Autor
WILLIAN
VOLTZ
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Cardif —
o homem que desfigurado e transtornado pela doença coloca a Galáxia
em pânico!
Thomas
Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan: agora é
Administrador do Império Solar.
Ninguém,
nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan ou os mutantes,
desconfia de que o governo vem sendo exercido por um usurpador.
Se o
comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em
Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por
meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era
prisioneiro dos antis.
Thomas
Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode
dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver,
mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do
abismo...
E nem
mesmo quase à morte, o filho de Rhodan desiste de seu intento
diabólico...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Thomas
Cardif
— A
imagem deformada de Perry Rhodan.
Atlan
— O
imperador que se defronta com uma decisão difícil.
Reginald
Bell
— Que
tem de agir às costas de seu melhor amigo, a fim de evitar a
catástrofe.
General
Alter
Toseff
— Um
arcônida muito ativo de Saratan.
Brazo
Alkher
e Stana
Nolinow
— Tenentes
da Ironduke.
Kutlós,
Tasnor,
Hepna-Kaloot
e Hanoor
— Servos
do culto de Baalol.
1
O Major
Hunt Krefenbac, imediato da nave linear Ironduke, era um homem muito
controlado. No entanto, havia um ligeiro tremor em suas mãos quando
fitou o terrano alto que acreditava ser Perry Rhodan. Sem que o
percebesse, passou a mão pelo uniforme. Estava com o rosto tenso.
Viu que a veia do pescoço de Rhodan estava muito inchada, e também
notou a causa disso. A gola do uniforme estava apertada, embora o
botão especial já estivesse na última casa.
Krefenbac
contemplou o rosto vermelho do administrador. Teve a impressão de
que estava mais largo e achatado que antes. Será que o crescimento
celular explosivo prosseguiria indefinidamente?
Ouviu
alguém pigarrear fortemente. Reginald Bell quis preveni-lo, mas já
era tarde. Cardif virou-se abruptamente. O movimento foi tão
violento que fez com que o botão do colarinho se desprendesse.
Na sala de
comando da Ironduke passou a reinar um silêncio total. A boca aberta
de Cardif não emitiu nenhum som. O botão foi rolando pelo chão,
descrevendo círculos cada vez maiores, até imobilizar-se bem à
frente do Dr. Carlos Riebsam, que era um matemático. Os presentes
acompanharam o fenômeno como se estivessem hipnotizados.
Cardif pôs
as mãos no pescoço. Seus olhos arregalaram-se numa expressão de
mudo pavor. Apalpou a casa de botão rasgada.
— O
senhor pretendia dizer alguma coisa, major? — perguntou com a voz
rouca, dirigindo-se a Hunt Krefenbac.
A
expressão dos olhos de Krefenbac revelava perplexidade, mas também
certa dose de compaixão.
— Sir...
— principiou cauteloso.
Cardif
empertigou-se abruptamente. O uniforme apertava-lhe o corpo. Já não
era segredo para nenhum dos tripulantes que, nos últimos três dias,
o chefe crescera mais de três centímetros e também se tornara mais
espadaúdo. Até parecia que a aproximação do planeta de Saós
acelerava o fenômeno.
— Fale
logo! — berrou Cardif fora de si.
Olhando de
soslaio, viu Riebsam abaixar-se para pegar o botão. Deu um empurrão
no matemático. Um sorriso repugnante surgiu em seu rosto.
— O
senhor não, doutor — disse em tom irônico. — Não quero que o
senhor faça isso.
Krefenbac
enrubesceu ligeiramente. Reginald Bell mantinha-se de pé, com os
braços cruzados, atrás de Cardif que, segundo acreditava, era seu
melhor amigo.
Cardif
lançou um olhar penetrante para Krefenbac.
— Como
é, major? Não vai pegar o botão para seu superior enfermo?
O rosto de
Krefenbac perdeu a cor. Ficou pálido como um cadáver. Sabia que
Rhodan pretendia rebaixá-lo. Não compreendia o procedimento do
administrador. Krefenbac prezava bastante a disciplina. Era um
excelente soldado e um oficial de primeira.
— Sir —
disse com a voz apagada. — Peço-lhe que me libere do cumprimento
da ordem que acaba de ser dada. Mandarei outro botão ao seu
camarote.
Os homens
que se encontravam na sala de comando compreenderam que o major
estava cedendo em parte aos desejos de Rhodan. E também sabiam que
Krefenbac não iria mais longe que isso. Seria capaz de mitigar seu
orgulho, mas não permitiria que ninguém o quebrasse.
Uma
expressão de fanatismo surgiu nos olhos de Cardif. Sabia interpretar
a atitude de Krefenbac tão bem como qualquer outra pessoa. O major
era um homem de caráter. Mas para um homem como ele, que ficara
submetido à influência imprevisível do ativador celular, qualquer
tipo de retirada seria impossível. Fazia questão de que suas ordens
fossem cumpridas de qualquer maneira.
— Major
— disse em tom de ameaça. — Levante esse botão.
O corpo de
Krefenbac entesou-se. Seu olhar franco cruzou com o de Cardif. Antes
que o major tivesse tempo de dizer qualquer coisa, todos já sabiam
que recusaria o cumprimento da ordem.
Naquele
instante Bell passou ao lado de Cardif. Piscou para Krefenbac e
abaixou-se para levantar o botão. Cardif não disse nada. Bell
parecia pesar na mão o objeto da discórdia.
— Ora!
Uma coisinha destas — disse em tom pensativo. — Tome, Perry.
O falso
administrador virou-se abruptamente. Bell deixou cair a mão. A
tensão diminuiu. Cardif retirou-se a passos largos. A intervenção
de Bell deixara-o surpreso, muito embora ele a julgasse bem oportuna.
Afinal de contas, uma prova de forças com o major teria reflexos
desfavoráveis entre a oficialidade. Mas Cardif só pensou
ligeiramente neste ponto.
Seu
problema fundamental era outro. Como fazer cessar e conseguir a
regressão do rápido aumento de peso e tamanho que estava
experimentando?
Teve a
impressão de que o único procedimento capaz de produzir algum êxito
seria uma invasão de Saós. Os sacerdotes da seita de Baalol o
haviam induzido a arranjar os ativadores celulares em Peregrino. Sem
dúvida conheciam os terríveis efeitos que o aparelho produziria em
seu corpo. Não estariam dispostos a ajudar espontaneamente, motivo
por que teria de obrigá-los a isso. Cardif já não estava em
condições de raciocinar logicamente. Aos poucos o desenvolvimento
celular descontrolado ia atingindo o cérebro, envolvendo as células
nervosas amadurecidas numa massa cerebral semi-acabada.
Sabia que
poderia contar com o apoio da Frota Solar. Acreditava que a mesma
representava um meio de pressão capaz de fazer com que os sacerdotes
cedessem aos seus desejos. Cardif nem se lembrou da possibilidade de
que alguém pudesse traí-lo.
Entrou no
camarote e trancou-o cuidadosamente. Por algum tempo manteve-se
imóvel no pequeno recinto. O movimento rítmico do tórax era o
único sinal de que ainda havia vida em seu organismo. Depois de
algum tempo iniciou uma atividade que repetia cuidadosamente de doze
em doze horas.
Caminhou
até a parede. Parou junto a uma saliência. Mais ou menos na altura
da cabeça havia marcas de várias cores. Ao lado de cada uma dessas
marcas havia uma data escrita em traços finos. Eram cinco ao todo.
Cardif colocou-se de costas para a parede. Pegou uma régua e
colocou-a sobre a cabeça, fazendo com que formasse um ângulo reto
com a parede. Deu um passo para a frente, deixando a régua encostada
à parede. Tirou uma caneta do bolso e riscou outra marca, que ficava
em posição mais elevada que as outras. Cardif escreveu com a mão
trêmula: 2 de setembro de 2.103.
Crescera
mais meio centímetro depois que se medira pela última vez.
O punho
daquele homem bateu com toda força contra a parede de metal leve. A
dor fez com que recuperasse o autocontrole. Pegou uma trena elástica.
Mediu cuidadosamente a cintura e registrou o resultado numa tabela.
Mais uma vez constatou uma alteração.
Cardif
gemeu baixinho. Pôs a mão no lugar do tórax em que se encontrava
incrustado o ativador. Os médicos o haviam informado de que nem se
poderia cogitar da remoção cirúrgica do aparelho.
Não
adiantaria verificar o peso. O mesmo crescia na mesma proporção em
que progredia o processo de cisão celular. Mas Cardif dispunha de
outro meio que lhe permitia fazer um exame preciso de seu estado. Era
simples e não falhava. E apresentava uma medida inconfundível do
desenvolvimento da doença.
Num
movimento apressado, o filho de Rhodan tirou o espelho de sob a cama.
Tinha um metro de largura e dois de altura. Cardif encostou-o à
parede.
Viu a
imagem de um homem que deixava os braços pender junto ao corpo e
apresentava uma cabeleira desgrenhada. Seu aspecto não era
propriamente doentio, mas pouco restava da figura esbelta e musculosa
de Perry Rhodan. O uniforme estava muito apertado, embora fosse o
maior que existia a bordo da Ironduke. Apalpou o corpo com os dedos.
As carnes já não eram firmes. Cediam sob a pressão dos dedos como
uma esponja.
Cardif
mantinha-se imóvel diante da imagem refletida pelo espelho. Agitado
pelas emoções, parecia esfacelar-se por dentro. Seu ódio ameaçava
transformar-se em loucura.
Apontou
para a figura que era ele mesmo, embora devesse representar outra
pessoa. Um braço estendeu-se em sua direção, vindo da imagem.
— Olá,
Rhodan — disse Cardif com a voz desfigurada.
Levantou a
cabeça para ouvir melhor.
— Para
ser Rhodan e exercer o poder do mesmo não preciso parecer-me com ele
— disse, dirigindo-se à sua imagem. — Compreendeu, meu filho?
