Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Morto-vivo!
Os agentes da Divisão III na
pista dos antis.
O Sistema Azul, um velho
inimigo de Árcon e um novo inimigo da Terra, teve de aceitar a
rendição incondicional, depois da destruição das usinas
espaciais, que forneciam a energia para o enorme campo defensivo.
Privados dessa proteção, os acônidas passarão a respeitar a paz
pelo simples instinto de autoconservação. Quanto a isso não existe
a menor dúvida. Mas também não existe dúvida de que, face aos
acontecimentos
turbulentos dos últimos tempos, Perry Rhodan e seus homens — e
também Atlan — não dispensaram a necessária atenção aos antis.
Dessa
forma os antis, que se dedicavam ao culto de Baalol, disseminado por
toda a Galáxia, tiveram oportunidade de dar início à execução de
seu terrificante plano.
As
terríveis conseqüências que suas ações trariam para a Humanidade
e para outras inteligências galácticas não são conhecidas. Porém
os agentes da Divisão III obtêm uma visão ligeira das mesmas
quando penetram n’O Deserto da Morte...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Dr.
Armin Zuglert
— Sofre uma terrível transformação, que faz rolar a avalanche
dos acontecimentos...
Major
Kindsom
— Comandante
do cruzador de patrulhamento Flórida.
Major
Ron
Landry
— Cujo
espírito é ameaçado pelo “fogo da verdade”.
Roll
— Um
enigmático motorista de táxi.
Coronel
Nike
Quinto
— Sempre
se queixando da pressão sangüínea... mas tem uma saúde de ferro!
Gerard
Lobson
— Um
homem que está preparado para tudo, desde que se encontre em estado
liquitivo.
Edmond
Hugher
— Um
misterioso médico-biólogo.
I
Gerard
Lobson quis dizer alguma coisa. Mas quando viu a modificação que se
realizava no homem à sua frente, calou-se, todo apavorado.
Fazia uma
hora que estava sentado ali, separado apenas pela escrivaninha
estreita, sobrecarregada de papéis, do homem ao qual pretendia fazer
uma proposta. Encontrava-se numa sala grande, mas abafada pois tinha
uma única janela. Felizmente esta era suficientemente limpa para
permitir que um pouco de claridade atingisse a escrivaninha.
Fazia uma
hora que estava sentado na cadeira pouco confortável, e, até então,
não dissera outra coisa senão: “Olá,
doutor, bom dia. Gostaria de fazer-lhe uma proposta.”
Depois
disso, o doutor tomara a palavra e — revelando atividade, agilidade
e energia, que fizeram com que Gerard se sentisse tomado por um
grande espanto — elucidara a proposta que nem chegara a ser
formulada. E sem perder tempo, provara a Gerard que aquilo que este
pretendia fazer, e sobre o que nem sequer chegara a falar, não era
possível pela forma pretendida.
Por algum
tempo Gerard permaneceu calado, de tão perplexo que se sentiu. E
agora, que o doutor finalmente fazia uma pausa, aconteceu aquilo...
Quando
vira o Dr. Zuglert pela primeira vez, acreditara que se tratasse de
um homem de pouco mais de quarenta anos. Tinha o aspecto de uma
pessoa que costuma praticar esporte por passatempo. Seu rosto era
sadio e não apresentava rugas. E agora?
Gerard
teve a impressão de que alguém sugava tudo que o crânio de Zuglert
continha. A pele do rosto encolheu-se, como se tivesse de preencher o
vácuo. Os ossos dos maxilares tornaram-se salientes, e de repente
uma terrível caveira sorria para Gerard. A pele deteriorava-se a
olhos vistos. O moreno sadio e robusto transformou-se num amarelo
repugnante. O queixo ficou caído, e Gerard viu uma fileira de dentes
encardidos. Minutos antes, ainda admirara os dentes bem tratados de
Zuglert. Gerard levantou-se de um salto. De repente teve medo do
homem que se mantinha imóvel do outro lado da escrivaninha, e o
fitava com os olhos vidrados. Afastou-se da mesa e dirigiu-se à
outra extremidade da sala. Apavorado, notou que ali não haveria
salvação para ele. Só havia uma janela, e a sala ficava no
vigésimo-terceiro andar de um antigo edifício.
Apesar
disso, Gerard continuou a retirar-se. Poderia abrir a janela e
gritar, pedindo socorro. Era possível que alguém o ouvisse. Gerard
virou-se, segurou a maçaneta da janela e começou a girá-la. Nesse
instante, Zuglert começou a falar:
— Não
tenha medo, meu jovem — disse com uma voz apagada, que provocou o
assobio típico de um tuberculoso e foi acompanhada por um acesso de
tosse.
Assim que
o acesso passou, prosseguiu:
— Preciso
do seu auxílio, Mr. Lobson. Será que o senhor poderia ajudar-me a
levantar?
Gerard
soltou um suspiro de alívio. Nem sequer conseguia levantar-se só.
Queria fazer com que ele, Gerard, o ajudasse a pôr-se de pé, para
depois enlaçar seu pescoço com as mãos.
Gerard viu
a porta às costas de Zuglert. Se conseguisse chegar lá, estaria
livre do perigo.
Zuglert
voltou a falar, o que lhe custava um esforço enorme, pois as
palavras saíam hesitantes. Muitas vezes uma tosse seca e ofegante
interrompia sua fala.
— ...importante
para a Terra, jovem... — entendeu Gerard. — Todos devem ser
prevenidos... Meu exemplo prova...
Zuglert
disse mais que isso, mas Gerard não lhe deu atenção. Acenando com
a cabeça, deslocou-se em direção à escrivaninha. Deu uma
expressão amável ao rosto, para que Zuglert acreditasse que
pretendia ir em seu auxílio.
— ...solução
alcoólica de que ninguém desconfia... — ouviu Gerard.
Naquele
instante aproximava-se da escrivaninha.
Com um
enorme salto contornou-a. Antes que Zuglert compreendesse suas
intenções, segurava a maçaneta da porta e girava-a. A porta
abriu-se imediatamente. Saiu correndo, mas não se esqueceu de
segurar a porta com a mão direita e puxá-la. A porta fechou-se
ruidosamente.
Gerard
viu-se no corredor de um velho edifício de escritórios. De ambos os
lados havia portas. Estavam todas fechadas. Ninguém ouvira o que se
passara na pequena sala ocupada pelo Dr. Zuglert. Gerard refletiu
sobre se convinha falar a alguém sobre a súbita alteração
ocorrida com Zuglert. Lembrou-se de que, por alguma maneira
misteriosa, o doutor ficara sabendo qual era a sugestão que ele,
Gerard, pretendia formular, motivo por que afastou a idéia. Zuglert
acabaria contando isso a uma terceira pessoa que viesse ajudar, e era
o que menos convinha a Gerard.
Não;
devia deixar Zuglert entregue a si mesmo.
Gerard
caminhou pelo corredor, até chegar ao poço do elevador
antigravitacional. Deixou-se cair e suspirou, aliviado. Teve a
impressão de ter escapado de um grande perigo.
Mas sabia
que jamais conseguiria esquecer o rosto amarelo-cinzento de uma
caveira.
*
* *
A Flórida
veio do centro da Galáxia. O Major Kindsom, comandante do cruzador
de patrulhamento, sabia que depois de a nave ter realizado certo
número de transições, ao percorrer o caminho de volta, esperavam
que fornecesse à Terra um ligeiro relato, pelo telecomunicador
direcional, sobre as atividades que desenvolvera no centro da Via
Láctea.
Dick
Kindsom elaborara o relatório e mandara confeccionar a matriz
codificada para a transmissão. Empurrou-a para dentro do transmissor
e comprimiu a tecla que acionava o aparelho. Ouviu-se um ligeiro
clique. Kindsom sabia que, a nove mil anos-luz dali, os aparelhos
receptores da Terra começariam a funcionar. Captariam a transmissão,
que tinha uma duração total de três milésimos de segundo, e a
estenderiam, desdobrariam, interpretariam e voltariam a reuni-la.
Depois disso, o conversor expeliria um microfilme que, projetado por
um aparelho adequado, revelaria aos olhos das pessoas habilitadas,
por meio de letras comuns, tudo aquilo que Dick Kindsom dissera em
cerca de mil palavras.
Era só. O
relatório de Dick anunciava que a abertura do misterioso campo
energético do Sistema Azul, produzida pelas frotas unidas da Terra e
de Árcon, voltara a fechar-se. Concluía-se que os acônidas
voltaram a colocar sua fortaleza em estado de defesa, embora
soubessem que o campo defensivo azul seria impotente, face às naves
de propulsão linear da Terra.
