Autor
K.
H. SCHEER
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Seus
súditos o odeiam — e o povo de seus
antepassados
também. Mais uma aventura de Atlan.
O vôo
do cruzador experimental Fantasy, realizado no início do século
XXII, representa uma nova época para a Astronáutica, pois trata-se
da primeira espaçonave equipada com o sistema de propulsão linear.
Mas
esse vôo trouxe uma conseqüência: os misteriosos ancestrais dos
arcônidas, ou seja, os acônidas, que até então se julgavam
seguros atrás do campo energético que envolvia seu sistema e não
se interessavam pela política galáctica, lançaram mão de meios
inescrupulosos para investir contra a Terra e Árcon.
Por
pouco o monstro de plasma, enviado pelos acônidas, não destrói a
Humanidade. Também a frota-fantasma esteve prestes a transformar a
Terra num inferno atômico, até que a destruição do conversor de
tempo voltasse a atirar essa frota para o passado, do qual viera.
Esses
acontecimentos deixaram Atlan muito preocupado. Sua posição como
Imperador de Árcon é bastante difícil, pois as intrigas e os
atentados lhe amarguram a vida. Atlan supõe que no Sistema Azul
podem pensar em jogar o Império de Árcon contra o Império Solar.
Por
isso Atlan convidou Perry Rhodan a comparecer à sua presença, afim
de conferendarem sobre a situação. Os dois soberanos encontram-se
na sede do grande centro de computação, quando os acônidas voltam
a golpear...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Atlan
— Que
é odiado por seus súditos. Só os terranos são seus amigos.
Perry
Rhodan
— Administrador
do Império Solar.
Tama
Yokida
— Um
membro do Exército de Mutantes, um elemento da “velha guarda” de
Perry Rhodan.
Major
Jefe
Claudrin
— Um
homem adaptado ao meio-ambiente do planeta Epsal.
Auris
de
Las-Toor
— Uma
mulher jovem, bela e perigosa.
Lempart
de
Fere-Khar
— Presidente
do Conselho Supremo de Ácon.
1
O homem,
que se sente só, anseia, mais que qualquer outro, pelo amor e pela
simpatia, pela amizade sincera e pelos divertimentos interessantes.
Eu me
sentia só! Provavelmente chegava a ser o indivíduo mais extraviado
do grupo estelar M-13, pertencente à constelação de Hércules,
cujos sóis e planetas, segundo se dizia, pertenciam a mim.
Sentia-me
só em meio a alguns bilhões de arcônidas e quinhentos mil
terranos, aos quais permiti, na minha qualidade de Imperador Gonozal
VIII e soberano absoluto, que ingressassem nos territórios dos
planetas arcônidas.
Mas os
homens também não conseguiram redimir-me, embora há meses eu me
esforçasse para descontrair as numerosas recepções e festividades,
que se perdiam em meio a uma série de formalismos rígidos.
Ainda não
conseguira romper com o velho cerimonial, a fim de estabelecer
relações menos convencionais e mais cordiais com os representantes
da Humanidade.
Eu era o
imperador! Portanto, tinha que agir como tal, conforme o mestre do
cerimonial, Drautherb, fazia questão de ressaltar a cada momento.
Segundo dizia, a manutenção do necessário respeito era uma questão
de “discrição
representativa”,
que em hipótese alguma poderia ser substituída por um aperto de
mãos — nada dignificante — quando me encontrasse com outras
inteligências. Os funcionários da corte também viviam enfatizando
esse ponto.
Não
saberia dizer o que significava a expressão “discrição
representativa”.
Na minha opinião, a mesma envolvia uma contradição. Se eu quisesse
fazer a apresentação representativa do grande império, isso não
poderia ser feito sem pompa e gastos.
Acontece
que isso não se harmonizava com a palavra “discrição”,
que para mim significava aquilo que realmente deve designar, ou seja,
um comportamento modesto e uma conduta ilibada.
Ao que
tudo indicava, no curso dos milênios haviam surgido usos e costumes
que eu, como simples soldado e chefe de frota arcônida, não
conseguia compreender.
Não
demorei a perceber que não poderia nadar eternamente contra a
corrente. Minha indignação inicial contra a ordem social reinante
nos planetas de Árcon fora substituída por uma atitude de
resignação. Se dispusesse de um número suficiente de arcônidas
que tivessem conservado a agilidade espiritual, a modificação desse
estado de coisas teria sido possível. Nesse caso, provavelmente
conseguiria varrer os detritos decadentes de atitudes mentais
enrijecidas que enchiam os salões.
Mas, da
forma que as coisas estavam, dependia dos terranos não muito
numerosos, que se achavam ocupados com seus próprios problemas.
A pompa
inacreditável das festas, a atitude ruidosa e vazia dos indivíduos
ociosos e bajuladores, a arrogância oca dos conselheiros e oficiais
das frotas — todo esse estado de coisas transformara-se num
ingrediente do império, que já não poderia ser despertado do sono
em que se embalava.
Quanto a
mim, costumava pensar em termos que poderiam ser válidos antes para
a Terra distante que para o Império Arcônida.
A essas
dificuldades ainda se acrescentava um perigo permanente. Por mais de
uma vez haviam tentado eliminar-me, lançando mão de vários
recursos. Os atentados contra minha vida quase chegavam a ser um
assunto corriqueiro, até que passei a adotar medidas enérgicas e
deixei de comutar algumas sentenças de morte.
Muita
gente me odiava! Eu, o velho almirante arcônida Atlan, membro da
família regente de Gonozal, era temido e impopular. Há muito
confessara a mim mesmo que era mais terrano que arcônida. Meus
amigos verdadeiros e sinceros viviam no sistema solar, situado a
trinta e quatro mil anos-luz de Árcon. Perry Rhodan, o Administrador
do Império Solar, era um homem no qual eu podia confiar em todos os
sentidos.
Perry
mostrara-se digno da minha confiança, e por isso não via nenhum
motivo sério para criar dificuldades à política comercial e
colonial dos homens. Intimamente, sabia que, apesar das tentativas de
regeneração por mim levadas a efeito, o tempo áureo dos arcônidas
já pertencia ao passado.
Mesmo
assim era-me doloroso saber que Perry Rhodan conhecia minha situação.
Mais uma
vez tivera de solicitar seu auxílio, embora o tivesse feito há
apenas dois meses. Certos poderes desconhecidos haviam atacado tanto
o Império de Árcon como a Terra. O ataque fora realizado com
recursos extraordinários, circunstância que provava que a
arrogância sem limites dos arcônidas, que conservavam a agilidade
mental, não tinha razão de ser.
Na
verdade, sentia-me contente, pois justamente Perry Rhodan, que para
muitos arcônidas continuava a ser um bárbaro, conseguira provar que
nós, os arcônidas, não passávamos de descendentes degenerados dos
colonos de um grande povo, que há vinte mil anos mandara os
antepassados dos arcônidas para as profundezas do espaço, a fim de
desempenharem as funções de colonos galácticos.
Tomei
conhecimento desse fato há apenas dois meses. Com isso crescia a
responsabilidade e a importância de meu cargo de Imperador de Árcon.
Acontecera
algo com que nós, os arcônidas, nunca teríamos sonhado: no centro
da Via Láctea existia um povo que nos tratava com a mesma arrogância
que nós costumávamos demonstrar perante as demais inteligências.
Naturalmente Rhodan não pôde deixar de, num gesto irônico, chamar
minha atenção para o fato.
A mim não
conseguiu ofender. Mas, diante das explicações do “bárbaro”,
outros arcônidas empalideceram visivelmente. A idéia de que nossos
antepassados talvez não nos levassem a sério, por nos verem como os
descendentes degenerados de seus colonos, que adotavam costumes
depravados, era simplesmente ignominiosa.
Quando o
grande couraçado linear terrano Ironduke irrompeu em alta velocidade
na atmosfera do planeta e se preparou para pousar no espaçoporto do
imperador, era esta a situação reinante no planeta de cristal do
Império de Árcon.
*
* *
O céu
parecia arder. O sol branco de Árcon empalideceu sob os jatos
chamejantes do gigante de oitocentos metros, que desceu sobre a pista
de aço plastificado, estendendo as colunas de apoio.
A Ironduke
era um couraçado terrano da classe Stardust. A um ligeiro exame,
dificilmente se notaria qualquer diferença de outros veículos do
mesmo tipo. Porém eu sabia perfeitamente que a gigantesca esfera
abrigava máquinas e propulsores que não tinham igual em Árcon.
