Ron sentiu
o perigo que pesava sobre ele. De um momento para o outro, perdeu
toda a insegurança e toda dúvida que vinha sentindo até então.
Estava ali, sem se mexer, a três metros do quadrado negro, com todos
os sentidos aguçados.
De repente
levantou-se um rolo de fumaça. Parecia provir do quadrado, embora
nele não houvesse nenhuma abertura de onde pudesse sair. A fumaça
tornou-se fina e azulada, cheirando a fogo de madeira. Era uma fumaça
que fazia Ron pensar muito em sua casa, e não ficava nada bem aqui,
neste local de sacrifício à divindade das sempre-verdes. Tão
estranho era o cheiro da fumaça que Ron, por algum tempo, julgou
tratar-se de alucinação.
Soou
novamente o gongo, surdo e cavernoso. Desta vez, vinha mesmo das
profundezas do solo. O quadrado negro desapareceu sob a constante
coluna de fumaça, que agora se adensava mais, tornando-se opaca. As
vibrações dos gongos ficaram mais fortes e estridentes e vozes
berrantes e agudas se misturavam de permeio.
Ron sabia
o que significava isto: era a chegada do deus. Como todos os deuses,
tinha este também um método especial de se manifestar aos seus
crentes, transidos de medo e veneração.
Compreendeu
ainda algo mais importante: chegara também o momento para uma ação
rápida. Agora, que toda a atenção se convergia para a fumaça
sagrada, que subia aos céus, e que ninguém olhava para os três
prisioneiros, era o momento.
— Atenção!
— gritara Ron para ser ouvido pelos dois colegas ali perto, apesar
do som dos gonzos e da gritaria geral. — Ali para dentro!
Estava
certo de que Lofty e Larry o seguiriam. Não tinha mais tempo para se
preocupar com os dois. Com um grande salto, deixou o local, onde
estava sem se mexer, e desapareceu na coluna cinza-azulada da fumaça.
8
“Pecamos...
perdoai-nos, Senhor! O príncipe das trevas nos dominou. Merecemos
vossa cólera... mas perdoai-nos, Ayaa-Oooy. A vida toda expiaremos
nosso erro, se merecermos vosso perdão.”
A fumaça
o impediu de respirar. Fechou automaticamente os olhos e deixou-se
cair para frente. Os braços, deixou-os estirados para sentir o chão
debaixo de si. Mas não havia mais chão. Um pavor incrível se
apossou dele. Estava caindo.
O medo
paralisou-o, mas logo a queda foi interrompida. Caiu sobre alguma
coisa macia. Teve a impressão de que essa coisa macia era composta
exclusivamente por cabelos. De qualquer maneira, a coisa gritava e
estalava assustada, desvencilhando-se. Ron perdeu o equilíbrio e
caiu um pouco mais para baixo.
Quando,
porém, se levantou, sentiu chão firme. Sem saber por que, rolou
para o lado. Ouviu, logo acima dele, dois baques sucessivos. O grito
se repetiu, desta vez, porém, num tom quase de pânico. Alguma coisa
tombou bem rente a ele no chão e, logo a seguir, outra coisa
idêntica.
Segundos
depois, ouviu um barulho, vindo do alto, barulho este que parecia uma
ameaça. Rolou ainda mais para o lado, embora ainda mantivesse os
olhos fechados, não podendo ver o que lhe ia em volta. Bateu alguma
coisa no chão a poucos metros dele e um grito, uma voz humana
desesperada, fez-se ouvir:
— Corre,
é uma coisa horrorosa...
Passos
apressados. Alguma coisa atirou Ron para o lado com a impetuosidade
de bala de canhão. O coitado foi chocar-se contra o paredão e abriu
os olhos, enquanto no fundo se perdiam os passos velozes.
Para sua
surpresa, estava relativamente claro em volta. Percebeu uma sombra
bem perto dele, com os contornos de Larry Randall. Aquele que soltou
o grito angustiante e saiu correndo era Lofty. Do lado direito de
Ron, havia uma longa galeria. Esta os poderia levar para algum lugar
desconhecido. Lofty já desaparecera há muito.
Mais para
frente, lá no lugar de onde Ron viera, continuava a sair fumaça
azul do chão. Esta fumaça desaparecia num buraco do teto do
corredor. O buraco era quadrado e podia-se facilmente supor que
terminaria naquele quadrilátero escuro do chão da galeria. Um pouco
da fumaça se perdia também no corredor, prejudicando a visão do
local, onde Lofty desaparecera. Ron tentou descobrir o que havia por
lá. Larry estava na sua frente. Empurrou-o para o lado, notando que
o coitado estava tremendo. Tinha, agora, visão total para a parte
traseira do corredor e viu, no meio da fumaça que subia do chão,
uma sombra que se movia.
Procurou
respirar melhor, pois seu coração queria disparar. Por uns
instantes, teve apenas um desejo: virar-se para o outro lado e sair
correndo atrás de Lofty. O que se contorcia lá na frente, dentro da
fumaça, provavelmente estonteado pela queda, era um monstro de três
metros de altura, corpulento e pesado, com quatro braços que se
apoiavam nas paredes do corredor, para manter o corpanzil em
equilíbrio. Parecia todo coberto de pêlo e, abstraindo-se os dois
braços supérfluos, tinha-se a impressão de estar vendo um urso
gigantesco andando de pé nas patas traseiras.
Até que a
enorme cabeça se destacou da penumbra e apareceu melhor na parte do
corredor com menos fumaça.
Que cabeça
horrorosa! Sem cabelo, de pele lisa e brilhante. Uma bocarra de
lábios finos ocupava quase a metade da cabeça. Olhos redondos, do
tamanho da mão de um adulto, sobressaíam tanto da testa ossuda,
como se fossem cair a qualquer instante. Lembrava em muito a cabeça
de um sapo.
A visão
era fascinante e paralisante ao mesmo tempo. O primeiro pensamento de
Ron, quase que instintivo, foi que os saltadores estivessem usando um
de seus robôs de combate para impingi-lo às sempre-verdes, como seu
deus verdadeiro. Os robôs dos saltadores eram de fabricação
arcônida. E uma das coisas que mais impressionava os povos
primitivos era um ser metálico que se movia com as próprias forças
e podia pensar.
Mas aquilo
ali não era nenhum robô. O urso-sapo era um ser orgânico. O
monstro descomunal estava saindo do meio da fumaça e se encaminhava,
ao longo do corredor, na direção dos dois terranos, paralisados de
medo e de horror, como que colados no chão.
O
urso-sapo estaria provavelmente iniciando sua subida pelo poço da
fumaça, no meio de ruídos extraterrenos e da coluna de fumaça
azul, para aparecer no local do sacrifício e mostrar às suas fiéis
adoradoras suas forças sobrenaturais, exatamente quando os três
terranos pularam para dentro do poço, caindo de encontro ao suposto
deus das serpentes. Foi isto que brecou a queda dos três, impedindo
que se ferissem no choque contra o chão de pedra do corredor. O
urso-sapo, que agüentara o impacto do corpo de Ron, acabou perdendo
o equilíbrio com o peso dos outros dois e caíra. Por alguns
instantes esteve sem forças ou talvez mesmo inconsciente. Mas já
recuperara as energias e olhava furioso para aqueles que estragaram
sua estonteante aparição miraculosa no cenário da ignorância
supersticiosa.
O monstro
vinha se aproximando. Seus pés volumosos estalavam no chão duro.
Ron esticou o braço para trás, fazendo um sinal a Larry para que o
capitão começasse a fugir. Ele mesmo ia recuando, à medida que o
urso-sapo avançava. Mas quando viu que, entre ele e o monstro,
cintilava no chão do corredor um objeto estranho que atraía seu
olhar com força mágica, despertou-lhe um imenso desejo de saltar
para frente e apanhá-lo, antes que o urso-sapo o fizesse. Era um
objeto volumoso, uma espécie de martelo pesado, de cabo comprido,
que só lhe ia dificultar mais a fuga. Mas seria o único comprovante
que podia levar dessa aventura horripilante. Portanto, tinha
simplesmente de pegá-lo.