Uma vez
cumprida pontualmente esta operação realizada por Dick Kindsom,
logo depois, preparou sua nave para a transição seguinte. Estava a
ponto de desencadear o hipersalto, que aproximaria a nave mais alguns
anos-luz da Terra, quando o receptor de telecomunicação expediu um
sinal de advertência.
Dick
comprimiu um botão que anulou os comandos positrônicos, os quais
haviam sido transmitidos ao sistema de pilotagem automática da
Flórida, e ligou o receptor. Uma luz vermelha iluminou-se na tela do
aparelho e uma voz mecânica disse:
— Firing
II chamando cruzador Flórida. Tenho uma mensagem TTT de Firing II
para o cruzador Flórida. Favor responder.
Dick não
perdeu tempo. TTT era o código indicador de mensagem superurgente.
Não podia imaginar quem seria a pessoa que se encontrava num mundo
abandonado como Firing II e que tivesse tamanha urgência de falar
com ele. Entretanto concordou em receber o comunicado.
— Transmita
a mensagem — ordenou ao autômato. — Aqui fala o Major Kindsom,
comandante da Flórida.
O grande
sinal luminoso desapareceu. A tela começou a tremeluzir, e um rosto
surgiu. A visão fez com que Dick recuasse, apavorado. Santo Deus! A
cabeça parecia de uma múmia, de uma caveira em torno da qual alguém
tivesse esticado uma pele rugosa.
Os lábios
estreitos da caveira abriram-se, e a múmia começou a falar. Teve de
fazer um grande esforço. Levava cinco segundos para pronunciar uma
palavra, e sua fala era acompanhada de um estertor ofegante.
— Peço
a quem quer que me ouça para me ajudar! — disse a múmia. —
Encontro-me numa tremenda dificuldade. Sou o doutor Armin Zuglert.
Resido em Zanithon, situada em Lepso. Ajude-me, eu lhe imploro.
Dick
voltou a aproximar-se da tela. Com um gesto seguro, pegou o
microfone, sem olhá-lo, e falou:
— O que
podemos fazer pelo senhor, Zuglert? Aqui fala o cruzador Flórida.
Qual o tipo de dificuldade que o envolveu?
Sentiu-se
impaciente. Achou que Zuglert, que aparentemente estava próximo ao
esgotamento total, demorou a responder.
— Há
doze... — principiou Zuglert.
Depois
disso, a comunicação foi interrompida. A tela voltou a tornar-se
cinzenta, e o zumbido do receptor cessou. Dick Kindsom assustou-se.
“Que
idiota!”,
pensou. “De
tão fraco que se sente, certamente encostou o braço a uma tecla e
acabou desligando o aparelho. Bem que poderia ter mais cuidado, ainda
mais que sua vida está em jogo.”
Dick
chamou o robô de comunicação. O sinal vermelho voltou a surgir na
tela.
— Minha
comunicação TTT com Firing II foi interrompida — queixou-se Dick.
— Restabeleça o contato.
— Com
que aparelho o senhor falou, sir? — perguntou a voz mecânica.
— Não
sei — gritou Dick, em tom furioso. — O nome da pessoa que falou
comigo é Armin Zuglert. Caramba! O senhor deve ser capaz de
verificar nos seus registros qual é a procedência de uma mensagem
TTT!?
— Naturalmente,
sir. Peço alguns segundos de paciência.
Dick
aguardou. Depois de algum tempo, a voz voltou a falar:
— A
mensagem veio de um dos aparelhos da missão comercial terrana de
Firing II, sir. Quer que a comunicação seja restabelecida?
— É
claro que sim.
Dali a
alguns segundos o rosto sério, um homem não muito jovem, surgiu na
tela. Este lançou um olhar indagador para Dick.
— Sou o
Inspetor Neary, da missão comercial terrana em Firing II — disse.
— O que posso fazer pelo senhor?
Dick não
se deu ao trabalho de apresentar-se.
— Onde
está Zuglert? — perguntou em tom exaltado.
O inspetor
fitou-o com um ar de perplexidade.
— Onde
está quem?
— Zuglert
— repetiu Dick, em tom impaciente. — O doutor Armin Zuglert, que
falou comigo há trinta segundos, por esse aparelho.
Via-se que
a palestra não era do agrado do Inspetor Neary.
—
Escute aí, rapaz —
principiou. — Além de iniciar a palestra sem dizer bom-dia e sem
apresentar-se, o senhor me vem com tolices. Receio que, quando seus
superiores...
— Não
me venha com essa história de superiores — gritou Dick,
aborrecido. — Aqui fala o Major Kindsom, comandante da Flórida. Há
pouco o Dr. Zuglert me transmitiu uma mensagem TTT, e o sistema de
comunicação afirma que o chamado foi feito desse aparelho. Zuglert
estava exausto. Transmitiu-me um pedido de socorro. A comunicação
foi interrompida. Traga o Dr. Zuglert para junto do aparelho.
Neary
resignou-se ao inevitável. Como simples inspetor não se permitiu
exprimir sua contrariedade perante um major. Mas fez pé firme na
afirmativa de que Zuglert não usara seu aparelho. Ainda disse que,
na missão comercial terrana, nunca fora visto um homem que
correspondesse à descrição fornecida por Dick.
— Nunca
ouvi esse nome, major — concluiu. — Quase estou inclinado a
acreditar que o senhor foi vítima de uma mistificação.
Dick
percebeu que não conseguiria nada. Interrompeu a comunicação e
voltou a chamar o robô. Este voltou a afirmar que o chamado TTT
viera da missão terrana. Dick sabia que seria inútil voltar a
chamar Neary. Ficou refletindo por algum tempo sobre se ele mesmo
deveria tomar alguma providência em relação ao caso Zuglert.
Chegou à conclusão de que sua tarefa mais urgente consistia em
levar a Flórida de volta à Terra, onde aguardaria novas ordens. Por
isso fez uma ligação urgente em código com uma das unidades da
frota terrana, estacionada nas proximidades, e apresentou um relato
minucioso do incidente. Pediu ao comandante da nave capitania que
fizesse o possível para ajudar Zuglert.
Só depois
disso prosseguiu na atividade em que fora interrompido pelo
misterioso chamado. Preparou a transição e programou os dados que
se tornavam necessários, introduzindo-os no dispositivo de pilotagem
automática. Era uma operação que podia fazer até de olhos
fechados. Seus pensamentos ficaram presos a Zuglert. Receava pela sua
vida. Não conseguia desvencilhar-se da imagem que mostrava o rosto
de múmia.
O fato de
a comunicação ter sido interrompida deixou-o bastante preocupado.
Quando apresentasse seu relatório na Terra, não teria muita coisa a
dizer.
Naquele
momento, ainda não sabia que o pouco que poderia dizer
desencadearia, nos próximos dias e semanas, uma ação importante do
governo do Império Solar.
*
* *
Geralmente
se acreditava que os agentes especiais do Fundo Social Intercósmico
de Desenvolvimento levavam vida agradável. Tais agentes constituíam
a reserva secreta da instituição. Eram convocados sempre que surgia
algum problema, que não podia ser resolvido com os meios normais.
Entre uma convocação e outra, faziam o que mais lhes agradasse,
desde que sua situação financeira o permitisse.
A pessoa
que não conhecesse as finalidades do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento, especialmente da Divisão III, à qual estavam
submetidos os agentes especiais, poderia imaginar que todas as
liberalidades de que os mesmos gozavam fora do tempo de serviço se
justificavam face ao seu desempenho na execução das missões
especiais. O simples mortal, que tivesse o direito de escolha,
preferiria renunciar às férias dos próximos dez anos a aceitar a
missão perigosa de um agente especial, cujo cumprimento lhe
garantisse certa porção de tempo livre.
Ao receber
a ordem do Coronel Nike Quinto, de comparecer ao gabinete do mesmo, o
agora Major Ron Landry não teve a menor dúvida de que nos próximos
dias teria muito que fazer.
Ron
adquirira o hábito de liquidar as coisas desagradáveis o mais
rápido possível. Meia hora depois de ter recebido a ordem, já
encontrava-se à porta do gabinete de Nike Quinto. Ainda não estava
bem preparado para as constantes queixas de Quinto, sempre se
lamentando da pressão arterial e da incompetência dos subordinados.
A porta abriu-se e Ron viu a gigantesca escrivaninha, sobre cuja
borda apenas sobressaía o rosto rosado e suarento do coronel.