Rhodan
avisara laconicamente pelo hiper-rádio que desta vez apareceria com
a primeira espaçonave linear de grande porte — isso dois meses
depois de me ter apresentado os primeiros cruzadores pesados
equipados com mecanismos de propulsão linear.
Batizara
essa espaçonave maravilhosa com o nome Ironduke, que significa
“duque
de ferro”.
Esse nome me fez recordar minha longa peregrinação pela História
da Terra. O pequeno ativador celular, que me mantivera jovem e sadio
há vários milênios, continuava a pulsar incessantemente sobre meu
peito. Quanto tempo ainda duraria essa situação? Quando soaria
minha hora?
Cheio de
sentimentos amargos, observei a precisão da manobra de pouso da
Ironduke, cuja massa considerável foi conduzida facilmente em
direção ao solo.
Os
funcionários e oficiais, que se encontravam em minha companhia,
esconderam-se atrás das paredes blindadas, construídas
especialmente para esse fim. Fiquei só no amplo terreno, e fiz com
que meu campo defensivo individual absorvesse e detivesse a onda de
ar quente e comprimido, causada pela nave que pousava.
Ouvi o
zumbido agudo do minirreator, que se achava no estojo que trazia às
costas, juntamente com mais alguns instrumentos.
Depois de
termos rechaçado o ataque dos acônidas, também conhecidos como
pré-arcônidas, resolvi que andaria constantemente com um projetor
individual. Meus inimigos que, segundo parecia, eram inumeráveis,
não costumavam acanhar-se na escolha dos meios. Por isso pertencia
aos homens pouco invejáveis da História Galáctica, que temiam dia
e noite pela vida e pela saúde.
Ainda
recentemente haviam tentado fazer com que um robô de guerra
reprogramado me matasse a tiro, mas esse ato era apenas uma variante
dos atentados anteriores.
Não
queria nem podia compreender por que se obstinavam tanto em procurar
tirar-me do caminho. Sempre houvera arcônidas ambiciosos, mas os
assassinos raramente tinham surgido na história do grande império.
Desde que
se ficou sabendo que, segundo todas as probabilidades, descendíamos
de um povo que, antes que se desenvolvesse o poder arcônida, já
fora muito mais poderoso que nós, pareciam ter surgido grupos de
resistência com objetivos confusos. Com isso, provavelmente eu
passara a representar um obstáculo muito maior que antes. Nem
pensava em submeter-me à vontade de pessoas desconhecidas, numa
tentativa de salvar os restos lastimáveis da antiga grandeza.
A onda de
pressão desfez-se num chiado. Os propulsores da Ironduke cantavam
enquanto iam parando.
Moku,
minha cadela boxer, saltou em minha direção, latindo. Parou perto
de meu campo defensivo, cuja periculosidade já conhecia em virtude
de algumas experiências nada agradáveis. Pouco depois uivou
tristemente e, levantando a pata dianteira direita em minha direção,
“pediu”
que a deixasse entrar.
A cadela
era um presente de Rhodan. Enviara-me o animal maravilhoso por meio
de uma nave-correio e, na carta que acompanhava o presente, fizera
questão de ressaltar que a dedicação de um cão terrano era mais
sincera e preciosa que as manifestações de submissão de cem mil
arcônidas.
Moku
continuava a implorar. Parecia saber quem estava chegando na grande
nave. Não podia fitar seus olhos castanhos úmidos, sem sentir-me
tentado a abrir o campo defensivo. Como de costume, o animal se
encostaria tanto a mim que eu poderia voltar a ligar o campo, e a
cadela não correria qualquer perigo.
Olhei
rapidamente em torno. Mais adiante, quinhentos robôs de guerra
estavam enfileirados. Evidentemente, o administrador de uma grande
potência amiga teria de ser recebido com todas as honras militares.
O
regimento de guardas dos naats, que eram seres de três olhos, também
entrara em forma. Naquele momento, a voz potente do comandante
atravessou o campo de pouso.
Logo atrás
de mim estavam reunidos alguns funcionários da corte e mais de dez
oficiais da frota. Enquanto eu mesmo, por pura teimosia, envergara
meu uniforme de serviço com as discretas divisas e o símbolo de
minha família, aqueles cavalheiros envergavam trajes de gala. Os
cientistas do Grande Conselho usavam roupa branca, vermelha e
violeta, enquanto os oficiais exibiam os uniformes de gala da Frota
Espacial de Árcon.
Conhecia
Perry Rhodan e sabia que a única reação que ele esboçaria diante
da quantidade enorme de metais nobres, fazendas brilhantes e
condecorações cintilantes seria um franzir de testa. De todas as
vezes que o vira, envergara o simples uniforme de campanha, mas de
talhe extremamente bem feito, que costumava ser usado a bordo das
naves de guerra.
Moku
soltou um uivo de cortar o coração. Nem mesmo um imperador arcônida
seria capaz de ficar insensível diante da expressão de súplica de
um animal como este, especialmente um imperador do meu tipo.
— Venha
logo — gritei e, com um simples movimento, desliguei o campo
defensivo.
Moku
soltou um latido e se dispôs a dar o habitual salto de cumprimento,
que geralmente principiava com um forte impacto, para terminar com
algumas lambidas nas minhas orelhas.
Fazia bem,
muito bem, sentir estes sinais de simpatia sincera e genuína. Abri
os braços e recuei o pé direito, para absorver o peso da cadela.
Naquele momento ouvi um ruído atrás de mim.
Uma
descarga energética quentíssima passou junto ao meu peito, fazendo
fumegar as fibras de plástico do meu uniforme.
Moku foi
atingida durante o salto. O impacto do raio térmico arrancou-a da
trajetória e a atirou ao chão com tamanha violência que ouvi
nitidamente o impacto.
A cachorra
permaneceu imóvel. Devia ter morrido imediatamente. Virei-me, rubro
de raiva. Toquei o contato e a arma, que trazia no cinto, surgiu na
minha mão, pronta para disparar. Ao mesmo tempo bati com a mão
esquerda sobre o botão largo do dispositivo automático de defesa. O
campo defensivo voltou a funcionar.
— Lloyd!
— gritei em tom nervoso.
A pesada
arma de radiações subiu sob a força de minha mão.
Fellmer
Lloyd, um dos mutantes do exército especializado da Terra, ainda
segurava a arma de radiações. Fitou-me com uma expressão
indiferente. Fazia apenas trinta dias que Lloyd fora destacado para
minha proteção especial, isso depois que o oficial de ligação
terrano, estacionado em Árcon, comunicara ao chefe supremo o quanto
eu era molestado com atentados. E agora Lloyd disparara contra mim,
num momento em que desligara por um instante o meu campo defensivo
individual.
Teria
realmente atirado em mim?
O setor
lógico de minha mente deu sinal de sua presença, com uma
intensidade dolorosa.
“Seu
idiota! Será que ele poderia ter errado o alvo a essa distância? E
contra um homem de seu tamanho?”
Os
impulsos constringentes de meu cérebro adicional, que acabara de ser
ativado, fizeram-me estremecer. Instintivamente baixei a arma. O dedo
curvado em torno do gatilho descontraiu-se.
Fellmer
Lloyd, um homem musculoso de cabelos escuros, continuava a fitar-me.
Finalmente disse com a voz arrastada:
— Perdoe-me,
sir. Só notei a presença do pequeno ferrão quando Moku iniciou o
salto.
— Do
ferrão? — gaguejei, perplexo.
— Isso
mesmo, sir. Conhecia perfeitamente os modelos de impulsos cerebrais
da cadela. Quando ela saltou do carro-planador de seu robô de
serviço, registrei dor, angústia, e mais alguma coisa que não
compreendi muito bem. O animal estava desesperado. Alguma coisa tinha
acontecido com Moku. Correu imediatamente em sua direção, como se
quisesse comunicar-lhe a dor que sentia. Acontece que havia alguém
que contava com isso, sir. E esse alguém sabia perfeitamente que o
senhor não seria capaz de deixar de abrir o campo defensivo. Quase
cheguei a hesitar demais. Peço-lhe que acredite que não havia outro
meio de deter Moku. Tive de atirar.
Fiquei
parado como quem se sente estonteado. Meus olhos vagavam entre o
mutante, meus acompanhantes muito pálidos e a cachorra boxer que
jazia morta.
Alguns
oficiais haviam sacado as armas. Sentindo-se seguros, voltaram a
guardá-las nos coldres.
— Que
ferrão é esse? — perguntei, ofegante. — Não compreendo o que
quer dizer.
— Sua
Excelência Administrativa aproxima-se, eminência — cochichou Truk
Drautherb, com uma ligeira nota de desespero. — Eminência, a
recepção...
