— Ouçam,
meus amigos — disse Rhodan, fitando seus mutantes um por um. —
Ninguém pôde saber onde se encontra Thomas Cardif? O rastreador
individual deve facilitar a determinação da direção e...
— O
senhor parte de um falso pressuposto, sir — interrompeu Marshall. —
O rastreador individual é apenas um amplificador de potência. Traz
para junto de nós os impulsos mentais, mas não indica a direção
da qual estes provêm. A antena esférica de cristal não tem
capacidade para isso. A determinação só pode ser realizada por
nós, desde que disponhamos de um tempo mínimo. Infelizmente, no
momento, não dispomos desse tempo...
— Pois
eu sei — piou o rato-castor, para surpresa de todos. — Neste
momento tomei consciência disso. A direção do impulso cerebral é
a seguinte: nor-noroeste, isso naturalmente se meu senso de
orientação não me tiver pregado uma peça.
Rhodan
chamou a sala de comando, a fim de saber o que ficava na direção
nor-noroeste.
O
computador positrônico da Ironduke forneceu a resposta. Depois de
alguns segundos, a voz metálica disse:
— Tu-Ki,
uma cidade de trinta mil habitantes; o lago Frugid, com uma área de
duzentos e dez quilômetros quadrados. Depois vem a grande cadeia de
montanhas de Glogu, e a seguir o extenso deserto. Após isso temos as
montanhas de Cif, que dividem o deserto em dois. A quinhentos e
dezoito quilômetros dali, começa a selva de Morw...
Rhodan
teve a impressão de que as informações que acabara de ouvir já
bastavam. Quando o computador positrônico da nave mencionou o templo
de Baalol, notou-se um ligeiro estremecimento em todas as pessoas que
se encontravam na sala de comando.
— Esses
bandidos! — piou Gucky em tom ameaçador.
A tela do
sistema de intercomunicação de bordo voltou a iluminar-se. O rosto
de Julian Tifflor apareceu.
No momento
em que viu esse rosto, Rhodan já sabia qual era a informação que
lhe seria fornecida por Tifflor.
— Sir,
mais de oitenta antis escaparam. Não conseguimos prender um único
anti-mutante no escritório dos saltadores. Fugiram na direção
noroeste, utilizando quatro planadores. Três tiros de radiações da
Ghandi atingiram o alvo em cheio, mas não tiveram força para romper
os campos defensivos.
— Tiff —
disse Rhodan para consolá-lo. — Apesar de tudo, sua ação foi
coroada de êxito. Esse êxito reside na informação de que os antis
fugiram na direção noroeste. Foi o maior favor que os antis
poderiam nos ter feito.
Ao
desligar, virou-se para seus telepatas.
— Quero
que façam mais uma tentativa conjunta de localizar a freqüência
cerebral de Thomas Cardif. Usem o rastreador individual.
Perry
Rhodan nem desconfiava quais seriam as conseqüências dessa ordem...
*
* *
Os antis,
que se encontravam no templo de Baalol em Lepso, não demonstraram o
menor pânico quando, graças às suas energias mentais, perceberam
que certas forças parapsíquicas se estendiam em sua direção.
Tu-Poé —
há anos o elemento que mantinha contato mais estreito com o Dr.
Edmond Hugher — sobressaltou-se, saiu correndo e entrou
apressadamente no laboratório, onde Hugher realizava seus trabalhos
científicos sem desconfiar de nada.
O doutor
estivera pensando num catalisador. Quando viu Tu-Poé entrar com
tamanha pressa, estremeceu.
— O que
houve, Tu-Poé? — perguntou, lançando-lhe um olhar sonhador.
— Não
houve nada — respondeu o fanático. — Apenas acontece que a
instabilidade das condições reinantes neste mundo nos obriga a
evacuar o templo e abandonar Lepso.
Enquanto
falava, desdobrou suas antienergias e envolveu o cérebro de Hugher
num círculo impenetrável, que frustraria qualquer tentativa de
detectar os pensamentos do cientista.
— Será
que eu tenho algo com isso? — perguntou Hugher, em tom indiferente.
— Vamos
combinar uma coisa — disse Tu-Poé, desconversando. — Peço-lhe
que deixe seu trabalho e venha comigo. Daqui a pouco, cada minuto
poderá ser precioso, e por isso não quero que meus irmãos tenham
de esperar-nos por muito tempo.
Acontece
que o Dr. Edmond Hugher era um homem sonhador e pacato. Não sabia o
que era pressa. Afastou os papéis que estivera examinando, olhou em
torno e, só depois disso, levantou-se devagar.
— Por
favor, Tu-Poé, não corra — pediu com um sorriso e seguiu-o com os
passos tranqüilos.
Uma
expressão de raiva incontida chamejou nos olhos do fanático. Virou
a cabeça para o lado, para que Hugher não pudesse notar a expressão
de cólera. Saíram juntos da ala dos laboratórios, atravessaram o
pátio do templo com seus edifícios alongados e dirigiram-se à
pirâmide que sobrepujava tudo, destacando-se das outras construções
graças ao estilo e ao tamanho imponente.
Enquanto
flutuavam no interior do elevador antigravitacional, em direção ao
terceiro pavimento da pirâmide, o Dr. Hugher perguntou:
— Por
que não nos retiramos para a estação TT-1, situada nas montanhas
de Cif? Dificilmente Rhodan poderá incomodar-nos lá.
O anti
conteve-se de forma magistral. Subitamente, uma terrível suspeita
surgiu em sua mente. Preferiu não encarar o cientista e, para
esquivar-se à pergunta, disse:
— O
Conselho decidiu abandonar Lepso.
Saíram
juntos do poço do elevador, entraram no corredor largo e caminharam
em direção à porta, atrás da qual ficava o salão onde os antis
costumavam realizar as grandes reuniões.
Com uma
expressão de perplexidade, Edmond Hugher fitou os exaltados servos
de Baalol. Ele — um sonhador sempre sorridente, que não se abalava
com nada — não compreendia os servos de Baalol, que neste momento
estavam reunidos em grupos e discutiam animadamente. Voltou-se para
ver Tu-Poé, mas seu companheiro havia desaparecido:
Naquele
instante, o fanático se encontrava à frente do servo supremo do
templo e cochichava-lhe algumas informações importantes.
— O quê?
— perguntou este, evidentemente assustado.
— Isso
mesmo — confirmou Tu-Poé. — Era apenas uma suspeita, senhor. Eu
deveria ter dito muito antes. O fato é que só tive certeza agora,
quando os mutantes de Rhodan procuraram atingir o conteúdo da mente
de Hugher.
O
velhíssimo anti, que era um homem de olhar astucioso e rosto coberto
de rugas, estreitou os olhos.
— Tu-Poé,
acho que não será difícil modificar a freqüência cerebral de
Hugher. Com isso os impediremos que voltem a localizá-lo. E a
modificação forçada da freqüência nos permitirá verificar se as
suspeitas têm fundamento. Mas será que nos resta tempo para isso?
Pouco antes de você entrar, o escritório nos transmitiu a
informação de que nossos irmãos tiveram de fugir dos robôs de
Rhodan. Foi só graças às suas energias que conseguiram sobreviver
ao impacto de um tiro disparado por um pesado canhão de radiações.
Deverão chegar dentro de poucos minutos.
O pânico
apoderou-se de Tu-Poé.
— Senhor,
vemo-nos obrigados a agir o mais rápido possível. Por enquanto
Hugher é um elemento insubstituível.
O velho
anti respondeu com uma tranqüilidade quase estóica a essa
manifestação de pressa histérica.
— Cometemos
um erro. Aquele homem nunca deveria ter-se tornado insubstituível
para nós. Por que Loó-o não nos informou a este respeito, se é
que suas suspeitas são fundadas?
— Senhor,
Loó-o morreu inesperadamente. E ele não tinha nenhum amigo íntimo
entre os servos de Baalol... Mas o erro não foi meu, senhor.
A última
frase foi proferida em tom de súplica.
O velho
decidiu imediatamente. Notou que o cientista se aproximava do lugar
em que se encontrava. Quase não moveu os lábios ao transmitir suas
instruções aos companheiros:
— Coloquem
Hugher sob o modificador de freqüência e verifiquem se a suspeita
de Tu-Poé é correta.