Ron entrou
e acomodou-se numa das poltronas colocadas à frente da escrivaninha.
Nike Quinto gemia enquanto se movia. Depois de algum tempo os ombros
também apareceram acima da escrivaninha.
— O
senhor sabe como vai minha saúde, Landry — principiou sem o menor
intróito. — Por isso peço-lhe que fique quieto, preste atenção
e não me contradiga. Minha pressão sangüínea chegou ao limite
máximo. Se eu me aborrecer, provavelmente morrerei na hora.
Assim era
Nike Quinto, com sua voz aguda e suas lamentações incessantes a
respeito de seu estado de saúde. Ron Landry sabia que, na verdade, o
coronel era tremendamente saudável.
— Sim,
senhor — respondeu em tom obediente.
Nike
Quinto levantou-se.
— Não
fique dizendo “sim,
senhor”.
Afinal, não lhe fiz nenhuma pergunta — esbravejou.
Acalmou-se
tão depressa como se enfurecera e prosseguiu:
— Amanhã
de manhã o senhor partirá para Lepso. Recebemos informações
estranhas de lá.
Enquanto
Ron concentrava parte de sua imaginação para descobrir quem ou o
que seria Lepso, Nike Quinto relatou o que se passara com Dick
Kindsom, a bordo da Flórida. Ron ficou sabendo que Lepso e Firing II
eram a mesma coisa, e esse fato deu asas à sua fantasia. Mas não
compreendia...
— Quer
dizer que o senhor já sabe o que tem a fazer, não sabe? —
perguntou Quinto, com sua voz aguda.
— Sim,
senhor — respondeu Ron, prontamente. — Precisamos localizar
Zuglert.
Nike
Quinto soltou um gemido e afundou na poltrona.
— Ai,
meu coração! — lamentou-se. — Sabia que o senhor não
compreenderia. Por que não me deram oficiais mais competentes?
Caramba! Eu não o mandaria para Lepso por causa de Zuglert. O que
seria de nós se por causa de cada doente, que vive se lamentando,
puséssemos em ação nossos agentes especiais? Não é disso que se
trata, Landry.
“O
que será?”,
pensou Ron.
Nike
Quinto não teve pressa. Passou a mão pela testa e contemplou a
palma, molhada de suor. Só depois disso, explicou:
— Nos
últimos meses surgiram em Lepso outras figuras mumificadas como a de
Zuglert. Mas as figuras não aparecem nunca duas vezes. A impressão
que se tem é que as pessoas magricelas são transportadas para algum
lugar, assim que surgem, e substituídas por outras. Não sabemos
qual é o sentido disso. Parte de seu trabalho consistirá em
decifrá-lo. Para falar com franqueza, devo dizer que ainda não sei
o que pensar a esse respeito. Talvez a situação não represente
nenhum perigo. Mas é possível que represente. Em algum lugar, lá
em cima...
Quinto
apontou para o teto e prosseguiu:
— ...o
caso Zuglert levantou muita poeira. A ordem de mandar um dos... bem,
dos meus homens para Lepso veio pela linha direta que liga o
administrador com minha pessoa insignificante.
Ron fez um
esforço para controlar-se. Teve vontade de rir. Ficou satisfeito em
saber que, na pressa, Nike Quinto esteve prestes a dizer “um
dos meus melhores homens”.
Mas o fato de que o coronel recebera a ordem diretamente de Perry
Rhodan não deixou de produzir seu efeito em Ron.
— Quer
dizer que o senhor irá para ali — disse Nike Quinto, apontando
para uma porta lateral do gabinete — a fim de familiarizar-se com
tudo que sabemos sobre o misterioso caso de Lepso. O programa inclui
uma matriz da mente consciente do Major Kindsom, comandante da
Flórida, que manteve a palestra TTT com Zuglert. Depois do
treinamento, terá a impressão de que foi o senhor, e não Kindsom
que manteve a palestra.
Ron Landry
levantou-se e dirigiu-se para a porta lateral, que se abriu à sua
frente. Fitou a sala pouco iluminada, em cujo interior os aparelhos
de treinamento hipnótico esperavam por ele.
2
Dali a
três dias, Ron Landry saiu da nave cargueira Efraim, que numa viagem
rápida mas pouco confortável o levara ao espaçoporto da cidade de
Zanithon, em Lepso. Da rampa de carregamento precipitou-se
imediatamente para dentro do movimento confuso da metrópole.
Notou que
Lepso tinha uma peculiaridade: não havia inspeção alfandegária ou
controle de passaportes, não se exigiam atestados de saúde ou outro
qualquer. A pessoa saía de uma espaçonave, como se sai de um táxi,
e começava a andar por aí.
O governo
de Lepso reconhecera em tempo a vantagem da posição galáctica do
planeta, e providenciara para que as numerosas naves, que percorriam
as rotas próximas, descessem em Lepso, a fim de comerciar com parte
das mercadorias que levavam. Para atrair os mercadores, deve-se criar
o menor número possível de problemas para o acesso ao local de
negócios; de preferência não se deve criar nenhum problema. Por
isso não se exigiam nos espaçoportos de Lepso as formalidades, que
nos outros pontos da Galáxia eram obrigatórias e naturais.
Evidentemente, o governo sabia que dessa forma não atraía a Lepso
apenas comerciantes honestos. Isso não lhe doía na consciência,
pois cobrava o imposto de vendas tanto sobre os negócios honestos
como sobre os desonestos. E aquilo que se arrecadava — o dinheiro —
era a única coisa que tinha algum valor em Lepso.
Lepso era
o segundo mundo-satélite de uma estrela amarela, semelhante ao nosso
Sol. A gravitação superficial do planeta era quase igual à da
Terra. Graças à órbita próxima ao astro central, no planeta
reinavam durante todo o ano temperaturas como as que reinam no verão
entre Roma e Cairo.
No curso
dos séculos, a política imigratória liberal do governo de Lepso
fizera com que representantes de quase todas as raças galácticas se
fixassem nesse mundo. Em Lepso havia tópsidas, os seres-lagarto do
planeta Topsid, os swoons, pequenas criaturas em forma de pepino
vindas de Swoofon, gigantescos naats de três olhos, provenientes do
sistema solar arcônida, e inúmeras outras criaturas, parte das
quais vindas de mundos que ainda conservavam sua independência. Mais
ou menos a metade era humanóide, enquanto a outra metade era formada
por seres não-humanos.
Era neste
mundo que Ron Landry pisava pela primeira vez na vida. Há muito
tempo tivera o desejo de visitar Lepso. Mas nunca teria sonhado que
sua profissão lhe propiciaria a realização desse desejo. Ao que
tudo indicava, entre todos os mundos da Galáxia, Lepso era aquele
que menos precisava do auxílio do Fundo Social Intercósmico de
Desenvolvimento.
A pista
asfaltada do espaçoporto terminava junto a um traço verde de verniz
fosforescente. Além desse traço, ficava a rua; era um monstro de
rua, que tinha pelo menos duzentos metros de largura. Seguindo-a pela
direita, chegava-se à cidade. Logo trás do traço verde, com as
extremidades dos veículos bem acima deste, via-se uma fileira de
planadores, em que havia letreiros, geralmente redigidos em língua
arcônida, segundo os quais esses veículos poderiam ser alugados por
pouco dinheiro, juntamente com os motoristas.
Ron
resolveu que iria à cidade num desses táxis. Duvidou de que
houvesse outra possibilidade. Mas antes queria observar o movimento
do tráfego. Uma curiosa confusão de veículos deslocava-se numa
velocidade infernal e uniforme em ambos os sentidos. Ron calculou que
a velocidade dos veículos devia ser de cerca de duzentos quilômetros
por hora. Isso significava que a rua devia ter sido dotada de um
sistema automático de direção do tráfego pelo rádio. Os carros,
que haviam sido adaptados a esse sistema, pertenciam a todas as
marcas conhecidas da Galáxia. Viam-se os elegantes planadores
arcônidas com suas janelas largas e os Fords da Terra, um pouco
menos graciosos, mas em compensação mais seguros. Viam-se veículos
antiquados, bastante altos, que ofereciam grande resistência ao ar
que cobria a rua e provocavam um furacão em sua esteira, bem como
veículos achatados, em forma de barco, vindos dos mundos cuja
atmosfera densa exigia esse formato.
De repente
Ron Landry pôs-se a rir. Não tinha motivo para isso, e nem sabia
por que estava rindo. Era esquisito ver essa coleção multiforme de
inteligências galácticas correr vertiginosamente por ali, e
imaginar que o único motivo dessa tresloucada pressa, era o
dinheiro, já que este, ou melhor, o lucro, representava a única
finalidade de quem vinha a Lepso.
