terça-feira, 6 de setembro de 2016

P-115 - O Imperador e o Monstro - William Voltz [Parte 1]

Autor
WILLIAN VOLTZ




Tradução
RICHARD PAUL NETO




Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN


Cardif — o homem que desfigurado e transtornado pela doença coloca a Galáxia em pânico!




Thomas Cardif, o renegado, ocupou o lugar de Perry Rhodan: agora é Administrador do Império Solar.
Ninguém, nem mesmo os amigos mais íntimos de Perry Rhodan ou os mutantes, desconfia de que o governo vem sendo exercido por um usurpador.
Se o comportamento de Cardif não corresponde ao que se costumava ver em Perry Rhodan, a estranha conduta do administrador é explicada por meio dos danos psíquicos que Perry Rhodan sofreu quando era prisioneiro dos antis.
Thomas Cardif pode sentir-se exultante, pois ninguém o desmascarou. Pode dirigir os destinos do Império Solar conforme melhor lhe aprouver, mesmo que sua atuação leve os povos da Via Láctea para a beira do abismo...
E nem mesmo quase à morte, o filho de Rhodan desiste de seu intento diabólico...



= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Thomas CardifA imagem deformada de Perry Rhodan.

AtlanO imperador que se defronta com uma decisão difícil.

Reginald BellQue tem de agir às costas de seu melhor amigo, a fim de evitar a catástrofe.

General Alter ToseffUm arcônida muito ativo de Saratan.

Brazo Alkher e Stana NolinowTenentes da Ironduke.

