo senhor, Jakobowski, seria muito arriscado recorrer aos trajes arcônidas. Por isso Gucky depende da teleportação. Os acônidas não contam com essa possibilidade.
A culpa não foi minha e...
Ninguém está acusando o senhor — disse Groeder, encerrando a discussão. — Mantenha contato de rádio permanente conosco, Major Scott. Avise em tempo a chegada da nave cargueira pela qual esperamos tão ansiosamente. Quanto ao resto, o senhor está informado.
Sim, estou informado — Scott confirmou e despediu-se, para logo em seguida voltar para a Odin. Dali em diante passou a ser apenas um elo importante de uma corrente que deveria voltar a prender Ácon ao seu sistema.
Quando devo saltar? — perguntou Gucky.
Groeder olhou para o relógio que trazia no pulso.
Daqui a uma hora, quando começar a escurecer.

* * *

Quando as solenidades da recepção chegaram ao fim, e ele se viu a sós com Auris de Las-Toor num aposento particular do palácio, onde o Grande Conselho costumava realizar suas sessões, Rhodan sentiu-se muito satisfeito.
Perry deixou que a visão daquela mulher, extraordinariamente bela, produzisse seus efeitos. Para ele, essa acônida era pura e simplesmente a representante de sua raça. Não pôde deixar de confessar que tinha uma personalidade impressionante. O cabelo cor de cobre combinava muito bem com a tez morena aveludada, enquanto os lábios vermelhos e cheios formavam um contraste encantador com os olhos claros. Trajava um conjunto apertado e uma ampla manta violeta.
Além de encantadora a senhora também é muito inteligente — disse Rhodan, em tom amável. — Nem tentou ocultar a instalação do novo campo defensivo. A idéia foi sua?
Auris retribuiu o sorriso. Entre aquelas criaturas tão diferentes havia uma simpatia secreta, que nenhum deles queria confessar. Cada um representava uma raça diferente e estava disposto a colocar interesses da mesma sobre seus interesses pessoais. Por outro lado, porém, nenhum dos dois queria enganar o outro ou fazer-lhe algum mal. Por isso viram-se num dilema do qual parecia não haver saída.
A instalação foi ordenada pelo Grande Conselho — respondeu Auris. — Achamos preferível não encobrir sua existência com o véu de um segredo que só poderia dar origem a suspeitas. O campo energético existe e será desligado toda vez que uma nave terrana peça permissão para pousar.
Aliás, esse campo não me preocupa — confessou Rhodan e olhou para a janela.
Lá fora já começava a escurecer. Gucky e Wuriu Sengu já deviam estar a caminho.
Minha vinda não tem a menor relação com o mesmo, embora a senhora talvez supusesse que tinha — concluiu depois de uma pausa.
Não tínhamos opinião formada a este respeito — respondeu Auris, esquivando-se à insinuação.
Rhodan inclinou o corpo para a frente e fitou os olhos de sua interlocutora, que enfrentou calmamente o seu olhar. Era uma adversária nada fácil.
Vim para esclarecer os acônidas sobre os acontecimentos que nestes últimos meses têm semeado a inquietação na Galáxia. Sei perfeitamente que por aqui não houve muito interesse por esses acontecimentos, mas nem por isso os mesmos deixaram de produzir sua influência em Ácon.
Rhodan relatou em palavras sucintas e objetivas como Thomas Cardif assumira o posto de administrador e criara uma confusão tremenda em quase todos os setores. Concluiu da seguinte forma:
Acabei sendo libertado e restabeleci a ordem. Foi um trabalho muito duro, mas se pudermos contar com a compreensão de Ácon poderemos dar o caso por encerrado.
Auris sorriu sem demonstrar o menor embaraço.
Ficamos-lhe muito gratos pelos esclarecimentos, administrador. Realmente certos acontecimentos eram incompreensíveis aos nossos olhos, mas a esta altura não o são mais. Afinal, foi graças a essas perturbações que recebemos a frota espacial que nos foi fornecida por Árcon. É mais um motivo de sermos gratos ao senhor.
Ora, isso não é nada — respondeu Rhodan com a maior tranqüilidade, sem dizer uma única palavra sobre a frota espacial. Passou a outro assunto, que parecia interessá-lo muito mais. — As relações comerciais entre nossos mundos estão tomando um rumo bastante satisfatório, Auris de Las-Toor. Não será esta a oportunidade de discutirmos a possibilidade da ampliação de nosso território neste planeta? Ainda acontece que não gosto de barreiras. Será que vocês têm medo de espiões?
Auris esboçou um sorriso amável e descontraído.
Sobre a ampliação da área poderemos conversar com o Grande Conselho, mas as barreiras serão mantidas. A finalidade destas não consiste em evitar atos de espionagem, mas em lembrar constantemente aos terranos que Ácon não é nenhuma colônia, mas um império estelar independente. A medida é puramente psicológica.
Ah, é? Fico-lhe muito grato — disse Rhodan, com um sorriso irônico. — De qualquer maneira nunca nos esqueceríamos.
Depois disso discutiram vários problemas. No fim combinaram que no dia seguinte Auris visitaria a missão comercial terrana. Rhodan ficou espantado porque a representante de Ácon não disse uma palavra sobre o aparecimento misterioso de um homem invisível. Aliás, teria sido inútil formular uma acusação contra um fantasma de cuja existência não havia nenhuma prova além das declarações bastante duvidosas de um soldado.
As despedidas foram cordiais. Rhodan sentiu a simpatia de sua anfitrioa, que ressaltava das palavras convencionais, sem exprimir-se claramente. Seus olhos brilhavam, mas os gestos continuavam comedidos. Rhodan teve de fazer um grande esforço para resistir à tentação de segurar sua mão por mais tempo que o estritamente necessário. Afinal, ainda era sua adversária, embora Rhodan não pudesse deixar de se convencer que nunca se sentira tão contrariado para lutar contra alguém. De qualquer maneira, o perigo era muito grande. Auris nunca tomava as decisões sozinha. Atrás dela havia o Grande Conselho de Ácon, formado por um grupo de homens dotados de elevada agilidade mental, que só visavam ao bem de seu povo.
O planador que deveria levá-lo de volta ao porto espacial terrano estava parado à frente do palácio. Havia soldados formados em sua honra. Um comando de robôs fez continência.
Auris acompanhou o visitante até a escotilha. Voltou a estender a mão para Rhodan, e desta vez teve a impressão de que a pressão de seus dedos era mais forte.
Até amanhã, Perry Rhodan. Deverei chegar pelo meio-dia.
Estaremos à sua espera, madame — disse Rhodan em tom um tanto formal e entrou na pequena nave.
Voltou a acenar com a mão. Depois disso a escotilha fechou-se. Em alguns segundos o palácio e a área fronteiriça foram tragados pela escuridão da noite.

A noite foi calma e sem incidentes. Gucky e Sengu voltaram pela meia-noite e apresentaram seu relato a Rhodan. Ninguém notara sua presença ou demonstrara qualquer desconfiança. Puderam fazer suas incursões com a maior tranqüilidade e constataram que os comandos robotizados realmente continuavam intactos. Com exceção dos microcontroles.