Um rosto
também sorridente inclinou-se para fora do táxi-planador que se
encontrava próximo de Ron.
— Ei,
homem da Terra — gritou. — Por que está rindo? Está interessado
numa viagem à cidade, mister?
Ron
fitou-o com uma expressão de perplexidade. O homem falava em inglês.
Ron aproximou-se do veículo.
— Depende
do preço — respondeu.
— Dois
solares até o centro da cidade, sir — disse o motorista,
prontamente.
Ron
franziu a testa.
— Desde
quando os preços em Lepso são calculados em moeda terrana?
O
motorista hesitou um pouco.
— Santos
deuses dos bosques — disse finalmente, em tom indiferente. — A
gente pega aquilo que consegue, e é mais fácil conseguir o que as
pessoas trazem no bolso, não o que têm de cambiar.
Ron viu
nisso uma cativante lógica mercantilista.
— O
senhor veio do planeta Goszul, não é verdade? — perguntou,
dirigindo-se ao motorista.
Agora foi
a vez deste ficar admirado.
— “Santos
deuses dos bosques”
— respondeu Ron, com um sorriso. — Não conheço nenhum outro
lugar em que estas divindades costumam ser invocadas. Meus parabéns.
O senhor fala perfeitamente nossa língua, sem o menor sotaque.
O
motorista fez com que uma porta se abrisse, como se já tivesse
certeza de que Ron seria seu passageiro.
— Isto
também pertence ao negócio — disse. — Todos gostam de que os
outros falem em sua língua, se possível sem sotaque. Falo uma
porção de línguas, quase todas impecavelmente.
Ron fez
menção de entrar no táxi. Mas, naquele instante, rolou pela rua,
em direção ao traço fosforescente, um veículo que despertou sua
atenção. Era, em essência, uma caixa negra cúbica de quatro
metros de aresta, com uma cabina de comando colada à parte anterior.
Dos dois lados do cubo havia, além das escotilhas fechadas com
pesados ferrolhos, algumas janelas amplas, atrás das quais Ron viu
um líquido verde que se agitava preguiçosamente.
— É um
pisalama — disse o motorista. — Ali... atrás do senhor.
Ron
virou-se. Mais um cubo deslocava-se em direção à periferia do
espaçoporto. Era bem menor que o veículo e, segundo parecia,
consistia em material elástico. Na parte superior desse cubo, também
havia uma janela, e atrás dela via-se o mesmo líquido verde. Por
uma fração de segundo Ron viu um vulto salpicado de marrom-claro e
escuro. Alguma coisa parecia boiar no líquido verde.
O pequeno
cubo aproximou-se do estranho veículo. A escotilha abriu-se
automaticamente. O novo passageiro ergueu-se do solo e pairou para
dentro da abertura. A escotilha voltou a fechar-se. Depois de algum
tempo, Ron viu atrás das janelas do veículo o mesmo vulto salpicado
que observara antes. Ao que parecia, havia uma eclusa no interior da
caixa, e o estranho passageiro se havia desvencilhado do traje
espacial em forma de cubo. Dentro do líquido verde que enchia o
veículo, parecia sentir-se bem.
Ron Landry
ainda estava olhando, quando o cubo voltou a colocar-se em movimento
e começou a deslocar-se pela rua.
— O que
é mesmo? — perguntou, dirigindo-se ao motorista.
— Um
pisalama ou pisalamense — disse o motorista de táxi. — O nome
verdadeiro é diferente, desde que reproduzido por um transec.
Mas é muito complicado, e por isso inventamos essa pronúncia.
Ron entrou
no táxi.
— De
onde vêm essas criaturas?
— De
Pisalam. É um mundo que deve ficar além do centro da Galáxia.
Ninguém sabe como souberam da existência de Lepso. O fato é que
estão aqui e, pelo que se diz, são negociantes muito hábeis.
Ron ficou
satisfeito com a informação que acabara de lhe ser dada. O táxi
pôs-se em movimento. Ron logo notou que o motorista sempre ficava do
lado direito da estrada, onde podia andar tão devagar como quisesse.
— Por
que não segue pelo centro da estrada? — perguntou.
— Não
sabia que o senhor tem tanta pressa em chegar à cidade — disse o
homem de Goszul. — Não tem o aspecto de uma pessoa que esteja com
pressa.
Ron
procurou explicar-lhe que realmente não estava. No entanto, ficou
admirado ao notar que o motorista seguia muito devagar. Caso
corresse, poderia pegar logo outro freguês e ganhar mais dinheiro.
— O
senhor não deixa de ter razão — confessou o motorista. —
Acontece que não gosto dessa agitação. Prefiro ganhar um pouco
menos. Aliás, não sei o que deu de repente em toda essa gente.
Ron aguçou
o ouvido.
— De
repente? Antigamente não era assim?
Um sorriso
amargurado surgiu no rosto do homem de Goszul.
— Sempre
foram malucos — disse, frisando não ser um habitante de Lepso. —
Mas antigamente os carros só andavam à metade ou à quarta parte de
sua potência pelas faixas centrais. Hoje todos desenvolvem a
velocidade máxima permitida pelo sistema de controle. Ninguém tem
tempo a perder. Todos querem chegar o quanto antes a algum lugar e
sair o mais depressa de lá.
Ron
refletiu.
— Quando
foi isso? — perguntou. — O que quero saber é quando a situação
se modificou.
O
motorista refletiu por algum tempo.
— Deve
ter sido há uns três ou quatro meses de Lepso — disse. — Não
sei exatamente. A mudança foi muito rápida; aconteceu em poucos
dias.
Não quis
dizer mais que isso. E Ron tinha tanto assunto para reflexões, que
podia dispensar outras perguntas. A viagem ao centro da cidade correu
em silêncio. Ron pagou a corrida e desceu. Tinha certeza de que
nunca mais veria o motorista de táxi.
Escolhera
ao acaso o local em que descera. Sua suposição de que, no centro da
cidade, devia haver uma porção de hotéis revelou-se correta. Ainda
mergulhado em reflexões, atravessou uma ampla porta de vidro, que se
abriu automaticamente à sua frente, e viu-se num amplo hall. Olhou
em torno para descobrir o robô de recepção, mas notou não haver
nenhum robô. À sua esquerda havia um amplo balcão, e sobre este
via-se uma enorme placa que, em dez línguas diferentes e quatro
caracteres de escrita diversos, avisava que este era o local de
recepção. Do outro lado do balcão havia uma mulher, que fitou Ron
com um sorriso amável.
Ron
aproximou-se.
— Bom
dia, cavalheiro — disse a mulher num inglês que não era tão
impecável como o do motorista de táxi.
Era uma
araucana, ou seja, uma nativa do planeta Arauca. Pelo que Ron pôde
notar, correspondia exatamente à imagem que se costumava fazer na
Galáxia sobre as verdadeiras araucanas: era loura, de olhos negros,
bela, selvagem e imprevisível.
— Quero
um bom quarto, bem grande — disse Ron, em tom áspero.
Não
gostava que uma mulher lhe sorrisse sem que ele desse motivo para
isso. Sabia que era bonito: louro e alto, até muito alto, e de
ombros largos.
A araucana
parecia não perceber a rejeição que havia no tom de voz de Ron.
Seu sorriso tornou-se ainda mais intenso. Trajava segundo uma moda
que Ron não conhecia, mas que não pôde deixar de considerar fina e
sofisticada.
— Só
temos quartos bons e grandes — respondeu.
Ron deu de
ombros, num gesto de indiferença.
— Está
bem. Nesse caso qualquer um serve.
A mulher
tirou uma espécie de catálogo de sob o balcão. Virou-o, abriu a
primeira página e empurrou-o para junto de Ron.
— Quer
fazer o favor de escolher? — cochichou.
Ron
estudou o registro. A variedade das ofertas o confundia. Havia
aposentos cúbicos, retangulares, semi-esféricos e esféricos. Havia
quartos de atmosfera uniforme e outros em que a mesma formava camadas
sobrepostas. Havia recintos em que a gravitação era regulada de 0,1
a 5 vezes o normal. Havia aposentos com temperaturas que variavam de
menos setenta até mais trezentos graus centígrados, e inúmeras
outras variantes.
Depois de
algum tempo, Ron encontrou aquilo que procurava.
— Quero
este — disse, apontando para a linha correspondente.