Atendendo
à sua insistência, Larry saiu correndo. Ele, porém, ficou parado,
calculou pela última vez a distância até o urso-sapo e pulou.
No mesmo
instante, o estranho ser soltou um guincho estridente de ira
concentrada. Ron só tinha olhos para o grande martelo cintilante que
queria pegar. Entretanto ouviu as passadas arrastadas que se tornavam
mais rápidas, como se o monstro tivesse alguma coisa contra quem se
apoderasse do objeto...
Compreendeu
de repente que aquilo devia ser a ferramenta com que o deus matava
suas vítimas. Era o distintivo de sua dignidade e certamente as
sempre-verdes não mais o reconheceriam, sem o mencionado objeto.
Pegou no
cabo do tal martelo e, com as duas mãos, o levantou do chão.
Ergueu-se e queria correr. Porém, no mesmo instante, reparou que o
monstro já estava na sua frente com os dois pares de braços
estendidos, para lhe dar o abraço da morte.
Desesperado,
Ron levantou a ferramenta e esquivou-se, quase perdendo o equilíbrio.
Músculos e nervos estavam na maior tensão e sentia até dor no
ombro. Mas o grande martelo se moveu para frente num assomo de ódio
concentrado contra o urso-sapo. Fechou os olhos. Ouviu uma pancada
surda e sentiu que encontrara o objetivo.
Um grito
lancinante reboou no corredor e as mãos de garras compridas
procuravam apoio na parede de pedra. Ron apertou o instrumento contra
o corpo, como com medo de perdê-lo e disparou corredor a fora.
O corredor
parecia não ter fim e o martelo era pesado. Se Ron não tivesse a
força de vontade em levá-lo como objeto de comprovação para
mostrar a Nike Quinto, já o teria jogado fora há tempo, a fim de
correr melhor. Olhou em volta e ouviu passos que o seguiam. Só
poderia ser mesmo o monstro, que lhe pareceu antes liquidado, mas
que, agora, cada vez mais se aproximava.
Desesperado,
pensava em Larry e Lofty: “Onde
estarão eles?”
Subitamente
começou a sentir uma claridade diferente em volta dele. Era mais
intensa, mais quente. Um vento agradável lhe acariciava o rosto. Um
brilho suave iluminava os dois lados. Acabara de sair do corredor e
estava voltando ao ar livre. Caminhava agora numa espécie de
garganta. À direita e à esquerda, subiam leves rampas quase
desertas, com poucas touceiras de capim. De cima, penetrava a
luminosidade forte do sol, de um azul-claro, que se quebrava na
superfície plana das rampas. O calor invadia a tal passagem
estreita.
Ron sabia
que não ia agüentar por muito tempo. Às suas costas, continuavam
os passos do monstro, cada vez mais perto e, apesar de não olhar
para trás, sentia que apenas dez metros os separavam. Poderia ter
subido por uma das escarpas, mas o urso-sapo seria talvez tão bom em
galgar como em correr. Do outro lado das escarpas, começava a
floresta. E na floresta — sabia muito bem Ron — não conseguiria
andar nem cem metros e já estaria nas mãos do monstro.
Felizmente
sua cabeça ainda estava funcionando bem, para lhe dizer que devia
parar, antes que suas forças se esgotassem. De qualquer maneira,
tinha ainda em mãos o grande martelo, com o qual já impusera
respeito ao estranho ser.
Um novo
acesso de ódio tomou conta dele. Não queria mais fugir. Tinha uma
arma em mãos, por mais primitiva que fosse. Ia parar como um homem
corajoso e olhar firme na cara do aleijão, o qual não podia evitar.
Os pulmões
estavam em ponto de estourar. O terrível calor lhe inundava a testa
e os olhos de suor, prejudicando-lhe a visão. Parou de correr.
Virou-se para trás e ergueu o pesado martelo, para vibrar o golpe
assim que o urso-sapo chegasse mais perto.
O gigante
peludo vinha com um largo sorriso na bocarra resfolegante, já com os
braços abertos, a fim de receber a vítima e estrangulá-la de
encontro ao corpo peludo.
De
repente, um sonoro grito de guerra reboou no ar. Duas cabeças
viraram para trás, a de Ron e a do monstro. O grito vinha de uma das
ribanceiras e, lá em cima, na escarpa do lado direito, estavam de pé
Larry e Lofty, atrás de uma verdadeira barricada de blocos de pedra.
Os dois gesticulavam alegres.
Ron não
conseguiu entender o que gritavam, mas viu quando se abaixaram e a
barreira começou a rolar, como se fosse uma avalancha programada!
Uma densa
nuvem de poeira se levantou e a avalancha se despencou escarpa
abaixo. No meio da poeira, Ron viu pedras volumosas que saltavam no
ar e continuavam rolando.
Sabia o
que lhe cabia fazer. Com um salto de gigante, jogou-se para o lado e
saiu correndo escarpa acima. Tomou o lado direito, a fim de escapar
da avalancha. Chegou a sentir o deslocamento de ar, provocado por
pedras maiores. Muita pedra miúda passava rente dele.
Mas foi
ganhando terreno. Quando estava atingindo a terça parte da encosta,
ouviu o impacto da avalancha lá embaixo. No meio de todo o estrondo,
pôde ouvir o grito agudo do monstro, que não conseguiu se desviar a
tempo.
Ron deu
ainda uns passos cambaleantes e caiu no chão. Ofegante, estava
deitado na pedra escaldante, sempre segurando bem firme a pesada
ferramenta. Sentia alívio e cansaço ao mesmo tempo. Se pudesse,
continuaria deitado e dormiria um pouco. Mas sabia que, mesmo com a
exclusão do tremendo monstro, o perigo continuava. Ainda estavam em
pleno território inimigo. A qualquer momento podiam surgir os
saltadores, e estes não iriam tolerar que três terranos
desvendassem sua trama suja e voltassem tranqüilos para a cidade, a
fim de relatarem o que viram.
Não, a
batalha continuava. Não tinha sentido ficar parado aqui.
Levantou-se. Foi aí que sentiu como os acontecimentos das últimas
horas e minutos o tinham desgastado. Círculos coloridos dançavam
diante de seus olhos, impedindo-o de ver o que queria. Reconheceu,
entretanto, os dois vultos que lhe acenavam lá do alto, Larry e
Lofty. Viu que vinham ao encontro dele e, de repente, sentiu mãos
fortes sob seus ombros.
— Formidável!
— exclamou Larry. — Conseguimos vencer. O urso-sapo está
sepultado sob as pedras da nossa avalancha. Pode-se ver um pedaço de
seu pêlo, lá de cima. As sempre-verdes perderam sua divindade e com
isto acabará o fantasma. Lofty já deu uma volta por aí. Sabe, mais
ou menos, onde estamos. O ponto onde está o deslizador não dista
mais do que dois quilômetros daqui.
Ron não
estava entendendo tudo, estava por demais exausto para isto. Mas
compreendeu que havia motivo para esperança. Ouviu o que Larry disse
a respeito do deslizador. O aparelho era de um tipo totalmente novo e
mesmo um saltador entendido no assunto levaria muito tempo até
compreender seu funcionamento. Por certo, o deixariam onde estava,
até que soubessem manobrá-lo.
Finalmente,
Ron se libertou dos braços que o seguravam.
— Santo
Deus! Afinal de contas eu simplesmente corri, como vocês também
correram. Não tenho, pois, o direito de estar tão mole assim. Onde
está o aparelho?
— Nesta
direção — disse Lofty, esticando o braço. — Não quer
descansar uns minutos? Aviso-lhe: na floresta, o senhor terá que
estar muito concentrado, do contrário...