Uma careta
debochada sorriu para ele. Perdera boa parte dos aspectos marcantes
de Rhodan.
— Meu
jogo continuará — disse Cardif. — Não desisto sem mais nem
menos. Saós cairá em minhas mãos.
Cardif deu
um passo em direção ao espelho. Mantinha o corpo inclinado para a
frente. Alguma coisa quis manifestar-se em seu subconsciente, mas não
conseguiu chegar à superfície.
— Torno-me
cada vez mais alto e engordo — disse com uma risadinha. — Um belo
dia meu corpo não caberá mais na Ironduke — essa idéia macabra
parecia diverti-lo. Uma série de pensamentos confusos atropelou-se
em seu cérebro.
Abriu o
uniforme e bateu no peito.
— Aqui
está o inferno — balbuciou em tom de desespero. — Incrustado no
meu corpo. Fica rumorejando e não me dá paz. Médicos, médicos.
Por que não podem ajudar-me?
Ninguém
respondeu. Sempre fora um homem solitário. E essa idéia despertou
seu velho orgulho. Quis empertigar-se, mas receava que o uniforme não
resistisse à pressão dos músculos.
Então era
esta a vida eterna que lhe proporcionava o ativador celular obtido
por meios fraudulentos?
Deixou-se
cair na cama. Virou-se nervosamente de um lado para o outro. Devia
pedir mais uma vez um sedativo? Uma idéia absurda começou a
agitar-se em sua mente. Imaginou que, enquanto estivesse dormindo,
Krefenbac poderia entrar no camarote e estrangulá-lo. Entorpecido
pelo medicamento, não poderia defender-se com a necessária rapidez.
Balançou
energicamente a cabeça. Devia manter a capacidade de raciocínio. E,
o que era mais importante, não deveria esquecer-se de seu grande
objetivo. Naquele momento, grande parte da Frota Solar encontrava-se
em Saós.
Casualmente
voltou a olhar para o espelho. Levantou-se e caminhou em direção ao
mesmo. Havia alguma coisa que lhe chamava a atenção. Chegou bem
perto. Seu hálito embaçou a superfície lisa. Limpou-a com a manga
do uniforme, para enxergar melhor.
Fitou seu
rosto. Estava apenas a um centímetro de distância.
De repente
viu!
Quis
gritar ou fazer qualquer coisa. Mas sentiu-se paralisado pelo pânico
e pelo pavor. Num movimento lento pôs a mão para trás e levantou a
régua. Levantou o braço e bateu contra o vidro. Seu rosto
esfacelou-se num sem-número de partes; parecia ser arremessado para
todos os lados. Os fragmentos do espelho tilintaram ao caírem no
chão. O barulho fez com que Rhodan recuperasse a capacidade de
raciocinar. Cambaleou em direção à cama e deixou-se cair sobre a
mesma.
Foram seus
olhos que tanto o chocaram. Subitamente teve a impressão de que o
cinzento dos mesmos estava um tanto apagado. Uma tonalidade
amarelenta sobrepunha-se à cor primitiva. Cardif sabia qual era a
expressão de seu olhar.
Era a
expressão de um animal feroz.
*
* *
Krefenbac
respirou profundamente. As palavras de gratidão dirigidas a Bell
foram proferidas em tom convicto.
— O
senhor me tirou de uma situação muito desagradável, sir — disse
ao concluir.
Reginald
Bell continuava muito sério. Rugas profundas desenhavam-se em seu
rosto sardento. Via-se perfeitamente que carregava uma pesada carga.
Queria continuar a apoiar o amigo, mas por outro lado queria também
proteger os homens que o cercavam dos caprichos incompreensíveis de
Rhodan.
— A
situação é desagradável para todos — disse, dirigindo-se ao
major. — Não se esqueça que a enfermidade do chefe lhe causa
grandes sofrimentos. Além disso, ainda se encontra sob os efeitos da
prisão em Okul. Conversei demoradamente com o doutor Alonzo, que é
especializado na área da pesquisa celular. O mesmo diz que Perry foi
acometido de um processo de cisão celular explosiva.
— Quem
dera que eu pudesse ajudá-lo — disse Jefe Claudrin com sua voz
retumbante. — Se me lembro do que temos pela frente, não consigo
livrar-me de uma sensação desagradável. Pelo que informou o
Tenente Alkher, sua fuga e a de Stana Nolinow foi habilmente
preparada pelos antis. Estes queriam que Alkher e Nolinow
acreditassem que os sacerdotes não desejavam que os dois escapassem.
— Dali
se conclui que os antis estão interessados em que apareçamos por
ali. Têm algum motivo especial para atrair-nos a esse lugar —
disse Bell em tom pensativo. — Seu potencial militar em Saós não
lhes permite que resistam a um ataque cerrado das nossas forças. E
eles sabem disso.
— Esses
indivíduos gostam desse tipo de jogo traiçoeiro — disse Claudrin
em tom zangado. — Bem que deveríamos dar uma lição a esses
bandidos.
O major
era um homem de ação. Sob seu comando a Ironduke se transformara na
unidade mais poderosa da Frota Solar.
Ainda
acontecia que essa nave de oitocentos metros de diâmetro possuía o
sistema de propulsão linear. Naquele instante mais de quatro mil
naves terranas, entre as quais alguns supercouraçados, estavam
estacionadas no sistema Saós. Era impossível que essa barreira de
aço e energia pudesse ser rompida por uma nave estranha. Nenhuma
espaçonave poderia decolar de Saós, e a tentativa de pousar no
planeta seria um verdadeiro suicídio. Dispostas em concha, as
fileiras das naves terranas haviam bloqueado completamente o segundo
planeta do sol 41-B-1847-ArqH. A pequena estrela amarela não possuía
nome próprio; era conhecida apenas pela designação sob a qual
constava do catálogo estelar. Dois planetas gravitavam em torno
dela, e Saós era o planeta exterior. Estava submetido ao Grande
Império governado por Atlan, pois ficava nas proximidades do grupo
estelar M-13, a 33.218 anos-luz da Terra.
Sob o
ponto de vista humano, Saós era um mundo inóspito. A atmosfera
consistia principalmente de nitrogênio e gás carbônico. Só
continha quantidades reduzidas do elemento vital, o oxigênio. Mas o
problema principal era a rotação lenta do planeta. Levava 214 horas
terranas para girar uma única vez em torno de seu eixo. Dali
resultavam certos efeitos colaterais bastante desagradáveis, que
geralmente só são encontrados nos mundos que não possuem nenhum
movimento de rotação, A zona intermediária entre a face diurna e a
noturna era fustigada por furacões violentíssimos. Essa área era
ameaçada constantemente pela fúria dos elementos. Nestas condições
não houve possibilidade de que em Saós surgisse faixas de vegetação
mais extensas. A superfície do planeta era formada por desertos.
Não era
só graças aos relatos dos tenentes Alkher e Nolinow que o Major
Claudrin tinha conhecimento das condições que encontraria no
planeta se realmente houvesse a invasão. Tal qual todas as pessoas
que se encontravam a bordo, fazia votos de que conseguissem arrancar
dos antis o segredo das alterações sofridas por Rhodan.
Aquele
homem nascido em Epsal não podia saber que dedicava suas esperanças
a um lobo em pele de cordeiro. Nem uma única pessoa da Frota
conhecia a verdadeira identidade do administrador. Por enquanto todos
estavam dispostos a cumprir as ordens do falso Rhodan.
As
modificações físicas visíveis sofridas pelo administrador teriam
sido aceitas tranqüilamente pelos amigos, se juntamente com estas
não se tivessem revelado traços de caráter até então
desconhecidos.
Claudrin
sabia raciocinar. Por isso foi o primeiro a corrigir sua afirmativa.
— Naturalmente
quero dizer que devemos avançar em frente ampla contra os adeptos de
Baalol — disse. — Em Saós as coisas serão bastante confusas
enquanto não conhecermos os planos dos antis.
— Eles
não estarão dispostos a revelá-los espontaneamente — disse o Dr.
Riebsam em tom sarcástico.
Ninguém o
contradisse. Quem quisesse obter informações dos antis teria de
buscá-las em Saós. Acontece que, segundo parecia, os sacerdotes só
esperavam que isso acontecesse.
Bell, que
na ausência de Cardif se esforçava para minimizar os erros do homem
que acreditava ser seu amigo, viu-se numa situação difícil. Teria
de provar a Rhodan que um ataque a esse planeta dos antis seria um
absurdo. E, para apresentar essa prova, teria de pousar em Saós. O
gorducho começou a desconfiar de que os sacerdotes haviam colocado
uma armadilha na qual a Frota Solar acabaria caindo de qualquer
maneira. Rhodan — aquele Rhodan — era a melhor garantia de que
isso aconteceria.
*
* *
A
estratégia de Kutlós era simples e eficiente. Consistia
simplesmente em cumprir as instruções do Grande Baalol, houvesse o
que houvesse. Foi assim que esse anti foi subindo até transformar-se
no sacerdote em exercício no mundo de Saós. Quando Kutlós chegava
a contradizer alguém, isso só acontecia com um subordinado. Adotara
o princípio de que só alcança o poder aquele que permanece entre
os poderosos e sabe lidar com eles, e esse princípio o ajudara
durante toda a vida. Para os outros sumos sacerdotes era um homem
quieto, que não chamava a atenção. Um belo dia chegara a Saós
numa nave cilíndrica e assumira o cargo de sumo sacerdote. Saíra da
eclusa, magro e ereto, e lançara um olhar atento para a área
industrial.
As
instalações que os antis haviam montado em Saós ficavam numa
depressão bastante profunda, cercada de montanhas altas e desertas.
A depressão media cerca de oito quilômetros. Os acidentes do
terreno protegiam-na contra as tempestades de areia, e por isso
constituía o lugar ideal para servir de base à seita de Baalol.
O porto
espacial ficava na parte norte da depressão. O centro industrial
propriamente dito estendia-se por uma área de dois quilômetros.
