sexta-feira, 2 de setembro de 2016

P-108 - O Deserto da Morte - Kurt Mahr [Parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Morto-vivo!
Os agentes da Divisão III na pista dos antis.


O Sistema Azul, um velho inimigo de Árcon e um novo inimigo da Terra, teve de aceitar a rendição incondicional, depois da destruição das usinas espaciais, que forneciam a energia para o enorme campo defensivo. Privados dessa proteção, os acônidas passarão a respeitar a paz pelo simples instinto de autoconservação. Quanto a isso não existe a menor dúvida. Mas também não existe dúvida de que, face aos acontecimentos turbulentos dos últimos tempos, Perry Rhodan e seus homens — e também Atlan — não dispensaram a necessária atenção aos antis.
Dessa forma os antis, que se dedicavam ao culto de Baalol, disseminado por toda a Galáxia, tiveram oportunidade de dar início à execução de seu terrificante plano.
As terríveis conseqüências que suas ações trariam para a Humanidade e para outras inteligências galácticas não são conhecidas. Porém os agentes da Divisão III obtêm uma visão ligeira das mesmas quando penetram n’O Deserto da Morte...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Dr. Armin Zuglert — Sofre uma terrível transformação, que faz rolar a avalanche dos acontecimentos...

Major KindsomComandante do cruzador de patrulhamento Flórida.

Major Ron LandryCujo espírito é ameaçado pelo “fogo da verdade”.

RollUm enigmático motorista de táxi.

Coronel Nike QuintoSempre se queixando da pressão sangüínea... mas tem uma saúde de ferro!

Gerard LobsonUm homem que está preparado para tudo, desde que se encontre em estado liquitivo.

Edmond HugherUm misterioso médico-biólogo.
I



Gerard Lobson quis dizer alguma coisa. Mas quando viu a modificação que se realizava no homem à sua frente, calou-se, todo apavorado.
Fazia uma hora que estava sentado ali, separado apenas pela escrivaninha estreita, sobrecarregada de papéis, do homem ao qual pretendia fazer uma proposta. Encontrava-se numa sala grande, mas abafada pois tinha uma única janela. Felizmente esta era suficientemente limpa para permitir que um pouco de claridade atingisse a escrivaninha.
Fazia uma hora que estava sentado na cadeira pouco confortável, e, até então, não dissera outra coisa senão: “Olá, doutor, bom dia. Gostaria de fazer-lhe uma proposta.”
Depois disso, o doutor tomara a palavra e — revelando atividade, agilidade e energia, que fizeram com que Gerard se sentisse tomado por um grande espanto — elucidara a proposta que nem chegara a ser formulada. E sem perder tempo, provara a Gerard que aquilo que este pretendia fazer, e sobre o que nem sequer chegara a falar, não era possível pela forma pretendida.
Por algum tempo Gerard permaneceu calado, de tão perplexo que se sentiu. E agora, que o doutor finalmente fazia uma pausa, aconteceu aquilo...
Quando vira o Dr. Zuglert pela primeira vez, acreditara que se tratasse de um homem de pouco mais de quarenta anos. Tinha o aspecto de uma pessoa que costuma praticar esporte por passatempo. Seu rosto era sadio e não apresentava rugas. E agora?
Gerard teve a impressão de que alguém sugava tudo que o crânio de Zuglert continha. A pele do rosto encolheu-se, como se tivesse de preencher o vácuo. Os ossos dos maxilares tornaram-se salientes, e de repente uma terrível caveira sorria para Gerard. A pele deteriorava-se a olhos vistos. O moreno sadio e robusto transformou-se num amarelo repugnante. O queixo ficou caído, e Gerard viu uma fileira de dentes encardidos. Minutos antes, ainda admirara os dentes bem tratados de Zuglert. Gerard levantou-se de um salto. De repente teve medo do homem que se mantinha imóvel do outro lado da escrivaninha, e o fitava com os olhos vidrados. Afastou-se da mesa e dirigiu-se à outra extremidade da sala. Apavorado, notou que ali não haveria salvação para ele. Só havia uma janela, e a sala ficava no vigésimo-terceiro andar de um antigo edifício.
Apesar disso, Gerard continuou a retirar-se. Poderia abrir a janela e gritar, pedindo socorro. Era possível que alguém o ouvisse. Gerard virou-se, segurou a maçaneta da janela e começou a girá-la. Nesse instante, Zuglert começou a falar:
Não tenha medo, meu jovem — disse com uma voz apagada, que provocou o assobio típico de um tuberculoso e foi acompanhada por um acesso de tosse.
Assim que o acesso passou, prosseguiu:
Preciso do seu auxílio, Mr. Lobson. Será que o senhor poderia ajudar-me a levantar?
Gerard soltou um suspiro de alívio. Nem sequer conseguia levantar-se só. Queria fazer com que ele, Gerard, o ajudasse a pôr-se de pé, para depois enlaçar seu pescoço com as mãos.
Gerard viu a porta às costas de Zuglert. Se conseguisse chegar lá, estaria livre do perigo.
Zuglert voltou a falar, o que lhe custava um esforço enorme, pois as palavras saíam hesitantes. Muitas vezes uma tosse seca e ofegante interrompia sua fala.
...importante para a Terra, jovem... — entendeu Gerard. — Todos devem ser prevenidos... Meu exemplo prova...
Zuglert disse mais que isso, mas Gerard não lhe deu atenção. Acenando com a cabeça, deslocou-se em direção à escrivaninha. Deu uma expressão amável ao rosto, para que Zuglert acreditasse que pretendia ir em seu auxílio.
...solução alcoólica de que ninguém desconfia... — ouviu Gerard.
Naquele instante aproximava-se da escrivaninha.
Com um enorme salto contornou-a. Antes que Zuglert compreendesse suas intenções, segurava a maçaneta da porta e girava-a. A porta abriu-se imediatamente. Saiu correndo, mas não se esqueceu de segurar a porta com a mão direita e puxá-la. A porta fechou-se ruidosamente.
Gerard viu-se no corredor de um velho edifício de escritórios. De ambos os lados havia portas. Estavam todas fechadas. Ninguém ouvira o que se passara na pequena sala ocupada pelo Dr. Zuglert. Gerard refletiu sobre se convinha falar a alguém sobre a súbita alteração ocorrida com Zuglert. Lembrou-se de que, por alguma maneira misteriosa, o doutor ficara sabendo qual era a sugestão que ele, Gerard, pretendia formular, motivo por que afastou a idéia. Zuglert acabaria contando isso a uma terceira pessoa que viesse ajudar, e era o que menos convinha a Gerard.
Não; devia deixar Zuglert entregue a si mesmo.
Gerard caminhou pelo corredor, até chegar ao poço do elevador antigravitacional. Deixou-se cair e suspirou, aliviado. Teve a impressão de ter escapado de um grande perigo.
Mas sabia que jamais conseguiria esquecer o rosto amarelo-cinzento de uma caveira.