Fiz um
sinal violento para que o tagarela enfeitado se afastasse. Um veículo
parou atrás de mim. Ouvi o zumbido do motor, mas não virei a
cabeça.
Contrariando
os impulsos de advertência do meu cérebro adicional, voltei a
desligar o campo defensivo individual. Não poderia deixar de
examinar o melhor amigo que tinha em Árcon. Ai de Fellmer Lloyd se
alguma coisa não estivesse em ordem...
— Mahaut
Sikhra, o imperador está indefeso. Faça alguma coisa! — disse uma
voz fria e controlada
— Comando,
espalhe-se e destrave as armas — disse outra voz, em tom
preocupado. — Se alguém puser a mão na arma, abra fogo sem aviso.
— Sem
considerar a qualidade da pessoa — acrescentou o homem que falara
em primeiro lugar.
Ouvi o
ruído surdo das solas elásticas. Talvez os cavalheiros que me
acompanhavam tivessem ficado ainda mais pálidos, mas não virei a
cabeça. Concordei com as instruções do homem que por certo
observara o tiro de radiações com todas as suas conseqüências.
Ajoelhei-me
junto à cachorra. Fellmer Lloyd colocou-se a meu lado. Levantou
cautelosamente a cabeça do animal, que não fora ferida, e abriu-lhe
as mandíbulas. Com uma cautela ainda maior, afastou a língua da
cadela, e então eu mesmo vi.
Um ferrão,
fino como uma agulha, de cerca de cinco centímetros de comprimento,
fora colocado sob a língua, por meio de uma cola bioplástica. Era o
mesmo bioplástico utilizado na Medicina, para fazer com que os
cortes das operações se fechassem sem deixar cicatrizes.
Se Moku me
tivesse cumprimentado da maneira como costumava fazer, sem dúvida
teria sido ferido pela ponta do ferrão. Perplexo, fitei o artefato
assassino mais traiçoeiro que já me fora dado ver. Alguém agira
com uma habilidade diabólica. Esse alguém sabia da minha simpatia
por Moku, e utilizara o inocente animal como portador de uma terrível
arma.
— Procuraremos
analisar o veneno colocado na ponta, Atlan — disse o homem com a
voz fria. — Levante-se, velho amigo. Lloyd realmente não teve
outra alternativa: viu-se obrigado a atirar. Não havia meio de deter
o animal.
Alguém
segurou meus ombros trêmulos e me pôs de pé. Depois de algum
tempo, quando me virei, fitei os olhos cinzentos de Rhodan. Havia
neles um brilho frio e hostil, até que, ao verem meu rosto,
modificaram sua expressão.
Perry
Rhodan era um dos poucos homens que sabiam sorrir com os olhos. Ao
menos tive a impressão de sentir fisicamente o calor que, de súbito,
surgiu nos mesmos.
A poucos
metros do lugar em que me encontrava viam-se cerca de trinta homens
de um comando especial terrano. Eram figuras altas e bem treinadas.
Eram
homens do tipo aos quais eu, o Imperador de Árcon, tinha de
renunciar. Em todos os planetas do império não havia um único
soldado que possuísse as qualidades daqueles terranos.
Os
cavalheiros que se encontravam em minha companhia contemplavam, parte
assustados e parte enfurecidos, as bocas cintilantes das armas
energéticas terranas. Rhodan não tivera a menor dúvida em ameaçar
os nobres da corte com as armas. Sem dúvida, compreendia
perfeitamente o perigo que me ameaçava.
Abaixei-me
sobre o corpo inerte da cachorra. Segundo as leis vigentes em Árcon,
teria de ser incinerado numa câmara e a seguir dissolvido. Em Árcon
nunca houvera cemitérios.
No momento
em que Fellmer Lloyd tomou os restos mortais do animal nos braços e
caminhou em direção ao planador que me esperava, desprendi-me do
quadro. Sabia que cuidaria de tudo.
— Não
há dúvida de que salvou minha vida — disse, e esforcei-me para
pensar apenas no presente.
Eu
precisava esquecer o rosto fiel de Moku, no qual se liam com tamanha
facilidade os sentimentos do animal.
O amor de
Rhodan pelos animais fez com que ele próprio se abstivesse de
qualquer observação supérflua. Qualquer outra pessoa seria capaz
de dizer que o incidente era lamentável, mas afinal tratava-se
apenas de um cachorro. Naquele instante, dificilmente seria capaz de
suportar uma expressão desse tipo, sem perder o autocontrole.
Alguns
sons retumbantes de tambor, seguidos imediatamente de terríveis
dissonâncias, fizeram com que estremecesse de susto. Rhodan soltou
um suspiro de resignação, que logo foi superado pelas batidas,
chiados e fanfarradas cada vez mais rítmicas.
Virei-me,
esbravejando furiosamente. Algum mestre-de-cerimônias de terceira
classe resolvera usar a música militar, a fim de salvar alguma coisa
da recepção frustrada a “Sua
Excelência Administrativa Perry Rhodan”.
A banda
musical de robôs, programada para oitocentas peças, marchou em
nossa direção, com sons retumbantes e tilintantes. Inúmeros braços
metálicos desciam sobre tambores de fibra de plástico, produzindo
um barulho de fim de mundo.
Outros
músicos conduziram os fluxos de ar de seus competentes compressores
para dentro das trombetas, fanfarras e outros aparelhos barulhentos.
Faziam-no com tamanha força que não se entendia mais uma única
palavra.
Gritei
algumas pragas para o mestre-de-cerimônias, que marchava à frente
do destacamento, e sacudi os punhos. Porém o treinado cortesão não
permitiu que meus gestos perturbassem suas atividades.
Não
tivemos outra alternativa senão esperar até que a horda selvagem
passasse por nós. Os membros do comando terrano fitavam o espetáculo
com uma expressão que quase chegava a ser de perplexidade. Rhodan,
num gesto de resignação, colocou a mão no boné bordado de ouro,
enquanto um major terrano, que nunca havia visto, sorria de forma tão
franca que logo me senti melhor.
Só mesmo
um ser humano seria capaz de torcer os lábios dessa forma. Para mim,
a visão daquele oficial robusto, de rosto moreno e marcante, tinha
algo de refrescante.
Levei
alguns segundos para perceber que o major trazia no uniforme o
distintivo de comandante de couraçado. Além disso, não parecia ser
um terrano igual a qualquer outro. A largura de seu corpo quase era
igual à altura, e os feixes de músculo que apareciam sob o uniforme
quase chegavam a infundir medo. Esse homem devia possuir uma tremenda
força física.
Rhodan
seguiu meu olhar. Percebi que se sentia satisfeito por poder desviar
minha atenção discretamente dos acontecimentos que acabavam de
desenrolar-se.
— O
Major Jefe Claudrin, comandante da Ironduke — disse em tom um tanto
apressado, a título de apresentação. — Nasceu em Epsal.
— Em
Epsal...?
— Trata-se
de um planeta colonial cuja gravitação é de 2,1G. Jefe costuma
levar consigo um microgravitador, que lhe confere o peso a que está
habituado.
Um tanto
curioso, aproximei-me do homem e, num gesto impulsivo, ofereci-lhe a
mão. Alguém soltou o ar com tamanha violência que até se parecia
ouvir um apito.
Virei a
cabeça e fitei o mestre-de-cerimônias, que parecia encontrar-se na
iminência de um colapso nervoso. Na verdade, o fato de eu, que era o
Imperador do Reino Estelar, estender a mão a um simples major, tinha
algo de catastrófico.
Era uns
vinte centímetros mais alto que Jefe Claudrin, que media no máximo
um metro e sessenta de altura e outro tanto de largura. Mas quando
senti seu aperto de mão, tive de esforçar-me para não gemer e
dobrar os joelhos. No entanto, tinha certeza de que Claudrin sabia
avaliar sua tremenda força e dificilmente estaria apertando minha
mão conforme costumava fazer.
— Fico
muito satisfeito em conhecê-lo, sir — trovejou sua voz profunda.
Sem dúvida
o timbre da mesma combinava com aquele homem extraordinário. O
tratamento de sir me fez soltar uma gostosa gargalhada. Finalmente
voltava a ouvir palavras razoáveis, depois de vários anos em que
todos me tratavam de Vossa Eminência.
E Claudrin
ainda era interessante sob outro ponto de vista. Constituía a prova
viva do espírito empreendedor dos terranos, que se arriscaram a
povoar planetas grandes, com elevado grau de gravitação, por homens
iguais a quaisquer outros, a fim de, mediante esse tipo de
manipulação cosmo genética, criar um povo novo, adaptado ao
ambiente. Provavelmente Claudrin era um dos primeiros homens nascidos
num mundo em que a gravitação chegava a 2,1G.
