O Tenente
Groeder estava parado ao lado do Major Scott, quando o planador subiu
e afastou-se rapidamente com Rhodan, em direção à capital não
muito distante.
Jakobowski
juntou-se a eles.
— Isso
foi um tanto inesperado — observou em tom de dúvida. — Será que
Rhodan está sendo atraído para uma armadilha?
— Não;
em hipótese alguma! Podemos ficar bem tranqüilos, agindo em
conformidade com as instruções de Rhodan. A Odin decolará dentro
de dez minutos. Os acônidas já deram permissão para isso e ainda
não voltaram a ativar o campo energético. Gucky e Wuriu Sengu
realizarão uma excursão exploradora, a fim de verificar em que
ponto estão os trabalhos nas naves. Em virtude da imprudência
cometida pelo senhor, Jakobowski, seria muito arriscado recorrer aos
trajes arcônidas. Por isso Gucky depende da teleportação. Os
acônidas não contam com essa possibilidade.
— A
culpa não foi minha e...
— Ninguém
está acusando o senhor — disse Groeder, encerrando a discussão. —
Mantenha contato de rádio permanente conosco, Major Scott. Avise em
tempo a chegada da nave cargueira pela qual esperamos tão
ansiosamente. Quanto ao resto, o senhor está informado.
— Sim,
estou informado — Scott confirmou e despediu-se, para logo em
seguida voltar para a Odin. Dali em diante passou a ser apenas um elo
importante de uma corrente que deveria voltar a prender Ácon ao seu
sistema.
— Quando
devo saltar? — perguntou Gucky.
Groeder
olhou para o relógio que trazia no pulso.
— Daqui
a uma hora, quando começar a escurecer.
*
* *
Quando as
solenidades da recepção chegaram ao fim, e ele se viu a sós com
Auris de Las-Toor num aposento particular do palácio, onde o Grande
Conselho costumava realizar suas sessões, Rhodan sentiu-se muito
satisfeito.
Perry
deixou que a visão daquela mulher, extraordinariamente bela,
produzisse seus efeitos. Para ele, essa acônida era pura e
simplesmente a representante de sua raça. Não pôde deixar de
confessar que tinha uma personalidade impressionante. O cabelo cor de
cobre combinava muito bem com a tez morena aveludada, enquanto os
lábios vermelhos e cheios formavam um contraste encantador com os
olhos claros. Trajava um conjunto apertado e uma ampla manta violeta.
— Além
de encantadora a senhora também é muito inteligente — disse
Rhodan, em tom amável. — Nem tentou ocultar a instalação do novo
campo defensivo. A idéia foi sua?
Auris
retribuiu o sorriso. Entre aquelas criaturas tão diferentes havia
uma simpatia secreta, que nenhum deles queria confessar. Cada um
representava uma raça diferente e estava disposto a colocar
interesses da mesma sobre seus interesses pessoais. Por outro lado,
porém, nenhum dos dois queria enganar o outro ou fazer-lhe algum
mal. Por isso viram-se num dilema do qual parecia não haver saída.
— A
instalação foi ordenada pelo Grande Conselho — respondeu Auris. —
Achamos preferível não encobrir sua existência com o véu de um
segredo que só poderia dar origem a suspeitas. O campo energético
existe e será desligado toda vez que uma nave terrana peça
permissão para pousar.
— Aliás,
esse campo não me preocupa — confessou Rhodan e olhou para a
janela.
Lá fora
já começava a escurecer. Gucky e Wuriu Sengu já deviam estar a
caminho.
— Minha
vinda não tem a menor relação com o mesmo, embora a senhora talvez
supusesse que tinha — concluiu depois de uma pausa.
— Não
tínhamos opinião formada a este respeito — respondeu Auris,
esquivando-se à insinuação.
Rhodan
inclinou o corpo para a frente e fitou os olhos de sua interlocutora,
que enfrentou calmamente o seu olhar. Era uma adversária nada fácil.
— Vim
para esclarecer os acônidas sobre os acontecimentos que nestes
últimos meses têm semeado a inquietação na Galáxia. Sei
perfeitamente que por aqui não houve muito interesse por esses
acontecimentos, mas nem por isso os mesmos deixaram de produzir sua
influência em Ácon.
Rhodan
relatou em palavras sucintas e objetivas como Thomas Cardif assumira
o posto de administrador e criara uma confusão tremenda em quase
todos os setores. Concluiu da seguinte forma:
— Acabei
sendo libertado e restabeleci a ordem. Foi um trabalho muito duro,
mas se pudermos contar com a compreensão de Ácon poderemos dar o
caso por encerrado.
Auris
sorriu sem demonstrar o menor embaraço.
— Ficamos-lhe
muito gratos pelos esclarecimentos, administrador. Realmente certos
acontecimentos eram incompreensíveis aos nossos olhos, mas a esta
altura não o são mais. Afinal, foi graças a essas perturbações
que recebemos a frota espacial que nos foi fornecida por Árcon. É
mais um motivo de sermos gratos ao senhor.
— Ora,
isso não é nada — respondeu Rhodan com a maior tranqüilidade,
sem dizer uma única palavra sobre a frota espacial. Passou a outro
assunto, que parecia interessá-lo muito mais. — As relações
comerciais entre nossos mundos estão tomando um rumo bastante
satisfatório, Auris de Las-Toor. Não será esta a oportunidade de
discutirmos a possibilidade da ampliação de nosso território neste
planeta? Ainda acontece que não gosto de barreiras. Será que vocês
têm medo de espiões?
Auris
esboçou um sorriso amável e descontraído.
— Sobre
a ampliação da área poderemos conversar com o Grande Conselho, mas
as barreiras serão mantidas. A finalidade destas não consiste em
evitar atos de espionagem, mas em lembrar constantemente aos terranos
que Ácon não é nenhuma colônia, mas um império estelar
independente. A medida é puramente psicológica.
— Ah, é?
Fico-lhe muito grato — disse Rhodan, com um sorriso irônico. —
De qualquer maneira nunca nos esqueceríamos.
Depois
disso discutiram vários problemas. No fim combinaram que no dia
seguinte Auris visitaria a missão comercial terrana. Rhodan ficou
espantado porque a representante de Ácon não disse uma palavra
sobre o aparecimento misterioso de um homem invisível. Aliás, teria
sido inútil formular uma acusação contra um fantasma de cuja
existência não havia nenhuma prova além das declarações bastante
duvidosas de um soldado.
As
despedidas foram cordiais. Rhodan sentiu a simpatia de sua anfitrioa,
que ressaltava das palavras convencionais, sem exprimir-se
claramente. Seus olhos brilhavam, mas os gestos continuavam
comedidos. Rhodan teve de fazer um grande esforço para resistir à
tentação de segurar sua mão por mais tempo que o estritamente
necessário. Afinal, ainda era sua adversária, embora Rhodan não
pudesse deixar de se convencer que nunca se sentira tão contrariado
para lutar contra alguém. De qualquer maneira, o perigo era muito
grande. Auris nunca tomava as decisões sozinha. Atrás dela havia o
Grande Conselho de Ácon, formado por um grupo de homens dotados de
elevada agilidade mental, que só visavam ao bem de seu povo.
O planador
que deveria levá-lo de volta ao porto espacial terrano estava parado
à frente do palácio. Havia soldados formados em sua honra. Um
comando de robôs fez continência.