Pelo meio-dia Auris chegou num planador, conforme era esperado. Estava acompanhada de dois acônidas de meia-idade, que causaram boa impressão em Rhodan. A recepção foi simples, mas muito mais cordial do que costumam ser as recepções de chefes de Estado.
Ficaram sentados bem à vontade na pequena varanda da casa, regalando-se com os raios do sol e conversando. O campo energético azul não estava ligado, fato que levou Rhodan a perguntar se não pretendiam ativá-lo constantemente.
Nossa intenção não é esta — respondeu Auris. — Basta a certeza de que a qualquer momento podemos recorrer a ele.
No seu íntimo Rhodan sentiu-se aliviado, pois as palavras que acabara de ouvir lhe permitiam esquecer um problema grave. Se o campo energético fosse ativado ininterruptamente, seu plano poderia correr perigo.
Não queremos que o campo defensivo afete nossas relações, Perry Rhodan.
Não afetará, Auris. Mesmo entre amigos costumam ser tomadas certas precauções. Permita que lhe pergunte qual é a opinião do Grande Conselho sobre minha proposta de ampliar a zona franca?
Auris apontou para os dois homens que a acompanhavam.
Para facilitar as coisas, trouxe os especialistas que não se negam a discutir o assunto. No entanto, quero avisar desde logo que a barreira transmissora será mantida, ou melhor, ampliada.
Quanto a isso, nada a objetar. Acho que a barreira representará um obstáculo para eventuais ladrões ou contrabandistas. Espero que a senhora também pense assim.
Também pensamos assim — disse Auris, com um sorriso.
A discussão girou em torno da pretendida ampliação e terminou num tratado assinado por Rhodan, Auris e os dois membros do Conselho. Rhodan ficou satisfeito com o resultado da discussão, mas não conseguiu evitar certo peso na consciência. Os acônidas tratavam-no com a maior franqueza e suas propostas eram bem recebidas. Enquanto isso, ele mesmo planejava uma traição, uma verdadeira traição. Pretendia tomar-lhes a frota espacial. Será que isso era uma atitude correta? Será que suas preocupações de que os acônidas poderiam atacar a Terra conforme já haviam tentado por várias vezes não eram exageradas?
Bem, naquela oportunidade não conhecera Auris tão bem quanto a conhecia hoje, mas por outro lado não deveria cometer o erro de pensar que Auris fosse Ácon. Era apenas a representante do Grande Conselho e tinha de seguir as ordens deste. Mesmo que essas ordens se dirigissem contra ele, Rhodan, ela as cumpriria, pois o bem do povo era colocado acima de tudo.
Mas a consciência continuava a pesar-lhe.
Quando a delegação se despediu, Rhodan prometeu que no dia seguinte participaria pessoalmente de uma sessão do Conselho, durante a qual usaria a palavra para formular propostas que visavam à ampliação do comércio.
Os dois acônidas já se encontravam no interior do planador que os levaria de volta para a cidade. Auris e Rhodan ainda se encontravam no campo de pouso. Auris estendeu-lhe a mão.
No futuro nossas relações deverão firmar-se e tornar-se cada vez melhores — disse com a voz embaraçada. — Às vezes tenho a impressão de que os acônidas têm mais em comum com a sua raça que com a dos arcônidas, que são nossos colonos. De qualquer maneira, os elos que ligam Ácon e a Terra são mais fortes que os que unem a Terra a Árcon. Isso em termos muito gerais.
O imperador de Árcon e eu somos amigos, e esta amizade representa um elo — respondeu Rhodan, sabendo perfeitamente qual era o sentido da alusão que acabara de fazer. — É bem verdade que em termos gerais a senhora tem razão. Os acônidas são uma raça mais atuante e possuem maior agilidade mental que a maioria dos arcônidas, que podem ser considerados uma raça degenerada. Possuem um imenso reino estelar, mas este se encontra em desagregação. Seu povo, Auris, nunca teve a ambição de construir um reino estelar desse tipo, e é uma atitude que eu sei prezar muito. Nem sempre a sede de poder constitui sinal de um espírito nobre.
Só agora Auris retirou sua mão da de Rhodan. Confirmou com um aceno de cabeça.
Independentemente de sua opinião sobre nosso povo, Perry Rhodan, o senhor sabe distinguir entre mim como membro do Conselho e como...
Hesitou. Rhodan animou-a com um sorriso.
E como mulher — concluiu Auris valentemente.
Ao responder, Rhodan não se esquivou de seu olhar indagador:
As amizades pessoais entre os representantes de povos diferentes contribuem para melhorar as relações entre os mesmos, Auris. Posso garantir-lhe que, se não fosse Atlan, não teria tanto interesse por Árcon. Seria bom se, em virtude da senhora, eu também pudesse ter mais simpatia por Ácon. E que a senhora pudesse ter mais simpatia pela Terra.
Auris fitou-o prolongadamente. Depois confirmou com um gesto.
Obrigado, Perry Rhodan. Até amanhã.
Virou-se abruptamente e entrou no planador. Fez um gesto de despedida antes que a escotilha se fechasse. Rhodan seguiu o veículo com os olhos enquanto o planador se erguia lentamente e ia se afastando.
Uma tormenta emocional rugia em sua mente, ameaçando transformar-se num caos. Apesar disso conseguiu voltar à casa com o passo firme e tranqüilo.
Quando o futuro da Humanidade estava em jogo, Perry não deveria considerar seus sentimentos pessoais. Já provocara um tremendo perigo, quando começara a amar uma mulher pertencente a uma raça estranha. Será que o fato se repetiria?

* * *

A nave cargueira tão ansiosamente esperada só chegou dali a dois dias. As autoridades acônidas concederam a permissão rotineira de pousar, isso depois de o comandante ter apresentado a declaração da carga. Naturalmente não mencionou os microcontroles guardados numa caixa.
Para seu imenso espanto, Jakobowski viu diante de si um velho conhecido, que não era outro senão o homem ao qual entregara há menos de uma semana uma carta destinada a Rhodan. Samuel Graybound, comandante espacial e co-proprietário de uma sociedade comercial privada, recebera de Rhodan a missão delicada de levar os microcontroles para Ácon. Para aquele velho fogoso isso representava uma ótima oportunidade de dar uma demonstração de sua capacidade e das qualidades de sua velha nave.
Quando Graybound, que era um homem de seus cinqüenta anos, baixo e com o abdômen avantajado, atravessou o campo de pouso, havia alguma coisa colorida sobre seu ombro. Ao chegar mais perto, notou-se que era um papagaio. Bicava alegremente a barba ruiva do dono, como se estivesse procurando alguma coisa. Vez por outra soltava um grito e batia com as asas. O nariz grosso de Graybound estava escondido entre um par de enormes bochechas e brilhava num estranho tom vermelho-azulado, o que de forma alguma provinha do uso excessivo do álcool, mas tinha sua origem nos efeitos do sol azul.