Naquele
instante, os telepatas de Rhodan estavam fazendo mais uma tentativa
de, em meio a bilhões de freqüências, localizar os impulsos
mentais de Edmond Hugher, ou melhor, Thomas Cardif.
O velho
ficou estupefato. Concentrou suas energias mentais exclusivamente nas
freqüências da busca realizada pelos terranos. Enquanto isso seus
companheiros, inclusive Tu-Poé, envolveram o cérebro de Hugher numa
barreira que se tornou tão forte que nem mesmo os impulsos mais
potentes conseguiriam rompê-la.
— Façam
a modificação imediatamente — ordenou o velho.
Seus
lábios murchos estavam reduzidos a um traço fino.
De
repente, Edmond Hugher viu-se cercado por sacerdotes. Já desconfiara
da conduta estranha de Tu-Poé. Quando tentaram levá-lo com gestos
suaves, mas irresistíveis, ofereceu uma resistência que
correspondia aos seus modos pacatos.
— Tu-Poé,
poderia fazer o favor de explicar o que significa isso? —
perguntou, lançando um olhar sonhador para o anti.
— Mais
tarde, Hugher; deixemos isso para mais tarde. Está correndo um
grande perigo. Eu sei, mas o senhor não sabe. Mas está ciente de
que os impulsos mentais de qualquer criatura podem ser violentados
por meio de forças parapsicológicas. Deseja que a espada
chamejante, que o senhor colocou nas mãos de Baalol, seja roubada
por Rhodan, o terrano?
Enquanto
Hugher caminhava pelo espaçoso corredor, acompanhado por oito antis,
fez um gesto afirmativo. Um sorriso contemplativo surgiu em seu
rosto.
— Então
Rhodan quer arrancar-me o segredo do licor? Que coisa! De repente
fiquei interessado em descobrir se Baalol é mais poderoso que esse
terrano agressivo. Por isso estou perfeitamente disposto a fazer
qualquer coisa que possa impedir Rhodan de apoderar-se do que eu sei.
O Dr.
Edmond Hugher nem desconfiou do alívio que suas palavras provocaram
nos antis que o acompanhavam.
A terrível
suspeita de Tu-Poé transformou-se em certeza. Rogou pragas contra os
arcônidas de Árcon, que há cinqüenta e oito anos haviam espalhado
pelo grande império a notícia de que o filho de Perry Rhodan
sofrera um acidente que afetara gravemente seu cérebro, motivo por
que seria duvidoso que jamais viesse a recuperar a plenitude de suas
faculdades mentais.
Acreditaram
nessa informação, e julgaram que esse fato tivesse causado as
espantosas modificações que se verificaram com Hugher, enquanto
este convalescia de sua doença.
Todos
acreditaram nisso, inclusive os antis.
Um deles,
porém, devia ter conhecido a verdade, ou ao menos desconfiado da
mesma. Era Loó-o.
Por que
motivo Loó-o não teria transmitido aos outros aquilo que sabia?
Será que desejava que o filho de Rhodan devesse concluir seus
estudos de Medicina em Aralon, para somente depois disso tomar
conhecimento de quem era seu pai? Será que a morte inesperada de
Loó-o representava uma interferência do destino, que conduzia o
plano há tanto tempo preparado para um objetivo totalmente diverso?
Tu-Poé
sentiu uma exaltação selvagem ao entrar, juntamente com seus irmãos
e com Hugher, na sala misteriosa da pirâmide que servia de templo.
Quando
pediram a Edmond Hugher que tomasse lugar na poltrona destinada às
intervenções psíquicas, os antis demonstraram uma pressa que nunca
antes haviam revelado. O cientista sentiu-se cada vez mais assustado
com a preocupação dos antis. Sentia que, atrás de seus atos, havia
algo que ainda não lhe tinham revelado. Mas toda desconfiança, que
nasceu em seu interior, foi afastada em virtude da gratidão que
sentia pelo culto, pois os adeptos de Baalol o haviam ajudado a
abandonar o planeta Zalit e, com isso, o ambiente desgastado dos
arcônidas decadentes.
Deixou que
o atassem à poltrona. Dois contatos metálicos redondos e flexíveis
foram colocados em suas têmporas, enquanto um terceiro pólo se
prendia no peito, sobre o coração. Edmond segurava dois reluzentes
objetos metálicos, de formato cônico. De repente, suas mãos foram
cingidas por travas que lhe impediam qualquer movimento.
Um
conversor começou a zumbir às suas costas. Além de Tu-Poé havia
mais dois antis junto à mesa de comando. Tu-Poé regulou o aparelho.
O zumbido tornou-se mais forte. O Dr. Edmond Hugher acompanhava todos
os movimentos com um sorriso. Não percebeu qualquer modificação em
sua mente. Aos poucos os contatos metálicos colocados nas têmporas
passaram a adaptar-se à temperatura de seu corpo.
De
repente, o mundo desmanchou-se à sua frente.
A última
coisa que percebeu foi um raio fulgurante, que seus pensamentos
compreenderam, mas seus olhos não viram.
Tu-Poé
parecia estarrecido à frente do quadro de comando. Mantinha os olhos
presos num diagrama. A grande curva, que se apresentava com uma
extraordinária nitidez, formava um estranho ângulo na parte
inferior.
— Está
bloqueado! — exclamou Tu-Poé, em tom exaltado.
O rosto do
fanático adquiriu uma expressão diabólica.
— Sua
personalidade foi bloqueada. Não sabe que é filho de Rhodan. Chamem
o Senhor!
A última
frase foi proferida num grito, enquanto o zumbido do conversor se
tornava cada vez mais forte e três aparelhos blindados emitiam
estalos, ruídos estes que não conseguiram superar o uivo repentino
de outro aparelho...
Os passos
do anti, que apressou-se em ir chamar o velho, submergiram em meio a
esse ruído.
A atitude
rígida de Tu-Poé não durou muito.
Revelando
pânico, realizou exames de controle. Tal qual um comandante de
espaçonave, cujo veículo estelar se achasse envolvido numa batalha,
transmitiu uma ordem após a outra. Novos aparelhos foram ligados. Um
som retumbante começou a encher o recinto.
O Dr.
Edmond Hugher estava inconsciente na sua poltrona.
Finalmente
chegou o velho, o chefe supremo dos antis do templo de Baalol,
construído em Lepso. Tu-Poé só compreendeu quem se encontrava a
seu lado quando notou que alguém procurava afastá-lo.
— Faça
o favor de não me perturbar, senhor — pediu.
O velho
obedeceu. Contentou-se em olhar por cima do ombro de Tu-Poé. Seu
comportamento constituía prova evidente da importância que Edmond
Hugher assumia para os antis.
O
identificador de bloqueios foi posto a funcionar. Tu-Poé em pessoa
manipulou os controles. Os impulsos desse aparelho passaram a tatear
o cérebro de Hugher, a fim de localizar o bloqueio hipnótico e
verificar suas influências sobre as áreas adjacentes.
O
cientista, que continuava inconsciente em sua poltrona, não tinha a
menor idéia de que estava passando pela hora mais perigosa de sua
vida. Um único erro na manipulação dos controles ou na
interpretação dos resultados do identificador de bloqueios faria
com que, ao despertar, estivesse reduzido a uma ruína espiritual.
O rosto
fanático de Tu-Poé não via outra coisa, senão os ponteiros
oscilantes dos instrumentos, a rotação da escala colorida, que
retratava os resultados das medições, e os dois diagramas
comparativos. O diagrama da esquerda indicava a força do bloqueio a
que Hugher estava submetido, enquanto o da direita indicava, em forma
de curva, o volume de energia que se tornaria necessário para romper
esse bloqueio.
Na
extremidade inferior do pequeno quadro de comando, via-se o
instrumento de mira. Tratava-se de uma espécie de dispositivo de
freqüência ótica, que permitia o ajustamento dos raios de ruptura
com a precisão de uma fração de milímetro, fazendo com que os
tais raios atingissem a área de bloqueio existente no cérebro de
Hugher, mas não certos pontos vitais.
