Autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
DANIEL
BRAGA
Revisão
ARLINDO_SAN
Um espaço
mental onde residem
duas
personalidades...
Tudo
começou porque os órgãos de vigilância do Império Solar e do
reino estelar arcônida não dispensaram a necessária atenção ás
atividades dos antis.
Foi por
isso que os servos de Baalol puderam iniciar a execução de seu
infame plano sem que ninguém os impedisse. E esse plano previa a
disseminação do liquitivo, um perigoso entorpecente, em todos os
mundos habitados da Galáxia.
Acontece
que, no fundo, os guardiões da ordem interestelar não têm culpa de
nada. Não se pode dizer que tenham negligenciado na execução de
sua tarefa de vigilância. Afinal, cientistas de renome haviam
manifestado a opinião de que o liquitivo, o licor-tóxico, era um
excelente meio de retardar o processo natural de envelhecimento do
organismo humano e conferia novas forças aos que o tomavam.
O
engano lamentável já foi reconhecido.
Empreendem-se
todos os esforços possíveis para curar os viciados.
Mas há
um detalhe que até então ninguém percebeu, nem mesmo os mutantes.
E esse detalhe poderá produzir efeitos profundos em todos os mundos
habitados da Via Láctea. Perry Rhodan encontra-se preso, e O Homem
de Duas Caras é quem está dirigindo os destinos do Império
Solar...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Thomas
Cardif
— Um
inimigo público que está no governo.
Reginald
Bell
e Allan
D.
Mercant
— Que
ficam espantados com as atitudes do administrador.
A-Thol
— Emissário
dos antis.
Brazo
Alkher
e Stana
Nolinow
— Tenentes
da Ironduke.
Ele
ou Aquilo
— O
Ser do planeta Peregrino que resolve divertir-se.
Rhabol
— Alto
sacerdote de Baalol.
1
Reginald
Bell guardou o relatório e balançou a cabeça. Parecia pensativo.
O
relatório trazia a assinatura de Perry Rhodan.
Era um
dentre muitos que Bell lera naquele dia. Todos os documentos haviam
saído do gabinete de Rhodan e parado em sua escrivaninha. Em alguns
deles lia-se uma nota manuscrita: aprovado.
Inclusive
o relatório que lhe causava dor de cabeça:
Investigações
sobre o pedido dos mercadores galácticos, de instalar mais trezentos
entrepostos comerciais na área submetida à soberania do Império
Solar.
Todos os
peritos que cooperaram na elaboração do relatório haviam chegado à
conclusão de que o pedido dos saltadores devia ser indeferido.
Acontece que Rhodan lhe havia aposto uma nota manuscrita: A
instalação dos entrepostos comerciais deve ser permitida. Rhodan.
Bell
respirava com dificuldade.
— Perry,
o que há com você desde que voltamos do planeta Okul?
A irrupção
do gênio de Bell revestiu-se de uma violência considerável.
Praguejava furiosamente, dando vazão ao nervosismo. Depois de algum
tempo bateu na tecla do aparelho de intercomunicação, incrustada no
pequeno painel. O rosto de Allan D. Mercant apareceu na tela. O chefe
do Serviço de Segurança viu o rosto furioso de Reginald Bell em seu
aparelho. Esse quadro dispensava comentários. Mercant aguardou para
descobrir o que Bell tinha a lhe dizer. Não podia ser nada
agradável.
Dois meses
depois que haviam regressado de Okul, trazendo um Rhodan ferido e
afetado por um grave abalo psíquico, os risos alegres e as piadas
não mais se fizeram ouvir.
— Mercant
— esbravejou Bell em tom contrariado. — Rhodan acaba de me
entregar o resultado do exame pericial. O senhor já está informado.
Trata-se de um pedido dos ciganos estelares, que querem espalhar-se
cada vez mais entre nós. Rhodan lançou uma nota manuscrita no
respectivo requerimento: “A
instalação dos entrepostos comerciais deve ser permitida.”
O que acha disso?
Mercant
respondeu com a maior tranqüilidade:
— Se as
coisas continuarem assim, infelizmente me verei obrigado a decuplicar
o quadro de pessoal da Segurança Solar.
— Diga
Isso a ele, Mercant! — exclamou Bell.
Mercant
balançou a cabeça.
— O
chefe transformou-se num homem de decisões solitárias, Bell.
— Como
vai acabar isso, Mercant? Perry me parece cada vez mais estranho. Até
parece que também andou tomando liquitivo. Ora, não sei não...
Perdeu até o senso de humor. Todos o evitam, inclusive Gucky.
— Talvez
o erro seja justamente este. Talvez deixemos que o chefe perceba que
se transformou num estranho entre nós. Pode ser que nosso
comportamento o leve a isolar-se cada vez mais.
Bell
interrompeu o marechal solar.
— Que
diabo, Mercant. Se estiver doente, que entre de férias, mas não nos
traga os ciganos estelares às legiões.
— Afinal,
o senhor é o melhor amigo dele, Mr. Bell — ponderou Mercant. —
Seu dever é chamar a atenção do chefe.
— Nem
penso nisso! — gritou Bell a plenos pulmões. — Já tive de ouvir
dos médicos duas advertências muito sérias, apenas porque ponderei
certas coisas diante de Perry. Os médicos vivem dizendo que devo ter
a devida consideração pela sua terapia de choque e não perturbar a
reconvalescença. Mas quando toma uma decisão errada, alguém deve
dizer-lhe alguma coisa. Ao que parece, sou o menos indicado para
isso. Mercant, o senhor é mais diplomata que eu. Peço-lhe
encarecidamente que passe por aqui, pegue o relatório dos peritos e
vá falar com Rhodan. Tenho esperança de que ele o ouça e não
permita que a invasão dos saltadores se transforme em realidade.
Notou que
Mercant hesitava; não insistiu. Allan D. Mercant não deixaria que
ninguém o influenciasse.
— Está
bem — disse depois de algum tempo. — Estou disposto a tentar.
Aguarde-me dentro de dez minutos, Mr. Bell.
— Perfeitamente.
Esta
palavra foi proferida num suspiro.
Bell
desligou. As preocupações por Perry Rhodan não o abandonavam.
O desastre
começara com a decisão de Rhodan, que resolvera em Okul
defrontar-se a sós com seu filho Thomas Cardif.
Voltara
transformado e psiquicamente arrasado. Levaram-no à Terra numa
viagem-relâmpago, a fim de confiá-lo o quanto antes aos cuidados
dos médicos.
As maiores
sumidades acorreram ao leito de Rhodan. Os diagnósticos apresentavam
uma espantosa coincidência. E a junta médica logo chegou a acordo
quanto ao tratamento mais adequado ao estado de Rhodan. Aplicaram o
processo de choque de Thmasson. Tratava-se de uma terapia criada em
conjunto por médicos terranos e aras, que possibilitava a
neutralização de depressões psíquicas profundas, fazendo com que
depois do tratamento estas parecessem um sonho ao enfermo.
Também no
caso de Rhodan, os resultados do tratamento foram admiráveis. Três
dias depois do início da aplicação do processo de Thmasson, o
boletim médico já informava:
Perry
Rhodan, Administrador do Império Solar, está a caminho da cura. Não
existe mais nenhum perigo iminente. Daqui em diante não serão
emitidos outros boletins.
No
interior do império estelar terrano, a doença de Rhodan só causava
preocupações em setores isolados. O vício do liquitivo e a fúria
de milhões de viciados prendia todas as atenções.
Enquanto o
estado-maior de Terrânia ainda receava pela saúde mental de Rhodan,
grandes quantidades de liquitivo chegaram ao Império Solar. Foram
suficientes para transformar os homens enfurecidos em pessoas
aparentemente normais. Além disso, na área de interesses do Império
Solar estavam sendo realizados esforços gigantescos para serem
construídas em poucas semanas as fábricas que permitissem a
produção de quantidades bastantes do antídoto, o alitivo.
Muito
tempo depois de Rhodan ter obtido alta da clínica de Terrânia,
ficou-se sabendo que foi graças a ele que os viciados puderam ser
curados da dependência da droga.
Em toda a
história do Império Solar, a estrela da popularidade de Rhodan não
brilhara tanto como naquelas semanas.
Nunca um
homem foi condenado tão intensamente como Thomas Cardif. Tanto no
Império de Árcon como no sistema solar, todos tomaram conhecimento
do papel desempenhado por esse homem. Era procurado em toda parte.
Mas sempre
que se seguiam as pistas que deveriam conduzir a Cardif, avançava-se
no vazio.
Ao que
parecia, Thomas Cardif mantinha-se escondido na selva das estrelas,
ou seja, nas regiões inexploradas da Galáxia.
Ninguém
conseguia aproximar-se da verdade.
Não havia
ninguém que fosse capaz de imaginar que esse homem, procurado por
milhões de criaturas, estava em Terrânia, onde ocupara o lugar de
Perry Rhodan.
Ninguém
seria capaz de imaginar que Perry Rhodan fora seqüestrado e se
encontrava nas garras dos antis.
Mas o
homem que dizia ser Perry Rhodan percebia com uma nitidez cada vez
maior que se metera num jogo perigoso. Os mutantes, que no inicio lhe
inspiraram tamanhos receios, não representavam uma ameaça tão
grande. As funções duplicadas de seu cérebro, que lhe
possibilitava ativar o modelo de vibrações cerebrais de Rhodan
sempre que algum telepata ou localizador do Exército de Mutantes se
encontrasse nas proximidades, o identificavam como o verdadeiro
Rhodan, constantemente. Face a isso não poderia surgir a menor
suspeita de que realmente era Thomas Cardif.
O perigo
da descoberta vinha de uma direção totalmente diversa. Aquele
homem, que assimilara a maior parte do saber de Rhodan, não possuía
o elevado grau de intuição que fizera com que seu pai sempre se
destacasse em meio às massas.
Quando
conversava com Cardif-Rhodan sobre os trabalhos de aperfeiçoamento
do sistema de propulsão linear, o professor Kalup foi o primeiro a
desconfiar.