Lancei um
olhar pensativo para Rhodan, que me fitava com uma visível tensão
interior. Sorri ligeiramente para ele. De repente me senti muito
cansado. Esses pequenos bárbaros podiam apresentar uma lista de
feitos bem-sucedidos que devia deixar certas pessoas bastante
contrariadas.
Poucos
decênios se haviam passado — mais precisamente, uns 59 anos —
desde que conseguira, com o apoio de Rhodan, vencer e reprogramar o
grande centro de computação.
E nesse
tempo os terranos conseguiram transformar o Império Solar, que ainda
era bastante fraco, numa potência galáctica de primeira categoria.
Ainda me
lembrava perfeitamente do dia em que a frota dos druufs, que são
criaturas não humanóides, lançou seu ataque contra a Terra. Na
oportunidade mandei minhas naves robotizadas em auxílio da Terra.
Hoje esse auxílio não seria mais necessário, mesmo que esses
monstros, vindos de outra dimensão temporal, voltassem a atacar.
Sabia que
a lua terrana fora transformada, segundo o modelo arcônida, num
astro destinado exclusivamente a abrigar os estaleiros de
espaçonaves. Era possível que a capacidade de construção de naves
dos terranos já ultrapassara a dos arcônidas.
Lancei um
olhar para a Ironduke, que certamente pertencia a um novo tipo de
supernaves. O gigantesco vulto esférico media oitocentos metros de
diâmetro. Gostaria de saber quanto tempo se levava na Terra para
construir uma nave desse tipo. Provavelmente não seria mais que
alguns meses, enquanto há poucos decênios ainda se tinha de contar
com um tempo de construção de ao menos doze anos.
Jefe
Claudrin fitou-me sem rebuços. Parecia adivinhar meus sentimentos e
pensamentos. Apressei-me em pedir desculpas e, com um sorriso
embaraçado, acrescentei:
— O
senhor tem uma bela nave, comandante. Parabéns.
Claudrin
inclinou o crânio pesado, sobre o qual o boné fazia uma figura um
tanto esquisita.
— Muito
obrigado, sir. A Ironduke tem suas qualidades.
Acreditava
plenamente no que acabara de ouvir. O sistema de propulsão linear do
couraçado espacial por si só já representava um milagre. A
curiosidade de técnico despertou em meu interior.
A voz
aguda de um oficial baixo, de quadris estreitos, com um rosto
marcante, despertou-me das reflexões. Rhodan, que se encontrava de
pé a meu lado, parecia indiferente a tudo. Sabia, porém, que levara
apenas alguns segundos para analisar-me. Afinal, era um psicólogo
brilhante.
O chefe do
comando mandou que os homens se acomodassem. No momento em que
entraram no carro-planador, Rhodan disse em seu tom indiferente, que
já adquirira uma triste celebridade:
— O
barulho terminou; escapamos sãos e salvos aos olhares venenosos dos
seus cortesãos. Se depender de mim, podemos dispensar a palhaçada
da recepção. A Ironduke está pronta para decolar. Gostaria de
saber quanto antes o que o computador-regente conseguiu apurar.
Então, o que me diz?
Olhou em
torno, indignado. Ao que parecia, os homens que me acompanhavam não
sabiam o que fazer.
Dispensei-os
com uma ordem lacônica, suspendi as festividades em honra do
Administrador Solar e dirigi-me ao planador do comandante da
Ironduke.
Senti uma
alegria tremenda ao ver os rostos apavorados dos cortesãos, até que
Rhodan disse com um sorriso matreiro:
— Se
você trata o pessoal dessa forma, não terá por que admirar-se com
os atentados.
— Quero
que o diabo os carregue — respondi em inglês. — A eles e a todo
esse cerimonial que tanto repugna ao meu coração. Tenho coisas mais
importantes a fazer do que cumprimentar cinco mil representantes das
famílias mais importantes e deleitar-me com suas mesuras.
O
mestre-de-cerimônias aproximou-se, banhado em suor. Havia um brilho
úmido em seus olhos vermelhos de arcônida. Estava prestes a chorar.
Com
prolixos pedidos de desculpa, interpôs-se em nosso caminho. Rhodan
inclinou a cabeça, num gesto amável, enquanto eu fervia de raiva.
Sempre era assim. Nunca se conformavam com as medidas que resolvia
adotar. Sempre havia alguém que julgasse necessário chamar minha
atenção para este ou aquele detalhe, numa linguagem polida e
formalista.
— Eminência,
os representantes mais importantes da sociedade aguardam com a maior
simpatia e humildade a presença de Vossa Eminência e de Sua
Excelência Solar. Permita-me que, com todo o respeito que sinto por
Vossa Eminência, mencione o fato de que a política interna de Árcon
I exige o benévolo comparecimento de Vossa Eminência. Vejo...
— O
senhor ouviu minha ordem — disse em tom áspero, interrompendo o
mestre-de-cerimônias com seus gestos efeminados.
— Sua
Eminência age assim a pedido expresso formulado por mim, sir —
disse Perry com um sorriso radiante. — Queira transmitir minhas
melhores recomendações aos nobres de Árcon. Certos acontecimentos
da maior importância, que se verificaram na política exterior, nos
obrigam a renunciar ao prazer da recepção tão bem arranjada pelo
senhor. Estou inconsolável, sir.
Isso
também não deixava de ser uma recusa. Apenas, Rhodan soube
enfeitá-la com palavras mais amáveis.
O
funcionário de minha corte compreendeu. Fazendo um esforço tremendo
para resguardar sua dignidade, retirou-se. Saltei para o planador,
que partiu com um solavanco assim que Rhodan também entrou.
Cumprimentei
a guarda de honra que continuava em forma. Os gigantescos naats
fitaram-nos com uma expressão estúpida e indiferente. O grande
comando de robô subitamente fez meia-volta, para abandonar o campo
de pouso.
Jefe
Claudrin riu, enquanto eu não sentia a menor vontade de fazer o
mesmo. O nativo de Epsal parecia não ter a menor idéia da tremenda
violação dos sagrados usos e costumes que acabara de ser cometida
por mim. Nunca poderia atrever-me a tomar uma atitude como esta, se
não tivesse ocorrido o atentado contra a minha vida.
Rhodan
tirou o boné, estreitou os olhos, piscou para o escaldante sol de
Árcon e enxugou a testa, ensopada de suor.
— Atlan,
posso dizer-lhe uma coisa de amigo para amigo, na linguagem franca do
soldado?
Não olhei
para ele. Sem nada falar, fitei a espaçonave que se aproximava. Os
abaulados flancos de aço do artefato obstruíam a visão das
instalações do espaçoporto, situadas mais ao norte.
— Pois
não.
— Você
não passa de um pobre cachorro.
Não me
senti ofendido nem melindrado. Esperava que Rhodan dissesse mais ou
menos isso. Será que devia dizer-lhe que o que mais desejava era
voltar a singrar as amplidões da Galáxia juntamente com os
astronautas terranos?
Deveria
dizer-lhe que, para mim, sua simples presença era algo de
maravilhoso, que era maravilhoso ouvir sua voz e fitar os rostos
francos e sorridentes de verdadeiros homens?
Não; era
preferível não dizê-lo. Rhodan já sentia muita pena de mim, e
isso me deixava triste. E há tempos, já havia tentado matar esse
homem, apenas porque pretendia barrar-me o caminho que levava ao meu
mundo natal!...
Hoje sabia
que pensara e agira com a maior coerência. Com um sorriso forçado e
uma ironia fingida, respondi:
— O
pobre cachorro nem sequer pode latir à vontade. Como são as coisas
no interior de sua nave?
— Você
pode latir à vontade; apenas peço que não me morda.
Nós nos
havíamos compreendido. Nunca mordera a ele — vale dizer, à Terra.
Árcon já não tinha forças para isso. Mas unidos representávamos
um poder invencível.
Seríamos
mesmo invencíveis? Lembrei-me da interpretação final do regente.
Alguém abalara os alicerces dos dois impérios. Já estava na hora
de fazer alguma coisa contra isso.
2
A rigor, a
nave terrana Ironduke era uma usina energética espacial, em cujo
interior parte alguma, por menor que fosse, deixou de ser
aproveitada.