O tempo
parecia correr vertiginosamente, embora, na verdade, só se tivessem
passado alguns minutos. Tu-Poé voltou a verificar todas as
regulagens do identificador de bloqueio. Momentos depois respirou
profundamente e acionou a chave principal.
Às suas
costas, um homem soltou um berro. Aquele grito não tinha nada de
humano. Tu-Poé e os outros antis viraram-se imediatamente, tomados
de pânico.
Os olhos
de mestiço do Dr. Edmond Hugher faiscavam.
Num gesto
instintivo, Tu-Poé recolocou a chave principal na posição zero.
Nem se deu conta disso. Resolveu certificar-se. Virou o rosto e
sentiu-se aliviado ao notar que o identificador de bloqueios já não
estava funcionando.
— Soltem-me!
— disse uma voz enérgica de comando, habituada a ver suas ordens
cumpridas, fazendo-se ouvir por toda a sala.
Os antis
fitaram o cientista, perplexos.
O que era
feito do sorriso sonhador de Edmond Hugher? E de sua modéstia? Onde
estava aquela calma inabalável?
— Caramba!
Vão soltar-me ou não? — gritou.
Os antis
mantiveram-se imóveis.
A pessoa
sentada na poltrona-psíquica era um estranho. Quem fora amarrado a
ela havia sido o Dr. Edmond Hugher. E agora um homem, cujo rosto se
modificava a cada segundo que passava, sacudia furiosamente os
grampos que o prendiam à poltrona. A expressão macia e indiferente
de seu rosto foi desaparecendo, sendo substituída por traços que
revelavam uma vontade inflexível.
— Soltem-me!
A voz
tilintava como gelo. Seus olhos cintilavam. A expressão de seu olhar
possuía certa força hipnótica.
— Tu-Poé,
será que tenho que ordenar mais uma vez que me soltem? — gritou
Hugher.
Tu-Poé
aproximou-se da poltrona. Acionou a chave. Os grampos abriram-se, e
Hugher levantou-se sem dizer uma palavra.
A placa
metálica, que se encontrava na altura de sua cabeça, refletiu seu
rosto. Hugher estremeceu como se tivesse levado uma pancada. Pôs as
mãos no rosto e apalpou-o com as pontas dos dedos.
— Será
que sou eu? O que você fez de mim, Rhodan? Primeiro matou minha mãe,
e depois roubou cinqüenta e oito anos de minha vida.
Virou-se
lentamente e fitou os antis que o cercavam, perplexos. Citou o nome
de cada um. O último a quem se dirigiu foi Tu-Poé.
— Estou
lembrado de tudo, Tu-Poé. Ainda me recordo do dia em que você
apareceu pela primeira vez em Aralon e me fez uma visita. Sei tudo
que aconteceu nos últimos cinqüenta e oito anos e não me esqueci
do que aconteceu antes e de quem eu sou.
“Meu
nome é Thomas Cardif. Minha mãe foi Thora, uma princesa arcônida.
E Rhodan, esse terrano sem escrúpulos, foi quem me gerou e quem
assassinou minha mãe. Basta. Vocês já sabem tudo a meu respeito.”
Voltou a
fitar a placa reluzente, e, mais uma vez, Cardif viu-se refletido.
Sentiu-se um estranho.
— Você
me transformou numa figura ridícula, Rhodan. Ainda terá a paga por
isso.
Enquanto
falava, fitou seu corpo.
— Meu
corpo não sofreu grandes modificações.
— Mas
seu rosto, Hugher, alterou-se bastante, depois que o bloqueio foi
rompido! — exclamou Tu-Poé, sentindo-se possuído de uma exaltação
fanática.
— Meu
nome é Cardif, Tu-Poé — retificou o filho de Rhodan, em tom
áspero. — E agora? Vamos esperar até que Rhodan e sua frota
apareçam por aqui e nos obriguem a pôr as mãos para o alto?
Os antis
tiveram dificuldades em adaptar-se dentro de poucos minutos à nova
personalidade de Edmond Hugher, ou melhor, de Thomas Cardif. E
acharam ainda mais difícil acreditar que não se tivesse importado
com nada do que lhe acontecera nos últimos cinqüenta e oito anos.
O velho
quis ter certeza sobre certo ponto.
— Cardif,
o senhor sabe o que criou por gratidão pelo Baalol?
— Por
gratidão? Ah, sim, é verdade, senhor — refletiu ligeiramente e
entesou o corpo, mostrando pela primeira vez seu porte altivo. —
Mas agora exijo que a espada flamejante me seja devolvida, senhor.
Com o auxílio de Baalol, quero brandi-la contra o Império Solar, de
tal forma que o mesmo fique reduzido a um bando de furiosos viciados.
Os mundos coloniais terranos foram inundados de liquitivo, enquanto
Rhodan retirou suas espaçonaves de todos os lugares e fez sua frota
pousar em nosso planeta?
Uma vez
libertado seu espírito da personalidade artificial que lhe foi
imposta, a herança do pai voltou a manifestar-se. Quase chegara a
equivaler a Rhodan em termos de estratégia e planejamento. Por mais
de uma vez colocara o Império Solar em crises gravíssimas, e,
nestas oportunidades, quase sempre conseguiu anular, por meio de
manobras hábeis, as medidas defensivas adotadas por Rhodan.
O velho
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Um sorriso
de desprezo surgiu no rosto de Cardif.
— Quer
dizer que a resposta é não? Não aproveitaram a maior chance que já
tiveram? Mas ainda está em tempo de aproveitá-la. Transmitam uma
ordem para que os mundos coloniais do Império Solar sejam inundados
de licor liquitivo. Dêem a droga de presente aos terranos que
anseiam pela juventude eterna. Será que vocês ainda não
compreenderam que estamos prestes a perder uma rara oportunidade?
Havia
muita persuasão em sua voz, mas seus gestos eram comedidos. Depois
de despertar de uma hipnose parcial que durara cinqüenta e oito
anos, Thomas Cardif voltara a transformar-se no inimigo implacável
de seu pai.
Odiava-o
mais que nunca, votava-lhe um desprezo que jamais sentira. No momento
em que acordou, jurara que faria Rhodan pagar pelos quase seis
decênios de vida que lhe foram roubados.
Tu-Poé
estremeceu ao ver que Cardif se colocou à sua frente.
— Tu-Poé,
por que fui colocado na poltrona-psíquica?
A
expressão coercitiva dos olhos avermelhados de Cardif obrigou o anti
a falar.
O filho de
Rhodan não deu mostras da surpresa de que se sentia possuído. Só
depois que o anti concluiu sua fala, manifestou-se.
— Quer
dizer que ele ainda dispõe do Exército de Mutantes? Tu-Poé, a
freqüência dos meus impulsos mentais foi ou não foi alterada?
O
sacerdote não pôde deixar de confessar que ignorava isso.
Thomas
Cardif deu três passos largos e voltou a acomodar-se na poltrona.
— Realize
o controle, Tu-Poé!
Dois
sacerdotes aproximaram-se apressadamente e voltaram a colocar os
contatos em Cardif. Subitamente tinha-se a impressão de que naquela
sala, não muito grande, havia apenas uma pessoa capaz de dar ordens:
Thomas Cardif.
Dali a
alguns minutos constatou-se que sua freqüência cerebral sofrera uma
minúscula alteração em virtude do afastamento forçado do bloqueio
hipnótico.
— Obrigado
— disse ao levantar-se da poltrona.
Um sorriso
de triunfo surgiu em seu rosto. Os telepatas pertencentes ao Exército
de Mutantes de Rhodan já não estariam em condições de
localizá-lo. Bastava uma alteração de freqüência correspondente
a uma vibração por período, para fazer com que seus impulsos
mentais submergissem no oceano de bilhões de irradiações.
— Rhodan!
— pronunciou este nome com um sorriso, pois lembrava-se da droga
rejuvenescedora biológica, do seu liquitivo.
Mas seu
triunfo fora de curta duração.
Os
elementos da Frota Solar ainda não tiveram tempo de ocupar todas as
emissoras de Lepso. Uma delas transmitiu a notícia de que as
unidades dos superpesados, que haviam rompido o bloqueio e se
dirigiam a Lepso, foram obrigadas a fugir dos supercouraçados de
Rhodan.