A araucana
nada teve que objetar. Sem que ninguém lhe pedisse, declarou-se
disposta a mandar a bagagem de Ron para o quarto, muito embora a
mesma ainda tivesse de ser enviada do espaçoporto. Depois disse
alguma coisa que Ron achou muito estranha, principalmente porque não
compreendeu:
— Quero
dar-lhe um conselho, cavalheiro. Se estiver aqui para tratar de
negócios e quiser ser bem-sucedido, escolha sempre a bebida
adequada.
*
* *
Quando
abriu a porta do quarto com a chave codificada, Ron ainda estava
mergulhado em pensamentos. Entrou sem levantar os olhos, fechou a
porta e deixou-se cair numa poltrona, que ficava junto a uma mesa
baixa, à direita da entrada.
Só depois
de algum tempo viu a caixa que estava instalada no quarto. Atrás da
grossa vidraça uma sombra matizada de cinza-escuro e claro movia-se
dentro de um líquido verde viscoso.
Ron
assustou-se, não pelo quadro que se lhe ofereceu, mas pelo fato de
que fora tolo e descuidado a ponto de cair numa armadilha — isso
caso o pisalama lhe quisesse fazer alguma coisa.
— Não
tenha medo — disse uma voz tranqüilizadora. — Não vim para
fazer-lhe mal.
De
repente, Ron ficou furioso.
— Como
conseguiu entrar aqui? — perguntou.
A voz
hesitou por algum tempo.
— Os
habitantes de Pisalam dispõem de certas faculdades fora do comum —
disse. — Acho que isso basta para explicar minha presença.
Ron tinha
a impressão de que o traje espacial cúbico continha um transec,
isto é, um aparelho que traduz as palavras de uma língua para
qualquer outra, desde que seus bancos de dados sejam alimentados com
um volume suficiente de informações. Só assim se explicava que Ron
e o nativo de Pisalam pudessem conversar. Mas o major não sabia
explicar como o ser estranho conseguira perceber o temor que sentira,
e como lhe fora possível penetrar por uma porta trancada por uma
fechadura eletrônica.
— O que
deseja? — disse Ron, em tom áspero.
— Talvez
o senhor esteja lembrado de que, junto ao espaçoporto, nossos táxis
ficaram próximos um ao outro — disse o ser estranho. — Passei
perto do senhor, e então... então percebi que o senhor veio a Lepso
para procurar uma pessoa desaparecida.
Ron
sentiu-se perplexo.
— Tolice
— disse.
O
alto-falante do transec
invisível transmitiu uma espécie de risada irônica.
— Por
que quer negar? — perguntou a voz. — Não somos telepatas no
verdadeiro sentido da palavra. Mas conseguimos identificar
perfeitamente desejos e pensamentos intensos dos seres que se
encontram nas vizinhanças. Tenho certeza absoluta de que no seu caso
não estou enganado.
Ron
recostou-se na poltrona.
— Seja
lá o que o senhor quer dizer — Falou — tente ser objetivo. O que
deseja de mim?
A caixa
concordou.
— É uma
ótima idéia. Preste atenção.
Tenho que
dar uma explicação um tanto prolongada. O senhor não conhece meu
mundo natal, Pisalam; ninguém conhece. Por isso não pode saber que
somos um povo muito pequeno. Para usar sua linguagem numérica, direi
que ao todo não somos mais que uns oito mil seres. Não é que
sejamos uma raça em decadência. Nunca fomos muito mais seres, e
nunca fomos muito menos. O número reduzido de nossa raça fez surgir
um relacionamento íntimo entre os membros da mesma. Quando dez deles
resolveram vir a Lepso, ficamos muito tristes e desconfiados. Apesar
disso, essa viagem tornou-se necessária. É que daqui, de Lepso,
poderemos obter certas coisas que em outra parte só conseguiríamos
com muita dificuldade, ou não conseguiríamos de forma alguma. Por
isso deixamos que os dez seres, que haviam resolvido vir a este
mundo, partissem. Entretanto sempre ficamos em contato com eles.
“Acabamos
de saber que um deles desapareceu. Isso provocou muita tristeza em
nosso povo. Cinco seres de nossa raça saíram à procura do
desaparecido. Não podemos aceitar passivos o desaparecimento. A
criatura está em perigo, e temos de ajudar. O senhor compreende?”
Ron
confirmou com um gesto.
— Sem
dúvida. Apenas não vejo o que eu tenho a ver com isso.
— É
simples. O senhor também está à procura de um indivíduo
desaparecido. Será que, caso desse com a pista do ser vindo de
Pisalam, poderia avisar-nos?
Ron não
teve a menor objeção.
— Como
farei para entrar em contato com os senhores?
— Não
haverá o menor problema. No momento em que descobrir a pista, o
senhor provavelmente ficará tão surpreso que perceberei seu impulso
mental, uma vez que já sei identificá-los. Quando isso acontecer,
entrarei em contato com o senhor o mais depressa possível.
— Está
bem — disse Ron. — O senhor deve saber que provavelmente não
poderei lazer nada para ajudá-lo. O desaparecimento de dois seres
não prova que tomaram a mesma direção. É possível que eu
encontre a pessoa que procuro, sem dar com o menor vestígio do
indivíduo de sua raça.
— Isso
pode acontecer — disse o ser de Pisalam. — Apenas estou
aproveitando uma das muitas possibilidades que tenho pela frente.
Sinto-me satisfeito pelo fato de o senhor me ter ouvido e mostrar-se
disposto a ajudar. Espero que um dia também lhe possa ser útil.
Ron esteve
a ponto de formular uma pergunta. Porém, naquele instante, o ser
estranho desapareceu juntamente com o liquido verde e a caixa em
forma de cubo. Ron ficou só no seu quarto.
Levantou-se
com um suspiro. “Mais
um desses teleportadores”,
pensou um tanto contrariado. “É
assim que sempre encerram uma conversa. Desaparecem de repente, de
forma que ficamos sem possibilidades de formular outras perguntas.”
Ron Landry
não estava nem um pouco satisfeito consigo mesmo. Desde o momento em
que se encontrava em Lepso, tinha a impressão de não estar seguindo
pistas, mas de encontrar-se preso a um fio, que estava sendo puxado
por outra pessoa.
Isso não
podia continuar assim. Ron resolveu entrar em atividade, dando
início, sem mais demora, à execução de sua tarefa. Naquele
instante ouviu um zumbido junto à porta. A mão direita de Ron
apalpou a pequena arma que trazia no cinto. Depois disso procurou
inteirar-se de como abrir a porta. Encontrou um quadro de comando na
borda da mesinha de cabeceira que se achava junto à cama larga.
Comprimiu o botão sobre o qual estava desenhada uma porta.
A porta
abriu-se. Viu uma araucana com uma bandeja, sobre a qual havia dois
copos e várias garrafas.
— Acho
que o senhor não se esqueceu do meu conselho, sir? — indagou. —
Escolhi a bebida apropriada para o senhor.
Viu os
dois copos, que se destacavam provocadoramente na beira da bandeja, e
a fileira de garrafinhas reluzentes com os rótulos amarelo-violeta.
Mal acabara de dar-se conta de que em Lepso deixara de desempenhar o
papel de ator para transformar-se em marionete, quando aparecia mais
alguém que lhe dizia o que devia fazer.
Era
demais!
— Leve
isso e beba sozinha — gritou para a moça, esforçando-se para
reprimir a cólera. — Quando quiser tomar alguma coisa, saberei
pedir. E quando isso acontecer, quero que a bebida me seja fornecida
pelo serviço de entrega nos apartamentos. Entendido?
O sorriso
desapareceu do rosto da moça. Ron ainda a viu estreitar os olhos e
fitá-lo com uma raiva incontida. Depois disso, a araucana virou-se
rapidamente e saiu.
Ron
comprimiu outro botão do quadro de comando e ouviu a porta fechar-se
com um ruído surdo.
— Lepso!
Que mundo louco é este! — balbuciou.
3
Na noite
do mesmo dia, Ron Landry descobriu onde ficava o escritório do Dr.
Zuglert e resolveu que ainda nessa noite faria uma visita ao local.
Antes disso tivera uma palestra de telecomunicador com a unidade mais
próxima da frota terrana e soubera que nada mais se descobrira sobre
o paradeiro de Zuglert.