Não
terminou a frase, entretanto Ron sabia o que ia dizer. Ainda não se
esquecera do episódio com os besouros carnívoros. Mas sabia também
que não tinham um minuto a perder. Os saltadores eram comerciantes,
homens de pensamento rápido.
— Nem um
segundo! — respondeu com determinação. — Vamos continuar
imediatamente. Temos que sair daqui o mais rápido possível.
Atravessaram
o trecho da encosta.
Tendo
Lofty à frente, iniciaram o difícil caminho pela floresta. Estavam
penetrando até bem depressa, muito mais rapidamente do que quando
estavam entrando. O terror, isto é, a presença dos saltadores,
ainda lhes era um verdadeiro pesadelo. Sabiam que não podiam mesmo
perder tempo.
Ron quase
levou um susto, quando, de repente, se lembrou de uma coisa de que se
esquecera totalmente: não adiantaria nada toda a caminhada até o
local do deslizador, pois o aparelho estava totalmente destruído.
Não se
lembravam mais de que Larry, naquele misterioso assomo de fúria,
danificara gravemente o aparelho, pouco antes de ser capturado pelas
serpentes.
9
“Graça
vos rendemos, Senhor, e exaltamos vossa infinita bondade. Conheceis o
amor de vossos servos e lhes perdoais os pecados cometidos. Louvor e
honra a Vós para todo o sempre, ó Ayaa-Oooy!”
— Não,
não tenho mesmo nenhuma idéia do que ainda está intacto — disse
Larry triste e muito aborrecido. — Estava completamente doido,
quando comecei a destruir o painel de comando e quase não me lembro
de nada.
Sentaram-se
em torno da clareira que abriram com disparos térmicos, antes de
pousarem com o aparelho. A alguns metros deles, estava o deslizador,
aparentemente intacto. Mantiveram-se escondidos no emaranhado da
floresta de vidro. Tinham receio de que os saltadores estivessem de
vigia por perto. Ficaram olhando para o aparelho, como se de longe
pudessem saber se ele iria funcionar, se iria subir reto quando se
puxasse a alavanca de direção para trás.
Já
estavam ali há alguns minutos. Ron sentiu sua inquietação
aumentar. Cada minuto desperdiçado, diminuía-lhes a possibilidade
de voltarem para Modessa. Cada minuto perdido dava mais tempo aos
saltadores de intensificarem o bloqueio na região das Montanhas do
Interior.
Procurou
concentrar todos os seus pensamentos num único objetivo: fugir da
floresta. Inconscientemente, seus dedos brincavam no cabo do grande
martelo, que mantinha sempre com cuidado em suas mãos, com a
intenção de mostrá-lo ao Coronel Quinto quando voltassem para a
Terra.
Os dedos
sentiram um pequeno relevo. Com o consciente todo concentrado no que
pretendia fazer, não percebeu o impulso dos nervos. Foi necessário
que os dedos alisassem três vezes a pequena saliência, para se
aperceber de algo estranho. Perplexo, levantou o martelo no ar e
ficou observando o cabo.
Só então
foi que reparou na série de pequenos botões de contato, ficando
curioso para saber o que significavam. A situação do monstro, do
urso-sapo, de passar por um deus no meio dos habitantes primitivos de
Passa, isto é, as sempre-verdes, sempre pronto a exibir novas
maravilhas, ficou de repente clara para ele.
Como é
que o monstro realizava seus milagres? Até então, sem ter se
aprofundado no assunto, aceitava pacificamente que os saltadores,
estando nos bastidores de tudo, faziam também tudo que era
necessário para conservar o prestígio do deus importado e imposto.
Mas agora, estava vendo que não era bem assim. Será que o tal
martelo era o meio pelo qual o falso deus mantinha seu prestígio?
Hesitante,
Ron apertou o último botão, suspendendo o martelo bem acima da
cabeça, para ficar livre de qualquer conseqüência de sua
curiosidade. Mas, havia de longe subestimado as propriedades do
martelo, como veio a constatar logo depois. Sua cabeça começou a
zumbir, sentindo horríveis vibrações no cérebro, enquanto Larry e
Lofty, esquecendo-se de toda cautela, soltavam gritos lancinantes.
Imediatamente,
Ron apertou de novo o mesmo botão. A dor desapareceu. Admirado,
começou a olhar com desconfiança para o instrumento mágico. Não
tinha a menor dúvida de que desencadeara uma forte radiação de
ultra-som, que certamente se destinava às sempre-verdes que não se
comportassem bem na presença do supremo deus, para lhes impor mais
respeito. Não havia nenhum mistério. A questão era agora saber
quais os efeitos dos demais botões. Quem sabe os saltadores haviam
pensado também em resguardar seu urso-sapo de um perigo mortal,
dando-lhe também uma arma clandestina, de efeito fulminante? Que
tal, se apertasse o próximo botão?
Estava
indeciso. Pensou e chegou à conclusão de que não tinha opção. O
martelo era a única arma de que dispunham no meio daquele mundo
hostil. Tinham que saber como funcionava, do contrário, lhes seria
inútil.
Postou-se
de pé e tentou imaginar de que maneira o monstro seguraria o
martelo, caso tivesse que se defender de um inimigo. Levantado acima
da cabeça? Provavelmente, não. Teria muita dificuldade com a
pontaria. Ou displicentemente, como se não tivesse nenhuma má
intenção, com a mão bem sob a coronha da arma? Parecia plausível
e correspondia mais ao porte de um deus, de atacar de repente e de
surpresa, do que exibir antes sua animosidade.
Ron pegou
o martelo na parte superior do cabo, de tal modo que a seção mais
longa do mesmo pendia de sua cintura, enviesada como uma espada.
Nesta posição, lhe era muito difícil atingir todos os botões.
Tinha de usar a mão esquerda atravessada nas costas. Acontece que o
urso-sapo tinha quatro braços, dois de cada lado. Com uma das duas
mãos direitas, alcançaria sem dificuldade todos os botões.
Receoso,
comprimiu o penúltimo botão e foi atirado para trás, como se a
cabeça do martelo tivesse feito uma descarga muito pesada. Uma chama
ofuscante, um jato fechado de uma energia alvacenta, se projetou
enviesada para cima, perdendo-se depois no ar. Ron não chegou a
perceber que, já no primeiro susto, apertara de novo o botão,
fazendo cessar logo o tremendo impacto.
Não
restava mais dúvida. Entre outras coisas, o martelo era também uma
preciosa arma de radiação térmica.
A terceira
tecla disparava um desintegrador, que com um feixe de raios verdes
liberava material fortemente compacto das forças de cristalização,
transformando-o em gases. O quarto botão, depois de comprimido, não
produziu nenhum efeito sensível, o que obrigou Ron a marcá-lo de um
modo especial. O quinto devia produzir um campo antigravitacional,
pois, quando o apertou, sentiu-se aliviado do próprio peso. Uma
pequena pressão dos joelhos o levou para o alto.
Era desta
maneira que o monstro-divindade conseguia sua subida miraculosa para
fora do poço, entrando no quadrado sagrado.
O sexto
botão novamente não mostrou efeito nenhum, o que deixou o major
terrano mais desconfiado ainda. Resolveu não apertá-lo de novo,
antes de saber do que se tratava.
Era
bastante para ele saber que tinha em mãos uma arma salvadora. Não
tinha, é verdade, nenhuma idéia de seu raio de ação, mas enquanto
os saltadores não atacassem com deslizadores ou jatos de grande
altura, devia ser suficiente para livrá-los de todos os perigos.
Assim podiam ficar um pouco tranqüilos, enquanto tentavam consertar
seu aparelho semidestruído.
Lofty e
Larry acompanharam com entusiasmo a exibição do instrumento
maravilhoso. A ordem que receberam não lhes causou surpresa:
— Vamos
embora! Temos que botar o deslizador em condições de funcionar.
Daqui a três horas, o sol se põe.
