quinta-feira, 1 de setembro de 2016

P-106 - O Deus Falso - Kurt Mahr [Parte 3]

Ron sentiu o perigo que pesava sobre ele. De um momento para o outro, perdeu toda a insegurança e toda dúvida que vinha sentindo até então. Estava ali, sem se mexer, a três metros do quadrado negro, com todos os sentidos aguçados.
De repente levantou-se um rolo de fumaça. Parecia provir do quadrado, embora nele não houvesse nenhuma abertura de onde pudesse sair. A fumaça tornou-se fina e azulada, cheirando a fogo de madeira. Era uma fumaça que fazia Ron pensar muito em sua casa, e não ficava nada bem aqui, neste local de sacrifício à divindade das sempre-verdes. Tão estranho era o cheiro da fumaça que Ron, por algum tempo, julgou tratar-se de alucinação.
Soou novamente o gongo, surdo e cavernoso. Desta vez, vinha mesmo das profundezas do solo. O quadrado negro desapareceu sob a constante coluna de fumaça, que agora se adensava mais, tornando-se opaca. As vibrações dos gongos ficaram mais fortes e estridentes e vozes berrantes e agudas se misturavam de permeio.
Ron sabia o que significava isto: era a chegada do deus. Como todos os deuses, tinha este também um método especial de se manifestar aos seus crentes, transidos de medo e veneração.
Compreendeu ainda algo mais importante: chegara também o momento para uma ação rápida. Agora, que toda a atenção se convergia para a fumaça sagrada, que subia aos céus, e que ninguém olhava para os três prisioneiros, era o momento.
Atenção! — gritara Ron para ser ouvido pelos dois colegas ali perto, apesar do som dos gonzos e da gritaria geral. — Ali para dentro!
Estava certo de que Lofty e Larry o seguiriam. Não tinha mais tempo para se preocupar com os dois. Com um grande salto, deixou o local, onde estava sem se mexer, e desapareceu na coluna cinza-azulada da fumaça.
8



Pecamos... perdoai-nos, Senhor! O príncipe das trevas nos dominou. Merecemos vossa cólera... mas perdoai-nos, Ayaa-Oooy. A vida toda expiaremos nosso erro, se merecermos vosso perdão.”