* * *

A Flórida veio do centro da Galáxia. O Major Kindsom, comandante do cruzador de patrulhamento, sabia que depois de a nave ter realizado certo número de transições, ao percorrer o caminho de volta, esperavam que fornecesse à Terra um ligeiro relato, pelo telecomunicador direcional, sobre as atividades que desenvolvera no centro da Via Láctea.
Dick Kindsom elaborara o relatório e mandara confeccionar a matriz codificada para a transmissão. Empurrou-a para dentro do transmissor e comprimiu a tecla que acionava o aparelho. Ouviu-se um ligeiro clique. Kindsom sabia que, a nove mil anos-luz dali, os aparelhos receptores da Terra começariam a funcionar. Captariam a transmissão, que tinha uma duração total de três milésimos de segundo, e a estenderiam, desdobrariam, interpretariam e voltariam a reuni-la. Depois disso, o conversor expeliria um microfilme que, projetado por um aparelho adequado, revelaria aos olhos das pessoas habilitadas, por meio de letras comuns, tudo aquilo que Dick Kindsom dissera em cerca de mil palavras.
Era só. O relatório de Dick anunciava que a abertura do misterioso campo energético do Sistema Azul, produzida pelas frotas unidas da Terra e de Árcon, voltara a fechar-se. Concluía-se que os acônidas voltaram a colocar sua fortaleza em estado de defesa, embora soubessem que o campo defensivo azul seria impotente, face às naves de propulsão linear da Terra.
Uma vez cumprida pontualmente esta operação realizada por Dick Kindsom, logo depois, preparou sua nave para a transição seguinte. Estava a ponto de desencadear o hipersalto, que aproximaria a nave mais alguns anos-luz da Terra, quando o receptor de telecomunicação expediu um sinal de advertência.
Dick comprimiu um botão que anulou os comandos positrônicos, os quais haviam sido transmitidos ao sistema de pilotagem automática da Flórida, e ligou o receptor. Uma luz vermelha iluminou-se na tela do aparelho e uma voz mecânica disse:
Firing II chamando cruzador Flórida. Tenho uma mensagem TTT de Firing II para o cruzador Flórida. Favor responder.
Dick não perdeu tempo. TTT era o código indicador de mensagem superurgente. Não podia imaginar quem seria a pessoa que se encontrava num mundo abandonado como Firing II e que tivesse tamanha urgência de falar com ele. Entretanto concordou em receber o comunicado.
Transmita a mensagem — ordenou ao autômato. — Aqui fala o Major Kindsom, comandante da Flórida.
O grande sinal luminoso desapareceu. A tela começou a tremeluzir, e um rosto surgiu. A visão fez com que Dick recuasse, apavorado. Santo Deus! A cabeça parecia de uma múmia, de uma caveira em torno da qual alguém tivesse esticado uma pele rugosa.
Os lábios estreitos da caveira abriram-se, e a múmia começou a falar. Teve de fazer um grande esforço. Levava cinco segundos para pronunciar uma palavra, e sua fala era acompanhada de um estertor ofegante.
Peço a quem quer que me ouça para me ajudar! — disse a múmia. — Encontro-me numa tremenda dificuldade. Sou o doutor Armin Zuglert. Resido em Zanithon, situada em Lepso. Ajude-me, eu lhe imploro.
Dick voltou a aproximar-se da tela. Com um gesto seguro, pegou o microfone, sem olhá-lo, e falou:
O que podemos fazer pelo senhor, Zuglert? Aqui fala o cruzador Flórida. Qual o tipo de dificuldade que o envolveu?
Sentiu-se impaciente. Achou que Zuglert, que aparentemente estava próximo ao esgotamento total, demorou a responder.
Há doze... — principiou Zuglert.
Depois disso, a comunicação foi interrompida. A tela voltou a tornar-se cinzenta, e o zumbido do receptor cessou. Dick Kindsom assustou-se.
Que idiota!”, pensou. “De tão fraco que se sente, certamente encostou o braço a uma tecla e acabou desligando o aparelho. Bem que poderia ter mais cuidado, ainda mais que sua vida está em jogo.”
Dick chamou o robô de comunicação. O sinal vermelho voltou a surgir na tela.
Minha comunicação TTT com Firing II foi interrompida — queixou-se Dick. — Restabeleça o contato.
Com que aparelho o senhor falou, sir? — perguntou a voz mecânica.
Não sei — gritou Dick, em tom furioso. — O nome da pessoa que falou comigo é Armin Zuglert. Caramba! O senhor deve ser capaz de verificar nos seus registros qual é a procedência de uma mensagem TTT!?
Naturalmente, sir. Peço alguns segundos de paciência.
Dick aguardou. Depois de algum tempo, a voz voltou a falar:
A mensagem veio de um dos aparelhos da missão comercial terrana de Firing II, sir. Quer que a comunicação seja restabelecida?
É claro que sim.
Dali a alguns segundos o rosto sério, um homem não muito jovem, surgiu na tela. Este lançou um olhar indagador para Dick.
Sou o Inspetor Neary, da missão comercial terrana em Firing II — disse. — O que posso fazer pelo senhor?
Dick não se deu ao trabalho de apresentar-se.
Onde está Zuglert? — perguntou em tom exaltado.
O inspetor fitou-o com um ar de perplexidade.
Onde está quem?
Zuglert — repetiu Dick, em tom impaciente. — O doutor Armin Zuglert, que falou comigo há trinta segundos, por esse aparelho.
Via-se que a palestra não era do agrado do Inspetor Neary.
Escute aí, rapaz — principiou. — Além de iniciar a palestra sem dizer bom-dia e sem apresentar-se, o senhor me vem com tolices. Receio que, quando seus superiores...
Não me venha com essa história de superiores — gritou Dick, aborrecido. — Aqui fala o Major Kindsom, comandante da Flórida. Há pouco o Dr. Zuglert me transmitiu uma mensagem TTT, e o sistema de comunicação afirma que o chamado foi feito desse aparelho. Zuglert estava exausto. Transmitiu-me um pedido de socorro. A comunicação foi interrompida. Traga o Dr. Zuglert para junto do aparelho.
Neary resignou-se ao inevitável. Como simples inspetor não se permitiu exprimir sua contrariedade perante um major. Mas fez pé firme na afirmativa de que Zuglert não usara seu aparelho. Ainda disse que, na missão comercial terrana, nunca fora visto um homem que correspondesse à descrição fornecida por Dick.
Nunca ouvi esse nome, major — concluiu. — Quase estou inclinado a acreditar que o senhor foi vítima de uma mistificação.
Dick percebeu que não conseguiria nada. Interrompeu a comunicação e voltou a chamar o robô. Este voltou a afirmar que o chamado TTT viera da missão terrana. Dick sabia que seria inútil voltar a chamar Neary. Ficou refletindo por algum tempo sobre se ele mesmo deveria tomar alguma providência em relação ao caso Zuglert. Chegou à conclusão de que sua tarefa mais urgente consistia em levar a Flórida de volta à Terra, onde aguardaria novas ordens. Por isso fez uma ligação urgente em código com uma das unidades da frota terrana, estacionada nas proximidades, e apresentou um relato minucioso do incidente. Pediu ao comandante da nave capitania que fizesse o possível para ajudar Zuglert.
Só depois disso prosseguiu na atividade em que fora interrompido pelo misterioso chamado. Preparou a transição e programou os dados que se tornavam necessários, introduzindo-os no dispositivo de pilotagem automática. Era uma operação que podia fazer até de olhos fechados. Seus pensamentos ficaram presos a Zuglert. Receava pela sua vida. Não conseguia desvencilhar-se da imagem que mostrava o rosto de múmia.
O fato de a comunicação ter sido interrompida deixou-o bastante preocupado. Quando apresentasse seu relatório na Terra, não teria muita coisa a dizer.
Naquele momento, ainda não sabia que o pouco que poderia dizer desencadearia, nos próximos dias e semanas, uma ação importante do governo do Império Solar.