Outra
notícia dizia que uma nave esférica do Frota Solar decolara da
capital, em direção ao templo de Baalol.
Quando o
sistema de intercomunicação do templo transmitiu a notícia de que
os antis que haviam fugido do escritório dos saltadores, acabavam de
pousar junto ao templo, a voz exaltada do locutor lepsonense ainda
não havia silenciado. Vinham em quatro planadores-relâmpagos.
O velho
ordenou a fuga.
— Um
momento! — ordenou Cardif, em tom enérgico. Não lhe restava nada
daquele sorriso sonhador que exibira quase durante seis decênios. —
Não temos pressa. Será que ainda não conhecem Rhodan? Não
estudaram sua personalidade? Antes de dar ordem para abrir fogo
contra o templo, ele nos dará um ultimato. Mesmo que esse aviso só
nos conceda um prazo de trinta minutos, este prazo será suficiente
para destruir tudo que há de importante por aqui e preparar nossa
fuga.
Os antis
fitaram-no com uma expressão de surpresa. Sua mente ainda não se
adaptara ao fato de que Edmond Hugher, sempre sorridente e sonhador,
se transformara no estrategista Thomas Cardif, que era um homem
genial como seu pai.
5
A Ironduke
pairava menos de dez metros acima da praça situada no bairro
administrativo. Seus motores a jato uivaram. A nave com seus
oitocentos metros de diâmetro foi acelerando cada vez mais, atingiu
a altitude de três mil metros e tomou o curso nor-noroeste.
Dirigia-se ao templo de Baalol, no deserto pedregoso.
A segunda
e última tentativa de localizar Thomas Cardif por meio do rastreador
individual fracassara. Nem mesmo Perry Rhodan desconfiava das
conseqüências que resultariam dessa segunda tentativa, e da perda
de tempo causada pela mesma.
Voltou à
sala de comando da nave e acomodou-se ao lado de Bell. O
hiper-receptor acabava de transmitir a notícia de que a frota dos
superpesados, formada por mais de seiscentas naves, acabara de fugir.
Após
isso, uma tranqüilizadora mensagem robotizada chegou do círculo de
bloqueio. Contrariando as expectativas de
Rhodan, os
reforços haviam vindo antes do tempo. Eram três mil, duzentos e dez
cruzadores pesados tripulados por robôs. Estes seriam capazes de
rechaçar qualquer atacante.
Rhodan
notou o olhar preocupado de Bell.
— Nada —
disse. — Só conseguimos estabelecer um contato ligeiro com Cardif.
Os antis devem ter percebido imediatamente, e por certo lançaram mão
de suas energias mentais, a fim de proteger os impulsos de Cardif.
— É só
isso? — perguntou Reginald Bell, em tom enfático.
Rhodan
disse que não.
— Fellmer
Lloyd continua a afirmar que o bloqueio de Cardif continua forte como
antes.
A Ironduke
arrastava-se na direção nor-noroeste a uma velocidade pouco abaixo
à do som. A pequena altitude, a nave esférica de oitocentos metros
de diâmetro não poderia desenvolver velocidade maior, pois, do
contrário, o deslocamento de ar provocado pelo seu volume causaria
danos gravíssimos na superfície de Lepso.
O Major
Jefe Claudrin sabia como o chefe pensava a este respeito, e por isso
nem pensava em ultrapassar a velocidade do som, antes de alcançar o
deserto.
Mais uma
vez, a nave esférica sobrevoou um gigantesco porto espacial, cujo
campo de pouso estava repleto de veículos cósmicos de todos os
tipos. Naquele momento, um número inacreditável de espaçonaves
estava preso em Lepso. Calculava-se que a quantidade total oscilava
entre quatro mil e quinhentas e cinco mil e quinhentas unidades. Esse
fato tornava patente a importância de que o planeta Lepso assumia
como entreposto comercial galáctico, e tornava compreensível, em
parte, a exaltação que a operação desencadeada por Rhodan
provocara em muitos dos habitantes da Via Láctea.
Acontece
que essa exaltação fora provocada deliberadamente. Isso resultava
não só da interpretação dos dados, realizada pelo computador
positrônico, como também da fuga de oitenta antis, que se
encontravam no escritório de um clã dos saltadores.
Bell fitou
o amigo, totalmente perplexo. Então Thomas Cardif ainda se acharia
sob os efeitos do bloqueio hipnótico que lhe fora aplicado em Árcon,
a fim de evitar que continuasse a ser um elemento perturbador da
ordem na Galáxia?
— Perry
— disse o gorducho, procurando falar baixo. — Se é assim, não
compreendo como foi que ele deixou o planeta Zalit. E, se é verdade
que ainda está bloqueado, poderá ele ser responsabilizado,
plenamente, pela invenção do entorpecente?
Rhodan
manteve-se calado. Não revelou a agitação que o revolvia. Estava
com medo.
Pensou no
que aconteceria se os antis descobrissem que Cardif estava bloqueado,
e ainda pensou nas possíveis conseqüências dessa descoberta, se os
antis liberassem Cardif do bloqueio hipnótico.
Nesse
caso, depois de quase sessenta anos de calma enganadora, as coisas
não seriam piores que antes?
— Por
que não responde, Perry? — insistiu Bell.
Sem
querer, o vice-administrador olhou para a grande tela de visão
global da Ironduke e notou que a nave sobrevoava uma cidade não
muito grande, junto à qual se estendia um imenso lago.
O nome da
cidade era Tu-Ki, e os lepsonenses costumavam chamar o lago de
Frugid. Tu-Ki era o último núcleo populacional, depois vinha o
templo de Baalol. Entre a cidade e o local de culto dos antis só
havia as montanhas de Glogu e uma parte do grande deserto.
— Bell,
não posso responder. Quero formular uma pergunta. Admitamos que os
antis descubram o bloqueio hipnótico de Thomas e o removam. O que
pensará meu filho a meu respeito, se depois de cinqüenta e oito
anos subitamente voltar a ser o homem que foi desde o tempo de
cadete? Não verá nos meus atos uma prova de que realmente causei a
morte de Thora?
Enquanto
Rhodan falava, Bell levantou-se de um salto e colocou-se atrás do
Major Claudrin.
— Jefe,
por que não voa mais depressa? Será que temos de continuar a
arrastar-nos? — perguntou em tom áspero.
O
epsalense apontou com a maior tranqüilidade para a tela, na qual se
via o lago Frugid e alguns navios que singravam o mesmo.
— Quer
que faça virar esses navios, mister Bell? — perguntou Claudrin,
com sua voz potente.
A sala de
rádio transmitiu uma notícia. O Coronel Myler, que chefiava o
terceiro círculo de naves, avisou que, apesar de todos os controles,
três aparelhos espaciais dos saltadores haviam conseguido decolar de
Lepso.
— Quando
nós as atacamos, uma das naves explodiu. As outras duas capitularam.
Enviamos comandos de robôs para tomarem conta das mesmas. A carga
dessas naves consiste em liquitivo. Os robôs foram programados para
fazer pousar as naves cilíndricas no porto espacial, entre nossas
naves. Fim da transmissão.
Bell
voltou a sentar-se ao lado de Rhodan. O amigo continuava imóvel em
sua poltrona. Seus olhos pareciam vagar pelo infinito.
— Você
também não diz mais nada, Bell!
Foi só, e
foi uma constatação. Reginald Bell não tinha o que dizer. Milhares
de indagações atropelavam-se em sua cabeça, e todas elas giravam
em torno de Thomas Cardif. Também, para ele, a indagação principal
era a seguinte: O que pensará Thomas a respeito do pai, quando
despertar da hipnose depois de seis decênios?
Nem um nem
outro desconfiava de que poucos minutos antes, Thomas Cardif já
respondera a esta indagação.
*
* *
O
alto-falante do intercomunicador instalado na sala de comando da
Ironduke mal pôde absorver o grito do oficial de plantão na sala de
rádio.
— Sir,
acabamos de captar e decifrar mensagem dos antis. Trata-se de uma
hipermensagem dirigida a uma estação receptora desconhecida. Todos
os planetas coloniais terranos devem ser inundados de liquitivo. O
entorpecente será entregue gratuitamente.