A fumaça o impediu de respirar. Fechou automaticamente os olhos e deixou-se cair para frente. Os braços, deixou-os estirados para sentir o chão debaixo de si. Mas não havia mais chão. Um pavor incrível se apossou dele. Estava caindo.
O medo paralisou-o, mas logo a queda foi interrompida. Caiu sobre alguma coisa macia. Teve a impressão de que essa coisa macia era composta exclusivamente por cabelos. De qualquer maneira, a coisa gritava e estalava assustada, desvencilhando-se. Ron perdeu o equilíbrio e caiu um pouco mais para baixo.
Quando, porém, se levantou, sentiu chão firme. Sem saber por que, rolou para o lado. Ouviu, logo acima dele, dois baques sucessivos. O grito se repetiu, desta vez, porém, num tom quase de pânico. Alguma coisa tombou bem rente a ele no chão e, logo a seguir, outra coisa idêntica.
Segundos depois, ouviu um barulho, vindo do alto, barulho este que parecia uma ameaça. Rolou ainda mais para o lado, embora ainda mantivesse os olhos fechados, não podendo ver o que lhe ia em volta. Bateu alguma coisa no chão a poucos metros dele e um grito, uma voz humana desesperada, fez-se ouvir:
Corre, é uma coisa horrorosa...
Passos apressados. Alguma coisa atirou Ron para o lado com a impetuosidade de bala de canhão. O coitado foi chocar-se contra o paredão e abriu os olhos, enquanto no fundo se perdiam os passos velozes.
Para sua surpresa, estava relativamente claro em volta. Percebeu uma sombra bem perto dele, com os contornos de Larry Randall. Aquele que soltou o grito angustiante e saiu correndo era Lofty. Do lado direito de Ron, havia uma longa galeria. Esta os poderia levar para algum lugar desconhecido. Lofty já desaparecera há muito.
Mais para frente, lá no lugar de onde Ron viera, continuava a sair fumaça azul do chão. Esta fumaça desaparecia num buraco do teto do corredor. O buraco era quadrado e podia-se facilmente supor que terminaria naquele quadrilátero escuro do chão da galeria. Um pouco da fumaça se perdia também no corredor, prejudicando a visão do local, onde Lofty desaparecera. Ron tentou descobrir o que havia por lá. Larry estava na sua frente. Empurrou-o para o lado, notando que o coitado estava tremendo. Tinha, agora, visão total para a parte traseira do corredor e viu, no meio da fumaça que subia do chão, uma sombra que se movia.
Procurou respirar melhor, pois seu coração queria disparar. Por uns instantes, teve apenas um desejo: virar-se para o outro lado e sair correndo atrás de Lofty. O que se contorcia lá na frente, dentro da fumaça, provavelmente estonteado pela queda, era um monstro de três metros de altura, corpulento e pesado, com quatro braços que se apoiavam nas paredes do corredor, para manter o corpanzil em equilíbrio. Parecia todo coberto de pêlo e, abstraindo-se os dois braços supérfluos, tinha-se a impressão de estar vendo um urso gigantesco andando de pé nas patas traseiras.
Até que a enorme cabeça se destacou da penumbra e apareceu melhor na parte do corredor com menos fumaça.
Que cabeça horrorosa! Sem cabelo, de pele lisa e brilhante. Uma bocarra de lábios finos ocupava quase a metade da cabeça. Olhos redondos, do tamanho da mão de um adulto, sobressaíam tanto da testa ossuda, como se fossem cair a qualquer instante. Lembrava em muito a cabeça de um sapo.
A visão era fascinante e paralisante ao mesmo tempo. O primeiro pensamento de Ron, quase que instintivo, foi que os saltadores estivessem usando um de seus robôs de combate para impingi-lo às sempre-verdes, como seu deus verdadeiro. Os robôs dos saltadores eram de fabricação arcônida. E uma das coisas que mais impressionava os povos primitivos era um ser metálico que se movia com as próprias forças e podia pensar.
Mas aquilo ali não era nenhum robô. O urso-sapo era um ser orgânico. O monstro descomunal estava saindo do meio da fumaça e se encaminhava, ao longo do corredor, na direção dos dois terranos, paralisados de medo e de horror, como que colados no chão.
O urso-sapo estaria provavelmente iniciando sua subida pelo poço da fumaça, no meio de ruídos extraterrenos e da coluna de fumaça azul, para aparecer no local do sacrifício e mostrar às suas fiéis adoradoras suas forças sobrenaturais, exatamente quando os três terranos pularam para dentro do poço, caindo de encontro ao suposto deus das serpentes. Foi isto que brecou a queda dos três, impedindo que se ferissem no choque contra o chão de pedra do corredor. O urso-sapo, que agüentara o impacto do corpo de Ron, acabou perdendo o equilíbrio com o peso dos outros dois e caíra. Por alguns instantes esteve sem forças ou talvez mesmo inconsciente. Mas já recuperara as energias e olhava furioso para aqueles que estragaram sua estonteante aparição miraculosa no cenário da ignorância supersticiosa.
O monstro vinha se aproximando. Seus pés volumosos estalavam no chão duro. Ron esticou o braço para trás, fazendo um sinal a Larry para que o capitão começasse a fugir. Ele mesmo ia recuando, à medida que o urso-sapo avançava. Mas quando viu que, entre ele e o monstro, cintilava no chão do corredor um objeto estranho que atraía seu olhar com força mágica, despertou-lhe um imenso desejo de saltar para frente e apanhá-lo, antes que o urso-sapo o fizesse. Era um objeto volumoso, uma espécie de martelo pesado, de cabo comprido, que só lhe ia dificultar mais a fuga. Mas seria o único comprovante que podia levar dessa aventura horripilante. Portanto, tinha simplesmente de pegá-lo.
Atendendo à sua insistência, Larry saiu correndo. Ele, porém, ficou parado, calculou pela última vez a distância até o urso-sapo e pulou.
No mesmo instante, o estranho ser soltou um guincho estridente de ira concentrada. Ron só tinha olhos para o grande martelo cintilante que queria pegar. Entretanto ouviu as passadas arrastadas que se tornavam mais rápidas, como se o monstro tivesse alguma coisa contra quem se apoderasse do objeto...
Compreendeu de repente que aquilo devia ser a ferramenta com que o deus matava suas vítimas. Era o distintivo de sua dignidade e certamente as sempre-verdes não mais o reconheceriam, sem o mencionado objeto.
Pegou no cabo do tal martelo e, com as duas mãos, o levantou do chão. Ergueu-se e queria correr. Porém, no mesmo instante, reparou que o monstro já estava na sua frente com os dois pares de braços estendidos, para lhe dar o abraço da morte.
Desesperado, Ron levantou a ferramenta e esquivou-se, quase perdendo o equilíbrio. Músculos e nervos estavam na maior tensão e sentia até dor no ombro. Mas o grande martelo se moveu para frente num assomo de ódio concentrado contra o urso-sapo. Fechou os olhos. Ouviu uma pancada surda e sentiu que encontrara o objetivo.
Um grito lancinante reboou no corredor e as mãos de garras compridas procuravam apoio na parede de pedra. Ron apertou o instrumento contra o corpo, como com medo de perdê-lo e disparou corredor a fora.
O corredor parecia não ter fim e o martelo era pesado. Se Ron não tivesse a força de vontade em levá-lo como objeto de comprovação para mostrar a Nike Quinto, já o teria jogado fora há tempo, a fim de correr melhor. Olhou em volta e ouviu passos que o seguiam. Só poderia ser mesmo o monstro, que lhe pareceu antes liquidado, mas que, agora, cada vez mais se aproximava.
Desesperado, pensava em Larry e Lofty: “Onde estarão eles?
Subitamente começou a sentir uma claridade diferente em volta dele. Era mais intensa, mais quente. Um vento agradável lhe acariciava o rosto. Um brilho suave iluminava os dois lados. Acabara de sair do corredor e estava voltando ao ar livre. Caminhava agora numa espécie de garganta. À direita e à esquerda, subiam leves rampas quase desertas, com poucas touceiras de capim. De cima, penetrava a luminosidade forte do sol, de um azul-claro, que se quebrava na superfície plana das rampas. O calor invadia a tal passagem estreita.
Ron sabia que não ia agüentar por muito tempo. Às suas costas, continuavam os passos do monstro, cada vez mais perto e, apesar de não olhar para trás, sentia que apenas dez metros os separavam. Poderia ter subido por uma das escarpas, mas o urso-sapo seria talvez tão bom em galgar como em correr. Do outro lado das escarpas, começava a floresta. E na floresta — sabia muito bem Ron — não conseguiria andar nem cem metros e já estaria nas mãos do monstro.
Felizmente sua cabeça ainda estava funcionando bem, para lhe dizer que devia parar, antes que suas forças se esgotassem. De qualquer maneira, tinha ainda em mãos o grande martelo, com o qual já impusera respeito ao estranho ser.
Um novo acesso de ódio tomou conta dele. Não queria mais fugir. Tinha uma arma em mãos, por mais primitiva que fosse. Ia parar como um homem corajoso e olhar firme na cara do aleijão, o qual não podia evitar.
Os pulmões estavam em ponto de estourar. O terrível calor lhe inundava a testa e os olhos de suor, prejudicando-lhe a visão. Parou de correr. Virou-se para trás e ergueu o pesado martelo, para vibrar o golpe assim que o urso-sapo chegasse mais perto.
O gigante peludo vinha com um largo sorriso na bocarra resfolegante, já com os braços abertos, a fim de receber a vítima e estrangulá-la de encontro ao corpo peludo.
De repente, um sonoro grito de guerra reboou no ar. Duas cabeças viraram para trás, a de Ron e a do monstro. O grito vinha de uma das ribanceiras e, lá em cima, na escarpa do lado direito, estavam de pé Larry e Lofty, atrás de uma verdadeira barricada de blocos de pedra. Os dois gesticulavam alegres.
Ron não conseguiu entender o que gritavam, mas viu quando se abaixaram e a barreira começou a rolar, como se fosse uma avalancha programada!
Uma densa nuvem de poeira se levantou e a avalancha se despencou escarpa abaixo. No meio da poeira, Ron viu pedras volumosas que saltavam no ar e continuavam rolando.
Sabia o que lhe cabia fazer. Com um salto de gigante, jogou-se para o lado e saiu correndo escarpa acima. Tomou o lado direito, a fim de escapar da avalancha. Chegou a sentir o deslocamento de ar, provocado por pedras maiores. Muita pedra miúda passava rente dele.
Mas foi ganhando terreno. Quando estava atingindo a terça parte da encosta, ouviu o impacto da avalancha lá embaixo. No meio de todo o estrondo, pôde ouvir o grito agudo do monstro, que não conseguiu se desviar a tempo.
Ron deu ainda uns passos cambaleantes e caiu no chão. Ofegante, estava deitado na pedra escaldante, sempre segurando bem firme a pesada ferramenta. Sentia alívio e cansaço ao mesmo tempo. Se pudesse, continuaria deitado e dormiria um pouco. Mas sabia que, mesmo com a exclusão do tremendo monstro, o perigo continuava. Ainda estavam em pleno território inimigo. A qualquer momento podiam surgir os saltadores, e estes não iriam tolerar que três terranos desvendassem sua trama suja e voltassem tranqüilos para a cidade, a fim de relatarem o que viram.
Não, a batalha continuava. Não tinha sentido ficar parado aqui. Levantou-se. Foi aí que sentiu como os acontecimentos das últimas horas e minutos o tinham desgastado. Círculos coloridos dançavam diante de seus olhos, impedindo-o de ver o que queria. Reconheceu, entretanto, os dois vultos que lhe acenavam lá do alto, Larry e Lofty. Viu que vinham ao encontro dele e, de repente, sentiu mãos fortes sob seus ombros.
Formidável! — exclamou Larry. — Conseguimos vencer. O urso-sapo está sepultado sob as pedras da nossa avalancha. Pode-se ver um pedaço de seu pêlo, lá de cima. As sempre-verdes perderam sua divindade e com isto acabará o fantasma. Lofty já deu uma volta por aí. Sabe, mais ou menos, onde estamos. O ponto onde está o deslizador não dista mais do que dois quilômetros daqui.
Ron não estava entendendo tudo, estava por demais exausto para isto. Mas compreendeu que havia motivo para esperança. Ouviu o que Larry disse a respeito do deslizador. O aparelho era de um tipo totalmente novo e mesmo um saltador entendido no assunto levaria muito tempo até compreender seu funcionamento. Por certo, o deixariam onde estava, até que soubessem manobrá-lo.
Finalmente, Ron se libertou dos braços que o seguravam.
Santo Deus! Afinal de contas eu simplesmente corri, como vocês também correram. Não tenho, pois, o direito de estar tão mole assim. Onde está o aparelho?
Nesta direção — disse Lofty, esticando o braço. — Não quer descansar uns minutos? Aviso-lhe: na floresta, o senhor terá que estar muito concentrado, do contrário...
Não terminou a frase, entretanto Ron sabia o que ia dizer. Ainda não se esquecera do episódio com os besouros carnívoros. Mas sabia também que não tinham um minuto a perder. Os saltadores eram comerciantes, homens de pensamento rápido.
Nem um segundo! — respondeu com determinação. — Vamos continuar imediatamente. Temos que sair daqui o mais rápido possível.
Atravessaram o trecho da encosta.
Tendo Lofty à frente, iniciaram o difícil caminho pela floresta. Estavam penetrando até bem depressa, muito mais rapidamente do que quando estavam entrando. O terror, isto é, a presença dos saltadores, ainda lhes era um verdadeiro pesadelo. Sabiam que não podiam mesmo perder tempo.
Ron quase levou um susto, quando, de repente, se lembrou de uma coisa de que se esquecera totalmente: não adiantaria nada toda a caminhada até o local do deslizador, pois o aparelho estava totalmente destruído.
Não se lembravam mais de que Larry, naquele misterioso assomo de fúria, danificara gravemente o aparelho, pouco antes de ser capturado pelas serpentes.
9



