domingo, 4 de setembro de 2016

P-112 - O Homem de Duas Caras - Kurt Brand [Parte 1]

Autor 
KURT BRAND


Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
DANIEL BRAGA


Revisão
ARLINDO_SAN

Um espaço mental onde residem
duas personalidades...


Tudo começou porque os órgãos de vigilância do Império Solar e do reino estelar arcônida não dispensaram a necessária atenção ás atividades dos antis.
Foi por isso que os servos de Baalol puderam iniciar a execução de seu infame plano sem que ninguém os impedisse. E esse plano previa a disseminação do liquitivo, um perigoso entorpecente, em todos os mundos habitados da Galáxia.
Acontece que, no fundo, os guardiões da ordem interestelar não têm culpa de nada. Não se pode dizer que tenham negligenciado na execução de sua tarefa de vigilância. Afinal, cientistas de renome haviam manifestado a opinião de que o liquitivo, o licor-tóxico, era um excelente meio de retardar o processo natural de envelhecimento do organismo humano e conferia novas forças aos que o tomavam.
O engano lamentável já foi reconhecido.
Empreendem-se todos os esforços possíveis para curar os viciados.
Mas há um detalhe que até então ninguém percebeu, nem mesmo os mutantes. E esse detalhe poderá produzir efeitos profundos em todos os mundos habitados da Via Láctea. Perry Rhodan encontra-se preso, e O Homem de Duas Caras é quem está dirigindo os destinos do Império Solar...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Thomas CardifUm inimigo público que está no governo.

Reginald Bell e Allan D. MercantQue ficam espantados com as atitudes do administrador.

A-TholEmissário dos antis.

Brazo Alkher e Stana NolinowTenentes da Ironduke.

Ele ou AquiloO Ser do planeta Peregrino que resolve divertir-se.

RhabolAlto sacerdote de Baalol.


1



Reginald Bell guardou o relatório e balançou a cabeça. Parecia pensativo.
O relatório trazia a assinatura de Perry Rhodan.
Era um dentre muitos que Bell lera naquele dia. Todos os documentos haviam saído do gabinete de Rhodan e parado em sua escrivaninha. Em alguns deles lia-se uma nota manuscrita: aprovado.
Inclusive o relatório que lhe causava dor de cabeça:
Investigações sobre o pedido dos mercadores galácticos, de instalar mais trezentos entrepostos comerciais na área submetida à soberania do Império Solar.
Todos os peritos que cooperaram na elaboração do relatório haviam chegado à conclusão de que o pedido dos saltadores devia ser indeferido. Acontece que Rhodan lhe havia aposto uma nota manuscrita: A instalação dos entrepostos comerciais deve ser permitida. Rhodan.
Bell respirava com dificuldade.
Perry, o que há com você desde que voltamos do planeta Okul?
A irrupção do gênio de Bell revestiu-se de uma violência considerável. Praguejava furiosamente, dando vazão ao nervosismo. Depois de algum tempo bateu na tecla do aparelho de intercomunicação, incrustada no pequeno painel. O rosto de Allan D. Mercant apareceu na tela. O chefe do Serviço de Segurança viu o rosto furioso de Reginald Bell em seu aparelho. Esse quadro dispensava comentários. Mercant aguardou para descobrir o que Bell tinha a lhe dizer. Não podia ser nada agradável.
Dois meses depois que haviam regressado de Okul, trazendo um Rhodan ferido e afetado por um grave abalo psíquico, os risos alegres e as piadas não mais se fizeram ouvir.
Mercant — esbravejou Bell em tom contrariado. — Rhodan acaba de me entregar o resultado do exame pericial. O senhor já está informado. Trata-se de um pedido dos ciganos estelares, que querem espalhar-se cada vez mais entre nós. Rhodan lançou uma nota manuscrita no respectivo requerimento: “A instalação dos entrepostos comerciais deve ser permitida.” O que acha disso?
Mercant respondeu com a maior tranqüilidade:
Se as coisas continuarem assim, infelizmente me verei obrigado a decuplicar o quadro de pessoal da Segurança Solar.
Diga Isso a ele, Mercant! — exclamou Bell.
Mercant balançou a cabeça.
O chefe transformou-se num homem de decisões solitárias, Bell.
Como vai acabar isso, Mercant? Perry me parece cada vez mais estranho. Até parece que também andou tomando liquitivo. Ora, não sei não... Perdeu até o senso de humor. Todos o evitam, inclusive Gucky.
Talvez o erro seja justamente este. Talvez deixemos que o chefe perceba que se transformou num estranho entre nós. Pode ser que nosso comportamento o leve a isolar-se cada vez mais.
Bell interrompeu o marechal solar.
Que diabo, Mercant. Se estiver doente, que entre de férias, mas não nos traga os ciganos estelares às legiões.
Afinal, o senhor é o melhor amigo dele, Mr. Bell — ponderou Mercant. — Seu dever é chamar a atenção do chefe.
Nem penso nisso! — gritou Bell a plenos pulmões. — Já tive de ouvir dos médicos duas advertências muito sérias, apenas porque ponderei certas coisas diante de Perry. Os médicos vivem dizendo que devo ter a devida consideração pela sua terapia de choque e não perturbar a reconvalescença. Mas quando toma uma decisão errada, alguém deve dizer-lhe alguma coisa. Ao que parece, sou o menos indicado para isso. Mercant, o senhor é mais diplomata que eu. Peço-lhe encarecidamente que passe por aqui, pegue o relatório dos peritos e vá falar com Rhodan. Tenho esperança de que ele o ouça e não permita que a invasão dos saltadores se transforme em realidade.
Notou que Mercant hesitava; não insistiu. Allan D. Mercant não deixaria que ninguém o influenciasse.
Está bem — disse depois de algum tempo. — Estou disposto a tentar. Aguarde-me dentro de dez minutos, Mr. Bell.
Perfeitamente.
Esta palavra foi proferida num suspiro.
Bell desligou. As preocupações por Perry Rhodan não o abandonavam.
O desastre começara com a decisão de Rhodan, que resolvera em Okul defrontar-se a sós com seu filho Thomas Cardif.
Voltara transformado e psiquicamente arrasado. Levaram-no à Terra numa viagem-relâmpago, a fim de confiá-lo o quanto antes aos cuidados dos médicos.
As maiores sumidades acorreram ao leito de Rhodan. Os diagnósticos apresentavam uma espantosa coincidência. E a junta médica logo chegou a acordo quanto ao tratamento mais adequado ao estado de Rhodan. Aplicaram o processo de choque de Thmasson. Tratava-se de uma terapia criada em conjunto por médicos terranos e aras, que possibilitava a neutralização de depressões psíquicas profundas, fazendo com que depois do tratamento estas parecessem um sonho ao enfermo.
Também no caso de Rhodan, os resultados do tratamento foram admiráveis. Três dias depois do início da aplicação do processo de Thmasson, o boletim médico já informava:

Perry Rhodan, Administrador do Império Solar, está a caminho da cura. Não existe mais nenhum perigo iminente. Daqui em diante não serão emitidos outros boletins.