— Sir —
interrompera-o Kalup, perplexo. — Como se explica que o senhor
manifeste uma opinião como essa?
Para sair
do aperto, Cardif-Rhodan não teve outra alternativa senão recorrer
à desculpa de que ainda sofria os efeitos do tratamento de choque de
Thmasson.
A partir
dali a idéia do choque de Thmasson andou vagando por Terrânia.
Rhodan aparecia cada vez menos na companhia dos cientistas,
engenheiros e técnicos. Desde seu regresso do planeta Okul nunca
mais apresentara uma idéia pioneira, que servisse de impulso para
levar avante um projeto que tivesse entrado em estado de estagnação.
Todos
viviam dizendo:
— O
choque de Thmasson roubou ao chefe a sensibilidade pelos problemas
técnicos.
Cardif
soubera tirar proveito dessa idéia.
Com o
maior descaramento apresentara-se aos médicos, relatara a palestra
mantida com o professor Kalup e fizera questão de ressaltar seu
fracasso.
— Será
que o choque de Thmasson me privou de parte das minhas faculdades
mentais?
Os médicos
não puderam dizer nem sim, nem não.
Satisfeito
no seu íntimo, Cardif-Rhodan voltara a deixá-los a sós. Dali em
diante enfrentava os perigos desse tipo com a alegação de ainda se
encontrar sob os efeitos da terapia de choque.
Face ao
público não havia sofrido qualquer modificação. Cardif era muito
parecido com Rhodan, não só no aspecto exterior, mas também sob
muitos ângulos mentais. Além disso, podia tirar proveito do saber
que lhe fora transferido de Rhodan. Seus talentos permitiram-lhe
tirar tamanho proveito do mesmo, que muitas vezes até os amigos mais
Íntimos de Rhodan tinham a impressão de que o administrador voltara
aos seus bons tempos.
Quando se
via a sós — e a cada semana que passava enclausurava-se cada vez
mais — sentia-se fustigado pela idéia terrível de que não
passava de uma marionete nas mãos dos antis.
Os
sacerdotes tinham em seu poder o verdadeiro Perry Rhodan, que poderia
ser usado como trunfo contra ele. Sempre que Cardif não quisesse
dançar de acordo com a música dos antis, estes poderiam usar Rhodan
para exercer pressão.
Até mesmo
de noite mal conseguia dormir.
Procurou
desesperadamente um caminho que lhe permitisse libertar-se da
dependência dos sacerdotes do culto de Baalol. Enquanto desempenhava
o papel de Rhodan, sentia-se dominado cada vez mais pela embriaguez
do poder, e esta sensação fez minguar cada vez mais o ódio que
antes sentira pelo pai.
No
entanto, não deixou de notar esse perigo. Lutou contra a embriaguez
do poder com o desespero de um viciado em drogas. Não devia deixar
que a mesma o dominasse, pois desde o primeiro instante dera-se conta
de que sempre teria de agir exclusivamente como Thomas Cardif, nunca
como Perry Rhodan.
A
transferência realizada em Okul fora um êxito apenas parcial. Em
sua opinião, a causa disso fora o tempo reduzido de que dispunham.
Não sabia que a causa era ele mesmo. O ego de Thomas Cardif era
totalmente incapaz de aceitar a subordinação numa situação de
emergência como aquela.
Ouviu
alguém bater à porta.
— Pois
não! — gritou em tom de espanto.
Fora
arrancado violentamente de um estado de profunda reflexão e trazido
de volta à realidade.
No momento
em que olhou para a porta já havia conseguido controlar-se.
— É o
senhor, Mercant? — perguntou ao ver Allan D. Mercant entrar. —
Não me lembro de ter registrado em minha agenda uma palestra com o
senhor.
Antigamente
Perry Rhodan também costumava usar vez por outra esse tom áspero,
mas somente quando havia algum motivo para isso. Depois de seu
regresso de Okul esse tom passou a predominar.
O marechal
solar não se sobressaltou. Como de costume, sentou-se à esquerda da
escrivaninha de Rhodan.
— Sir —
principiou, colocando à sua frente o relatório dos peritos. —
Encontrei este parecer em poder de mister Bell. Peço licença para
ponderar que o quadro de pessoal da Segurança Solar terá de ser
aumentado consideravelmente, caso mais trezentos entrepostos dos
saltadores sejam abertos ao lado dos já existentes nos mundos
coloniais do império.
Cardif-Rhodan
fitou Mercant com a maior tranqüilidade. Os traços mareantes de seu
rosto não revelavam os pensamentos que lhe enchiam o cérebro.
Naquele
momento Thomas Cardif pensava nos antis e desejava que os sacerdotes
fossem para o inferno. Fora a pedido deles que atendera à
solicitação dos mercadores galácticos.
Fora
vítima de sua primeira chantagem. Há quatro dias lhe haviam enviado
um aviso inconfundível, por intermédio de uma delegação de
mercadores. Estes se veriam obrigados a tirar as necessárias
conseqüências, caso o pedido de licença para a instalação de
novos entrepostos comerciais tivesse decisão desfavorável.
O
patriarca dos saltadores que lhe transmitiu a notícia não tinha a
menor idéia do que realmente estava dizendo ao administrador. Mas
Cardif-Rhodan entendeu as cordiais lembranças. O nome Fut-O1 dizia
tudo.
Fut-O1
mandara lembranças. Acontece que Fut-O1 fora morto há quatro anos
pelos antis, isso porque esse mercador galáctico não se mostrara
disposto a colocar-se a serviço dos sacerdotes de Baalol.
Agora
Mercant estava sentado à sua frente e tentava convencê-lo de que
deveria revogar a permissão que acabara de conceder.
— Mais
alguma coisa, Mercant? — perguntou com a voz fria.
O marechal
solar parecia espantado. Seu olhar envolveu o homem que, segundo
acreditava, era seu chefe.
— Si-sir
— gaguejou Mercant um tanto perturbado — o aumento do número dos
entrepostos comerciais dos saltadores em mais trezentos constitui um
assunto de importância vital. Sir, não estaremos em condições de
vigiar os escritórios comerciais dos saltadores situados no Império
Solar, conforme seria necessário à nossa segurança. Abriremos as
portas a uma série de cavalos de Tróia.
— Deixe
isso por minha conta, Mercant! Deferi o pedido. Será que isso não
basta?
No seu
íntimo, Thomas Cardif sentia-se aflito. Compreendia o ponto de vista
do chefe da Segurança Solar. Também percebia o que havia atrás do
pedido dos saltadores. Tratava-se de uma conquista sorrateira do
Império Solar pelos mercadores galácticos, e comandando estes,
estavam os sacerdotes de Baalol.
O rosto de
Mercant transformou-se numa máscara. Seus lábios estreitaram-se. A
respiração era entrecortada. Lentamente, quase a contragosto,
voltou a dobrar o relatório dos peritos, alisou-o e voltou a
guardá-lo na pasta.
Cumprimentou
o chefe com um gesto.
Não disse
uma palavra. Levantou-se e saiu.
Cardif
seguiu-o com os olhos. Assim que a porta se fechou atrás de Mercant,
respirou ruidosamente. Possuído de uma raiva impotente, cerrou os
punhos.
— Malditos
antis! — disse, rangendo os dentes.
Estremeceu
ligeiramente quando a tela do videofone se iluminou a seu lado.
Reginald
Bell estava chamando. Ainda não poderia saber que a visita de
Mercant não fora bem-sucedida.
— Perry
— disse. — A recepção acaba de avisar que você está disposto
a dialogar com um arcônida de nome Banavol. Será que desta vez
posso saber o que esse homem quer de nós?
Cardif
aborrecia-se constantemente porque a curiosidade de Reginald Bell
fazia com que se intrometesse nos assuntos mais íntimos. Por várias
vezes procurara pôr paradeiro a isso, mas todas as tentativas
fracassaram diante da obstinação de Bell. Este não se abalou e
conseguiu dar esta resposta diante da enérgica repreensão de
Cardif-Rhodan:
— Perry,
enquanto você não estiver cem por cento em ordem, continuarei a
tomar conta de você. Afinal, devo-me este favor, e um dia você
saberá agradecer. Que diabo! O choque de Thmasson transformou-o num
estranho!
Thomas
Cardif encontrou uma resposta plausível.
— A
visita de Banavol está ligada a Cardif, gorducho. Está satisfeito?
Bell não
estava nem um pouco satisfeito. Conhecia a mentalidade dos arcônidas.
Em sua opinião eram as criaturas mais indolentes da Galáxia. E Bell
não deixou de manifestar tal conceito.
— Por
que justamente um arcônida será capaz de ajudar-nos numa situação
que a Segurança Solar não consegue resolver? Bem, se você acha que
deve perder seu tempo com isso, fique à vontade. Realmente quer
recebê-lo, Perry?
Cardif
esforçou-se para mostrar uma disposição jovial, embora a
obstinação de Bell o deixasse zangado:
— Quero,
sim, gorducho. Ainda bem que você me deu sua bênção. Mais alguma
coisa?
Viu Bell
atirar a cabeça para trás.
— Sim,
Perry. Quero fazer-lhe um pedido todo especial. Procure não dizer
constantemente “mais
alguma coisa?”.
Antigamente você proferia esta frase no máximo dez vezes por mês,
ao passo que hoje a ouvimos pelo menos dez vezes por dia. OK, meu
velho?
— Está
certo, seu tomador de conta. Obrigado pela indicação — respondeu
Cardif, sorrindo para a tela.
Reginald
Bell sorriu de volta e desligou.
“Perry
vai-se restabelecendo aos poucos”,
pensou. “Ao
menos consegue rir vez por outra.”
Mercant
entrou. Não havia necessidade de formular qualquer pergunta. O rosto
do marechal solar estava rígido. Atirou a pasta com o relatório dos
peritos sobre a escrivaninha.
— A
invasão vai começar!
— Como?
— perguntou Bell.
— Isso
mesmo — disse Mercant em tom de cansaço.
— Quais
são os motivos que o chefe lhe deu, Mercant?