Auris
acompanhou o visitante até a escotilha. Voltou a estender a mão
para Rhodan, e desta vez teve a impressão de que a pressão de seus
dedos era mais forte.
— Até
amanhã, Perry Rhodan. Deverei chegar pelo meio-dia.
— Estaremos
à sua espera, madame — disse Rhodan em tom um tanto formal e
entrou na pequena nave.
Voltou a
acenar com a mão. Depois disso a escotilha fechou-se. Em alguns
segundos o palácio e a área fronteiriça foram tragados pela
escuridão da noite.
A noite
foi calma e sem incidentes. Gucky e Sengu voltaram pela meia-noite e
apresentaram seu relato a Rhodan. Ninguém notara sua presença ou
demonstrara qualquer desconfiança. Puderam fazer suas incursões com
a maior tranqüilidade e constataram que os comandos robotizados
realmente continuavam intactos. Com exceção dos microcontroles.
Pelo
meio-dia Auris chegou num planador, conforme era esperado. Estava
acompanhada de dois acônidas de meia-idade, que causaram boa
impressão em Rhodan. A recepção foi simples, mas muito mais
cordial do que costumam ser as recepções de chefes de Estado.
Ficaram
sentados bem à vontade na pequena varanda da casa, regalando-se com
os raios do sol e conversando. O campo energético azul não estava
ligado, fato que levou Rhodan a perguntar se não pretendiam ativá-lo
constantemente.
— Nossa
intenção não é esta — respondeu Auris. — Basta a certeza de
que a qualquer momento podemos recorrer a ele.
No seu
íntimo Rhodan sentiu-se aliviado, pois as palavras que acabara de
ouvir lhe permitiam esquecer um problema grave. Se o campo energético
fosse ativado ininterruptamente, seu plano poderia correr perigo.
— Não
queremos que o campo defensivo afete nossas relações, Perry Rhodan.
— Não
afetará, Auris. Mesmo entre amigos costumam ser tomadas certas
precauções. Permita que lhe pergunte qual é a opinião do Grande
Conselho sobre minha proposta de ampliar a zona franca?
Auris
apontou para os dois homens que a acompanhavam.
— Para
facilitar as coisas, trouxe os especialistas que não se negam a
discutir o assunto. No entanto, quero avisar desde logo que a
barreira transmissora será mantida, ou melhor, ampliada.
— Quanto
a isso, nada a objetar. Acho que a barreira representará um
obstáculo para eventuais ladrões ou contrabandistas. Espero que a
senhora também pense assim.
— Também
pensamos assim — disse Auris, com um sorriso.
A
discussão girou em torno da pretendida ampliação e terminou num
tratado assinado por Rhodan, Auris e os dois membros do Conselho.
Rhodan ficou satisfeito com o resultado da discussão, mas não
conseguiu evitar certo peso na consciência. Os acônidas tratavam-no
com a maior franqueza e suas propostas eram bem recebidas. Enquanto
isso, ele mesmo planejava uma traição, uma verdadeira traição.
Pretendia tomar-lhes a frota espacial. Será que isso era uma atitude
correta? Será que suas preocupações de que os acônidas poderiam
atacar a Terra conforme já haviam tentado por várias vezes não
eram exageradas?
Bem,
naquela oportunidade não conhecera Auris tão bem quanto a conhecia
hoje, mas por outro lado não deveria cometer o erro de pensar que
Auris fosse Ácon. Era apenas a representante do Grande Conselho e
tinha de seguir as ordens deste. Mesmo que essas ordens se dirigissem
contra ele, Rhodan, ela as cumpriria, pois o bem do povo era colocado
acima de tudo.
Mas a
consciência continuava a pesar-lhe.
Quando a
delegação se despediu, Rhodan prometeu que no dia seguinte
participaria pessoalmente de uma sessão do Conselho, durante a qual
usaria a palavra para formular propostas que visavam à ampliação
do comércio.
Os dois
acônidas já se encontravam no interior do planador que os levaria
de volta para a cidade. Auris e Rhodan ainda se encontravam no campo
de pouso. Auris estendeu-lhe a mão.
— No
futuro nossas relações deverão firmar-se e tornar-se cada vez
melhores — disse com a voz embaraçada. — Às vezes tenho a
impressão de que os acônidas têm mais em comum com a sua raça que
com a dos arcônidas, que são nossos colonos. De qualquer maneira,
os elos que ligam Ácon e a Terra são mais fortes que os que unem a
Terra a Árcon. Isso em termos muito gerais.
— O
imperador de Árcon e eu somos amigos, e esta amizade representa um
elo — respondeu Rhodan, sabendo perfeitamente qual era o sentido da
alusão que acabara de fazer. — É bem verdade que em termos gerais
a senhora tem razão. Os acônidas são uma raça mais atuante e
possuem maior agilidade mental que a maioria dos arcônidas, que
podem ser considerados uma raça degenerada. Possuem um imenso reino
estelar, mas este se encontra em desagregação. Seu povo, Auris,
nunca teve a ambição de construir um reino estelar desse tipo, e é
uma atitude que eu sei prezar muito. Nem sempre a sede de poder
constitui sinal de um espírito nobre.
Só agora
Auris retirou sua mão da de Rhodan. Confirmou com um aceno de
cabeça.
— Independentemente
de sua opinião sobre nosso povo, Perry Rhodan, o senhor sabe
distinguir entre mim como membro do Conselho e como...
Hesitou.
Rhodan animou-a com um sorriso.
— E como
mulher — concluiu Auris valentemente.
Ao
responder, Rhodan não se esquivou de seu olhar indagador:
— As
amizades pessoais entre os representantes de povos diferentes
contribuem para melhorar as relações entre os mesmos, Auris. Posso
garantir-lhe que, se não fosse Atlan, não teria tanto interesse por
Árcon. Seria bom se, em virtude da senhora, eu também pudesse ter
mais simpatia por Ácon. E que a senhora pudesse ter mais simpatia
pela Terra.
Auris
fitou-o prolongadamente. Depois confirmou com um gesto.
— Obrigado,
Perry Rhodan. Até amanhã.
Virou-se
abruptamente e entrou no planador. Fez um gesto de despedida antes
que a escotilha se fechasse. Rhodan seguiu o veículo com os olhos
enquanto o planador se erguia lentamente e ia se afastando.
Uma
tormenta emocional rugia em sua mente, ameaçando transformar-se num
caos. Apesar disso conseguiu voltar à casa com o passo firme e
tranqüilo.
Quando o
futuro da Humanidade estava em jogo, Perry não deveria considerar
seus sentimentos pessoais. Já provocara um tremendo perigo, quando
começara a amar uma mulher pertencente a uma raça estranha. Será
que o fato se repetiria?
*
* *
A nave
cargueira tão ansiosamente esperada só chegou dali a dois dias. As
autoridades acônidas concederam a permissão rotineira de pousar,
isso depois de o comandante ter apresentado a declaração da carga.
Naturalmente não mencionou os microcontroles guardados numa caixa.
Para seu
imenso espanto, Jakobowski viu diante de si um velho conhecido, que
não era outro senão o homem ao qual entregara há menos de uma
semana uma carta destinada a Rhodan. Samuel Graybound, comandante
espacial e co-proprietário de uma sociedade comercial privada,
recebera de Rhodan a missão delicada de levar os microcontroles para
Ácon. Para aquele velho fogoso isso representava uma ótima
oportunidade de dar uma demonstração de sua capacidade e das
qualidades de sua velha nave.