Durante o
curto vôo que nos levou ao terceiro planeta de Árcon, não houvera
necessidade de usar o lendário sistema de propulsão linear, que os
terranos haviam copiado dos druufs; conseguiram construí-lo depois
de um prolongado trabalho de pesquisa. Por isso não pudera observar
as novas máquinas, nem realizar o estudo visual das mesmas. Aliás,
era bastante duvidoso que Rhodan me fornecesse as respectivas
informações.
A Ironduke
era a nave do futuro. Sua combativa capacidade tática era muito
superior à de qualquer outro veículo espacial. E os homens iguais
ao Major Jefe Claudrin simbolizavam o tipo de comandante dotado de
imensa resistência nervosa e capacidade de reação para
capitaneá-la.
As naves
pertencentes à série da Ironduke representavam instrumentos
extremamente perigosos em mãos do comando espacial dos terranos,
ainda mais que os novos meios de vencer o tempo e o espaço permitiam
usá-las praticamente em qualquer ponto.
Era bem
verdade que com as naves convencionais isso também se tornava
possível, mas essas não podiam ser dirigidas com a mesma rapidez
para os pontos estratégicos mais importantes. Além disso, o abalo
estrutural provocado no momento do salto permitia sua localização,
o que não acontecia com as espaçonaves de propulsão linear. Estas
não saltavam pela quinta dimensão; atravessavam a estrutura
instável, situada entre o espaço normal e o hiperespaço, num vôo
contínuo realizado a uma velocidade milhões de vezes superior à da
luz, durante o qual a tripulação podia ver o ponto de chegada. Não
havia a dor da desmaterialização e da rematerialização, e, além
disso, os tripulantes não ficavam sujeitos à carga psicológica
advinda das transições que até então se costumava realizar.
As
vantagens das novas espaçonaves eram evidentes. Por isso preferi não
incomodar Rhodan e os cientistas a bordo com perguntas a esse
respeito.
Depois de
nosso pouso em Árcon III, o mundo dos estaleiros espaciais e das
indústrias acessórias dirigidas por robôs, ponderei algumas idéias
que não deixavam de ser egoístas.
Há alguns
dias conhecia perfeitamente o perigo que surgira nas profundezas do
centro galáctico. Era a única pessoa que possuía os dados
indispensáveis para que Rhodan traçasse seu procedimento futuro.
Conforme
as circunstâncias, poderia mostrar-se disposto a revelar-me
espontaneamente o segredo do sistema de propulsão linear. Comecei a
namorar a idéia de reprogramar as gigantescas linhas de montagem do
mundo industrial, a fim de equipar as grandes unidades da frota
arcônida com a máquina fantástica.
No
entanto, Rhodan não fez menção de colocar em discussão este
ponto. Estava interessado, antes de mais nada, em saber de mim ou do
computador-regente de onde vinha o povo dos arcônidas e qual era seu
parentesco com os chamados acônidas.
Conseguira
apoderar-me desses dados.
Para isso
recorrera aos armazéns de velhos dados do maior centro de computação
da Via Láctea.
*
* *
Pela
primeira vez um não-arcônida teve permissão para penetrar nos
centros subarcônidas.
Também
neste ponto resolvi deixar de lado todas as idéias convencionais,
ainda mais que, além de mim e de Rhodan, dificilmente havia qualquer
ser vivo que estivesse tão bem informado sobre essas instalações.
Juntos
havíamos vencido o famoso centro de computação, que até poucos
decênios atrás era completamente autônomo e conhecido como uma
entidade impiedosa. Conseguira provocar a reação do dispositivo de
segurança instalado por meus antepassados, e depois disso os atos do
regente, que escapavam a todo e qualquer controle, chegaram ao fim.
Agora as
gigantescas instalações passaram a ser empregadas em finalidades
úteis. O enorme aparelho administrativo do império, tremendamente
ramificado, era dirigido exclusivamente pelo centro de computação.
No entanto, ele já não intervinha nos acontecimentos políticos e
militares sem ordens especiais de minha parte.
Rhodan
pediu que lhe fosse permitido levar um dos seus mutantes. Concordei
depois de ligeira hesitação, embora não soubesse por que fazia
questão dessa companhia.
Tama
Yokida, um terrano de estatura mediana, um tanto atarracado, vindo do
estado federado do Japão, era um homem quieto e modesto, cujo dom
especial consistia na capacidade de mover e manipular objetos
materialmente estáveis exclusivamente pela força de sua vontade.
Também a
Tama fora concedida, por ordem de Rhodan, a chamada ducha celular. E
foi assim que três criaturas relativamente imortais se aproximaram
do campo energético em favor do grande centro de computação.
“Por
quanto tempo ainda seria possível enganar a natureza com nossos
recursos biotécnicos?”,
pensei. Quando chegaria o momento da decadência celular
irreversível? Rhodan, Yokida, eu e muitos outros mutantes
representavam exemplares curiosos na estrutura da natureza
onipotente. Nossa existência fundava-se num truque sujo, conforme
dissera corretamente um cientista terrano.
Essa
afirmativa aplicava-se especialmente a mim, pois sempre conseguira
cuidar do meu microativador celular, para que a regeneração das
células nunca fosse interrompida por um tempo muito longo. Às
vezes, a coisa estivera por pouco, e nessas oportunidades comecei a
compreender que o misterioso Ser coletivo do planeta Peregrino, ao
entregar-me o aparelho, se guiara por idéias estatísticas.
A julgar
pela lei das grandes séries, já deveria estar morto há muito
tempo. Durante minha longa peregrinação pela História da Terra
houve centenas de possibilidades de perder o ativador.
E isso
acontecera muitas vezes. Apenas, ao contrário das expectativas
estatísticas, sempre conseguira recuperar o aparelho antes do
momento crítico.
O pigarro
de Rhodan sobressaltou-me em meio às reflexões. Virei a cabeça.
O campo
energético defensivo do centro de computação erguia-se bem à
nossa frente. A Ironduke pousara dois quilômetros atrás de nós. O
carro, que nos levara até a linha vermelha que delimitava a zona de
perigo, aguardava fora da área mortal.
Já
havíamos transposto o grande dique, atrás do qual certa vez
estivéramos deitados, disparando contra qualquer peça de metal que
enxergássemos à nossa frente. Fazia mais de sessenta anos.
Naquele
momento podíamos caminhar tranqüilamente em direção à guarda de
robôs que nos esperava atrás do campo defensivo e pedir em nome do
imperador que nos deixasse entrar.
Rhodan e
Tama Yokida pararam. Sem dizer uma palavra, seguiram-me com os olhos.
Sabiam que seus impulsos individuais teriam de ser captados e
registrados pelo dispositivo de segurança e retransmitidos, com as
respectivas ordens, às estações defensivas.
O
gigantesco campo abobadado abriu-se à minha frente. Atravessei-o e
liguei o aparelho de comando preso ao pulso esquerdo.
— Bem-vindo,
eminência — disse a voz fria e mecânica do regente, saída do
alto-falante. Era o cumprimento que costumava ser usado há cerca de
sessenta anos. Resolvi ser lacônico.
— Permita
a entrada do Administrador do Império Solar e de seu companheiro.
Prepare o retrato, armazene-o e transmita-o sob a forma de um impulso
condensado às unidades de defesa.
Se é que
um cérebro positrônico é capaz de ficar perplexo, isso deve ter
acontecido nesse instante. Um forte zumbido fez-se ouvir em meu
aparelho de comando. A resposta do regente demorou alguns segundos, e
foi muito diferente do que eu esperava.
Depois de
um forte estalido no alto-falante, ouviu-se outra voz, fortemente
modulada.
— Dispositivo
de segurança A-l falando, eminência. Minha programação, realizada
pelos antepassados, faz-me não permitir a entrada de estranhos, a
não ser que circunstâncias extraordinárias obriguem um arcônida a
pleitear, no interesse do Império Estelar, a entrada dos mesmos. Um
pedido desse tipo terá de ser muito bem fundamentado.
Fiquei
perplexo por um instante. Aquilo constituía uma novidade. Virei-me
apressadamente e fiz um sinal para que Rhodan, que já se aproximava
da linha vermelha, recuasse. Notei que a abertura, que se formara no
campo defensivo, voltara a fechar-se.
Rhodan deu
um salto para trás. Sem dúvida compreendera. Procurei aproximar o
aparelho de comando dos lábios.