No interior do império estelar terrano, a doença de Rhodan só causava preocupações em setores isolados. O vício do liquitivo e a fúria de milhões de viciados prendia todas as atenções.
Enquanto o estado-maior de Terrânia ainda receava pela saúde mental de Rhodan, grandes quantidades de liquitivo chegaram ao Império Solar. Foram suficientes para transformar os homens enfurecidos em pessoas aparentemente normais. Além disso, na área de interesses do Império Solar estavam sendo realizados esforços gigantescos para serem construídas em poucas semanas as fábricas que permitissem a produção de quantidades bastantes do antídoto, o alitivo.
Muito tempo depois de Rhodan ter obtido alta da clínica de Terrânia, ficou-se sabendo que foi graças a ele que os viciados puderam ser curados da dependência da droga.
Em toda a história do Império Solar, a estrela da popularidade de Rhodan não brilhara tanto como naquelas semanas.
Nunca um homem foi condenado tão intensamente como Thomas Cardif. Tanto no Império de Árcon como no sistema solar, todos tomaram conhecimento do papel desempenhado por esse homem. Era procurado em toda parte.
Mas sempre que se seguiam as pistas que deveriam conduzir a Cardif, avançava-se no vazio.
Ao que parecia, Thomas Cardif mantinha-se escondido na selva das estrelas, ou seja, nas regiões inexploradas da Galáxia.
Ninguém conseguia aproximar-se da verdade.
Não havia ninguém que fosse capaz de imaginar que esse homem, procurado por milhões de criaturas, estava em Terrânia, onde ocupara o lugar de Perry Rhodan.
Ninguém seria capaz de imaginar que Perry Rhodan fora seqüestrado e se encontrava nas garras dos antis.
Mas o homem que dizia ser Perry Rhodan percebia com uma nitidez cada vez maior que se metera num jogo perigoso. Os mutantes, que no inicio lhe inspiraram tamanhos receios, não representavam uma ameaça tão grande. As funções duplicadas de seu cérebro, que lhe possibilitava ativar o modelo de vibrações cerebrais de Rhodan sempre que algum telepata ou localizador do Exército de Mutantes se encontrasse nas proximidades, o identificavam como o verdadeiro Rhodan, constantemente. Face a isso não poderia surgir a menor suspeita de que realmente era Thomas Cardif.
O perigo da descoberta vinha de uma direção totalmente diversa. Aquele homem, que assimilara a maior parte do saber de Rhodan, não possuía o elevado grau de intuição que fizera com que seu pai sempre se destacasse em meio às massas.
Quando conversava com Cardif-Rhodan sobre os trabalhos de aperfeiçoamento do sistema de propulsão linear, o professor Kalup foi o primeiro a desconfiar.
Sir — interrompera-o Kalup, perplexo. — Como se explica que o senhor manifeste uma opinião como essa?
Para sair do aperto, Cardif-Rhodan não teve outra alternativa senão recorrer à desculpa de que ainda sofria os efeitos do tratamento de choque de Thmasson.
A partir dali a idéia do choque de Thmasson andou vagando por Terrânia. Rhodan aparecia cada vez menos na companhia dos cientistas, engenheiros e técnicos. Desde seu regresso do planeta Okul nunca mais apresentara uma idéia pioneira, que servisse de impulso para levar avante um projeto que tivesse entrado em estado de estagnação.
Todos viviam dizendo:
O choque de Thmasson roubou ao chefe a sensibilidade pelos problemas técnicos.
Cardif soubera tirar proveito dessa idéia.
Com o maior descaramento apresentara-se aos médicos, relatara a palestra mantida com o professor Kalup e fizera questão de ressaltar seu fracasso.
Será que o choque de Thmasson me privou de parte das minhas faculdades mentais?
Os médicos não puderam dizer nem sim, nem não.
Satisfeito no seu íntimo, Cardif-Rhodan voltara a deixá-los a sós. Dali em diante enfrentava os perigos desse tipo com a alegação de ainda se encontrar sob os efeitos da terapia de choque.
Face ao público não havia sofrido qualquer modificação. Cardif era muito parecido com Rhodan, não só no aspecto exterior, mas também sob muitos ângulos mentais. Além disso, podia tirar proveito do saber que lhe fora transferido de Rhodan. Seus talentos permitiram-lhe tirar tamanho proveito do mesmo, que muitas vezes até os amigos mais Íntimos de Rhodan tinham a impressão de que o administrador voltara aos seus bons tempos.
Quando se via a sós — e a cada semana que passava enclausurava-se cada vez mais — sentia-se fustigado pela idéia terrível de que não passava de uma marionete nas mãos dos antis.
Os sacerdotes tinham em seu poder o verdadeiro Perry Rhodan, que poderia ser usado como trunfo contra ele. Sempre que Cardif não quisesse dançar de acordo com a música dos antis, estes poderiam usar Rhodan para exercer pressão.
Até mesmo de noite mal conseguia dormir.
Procurou desesperadamente um caminho que lhe permitisse libertar-se da dependência dos sacerdotes do culto de Baalol. Enquanto desempenhava o papel de Rhodan, sentia-se dominado cada vez mais pela embriaguez do poder, e esta sensação fez minguar cada vez mais o ódio que antes sentira pelo pai.
No entanto, não deixou de notar esse perigo. Lutou contra a embriaguez do poder com o desespero de um viciado em drogas. Não devia deixar que a mesma o dominasse, pois desde o primeiro instante dera-se conta de que sempre teria de agir exclusivamente como Thomas Cardif, nunca como Perry Rhodan.
A transferência realizada em Okul fora um êxito apenas parcial. Em sua opinião, a causa disso fora o tempo reduzido de que dispunham. Não sabia que a causa era ele mesmo. O ego de Thomas Cardif era totalmente incapaz de aceitar a subordinação numa situação de emergência como aquela.
Ouviu alguém bater à porta.
Pois não! — gritou em tom de espanto.
Fora arrancado violentamente de um estado de profunda reflexão e trazido de volta à realidade.
No momento em que olhou para a porta já havia conseguido controlar-se.
É o senhor, Mercant? — perguntou ao ver Allan D. Mercant entrar. — Não me lembro de ter registrado em minha agenda uma palestra com o senhor.
Antigamente Perry Rhodan também costumava usar vez por outra esse tom áspero, mas somente quando havia algum motivo para isso. Depois de seu regresso de Okul esse tom passou a predominar.
O marechal solar não se sobressaltou. Como de costume, sentou-se à esquerda da escrivaninha de Rhodan.
Sir — principiou, colocando à sua frente o relatório dos peritos. — Encontrei este parecer em poder de mister Bell. Peço licença para ponderar que o quadro de pessoal da Segurança Solar terá de ser aumentado consideravelmente, caso mais trezentos entrepostos dos saltadores sejam abertos ao lado dos já existentes nos mundos coloniais do império.
Cardif-Rhodan fitou Mercant com a maior tranqüilidade. Os traços mareantes de seu rosto não revelavam os pensamentos que lhe enchiam o cérebro.
Naquele momento Thomas Cardif pensava nos antis e desejava que os sacerdotes fossem para o inferno. Fora a pedido deles que atendera à solicitação dos mercadores galácticos.
Fora vítima de sua primeira chantagem. Há quatro dias lhe haviam enviado um aviso inconfundível, por intermédio de uma delegação de mercadores. Estes se veriam obrigados a tirar as necessárias conseqüências, caso o pedido de licença para a instalação de novos entrepostos comerciais tivesse decisão desfavorável.
O patriarca dos saltadores que lhe transmitiu a notícia não tinha a menor idéia do que realmente estava dizendo ao administrador. Mas Cardif-Rhodan entendeu as cordiais lembranças. O nome Fut-O1 dizia tudo.
Fut-O1 mandara lembranças. Acontece que Fut-O1 fora morto há quatro anos pelos antis, isso porque esse mercador galáctico não se mostrara disposto a colocar-se a serviço dos sacerdotes de Baalol.
Agora Mercant estava sentado à sua frente e tentava convencê-lo de que deveria revogar a permissão que acabara de conceder.
Mais alguma coisa, Mercant? — perguntou com a voz fria.
O marechal solar parecia espantado. Seu olhar envolveu o homem que, segundo acreditava, era seu chefe.
Si-sir — gaguejou Mercant um tanto perturbado — o aumento do número dos entrepostos comerciais dos saltadores em mais trezentos constitui um assunto de importância vital. Sir, não estaremos em condições de vigiar os escritórios comerciais dos saltadores situados no Império Solar, conforme seria necessário à nossa segurança. Abriremos as portas a uma série de cavalos de Tróia.
Deixe isso por minha conta, Mercant! Deferi o pedido. Será que isso não basta?
No seu íntimo, Thomas Cardif sentia-se aflito. Compreendia o ponto de vista do chefe da Segurança Solar. Também percebia o que havia atrás do pedido dos saltadores. Tratava-se de uma conquista sorrateira do Império Solar pelos mercadores galácticos, e comandando estes, estavam os sacerdotes de Baalol.
O rosto de Mercant transformou-se numa máscara. Seus lábios estreitaram-se. A respiração era entrecortada. Lentamente, quase a contragosto, voltou a dobrar o relatório dos peritos, alisou-o e voltou a guardá-lo na pasta.
Cumprimentou o chefe com um gesto.
Não disse uma palavra. Levantou-se e saiu.
Cardif seguiu-o com os olhos. Assim que a porta se fechou atrás de Mercant, respirou ruidosamente. Possuído de uma raiva impotente, cerrou os punhos.
Malditos antis! — disse, rangendo os dentes.
Estremeceu ligeiramente quando a tela do videofone se iluminou a seu lado.
Reginald Bell estava chamando. Ainda não poderia saber que a visita de Mercant não fora bem-sucedida.
Perry — disse. — A recepção acaba de avisar que você está disposto a dialogar com um arcônida de nome Banavol. Será que desta vez posso saber o que esse homem quer de nós?
Cardif aborrecia-se constantemente porque a curiosidade de Reginald Bell fazia com que se intrometesse nos assuntos mais íntimos. Por várias vezes procurara pôr paradeiro a isso, mas todas as tentativas fracassaram diante da obstinação de Bell. Este não se abalou e conseguiu dar esta resposta diante da enérgica repreensão de Cardif-Rhodan:
Perry, enquanto você não estiver cem por cento em ordem, continuarei a tomar conta de você. Afinal, devo-me este favor, e um dia você saberá agradecer. Que diabo! O choque de Thmasson transformou-o num estranho!
Thomas Cardif encontrou uma resposta plausível.
A visita de Banavol está ligada a Cardif, gorducho. Está satisfeito?
Bell não estava nem um pouco satisfeito. Conhecia a mentalidade dos arcônidas. Em sua opinião eram as criaturas mais indolentes da Galáxia. E Bell não deixou de manifestar tal conceito.
Por que justamente um arcônida será capaz de ajudar-nos numa situação que a Segurança Solar não consegue resolver? Bem, se você acha que deve perder seu tempo com isso, fique à vontade. Realmente quer recebê-lo, Perry?
Cardif esforçou-se para mostrar uma disposição jovial, embora a obstinação de Bell o deixasse zangado:
Quero, sim, gorducho. Ainda bem que você me deu sua bênção. Mais alguma coisa?
Viu Bell atirar a cabeça para trás.
Sim, Perry. Quero fazer-lhe um pedido todo especial. Procure não dizer constantemente “mais alguma coisa?”. Antigamente você proferia esta frase no máximo dez vezes por mês, ao passo que hoje a ouvimos pelo menos dez vezes por dia. OK, meu velho?
Está certo, seu tomador de conta. Obrigado pela indicação — respondeu Cardif, sorrindo para a tela.
Reginald Bell sorriu de volta e desligou.
Perry vai-se restabelecendo aos poucos”, pensou. “Ao menos consegue rir vez por outra.
Mercant entrou. Não havia necessidade de formular qualquer pergunta. O rosto do marechal solar estava rígido. Atirou a pasta com o relatório dos peritos sobre a escrivaninha.
A invasão vai começar!
Como? — perguntou Bell.
Isso mesmo — disse Mercant em tom de cansaço.
Quais são os motivos que o chefe lhe deu, Mercant?
Será que ultimamente o chefe costuma dar motivos? — perguntou Allan. — O que acontecerá, Bell?
De quanto tempo precisa para colocar mais dois mil agentes na Segurança Solar?
Mercant fez um gesto de desespero com os braços.
O quê? Nem sei como arranjar cem colaboradores competentes, quanto mais dois mil, O serviço da Segurança Solar também tem de ser aprendido, Mr. Bell. Quero dizer-lhe desde logo, para evitar futuros mal-entendidos entre nós dois, que a Segurança Solar não mais estará em condições de cumprir sua tarefa, se além dos entrepostos comerciais que os saltadores já possuem forem criados mais trezentos. Antes que isso aconteça, eu me aposentarei.
Desta vez Bell conseguiu dominar-se.
Mercant, sei que estou assumindo um risco tremendo. Você é a única pessoa à qual conto, em particular, o que pretendo fazer. Introduzirei uma modificação no pedido dos ciganos estelares, no sentido de que no Império Solar só poderão ser criados mais cem entrepostos comerciais dos saltadores por ano. Se for assim, ainda se verá obrigado a pedir aposentadoria?
Se o senhor conseguisse isso, mister Bell... — os olhos de Mercant iluminaram-se, mas o brilho dos mesmos não durou muito. — Mister Bell, quando o chefe descobrir, ele derrubará todo o esquema.
Estou disposto a assumir o risco, Mercant. Aliás, você sabe quem está falando com o chefe neste momento? Um arcônida, que veio por causa de um assunto ligado a Thomas Cardif.
Conhece o nome dele? — limitou-se Mercant a perguntar, sem se mostrar surpreso.
Banavol.
Conheço. É filho de pai e mãe arcônidas. Muito vivo e inteligente; é um negociante muito sagaz. Há vários anos seu escritório colabora conosco.
Com quem? Com a Segurança Solar?
Isso mesmo. Banavol criou um centro de consulta de problemas econômicos. Trata-se de um dos raros centros de espionagem, situado no Império de Árcon, que serve para alguma coisa. Então Banavol foi falar com o chefe, por causa de Cardif. Aliás, também neste ponto houve uma modificação radical com o chefe. Com uma obstinação que antes não costumava demonstrar esforça-se para encontrar o filho. Não sei se devo ficar satisfeito com essa modificação ou não.
Bem, no momento temos outras preocupações.
Nem desconfiavam das preocupações que afligiam o homem que acreditavam ser Perry Rhodan.