Havia instalações no subsolo, que chegavam a penetrar até
cinqüenta metros abaixo da superfície. Era em Saós que os antis
fabricavam os projetores energéticos destinados a criar seus campos
defensivos individuais.
No centro
das instalações dispostas em círculo erguia-se uma pirâmide de
150 m de altura. Oficialmente era o templo dos antis. Em torno dessa
construção agrupavam-se edifícios baixos e compridos. Nos quatro
cantos destes havia elevadas cúpulas, cobertas por telhados
metálicos semi-esféricos. Era nessas cúpulas que ficavam as quatro
usinas de energia.
Desde o
dia de sua chegada, Kutlós não mandara realizar nenhuma modificação
no programa de fabricação que não tivesse sido ordenada pelo
Grande Baalol. Apresentava seus relatórios com a maior regularidade
e sempre evitava mostrar-se insistente ou formular perguntas
incômodas. Por absurdo que pudesse parecer, isso fez com que o
Grande Baalol se convencesse de que Kutlós era um dos sumos
sacerdotes mais competentes no seio dos antis.
Kutlós
encontrava-se na sala de televisão de Saós, que ficava a meia
altura da pirâmide e estava recheada de instalações técnicas
destinadas à observação espacial.
Olhava
para uma tela ligeiramente abaulada. Vez por outra viam-se na mesma
pontos luminosos do tamanho de uma cabeça de alfinete. Vistos assim
pareciam inofensivos.
Mas podiam
ser tudo, menos isso.
Cada um
destes minúsculos pontos brilhantes representava uma nave terrana.
Formavam um círculo em torno de Saós, impedindo que qualquer nave
dos antis decolasse ou pousasse. Kutlós fora prevenido de que parte
da Frota Solar apareceria nas proximidades do planeta, mas não
esperava que isso acontecesse tão depressa.
As naves
cargueiras dos antis, carregadas com as preciosas máquinas
destinadas à fabricação de geradores de campos defensivos
individuais, ainda continuavam pousadas no porto espacial. Só as
naves cilíndricas dos saltadores já tinham desaparecido. Depois do
ataque simulado contra a base, sua missão estava cumprida.
Kutlós
endireitou o corpo. O zumbido do equipamento de ar-condicionado
chamou-o de volta à realidade.
— Quer
que desligue, Kutlós? — perguntou o jovem sacerdote.
O sumo
sacerdote limitou-se a acenar com a cabeça. Os inúmeros
instrumentos de localização que havia nessa sala ficavam “de
olho”
em cada um dos couraçados terranos. Qualquer mudança de posição
era prontamente registrada. O dispêndio de energia de cada
espaçonave era cuidadosamente controlado, para que se pudesse
constatar prontamente o início da invasão.
Na opinião
de Kutlós, os terranos já estavam demorando demais. Pelos padrões
terranos, a Frota já se mantinha no espaço há três dias. O sumo
sacerdote esperara que todos os antis conseguissem escapar nas naves
cargueiras antes da chegada dos terranos. A rapidez com que as
espaçonaves esféricas haviam saído do hiperespaço frustrara essa
parte do plano. Os sacerdotes de Saós viam-se obrigados a permanecer
na base contra a vontade.
Era a
primeira vez que Kutlós via sua estratégia condenada ao fracasso.
Qualquer defesa contra a invasão, por mais vigorosa que fosse,
entraria em colapso depois de algum tempo. O sumo sacerdote não
estava disposto a deixar que os terranos se apoderassem de Saós sem
luta, mas estava preparado para uma derrota fulminante.
Kutlós
passou discretamente a mão pelo cabelo. As naves que se enfileiravam
em torno do planeta não o deixavam nervoso. Sentia certa melancolia
diante da idéia de que sua caminhada em direção ao poder teria de
esbarrar com a força e a velocidade de quatro mil espaçonaves.
Continuava a julgar correta a maneira pela qual organizara sua vida.
— Quando
atacarão? — disse uma voz que penetrou em sua consciência.
Virou-se e
fitou os olhos inteligentes de Tasnor, que era seu representante.
Desde o primeiro dia Kutlós tivera uma opinião bem definida a
respeito de Tasnor. Era inteligente, muito mais inteligente que ele
mesmo. Mas nunca chegaria a ser um dos altos dignitários do Baalol.
Tasnor cometia dois erros fatais. Falava demais, e falava com
qualquer pessoa. Além disso, acreditava que devia impor, de qualquer
maneira, algumas de suas idéias. E esse procedimento estragaria sua
carreira.
Kutlós
fitou seu interlocutor sem dizer uma palavra, e a atividade de Tasnor
morreu em meio a esse silêncio, congelou-se sob o brilho frio dos
olhos de Kutlós. Para o sumo sacerdote pouco importava o que Tasnor
sentisse em relação a ele. Provavelmente aquele jovem o odiava. Mas
isso não afetava o respeito que lhe tributava. Durante seus contatos
com os poderosos, Kutlós aprendera como conquistar e conservar o
respeito dos outros.
— Esta
espera desgasta os nervos da gente — disse Kutlós, como que se
desculpando.
Um sorriso
surgiu no rosto de Kutlós, um sorriso que desagradou Tasnor,
transformando-o num jovem inexperiente e de nervos débeis, com o
qual o sumo sacerdote tinha de ocupar-se, como se não bastassem as
tarefas importantes que precisava cumprir. O representante
enrubesceu. Baixou os olhos, e as mãos desceram pela manta larga.
— Compreendo
— respondeu Kutlós, em tom amável. — Deveríamos agradecer os
terranos por nos concederem um prazo que nos permite executar a
segunda parte de nosso plano.
Hepna-Kaloot,
que era bastante baixo e gordo para um anti, virou-se sem sair do
lugar.
— Até
parece que ainda temos uma saída — disse. — Nunca desejei uma
morte heróica. Kutlós, que idéia é essa que ainda lhe infunde
alguma esperança?
O único
sacerdote de Saós pelo qual Kutlós sentia alguma simpatia era
Hepna-Kaloot. Não podia aplicar suas atitudes costumeiras a esse
homem baixo. Hepna-Kaloot sempre transmitia ao ambiente em que se
encontrava a indiferença que sentia diante de todas as coisas. Mesmo
quando formulasse perguntas, como acabara de fazer, percebia-se
perfeitamente que não havia nada que pudesse abalá-lo no seu
íntimo. Só havia uma coisa capaz de entusiasmar aquele sacerdote: o
jogo de Paloot.
Era um
jogo proibido. Acontece que Hepna-Kaloot conhecia tão bem as regras
desse jogo que era de supor que por mais de uma vez desobedecera à
proibição. Nas noites tranqüilas, muitas vezes se deixara levar a
contar alguma coisa a respeito do jogo de Paloot. Nas suas histórias
sempre figurava como espectador, mas qualquer pessoa que o ouvisse
compreenderia perfeitamente que seu papel real era o de um
participante.
Para
julgar o caráter de Hepna-Kaloot, devia-se partir do princípio de
que este era um jogador nato. E agora, pela primeira vez, tomava
conhecimento do que estava em jogo.
Estava em
jogo a mesma coisa que os outros sacerdotes arriscavam: a vida.
Era claro
que Hepna-Kaloot também gostaria de sair do jogo, se tivesse
oportunidade para tanto. Por isso era possível que as palavras que
acabara de proferir fossem menos indiferentes do que costumavam ser
suas falas.
— Não
vejo nenhum motivo para deixarmos de executar nosso plano original —
disse Kutlós. — Seguiremos as instruções do Grande Baalol.
Antes que
concluísse sua fala viu a expressão de oposição nos olhos de
Tasnor.
— Quando
recebemos as ordens da sede ainda não sabíamos que não haveria
possibilidade de abandonarmos Saós — ponderou o jovem sacerdote. —
O plano elaborado pelo Grande Baalol partiu de pressupostos
totalmente diversos dos atuais.
Kutlós
não teve necessidade de examinar os rostos dos outros antis para
certificar-se de que a maioria deles compartilhava a opinião de
Tasnor. Seu representante parecia sentir a mesma coisa. Isso não
deixou Kutlós nem um pouco nervoso. Esse tagarela não o impediria
de saborear seu último triunfo.
— A
única coisa que mudou é o fato de ainda nos encontrarmos aqui —
disse o sumo sacerdote, em voz baixa.
Tasnor
cometeu o erro de ver nessas palavras uma manifestação de fraqueza
de Kutlós. Levantou os braços num gesto de súplica e dirigiu-se
aos antis reunidos.
— Kutlós
tem razão — gritou para eles. — Ainda estamos aqui, e nossa vida
corre perigo. Quatro mil naves atacarão Saós e não nos darão a
menor chance. Se quiséssemos arriscar a luta, estaríamos fazendo um
sacrifício insensato. Sugiro que revelemos aos terranos quem é a
pessoa que se apresenta como Rhodan. Eles o prenderão e voltarão à
Terra.
— A
sugestão não presta — disse Kutlós, em tom de desprezo. — Se
os astronautas terranos descobrirem que estão obedecendo às ordens
de Cardif, farão tudo para descobrir onde se encontra o verdadeiro
Rhodan. E haveria um lugar melhor para eles obterem informações
sobre isso do que o planeta Saós?
Kutlós
fez uma pausa, para que os sacerdotes tivessem tempo para refletir
sobre a pergunta que acabara de formular. Depois, prosseguiu:
— Quer
dizer que pousarão no planeta, mesmo que saibam que o filho se fez
passar pelo pai. Provavelmente o fato de nós os termos enganado os
deixaria muito mais zangados — o sumo sacerdote fez um gesto
violento. — Não vamos iludir-nos. Sabemos perfeitamente que os
terranos são inimigos muito perigosos. Será que devemos irritá-los
ainda mais? Por enquanto temos Cardif nas mãos. Não devemos
abandonar este trunfo. Enquanto Thomas Cardif, disfarçado em Rhodan,
exerce as funções de administrador, as naves da Terra não nos são
muito perigosas. O Grande Baalol nos informou que, no momento, outro
homem poderoso da Galáxia o deixa muito mais preocupado.