Enquanto a
mensagem era transmitida, Rhodan estendeu a mão em direção de
Bell, como se pedisse socorro. Ninguém vira esse movimento
instintivo. Ninguém ouviu Rhodan cochichar ao ouvido do amigo:
— É o
primeiro lance tático de Cardif! Bell, ele voltou. Eu o sinto.
É
verdade, ia dizer Bell, mas naquele momento o ar tremeluziu à sua
frente e o rato-castor materializou-se. Não exibia o dente roedor. O
pêlo ruivo parecia fosco, o que era um sinal de excitação.
Os
oficiais na sala de comando da Ironduke ainda se esforçavam para
digerir a terrível notícia de que os mundos coloniais terranos
seriam inundados com entorpecente. De repente Gucky piou:
— Deixe-me
saltar! Eu o trarei, nem que esteja cercado por mil antis.
Referia-se
a Thomas Cardif. Mais uma vez, o rato-castor se introduzira nos
pensamentos de Rhodan e Bell, sem que ninguém o percebesse. Suas
palavras representavam uma confissão de tal ato e, ao mesmo tempo,
explicavam por que, um pouco antes, se teletransportara para o
interior da sala de comando.
Rhodan
colocou a mão sobre a cabeça de Gucky. O homem mais poderoso do
Império Solar dedicou-lhe um sorriso martirizado. Balançou a cabeça
de forma quase imperceptível. O brilho dos olhos do rato-castor
apagou-se. Mais uma vez aquele “sujeitinho”
lera os pensamentos de Rhodan e compreendera que sua idéia era
inexeqüível.
Não
considerara as forças dos antis. Graças às suas faculdades
mentais, estes estavam em condições de reforçar de tal forma
qualquer campo defensivo artificial, que nem mesmo um tiro de
radiações energéticas conseguiria rompê-lo. A teleportação de
Gucky terminaria fatalmente diante desses campos defensivos, e ele
seria atirado de volta ao ponto de partida.
— Esses
antis — gritou Bell, praguejando.
Rhodan não
reagiu à irrupção de Bell, e Gucky, que sempre se divertia com as
saraivadas de insultos do gorducho, manteve-se em silêncio.
Com um
olhar para a tela de visão global da Ironduke, Perry Rhodan
constatou que a nave linear estava acabando de atravessar o lago. A
margem oposta surgiu com suas construções pomposas e avançava
incessantemente em direção ao centro da tela, enquanto as primeiras
montanhas do complexo de Glogu surgiam na extremidade superior.
O Major
Claudrin inclinou-se ligeiramente na poltrona e mexeu nos comandos
dos motores a jato. Estes uivaram no interior da protuberância
equatorial da nave e finalmente imprimiram-lhe maior velocidade.
Rhodan
levantou-se e dirigiu-se ao aparelho de intercomunicação, que
ficava ao lado de Claudrin. Chamou Allan D. Mercant, chefe do Serviço
de Segurança Solar.
— Mercant,
temos um grande número de agentes em Lepso. Ainda na Terra, dei
ordem a esses homens para que concentrassem suas atividades
objetivando localizar o Dr. Edmond Hugher. Por que não obtive
informações a este respeito, marechal solar?
Sempre que
Rhodan falava dessa forma e usava esse tom de voz, lembrava o
relampejar que anunciava uma trovoada. Apesar da recriminação, o
rosto de Mercant na tela não revelava a menor insegurança.
— Só
recebi informações falhas, sir. Propositadamente deixei de
transmitir-lhe as notícias que recebia dos meus agentes, já que os
mesmos confessavam invariavelmente que, durante as operações
destinadas a localizar o doutor Hugher, ou melhor, Thomas Cardif,
foram iludidos por meio de informações deliberadamente espalhadas
por alguém. Se Thomas Cardif realmente se encontrar no templo de
Baalol, não existe a menor dúvida de que as tentativas de iludir
nossos agentes foram bem-sucedidas.
— Marechal
solar — respondeu Rhodan depois de uma pausa, com uma rispidez
inconfundível na voz. — Da próxima vez, também quero ser
informado sobre os fracassos da Segurança Solar. Desligo.
Rhodan
voltou a olhar para a tela de visão global. Nesse meio tempo,
Claudrin devia ter aumentado a velocidade da Ironduke para cerca de
dois mil quilômetros por hora. A cadeia de montanhas desaparecera.
Abaixo da nave estendia-se a desolação do grande deserto de Lepso,
que era um oceano de areia e pedra, interrompido constantemente por
montanhas achatadas.
— Sir! —
soou a voz do oficial do setor de localização energética. — Sir,
talvez eu esteja enganado, mas os dados que consegui obter me levam a
supor que junto ao templo de Baalol acha-se pousada uma espaçonave
que, neste momento, está aquecendo seus motores.
Para Bell,
isso representou um sinal de que deveria examinar os diagramas do
setor de localização energética. Seu ramo era a Eletrônica, e, no
curso dos decênios, desenvolvera uma sensibilidade em matéria de
localização positrônica que o transformara num dos maiores
especialistas em interpretação de dados nessa área.
— Faça
o favor de afastar-se — disse, dirigindo-se ao oficial.
Colocou as
mãos sobre o aparelho de localização e fitou atentamente a placa
que mostrava os diagramas. Finalmente lançou um olhar para Rhodan.
— É
verdade, Perry. Há uma nave pronta para decolar junto ao templo dos
antis. Major, será que não poderia acelerar mais um pouco?
Bell
voltou a afastar-se do lugar destinado ao oficial do setor de
localização. Aproximou-se do amigo e disse:
— Daqui
a instantes, os antis nos mostrarão o que sabem fazer. Ainda
pretende dar-lhes um ultimato?
— Naturalmente.
Mas faremos o possível para que não aconteça aquilo que você
receia — voltou a virar a cabeça para o sistema de
intercomunicação. — Atenção, sala de rádio! Envie uma mensagem
codificada a todos os supercouraçados.
“Ficar
em posição cerrada até uma altitude de cem mil quilômetros.
Manter sob observação ininterrupta o templo de Baalol, que
constitui o único objetivo. Devemos contar com a decolagem de uma
espaçonave. Provavelmente haverá antis a bordo. Seu número é
calculado em cem a cento e vinte. Se realmente uma nave procurar
decolar junto ao templo, a fuga da mesma deverá ser impedida com
todos os meios. Assinado: Rhodan, Administrador do Império Solar.”
Virou
lentamente a cabeça para Bell. Este fitou-o com uma expressão de
perplexidade.
— Bell,
não é necessário dizer o que você tem em mente. E não há
necessidade de lembrar que provavelmente Thomas Cardif também estará
a bordo da nave. Faça o favor de não tornar as coisas ainda mais
difíceis para mim.
Os
ocupantes da sala de comando ouviram estas palavras. Nenhum dos
oficiais de serviço tinha idade suficiente para ter conhecido Thomas
Cardif como um dos piores inimigos de seu pai. Mas todos sabiam o que
Cardif fizera no intuito de destruir Rhodan. Não havia por ali
ninguém que tivesse pena dele.
Mas Gucky,
o rato-castor, estava presente.
Arrastou
os pés em direção a Rhodan. Levantou a pata direita e colocou-a
sobre o pulso de Rhodan.
— Escute
— piou. — Pela primeira vez sinto-me feliz porque os antis são
capazes de, mediante suas energias mentais, reforçar qualquer campo
defensivo de tal forma que nem mesmo com o mais potente raio de
desintegração conseguiremos rompê-lo. Quer apostar que Thomas
escapará juntamente com os antis, chefe?
A sala de
rádio da Ironduke avisou que a ordem de Rhodan fora transmitida aos
supercouraçados.
No mesmo
instante ouviu-se outro aviso:
— Realizamos
a localização ótica do templo de Baalol.
Dali a
cinco minutos a Ironduke deveria sobrevoar o centro dos antimutantes.
De
repente, o rato-castor arregalou os olhos. Rhodan irradiara um
pensamento dirigido a ele:
— Ainda
bem que você se sente tão impressionado com as energias mentais dos
antis, Gucky.
Rhodan
logo voltou a colocar um bloqueio em torno de seus pensamentos,
evitando que o curioso rato-castor tivesse uma chance de verificar o
que pensara ao irradiar essa frase.