* * *

Geralmente se acreditava que os agentes especiais do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento levavam vida agradável. Tais agentes constituíam a reserva secreta da instituição. Eram convocados sempre que surgia algum problema, que não podia ser resolvido com os meios normais. Entre uma convocação e outra, faziam o que mais lhes agradasse, desde que sua situação financeira o permitisse.
A pessoa que não conhecesse as finalidades do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento, especialmente da Divisão III, à qual estavam submetidos os agentes especiais, poderia imaginar que todas as liberalidades de que os mesmos gozavam fora do tempo de serviço se justificavam face ao seu desempenho na execução das missões especiais. O simples mortal, que tivesse o direito de escolha, preferiria renunciar às férias dos próximos dez anos a aceitar a missão perigosa de um agente especial, cujo cumprimento lhe garantisse certa porção de tempo livre.
Ao receber a ordem do Coronel Nike Quinto, de comparecer ao gabinete do mesmo, o agora Major Ron Landry não teve a menor dúvida de que nos próximos dias teria muito que fazer.
Ron adquirira o hábito de liquidar as coisas desagradáveis o mais rápido possível. Meia hora depois de ter recebido a ordem, já encontrava-se à porta do gabinete de Nike Quinto. Ainda não estava bem preparado para as constantes queixas de Quinto, sempre se lamentando da pressão arterial e da incompetência dos subordinados. A porta abriu-se e Ron viu a gigantesca escrivaninha, sobre cuja borda apenas sobressaía o rosto rosado e suarento do coronel.
Ron entrou e acomodou-se numa das poltronas colocadas à frente da escrivaninha. Nike Quinto gemia enquanto se movia. Depois de algum tempo os ombros também apareceram acima da escrivaninha.
O senhor sabe como vai minha saúde, Landry — principiou sem o menor intróito. — Por isso peço-lhe que fique quieto, preste atenção e não me contradiga. Minha pressão sangüínea chegou ao limite máximo. Se eu me aborrecer, provavelmente morrerei na hora.
Assim era Nike Quinto, com sua voz aguda e suas lamentações incessantes a respeito de seu estado de saúde. Ron Landry sabia que, na verdade, o coronel era tremendamente saudável.
Sim, senhor — respondeu em tom obediente.
Nike Quinto levantou-se.
Não fique dizendo “sim, senhor”. Afinal, não lhe fiz nenhuma pergunta — esbravejou.
Acalmou-se tão depressa como se enfurecera e prosseguiu:
Amanhã de manhã o senhor partirá para Lepso. Recebemos informações estranhas de lá.
Enquanto Ron concentrava parte de sua imaginação para descobrir quem ou o que seria Lepso, Nike Quinto relatou o que se passara com Dick Kindsom, a bordo da Flórida. Ron ficou sabendo que Lepso e Firing II eram a mesma coisa, e esse fato deu asas à sua fantasia. Mas não compreendia...
Quer dizer que o senhor já sabe o que tem a fazer, não sabe? — perguntou Quinto, com sua voz aguda.
Sim, senhor — respondeu Ron, prontamente. — Precisamos localizar Zuglert.
Nike Quinto soltou um gemido e afundou na poltrona.
Ai, meu coração! — lamentou-se. — Sabia que o senhor não compreenderia. Por que não me deram oficiais mais competentes? Caramba! Eu não o mandaria para Lepso por causa de Zuglert. O que seria de nós se por causa de cada doente, que vive se lamentando, puséssemos em ação nossos agentes especiais? Não é disso que se trata, Landry.
O que será?”, pensou Ron.
Nike Quinto não teve pressa. Passou a mão pela testa e contemplou a palma, molhada de suor. Só depois disso, explicou:
Nos últimos meses surgiram em Lepso outras figuras mumificadas como a de Zuglert. Mas as figuras não aparecem nunca duas vezes. A impressão que se tem é que as pessoas magricelas são transportadas para algum lugar, assim que surgem, e substituídas por outras. Não sabemos qual é o sentido disso. Parte de seu trabalho consistirá em decifrá-lo. Para falar com franqueza, devo dizer que ainda não sei o que pensar a esse respeito. Talvez a situação não represente nenhum perigo. Mas é possível que represente. Em algum lugar, lá em cima...
Quinto apontou para o teto e prosseguiu:
...o caso Zuglert levantou muita poeira. A ordem de mandar um dos... bem, dos meus homens para Lepso veio pela linha direta que liga o administrador com minha pessoa insignificante.
Ron fez um esforço para controlar-se. Teve vontade de rir. Ficou satisfeito em saber que, na pressa, Nike Quinto esteve prestes a dizer “um dos meus melhores homens”. Mas o fato de que o coronel recebera a ordem diretamente de Perry Rhodan não deixou de produzir seu efeito em Ron.
Quer dizer que o senhor irá para ali — disse Nike Quinto, apontando para uma porta lateral do gabinete — a fim de familiarizar-se com tudo que sabemos sobre o misterioso caso de Lepso. O programa inclui uma matriz da mente consciente do Major Kindsom, comandante da Flórida, que manteve a palestra TTT com Zuglert. Depois do treinamento, terá a impressão de que foi o senhor, e não Kindsom que manteve a palestra.
Ron Landry levantou-se e dirigiu-se para a porta lateral, que se abriu à sua frente. Fitou a sala pouco iluminada, em cujo interior os aparelhos de treinamento hipnótico esperavam por ele.
2