Graça vos rendemos, Senhor, e exaltamos vossa infinita bondade. Conheceis o amor de vossos servos e lhes perdoais os pecados cometidos. Louvor e honra a Vós para todo o sempre, ó Ayaa-Oooy!”

Não, não tenho mesmo nenhuma idéia do que ainda está intacto — disse Larry triste e muito aborrecido. — Estava completamente doido, quando comecei a destruir o painel de comando e quase não me lembro de nada.
Sentaram-se em torno da clareira que abriram com disparos térmicos, antes de pousarem com o aparelho. A alguns metros deles, estava o deslizador, aparentemente intacto. Mantiveram-se escondidos no emaranhado da floresta de vidro. Tinham receio de que os saltadores estivessem de vigia por perto. Ficaram olhando para o aparelho, como se de longe pudessem saber se ele iria funcionar, se iria subir reto quando se puxasse a alavanca de direção para trás.
Já estavam ali há alguns minutos. Ron sentiu sua inquietação aumentar. Cada minuto desperdiçado, diminuía-lhes a possibilidade de voltarem para Modessa. Cada minuto perdido dava mais tempo aos saltadores de intensificarem o bloqueio na região das Montanhas do Interior.
Procurou concentrar todos os seus pensamentos num único objetivo: fugir da floresta. Inconscientemente, seus dedos brincavam no cabo do grande martelo, que mantinha sempre com cuidado em suas mãos, com a intenção de mostrá-lo ao Coronel Quinto quando voltassem para a Terra.
Os dedos sentiram um pequeno relevo. Com o consciente todo concentrado no que pretendia fazer, não percebeu o impulso dos nervos. Foi necessário que os dedos alisassem três vezes a pequena saliência, para se aperceber de algo estranho. Perplexo, levantou o martelo no ar e ficou observando o cabo.
Só então foi que reparou na série de pequenos botões de contato, ficando curioso para saber o que significavam. A situação do monstro, do urso-sapo, de passar por um deus no meio dos habitantes primitivos de Passa, isto é, as sempre-verdes, sempre pronto a exibir novas maravilhas, ficou de repente clara para ele.
Como é que o monstro realizava seus milagres? Até então, sem ter se aprofundado no assunto, aceitava pacificamente que os saltadores, estando nos bastidores de tudo, faziam também tudo que era necessário para conservar o prestígio do deus importado e imposto. Mas agora, estava vendo que não era bem assim. Será que o tal martelo era o meio pelo qual o falso deus mantinha seu prestígio?
Hesitante, Ron apertou o último botão, suspendendo o martelo bem acima da cabeça, para ficar livre de qualquer conseqüência de sua curiosidade. Mas, havia de longe subestimado as propriedades do martelo, como veio a constatar logo depois. Sua cabeça começou a zumbir, sentindo horríveis vibrações no cérebro, enquanto Larry e Lofty, esquecendo-se de toda cautela, soltavam gritos lancinantes.
Imediatamente, Ron apertou de novo o mesmo botão. A dor desapareceu. Admirado, começou a olhar com desconfiança para o instrumento mágico. Não tinha a menor dúvida de que desencadeara uma forte radiação de ultra-som, que certamente se destinava às sempre-verdes que não se comportassem bem na presença do supremo deus, para lhes impor mais respeito. Não havia nenhum mistério. A questão era agora saber quais os efeitos dos demais botões. Quem sabe os saltadores haviam pensado também em resguardar seu urso-sapo de um perigo mortal, dando-lhe também uma arma clandestina, de efeito fulminante? Que tal, se apertasse o próximo botão?
Estava indeciso. Pensou e chegou à conclusão de que não tinha opção. O martelo era a única arma de que dispunham no meio daquele mundo hostil. Tinham que saber como funcionava, do contrário, lhes seria inútil.
Postou-se de pé e tentou imaginar de que maneira o monstro seguraria o martelo, caso tivesse que se defender de um inimigo. Levantado acima da cabeça? Provavelmente, não. Teria muita dificuldade com a pontaria. Ou displicentemente, como se não tivesse nenhuma má intenção, com a mão bem sob a coronha da arma? Parecia plausível e correspondia mais ao porte de um deus, de atacar de repente e de surpresa, do que exibir antes sua animosidade.
Ron pegou o martelo na parte superior do cabo, de tal modo que a seção mais longa do mesmo pendia de sua cintura, enviesada como uma espada. Nesta posição, lhe era muito difícil atingir todos os botões. Tinha de usar a mão esquerda atravessada nas costas. Acontece que o urso-sapo tinha quatro braços, dois de cada lado. Com uma das duas mãos direitas, alcançaria sem dificuldade todos os botões.
Receoso, comprimiu o penúltimo botão e foi atirado para trás, como se a cabeça do martelo tivesse feito uma descarga muito pesada. Uma chama ofuscante, um jato fechado de uma energia alvacenta, se projetou enviesada para cima, perdendo-se depois no ar. Ron não chegou a perceber que, já no primeiro susto, apertara de novo o botão, fazendo cessar logo o tremendo impacto.
Não restava mais dúvida. Entre outras coisas, o martelo era também uma preciosa arma de radiação térmica.
A terceira tecla disparava um desintegrador, que com um feixe de raios verdes liberava material fortemente compacto das forças de cristalização, transformando-o em gases. O quarto botão, depois de comprimido, não produziu nenhum efeito sensível, o que obrigou Ron a marcá-lo de um modo especial. O quinto devia produzir um campo antigravitacional, pois, quando o apertou, sentiu-se aliviado do próprio peso. Uma pequena pressão dos joelhos o levou para o alto.
Era desta maneira que o monstro-divindade conseguia sua subida miraculosa para fora do poço, entrando no quadrado sagrado.
O sexto botão novamente não mostrou efeito nenhum, o que deixou o major terrano mais desconfiado ainda. Resolveu não apertá-lo de novo, antes de saber do que se tratava.
Era bastante para ele saber que tinha em mãos uma arma salvadora. Não tinha, é verdade, nenhuma idéia de seu raio de ação, mas enquanto os saltadores não atacassem com deslizadores ou jatos de grande altura, devia ser suficiente para livrá-los de todos os perigos. Assim podiam ficar um pouco tranqüilos, enquanto tentavam consertar seu aparelho semidestruído.
Lofty e Larry acompanharam com entusiasmo a exibição do instrumento maravilhoso. A ordem que receberam não lhes causou surpresa:
Vamos embora! Temos que botar o deslizador em condições de funcionar. Daqui a três horas, o sol se põe.