— Olhem
o templo! — exclamou Bell, apontando para a tela.
O conjunto
de construções que formava o templo apareceu sob a forma de um
pequeno retângulo. Parecia correr vertiginosamente na direção em
que se encontrava a Ironduke.
— Uma
nave! Uma espaçonave cilíndrica! — gritou o Major Claudrin com
sua voz superpotente. — Bem, a nave não é muito grande. O que diz
o instrumento de medida de objetos? Será que tenho de insistir
constantemente junto aos cavalheiros para que me forneçam os dados?
Os dados
logo chegaram:
— Espaçonave
tem cento e cinqüenta metros de comprimento e trinta de diâmetro. É
do tipo das naves dos saltadores.
O oficial
do setor de localização energética apressou-se a avisar:
— Localização
energética inequívoca. Nave cilíndrica pronta para decolar.
Motores já foram aquecidos.
Mais uma
ordem de Rhodan foi enviada à sala de rádio.
— Transmita
ao templo o texto já preparado do ultimato, com a única alteração
de que aguardaremos a capitulação por quinze minutos.
— Por
que não dá apenas cinco minutos, Perry? — perguntou Bell, em tom
contrariado. — Mesmo cinco minutos são demais para esses caras que
se dizem sacerdotes.
Rhodan
lançou um olhar pensativo para seu amigo gordo.
— Se é
assim, não conseguiremos nada, mesmo que os ataquemos sem aviso. Ao
que parece você também julga os antis capazes de muita coisa, meu
caro.
*
* *
Quando as
instalações do último estágio de acondicionamento de liquitivo
foram destruídas pelos tiros de radiações, Thomas não se mostrou
impressionado. Com a calma fria de um homem que sabe que ainda dispõe
de bastante tempo para fugir, verificou se realmente haviam sido
destruídas todas as instalações do laboratório.
Poucos
minutos depois, quase cento e cinqüenta antis destruíram bens no
valor de muitos milhões, que haviam sido investidos no curso dos
anos. Não lamentavam esse procedimento. E não demonstravam o menor
medo diante da chegada de Perry Rhodan. Havia entre eles um homem que
lhes mostrava pelo exemplo não haver motivo para temerem Rhodan: era
Thomas Cardif, seu filho.
Usando a
linha direta, Cardif falou com o setor TT-1, onde se trabalhava com o
liquitivo no interior do sistema de cavernas das montanhas de Cif. O
Dr. Nearman estava do outro lado da linha.
O
astromédico viciado fitou Edmond Hugher com os olhos arregalados.
Procurou em vão o sorriso estereotipado e a expressão sonhadora
daquele rosto. Não se lembrava de ter ouvido Hugher falar em tom tão
enérgico.
— Não
há motivo para espanto, Nearman — disse Cardif. — Basta ter
muito cuidado. Dentro de poucos minutos, Rhodan chegará ao templo.
Acabamos de receber seu ultimato. Deixe que em TT-1 fique tudo como
está, mas evite que o senhor e seus colegas sejam localizados pelos
homens de Rhodan.
Nearman
sentiu-se dominado por uma terrível exaltação.
— Isso
quer dizer que os sacerdotes fugirão de Rhodan? E querem
abandonar-nos para que nos acabemos? — berrou as perguntas e seu
rosto desfigurado mostrava um medo indisfarçado.
— Os
sacerdotes não estão fugindo de Rhodan — respondeu Cardif com a
maior calma. — Apenas resolveram afastar-se, porque não estão
interessados em conversar com o terrano Rhodan. Desligo.
Não ouviu
as pragas desesperadas de Nearman. Desligou sem preocupar-se com o
destino dos técnicos que se encontravam em TT-1. Virou o rosto para
Tu-Poé, que era a única pessoa que se achava nesse setor. Cardif
vira-o sair do laboratório número 3. O sacerdote segurava um
desintegrador superpesado em cada mão. Sentiu o olhar de Cardif
pousado em sua pessoa, olhou na direção do mesmo e tropeçou.
Thomas
Cardif nem teve tempo de avisá-lo.
Tu-Poé
caíra. Seu pé esquerdo ficou preso a um destroço. Caiu pesadamente
para a frente. A mão esquerda bateu na parede.
Thomas
Cardif viu o raio ofuscante típico do desintegrador, saído da arma
que o sacerdote segurava na mão esquerda.
Tu-Poé
caiu de vez.
Baalol
acabara de perder um de seus membros mais fanáticos.
O sistema
de intercomunicação continuava intacto. Era a última instalação,
que seria destruída para que a ligação direta com TT-1 não fosse
descoberta imediatamente. Cardif anunciou a morte de Tu-Poé. Os
outros tomaram conhecimento de seu falecimento, mas o fato passou
quase despercebido em meio ao torvelinho dos acontecimentos.
As
instalações de videofone se desmanchavam sob a incandescência de
um tiro de radiações, quando dois antis surgiram na porta e o
chamaram.
— Cardif,
faltam cinco minutos para o término do prazo do ultimato. Ande
depressa.
Sabia o
que viria depois. Com a maior calma guardou a arma de radiações e
aproximou-se dos dois antis.
— Aonde
vamos? — perguntou em tom de surpresa, ao notar a direção que
tomavam.
Um sorriso
matreiro surgiu no rosto de um deles.
— Não
fazemos questão de que Rhodan veja logo que estamos todos procurando
a nave, muito embora esta esteja envolta num campo defensivo tão
potente quanto o templo.
— Uma
passagem subterrânea? — seu espanto tornava-se cada vez mais
forte. Achava inacreditável que os sacerdotes recorressem a um meio
tão primitivo.
— Isso
mesmo — respondeu o anti que falara em primeiro lugar. — Muitas
vezes os meios primitivos são mais eficazes que a tecnologia mais
sofisticada.
Thomas
Cardif sentiu-se tomado de surpresa. À esquerda do topo da pirâmide
do templo, a Ironduke pairava imóvel a cerca de quinhentos metros de
altura. Lia-se perfeitamente o nome no envoltório da nave, mas
Cardif nem notou esse fato. O que lhe chamou a atenção foi que,
nesse couraçado, o aspecto da protuberância equatorial era
totalmente diferente.
— Que
tipo de nave é esse? — perguntou em tom curioso aos dois homens
que o acompanhavam.
Estes
olharam para o cronômetro e pediram a Cardif que se apressasse.
Não
sabiam e liquidaram a pergunta com uma frase banal. Cardif preferiu
não formular outras indagações desse tipo. Não sabia dizer por
que motivo o aspecto estranho da protuberância equatorial o deixava
preocupado.
A pirâmide
passou a encobrir progressivamente a Ironduke. Um sacerdote os
aguardava junto à entrada do templo que, contrariando todas as
normas, estava bem aberta.
— Depressa
— insistiu este e correu à frente do grupo.
Ao
primeiro relance de olhos Cardif viu que também aqui tudo fora
destruído. Tudo que se encontrava no gigantesco recinto fora
consumido pelo fogo.
Atrás do
obelisco metálico, cuja ponta também fora destruída, ficava a
entrada para a passagem subterrânea. Uma escada em caracol levava
para baixo. Enquanto desciam, Cardif pôs a mão no companheiro ao
qual dirigira algumas perguntas no momento que se encontravam à
frente da pirâmide.
— La-Ger,
os ocupantes da Ironduke sem dúvida me reconheceram quando me dirigi
ao templo juntamente com vocês. Será que a esta hora não conhecem
minha freqüência cerebral?
Um sorriso
de superioridade surgiu no rosto de La-Ger.
— O
senhor se esqueceu de que dispomos de energias mentais que os membros
do Exército de Mutantes não conseguem vencer? Nunca mais
conseguirão medir sua freqüência ou apoderar-se dos seus
pensamentos. A esta hora, já sabemos que Rhodan só está
interessado em prender o senhor. Deve ter descoberto, sem dúvida por
intermédio dos quarenta e oito terranos que foram libertados por
desconhecidos, que foi o senhor quem inventou nosso licor.
Já haviam
descido a escada e corriam apressadamente pela galeria retilínea e
bem iluminada.