Kutlós, Tasnor, Hepna-Kaloot e HanoorServos do culto de Baalol.
1



O Major Hunt Krefenbac, imediato da nave linear Ironduke, era um homem muito controlado. No entanto, havia um ligeiro tremor em suas mãos quando fitou o terrano alto que acreditava ser Perry Rhodan. Sem que o percebesse, passou a mão pelo uniforme. Estava com o rosto tenso. Viu que a veia do pescoço de Rhodan estava muito inchada, e também notou a causa disso. A gola do uniforme estava apertada, embora o botão especial já estivesse na última casa.
Krefenbac contemplou o rosto vermelho do administrador. Teve a impressão de que estava mais largo e achatado que antes. Será que o crescimento celular explosivo prosseguiria indefinidamente?
Ouviu alguém pigarrear fortemente. Reginald Bell quis preveni-lo, mas já era tarde. Cardif virou-se abruptamente. O movimento foi tão violento que fez com que o botão do colarinho se desprendesse.
Na sala de comando da Ironduke passou a reinar um silêncio total. A boca aberta de Cardif não emitiu nenhum som. O botão foi rolando pelo chão, descrevendo círculos cada vez maiores, até imobilizar-se bem à frente do Dr. Carlos Riebsam, que era um matemático. Os presentes acompanharam o fenômeno como se estivessem hipnotizados.
Cardif pôs as mãos no pescoço. Seus olhos arregalaram-se numa expressão de mudo pavor. Apalpou a casa de botão rasgada.
O senhor pretendia dizer alguma coisa, major? — perguntou com a voz rouca, dirigindo-se a Hunt Krefenbac.
A expressão dos olhos de Krefenbac revelava perplexidade, mas também certa dose de compaixão.
Sir... — principiou cauteloso.
Cardif empertigou-se abruptamente. O uniforme apertava-lhe o corpo. Já não era segredo para nenhum dos tripulantes que, nos últimos três dias, o chefe crescera mais de três centímetros e também se tornara mais espadaúdo. Até parecia que a aproximação do planeta de Saós acelerava o fenômeno.
Fale logo! — berrou Cardif fora de si.
Olhando de soslaio, viu Riebsam abaixar-se para pegar o botão. Deu um empurrão no matemático. Um sorriso repugnante surgiu em seu rosto.
O senhor não, doutor — disse em tom irônico. — Não quero que o senhor faça isso.
Krefenbac enrubesceu ligeiramente. Reginald Bell mantinha-se de pé, com os braços cruzados, atrás de Cardif que, segundo acreditava, era seu melhor amigo.
Cardif lançou um olhar penetrante para Krefenbac.
Como é, major? Não vai pegar o botão para seu superior enfermo?
O rosto de Krefenbac perdeu a cor. Ficou pálido como um cadáver. Sabia que Rhodan pretendia rebaixá-lo. Não compreendia o procedimento do administrador. Krefenbac prezava bastante a disciplina. Era um excelente soldado e um oficial de primeira.
Sir — disse com a voz apagada. — Peço-lhe que me libere do cumprimento da ordem que acaba de ser dada. Mandarei outro botão ao seu camarote.
Os homens que se encontravam na sala de comando compreenderam que o major estava cedendo em parte aos desejos de Rhodan. E também sabiam que Krefenbac não iria mais longe que isso. Seria capaz de mitigar seu orgulho, mas não permitiria que ninguém o quebrasse.
Uma expressão de fanatismo surgiu nos olhos de Cardif. Sabia interpretar a atitude de Krefenbac tão bem como qualquer outra pessoa. O major era um homem de caráter. Mas para um homem como ele, que ficara submetido à influência imprevisível do ativador celular, qualquer tipo de retirada seria impossível. Fazia questão de que suas ordens fossem cumpridas de qualquer maneira.
Major — disse em tom de ameaça. — Levante esse botão.
O corpo de Krefenbac entesou-se. Seu olhar franco cruzou com o de Cardif. Antes que o major tivesse tempo de dizer qualquer coisa, todos já sabiam que recusaria o cumprimento da ordem.
Naquele instante Bell passou ao lado de Cardif. Piscou para Krefenbac e abaixou-se para levantar o botão. Cardif não disse nada. Bell parecia pesar na mão o objeto da discórdia.
Ora! Uma coisinha destas — disse em tom pensativo. — Tome, Perry.
O falso administrador virou-se abruptamente. Bell deixou cair a mão. A tensão diminuiu. Cardif retirou-se a passos largos. A intervenção de Bell deixara-o surpreso, muito embora ele a julgasse bem oportuna. Afinal de contas, uma prova de forças com o major teria reflexos desfavoráveis entre a oficialidade. Mas Cardif só pensou ligeiramente neste ponto.
Seu problema fundamental era outro. Como fazer cessar e conseguir a regressão do rápido aumento de peso e tamanho que estava experimentando?
Teve a impressão de que o único procedimento capaz de produzir algum êxito seria uma invasão de Saós. Os sacerdotes da seita de Baalol o haviam induzido a arranjar os ativadores celulares em Peregrino. Sem dúvida conheciam os terríveis efeitos que o aparelho produziria em seu corpo. Não estariam dispostos a ajudar espontaneamente, motivo por que teria de obrigá-los a isso. Cardif já não estava em condições de raciocinar logicamente. Aos poucos o desenvolvimento celular descontrolado ia atingindo o cérebro, envolvendo as células nervosas amadurecidas numa massa cerebral semi-acabada.
Sabia que poderia contar com o apoio da Frota Solar. Acreditava que a mesma representava um meio de pressão capaz de fazer com que os sacerdotes cedessem aos seus desejos. Cardif nem se lembrou da possibilidade de que alguém pudesse traí-lo.
Entrou no camarote e trancou-o cuidadosamente. Por algum tempo manteve-se imóvel no pequeno recinto. O movimento rítmico do tórax era o único sinal de que ainda havia vida em seu organismo. Depois de algum tempo iniciou uma atividade que repetia cuidadosamente de doze em doze horas.
Caminhou até a parede. Parou junto a uma saliência. Mais ou menos na altura da cabeça havia marcas de várias cores. Ao lado de cada uma dessas marcas havia uma data escrita em traços finos. Eram cinco ao todo. Cardif colocou-se de costas para a parede. Pegou uma régua e colocou-a sobre a cabeça, fazendo com que formasse um ângulo reto com a parede. Deu um passo para a frente, deixando a régua encostada à parede. Tirou uma caneta do bolso e riscou outra marca, que ficava em posição mais elevada que as outras. Cardif escreveu com a mão trêmula: 2 de setembro de 2.103.
Crescera mais meio centímetro depois que se medira pela última vez.
O punho daquele homem bateu com toda força contra a parede de metal leve. A dor fez com que recuperasse o autocontrole. Pegou uma trena elástica. Mediu cuidadosamente a cintura e registrou o resultado numa tabela. Mais uma vez constatou uma alteração.
Cardif gemeu baixinho. Pôs a mão no lugar do tórax em que se encontrava incrustado o ativador. Os médicos o haviam informado de que nem se poderia cogitar da remoção cirúrgica do aparelho.
Não adiantaria verificar o peso. O mesmo crescia na mesma proporção em que progredia o processo de cisão celular. Mas Cardif dispunha de outro meio que lhe permitia fazer um exame preciso de seu estado. Era simples e não falhava. E apresentava uma medida inconfundível do desenvolvimento da doença.
Num movimento apressado, o filho de Rhodan tirou o espelho de sob a cama. Tinha um metro de largura e dois de altura. Cardif encostou-o à parede.
Viu a imagem de um homem que deixava os braços pender junto ao corpo e apresentava uma cabeleira desgrenhada. Seu aspecto não era propriamente doentio, mas pouco restava da figura esbelta e musculosa de Perry Rhodan. O uniforme estava muito apertado, embora fosse o maior que existia a bordo da Ironduke. Apalpou o corpo com os dedos. As carnes já não eram firmes. Cediam sob a pressão dos dedos como uma esponja.
Cardif mantinha-se imóvel diante da imagem refletida pelo espelho. Agitado pelas emoções, parecia esfacelar-se por dentro. Seu ódio ameaçava transformar-se em loucura.
Apontou para a figura que era ele mesmo, embora devesse representar outra pessoa. Um braço estendeu-se em sua direção, vindo da imagem.
Olá, Rhodan — disse Cardif com a voz desfigurada.
Levantou a cabeça para ouvir melhor.
Para ser Rhodan e exercer o poder do mesmo não preciso parecer-me com ele — disse, dirigindo-se à sua imagem. — Compreendeu, meu filho?
Uma careta debochada sorriu para ele. Perdera boa parte dos aspectos marcantes de Rhodan.
Meu jogo continuará — disse Cardif. — Não desisto sem mais nem menos. Saós cairá em minhas mãos.
Cardif deu um passo em direção ao espelho. Mantinha o corpo inclinado para a frente. Alguma coisa quis manifestar-se em seu subconsciente, mas não conseguiu chegar à superfície.
Torno-me cada vez mais alto e engordo — disse com uma risadinha. — Um belo dia meu corpo não caberá mais na Ironduke — essa idéia macabra parecia diverti-lo. Uma série de pensamentos confusos atropelou-se em seu cérebro.
Abriu o uniforme e bateu no peito.
Aqui está o inferno — balbuciou em tom de desespero. — Incrustado no meu corpo. Fica rumorejando e não me dá paz. Médicos, médicos. Por que não podem ajudar-me?
Ninguém respondeu. Sempre fora um homem solitário. E essa idéia despertou seu velho orgulho. Quis empertigar-se, mas receava que o uniforme não resistisse à pressão dos músculos.
Então era esta a vida eterna que lhe proporcionava o ativador celular obtido por meios fraudulentos?
Deixou-se cair na cama. Virou-se nervosamente de um lado para o outro. Devia pedir mais uma vez um sedativo? Uma idéia absurda começou a agitar-se em sua mente. Imaginou que, enquanto estivesse dormindo, Krefenbac poderia entrar no camarote e estrangulá-lo. Entorpecido pelo medicamento, não poderia defender-se com a necessária rapidez.
Balançou energicamente a cabeça. Devia manter a capacidade de raciocínio. E, o que era mais importante, não deveria esquecer-se de seu grande objetivo. Naquele momento, grande parte da Frota Solar encontrava-se em Saós.
Casualmente voltou a olhar para o espelho. Levantou-se e caminhou em direção ao mesmo. Havia alguma coisa que lhe chamava a atenção. Chegou bem perto. Seu hálito embaçou a superfície lisa. Limpou-a com a manga do uniforme, para enxergar melhor.
Fitou seu rosto. Estava apenas a um centímetro de distância.
De repente viu!
Quis gritar ou fazer qualquer coisa. Mas sentiu-se paralisado pelo pânico e pelo pavor. Num movimento lento pôs a mão para trás e levantou a régua. Levantou o braço e bateu contra o vidro. Seu rosto esfacelou-se num sem-número de partes; parecia ser arremessado para todos os lados. Os fragmentos do espelho tilintaram ao caírem no chão. O barulho fez com que Rhodan recuperasse a capacidade de raciocinar. Cambaleou em direção à cama e deixou-se cair sobre a mesma.
Foram seus olhos que tanto o chocaram. Subitamente teve a impressão de que o cinzento dos mesmos estava um tanto apagado. Uma tonalidade amarelenta sobrepunha-se à cor primitiva. Cardif sabia qual era a expressão de seu olhar.
Era a expressão de um animal feroz.