— Imperador
dirigindo-se ao dispositivo de segurança A-l — disse, acentuando
as palavras. — Surgiram as circunstâncias extraordinárias que
tornam indispensável a entrada de um estranho, no interesse do
Império Estelar. Os dados extraídos das memórias antigas provam
que a existência do império está em jogo. O conflito com a raça
de que provêm os arcônidas, conhecido pelo nome de Guerra do
Centro, entrou num novo estágio crítico. Há dois meses os acônidas
atacaram o grande império, fazendo com que o terceiro planeta
recuasse quinze mil anos. Nesta época o governante era o Imperador
Metzat. Os arcônidas que então viviam, desaparecidos, em sentido
relativista, há muitos milênios, despertaram para uma vida nova e
incompreensível. Uma velha frota arcônida ia atacar a Terra. Esta,
por sua vez, não foi influenciada por nenhum campo temporal. A
eliminação do deformador de tempo, introduzido por desconhecidos,
trouxe-nos de volta à situação normal. Esses dados já são do seu
conhecimento.
— São
do meu conhecimento, eminência — confirmou o dispositivo de
segurança. — Qual é a relação entre eles e os estranhos a que
Vossa Eminência acaba de aludir?
Refleti
febrilmente. O único meio de convencer um computador era a lógica
pura. Seria inútil dizer que Rhodan apenas pretendia examinar, a
título de informação, os velhos relatos em filme. Teria de
encontrar um argumento mais convincente.
— A
degenerescência dos atuais arcônidas também é um fato conhecido.
Para defender-nos do ataque da raça-mãe necessitamos do auxílio do
Império Solar. Sua Excelência Administrativa, Perry Rhodan, precisa
ser informado pessoalmente da situação. Seu companheiro exerce as
funções de ajudante e é dotado de faculdades para-normais.
— Será
possível utilizar essas faculdades no interesse do Império Estelar?
— indagou A-l.
Já
ganhara a partida. Logo após minha resposta afirmativa, o setor A-l
voltou a chamar.
— O
requerimento de Vossa Eminência foi deferido sob reserva, uma vez
computados os dados disponíveis.
— Sob
reserva?
— É o
que determina minha programação, eminência. Os não-arcônidas
podem penetrar na sala de apresentação número sete. Os outros
setores do computador-regente não podem ser visitados por estranhos,
nem observados por meio de aparelhos de inspeção à distância. O
auxílio armado, que Vossa Eminência julga imprescindível,
obriga-me, face às ordens introduzidas em mim, a permitir a entrada
do não-arcônida. Não é possível fazer outras concessões.
Sentia-me
satisfeito por ter conseguido ao menos essa permissão. Admirei
contra vontade a sábia previdência dos homens que, num trabalho de
vários séculos, haviam construído e programado o gigantesco centro
de computação. Não se esqueceram de nenhum detalhe. Minha vida não
valeria mais nada, se ainda me atrevesse a levar Rhodan a outro lugar
que aquele que me fora ordenado. Neste ponto parecia terminar meu
poder de dar ordens, que em outros setores era irrestrito.
Esperei
até que o armazenador de dados móvel parasse ao meu lado. Só
depois surgiu a abertura no anteparo energético. Saí e fiz um sinal
para Rhodan. Perry continuou parado. Parecia estar preparado para
saltar a qualquer momento.
Senti seu
olhar desconfiado. Voltara a ser o terrano, sempre cauteloso, que
ponderava a situação, numa atitude fria e tranqüila, embora
admitisse certa dose de risco.
Senti a
dor na parte traseira do crânio. Os telepatas a bordo da Ironduke
procuravam averiguar o conteúdo do meu pensamento consciente, muito
embora soubessem há muitos anos que não conseguiriam fazê-lo
contra minha vontade.
Bloqueei
imediatamente minha mente por meio do cérebro adicional. Com isso
emudeci parapsicologicamente para os telepatas.
Não me
aborreci nem um pouco com a tentativa frustrada. Era principalmente
Gucky, o rato-castor petulante, que não podia deixar de
experimentar-me com constância.
O que mais
me apavorava era a idéia de que os mutantes deviam ter agido por
ordem de alguém. Rhodan possuía uma capacidade telepática bastante
limitada e, como não tivesse sido muito dotado pela natureza,
cultivara tal capacidade por meio da parapsicologia moderna. Sabia
comunicar-se perfeitamente com um bom receptor. Porém suas
transmissões não iam muito longe.
Naturalmente
ele, que era uma criatura desconfiada, irradiara uma ordem para seus
homens, para que fizessem o possível para arrancar-me alguns
fragmentos de idéias. Nesse instante perdi toda esperança de algum
dia saber desse homem como funcionavam os novos hiperpropulsores.
Reprimi a
contrariedade que sentia. Esse terrano nunca aprenderia. Passara por
uma escola dura e impiedosa. A vida e as situações calamitosas, que
se espalhavam pela Galáxia, haviam-lhe ensinado que não se devia
confiar em ninguém.
Este
princípio não podia ser considerado falso, e muito menos deveria
ser interpretado como uma manifestação constante de maldade.
Apenas, não deveria ter chegado ao ponto de incluir seus amigos
sinceros no círculo das pessoas contra as quais dirigia sua
desconfiança.
Liguei meu
rádio portátil e falei em tom irônico para dentro do microfone:
— Muito
obrigado pela prova de confiança, bárbaro. Caso os senhores
mutantes da Ironduke me estejam escutando, quero que saibam que as
tentativas de espionagem paramental continuarão a ser infrutíferas.
A posição
de Rhodan descontraiu-se. Dali a pouco soltou uma risada, e então
não consegui ficar mais zangado com ele. Afinal de contas, era um
terrano que mais uma vez se identificara com toda a Humanidade.
Preferiria que o fizessem em pedaços a permitir que algo de mal
acontecesse a essa Humanidade.
Tirou do
cinto o radiotransmissor e encostou-o à parede. Numa atitude típica,
não formulou nenhuma pergunta, mas fez uma constatação em tom
terminante:
— Você
teve problemas. O que houve?
— Foi o
dispositivo de segurança A-l.
— Entendido.
Isso foi uma novidade para você, não foi?
— Você
compreendeu com uma lógica perfeita.
— Bendito
seja seu senso de humor, arcônida. Será que já posso aproximar-me
sem correr nenhum perigo?
— Você
pode entrar na sala de apresentações número sete; só isto.
— Quer
dizer que há mais de uma.
— É de
se supor que haja.
Rhodan
soltou uma risada que desarmaria qualquer pessoa. Foi caminhando
lentamente, juntamente com Tama Yokida. No momento em que
ultrapassaram a linha vermelha de perigo, meus olhos ficaram úmidos.
Era um sinal de agitação interior. Qual seria dali em diante o
comportamento do regente, especialmente do seu setor de segurança?
Se Rhodan morresse por ocasião de uma visita amistosa, as
conseqüências seriam inimagináveis.
Só
suspirei aliviado quando os dois homens haviam passado pela coleta
dos dados individuais. Aguardei até que os capacetes detectores
fossem tirados de suas cabeças e o setor A-l voltasse a chamar para
confirmar o registro.
Os robôs
de guerra, enfileirados sob a distante abóbada de aço,
desapareceram. O centro de computação teve bastante confiança em
mim para deixar a meu cargo os cuidados com Rhodan e Yokida.
Informei-os
apressadamente e concluí:
— Peço-lhes
encarecidamente que não façam tolices. Tama, o senhor deve
renunciar às suas brincadeiras telecinéticas. Estamos lidando com
uma máquina-mamute, que não entende de brincadeiras nem atitudes
petulantes.
Rhodan
usou sua faculdade telepática para entrar em contato com a Ironduke.
Naquele momento não havia nenhuma possibilidade de intercâmbio
falado. O campo energético do centro de computação impedia todas
as comunicações pelo rádio.
— Está
bem; vamos andando. Meu pessoal está informado. Se alguma coisa nos
acontecer, ao menos não acreditarão que seja por sua culpa.
Lançou-me
um olhar penetrante; a exclamação furiosa que pretendia soltar
ficou presa na minha garganta. Rhodan falara sério.
Virei a
cabeça sem dizer uma palavra. Um planador antigravitacional
levou-nos até a abóbada achatada, que mal sobressaía do solo, na
qual terminava um elevador antigravitacional. Meus antepassados
fizeram questão de colocar as instalações de comando bem abaixo do
nível do solo.
Rhodan e o
telecineta seguiram-me de perto. E não se desgrudaram dos meus
calcanhares quando nos encontrávamos a dois mil metros de
profundidade, e atravessávamos as últimas eclusas blindadas.
Naquele instante penetramos no labirinto misterioso de uma tecnologia
que os arcônidas daqueles dias já não dominavam. Nem mesmo eu
estaria em condições de reparar um setor que por algum motivo
deixasse de funcionar.