— O
Imperador Gonozal VIII — interrompeu Hepna-Kaloot. — O almirante
do Grande Império de Árcon.
Kutlós
percebeu que o pequeno sacerdote não estava disposto a acompanhar os
arroubos de Tasnor. Hepna-Kaloot costumava refletir antes de tomar
suas decisões. E os antis sabiam disso. A expressão de lealdade de
Hepna-Kaloot favorecia bastante o prestígio do sumo sacerdote.
— Isso
mesmo — disse Kutlós. — Sabemos que muita coisa aconteceu desde
que Atlan, um arcônida que manteve o espírito ativo, assumiu o
controle do computador-regente. A mão forte de Gonozal VIII sacudiu
o império, procurando deter o processo de decadência. Perry Rhodan
foi um aliado leal. Reunidos, o Império de Árcon e o Império Solar
pesavam bastante no jogo de forças da Galáxia. Os dirigentes
supremos dos dois impérios estelares transformaram-se em bons amigos
— um sorriso irônico surgiu no rosto de Kutlós. — Neste meio
tempo nosso amigo Thomas Cardif conseguiu introduzir profundas
modificações nessa situação. Há divergências políticas entre a
Terra e Árcon. Quase se poderia falar numa guerra fria. Nossos
agentes descobriram que Cardif mandou retirar todos os colaboradores
terranos que trabalhavam nos planetas arcônidas. O filho de Rhodan
deve ter proferido graves ofensas contra o imperador. As coisas
chegaram a tal ponto que as unidades da Frota Solar voam pelas áreas
de influência do Grande Império.
Tasnor
começou a compreender que as explicações prolongadas de Kutlós
tinham a finalidade de influenciar o estado de ânimo dos sacerdotes.
— Já
sabemos — disse com a voz zangada. — Nem por isso nossa situação
se torna menos grave.
O sumo
sacerdote não deixou que estas palavras o perturbassem. Sua voz mal
superou os ruídos dos aparelhos eletrônicos. Mas suas palavras
foram compreendidas por todos. Como era seu hábito, Kutlós teve o
cuidado de evitar que suas próprias idéias interferissem nas
explicações. Vivia dizendo aos seus companheiros de raça que suas
palavras representavam a opinião do Grande Baalol.
— Gonozal
VIII decretou a mobilização geral — disse. — Isso significa que
em sua opinião é perfeitamente possível que venha haver um
conflito de grandes proporções.
Kutlós
bateu as palmas das mãos uma na outra, como se quisesse esmagar um
inseto que o incomodava. Estava de pé no centro da sala, alto e
magro, tal qual saíra da espaçonave quando pela primeira vez pisou
o solo de Saós. Representava o Grande Baalol, que era a autoridade
suprema. Até parecia que um fio invisível unia o grande chefe dos
antis a Kutlós — um fio que conduzia um fluxo autoritário,
reforçando o sumo sacerdote. Kutlós parecia o prolongamento do
braço do Grande Baalol.
— O
Grande Baalol é de opinião que podemos fazer alguma coisa para
desencadear o conflito. Árcon e a Terra têm uma visão negativa
para com nossa seita. Por isso deveremos sentir-nos felizes se eles
se enfraquecerem mutuamente. Bem que vale a pena sacrificar esta base
para conseguir isso.
— Dessa
forma também sacrificaremos a vida! — exclamou Tasnor.
Já
utilizara muitas vezes o único argumento de peso de que dispunha.
Por isso tal exclamação deixou de produzir o efeito desejado.
Kutlós, que nunca duvidara da vitória, fez um gesto ligeiro para
Hepna-Kaloot, em cujo rosto se desenhava um sorriso indecifrável.
Naquele
momento Kutlós compreendeu que Hepna-Kaloot era a única pessoa a
qual não conseguira convencer. Mas o anti era muito experimentado
para confessar isso.
“Ele
adota a mesma tática que eu”,
pensou o sumo sacerdote, perplexo.
— Se
Atlan e Cardif se pegarem, assistiremos de camarote — disse Kutlós.
— O sistema em que nos encontramos fica na área de influência do
Grande Império. Se a Frota Solar nos atacar, estará interferindo
nos assuntos internos de Árcon.
Kutlós
aproximou-se da tela do aparelho de localização ótica e ligou-o.
Os pontos reluzentes voltaram a aparecer.
— O
plano é bom — disse. — E vai funcionar.
Com estas
palavras singelas, Kutlós manifestou sua decisão de destruir quatro
mil naves terranas — ou melhor, de fazer com que as mesmas fossem
destruídas. E os antis não se importariam nem um pouco se isso
causasse a destruição de milhares de unidades robotizadas de
Árcon...
*
* *
Um dos
objetos que só aparecia na tela dos antis sob a forma de um lampejo
era a nave linear Ironduke, que se mantinha numa órbita constante em
torno de Saós.
O Tenente
Brazo Alkher foi andando pelo longo corredor que levava da sala de
comando aos camarotes dos oficiais. Pouco atrás dele caminhava o
Tenente Stana Nolinow. Era baixo e usava cabelos cortados à
escovinha. Formava um contraste marcante com Alkher, que era um homem
alto e ossudo.
Os dois
oficiais já se conheciam desde a primeira tarefa desempenhada na
Fantasy. Sobreviveram ao naufrágio espacial juntamente com Perry
Rhodan e foram salvos pelo Capitão Samuel Graybound. Os dois homens
estavam ligados por uma amizade sincera, que ultrapassava em muito os
limites do simples companheirismo. No que diz respeito à
combatividade formavam uma equipe muito bem ajustada. Um homem como
Brazo Alkher na central de tiro de uma espaçonave representava um
perigo maior que dez cruzadores pesados.
Sempre que
alguém lhe perguntava sobre suas extraordinárias capacidades,
costumava dizer:
— Lido
com os canhões; apenas isto. Mas restava saber como lidava com eles.
A prisão
comum em Saós unira ainda mais os dois tenentes. Sabiam que sua
permanência involuntária nesse planeta fora causada exclusivamente
pelo homem que, segundo todos acreditavam, era Perry Rhodan. Cardif
não tivera a menor consideração com eles. Deixara-os na nave dos
antis e, além disso, dera ordem para abrir fogo contra o veículo
espacial dos sacerdotes.
— O que
deseja de nós? — perguntou Nolinow e parou.
Em sua voz
havia um tom inconfundível que era um misto de desconfiança e de
desprezo. Alkher sacudiu a cabeça como quem se lamenta.
— Você
está falando no chefe? — indagou o amigo.
— É
verdade — respondeu Nolinow, em tom amargurado.
Alkher
parou à porta de um camarote e bateu.
— Faça
o favor de entrar.
Alkher
abriu a porta e entrou no pequeno recinto. O chão estava coberto por
cacos de espelho. Perplexo, Alkher olhou para a cama sobre a qual
estava deitado Perry Rhodan.
O
administrador tirara o casaco do uniforme, trocando-o por um pulôver
confortável. Seus olhos estavam protegidos por óculos escuros do
tipo usado pelos técnicos nas salas dos conversores. Alkher ouviu
que Nolinow entrava atrás dele.
— O
senhor mandou chamar-nos, sir — disse Brazo.
Os óculos
não lhes permitiam ver os olhos de Rhodan. Quando o administrador se
levantou, Brazo Alkher não saberia dizer se estava olhando para ele
ou para Nolinow. Surpreendentemente, Rhodan usou um tom amável.
— Os
senhores sabem que pertencem ao grupo de pessoas em quem mais confio
— principiou, dirigindo-se aos dois tenentes.
— Sim,
senhor — responderam Alkher e Nolinow a uma voz.
Alkher
sentiu que Nolinow o olhava como quem não entende nada. Não
compreendia muito bem por que lhes fora conferida essa posição
privilegiada.
— Escolhi
os senhores para me levarem a Peregrino — lembrou Rhodan. — Sei
dar o devido valor às suas qualidades.
Brazo
Alkher sentia-se cada vez mais inseguro. Essa fala levaria a alguma
coisa que de forma alguma contribuiria para restaurar a confiança
que depositavam em Rhodan, pois esta se deteriorava progressivamente.
— Sem
dúvida, sir — disse Alkher em tom cauteloso.
Em sua
opinião seria preferível que não o deixasse concluir porque
Nolinow, com seu gênio impulsivo, só causaria problemas.
Rhodan
levantou-se e pisou em alguns cacos. O ruído fez com que Alkher
estremecesse. Viu o quadro do espelho pendurado na parede. Ao que
parecia, o administrador o quebrara num acesso de raiva.
— Os
senhores presenciaram o ato de indisciplina do Major Krefenbac? —
indagou Rhodan. — Se presenciaram, viram a que ponto pode chegar a
arrogância psicopática de um oficial.
Nolinow
aspirou ruidosamente o ar. Alkher cutucou-o com o cotovelo, fazendo
votos de que Rhodan não o notasse.
— Vimos
tudo — confirmou Alkher em tom tranqüilo.
— O
Major Krefenbac é o imediato da Ironduke — prosseguiu Rhodan. —
Ou melhor, ele já foi.
— Sir! —
exclamou Alkher, em tom apavorado.
— Não
permitirei que continue num cargo de tamanha responsabilidade —
anunciou Rhodan. — Não é possível que uma posição vital para a
nave seja ocupada por um homem desse tipo. O Major Krefenbac não é
capaz de cumprir a ordem mais simples. O que se dirá quando tivermos
que tomar decisões importantes? Imagino que, em meio a uma batalha
espacial, o major perderá os nervos e recusará o cumprimento das
ordens que receber.
Alkher
esforçou-se para conservar a calma. Os pensamentos atropelavam-se em
seu cérebro. Lamentava que Bell não estivesse presente. O amigo
pessoal de Rhodan parecia ser a única pessoa que continuava a
exercer certa influência sobre aquele homem doente.