Gucky fitou o papagaio. Só depois de algum tempo olhou para Graybound.
Você não poderia ter evitado isso? — perguntou em voz baixa a Rhodan, que se encontrava a seu lado e olhava o comandante da nave mercante com um ligeiro sorriso. — Logo esse velho contrabandista com a ave faladora.
Não poderia ter encontrado elemento melhor. — Respondeu Rhodan, também em voz baixa, e acrescentou: — Não se esqueça de que Graybound salvou nossa vida, quando fizemos o pouso de emergência no planeta protoplasmático. Pode ser um esquisito, mas é um sujeito honesto. E é só o que conta, Gucky.
O rato-castor calou-se, um tanto envergonhado. Não era bem isso que queria dizer. Mas sabia que Toureiro, o papagaio, beliscaria sua cauda na primeira oportunidade, caso Gucky não se cuidasse.
Graybound irradiava um espírito bonachão quando parou à frente de Rhodan e, numa atitude bem paisana, colocou a mão direita no boné.
Cumpri as instruções, trazendo a carga para Ácon, sir — proferiu com a voz rouca, piscando para Gucky. — Quer que mande iniciar imediatamente a descarga?
Rhodan apertou a mão do velho.
Obrigado, Graybound. O senhor nem imagina com que ansiedade o esperávamos.
A mim, ou à carga? — perguntou Graybound, voltando a piscar para Gucky. — Então, sempre continua alegre e bem-disposto, baixinho? Faz tempo que não nos vemos.
Sinto-me satisfeito em encontrá-lo nesta oportunidade — disse Gucky com certo esforço, olhando de soslaio para Toureiro, que parecia infundir-lhe um respeito tremendo. — Como vai essa ave?
Toureiro? — Graybound soltou uma estrondosa gargalhada. — Fica cada vez mais inteligente. Ontem meteu-se a corrigir a rota da minha nave, que havia sido calculada pelo computador positrônico. E não é que o papagaio estava com a razão?
Rhodan contemplou o céu azul, como se não tivesse outra coisa a fazer. Alguém soltou uma risada. Por um instante Gucky sentiu-se perplexo, mas logo leu a verdade nos pensamentos de Graybound.
Vá mentir pra outro! — protestou com a voz aguda e saiu balançando o corpo, deixando de lado os cumprimentos.
Para evitar brigas, Gucky fez de conta que não ouvira a observação de Toureiro, que como sempre era muito adequada. Haveria de encontrar uma oportunidade de fechar o bico dessa ave atrevida.
Dali a meia hora havia pilhas de caixas ao lado da Lizard. Os primeiros veículos de carga dos acônidas chegaram para receber as mercadorias. Uma caixa maior marcada com a palavra Alimentos desaparecera logo no início. Naquele momento encontrava-se no porão da casa em que Rhodan estava residindo.
O comandante Graybound estava presente quando a tampa da caixa foi retirada. Trazia o papagaio sobre o ombro direito. O Tenente Groeder afastou a camada de algodão destinada a amortecer os choques. As caixinhas forradas com os reluzentes microcontroles estavam bem empilhadas. Não eram maiores que um dedo humano.
Dependeria dessas cápsulas aparentemente tão inofensivas para que Ácon continuasse a dispor de uma frota espacial ou não. Graybound apontou para as cápsulas.
Que contrabando é este? — perguntou. — Parece... parece... — hesitou um pouco — bem, parece que são cargas de pistolas energéticas.
Não é nada disso, meu velho. — Se fosse o senhor, não quebraria a cabeça com estas cápsulas. Nunca encontrará a resposta correta. Por que sobrecarregar a mente com isso? O senhor as trouxe e ganhou um bom dinheiro. E essa quantia lhe foi paga inclusive para que o senhor não faça perguntas.
Graybound resmungou alguma coisa, cocou a cabeça e acabou confirmando com um gesto.
De acordo, sir. Tem outras instruções para mim?
Tenho. O senhor decolará assim que a carga de retorno esteja a bordo. Quando chegar a Terrânia, dirija-se ao centro comercial e entregue uma cópia do novo tratado que firmei com Ácon. Mister Marshall lhe entregará essa cópia. Em Terrânia lhe será confiada outra missão. É só.
Graybound apertou a mão de Rhodan, acenou alegremente para os outros homens e fez meia-volta para retirar-se do recinto em que entrara por puro acaso, quando procurava Rhodan. Mas antes que chegasse à porta, Toureiro levantou vôo com um grito agudo, dirigiu-se de asas abertas para a grande caixa, segurou um dos preciosos microcontroles e, sempre soltando gritos agudos, passou por Graybound e subiu para o corredor, de onde uma porta aberta levava para fora da casa.
Pegou uma das cápsulas! — gritou o tenente, em tom assustado. — Vamos agarrá-lo!
Rhodan passou por Graybound e correu atrás de Groeder. Ras Tschubai teleportou-se e chegou ao campo de pouso antes dos dois homens. Esforçaram-se em vão para localizar o papagaio. Se o pássaro saísse voando com a cápsula e caísse nas mãos dos acônidas, todo o plano poderia frustrar-se.
Graybound subiu os degraus fungando e parou ao lado de Rhodan, esbaforido.
Sinto muito, sir — disse em tom embaraçado. — Toureiro costuma ser obediente e não tem criado problemas. Não sei o que deu nele...
Rhodan não respondeu. Vira um movimento no telhado achatado da casa. Recuou um passo e avistou Toureiro, que agora estava brincando com a cápsula. Quase no mesmo instante Gucky saiu da porta e fitou os homens exaltados com uma expressão de indiferença.
O que houve? — perguntou em tom de tédio.
Não faça perguntas tolas. Está vendo o papagaio em cima do telhado? Vá buscá-lo.
Gucky prendeu a respiração.
Buscá-lo? Você permite mesmo que eu vá buscá-lo?
Isso mesmo. Tenha cuidado para não ter de voar atrás dele. É bem verdade que, se deixar o microcontrole onde está, ele pode ir até a próxima Galáxia, mas você não!
Gucky adiantou-se mais um passo e fitou Toureiro.
O papagaio nem desconfiava das faculdades maravilhosas do rato-castor. Sentia-se seguro no telhado. Empurrava a cápsula reluzente à sua frente, sem saber o que fazer com ela. Não reagia aos gritos do dono. Quando notou o olhar concentrado de Gucky, gritou com a voz travessa:
Alguém quer alguma coisa? Alguém quer alguma coisa?
Eu quero! — chiou Gucky e teleportou-se.
Materializou a menos de dez centímetros de Toureiro, que continuava a bater as asas e olhar para o lugar em que Gucky estivera pouco antes.
Gucky segurou Toureiro com ambas as mãos. A voz irônica do papagaio terminou numa grande dissonância.
