sábado, 3 de setembro de 2016

P-109 - O Bloqueio de Lepso - Kurt Brand [Parte 3]

Ouçam, meus amigos — disse Rhodan, fitando seus mutantes um por um. — Ninguém pôde saber onde se encontra Thomas Cardif? O rastreador individual deve facilitar a determinação da direção e...
O senhor parte de um falso pressuposto, sir — interrompeu Marshall. — O rastreador individual é apenas um amplificador de potência. Traz para junto de nós os impulsos mentais, mas não indica a direção da qual estes provêm. A antena esférica de cristal não tem capacidade para isso. A determinação só pode ser realizada por nós, desde que disponhamos de um tempo mínimo. Infelizmente, no momento, não dispomos desse tempo...
Pois eu sei — piou o rato-castor, para surpresa de todos. — Neste momento tomei consciência disso. A direção do impulso cerebral é a seguinte: nor-noroeste, isso naturalmente se meu senso de orientação não me tiver pregado uma peça.
Rhodan chamou a sala de comando, a fim de saber o que ficava na direção nor-noroeste.
O computador positrônico da Ironduke forneceu a resposta. Depois de alguns segundos, a voz metálica disse:
Tu-Ki, uma cidade de trinta mil habitantes; o lago Frugid, com uma área de duzentos e dez quilômetros quadrados. Depois vem a grande cadeia de montanhas de Glogu, e a seguir o extenso deserto. Após isso temos as montanhas de Cif, que dividem o deserto em dois. A quinhentos e dezoito quilômetros dali, começa a selva de Morw...
Rhodan teve a impressão de que as informações que acabara de ouvir já bastavam. Quando o computador positrônico da nave mencionou o templo de Baalol, notou-se um ligeiro estremecimento em todas as pessoas que se encontravam na sala de comando.
Esses bandidos! — piou Gucky em tom ameaçador.
A tela do sistema de intercomunicação de bordo voltou a iluminar-se. O rosto de Julian Tifflor apareceu.
No momento em que viu esse rosto, Rhodan já sabia qual era a informação que lhe seria fornecida por Tifflor.
Sir, mais de oitenta antis escaparam. Não conseguimos prender um único anti-mutante no escritório dos saltadores. Fugiram na direção noroeste, utilizando quatro planadores. Três tiros de radiações da Ghandi atingiram o alvo em cheio, mas não tiveram força para romper os campos defensivos.
Tiff — disse Rhodan para consolá-lo. — Apesar de tudo, sua ação foi coroada de êxito. Esse êxito reside na informação de que os antis fugiram na direção noroeste. Foi o maior favor que os antis poderiam nos ter feito.
Ao desligar, virou-se para seus telepatas.
Quero que façam mais uma tentativa conjunta de localizar a freqüência cerebral de Thomas Cardif. Usem o rastreador individual.
Perry Rhodan nem desconfiava quais seriam as conseqüências dessa ordem...