* * *

Banavol, que pelo aspecto exterior era um arcônida típico, estava sentado à frente de Cardif-Rhodan. Aquele homem de cerca de trinta anos não procurou dissimular sua arrogância tipicamente arcônida. Para ele o Administrador do Império Solar ainda era um ser primitivo.
O arcônida foi diretamente ao assunto.
Não precisamos conversar sobre Thomas Cardif, terrano. Posso falar à vontade? Quero dizer: Posso falar sem que ninguém me ouça?
Cardif encontrava-se em estado de alarma. As palavras insolentes que Banavol proferira a título de introdução prenunciavam uma notícia da maior importância. Os olhos de Cardif chamejaram.
Foi este o único sinal visível de nervosismo.
Posso falar à vontade? — voltou a perguntar Banavol.
Mais uma vez, a pergunta ficou sem resposta.
Está bem — disse o arcônida em tom indiferente. — O problema não é meu. Venho diretamente do mundo de cristal. Fut-O1 aguarda seus cumprimentos, terrano.
Essa alusão não seria capaz de levar Cardif à discussão. Limitou-se a sorrir.
Bem; faço apenas aquilo pelo qual sou pago — prosseguiu o arcônida. — Não fui pago para fazer discursos. Rhabol quer vinte ativadores celulares. Com isso ganhei meu dinheiro, terrano. Acho que não tenho mais nada a dizer.
Havia um tom de espreita na voz de Banavol, e uma expressão de desconfiança em seus olhos avermelhados de arcônida. Achava-se confortavelmente reclinado na poltrona.
Cardif-Rhodan acabara de decepcioná-lo. A cópia fiel de Rhodan que via à sua frente nem pestanejara quando fora citado o nome do sacerdote Rhabol. E muito menos estremecera, no momento em que formulou a exigência dos antis: vinte ativadores celulares.
Vinte anti-mutantes tinham vontade de alcançar a vida eterna, tal qual o Imperador Gonozal VIII.
A única pessoa que podia arranjar o aparelho do tamanho de um ovo que possibilitava a ativação celular era Cardif-Rhodan, o sósia de Rhodan.
Para ele, deveria ser fácil descobrir os dados galácticos do mundo artificial denominado Peregrino. Os antis ficaram sabendo por intermédio de Cardif que Aquilo, a criatura solitária de Peregrino, era amigo de Rhodan. Na opinião dos sacerdotes de Baalol deveria ser fácil para Cardif ir a Peregrino, pedir a Ele que lhe desse vinte ativadores celulares e voltar com essas maravilhas.
Banavol, diga a Rhabol que seu pedido não pode ser atendido — disse Cardif.
O arcônida respondeu com a voz fria:
Não estou autorizado a discutir o assunto com o senhor, terrano. Se o desejo de Rhabol não for do seu agrado, o senhor poderá dar expressão à sua contrariedade no estabelecimento comercial dos saltadores, situado em Plutão. Antes que vá a Peregrino, esperam-no por lá. Ainda bem que o senhor me lembrou, pois, do contrário, poderia ter-me esquecido de lhe dar o recado.
Desde a fundação do Império Solar nunca ninguém falara nesse tom com o administrador.
Acontece que, ao que tudo indicava, para Banavol o homem que se encontrava à sua frente não era Perry Rhodan.
Os antis deviam ter-lhe confiado o maior dos seus segredos.
Thomas Cardif passara quase cinco decênios entre os anti-mutantes. Nenhum terrano conhecia melhor os sacerdotes de Baalol do que ele. Por isso mesmo sabia que Banavol não representava nenhum perigo para sua pessoa. Alguém, que recebesse uma incumbência desse tipo dos antis, já não era dona de si mesma.
Banavol devia estar totalmente submetido aos sacerdotes, tal qual ele mesmo.
Ficarei mais um pouco, para que a visita não pareça muito breve — disse Banavol. — Gostaria de conversar a respeito de Thomas Cardif, terrano. Com sua licença quero observar que no início não acreditei, quando recebi a visita de Rhabol, que me contou certo segredo. Mas não demorei a ver o célebre Perry Rhodan. Cardif, o senhor está com um aspecto melhor que o dele. Da antiga grandeza de seu pai não sobrou quase nada. Não acha estranho que apesar disso os antis ainda sintam mais respeito por um Perry Rhodan reduzido à impotência que pelo seu filho? O senhor é capaz de entender uma coisa dessas, terrano?
Thomas Cardif compreendeu perfeitamente o sentido das palavras de Banavol. Fazia questão de ressaltar mais uma vez que Cardif não passava de marionete nas mãos dos antis. Assim que os antis não mais precisassem dele, seria atirado fora tal qual uma laranja depois de chupada.
A permissão de instalar trezentos entrepostos comerciais dos antis no sistema solar representava o primeiro passo para a conquista pacifica do império. E na operação aproveitavam-se dele como instrumento de seus planos de conquista.
Durante alguns segundos, os dois fitaram-se intensamente, O rosto de Thomas Cardif não mostrava a menor reação.
Meus respeitos, terrano — disse Banavol. — O senhor tem um excelente autodomínio. Rhabol não me informou sobre isto. Posso retirar-me, ou prefere que fique mais um pouco? — o rosto do arcônida continuava a exibir o sorriso arrogante.
Fique mais um pouco, arcônida — respondeu Cardif em tom indiferente. Retribuiu o sorriso.
Dois comparsas defrontavam-se de igual para igual.
Enquanto Banavol falava, procurando provocá-lo, um plano começou a formar-se na mente de Cardif.
De repente sentiu-se tentado a atender à exigência de Rhabol, e também se sentiu tentado a entrar no jogo, durante o qual mediria forças com os antis.
Mas resolveu tomar uma atitude negativa diante de Banavol.
Queria que o agente dos antis transmitisse a Rhabol a notícia de que Cardif não era nenhum joguete nas suas mãos.
Sua última palavra é essa, terrano? — voltou a perguntar Banavol para certificar-se e dispôs-se a sair do gabinete. — Recusa-se a viajar para Peregrino?
Acho que me exprimi com suficiente clareza, arcônida! — respondeu Cardif em tom indignado.
Seja o que quiser, terrano. Acontece que não fui incumbido de transmitir sua recusa aos sacerdotes. A mesma só pode ser manifestada no escritório do entreposto comercial dos saltadores em Plutão. Não tenho mais nada a ver com o assunto.
Cardif acreditava no que acabara de dizer. Conhecia os antis e sabia como trabalhavam. Bem, não se importaria em fazer uma viagem para Plutão, nem receava a palestra com um anti mascarado de saltador.
Pela primeira vez desde o momento em que assumira o papel de Rhodan, sentia-se bem-disposto. Quando Banavol se retirou do gabinete, um sorriso irônico aflorou aos seus lábios. E o sorriso continuou quando fez uma ligação de videofone com Bell.
Sim — disse Bell. — O arcônida disse algo de importante sobre Cardif, Perry?
Num instante, a mente de Cardif-Rhodan adaptou-se à nova situação. A resposta foi proferida com a voz tranqüila:
Banavol não disse nada de importante, a não ser talvez três indicações que possivelmente poderão representar uma pista, gorducho. Mas não é por isso que estou chamando. Não quero mostrar-me indiferente às preocupações de Mercant. Você compreende? Refiro-me à petição dos mercadores galácticos. Quero modificar a permissão por mim concedida no sentido de que os saltadores poderão instalar cem entrepostos por ano em nosso império...
Perry — interrompeu Bell entusiasmado. — Será que sua faculdade telepática está voltando aos poucos? Você leu meus pensamentos! Pretendia fazer exatamente isso. Apenas queria colocá-lo diante de um fato consumado.
O rosto de Thomas Cardif continuou com a expressão amável, embora a arbitrariedade de Reginald Bell o fizesse ferver de raiva.
Respondeu com uma gentileza fingida:
Ainda não confio muito nas minhas faculdades telepáticas, gorducho. Nunca foram intensas.
De qualquer maneira fico satisfeito de saber que temos a mesma opinião.
Estas palavras fizeram com que Bell se lembrasse de que, de forma alguma, concordava em permitir que os saltadores penetrassem no sistema solar. Acreditava que havia chegado um momento favorável de modificar a opinião de Perry Rhodan.
Ouça — sugeriu. — Não acha que deveríamos recusar de vez o pedido dos ciganos estelares? Estes negocistas gananciosos só poderão criar-nos problemas.
Tenho meus planos com os saltadores — respondeu Cardif-Rhodan em tom bem mais frio.
Esperava que a insinuação freasse a curiosidade de Bell. Mas o gorducho continuou a insistir.
Que planos são esses, Perry?
Oportunamente falaremos sobre isso. De qualquer maneira, peço-lhe que por enquanto não solte a permissão que acabo de dar aos saltadores. Antes disso quero dar uma olhada em seu entreposto comercial de Plutão.
Observou cautelosamente o rosto de Bell na tela. O gorducho disse com uma risada:
Isso me deixa ainda mais curioso para conhecer seus planos, Perry. Pela Via Láctea, que relação poderá existir entre Plutão e os ciganos estelares?
Quando chegar a hora você saberá disso, meu caro.
Não é a primeira vez que você diz isso, Perry — disse Bell. — Vou desligar para avisar Mercant. Quando pretende ir a Plutão?
Provavelmente amanhã. Desligo, Bell.
A comunicação foi interrompida. Cardif-Rhodan levantou-se e aproximou-se da janela.
Quantas vezes seu pai estivera de pé ali, lançando os olhos por cima do complexo de construções de Terrânia e fitando a faixa de terra que há um tempo relativamente curto ainda fora um deserto?
Quantas vezes Rhodan estivera ali, a sós com suas preocupações grandes e pequenas? Quantas vezes no curso dos anos lutara consigo mesmo a fim de chegar a uma decisão?
A mesma coisa estava acontecendo com o filho. Apenas, seus problemas situavam-se em outro plano. No fundo todas as suas reflexões, todos os seus planos moviam-se fora da legalidade.., e não passavam de uma trama criminosa.
Rhodan — disse em voz alta, e o ódio pelo pai voltou a inflamar-se.
Ao assumir o papel de Rhodan, Cardif colocara-se numa posição bastante difícil, e seu êxito e seu fracasso dependiam exclusivamente dos antis.
Os mesmos haviam pedido vinte ativadores celulares por intermédio de Banavol. Ao pensar nisso, Thomas Cardif não pôde deixar de rir. Mas não foi um riso de bondade. Imaginava perfeitamente qual era o motivo do pedido. Vinte dos sacerdotes mais Influentes do culto de Baalol namoravam a idéia de, por meio dos ativadores, alcançar a imortalidade relativa.
Cardif parecia satisfeito.
Seu plano ia adquirindo uma configuração mais nítida. O mesmo previa uma prova de força entre ele e os antis. Tinha certeza de que sairia vitorioso na luta.
OK — disse para si mesmo, pegou um cigarro, acendeu-o e deleitou-se com o fumo.
Nas brumas da distância uma gigantesca sombra esférica desceu à Terra. Um dos supercouraçados da Frota Solar estava pousando.
A Wellington acabara de regressar de uma missão.