*
* *
O começo
foi muito promissor. Pareceu que, quando Larry ficou furioso com o
aparelho terrano e começou a destruí-lo, o forte choque elétrico o
fez parar a tempo, não causando danos de maior monta. O mais
prejudicado foi um quadro de ligação lateral que se usa, com o
auxílio dos estabilizadores de vôo e do campo de gravitação
artificial, para o arranque instantâneo e para a subida vertical a
grande altura. Em caso de necessidade, Ron voaria sem este quadro de
ligações. Mas não ficara só nisto a obra destruidora de Larry.
Danificara também o assento do piloto e principalmente os dois
transmissores de rádio, que dificilmente seriam recuperados.
Larry e
Ron arregaçaram as mangas e começaram a trabalhar, enquanto Lofty,
por falta de conhecimentos técnicos, ficou lá fora, de olhos bem
atentos.
Pouco
antes do pôr do sol, os trabalhos de recuperação estavam tão
adiantados que o deslizador podia levantar vôo e, se tudo ajudasse,
poderia vencer o caminho até Modessa, em altura moderada. O ambiente
lá fora estava calmo e Ron resolveu continuar com os trabalhos para
aumentar a segurança do vôo.
Mal
pensara nisto, quando lá fora reboou pela floresta o som cavernoso
dos tambores das sempre-verdes; som tremendamente enervante. A
tonalidade mudava de três em três segundos, enquanto o volume subia
num crescendo, para depois voltar a quase surdina.
Ron
interrompeu o trabalho e observou Lofty Patterson, que, de pé lá
fora, tentava interpretar a mensagem dos tambores.
Virou-se
de repente e veio correndo para o deslizador. Parecia meio confuso.
— Agradecem
ao seu deus — exclamou ofegante — porque é misericordioso e
perdoou seus pecados. E eu pensava o tempo todo que já o tivéssemos
matado.
No
primeiro instante, a surpresa de Ron não foi menor do que a de
Lofty.
Será que
o monstro teria conseguido sair vivo daquela avalancha de pedras?
Soava como
uma coisa impossível. Aquelas pedras enormes, rolando de grande
altura, deviam tê-lo matado antes de cobri-lo de cascalho e poeira.
Mas depois, lhe veio o estalo e se admirou de não ter pensado nisto
antes. Os saltadores não eram assim tão imprevidentes de trazerem
apenas um deus, a quem a qualquer momento podia acontecer alguma
coisa. Deviam ter mais exemplares do urso-sapo de reserva, para
substituí-lo em qualquer emergência e não deixar uma lacuna na
superstição das serpentes.
Ron
compreendeu o que isto significava: não podiam mais contar com a
revolta das sempre-verdes. Os saltadores faziam tudo para não perder
a ascendência que mantinham sobre o mundo das serpentes.
Substituíram o deus morto por outro vivo e o mandaram afirmar sua
benevolência para com as serpentes. Tinham, pois, mãos livres para
agir contra os três terranos, seus maiores inimigos no momento, que
agora deviam estar procurando seu aparelho no meio das montanhas.
Ron deu a
mão a Lofty para o puxar para dentro do deslizador.
— Vamos
embora, partiremos imediatamente.
*
* *
Lentamente
e um pouco incerto, o pequeno aparelho se levantou acima da ramagem
da floresta de vidro. Novamente surgia, do lado oposto, o sol azul,
que já há alguns minutos sumira atrás das árvores.
Quem
estava pilotando era o próprio Ron. Da direita para a esquerda, de
cima para baixo, seu olhar atento percorria a fila de instrumentos e
marcadores, sempre preparado para remediar qualquer falha do
funcionamento dos aparelhos de bordo. Mas o motor cumpria seu dever:
trabalhava calmo e firme, e quando o piloto ligou a tração
horizontal, o pequeno conjunto antigravitacional estabilizou o
deslizador e as turbinas forneceram a energia prevista.
Todos,
principalmente Ron, estavam contentes e respiravam aliviados. As
coisas corriam melhor do que pensavam. Ia se virando para trás, para
dar uma palavra de estímulo aos dois companheiros, quando Larry
gritou:
— Atenção!
Aparelho estranho do lado direito.
Ron
virou-se. Exatamente do lado direito estava o sol poente. O inimigo
escolhera o lado mais cômodo para o ataque. O aparelho parecia ainda
uma sombra semitransparente contra a claridade reluzente do sol
moribundo.
Ron
disciplinou o pensamento para agir com sangue-frio. Não mudou a
rota, conservando o aparelho no rumo oeste, pouco acima das copas das
árvores. Usou de toda a aceleração de que podia dispor.
— Deixem
que ele chegue mais perto. Não sabe que estamos armados. Certamente
vai querer primeiro brincar um pouco conosco.
Realmente,
Ron tinha razão. Com uma velocidade bem superior, o aparelho inimigo
se aproximou do deslizador terrano, dando algumas voltas em torno
dele. Pelas janelas da cabina, Ron reconheceu os vultos pesadões e
espadaúdos de dois saltadores.
Pela
primeira vez, na história de Passa, apareciam em campo para a luta
e, pela primeira vez, não usavam nenhum subterfúgio para ocultar
que eram eles os causadores de toda intranqüilidade reinante no
planeta. Ron teve um sorriso irônico quando lhe passou pela cabeça
que os pescadores de águas turvas estavam agora se arriscando
demais, por estarem crentes de encontrarem no deslizador terrano uma
presa fácil.
Atrás
dele, falou Larry:
— Eu os
tenho na mira, Ron. Quando eu fizer um “carinho”
aqui no botão, vão ter um rombo sensacional no seu aparelho.
— Ainda
não, Larry. Se atirarmos desta distância, teremos em poucos minutos
uma armada em nosso encalço.
Ron
continuou na direção das montanhas, seguindo o rumo do oeste. Sabia
que o maior perigo ainda estava por vir, pois as espaçonaves dos
saltadores, se ainda não tivessem decolado, deviam estar escondidas
nas gargantas das Montanhas do Interior. Este fato — supunha ele —
contribuía naturalmente para justificar a despreocupação do
deslizador inimigo, que perdia tempo com brincadeiras. As montanhas
aumentavam e a hora do crepúsculo se aproximava, quando a orla
superior do sol azul desaparecia no horizonte e o clarão avermelhado
aumentava no lado do nascente.
Não
mudara ainda de tática o aparelho dos saltadores. Deu incontáveis
voltas em torno dos terranos, e se podia ver o sorriso de
superioridade no rosto dos homenzarrões.
De repente
Ron parou diante de um pico de montanha bem íngreme e, quando já
estava a cem metros do penhasco, mudou de direção. Virou em ângulo
reto para o sul e ficou observando a reação do aparelho inimigo.
Notou que os dois saltadores estavam nervosos. Os círculos que
descreviam se estreitaram.
“Estão
perdendo a calma”,
pensou ele. “Provavelmente
tomamos a direção errada. Acho que suas forças estão no norte.”
Os
saltadores começaram a mostrar mais abertamente seu
descontentamento. Talvez não estivesse nos seus planos destruir o
aparelho terrano e seus tripulantes. Dispararam um tiro de bateria
térmica que passou bem longe da proa do deslizador.
Ron
desligou a tração horizontal, enquanto o campo antigravitacional
mantinha o aparelho acima das árvores do trecho de grande aclive.
— Preste
atenção, Larry — falou Ron, lentamente.
Os
saltadores tomaram a manobra, como deviam tomar: que os terranos
estavam dispostos a se entregarem. Foram chegando, devagar, um pouco
cautelosos. Ron reconheceu as bocas-de-fogo no chassi do aparelho
inimigo.
— Espere
que cheguem mais perto — disse a Larry. — A cinco metros, você
acerta melhor do que a vinte.
Larry
disse qualquer coisa que ninguém entendeu. Os saltadores se
aproximavam. Um deles abriu a escotilha e botou a cabeça para fora,
fazendo um sinal com a mão. Queria lhes indicar uma nova direção.