* * *

O começo foi muito promissor. Pareceu que, quando Larry ficou furioso com o aparelho terrano e começou a destruí-lo, o forte choque elétrico o fez parar a tempo, não causando danos de maior monta. O mais prejudicado foi um quadro de ligação lateral que se usa, com o auxílio dos estabilizadores de vôo e do campo de gravitação artificial, para o arranque instantâneo e para a subida vertical a grande altura. Em caso de necessidade, Ron voaria sem este quadro de ligações. Mas não ficara só nisto a obra destruidora de Larry. Danificara também o assento do piloto e principalmente os dois transmissores de rádio, que dificilmente seriam recuperados.
Larry e Ron arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar, enquanto Lofty, por falta de conhecimentos técnicos, ficou lá fora, de olhos bem atentos.
Pouco antes do pôr do sol, os trabalhos de recuperação estavam tão adiantados que o deslizador podia levantar vôo e, se tudo ajudasse, poderia vencer o caminho até Modessa, em altura moderada. O ambiente lá fora estava calmo e Ron resolveu continuar com os trabalhos para aumentar a segurança do vôo.
Mal pensara nisto, quando lá fora reboou pela floresta o som cavernoso dos tambores das sempre-verdes; som tremendamente enervante. A tonalidade mudava de três em três segundos, enquanto o volume subia num crescendo, para depois voltar a quase surdina.
Ron interrompeu o trabalho e observou Lofty Patterson, que, de pé lá fora, tentava interpretar a mensagem dos tambores.
Virou-se de repente e veio correndo para o deslizador. Parecia meio confuso.
Agradecem ao seu deus — exclamou ofegante — porque é misericordioso e perdoou seus pecados. E eu pensava o tempo todo que já o tivéssemos matado.
No primeiro instante, a surpresa de Ron não foi menor do que a de Lofty.
Será que o monstro teria conseguido sair vivo daquela avalancha de pedras?
Soava como uma coisa impossível. Aquelas pedras enormes, rolando de grande altura, deviam tê-lo matado antes de cobri-lo de cascalho e poeira. Mas depois, lhe veio o estalo e se admirou de não ter pensado nisto antes. Os saltadores não eram assim tão imprevidentes de trazerem apenas um deus, a quem a qualquer momento podia acontecer alguma coisa. Deviam ter mais exemplares do urso-sapo de reserva, para substituí-lo em qualquer emergência e não deixar uma lacuna na superstição das serpentes.
Ron compreendeu o que isto significava: não podiam mais contar com a revolta das sempre-verdes. Os saltadores faziam tudo para não perder a ascendência que mantinham sobre o mundo das serpentes. Substituíram o deus morto por outro vivo e o mandaram afirmar sua benevolência para com as serpentes. Tinham, pois, mãos livres para agir contra os três terranos, seus maiores inimigos no momento, que agora deviam estar procurando seu aparelho no meio das montanhas.
Ron deu a mão a Lofty para o puxar para dentro do deslizador.
Vamos embora, partiremos imediatamente.

* * *

Lentamente e um pouco incerto, o pequeno aparelho se levantou acima da ramagem da floresta de vidro. Novamente surgia, do lado oposto, o sol azul, que já há alguns minutos sumira atrás das árvores.
Quem estava pilotando era o próprio Ron. Da direita para a esquerda, de cima para baixo, seu olhar atento percorria a fila de instrumentos e marcadores, sempre preparado para remediar qualquer falha do funcionamento dos aparelhos de bordo. Mas o motor cumpria seu dever: trabalhava calmo e firme, e quando o piloto ligou a tração horizontal, o pequeno conjunto antigravitacional estabilizou o deslizador e as turbinas forneceram a energia prevista.
Todos, principalmente Ron, estavam contentes e respiravam aliviados. As coisas corriam melhor do que pensavam. Ia se virando para trás, para dar uma palavra de estímulo aos dois companheiros, quando Larry gritou:
Atenção! Aparelho estranho do lado direito.
Ron virou-se. Exatamente do lado direito estava o sol poente. O inimigo escolhera o lado mais cômodo para o ataque. O aparelho parecia ainda uma sombra semitransparente contra a claridade reluzente do sol moribundo.
Ron disciplinou o pensamento para agir com sangue-frio. Não mudou a rota, conservando o aparelho no rumo oeste, pouco acima das copas das árvores. Usou de toda a aceleração de que podia dispor.
Deixem que ele chegue mais perto. Não sabe que estamos armados. Certamente vai querer primeiro brincar um pouco conosco.
Realmente, Ron tinha razão. Com uma velocidade bem superior, o aparelho inimigo se aproximou do deslizador terrano, dando algumas voltas em torno dele. Pelas janelas da cabina, Ron reconheceu os vultos pesadões e espadaúdos de dois saltadores.
Pela primeira vez, na história de Passa, apareciam em campo para a luta e, pela primeira vez, não usavam nenhum subterfúgio para ocultar que eram eles os causadores de toda intranqüilidade reinante no planeta. Ron teve um sorriso irônico quando lhe passou pela cabeça que os pescadores de águas turvas estavam agora se arriscando demais, por estarem crentes de encontrarem no deslizador terrano uma presa fácil.
Atrás dele, falou Larry:
Eu os tenho na mira, Ron. Quando eu fizer um “carinho” aqui no botão, vão ter um rombo sensacional no seu aparelho.
Ainda não, Larry. Se atirarmos desta distância, teremos em poucos minutos uma armada em nosso encalço.
Ron continuou na direção das montanhas, seguindo o rumo do oeste. Sabia que o maior perigo ainda estava por vir, pois as espaçonaves dos saltadores, se ainda não tivessem decolado, deviam estar escondidas nas gargantas das Montanhas do Interior. Este fato — supunha ele — contribuía naturalmente para justificar a despreocupação do deslizador inimigo, que perdia tempo com brincadeiras. As montanhas aumentavam e a hora do crepúsculo se aproximava, quando a orla superior do sol azul desaparecia no horizonte e o clarão avermelhado aumentava no lado do nascente.
Não mudara ainda de tática o aparelho dos saltadores. Deu incontáveis voltas em torno dos terranos, e se podia ver o sorriso de superioridade no rosto dos homenzarrões.
De repente Ron parou diante de um pico de montanha bem íngreme e, quando já estava a cem metros do penhasco, mudou de direção. Virou em ângulo reto para o sul e ficou observando a reação do aparelho inimigo. Notou que os dois saltadores estavam nervosos. Os círculos que descreviam se estreitaram.
Estão perdendo a calma”, pensou ele. “Provavelmente tomamos a direção errada. Acho que suas forças estão no norte.
Os saltadores começaram a mostrar mais abertamente seu descontentamento. Talvez não estivesse nos seus planos destruir o aparelho terrano e seus tripulantes. Dispararam um tiro de bateria térmica que passou bem longe da proa do deslizador.
Ron desligou a tração horizontal, enquanto o campo antigravitacional mantinha o aparelho acima das árvores do trecho de grande aclive.
Preste atenção, Larry — falou Ron, lentamente.
Os saltadores tomaram a manobra, como deviam tomar: que os terranos estavam dispostos a se entregarem. Foram chegando, devagar, um pouco cautelosos. Ron reconheceu as bocas-de-fogo no chassi do aparelho inimigo.
Espere que cheguem mais perto — disse a Larry. — A cinco metros, você acerta melhor do que a vinte.
Larry disse qualquer coisa que ninguém entendeu. Os saltadores se aproximavam. Um deles abriu a escotilha e botou a cabeça para fora, fazendo um sinal com a mão. Queria lhes indicar uma nova direção. Mas Ron fingiu não entender o que queriam e ficou onde estava. O aparelho inimigo emparelhou com o dos terranos. Quando a proa aguda de sua máquina estava quase encostando no deslizador, Larry Randall disparou. Uma intensa chama irrompeu da cabeça do martelo.
No ar tranqüilo acima da floresta, reboou uma detonação seca. Alguma coisa no meio daquelas labaredas ofuscantes ia aos pedaços pelos ares. Línguas de fogo e partículas incandescentes choviam de todos os lados.
Quando Larry desligou o botão e seus olhos se readaptaram à luz normal, viu apenas uma coluna de fumaça descendo vertical e um poço escuro na floresta de vidro, poucos metros abaixo.
Ron afastou todos os pensamentos que queriam assaltar sua imaginação e ligou novamente a tração horizontal. Uma hora depois, o pequeno aparelho transpunha a região das montanhas e estava, em vôo tranqüilo, rumo à cidade de Modessa.