* * *

Gucky, o rato-castor, estava com visita em sua residência, um confortável bangalô situado nas margens do lago salgado de Goshun. Era a área em que residiam os colaboradores e amigos mais antigos e mais chegados de Rhodan. Era maravilhoso morar longe do movimento e da inquietação de Terrânia. Apesar disso o visitante de Gucky não parecia nada satisfeito. E o rato-castor também não estava de bom humor, pois seu dente roedor solitário continuou escondido, e os olhos de camundongo, que costumavam brilhar numa expressão marota, estavam totalmente apagados.
Isto é pior que uma geladeira, John! — piou Gucky.
Esta observação foi proferida depois de cinco minutos de silêncio ininterrupto.
John Marshall, que era chefe do Exército de Mutantes e o melhor telepata do grupo, com exceção de Gucky, fez um gesto de assentimento. Compreendera o que Gucky queria dizer. Não poderia deixar de confirmar as palavras da pequena criatura. Desde que voltara do planeta Okul, o chefe passara a erigir uma muralha Invisível em torno de sua pessoa. Para os amigos passara a transformar-se simplesmente no administrador. Agora era uma eminência solitária, inacessível e assustadoramente impessoal.
Gucky acomodara-se no sofá e John Marshall na cadeira-balanço. Ao lado do rato-castor via-se certa quantidade de cenouras frescas. Gucky conhecia seus deveres de anfitrião. Escolheu as cenouras mais bonitas.
Quer uma, John?
Para seu espanto, desta vez o telepata não recusou com um gesto enérgico.
Passe para cá. Uma dose de vitamina não me fará mal. Qualquer atividade mental consome muitas vitaminas. Diga-me uma coisa, cá entre nós. Você ainda consegue chegar aos pensamentos do chefe?
Havia uma norma antiga, segundo a qual era proibido a qualquer telepata utilizar sua capacidade para introduzir-se nos pensamentos de Perry Rhodan e seus colaboradores mais chegados. E John Marshall era um dos mutantes que sempre fizera questão de que essa norma fosse cumprida.
Acontece que Gucky sempre cometera muitos “pecados”. Sendo assim, não costumava deter-se nem mesmo diante dos pensamentos de Rhodan.
Atualmente até mesmo Marshall estava disposto a violar a norma.
Sim, John, consigo chegar aos seus pensamentos. Mas quando estou com as antenas ligadas, sinto-me tomado de pavor. O que foi que os médicos fizeram com Perry? John, você já notou que o chefe se interessa pouco em saber se o maldito vício do liquitivo vai diminuindo ou não? Os pequenos homens-pepino, os swoons, já se sentem traídos e vendidos, porque o chefe não os procura mais. Se soubesse que os médicos realmente são responsáveis pela modificação ocorrida com Perry, eu seria capaz de reunir o grupo de eruditos e fazê-lo realizar um vôo em mergulho para dentro do lago.
Calma, pequeno...
Mas não havia mais nada que detivesse Gucky.
Por que veio visitar-me, se não quer que eu diga o que penso a respeito de nosso chefe? Sempre que me introduzi em seus pensamentos, procurei em vão pelo impulso que se dirige a Thomas Cardif. Será que nunca mais pensou em seu degenerado filho?
Então já modificou sua opinião sobre Cardif, pequeno? — perguntou Marshall.
Nem poderia deixar de fazê-lo, John. Hoje em dia até chego a arrepender-me do que fiz por ele. Certamente você também andou fuçando os pensamentos do chefe nestas Últimas semanas. Pode dizer, John. Não contarei a ninguém, mesmo que um dia briguemos. Não notou nada de estranho no chefe?
Marshall entesou o corpo; parecia surpreso.
O que quer dizer com isso, Gucky?
Bem que eu gostaria de saber, John! A partir do maldito tratamento de choque o chefe é uma pessoa totalmente diferente. Já não sabe ler pensamentos e em matéria de tecnologia quase chego a saber mais que ele. E já não sabe rir. Mas não é o que importa. Atualmente existe algo que nunca notei nele, algo de confuso. Muitas vezes, quando procuro ler seus pensamentos, tenho a impressão de encontrar-me diante de um vidro translúcido, atrás do qual vejo sombras... Sombras de impulsos mentais. De repente tudo desaparece, não há mais nenhum vidro translúcido e não vejo mais nenhuma sombra. Você nunca percebeu nada, John?
O chefe do Exército de Mutantes fitou prolongadamente o rato-castor. Estava pensativo.
Finalmente respondeu:
Você acaba de exprimir em linguagem precisa alguma coisa de que só agora me dei conta, pequeno. Também notei as sombras de impulsos. Pela grande Via Láctea! Será que essas sombras são a causa das modificações que houve com o chefe?
Nem mesmo os dois telepatas mais competentes do Império Solar tiveram a idéia de que essas sombras poderiam ser os impulsos mentais de Thomas Cardif, encobertos pelo saber de Rhodan, que lhe fora transferido por um processo hipnótico-sugestivo.
Gucky — disse John Marshall depois de algum tempo. — Daqui em diante teremos de vigiar atentamente o chefe, a fim de evitar que ele cometa algum erro de conseqüências desastrosas. Quando penso nos males que o único filho de Rhodan já andou causando, tenho vontade de chorar.
É o inimigo público número um da Galáxia. Nunca pensaria que um dia teria de falar dessa forma a respeito de Thomas. É um gênio, mas só pode ser um psicopata.
O ódio pelo pai fez com que enlouquecesse. Além disso, é um homem de dois mundos, meio terrano, meio arcônida. Pois é, pequeno!
Gucky fez um gesto de assentimento e disse em voz alta:
De qualquer forma não consigo compreender que alguém seja capaz de passar por cima de cadáveres para destruir o pai.
Não se esqueça dos antis, pequeno. Cardif está em poder deles, e se essas criaturas põem as mãos em alguém, não o soltam mais. Cardif tem que dançar de acordo com a música que eles tocam. Já não é senhor de sua própria vontade.
2