* * *

Os antis, que se encontravam no templo de Baalol em Lepso, não demonstraram o menor pânico quando, graças às suas energias mentais, perceberam que certas forças parapsíquicas se estendiam em sua direção.
Tu-Poé — há anos o elemento que mantinha contato mais estreito com o Dr. Edmond Hugher — sobressaltou-se, saiu correndo e entrou apressadamente no laboratório, onde Hugher realizava seus trabalhos científicos sem desconfiar de nada.
O doutor estivera pensando num catalisador. Quando viu Tu-Poé entrar com tamanha pressa, estremeceu.
O que houve, Tu-Poé? — perguntou, lançando-lhe um olhar sonhador.
Não houve nada — respondeu o fanático. — Apenas acontece que a instabilidade das condições reinantes neste mundo nos obriga a evacuar o templo e abandonar Lepso.
Enquanto falava, desdobrou suas antienergias e envolveu o cérebro de Hugher num círculo impenetrável, que frustraria qualquer tentativa de detectar os pensamentos do cientista.
Será que eu tenho algo com isso? — perguntou Hugher, em tom indiferente.
Vamos combinar uma coisa — disse Tu-Poé, desconversando. — Peço-lhe que deixe seu trabalho e venha comigo. Daqui a pouco, cada minuto poderá ser precioso, e por isso não quero que meus irmãos tenham de esperar-nos por muito tempo.
Acontece que o Dr. Edmond Hugher era um homem sonhador e pacato. Não sabia o que era pressa. Afastou os papéis que estivera examinando, olhou em torno e, só depois disso, levantou-se devagar.
Por favor, Tu-Poé, não corra — pediu com um sorriso e seguiu-o com os passos tranqüilos.
Uma expressão de raiva incontida chamejou nos olhos do fanático. Virou a cabeça para o lado, para que Hugher não pudesse notar a expressão de cólera. Saíram juntos da ala dos laboratórios, atravessaram o pátio do templo com seus edifícios alongados e dirigiram-se à pirâmide que sobrepujava tudo, destacando-se das outras construções graças ao estilo e ao tamanho imponente.
Enquanto flutuavam no interior do elevador antigravitacional, em direção ao terceiro pavimento da pirâmide, o Dr. Hugher perguntou:
Por que não nos retiramos para a estação TT-1, situada nas montanhas de Cif? Dificilmente Rhodan poderá incomodar-nos lá.
O anti conteve-se de forma magistral. Subitamente, uma terrível suspeita surgiu em sua mente. Preferiu não encarar o cientista e, para esquivar-se à pergunta, disse:
O Conselho decidiu abandonar Lepso.
Saíram juntos do poço do elevador, entraram no corredor largo e caminharam em direção à porta, atrás da qual ficava o salão onde os antis costumavam realizar as grandes reuniões.
Com uma expressão de perplexidade, Edmond Hugher fitou os exaltados servos de Baalol. Ele — um sonhador sempre sorridente, que não se abalava com nada — não compreendia os servos de Baalol, que neste momento estavam reunidos em grupos e discutiam animadamente. Voltou-se para ver Tu-Poé, mas seu companheiro havia desaparecido:
Naquele instante, o fanático se encontrava à frente do servo supremo do templo e cochichava-lhe algumas informações importantes.
O quê? — perguntou este, evidentemente assustado.
Isso mesmo — confirmou Tu-Poé. — Era apenas uma suspeita, senhor. Eu deveria ter dito muito antes. O fato é que só tive certeza agora, quando os mutantes de Rhodan procuraram atingir o conteúdo da mente de Hugher.
O velhíssimo anti, que era um homem de olhar astucioso e rosto coberto de rugas, estreitou os olhos.
Tu-Poé, acho que não será difícil modificar a freqüência cerebral de Hugher. Com isso os impediremos que voltem a localizá-lo. E a modificação forçada da freqüência nos permitirá verificar se as suspeitas têm fundamento. Mas será que nos resta tempo para isso? Pouco antes de você entrar, o escritório nos transmitiu a informação de que nossos irmãos tiveram de fugir dos robôs de Rhodan. Foi só graças às suas energias que conseguiram sobreviver ao impacto de um tiro disparado por um pesado canhão de radiações. Deverão chegar dentro de poucos minutos.
O pânico apoderou-se de Tu-Poé.
Senhor, vemo-nos obrigados a agir o mais rápido possível. Por enquanto Hugher é um elemento insubstituível.
O velho anti respondeu com uma tranqüilidade quase estóica a essa manifestação de pressa histérica.
Cometemos um erro. Aquele homem nunca deveria ter-se tornado insubstituível para nós. Por que Loó-o não nos informou a este respeito, se é que suas suspeitas são fundadas?
Senhor, Loó-o morreu inesperadamente. E ele não tinha nenhum amigo íntimo entre os servos de Baalol... Mas o erro não foi meu, senhor.
A última frase foi proferida em tom de súplica.
O velho decidiu imediatamente. Notou que o cientista se aproximava do lugar em que se encontrava. Quase não moveu os lábios ao transmitir suas instruções aos companheiros:
Coloquem Hugher sob o modificador de freqüência e verifiquem se a suspeita de Tu-Poé é correta.
Naquele instante, os telepatas de Rhodan estavam fazendo mais uma tentativa de, em meio a bilhões de freqüências, localizar os impulsos mentais de Edmond Hugher, ou melhor, Thomas Cardif.
O velho ficou estupefato. Concentrou suas energias mentais exclusivamente nas freqüências da busca realizada pelos terranos. Enquanto isso seus companheiros, inclusive Tu-Poé, envolveram o cérebro de Hugher numa barreira que se tornou tão forte que nem mesmo os impulsos mais potentes conseguiriam rompê-la.
Façam a modificação imediatamente — ordenou o velho.
Seus lábios murchos estavam reduzidos a um traço fino.
De repente, Edmond Hugher viu-se cercado por sacerdotes. Já desconfiara da conduta estranha de Tu-Poé. Quando tentaram levá-lo com gestos suaves, mas irresistíveis, ofereceu uma resistência que correspondia aos seus modos pacatos.
Tu-Poé, poderia fazer o favor de explicar o que significa isso? — perguntou, lançando um olhar sonhador para o anti.
Mais tarde, Hugher; deixemos isso para mais tarde. Está correndo um grande perigo. Eu sei, mas o senhor não sabe. Mas está ciente de que os impulsos mentais de qualquer criatura podem ser violentados por meio de forças parapsicológicas. Deseja que a espada chamejante, que o senhor colocou nas mãos de Baalol, seja roubada por Rhodan, o terrano?
Enquanto Hugher caminhava pelo espaçoso corredor, acompanhado por oito antis, fez um gesto afirmativo. Um sorriso contemplativo surgiu em seu rosto.
Então Rhodan quer arrancar-me o segredo do licor? Que coisa! De repente fiquei interessado em descobrir se Baalol é mais poderoso que esse terrano agressivo. Por isso estou perfeitamente disposto a fazer qualquer coisa que possa impedir Rhodan de apoderar-se do que eu sei.
O Dr. Edmond Hugher nem desconfiou do alívio que suas palavras provocaram nos antis que o acompanhavam.