Eu lhe mostrarei o que acontece com quem rouba ovos dos ninhos dos outros — disse o rato-castor com a voz ameaçadora e olhou para o lugar em que os homens o fitavam ansiosamente. — Quer que eu lhe torça o pescoço, Perry? Não sei se um papagaio em molho picante é um prato saboroso. Para mim seria duro demais — pegou o microcontrole e enfiou-o no bolso do uniforme. — Então, o que me diz, bicho fantasiado?
A pergunta fora dirigida a Toureiro, que deixou pender tristemente as asas e já parecia conformado com a idéia de ter de morrer. Fitou Gucky com uma expressão ingênua nos olhos semicerrados e disse com a voz trêmula:
Retire-se imediatamente do local, cavalheiro!
Graybound gritou uma explicação:
Este papagaio passou alguns anos num botequim de cais de última categoria. É por isso que usa essa linguagem. Solte-o, baixinho. Afinal, você já recuperou o objeto que roubou.
Quer que eu o solte? — perguntou Gucky, dirigindo-se a Rhodan. Este confirmou com um aceno de cabeça.
De repente Toureiro recuperou a atitude orgulhosa e voltou a sentir-se seguro. Ficou sentado por mais alguns segundos no braço de Gucky, alisou com o bico as penas que ficavam embaixo do pescoço e desceu do telhado com uma gritaria enervante, dirigindo-se diretamente para o ombro de Graybound, onde pousou em segurança.
Gucky seguiu-o num salto ligeiro. Tirou a cápsula do bolso e entregou-a a Rhodan, que a fitou em atitude pensativa, refletindo sobre o milagre que representava esse objeto pequeno e de aspecto insignificante, capaz de ativar todos os comandos robotizados de um enorme couraçado. Até um papagaio podia sair voando com isso.
Graybound afastou-se. Falou por mais algum tempo com o papagaio, e todos ouviram perfeitamente o papagaio repetir:
Retire-se imediatamente do local, cavalheiro!
Rhodan seguiu-o com os olhos.
Um sorriso de compreensão surgiu em seu rosto. Para Graybound, Toureiro significava a mesma coisa que Gucky significava para ele.

* * *

Os três teleportadores e os especialistas que os acompanhariam prepararam-se para entrar em ação. Sengu explicara mais uma vez a disposição das naves. Não havia necessidade de outros esclarecimentos, pois os técnicos sabiam perfeitamente o que fazer. Cada um deles levava uma sacola com cinqüenta cápsulas de microcontrole. Poderiam dar-se por satisfeitos se conseguissem instalar todos numa noite.
Gucky, você e o Tenente Jenner cuidarão em primeiro lugar dos couraçados pesados da classe Império. Só depois disso cuide das outras naves. Kakuta e Tschubai cuidarão dos cruzadores pesados. Não poderá haver nenhuma revisão de trabalho, pois o tempo é muito escasso. Se os acônidas perceberem que os microcontroles por eles retirados voltaram ao mesmo lugar, naturalmente desconfiarão. Vocês terão de terminar o serviço em duas ou três noites. Boa sorte.
O primeiro salto foi realizado em conjunto. A fim de evitar que esbarrassem na barreira de transmissão, escolheram como primeiro alvo o topo de uma montanha não muito alta, que ficava na linha de visão direta acima do fio. As naves reluzentes estavam enfileiradas lado a lado e seu brilho metálico parecia revelar o poder tremendo que corporificavam.
Foi muito rápido — observou o Dr. Ranault, que pela primeira vez na vida fizera a experiência de um salto de teleportação. Lançou um olhar de admiração para seu companheiro, Tako Kakuta. — Já ouvi falar muito a respeito, mas nunca acreditava que... bem, não me leve a mal... que é tão fácil.
O japonês esboçou um sorriso condescendente.
Parece fácil, doutor, mas o fato é que além da capacidade em mutação isso exige uma forte dose de concentração. Antigamente nós costumávamos errar o alvo ou os saltos falhavam pura e simplesmente. Hoje as teleportações se transformaram em rotina.
Daqui em diante agiremos separadamente — disse Gucky, interrompendo a palestra. — Cada um salta com seu parceiro. E não deveremos esquecer que, quando voltarmos, deveremos saltar em primeiro lugar para esta montanha. Seria muito desagradável se, em meio ao salto, esbarrássemos no campo de transmissão.
Naturalmente — disse Ras Tschubai, em tom lacônico.
Segurou a mão do Dr. Sorowski, sorriu para animar os outros e desapareceu à vista de todos. Gucky esperou que Kakuta e o Dr. Ranault também saltassem. Só depois disso fixou o alvo, segurou a mão do Dr. Jenner e saltou.
O topo da montanha voltou a ficar deserto, como se nunca tivesse sido pisado por qualquer homem. Naquele mesmo instante, os homens que ali tinham estado materializaram-se a muitos quilômetros, no porto espacial dos acônidas.
A gigantesca área era mais difícil de abranger com a vista do que haviam imaginado. As sentinelas patrulhavam principalmente a área periférica. Mantinham contato com canhões robotizados prontos para disparar, que atirariam contra qualquer aeronave ou veículo espacial que procurasse aproximar-se da área bloqueada. A fileira de sentinelas era tão densa que seria praticamente impossível que um pedestre passasse por ela sem ser descoberto.
Para os teleportadores, essa fileira evidentemente não representava nenhum obstáculo.
Gucky e Jenner materializaram-se a mil e quinhentos metros de altura, no pólo de um couraçado da classe Império. O campo de visão era bastante restrito. De qualquer maneira, viam-se claramente os pólos superiores das outras naves do mesmo tipo. O sol azul já descera abaixo da linha do horizonte e escurecia rapidamente.
Jenner apalpou a sacola com os micro-controles.
Como faremos para entrar na nave? Gucky olhou em torno.
O começo sempre é difícil. Mais tarde teleportaremos simplesmente de uma sala de comando para outra, ou melhor, de um centro de controle robotizado para outro. Mas antes disso terei de orientar-me. Siga-me bem de perto, Jenner. Se houver algum imprevisto, segure imediatamente minha mão, para estabelecer contato físico. Entendido?
Jenner fez que sim.
Não encontraram nenhuma escotilha que não estivesse trancada e por isso não tiveram outra alternativa, senão teleportarem-se para dentro da nave. Não se encontraram com ninguém. Os acônidas não haviam postado sentinelas no interior das naves. Gucky e Jenner não tiveram qualquer problema em chegar ao centro de controle automático. Uma vez lá, o especialista imediatamente se pôs a trabalhar.
Todos os centros de ativamento eram do mesmo tipo, tanto nos grandes couraçados como nos cruzadores ligeiros. No fundo, a montagem da cápsula era simples, mas assim mesmo a operação só poderia ser realizada pela mão experimentada de um especialista, cujos dedos sensíveis seriam capazes de colocá-las na posição correta, de maneira tal que houvesse contato nas duas pontas. Além disso, era muito importante que as instalações não entrassem logo em atividade. Haveria apenas um minúsculo receptor robotizado, que a um determinado sinal de comando transmitiria o impulso capaz de ativar o gigantesco sistema de controle robotizado. Quando isso acontecesse, não haveria mais possibilidade de dar uma contra-ordem.