Quando
Graybound, que era um homem de seus cinqüenta anos, baixo e com o
abdômen avantajado, atravessou o campo de pouso, havia alguma coisa
colorida sobre seu ombro. Ao chegar mais perto, notou-se que era um
papagaio. Bicava alegremente a barba ruiva do dono, como se estivesse
procurando alguma coisa. Vez por outra soltava um grito e batia com
as asas. O nariz grosso de Graybound estava escondido entre um par de
enormes bochechas e brilhava num estranho tom vermelho-azulado, o que
de forma alguma provinha do uso excessivo do álcool, mas tinha sua
origem nos efeitos do sol azul.
Gucky
fitou o papagaio. Só depois de algum tempo olhou para Graybound.
— Você
não poderia ter evitado isso? — perguntou em voz baixa a Rhodan,
que se encontrava a seu lado e olhava o comandante da nave mercante
com um ligeiro sorriso. — Logo esse velho contrabandista com a ave
faladora.
— Não
poderia ter encontrado elemento melhor. — Respondeu Rhodan, também
em voz baixa, e acrescentou: — Não se esqueça de que Graybound
salvou nossa vida, quando fizemos o pouso de emergência no planeta
protoplasmático. Pode ser um esquisito, mas é um sujeito honesto. E
é só o que conta, Gucky.
O
rato-castor calou-se, um tanto envergonhado. Não era bem isso que
queria dizer. Mas sabia que Toureiro, o papagaio, beliscaria sua
cauda na primeira oportunidade, caso Gucky não se cuidasse.
Graybound
irradiava um espírito bonachão quando parou à frente de Rhodan e,
numa atitude bem paisana, colocou a mão direita no boné.
— Cumpri
as instruções, trazendo a carga para Ácon, sir — proferiu com a
voz rouca, piscando para Gucky. — Quer que mande iniciar
imediatamente a descarga?
Rhodan
apertou a mão do velho.
— Obrigado,
Graybound. O senhor nem imagina com que ansiedade o esperávamos.
— A mim,
ou à carga? — perguntou Graybound, voltando a piscar para Gucky. —
Então, sempre continua alegre e bem-disposto, baixinho? Faz tempo
que não nos vemos.
— Sinto-me
satisfeito em encontrá-lo nesta oportunidade — disse Gucky com
certo esforço, olhando de soslaio para Toureiro, que parecia
infundir-lhe um respeito tremendo. — Como vai essa ave?
— Toureiro?
— Graybound soltou uma estrondosa gargalhada. — Fica cada vez
mais inteligente. Ontem meteu-se a corrigir a rota da minha nave, que
havia sido calculada pelo computador positrônico. E não é que o
papagaio estava com a razão?
Rhodan
contemplou o céu azul, como se não tivesse outra coisa a fazer.
Alguém soltou uma risada. Por um instante Gucky sentiu-se perplexo,
mas logo leu a verdade nos pensamentos de Graybound.
— Vá
mentir pra outro! — protestou com a voz aguda e saiu balançando o
corpo, deixando de lado os cumprimentos.
Para
evitar brigas, Gucky fez de conta que não ouvira a observação de
Toureiro, que como sempre era muito adequada. Haveria de encontrar
uma oportunidade de fechar o bico dessa ave atrevida.
Dali a
meia hora havia pilhas de caixas ao lado da Lizard. Os primeiros
veículos de carga dos acônidas chegaram para receber as
mercadorias. Uma caixa maior marcada com a palavra Alimentos
desaparecera logo no início. Naquele momento encontrava-se no porão
da casa em que Rhodan estava residindo.
O
comandante Graybound estava presente quando a tampa da caixa foi
retirada. Trazia o papagaio sobre o ombro direito. O Tenente Groeder
afastou a camada de algodão destinada a amortecer os choques. As
caixinhas forradas com os reluzentes microcontroles estavam bem
empilhadas. Não eram maiores que um dedo humano.
Dependeria
dessas cápsulas aparentemente tão inofensivas para que Ácon
continuasse a dispor de uma frota espacial ou não. Graybound apontou
para as cápsulas.
— Que
contrabando é este? — perguntou. — Parece... parece... —
hesitou um pouco — bem, parece que são cargas de pistolas
energéticas.
— Não é
nada disso, meu velho. — Se fosse o senhor, não quebraria a cabeça
com estas cápsulas. Nunca encontrará a resposta correta. Por que
sobrecarregar a mente com isso? O senhor as trouxe e ganhou um bom
dinheiro. E essa quantia lhe foi paga inclusive para que o senhor não
faça perguntas.
Graybound
resmungou alguma coisa, cocou a cabeça e acabou confirmando com um
gesto.
— De
acordo, sir. Tem outras instruções para mim?
— Tenho.
O senhor decolará assim que a carga de retorno esteja a bordo.
Quando chegar a Terrânia, dirija-se ao centro comercial e entregue
uma cópia do novo tratado que firmei com Ácon. Mister Marshall lhe
entregará essa cópia. Em Terrânia lhe será confiada outra missão.
É só.
Graybound
apertou a mão de Rhodan, acenou alegremente para os outros homens e
fez meia-volta para retirar-se do recinto em que entrara por puro
acaso, quando procurava Rhodan. Mas antes que chegasse à porta,
Toureiro levantou vôo com um grito agudo, dirigiu-se de asas abertas
para a grande caixa, segurou um dos preciosos microcontroles e,
sempre soltando gritos agudos, passou por Graybound e subiu para o
corredor, de onde uma porta aberta levava para fora da casa.
— Pegou
uma das cápsulas! — gritou o tenente, em tom assustado. — Vamos
agarrá-lo!
Rhodan
passou por Graybound e correu atrás de Groeder. Ras Tschubai
teleportou-se e chegou ao campo de pouso antes dos dois homens.
Esforçaram-se em vão para localizar o papagaio. Se o pássaro
saísse voando com a cápsula e caísse nas mãos dos acônidas, todo
o plano poderia frustrar-se.
Graybound
subiu os degraus fungando e parou ao lado de Rhodan, esbaforido.
— Sinto
muito, sir — disse em tom embaraçado. — Toureiro costuma ser
obediente e não tem criado problemas. Não sei o que deu nele...
Rhodan não
respondeu. Vira um movimento no telhado achatado da casa. Recuou um
passo e avistou Toureiro, que agora estava brincando com a cápsula.
Quase no mesmo instante Gucky saiu da porta e fitou os homens
exaltados com uma expressão de indiferença.
— O que
houve? — perguntou em tom de tédio.
— Não
faça perguntas tolas. Está vendo o papagaio em cima do telhado? Vá
buscá-lo.
Gucky
prendeu a respiração.
— Buscá-lo?
Você permite mesmo que eu vá buscá-lo?
— Isso
mesmo. Tenha cuidado para não ter de voar atrás dele. É bem
verdade que, se deixar o microcontrole onde está, ele pode ir até a
próxima Galáxia, mas você não!
Gucky
adiantou-se mais um passo e fitou Toureiro.
O papagaio
nem desconfiava das faculdades maravilhosas do rato-castor. Sentia-se
seguro no telhado. Empurrava a cápsula reluzente à sua frente, sem
saber o que fazer com ela. Não reagia aos gritos do dono. Quando
notou o olhar concentrado de Gucky, gritou com a voz travessa:
— Alguém
quer alguma coisa? Alguém quer alguma coisa?