* * *

Os senhores estão bem certos — disse Nike Quinto com uma seriedade fora do comum, apontando para Lofty Patterson — de que este homem deve receber um tratamento todo especial, assim que terminarmos os negócios pendentes, não é verdade? Os senhores podem trazer aqui para nossa seção simplesmente um ilustre desconhecido e nos exigir que o deixemos ir embora sem mais nem menos?
Ron Landry sorriu.
Mesmo com o risco de elevar sua pressão arterial, senhor — e com isto, afastava do caminho um dos melhores argumentos — eu proporia que a nossa seção fizesse deste homem seu representante permanente em Passa. Não existe neste planeta ninguém que conheça melhor este mundo misterioso.
Nike Quinto se levantou.
De fato — começou com voz aguda — você abusa demais de minha pressão sangüínea. Desde quando é você quem determina os novos membros? Ou acha que já estou velho demais e, portanto, meio caduco? Não, meu jovem, aí é que você se engana.
Seu corpo disforme procurou de novo uma cadeira, continuando depois com voz mais calma:
Mas vamos pensar no assunto. Antes disso, no entanto, temos coisas mais importantes para fazer.
Ron respirou mais aliviado. Percebeu que Larry estava sorrindo para ele. Não tinha mais dúvidas de que Lofty Patterson seria admitido como representante permanente do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, Divisão III, em Passa, e que, para continuar de olhos abertos pelo resto de sua vida, receberia um ordenado condigno. Conforme o parecer de Ron e de Larry, isto era coisa mais do que justa.
Seu relatório — recomeçou Nike Quinto, desta vez num tom mais objetivo — foi analisado de todos os pontos de vista. Você vai ficar boquiaberto com as conclusões que daí surgiram.
Primeiro: sua suposição, Major Ron Landry, de que os saltadores queriam chegar a uma guerra circunscrita a Passa, foi confirmada. Todos os indícios apontam para isto. Os saltadores devem, pois, possuir uma nova arma, com a qual esperam ganhar esta guerra. Que arma seja esta, não sabemos. Temos apenas suposições.
Segundo: o fato de as sempre-verdes primeiro terem deixado de lado os colonos assassinados e, somente num segundo estágio da insurreição, os terem levado para oferecê-los a seu deus, faz com que os técnicos cheguem à conclusão de que, a princípio, os mercadores galácticos ainda não tinham um plano de ação bem delineado. Por alguma razão, alguns dias mais tarde, acharam essencial receberem os cadáveres dos terranos e não apenas os prisioneiros vivos.
Terceiro: o martelo misterioso foi examinado. As funções dos botões quatro e seis não são mais segredo. Na tecla quatro, trata-se de um produtor de choques nervosos.”
Nike Quinto fez uma pausa, olhando para seu interlocutor.
Isto lhe significa alguma coisa?
É claro que Ron tinha seu ponto de vista:
Isto mostra que o deus não chegava a matar suas vítimas. Vibrava o martelo e as sempre-verdes viam como as vítimas caíam. Julgavam-nas mortas, mas realmente não o estavam.
Quinto concordou, acenando com a cabeça.
Exato! Não temos dúvidas de que muitos dos prisioneiros foram realmente assassinados, mas por algum motivo, os saltadores queriam conservá-los vivos.
Mas, continuando... em quarto lugar: o botão número seis aciona um instrumento muito singular. Trata-se, no fundo, de um transmissor de potência muito diminuta. Portanto, só pode ser recebido a maior distância, quando opera como raio direcional. Está equipado para isto e o raio direcional funciona até automaticamente. Ele mesmo se auto-regula através de uma célula fotoelétrica. Enquanto o transmissor se encontra no setor atingido pela célula fotoelétrica, está regulado para uma determinada posição. De acordo com a opinião dos técnicos, esta posição automática é a base secreta dos saltadores.”
Parou de novo, olhando para os três. Podia estar contente com a impressão causada pela sua explicação. Ron ergueu-se da cadeira perplexo. Lofty e Larry olhavam também admirados.
Isto significa naturalmente o fim da base clandestina dos saltadores — continuou Nike Quinto tranqüilamente. — Na hora oportuna, mandaremos um comando equipado com o transmissor, para Passa, a fim de acabar com os saltadores.
Há, porém, coisa mais importante ainda. O ser esquisito, o monstro descrito pelos senhores como um urso-sapo, é totalmente desconhecido na Galáxia. Mais ainda: os técnicos chegaram à conclusão de que um animal deste tipo não pode surgir por via natural. Encerra traços que se contradizem. A opinião geral dos técnicos é de que o urso-sapo, embora de origem orgânica, é uma criação artificial.”
Nike não quis deixar tempo para ninguém fazer ponderações e prosseguiu sem parar:
Isto nos dá uma pista muito segura, meus senhores. Existe apenas um povo na Galáxia que pode criar seres artificiais com tanta rapidez e precisão: os aras, descendentes dos velhos arcônidas, que se dedicaram inescrupulosamente de corpo e alma à pesquisa científica. Não é a primeira vez que constatamos um pacto entre os saltadores e os aras, sendo que os primeiros ficam com o negócio e os outros com o incremento científico.
Temos, portanto, que supor que o planeta Passa é cobiçado não só pelos saltadores, mas também pelos aras. A cooperação, ou melhor, a concorrência entre as duas raças, pode explicar alguma coisa da falta de unidade operacional no início do empreendimento. Dificulta também para nós, terranos, a ação em Passa. Os aras são um inimigo que têm de ser levado muito a sério, exatamente por não serem guerreiros, mas lutarem, na surdina e nos bastidores, com armas nada convencionais.”
Nike Quinto deixou tempo para que suas palavras fizessem efeito nos ouvintes. Observou como Ron Landry ficou longo tempo de cabeça inclinada, olhando para o chão. Larry Randall continuava sentado espalhadamente em sua poltrona, bem refestelado, com os olhos quase fechados. Lofty Patterson estava sentado ereto, sem se encostar e sem tirar os olhos do Coronel Quinto. Mas Nike tinha o pressentimento de que Lofty realmente não estava olhando para ele.
Uma pergunta — recomeçou Quinto, após pequena pausa — ainda não foi respondida: como é que os inimigos conseguiram impingir às serpentes um deus assim? Acho que seria até muito fácil nos aproximarmos de um ser primitivo, lhe apresentar um robô de bom funcionamento, dizendo-lhe que era seu deus e que devia ser adorado. Agora, não tenho certeza se, só por isto, este primitivo iria dedicar ao robô tal obediência e fé inabalável como as sempre-verdes dedicam ao urso-sapo. Aí é que está o mistério e eu gostaria...
Neste momento, falou Lofty pela primeira vez, interrompendo o Coronel Nike Quinto no meio da frase:
Isto eu posso explicar com bastante clareza, senhor. Desde meus tempos de rapaz, sempre vivi às voltas com as serpentes. Elas não têm propriamente Literatura, também não sabem escrever. Mas sua tradição oral conhece um bom número de lendas, entre as quais uma que diz que, um dia, um poderoso deus descerá do céu e a partir daí ficará com as serpentes para ajudá-las. Este deus é descrito como um ser possante de quatro braços, sempre pronto para operar uma série de maravilhas.
Nike Quinto confirmou sorridente como se não esperasse outra coisa.
Combina muito bem com o urso-sapo — disse ele. — Maravilhas e milagres certamente já fez muitos, mas... será que as sempre-verdes, que já têm seis metros de comprimento, vão considerar como poderoso um urso-sapo que tem apenas três?
Ninguém tinha resposta para esta pergunta. O próprio Ron já pensara nisto e tinha a impressão de que não havia saída para tal comparação.
Haveremos de aproveitar tudo isto, meus senhores — disse Nike Quinto, de repente.
Levantou-se, talvez para indicar que o encontro já chegara ao fim.
Os últimos preparativos serão tomados prontamente. Estejam atentos, meus senhores, talvez partirão depois de amanhã, providos de todos os meios de que precisarem para pôr um ponto final neste fantasma de Passa.
Não falou mais do que isto. Ron tinha a sensação de que ele ocultava um grande segredo e se divertia em ver os outros quebrando a cabeça a respeito.
X