Jenner recuou um passo.
Pronto, Gucky. A primeira cápsula foi colocada.
O rato-castor riu. Parecia satisfeito.
Tomara que com as outras também seja tão fácil. Acho que o senhor terá bastante inteligência para ir buscar outras cápsulas, caso termine antes do tempo.
Foi o que combinamos, baixinho. Não vamos perder tempo. Cuidemos da próxima nave.
Pelas duas horas da madrugada, tempo terrano, Gucky e Jenner haviam preparado os vinte couraçados e trinta outras unidades. Saltaram de volta para o entreposto comercial, onde ficaram sabendo que Kakuta e o Dr. Ranault já haviam estado lá para reabastecer-se. O japonês tinha certeza de que antes do nascer do sol conseguiria cuidar de cem naves.
Jenner voltou a encher a sacola. No momento em que se dispôs a saltar juntamente com Gucky, chegaram Ras Tschubai e o Dr. Sorowski. Até o nascer do sol realmente ativariam quase um terço da frota.
As coisas pareciam ser mais fáceis do que se previra.
Durante três dias e noites, tudo correu bem.
Na quarta noite aconteceu o incidente fatal...

Foi um dia cansativo.
Perry Rhodan obteve permissão de sair de Ácon numa nave cargueira. Não indicou o destino da viagem, mas deixou claro que voltaria na noite seguinte. Ninguém fez perguntas. Rhodan teve oportunidade de, uma vez no espaço, passar para a Odin, que o aguardava na periferia do sistema, e fazer uma troca de mensagens de hiper-rádio com Atlan.
O Major Scott ficou satisfeito de rever Rhodan. Apresentou o relato em palavras lacônicas, conforme era seu costume.
Mantivemos contato com Reginald
Bell em seqüência ininterrupta. Encontra-se com a frota a dez anos-luz daqui, no setor espacial constante das instruções.
Excelente — disse Rhodan, muito satisfeito. — Já está informado?
Bastará transmitir o sinal combinado, sir.
Rhodan respondeu com um aceno de cabeça e dirigiu-se para a sala de rádio, onde o rosto de Atlan já o fitava da tela. Os distorçores haviam sido ligados, para que ninguém pudesse compreender uma palavra da palestra. Além disso, Rhodan não falou nada além do estritamente necessário.
Já está informado, Atlan?
Tudo entendido, Perry.
Nossa estação montada em Ácon está pronta para a recepção. Até aqui tudo correu bem. Assim que eu lhe transmitir a senha, você saberá o que fazer. Se não acontecer nada, voltarei a entrar em contato com você de bordo da Odin. Até lá faça votos de que tudo continue a dar certo.
Falaram mais quinze minutos sobre as providências a serem tomadas. Depois disso cortaram a ligação. Rhodan tinha certeza de que os acônidas não podiam ter conhecimento da palestra, pois possuíam poucas naves para dar-se ao luxo de manter um serviço permanente de escuta espacial. As ondas de hiper-rádio não poderiam ser captadas na superfície de Ácon.
O Major Scott esperou cinco horas antes de levar Rhodan de volta para o entreposto comercial. Também recebeu uma série de instruções especiais. Decolou imediatamente para manter-se no espaço, onde seria um importante elo de ligação entre Rhodan de um lado e Bell e Atlan do outro. Sabia perfeitamente o que devia fazer, mesmo que o contato com Rhodan fosse interrompido.
Isso aconteceria no momento em que os acônidas ativassem o campo energético azul, que não permitia a passagem da matéria nem das ondas comuns de rádio.
Já fazia bastante tempo que Gucky, Ras Tschubai, Jenner e o Dr. Sorowski tinham voltado para a casa residencial, situada na área do porto espacial. Todos os microcontroles haviam sido instalados. Tako Kakuta e o Dr. Ranault ainda não tinham voltado mas, como só tinham levado vinte cápsulas, logo deveriam concluir o trabalho e regressar à base.
Sempre havia atrasos; devia-se contar com isso. Era possível que um dos suportes do setor de ativamento de um computador estivesse muito apertado e o Dr. Ranault fosse obrigado a fazer uma correção. Isso poderia levar dez minutos ou uma hora.
Só à meia-noite, quando Tako Kakuta apareceu só, materializando-se em meio às pessoas que esperavam nervosamente, compreenderam: Alguma coisa não dera certo.
O teleportador japonês explicou em palavras apressadas...

* * *

Haviam saído com vinte cápsulas.
Ranault conhecia o trabalho. Seria perfeitamente capaz de montar os microcontroles com os olhos vendados. Não era isso que o deixava nervoso. O que o enervava era simplesmente o fato de que já montara mais de duzentas cápsulas sem que houvesse qualquer incidente.
A tarefa parecia fácil demais.
Quando tentava montar com as mãos trêmulas a décima segunda cápsula, esta escapou dos seus dedos e caiu ao chão.
Kakuta deu um salto, mas não conseguiu segurá-la.
Está quebrada? — perguntou em tom preocupado.
Ranault hesitou um pouco.
Não tenho certeza — abaixou-se e examinou a cápsula. — Por fora não se vê nada. Teremos de experimentar — de repente aguçou o ouvido. — Ouviu alguma coisa, Kakuta?
O japonês recuou alguns passos e comprimiu a orelha direita contra a porta fechada. Teve a impressão de que ouvia alguma coisa, mas não conseguiu identificar o ruído.
Deve haver mais alguém na nave, Ranault. Vamos dar o fora.
Só depois que eu tiver instalado o controle — respondeu o técnico e abriu o setor de ativação.
Kakuta ficou parado junto à porta. Contemplou os enormes geradores e quadros de comando, as ramificações do comando robotizado e os bancos de energia dos computadores positrônicos. Tudo isso ficava num pavilhão que tinha ao menos trinta metros de comprimento e quase a mesma largura.
O ruído às suas costas foi tão súbito que não teve tempo de virar-se. Apenas conseguiu dar um passo para o lado. No mesmo tempo, a porta abriu-se violentamente e dois acônidas com a farda de policiais entraram.
Deve ser aqui — disse um deles, apontando para a frente.
Não viram Kakuta, que teleportou-se para o corredor. Era tarde para levar Ranault. Talvez o técnico fosse bastante inteligente para esconder-se atrás de uma máquina e ficar quieto até que os dois acônidas fossem embora.
Isso mesmo; o alarma veio daqui — confirmou o outro policial e examinou a confusão das instalações reluzentes, cuja finalidade desconhecia. — Aqui não é o número trezentos e dez?
Ranault abaixara-se instintivamente quando a porta foi aberta. Segurava o microcontrole na mão. Não tivera tempo de montá-lo. O setor de ativação do cérebro estava aberto. Se os acônidas percebessem...