Dali a três dias, Ron Landry saiu da nave cargueira Efraim, que numa viagem rápida mas pouco confortável o levara ao espaçoporto da cidade de Zanithon, em Lepso. Da rampa de carregamento precipitou-se imediatamente para dentro do movimento confuso da metrópole.
Notou que Lepso tinha uma peculiaridade: não havia inspeção alfandegária ou controle de passaportes, não se exigiam atestados de saúde ou outro qualquer. A pessoa saía de uma espaçonave, como se sai de um táxi, e começava a andar por aí.
O governo de Lepso reconhecera em tempo a vantagem da posição galáctica do planeta, e providenciara para que as numerosas naves, que percorriam as rotas próximas, descessem em Lepso, a fim de comerciar com parte das mercadorias que levavam. Para atrair os mercadores, deve-se criar o menor número possível de problemas para o acesso ao local de negócios; de preferência não se deve criar nenhum problema. Por isso não se exigiam nos espaçoportos de Lepso as formalidades, que nos outros pontos da Galáxia eram obrigatórias e naturais. Evidentemente, o governo sabia que dessa forma não atraía a Lepso apenas comerciantes honestos. Isso não lhe doía na consciência, pois cobrava o imposto de vendas tanto sobre os negócios honestos como sobre os desonestos. E aquilo que se arrecadava — o dinheiro — era a única coisa que tinha algum valor em Lepso.
Lepso era o segundo mundo-satélite de uma estrela amarela, semelhante ao nosso Sol. A gravitação superficial do planeta era quase igual à da Terra. Graças à órbita próxima ao astro central, no planeta reinavam durante todo o ano temperaturas como as que reinam no verão entre Roma e Cairo.
No curso dos séculos, a política imigratória liberal do governo de Lepso fizera com que representantes de quase todas as raças galácticas se fixassem nesse mundo. Em Lepso havia tópsidas, os seres-lagarto do planeta Topsid, os swoons, pequenas criaturas em forma de pepino vindas de Swoofon, gigantescos naats de três olhos, provenientes do sistema solar arcônida, e inúmeras outras criaturas, parte das quais vindas de mundos que ainda conservavam sua independência. Mais ou menos a metade era humanóide, enquanto a outra metade era formada por seres não-humanos.
Era neste mundo que Ron Landry pisava pela primeira vez na vida. Há muito tempo tivera o desejo de visitar Lepso. Mas nunca teria sonhado que sua profissão lhe propiciaria a realização desse desejo. Ao que tudo indicava, entre todos os mundos da Galáxia, Lepso era aquele que menos precisava do auxílio do Fundo Social Intercósmico de Desenvolvimento.
A pista asfaltada do espaçoporto terminava junto a um traço verde de verniz fosforescente. Além desse traço, ficava a rua; era um monstro de rua, que tinha pelo menos duzentos metros de largura. Seguindo-a pela direita, chegava-se à cidade. Logo trás do traço verde, com as extremidades dos veículos bem acima deste, via-se uma fileira de planadores, em que havia letreiros, geralmente redigidos em língua arcônida, segundo os quais esses veículos poderiam ser alugados por pouco dinheiro, juntamente com os motoristas.
Ron resolveu que iria à cidade num desses táxis. Duvidou de que houvesse outra possibilidade. Mas antes queria observar o movimento do tráfego. Uma curiosa confusão de veículos deslocava-se numa velocidade infernal e uniforme em ambos os sentidos. Ron calculou que a velocidade dos veículos devia ser de cerca de duzentos quilômetros por hora. Isso significava que a rua devia ter sido dotada de um sistema automático de direção do tráfego pelo rádio. Os carros, que haviam sido adaptados a esse sistema, pertenciam a todas as marcas conhecidas da Galáxia. Viam-se os elegantes planadores arcônidas com suas janelas largas e os Fords da Terra, um pouco menos graciosos, mas em compensação mais seguros. Viam-se veículos antiquados, bastante altos, que ofereciam grande resistência ao ar que cobria a rua e provocavam um furacão em sua esteira, bem como veículos achatados, em forma de barco, vindos dos mundos cuja atmosfera densa exigia esse formato.
De repente Ron Landry pôs-se a rir. Não tinha motivo para isso, e nem sabia por que estava rindo. Era esquisito ver essa coleção multiforme de inteligências galácticas correr vertiginosamente por ali, e imaginar que o único motivo dessa tresloucada pressa, era o dinheiro, já que este, ou melhor, o lucro, representava a única finalidade de quem vinha a Lepso.
Um rosto também sorridente inclinou-se para fora do táxi-planador que se encontrava próximo de Ron.
Ei, homem da Terra — gritou. — Por que está rindo? Está interessado numa viagem à cidade, mister?
Ron fitou-o com uma expressão de perplexidade. O homem falava em inglês. Ron aproximou-se do veículo.
Depende do preço — respondeu.
Dois solares até o centro da cidade, sir — disse o motorista, prontamente.
Ron franziu a testa.
Desde quando os preços em Lepso são calculados em moeda terrana?
O motorista hesitou um pouco.
Santos deuses dos bosques — disse finalmente, em tom indiferente. — A gente pega aquilo que consegue, e é mais fácil conseguir o que as pessoas trazem no bolso, não o que têm de cambiar.
Ron viu nisso uma cativante lógica mercantilista.
O senhor veio do planeta Goszul, não é verdade? — perguntou, dirigindo-se ao motorista.
Agora foi a vez deste ficar admirado.
— “Santos deuses dos bosques” — respondeu Ron, com um sorriso. — Não conheço nenhum outro lugar em que estas divindades costumam ser invocadas. Meus parabéns. O senhor fala perfeitamente nossa língua, sem o menor sotaque.
O motorista fez com que uma porta se abrisse, como se já tivesse certeza de que Ron seria seu passageiro.
Isto também pertence ao negócio — disse. — Todos gostam de que os outros falem em sua língua, se possível sem sotaque. Falo uma porção de línguas, quase todas impecavelmente.
Ron fez menção de entrar no táxi. Mas, naquele instante, rolou pela rua, em direção ao traço fosforescente, um veículo que despertou sua atenção. Era, em essência, uma caixa negra cúbica de quatro metros de aresta, com uma cabina de comando colada à parte anterior. Dos dois lados do cubo havia, além das escotilhas fechadas com pesados ferrolhos, algumas janelas amplas, atrás das quais Ron viu um líquido verde que se agitava preguiçosamente.
É um pisalama — disse o motorista. — Ali... atrás do senhor.
Ron virou-se. Mais um cubo deslocava-se em direção à periferia do espaçoporto. Era bem menor que o veículo e, segundo parecia, consistia em material elástico. Na parte superior desse cubo, também havia uma janela, e atrás dela via-se o mesmo líquido verde. Por uma fração de segundo Ron viu um vulto salpicado de marrom-claro e escuro. Alguma coisa parecia boiar no líquido verde.
O pequeno cubo aproximou-se do estranho veículo. A escotilha abriu-se automaticamente. O novo passageiro ergueu-se do solo e pairou para dentro da abertura. A escotilha voltou a fechar-se. Depois de algum tempo, Ron viu atrás das janelas do veículo o mesmo vulto salpicado que observara antes. Ao que parecia, havia uma eclusa no interior da caixa, e o estranho passageiro se havia desvencilhado do traje espacial em forma de cubo. Dentro do líquido verde que enchia o veículo, parecia sentir-se bem.
Ron Landry ainda estava olhando, quando o cubo voltou a colocar-se em movimento e começou a deslocar-se pela rua.
O que é mesmo? — perguntou, dirigindo-se ao motorista.
Um pisalama ou pisalamense — disse o motorista de táxi. — O nome verdadeiro é diferente, desde que reproduzido por um transec. Mas é muito complicado, e por isso inventamos essa pronúncia.
Ron entrou no táxi.
De onde vêm essas criaturas?
De Pisalam. É um mundo que deve ficar além do centro da Galáxia. Ninguém sabe como souberam da existência de Lepso. O fato é que estão aqui e, pelo que se diz, são negociantes muito hábeis.
Ron ficou satisfeito com a informação que acabara de lhe ser dada. O táxi pôs-se em movimento. Ron logo notou que o motorista sempre ficava do lado direito da estrada, onde podia andar tão devagar como quisesse.
Por que não segue pelo centro da estrada? — perguntou.
Não sabia que o senhor tem tanta pressa em chegar à cidade — disse o homem de Goszul. — Não tem o aspecto de uma pessoa que esteja com pressa.
Ron procurou explicar-lhe que realmente não estava. No entanto, ficou admirado ao notar que o motorista seguia muito devagar. Caso corresse, poderia pegar logo outro freguês e ganhar mais dinheiro.
O senhor não deixa de ter razão — confessou o motorista. — Acontece que não gosto dessa agitação. Prefiro ganhar um pouco menos. Aliás, não sei o que deu de repente em toda essa gente.
Ron aguçou o ouvido.
De repente? Antigamente não era assim?
Um sorriso amargurado surgiu no rosto do homem de Goszul.
Sempre foram malucos — disse, frisando não ser um habitante de Lepso. — Mas antigamente os carros só andavam à metade ou à quarta parte de sua potência pelas faixas centrais. Hoje todos desenvolvem a velocidade máxima permitida pelo sistema de controle. Ninguém tem tempo a perder. Todos querem chegar o quanto antes a algum lugar e sair o mais depressa de lá.
Ron refletiu.
Quando foi isso? — perguntou. — O que quero saber é quando a situação se modificou.
O motorista refletiu por algum tempo.
Deve ter sido há uns três ou quatro meses de Lepso — disse. — Não sei exatamente. A mudança foi muito rápida; aconteceu em poucos dias.
Não quis dizer mais que isso. E Ron tinha tanto assunto para reflexões, que podia dispensar outras perguntas. A viagem ao centro da cidade correu em silêncio. Ron pagou a corrida e desceu. Tinha certeza de que nunca mais veria o motorista de táxi.
Escolhera ao acaso o local em que descera. Sua suposição de que, no centro da cidade, devia haver uma porção de hotéis revelou-se correta. Ainda mergulhado em reflexões, atravessou uma ampla porta de vidro, que se abriu automaticamente à sua frente, e viu-se num amplo hall. Olhou em torno para descobrir o robô de recepção, mas notou não haver nenhum robô. À sua esquerda havia um amplo balcão, e sobre este via-se uma enorme placa que, em dez línguas diferentes e quatro caracteres de escrita diversos, avisava que este era o local de recepção. Do outro lado do balcão havia uma mulher, que fitou Ron com um sorriso amável.
Ron aproximou-se.
Bom dia, cavalheiro — disse a mulher num inglês que não era tão impecável como o do motorista de táxi.
Era uma araucana, ou seja, uma nativa do planeta Arauca. Pelo que Ron pôde notar, correspondia exatamente à imagem que se costumava fazer na Galáxia sobre as verdadeiras araucanas: era loura, de olhos negros, bela, selvagem e imprevisível.
Quero um bom quarto, bem grande — disse Ron, em tom áspero.
Não gostava que uma mulher lhe sorrisse sem que ele desse motivo para isso. Sabia que era bonito: louro e alto, até muito alto, e de ombros largos.
A araucana parecia não perceber a rejeição que havia no tom de voz de Ron. Seu sorriso tornou-se ainda mais intenso. Trajava segundo uma moda que Ron não conhecia, mas que não pôde deixar de considerar fina e sofisticada.
Só temos quartos bons e grandes — respondeu.
Ron deu de ombros, num gesto de indiferença.
Está bem. Nesse caso qualquer um serve.
A mulher tirou uma espécie de catálogo de sob o balcão. Virou-o, abriu a primeira página e empurrou-o para junto de Ron.
Quer fazer o favor de escolher? — cochichou.
Ron estudou o registro. A variedade das ofertas o confundia. Havia aposentos cúbicos, retangulares, semi-esféricos e esféricos. Havia quartos de atmosfera uniforme e outros em que a mesma formava camadas sobrepostas. Havia recintos em que a gravitação era regulada de 0,1 a 5 vezes o normal. Havia aposentos com temperaturas que variavam de menos setenta até mais trezentos graus centígrados, e inúmeras outras variantes.
Depois de algum tempo, Ron encontrou aquilo que procurava.
Quero este — disse, apontando para a linha correspondente.
A araucana nada teve que objetar. Sem que ninguém lhe pedisse, declarou-se disposta a mandar a bagagem de Ron para o quarto, muito embora a mesma ainda tivesse de ser enviada do espaçoporto. Depois disse alguma coisa que Ron achou muito estranha, principalmente porque não compreendeu:
Quero dar-lhe um conselho, cavalheiro. Se estiver aqui para tratar de negócios e quiser ser bem-sucedido, escolha sempre a bebida adequada.