A terrível suspeita de Tu-Poé transformou-se em certeza. Rogou pragas contra os arcônidas de Árcon, que há cinqüenta e oito anos haviam espalhado pelo grande império a notícia de que o filho de Perry Rhodan sofrera um acidente que afetara gravemente seu cérebro, motivo por que seria duvidoso que jamais viesse a recuperar a plenitude de suas faculdades mentais.
Acreditaram nessa informação, e julgaram que esse fato tivesse causado as espantosas modificações que se verificaram com Hugher, enquanto este convalescia de sua doença.
Todos acreditaram nisso, inclusive os antis.
Um deles, porém, devia ter conhecido a verdade, ou ao menos desconfiado da mesma. Era Loó-o.
Por que motivo Loó-o não teria transmitido aos outros aquilo que sabia? Será que desejava que o filho de Rhodan devesse concluir seus estudos de Medicina em Aralon, para somente depois disso tomar conhecimento de quem era seu pai? Será que a morte inesperada de Loó-o representava uma interferência do destino, que conduzia o plano há tanto tempo preparado para um objetivo totalmente diverso?
Tu-Poé sentiu uma exaltação selvagem ao entrar, juntamente com seus irmãos e com Hugher, na sala misteriosa da pirâmide que servia de templo.
Quando pediram a Edmond Hugher que tomasse lugar na poltrona destinada às intervenções psíquicas, os antis demonstraram uma pressa que nunca antes haviam revelado. O cientista sentiu-se cada vez mais assustado com a preocupação dos antis. Sentia que, atrás de seus atos, havia algo que ainda não lhe tinham revelado. Mas toda desconfiança, que nasceu em seu interior, foi afastada em virtude da gratidão que sentia pelo culto, pois os adeptos de Baalol o haviam ajudado a abandonar o planeta Zalit e, com isso, o ambiente desgastado dos arcônidas decadentes.
Deixou que o atassem à poltrona. Dois contatos metálicos redondos e flexíveis foram colocados em suas têmporas, enquanto um terceiro pólo se prendia no peito, sobre o coração. Edmond segurava dois reluzentes objetos metálicos, de formato cônico. De repente, suas mãos foram cingidas por travas que lhe impediam qualquer movimento.
Um conversor começou a zumbir às suas costas. Além de Tu-Poé havia mais dois antis junto à mesa de comando. Tu-Poé regulou o aparelho. O zumbido tornou-se mais forte. O Dr. Edmond Hugher acompanhava todos os movimentos com um sorriso. Não percebeu qualquer modificação em sua mente. Aos poucos os contatos metálicos colocados nas têmporas passaram a adaptar-se à temperatura de seu corpo.
De repente, o mundo desmanchou-se à sua frente.
A última coisa que percebeu foi um raio fulgurante, que seus pensamentos compreenderam, mas seus olhos não viram.
Tu-Poé parecia estarrecido à frente do quadro de comando. Mantinha os olhos presos num diagrama. A grande curva, que se apresentava com uma extraordinária nitidez, formava um estranho ângulo na parte inferior.
Está bloqueado! — exclamou Tu-Poé, em tom exaltado.
O rosto do fanático adquiriu uma expressão diabólica.
Sua personalidade foi bloqueada. Não sabe que é filho de Rhodan. Chamem o Senhor!
A última frase foi proferida num grito, enquanto o zumbido do conversor se tornava cada vez mais forte e três aparelhos blindados emitiam estalos, ruídos estes que não conseguiram superar o uivo repentino de outro aparelho...
Os passos do anti, que apressou-se em ir chamar o velho, submergiram em meio a esse ruído.
A atitude rígida de Tu-Poé não durou muito.
Revelando pânico, realizou exames de controle. Tal qual um comandante de espaçonave, cujo veículo estelar se achasse envolvido numa batalha, transmitiu uma ordem após a outra. Novos aparelhos foram ligados. Um som retumbante começou a encher o recinto.
O Dr. Edmond Hugher estava inconsciente na sua poltrona.
Finalmente chegou o velho, o chefe supremo dos antis do templo de Baalol, construído em Lepso. Tu-Poé só compreendeu quem se encontrava a seu lado quando notou que alguém procurava afastá-lo.
Faça o favor de não me perturbar, senhor — pediu.
O velho obedeceu. Contentou-se em olhar por cima do ombro de Tu-Poé. Seu comportamento constituía prova evidente da importância que Edmond Hugher assumia para os antis.
O identificador de bloqueios foi posto a funcionar. Tu-Poé em pessoa manipulou os controles. Os impulsos desse aparelho passaram a tatear o cérebro de Hugher, a fim de localizar o bloqueio hipnótico e verificar suas influências sobre as áreas adjacentes.
O cientista, que continuava inconsciente em sua poltrona, não tinha a menor idéia de que estava passando pela hora mais perigosa de sua vida. Um único erro na manipulação dos controles ou na interpretação dos resultados do identificador de bloqueios faria com que, ao despertar, estivesse reduzido a uma ruína espiritual.
O rosto fanático de Tu-Poé não via outra coisa, senão os ponteiros oscilantes dos instrumentos, a rotação da escala colorida, que retratava os resultados das medições, e os dois diagramas comparativos. O diagrama da esquerda indicava a força do bloqueio a que Hugher estava submetido, enquanto o da direita indicava, em forma de curva, o volume de energia que se tornaria necessário para romper esse bloqueio.
Na extremidade inferior do pequeno quadro de comando, via-se o instrumento de mira. Tratava-se de uma espécie de dispositivo de freqüência ótica, que permitia o ajustamento dos raios de ruptura com a precisão de uma fração de milímetro, fazendo com que os tais raios atingissem a área de bloqueio existente no cérebro de Hugher, mas não certos pontos vitais.
O tempo parecia correr vertiginosamente, embora, na verdade, só se tivessem passado alguns minutos. Tu-Poé voltou a verificar todas as regulagens do identificador de bloqueio. Momentos depois respirou profundamente e acionou a chave principal.
Às suas costas, um homem soltou um berro. Aquele grito não tinha nada de humano. Tu-Poé e os outros antis viraram-se imediatamente, tomados de pânico.
Os olhos de mestiço do Dr. Edmond Hugher faiscavam.
Num gesto instintivo, Tu-Poé recolocou a chave principal na posição zero. Nem se deu conta disso. Resolveu certificar-se. Virou o rosto e sentiu-se aliviado ao notar que o identificador de bloqueios já não estava funcionando.
Soltem-me! — disse uma voz enérgica de comando, habituada a ver suas ordens cumpridas, fazendo-se ouvir por toda a sala.
Os antis fitaram o cientista, perplexos.
O que era feito do sorriso sonhador de Edmond Hugher? E de sua modéstia? Onde estava aquela calma inabalável?
Caramba! Vão soltar-me ou não? — gritou.
Os antis mantiveram-se imóveis.
A pessoa sentada na poltrona-psíquica era um estranho. Quem fora amarrado a ela havia sido o Dr. Edmond Hugher. E agora um homem, cujo rosto se modificava a cada segundo que passava, sacudia furiosamente os grampos que o prendiam à poltrona. A expressão macia e indiferente de seu rosto foi desaparecendo, sendo substituída por traços que revelavam uma vontade inflexível.
Soltem-me!