Felizmente os dois guardas não eram técnicos. Sua tarefa consistia unicamente em cuidar para que ninguém entrasse na nave. E só haviam vindo porque em algum lugar soara um alarma. Kakuta lembrou-se vagamente de ter visto sentinelas que patrulhavam a área entre as naves estacionadas. Por que o tal alarma não soara antes? Por que isso acontecera justamente nesse momento?
Infelizmente nunca saberia as respostas a estas perguntas.
Um dos acônidas voltou a sair da sala e dirigiu-se para o corredor. Kakuta não teve outra alternativa senão desaparecer imediatamente. Não foi intencionalmente, mas antes por instinto, que seu salto o levou para a montanha e dali para a base, onde materializou-se sem Ranault.
Rhodan sentiu-se preocupado.
Por que voltou sem Ranault, Kakuta? Sem o senhor estará completamente indefeso e...
Não foi por querer, sir. Voltarei imediatamente e...
O senhor não sabe o que aconteceu neste meio tempo. Fique.
Rhodan arrependeu-se imediatamente de ter gritado com seu mutante. Imaginava que o japonês estava submetido a uma pesada carga psicológica.
A culpa não foi sua, Kakuta. Tranqüilize-se. Gucky, que é pequeno, poderá esconder-se melhor. Irá para lá e trará Ranault.
Gucky aproximou-se e deu uma palmadinha cordial nas costas de Kakuta.
Não se preocupe, baixinho. Eu o tirarei de lá.
Gucky era menor que Kakuta, mas o japonês realmente era baixo e franzino.
Isso pode acontecer a qualquer um. Para dizer a verdade, este negócio também me afetou bastante. A esta altura só faltam oito naves. Estas não deverão representar nenhum problema — concluiu Gucky.
Mal acabou de falar, desapareceu.
Neste meio tempo Ranault se retirara mais para o interior da casa de máquinas. Não tirava os olhos do acônida que continuava no pavilhão. O outro desaparecera, tal qual Kakuta. De qualquer maneira Ranault teve a impressão de que este que se encontrava por ali representava um sério perigo, pois achava-se bem ao lado do setor de ativação do computador. A tampa atrás da qual seria instalado o microcontrole estava bem aberta.
Se aquele acônida entendesse um pouquinho do assunto...
De qualquer maneira teria de fechar a tampa e encontrar um esconderijo para as nove cápsulas de controle. Depois disso não se importaria em ser preso pelos acônidas. Mas era possível que antes disso conseguisse instalar a cápsula na nave em que se achava.
O outro acônida voltou.
Gostaria de saber qual foi o motivo do alarma — disse.
Ranault, que aprendera o arcônida antigo num processo de ensinamento hipnótico, entendeu cada palavra. Os dois homens encontravam-se a menos de cinco metros. Suas pesadas armas de radiações faziam prever o pior.
Viu alguma coisa? — perguntou ainda o mesmo acônida.
O outro respondeu que não. Olhou em torno e chegou a dirigir os olhos bem na direção em que estava Ranault. O técnico abaixou-se ainda mais.
Tomara que não me descubram”, pensou.
Não trouxera arma. Justamente na última missão ele a deixara em casa, porque até então tudo fora tão fácil e a arma de radiações o incomodava.
Acontece que alguém deve ter passado na frente da câmara, pois do contrário não teria sido dado o alarma. E foi nesta sala.
Onde estamos?
Não tenho a menor idéia. Suponho que se trate de uma sala de controle, mas não da sala de comando — pôs-se a refletir. — Vamos revistar o lugar; talvez descubramos alguma coisa.
Ranault rastejou cautelosamente para trás, à procura de um esconderijo melhor. Se fosse descoberto, deveria buscar a melhor maneira de lidar com eles. Onde estaria Kakuta? Será que o teleportador perdera o autocontrole e o abandonara? Se fosse assim, ninguém poderia acusá-lo por isso, pois as últimas noites os haviam cansado muito.
Encontrou um corredor estreito e avançou de quatro. Depois de passar pela primeira curva ficou deitado e pôs-se a escutar. Não via mais os dois acônidas, mas ouvia seus movimentos. Em sua opinião ninguém costumava pisar nesse túnel estreito, que apenas representava um espaço inaproveitado, situado entre os instrumentos e outros equipamentos robotizados. No momento em que chegou a essa conclusão voltou a lembrar-se dos microcontroles. Em hipótese alguma deveria ser descoberto com os microaparelhos.
Empurrou a sacola para dentro de uma pequenina abertura. No lugar em que agora se encontrava, mal conseguia tocá-la com a mão. Mesmo que a nave continuasse em poder dos acônidas, poderia demorar vários anos ou mesmo decênios até que a sacola fosse descoberta por algum acaso. Isso só poderia acontecer por ocasião de uma reforma geral.
Ranault guardou no bolso um dos controles. A sacola escondida constituía mais um motivo para que fizesse o possível para instalar essa cápsula, a fim de que a nave pudesse participar da operação planejada. Caso não conseguisse, o doutor teria ao menos feito o que estava ao seu alcance para evitar que o plano fosse descoberto antes da hora.
Virou-se e rastejou um pedaço na direção de que viera.
De repente viu os pés de um dos policiais acônidas a menos de dois metros do lugar em que se encontrava. O acônida estava bem à frente do seu esconderijo e naquele momento se abaixava.

* * *

Gucky cometeu um erro bem perdoável: foi parar na sala de comandos robotizados da nave errada. Kakuta lhe explicara da melhor maneira possível a posição do cruzador ligeiro em que estivera, mas havia umas cem naves desse tipo estacionadas no campo de pouso.
O rato-castor materializou-se e imediatamente se abaixou atrás de um gigantesco bloco metálico, no interior do qual havia certo tipo de mecanismo. Aguçou o ouvido, mas não notou nada. Se Ranault ainda continuasse por ali, deveria estar muito bem escondido.
De qualquer maneira, os acônidas não estavam mais, pois não ficariam tão quietos. Naquele momento Gucky ainda não tivera a idéia de que poderia ter entrado na nave errada.
Quando teve certeza de encontrar-se na sala de controle teve uma idéia. Segundo lhe dissera Kakuta, existia um total de nove cruzadores ligeiros, nos quais ainda não haviam sido instalados os microcontroles. Este era um deles. Gucky nunca se atreveria a instalar uma dessas cápsulas supersensíveis, mas vira muitas vezes como Jenner costumava fazê-lo. Por isso sabia onde eram colocadas as cápsulas.
Caminhou a passos saltitantes até o setor de ativação. A tampa estava fechada. Concluiu que a cápsula ainda não fora montada. Apesar disso resolveu abrir a tampa. Foi então que teve a primeira surpresa. O microtransmissor estava no lugar em que deveria estar.
Será que apesar de tudo Ranault instalou o aparelho antes que os acônidas o descobrissem e levassem?”, pensava Gucky. “Aquele francês era bem capaz de uma proeza dessas...
Gucky começou a desconfiar de que poderia haver uma outra possibilidade, e de repente teve a impressão de que esta não era tão remota. “Encontro-me na nave errada! Até é possível que esta seja uma das naves em que já estive antes!”, concluiu mentalmente.