Dúvida em nossos corações, ó Altíssimo! Nunca esperávamos ver dois deuses. Afastai a nossa dúvida, Ser Supremo. Tudo depende de vosso poder e ao mais forte queremos servir para sempre!”

Um monstro caminhava pelas trevas avermelhadas da selva de vidro, oito metros de altura, coberto de um pêlo grosso, com seis poderosos braços que afastavam galhos e troncos do caminho. Mugindo, o gigante ia quebrando tudo que se lhe opunha na frente e seu urro penetrava muitos quilômetros pela mata a dentro.
Os tambores das sempre-verdes vibravam sem parar para aplacar a ira do monstro. E o milagre aconteceu: o ser gigantesco entendeu a linguagem dos tambores e poupou as aldeias dos seus adoradores. As outras, porém, que ficaram fiéis ao velho ídolo, a quem construíam um templo do outro lado das Montanhas do Interior, tiveram suas casas destruídas.
A notícia da vinda de um novo deus se espalhou por todo o planeta. O pequeno deus das Montanhas do Interior, que olhava impassível a miséria de seus fiéis seguidores, não estava demonstrando assim sua inferioridade? Como se podia saber quem era o deus verdadeiro, quando o novo deus gigante apregoava com voz de trovão que ele era o verdadeiro Ayaa-Oooy, enquanto o outro, a quem construíam um templo nas Montanhas do Interior, não passava de um deus auxiliar de pouca importância, que aproveitava sua grande semelhança com o deus verdadeiro — embora fosse muito pequeno — para tirar seus proveitos?
A quem se devia dar fé? É claro que também o pequeno deus das Montanhas do Interior levantou sua voz, quando soube da existência do deus gigante. Sua voz, porém, não ia muito longe e suas palavras não eram bem compreendidas.
As pobres criaturas dos dois sóis viviam num doloroso conflito de consciência, acabando por deixar nas mãos dos próprios deuses a decisão: quem realmente era o verdadeiro?
Isto, porém, não estava agradando nada ao pequeno deus das Montanhas. Procurava incitar as serpentes, que viviam em sua proximidade, para que marchassem contra o monstro e o matassem. Chegou a reunir um grande grupo, desceram das Montanhas e foram de encontro ao novo deus, para lhe preparar uma cilada. Mas este, vomitando raios dos olhos e das mãos, destruiu-as, antes que pudessem dar dois saltos apoiadas em suas caudas possantes. A partir daí, ninguém mais saiu em luta pelo pequeno deus.
O grande deus veio do noroeste e, dia e meio depois de ter aparecido pela primeira vez, já atingira os pés das montanhas. As sempre-verdes, medrosas, viam de longe como ele galgava as montanhas, sem diminuir a velocidade. Admiravam seu tamanho e sua força e aos poucos foram se convencendo de que ele era o verdadeiro deus e não o pequeno, que estava além das Montanhas.
No interior do grande deus, mais ou menos na altura onde ficam os intestinos, estava sentado numa cômoda poltrona o Capitão Larry Randall, colocando uma nova fita no gravador. Ligou o aparelho e, segundos depois, com uma ampliação de mais de mil vezes, começou a sair da boca do sapo-monstro uma nova mensagem na língua das sempre-verdes.
Larry sacudiu a cabeça desconfiado.
Mesmo que tudo funcione tão bem”, pensava ele, “isto aqui é, e continua sendo, uma besteira.”

* * *

Ron Landry tinha sua poltrona em cima, logo abaixo da cabeça. Dali controlava os movimentos do gigante artificial, e o possante motor nuclear, instalado mais ou menos na altura dos pulmões. Estava numa cabina à prova de ruído, pois, do contrário, não suportaria o vozeirão quilométrico que o grande deus irradiava pelas florestas.
Bem embaixo, numa das possantes pernas, estava instalado Lofty Patterson, numa espécie de aparelho de escuta. Lá embaixo é que ouvia e interpretava as mensagens dos tambores das sempre-verdes. Quando decifrava algo importante, comunicava-o pelo interfone de bordo a Ron Landry.
No dia 21 de outubro de 2.102, mais ou menos às quinze horas, tempo de bordo, o grande deus já deixara para trás as altas Montanhas do Interior, sem ser molestado no caminho uma só vez. Havia realizado uma parte importante do seu trabalho, pois viera até Passa, não somente para converter as sempre-verdes, mas precipuamente para chamar a atenção dos saltadores e dos aras para si. Isto é, para sua marcha triunfante, a fim de que o Major Bushnell, com seu comando de ação, pudesse chegar sem ser notado ao local, onde, conforme as indicações do automático do transmissor de raios direcionais, se localizava a base secreta do inimigo.
O plano tático previa que Bushnell, com seus duzentos homens, teria cercado a base às quinze horas, tempo de Terrânia, de tal maneira que os saltadores ficariam ali encurralados, sem se poderem mexer. Tinha de ser assim, pois o próprio deus gigante não poderia enfrentar sozinho não apenas os adeptos do deus pequeno na região do templo em construção, mas muito menos os muitos e bem armados saltadores.
O momento crítico passou sem novidade. Do Major Bushnell veio um rádio cifrado, dizendo que o plano corria normal. Os saltadores ainda não sabiam de nada e ignoravam que estavam cercados. Haveriam de notá-lo quando fossem socorrer seu deus ameaçado lá no templo. Bushnell ainda comunicava que encontrara na base secreta duas espaçonaves de porte médio.
O grande deus continuava sua marcha, vomitando raios pelos olhos e espalhando sua mensagem com o vozeirão penetrante.
Parava somente quando, lá em cima no pescoço, Ron recebia um pedido formal de Lofty:
Desligue um pouco seu órgão horrendo, para que eu possa ouvir a mensagem dos tambores.