— Para
mim, o Major Krefenbac é um bom oficial e um superior muito
competente — disse Stana.
Rhodan fez
que sim. Voltara a sentar-se. A intervalos regulares cravava os dedos
nas cobertas. O gesto desenhava-se com toda nitidez.
— Suas
palavras constituem a melhor prova de que o senhor não sabe avaliar
esse tipo de gente, tenente — disse. — Sempre é importante
estudar as pessoas que nos cercam. O senhor deve fazer uma verdadeira
autópsia de seu caráter, Nolinow. Use armadilhas psicológicas, e o
senhor perceberá que, muitas vezes, a fachada brilhante esconde um
gênio de canalha.
— Sim,
senhor — respondeu Nolinow em tom frio e indiferente.
De repente
Brazo Alkher sentiu que Rhodan o fitava por trás das escuras lentes
dos óculos. Esforçou-se para enfrentar esse olhar.
— Tenente
Alkher, tenho a impressão de que o senhor é um oficial muito
aproveitável — principiou Rhodan.
— Faço
o que posso, sir — respondeu Alkher, esforçando-se para dar à voz
um tom amável.
Rhodan
acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
— O
senhor será o imediato da Ironduke, tenente.
Por um
instante Alkher sentiu-se tão perplexo que não conseguiu formular
qualquer resposta. Os problemas, que se amontoavam diante dele em
virtude desse convite fatal, lhe pareciam insuperáveis. Muito
perturbado, piscou os olhos.
Rhodan
soltou uma risada rouca.
— Isso o
surpreende, não é mesmo, Alkher?
— Sem
dúvida — conseguiu dizer o tenente.
Rhodan
levantou-se e, arrastando os pés entre os cacos que tiniam,
aproximou-se de Alkher. Num movimento instintivo, este deu um passo
para trás. Rhodan bateu em seu ombro.
— O
senhor saberá dar conta do recado — disse numa cordialidade
forçada.
Alkher
estremeceu. Nolinow parecia enrijecido como uma coluna de pedra.
Desorientado, Brazo olhava para ele.
— Fico-lhe
muito grato pela confiança, sir — gaguejou.
A mão de
Rhodan pesava em seu ombro, mas Alkher não se atreveu a fazer
qualquer movimento. De repente lembrou-se de seu primeiro encontro
com Rhodan. Naquela oportunidade pensara que o administrador fosse um
mecânico e lhe dispensara o tratamento que correspondia a essa
posição. O Rhodan de quem se lembrava era um homem completamente
diferente daquele que se encontrava à sua frente.
— Nolinow
e o senhor são as pessoas que melhor conhecem a base de Saós —
disse Rhodan. — Estão em condições de comandar o ataque contra
os antis. Krefenbac ficará de lado, e tudo dará certo. Os senhores
serão meus elementos de ligação com a frota invasora. Transmitirão
minhas ordens às unidades que estiverem empenhadas no combate.
— Sir,
eu... — principiou Alkher.
A voz de
Rhodan assumiu um tom áspero.
— Alguma
objeção, tenente?
Alkher
engoliu em seco. Seus olhos refletiram um brilho... de temor. O que o
perturbava não era o homem em si, mas sim as lendas, a história dos
atos do mesmo.
Alkher
falou com a coragem do desespero:
— Vejo-me
forçado a recusar sua proposta, sir. Sinto muito.
— O quê?
— gritou Rhodan. — Será que o senhor enlouqueceu, tenente?
Ofereço-lhe a maior chance de sua vida, e o senhor se atreve a
recusar minha oferta?
Brazo
Alkher arregalou os olhos e fitou o homem enfurecido. Uma palidez
tremenda cobria seu rosto. Suas mãos tremiam levemente e as palmas
estavam úmidas de nervosismo. Nolinow mantinha-se de pé atrás
dele, com os dentes cerrados. Ficou em silêncio.
— Será
que o senhor tramou algum golpe juntamente com esse palerma do
Krefenbac? — berrou Rhodan fora de si. — Saberei fazer cumprir
minhas ordens.
— Qualquer
ordem que o senhor me der será cumprida, sir — disse Alkher, em
voz baixa. — No entanto, os regulamentos me permitem refletir sobre
uma promoção que me seja oferecida e mesmo recusá-la, desde que
não me sinta em condições de cumprir as novas tarefas.
— Fora!
— gritou Rhodan.
Brazo
Alkher e Stana Nolinow fizeram continência e retiraram-se.
— Cheguei
a pensar que você aceitaria a promoção — disse Nolinow em tom
tranqüilo assim que se encontravam a uma distância tal que Rhodan
não podia ouvi-los.
Alkher
respirava fortemente. Seu rosto, até então muito pálido,
enrubesceu.
— Quase
que ele me pega de surpresa — confessou. — Não perdoou essa
história dos botões ao major.
— Você
está falando no chefe — disse Nolinow num misto de repreensão e
ironia.
— Gostaria
de poder dar-lhe alguma forma de apoio — disse Alkher. — Ao que
tudo indica, sua conduta incompreensível tem algo a ver com sua
estranha doença. Notou que estava usando um pulôver muito largo?
— A
jaqueta do uniforme ficou muito apertada, Brazo. Gostaria de saber
por que estava com aqueles óculos. Decerto os pediu emprestados a um
técnico.
Brazo
Alkher sentiu-se dominado por um temor inexplicável.
— De
qualquer maneira está escondendo alguma coisa — disse,
dirigindo-se a Nolinow.
— É
possível que a parte superior do rosto já se tenha alterado a tal
ponto que produz um efeito repugnante.
— Você
acha que ele vai morrer? — perguntou Alkher em tom deprimido.
— Na
opinião dos médicos, a proliferação celular não é maligna. Tudo
depende de como os órgãos e o cérebro reagirão a esse crescimento
desmesurado — concluiu Nolinow com um gesto. — Se os médicos não
conseguirem deter o processo, haverá no mínimo uma grave crise. Mas
quando acontecerá isso?
Naquele
momento estavam chegando à sala de comando. Enquanto entravam,
Nolinow perguntou-se em voz baixa:
— E o
que acontecerá?
*
* *
A bordo da
Ironduke os ânimos estavam muito deprimidos. Não se ouvia uma única
palavra alegre. Os oficiais fitaram os dois tenentes sem dizer uma
palavra.
— Como
vai ele, tenente? — perguntou Bell, dirigindo-se a Alkher.
— Sente-se
muito amargurado, sir — informou Brazo. — Pretende substituir o
Major Krefenbac do posto de imediato. Ofereceu-me esse posto.
— Está
ouvindo, major? — perguntou Bell, falando por cima do ombro.
— Estou,
sir — respondeu Hunt Krefenbac, com a voz apagada.
Com o
rosto pálido, mas controlado, o major levantou-se e aproximou-se de
Bell. Estava abatido, mas parecia mais orgulhoso que nunca.
— Eu lhe
entregarei meus galões, tenente — disse, dirigindo-se a Brazo.
— Não,
sir — objetou o jovem. — Recusei a proposta de Rhodan. Quando
invoquei os regulamentos ele nos pôs para fora.
— O
senhor continua a ser o imediato, Hunt — disse a voz retumbante do
Major Claudrin. — Rhodan teria que demiti-lo pessoalmente ou dar-me
uma ordem nesse sentido.
— Será
que devo esperar até que isso aconteça? — perguntou Krefenbac,
com a voz amargurada.
— Falarei
com ele — anunciou Reginald Bell.
Ninguém
formulou qualquer objeção. Se havia um homem que ainda podia dizer
algumas palavras sensatas a Perry Rhodan, esse homem era Bell.
— Está
usando pulôver, sir — disse Stana Nolinow. — Além disso, traz
no rosto um par de óculos protetores do tipo usado pelos soldadores.
Bell
cumprimentou os homens com um gesto e retirou-se da sala de comando.
Duvidava de que sua importante missão fosse coroada de êxito. Ao
que parecia, o fio invisível da sua amizade de muitos anos se
rompera.
Bell
confessou a si mesmo que a vontade de resistir às ordens absurdas de
Rhodan crescia cada vez mais. Os efeitos secundários do tratamento
de choque a que Perry fora submetido em Okul não diminuíam.
Quando
chegou à frente do camarote de Rhodan, Bell achou preferível bater
fortemente à porta. Antigamente não conhecia esse tipo de
cerimônia.
— Já
mandei que desse o fora, Alkher — gritou uma voz furiosa, vinda do
outro lado da porta.
Bell abriu
e entrou. Rhodan, que estava estendido sobre a cama, mostrava
exatamente o aspecto descrito pelos dois tenentes. Ergueu-se
abruptamente e seu rosto desfigurou-se.
— Sou eu
— disse Bell, em tom indiferente.
Rhodan
voltou a cair sobre a cama e cruzou os braços embaixo da cabeça.
Era só uma questão de tempo... e a cama ficaria pequena para ele.
— O que
deseja? — perguntou asperamente.
— Pensei
que você talvez desejasse companhia — respondeu Bell sem
abalar-se. — Na sala de comando não precisam de mim.
Procurou
um canto vazio na cama de Rhodan e sentou-se. Rhodan fitou-o com uma
contrariedade evidente. Bell esforçou-se para não notar essa
antipatia. Era preferível fazer como se não percebesse o gênio
desagradável do amigo.
— Vejo
que está usando óculos, Perry — disse com a voz amável. —
Aconteceu alguma coisa com seus olhos?
— Malditos
tagarelas! — exclamou Rhodan.
O insulto
fora dirigido contra Alkher e Nolinow.
Bell
contemplou-o com a maior tranqüilidade. O que restava do famoso
autodomínio de Perry? O que era feito da tão falada objetividade
fria que distinguira o administrador?
— Quer
que eu peça ao doutor Gorsizia que venha até aqui? — perguntou
Bell.
Rhodan
soltou uma risada amarga. Baixou os cantos da boca numa expressão de
desprezo.