Acontece
que meus veneráveis antepassados — que a rigor eram meus
descendentes — haviam pensado no caso. O regente reparava-se a si
mesmo.
Um robô
especializado sem armas aguardava-nos na entrada da sala de
apresentação número sete. Vimos à nossa frente um recinto
quadrado, com o teto abaulado apoiado em colunas.
Só se via
uma série de telas enormes, uma mesa de programação em ferradura e
um envoltório de aço que sobressaía da parede e continha os
elementos dos estágios finais de computação.
À frente
da maior das telas viam-se confortáveis poltronas articuladas, que
já haviam abrigado os maiores cientistas e estadistas da História
de Árcon.
Sem dizer
uma palavra, apontei para as poltronas. A apresentação já fora
preparada. Não havia necessidade de formular indagações
detalhadas, já que os dados armazenados no computador, solicitados
há alguns dias, estavam inseridos no setor lógico.
Antes que
pudesse desencadear o impulso, que seria importante, se não
decisivo, para Rhodan e para mim, disse no tom mais indiferente que
me foi possível:
— Perry,
seu avanço inesperado para o Sistema Azul, que provavelmente só se
tornou possível graças à nave de propulsão linear, provocou uma
verdadeira avalanche de acontecimentos. Os fatos que você apurou são
corretos. Os pré-arcônidas, ou melhor, os acônidas, são os
antepassados dos arcônidas que você conhece, e aos quais eu
pertenço. Para os membros do Grande Conselho de Árcon esse fato é
bastante lamentável.
— Por
quê?
Fitei-o
com uma expressão pensativa.
— Você
sabe. Em nossa raça cumpriu-se uma lei natural à qual, segundo
parece, ninguém consegue escapar. Quase todos os sociólogos,
biólogos e médicos são acordes em afirmar que um povo arrancado de
seu habitat original não pode permanecer para sempre num outro mundo
em que as condições são totalmente adversas. Isso se aplica tanto
à Cultura e à Ética, como também ao patrimônio técnico e
científico. A degenerescência inegável dos arcônidas de hoje é
uma simples conseqüência dessa lei sombria. Já sabemos por que o
Império de Árcon é um colosso sobre pés de barro. O enigma, que
há tanto tempo procurávamos solucionar, encontrou sua solução
graças ao seu vôo experimental, que o levou ao centro da Galáxia.
“Somos
descendentes de colonos de um grande povo, e por isso degeneramos.
Quase todos os arcônidas, inclusive as cabeças dirigentes do Grande
Conselho, encontram-se na situação psíquica de certo grupo de
doentes mentais que nenhum psiquiatra consegue convencer de que
realmente são doentes. Logicamente a situação nos imporia o dever
de convencer os arcônidas de que chegamos ao fim do nosso caminho.
Mas nunca conseguirei fazer isso. À medida que progride a
decadência, mais arrogantes se tornam as pessoas.
“Evidentemente,
essa arrogância não tem o menor fundamento. Face a isso
dependeremos exclusivamente da nossa capacidade. Os dados armazenados
no cérebro revelam que há cerca de vinte mil anos do calendário
terrano irrompeu uma terrível guerra entre os acônidas e meus
antepassados.
“Tratava-se
de direitos documentados, pretensões à autonomia, relações
comerciais e outros pontos que constantemente têm surgido como
causas de conflitos desastrosos. No chamado Sistema Azul, você deve
ter notado que essa guerra ainda não foi esquecida, e os últimos
acontecimentos provam que realmente não o foi. Os acônidas procuram
remover o perigo representado por sua pessoa. Você se tornou um
elemento perigoso, já que possui o sistema de propulsão linear.”
Rhodan
fitou-me prolongadamente. Ao que parecia, nenhuma das minhas emoções
escapava à sua atenção.
— Isso
mesmo — limitou-se a dizer.
— O
regente constatou com cem por cento de certeza que a eliminação de
sua pessoa representaria o fim da Terra e do Império de Árcon. Por
outro lado, você não conseguiria manter-se se eu deixasse de
existir, já que controlo a frota espacial arcônida. Dessa forma
pouco importa em que ponto os acônidas resolvam lançar seu ataque.
Foi por isso que solicitei sua presença.
— Será
que as informações fornecidas pelo regente realmente são tão
inequívocas como o senhor acredita, sir? — perguntou Tama Yokida.
— São
ainda mais inequívocas. No dia em que eu deixar de ser imperador,
minha frota atacará a Terra. Quanto a isso não existe a menor
dúvida. Se a Terra for enfraquecida por outro motivo, não mais
poderei defender-me dos meus inúmeros inimigos. Será que posso
começar?
— Um
momento — disse Rhodan, em tom indiferente, levantando-se.
Senti-me
curioso e, depois de algum tempo, fiquei inquieto. Seu rosto parecia
tenso.
— Pois
não.
— Recebi
sua mensagem de rádio no momento em que me preparava para decolar.
Pretendia, e ainda pretendo, dirigir-me mais uma vez ao Sistema Azul,
a fim de procurar remover as causas dos conflitos.
O silêncio
passou a reinar na grande sala. Rhodan observou atentamente minha
reação às suas palavras. Não me sentia muito surpreendido. O
projeto constituía um sinal do sentido sempre alerta para as
necessidades estratégicas.
— Compreendo.
Você acha que a comunicação que acaba de fazer é tão
extraordinária assim?
O rosto de
Rhodan permaneceu impassível. Apenas ficou um pouco mais pálido.
— Para
falar com franqueza, acho. Não tive a intenção de informá-lo
antecipadamente a este respeito.
Levantou-se
e ficou à minha frente. Por um instante olhamo-nos fixamente.
— Então
é isso...! — respondi em tom hesitante.
— Conhecemos
a situação política interna do sistema de Árcon! — disse
Rhodan, em tom apressado. — Achei que seria perigoso revelar minhas
intenções agora.
— Você
pode ter certeza de que eu não as teria revelado aos meus
incompetentes ministros — disse em tom amargurado. — Quer dizer
que você pretendia decolar sem que eu soubesse, apesar de termos
sido atacados ao mesmo tempo. O que pretende fazer agora?
Mais uma
vez entreolhamo-nos. Rhodan virou-se lentamente e voltou à sua
poltrona. Uma vez acomodado, disse:
— Ainda
bem que recebi sua notícia em tempo. Não supunha que as previsões
mais sombrias dos pesquisadores terranos encontrassem uma confirmação
tão crassa.
— Quer
dizer que você mudou de opinião, administrador?
Rhodan
limitou-se a sorrir. De repente pensei que compreendia por que não
pretendia informar-me. Não passava de uma figura decorativa no trono
de Árcon, muito embora fizesse tudo que estava ao meu alcance para
corrigir as condições insustentáveis do império.
— Não
me chame assim, amigo! De qualquer maneira, você seria informado
sobre os resultados de nosso vôo.
Aquilo ao
menos era uma informação positiva. Iniciei a apresentação, sem
formular outras perguntas.
3
— ...e
então a décima-segunda esquadra de cruzadores espaciais, comandada
pelo Almirante Talur, decolou a fim de executar o programa de
contragolpe, que visava à destruição da base acônida de
abastecimento de Tarkta, o quarto planeta do sistema central de
Opogon. A Her-Akal, nave capitania, abrigava veículos auxiliares.
Vejam a décima-segunda esquadra no ataque decisivo, que, depois de
quatro anos de batalhas de retaguarda, representou uma contribuição
decisiva à contenção da ofensiva dos antepassados.
A voz
mecânica do regente superou o barulho das armas. As grandes telas
tridimensionais de visão global mostravam um acontecimento que se
desenrolara há 20.418 anos do calendário terrano.
O conflito
entre os antepassados dos atuais arcônidas e o povo que então era
formado por colonos novos, conhecido pelo nome de Guerra do Centro,
irrompera apenas 182 anos após o início da colonização do grupo
estelar M-13.
Os
emigrantes, equipados com os recursos mais modernos dos antepassados,
logo alcançaram a autonomia. Lançando mão de um contingente enorme
de espaçonaves e armas de todos os tipos, conseguiram subjugar em
menos de sessenta anos as inteligências de todos os graus de
classificação que viviam no grupo estelar M-13.
E foi
assim que surgiu o Império de Árcon. Cerca de 180 anos depois do
dia em que a primeira nave com colonos pousou no planeta, houve uma
reviravolta na política interna. Proclamou-se o absolutismo
imperialista, e todas as resistências internas foram eliminadas
implacavelmente.
O primeiro
imperador foi Gwalon I que, sete anos depois da subida ao poder,
proclamou a independência do novo império e, num ataque-relâmpago,
procurou destruir as fortificações avançadas e as bases de
suprimentos dos antepassados, situadas no grupo M-13.