Mas Ron fingiu não entender o que queriam e ficou onde estava. O
aparelho inimigo emparelhou com o dos terranos. Quando a proa aguda
de sua máquina estava quase encostando no deslizador, Larry Randall
disparou. Uma intensa chama irrompeu da cabeça do martelo.
No ar
tranqüilo acima da floresta, reboou uma detonação seca. Alguma
coisa no meio daquelas labaredas ofuscantes ia aos pedaços pelos
ares. Línguas de fogo e partículas incandescentes choviam de todos
os lados.
Quando
Larry desligou o botão e seus olhos se readaptaram à luz normal,
viu apenas uma coluna de fumaça descendo vertical e um poço escuro
na floresta de vidro, poucos metros abaixo.
Ron
afastou todos os pensamentos que queriam assaltar sua imaginação e
ligou novamente a tração horizontal. Uma hora depois, o pequeno
aparelho transpunha a região das montanhas e estava, em vôo
tranqüilo, rumo à cidade de Modessa.
*
* *
— Os
senhores estão bem certos — disse Nike Quinto com uma seriedade
fora do comum, apontando para Lofty Patterson — de que este homem
deve receber um tratamento todo especial, assim que terminarmos os
negócios pendentes, não é verdade? Os senhores podem trazer aqui
para nossa seção simplesmente um ilustre desconhecido e nos exigir
que o deixemos ir embora sem mais nem menos?
Ron Landry
sorriu.
— Mesmo
com o risco de elevar sua pressão arterial, senhor — e com isto,
afastava do caminho um dos melhores argumentos — eu proporia que a
nossa seção fizesse deste homem seu representante permanente em
Passa. Não existe neste planeta ninguém que conheça melhor este
mundo misterioso.
Nike
Quinto se levantou.
— De
fato — começou com voz aguda — você abusa demais de minha
pressão sangüínea. Desde quando é você quem determina os novos
membros? Ou acha que já estou velho demais e, portanto, meio caduco?
Não, meu jovem, aí é que você se engana.
Seu corpo
disforme procurou de novo uma cadeira, continuando depois com voz
mais calma:
— Mas
vamos pensar no assunto. Antes disso, no entanto, temos coisas mais
importantes para fazer.
Ron
respirou mais aliviado. Percebeu que Larry estava sorrindo para ele.
Não tinha mais dúvidas de que Lofty Patterson seria admitido como
representante permanente do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento, Divisão III, em Passa, e que, para continuar de
olhos abertos pelo resto de sua vida, receberia um ordenado condigno.
Conforme o parecer de Ron e de Larry, isto era coisa mais do que
justa.
— Seu
relatório — recomeçou Nike Quinto, desta vez num tom mais
objetivo — foi analisado de todos os pontos de vista. Você vai
ficar boquiaberto com as conclusões que daí surgiram.
“Primeiro:
sua suposição, Major Ron Landry, de que os saltadores queriam
chegar a uma guerra circunscrita a Passa, foi confirmada. Todos os
indícios apontam para isto. Os saltadores devem, pois, possuir uma
nova arma, com a qual esperam ganhar esta guerra. Que arma seja esta,
não sabemos. Temos apenas suposições.
“Segundo:
o fato de as sempre-verdes primeiro terem deixado de lado os colonos
assassinados e, somente num segundo estágio da insurreição, os
terem levado para oferecê-los a seu deus, faz com que os técnicos
cheguem à conclusão de que, a princípio, os mercadores galácticos
ainda não tinham um plano de ação bem delineado. Por alguma razão,
alguns dias mais tarde, acharam essencial receberem os cadáveres dos
terranos e não apenas os prisioneiros vivos.
“Terceiro:
o martelo misterioso foi examinado. As funções dos botões quatro e
seis não são mais segredo. Na tecla quatro, trata-se de um produtor
de choques nervosos.”
Nike
Quinto fez uma pausa, olhando para seu interlocutor.
— Isto
lhe significa alguma coisa?
É claro
que Ron tinha seu ponto de vista:
— Isto
mostra que o deus não chegava a matar suas vítimas. Vibrava o
martelo e as sempre-verdes viam como as vítimas caíam. Julgavam-nas
mortas, mas realmente não o estavam.
Quinto
concordou, acenando com a cabeça.
— Exato!
Não temos dúvidas de que muitos dos prisioneiros foram realmente
assassinados, mas por algum motivo, os saltadores queriam
conservá-los vivos.
“Mas,
continuando... em quarto lugar: o botão número seis aciona um
instrumento muito singular. Trata-se, no fundo, de um transmissor de
potência muito diminuta. Portanto, só pode ser recebido a maior
distância, quando opera como raio direcional. Está equipado para
isto e o raio direcional funciona até automaticamente. Ele mesmo se
auto-regula através de uma célula fotoelétrica. Enquanto o
transmissor se encontra no setor atingido pela célula fotoelétrica,
está regulado para uma determinada posição. De acordo com a
opinião dos técnicos, esta posição automática é a base secreta
dos saltadores.”
Parou de
novo, olhando para os três. Podia estar contente com a impressão
causada pela sua explicação. Ron ergueu-se da cadeira perplexo.
Lofty e Larry olhavam também admirados.
— Isto
significa naturalmente o fim da base clandestina dos saltadores —
continuou Nike Quinto tranqüilamente. — Na hora oportuna,
mandaremos um comando equipado com o transmissor, para Passa, a fim
de acabar com os saltadores.
“Há,
porém, coisa mais importante ainda. O ser esquisito, o monstro
descrito pelos senhores como um urso-sapo, é totalmente desconhecido
na Galáxia. Mais ainda: os técnicos chegaram à conclusão de que
um animal deste tipo não pode surgir por via natural. Encerra traços
que se contradizem. A opinião geral dos técnicos é de que o
urso-sapo, embora de origem orgânica, é uma criação artificial.”
Nike não
quis deixar tempo para ninguém fazer ponderações e prosseguiu sem
parar:
— Isto
nos dá uma pista muito segura, meus senhores. Existe apenas um povo
na Galáxia que pode criar seres artificiais com tanta rapidez e
precisão: os aras, descendentes dos velhos arcônidas, que se
dedicaram inescrupulosamente de corpo e alma à pesquisa científica.
Não é a primeira vez que constatamos um pacto entre os saltadores e
os aras, sendo que os primeiros ficam com o negócio e os outros com
o incremento científico.
“Temos,
portanto, que supor que o planeta Passa é cobiçado não só pelos
saltadores, mas também pelos aras. A cooperação, ou melhor, a
concorrência entre as duas raças, pode explicar alguma coisa da
falta de unidade operacional no início do empreendimento. Dificulta
também para nós, terranos, a ação em Passa. Os aras são um
inimigo que têm de ser levado muito a sério, exatamente por não
serem guerreiros, mas lutarem, na surdina e nos bastidores, com armas
nada convencionais.”
Nike
Quinto deixou tempo para que suas palavras fizessem efeito nos
ouvintes. Observou como Ron Landry ficou longo tempo de cabeça
inclinada, olhando para o chão. Larry Randall continuava sentado
espalhadamente em sua poltrona, bem refestelado, com os olhos quase
fechados. Lofty Patterson estava sentado ereto, sem se encostar e sem
tirar os olhos do Coronel Quinto. Mas Nike tinha o pressentimento de
que Lofty realmente não estava olhando para ele.
— Uma
pergunta — recomeçou Quinto, após pequena pausa — ainda não
foi respondida: como é que os inimigos conseguiram impingir às
serpentes um deus assim? Acho que seria até muito fácil nos
aproximarmos de um ser primitivo, lhe apresentar um robô de bom
funcionamento, dizendo-lhe que era seu deus e que devia ser adorado.
Agora, não tenho certeza se, só por isto, este primitivo iria
dedicar ao robô tal obediência e fé inabalável como as
sempre-verdes dedicam ao urso-sapo. Aí é que está o mistério e eu
gostaria...