As coisas estão cada vez piores! Depois destas palavras, proferidas em tom contrariado, Bell saiu de trás da escrivaninha, olhou de relance para o intercomunicador, que acabara de transmitir uma mensagem de Rhodan, e afastou-se.
Ao passar pela ante-sala, resmungou:
Estarei no gabinete de Mercant! Depois que a porta da ante-sala também se fechou ruidosamente, os presentes disseram em voz alta:
Quanto mais esquisito fica o chefe, mais mal-humorado se torna o gordo.
Enquanto isso Reginald Bell descia pelo elevador antigravitacional. Dirigia-se ao gabinete do Marechal Solar Allan D. Mercant. A meio caminho esbarrou com o professor Manoli no interior do elevador.
Fico muito satisfeito em encontrá-lo meu caro! — disse o homem ruivo com a voz forte. — Um momento; vou mudar de elevador.
Passou para o setor ascendente, subiu três metros, até atingir o próximo pavimento, e saiu ao lado do professor.
Vai falar com o chefe?
Manoli lançou-lhe um olhar de espanto.
Vou. Como soube? Rhodan pediu-me expressamente que mantivesse em segredo a visita que pretendo fazer-lhe.
Bell não demonstrou a surpresa que sentia.
Sabe o motivo, professor?
O chefe quer mais uma verificação de seu estado de saúde.
O gordo fez um gesto afirmativo.
Ainda acabarei me acostumando à mania do segredo que tomou conta de Perry. Marshall e Gucky falaram com o senhor, Manoli?
Há algumas horas, sir. O senhor já está informado, não está?
Sem dúvida. O que acha dessa sombra nos impulsos mentais de Rhodan?
O professor parecia desorientado.
Infelizmente não somos telepatas. Nossos instrumentos não nos proporcionam o desempenho de uma pessoa capaz de ler pensamentos. Por isso dependemos exclusivamente das indicações dos telepatas e, sob o ponto de vista médico, essas indicações podem ser tudo, menos aproveitáveis. Precisamos de curvas, dados, diagramas. Temos necessidade de cifras exatas que retratem a intensidade dos fenômenos...
Bell interrompeu-o.
Já sei. O senhor e seus colegas não dispõem disso. Quero conhecer sua opinião pessoal sobre o chefe, Manoli. Perry está doente ou não está? Sim ou não. Nada de Subterfúgios.
Era uma atitude típica de Reginald Bell. “Nada de subterfúgios.” Costumava simplificar as coisas. Muitas vezes esse método causava um malogro lastimável, mas outras vezes fazia com que atingisse muito bem o objetivo.
Manoli, que estava acostumado a raciocinar exclusivamente em termos médicos, contorceu-se o mais que pôde, mas o olhar implacável de Bell acabou por obrigá-lo a manifestar sua opinião pessoal.
O chefe não está doente, mister Bell. Apenas sofre depressões...
Bell teve a impressão de não ter ouvido bem.
O chefe sofre de quê? De estados de desânimo? E o senhor vem me dizer que ele não está doente? Será que nunca se deu conta de que um estado de depressão não se harmoniza com a mentalidade de Rhodan? Por que faz questão de não acreditar nas sombras que foram constatadas por Marshall e Gucky?
Porque a medicina não conhece sombras nos impulsos cerebrais, O que os dois telepatas pensam ter descoberto não passa de uma tolice, coisa de leigos. Sabe lá o que pode acontecer se o chefe descobrir que alguém anda espionando seus pensamentos, mister...
Foi interrompido por Bell.
Sabe lá, caro Manoli, o que farei com o senhor se contar alguma coisa a Perry? Estamos entendidos?
O senhor acaba de exprimir-se com muita franqueza! — respondeu Manoli, profundamente chocado.
Bell passou a falar em tom mais amável:
Faça o favor de me informar sobre o resultado do exame.
Não, mister Bell. Em hipótese alguma. Sou médico. O dever do sigilo profissional...
Mais uma vez foi interrompido por Bell.
Desta vez o senhor pode esquecer-se do sigilo! Até a próxima — com estas palavras Bell deixou a sós o professor, que parecia perplexo.
O antigo companheiro da primeira viagem lunar de 1.971 nunca lhe falara nesse tom.
Até então sempre haviam sido bons amigos.
Viu Reginald Bell desaparecer no poço do elevador. Sentia-se irritado.
Será que existe algo de verdadeiro na observação dos dois telepatas?”, pensou. “Se for assim, por que não me explicaram melhor a natureza dessa sombra infame?
Enquanto se dirigia ao gabinete do chefe, resolveu submeter Rhodan a um exame extremamente minucioso.
Bell pegou o carro e pediu que o levasse ao quartel-general da Segurança Solar.
Mercant está? — perguntou laconicamente, ao entrar no hall do enorme edifício.
Sim senhor. O Marechal Solar Mercant encontra-se em seu gabinete.
Dali a pouco Bell estava sentado à frente de Mercant.
Então? — perguntou este, sem desconfiar de nada.
Ainda bem que está sentado, Mercant. Ultimamente sempre é bom que um de nós esteja sentado quando o outro aparece para trazer-lhe alguma novidade. A Ironduke está sendo preparada para a decolagem.
Já sei, mister Bell.
E não há nada de especial nisso — respondeu o gorducho com uma ligeira ironia na voz. — Agora, o motivo por que o chefe mandou preparar a Ironduke para dar um pulinho a Plutão? Será que nisso há algo de especial, Mercant?
A Ironduke só viajará até Plutão? — os olhos de Mercant se estreitaram.
Reginald Bell prosseguiu imediatamente:
Parece que o senhor não tem a menor idéia do outro acontecimento, não é, marechal solar? Eu mesmo fiquei sabendo por puro acaso. Às vezes, em Terrânia, até mesmo os assuntos secretos vêm à luz do dia. Perry entrou em contato com o cérebro positrônico de Vênus para pedir as coordenadas galácticas do planeta Peregrino.
Então o chefe vai a Peregrino? — espantou-se Mercant.
Isso mesmo, Mercant. Se as coisas continuarem assim, explodirei e Perry me porá para fora. Nunca tinha mentido para mim. Mas há pouco mentiu. O que acha, Mercant?
Não acho nada, enquanto não conhecer as intenções do chefe. Imagino que tem em mente um projeto enorme. E tenho uma idéia do ponto a que pretende chegar. Deseja realizar uma surpresa para restaurar a confiança em sua pessoa, que anda bastante abalada.
Queira Deus que o senhor continue a acreditar em Papai Noel! — exclamou Bell. — Não é possível...
O quê? — perguntou Mercant.
Nada — respondeu Bell, desviando-se do assunto.
Esperava encontrar mais compreensão no chefe da Segurança Solar. Acreditava que ele poderia compartilhar sua convicção de que muita coisa não estava em ordem com Perry Rhodan. E qual era o resultado?
Mercant acreditava que o chefe estava preparando uma ação que surpreenderia todo mundo, a fim de firmar a confiança em sua pessoa.
Meu Deus! — disse num gemido.
Só posso supor que o senhor se obstina numa visão das coisas que não guarda a menor relação com a realidade, Mr. Bell — disse Mercant em tom contrariado.
Bell balançou a cabeça, num gesto de desânimo.
Pouco me importa o que o senhor queira supor, Mercant. Ninguém me convence de que Perry não está doente; está mentalmente enfermo. Quando vinha para cá, encontrei o professor Manoli. O chefe mandou chamá-lo para que ele o examinasse de novo. Mas não é isso que importa. Conheço Rhodan muito bem, e por isso tenho de notar melhor que qualquer outra pessoa como ele está modificado.
Às vezes parece ser o mesmo de antes, isso quando se trata de tomar uma decisão instantânea. Nesses momentos é a pessoa que eu conheço, mas quando ele se retrai e toma suas decisões a sós, vejo-me diante de um estranho.
Rhodan mentiu para mim. Mentiu ao dizer que tinha necessidade premente de ir a Plutão.
Alega que a visita que pretende fazer ao entreposto dos saltadores assume uma importância extraordinária.
Mercant, desde quando o chefe costuma cuidar de ninharias como esta? Qual a utilidade do Serviço de Segurança? Por que mandou preparar a Ironduke, se apenas quer ir a Plutão? Por que solicitou ao cérebro instalado em Vênus as coordenadas galácticas do planeta Peregrino? No momento não temos nada a fazer em Peregrino!”
Mr. Bell, o senhor acha que posso mandar vigiar o chefe? — objetou Mercant, que com estas palavras reconheceu que a fala de Bell não deixara de impressioná-lo.
Alguém falou em vigilância? Queremos que ele recupere a saúde. Com mais insistência que nunca, afirmo que ele está doente mas não sofre de depressões, conforme Manoli quer nos fazer acreditar. Existe outro tipo de doença dentro do chefe...
Será Thomas Cardif?
Acredito que sim. Quando esse sujeito pôs as mãos no pai em Okul, alguma coisa deve ter-se esfacelado dentro de Perry. Ele não está deprimido, não mostra nenhum abatimento. Desde o incidente de Okul, alguma coisa lhe falta. O lado humano e vivo está ausente. Mercant, não sei como exprimir-me.
Ele não lhe falou sobre a experiência que teve com o filho em Okul, Mr. Bell?
Com esta pergunta, Mercant convencia-se cada vez mais que as preocupações, que Bell sentia por Perry Rhodan, tinham sua razão de ser.
A sineta do videofone interrompeu-os:
Atenção, temos um aviso importante. A decolagem da Ironduke foi antecipada para as 18 horas e 35 minutos, tempo padrão. Repito: A decolagem da Ironduke...
Bell desligou apressadamente. De repente aquela voz rangedora o perturbava.
O senhor irá na Ironduke, Mercant?
Não recebi ordens para isso.
Também não recebi. Apesar disso estarei a bordo. John Marshall e alguns dos velhos mutantes também já estão na Ironduke.
Mercant soltou um assobio.
Mr. Bell, o senhor está assumindo um risco muito grande. Não sei qual será a reação do chefe quando descobrir que o senhor e os mutantes estão a bordo.
Um sorriso obstinado surgiu no rosto de Bell.
Mais admirado ficará ao notar que o senhor também estará a bordo, Mercant.
Mercant fitou-o intensamente, respirou fortemente e disse:
Desde o momento em que o senhor passou a acreditar que Perry Rhodan está doente, vem revelando faculdades que nunca suporia em sua pessoa, Mr. Bell. OK. Estarei a bordo.
Bell retirou-se. Não dissera a Mercant que não se sentia muito à vontade.