A voz tilintava como gelo. Seus olhos cintilavam. A expressão de seu olhar possuía certa força hipnótica.
Tu-Poé, será que tenho que ordenar mais uma vez que me soltem? — gritou Hugher.
Tu-Poé aproximou-se da poltrona. Acionou a chave. Os grampos abriram-se, e Hugher levantou-se sem dizer uma palavra.
A placa metálica, que se encontrava na altura de sua cabeça, refletiu seu rosto. Hugher estremeceu como se tivesse levado uma pancada. Pôs as mãos no rosto e apalpou-o com as pontas dos dedos.
Será que sou eu? O que você fez de mim, Rhodan? Primeiro matou minha mãe, e depois roubou cinqüenta e oito anos de minha vida.
Virou-se lentamente e fitou os antis que o cercavam, perplexos. Citou o nome de cada um. O último a quem se dirigiu foi Tu-Poé.
Estou lembrado de tudo, Tu-Poé. Ainda me recordo do dia em que você apareceu pela primeira vez em Aralon e me fez uma visita. Sei tudo que aconteceu nos últimos cinqüenta e oito anos e não me esqueci do que aconteceu antes e de quem eu sou.
Meu nome é Thomas Cardif. Minha mãe foi Thora, uma princesa arcônida. E Rhodan, esse terrano sem escrúpulos, foi quem me gerou e quem assassinou minha mãe. Basta. Vocês já sabem tudo a meu respeito.”
Voltou a fitar a placa reluzente, e, mais uma vez, Cardif viu-se refletido. Sentiu-se um estranho.
Você me transformou numa figura ridícula, Rhodan. Ainda terá a paga por isso.
Enquanto falava, fitou seu corpo.
Meu corpo não sofreu grandes modificações.
Mas seu rosto, Hugher, alterou-se bastante, depois que o bloqueio foi rompido! — exclamou Tu-Poé, sentindo-se possuído de uma exaltação fanática.
Meu nome é Cardif, Tu-Poé — retificou o filho de Rhodan, em tom áspero. — E agora? Vamos esperar até que Rhodan e sua frota apareçam por aqui e nos obriguem a pôr as mãos para o alto?
Os antis tiveram dificuldades em adaptar-se dentro de poucos minutos à nova personalidade de Edmond Hugher, ou melhor, de Thomas Cardif. E acharam ainda mais difícil acreditar que não se tivesse importado com nada do que lhe acontecera nos últimos cinqüenta e oito anos.
O velho quis ter certeza sobre certo ponto.
Cardif, o senhor sabe o que criou por gratidão pelo Baalol?
Por gratidão? Ah, sim, é verdade, senhor — refletiu ligeiramente e entesou o corpo, mostrando pela primeira vez seu porte altivo. — Mas agora exijo que a espada flamejante me seja devolvida, senhor. Com o auxílio de Baalol, quero brandi-la contra o Império Solar, de tal forma que o mesmo fique reduzido a um bando de furiosos viciados. Os mundos coloniais terranos foram inundados de liquitivo, enquanto Rhodan retirou suas espaçonaves de todos os lugares e fez sua frota pousar em nosso planeta?
Uma vez libertado seu espírito da personalidade artificial que lhe foi imposta, a herança do pai voltou a manifestar-se. Quase chegara a equivaler a Rhodan em termos de estratégia e planejamento. Por mais de uma vez colocara o Império Solar em crises gravíssimas, e, nestas oportunidades, quase sempre conseguiu anular, por meio de manobras hábeis, as medidas defensivas adotadas por Rhodan.
O velho fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Um sorriso de desprezo surgiu no rosto de Cardif.
Quer dizer que a resposta é não? Não aproveitaram a maior chance que já tiveram? Mas ainda está em tempo de aproveitá-la. Transmitam uma ordem para que os mundos coloniais do Império Solar sejam inundados de licor liquitivo. Dêem a droga de presente aos terranos que anseiam pela juventude eterna. Será que vocês ainda não compreenderam que estamos prestes a perder uma rara oportunidade?
Havia muita persuasão em sua voz, mas seus gestos eram comedidos. Depois de despertar de uma hipnose parcial que durara cinqüenta e oito anos, Thomas Cardif voltara a transformar-se no inimigo implacável de seu pai.
Odiava-o mais que nunca, votava-lhe um desprezo que jamais sentira. No momento em que acordou, jurara que faria Rhodan pagar pelos quase seis decênios de vida que lhe foram roubados.
Tu-Poé estremeceu ao ver que Cardif se colocou à sua frente.
Tu-Poé, por que fui colocado na poltrona-psíquica?
A expressão coercitiva dos olhos avermelhados de Cardif obrigou o anti a falar.
O filho de Rhodan não deu mostras da surpresa de que se sentia possuído. Só depois que o anti concluiu sua fala, manifestou-se.
Quer dizer que ele ainda dispõe do Exército de Mutantes? Tu-Poé, a freqüência dos meus impulsos mentais foi ou não foi alterada?
O sacerdote não pôde deixar de confessar que ignorava isso.
Thomas Cardif deu três passos largos e voltou a acomodar-se na poltrona.
Realize o controle, Tu-Poé!
Dois sacerdotes aproximaram-se apressadamente e voltaram a colocar os contatos em Cardif. Subitamente tinha-se a impressão de que naquela sala, não muito grande, havia apenas uma pessoa capaz de dar ordens: Thomas Cardif.
Dali a alguns minutos constatou-se que sua freqüência cerebral sofrera uma minúscula alteração em virtude do afastamento forçado do bloqueio hipnótico.
Obrigado — disse ao levantar-se da poltrona.
Um sorriso de triunfo surgiu em seu rosto. Os telepatas pertencentes ao Exército de Mutantes de Rhodan já não estariam em condições de localizá-lo. Bastava uma alteração de freqüência correspondente a uma vibração por período, para fazer com que seus impulsos mentais submergissem no oceano de bilhões de irradiações.
Rhodan! — pronunciou este nome com um sorriso, pois lembrava-se da droga rejuvenescedora biológica, do seu liquitivo.
Mas seu triunfo fora de curta duração.
Os elementos da Frota Solar ainda não tiveram tempo de ocupar todas as emissoras de Lepso. Uma delas transmitiu a notícia de que as unidades dos superpesados, que haviam rompido o bloqueio e se dirigiam a Lepso, foram obrigadas a fugir dos supercouraçados de Rhodan.
Outra notícia dizia que uma nave esférica do Frota Solar decolara da capital, em direção ao templo de Baalol.
Quando o sistema de intercomunicação do templo transmitiu a notícia de que os antis que haviam fugido do escritório dos saltadores, acabavam de pousar junto ao templo, a voz exaltada do locutor lepsonense ainda não havia silenciado. Vinham em quatro planadores-relâmpagos.
O velho ordenou a fuga.
Um momento! — ordenou Cardif, em tom enérgico. Não lhe restava nada daquele sorriso sonhador que exibira quase durante seis decênios. — Não temos pressa. Será que ainda não conhecem Rhodan? Não estudaram sua personalidade? Antes de dar ordem para abrir fogo contra o templo, ele nos dará um ultimato. Mesmo que esse aviso só nos conceda um prazo de trinta minutos, este prazo será suficiente para destruir tudo que há de importante por aqui e preparar nossa fuga.
Os antis fitaram-no com uma expressão de surpresa. Sua mente ainda não se adaptara ao fato de que Edmond Hugher, sempre sorridente e sonhador, se transformara no estrategista Thomas Cardif, que era um homem genial como seu pai.
5