Os dados
pessoais do doutor eram conhecidos, já que ele os tivera de fornecer
à polícia de Lepso, a fim de obter o visto permanente. Zuglert era
médico-biólogo, que dedicara suas pesquisas à obtenção de novas
substâncias medicinais. Suíço de nascimento, possuía o título de
doutor fornecido pela Universidade de Bolonha. Tinha cinqüenta e
dois anos e, até o momento de seu desaparecimento, vivera quatorze
anos e meio em Lepso. Conforme constava à polícia, durante esse
tempo só deixara Zanithon por três ou quatro vezes. Tinha
escritório na Rua Oitenta e Seis. Todos sabiam que um homem como
Zuglert não poderia deixar de ter um laboratório. Mas ninguém
sabia onde este se localizava.
Aliás, a
polícia de Lepso recusou-se a realizar diligências destinadas a
encontrar o desaparecido. Argumentava que, em Lepso, qualquer pessoa
tinha o direito de desaparecer e reaparecer à vontade, e que era bem
possível Zuglert considerar qualquer busca como uma restrição à
sua liberdade individual.
O oficial
com o qual Ron Landry estava conversando acrescentou, finalizando:
— É
claro que isso não passa de uma desculpa barata, major. Essa gente
simplesmente não quer incomodar-se com o caso. Talvez as
investigações venham revelar algo que eles preferem ver sepultado.
Essas
palavras não saíram da cabeça de Ron, enquanto este se dirigia à
Rua Oitenta e Seis. Uma araucana encontrava-se atrás do balcão de
recepção, no hall de entrada. Era tão bela como a que quisera
levar Ron a tomar alguma coisa. Mas não lhe sorriu. Provavelmente
fora avisada pela colega.
Ron foi a
pé. Já ficara escuro, e as fontes de luz de todas as cores
inundavam a cidade. Nos vinte minutos que levou para circundar metade
da praça que formava o centro da cidade de Zanithon viu a maior
variedade de habitantes da Galáxia da sua vida.
Durante o
caminho usara todos os truques, que costumam ser ensinados a um
agente treinado. Sentia-se, assim razoavelmente seguro de não estar
sendo seguido. Pegou um táxi, dirigido por um gigantesco naat, que
meteria medo a qualquer pessoa, e pediu que este o levasse à Rua
Oitenta e Quatro. Voltou a caminhar para percorrer os últimos dois
quarteirões.
A Rua
Oitenta e Seis era uma rua típica de edifícios de escritório. As
velhas construções dos mais variados estilos erguiam-se de ambos os
lados, e os milhares de anúncios luminosos tornavam dispensável
qualquer tipo de iluminação pública. A Intensidade do tráfego de
veículos era tão Impressionante quanto em outros lugares da cidade.
Em compensação, o número de pedestres era reduzido.
No
edifício em que ficava o escritório de Zuglert, algumas janelas
continuavam iluminadas. O fato divertiu Ron.
“Deve
ser alguém que corre tanto atrás do dinheiro que chega a trabalhar
até de noite”,
pensou.
Subia os
amplos degraus que levavam à gigantesca entrada fechada por uma
porta de vidro. Não se admirou por ter de abri-la manualmente. O
mecanismo de abertura era desligado depois das horas do expediente.
Atrás da
porta de vidro ficava um hall de recepção igual ao de outros
edifícios desse tipo, com o robô de informações à esquerda e a
fileira de poços de elevadores antigravitacionais à direita. Ron
não tinha motivo para formular qualquer pergunta ao robô. Sabia que
o escritório de Zuglert era no vigésimo-terceiro andar, sala número
23.048. Comprimiu o botão correspondente ao número 23 no quadro de
comando do elevador mais próximo e aguardou até que a luz de
controle se acendesse. Entrou no poço e teve certeza de que a sucção
suave do campo de gravitação artificial o atingiria e o levaria ao
destino por ele escolhido. Ron não sentiu nenhuma sucção: caiu.
Não houve nenhum campo gravitacional, e Ron passou por aquilo que
acontece com qualquer pessoa que salta para dentro de um poço. A
velocidade da queda foi aumentando. Ron entesou os músculos para
absorver o inevitável impacto.
Seguiu-se
um baque, e Ron Landry, membro da Divisão III, foi colocado fora de
combate.
*
* *
Quando
recuperou os sentidos, viu um rosto moreno bem à sua frente, no qual
um par de olhos cinzentos também o fitavam com uma expressão
desconfiada. A testa, circundada por uma cabeleira negra muito bem
tratada, não era muito alta. O homem que o observava estava
ajoelhado.
— O
senhor teve uma sorte inacreditável — disse o homem.
Ron
procurou erguer-se. Sentiu dores que não conseguiu localizar. A
cabeça funcionava perfeitamente, mas o resto do corpo parecia ter
sido atingido por um martelete mecânico.
— Onde
estamos? — perguntou, totalmente confuso.
— No
vigésimo-terceiro andar — respondeu o homem de cabelos negros. —
Na sala número dois-três-zero-quatro-oito. Acho que isto não
significa nada para o senhor...
Ron
ergueu-se abruptamente e interrompeu seu interlocutor em meio à
frase.
— Por
que vim parar justamente aqui?
O homem de
cabelos negros fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— Presenciei
a queda. O senhor usou o poço que não estava em funcionamento. Não
viu a placa de aviso? Desci ao portão, usando outro poço, e trouxe
o senhor para cima. Uma vez que estava a caminho desta sala, resolvi
trazê-lo comigo. No momento em que pretendia chamar um médico, o
senhor recuperou os sentidos.
Ron
sentou-se. Não conseguia ver toda a sala. Mais atrás havia uma
lâmpada colocada a cerca de um metro e meio de altura, que derramava
uma luz ofuscante sobre ele e o homem de cabelos negros. Fora o
círculo de luz projetado pela lâmpada, tudo estava mergulhado em
escuridão. Ron não se sentiu muito à vontade.
— Está
sentindo alguma coisa? — perguntou o homem de cabelos negros, em
tom preocupado. — Será que precisa de um médico?
Ron
balançou a cabeça. Tinha certeza de que a queda só lhe causara
algumas escoriações. Mas não tinha tanta certeza sobre outras
coisas...
— Quem é
o senhor? — perguntou.
— Meu
nome é Gerard Lobson — respondeu o homem de cabelos negros. —
Sou proprietário desta sala.
— O
senhor disse que o número da mesma é dois-três-zero-quatro-oito?
— Isso
mesmo.
— Desde
quando é proprietário da sala?
Gerard
Lobson franziu a testa; parecia não gostar da pergunta.
— Há...
há quatro anos — respondeu cm tom hesitante.
— Por
que está mentindo? — perguntou Ron.
Lobson
recuou. Arregalou os olhos. De repente pareceu sentir um medo
tremendo.
— Por
que estou mentindo? — respondeu ofegante. — Não estou mentindo
coisa alguma. Por que...?
— Até
poucos dias atrás esta sala pertencia ao doutor Zuglert — disse
Ron, em tom áspero. — Exijo...
Foi
interrompido por um ruído. Tinha-se a impressão de que alguém
arranhava o soalho, muito além da lâmpada que produzia a luz
ofuscante. Antes que Ron tivesse tempo de fazer qualquer movimento,
ouviu-se uma voz grave e retumbante.
— Basta!
Acendam a luz.
As luzes
do teto acenderam-se. Depois do primeiro momento de confusão, Ron
deu-se conta de que o desconhecido falara em arcônida. Virou a
cabeça e viu uma escrivaninha à sua direita. Sobre essa
escrivaninha encontrava-se a lâmpada que o ofuscara. Atrás da mesa
havia três pessoas. Duas delas eram robustas e a outra, magra,
enrugada e ainda mais alta que as outras.
Ron
compreendeu que caíra numa armadilha.
*
* *
Um dos
homens de ombros largos saiu de trás da escrivaninha. Ron viu que
tinha alguma coisa na mão. Inclinou-se sobre ele, estendeu a mão e
disse: — Tome isto.
Continuava
a falar em arcônida. Entre o polegar e o indicador da mão direita
segurava uma garrafinha, na qual se via um rótulo colorido em
amarelo-violeta.
A
recordação teve a força de um impacto em Ron. Era a mesma
substância que a araucana lhe oferecera no hotel. Era estranho que
tanta gente desejasse que ele sorvesse tal bebida.
Dirigiu-se
a Gerard Lobson, que se afastara, permanecendo de joelhos.
— O que
é que ele está querendo? — perguntou em inglês.
Gerard
parecia surpreso.
— Diz
que o senhor deve tomar isso.
— Por
quê?
Gerard
voltou a mostrar medo.
— Pelo
amor de Deus, beba sem formular perguntas. Ele...
Com a mão
direita, Ron afastou o braço do homem de ombros largos.
— Tome
você! — gritou. — Eu mesmo costumo escolher minhas bebidas.