* * *

A nave esférica Ironduke descia sobre Plutão. Os holofotes do veículo acenderam-se a vinte mil metros de altura, iluminando a paisagem desolada e hostil à vida do último planeta solar.
Na direção verde, trinta graus. O rádio-farol do forte estelar Plutão 6 enviava seus raios à nave.
O raio vetor que orientaria o pouso da Ironduke estava posicionado. À medida que a nave descia, mais formidáveis pareciam as posições de artilharia de Plutão 6, iluminadas pela luz dos holofotes.
Os radiadores térmicos de maiores calibres, as posições de desintegradores e os canhões de impulsos foram entrando no campo de visão. Alguns quilômetros ao sul, ficavam as enormes estações de rastreamento, que mediam qualquer abalo estrutural de quinta dimensão ocorrido no espaço cósmico e eram capazes de detectar a uma distância enorme a presença de qualquer espaçonave que se aproximasse.
A enorme construção era abrigada por um potentíssimo campo energético, capaz de resistir ao bombardeio de meia dúzia de supercouraçados.
Nem mesmo durante o pouso da Ironduke, o campo energético foi desativado. Cardif-Rhodan dera ordens expressas nesse sentido. Também ordenara que a nave pousasse no pequeno porto espacial que os mercadores galácticos haviam construído.
O entreposto dos clãs unidos dos saltadores ficava na extremidade leste do porto, sob a proteção de uma cadeia de montanha coberta de gelo até as cumeadas. Era para lá que Cardif-Rhodan pretendia dirigir-se.
O objetivo da visita aos saltadores representava um mistério para todas as pessoas que se encontravam na nave. Mas não era esta a primeira vez que o chefe iniciava uma ação cujo objetivo só ele conhecia.
Apesar disso, a grande sala de comando da Ironduke parecia crepitar de tensão.
Seria porque há alguns minutos Reginald Bell aparecera de repente no recinto, acompanhado por John Marshall e Allan D. Mercant?
Até mesmo Jefe Claudrin, um terrano nascido em Epsal e um colosso robusto de pele cor de couro, passara a respirar com dificuldade quando viu entrar os três homens. No mesmo instante resolveu dizer umas boas ao oficial da eclusa, porque este não o informara sobre a presença dessas altas personalidades.
Cardif-Rhodan não deu o menor sinal de surpresa, salvo talvez um ligeiro lampejo dos olhos.
Ah... — foi a única coisa que disse e cumprimentou Bell com um gesto.
Este aproximou-se, enquanto Mercant e Marshall se mantinham num ponto mais afastado da sala de comando.
As últimas horas que passamos em Okul ainda me revoltam o estômago, Perry — disse, dirigindo-se ao amigo. — Desconfio dos ciganos estelares, aos quais você pretende fazer uma visita, tanto quanto desconfio dos antis.
É mesmo? — respondeu Cardif-Rhodan. — Mas da próxima vez quero ser avisado das precauções que você adotar. Combinado, gorducho?
Bell limitou-se a acenar levemente com a cabeça. O incidente terminou aí. Mas ninguém desconfiava das conseqüências que a surpresa produziu em Cardif, nem mesmo o telepata Marshall, que pela terceira vez se introduzia nos pensamentos do chefe.
O sósia de Rhodan só pensava em fragmentos. Desconfiava de que Marshall controlava seus pensamentos. Realmente, era o que o telepata deveria fazer. Por isso Cardif-Rhodan pensava apenas nos moldes do pai, encobrindo completamente seus impulsos pessoais.
O ponto dominante de suas reflexões era o requerimento dos mercadores galácticos. Vez por outra uma velha recordação refulgia em meio a estas reflexões, O pseudo-Rhodan pensava nas manobras escusas dos saltadores. Realizou seus cálculos sobre risco adicional que resultaria da criação de cem escritórios comerciais no interior do sistema solar.
Deixou que seus pensamentos vagassem até este ponto e teve o cuidado de não pensar no que viria depois. Por várias vezes fez surgir num lampejo a alegria que sentia ao pensar que no fim os mercadores galácticos sairiam do negócio logrados.
Enquanto isso a Ironduke, pilotada por Jefe Claudrin, desceu suavemente no pequeno porto espacial dos saltadores. As gigantescas colunas de apoio do veículo espacial esférico fizeram alguns movimentos de molejo. Depois disso a nave pousou firmemente no solo congelado de Plutão, a mais de vinte quilômetros do Forte Plutão 6.
A tensão criada com a entrada repentina de Bell, Mercant e Marshall chegou ao auge.
O homem, que era considerado como Perry Rhodan, deu uma risadinha matreira para Bell.
Vamos ver se da próxima vez você não se mostra tão bem-intencionado comigo. Para isso irei sozinho, veja bem, caro gorducho, sozinho, sem qualquer companhia, fazer uma visita ao entreposto dos saltadores. Dêem-me um traje espacial, por favor.
As mãos gigantescas do comandante epsalense seguraram firmemente a braçadeira da poltrona especialmente feita para ele. Não compreendia o que acabara de ouvir. E não era o único que não conseguia compreender a decisão que Rhodan acabara de tomar.
Sir — principiou Allan D. Mercant, mas viu-se obrigado a ficar calado, face ao gesto repentino de Rhodan.
Contrariando todas as expectativas, Bell não disse nada.
Rhodan enfiou-se num pesado traje espacial. Controlou o armamento com uma calma fenomenal. Após o primeiro encontro com os anti-mutantes, uma das peças do equipamento de qualquer traje espacial ficou sendo um revólver calibre 44, bastante antiquado, em cujos cartuchos não havia balas metálicas, e sim rolhas de plástico dotadas de tremenda força de impacto. Por enquanto essas rolhas constituíam o único meio de romper o campo defensivo individual dos sacerdotes, que adquiria uma força enorme, face às energias mentais dos mesmos.
Rhodan limitou-se a lançar um ligeiro olhar para a arma antiquada. Dedicou seu interesse principalmente às armas de radiações. Verificou os indicadores de capacidade.
Em ordem — constatou. — Bell, devo estar de volta dentro de uma hora no máximo. Qualquer mensagem de emergência poderá ser transmitida pelo minicomunicador. Obrigado — disse, quando viu que Bell pretendia acompanhá-lo. — Prefiro ir só até a eclusa. Afinal, devo mostrar-me agradecido pelo cuidado que você teve comigo, meu caro.
Talvez tivesse dito isso por brincadeira... ou por deboche.
A escotilha da sala de comando fechou-se ruidosamente atrás de Cardif-Rhodan. Bell lançou um olhar indagador para Marshall, piscou discretamente e saiu da sala. Dali a pouco Mercant e Marshall também se retiraram. Dirigiram-se diretamente ao gabinete de Bell.
Então? — perguntou este, ao vê-los entrar.
A pergunta fora dirigida a Marshall.
O telepata deu de ombros.
O chefe tem um plano maluco com os saltadores e os trezentos entrepostos comerciais que eles pretendem criar, mas infelizmente não me fez o favor de pensar nos detalhes desse plano. Só sei que espera encontrar uma coisa bem definida no escritório dos saltadores.
O quê? — perguntou Bell, muito curioso.
É justamente isso que eu não sei. Não concebeu um pensamento preciso a este respeito. Nem sequer se aborreceu quando nos viu de repente...
Como? — enquanto formulava a pergunta lacônica, Bell levantou-se de um salto. Lançou um olhar desconfiado para Marshall. — Ora, John, não me conte lorotas. Perry não se aborreceu nem um pouco com meu procedimento arbitrário? Caramba! Antigamente ficava com muita raiva quando eu procedia assim. Será que sua mente foi virada pelo avesso?
É só o que eu posso informar — respondeu John Marshall.
Nesse caso já não sei o que pensar! — disse Bell e voltou a sentar.
Mudando de assunto, voltou a dirigir-se a Marshall:
Está em contato com os outros telepatas?
Eles aguardam minhas instruções, mister Bell.
Muito bem. Deixemos passar uns trinta minutos. No momento, a torre polar da Ironduke não faz outra coisa senão observar o entreposto dos saltadores. Na minha opinião os ciganos estelares pensarão duas vezes antes de fazer qualquer coisa contra o chefe. De qualquer maneira, ele nos enganou quando resolveu sair só, e isso me deixa muito satisfeito. É uma atitude típica dele, que me faz ter esperança de vê-lo restabelecido dentro em breve. Então, Mercant, o que acha?
Nada — respondeu Mercant. — Estou esperando...