Neste
momento, falou Lofty pela primeira vez, interrompendo o Coronel Nike
Quinto no meio da frase:
— Isto
eu posso explicar com bastante clareza, senhor. Desde meus tempos de
rapaz, sempre vivi às voltas com as serpentes. Elas não têm
propriamente Literatura, também não sabem escrever. Mas sua
tradição oral conhece um bom número de lendas, entre as quais uma
que diz que, um dia, um poderoso deus descerá do céu e a partir daí
ficará com as serpentes para ajudá-las. Este deus é descrito como
um ser possante de quatro braços, sempre pronto para operar uma
série de maravilhas.
Nike
Quinto confirmou sorridente como se não esperasse outra coisa.
— Combina
muito bem com o urso-sapo — disse ele. — Maravilhas e milagres
certamente já fez muitos, mas... será que as sempre-verdes, que já
têm seis metros de comprimento, vão considerar como poderoso um
urso-sapo que tem apenas três?
Ninguém
tinha resposta para esta pergunta. O próprio Ron já pensara nisto e
tinha a impressão de que não havia saída para tal comparação.
— Haveremos
de aproveitar tudo isto, meus senhores — disse Nike Quinto, de
repente.
Levantou-se,
talvez para indicar que o encontro já chegara ao fim.
— Os
últimos preparativos serão tomados prontamente. Estejam atentos,
meus senhores, talvez partirão depois de amanhã, providos de todos
os meios de que precisarem para pôr um ponto final neste fantasma de
Passa.
Não falou
mais do que isto. Ron tinha a sensação de que ele ocultava um
grande segredo e se divertia em ver os outros quebrando a cabeça a
respeito.
X
“Dúvida
em nossos corações, ó Altíssimo! Nunca esperávamos ver dois
deuses. Afastai a nossa dúvida, Ser Supremo. Tudo depende de vosso
poder e ao mais forte queremos servir para sempre!”
Um monstro
caminhava pelas trevas avermelhadas da selva de vidro, oito metros de
altura, coberto de um pêlo grosso, com seis poderosos braços que
afastavam galhos e troncos do caminho. Mugindo, o gigante ia
quebrando tudo que se lhe opunha na frente e seu urro penetrava
muitos quilômetros pela mata a dentro.
Os
tambores das sempre-verdes vibravam sem parar para aplacar a ira do
monstro. E o milagre aconteceu: o ser gigantesco entendeu a linguagem
dos tambores e poupou as aldeias dos seus adoradores. As outras,
porém, que ficaram fiéis ao velho ídolo, a quem construíam um
templo do outro lado das Montanhas do Interior, tiveram suas casas
destruídas.
A notícia
da vinda de um novo deus se espalhou por todo o planeta. O pequeno
deus das Montanhas do Interior, que olhava impassível a miséria de
seus fiéis seguidores, não estava demonstrando assim sua
inferioridade? Como se podia saber quem era o deus verdadeiro, quando
o novo deus gigante apregoava com voz de trovão que ele era o
verdadeiro Ayaa-Oooy, enquanto o outro, a quem construíam um templo
nas Montanhas do Interior, não passava de um deus auxiliar de pouca
importância, que aproveitava sua grande semelhança com o deus
verdadeiro — embora fosse muito pequeno — para tirar seus
proveitos?
A quem se
devia dar fé? É claro que também o pequeno deus das Montanhas do
Interior levantou sua voz, quando soube da existência do deus
gigante. Sua voz, porém, não ia muito longe e suas palavras não
eram bem compreendidas.
As pobres
criaturas dos dois sóis viviam num doloroso conflito de consciência,
acabando por deixar nas mãos dos próprios deuses a decisão: quem
realmente era o verdadeiro?
Isto,
porém, não estava agradando nada ao pequeno deus das Montanhas.
Procurava incitar as serpentes, que viviam em sua proximidade, para
que marchassem contra o monstro e o matassem. Chegou a reunir um
grande grupo, desceram das Montanhas e foram de encontro ao novo
deus, para lhe preparar uma cilada. Mas este, vomitando raios dos
olhos e das mãos, destruiu-as, antes que pudessem dar dois saltos
apoiadas em suas caudas possantes. A partir daí, ninguém mais saiu
em luta pelo pequeno deus.
O grande
deus veio do noroeste e, dia e meio depois de ter aparecido pela
primeira vez, já atingira os pés das montanhas. As sempre-verdes,
medrosas, viam de longe como ele galgava as montanhas, sem diminuir a
velocidade. Admiravam seu tamanho e sua força e aos poucos foram se
convencendo de que ele era o verdadeiro deus e não o pequeno, que
estava além das Montanhas.
No
interior do grande deus, mais ou menos na altura onde ficam os
intestinos, estava sentado numa cômoda poltrona o Capitão Larry
Randall, colocando uma nova fita no gravador. Ligou o aparelho e,
segundos depois, com uma ampliação de mais de mil vezes, começou a
sair da boca do sapo-monstro uma nova mensagem na língua das
sempre-verdes.
Larry
sacudiu a cabeça desconfiado.
“Mesmo
que tudo funcione tão bem”,
pensava ele, “isto
aqui é, e continua sendo, uma besteira.”
*
* *
Ron Landry
tinha sua poltrona em cima, logo abaixo da cabeça. Dali controlava
os movimentos do gigante artificial, e o possante motor nuclear,
instalado mais ou menos na altura dos pulmões. Estava numa cabina à
prova de ruído, pois, do contrário, não suportaria o vozeirão
quilométrico que o grande deus irradiava pelas florestas.
Bem
embaixo, numa das possantes pernas, estava instalado Lofty Patterson,
numa espécie de aparelho de escuta. Lá embaixo é que ouvia e
interpretava as mensagens dos tambores das sempre-verdes. Quando
decifrava algo importante, comunicava-o pelo interfone de bordo a Ron
Landry.
No dia 21
de outubro de 2.102, mais ou menos às quinze horas, tempo de bordo,
o grande deus já deixara para trás as altas Montanhas do Interior,
sem ser molestado no caminho uma só vez. Havia realizado uma parte
importante do seu trabalho, pois viera até Passa, não somente para
converter as sempre-verdes, mas precipuamente para chamar a atenção
dos saltadores e dos aras para si. Isto é, para sua marcha
triunfante, a fim de que o Major Bushnell, com seu comando de ação,
pudesse chegar sem ser notado ao local, onde, conforme as indicações
do automático do transmissor de raios direcionais, se localizava a
base secreta do inimigo.
O plano
tático previa que Bushnell, com seus duzentos homens, teria cercado
a base às quinze horas, tempo de Terrânia, de tal maneira que os
saltadores ficariam ali encurralados, sem se poderem mexer. Tinha de
ser assim, pois o próprio deus gigante não poderia enfrentar
sozinho não apenas os adeptos do deus pequeno na região do templo
em construção, mas muito menos os muitos e bem armados saltadores.
O momento
crítico passou sem novidade. Do Major Bushnell veio um rádio
cifrado, dizendo que o plano corria normal. Os saltadores ainda não
sabiam de nada e ignoravam que estavam cercados. Haveriam de notá-lo
quando fossem socorrer seu deus ameaçado lá no templo. Bushnell
ainda comunicava que encontrara na base secreta duas espaçonaves de
porte médio.
O grande
deus continuava sua marcha, vomitando raios pelos olhos e espalhando
sua mensagem com o vozeirão penetrante.
Parava
somente quando, lá em cima no pescoço, Ron recebia um pedido formal
de Lofty:
— Desligue
um pouco seu órgão horrendo, para que eu possa ouvir a mensagem dos
tambores.
*
* *
Pouco
antes do ocaso do sol azul, o grande deus chegou ao local onde as
serpentes construíam um templo ao seu deus Ayaa-Oooy. Haviam cortado
uma parte da floresta e, com os troncos das árvores de vidro,
ergueram um grande paredão. Não foram além disso, porque chegou a
notícia terrífica da vinda do novo deus, gigantesco e poderoso.