Continuava
a falar em inglês, mas tinha suas dúvidas de que conseguisse
convencer os três desconhecidos por muito tempo de que não sabia
falar o arcônida. Evidentemente dois deles eram saltadores, ou seja,
membros da raça dos mercadores galácticos, que estavam metidos em
quase tudo quanto era negócio. O terceiro homem talvez fosse um ara.
Os aras eram uma raça aparentada à dos saltadores, que se dedicara
às ciências, especialmente às ciências biomédicas, com o mesmo
entusiasmo que os saltadores demonstravam em relação aos negócios.
O saltador
que estava inclinado sobre Ron ficou furioso.
— O
senhor vai beber isto! — gritou em inglês.
“Se
não sentisse tantas dores pelo corpo, eu lhe mostraria o que vou e o
que não vou fazer”,
pensou Ron, dominado pela cólera.
Procurou
pôr-se de pé. Sentiu-se admirado ao notar que o saltador não fez o
menor esforço para impedi-lo. Este chegou até a afastar-se. Ron
procurou abafar as dores e encostou-se à parede. O saltador
continuava a segurar a garrafinha.
— O que
é isso? — perguntou Ron.
— Licor
— respondeu o saltador. — Tome.
— O
senhor quer que eu morra dentro de três segundos, não é? —
perguntou Ron, em tom irônico.
O saltador
balançou a cabeça.
— Se
quiséssemos matá-lo poderíamos usar um método menos inconveniente
que o veneno — disse.
Era
verdade. Realmente, Ron não acreditava que na garrafinha houvesse um
veneno mortal. Devia conter alguma droga que eliminasse a vontade de
Ron, e fizesse com que o terrano se tornasse loquaz ou produzisse um
efeito análogo.
Gerard
Lobson suplicou com a voz trêmula que Ron tomasse o líquido, mas
este se manteve inflexível.
— Não —
disse. — É minha última palavra.
O ara que
se encontrava atrás da escrivaninha ficou possesso. Ron notou um
movimento rápido nos fundos da sala. Empurrando-se com o ombro,
atirou-se para a frente. Mas a queda, que antes havia sofrido,
eliminara a atuação de muitos dos seus músculos e tornara suas
reações mais lentas. Enquanto caía para a frente, foi atingido por
um golpe fulminante. Um sino parecia ressoar no interior de seu
crânio, e a escuridão voltou a envolvê-lo.
*
* *
Quando Ron
voltou a despertar, a cena estava modificada. Mas era mais uma vez
Gerard Lobson que se inclinava sobre ele.
— Introduziram
o líquido à força em sua boca.
Ron
ergueu-se. Não sabia o que haviam leito com ele, mas o fato é que
não produzira maiores efeitos. Encontrava-se bem-disposto. As dores
tinham sumido, e sentiu-se como quem está em condições de
enfrentar todo o mundo. Se os saltadores aparecessem, ele lhes
mostraria em que tipo de homem haviam posto as mãos.
Provavelmente
o ara atirara nele com uma arma paralisante. Ficara inconsciente e
aproveitaram-se disso para fazer com que engolisse o líquido.
— Que
bebida é essa? — perguntou, dirigindo-se a Gerard.
— É um
licor — respondeu Gerard. — E é só o que eu sei. É vendido
livremente em Lepso e é bastante apreciado.
Isso
parecia estranho.
— Já
tomou esse licor?
Gerard fez
que sim.
— Só
depois de eles terem posto as mãos em mim. Obrigaram-me a tomá-lo,
da mesma forma que fizeram com o senhor.
— E qual
foi o resultado?
— Hum —
disse Gerard, em tom hesitante. — Parece ser uma cachaça muito
forte. Depois de tomá-la a gente tem a impressão de que é capaz de
arrancar árvores e enfrentar todo o mundo.
Ron
confessou que no momento sentia a mesma coisa.
— Quanto
tempo dura isso?
— Não
sei — respondeu Gerard. — Estão sempre me dando mais um gole,
antes que o efeito passe.
Ron olhou
em torno. Encontravam-se num recinto amplo em que não havia nenhuma
janela. O chão era de pedra dura e lisa. As paredes e o teto eram do
mesmo material. Duas fileiras de colunas toscas saíam do chão e
sustentavam o teto. Uma velha lâmpada de gás, pendurada entre as
duas fileiras de colunas, espalhava sua luz pela sala. Numa das
paredes havia uma porta. Era de metal. Ron pôs a mão no lugar em
que costumava guardar a arma, e notou que esta não se encontrava sob
o casaco. Naquele momento compreendeu, mesmo sem examinar a porta,
que não conseguiria abri-la sem auxílio.
— Isto é
um porão, não é? — perguntou.
— É sim
— confirmou Gerard.
— Onde
se localiza?
— Não
sei. Toda vez que venho para cá meus olhos são vendados.
De
repente, Ron soltou uma risada.
— Então
usam métodos já ultrapassados?
Apesar da
aparente resistência da porta, Ron, sentindo-se atraído, foi tentar
abri-la. Passou entre as colunas e procurou girar a maçaneta
antiquada. Aconteceu o que esperara: sua tentativa não foi
bem-sucedida. A porta estava trancada; a maçaneta não girou nem um
milímetro.
— O
senhor já esteve aqui muitas vezes? — perguntou, dirigindo-se a
Gerard.
— Uma
vez. Antes que viessem buscar-me para...
— Para
quê?
— Bem,
para arrancar do senhor a informação sobre se...
De um
momento para o outro, a cena que se desenrolara no escritório de
Zuglert surgiu nitidamente na mente de Ron. Gerard contara-lhe uma
mentira e assim fizera com que dissesse que a sala, onde se
encontravam, era o escritório do Dr. Zuglert. Logo após isso, os
saltadores acenderam a luz e se identificaram.
“Isso
faz sentido”,
constatou Ron. “Não
queriam que ninguém se interessasse pelo desaparecimento de Zuglert.
Por quê?”
O terrano
teve a impressão de que já conseguira um bom progresso, depois de
ter chegado a Lepso. É bem verdade que tal acontecera sem qualquer
atuação consciente de sua parte. Além disso, face à situação em
que se encontrava, tornava-se duvidoso que jamais os conhecimentos
adquiridos lhe pudessem ser úteis.
Mas, por
enquanto, precisava saber de Gerard tudo que este soubesse, quer
houvesse uma saída, quer não, Gerard encontrava-se em poder dos
saltadores há mais tempo que ele mesmo.
De início
Lobson mostrou-se hesitante, mas acabou relatando fielmente o que se
passara no escritório de Zuglert. Não deixou de revelar que de
tanto medo fugira, deixando Zuglert entregue ao seu destino.
Ron
procurou unir os fatos, para descobrir o que deveria ter acontecido.
Provavelmente Zuglert conseguira pôr-se de pé. E sem que ninguém o
ajudasse, saíra do edifício e chegara a um lugar do qual realizara
a palestra TTT com a Flórida.
Talvez
durante a palestra o doutor desaparecera. Restava saber por que
motivo o robô de comunicações chegara à conclusão de que a
ligação fora feita do terminal da missão comercial terrana. No
entanto, Gerard não saberia esclarecer este ponto.
— Dali a
algumas horas — prosseguiu Gerard — minha consciência começou a
acusar-me. Procurei descobrir o que era feito de Zuglert. Pus-me a
caminho. O escritório estava aberto. Entrei. Bem... lá dentro
estavam os três indivíduos que o senhor já conhece. Perguntaram o
que eu desejava, de onde conhecia Zuglert, por que havia voltado, e
assim por diante. Levaram-me para baixo. Uma vez no carro,
obrigaram-me a tomar o licor que também foi introduzido na sua boca.
Depois vendaram meus olhos e trouxeram-me para cá. Fiquei aqui cerca
de quatro horas.
“Depois
vieram buscar-me. Mais uma vez, meus olhos foram vendados. Quando a
venda foi retirada, o carro encontrava-se à frente do edifício em
que fica o escritório de Zuglert. Subimos e esperamos. Não sabia
por quê. Ninguém respondeu à pergunta que formulei a este
respeito. Ficaram mexendo bastante na escrivaninha de Zuglert. De
repente pareceram muito surpresos. Um deles saiu correndo, e, quando
voltou, catava carregando o senhor. Depois obrigaram-me a ajoelhar a
seu lado e contar-lhe algumas mentiras assim que despertasse. Assim o
senhor acabou revelando que viera por causa de Zuglert. O resto, o
senhor já sabe.”