— Eu
quero! — chiou Gucky e teleportou-se.
Materializou
a menos de dez centímetros de Toureiro, que continuava a bater as
asas e olhar para o lugar em que Gucky estivera pouco antes.
Gucky
segurou Toureiro com ambas as mãos. A voz irônica do papagaio
terminou numa grande dissonância.
— Eu lhe
mostrarei o que acontece com quem rouba ovos dos ninhos dos outros —
disse o rato-castor com a voz ameaçadora e olhou para o lugar em que
os homens o fitavam ansiosamente. — Quer que eu lhe torça o
pescoço, Perry? Não sei se um papagaio em molho picante é um prato
saboroso. Para mim seria duro demais — pegou o microcontrole e
enfiou-o no bolso do uniforme. — Então, o que me diz, bicho
fantasiado?
A pergunta
fora dirigida a Toureiro, que deixou pender tristemente as asas e já
parecia conformado com a idéia de ter de morrer. Fitou Gucky com uma
expressão ingênua nos olhos semicerrados e disse com a voz trêmula:
— Retire-se
imediatamente do local, cavalheiro!
Graybound
gritou uma explicação:
— Este
papagaio passou alguns anos num botequim de cais de última
categoria. É por isso que usa essa linguagem. Solte-o, baixinho.
Afinal, você já recuperou o objeto que roubou.
— Quer
que eu o solte? — perguntou Gucky, dirigindo-se a Rhodan. Este
confirmou com um aceno de cabeça.
De repente
Toureiro recuperou a atitude orgulhosa e voltou a sentir-se seguro.
Ficou sentado por mais alguns segundos no braço de Gucky, alisou com
o bico as penas que ficavam embaixo do pescoço e desceu do telhado
com uma gritaria enervante, dirigindo-se diretamente para o ombro de
Graybound, onde pousou em segurança.
Gucky
seguiu-o num salto ligeiro. Tirou a cápsula do bolso e entregou-a a
Rhodan, que a fitou em atitude pensativa, refletindo sobre o milagre
que representava esse objeto pequeno e de aspecto insignificante,
capaz de ativar todos os comandos robotizados de um enorme couraçado.
Até um papagaio podia sair voando com isso.
Graybound
afastou-se. Falou por mais algum tempo com o papagaio, e todos
ouviram perfeitamente o papagaio repetir:
— Retire-se
imediatamente do local, cavalheiro!
Rhodan
seguiu-o com os olhos.
Um sorriso
de compreensão surgiu em seu rosto. Para Graybound, Toureiro
significava a mesma coisa que Gucky significava para ele.
*
* *
Os três
teleportadores e os especialistas que os acompanhariam prepararam-se
para entrar em ação. Sengu explicara mais uma vez a disposição
das naves. Não havia necessidade de outros esclarecimentos, pois os
técnicos sabiam perfeitamente o que fazer. Cada um deles levava uma
sacola com cinqüenta cápsulas de microcontrole. Poderiam dar-se por
satisfeitos se conseguissem instalar todos numa noite.
— Gucky,
você e o Tenente Jenner cuidarão em primeiro lugar dos couraçados
pesados da classe Império. Só depois disso cuide das outras naves.
Kakuta e Tschubai cuidarão dos cruzadores pesados. Não poderá
haver nenhuma revisão de trabalho, pois o tempo é muito escasso. Se
os acônidas perceberem que os microcontroles por eles retirados
voltaram ao mesmo lugar, naturalmente desconfiarão. Vocês terão de
terminar o serviço em duas ou três noites. Boa sorte.
O primeiro
salto foi realizado em conjunto. A fim de evitar que esbarrassem na
barreira de transmissão, escolheram como primeiro alvo o topo de uma
montanha não muito alta, que ficava na linha de visão direta acima
do fio. As naves reluzentes estavam enfileiradas lado a lado e seu
brilho metálico parecia revelar o poder tremendo que corporificavam.
— Foi
muito rápido — observou o Dr. Ranault, que pela primeira vez na
vida fizera a experiência de um salto de teleportação. Lançou um
olhar de admiração para seu companheiro, Tako Kakuta. — Já ouvi
falar muito a respeito, mas nunca acreditava que... bem, não me leve
a mal... que é tão fácil.
O japonês
esboçou um sorriso condescendente.
— Parece
fácil, doutor, mas o fato é que além da capacidade em mutação
isso exige uma forte dose de concentração. Antigamente nós
costumávamos errar o alvo ou os saltos falhavam pura e simplesmente.
Hoje as teleportações se transformaram em rotina.
— Daqui
em diante agiremos separadamente — disse Gucky, interrompendo a
palestra. — Cada um salta com seu parceiro. E não deveremos
esquecer que, quando voltarmos, deveremos saltar em primeiro lugar
para esta montanha. Seria muito desagradável se, em meio ao salto,
esbarrássemos no campo de transmissão.
— Naturalmente
— disse Ras Tschubai, em tom lacônico.
Segurou a
mão do Dr. Sorowski, sorriu para animar os outros e desapareceu à
vista de todos. Gucky esperou que Kakuta e o Dr. Ranault também
saltassem. Só depois disso fixou o alvo, segurou a mão do Dr.
Jenner e saltou.
O topo da
montanha voltou a ficar deserto, como se nunca tivesse sido pisado
por qualquer homem. Naquele mesmo instante, os homens que ali tinham
estado materializaram-se a muitos quilômetros, no porto espacial dos
acônidas.
A
gigantesca área era mais difícil de abranger com a vista do que
haviam imaginado. As sentinelas patrulhavam principalmente a área
periférica. Mantinham contato com canhões robotizados prontos para
disparar, que atirariam contra qualquer aeronave ou veículo espacial
que procurasse aproximar-se da área bloqueada. A fileira de
sentinelas era tão densa que seria praticamente impossível que um
pedestre passasse por ela sem ser descoberto.
Para os
teleportadores, essa fileira evidentemente não representava nenhum
obstáculo.
Gucky e
Jenner materializaram-se a mil e quinhentos metros de altura, no pólo
de um couraçado da classe Império. O campo de visão era bastante
restrito. De qualquer maneira, viam-se claramente os pólos
superiores das outras naves do mesmo tipo. O sol azul já descera
abaixo da linha do horizonte e escurecia rapidamente.
Jenner
apalpou a sacola com os micro-controles.
— Como
faremos para entrar na nave? Gucky olhou em torno.
— O
começo sempre é difícil. Mais tarde teleportaremos simplesmente de
uma sala de comando para outra, ou melhor, de um centro de controle
robotizado para outro. Mas antes disso terei de orientar-me. Siga-me
bem de perto, Jenner. Se houver algum imprevisto, segure
imediatamente minha mão, para estabelecer contato físico.
Entendido?
Jenner fez
que sim.
Não
encontraram nenhuma escotilha que não estivesse trancada e por isso
não tiveram outra alternativa, senão teleportarem-se para dentro da
nave. Não se encontraram com ninguém. Os acônidas não haviam
postado sentinelas no interior das naves. Gucky e Jenner não tiveram
qualquer problema em chegar ao centro de controle automático. Uma
vez lá, o especialista imediatamente se pôs a trabalhar.