— De que
me servirá Gorsizia se nem mesmo os especialistas terranos podem
fazer qualquer coisa por mim? — perguntou, repuxando o pulôver
desajeitado. — Até mesmo minha jaqueta ficou apertada.
Levantou-se
e segurou a gola do uniforme de Bell com ambas as mãos. Aproximou
seu rosto dos olhos daquele homem baixo. Bell teve a impressão de
que via sob as lentes escuras dos óculos os contornos apagados de um
par de olhos. O hálito quente de Rhodan roçou seu rosto.
— Olhe
para mim! — fungou Rhodan. — Vamos, olhe para mim! Aos poucos vou
me transformando num monstro; num monstro inchado.
— Perry!
— disse Bell, com a voz suplicante. — Procure acalmar-se.
— Acalmar-me?
— repetiu o homem que já não era capaz de desempenhar o papel de
administrador. — Será que você compreende a minha desgraça? Quer
que eu lhe mostre?
Num
movimento repentino tirou os óculos e atirou-os para longe.
Incapaz de
proferir uma única palavra, Bell fitou os olhos do amigo. O medo e o
desespero, a raiva e o ódio brilhavam nos mesmos como se fossem
chamas amarelas.
De repente
Bell lembrou-se de que já vira um par de olhos desse tipo. Quando
ainda era muito jovem visitara um zoológico e um animal feroz o
fitara por entre as grades.
— A cor
mudou — gritou Rhodan.
Bell, que
tinha nervos de aço, baixou os olhos.
— São
os antis — gritou Rhodan. — São culpados de tudo. Pagarão por
isso. Saós cairá.
Naquele
momento, Thomas Cardif só tinha uma coisa em comum com o pai: o nome
que usava indevidamente e o título que usurpara. Seus traços de
caráter sobrepunham-se cada vez mais às características positivas
herdadas. Cardif transformara-se num fanático odiento, que só vivia
em função do desejo de vingança.
Reginald
Bell levantou-se. Estava muito abalado. Olhando para o chão,
caminhou em direção à porta.
— Bell!
— gritou uma voz atrás dele.
Bell não
se virou, porque aquele olhar de lobo ainda ardia em seus pensamentos
como se fosse uma chama inextinguível. Parou, mas não disse uma
palavra.
— Você
tem de apoiar-me, Bell — pediu Rhodan com a voz rouca.
A única
coisa feita por Bell foi confirmar com um aceno de cabeça. E isso
lhe custou um autocontrole maior do que qualquer outra coisa que já
acontecera em sua vida. O homem que se encontrava sobre a cama era um
estranho. Não havia mais qualquer relacionamento entre eles. Bell
retirou-se com os sentimentos em irrupção.
Esquecera-se
completamente do motivo que o levara para lá. Quando voltou à sala
de comando, só o Major Claudrin formulou uma pergunta.
— O que
foi que o chefe disse?
Bell fitou
o homem nascido em Epsal. O interesse de Claudrin apagou-se.
— Tirou
os óculos — disse Bell em voz baixa.
Eram
exatamente 18:45 h, tempo padrão. Depois disso ninguém mostrou
qualquer interesse por Rhodan. Na sala de comando o silêncio era
ainda maior. Todos esperavam que Rhodan aparecesse. À entrada do
administrador seguir-se-ia, inevitavelmente, a ordem de iniciar a
invasão de Saós.
Indiferente
a esses acontecimentos, a Ironduke prosseguiu em sua órbita em torno
do planeta dos antis. E em seu interior encontrava-se um homem cuja
inteligência estava sendo turbada progressivamente pela terrível
proliferação celular.
Esse homem
estava investido no comando de toda a Frota Solar. Nas mãos de um
homem sensato, as milhares de naves que a compunham representavam um
importante instrumento político.
Thomas
Cardif já não era um homem sensato.
Sob seu
comando, a Frota se tornaria mais perigosa que um incontrolável
incêndio atômico!
2
No âmbito
da Galáxia a lei da causalidade também é confirmada sob milhares
de formas. Suas variantes são infinitas. Muitas vezes um efeito é
produzido por duas causas que parecem ser independentes.
O Major
Kullmann nem desconfiou de que suas ordens foram uma das duas causas
que fizeram com que dez mil naves robotizadas arcônidas se
colocassem em movimento. Kullmann comandava um dos cruzadores de
patrulhamento que haviam penetrado no Grande Império por ordem de
Cardif. Era claro que, para Kullmann, essa ordem vinha de Rhodan,
pois tal qual os outros oficiais nem desconfiava do jogo de Cardif.
Talvez o caráter de Kullmann desempenhasse um papel secundário
naquilo. Em condições normais e num setor da Galáxia pertencente
ao Império Solar, sua concepção sobre os regulamentos do serviço
seria defensável. Mas num setor que para o imperador de Árcon
pertencia de direito ao seu império, um oficial do feitio de
Kullmann era uma mecha acesa sob um barril de dinamite.
Em outras
palavras: talvez os problemas não surgissem logo, mas a longo prazo
estes seriam inevitáveis.
Há dois
dias, tempo padrão, o cruzador ligeiro Zumbasi controlava o setor
que lhe fora destinado. Os tripulantes cumpriam a tarefa com um
desagrado variável. Só Kullmann dedicou-se de corpo e alma à sua
missão. Fazia discursos na sala de comando e ressaltava a
importância histórica da missão que lhes fora confiada. Quem
ouvisse o major poderia ter a impressão de que era apenas uma
questão de tempo, para que os terranos se apoderassem do Grande
Império. O grande momento de Kullmann chegou quando os aparelhos de
localização da Zumbasi registraram a presença de uma nave que há
poucos segundos saíra do hiperespaço. Para sua felicidade — ao
menos o major acreditava que fosse uma felicidade — o cruzador não
teve o menor problema em colocar-se em poucos minutos nas
proximidades da nave que acabara de surgir.
Albert
Kullmann estava de pé atrás de Pedro Villaseluces, que desempenhava
as funções de piloto. Segurava um microfone. A nave desconhecida
aparecia nitidamente nas telas.
— É uma
nave dos mercadores galácticos, sir — observou Villaseluces com a
voz azeda. — Queira observar o formato cilíndrico, que constitui
uma das características preferidas pelos saltadores.
Os olhos
de Kullmann iluminaram-se.
— Sala
de tiro! Atenção! — gritou com a voz forte para dentro do
microfone.
— Pois
não, sir — disse a voz saída do alto-falante.
— Faça
um disparo de advertência para a nave dos saltadores — ordenou
Kullmann. — A mesma já se encontra na sua mira?
Por um
instante reinou o silêncio. Finalmente a voz perplexa de Mark
Dickson, que desempenhava as funções de oficial do controle de
tiro, disse:
— Quer
dizer que, antes de pedir aos mercadores que parem, vamos fazer o
disparo de advertência?
— Quer
discutir comigo? — perguntou Kullmann, em tom indignado.
— Não,
senhor. Mas peço licença para observar que nos encontramos num
setor onde os saltadores têm o direito de fazer ou deixar de fazer o
que desejarem.
Kullmann
empertigou-se.
— Estes
tempos já se foram, Dickson. Não se esqueça das novas ordens que
recebemos do administrador.
— Às
ordens, sir — respondeu Dickson. Notava-se perfeitamente que estava
com vontade de dizer uma coisa bem diferente.
Kullmann
fitou a tela do dispositivo de localização. Ao que parecia, os
saltadores ainda não sabiam como deviam agir diante da nave
esférica. Esta deslocava-se em queda livre, como quem se mantém em
expectativa.
Naquele
momento, um lampejo saiu dos pesados canhões de popa da Zumbasi. Um
raio de vinte centímetros de espessura atravessou o espaço e passou
junto à nave cilíndrica.
— Muito
bem, Dickson — gritou Kullmann. — Por enquanto basta.
— A nave
dos saltadores procura estabelecer contato, sir — anunciou Fleming,
que se encontrava na sala de rádio. — Quer que transmita a ligação
para o senhor pelo videofone?
— Ande
logo — pediu o major.
A tela de
radiocomunicação espacial comum iluminou-se. Um rosto barbudo
surgiu na mesma. Se Albert Kullmann já vira um homem irritado, era
esse saltador. Com uma visível alegria, o major fitou o comandante
da nave cilíndrica.
— O
senhor tem alguma explicação plausível para esse comportamento,
terrano? — perguntou o saltador com uma calma que não parecia
muito convincente.
— Prepare-se
para receber um comando de busca — anunciou Kullmann, em tom seco.
O barbudo
fitou-o com uma expressão de incredulidade.
— Será
que o senhor conhece a posição de sua nave? — perguntou. — Será
que seus conhecimentos de Cosmonavegação bastam para que o senhor
perceba que se encontra no território do Grande Império?
A dúvida
quanto à competência astronáutica de Kullmann estimulou-o à ação
e atiçou sua vaidade.
— Estamos
controlando esta área — disse em tom arrogante.
O saltador
fervia de raiva. Pôs à mostra seus dentes e, depois de praguejar
numa língua desconhecida, disse:
— Esta é
uma nave mercante inofensiva. Se nos importunar, as conseqüências
de sua atuação pesarão sobre o senhor. Faço um apelo ao seu bom
senso.
Talvez
Kullmann fosse bom psicólogo, mas não soube interpretar a conduta
do mercador. Estava convencido de que o saltador temia o exame de sua
nave. E esse temor devia ter algum motivo. Talvez houvesse carga
proibida a bordo da nave cilíndrica. Kullmann não notou os rostos
preocupados dos tripulantes de sua nave. Não viu Villaseluces
balançar a cabeça, apavorado. O major só via aquilo que julgava
ser seu dever.
— Dickson,
coloque mais um tiro diante de sua proa, para que esse sujeito
compreenda que estamos falando sério — gritou Kullmann.
O mercador
já percebera que o terrano estava falando muito sério. Seu rosto
exprimia uma resignação misturada com revolta.