— Esse
liquitivo é uma droga formidável — respondeu Cardif, com uma
expressão furiosa. — Todos os médicos quebrarão os dentes com
ela. Daqui a trinta anos não haverá mais um único terrano. O
liquitivo pode ser acrescentado a outras substâncias, além do
licor. Poderá, por exemplo, ser misturado aos cereais, depois de
resolvido um pequeno problema.
Por um
instante três antis se esqueceram de que estavam fugindo. Todos eles
resolveram avisar imediatamente seu superior sobre a informação que
Cardif acabara de fornecer. Perceberam que Thomas Cardif era a melhor
arma de que dispunham para atingir seu objetivo secreto, que era o de
apoderar-se da herança de Árcon.
Para os
antis, aquele homem não passava de um meio de atingir suas
finalidades.
Antes dos
antis outros seres já haviam pensado da mesma forma, mas subitamente
tiveram de perceber que Thomas Cardif era um homem que nunca deixava
de dar o devido castigo a quem quisesse abusar dele. Não era apenas
arcônida, mas também terrano; e seu pai era o terrano Perry Rhodan.
Uma vez
chegados ao fim do corredor, subiram apressadamente pela escada. Uma
luz mortiça surgiu acima deles. Ao saírem, notaram que se
encontravam embaixo da nave cilíndrica, bem na altura da eclusa da
quilha. Paredes de plástico erguidas às pressas evitavam que a
eclusa fosse vista.
Um
saltador de barba grisalha já os esperava. Parecia impaciente.
— Falta
um minuto — gritou e empurrou-os para dentro da nave. A comporta
fechou-se ruidosamente atrás deles.
O mercador
galáctico avisou a sala de comando:
— Todos
a bordo. Cardif também acaba de chegar.
O anti
fitou o jovem comandante da nave saltadora. Este fitou a tela com um
sorriso obstinado. Viu o vulto gigantesco da Ironduke, praguejou
baixinho e, com uma expressão de ódio no rosto, gritou pelo sistema
de intercomunicação:
— Todos
devem usar os trajes espaciais pesados. Decolaremos dentro de vinte
segundos, tempo padrão.
Este aviso
fez com que cerca de cento e cinqüenta antis se calassem. Cada um
deles liberou as últimas reservas de suas energias mentais, com o
objetivo de dar um reforço inconcebível aos campos defensivos da
nave cilíndrica.
Os motores
pareciam despertar na sala de máquinas. Gigantescos volumes
energéticos irromperam na nave, guiados pelo melhor piloto de
espaçonave de seu clã. O desempenho dos motores foi aumentando, e
dentro do campo de visão da Ironduke, com seus oitocentos metros de
diâmetro, uma pequena nave cilíndrica atreveu-se a violar a
proibição de decolagem emitida por Rhodan.
Brazo
Alkher, oficial de comando de armamentos da Ironduke, ouviu o seu
colega que se encontrava na sala de comando, junto ao dispositivo de
localização energética, gritar alguma coisa. Ele mesmo já
observara o movimento insignificante da nave dos saltadores pela mira
ótica.
Alkher não
disparou os raios de impulsos, térmicos ou de desintegração.
Liberou os fortes raios de tração de cinco torres de canhões.
Estes deveriam obrigar a nave cilíndrica a não abandonar o solo
desértico. Pretendia arrastar a nave pela superfície e trazê-la
para junto da Ironduke.
Com um
olhar, leu em dois instrumentos a energia representada pela soma dos
cinco raios de tração, mas de repente não acreditava no que seus
olhos viam.
A nave dos
mercadores estava decolando!
Erguia-se
do solo, apesar dos raios de tração. E acelerou como se a
tripulação da nave receasse que, daqui a um segundo, o mundo, do
qual acabavam de partir, seria transformado num sol.
Não havia
mais visibilidade. Os propulsores da nave cilíndrica impeliam
milhares e milhares de metros cúbicos de areia e pedra para as
camadas inferiores da atmosfera.
O fato não
perturbou Alkher. A luz visível representava apenas uma base
secundária de sua mira ótica. Com um movimento rapidíssimo bateu
na tecla principal. Todas as peças abriram fogo concentrado contra a
nave dos saltadores.
De
repente, duas usinas energéticas da Ironduke passaram a trabalhar
exclusivamente para o setor de armamento. A nave esférica encheu-se
com o uivo dos feixes de raios de vários metros de espessura, que
cortavam as camadas mais densas da atmosfera de Lepso e desencadeavam
um verdadeiro furacão.
— Que
diabo! — gritou Alkher.
Não
compreendia o que estava vendo, A nave mercadora acelerou ainda mais
sob o efeito dos raios disparados pela Ironduke. E os raios
desintegradores, térmicos e de impulsos não conseguiram romper o
campo defensivo do pequeno veículo espacial. Uma gigantesca cascata
energética arrebentou-se contra o campo de proteção. De repente,
um novo sol parecia ter nascido sobre o grande deserto de Lepso.
Com uma
rapidez que quase chegava a equivaler à de um cérebro positrônico,
Brazo Alkher percebeu o que estava fazendo com seu bombardeio de
radiações. Os tripulantes, que se encontravam nas torres de
canhões, acreditaram que tivesse havido um defeito grave na rede
energética da Ironduke, pois todas as peças deixaram de disparar de
uma só vez.
Brazo
Alkher colocara a chave energética principal na posição de
desligada.
Não
queria que a nave fugitiva obtivesse uma aceleração adicional,
graças ao impacto da energia disparada pela Ironduke.
Num
raciocínio instantâneo, Alkher avaliara a energia que os grossos
feixes de raios liberavam ao esfacelarem-se nos campos defensivos da
nave mercadora, reforçados pelas energias mentais de seus ocupantes.
Com a mesma rapidez reconheceu que a energia do impacto se
transformava num raio de compressão, que representava uma ajuda aos
propulsores da nave saltadora, impelindo-a mais rapidamente para o
espaço.
— Chamando
comandante — gritou para dentro do microfone do sistema de
intercomunicação de bordo. — Graças ao nosso bombardeio de
radiações, a nave fugitiva conseguiu atingir as camadas superiores
da atmosfera de Lepso. Ao perceber isso, suspendi o fogo.
Bell, que
se encontrava na sala de comando, gritou num misto de fúria e
admiração:
— Caramba!
— Isso
mesmo — confirmou Rhodan. — Se os oficiais de armamentos dos
nossos supercouraçados não forem tão inteligentes como o nosso, os
raios disparados por estes ajudarão os antis a escapar num espaço
de tempo incrivelmente reduzido. Alô, sala de rádio. Quero
transmitir uma mensagem não codificada a todos os couraçados. A
ligação está pronta?
— Faixa
de freqüência aberta, sir — anunciou a sala de rádio.
Após
isso, Rhodan transmitiu o fato, que Brazo Alkher reconhecera numa
fração de segundo.
Uma vez
concluída a transmissão, sentiu que o Major Claudrin o fitava
intensamente. Em tom orgulhoso, o major exclamou:
— Na
Frota Solar só existe um oficial de armamento que reúna as
qualidades de Alkher, sir!
Tinha
razão. Um oficial gritou:
— A
Barbarossa conseguiu atingi-la.
O setor de
localização energética confirmou:
— Impacto
direto. A nave rodopia pelo espaço.
Depois
disso não se ouviu mais nada. A Alexander, uma nave da classe
Império, atingiu a nave saltadora desgovernada com todas as peças
de artilharia. Os impactos diretos deveriam ter rompido qualquer
campo energético. Acontece que não romperam coisa alguma.
Esfacelaram-se no campo defensivo incrivelmente resistente e
absorvente da nave dos mercadores e fizeram com que a nave deixasse
de rodopiar e fosse impelida pelo espaço a fora.
O
rastreador estrutural da Ironduke registrou um hipersalto.
Não houve
possibilidade de determinar o ponto de retorno ao Universo normal.
Para Rhodan e Bell, isso não representava nenhum segredo. Sabiam que
as energias mentais dos antis eram capazes de absorver um abalo
estrutural.
*
* *
O Dr.
Nearman sobressaltou-se em meio ao seu estado de embriaguez. Fora
despertado por um ruído estranho, nunca antes ouvido em TT-1.
— Tolice!