Todos os
centros de ativamento eram do mesmo tipo, tanto nos grandes
couraçados como nos cruzadores ligeiros. No fundo, a montagem da
cápsula era simples, mas assim mesmo a operação só poderia ser
realizada pela mão experimentada de um especialista, cujos dedos
sensíveis seriam capazes de colocá-las na posição correta, de
maneira tal que houvesse contato nas duas pontas. Além disso, era
muito importante que as instalações não entrassem logo em
atividade. Haveria apenas um minúsculo receptor robotizado, que a um
determinado sinal de comando transmitiria o impulso capaz de ativar o
gigantesco sistema de controle robotizado. Quando isso acontecesse,
não haveria mais possibilidade de dar uma contra-ordem.
Jenner
recuou um passo.
— Pronto,
Gucky. A primeira cápsula foi colocada.
O
rato-castor riu. Parecia satisfeito.
— Tomara
que com as outras também seja tão fácil. Acho que o senhor terá
bastante inteligência para ir buscar outras cápsulas, caso termine
antes do tempo.
— Foi o
que combinamos, baixinho. Não vamos perder tempo. Cuidemos da
próxima nave.
Pelas duas
horas da madrugada, tempo terrano, Gucky e Jenner haviam preparado os
vinte couraçados e trinta outras unidades. Saltaram de volta para o
entreposto comercial, onde ficaram sabendo que Kakuta e o Dr. Ranault
já haviam estado lá para reabastecer-se. O japonês tinha certeza
de que antes do nascer do sol conseguiria cuidar de cem naves.
Jenner
voltou a encher a sacola. No momento em que se dispôs a saltar
juntamente com Gucky, chegaram Ras Tschubai e o Dr. Sorowski. Até o
nascer do sol realmente ativariam quase um terço da frota.
As coisas
pareciam ser mais fáceis do que se previra.
Durante
três dias e noites, tudo correu bem.
Na quarta
noite aconteceu o incidente fatal...
Foi um dia
cansativo.
Perry
Rhodan obteve permissão de sair de Ácon numa nave cargueira. Não
indicou o destino da viagem, mas deixou claro que voltaria na noite
seguinte. Ninguém fez perguntas. Rhodan teve oportunidade de, uma
vez no espaço, passar para a Odin, que o aguardava na periferia do
sistema, e fazer uma troca de mensagens de hiper-rádio com Atlan.
O Major
Scott ficou satisfeito de rever Rhodan. Apresentou o relato em
palavras lacônicas, conforme era seu costume.
— Mantivemos
contato com Reginald
Bell em
seqüência ininterrupta. Encontra-se com a frota a dez anos-luz
daqui, no setor espacial constante das instruções.
— Excelente
— disse Rhodan, muito satisfeito. — Já está informado?
— Bastará
transmitir o sinal combinado, sir.
Rhodan
respondeu com um aceno de cabeça e dirigiu-se para a sala de rádio,
onde o rosto de Atlan já o fitava da tela. Os distorçores haviam
sido ligados, para que ninguém pudesse compreender uma palavra da
palestra. Além disso, Rhodan não falou nada além do estritamente
necessário.
— Já
está informado, Atlan?
— Tudo
entendido, Perry.
— Nossa
estação montada em Ácon está pronta para a recepção. Até aqui
tudo correu bem. Assim que eu lhe transmitir a senha, você saberá o
que fazer. Se não acontecer nada, voltarei a entrar em contato com
você de bordo da Odin. Até lá faça votos de que tudo continue a
dar certo.
Falaram
mais quinze minutos sobre as providências a serem tomadas. Depois
disso cortaram a ligação. Rhodan tinha certeza de que os acônidas
não podiam ter conhecimento da palestra, pois possuíam poucas naves
para dar-se ao luxo de manter um serviço permanente de escuta
espacial. As ondas de hiper-rádio não poderiam ser captadas na
superfície de Ácon.
O Major
Scott esperou cinco horas antes de levar Rhodan de volta para o
entreposto comercial. Também recebeu uma série de instruções
especiais. Decolou imediatamente para manter-se no espaço, onde
seria um importante elo de ligação entre Rhodan de um lado e Bell e
Atlan do outro. Sabia perfeitamente o que devia fazer, mesmo que o
contato com Rhodan fosse interrompido.
Isso
aconteceria no momento em que os acônidas ativassem o campo
energético azul, que não permitia a passagem da matéria nem das
ondas comuns de rádio.
Já fazia
bastante tempo que Gucky, Ras Tschubai, Jenner e o Dr. Sorowski
tinham voltado para a casa residencial, situada na área do porto
espacial. Todos os microcontroles haviam sido instalados. Tako Kakuta
e o Dr. Ranault ainda não tinham voltado mas, como só tinham levado
vinte cápsulas, logo deveriam concluir o trabalho e regressar à
base.
Sempre
havia atrasos; devia-se contar com isso. Era possível que um dos
suportes do setor de ativamento de um computador estivesse muito
apertado e o Dr. Ranault fosse obrigado a fazer uma correção. Isso
poderia levar dez minutos ou uma hora.
Só à
meia-noite, quando Tako Kakuta apareceu só, materializando-se em
meio às pessoas que esperavam nervosamente, compreenderam: Alguma
coisa não dera certo.
O
teleportador japonês explicou em palavras apressadas...
*
* *
Haviam
saído com vinte cápsulas.
Ranault
conhecia o trabalho. Seria perfeitamente capaz de montar os
microcontroles com os olhos vendados. Não era isso que o deixava
nervoso. O que o enervava era simplesmente o fato de que já montara
mais de duzentas cápsulas sem que houvesse qualquer incidente.
A tarefa
parecia fácil demais.
Quando
tentava montar com as mãos trêmulas a décima segunda cápsula,
esta escapou dos seus dedos e caiu ao chão.
Kakuta deu
um salto, mas não conseguiu segurá-la.
— Está
quebrada? — perguntou em tom preocupado.
Ranault
hesitou um pouco.
— Não
tenho certeza — abaixou-se e examinou a cápsula. — Por fora não
se vê nada. Teremos de experimentar — de repente aguçou o ouvido.
— Ouviu alguma coisa, Kakuta?
O japonês
recuou alguns passos e comprimiu a orelha direita contra a porta
fechada. Teve a impressão de que ouvia alguma coisa, mas não
conseguiu identificar o ruído.
— Deve
haver mais alguém na nave, Ranault. Vamos dar o fora.
— Só
depois que eu tiver instalado o controle — respondeu o técnico e
abriu o setor de ativação.
Kakuta
ficou parado junto à porta. Contemplou os enormes geradores e
quadros de comando, as ramificações do comando robotizado e os
bancos de energia dos computadores positrônicos. Tudo isso ficava
num pavilhão que tinha ao menos trinta metros de comprimento e quase
a mesma largura.
O ruído
às suas costas foi tão súbito que não teve tempo de virar-se.
Apenas conseguiu dar um passo para o lado. No mesmo tempo, a porta
abriu-se violentamente e dois acônidas com a farda de policiais
entraram.
— Deve
ser aqui — disse um deles, apontando para a frente.
Não viram
Kakuta, que teleportou-se para o corredor. Era tarde para levar
Ranault. Talvez o técnico fosse bastante inteligente para
esconder-se atrás de uma máquina e ficar quieto até que os dois
acônidas fossem embora.
— Isso
mesmo; o alarma veio daqui — confirmou o outro policial e examinou
a confusão das instalações reluzentes, cuja finalidade
desconhecia. — Aqui não é o número trezentos e dez?