— Será
que ultimamente o chefe costuma dar motivos? — perguntou Allan. —
O que acontecerá, Bell?
— De
quanto tempo precisa para colocar mais dois mil agentes na Segurança
Solar?
Mercant
fez um gesto de desespero com os braços.
— O quê?
Nem sei como arranjar cem colaboradores competentes, quanto mais dois
mil, O serviço da Segurança Solar também tem de ser aprendido, Mr.
Bell. Quero dizer-lhe desde logo, para evitar futuros mal-entendidos
entre nós dois, que a Segurança Solar não mais estará em
condições de cumprir sua tarefa, se além dos entrepostos
comerciais que os saltadores já possuem forem criados mais
trezentos. Antes que isso aconteça, eu me aposentarei.
Desta vez
Bell conseguiu dominar-se.
— Mercant,
sei que estou assumindo um risco tremendo. Você é a única pessoa à
qual conto, em particular, o que pretendo fazer. Introduzirei uma
modificação no pedido dos ciganos estelares, no sentido de que no
Império Solar só poderão ser criados mais cem entrepostos
comerciais dos saltadores por ano. Se for assim, ainda se verá
obrigado a pedir aposentadoria?
— Se o
senhor conseguisse isso, mister Bell... — os olhos de Mercant
iluminaram-se, mas o brilho dos mesmos não durou muito. — Mister
Bell, quando o chefe descobrir, ele derrubará todo o esquema.
— Estou
disposto a assumir o risco, Mercant. Aliás, você sabe quem está
falando com o chefe neste momento? Um arcônida, que veio por causa
de um assunto ligado a Thomas Cardif.
— Conhece
o nome dele? — limitou-se Mercant a perguntar, sem se mostrar
surpreso.
— Banavol.
— Conheço.
É filho de pai e mãe arcônidas. Muito vivo e inteligente; é um
negociante muito sagaz. Há vários anos seu escritório colabora
conosco.
— Com
quem? Com a Segurança Solar?
— Isso
mesmo. Banavol criou um centro de consulta de problemas econômicos.
Trata-se de um dos raros centros de espionagem, situado no Império
de Árcon, que serve para alguma coisa. Então Banavol foi falar com
o chefe, por causa de Cardif. Aliás, também neste ponto houve uma
modificação radical com o chefe. Com uma obstinação que antes não
costumava demonstrar esforça-se para encontrar o filho. Não sei se
devo ficar satisfeito com essa modificação ou não.
— Bem,
no momento temos outras preocupações.
Nem
desconfiavam das preocupações que afligiam o homem que acreditavam
ser Perry Rhodan.
*
* *
Banavol,
que pelo aspecto exterior era um arcônida típico, estava sentado à
frente de Cardif-Rhodan. Aquele homem de cerca de trinta anos não
procurou dissimular sua arrogância tipicamente arcônida. Para ele o
Administrador do Império Solar ainda era um ser primitivo.
O arcônida
foi diretamente ao assunto.
— Não
precisamos conversar sobre Thomas Cardif, terrano. Posso falar à
vontade? Quero dizer: Posso falar sem que ninguém me ouça?
Cardif
encontrava-se em estado de alarma. As palavras insolentes que Banavol
proferira a título de introdução prenunciavam uma notícia da
maior importância. Os olhos de Cardif chamejaram.
Foi este o
único sinal visível de nervosismo.
— Posso
falar à vontade? — voltou a perguntar Banavol.
Mais uma
vez, a pergunta ficou sem resposta.
— Está
bem — disse o arcônida em tom indiferente. — O problema não é
meu. Venho diretamente do mundo de cristal. Fut-O1 aguarda seus
cumprimentos, terrano.
Essa
alusão não seria capaz de levar Cardif à discussão. Limitou-se a
sorrir.
— Bem;
faço apenas aquilo pelo qual sou pago — prosseguiu o arcônida. —
Não fui pago para fazer discursos. Rhabol quer vinte ativadores
celulares. Com isso ganhei meu dinheiro, terrano. Acho que não tenho
mais nada a dizer.
Havia um
tom de espreita na voz de Banavol, e uma expressão de desconfiança
em seus olhos avermelhados de arcônida. Achava-se confortavelmente
reclinado na poltrona.
Cardif-Rhodan
acabara de decepcioná-lo. A cópia fiel de Rhodan que via à sua
frente nem pestanejara quando fora citado o nome do sacerdote Rhabol.
E muito menos estremecera, no momento em que formulou a exigência
dos antis: vinte ativadores celulares.
Vinte
anti-mutantes tinham vontade de alcançar a vida eterna, tal qual o
Imperador Gonozal VIII.
A única
pessoa que podia arranjar o aparelho do tamanho de um ovo que
possibilitava a ativação celular era Cardif-Rhodan, o sósia de
Rhodan.
Para ele,
deveria ser fácil descobrir os dados galácticos do mundo artificial
denominado Peregrino. Os antis ficaram sabendo por intermédio de
Cardif que Aquilo,
a criatura solitária de Peregrino, era amigo de Rhodan. Na opinião
dos sacerdotes de Baalol deveria ser fácil para Cardif ir a
Peregrino, pedir a Ele
que lhe desse vinte ativadores celulares e voltar com essas
maravilhas.
— Banavol,
diga a Rhabol que seu pedido não pode ser atendido — disse Cardif.
O arcônida
respondeu com a voz fria:
— Não
estou autorizado a discutir o assunto com o senhor, terrano. Se o
desejo de Rhabol não for do seu agrado, o senhor poderá dar
expressão à sua contrariedade no estabelecimento comercial dos
saltadores, situado em Plutão. Antes que vá a Peregrino, esperam-no
por lá. Ainda bem que o senhor me lembrou, pois, do contrário,
poderia ter-me esquecido de lhe dar o recado.
Desde a
fundação do Império Solar nunca ninguém falara nesse tom com o
administrador.
Acontece
que, ao que tudo indicava, para Banavol o homem que se encontrava à
sua frente não era Perry Rhodan.
Os antis
deviam ter-lhe confiado o maior dos seus segredos.
Thomas
Cardif passara quase cinco decênios entre os anti-mutantes. Nenhum
terrano conhecia melhor os sacerdotes de Baalol do que ele. Por isso
mesmo sabia que Banavol não representava nenhum perigo para sua
pessoa. Alguém, que recebesse uma incumbência desse tipo dos antis,
já não era dona de si mesma.
Banavol
devia estar totalmente submetido aos sacerdotes, tal qual ele mesmo.
— Ficarei
mais um pouco, para que a visita não pareça muito breve — disse
Banavol. — Gostaria de conversar a respeito de Thomas Cardif,
terrano. Com sua licença quero observar que no início não
acreditei, quando recebi a visita de Rhabol, que me contou certo
segredo. Mas não demorei a ver o célebre Perry Rhodan. Cardif, o
senhor está com um aspecto melhor que o dele. Da antiga grandeza de
seu pai não sobrou quase nada. Não acha estranho que apesar disso
os antis ainda sintam mais respeito por um Perry Rhodan reduzido à
impotência que pelo seu filho? O senhor é capaz de entender uma
coisa dessas, terrano?
Thomas
Cardif compreendeu perfeitamente o sentido das palavras de Banavol.
Fazia questão de ressaltar mais uma vez que Cardif não passava de
marionete nas mãos dos antis. Assim que os antis não mais
precisassem dele, seria atirado fora tal qual uma laranja depois de
chupada.
A
permissão de instalar trezentos entrepostos comerciais dos antis no
sistema solar representava o primeiro passo para a conquista pacifica
do império. E na operação aproveitavam-se dele como instrumento de
seus planos de conquista.
Durante
alguns segundos, os dois fitaram-se intensamente, O rosto de Thomas
Cardif não mostrava a menor reação.
— Meus
respeitos, terrano — disse Banavol. — O senhor tem um excelente
autodomínio. Rhabol não me informou sobre isto. Posso retirar-me,
ou prefere que fique mais um pouco? — o rosto do arcônida
continuava a exibir o sorriso arrogante.
— Fique
mais um pouco, arcônida — respondeu Cardif em tom indiferente.
Retribuiu o sorriso.
Dois
comparsas defrontavam-se de igual para igual.
Enquanto
Banavol falava, procurando provocá-lo, um plano começou a formar-se
na mente de Cardif.
De repente
sentiu-se tentado a atender à exigência de Rhabol, e também se
sentiu tentado a entrar no jogo, durante o qual mediria forças com
os antis.
Mas
resolveu tomar uma atitude negativa diante de Banavol.
Queria que
o agente dos antis transmitisse a Rhabol a notícia de que Cardif não
era nenhum joguete nas suas mãos.
— Sua
última palavra é essa, terrano? — voltou a perguntar Banavol para
certificar-se e dispôs-se a sair do gabinete. — Recusa-se a viajar
para Peregrino?
— Acho
que me exprimi com suficiente clareza, arcônida! — respondeu
Cardif em tom indignado.
— Seja o
que quiser, terrano. Acontece que não fui incumbido de transmitir
sua recusa aos sacerdotes. A mesma só pode ser manifestada no
escritório do entreposto comercial dos saltadores em Plutão. Não
tenho mais nada a ver com o assunto.
Cardif
acreditava no que acabara de dizer. Conhecia os antis e sabia como
trabalhavam. Bem, não se importaria em fazer uma viagem para Plutão,
nem receava a palestra com um anti mascarado de saltador.
Pela
primeira vez desde o momento em que assumira o papel de Rhodan,
sentia-se bem-disposto. Quando Banavol se retirou do gabinete, um
sorriso irônico aflorou aos seus lábios. E o sorriso continuou
quando fez uma ligação de videofone com Bell.
— Sim —
disse Bell. — O arcônida disse algo de importante sobre Cardif,
Perry?