— disse para si mesmo e voltou a deitar de lado, para entregar-se à
primeira “fase
vivificadora”,
que costumava deleitá-lo sempre que bebia duas garrafinhas de licor
no espaço de uma hora. — Que droga maravilhosa!
Não
pensou em Perry Rhodan, e nem se preocupou com o fato de que era o
único membro da pequena equipe técnica que ainda permanecia em
TT-1. Os outros haviam fugido.
Também
preparara sua fuga. Pretendia abandonar TT-1, depois de passados os
primeiros efeitos da droga, quando então teria forças suficientes
para isso.
Continuou
na sua modorra, mas voltou a sobressaltar-se com um tinido surdo.
Ergueu-se na cama e aguçou o ouvido.
Ouviu o
passo pesado das colunas de robôs que marchavam.
O ruído
vinha do corredor comprido.
“Rhodan”,
pensou e levantou-se de um salto.
Havia
sobre a mesa uma sacola de plástico com cinqüenta garrafas de
liquitivo, além de pílulas nutritivas, cigarros e dinheiro. Pegou
tudo e saiu correndo do quarto, dirigindo-se à saída de emergência.
Tratava-se de um poço antigravitacional de um metro de diâmetro,
que depois de um percurso de oitocentos metros o deixaria sobre o
platô, junto ao cume das montanhas de Cif.
Teria de
percorrer duzentos metros para chegar ao poço antigravitacional.
Acreditava que ainda não havia um perigo mais sério. Por enquanto
não demonstrou muita pressa. Mas no momento em que ouviu o passo
metálico de um robô, sentiu-se dominado pelo pavor. Quando alguém
o chamou e mandou que parasse, nem se atreveu a olhar para trás.
Reunindo as energias do desespero, correu em direção ao poço
salvador.
“Pronto”,
pensou ao saltar para dentro do mesmo.
Naquele
instante soltou um grito. Fora atingido na coxa por um tiro de
radiações. O segundo tiro errou o alvo.
A dor
martirizava seu corpo. Teria gritado, se não estivesse sob os
efeitos da droga. Graças a esta, o Dr. Nearman conseguiu suportar a
dor e, enquanto o campo antigravitacional o levava para cima,
examinou o ferimento produzido na parte acima do joelho. Era médico,
e por isso sabia que os ferimentos neste lugar facilmente podiam
causar hemorragia.
Quase
chegou a sentir náuseas, quando notou o que o robô lhe havia feito.
“Preciso
ir ao planador-relâmpago”,
pensou.
O elevador
de emergência, construído exclusivamente para servir de caminho de
fuga, estava regulado para duas velocidades diferentes. Nos primeiros
e nos últimos cinqüenta metros, havia um campo antigravitacional
que produzia a velocidade adotada em Árcon. Mas no trecho
intermediário, a pessoa que usasse o elevador antigravitacional
poderia desenvolver o quádruplo dessa velocidade.
Foi a
sorte do Dr. Nearman.
Segurando
a sacola de plástico na mão esquerda, arrastou-se até o
planador-relâmpago. Teve de reunir as últimas forças para entrar
no mesmo. Abriu a gaveta-ambulatório e, ao ver o amplo suprimento de
medicamentos, soltou um gemido de alívio. Tratou imediatamente da
ferida.
Levou nada
menos de uma hora para sentir-se em condições de pilotar o
planador. Mantendo-se junto às encostas rochosas de Cif, procurou
escapar a Rhodan.
Perry
encontrava-se próximo dos gigantescos tanques de TT-1, enquanto os
robôs de guerra revistavam todos os cantos do conjunto de cavernas,
à procura de gente. A equipe médica da Ironduke tentou a sorte com
estranhos instrumentos de controle. Um grupo de engenheiros procurou
verificar a quantidade de licor existente no único tanque grande.
Todos os tanques por eles verificados estavam vazios.
Chegaram à
conclusão de que havia de trinta a trinta e cinco mil litros.
— Só
isso? — perguntou Rhodan, Realmente não há mais que isso?
Estava
rodeado por cerca de cinqüenta homens, que aguardavam suas
explicações.
— Isso
mesmo — principiou. — Infelizmente o fato prova que Lepso não é
o principal centro do tráfico de drogas dos antis, mas apenas um
local de distribuição. O estoque de liquitivo que encontramos aqui
não basta sequer para suprir as necessidades de um dia dos mundos
viciados do Império Solar.
— O quê?
O Império Solar consome trinta mil litros por dia? Trinta mil litros
dessa droga? — perguntou o Major Claudrin, apavorado, e recuou um
passo.
— É
mais do que isso, major. Infelizmente é muito mais. Acho que o
senhor já compreende quanto lamento não ter achado aqui o centro
capital dos traficantes.
Encontravam-se
naquele lugar há duas horas, e nessas duas horas Rhodan nunca
mencionara o nome de seu filho, nem aludira ao mesmo. Falava
exclusivamente nos antis.
Um médico
da Ironduke aproximou-se dele.
— Sir —
anunciou — conseguimos manipular os aparelhos dos antis. Examinamos
o liquitivo. Trata-se da mesma substância que é vendida na terra
como droga rejuvenescedora.
— Não
descobriu do que é feita essa substância diabólica, doutor? —
perguntou Rhodan.
Cinqüenta
pares de olhos ficaram presos ao médico, que balançou lentamente a
cabeça.
— Não
senhor.
— Verificou
o conteúdo dos tanques menores, doutor? — indagou Rhodan.
— Sim
senhor. Em todos eles havia apenas alguns litros de entorpecente. Os
frascos eram idênticos.
Com isso,
Rhodan viu-se obrigado a sepultar mais uma esperança.
Seu
minicomunicador chamou. Allan D. Mercant, que se encontrava na
Ironduke, queria falar com ele.
— O que
houve? — perguntou Rhodan para dentro do pequeno microfone e fitou
o rosto de Mercant, que aparecia na minúscula tela.
O chefe da
Segurança Solar aparentava nervosismo.
— Sir —
disse com a voz rouca. — Acabamos de receber uma informação
transmitida por um dos nossos agentes de Aralon. Há mais de quarenta
anos Edmond Hugher estudou na maior universidade de Aralon, por conta
dos antis, e conseguiu passar pelos exames finais. Depois da saída
de Cardif, os anais da Universidade nunca mais registraram um caso
como o dele. Sua especialidade era...
Rhodan
interrompeu-o.
— Os
milhões de viciados sabem disso melhor que nós, Mercant.
Separou-se
do grupo e saiu andando. Gucky quis segui-lo, mas Reginald Bell
segurou-o.
— Fique
aqui, pequeno. Num momento como este Perry tem de ficar só.
— O que
acontecerá agora? — perguntou Gucky, depois que Rhodan se havia
afastado.
— O que
pode acontecer? — respondeu Bell em tom deprimido, contrariando seu
temperamento. — Perdemos a pista de Thomas Cardif. Não existe a
menor dúvida de que a nave dos saltadores conseguiu escapar. Sou
capaz de garantir que em Lepso não encontraremos um único anti.
*
* *
Thomas
Cardif estava só, no camarote da pequena nave dos saltadores,
enquanto o pequeno veículo espacial cilíndrico procurava fixar seu
curso entre dois sóis e voava, em direção ao seu destino, a
velocidade pouco inferior à da luz.
Sentado na
poltrona, Cardif refletia intensamente.
— Glima
— disse, e só depois disso se deu conta de que pensara em voz
alta.
Balançou
levemente a cabeça.
— Finalmente
compreendo por que sempre gostei de resolver palavras cruzadas
terranas. Luta islandesa, cinco letras. O nome dessa luta é glima. E
meu nome é Thomas Cardif. Thomas Cardif.
Proferiu o
nome em voz alta e procurou ouvir o som das palavras. Repetiu mais
alto ainda:
— Thomas
Cardif.
Depois
cerrou os punhos e voltou a balançar lentamente a cabeça.
*
* *
*
*
*
O plano
infame dos antis foi descoberto, mas apesar da operação de
grande envergadura realizada no planeta Lepso, ainda não se
encontrou um meio de extirpar o mal pela raiz.
Na
Pista dos Antis,
título do próximo volume da série, as buscas continuam...

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