* * *
Catepan, o chefe do entreposto comercial dos saltadores em Plutão, enviara o maior carro ao local em que estava pousada a Ironduke. O veículo aguardava o administrador na pequena rampa C da espaçonave esférica.
Cardif-Rhodan desceu pela rampa, frio e destemido. Já conhecia Plutão com suas condições inóspitas. Como tenente da Frota Solar fora degredado para Plutão, onde prestara serviços, isso até que subitamente uma imensa frota inimiga — a dos druufs — aparecesse nas proximidades do sistema solar. Na oportunidade, o destino da Terra parecia selado. Mas os mercadores galácticos com suas naves cilíndricas armadas e a frota robotizada de Árcon vieram em auxílio de Rhodan.
Teve uma ligeira lembrança desses fatos, mas não se recordou de sua deserção. Desligou-se no mesmo instante. Colocou sua mente em posição de usufruir do saber acumulado por Rhodan. Não pôde deixar de sorrir.
Era um sorriso de satisfação. Os mutantes que, conforme acreditara no início, representavam o maior perigo, fracassavam diante da barreira mental do verdadeiro Rhodan, que envolvia os remanescentes da personalidade de Thomas Cardif. Constatavam sempre a presença dos impulsos mentais de Rhodan, e por isso nem desconfiavam de que estes estavam detendo os de outra pessoa.
Um jovem saltador, cujo rosto foi iluminado pelo farol do carro, cumprimentou o Administrador do Império Solar. Num impecável intercosmo pediu que tomasse lugar no veículo.
Cardif-Rhodan respondeu laconicamente ao cumprimento e acomodou-se no assento.
O carro disparou pela pista lisa. Os contornos imensos do entreposto dos saltadores tornaram-se cada vez mais nítidos sob a iluminação indireta. O carro penetrou numa eclusa que mais parecia um pavilhão. O jovem motorista abriu a porta, voltou a cumprimentar Cardif-Rhodan quando este desceu e avisou-o de que poderia descerrar o capacete espacial de plástico.
O homem que envergava o uniforme do personagem mais importante da Terra voltou a cumprimentar. Caminhou em direção ao mercador que se aproximava às pressas. Era Catepan, chefe do entreposto comercial dos saltadores em Plutão.
Pediu ao administrador que sentasse. Foi só depois de chegar aos recintos privados do patriarca que Cardif-Rhodan abriu o capacete e desligou o rádio, montado no interior do mesmo. Fê-lo de propósito, pois dessa forma interrompeu as comunicações entre ele e a Ironduke.
Catepan, o senhor já deve ter conhecimento do pedido dos mercadores galácticos, que pretendem instalar novos entrepostos na área de influência do Império Solar. Concederei a permissão, desde que por aqui não encontre motivos para objeções.
O velho mercador fitou-o com uma expressão de espanto.
Só por isso o senhor resolveu vir pessoalmente, administrador?
Isso mesmo — respondeu Cardif-Rhodan em tom indiferente, dissimulando a satisfação provocada pelas palavras do saltador.
Catepan lhe havia provado que o considerava como Rhodan, o administrador. E era só o que Cardif desejava saber.
Levantou-se. Catepan seguiu seu exemplo. Cardif-Rhodan agradeceu com um gesto.
Não me perderei nas salas e nos corredores, Catepan. Irei só. Dentro de meia hora estarei de volta.
Deixou totalmente perplexo um saltador muito experimentado. Catepan não queria conformar-se com a idéia de que o homem mais poderoso do Império Solar perdesse tempo com um simples controle. E sentia-se ainda mais incapaz de compreender que Perry Rhodan resolvesse realizar em pessoa o controle. Por fim, não conseguia enxergar qualquer relação entre esse controle e o pedido formulado por todos os clãs dos saltadores.
Cardif-Rhodan saiu do setor residencial e, passando por um corredor profusamente iluminado, atingiu o primeiro depósito. Olhou em torno. Quase não se interessava pelas mercadorias.
Um saltador estava parado junto à porta que dava para outro corredor. Parecia esperar pelo administrador. Mas quando este se aproximou, o saltador deu-lhe as costas e afastou-se.
Cardif lembrou-se do que lhe dissera Banavol, o arcônida. Só aqui, no entreposto comercial dos saltadores, poderia protestar contra a exigência dos antis, que queriam que ele fosse buscar vinte ativadores celulares em Peregrino.
Será o homem, que acabou de afastar-se pelo corredor, um agente dos sacerdotes de Baalol?”, pensou.
Cardif quis ter certeza.
Ao chegar à porta, virou a cabeça. O pavilhão em cuja extremidade se encontrava media cem metros de comprimento e mais de cinqüenta de largura.
Resolveu verificar se estava sendo seguido. Satisfeito, acenou com a cabeça. Até mesmo nessa área extraterritorial o desejo do administrador do Império Solar representava uma ordem.
Cardif sentiu-se inteiramente dominado pela embriaguez do poder; a sensação indescritível de quem tem a impressão de que basta mandar para que todos os desejos sejam cumpridos encheu sua mente.
Mas a lembrança da exigência de Rhabol, sacerdote supremo do culto de Baalol, desabou sobre ele, como raio destruidor.
Vinte ativadores celulares com regulagem individual automática!”, refletiu.
A miragem desmanchou-se; a realidade nua e crua surgiu diante de seus olhos.
Thomas Cardif era uma marionete, mesmo oculta sob a máscara do pai.
Fechou os olhos e respirou profundamente.
Aqui, no entreposto dos mercadores galácticos em Plutão, daria início à execução do plano que levaria à destruição dos sacerdotes de Baalol.
Thomas Cardif abriu a porta que dava para o corredor. Este seguia em ângulo reto com o pavilhão. A parte dianteira fora instalada para servir de abrigo em caso de catástrofe.
Possuía eclusas duplas e era de construção muito resistente.
Atravessou a segunda eclusa e chegou ao setor em que ficavam os escritórios. Num relance Cardif-Rhodan constatou que todos eles ficavam do lado esquerdo, dando frente para o porto espacial dos mercadores.
Cardif caminhou tranquilamente pelo tapete à prova de som.
Atingiu uma porta aberta, que lhe permitiu ver o interior do recinto.
Um homem estava de pé junto à janela. Virou-se e fitou prolongadamente a pessoa que se aproximava. Com um ligeiro aceno de cabeça convidou Cardif a entrar.
Cardif-Rhodan avançou. Deu um ligeiro empurrão à porta, que se fechou silenciosamente.
O homem junto à janela tinha o aspecto de um mercador galáctico. A barba aparada à moda dos saltadores e os trajes típicos reforçavam tal suposição. Inclinou-se ligeiramente e disse num intercosmo impecável:
Fut-Gii incumbiu-me de transmitir recomendações ao Administrador do Império Solar.
Obrigado — respondeu Cardif laconicamente, revelando uma elevada dose de autodomínio, enquanto os olhos exprimiam indiferença. — Posso sentar?
Não aguardou a resposta; acomodou-se numa poltrona.
Thomas Cardif lançou os olhos para além do homem que se encontrava na sala. Viu a superfície inóspita de Plutão. Do lugar em que se achava, via parte do porto espacial dos mercadores. Na extremidade oposta do campo de pouso destacava-se a enorme esfera formada pela Ironduke, que estava com os holofotes ligados.
O olhar de tédio de Cardif retornou para o emissário de Baalol. Sem dúvida o homem que se encontrava à sua frente tinha essa qualidade. A menção do nome Fut-Gii constituía prova disso.
Então? — perguntou Cardif em tom irônico.
O agente de Baalol manteve-se em silêncio. Encostado ao peitoril da janela, com os braços cruzados sobre o peito, fitava o homem que alegava ser Perry Rhodan.
Cardif começou a sentir-se contrariado. Os modos arrogantes do enviado de Baalol começaram a irritá-lo.
Não posso e não quero arranjar as vinte maravilhas — disse.
Você fará exatamente isso — respondeu o outro, mostrando-se impassível.
Se não fizer, Cardif, os seus dias de poder e de vida estarão contados. — Deu as costas a Rhodan e, contemplando a espaçonave esférica, disse: — Que prisão maravilhosa você terá. A Ironduke levá-lo-á a Terrânia para ser julgado.
Você fala demais — disse Cardif em tom Irônico. — O que esperam conseguir com ameaças?
Nada — respondeu o outro, que voltara a encará-lo. — Nada, a não ser vinte ativadores celulares.
Quer dizer que é uma chantagem?
Os servos de Baalol estão acima de qualquer acusação imunda — respondeu o agente.
Há cerca de sessenta anos os saltadores quiseram transformar-me numa marionete. Não se saíram bem. Aliás, quem é você?
A-Thol, enviado pessoal do supremo sacerdote Rhabol. Deseja mais alguma informação, Cardif?
A exigência de Rhabol é inexeqüível, A-Thol! — respondeu Cardif em tom áspero.
Nesse caso não teremos nenhuma alternativa. No planeta Lepso, você jurou fidelidade e gratidão eterna ao culto de Baalol. Hoje Baalol toma suas palavras ao pé da letra. Dentro de poucos dias, a Galáxia saberá livrar-se do inimigo público número um. Bastará uma insinuação nossa, habilmente formulada, para arrancar-lhe a máscara. Escolha logo, Cardif. Você terá que se decidir antes de sair desta sala.
Muito frio, Cardif perguntou como quem se sente dono da situação:
O que o sacerdote me dará em troca, se conseguir fornecer-lhe o que pede?
Pela primeira vez notou-se uma alteração no rosto do anti. Fitou Cardif com um sorriso de desprezo.
O quê?
Por acaso o olhar de Cardif desviou-se do anti. Olhou para fora, para a área de penumbra, e descobriu alguma coisa que fez ruir imediatamente parte de seu plano.
Não perdeu tempo; adaptou-se logo à nova situação.
Não deixou que seu interlocutor percebesse o que havia descoberto.