— Está
bem, terrano — disse em tom de cólera. — Vamos mudar de rumo.
Kullmann
parecia satisfeito. Ordenou a Dickson que por enquanto não
disparasse nenhum tiro contra a nave cilíndrica. Poucos minutos
depois formou o comando de abordagem. Tal comando usou um barco
auxiliar para transportar-se à nave dos saltadores. Os mercadores
cerraram os dentes e submeteram-se à inspeção. Sabiam que o
armamento de que dispunham não lhes permitia enfrentar um cruzador
terrano.
Kullmann e
seus homens revistaram cuidadosamente a nave. Não encontrou nada que
parecesse suspeito. Aos poucos foi compreendendo que realmente
detivera uma nave mercante inofensiva.
“De
qualquer maneira, um major terrano”,
pensava Kullmann, “não
tem necessidade de pedir desculpas a um comandante saltador.”
Com a voz
fria Kullmann mandou que o comando se retirasse.
— Pode
prosseguir viagem — disse em tom condescendente, dirigindo-se ao
saltador.
Nos
planetas do Sistema Azul o ensinamento hipnótico estava sendo
aplicado em grande escala. Acônidas inteligentes e de raciocínio
ágil estavam deitados sob as máquinas de aprendizagem hipnótica.
Num futuro previsível Atlan estaria em condições de formar uma
frota gigantesca com excelentes tripulações.
Os aliados
se haviam transformado em inimigos. A evidente pressão que estava
sendo exercida contra Árcon teria levado Atlan a agir, se a raça
que o ameaçava fosse outra. Acontece que Rhodan era seu amigo
pessoal — ou melhor, ele o fora, até o momento em que começara a
agir como inimigo. O imperador tinha muita simpatia pela raça
humana, embora a chamasse de bárbara.
Por várias
vezes os controles do centro de computação se haviam pronunciado
pela ação contra as atrevidas naves terranas. Mas Atlan sempre
passara por cima das conclusões lógicas do gigantesco centro de
computação, guiando seus atos por considerações sentimentais.
Esperava que Perry Rhodan acabasse por recuperar o bom senso,
reparando os erros graves que estava cometendo.
As
unidades da frota robotizada de Árcon foram colocadas em regime de
prontidão. Atlan fizera várias conferências com os altos
dignitários, mas em geral a “atividade”
dos mesmos apenas o perturbava. Durante as reuniões falavam sem
parar, mas nunca chegavam a um resultado aproveitável.
*
* *
Parecia
uma parede azulejada. Acontece que cada azulejo era uma tela de
imagem. Todos os canais levavam ao centro de computação, que por
intermédio deles irradiava as notícias para Atlan.
Um
robô-criado entrou e trouxe uma xícara com uma bebida fumegante,
colocando-a à frente de Atlan. A máquina praticamente não fazia
nenhum ruído ao movimentar-se sobre o pavimento liso. Atlan pegou a
xícara sem levantar os olhos. Via de regra, enquanto prestavam seus
serviços, os robôs-criados diziam frases amáveis. Atlan mandara
apagar essa característica na programação dos robôs que lhe
prestavam serviços pessoais, pois achava que não adiantava nada uma
máquina lhe dirigir frases corteses.
Sem dizer
uma palavra, o robô retirou-se.
A pessoa
que se encontrava sentada do outro lado da mesa esboçou um sorriso
quase imperceptível. O General Alter Toseff esperou até que Atlan
terminasse de beber o conteúdo da xícara.
— Esta
bebida foi feita segundo uma receita terrana, general — disse
Gonozal VIII. — O senhor deveria experimentar.
Toseff
sorriu.
— Agradeço
a Vossa Eminência — disse a título de recusa. — Receio que meu
paladar se tenha acostumado às delícias de Saratan.
Saratan
era um planeta colonial de Árcon. O General Alter Toseff
representava os interesses do Grande Império naquele mundo.
Distinguia-se da maioria dos arcônidas pela energia e vitalidade.
Atlan o encontrara porque estivera à procura de homens desse tipo. O
setor de processamento do centro de computação convocara para Árcon
todos os oficiais que pudessem ser aproveitados naquela emergência.
Na seleção foram aplicados critérios rígidos. Apesar disso Atlan
sentiu-se decepcionado porque o centro de computação só encontrou
quarenta e três homens que correspondiam às exigências. O general
à sua frente era a pessoa que reunia o maior número de pontos
positivos.
Atlan
percebeu que mais uma vez o centro de computação acertara na
escolha. Toseff não mostrava qualquer sinal de decadência.
— Terá
que dispensar essas delícias por algum tempo, general — disse
Atlan. — Temos tarefas importantes para o senhor.
— Estou
disposto a lutar em qualquer lugar pela causa do Grande Império —
disse Toseff em tom resoluto. — Tem alguma ordem específica para
mim, imperador?
Muito
pensativo, Atlan girava a xícara nas mãos. Seu cabelo muito branco
formava um contraste marcante com o rosto, que era por demais escuro
para um arcônida. Atlan simpatizava muito com esse homem e teve a
impressão de que poderia confiar nele. Apesar de todo o empenho, o
centro de computação só encontrara quarenta e três homens que
reuniam as mesmas qualidades de Toseff.
Quarenta e
três homens para todo o império.
Perry
Rhodan dispunha de milhões de colaboradores desse tipo.
Era por
isso que o imperador precisava do auxílio dos acônidas, que se
haviam mantido ativos. Mas pretendia colocar em cada frota tripulada
por acônidas um arcônida do tipo do General Toseff.
— A
missão que lhe será confiada poderá ser de importância vital para
nosso império — principiou Atlan. — Por isso deixo-o à vontade
para recusá-la. Nesse caso poderá voltar sem problemas para
Saratan.
— Estou
aqui para fazer aquilo que Vossa Majestade desejar, imperador —
disse o general. — Há muitas gerações os Toseff se têm mantido
leais ao império.
Não seria
justo deixar este homem por mais tempo na incerteza. Atlan
entregou-lhe uma pasta.
— Leia —
disse. — Aqui, o senhor...
Foi
interrompido por um zumbido. Atrás dele, na parede coberta de telas,
uma luz vermelha acendeu-se. Toseff olhou-a. Ao que parecia,
esquecera-se dos documentos.
— Um
momento — disse Atlan. — É uma notícia importante do centro de
computação.
Ligou o
aparelho de comunicação sonora que se encontrava sobre a mesa.
Outra lâmpada acendeu-se. Uma voz indiferente disse:
— O sumo
sacerdote do Baalol em Saós pede que o imperador lhe conceda uma
entrevista.
Atlan
respondeu em tom contrariado:
— Estou
ocupado. O anti pode esperar. A voz mecânica prosseguiu com a mesma
indiferença:
— Trata-se
de mais uma violação cometida pela Frota Solar. O imperador deu
ordem para que qualquer notícia desse tipo fosse transmitida
imediatamente.
— Está
bem — disse Atlan, em tom apressado. — Transfira a palestra para
cá.
— O
sacerdote está falando pelo canal 23 — disse a voz.
Toseff fez
menção de levantar-se.
— Fique
aqui, general — disse Atlan. — É bom que o senhor esteja
presente durante a palestra, que sem dúvida se relaciona com a
missão que terá de cumprir.
Toseff
voltou a sentar-se. Uma das telas iluminou-se, e os contornos
apagados transformaram-se no rosto magro do sumo sacerdote que se
encontrava em exercício em Saós. Atlan apertou um botão, e o anti
teve a imagem do rosto do imperador projetada na tela da sala de
rádio da pirâmide-templo de Saós.
Atlan não
tinha nenhum motivo para simpatizar com os sacerdotes, pois estes
também haviam disseminado seus entorpecentes sob a forma de
liquitivo
nos planetas do sistema de Árcon.
— O que
deseja? — perguntou o imortal em tom frio.
O rosto
magro de Kutlós continuou impassível. Apenas os lábios se moveram
quando respondeu com a maior tranqüilidade:
— Tenho
uma notícia para Vossa Majestade.
Pelo seu
tom de voz a notícia não devia ser muito interessante. Atlan lançou
um olhar indagador para Toseff.
— Fale —
disse, dirigindo-se ao anti.
— O
planeta de Saós está submetido à soberania do Grande Império —
disse Kutlós, em tom indiferente.
Atlan
começou a perder a paciência.
— Será
que o senhor chamou para me dar algumas lições de Astropolítica? —
perguntou em tom gelado.
Kutlós
sorriu. Dificilmente Atlan já vira um sorriso tão despido de senso
de humor. Não podia deixar de reconhecer que o anti sabia esconder
seus sentimentos. Aquele rosto anguloso não mostrava o menor sinal
de emoção.
— De
forma alguma — respondeu o sacerdote, em tom irônico. — Mas
quero dar-lhe uma lição de estratégia cósmica.
O General
Al ter Toseff fez um gesto de raiva diante da observação atrevida
do sacerdote. Atlan pediu que se conservasse calmo. Por certo o
sacerdote queria apresentar-lhe a notícia de forma bastante
saborosa.
— Saós
está na iminência da invasão de uma frota terrana comandada por
Perry Rhodan — anunciou Kutlós, mantendo o tom de indiferença na
voz.
Ao ouvir o
nome de Rhodan, Atlan estremeceu. Não quis acreditar no que acabara
de ouvir. Levou alguns segundos para recuperar-se do choque.
— Tem
certeza de que as naves são terranas? — perguntou.
— Se
andar depressa, Vossa Majestade poderá convencer-se pessoalmente —
disse o anti em tom irônico. — É bom que não demore, pois, do
contrário, Saós poderá ser destruído por bombas de fusão antes
que o senhor chegue. Afinal, Rhodan reuniu nada menos de quatro mil
naves.
— Quatro
mil — repetiu Atlan, com a voz apagada. — Utiliza uma frota num
ataque contra um dos planetas do Grande Império! Trata-se de uma
ação bélica indisfarçada.