Num
instante, a mente de Cardif-Rhodan adaptou-se à nova situação. A
resposta foi proferida com a voz tranqüila:
— Banavol
não disse nada de importante, a não ser talvez três indicações
que possivelmente poderão representar uma pista, gorducho. Mas não
é por isso que estou chamando. Não quero mostrar-me indiferente às
preocupações de Mercant. Você compreende? Refiro-me à petição
dos mercadores galácticos. Quero modificar a permissão por mim
concedida no sentido de que os saltadores poderão instalar cem
entrepostos por ano em nosso império...
— Perry
— interrompeu Bell entusiasmado. — Será que sua faculdade
telepática está voltando aos poucos? Você leu meus pensamentos!
Pretendia fazer exatamente isso. Apenas queria colocá-lo diante de
um fato consumado.
O rosto de
Thomas Cardif continuou com a expressão amável, embora a
arbitrariedade de Reginald Bell o fizesse ferver de raiva.
Respondeu
com uma gentileza fingida:
— Ainda
não confio muito nas minhas faculdades telepáticas, gorducho. Nunca
foram intensas.
De
qualquer maneira fico satisfeito de saber que temos a mesma opinião.
Estas
palavras fizeram com que Bell se lembrasse de que, de forma alguma,
concordava em permitir que os saltadores penetrassem no sistema
solar. Acreditava que havia chegado um momento favorável de
modificar a opinião de Perry Rhodan.
— Ouça
— sugeriu. — Não acha que deveríamos recusar de vez o pedido
dos ciganos estelares? Estes negocistas gananciosos só poderão
criar-nos problemas.
— Tenho
meus planos com os saltadores — respondeu Cardif-Rhodan em tom bem
mais frio.
Esperava
que a insinuação freasse a curiosidade de Bell. Mas o gorducho
continuou a insistir.
— Que
planos são esses, Perry?
— Oportunamente
falaremos sobre isso. De qualquer maneira, peço-lhe que por enquanto
não solte a permissão que acabo de dar aos saltadores. Antes disso
quero dar uma olhada em seu entreposto comercial de Plutão.
Observou
cautelosamente o rosto de Bell na tela. O gorducho disse com uma
risada:
— Isso
me deixa ainda mais curioso para conhecer seus planos, Perry. Pela
Via Láctea, que relação poderá existir entre Plutão e os ciganos
estelares?
— Quando
chegar a hora você saberá disso, meu caro.
— Não é
a primeira vez que você diz isso, Perry — disse Bell. — Vou
desligar para avisar Mercant. Quando pretende ir a Plutão?
— Provavelmente
amanhã. Desligo, Bell.
A
comunicação foi interrompida. Cardif-Rhodan levantou-se e
aproximou-se da janela.
Quantas
vezes seu pai estivera de pé ali, lançando os olhos por cima do
complexo de construções de Terrânia e fitando a faixa de terra que
há um tempo relativamente curto ainda fora um deserto?
Quantas
vezes Rhodan estivera ali, a sós com suas preocupações grandes e
pequenas? Quantas vezes no curso dos anos lutara consigo mesmo a fim
de chegar a uma decisão?
A mesma
coisa estava acontecendo com o filho. Apenas, seus problemas
situavam-se em outro plano. No fundo todas as suas reflexões, todos
os seus planos moviam-se fora da legalidade.., e não passavam de uma
trama criminosa.
— Rhodan
— disse em voz alta, e o ódio pelo pai voltou a inflamar-se.
Ao assumir
o papel de Rhodan, Cardif colocara-se numa posição bastante
difícil, e seu êxito e seu fracasso dependiam exclusivamente dos
antis.
Os mesmos
haviam pedido vinte ativadores celulares por intermédio de Banavol.
Ao pensar nisso, Thomas Cardif não pôde deixar de rir. Mas não foi
um riso de bondade. Imaginava perfeitamente qual era o motivo do
pedido. Vinte dos sacerdotes mais Influentes do culto de Baalol
namoravam a idéia de, por meio dos ativadores, alcançar a
imortalidade relativa.
Cardif
parecia satisfeito.
Seu plano
ia adquirindo uma configuração mais nítida. O mesmo previa uma
prova de força entre ele e os antis. Tinha certeza de que sairia
vitorioso na luta.
— OK —
disse para si mesmo, pegou um cigarro, acendeu-o e deleitou-se com o
fumo.
Nas brumas
da distância uma gigantesca sombra esférica desceu à Terra. Um dos
supercouraçados da Frota Solar estava pousando.
A
Wellington acabara de regressar de uma missão.
*
* *
Gucky, o
rato-castor, estava com visita em sua residência, um confortável
bangalô situado nas margens do lago salgado de Goshun. Era a área
em que residiam os colaboradores e amigos mais antigos e mais
chegados de Rhodan. Era maravilhoso morar longe do movimento e da
inquietação de Terrânia. Apesar disso o visitante de Gucky não
parecia nada satisfeito. E o rato-castor também não estava de bom
humor, pois seu dente roedor solitário continuou escondido, e os
olhos de camundongo, que costumavam brilhar numa expressão marota,
estavam totalmente apagados.
— Isto é
pior que uma geladeira, John! — piou Gucky.
Esta
observação foi proferida depois de cinco minutos de silêncio
ininterrupto.
John
Marshall, que era chefe do Exército de Mutantes e o melhor telepata
do grupo, com exceção de Gucky, fez um gesto de assentimento.
Compreendera o que Gucky queria dizer. Não poderia deixar de
confirmar as palavras da pequena criatura. Desde que voltara do
planeta Okul, o chefe passara a erigir uma muralha Invisível em
torno de sua pessoa. Para os amigos passara a transformar-se
simplesmente no administrador. Agora era uma eminência solitária,
inacessível e assustadoramente impessoal.
Gucky
acomodara-se no sofá e John Marshall na cadeira-balanço. Ao lado do
rato-castor via-se certa quantidade de cenouras frescas. Gucky
conhecia seus deveres de anfitrião. Escolheu as cenouras mais
bonitas.
— Quer
uma, John?
Para seu
espanto, desta vez o telepata não recusou com um gesto enérgico.
— Passe
para cá. Uma dose de vitamina não me fará mal. Qualquer atividade
mental consome muitas vitaminas. Diga-me uma coisa, cá entre nós.
Você ainda consegue chegar aos pensamentos do chefe?
Havia uma
norma antiga, segundo a qual era proibido a qualquer telepata
utilizar sua capacidade para introduzir-se nos pensamentos de Perry
Rhodan e seus colaboradores mais chegados. E John Marshall era um dos
mutantes que sempre fizera questão de que essa norma fosse cumprida.
Acontece
que Gucky sempre cometera muitos “pecados”.
Sendo assim, não costumava deter-se nem mesmo diante dos pensamentos
de Rhodan.
Atualmente
até mesmo Marshall estava disposto a violar a norma.
— Sim,
John, consigo chegar aos seus pensamentos. Mas quando estou com as
antenas ligadas, sinto-me tomado de pavor. O que foi que os médicos
fizeram com Perry? John, você já notou que o chefe se interessa
pouco em saber se o maldito vício do liquitivo vai diminuindo ou
não? Os pequenos homens-pepino, os swoons, já se sentem traídos e
vendidos, porque o chefe não os procura mais. Se soubesse que os
médicos realmente são responsáveis pela modificação ocorrida com
Perry, eu seria capaz de reunir o grupo de eruditos e fazê-lo
realizar um vôo em mergulho para dentro do lago.
— Calma,
pequeno...
Mas não
havia mais nada que detivesse Gucky.
— Por
que veio visitar-me, se não quer que eu diga o que penso a respeito
de nosso chefe? Sempre que me introduzi em seus pensamentos, procurei
em vão pelo impulso que se dirige a Thomas Cardif. Será que nunca
mais pensou em seu degenerado filho?
— Então
já modificou sua opinião sobre Cardif, pequeno? — perguntou
Marshall.
— Nem
poderia deixar de fazê-lo, John. Hoje em dia até chego a
arrepender-me do que fiz por ele. Certamente você também andou
fuçando os pensamentos do chefe nestas Últimas semanas. Pode dizer,
John. Não contarei a ninguém, mesmo que um dia briguemos. Não
notou nada de estranho no chefe?
Marshall
entesou o corpo; parecia surpreso.
— O que
quer dizer com isso, Gucky?
— Bem
que eu gostaria de saber, John! A partir do maldito tratamento de
choque o chefe é uma pessoa totalmente diferente. Já não sabe ler
pensamentos e em matéria de tecnologia quase chego a saber mais que
ele. E já não sabe rir. Mas não é o que importa. Atualmente
existe algo que nunca notei nele, algo de confuso. Muitas vezes,
quando procuro ler seus pensamentos, tenho a impressão de
encontrar-me diante de um vidro translúcido, atrás do qual vejo
sombras... Sombras de impulsos mentais. De repente tudo desaparece,
não há mais nenhum vidro translúcido e não vejo mais nenhuma
sombra. Você nunca percebeu nada, John?
O chefe do
Exército de Mutantes fitou prolongadamente o rato-castor. Estava
pensativo.
Finalmente
respondeu:
— Você
acaba de exprimir em linguagem precisa alguma coisa de que só agora
me dei conta, pequeno. Também notei as sombras de impulsos. Pela
grande Via Láctea! Será que essas sombras são a causa das
modificações que houve com o chefe?
Nem mesmo
os dois telepatas mais competentes do Império Solar tiveram a idéia
de que essas sombras poderiam ser os impulsos mentais de Thomas
Cardif, encobertos pelo saber de Rhodan, que lhe fora transferido por
um processo hipnótico-sugestivo.
— Gucky
— disse John Marshall depois de algum tempo. — Daqui em diante
teremos de vigiar atentamente o chefe, a fim de evitar que ele cometa
algum erro de conseqüências desastrosas. Quando penso nos males que
o único filho de Rhodan já andou causando, tenho vontade de chorar.
— É o
inimigo público número um da Galáxia. Nunca pensaria que um dia
teria de falar dessa forma a respeito de Thomas. É um gênio, mas só
pode ser um psicopata.
— O ódio
pelo pai fez com que enlouquecesse. Além disso, é um homem de dois
mundos, meio terrano, meio arcônida. Pois é, pequeno!