* * *

Quando abriu a porta do quarto com a chave codificada, Ron ainda estava mergulhado em pensamentos. Entrou sem levantar os olhos, fechou a porta e deixou-se cair numa poltrona, que ficava junto a uma mesa baixa, à direita da entrada.
Só depois de algum tempo viu a caixa que estava instalada no quarto. Atrás da grossa vidraça uma sombra matizada de cinza-escuro e claro movia-se dentro de um líquido verde viscoso.
Ron assustou-se, não pelo quadro que se lhe ofereceu, mas pelo fato de que fora tolo e descuidado a ponto de cair numa armadilha — isso caso o pisalama lhe quisesse fazer alguma coisa.
Não tenha medo — disse uma voz tranqüilizadora. — Não vim para fazer-lhe mal.
De repente, Ron ficou furioso.
Como conseguiu entrar aqui? — perguntou.
A voz hesitou por algum tempo.
Os habitantes de Pisalam dispõem de certas faculdades fora do comum — disse. — Acho que isso basta para explicar minha presença.
Ron tinha a impressão de que o traje espacial cúbico continha um transec, isto é, um aparelho que traduz as palavras de uma língua para qualquer outra, desde que seus bancos de dados sejam alimentados com um volume suficiente de informações. Só assim se explicava que Ron e o nativo de Pisalam pudessem conversar. Mas o major não sabia explicar como o ser estranho conseguira perceber o temor que sentira, e como lhe fora possível penetrar por uma porta trancada por uma fechadura eletrônica.
O que deseja? — disse Ron, em tom áspero.
Talvez o senhor esteja lembrado de que, junto ao espaçoporto, nossos táxis ficaram próximos um ao outro — disse o ser estranho. — Passei perto do senhor, e então... então percebi que o senhor veio a Lepso para procurar uma pessoa desaparecida.
Ron sentiu-se perplexo.
Tolice — disse.
O alto-falante do transec invisível transmitiu uma espécie de risada irônica.
Por que quer negar? — perguntou a voz. — Não somos telepatas no verdadeiro sentido da palavra. Mas conseguimos identificar perfeitamente desejos e pensamentos intensos dos seres que se encontram nas vizinhanças. Tenho certeza absoluta de que no seu caso não estou enganado.
Ron recostou-se na poltrona.
Seja lá o que o senhor quer dizer — Falou — tente ser objetivo. O que deseja de mim?
A caixa concordou.
É uma ótima idéia. Preste atenção.
Tenho que dar uma explicação um tanto prolongada. O senhor não conhece meu mundo natal, Pisalam; ninguém conhece. Por isso não pode saber que somos um povo muito pequeno. Para usar sua linguagem numérica, direi que ao todo não somos mais que uns oito mil seres. Não é que sejamos uma raça em decadência. Nunca fomos muito mais seres, e nunca fomos muito menos. O número reduzido de nossa raça fez surgir um relacionamento íntimo entre os membros da mesma. Quando dez deles resolveram vir a Lepso, ficamos muito tristes e desconfiados. Apesar disso, essa viagem tornou-se necessária. É que daqui, de Lepso, poderemos obter certas coisas que em outra parte só conseguiríamos com muita dificuldade, ou não conseguiríamos de forma alguma. Por isso deixamos que os dez seres, que haviam resolvido vir a este mundo, partissem. Entretanto sempre ficamos em contato com eles.
Acabamos de saber que um deles desapareceu. Isso provocou muita tristeza em nosso povo. Cinco seres de nossa raça saíram à procura do desaparecido. Não podemos aceitar passivos o desaparecimento. A criatura está em perigo, e temos de ajudar. O senhor compreende?”
Ron confirmou com um gesto.
Sem dúvida. Apenas não vejo o que eu tenho a ver com isso.
É simples. O senhor também está à procura de um indivíduo desaparecido. Será que, caso desse com a pista do ser vindo de Pisalam, poderia avisar-nos?
Ron não teve a menor objeção.
Como farei para entrar em contato com os senhores?
Não haverá o menor problema. No momento em que descobrir a pista, o senhor provavelmente ficará tão surpreso que perceberei seu impulso mental, uma vez que já sei identificá-los. Quando isso acontecer, entrarei em contato com o senhor o mais depressa possível.
Está bem — disse Ron. — O senhor deve saber que provavelmente não poderei lazer nada para ajudá-lo. O desaparecimento de dois seres não prova que tomaram a mesma direção. É possível que eu encontre a pessoa que procuro, sem dar com o menor vestígio do indivíduo de sua raça.
Isso pode acontecer — disse o ser de Pisalam. — Apenas estou aproveitando uma das muitas possibilidades que tenho pela frente. Sinto-me satisfeito pelo fato de o senhor me ter ouvido e mostrar-se disposto a ajudar. Espero que um dia também lhe possa ser útil.
Ron esteve a ponto de formular uma pergunta. Porém, naquele instante, o ser estranho desapareceu juntamente com o liquido verde e a caixa em forma de cubo. Ron ficou só no seu quarto.
Levantou-se com um suspiro. “Mais um desses teleportadores”, pensou um tanto contrariado. “É assim que sempre encerram uma conversa. Desaparecem de repente, de forma que ficamos sem possibilidades de formular outras perguntas.”
Ron Landry não estava nem um pouco satisfeito consigo mesmo. Desde o momento em que se encontrava em Lepso, tinha a impressão de não estar seguindo pistas, mas de encontrar-se preso a um fio, que estava sendo puxado por outra pessoa.
Isso não podia continuar assim. Ron resolveu entrar em atividade, dando início, sem mais demora, à execução de sua tarefa. Naquele instante ouviu um zumbido junto à porta. A mão direita de Ron apalpou a pequena arma que trazia no cinto. Depois disso procurou inteirar-se de como abrir a porta. Encontrou um quadro de comando na borda da mesinha de cabeceira que se achava junto à cama larga. Comprimiu o botão sobre o qual estava desenhada uma porta.
A porta abriu-se. Viu uma araucana com uma bandeja, sobre a qual havia dois copos e várias garrafas.
Acho que o senhor não se esqueceu do meu conselho, sir? — indagou. — Escolhi a bebida apropriada para o senhor.
Viu os dois copos, que se destacavam provocadoramente na beira da bandeja, e a fileira de garrafinhas reluzentes com os rótulos amarelo-violeta. Mal acabara de dar-se conta de que em Lepso deixara de desempenhar o papel de ator para transformar-se em marionete, quando aparecia mais alguém que lhe dizia o que devia fazer.
Era demais!
Leve isso e beba sozinha — gritou para a moça, esforçando-se para reprimir a cólera. — Quando quiser tomar alguma coisa, saberei pedir. E quando isso acontecer, quero que a bebida me seja fornecida pelo serviço de entrega nos apartamentos. Entendido?
O sorriso desapareceu do rosto da moça. Ron ainda a viu estreitar os olhos e fitá-lo com uma raiva incontida. Depois disso, a araucana virou-se rapidamente e saiu.
Ron comprimiu outro botão do quadro de comando e ouviu a porta fechar-se com um ruído surdo.
Lepso! Que mundo louco é este! — balbuciou.
3