Ranault
abaixara-se instintivamente quando a porta foi aberta. Segurava o
microcontrole na mão. Não tivera tempo de montá-lo. O setor de
ativação do cérebro estava aberto. Se os acônidas percebessem...
Felizmente
os dois guardas não eram técnicos. Sua tarefa consistia unicamente
em cuidar para que ninguém entrasse na nave. E só haviam vindo
porque em algum lugar soara um alarma. Kakuta lembrou-se vagamente de
ter visto sentinelas que patrulhavam a área entre as naves
estacionadas. Por que o tal alarma não soara antes? Por que isso
acontecera justamente nesse momento?
Infelizmente
nunca saberia as respostas a estas perguntas.
Um dos
acônidas voltou a sair da sala e dirigiu-se para o corredor. Kakuta
não teve outra alternativa senão desaparecer imediatamente. Não
foi intencionalmente, mas antes por instinto, que seu salto o levou
para a montanha e dali para a base, onde materializou-se sem Ranault.
Rhodan
sentiu-se preocupado.
— Por
que voltou sem Ranault, Kakuta? Sem o senhor estará completamente
indefeso e...
— Não
foi por querer, sir. Voltarei imediatamente e...
— O
senhor não sabe o que aconteceu neste meio tempo. Fique.
Rhodan
arrependeu-se imediatamente de ter gritado com seu mutante. Imaginava
que o japonês estava submetido a uma pesada carga psicológica.
— A
culpa não foi sua, Kakuta. Tranqüilize-se. Gucky, que é pequeno,
poderá esconder-se melhor. Irá para lá e trará Ranault.
Gucky
aproximou-se e deu uma palmadinha cordial nas costas de Kakuta.
— Não
se preocupe, baixinho. Eu o tirarei de lá.
Gucky era
menor que Kakuta, mas o japonês realmente era baixo e franzino.
— Isso
pode acontecer a qualquer um. Para dizer a verdade, este negócio
também me afetou bastante. A esta altura só faltam oito naves.
Estas não deverão representar nenhum problema — concluiu Gucky.
Mal acabou
de falar, desapareceu.
Neste meio
tempo Ranault se retirara mais para o interior da casa de máquinas.
Não tirava os olhos do acônida que continuava no pavilhão. O outro
desaparecera, tal qual Kakuta. De qualquer maneira Ranault teve a
impressão de que este que se encontrava por ali representava um
sério perigo, pois achava-se bem ao lado do setor de ativação do
computador. A tampa atrás da qual seria instalado o microcontrole
estava bem aberta.
Se aquele
acônida entendesse um pouquinho do assunto...
De
qualquer maneira teria de fechar a tampa e encontrar um esconderijo
para as nove cápsulas de controle. Depois disso não se importaria
em ser preso pelos acônidas. Mas era possível que antes disso
conseguisse instalar a cápsula na nave em que se achava.
O outro
acônida voltou.
— Gostaria
de saber qual foi o motivo do alarma — disse.
Ranault,
que aprendera o arcônida antigo num processo de ensinamento
hipnótico, entendeu cada palavra. Os dois homens encontravam-se a
menos de cinco metros. Suas pesadas armas de radiações faziam
prever o pior.
— Viu
alguma coisa? — perguntou ainda o mesmo acônida.
O outro
respondeu que não. Olhou em torno e chegou a dirigir os olhos bem na
direção em que estava Ranault. O técnico abaixou-se ainda mais.
“Tomara
que não me descubram”,
pensou.
Não
trouxera arma. Justamente na última missão ele a deixara em casa,
porque até então tudo fora tão fácil e a arma de radiações o
incomodava.
— Acontece
que alguém deve ter passado na frente da câmara, pois do contrário
não teria sido dado o alarma. E foi nesta sala.
— Onde
estamos?
— Não
tenho a menor idéia. Suponho que se trate de uma sala de controle,
mas não da sala de comando — pôs-se a refletir. — Vamos
revistar o lugar; talvez descubramos alguma coisa.
Ranault
rastejou cautelosamente para trás, à procura de um esconderijo
melhor. Se fosse descoberto, deveria buscar a melhor maneira de lidar
com eles. Onde estaria Kakuta? Será que o teleportador perdera o
autocontrole e o abandonara? Se fosse assim, ninguém poderia
acusá-lo por isso, pois as últimas noites os haviam cansado muito.
Encontrou
um corredor estreito e avançou de quatro. Depois de passar pela
primeira curva ficou deitado e pôs-se a escutar. Não via mais os
dois acônidas, mas ouvia seus movimentos. Em sua opinião ninguém
costumava pisar nesse túnel estreito, que apenas representava um
espaço inaproveitado, situado entre os instrumentos e outros
equipamentos robotizados. No momento em que chegou a essa conclusão
voltou a lembrar-se dos microcontroles. Em hipótese alguma deveria
ser descoberto com os microaparelhos.
Empurrou a
sacola para dentro de uma pequenina abertura. No lugar em que agora
se encontrava, mal conseguia tocá-la com a mão. Mesmo que a nave
continuasse em poder dos acônidas, poderia demorar vários anos ou
mesmo decênios até que a sacola fosse descoberta por algum acaso.
Isso só poderia acontecer por ocasião de uma reforma geral.
Ranault
guardou no bolso um dos controles. A sacola escondida constituía
mais um motivo para que fizesse o possível para instalar essa
cápsula, a fim de que a nave pudesse participar da operação
planejada. Caso não conseguisse, o doutor teria ao menos feito o que
estava ao seu alcance para evitar que o plano fosse descoberto antes
da hora.
Virou-se e
rastejou um pedaço na direção de que viera.
De repente
viu os pés de um dos policiais acônidas a menos de dois metros do
lugar em que se encontrava. O acônida estava bem à frente do seu
esconderijo e naquele momento se abaixava.
*
* *
Gucky
cometeu um erro bem perdoável: foi parar na sala de comandos
robotizados da nave errada. Kakuta lhe explicara da melhor maneira
possível a posição do cruzador ligeiro em que estivera, mas havia
umas cem naves desse tipo estacionadas no campo de pouso.
O
rato-castor materializou-se e imediatamente se abaixou atrás de um
gigantesco bloco metálico, no interior do qual havia certo tipo de
mecanismo. Aguçou o ouvido, mas não notou nada. Se Ranault ainda
continuasse por ali, deveria estar muito bem escondido.
De
qualquer maneira, os acônidas não estavam mais, pois não ficariam
tão quietos. Naquele momento Gucky ainda não tivera a idéia de que
poderia ter entrado na nave errada.
Quando
teve certeza de encontrar-se na sala de controle teve uma idéia.
Segundo lhe dissera Kakuta, existia um total de nove cruzadores
ligeiros, nos quais ainda não haviam sido instalados os
microcontroles. Este era um deles. Gucky nunca se atreveria a
instalar uma dessas cápsulas supersensíveis, mas vira muitas vezes
como Jenner costumava fazê-lo. Por isso sabia onde eram colocadas as
cápsulas.
Caminhou a
passos saltitantes até o setor de ativação. A tampa estava
fechada. Concluiu que a cápsula ainda não fora montada. Apesar
disso resolveu abrir a tampa. Foi então que teve a primeira
surpresa. O microtransmissor estava no lugar em que deveria estar.
“Será
que apesar de tudo Ranault instalou o aparelho antes que os acônidas
o descobrissem e levassem?”,
pensava Gucky. “Aquele
francês era bem capaz de uma proeza dessas...”