— O
senhor vai agir? — perguntou Kutlós, com a voz curiosa.
Atlan
fitou-o com uma expressão nada amável. Compreendia os pensamentos
do sacerdote. De qualquer maneira, a conduta de Rhodan era
inconcebível, pois, na verdade, equivalia a uma declaração de
guerra.
— Procure
adivinhar — disse, dirigindo-se a Kutlós, e desligou.
Toseff
abriu a boca; parecia hesitante. A comoção interna do imperador era
patente. O general preferiu não soltar a observação que trazia na
ponta da língua. Seu instinto lhe dizia que não podia ajudar aquele
homem solitário na decisão que este teria que tomar. Naquele
momento, a lealdade do general tornou-se ainda mais forte. Naquele
instante teve a sensação da ligação que o unia ao imperador e da
lealdade eterna que o prendia ao Grande Império.
— Como o
bárbaro pôde fazer uma coisa dessas? — perguntou Atlan, em tom de
desânimo. — Será que quer por viva força desencadear uma guerra
galáctica?
— Quem
sabe se o sacerdote não mentiu? — disse o general, não muito
convicto. — Talvez os antis estejam interessados em provocar um
conflito entre duas potências, as quais eles mesmos não podem
derrotar.
— Não
tenho a menor dúvida de que estão interessados nisso — disse
Gonozal VIII. — Acontece que o anti falou a verdade. Sabe
perfeitamente que tenho meios de verificar prontamente a exatidão de
suas informações. Se dissesse uma mentira, assumiria o risco de ver
bloqueada a base de Saós.
O general
sentiu-se apavorado ao notar que Atlan hesitava em dar a resposta
adequada à provocação da Frota Solar. A amizade com Perry Rhodan
prendia-o como se fosse um fio invisível. Não conseguia compreender
por que o administrador da Terra fora capaz de cometer essa violação
dos tratados firmados entre os dois impérios.
— Majestade,
qualquer hesitação de nossa parte seria interpretada como fraqueza
pelos aliados e pelas colônias rebeldes — advertiu Toseff. —
Além disso, provocaria outras ações dos terranos. Tudo deve ter
seus limites. Queira desculpar minhas ásperas palavras.
Atlan
passou a mão pelo rosto. O silêncio do grande salão produzia um
efeito deprimente em Toseff. Fazia um frio desagradável, mas talvez
isso não passasse de imaginação.
— Agradeço-lhe
por suas palavras francas, general — respondeu Atlan sério. —
Sei apreciar a pessoa que me diz sua opinião sem rebuços. Entre os
dignitários do império isso não é muito comum.
— O
senhor terá muita dificuldade em tomar uma decisão, imperador —
conjeturou o lugar-tenente dos arcônidas em Saratan.
Um sorriso
triste surgiu no rosto de Atlan.
— Um
velho provérbio arcônida diz que devemos ter paciência com os
amigos, quando a amizade está ameaçada. Até que ponto deve chegar
essa paciência, general?
A pergunta
de Atlan retratava toda a dificuldade da situação. Atlan estava
empenhado em evitar o confronto aberto com Rhodan. Mas por outro lado
devia recorrer a todos os meios para proteger o Grande Império de
novas investidas militares.
Atlan,
talvez, teria considerado, mais uma vez, sua amizade com o terrano,
se não fosse a ação do Major Albert Kullmann.
No momento
em que Toseff se dispunha a responder, o centro de computação
voltou a entrar em contato com Atlan. O general interrompeu-se e
esperou que o imperador fizesse a ligação.
— Mais
uma violação da Frota Solar cometida no setor espacial submetido à
soberania do Grande Império — anunciou uma voz fria, que saía dos
alto-falantes. — Acabamos de receber uma mensagem de hiper-rádio
expedida por uma nave dos saltadores. Uma belonave terrana fez um
disparo de advertência contra uma nave mercante e obrigou-a a parar.
Um comando terrano revistou a nave dos mercadores. Sonzomon, o
comandante da nave dos saltadores, exige reparações imediatas e um
pedido de desculpas público da parte do oficial terrano.
Com uma
pancada Atlan interrompeu a ligação. Seus lábios estreitaram-se.
— Agora
basta! — disse em tom frio. — Por maior que seja a paciência, um
dia acaba.
— O que
pretende fazer, majestade? — perguntou Toseff, fitando-o
intensamente.
Atlan
tirou um mapa estelar de um estojo que se encontrava à sua frente.
Abriu-o sobre a mesa. O general inclinou-se sobre ela. Atlan traçou
um círculo em torno do grupo estelar M-13. Os planetas coloniais
arcônidas estavam assinalados sob a forma de pontos vermelhos. O
dedo de Atlan apontou um deles.
— Aqui —
disse.
— O que
pretende fazer? — Toseff manteve os olhos presos ao mapa. Sentiu a
importância histórica do momento.
— Os
tempos em que toleramos tudo dos bárbaros terranos chegaram ao fim,
general. Árcon revidará o golpe. Não haverá outras violações —
Atlan proferiu estas palavras em tom violento. — Os aliados
acônidas, que ainda se encontram na fase do treinamento hipnótico,
não podem entrar em ação. Isso significa que teremos de recorrer a
uma frota robotizada. Esta equivale às frotas terranas quanto ao
poder de fogo, mas não quanto à capacidade de reação e aos
truques espantosos que os homens de Rhodan costumam usar, durante as
batalhas cósmicas.
Ansioso, o
arcônida de Saratan perguntou:
— Quer
usar uma frota para salvar Saós, imperador?
O punho
cerrado de Atlan bateu no círculo que acabara de traçar no mapa.
— Dez
mil unidades bastarão — disse.
— Dez
mil!? — repetiu Toseff em tom hesitante.
— Outros
grupos ficarão de prontidão — prosseguiu Atlan. — Se Rhodan
quer mesmo uma prova de força, nós lhe faremos a vontade.
Sem dizer
uma palavra, o general fitou o mapa. Imaginou o momento em que dez
mil naves robotizadas arcônidas sairiam do hiperespaço e se
precipitariam, de surpresa, sobre os terranos. A imagem voltou a
colocar diante de seu espírito o brilho antigo do Grande Império.
Recordou-se dos grandes vultos do passado. Quando se lembrou dos
nomes lendários de Ufagar, Salaston e Petech III, seus olhos
brilharam.
Sem dúvida
o império fora ferido e estava esfacelado e desunido, mas nem por
isso passara a ser um nome vazio. Estava sendo comandado por um homem
resoluto, disposto a recorrer a todos os meios disponíveis para
evitar o colapso.
— Nós
os derrotaremos, imperador! — exclamou. — Nós os expulsaremos do
Grande Império e faremos com que percam a vontade de voltar.
Atlan
sacudiu a cabeça.
— O
senhor fala que nem um terrano, general — disse em tom suave. —
Se conseguir agir como um terrano, compreenderá que é muito difícil
derrotá-los. Estão impregnados da vontade férrea de não permitir
que nada os detenha. E esse ímpeto que os leva para a frente é
simbolizado por um único homem.
— Perry
Rhodan — completou Toseff.
— Se
conseguirmos derrotar esse homem, desferiremos um golpe mortal na
Terra — disse Atlan.
Apertou um
botão e o robô-criado entrou silenciosamente. Tão silenciosamente
que Toseff estremeceu.
— Minha
conferência com Lechtos fica adiada por um tempo indeterminado —
disse Atlan, dirigindo-se ao robô. — Lamento que tenha que fazer a
viagem em vão.
Toseff
compreendeu imediatamente o significado da ordem que Atlan acabara de
dar ao robô.
— Quer
dizer que Vossa Majestade acompanhará a frota?
O
imperador soltou uma risada.
— O
senhor e eu seremos os únicos arcônidas ativos numa tripulação de
dez mil naves robotizadas. Que tal lhe parece isso, general?
Toseff
sorriu. Era um homem experimentado, e sua resposta lacônica provava
que conservara um sadio senso de humor.
— A
situação me parece muito promissora — respondeu.
Dali a
três minutos Atlan entrou em contato com o centro de computação.
Os bancos de dados positrônicos começaram a trabalhar a plena
potência. Precisavam determinar uma posição de ataque favorável
para a ação destinada a libertar Saós. Enquanto isso Atlan
preparou-se para assumir o comando da nave capitania. A cabeça de
Toseff fervilhava de idéias. Levou menos tempo que o gigantesco
centro de computação para elaborar um plano de batalha.
*
* *
A milhares
de anos-luz Albert Kullmann, o major da Frota Solar que comandava o
cruzador ligeiro Zumbasi, disse a Villaseluces, piloto da nave:
— Acho
que fizemos o que estava certo. A esta hora, os saltadores já sabem
que não podem atravessar nenhum trecho da Galáxia que esteja sem
controle. O fato lhes servirá de advertência.
Recostou-se.
Parecia muito satisfeito.
Naquele
mesmo instante um relê do centro de computação de Árcon III caiu.
Um sinal goniométrico automático foi irradiado. Poucos minutos
depois, os jatos-propulsores de dez mil belonaves arcônidas
despertaram para a vida.
Um dia
negro da História da Galáxia teve início.
Duas
frotas gigantescas estavam na iminência de entrar em choque...
3
Os dedos
de Cardif crisparam-se em torno do lugar em que o ativador celular
pulsava sob o peito. Os antis o haviam induzido a arranjar o
aparelho. O espírito martirizado de Cardif nem pensou na
possibilidade de que Aquilo, o Ser fictício do planeta Peregrino,
pudesse ter algo com as alterações de suas células. Ainda não
compreendera suas advertências vagas.
E nunca
mais as compreenderia...
O processo
de explosão celular prosseguia de forma proporcional em todo o
corpo. O cérebro era atingido da mesma forma que as outras partes. O
estado de espírito de Cardif já não permitia que compreendesse o
perigo: sua verdadeira identidade poderia ser revelada pelos antis!

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