Na noite do mesmo dia, Ron Landry descobriu onde ficava o escritório do Dr. Zuglert e resolveu que ainda nessa noite faria uma visita ao local. Antes disso tivera uma palestra de telecomunicador com a unidade mais próxima da frota terrana e soubera que nada mais se descobrira sobre o paradeiro de Zuglert.
Os dados pessoais do doutor eram conhecidos, já que ele os tivera de fornecer à polícia de Lepso, a fim de obter o visto permanente. Zuglert era médico-biólogo, que dedicara suas pesquisas à obtenção de novas substâncias medicinais. Suíço de nascimento, possuía o título de doutor fornecido pela Universidade de Bolonha. Tinha cinqüenta e dois anos e, até o momento de seu desaparecimento, vivera quatorze anos e meio em Lepso. Conforme constava à polícia, durante esse tempo só deixara Zanithon por três ou quatro vezes. Tinha escritório na Rua Oitenta e Seis. Todos sabiam que um homem como Zuglert não poderia deixar de ter um laboratório. Mas ninguém sabia onde este se localizava.
Aliás, a polícia de Lepso recusou-se a realizar diligências destinadas a encontrar o desaparecido. Argumentava que, em Lepso, qualquer pessoa tinha o direito de desaparecer e reaparecer à vontade, e que era bem possível Zuglert considerar qualquer busca como uma restrição à sua liberdade individual.
O oficial com o qual Ron Landry estava conversando acrescentou, finalizando:
É claro que isso não passa de uma desculpa barata, major. Essa gente simplesmente não quer incomodar-se com o caso. Talvez as investigações venham revelar algo que eles preferem ver sepultado.
Essas palavras não saíram da cabeça de Ron, enquanto este se dirigia à Rua Oitenta e Seis. Uma araucana encontrava-se atrás do balcão de recepção, no hall de entrada. Era tão bela como a que quisera levar Ron a tomar alguma coisa. Mas não lhe sorriu. Provavelmente fora avisada pela colega.
Ron foi a pé. Já ficara escuro, e as fontes de luz de todas as cores inundavam a cidade. Nos vinte minutos que levou para circundar metade da praça que formava o centro da cidade de Zanithon viu a maior variedade de habitantes da Galáxia da sua vida.
Durante o caminho usara todos os truques, que costumam ser ensinados a um agente treinado. Sentia-se, assim razoavelmente seguro de não estar sendo seguido. Pegou um táxi, dirigido por um gigantesco naat, que meteria medo a qualquer pessoa, e pediu que este o levasse à Rua Oitenta e Quatro. Voltou a caminhar para percorrer os últimos dois quarteirões.
A Rua Oitenta e Seis era uma rua típica de edifícios de escritório. As velhas construções dos mais variados estilos erguiam-se de ambos os lados, e os milhares de anúncios luminosos tornavam dispensável qualquer tipo de iluminação pública. A Intensidade do tráfego de veículos era tão Impressionante quanto em outros lugares da cidade. Em compensação, o número de pedestres era reduzido.
No edifício em que ficava o escritório de Zuglert, algumas janelas continuavam iluminadas. O fato divertiu Ron.
Deve ser alguém que corre tanto atrás do dinheiro que chega a trabalhar até de noite”, pensou.
Subia os amplos degraus que levavam à gigantesca entrada fechada por uma porta de vidro. Não se admirou por ter de abri-la manualmente. O mecanismo de abertura era desligado depois das horas do expediente.
Atrás da porta de vidro ficava um hall de recepção igual ao de outros edifícios desse tipo, com o robô de informações à esquerda e a fileira de poços de elevadores antigravitacionais à direita. Ron não tinha motivo para formular qualquer pergunta ao robô. Sabia que o escritório de Zuglert era no vigésimo-terceiro andar, sala número 23.048. Comprimiu o botão correspondente ao número 23 no quadro de comando do elevador mais próximo e aguardou até que a luz de controle se acendesse. Entrou no poço e teve certeza de que a sucção suave do campo de gravitação artificial o atingiria e o levaria ao destino por ele escolhido. Ron não sentiu nenhuma sucção: caiu. Não houve nenhum campo gravitacional, e Ron passou por aquilo que acontece com qualquer pessoa que salta para dentro de um poço. A velocidade da queda foi aumentando. Ron entesou os músculos para absorver o inevitável impacto.
Seguiu-se um baque, e Ron Landry, membro da Divisão III, foi colocado fora de combate.

* * *

Quando recuperou os sentidos, viu um rosto moreno bem à sua frente, no qual um par de olhos cinzentos também o fitavam com uma expressão desconfiada. A testa, circundada por uma cabeleira negra muito bem tratada, não era muito alta. O homem que o observava estava ajoelhado.
O senhor teve uma sorte inacreditável — disse o homem.
Ron procurou erguer-se. Sentiu dores que não conseguiu localizar. A cabeça funcionava perfeitamente, mas o resto do corpo parecia ter sido atingido por um martelete mecânico.
Onde estamos? — perguntou, totalmente confuso.
No vigésimo-terceiro andar — respondeu o homem de cabelos negros. — Na sala número dois-três-zero-quatro-oito. Acho que isto não significa nada para o senhor...
Ron ergueu-se abruptamente e interrompeu seu interlocutor em meio à frase.
Por que vim parar justamente aqui?
O homem de cabelos negros fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Presenciei a queda. O senhor usou o poço que não estava em funcionamento. Não viu a placa de aviso? Desci ao portão, usando outro poço, e trouxe o senhor para cima. Uma vez que estava a caminho desta sala, resolvi trazê-lo comigo. No momento em que pretendia chamar um médico, o senhor recuperou os sentidos.
Ron sentou-se. Não conseguia ver toda a sala. Mais atrás havia uma lâmpada colocada a cerca de um metro e meio de altura, que derramava uma luz ofuscante sobre ele e o homem de cabelos negros. Fora o círculo de luz projetado pela lâmpada, tudo estava mergulhado em escuridão. Ron não se sentiu muito à vontade.
Está sentindo alguma coisa? — perguntou o homem de cabelos negros, em tom preocupado. — Será que precisa de um médico?
Ron balançou a cabeça. Tinha certeza de que a queda só lhe causara algumas escoriações. Mas não tinha tanta certeza sobre outras coisas...
Quem é o senhor? — perguntou.
Meu nome é Gerard Lobson — respondeu o homem de cabelos negros. — Sou proprietário desta sala.
O senhor disse que o número da mesma é dois-três-zero-quatro-oito?
Isso mesmo.
Desde quando é proprietário da sala?
Gerard Lobson franziu a testa; parecia não gostar da pergunta.
Há... há quatro anos — respondeu cm tom hesitante.
Por que está mentindo? — perguntou Ron.
Lobson recuou. Arregalou os olhos. De repente pareceu sentir um medo tremendo.
Por que estou mentindo? — respondeu ofegante. — Não estou mentindo coisa alguma. Por que...?
Até poucos dias atrás esta sala pertencia ao doutor Zuglert — disse Ron, em tom áspero. — Exijo...
Foi interrompido por um ruído. Tinha-se a impressão de que alguém arranhava o soalho, muito além da lâmpada que produzia a luz ofuscante. Antes que Ron tivesse tempo de fazer qualquer movimento, ouviu-se uma voz grave e retumbante.
Basta! Acendam a luz.
As luzes do teto acenderam-se. Depois do primeiro momento de confusão, Ron deu-se conta de que o desconhecido falara em arcônida. Virou a cabeça e viu uma escrivaninha à sua direita. Sobre essa escrivaninha encontrava-se a lâmpada que o ofuscara. Atrás da mesa havia três pessoas. Duas delas eram robustas e a outra, magra, enrugada e ainda mais alta que as outras.
Ron compreendeu que caíra numa armadilha.