A Ironduke pairava menos de dez metros acima da praça situada no bairro administrativo. Seus motores a jato uivaram. A nave com seus oitocentos metros de diâmetro foi acelerando cada vez mais, atingiu a altitude de três mil metros e tomou o curso nor-noroeste. Dirigia-se ao templo de Baalol, no deserto pedregoso.
A segunda e última tentativa de localizar Thomas Cardif por meio do rastreador individual fracassara. Nem mesmo Perry Rhodan desconfiava das conseqüências que resultariam dessa segunda tentativa, e da perda de tempo causada pela mesma.
Voltou à sala de comando da nave e acomodou-se ao lado de Bell. O hiper-receptor acabava de transmitir a notícia de que a frota dos superpesados, formada por mais de seiscentas naves, acabara de fugir.
Após isso, uma tranqüilizadora mensagem robotizada chegou do círculo de bloqueio. Contrariando as expectativas de
Rhodan, os reforços haviam vindo antes do tempo. Eram três mil, duzentos e dez cruzadores pesados tripulados por robôs. Estes seriam capazes de rechaçar qualquer atacante.
Rhodan notou o olhar preocupado de Bell.
Nada — disse. — Só conseguimos estabelecer um contato ligeiro com Cardif. Os antis devem ter percebido imediatamente, e por certo lançaram mão de suas energias mentais, a fim de proteger os impulsos de Cardif.
É só isso? — perguntou Reginald Bell, em tom enfático.
Rhodan disse que não.
Fellmer Lloyd continua a afirmar que o bloqueio de Cardif continua forte como antes.
A Ironduke arrastava-se na direção nor-noroeste a uma velocidade pouco abaixo à do som. A pequena altitude, a nave esférica de oitocentos metros de diâmetro não poderia desenvolver velocidade maior, pois, do contrário, o deslocamento de ar provocado pelo seu volume causaria danos gravíssimos na superfície de Lepso.
O Major Jefe Claudrin sabia como o chefe pensava a este respeito, e por isso nem pensava em ultrapassar a velocidade do som, antes de alcançar o deserto.
Mais uma vez, a nave esférica sobrevoou um gigantesco porto espacial, cujo campo de pouso estava repleto de veículos cósmicos de todos os tipos. Naquele momento, um número inacreditável de espaçonaves estava preso em Lepso. Calculava-se que a quantidade total oscilava entre quatro mil e quinhentas e cinco mil e quinhentas unidades. Esse fato tornava patente a importância de que o planeta Lepso assumia como entreposto comercial galáctico, e tornava compreensível, em parte, a exaltação que a operação desencadeada por Rhodan provocara em muitos dos habitantes da Via Láctea.
Acontece que essa exaltação fora provocada deliberadamente. Isso resultava não só da interpretação dos dados, realizada pelo computador positrônico, como também da fuga de oitenta antis, que se encontravam no escritório de um clã dos saltadores.
Bell fitou o amigo, totalmente perplexo. Então Thomas Cardif ainda se acharia sob os efeitos do bloqueio hipnótico que lhe fora aplicado em Árcon, a fim de evitar que continuasse a ser um elemento perturbador da ordem na Galáxia?
Perry — disse o gorducho, procurando falar baixo. — Se é assim, não compreendo como foi que ele deixou o planeta Zalit. E, se é verdade que ainda está bloqueado, poderá ele ser responsabilizado, plenamente, pela invenção do entorpecente?
Rhodan manteve-se calado. Não revelou a agitação que o revolvia. Estava com medo.
Pensou no que aconteceria se os antis descobrissem que Cardif estava bloqueado, e ainda pensou nas possíveis conseqüências dessa descoberta, se os antis liberassem Cardif do bloqueio hipnótico.
Nesse caso, depois de quase sessenta anos de calma enganadora, as coisas não seriam piores que antes?
Por que não responde, Perry? — insistiu Bell.
Sem querer, o vice-administrador olhou para a grande tela de visão global da Ironduke e notou que a nave sobrevoava uma cidade não muito grande, junto à qual se estendia um imenso lago.
O nome da cidade era Tu-Ki, e os lepsonenses costumavam chamar o lago de Frugid. Tu-Ki era o último núcleo populacional, depois vinha o templo de Baalol. Entre a cidade e o local de culto dos antis só havia as montanhas de Glogu e uma parte do grande deserto.
Bell, não posso responder. Quero formular uma pergunta. Admitamos que os antis descubram o bloqueio hipnótico de Thomas e o removam. O que pensará meu filho a meu respeito, se depois de cinqüenta e oito anos subitamente voltar a ser o homem que foi desde o tempo de cadete? Não verá nos meus atos uma prova de que realmente causei a morte de Thora?
Enquanto Rhodan falava, Bell levantou-se de um salto e colocou-se atrás do Major Claudrin.
Jefe, por que não voa mais depressa? Será que temos de continuar a arrastar-nos? — perguntou em tom áspero.
O epsalense apontou com a maior tranqüilidade para a tela, na qual se via o lago Frugid e alguns navios que singravam o mesmo.
Quer que faça virar esses navios, mister Bell? — perguntou Claudrin, com sua voz potente.
A sala de rádio transmitiu uma notícia. O Coronel Myler, que chefiava o terceiro círculo de naves, avisou que, apesar de todos os controles, três aparelhos espaciais dos saltadores haviam conseguido decolar de Lepso.
Quando nós as atacamos, uma das naves explodiu. As outras duas capitularam. Enviamos comandos de robôs para tomarem conta das mesmas. A carga dessas naves consiste em liquitivo. Os robôs foram programados para fazer pousar as naves cilíndricas no porto espacial, entre nossas naves. Fim da transmissão.
Bell voltou a sentar-se ao lado de Rhodan. O amigo continuava imóvel em sua poltrona. Seus olhos pareciam vagar pelo infinito.
Você também não diz mais nada, Bell!
Foi só, e foi uma constatação. Reginald Bell não tinha o que dizer. Milhares de indagações atropelavam-se em sua cabeça, e todas elas giravam em torno de Thomas Cardif. Também, para ele, a indagação principal era a seguinte: O que pensará Thomas a respeito do pai, quando despertar da hipnose depois de seis decênios?
Nem um nem outro desconfiava de que poucos minutos antes, Thomas Cardif já respondera a esta indagação.