Gucky teleportou-se para o pólo do cruzador ligeiro e olhou cautelosamente em torno.
Os cruzadores ligeiros formavam uma fileira comprida. As unidades maiores cercavam-nos como se quisessem protegê-los. Dois acônidas patrulhavam a faixa larga, coberta quase completamente pelo abaulamento das naves esféricas. Os dois homens uniformizados saíram do campo de visão de Gucky, que se sentiu perplexo, sem desconfiar de que cada segundo que passava era muito importante.
Quem sabe se eu experimentar a nave do lado...?
Gucky olhou instintivamente pela fileira das naves e constatou que era a última fileira de cruzadores ligeiros. Sem dúvida. Tinham começado a operação do lado oposto e chegaram até aqui. Não havia a menor possibilidade de engano.
Gucky contou as naves.
Encontrava-se em cima do décimo cruzador, contado a partir do fim da fileira.
Sou mais estúpido do que Bell costuma dizer — observou numa atitude de auto-recriminação. Resolveu que não revelaria seu insucesso a ninguém, pois zombariam dele.
A nona nave estava bem a seu lado.
Saltou diretamente para dentro da mesma e materializou-se junto à porta que dava para a sala de controle. Desta vez tinha certeza de que não se enganara, pois ouviu vozes. Aproximou-se da porta que apenas estava encostada e entendia o que falavam.
Ouço alguém respirar.
Onde?
Aqui, no espaço entre as máquinas. Há alguém lá dentro.
Gucky adiantou-se e lançou um olhar para dentro do grande pavilhão. Viu os dois acônidas, que se encontravam mais ao lado. Estavam de pé num corredor. Um deles abaixava-se para examinar atentamente alguma coisa que Gucky não via. Naquele momento alguns pensamentos começaram a tornar-se mais nítidos em meio à confusão de impulsos mentais captados por Gucky. Até então não prestara a necessária atenção a isso. Caso não se concentrasse, jamais conseguiria delimitar os impulsos de Ranault. Mas o acaso veio em seu auxílio.
Ranault viu os pés do acônida bem à sua frente. Seu susto foi tamanho que provocou uma fagulha mental. E esta atingiu os órgãos perceptivos de Gucky com toda a força de seu impacto.
O contato acabara de ser estabelecido, mas era apenas um contato unilateral.
Naquele momento Gucky defrontava-se com um problema. Precisava descobrir um meio de pôr os dois acônidas fora de combate sem que o vissem ou reconhecessem. Não queria nem deveria matá-los. Mas se continuassem vivos, poderiam prestar declarações e trair sua presença.
Dê-me sua lanterna — disse um dos acônidas.
Gucky já havia compreendido que Ranault estava deitado no túnel estreito e percebera o perigo que o ameaçava: seria descoberto pelos acônidas. E o técnico estava indefeso.
Gucky afastou-se um pouco e escondeu-se atrás de um bloco metálico prateado.
Estão à minha procura? — piou com a voz aguda e logo mudou de lugar.
Os dois acônidas sacaram as armas, esquecendo Ranault e o corredor estreito.
Deve estar por ali. Vá por esse lado, enquanto eu vou por aqui. Se possível devemos pegá-lo vivo.
Separaram-se, fazendo exatamente aquilo que Gucky desejava. Seria mais fácil enfrentá-los um de cada vez. Estava muito bem escondido e esperou até que conseguiu ver o primeiro guarda. Assim que isso aconteceu, fez uso de suas faculdades telecinéticas.
No século anterior as faculdades parapsicológicas do cérebro humano ainda pertenciam à área dúbia das chamadas ciências ocultas. Ninguém tinha coragem de reconhecer a existência dessas faculdades. Muitos cientistas arriscavam sua reputação quando ocupavam seu tempo em experiências nesse setor. Mas subitamente apareceram os mutantes, criaturas que haviam sido atingidas positivamente pelas radiações, e suas capacidades cerebrais adormecidas despertaram de repente. Essas criaturas muito contribuíram para o desenvolvimento da Humanidade, e sob certo prisma podiam ser consideradas monstros.
Gucky não era um ser humano. Vinha do planeta Vagabundo. Os seres de sua raça nasciam com o dom da telecinese. Na juventude não conhecera brincadeira mais agradável que a de mover objetos distantes por meio de suas forças mentais e levá-los a um lugar diferente.
Ao ser atingido pelos fluxos mentais de Gucky, o acônida endureceu de repente. Nem sequer conseguia mover a boca. Subitamente perdeu o apoio dos pés. Gucky estava entretido em sua brincadeira predileta, mas naquele momento a mesma tinha um fundo sério e decisivo. O acônida não deveria vê-lo.
Gucky fez com que o homem totalmente indefeso subisse ao teto, tomando cuidado para que seu companheiro não notasse o estranho fenômeno. Depois fê-lo voar de cabeça para a frente contra a parede oposta. O guarda ficou inconsciente. O rato-castor pousou-o suavemente no canto mais afastado. Levaria algumas horas para recuperar os sentidos e poder dizer alguma coisa. Restava saber se alguém acreditaria no que dissesse.
Faltava o outro.
Ranault já percebera que o perigo imediato fora afastado. Reconhecera perfeitamente a presença de Gucky. O técnico saiu cautelosamente do seu esconderijo e ergueu-se. Não viu nenhum acônida nem enxergou o menor sinal de Gucky.
Era a chance pela qual esperara.
Tirou do bolso a cápsula que lhe restava e correu para o setor de ativação. A tampa continuava aberta. Ninguém percebera. Num movimento apressado, mas cauteloso, enfiou o microcontrole no suporte de mola, verificou sua posição e ligou o receptor robotizado para o respectivo sinal. Depois disso fechou a tampa e soltou um suspiro de alívio.
Lembrou-se das oito cápsulas escondidas. “Devo buscá-las?”, indagou-se.
Viu-se dispensado de tomar uma decisão sobre isso.
— “Ranault. Onde está você? Responda! É Gucky!” — pensou. — “Será que conseguiu livrar-se dos dois acônidas?
Aqui! — gritou Ranault e olhou em torno. Estou aqui.
Vá para o corredor! Já irei para lá. Gucky falara em inglês, não em arcônida.
Ranault esqueceu-se da sacola com as oito cápsulas e correu em direção ao corredor, mas Gucky demorou a aparecer.
E teve motivo para isso.
Com o primeiro acônida as coisas haviam sido tão fáceis que Gucky se tornou menos cuidadoso. Quando acordasse, o sujeito poderia contar o que lhe desse na cabeça. Não vira ninguém e por isso mesmo não poderia fornecer nenhuma descrição. Talvez acreditassem no que dissesse, talvez não.
Respondeu e transmitiu suas instruções a Ranault.
O técnico já devia estar no corredor, onde os guardas não poderiam vê-lo. No momento em que Gucky pensava nisso, muito satisfeito, um raio energético passou tão perto de suas costas que chegou a chamuscar-lhe o pêlo. Sentiu o calor e teleportou-se instintivamente para a outra extremidade da sala.