Gucky fez
um gesto de assentimento e disse em voz alta:
— De
qualquer forma não consigo compreender que alguém seja capaz de
passar por cima de cadáveres para destruir o pai.
— Não
se esqueça dos antis, pequeno. Cardif está em poder deles, e se
essas criaturas põem as mãos em alguém, não o soltam mais. Cardif
tem que dançar de acordo com a música que eles tocam. Já não é
senhor de sua própria vontade.
2
— As
coisas estão cada vez piores! Depois destas palavras, proferidas em
tom contrariado, Bell saiu de trás da escrivaninha, olhou de relance
para o intercomunicador, que acabara de transmitir uma mensagem de
Rhodan, e afastou-se.
Ao passar
pela ante-sala, resmungou:
— Estarei
no gabinete de Mercant! Depois que a porta da ante-sala também se
fechou ruidosamente, os presentes disseram em voz alta:
— Quanto
mais esquisito fica o chefe, mais mal-humorado se torna o gordo.
Enquanto
isso Reginald Bell descia pelo elevador antigravitacional. Dirigia-se
ao gabinete do Marechal Solar Allan D. Mercant. A meio caminho
esbarrou com o professor Manoli no interior do elevador.
— Fico
muito satisfeito em encontrá-lo meu caro! — disse o homem ruivo
com a voz forte. — Um momento; vou mudar de elevador.
Passou
para o setor ascendente, subiu três metros, até atingir o próximo
pavimento, e saiu ao lado do professor.
— Vai
falar com o chefe?
Manoli
lançou-lhe um olhar de espanto.
— Vou.
Como soube? Rhodan pediu-me expressamente que mantivesse em segredo a
visita que pretendo fazer-lhe.
Bell não
demonstrou a surpresa que sentia.
— Sabe o
motivo, professor?
— O
chefe quer mais uma verificação de seu estado de saúde.
O gordo
fez um gesto afirmativo.
— Ainda
acabarei me acostumando à mania do segredo que tomou conta de Perry.
Marshall e Gucky falaram com o senhor, Manoli?
— Há
algumas horas, sir. O senhor já está informado, não está?
— Sem
dúvida. O que acha dessa sombra nos impulsos mentais de Rhodan?
O
professor parecia desorientado.
— Infelizmente
não somos telepatas. Nossos instrumentos não nos proporcionam o
desempenho de uma pessoa capaz de ler pensamentos. Por isso
dependemos exclusivamente das indicações dos telepatas e, sob o
ponto de vista médico, essas indicações podem ser tudo, menos
aproveitáveis. Precisamos de curvas, dados, diagramas. Temos
necessidade de cifras exatas que retratem a intensidade dos
fenômenos...
Bell
interrompeu-o.
— Já
sei. O senhor e seus colegas não dispõem disso. Quero conhecer sua
opinião pessoal sobre o chefe, Manoli. Perry está doente ou não
está? Sim ou não. Nada de Subterfúgios.
Era uma
atitude típica de Reginald Bell. “Nada
de subterfúgios.”
Costumava simplificar as coisas. Muitas vezes esse método causava um
malogro lastimável, mas outras vezes fazia com que atingisse muito
bem o objetivo.
Manoli,
que estava acostumado a raciocinar exclusivamente em termos médicos,
contorceu-se o mais que pôde, mas o olhar implacável de Bell acabou
por obrigá-lo a manifestar sua opinião pessoal.
— O
chefe não está doente, mister Bell. Apenas sofre depressões...
Bell teve
a impressão de não ter ouvido bem.
— O
chefe sofre de quê? De estados de desânimo? E o senhor vem me dizer
que ele não está doente? Será que nunca se deu conta de que um
estado de depressão não se harmoniza com a mentalidade de Rhodan?
Por que faz questão de não acreditar nas sombras que foram
constatadas por Marshall e Gucky?
— Porque
a medicina não conhece sombras nos impulsos cerebrais, O que os dois
telepatas pensam ter descoberto não passa de uma tolice, coisa de
leigos. Sabe lá o que pode acontecer se o chefe descobrir que alguém
anda espionando seus pensamentos, mister...
Foi
interrompido por Bell.
— Sabe
lá, caro Manoli, o que farei com o senhor se contar alguma coisa a
Perry? Estamos entendidos?
— O
senhor acaba de exprimir-se com muita franqueza! — respondeu
Manoli, profundamente chocado.
Bell
passou a falar em tom mais amável:
— Faça
o favor de me informar sobre o resultado do exame.
— Não,
mister Bell. Em hipótese alguma. Sou médico. O dever do sigilo
profissional...
Mais uma
vez foi interrompido por Bell.
— Desta
vez o senhor pode esquecer-se do sigilo! Até a próxima — com
estas palavras Bell deixou a sós o professor, que parecia perplexo.
O antigo
companheiro da primeira viagem lunar de 1.971 nunca lhe falara nesse
tom.
Até então
sempre haviam sido bons amigos.
Viu
Reginald Bell desaparecer no poço do elevador. Sentia-se irritado.
“Será
que existe algo de verdadeiro na observação dos dois telepatas?”,
pensou. “Se
for assim, por que não me explicaram melhor a natureza dessa sombra
infame?”
Enquanto
se dirigia ao gabinete do chefe, resolveu submeter Rhodan a um exame
extremamente minucioso.
Bell pegou
o carro e pediu que o levasse ao quartel-general da Segurança Solar.
— Mercant
está? — perguntou laconicamente, ao entrar no hall do enorme
edifício.
— Sim
senhor. O Marechal Solar Mercant encontra-se em seu gabinete.
Dali a
pouco Bell estava sentado à frente de Mercant.
— Então?
— perguntou este, sem desconfiar de nada.
— Ainda
bem que está sentado, Mercant. Ultimamente sempre é bom que um de
nós esteja sentado quando o outro aparece para trazer-lhe alguma
novidade. A Ironduke está sendo preparada para a decolagem.
— Já
sei, mister Bell.
— E não
há nada de especial nisso — respondeu o gorducho com uma ligeira
ironia na voz. — Agora, o motivo por que o chefe mandou preparar a
Ironduke para dar um pulinho a Plutão? Será que nisso há algo de
especial, Mercant?
— A
Ironduke só viajará até Plutão? — os olhos de Mercant se
estreitaram.
Reginald
Bell prosseguiu imediatamente:
— Parece
que o senhor não tem a menor idéia do outro acontecimento, não é,
marechal solar? Eu mesmo fiquei sabendo por puro acaso. Às vezes, em
Terrânia, até mesmo os assuntos secretos vêm à luz do dia. Perry
entrou em contato com o cérebro positrônico de Vênus para pedir as
coordenadas galácticas do planeta Peregrino.
— Então
o chefe vai a Peregrino? — espantou-se Mercant.
— Isso
mesmo, Mercant. Se as coisas continuarem assim, explodirei e Perry me
porá para fora. Nunca tinha mentido para mim. Mas há pouco mentiu.
O que acha, Mercant?
— Não
acho nada, enquanto não conhecer as intenções do chefe. Imagino
que tem em mente um projeto enorme. E tenho uma idéia do ponto a que
pretende chegar. Deseja realizar uma surpresa para restaurar a
confiança em sua pessoa, que anda bastante abalada.
— Queira
Deus que o senhor continue a acreditar em Papai Noel! — exclamou
Bell. — Não é possível...
— O quê?
— perguntou Mercant.
— Nada —
respondeu Bell, desviando-se do assunto.
Esperava
encontrar mais compreensão no chefe da Segurança Solar. Acreditava
que ele poderia compartilhar sua convicção de que muita coisa não
estava em ordem com Perry Rhodan. E qual era o resultado?
Mercant
acreditava que o chefe estava preparando uma ação que surpreenderia
todo mundo, a fim de firmar a confiança em sua pessoa.
— Meu
Deus! — disse num gemido.
— Só
posso supor que o senhor se obstina numa visão das coisas que não
guarda a menor relação com a realidade, Mr. Bell — disse Mercant
em tom contrariado.
Bell
balançou a cabeça, num gesto de desânimo.
— Pouco
me importa o que o senhor queira supor, Mercant. Ninguém me convence
de que Perry não está doente; está mentalmente enfermo. Quando
vinha para cá, encontrei o professor Manoli. O chefe mandou chamá-lo
para que ele o examinasse de novo. Mas não é isso que importa.
Conheço Rhodan muito bem, e por isso tenho de notar melhor que
qualquer outra pessoa como ele está modificado.
“Às
vezes parece ser o mesmo de antes, isso quando se trata de tomar uma
decisão instantânea. Nesses momentos é a pessoa que eu conheço,
mas quando ele se retrai e toma suas decisões a sós, vejo-me diante
de um estranho.
“Rhodan
mentiu para mim. Mentiu ao dizer que tinha necessidade premente de ir
a Plutão.
Alega que
a visita que pretende fazer ao entreposto dos saltadores assume uma
importância extraordinária.
“Mercant,
desde quando o chefe costuma cuidar de ninharias como esta? Qual a
utilidade do Serviço de Segurança? Por que mandou preparar a
Ironduke, se apenas quer ir a Plutão? Por que solicitou ao cérebro
instalado em Vênus as coordenadas galácticas do planeta Peregrino?
No momento não temos nada a fazer em Peregrino!”
— Mr.
Bell, o senhor acha que posso mandar vigiar o chefe? — objetou
Mercant, que com estas palavras reconheceu que a fala de Bell não
deixara de impressioná-lo.
— Alguém
falou em vigilância? Queremos que ele recupere a saúde. Com mais
insistência que nunca, afirmo que ele está doente mas não sofre de
depressões, conforme Manoli quer nos fazer acreditar. Existe outro
tipo de doença dentro do chefe...
— Será
Thomas Cardif?
— Acredito
que sim. Quando esse sujeito pôs as mãos no pai em Okul, alguma
coisa deve ter-se esfacelado dentro de Perry. Ele não está
deprimido, não mostra nenhum abatimento. Desde o incidente de Okul,
alguma coisa lhe falta. O lado humano e vivo está ausente. Mercant,
não sei como exprimir-me.