Gucky
começou a desconfiar de que poderia haver uma outra possibilidade, e
de repente teve a impressão de que esta não era tão remota.
“Encontro-me
na nave errada! Até é possível que esta seja uma das naves em que
já estive antes!”,
concluiu mentalmente.
Gucky
teleportou-se para o pólo do cruzador ligeiro e olhou cautelosamente
em torno.
Os
cruzadores ligeiros formavam uma fileira comprida. As unidades
maiores cercavam-nos como se quisessem protegê-los. Dois acônidas
patrulhavam a faixa larga, coberta quase completamente pelo
abaulamento das naves esféricas. Os dois homens uniformizados saíram
do campo de visão de Gucky, que se sentiu perplexo, sem desconfiar
de que cada segundo que passava era muito importante.
“Quem
sabe se eu experimentar a nave do lado...?”
Gucky
olhou instintivamente pela fileira das naves e constatou que era a
última fileira de cruzadores ligeiros. Sem dúvida. Tinham começado
a operação do lado oposto e chegaram até aqui. Não havia a menor
possibilidade de engano.
Gucky
contou as naves.
Encontrava-se
em cima do décimo cruzador, contado a partir do fim da fileira.
— Sou
mais estúpido do que Bell costuma dizer — observou numa atitude de
auto-recriminação. Resolveu que não revelaria seu insucesso a
ninguém, pois zombariam dele.
A nona
nave estava bem a seu lado.
Saltou
diretamente para dentro da mesma e materializou-se junto à porta que
dava para a sala de controle. Desta vez tinha certeza de que não se
enganara, pois ouviu vozes. Aproximou-se da porta que apenas estava
encostada e entendia o que falavam.
— Ouço
alguém respirar.
— Onde?
— Aqui,
no espaço entre as máquinas. Há alguém lá dentro.
Gucky
adiantou-se e lançou um olhar para dentro do grande pavilhão. Viu
os dois acônidas, que se encontravam mais ao lado. Estavam de pé
num corredor. Um deles abaixava-se para examinar atentamente alguma
coisa que Gucky não via. Naquele momento alguns pensamentos
começaram a tornar-se mais nítidos em meio à confusão de impulsos
mentais captados por Gucky. Até então não prestara a necessária
atenção a isso. Caso não se concentrasse, jamais conseguiria
delimitar os impulsos de Ranault. Mas o acaso veio em seu auxílio.
Ranault
viu os pés do acônida bem à sua frente. Seu susto foi tamanho que
provocou uma fagulha mental. E esta atingiu os órgãos perceptivos
de Gucky com toda a força de seu impacto.
O contato
acabara de ser estabelecido, mas era apenas um contato unilateral.
Naquele
momento Gucky defrontava-se com um problema. Precisava descobrir um
meio de pôr os dois acônidas fora de combate sem que o vissem ou
reconhecessem. Não queria nem deveria matá-los. Mas se continuassem
vivos, poderiam prestar declarações e trair sua presença.
— Dê-me
sua lanterna — disse um dos acônidas.
Gucky já
havia compreendido que Ranault estava deitado no túnel estreito e
percebera o perigo que o ameaçava: seria descoberto pelos acônidas.
E o técnico estava indefeso.
Gucky
afastou-se um pouco e escondeu-se atrás de um bloco metálico
prateado.
— Estão
à minha procura? — piou com a voz aguda e logo mudou de lugar.
Os dois
acônidas sacaram as armas, esquecendo Ranault e o corredor estreito.
— Deve
estar por ali. Vá por esse lado, enquanto eu vou por aqui. Se
possível devemos pegá-lo vivo.
Separaram-se,
fazendo exatamente aquilo que Gucky desejava. Seria mais fácil
enfrentá-los um de cada vez. Estava muito bem escondido e esperou
até que conseguiu ver o primeiro guarda. Assim que isso aconteceu,
fez uso de suas faculdades telecinéticas.
No século
anterior as faculdades parapsicológicas do cérebro humano ainda
pertenciam à área dúbia das chamadas ciências ocultas. Ninguém
tinha coragem de reconhecer a existência dessas faculdades. Muitos
cientistas arriscavam sua reputação quando ocupavam seu tempo em
experiências nesse setor. Mas subitamente apareceram os mutantes,
criaturas que haviam sido atingidas positivamente pelas radiações,
e suas capacidades cerebrais adormecidas despertaram de repente.
Essas criaturas muito contribuíram para o desenvolvimento da
Humanidade, e sob certo prisma podiam ser consideradas monstros.
Gucky não
era um ser humano. Vinha do planeta Vagabundo. Os seres de sua raça
nasciam com o dom da telecinese. Na juventude não conhecera
brincadeira mais agradável que a de mover objetos distantes por meio
de suas forças mentais e levá-los a um lugar diferente.
Ao ser
atingido pelos fluxos mentais de Gucky, o acônida endureceu de
repente. Nem sequer conseguia mover a boca. Subitamente perdeu o
apoio dos pés. Gucky estava entretido em sua brincadeira predileta,
mas naquele momento a mesma tinha um fundo sério e decisivo. O
acônida não deveria vê-lo.
Gucky fez
com que o homem totalmente indefeso subisse ao teto, tomando cuidado
para que seu companheiro não notasse o estranho fenômeno. Depois
fê-lo voar de cabeça para a frente contra a parede oposta. O guarda
ficou inconsciente. O rato-castor pousou-o suavemente no canto mais
afastado. Levaria algumas horas para recuperar os sentidos e poder
dizer alguma coisa. Restava saber se alguém acreditaria no que
dissesse.
Faltava o
outro.
Ranault já
percebera que o perigo imediato fora afastado. Reconhecera
perfeitamente a presença de Gucky. O técnico saiu cautelosamente do
seu esconderijo e ergueu-se. Não viu nenhum acônida nem enxergou o
menor sinal de Gucky.
Era a
chance pela qual esperara.
Tirou do
bolso a cápsula que lhe restava e correu para o setor de ativação.
A tampa continuava aberta. Ninguém percebera. Num movimento
apressado, mas cauteloso, enfiou o microcontrole no suporte de mola,
verificou sua posição e ligou o receptor robotizado para o
respectivo sinal. Depois disso fechou a tampa e soltou um suspiro de
alívio.
Lembrou-se
das oito cápsulas escondidas. “Devo
buscá-las?”,
indagou-se.
Viu-se
dispensado de tomar uma decisão sobre isso.
— “Ranault.
Onde está você? Responda! É Gucky!” — pensou. — “Será
que conseguiu livrar-se dos dois acônidas?”
— Aqui!
— gritou Ranault e olhou em torno. Estou aqui.
— Vá
para o corredor! Já irei para lá. Gucky falara em inglês, não em
arcônida.
Ranault
esqueceu-se da sacola com as oito cápsulas e correu em direção ao
corredor, mas Gucky demorou a aparecer.
E teve
motivo para isso.
Com o
primeiro acônida as coisas haviam sido tão fáceis que Gucky se
tornou menos cuidadoso. Quando acordasse, o sujeito poderia contar o
que lhe desse na cabeça. Não vira ninguém e por isso mesmo não
poderia fornecer nenhuma descrição. Talvez acreditassem no que
dissesse, talvez não.
Respondeu
e transmitiu suas instruções a Ranault.