Do alto do
pescoço do deus-monstro, Ron Landry viu com nitidez todo o local.
Clareira e templo recebiam a luz amena do sol poente. Do tal deus, a
criação monstruosa dos aras, não se via nem sinal e as próprias
serpentes já deviam estar escondidas.
Ron fez
com que o monstro parasse. Imenso, ciclópico, formando no chão uma
larga sombra, estava ele de pé na clareira, virando a cabeça, como
que examinando o ambiente. E sua voz tonitroava:
— Onde
está o deus falso? Que ele apareça e mostre o que pode. Só então
é que verei se concedo graça ou justiça.
Ron não
estava se sentindo bem. Resolveu terminar mais rapidamente toda
aquela pantomima. Botou de novo o monstro para andar na direção do
templo em construção, repetindo mais vezes sua provocação ao
pequeno deus. O paredão de troncos não foi nenhum empecilho para o
deus gigante. Derrubou de uma só vez todas as estacas fincadas.
Levantou-se
enorme nuvem de poeira e, no meio dela, se via a cabeçorra de sapo
avançando e quebrando tudo. Foi um quadro único. Soltando terríveis
maldições, o monstro artificial esbravejava, deixando em ruínas o
interior do santuário. E tudo isto era dirigido apenas por três
terranos!
Ron olhou
sumariamente para a destruição ali realizada, pois seus olhos
estavam mais interessados em qualquer coisa que se movia na floresta,
na margem norte da clareira.
Seu ângulo
visual não dependia da posição da cabeça do monstro. Enquanto
este balançava a cabeça de um lado para o outro, Ron podia se
concentrar naquele trecho da floresta. Por entre os reflexos da
vegetação de vidro, viu dois vultos altos e magros que tentavam
alguma coisa com dois instrumentos parecidos com lança-chamas. Ao
menos eram tubos ocos que apontavam para a clareira. Ron se
interessou tanto pelos dois vultos, como pelos dois instrumentos. Foi
muito difícil reconhecê-los. Eram aras, pertencentes à raça dos
médicos galácticos, como eram chamados em geral. Tinham vindo para
proteger o monstro criado por eles.
Ron fez
com que o braço do seu deus gigante se levantasse um pouco e mirou
com calma. Os dois aras pareciam ter terminado seu trabalho,
sentando-se agora atrás de seus canhões. Neste instante foi
disparado o jato térmico de encontro aos dois. Em fração de
segundo o ar superaquecido se espalhou, e Ron viu como os dois vultos
foram atirados para longe. Um dos canhões atingiu boa altura,
penetrou na ramagem da floresta e caiu a pouca distância. Ron
reparou que, de seu interior, saía uma fumaça esverdeada. Mas não
se interessou mais pelos dois aras. Estava preocupado com o urso-sapo
que se embrenhara na floresta.
Poucos
minutos mais tarde, Ron encaminhava seu deus-monstro para uma segunda
clareira de menor diâmetro. No primeiro golpe de vista, percebeu um
montão de terra recém-revolvida no outro lado da clareira e um
buraco escuro, que se abria no seu centro. Viu muito rapidamente o
cintilar de um pêlo marrom, que logo desapareceu. Foi o bastante
para ele. Atirou pela segunda vez e, no mesmo instante, ouviu reboar
pela floresta um grito assustador, mistura de ódio e de dor.
O deus
menor saiu de seu esconderijo e se apresentou para a luta. No seu
pêlo marrom havia um grande rombo de queimado, provocado pelo jato
de fogo que roçara em seu corpo. Não estava bem firme das pernas,
mas vibrou seu martelo e expediu raios incandescentes.
Ron não
perdeu tempo. Abaixou o braço do grande deus até apontar bem para o
ventre do deus menor. Foi só apertar o botão e o disparo energético
destruiu o pequeno deus.
O caminho
para dentro da terra estava livre. A abertura não era tão ampla que
o grande deus pudesse passar sem mais nem menos. Mas o monstro
possuía uma infinidade de articulações e podia se curvar à
vontade. Com uma onda luminosa que partia de seus olhos, iluminava o
caminho escuro.
A galeria
descia enviesada para o fundo e era tão alta que as sempre-verdes,
servidoras do deus falso, se moviam ali facilmente. O grande deus
também passava folgadamente. No fundo da galeria ardia uma fraca luz
avermelhada que só se podia perceber, caso os olhos do grande deus
deixassem por um instante de emitir a onda luminosa. Era para aquele
ponto avermelhado que o grande deus caminhava.
Nesta
altura, Ron Landry recebeu a mensagem do Major Bushnell:
— Tudo
em ordem. Tomamos a base secreta. Estão presos cento e trinta
saltadores. Não ofereceram resistência quando perceberam com quem
estavam lidando. Suas espaçonaves estão sendo vigiadas.
Ron
aumentou a velocidade do grande deus, pois sabia que agora só lhes
restavam os poucos aras.
A luz
vermelha ardia diante de um portal de pranchas das árvores de vidro.
Com um sonoro pontapé, o grande deus o quebrou. Depois deste portal,
o corredor se alargava para uma espaçosa galeria, iluminada por um
gás esverdeado. O grande deus não deu maior importância ao
ambiente e enveredou por um corredor lateral, que de repente recebeu
uma iluminação mais forte. Foi aí que o grande deus recebeu um
forte impacto que quase o faz voltar para o início do corredor!
Porém, no
mesmo instante, reagiu com seus raios poderosos que varreram o
corredor. E de sua extremidade ecoaram gritos selvagens de dor, que
logo emudeceram. O grande deus continuou sua marcha destruidora e no
fim do corredor deparou com os cadáveres de outros três deuses, que
deviam ser a reserva dos aras. Ao lado, também os cadáveres de
quatro aras, que aqui se abrigaram e foram obrigados a se defender,
embora não fossem guerreiros.
Estava,
pois, livre o caminho. O corredor terminava de novo num portal de
pranchas das árvores de vidro. Depois que a forte patada do deus
gigante rebentou a porta, Ron pôde ver que havia achado o que tanto
procurava: um recinto enorme, bem iluminado, onde milhares de homens
jaziam apáticos no chão, esperando seu fim trágico.
Os pobres
coitados, depois de terem sido vítimas dos deuses estúpidos, iriam
parar naturalmente nos laboratórios experimentais dos aras, se a
salvação não lhes chegasse a tempo...
O vozeirão
do grande deus inundou o enorme recinto, mas agora numa outra língua:
— Vocês
estão livres, terranos. Levantem-se e venham para fora. O falso deus
morreu.
*
* *
Nike
Quinto esfregava as mãos, felicíssimo. Ninguém jamais o vira em
tão boa disposição, como nestes minutos.
— Então,
tudo foi resolvido a contento, não é? Ao invés do que temíamos,
nossas perdas são até pequenas. A insurreição das serpentes nos
custou a vida de trezentos e quinze terranos. Trezentos e dois foram
assassinados pelas sempre-verdes, os outros treze foram vítimas das
estúpidas experiências biológicas dos aras. Sabe alguém, por
acaso, o que pretendiam esses médicos loucos?
Ron Landry
meneou a cabeça.
— Não,
senhor! De qualquer maneira, o que pretendiam devia ser muito
importante. O culto ao deus falso lhes era apenas um pretexto para
outros fins.
— Você
tem razão, Ron. Graças a Deus, descobrimos seus laboratórios
subterrâneos e quando ouvirmos os dois que caíram vivos em nossas
mãos, certamente ficarão “contentes”
em poder dizer a verdade. De qualquer maneira, nosso grande deus
artificial fez as serpentes criarem juízo e jamais irão acreditar
em alguém que lhes diga que serão felizes somente quando acabarem
com os terranos.