— Ele
não lhe falou sobre a experiência que teve com o filho em Okul, Mr.
Bell?
Com esta
pergunta, Mercant convencia-se cada vez mais que as preocupações,
que Bell sentia por Perry Rhodan, tinham sua razão de ser.
A sineta
do videofone interrompeu-os:
— Atenção,
temos um aviso importante. A decolagem da Ironduke foi antecipada
para as 18 horas e 35 minutos, tempo padrão. Repito: A decolagem da
Ironduke...
Bell
desligou apressadamente. De repente aquela voz rangedora o
perturbava.
— O
senhor irá na Ironduke, Mercant?
— Não
recebi ordens para isso.
— Também
não recebi. Apesar disso estarei a bordo. John Marshall e alguns dos
velhos mutantes também já estão na Ironduke.
Mercant
soltou um assobio.
— Mr.
Bell, o senhor está assumindo um risco muito grande. Não sei qual
será a reação do chefe quando descobrir que o senhor e os mutantes
estão a bordo.
Um sorriso
obstinado surgiu no rosto de Bell.
— Mais
admirado ficará ao notar que o senhor também estará a bordo,
Mercant.
Mercant
fitou-o intensamente, respirou fortemente e disse:
— Desde
o momento em que o senhor passou a acreditar que Perry Rhodan está
doente, vem revelando faculdades que nunca suporia em sua pessoa, Mr.
Bell. OK. Estarei a bordo.
Bell
retirou-se. Não dissera a Mercant que não se sentia muito à
vontade.
*
* *
A nave
esférica Ironduke descia sobre Plutão. Os holofotes do veículo
acenderam-se a vinte mil metros de altura, iluminando a paisagem
desolada e hostil à vida do último planeta solar.
Na direção
verde, trinta graus. O rádio-farol do forte estelar Plutão 6
enviava seus raios à nave.
O raio
vetor que orientaria o pouso da Ironduke estava posicionado. À
medida que a nave descia, mais formidáveis pareciam as posições de
artilharia de Plutão 6, iluminadas pela luz dos holofotes.
Os
radiadores térmicos de maiores calibres, as posições de
desintegradores e os canhões de impulsos foram entrando no campo de
visão. Alguns quilômetros ao sul, ficavam as enormes estações de
rastreamento, que mediam qualquer abalo estrutural de quinta dimensão
ocorrido no espaço cósmico e eram capazes de detectar a uma
distância enorme a presença de qualquer espaçonave que se
aproximasse.
A enorme
construção era abrigada por um potentíssimo campo energético,
capaz de resistir ao bombardeio de meia dúzia de supercouraçados.
Nem mesmo
durante o pouso da Ironduke, o campo energético foi desativado.
Cardif-Rhodan dera ordens expressas nesse sentido. Também ordenara
que a nave pousasse no pequeno porto espacial que os mercadores
galácticos haviam construído.
O
entreposto dos clãs unidos dos saltadores ficava na extremidade
leste do porto, sob a proteção de uma cadeia de montanha coberta de
gelo até as cumeadas. Era para lá que Cardif-Rhodan pretendia
dirigir-se.
O objetivo
da visita aos saltadores representava um mistério para todas as
pessoas que se encontravam na nave. Mas não era esta a primeira vez
que o chefe iniciava uma ação cujo objetivo só ele conhecia.
Apesar
disso, a grande sala de comando da Ironduke parecia crepitar de
tensão.
Seria
porque há alguns minutos Reginald Bell aparecera de repente no
recinto, acompanhado por John Marshall e Allan D. Mercant?
Até mesmo
Jefe Claudrin, um terrano nascido em Epsal e um colosso robusto de
pele cor de couro, passara a respirar com dificuldade quando viu
entrar os três homens. No mesmo instante resolveu dizer umas boas ao
oficial da eclusa, porque este não o informara sobre a presença
dessas altas personalidades.
Cardif-Rhodan
não deu o menor sinal de surpresa, salvo talvez um ligeiro lampejo
dos olhos.
— Ah...
— foi a única coisa que disse e cumprimentou Bell com um gesto.
Este
aproximou-se, enquanto Mercant e Marshall se mantinham num ponto mais
afastado da sala de comando.
— As
últimas horas que passamos em Okul ainda me revoltam o estômago,
Perry — disse, dirigindo-se ao amigo. — Desconfio dos ciganos
estelares, aos quais você pretende fazer uma visita, tanto quanto
desconfio dos antis.
— É
mesmo? — respondeu Cardif-Rhodan. — Mas da próxima vez quero ser
avisado das precauções que você adotar. Combinado, gorducho?
Bell
limitou-se a acenar levemente com a cabeça. O incidente terminou aí.
Mas ninguém desconfiava das conseqüências que a surpresa produziu
em Cardif, nem mesmo o telepata Marshall, que pela terceira vez se
introduzia nos pensamentos do chefe.
O sósia
de Rhodan só pensava em fragmentos. Desconfiava de que Marshall
controlava seus pensamentos. Realmente, era o que o telepata deveria
fazer. Por isso Cardif-Rhodan pensava apenas nos moldes do pai,
encobrindo completamente seus impulsos pessoais.
O ponto
dominante de suas reflexões era o requerimento dos mercadores
galácticos. Vez por outra uma velha recordação refulgia em meio a
estas reflexões, O pseudo-Rhodan pensava nas manobras escusas dos
saltadores. Realizou seus cálculos sobre risco adicional que
resultaria da criação de cem escritórios comerciais no interior do
sistema solar.
Deixou que
seus pensamentos vagassem até este ponto e teve o cuidado de não
pensar no que viria depois. Por várias vezes fez surgir num lampejo
a alegria que sentia ao pensar que no fim os mercadores galácticos
sairiam do negócio logrados.
Enquanto
isso a Ironduke, pilotada por Jefe Claudrin, desceu suavemente no
pequeno porto espacial dos saltadores. As gigantescas colunas de
apoio do veículo espacial esférico fizeram alguns movimentos de
molejo. Depois disso a nave pousou firmemente no solo congelado de
Plutão, a mais de vinte quilômetros do Forte Plutão 6.
A tensão
criada com a entrada repentina de Bell, Mercant e Marshall chegou ao
auge.
O homem,
que era considerado como Perry Rhodan, deu uma risadinha matreira
para Bell.
— Vamos
ver se da próxima vez você não se mostra tão bem-intencionado
comigo. Para isso irei sozinho, veja bem, caro gorducho, sozinho, sem
qualquer companhia, fazer uma visita ao entreposto dos saltadores.
Dêem-me um traje espacial, por favor.
As mãos
gigantescas do comandante epsalense seguraram firmemente a braçadeira
da poltrona especialmente feita para ele. Não compreendia o que
acabara de ouvir. E não era o único que não conseguia compreender
a decisão que Rhodan acabara de tomar.
— Sir —
principiou Allan D. Mercant, mas viu-se obrigado a ficar calado, face
ao gesto repentino de Rhodan.
Contrariando
todas as expectativas, Bell não disse nada.
Rhodan
enfiou-se num pesado traje espacial. Controlou o armamento com uma
calma fenomenal. Após o primeiro encontro com os anti-mutantes, uma
das peças do equipamento de qualquer traje espacial ficou sendo um
revólver calibre 44, bastante antiquado, em cujos cartuchos não
havia balas metálicas, e sim rolhas de plástico dotadas de tremenda
força de impacto. Por enquanto essas rolhas constituíam o único
meio de romper o campo defensivo individual dos sacerdotes, que
adquiria uma força enorme, face às energias mentais dos mesmos.
Rhodan
limitou-se a lançar um ligeiro olhar para a arma antiquada. Dedicou
seu interesse principalmente às armas de radiações. Verificou os
indicadores de capacidade.
— Em
ordem — constatou. — Bell, devo estar de volta dentro de uma hora
no máximo. Qualquer mensagem de emergência poderá ser transmitida
pelo minicomunicador. Obrigado — disse, quando viu que Bell
pretendia acompanhá-lo. — Prefiro ir só até a eclusa. Afinal,
devo mostrar-me agradecido pelo cuidado que você teve comigo, meu
caro.
Talvez
tivesse dito isso por brincadeira... ou por deboche.
A
escotilha da sala de comando fechou-se ruidosamente atrás de
Cardif-Rhodan. Bell lançou um olhar indagador para Marshall, piscou
discretamente e saiu da sala. Dali a pouco Mercant e Marshall também
se retiraram. Dirigiram-se diretamente ao gabinete de Bell.
— Então?
— perguntou este, ao vê-los entrar.
A pergunta
fora dirigida a Marshall.
O telepata
deu de ombros.
— O
chefe tem um plano maluco com os saltadores e os trezentos
entrepostos comerciais que eles pretendem criar, mas infelizmente não
me fez o favor de pensar nos detalhes desse plano. Só sei que espera
encontrar uma coisa bem definida no escritório dos saltadores.
— O quê?
— perguntou Bell, muito curioso.
— É
justamente isso que eu não sei. Não concebeu um pensamento preciso
a este respeito. Nem sequer se aborreceu quando nos viu de repente...
— Como?
— enquanto formulava a pergunta lacônica, Bell levantou-se de um
salto. Lançou um olhar desconfiado para Marshall. — Ora, John, não
me conte lorotas. Perry não se aborreceu nem um pouco com meu
procedimento arbitrário? Caramba! Antigamente ficava com muita raiva
quando eu procedia assim. Será que sua mente foi virada pelo avesso?
— É só
o que eu posso informar — respondeu John Marshall.
— Nesse
caso já não sei o que pensar! — disse Bell e voltou a sentar.
Mudando de
assunto, voltou a dirigir-se a Marshall:
— Está
em contato com os outros telepatas?
— Eles
aguardam minhas instruções, mister Bell.