* * *

O alto-falante do intercomunicador instalado na sala de comando da Ironduke mal pôde absorver o grito do oficial de plantão na sala de rádio.
Sir, acabamos de captar e decifrar mensagem dos antis. Trata-se de uma hipermensagem dirigida a uma estação receptora desconhecida. Todos os planetas coloniais terranos devem ser inundados de liquitivo. O entorpecente será entregue gratuitamente.
Enquanto a mensagem era transmitida, Rhodan estendeu a mão em direção de Bell, como se pedisse socorro. Ninguém vira esse movimento instintivo. Ninguém ouviu Rhodan cochichar ao ouvido do amigo:
É o primeiro lance tático de Cardif! Bell, ele voltou. Eu o sinto.
É verdade, ia dizer Bell, mas naquele momento o ar tremeluziu à sua frente e o rato-castor materializou-se. Não exibia o dente roedor. O pêlo ruivo parecia fosco, o que era um sinal de excitação.
Os oficiais na sala de comando da Ironduke ainda se esforçavam para digerir a terrível notícia de que os mundos coloniais terranos seriam inundados com entorpecente. De repente Gucky piou:
Deixe-me saltar! Eu o trarei, nem que esteja cercado por mil antis.
Referia-se a Thomas Cardif. Mais uma vez, o rato-castor se introduzira nos pensamentos de Rhodan e Bell, sem que ninguém o percebesse. Suas palavras representavam uma confissão de tal ato e, ao mesmo tempo, explicavam por que, um pouco antes, se teletransportara para o interior da sala de comando.
Rhodan colocou a mão sobre a cabeça de Gucky. O homem mais poderoso do Império Solar dedicou-lhe um sorriso martirizado. Balançou a cabeça de forma quase imperceptível. O brilho dos olhos do rato-castor apagou-se. Mais uma vez aquele “sujeitinho” lera os pensamentos de Rhodan e compreendera que sua idéia era inexeqüível.
Não considerara as forças dos antis. Graças às suas faculdades mentais, estes estavam em condições de reforçar de tal forma qualquer campo defensivo artificial, que nem mesmo um tiro de radiações energéticas conseguiria rompê-lo. A teleportação de Gucky terminaria fatalmente diante desses campos defensivos, e ele seria atirado de volta ao ponto de partida.
Esses antis — gritou Bell, praguejando.
Rhodan não reagiu à irrupção de Bell, e Gucky, que sempre se divertia com as saraivadas de insultos do gorducho, manteve-se em silêncio.
Com um olhar para a tela de visão global da Ironduke, Perry Rhodan constatou que a nave linear estava acabando de atravessar o lago. A margem oposta surgiu com suas construções pomposas e avançava incessantemente em direção ao centro da tela, enquanto as primeiras montanhas do complexo de Glogu surgiam na extremidade superior.
O Major Claudrin inclinou-se ligeiramente na poltrona e mexeu nos comandos dos motores a jato. Estes uivaram no interior da protuberância equatorial da nave e finalmente imprimiram-lhe maior velocidade.
Rhodan levantou-se e dirigiu-se ao aparelho de intercomunicação, que ficava ao lado de Claudrin. Chamou Allan D. Mercant, chefe do Serviço de Segurança Solar.
Mercant, temos um grande número de agentes em Lepso. Ainda na Terra, dei ordem a esses homens para que concentrassem suas atividades objetivando localizar o Dr. Edmond Hugher. Por que não obtive informações a este respeito, marechal solar?
Sempre que Rhodan falava dessa forma e usava esse tom de voz, lembrava o relampejar que anunciava uma trovoada. Apesar da recriminação, o rosto de Mercant na tela não revelava a menor insegurança.
Só recebi informações falhas, sir. Propositadamente deixei de transmitir-lhe as notícias que recebia dos meus agentes, já que os mesmos confessavam invariavelmente que, durante as operações destinadas a localizar o doutor Hugher, ou melhor, Thomas Cardif, foram iludidos por meio de informações deliberadamente espalhadas por alguém. Se Thomas Cardif realmente se encontrar no templo de Baalol, não existe a menor dúvida de que as tentativas de iludir nossos agentes foram bem-sucedidas.
Marechal solar — respondeu Rhodan depois de uma pausa, com uma rispidez inconfundível na voz. — Da próxima vez, também quero ser informado sobre os fracassos da Segurança Solar. Desligo.
Rhodan voltou a olhar para a tela de visão global. Nesse meio tempo, Claudrin devia ter aumentado a velocidade da Ironduke para cerca de dois mil quilômetros por hora. A cadeia de montanhas desaparecera. Abaixo da nave estendia-se a desolação do grande deserto de Lepso, que era um oceano de areia e pedra, interrompido constantemente por montanhas achatadas.
Sir! — soou a voz do oficial do setor de localização energética. — Sir, talvez eu esteja enganado, mas os dados que consegui obter me levam a supor que junto ao templo de Baalol acha-se pousada uma espaçonave que, neste momento, está aquecendo seus motores.
Para Bell, isso representou um sinal de que deveria examinar os diagramas do setor de localização energética. Seu ramo era a Eletrônica, e, no curso dos decênios, desenvolvera uma sensibilidade em matéria de localização positrônica que o transformara num dos maiores especialistas em interpretação de dados nessa área.
Faça o favor de afastar-se — disse, dirigindo-se ao oficial.
Colocou as mãos sobre o aparelho de localização e fitou atentamente a placa que mostrava os diagramas. Finalmente lançou um olhar para Rhodan.
É verdade, Perry. Há uma nave pronta para decolar junto ao templo dos antis. Major, será que não poderia acelerar mais um pouco?
Bell voltou a afastar-se do lugar destinado ao oficial do setor de localização. Aproximou-se do amigo e disse:
Daqui a instantes, os antis nos mostrarão o que sabem fazer. Ainda pretende dar-lhes um ultimato?
Naturalmente. Mas faremos o possível para que não aconteça aquilo que você receia — voltou a virar a cabeça para o sistema de intercomunicação. — Atenção, sala de rádio! Envie uma mensagem codificada a todos os supercouraçados.
Ficar em posição cerrada até uma altitude de cem mil quilômetros. Manter sob observação ininterrupta o templo de Baalol, que constitui o único objetivo. Devemos contar com a decolagem de uma espaçonave. Provavelmente haverá antis a bordo. Seu número é calculado em cem a cento e vinte. Se realmente uma nave procurar decolar junto ao templo, a fuga da mesma deverá ser impedida com todos os meios. Assinado: Rhodan, Administrador do Império Solar.”
Virou lentamente a cabeça para Bell. Este fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Bell, não é necessário dizer o que você tem em mente. E não há necessidade de lembrar que provavelmente Thomas Cardif também estará a bordo da nave. Faça o favor de não tornar as coisas ainda mais difíceis para mim.
Os ocupantes da sala de comando ouviram estas palavras. Nenhum dos oficiais de serviço tinha idade suficiente para ter conhecido Thomas Cardif como um dos piores inimigos de seu pai. Mas todos sabiam o que Cardif fizera no intuito de destruir Rhodan. Não havia por ali ninguém que tivesse pena dele.
Mas Gucky, o rato-castor, estava presente.
Arrastou os pés em direção a Rhodan. Levantou a pata direita e colocou-a sobre o pulso de Rhodan.
Escute — piou. — Pela primeira vez sinto-me feliz porque os antis são capazes de, mediante suas energias mentais, reforçar qualquer campo defensivo de tal forma que nem mesmo com o mais potente raio de desintegração conseguiremos rompê-lo. Quer apostar que Thomas escapará juntamente com os antis, chefe?
A sala de rádio da Ironduke avisou que a ordem de Rhodan fora transmitida aos supercouraçados.
No mesmo instante ouviu-se outro aviso:
Realizamos a localização ótica do templo de Baalol.
Dali a cinco minutos a Ironduke deveria sobrevoar o centro dos antimutantes.
De repente, o rato-castor arregalou os olhos. Rhodan irradiara um pensamento dirigido a ele:
Ainda bem que você se sente tão impressionado com as energias mentais dos antis, Gucky.
Rhodan logo voltou a colocar um bloqueio em torno de seus pensamentos, evitando que o curioso rato-castor tivesse uma chance de verificar o que pensara ao irradiar essa frase.
Olhem o templo! — exclamou Bell, apontando para a tela.
O conjunto de construções que formava o templo apareceu sob a forma de um pequeno retângulo. Parecia correr vertiginosamente na direção em que se encontrava a Ironduke.
Uma nave! Uma espaçonave cilíndrica! — gritou o Major Claudrin com sua voz superpotente. — Bem, a nave não é muito grande. O que diz o instrumento de medida de objetos? Será que tenho de insistir constantemente junto aos cavalheiros para que me forneçam os dados?
Os dados logo chegaram:
Espaçonave tem cento e cinqüenta metros de comprimento e trinta de diâmetro. É do tipo das naves dos saltadores.
O oficial do setor de localização energética apressou-se a avisar:
Localização energética inequívoca. Nave cilíndrica pronta para decolar. Motores já foram aquecidos.
Mais uma ordem de Rhodan foi enviada à sala de rádio.
Transmita ao templo o texto já preparado do ultimato, com a única alteração de que aguardaremos a capitulação por quinze minutos.
Por que não dá apenas cinco minutos, Perry? — perguntou Bell, em tom contrariado. — Mesmo cinco minutos são demais para esses caras que se dizem sacerdotes.
Rhodan lançou um olhar pensativo para seu amigo gordo.
Se é assim, não conseguiremos nada, mesmo que os ataquemos sem aviso. Ao que parece você também julga os antis capazes de muita coisa, meu caro.