Fora descoberto pelo acônida, que o vira perfeitamente. O tal guarda atirara contra o estranho visitante, mas não acertara. No mesmo instante, o intruso desaparecera.
O acônida parou, perplexo, olhando em torno. Mantinha a arma pesada pronta para disparar. Onde estaria o desconhecido? Não era possível que se dissolvesse no ar.
Ouviu um ruído num canto. Abaixou-se e correu na direção do ruído o mais depressa que pôde. Até mesmo seu pior inimigo não poderia deixar de reconhecer que aquele homem não sabia o que era medo. Estava no interior de uma nave, a sós com um desconhecido que devia possuir faculdades espantosas.
Quase tropeçou no companheiro, que jazia inconsciente. No primeiro momento acreditou que estivesse morto, mas logo viu que se enganara. Aquele homem devia ter batido com a cabeça na parede. Sem que o quisesse o acônida olhou para cima e viu algumas manchas de sangue bem embaixo do teto.
A conclusão que teve de extrair da sua observação não resistiria a qualquer das leis da lógica. Seu companheiro devia ter voado em posição horizontal, quatro metros acima do solo, para bater com a cabeça na parede. Acontece que um acônida não sabe voar, ao menos sem certos equipamentos.
Saltou para trás do gerador mais próximo, pois ouviu passos cautelosos. Alguém aproximava-se.
Naturalmente esse alguém era Gucky, que avistou o acônida e captou seus pensamentos.
É uma pena que já começou a suspeitar”, pensou. “A essa hora já sabe que o autor das brincadeiras não é um acônida.
Gucky contornou cautelosamente o gigantesco gerador e... subitamente viu-se a frente com o acônida.
Agiu com uma rapidez tremenda, mas não pôde evitar que o acônida o fitasse por um segundo que parecia uma eternidade. A arma adquiriu sua independência e caiu em algum lugar entre as máquinas. Depois disso uma força invisível começou a girar o acônida, cada vez mais rápida e violentamente, até que os objetos que se encontravam na sala desaparecessem diante de seus olhos.
Ficou inconsciente, pois a pressão fora muito grande.
Gucky segurou a mão do acônida. e teleportou para cima do pólo do couraçado mais próximo. Colocou o homem inconsciente nesse lugar e teve certeza de que nunca se poderia encontrar uma explicação de como o guarda conseguira subir ao topo da nave. A afirmativa de ter achado um desconhecido numa outra nave se tornaria ainda mais inacreditável.
Isto é apenas um paliativo — confessou Gucky a si mesmo. — Mas que mais posso fazer?
Teleportou-se de volta e tirou Ranault da incerteza. Naquele momento, o técnico esqueceu-se completamente dos oito microcontroles que deixara para trás e sentiu-se satisfeito por ver o rato-castor.
Ora veja, Gucky! O que houve?
Quer saber o que houve com os acônidas? Estão dormindo. Vamos embora! Depressa!
Saltaram para o topo da montanha e dali para o entreposto comercial, onde já estavam sendo esperados com grande nervosismo e preocupação. Gucky apresentou seu relato, sem ocultar nada. Admitiu a possibilidade de ter sido reconhecido pelo guarda, embora este não o visse por mais de um segundo. Por outro lado era pouco provável que alguém acreditasse nele, pois suas palavras iriam parecer fantásticas demais.
Deixei a sacola com as oito cápsulas na nave — confessou Ranault. — Está muito bem escondida; ninguém a encontrará.
A nave foi preparada; logo, receberemos as cápsulas de volta — disse Rhodan, pausadamente. — Seria muito perigoso prosseguirmos na operação.
Ainda faltam oito cruzadores ligeiros — ponderou Marshall.
É preferível que os acônidas fiquem com eles a que nos descubram nesta altura — decidiu Rhodan. — Ainda temos algumas horas até o raiar do dia. Vamos para a cama. Quem sabe o que nos aguarda amanhã?
Gucky sentiu-se martirizado pelas preocupações.
Por que não damos o fora? Temos algum motivo para ficar aqui até que desconfiem?
Ah, é? Então você acha que não desconfiarão se desaparecermos de repente no meio da noite? Até parece que você se esqueceu de que para amanhã programei uma visita às instalações agrícolas juntamente com Auris. Ninguém poderá provar nada contra nós. Tenho de cumprir meu programa diplomático.
Ah, sim, Auris — disse Gucky como quem compreende tudo e retirou-se.

Assim que o dia começou a raiar, Rhodan foi acordado de forma bastante violenta. Estanislau Jakobowski entrou correndo no quarto de Rhodan, sem fazer-se anunciar.
Sir, o campo energético azul! — gritou. — Voltaram a ligá-lo. As comunicações com a Odin estão interrompidas.
Rhodan não se levantou logo.
Era o que eu imaginava. Então encontraram os homens. Ninguém pode negar que sabem agir depressa — fez um sinal para Jakobowski. — Está bem. Acorde os outros. Encontramo-nos daqui a dez minutos, na sala de estar.
Esperou que Jakobowski se retirasse. Depois levantou-se e mudou de roupa. Lavou-se, penteou-se cuidadosamente e certificou-se de que só dali a algumas semanas seria necessário fazer a barba. Aliás, não faria propriamente a barba, mas antes realizaria uma depilação com um preparado adequado.
Quando Rhodan entrou na sala, o Tenente Groeder estava de pé ao lado de Marshall. Os rostos dos dois estavam preocupados, mas Rhodan sorriu.
Aconteceu exatamente aquilo que esperávamos — disse ao sentar-se. — Os acônidas perceberam alguma coisa, mas aposto o que quiserem que não têm a menor idéia dos nossos planos.
E o campo azul? — perguntou Groeder. — Perdemos o contato com a Odin.
O Major Scott agirá em conformidade com as instruções. Avisará Atlan e Bell. O tempo trabalha a nosso favor, não a favor de Ácon. Pelo menos desta vez não.
Axel Wiener entrou.
O campo energético azul envolve Ácon a dez quilômetros de altura — disse, anunciando o resultado da primeira medição. — Nenhuma nave linear conseguirá passar, sem espatifar-se no chão.
Rhodan confirmou com um gesto.
Quer dizer que são dez quilômetros — parecia pensativo. — O tráfego aéreo sobre Ácon não será prejudicado. Isso significa que daqui a pouco teremos visita.
Dali a vinte minutos pousou um planador.
Auris de Las-Toor desceu, acompanhada por três oficiais. Rhodan foi ao seu encontro com o rosto mais inocente deste mundo e estendeu-lhe a mão. Auris apertou-a num gesto instintivo, mas soltou-a quase apressadamente.
Quero uma explicação para os acontecimentos da última noite — disse em tom frio. — O Conselho encarregou-me de comunicar-lhe que por enquanto o senhor não poderá sair do planeta. Só quando tivermos descoberto o culpado, poderemos cogitar de seu regresso à Terra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html