— Muito
bem. Deixemos passar uns trinta minutos. No momento, a torre polar da
Ironduke não faz outra coisa senão observar o entreposto dos
saltadores. Na minha opinião os ciganos estelares pensarão duas
vezes antes de fazer qualquer coisa contra o chefe. De qualquer
maneira, ele nos enganou quando resolveu sair só, e isso me deixa
muito satisfeito. É uma atitude típica dele, que me faz ter
esperança de vê-lo restabelecido dentro em breve. Então, Mercant,
o que acha?
— Nada —
respondeu Mercant. — Estou esperando...
*
* *
Catepan, o
chefe do entreposto comercial dos saltadores em Plutão, enviara o
maior carro ao local em que estava pousada a Ironduke. O veículo
aguardava o administrador na pequena rampa C da espaçonave esférica.
Cardif-Rhodan
desceu pela rampa, frio e destemido. Já conhecia Plutão com suas
condições inóspitas. Como tenente da Frota Solar fora degredado
para Plutão, onde prestara serviços, isso até que subitamente uma
imensa frota inimiga — a dos druufs — aparecesse nas proximidades
do sistema solar. Na oportunidade, o destino da Terra parecia selado.
Mas os mercadores galácticos com suas naves cilíndricas armadas e a
frota robotizada de Árcon vieram em auxílio de Rhodan.
Teve uma
ligeira lembrança desses fatos, mas não se recordou de sua
deserção. Desligou-se no mesmo instante. Colocou sua mente em
posição de usufruir do saber acumulado por Rhodan. Não pôde
deixar de sorrir.
Era um
sorriso de satisfação. Os mutantes que, conforme acreditara no
início, representavam o maior perigo, fracassavam diante da barreira
mental do verdadeiro Rhodan, que envolvia os remanescentes da
personalidade de Thomas Cardif. Constatavam sempre a presença dos
impulsos mentais de Rhodan, e por isso nem desconfiavam de que estes
estavam detendo os de outra pessoa.
Um jovem
saltador, cujo rosto foi iluminado pelo farol do carro, cumprimentou
o Administrador do Império Solar. Num impecável intercosmo pediu
que tomasse lugar no veículo.
Cardif-Rhodan
respondeu laconicamente ao cumprimento e acomodou-se no assento.
O carro
disparou pela pista lisa. Os contornos imensos do entreposto dos
saltadores tornaram-se cada vez mais nítidos sob a iluminação
indireta. O carro penetrou numa eclusa que mais parecia um pavilhão.
O jovem motorista abriu a porta, voltou a cumprimentar Cardif-Rhodan
quando este desceu e avisou-o de que poderia descerrar o capacete
espacial de plástico.
O homem
que envergava o uniforme do personagem mais importante da Terra
voltou a cumprimentar. Caminhou em direção ao mercador que se
aproximava às pressas. Era Catepan, chefe do entreposto comercial
dos saltadores em Plutão.
Pediu ao
administrador que sentasse. Foi só depois de chegar aos recintos
privados do patriarca que Cardif-Rhodan abriu o capacete e desligou o
rádio, montado no interior do mesmo. Fê-lo de propósito, pois
dessa forma interrompeu as comunicações entre ele e a Ironduke.
— Catepan,
o senhor já deve ter conhecimento do pedido dos mercadores
galácticos, que pretendem instalar novos entrepostos na área de
influência do Império Solar. Concederei a permissão, desde que por
aqui não encontre motivos para objeções.
O velho
mercador fitou-o com uma expressão de espanto.
— Só
por isso o senhor resolveu vir pessoalmente, administrador?
— Isso
mesmo — respondeu Cardif-Rhodan em tom indiferente, dissimulando a
satisfação provocada pelas palavras do saltador.
Catepan
lhe havia provado que o considerava como Rhodan, o administrador. E
era só o que Cardif desejava saber.
Levantou-se.
Catepan seguiu seu exemplo. Cardif-Rhodan agradeceu com um gesto.
— Não
me perderei nas salas e nos corredores, Catepan. Irei só. Dentro de
meia hora estarei de volta.
Deixou
totalmente perplexo um saltador muito experimentado. Catepan não
queria conformar-se com a idéia de que o homem mais poderoso do
Império Solar perdesse tempo com um simples controle. E sentia-se
ainda mais incapaz de compreender que Perry Rhodan resolvesse
realizar em pessoa o controle. Por fim, não conseguia enxergar
qualquer relação entre esse controle e o pedido formulado por todos
os clãs dos saltadores.
Cardif-Rhodan
saiu do setor residencial e, passando por um corredor profusamente
iluminado, atingiu o primeiro depósito. Olhou em torno. Quase não
se interessava pelas mercadorias.
Um
saltador estava parado junto à porta que dava para outro corredor.
Parecia esperar pelo administrador. Mas quando este se aproximou, o
saltador deu-lhe as costas e afastou-se.
Cardif
lembrou-se do que lhe dissera Banavol, o arcônida. Só aqui, no
entreposto comercial dos saltadores, poderia protestar contra a
exigência dos antis, que queriam que ele fosse buscar vinte
ativadores celulares em Peregrino.
“Será
o homem, que acabou de afastar-se pelo corredor, um agente dos
sacerdotes de Baalol?”,
pensou.
Cardif
quis ter certeza.
Ao chegar
à porta, virou a cabeça. O pavilhão em cuja extremidade se
encontrava media cem metros de comprimento e mais de cinqüenta de
largura.
Resolveu
verificar se estava sendo seguido. Satisfeito, acenou com a cabeça.
Até mesmo nessa área extraterritorial o desejo do administrador do
Império Solar representava uma ordem.
Cardif
sentiu-se inteiramente dominado pela embriaguez do poder; a sensação
indescritível de quem tem a impressão de que basta mandar para que
todos os desejos sejam cumpridos encheu sua mente.
Mas a
lembrança da exigência de Rhabol, sacerdote supremo do culto de
Baalol, desabou sobre ele, como raio destruidor.
“Vinte
ativadores celulares com regulagem individual automática!”,
refletiu.
A miragem
desmanchou-se; a realidade nua e crua surgiu diante de seus olhos.
Thomas
Cardif era uma marionete, mesmo oculta sob a máscara do pai.
Fechou os
olhos e respirou profundamente.
Aqui, no
entreposto dos mercadores galácticos em Plutão, daria início à
execução do plano que levaria à destruição dos sacerdotes de
Baalol.
Thomas
Cardif abriu a porta que dava para o corredor. Este seguia em ângulo
reto com o pavilhão. A parte dianteira fora instalada para servir de
abrigo em caso de catástrofe.
Possuía
eclusas duplas e era de construção muito resistente.
Atravessou
a segunda eclusa e chegou ao setor em que ficavam os escritórios.
Num relance Cardif-Rhodan constatou que todos eles ficavam do lado
esquerdo, dando frente para o porto espacial dos mercadores.
Cardif
caminhou tranquilamente pelo tapete à prova de som.
Atingiu
uma porta aberta, que lhe permitiu ver o interior do recinto.
Um homem
estava de pé junto à janela. Virou-se e fitou prolongadamente a
pessoa que se aproximava. Com um ligeiro aceno de cabeça convidou
Cardif a entrar.
Cardif-Rhodan
avançou. Deu um ligeiro empurrão à porta, que se fechou
silenciosamente.
O homem
junto à janela tinha o aspecto de um mercador galáctico. A barba
aparada à moda dos saltadores e os trajes típicos reforçavam tal
suposição. Inclinou-se ligeiramente e disse num intercosmo
impecável:
— Fut-Gii
incumbiu-me de transmitir recomendações ao Administrador do Império
Solar.
— Obrigado
— respondeu Cardif laconicamente, revelando uma elevada dose de
autodomínio, enquanto os olhos exprimiam indiferença. — Posso
sentar?
Não
aguardou a resposta; acomodou-se numa poltrona.
Thomas
Cardif lançou os olhos para além do homem que se encontrava na
sala. Viu a superfície inóspita de Plutão. Do lugar em que se
achava, via parte do porto espacial dos mercadores. Na extremidade
oposta do campo de pouso destacava-se a enorme esfera formada pela
Ironduke, que estava com os holofotes ligados.
O olhar de
tédio de Cardif retornou para o emissário de Baalol. Sem dúvida o
homem que se encontrava à sua frente tinha essa qualidade. A menção
do nome Fut-Gii
constituía prova disso.
— Então?
— perguntou Cardif em tom irônico.
O agente
de Baalol manteve-se em silêncio. Encostado ao peitoril da janela,
com os braços cruzados sobre o peito, fitava o homem que alegava ser
Perry Rhodan.
Cardif
começou a sentir-se contrariado. Os modos arrogantes do enviado de
Baalol começaram a irritá-lo.
— Não
posso e não quero arranjar as vinte maravilhas — disse.
— Você
fará exatamente isso — respondeu o outro, mostrando-se impassível.
— Se não
fizer, Cardif, os seus dias de poder e de vida estarão contados. —
Deu as costas a Rhodan e, contemplando a espaçonave esférica,
disse: — Que prisão maravilhosa você terá. A Ironduke levá-lo-á
a Terrânia para ser julgado.
— Você
fala demais — disse Cardif em tom Irônico. — O que esperam
conseguir com ameaças?
— Nada —
respondeu o outro, que voltara a encará-lo. — Nada, a não ser
vinte ativadores celulares.
— Quer
dizer que é uma chantagem?
— Os
servos de Baalol estão acima de qualquer acusação imunda —
respondeu o agente.
— Há
cerca de sessenta anos os saltadores quiseram transformar-me numa
marionete. Não se saíram bem. Aliás, quem é você?
— A-Thol,
enviado pessoal do supremo sacerdote Rhabol. Deseja mais alguma
informação, Cardif?
— A
exigência de Rhabol é inexeqüível, A-Thol! — respondeu Cardif
em tom áspero.
— Nesse
caso não teremos nenhuma alternativa. No planeta Lepso, você jurou
fidelidade e gratidão eterna ao culto de Baalol. Hoje Baalol toma
suas palavras ao pé da letra. Dentro de poucos dias, a Galáxia
saberá livrar-se do inimigo público número um. Bastará uma
insinuação nossa, habilmente formulada, para arrancar-lhe a
máscara. Escolha logo, Cardif. Você terá que se decidir antes de
sair desta sala.