* * *

Pouco antes do ocaso do sol azul, o grande deus chegou ao local onde as serpentes construíam um templo ao seu deus Ayaa-Oooy. Haviam cortado uma parte da floresta e, com os troncos das árvores de vidro, ergueram um grande paredão. Não foram além disso, porque chegou a notícia terrífica da vinda do novo deus, gigantesco e poderoso.
Do alto do pescoço do deus-monstro, Ron Landry viu com nitidez todo o local. Clareira e templo recebiam a luz amena do sol poente. Do tal deus, a criação monstruosa dos aras, não se via nem sinal e as próprias serpentes já deviam estar escondidas.
Ron fez com que o monstro parasse. Imenso, ciclópico, formando no chão uma larga sombra, estava ele de pé na clareira, virando a cabeça, como que examinando o ambiente. E sua voz tonitroava:
Onde está o deus falso? Que ele apareça e mostre o que pode. Só então é que verei se concedo graça ou justiça.
Ron não estava se sentindo bem. Resolveu terminar mais rapidamente toda aquela pantomima. Botou de novo o monstro para andar na direção do templo em construção, repetindo mais vezes sua provocação ao pequeno deus. O paredão de troncos não foi nenhum empecilho para o deus gigante. Derrubou de uma só vez todas as estacas fincadas.
Levantou-se enorme nuvem de poeira e, no meio dela, se via a cabeçorra de sapo avançando e quebrando tudo. Foi um quadro único. Soltando terríveis maldições, o monstro artificial esbravejava, deixando em ruínas o interior do santuário. E tudo isto era dirigido apenas por três terranos!
Ron olhou sumariamente para a destruição ali realizada, pois seus olhos estavam mais interessados em qualquer coisa que se movia na floresta, na margem norte da clareira.
Seu ângulo visual não dependia da posição da cabeça do monstro. Enquanto este balançava a cabeça de um lado para o outro, Ron podia se concentrar naquele trecho da floresta. Por entre os reflexos da vegetação de vidro, viu dois vultos altos e magros que tentavam alguma coisa com dois instrumentos parecidos com lança-chamas. Ao menos eram tubos ocos que apontavam para a clareira. Ron se interessou tanto pelos dois vultos, como pelos dois instrumentos. Foi muito difícil reconhecê-los. Eram aras, pertencentes à raça dos médicos galácticos, como eram chamados em geral. Tinham vindo para proteger o monstro criado por eles.
Ron fez com que o braço do seu deus gigante se levantasse um pouco e mirou com calma. Os dois aras pareciam ter terminado seu trabalho, sentando-se agora atrás de seus canhões. Neste instante foi disparado o jato térmico de encontro aos dois. Em fração de segundo o ar superaquecido se espalhou, e Ron viu como os dois vultos foram atirados para longe. Um dos canhões atingiu boa altura, penetrou na ramagem da floresta e caiu a pouca distância. Ron reparou que, de seu interior, saía uma fumaça esverdeada. Mas não se interessou mais pelos dois aras. Estava preocupado com o urso-sapo que se embrenhara na floresta.
Poucos minutos mais tarde, Ron encaminhava seu deus-monstro para uma segunda clareira de menor diâmetro. No primeiro golpe de vista, percebeu um montão de terra recém-revolvida no outro lado da clareira e um buraco escuro, que se abria no seu centro. Viu muito rapidamente o cintilar de um pêlo marrom, que logo desapareceu. Foi o bastante para ele. Atirou pela segunda vez e, no mesmo instante, ouviu reboar pela floresta um grito assustador, mistura de ódio e de dor.
O deus menor saiu de seu esconderijo e se apresentou para a luta. No seu pêlo marrom havia um grande rombo de queimado, provocado pelo jato de fogo que roçara em seu corpo. Não estava bem firme das pernas, mas vibrou seu martelo e expediu raios incandescentes.
Ron não perdeu tempo. Abaixou o braço do grande deus até apontar bem para o ventre do deus menor. Foi só apertar o botão e o disparo energético destruiu o pequeno deus.
O caminho para dentro da terra estava livre. A abertura não era tão ampla que o grande deus pudesse passar sem mais nem menos. Mas o monstro possuía uma infinidade de articulações e podia se curvar à vontade. Com uma onda luminosa que partia de seus olhos, iluminava o caminho escuro.
A galeria descia enviesada para o fundo e era tão alta que as sempre-verdes, servidoras do deus falso, se moviam ali facilmente. O grande deus também passava folgadamente. No fundo da galeria ardia uma fraca luz avermelhada que só se podia perceber, caso os olhos do grande deus deixassem por um instante de emitir a onda luminosa. Era para aquele ponto avermelhado que o grande deus caminhava.
Nesta altura, Ron Landry recebeu a mensagem do Major Bushnell:
Tudo em ordem. Tomamos a base secreta. Estão presos cento e trinta saltadores. Não ofereceram resistência quando perceberam com quem estavam lidando. Suas espaçonaves estão sendo vigiadas.
Ron aumentou a velocidade do grande deus, pois sabia que agora só lhes restavam os poucos aras.
A luz vermelha ardia diante de um portal de pranchas das árvores de vidro. Com um sonoro pontapé, o grande deus o quebrou. Depois deste portal, o corredor se alargava para uma espaçosa galeria, iluminada por um gás esverdeado. O grande deus não deu maior importância ao ambiente e enveredou por um corredor lateral, que de repente recebeu uma iluminação mais forte. Foi aí que o grande deus recebeu um forte impacto que quase o faz voltar para o início do corredor!
Porém, no mesmo instante, reagiu com seus raios poderosos que varreram o corredor. E de sua extremidade ecoaram gritos selvagens de dor, que logo emudeceram. O grande deus continuou sua marcha destruidora e no fim do corredor deparou com os cadáveres de outros três deuses, que deviam ser a reserva dos aras. Ao lado, também os cadáveres de quatro aras, que aqui se abrigaram e foram obrigados a se defender, embora não fossem guerreiros.
Estava, pois, livre o caminho. O corredor terminava de novo num portal de pranchas das árvores de vidro. Depois que a forte patada do deus gigante rebentou a porta, Ron pôde ver que havia achado o que tanto procurava: um recinto enorme, bem iluminado, onde milhares de homens jaziam apáticos no chão, esperando seu fim trágico.
Os pobres coitados, depois de terem sido vítimas dos deuses estúpidos, iriam parar naturalmente nos laboratórios experimentais dos aras, se a salvação não lhes chegasse a tempo...
O vozeirão do grande deus inundou o enorme recinto, mas agora numa outra língua:
Vocês estão livres, terranos. Levantem-se e venham para fora. O falso deus morreu.