* * *

Um dos homens de ombros largos saiu de trás da escrivaninha. Ron viu que tinha alguma coisa na mão. Inclinou-se sobre ele, estendeu a mão e disse: — Tome isto.
Continuava a falar em arcônida. Entre o polegar e o indicador da mão direita segurava uma garrafinha, na qual se via um rótulo colorido em amarelo-violeta.
A recordação teve a força de um impacto em Ron. Era a mesma substância que a araucana lhe oferecera no hotel. Era estranho que tanta gente desejasse que ele sorvesse tal bebida.
Dirigiu-se a Gerard Lobson, que se afastara, permanecendo de joelhos.
O que é que ele está querendo? — perguntou em inglês.
Gerard parecia surpreso.
Diz que o senhor deve tomar isso.
Por quê?
Gerard voltou a mostrar medo.
Pelo amor de Deus, beba sem formular perguntas. Ele...
Com a mão direita, Ron afastou o braço do homem de ombros largos.
Tome você! — gritou. — Eu mesmo costumo escolher minhas bebidas.
Continuava a falar em inglês, mas tinha suas dúvidas de que conseguisse convencer os três desconhecidos por muito tempo de que não sabia falar o arcônida. Evidentemente dois deles eram saltadores, ou seja, membros da raça dos mercadores galácticos, que estavam metidos em quase tudo quanto era negócio. O terceiro homem talvez fosse um ara. Os aras eram uma raça aparentada à dos saltadores, que se dedicara às ciências, especialmente às ciências biomédicas, com o mesmo entusiasmo que os saltadores demonstravam em relação aos negócios.
O saltador que estava inclinado sobre Ron ficou furioso.
O senhor vai beber isto! — gritou em inglês.
Se não sentisse tantas dores pelo corpo, eu lhe mostraria o que vou e o que não vou fazer”, pensou Ron, dominado pela cólera.
Procurou pôr-se de pé. Sentiu-se admirado ao notar que o saltador não fez o menor esforço para impedi-lo. Este chegou até a afastar-se. Ron procurou abafar as dores e encostou-se à parede. O saltador continuava a segurar a garrafinha.
O que é isso? — perguntou Ron.
Licor — respondeu o saltador. — Tome.
O senhor quer que eu morra dentro de três segundos, não é? — perguntou Ron, em tom irônico.
O saltador balançou a cabeça.
Se quiséssemos matá-lo poderíamos usar um método menos inconveniente que o veneno — disse.
Era verdade. Realmente, Ron não acreditava que na garrafinha houvesse um veneno mortal. Devia conter alguma droga que eliminasse a vontade de Ron, e fizesse com que o terrano se tornasse loquaz ou produzisse um efeito análogo.
Gerard Lobson suplicou com a voz trêmula que Ron tomasse o líquido, mas este se manteve inflexível.
Não — disse. — É minha última palavra.
O ara que se encontrava atrás da escrivaninha ficou possesso. Ron notou um movimento rápido nos fundos da sala. Empurrando-se com o ombro, atirou-se para a frente. Mas a queda, que antes havia sofrido, eliminara a atuação de muitos dos seus músculos e tornara suas reações mais lentas. Enquanto caía para a frente, foi atingido por um golpe fulminante. Um sino parecia ressoar no interior de seu crânio, e a escuridão voltou a envolvê-lo.

* * *

Quando Ron voltou a despertar, a cena estava modificada. Mas era mais uma vez Gerard Lobson que se inclinava sobre ele.
Introduziram o líquido à força em sua boca.
Ron ergueu-se. Não sabia o que haviam leito com ele, mas o fato é que não produzira maiores efeitos. Encontrava-se bem-disposto. As dores tinham sumido, e sentiu-se como quem está em condições de enfrentar todo o mundo. Se os saltadores aparecessem, ele lhes mostraria em que tipo de homem haviam posto as mãos.
Provavelmente o ara atirara nele com uma arma paralisante. Ficara inconsciente e aproveitaram-se disso para fazer com que engolisse o líquido.
Que bebida é essa? — perguntou, dirigindo-se a Gerard.
É um licor — respondeu Gerard. — E é só o que eu sei. É vendido livremente em Lepso e é bastante apreciado.
Isso parecia estranho.
Já tomou esse licor?
Gerard fez que sim.
Só depois de eles terem posto as mãos em mim. Obrigaram-me a tomá-lo, da mesma forma que fizeram com o senhor.
E qual foi o resultado?
Hum — disse Gerard, em tom hesitante. — Parece ser uma cachaça muito forte. Depois de tomá-la a gente tem a impressão de que é capaz de arrancar árvores e enfrentar todo o mundo.
Ron confessou que no momento sentia a mesma coisa.
Quanto tempo dura isso?
Não sei — respondeu Gerard. — Estão sempre me dando mais um gole, antes que o efeito passe.
Ron olhou em torno. Encontravam-se num recinto amplo em que não havia nenhuma janela. O chão era de pedra dura e lisa. As paredes e o teto eram do mesmo material. Duas fileiras de colunas toscas saíam do chão e sustentavam o teto. Uma velha lâmpada de gás, pendurada entre as duas fileiras de colunas, espalhava sua luz pela sala. Numa das paredes havia uma porta. Era de metal. Ron pôs a mão no lugar em que costumava guardar a arma, e notou que esta não se encontrava sob o casaco. Naquele momento compreendeu, mesmo sem examinar a porta, que não conseguiria abri-la sem auxílio.
Isto é um porão, não é? — perguntou.
É sim — confirmou Gerard.
Onde se localiza?
Não sei. Toda vez que venho para cá meus olhos são vendados.
De repente, Ron soltou uma risada.
Então usam métodos já ultrapassados?
Apesar da aparente resistência da porta, Ron, sentindo-se atraído, foi tentar abri-la. Passou entre as colunas e procurou girar a maçaneta antiquada. Aconteceu o que esperara: sua tentativa não foi bem-sucedida. A porta estava trancada; a maçaneta não girou nem um milímetro.
O senhor já esteve aqui muitas vezes? — perguntou, dirigindo-se a Gerard.
Uma vez. Antes que viessem buscar-me para...
Para quê?
Bem, para arrancar do senhor a informação sobre se...
De um momento para o outro, a cena que se desenrolara no escritório de Zuglert surgiu nitidamente na mente de Ron. Gerard contara-lhe uma mentira e assim fizera com que dissesse que a sala, onde se encontravam, era o escritório do Dr. Zuglert. Logo após isso, os saltadores acenderam a luz e se identificaram.
Isso faz sentido”, constatou Ron. “Não queriam que ninguém se interessasse pelo desaparecimento de Zuglert. Por quê?
O terrano teve a impressão de que já conseguira um bom progresso, depois de ter chegado a Lepso. É bem verdade que tal acontecera sem qualquer atuação consciente de sua parte. Além disso, face à situação em que se encontrava, tornava-se duvidoso que jamais os conhecimentos adquiridos lhe pudessem ser úteis.
Mas, por enquanto, precisava saber de Gerard tudo que este soubesse, quer houvesse uma saída, quer não, Gerard encontrava-se em poder dos saltadores há mais tempo que ele mesmo.
De início Lobson mostrou-se hesitante, mas acabou relatando fielmente o que se passara no escritório de Zuglert. Não deixou de revelar que de tanto medo fugira, deixando Zuglert entregue ao seu destino.
Ron procurou unir os fatos, para descobrir o que deveria ter acontecido. Provavelmente Zuglert conseguira pôr-se de pé. E sem que ninguém o ajudasse, saíra do edifício e chegara a um lugar do qual realizara a palestra TTT com a Flórida.
Talvez durante a palestra o doutor desaparecera. Restava saber por que motivo o robô de comunicações chegara à conclusão de que a ligação fora feita do terminal da missão comercial terrana. No entanto, Gerard não saberia esclarecer este ponto.
Dali a algumas horas — prosseguiu Gerard — minha consciência começou a acusar-me. Procurei descobrir o que era feito de Zuglert. Pus-me a caminho. O escritório estava aberto. Entrei. Bem... lá dentro estavam os três indivíduos que o senhor já conhece. Perguntaram o que eu desejava, de onde conhecia Zuglert, por que havia voltado, e assim por diante. Levaram-me para baixo. Uma vez no carro, obrigaram-me a tomar o licor que também foi introduzido na sua boca. Depois vendaram meus olhos e trouxeram-me para cá. Fiquei aqui cerca de quatro horas.
Depois vieram buscar-me. Mais uma vez, meus olhos foram vendados. Quando a venda foi retirada, o carro encontrava-se à frente do edifício em que fica o escritório de Zuglert. Subimos e esperamos. Não sabia por quê. Ninguém respondeu à pergunta que formulei a este respeito. Ficaram mexendo bastante na escrivaninha de Zuglert. De repente pareceram muito surpresos. Um deles saiu correndo, e, quando voltou, catava carregando o senhor. Depois obrigaram-me a ajoelhar a seu lado e contar-lhe algumas mentiras assim que despertasse. Assim o senhor acabou revelando que viera por causa de Zuglert. O resto, o senhor já sabe.”
Sim, Ron sabia o resto, mas parecia haver alguns pontos obscuros nas informações de Gerard. Será que os saltadores haviam desativado os elevadores antigravitacionais, fazendo com que todos os retardatários, que visitassem o edifício, caíssem no porão? Em caso negativo, como poderiam saber a que hora ele chegaria e qual o elevador que utilizaria?
Dirigiu-lhe mais algumas perguntas. Não confiava muito naquele homem de cabelos negros, motivo por que Gerard teria de trair-se, a não ser que soubesse mentir com muita habilidade. Mas Ron não conseguiu nada. Gerard ficou firme em suas afirmações.
Finalmente, o agente terrano deu-se por satisfeito. Descobrira tudo que ele poderia revelar-lhe e estava na hora de pensar na elaboração de um plano.
Provavelmente os saltadores começariam a interrogá-lo. Se suas respostas não fossem satisfatórias, recorreriam a algum truque para eliminar sua vontade e extrair todo o conteúdo de sua consciência, inclusive o fato de que aquele homem louro e alto era um agente especial da Divisão III. Descobririam até o que realmente vinha a ser a Divisão III.
As coisas não deveriam chegar a este ponto. Ron tinha de encontrar um meio de escapar aos saltadores.
Não deixou de reconhecer que se encontrava numa situação difícil.
Os instrumentos, que poderiam facilitar-lhe a fuga, encontravam-se na sua bagagem, e ele saíra do hotel antes que esta chegasse. Nem sequer tinha em seu poder o pequeno transmissor que lhe permitiria irradiar um pedido de socorro. Dependia exclusivamente de si mesmo, da sua imaginação e de suas mãos.
Mal acabara de concluir o balanço da situação, a porta de aço foi destrancada e abriu-se ruidosamente. Dois gigantescos saltadores entraram, carregando uma mesa estreita e comprida de plástico sobre a qual havia uma série de aparelhos. Os saltadores não disseram uma única palavra. A porta fechou-se atrás deles — automaticamente, ao que parecia — e Ron, que prestara atenção a tudo, notou que seu caminho voltara a ser bloqueado. A mesa foi colocada no centro da sala, entre as duas fileiras de colunas. Ron fizera um estudo intensivo de tecnologia extraterrena, motivo por que reconheceu os dois encefaloceptores. Sentiu-se dominado pelo pavor.
Os saltadores haviam tomado sua decisão com uma rapidez assustadora. E, o que era pior, dispunham de todo o arsenal de aparelhos que, segundo acreditava, levariam alguns dias para serem trazidos.
Os dois saltadores colocaram-se ao lado da mesa. Um deles tirou uma arma e apontou-a para Ron. O outro disse:
Agora vamos interrogá-lo, homem da Terra. Supomos que não se disponha espontaneamente a revelar-nos a verdade. Portanto, usaremos este aparelho. Venha cá!
Num instante, Ron avaliou suas chances. Se ele se recusasse, obrigá-lo-iam a submeter-se ao interrogatório. De que forma? Com a arma que um dos saltadores tinha na mão. Tratava-se de um radiador térmico. Se este disparasse, já não haveria nenhum Ron Landry que pudesse ser interrogado.
Ao dar-se conta disso, Ron sentiu-se amargurado e deu um passo em direção à mesa com os instrumentos.
Nesse instante aconteceu o inacreditável.
4