* * *

Quando as instalações do último estágio de acondicionamento de liquitivo foram destruídas pelos tiros de radiações, Thomas não se mostrou impressionado. Com a calma fria de um homem que sabe que ainda dispõe de bastante tempo para fugir, verificou se realmente haviam sido destruídas todas as instalações do laboratório.
Poucos minutos depois, quase cento e cinqüenta antis destruíram bens no valor de muitos milhões, que haviam sido investidos no curso dos anos. Não lamentavam esse procedimento. E não demonstravam o menor medo diante da chegada de Perry Rhodan. Havia entre eles um homem que lhes mostrava pelo exemplo não haver motivo para temerem Rhodan: era Thomas Cardif, seu filho.
Usando a linha direta, Cardif falou com o setor TT-1, onde se trabalhava com o liquitivo no interior do sistema de cavernas das montanhas de Cif. O Dr. Nearman estava do outro lado da linha.
O astromédico viciado fitou Edmond Hugher com os olhos arregalados. Procurou em vão o sorriso estereotipado e a expressão sonhadora daquele rosto. Não se lembrava de ter ouvido Hugher falar em tom tão enérgico.
Não há motivo para espanto, Nearman — disse Cardif. — Basta ter muito cuidado. Dentro de poucos minutos, Rhodan chegará ao templo. Acabamos de receber seu ultimato. Deixe que em TT-1 fique tudo como está, mas evite que o senhor e seus colegas sejam localizados pelos homens de Rhodan.
Nearman sentiu-se dominado por uma terrível exaltação.
Isso quer dizer que os sacerdotes fugirão de Rhodan? E querem abandonar-nos para que nos acabemos? — berrou as perguntas e seu rosto desfigurado mostrava um medo indisfarçado.
Os sacerdotes não estão fugindo de Rhodan — respondeu Cardif com a maior calma. — Apenas resolveram afastar-se, porque não estão interessados em conversar com o terrano Rhodan. Desligo.
Não ouviu as pragas desesperadas de Nearman. Desligou sem preocupar-se com o destino dos técnicos que se encontravam em TT-1. Virou o rosto para Tu-Poé, que era a única pessoa que se achava nesse setor. Cardif vira-o sair do laboratório número 3. O sacerdote segurava um desintegrador superpesado em cada mão. Sentiu o olhar de Cardif pousado em sua pessoa, olhou na direção do mesmo e tropeçou.
Thomas Cardif nem teve tempo de avisá-lo.
Tu-Poé caíra. Seu pé esquerdo ficou preso a um destroço. Caiu pesadamente para a frente. A mão esquerda bateu na parede.
Thomas Cardif viu o raio ofuscante típico do desintegrador, saído da arma que o sacerdote segurava na mão esquerda.
Tu-Poé caiu de vez.
Baalol acabara de perder um de seus membros mais fanáticos.
O sistema de intercomunicação continuava intacto. Era a última instalação, que seria destruída para que a ligação direta com TT-1 não fosse descoberta imediatamente. Cardif anunciou a morte de Tu-Poé. Os outros tomaram conhecimento de seu falecimento, mas o fato passou quase despercebido em meio ao torvelinho dos acontecimentos.
As instalações de videofone se desmanchavam sob a incandescência de um tiro de radiações, quando dois antis surgiram na porta e o chamaram.
Cardif, faltam cinco minutos para o término do prazo do ultimato. Ande depressa.
Sabia o que viria depois. Com a maior calma guardou a arma de radiações e aproximou-se dos dois antis.
Aonde vamos? — perguntou em tom de surpresa, ao notar a direção que tomavam.
Um sorriso matreiro surgiu no rosto de um deles.
Não fazemos questão de que Rhodan veja logo que estamos todos procurando a nave, muito embora esta esteja envolta num campo defensivo tão potente quanto o templo.
Uma passagem subterrânea? — seu espanto tornava-se cada vez mais forte. Achava inacreditável que os sacerdotes recorressem a um meio tão primitivo.
Isso mesmo — respondeu o anti que falara em primeiro lugar. — Muitas vezes os meios primitivos são mais eficazes que a tecnologia mais sofisticada.
Thomas Cardif sentiu-se tomado de surpresa. À esquerda do topo da pirâmide do templo, a Ironduke pairava imóvel a cerca de quinhentos metros de altura. Lia-se perfeitamente o nome no envoltório da nave, mas Cardif nem notou esse fato. O que lhe chamou a atenção foi que, nesse couraçado, o aspecto da protuberância equatorial era totalmente diferente.
Que tipo de nave é esse? — perguntou em tom curioso aos dois homens que o acompanhavam.
Estes olharam para o cronômetro e pediram a Cardif que se apressasse.
Não sabiam e liquidaram a pergunta com uma frase banal. Cardif preferiu não formular outras indagações desse tipo. Não sabia dizer por que motivo o aspecto estranho da protuberância equatorial o deixava preocupado.
A pirâmide passou a encobrir progressivamente a Ironduke. Um sacerdote os aguardava junto à entrada do templo que, contrariando todas as normas, estava bem aberta.
Depressa — insistiu este e correu à frente do grupo.
Ao primeiro relance de olhos Cardif viu que também aqui tudo fora destruído. Tudo que se encontrava no gigantesco recinto fora consumido pelo fogo.
Atrás do obelisco metálico, cuja ponta também fora destruída, ficava a entrada para a passagem subterrânea. Uma escada em caracol levava para baixo. Enquanto desciam, Cardif pôs a mão no companheiro ao qual dirigira algumas perguntas no momento que se encontravam à frente da pirâmide.
La-Ger, os ocupantes da Ironduke sem dúvida me reconheceram quando me dirigi ao templo juntamente com vocês. Será que a esta hora não conhecem minha freqüência cerebral?
Um sorriso de superioridade surgiu no rosto de La-Ger.
O senhor se esqueceu de que dispomos de energias mentais que os membros do Exército de Mutantes não conseguem vencer? Nunca mais conseguirão medir sua freqüência ou apoderar-se dos seus pensamentos. A esta hora, já sabemos que Rhodan só está interessado em prender o senhor. Deve ter descoberto, sem dúvida por intermédio dos quarenta e oito terranos que foram libertados por desconhecidos, que foi o senhor quem inventou nosso licor.
Já haviam descido a escada e corriam apressadamente pela galeria retilínea e bem iluminada.
Esse liquitivo é uma droga formidável — respondeu Cardif, com uma expressão furiosa. — Todos os médicos quebrarão os dentes com ela. Daqui a trinta anos não haverá mais um único terrano. O liquitivo pode ser acrescentado a outras substâncias, além do licor. Poderá, por exemplo, ser misturado aos cereais, depois de resolvido um pequeno problema.
Por um instante três antis se esqueceram de que estavam fugindo. Todos eles resolveram avisar imediatamente seu superior sobre a informação que Cardif acabara de fornecer. Perceberam que Thomas Cardif era a melhor arma de que dispunham para atingir seu objetivo secreto, que era o de apoderar-se da herança de Árcon.
Para os antis, aquele homem não passava de um meio de atingir suas finalidades.
Antes dos antis outros seres já haviam pensado da mesma forma, mas subitamente tiveram de perceber que Thomas Cardif era um homem que nunca deixava de dar o devido castigo a quem quisesse abusar dele. Não era apenas arcônida, mas também terrano; e seu pai era o terrano Perry Rhodan.
Uma vez chegados ao fim do corredor, subiram apressadamente pela escada. Uma luz mortiça surgiu acima deles. Ao saírem, notaram que se encontravam embaixo da nave cilíndrica, bem na altura da eclusa da quilha. Paredes de plástico erguidas às pressas evitavam que a eclusa fosse vista.
Um saltador de barba grisalha já os esperava. Parecia impaciente.
Falta um minuto — gritou e empurrou-os para dentro da nave. A comporta fechou-se ruidosamente atrás deles.
O mercador galáctico avisou a sala de comando:
Todos a bordo. Cardif também acaba de chegar.
O anti fitou o jovem comandante da nave saltadora. Este fitou a tela com um sorriso obstinado. Viu o vulto gigantesco da Ironduke, praguejou baixinho e, com uma expressão de ódio no rosto, gritou pelo sistema de intercomunicação:
Todos devem usar os trajes espaciais pesados. Decolaremos dentro de vinte segundos, tempo padrão.
Este aviso fez com que cerca de cento e cinqüenta antis se calassem. Cada um deles liberou as últimas reservas de suas energias mentais, com o objetivo de dar um reforço inconcebível aos campos defensivos da nave cilíndrica.
Os motores pareciam despertar na sala de máquinas. Gigantescos volumes energéticos irromperam na nave, guiados pelo melhor piloto de espaçonave de seu clã. O desempenho dos motores foi aumentando, e dentro do campo de visão da Ironduke, com seus oitocentos metros de diâmetro, uma pequena nave cilíndrica atreveu-se a violar a proibição de decolagem emitida por Rhodan.
Brazo Alkher, oficial de comando de armamentos da Ironduke, ouviu o seu colega que se encontrava na sala de comando, junto ao dispositivo de localização energética, gritar alguma coisa. Ele mesmo já observara o movimento insignificante da nave dos saltadores pela mira ótica.
Alkher não disparou os raios de impulsos, térmicos ou de desintegração. Liberou os fortes raios de tração de cinco torres de canhões. Estes deveriam obrigar a nave cilíndrica a não abandonar o solo desértico. Pretendia arrastar a nave pela superfície e trazê-la para junto da Ironduke.
Com um olhar, leu em dois instrumentos a energia representada pela soma dos cinco raios de tração, mas de repente não acreditava no que seus olhos viam.
A nave dos mercadores estava decolando!
Erguia-se do solo, apesar dos raios de tração. E acelerou como se a tripulação da nave receasse que, daqui a um segundo, o mundo, do qual acabavam de partir, seria transformado num sol.
Não havia mais visibilidade. Os propulsores da nave cilíndrica impeliam milhares e milhares de metros cúbicos de areia e pedra para as camadas inferiores da atmosfera.
O fato não perturbou Alkher. A luz visível representava apenas uma base secundária de sua mira ótica. Com um movimento rapidíssimo bateu na tecla principal. Todas as peças abriram fogo concentrado contra a nave dos saltadores.
De repente, duas usinas energéticas da Ironduke passaram a trabalhar exclusivamente para o setor de armamento. A nave esférica encheu-se com o uivo dos feixes de raios de vários metros de espessura, que cortavam as camadas mais densas da atmosfera de Lepso e desencadeavam um verdadeiro furacão.
Que diabo! — gritou Alkher.
Não compreendia o que estava vendo, A nave mercadora acelerou ainda mais sob o efeito dos raios disparados pela Ironduke. E os raios desintegradores, térmicos e de impulsos não conseguiram romper o campo defensivo do pequeno veículo espacial. Uma gigantesca cascata energética arrebentou-se contra o campo de proteção. De repente, um novo sol parecia ter nascido sobre o grande deserto de Lepso.
Com uma rapidez que quase chegava a equivaler à de um cérebro positrônico, Brazo Alkher percebeu o que estava fazendo com seu bombardeio de radiações. Os tripulantes, que se encontravam nas torres de canhões, acreditaram que tivesse havido um defeito grave na rede energética da Ironduke, pois todas as peças deixaram de disparar de uma só vez.
Brazo Alkher colocara a chave energética principal na posição de desligada.
Não queria que a nave fugitiva obtivesse uma aceleração adicional, graças ao impacto da energia disparada pela Ironduke.
Num raciocínio instantâneo, Alkher avaliara a energia que os grossos feixes de raios liberavam ao esfacelarem-se nos campos defensivos da nave mercadora, reforçados pelas energias mentais de seus ocupantes. Com a mesma rapidez reconheceu que a energia do impacto se transformava num raio de compressão, que representava uma ajuda aos propulsores da nave saltadora, impelindo-a mais rapidamente para o espaço.
Chamando comandante — gritou para dentro do microfone do sistema de intercomunicação de bordo. — Graças ao nosso bombardeio de radiações, a nave fugitiva conseguiu atingir as camadas superiores da atmosfera de Lepso. Ao perceber isso, suspendi o fogo.
Bell, que se encontrava na sala de comando, gritou num misto de fúria e admiração:
Caramba!
Isso mesmo — confirmou Rhodan. — Se os oficiais de armamentos dos nossos supercouraçados não forem tão inteligentes como o nosso, os raios disparados por estes ajudarão os antis a escapar num espaço de tempo incrivelmente reduzido. Alô, sala de rádio. Quero transmitir uma mensagem não codificada a todos os couraçados. A ligação está pronta?
Faixa de freqüência aberta, sir — anunciou a sala de rádio.
Após isso, Rhodan transmitiu o fato, que Brazo Alkher reconhecera numa fração de segundo.
Uma vez concluída a transmissão, sentiu que o Major Claudrin o fitava intensamente. Em tom orgulhoso, o major exclamou:
Na Frota Solar só existe um oficial de armamento que reúna as qualidades de Alkher, sir!
Tinha razão. Um oficial gritou:
A Barbarossa conseguiu atingi-la.
O setor de localização energética confirmou:
Impacto direto. A nave rodopia pelo espaço.
Depois disso não se ouviu mais nada. A Alexander, uma nave da classe Império, atingiu a nave saltadora desgovernada com todas as peças de artilharia. Os impactos diretos deveriam ter rompido qualquer campo energético. Acontece que não romperam coisa alguma. Esfacelaram-se no campo defensivo incrivelmente resistente e absorvente da nave dos mercadores e fizeram com que a nave deixasse de rodopiar e fosse impelida pelo espaço a fora.
O rastreador estrutural da Ironduke registrou um hipersalto.
Não houve possibilidade de determinar o ponto de retorno ao Universo normal. Para Rhodan e Bell, isso não representava nenhum segredo. Sabiam que as energias mentais dos antis eram capazes de absorver um abalo estrutural.