* * *

Nike Quinto esfregava as mãos, felicíssimo. Ninguém jamais o vira em tão boa disposição, como nestes minutos.
Então, tudo foi resolvido a contento, não é? Ao invés do que temíamos, nossas perdas são até pequenas. A insurreição das serpentes nos custou a vida de trezentos e quinze terranos. Trezentos e dois foram assassinados pelas sempre-verdes, os outros treze foram vítimas das estúpidas experiências biológicas dos aras. Sabe alguém, por acaso, o que pretendiam esses médicos loucos?
Ron Landry meneou a cabeça.
Não, senhor! De qualquer maneira, o que pretendiam devia ser muito importante. O culto ao deus falso lhes era apenas um pretexto para outros fins.
Você tem razão, Ron. Graças a Deus, descobrimos seus laboratórios subterrâneos e quando ouvirmos os dois que caíram vivos em nossas mãos, certamente ficarão “contentes” em poder dizer a verdade. De qualquer maneira, nosso grande deus artificial fez as serpentes criarem juízo e jamais irão acreditar em alguém que lhes diga que serão felizes somente quando acabarem com os terranos.
Ron começou a rir. Olhou para seus dois companheiros, sentados ao lado dele e disse, se fixando em Quinto:
Para falar a verdade, senhor, não acreditávamos muito no sucesso de sua... sua... idéia um tanto ousada e quixotesca. Agora, queremos lhe fazer nossos sinceros cumprimentos pela sua previsão, que realmente atingiu mais longe do que supúnhamos.
O rosto de Nike Quinto enrubesceu. Pigarreou, como se não achasse palavras para se exprimir.
Você quer obrigar minha pressão sangüínea a subir de novo? — gritou num tom exasperado. — Idéia ousada e quixotesca... que estupidez! Se algum zulu ou qualquer selvagem subdesenvolvido julgar que um automóvel pequeno é um deus, então, com os diabos, achará que um carro grande seja logicamente um deus muito maior. Esta é a grande sabedoria. Quanto à previsão ou antevisão ou à intervisão... tudo é mera besteira. É claro que tenho uma previsão mais ampla que você, do contrário você é que estaria sentado aqui e seria o chefe, enquanto eu seria um subalterno. Por favor, pare com tal conversa, que já estou sentindo o sangue ferver.
Tossiu e levou a mão ao pescoço.
Meu Deus, você ainda me leva para a sepultura, Landry, e você também Randall, sem se falar naturalmente do nosso novo homem em Passa. Sim, você não me parece tão bobo assim, do contrário a nomeação me seria difícil.
Lofty escorregava inquieto de um canto para o outro na sua ampla poltrona. Ainda não estava bem acostumado com Nike Quinto, para aceitar suas palavras ofensivas como deviam ser aceitas.
Que vai acontecer com os saltadores? — perguntou Ron, levando a conversa para outro rumo.
O que você acha que deve ser feito com eles? — disse Quinto, no seu tom dogmático. — Vão ser postos diante de um tribunal comum, bem como os dois aras presos. Não duvido de que estes malandros serão condenados pelo menos a vinte anos de trabalho forçado. Haveremos de cuidar para que a sentença seja publicada em toda a Galáxia. Quem sabe, da próxima vez, os saltadores haverão de pensar duas vezes antes de aprontarem coisa semelhante?
Depois, um tanto pensativo, perguntou Ron:
Devia se tratar de um negócio que envolveria alta soma, não é verdade? Do contrário estes vivaldinos mercadores galácticos não estariam tão engajados na história.
A calma e a pose voltaram aos traços de Nike Quinto. Fez um gesto de concordar em parte e pontificou:
Sim, você não deixa de ter razão. E eles não tiveram apenas um objetivo com isto. É evidente que, desde o início, o que tinham em mente era o comércio com as peles das serpentes de Passa. Queriam seu monopólio. Acharam que o melhor modo de conseguir isto seria chamar os aras em seu auxílio. E provavelmente os aras lhes prometeram cooperação sob a condição de que lhes coubesse em Passa uma grande vantagem científica... por exemplo dez mil terranos como cobaias para suas experiências biológicas.
Depois vieram para cá com um corpo expedicionário misto e estudaram a situação. Talvez, já nesta época, descobriram para que serviam as peles das sempre-verdes e a convivência entre saltadores e aras foi perfeita. Podiam se lançar de corpo e alma no negócio e pensavam mesmo em provocar uma guerra interna no planeta, pois, assim que receberam em mãos a primeira dúzia de peles de cobras, estavam de posse de uma arma singularíssima, que jamais teria similar em toda a Galáxia. Pelo menos por enquanto.”
Ron ouvia maravilhado.
Peles de serpentes...? Arma singularíssima...? Não estou entendendo.
Nike Quinto acenou tranqüilo.
Pois é, eu estava pensando que você já tivesse se preocupado com isto.
Apertou um botão e uma gaveta de sua mesa de trabalho correu para fora. Tirou dali uma ampola de vidro, e Ron pôde ver contra a luz que estava cheia de um gás esverdeado. Aquela cor do gás o fez pensar em alguma coisa que vira antes, mas no momento não se lembrava de quê. Quinto foi direto ao assunto:
Nossos cientistas deram o nome de “Advertin” a esta substância. Sabem agora como ela atua no sistema nervoso humano. Os aras tiveram o cuidado de soprá-la para o interior da caverna que você examinou em companhia de Lofty Patterson. Introduziram-na também sob o envoltório de proteção, que resguardava o deslizador vigiado pelo Capitão Randall. O gás é de grande eficácia e se difunde quase instantaneamente, colocando quem o respira numa fúria diabólica contra tudo que o cerca. Quem sabe era este o enigma que os aras queriam decifrar em Passa, isto é, de que maneira o gás “Advertin” pode ser controlado para produzir ódio e fúria de um ser contra outro ser ou objetos determinados. Como disse antes, pode ser. Quando interrogarmos os dois aras e examinarmos seus laboratórios subterrâneos em Passa, haveremos de saber tudo com exatidão.
Olhou pensativo para Ron.
Os aras, neste ponto, foram mais rápidos que nossos cientistas — prosseguiu Nike. — Eles, os nossos, perceberam o negócio somente quando as serpentes começaram a insurreição, negando-se a fornecer as peles. Mas esta prova aqui — dizendo isto, agitava o pequeno frasco com o gás verde — surgiu nos nossos laboratórios.
Ron Landry empalideceu subitamente.
Meu Deus... se o... Se o seu superdeus não fosse hermeticamente bem vedado... Não é isto que queria dizer? — indagou Nike Quinto, sorrindo. — Sim, meu amigo, então vocês iriam ter um acesso de fúria em suas cabinas, pois, como me foi comunicado, os aras encheram toda a antecâmara do laboratório com o tal gás.
Ron fez um gesto negativo.
Não é isto que estou pensando, senhor — disse lentamente. — Mas os prisioneiros, os dez mil que encontramos lá no grande recinto... Se não estivessem fracos demais para se levantarem e correrem lá para fora, teriam disparado através da nuvem de gás e... haveria de ser uma luta de morte entre eles mesmos, atacados pela fúria diabólica do gás verde.
Desta vez, Nike concordou, com muita seriedade estampada no rosto.
Tem razão, Ron, e se isto não aconteceu, não é nenhum merecimento nosso. Mas nós, na Divisão III, temos que dividir a sorte com os nossos aliados.
Levantou-se, apanhou de novo a ampola e a olhou através da luz mais demoradamente.
Aliás — disse ele — ia-me esquecendo. O agente mais importante do “Advertin” é extraído das peles das serpentes. Aí está toda a razão da insurreição provocada pelos saltadores e aras.

* * *

O grande deus estava já desmontado e tomava o caminho de volta para a Terra. Fora necessário, para impor respeito aos habitantes primitivos de Passa para com os terranos. Sua finalidade não ia além disso. E a missão estava cumprida.
Na hora do crepúsculo, soaram na floresta de vidro os tambores das sempre-verdes e todo o mundo das serpentes cantava em coro:

Vosso nome seja bendito, Senhor onipotente! Vossos filhos serão eternamente gratos porque os livrastes do mal e de um deus falso. Seremos eternamente vossos servos, justíssimo Senhor, Ayaa-Oooy!”




* * *
* *
*



Quando os homens da Divisão III entram em ação em qualquer planeta, agem sempre de acordo com a norma básica de sua organização secreta: “Trabalhe, quanto possível, sem dar na vista e não provoque complicações diplomáticas.”
Este princípio foi seguido à risca, de uma maneira modelar, na perigosa ação de Passa.
Quando, porém, se tem de tratar com os acônidas, tais normas de conduta perdem a validade, como se pode averiguar pelo próximo número da série. O teatro dos acontecimentos é em parte Árcon. em parte O Sistema Azul — aliás o título do próximo volume.

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