* * *

O silêncio passara a reinar no camarote de Bell. Allan D. Mercant não participara da palestra entre Reginald Bell e John Marshall; apenas fizera uma ligeira observação. Os três homens esperavam que Perry Rhodan se comunicasse pelo rádio do capacete. Sentiram-se contrariados ao perceber que, logo após o cumprimento do patriarca Catepan, Rhodan o desligara.
Seguiu-se um período de silêncio e de espera.
Quem chamou de repente pelo intercomunicador de bordo não foi Rhodan, mas o mutante Fellmer Lloyd, cujo rosto apareceu na tela.
Sir, vejo o modelo de vibrações cerebrais de um anti.
Bell, Mercant e Marshall só ouviram a palavra anti.
Destacamento de robôs número um, ficar de prontidão! — gritou Bell para dentro do microfone especial.
Imediatamente transferiu a ligação. As informações de Fellmer Lloyd passaram a ser ouvidas em todos os recintos da Ironduke.
Sir — voltou a soar a voz de Lloyd depois da ligeira interrupção. — Localizei as vibrações cerebrais no escritório dos saltadores. As características do modelo são as seguintes: ódio, desprezo, intenções assassinas. Infelizmente a localização é incompleta, O anti deve ter-se protegido num campo defensivo reforçado por suas energias mentais. Localização de vibrações cerebrais...
Obrigado! — interrompeu Bell. — Ponha em ação todos os telepatas, Lloyd. Jefe Claudrin, o senhor ouviu? — essa pergunta foi dirigida ao comandante da Ironduke.
Ouvi! — disse a voz potente saída do alto-falante.
OK, Claudrin. Se estes ciganos estelares conseguirem levar uma espaçonave ao espaço, por menor que seja, e desaparecer na mesma...
Bell viu-se interrompido.
Já sei. Nesse caso irei para o inferno.
Bell, que já estava saindo do camarote, ouviu a risadinha de Mercant. Apesar da gravidade da situação não pôde deixar de sorrir da pronta resposta de Claudrin.
Três homens correram em direção ao elevador antigravitacional mais próximo. Enquanto corria, Bell ligou seu minicomunicador.
Destacamento de robôs número um — gritou para dentro do microfone. Aguardem até que estejamos na eclusa. Fiquem de prontidão.
Entraram no poço do elevador. Desta vez tiveram a impressão de que demoravam demais para chegar ao destino. Ainda no elevador, Bell voltou a entrar em contato com Fellmer Lloyd, o localizador.
Ele não havia constatado nada de novo.
O antimutante localizado no entreposto comercial dos saltadores devia manter-se passivo sob o campo defensivo reforçado por suas energias individuais. Seus impulsos mentais já não chegavam aos mutantes.
Antes que chegassem à última eclusa, houve uma pequena demora. Bell, Mercant e Marshall tiveram de colocar trajes espaciais. Estavam com muita pressa, mas naquela altura não precipitavam nada.
Controle dos armamentos! — ordenou Bell, que foi o primeiro a enfiar-se em seu traje.
Mercant e Marshall anunciaram que tudo estava em ordem.
Entraram apressadamente na eclusa.
Correram lado a lado pela rampa. Ao pé da mesma estava um planador, no qual havia vinte robôs de guerra e um piloto.
Quando se tratava de travar um combate, um robô desses equivalia a cem homens muito bem treinados da Frota Solar.
O planador levantou vôo. Sua aceleração era tremenda. Bell estava sentado ao lado do piloto.
Puxou o microfone para junto de si, mas por enquanto não falou nada para dentro do mesmo.
Viu que o planador corria vertiginosamente em direção ao entreposto comercial dos saltadores, a dez metros de altura.
Olhou para o instrumento que indicava a distância que os separava do campo energético que protegia o escritório dos saltadores.
Faltavam dois quilômetros.
Bell continuava calado.
Mais um quilômetro! Finalmente transmitiu sua mensagem:
Chamo Catepan, o saltador. Aqui fala Reginald Bell, representante de Rhodan. Abra imediatamente o campo defensivo. Vamos logo, senão a Ironduke atirará.
Dali a três segundos o indicador de certo instrumento caiu para a posição zero.
Não havia mais nada que pudesse ser detectado pelo mesmo. Os campos defensivos que envolviam o entreposto dos saltadores em Plutão haviam sido desativados.
O planador, ocupado por vinte robôs e três homens, pousou junto à eclusa de entrada do escritório. As máquinas de guerra desembarcaram instantaneamente, com a precisão de uma manobra.
Três robôs subiram. Usaram seus aparelhos antigravitacionais para manter-se a cinqüenta metros de altura e dali controlaram praticamente todos os pavilhões e edifícios.
Os outros correram em direção à eclusa, acompanhados por três homens. A mesma abriu-se sem que Bell pedisse. O patriarca dos saltadores veio correndo pelo recinto que se estendia à frente deles. Parecia muito nervoso. Não usava traje espacial.
Bell e seus companheiros viram nisso um sinal de que podiam abrir seus capacetes.
Onde está o administrador? — berrou Bell para o chefe dos saltadores.
O nervosismo de Catepan transformou-se em espanto.
Perry Rhodan? Está em um dos meus escritórios, mas...
Onde ficam os escritórios? — interrompeu-o Bell.
Totalmente confuso, Catepan apontou para a outra extremidade do depósito muito comprido.
Ali atrás, à esquerda? — perguntou Bell para certificar-se.
O patriarca dos saltadores fez que sim.
O gorducho saiu correndo. Ao que parecia, o pesado traje espacial não representava nenhum obstáculo para ele. Mas mal os robôs perceberam seu objetivo, sete deles se adiantaram e chegaram à porta quando havia percorrido apenas metade do caminho.
Apesar da preocupação que sentia por Rhodan, aquele homem baixo e gordo não se esqueceu de manter informados todos a bordo da Ironduke. Gritou pelo rádio embutido em seu traje espacial:
Claudrin, estamos no escritório. Dirigimo-nos ao lugar em que se encontra o chefe. Os robôs vão à nossa frente. Desligo.
John Marshall corria a seu lado. Allan D. Mercant encontrava-se a uns metros atrás deles, quando atingiram a porta que dava para o corredor, pela qual já haviam passado sete robôs.
Mal haviam dado os primeiros passos no corredor, Bell, num gesto impulsivo, segurou o braço de Marshall e gritou:
O senhor ouviu? Não foi um tiro?
John Marshall fez que sim.

* * *

O anti não desconfiou de nada quando viu um objeto desprender-se da Ironduke e deslocar-se a cerca de dez metros de altura em direção ao escritório dos saltadores.
Mas Cardif-Rhodan compreendeu de que se tratava, assim que observou o fenômeno.
Por um instante sentiu-se dominado pelo pavor. Lembrou-se de que Bell, Mercant e Marshall o haviam acompanhado para Plutão sem que ninguém tivesse pedido. Naquele instante Cardif deu-se conta de que além desses homens devia haver um grupo de mutantes a bordo da Ironduke.
Foi idéia de Reginald Bell!”, pensou.
O pavor nasceu da suposição de que os telepatas pudessem ter identificado seus impulsos cerebrais com a pessoa de Thomas Cardif. Mas logo se tranqüilizou ao lembrar-se de que a saída dos seus impulsos estava sendo impedida. De qualquer maneira, precisava concentrar-se ao máximo para poder continuar a pensar “nos moldes” de seu pai.
Nem atrevia-se a pensar nos seus planos.
Encontrava-se numa situação de extremo perigo. Nunca estivera tão próximo de ser desmascarado. Para dissipar qualquer suspeita dos telepatas, obrigou-se a, dentro do esquema mental do pai, criar uma mentira altamente refinada.
Em pensamento fez de conta que naquele momento descobrira que a pessoa à sua frente era um anti.
Thomas Cardif nem desconfiava de que estava realizando um trabalho extraordinário, que seria digno de melhor causa.
Dirigiu-se ao anti, explicando-lhe que risco assumira ao penetrar no coração do Império Solar. Não se falou mais nos ativadores celulares, O nome de Rhabol não foi pronunciado uma única vez.
O anti nem percebeu que de repente Thomas Cardif estava conduzindo a palestra, e também não notou que a conduzia a um plano indiferente. Muito menos o anti desconfiava de que a tropa de choque, desembarcada do couraçado linear Ironduke, já se encontrava no interior do entreposto dos saltadores.
Apesar disso, alguma coisa em Cardif o assustou. Por uma questão de instinto preveniu o mesmo, que se aproximava lentamente:
Não chegue muito perto, Cardif! Liguei meu campo defensivo assim que o vi à minha frente. Fique onde está! Nem um passo a mais!
Naquele instante, o ruído forte dos passos do primeiro robô de guerra fez-se ouvir no corredor.
O que é isso?
O anti ainda conseguiu formular esta pergunta. Depois cometeu um erro: tirou os olhos de cima de Cardif e olhou para a porta.

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