Sim, Ron
sabia o resto, mas parecia haver alguns pontos obscuros nas
informações de Gerard. Será que os saltadores haviam desativado os
elevadores antigravitacionais, fazendo com que todos os
retardatários, que visitassem o edifício, caíssem no porão? Em
caso negativo, como poderiam saber a que hora ele chegaria e qual o
elevador que utilizaria?
Dirigiu-lhe
mais algumas perguntas. Não confiava muito naquele homem de cabelos
negros, motivo por que Gerard teria de trair-se, a não ser que
soubesse mentir com muita habilidade. Mas Ron não conseguiu nada.
Gerard ficou firme em suas afirmações.
Finalmente,
o agente terrano deu-se por satisfeito. Descobrira tudo que ele
poderia revelar-lhe e estava na hora de pensar na elaboração de um
plano.
Provavelmente
os saltadores começariam a interrogá-lo. Se suas respostas não
fossem satisfatórias, recorreriam a algum truque para eliminar sua
vontade e extrair todo o conteúdo de sua consciência, inclusive o
fato de que aquele homem louro e alto era um agente especial da
Divisão III. Descobririam até o que realmente vinha a ser a Divisão
III.
As coisas
não deveriam chegar a este ponto. Ron tinha de encontrar um meio de
escapar aos saltadores.
Não
deixou de reconhecer que se encontrava numa situação difícil.
Os
instrumentos, que poderiam facilitar-lhe a fuga, encontravam-se na
sua bagagem, e ele saíra do hotel antes que esta chegasse. Nem
sequer tinha em seu poder o pequeno transmissor que lhe permitiria
irradiar um pedido de socorro. Dependia exclusivamente de si mesmo,
da sua imaginação e de suas mãos.
Mal
acabara de concluir o balanço da situação, a porta de aço foi
destrancada e abriu-se ruidosamente. Dois gigantescos saltadores
entraram, carregando uma mesa estreita e comprida de plástico sobre
a qual havia uma série de aparelhos. Os saltadores não disseram uma
única palavra. A porta fechou-se atrás deles — automaticamente,
ao que parecia — e Ron, que prestara atenção a tudo, notou que
seu caminho voltara a ser bloqueado. A mesa foi colocada no centro da
sala, entre as duas fileiras de colunas. Ron fizera um estudo
intensivo de tecnologia extraterrena, motivo por que reconheceu os
dois encefaloceptores. Sentiu-se dominado pelo pavor.
Os
saltadores haviam tomado sua decisão com uma rapidez assustadora. E,
o que era pior, dispunham de todo o arsenal de aparelhos que, segundo
acreditava, levariam alguns dias para serem trazidos.
Os dois
saltadores colocaram-se ao lado da mesa. Um deles tirou uma arma e
apontou-a para Ron. O outro disse:
— Agora
vamos interrogá-lo, homem da Terra. Supomos que não se disponha
espontaneamente a revelar-nos a verdade. Portanto, usaremos este
aparelho. Venha cá!
Num
instante, Ron avaliou suas chances. Se ele se recusasse,
obrigá-lo-iam a submeter-se ao interrogatório. De que forma? Com a
arma que um dos saltadores tinha na mão. Tratava-se de um radiador
térmico. Se este disparasse, já não haveria nenhum Ron Landry que
pudesse ser interrogado.
Ao dar-se
conta disso, Ron sentiu-se amargurado e deu um passo em direção à
mesa com os instrumentos.
Nesse
instante aconteceu o inacreditável.
4
Um dos
dois saltadores caiu para o lado e bateu fortemente no chão. O
outro, que segurava a arma, parecia hesitar. Lançou um olhar
desconfiado e apavorado para Ron. Contornou apressadamente a mesa, a
fim de ajudar o companheiro. Deu dois saltos, mas uma terrificante
força invisível parecia impedi-lo de dar o terceiro salto. Ron viu
que se esforçou para entesar os músculos. Soltou um grito de raiva
e surpresa e procurou empurrar-se com ambos os pés, numa tentativa
de avançar. Mas a força invisível foi mais forte. Puxou-o para
baixo, atirou-o ao chão e comprimiu-o até que perdesse os sentidos.
Sem dizer
uma palavra, Ron acompanhara o incidente. Fitou o saltador que caíra
em primeiro lugar. Também parecia inconsciente. Ron aproximou-se e,
para ter certeza, sacudiu-o. O homem não fez o menor movimento.
Ron
compreendeu que sua chance havia chegado.
— Vamos
dar o fora! — gritou, dirigindo-se a Gerard.
— Mas...
mas... — gaguejou este, perplexo.
Ron
agarrou-o pelo ombro e puxou-o em direção à porta.
Desta vez,
a maçaneta não ofereceu qualquer resistência. Girou facilmente. A
porta abriu-se. Lá fora havia um corredor estreito, escassamente
iluminado.
Com a arma
em punho e depois de ter deixado para trás a porta que impedia seus
movimentos, sentiu de repente a tremenda ânsia de entrar em
atividade que, segundo afirmava Gerard, provinha do estranho licor.
Naquele momento desejava que, do outro lado do corredor, aparecessem
alguns saltadores, a fim de que pudesse mostrar aos mesmos o que
acontece a quem rouba a liberdade de um agente especial da Divisão
III.
Teve de
abandonar a idéia. Deveria dedicar sua atenção a dois pontos. Se
possível, queria sair do edifício sem que ninguém o notasse. Além
disso, teria que cuidar de Gerard, para que este, de tão apavorado
que ficara com aquilo que acontecera no porão, não fizesse tolices
ou saísse correndo.
Por
enquanto Gerard deixava que Ron o dirigisse.
Parou
quando este o segurou a fim de olhar o que havia além da curva, que
ficava a uns dez metros da porta pela qual haviam escapado. Não viu
o menor sinal de perigo. Um pouco adiante, o corredor terminava junto
ao poço de um elevador antigravitacional. Ron não teve a menor
dúvida em utilizá-lo. Comprimiu o botão do andar térreo e
empurrou Gerard para dentro do poço, seguindo-o de perto.
Viram
acima de suas cabeças a luminosidade da saída, que dava para o
andar térreo. Conforme devia, a sucção do campo gravitacional
cessou quando Gerard se encontrava na altura da saída. Lobson pegou
a barra de apoio e puxou-se para fora. Ron seguiu-o imediatamente.
Viu-se no hall de recepção profusamente iluminado de um grande
edifício de escritórios. Escondeu o mais depressa possível a arma
térmica que arrebatara do saltador.
Gerard
parou, aguardando novas instruções. Ron olhou em torno e viu apenas
o público que costumava movimentar-se pelos edifícios desse tipo.
Uma profusão de seres de todas as espécies passou por uma das duas
fileiras de portas, e uma outra profusão tão grande como a primeira
deixava-o pela fileira de portas da outra parede. Os que passavam
perto de Ron e Gerard fitavam-no com uma expressão de espanto ou de
desconfiança. O agente terrano não demorou a perceber que isso
acontecia unicamente porque sua roupa ficara bastante estragada com a
queda sofrida no poço do elevador.
Chegou à
conclusão de que não havia inconveniente em se afastarem o mais
depressa possível. Misturaram-se aos indivíduos que iam saindo e,
dali a alguns segundos, viram-se na pomposa faixa de pedestres que
ficava ao lado de uma rua larga.
Ron olhou
em torno.
— Que
lugar é este? — indagou, dirigindo-se a Gerard.
Teve de
repetir a pergunta para obter uma resposta.
— O
setor norte da cidade — disse Gerard, laconicamente. — Na Avenida
dos Cinco Mares.
Havia
vários táxis junto ao meio-fio. Ron achou que seria muito arriscado
pegar um dos veículos estacionados junto ao edifício, pois com isso
poderia voltar a cair nas mãos das pessoas às quais mal e mal
conseguira escapar.
Foram
caminhando pela calçada. Estava anoitecendo. A claridade pálida,
que o céu ainda conseguia espalhar, era abafada por milhares de
anúncios luminosos. Ron viu vários restaurantes nas proximidades e
deu-se conta de que estava com fome. Contemplou suas roupas. Se
escolhesse um local adequado, ninguém teria uma objeção contra as
mesmas.
A fim de
gravar na memória a imagem do edifício do qual haviam saído,
virou-se. Ficou tão surpreso com aquilo que viu, chegando até a
esbarrar em Gerard, que parara.
Bem alto,
na fachada da gigantesca torre, lia-se em caracteres latinos de pelo
menos cinco metros de altura a inscrição pomposa: Missão Comercial
Terrana.

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