Muito
frio, Cardif perguntou como quem se sente dono da situação:
— O que
o sacerdote me dará em troca, se conseguir fornecer-lhe o que pede?
Pela
primeira vez notou-se uma alteração no rosto do anti. Fitou Cardif
com um sorriso de desprezo.
— O quê?
Por acaso
o olhar de Cardif desviou-se do anti. Olhou para fora, para a área
de penumbra, e descobriu alguma coisa que fez ruir imediatamente
parte de seu plano.
Não
perdeu tempo; adaptou-se logo à nova situação.
Não
deixou que seu interlocutor percebesse o que havia descoberto.
*
* *
O silêncio
passara a reinar no camarote de Bell. Allan D. Mercant não
participara da palestra entre Reginald Bell e John Marshall; apenas
fizera uma ligeira observação. Os três homens esperavam que Perry
Rhodan se comunicasse pelo rádio do capacete. Sentiram-se
contrariados ao perceber que, logo após o cumprimento do patriarca
Catepan, Rhodan o desligara.
Seguiu-se
um período de silêncio e de espera.
Quem
chamou de repente pelo intercomunicador de bordo não foi Rhodan, mas
o mutante Fellmer Lloyd, cujo rosto apareceu na tela.
— Sir,
vejo o modelo de vibrações cerebrais de um anti.
Bell,
Mercant e Marshall só ouviram a palavra anti.
— Destacamento
de robôs número um, ficar de prontidão! — gritou Bell para
dentro do microfone especial.
Imediatamente
transferiu a ligação. As informações de Fellmer Lloyd passaram a
ser ouvidas em todos os recintos da Ironduke.
— Sir —
voltou a soar a voz de Lloyd depois da ligeira interrupção. —
Localizei as vibrações cerebrais no escritório dos saltadores. As
características do modelo são as seguintes: ódio, desprezo,
intenções assassinas. Infelizmente a localização é incompleta, O
anti deve ter-se protegido num campo defensivo reforçado por suas
energias mentais. Localização de vibrações cerebrais...
— Obrigado!
— interrompeu Bell. — Ponha em ação todos os telepatas, Lloyd.
Jefe Claudrin, o senhor ouviu? — essa pergunta foi dirigida ao
comandante da Ironduke.
— Ouvi!
— disse a voz potente saída do alto-falante.
— OK,
Claudrin. Se estes ciganos estelares conseguirem levar uma espaçonave
ao espaço, por menor que seja, e desaparecer na mesma...
Bell
viu-se interrompido.
— Já
sei. Nesse caso irei para o inferno.
Bell, que
já estava saindo do camarote, ouviu a risadinha de Mercant. Apesar
da gravidade da situação não pôde deixar de sorrir da pronta
resposta de Claudrin.
Três
homens correram em direção ao elevador antigravitacional mais
próximo. Enquanto corria, Bell ligou seu minicomunicador.
— Destacamento
de robôs número um — gritou para dentro do microfone. Aguardem
até que estejamos na eclusa. Fiquem de prontidão.
Entraram
no poço do elevador. Desta vez tiveram a impressão de que demoravam
demais para chegar ao destino. Ainda no elevador, Bell voltou a
entrar em contato com Fellmer Lloyd, o localizador.
Ele não
havia constatado nada de novo.
O
antimutante localizado no entreposto comercial dos saltadores devia
manter-se passivo sob o campo defensivo reforçado por suas energias
individuais. Seus impulsos mentais já não chegavam aos mutantes.
Antes que
chegassem à última eclusa, houve uma pequena demora. Bell, Mercant
e Marshall tiveram de colocar trajes espaciais. Estavam com muita
pressa, mas naquela altura não precipitavam nada.
— Controle
dos armamentos! — ordenou Bell, que foi o primeiro a enfiar-se em
seu traje.
Mercant e
Marshall anunciaram que tudo estava em ordem.
Entraram
apressadamente na eclusa.
Correram
lado a lado pela rampa. Ao pé da mesma estava um planador, no qual
havia vinte robôs de guerra e um piloto.
Quando se
tratava de travar um combate, um robô desses equivalia a cem homens
muito bem treinados da Frota Solar.
O planador
levantou vôo. Sua aceleração era tremenda. Bell estava sentado ao
lado do piloto.
Puxou o
microfone para junto de si, mas por enquanto não falou nada para
dentro do mesmo.
Viu que o
planador corria vertiginosamente em direção ao entreposto comercial
dos saltadores, a dez metros de altura.
Olhou para
o instrumento que indicava a distância que os separava do campo
energético que protegia o escritório dos saltadores.
Faltavam
dois quilômetros.
Bell
continuava calado.
Mais um
quilômetro! Finalmente transmitiu sua mensagem:
— Chamo
Catepan, o saltador. Aqui fala Reginald Bell, representante de
Rhodan. Abra imediatamente o campo defensivo. Vamos logo, senão a
Ironduke atirará.
Dali a
três segundos o indicador de certo instrumento caiu para a posição
zero.
Não havia
mais nada que pudesse ser detectado pelo mesmo. Os campos defensivos
que envolviam o entreposto dos saltadores em Plutão haviam sido
desativados.
O
planador, ocupado por vinte robôs e três homens, pousou junto à
eclusa de entrada do escritório. As máquinas de guerra
desembarcaram instantaneamente, com a precisão de uma manobra.
Três
robôs subiram. Usaram seus aparelhos antigravitacionais para
manter-se a cinqüenta metros de altura e dali controlaram
praticamente todos os pavilhões e edifícios.
Os outros
correram em direção à eclusa, acompanhados por três homens. A
mesma abriu-se sem que Bell pedisse. O patriarca dos saltadores veio
correndo pelo recinto que se estendia à frente deles. Parecia muito
nervoso. Não usava traje espacial.
Bell e
seus companheiros viram nisso um sinal de que podiam abrir seus
capacetes.
— Onde
está o administrador? — berrou Bell para o chefe dos saltadores.
O
nervosismo de Catepan transformou-se em espanto.
— Perry
Rhodan? Está em um dos meus escritórios, mas...
— Onde
ficam os escritórios? — interrompeu-o Bell.
Totalmente
confuso, Catepan apontou para a outra extremidade do depósito muito
comprido.
— Ali
atrás, à esquerda? — perguntou Bell para certificar-se.
O
patriarca dos saltadores fez que sim.
O gorducho
saiu correndo. Ao que parecia, o pesado traje espacial não
representava nenhum obstáculo para ele. Mas mal os robôs perceberam
seu objetivo, sete deles se adiantaram e chegaram à porta quando
havia percorrido apenas metade do caminho.
Apesar da
preocupação que sentia por Rhodan, aquele homem baixo e gordo não
se esqueceu de manter informados todos a bordo da Ironduke. Gritou
pelo rádio embutido em seu traje espacial:
— Claudrin,
estamos no escritório. Dirigimo-nos ao lugar em que se encontra o
chefe. Os robôs vão à nossa frente. Desligo.
John
Marshall corria a seu lado. Allan D. Mercant encontrava-se a uns
metros atrás deles, quando atingiram a porta que dava para o
corredor, pela qual já haviam passado sete robôs.
Mal haviam
dado os primeiros passos no corredor, Bell, num gesto impulsivo,
segurou o braço de Marshall e gritou:
— O
senhor ouviu? Não foi um tiro?
John
Marshall fez que sim.
*
* *
O anti não
desconfiou de nada quando viu um objeto desprender-se da Ironduke e
deslocar-se a cerca de dez metros de altura em direção ao
escritório dos saltadores.
Mas
Cardif-Rhodan compreendeu de que se tratava, assim que observou o
fenômeno.
Por um
instante sentiu-se dominado pelo pavor. Lembrou-se de que Bell,
Mercant e Marshall o haviam acompanhado para Plutão sem que ninguém
tivesse pedido. Naquele instante Cardif deu-se conta de que além
desses homens devia haver um grupo de mutantes a bordo da Ironduke.
“Foi
idéia de Reginald Bell!”,
pensou.
O pavor
nasceu da suposição de que os telepatas pudessem ter identificado
seus impulsos cerebrais com a pessoa de Thomas Cardif. Mas logo se
tranqüilizou ao lembrar-se de que a saída dos seus impulsos estava
sendo impedida. De qualquer maneira, precisava concentrar-se ao
máximo para poder continuar a pensar “nos
moldes”
de seu pai.
Nem
atrevia-se a pensar nos seus planos.
Encontrava-se
numa situação de extremo perigo. Nunca estivera tão próximo de
ser desmascarado. Para dissipar qualquer suspeita dos telepatas,
obrigou-se a, dentro do esquema mental do pai, criar uma mentira
altamente refinada.
Em
pensamento fez de conta que naquele momento descobrira que a pessoa à
sua frente era um anti.
Thomas
Cardif nem desconfiava de que estava realizando um trabalho
extraordinário, que seria digno de melhor causa.
Dirigiu-se
ao anti, explicando-lhe que risco assumira ao penetrar no coração
do Império Solar. Não se falou mais nos ativadores celulares, O
nome de Rhabol não foi pronunciado uma única vez.
O anti nem
percebeu que de repente Thomas Cardif estava conduzindo a palestra, e
também não notou que a conduzia a um plano indiferente. Muito menos
o anti desconfiava de que a tropa de choque, desembarcada do
couraçado linear Ironduke, já se encontrava no interior do
entreposto dos saltadores.
Apesar
disso, alguma coisa em Cardif o assustou. Por uma questão de
instinto preveniu o mesmo, que se aproximava lentamente:
— Não
chegue muito perto, Cardif! Liguei meu campo defensivo assim que o vi
à minha frente. Fique onde está! Nem um passo a mais!
Naquele
instante, o ruído forte dos passos do primeiro robô de guerra
fez-se ouvir no corredor.
— O que
é isso?
O anti
ainda conseguiu formular esta pergunta. Depois cometeu um erro: tirou
os olhos de cima de Cardif e olhou para a porta.

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