A ação
foi bem-sucedida.
Os
antepassados retiraram-se, mas não o reconheceram como imperador.
Depois disso houve a Guerra do Centro, que durou onze anos. No curso
da mesma os colonos que, numa imitação quase perfeita do nome
primitivo, passaram a chamar-se de arcônidas, envolveram-se nos
conflitos mais violentos da História acônida.
Os
numerosos filmes sonoros de cinegrafistas já falecidos mostravam
cenas das batalhas travadas entre os arcônidas e os acônidas, que
naquela época já habitavam o sistema solar central que Perry Rhodan
descobrira por ocasião de um vôo experimental, realizado em março
de 2.102.
Estávamos
no dia 16 de dezembro de 2.102 mas, ao fitar a tela, tive a impressão
de que a história exibida na mesma só se desenrolara há poucos
instantes.
As frotas,
que provavelmente eram as maiores que já percorreram a Galáxia,
entraram em choque. Dezenas de milhares de espaçonaves de todos os
tipos, entre as quais se viam os gigantes de oitocentos metros de
diâmetro, espalhavam a morte e a destruição.
Esses
acontecimentos apavorantes não concorriam para firmar meu prestígio
diante de Rhodan. Os atos de meus antepassados representavam uma
regressão à barbárie.
Ouvimos os
comentários originais, que há vários dias eu já julgara muito
duros. Mas agora, que os dois terranos se encontravam presentes,
enrubesci de vergonha. Evitei olhar para Rhodan. Provavelmente ele
sentia o que se passava comigo.
A atuação
da décima-segunda esquadra de cruzadores chegou ao fim com a
primeira aplicação da recém-criada bomba de gravitação.
Sistemas
inteiros foram arrancados da estrutura espácio-temporal. Segundo
rezava a tradição, o Almirante Talur fora o maior chefe da frota
dos colonos. No entanto, agia sem a menor contemplação, tal qual o
inimigo.
Senti-me
satisfeito quando a reportagem cinematográfica chegou ao fim. Para
concluir, o regente disse:
— A
interpretação de todas as circunstâncias que prevaleciam durante a
Guerra do Centro, com acréscimo dos novos dados, prova com cem por
cento de segurança que nossos antepassados são idênticos aos
acônidas. O tratamento dispensado a Sua Excelência Administrativa,
Perry Rhodan, no mundo acônida, constitui prova evidente de que por
lá a guerra ainda não foi esquecida. O perigo representado pelo
sistema de propulsão linear dos terranos deve causar preocupações
aos acônidas. Outros ataques, desfechados pela maneira já
conhecida, deverão ser esperados.
“A
existência de um campo defensivo azul e brilhante que, segundo os
dados fundamentais, envolve um sistema solar inteiro, corresponde a
um desenvolvimento científico-tecnológico extremamente avançado.
Recomenda-se procurar um entendimento com os acônidas, ou então
travar uma guerra de extermínio contra os mesmos. O mecanismo de
propulsão linear dos terranos oferece a possibilidade de atravessar
o campo energético, impenetrável para as naves saltadoras
convencionais. Deve-se procurar enviar a frota robotizada com pelo
menos dez mil unidades pesadas. O que se torna necessário são os
mecanismos propulsores lineares.”
Lancei um
olhar ligeiro para Rhodan, que se mantinha em sua poltrona
articulada, respirando pesadamente e com os olhos fechados.
— Recusado!
Estremeci.
Raramente ouvira Rhodan falar com tamanha frieza e reserva. O regente
registrou o pronunciamento e processou-o. Alguns segundos depois,
extraiu a conseqüência lógica do mesmo.
— Com
isso a possibilidade de um ataque de surpresa torna-se ilusória, a
não ser que os terranos consigam romper o Sistema Azul por meio das
naves disponíveis, a fim de possibilitar a penetração de uma frota
convencional.
— Poderemos
falar a este respeito, caso as negociações pacíficas por mim
pretendidas não sejam aceitas. Não vejo qualquer motivo para um
ataque-relâmpago segundo o modelo arcônida, a não ser que os
acônidas comecem a atacar a Terra, os mundos comerciais terranos ou
o Império de Árcon. Nessa hipótese ver-me-ia obrigado a formular a
declaração de guerra.
Rhodan
falara no mesmo tom monótono de antes. Parecia profundamente
comovido.
— Vossa
Excelência não considerou a necessidade estratégica de um ataque
desfechado sem aviso.
— A
lógica da sua argumentação é sedutora, mas não se pode exigir de
seres humanos que ajam em conformidade com suas recomendações.
Quanto a
mim, não disse uma palavra. Rhodan sabia perfeitamente que nosso
computador-regente não poderia usar outra linguagem. Suas
comunicações eram o resultado de cálculos matemáticos. E a
Matemática não conhece nenhum sentimento humano.
— Por
enquanto não vejo nenhuma solução viável que não envolva certo
risco para nós — disse a gigantesca máquina. — Recomenda-se a
entabulação de negociações de paz, desde que os antepassados
também as desejem. Prevejo com noventa e nove por cento de certeza
que as tentativas nesse sentido serão inúteis. O comportamento que
os acônidas adotaram por ocasião do pouso de Sua Excelência foi
negativo. Os atos que se seguiram revelaram uma inimizade capital, e
os acontecimentos que se seguirão levarão os dois impérios à
beira do abismo. A superioridade técnica dos acônidas está
demonstrada. Também possuem mecanismos propulsores lineares e, além
disso, têm uma forma imaterial de transporte de matéria a grande
distância. Recomendo encarecidamente uma ponderação coerente da
minha exposição. Fim.
O regente
desligou. Por um momento tive a impressão de que se sentia ofendido,
o que evidentemente não passava de um absurdo.
A luz
acendeu-se. Rhodan fitou-me com um sorriso forçado no rosto.
Pigarreou fortemente. Senti que minha garganta também estava seca.
— Seus
antepassados não tinham muita consideração uns pelos outros —
disse, esticando as palavras. — Devo confessar que tive um pouco de
medo. Não gostaria de tê-los como inimigos.
— Na
época, o planeta Terra era habitado pelo homem-macaco. E para ele
não havia o menor perigo.
— Isso é
uma desculpa um tanto esfarrapada para justificar essa fúria, que
atingiu até mesmo certos povos que nada tinham a ver com o conflito.
Nunca concordarei em acatar o conselho do computador, para seguir as
pegadas de seus antepassados. Decolarei dentro de uma hora.
Levantou-se
rapidamente e olhou para o relógio. Quanto a mim, desisti de
qualquer explicação para os atos dos meus antepassados. As palavras
seriam incapazes de reparar o que quer que fosse.
Rhodan já
sabia como fundáramos o grande império. Procurei raciocinar de
forma coerente. Sua reação deixou-me indiferente, já que era da
mesma opinião que ele. O procedimento dos velhos arcônidas era
indesculpável. E o que havia sido pior fora seu ataque contra o
sistema natal, fato que não deixei de mencionar.
— Naturalmente!
— exclamou Rhodan em tom exaltado. — Naturalmente não havia
nenhuma justificativa para isso. Não se deve atacar à traição o
antepassado e mestre, logo depois que se julgue ter atingido um grau
de maturidade que permita dispensar os seus serviços. Isso é um
crime.
Olhei para
o lado. Que resposta poderia ter dado a essas palavras?
Rhodan
percebeu os sentimentos conflitantes que me enchiam, e com isso
assumiu atitudes mais conciliadoras.
— O
senhor não é culpado disso, sir — disse Tama Yokida.
Estava
prestes a confirmar com um aceno, quando Rhodan estremeceu de
repente. Atirou a cabeça para trás e fechou os olhos.
Minha mão
esquerda subiu quase contra minha vontade, até tocar na chave que se
encontrava sobre meu peito. Ouvi a advertência de Rhodan no momento
em que meu gerador de campo defensivo começou a zumbir. Devia ter
percebido alguma coisa que nem Tama nem eu ouvimos.
A mão de
Rhodan pegou a arma e o corpo esguio entesou-se para dar um salto.
Mas, naquele momento, aconteceu alguma coisa que nunca teria esperado
ocorrer nos recintos hermeticamente fechados do centro de computação.
Enquanto
meu campo defensivo se levantava, percebi uma luminosidade vermelha,
que surgira junto às portas blindadas da sala de apresentação.
Levei alguns segundos para compreender o que estava acontecendo, pois
nunca vira um transmissor especial acônida e ainda mais com esse
formato.

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