Ron
começou a rir. Olhou para seus dois companheiros, sentados ao lado
dele e disse, se fixando em Quinto:
— Para
falar a verdade, senhor, não acreditávamos muito no sucesso de
sua... sua... idéia um tanto ousada e quixotesca. Agora, queremos
lhe fazer nossos sinceros cumprimentos pela sua previsão, que
realmente atingiu mais longe do que supúnhamos.
O rosto de
Nike Quinto enrubesceu. Pigarreou, como se não achasse palavras para
se exprimir.
— Você
quer obrigar minha pressão sangüínea a subir de novo? — gritou
num tom exasperado. — Idéia ousada e quixotesca... que estupidez!
Se algum zulu ou qualquer selvagem subdesenvolvido julgar que um
automóvel pequeno é um deus, então, com os diabos, achará que um
carro grande seja logicamente um deus muito maior. Esta é a grande
sabedoria. Quanto à previsão ou antevisão ou à intervisão...
tudo é mera besteira. É claro que tenho uma previsão mais ampla
que você, do contrário você é que estaria sentado aqui e seria o
chefe, enquanto eu seria um subalterno. Por favor, pare com tal
conversa, que já estou sentindo o sangue ferver.
Tossiu e
levou a mão ao pescoço.
— Meu
Deus, você ainda me leva para a sepultura, Landry, e você também
Randall, sem se falar naturalmente do nosso novo homem em Passa. Sim,
você não me parece tão bobo assim, do contrário a nomeação me
seria difícil.
Lofty
escorregava inquieto de um canto para o outro na sua ampla poltrona.
Ainda não estava bem acostumado com Nike Quinto, para aceitar suas
palavras ofensivas como deviam ser aceitas.
— Que
vai acontecer com os saltadores? — perguntou Ron, levando a
conversa para outro rumo.
— O que
você acha que deve ser feito com eles? — disse Quinto, no seu tom
dogmático. — Vão ser postos diante de um tribunal comum, bem como
os dois aras presos. Não duvido de que estes malandros serão
condenados pelo menos a vinte anos de trabalho forçado. Haveremos de
cuidar para que a sentença seja publicada em toda a Galáxia. Quem
sabe, da próxima vez, os saltadores haverão de pensar duas vezes
antes de aprontarem coisa semelhante?
Depois, um
tanto pensativo, perguntou Ron:
— Devia
se tratar de um negócio que envolveria alta soma, não é verdade?
Do contrário estes vivaldinos mercadores galácticos não estariam
tão engajados na história.
A calma e
a pose voltaram aos traços de Nike Quinto. Fez um gesto de concordar
em parte e pontificou:
— Sim,
você não deixa de ter razão. E eles não tiveram apenas um
objetivo com isto. É evidente que, desde o início, o que tinham em
mente era o comércio com as peles das serpentes de Passa. Queriam
seu monopólio. Acharam que o melhor modo de conseguir isto seria
chamar os aras em seu auxílio. E provavelmente os aras lhes
prometeram cooperação sob a condição de que lhes coubesse em
Passa uma grande vantagem científica... por exemplo dez mil terranos
como cobaias para suas experiências biológicas.
“Depois
vieram para cá com um corpo expedicionário misto e estudaram a
situação. Talvez, já nesta época, descobriram para que serviam as
peles das sempre-verdes e a convivência entre saltadores e aras foi
perfeita. Podiam se lançar de corpo e alma no negócio e pensavam
mesmo em provocar uma guerra interna no planeta, pois, assim que
receberam em mãos a primeira dúzia de peles de cobras, estavam de
posse de uma arma singularíssima, que jamais teria similar em toda a
Galáxia. Pelo menos por enquanto.”
Ron ouvia
maravilhado.
— Peles
de serpentes...? Arma singularíssima...? Não estou entendendo.
Nike
Quinto acenou tranqüilo.
— Pois
é, eu estava pensando que você já tivesse se preocupado com isto.
Apertou um
botão e uma gaveta de sua mesa de trabalho correu para fora. Tirou
dali uma ampola de vidro, e Ron pôde ver contra a luz que estava
cheia de um gás esverdeado. Aquela cor do gás o fez pensar em
alguma coisa que vira antes, mas no momento não se lembrava de quê.
Quinto foi direto ao assunto:
— Nossos
cientistas deram o nome de “Advertin”
a esta substância. Sabem agora como ela atua no sistema nervoso
humano. Os aras tiveram o cuidado de soprá-la para o interior da
caverna que você examinou em companhia de Lofty Patterson.
Introduziram-na também sob o envoltório de proteção, que
resguardava o deslizador vigiado pelo Capitão Randall. O gás é de
grande eficácia e se difunde quase instantaneamente, colocando quem
o respira numa fúria diabólica contra tudo que o cerca. Quem sabe
era este o enigma que os aras queriam decifrar em Passa, isto é, de
que maneira o gás “Advertin”
pode ser controlado para produzir ódio e fúria de um ser contra
outro ser ou objetos determinados. Como disse antes, pode ser. Quando
interrogarmos os dois aras e examinarmos seus laboratórios
subterrâneos em Passa, haveremos de saber tudo com exatidão.
Olhou
pensativo para Ron.
— Os
aras, neste ponto, foram mais rápidos que nossos cientistas —
prosseguiu Nike. — Eles, os nossos, perceberam o negócio somente
quando as serpentes começaram a insurreição, negando-se a fornecer
as peles. Mas esta prova aqui — dizendo isto, agitava o pequeno
frasco com o gás verde — surgiu nos nossos laboratórios.
Ron Landry
empalideceu subitamente.
— Meu
Deus... se o... Se o seu superdeus não fosse hermeticamente bem
vedado... Não é isto que queria dizer? — indagou Nike Quinto,
sorrindo. — Sim, meu amigo, então vocês iriam ter um acesso de
fúria em suas cabinas, pois, como me foi comunicado, os aras
encheram toda a antecâmara do laboratório com o tal gás.
Ron fez um
gesto negativo.
— Não é
isto que estou pensando, senhor — disse lentamente. — Mas os
prisioneiros, os dez mil que encontramos lá no grande recinto... Se
não estivessem fracos demais para se levantarem e correrem lá para
fora, teriam disparado através da nuvem de gás e... haveria de ser
uma luta de morte entre eles mesmos, atacados pela fúria diabólica
do gás verde.
Desta vez,
Nike concordou, com muita seriedade estampada no rosto.
— Tem
razão, Ron, e se isto não aconteceu, não é nenhum merecimento
nosso. Mas nós, na Divisão III, temos que dividir a sorte com os
nossos aliados.
Levantou-se,
apanhou de novo a ampola e a olhou através da luz mais
demoradamente.
— Aliás
— disse ele — ia-me esquecendo. O agente mais importante do
“Advertin”
é extraído das peles das serpentes. Aí está toda a razão da
insurreição provocada pelos saltadores e aras.
*
* *
O grande
deus estava já desmontado e tomava o caminho de volta para a Terra.
Fora necessário, para impor respeito aos habitantes primitivos de
Passa para com os terranos. Sua finalidade não ia além disso. E a
missão estava cumprida.
Na hora do
crepúsculo, soaram na floresta de vidro os tambores das
sempre-verdes e todo o mundo das serpentes cantava em coro:
“Vosso
nome seja bendito, Senhor onipotente! Vossos filhos serão
eternamente gratos porque os livrastes do mal e de um deus falso.
Seremos eternamente vossos servos, justíssimo Senhor, Ayaa-Oooy!”
*
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Quando
os homens da Divisão III entram em ação em qualquer planeta, agem
sempre de acordo com a norma básica de sua organização secreta:
“Trabalhe, quanto possível, sem dar na vista e não provoque
complicações diplomáticas.”
Este
princípio foi seguido à risca, de uma maneira modelar, na perigosa
ação de Passa.
Quando,
porém, se tem de tratar com os acônidas, tais normas de conduta
perdem a validade, como se pode averiguar pelo próximo número da
série. O teatro dos acontecimentos é em parte Árcon. em parte O
Sistema Azul
— aliás o título do próximo volume.

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