* * *

O Dr. Nearman sobressaltou-se em meio ao seu estado de embriaguez. Fora despertado por um ruído estranho, nunca antes ouvido em TT-1.
Tolice! — disse para si mesmo e voltou a deitar de lado, para entregar-se à primeira “fase vivificadora”, que costumava deleitá-lo sempre que bebia duas garrafinhas de licor no espaço de uma hora. — Que droga maravilhosa!
Não pensou em Perry Rhodan, e nem se preocupou com o fato de que era o único membro da pequena equipe técnica que ainda permanecia em TT-1. Os outros haviam fugido.
Também preparara sua fuga. Pretendia abandonar TT-1, depois de passados os primeiros efeitos da droga, quando então teria forças suficientes para isso.
Continuou na sua modorra, mas voltou a sobressaltar-se com um tinido surdo. Ergueu-se na cama e aguçou o ouvido.
Ouviu o passo pesado das colunas de robôs que marchavam.
O ruído vinha do corredor comprido.
Rhodan”, pensou e levantou-se de um salto.
Havia sobre a mesa uma sacola de plástico com cinqüenta garrafas de liquitivo, além de pílulas nutritivas, cigarros e dinheiro. Pegou tudo e saiu correndo do quarto, dirigindo-se à saída de emergência. Tratava-se de um poço antigravitacional de um metro de diâmetro, que depois de um percurso de oitocentos metros o deixaria sobre o platô, junto ao cume das montanhas de Cif.
Teria de percorrer duzentos metros para chegar ao poço antigravitacional. Acreditava que ainda não havia um perigo mais sério. Por enquanto não demonstrou muita pressa. Mas no momento em que ouviu o passo metálico de um robô, sentiu-se dominado pelo pavor. Quando alguém o chamou e mandou que parasse, nem se atreveu a olhar para trás. Reunindo as energias do desespero, correu em direção ao poço salvador.
Pronto”, pensou ao saltar para dentro do mesmo.
Naquele instante soltou um grito. Fora atingido na coxa por um tiro de radiações. O segundo tiro errou o alvo.
A dor martirizava seu corpo. Teria gritado, se não estivesse sob os efeitos da droga. Graças a esta, o Dr. Nearman conseguiu suportar a dor e, enquanto o campo antigravitacional o levava para cima, examinou o ferimento produzido na parte acima do joelho. Era médico, e por isso sabia que os ferimentos neste lugar facilmente podiam causar hemorragia.
Quase chegou a sentir náuseas, quando notou o que o robô lhe havia feito.
Preciso ir ao planador-relâmpago”, pensou.
O elevador de emergência, construído exclusivamente para servir de caminho de fuga, estava regulado para duas velocidades diferentes. Nos primeiros e nos últimos cinqüenta metros, havia um campo antigravitacional que produzia a velocidade adotada em Árcon. Mas no trecho intermediário, a pessoa que usasse o elevador antigravitacional poderia desenvolver o quádruplo dessa velocidade.
Foi a sorte do Dr. Nearman.
Segurando a sacola de plástico na mão esquerda, arrastou-se até o planador-relâmpago. Teve de reunir as últimas forças para entrar no mesmo. Abriu a gaveta-ambulatório e, ao ver o amplo suprimento de medicamentos, soltou um gemido de alívio. Tratou imediatamente da ferida.
Levou nada menos de uma hora para sentir-se em condições de pilotar o planador. Mantendo-se junto às encostas rochosas de Cif, procurou escapar a Rhodan.
Perry encontrava-se próximo dos gigantescos tanques de TT-1, enquanto os robôs de guerra revistavam todos os cantos do conjunto de cavernas, à procura de gente. A equipe médica da Ironduke tentou a sorte com estranhos instrumentos de controle. Um grupo de engenheiros procurou verificar a quantidade de licor existente no único tanque grande. Todos os tanques por eles verificados estavam vazios.
Chegaram à conclusão de que havia de trinta a trinta e cinco mil litros.
Só isso? — perguntou Rhodan, Realmente não há mais que isso?
Estava rodeado por cerca de cinqüenta homens, que aguardavam suas explicações.
Isso mesmo — principiou. — Infelizmente o fato prova que Lepso não é o principal centro do tráfico de drogas dos antis, mas apenas um local de distribuição. O estoque de liquitivo que encontramos aqui não basta sequer para suprir as necessidades de um dia dos mundos viciados do Império Solar.
O quê? O Império Solar consome trinta mil litros por dia? Trinta mil litros dessa droga? — perguntou o Major Claudrin, apavorado, e recuou um passo.
É mais do que isso, major. Infelizmente é muito mais. Acho que o senhor já compreende quanto lamento não ter achado aqui o centro capital dos traficantes.
Encontravam-se naquele lugar há duas horas, e nessas duas horas Rhodan nunca mencionara o nome de seu filho, nem aludira ao mesmo. Falava exclusivamente nos antis.
Um médico da Ironduke aproximou-se dele.
Sir — anunciou — conseguimos manipular os aparelhos dos antis. Examinamos o liquitivo. Trata-se da mesma substância que é vendida na terra como droga rejuvenescedora.
Não descobriu do que é feita essa substância diabólica, doutor? — perguntou Rhodan.
Cinqüenta pares de olhos ficaram presos ao médico, que balançou lentamente a cabeça.
Não senhor.
Verificou o conteúdo dos tanques menores, doutor? — indagou Rhodan.
Sim senhor. Em todos eles havia apenas alguns litros de entorpecente. Os frascos eram idênticos.
Com isso, Rhodan viu-se obrigado a sepultar mais uma esperança.
Seu minicomunicador chamou. Allan D. Mercant, que se encontrava na Ironduke, queria falar com ele.
O que houve? — perguntou Rhodan para dentro do pequeno microfone e fitou o rosto de Mercant, que aparecia na minúscula tela.
O chefe da Segurança Solar aparentava nervosismo.
Sir — disse com a voz rouca. — Acabamos de receber uma informação transmitida por um dos nossos agentes de Aralon. Há mais de quarenta anos Edmond Hugher estudou na maior universidade de Aralon, por conta dos antis, e conseguiu passar pelos exames finais. Depois da saída de Cardif, os anais da Universidade nunca mais registraram um caso como o dele. Sua especialidade era...
Rhodan interrompeu-o.
Os milhões de viciados sabem disso melhor que nós, Mercant.
Separou-se do grupo e saiu andando. Gucky quis segui-lo, mas Reginald Bell segurou-o.
Fique aqui, pequeno. Num momento como este Perry tem de ficar só.
O que acontecerá agora? — perguntou Gucky, depois que Rhodan se havia afastado.
O que pode acontecer? — respondeu Bell em tom deprimido, contrariando seu temperamento. — Perdemos a pista de Thomas Cardif. Não existe a menor dúvida de que a nave dos saltadores conseguiu escapar. Sou capaz de garantir que em Lepso não encontraremos um único anti.

* * *

Thomas Cardif estava só, no camarote da pequena nave dos saltadores, enquanto o pequeno veículo espacial cilíndrico procurava fixar seu curso entre dois sóis e voava, em direção ao seu destino, a velocidade pouco inferior à da luz.
Sentado na poltrona, Cardif refletia intensamente.
Glima — disse, e só depois disso se deu conta de que pensara em voz alta.
Balançou levemente a cabeça.
Finalmente compreendo por que sempre gostei de resolver palavras cruzadas terranas. Luta islandesa, cinco letras. O nome dessa luta é glima. E meu nome é Thomas Cardif. Thomas Cardif.
Proferiu o nome em voz alta e procurou ouvir o som das palavras. Repetiu mais alto ainda:
Thomas Cardif.
Depois cerrou os punhos e voltou a balançar lentamente a cabeça.










* * *
* *
*












O plano infame dos antis foi descoberto, mas apesar da operação de grande envergadura realizada no planeta Lepso, ainda não se encontrou um meio de extirpar o mal pela raiz.
Na Pista dos Antis, título do próximo volume da série, as buscas continuam...

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