Um dos dois saltadores caiu para o lado e bateu fortemente no chão. O outro, que segurava a arma, parecia hesitar. Lançou um olhar desconfiado e apavorado para Ron. Contornou apressadamente a mesa, a fim de ajudar o companheiro. Deu dois saltos, mas uma terrificante força invisível parecia impedi-lo de dar o terceiro salto. Ron viu que se esforçou para entesar os músculos. Soltou um grito de raiva e surpresa e procurou empurrar-se com ambos os pés, numa tentativa de avançar. Mas a força invisível foi mais forte. Puxou-o para baixo, atirou-o ao chão e comprimiu-o até que perdesse os sentidos.
Sem dizer uma palavra, Ron acompanhara o incidente. Fitou o saltador que caíra em primeiro lugar. Também parecia inconsciente. Ron aproximou-se e, para ter certeza, sacudiu-o. O homem não fez o menor movimento.
Ron compreendeu que sua chance havia chegado.
Vamos dar o fora! — gritou, dirigindo-se a Gerard.
Mas... mas... — gaguejou este, perplexo.
Ron agarrou-o pelo ombro e puxou-o em direção à porta.
Desta vez, a maçaneta não ofereceu qualquer resistência. Girou facilmente. A porta abriu-se. Lá fora havia um corredor estreito, escassamente iluminado.
Com a arma em punho e depois de ter deixado para trás a porta que impedia seus movimentos, sentiu de repente a tremenda ânsia de entrar em atividade que, segundo afirmava Gerard, provinha do estranho licor. Naquele momento desejava que, do outro lado do corredor, aparecessem alguns saltadores, a fim de que pudesse mostrar aos mesmos o que acontece a quem rouba a liberdade de um agente especial da Divisão III.
Teve de abandonar a idéia. Deveria dedicar sua atenção a dois pontos. Se possível, queria sair do edifício sem que ninguém o notasse. Além disso, teria que cuidar de Gerard, para que este, de tão apavorado que ficara com aquilo que acontecera no porão, não fizesse tolices ou saísse correndo.
Por enquanto Gerard deixava que Ron o dirigisse.
Parou quando este o segurou a fim de olhar o que havia além da curva, que ficava a uns dez metros da porta pela qual haviam escapado. Não viu o menor sinal de perigo. Um pouco adiante, o corredor terminava junto ao poço de um elevador antigravitacional. Ron não teve a menor dúvida em utilizá-lo. Comprimiu o botão do andar térreo e empurrou Gerard para dentro do poço, seguindo-o de perto.
Viram acima de suas cabeças a luminosidade da saída, que dava para o andar térreo. Conforme devia, a sucção do campo gravitacional cessou quando Gerard se encontrava na altura da saída. Lobson pegou a barra de apoio e puxou-se para fora. Ron seguiu-o imediatamente. Viu-se no hall de recepção profusamente iluminado de um grande edifício de escritórios. Escondeu o mais depressa possível a arma térmica que arrebatara do saltador.
Gerard parou, aguardando novas instruções. Ron olhou em torno e viu apenas o público que costumava movimentar-se pelos edifícios desse tipo. Uma profusão de seres de todas as espécies passou por uma das duas fileiras de portas, e uma outra profusão tão grande como a primeira deixava-o pela fileira de portas da outra parede. Os que passavam perto de Ron e Gerard fitavam-no com uma expressão de espanto ou de desconfiança. O agente terrano não demorou a perceber que isso acontecia unicamente porque sua roupa ficara bastante estragada com a queda sofrida no poço do elevador.
Chegou à conclusão de que não havia inconveniente em se afastarem o mais depressa possível. Misturaram-se aos indivíduos que iam saindo e, dali a alguns segundos, viram-se na pomposa faixa de pedestres que ficava ao lado de uma rua larga.
Ron olhou em torno.
Que lugar é este? — indagou, dirigindo-se a Gerard.
Teve de repetir a pergunta para obter uma resposta.
O setor norte da cidade — disse Gerard, laconicamente. — Na Avenida dos Cinco Mares.
Havia vários táxis junto ao meio-fio. Ron achou que seria muito arriscado pegar um dos veículos estacionados junto ao edifício, pois com isso poderia voltar a cair nas mãos das pessoas às quais mal e mal conseguira escapar.
Foram caminhando pela calçada. Estava anoitecendo. A claridade pálida, que o céu ainda conseguia espalhar, era abafada por milhares de anúncios luminosos. Ron viu vários restaurantes nas proximidades e deu-se conta de que estava com fome. Contemplou suas roupas. Se escolhesse um local adequado, ninguém teria uma objeção contra as mesmas.
A fim de gravar na memória a imagem do edifício do qual haviam saído, virou-se. Ficou tão surpreso com aquilo que viu, chegando até a esbarrar em Gerard, que parara.
Bem alto, na fachada da gigantesca torre, lia-se em caracteres latinos de pelo menos cinco metros de altura a inscrição pomposa: Missão Comercial Terrana.

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