O técnico
já devia estar no corredor, onde os guardas não poderiam vê-lo. No
momento em que Gucky pensava nisso, muito satisfeito, um raio
energético passou tão perto de suas costas que chegou a
chamuscar-lhe o pêlo. Sentiu o calor e teleportou-se instintivamente
para a outra extremidade da sala.
Fora
descoberto pelo acônida, que o vira perfeitamente. O tal guarda
atirara contra o estranho visitante, mas não acertara. No mesmo
instante, o intruso desaparecera.
O acônida
parou, perplexo, olhando em torno. Mantinha a arma pesada pronta para
disparar. Onde estaria o desconhecido? Não era possível que se
dissolvesse no ar.
Ouviu um
ruído num canto. Abaixou-se e correu na direção do ruído o mais
depressa que pôde. Até mesmo seu pior inimigo não poderia deixar
de reconhecer que aquele homem não sabia o que era medo. Estava no
interior de uma nave, a sós com um desconhecido que devia possuir
faculdades espantosas.
Quase
tropeçou no companheiro, que jazia inconsciente. No primeiro momento
acreditou que estivesse morto, mas logo viu que se enganara. Aquele
homem devia ter batido com a cabeça na parede. Sem que o quisesse o
acônida olhou para cima e viu algumas manchas de sangue bem embaixo
do teto.
A
conclusão que teve de extrair da sua observação não resistiria a
qualquer das leis da lógica. Seu companheiro devia ter voado em
posição horizontal, quatro metros acima do solo, para bater com a
cabeça na parede. Acontece que um acônida não sabe voar, ao menos
sem certos equipamentos.
Saltou
para trás do gerador mais próximo, pois ouviu passos cautelosos.
Alguém aproximava-se.
Naturalmente
esse alguém era Gucky, que avistou o acônida e captou seus
pensamentos.
“É
uma pena que já começou a suspeitar”,
pensou. “A
essa hora já sabe que o autor das brincadeiras não é um acônida.”
Gucky
contornou cautelosamente o gigantesco gerador e... subitamente viu-se
a frente com o acônida.
Agiu com
uma rapidez tremenda, mas não pôde evitar que o acônida o fitasse
por um segundo que parecia uma eternidade. A arma adquiriu sua
independência e caiu em algum lugar entre as máquinas. Depois disso
uma força invisível começou a girar o acônida, cada vez mais
rápida e violentamente, até que os objetos que se encontravam na
sala desaparecessem diante de seus olhos.
Ficou
inconsciente, pois a pressão fora muito grande.
Gucky
segurou a mão do acônida. e teleportou para cima do pólo do
couraçado mais próximo. Colocou o homem inconsciente nesse lugar e
teve certeza de que nunca se poderia encontrar uma explicação de
como o guarda conseguira subir ao topo da nave. A afirmativa de ter
achado um desconhecido numa outra nave se tornaria ainda mais
inacreditável.
— Isto é
apenas um paliativo — confessou Gucky a si mesmo. — Mas que mais
posso fazer?
Teleportou-se
de volta e tirou Ranault da incerteza. Naquele momento, o técnico
esqueceu-se completamente dos oito microcontroles que deixara para
trás e sentiu-se satisfeito por ver o rato-castor.
— Ora
veja, Gucky! O que houve?
— Quer
saber o que houve com os acônidas? Estão dormindo. Vamos embora!
Depressa!
Saltaram
para o topo da montanha e dali para o entreposto comercial, onde já
estavam sendo esperados com grande nervosismo e preocupação. Gucky
apresentou seu relato, sem ocultar nada. Admitiu a possibilidade de
ter sido reconhecido pelo guarda, embora este não o visse por mais
de um segundo. Por outro lado era pouco provável que alguém
acreditasse nele, pois suas palavras iriam parecer fantásticas
demais.
— Deixei
a sacola com as oito cápsulas na nave — confessou Ranault. —
Está muito bem escondida; ninguém a encontrará.
— A nave
foi preparada; logo, receberemos as cápsulas de volta — disse
Rhodan, pausadamente. — Seria muito perigoso prosseguirmos na
operação.
— Ainda
faltam oito cruzadores ligeiros — ponderou Marshall.
— É
preferível que os acônidas fiquem com eles a que nos descubram
nesta altura — decidiu Rhodan. — Ainda temos algumas horas até o
raiar do dia. Vamos para a cama. Quem sabe o que nos aguarda amanhã?
Gucky
sentiu-se martirizado pelas preocupações.
— Por
que não damos o fora? Temos algum motivo para ficar aqui até que
desconfiem?
— Ah, é?
Então você acha que não desconfiarão se desaparecermos de repente
no meio da noite? Até parece que você se esqueceu de que para
amanhã programei uma visita às instalações agrícolas juntamente
com Auris. Ninguém poderá provar nada contra nós. Tenho de cumprir
meu programa diplomático.
— Ah,
sim, Auris — disse Gucky como quem compreende tudo e retirou-se.
Assim que
o dia começou a raiar, Rhodan foi acordado de forma bastante
violenta. Estanislau Jakobowski entrou correndo no quarto de Rhodan,
sem fazer-se anunciar.
— Sir, o
campo energético azul! — gritou. — Voltaram a ligá-lo. As
comunicações com a Odin estão interrompidas.
Rhodan não
se levantou logo.
— Era o
que eu imaginava. Então encontraram os homens. Ninguém pode negar
que sabem agir depressa — fez um sinal para Jakobowski. — Está
bem. Acorde os outros. Encontramo-nos daqui a dez minutos, na sala de
estar.
Esperou
que Jakobowski se retirasse. Depois levantou-se e mudou de roupa.
Lavou-se, penteou-se cuidadosamente e certificou-se de que só dali a
algumas semanas seria necessário fazer a barba. Aliás, não faria
propriamente a barba, mas antes realizaria uma depilação com um
preparado adequado.
Quando
Rhodan entrou na sala, o Tenente Groeder estava de pé ao lado de
Marshall. Os rostos dos dois estavam preocupados, mas Rhodan sorriu.
— Aconteceu
exatamente aquilo que esperávamos — disse ao sentar-se. — Os
acônidas perceberam alguma coisa, mas aposto o que quiserem que não
têm a menor idéia dos nossos planos.
— E o
campo azul? — perguntou Groeder. — Perdemos o contato com a Odin.
— O
Major Scott agirá em conformidade com as instruções. Avisará
Atlan e Bell. O tempo trabalha a nosso favor, não a favor de Ácon.
Pelo menos desta vez não.
Axel
Wiener entrou.
— O
campo energético azul envolve Ácon a dez quilômetros de altura —
disse, anunciando o resultado da primeira medição. — Nenhuma nave
linear conseguirá passar, sem espatifar-se no chão.
Rhodan
confirmou com um gesto.
— Quer
dizer que são dez quilômetros — parecia pensativo. — O tráfego
aéreo sobre Ácon não será prejudicado. Isso significa que daqui a
pouco teremos visita.
Dali a
vinte minutos pousou um planador.
Auris de
Las-Toor desceu, acompanhada por três oficiais. Rhodan foi ao seu
encontro com o rosto mais inocente deste mundo e estendeu-lhe a mão.
Auris apertou-a num gesto instintivo, mas soltou-a quase
apressadamente.
— Quero
uma explicação para os acontecimentos da última noite — disse em
tom frio. — O Conselho encarregou-me de comunicar-lhe que por
enquanto o senhor não poderá sair do planeta. Só quando tivermos
descoberto o culpado, poderemos cogitar de seu regresso à Terra.

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