* * *

Krefenbac respirou profundamente. As palavras de gratidão dirigidas a Bell foram proferidas em tom convicto.
O senhor me tirou de uma situação muito desagradável, sir — disse ao concluir.
Reginald Bell continuava muito sério. Rugas profundas desenhavam-se em seu rosto sardento. Via-se perfeitamente que carregava uma pesada carga. Queria continuar a apoiar o amigo, mas por outro lado queria também proteger os homens que o cercavam dos caprichos incompreensíveis de Rhodan.
A situação é desagradável para todos — disse, dirigindo-se ao major. — Não se esqueça que a enfermidade do chefe lhe causa grandes sofrimentos. Além disso, ainda se encontra sob os efeitos da prisão em Okul. Conversei demoradamente com o doutor Alonzo, que é especializado na área da pesquisa celular. O mesmo diz que Perry foi acometido de um processo de cisão celular explosiva.
Quem dera que eu pudesse ajudá-lo — disse Jefe Claudrin com sua voz retumbante. — Se me lembro do que temos pela frente, não consigo livrar-me de uma sensação desagradável. Pelo que informou o Tenente Alkher, sua fuga e a de Stana Nolinow foi habilmente preparada pelos antis. Estes queriam que Alkher e Nolinow acreditassem que os sacerdotes não desejavam que os dois escapassem.
Dali se conclui que os antis estão interessados em que apareçamos por ali. Têm algum motivo especial para atrair-nos a esse lugar — disse Bell em tom pensativo. — Seu potencial militar em Saós não lhes permite que resistam a um ataque cerrado das nossas forças. E eles sabem disso.
Esses indivíduos gostam desse tipo de jogo traiçoeiro — disse Claudrin em tom zangado. — Bem que deveríamos dar uma lição a esses bandidos.
O major era um homem de ação. Sob seu comando a Ironduke se transformara na unidade mais poderosa da Frota Solar.
Ainda acontecia que essa nave de oitocentos metros de diâmetro possuía o sistema de propulsão linear. Naquele instante mais de quatro mil naves terranas, entre as quais alguns supercouraçados, estavam estacionadas no sistema Saós. Era impossível que essa barreira de aço e energia pudesse ser rompida por uma nave estranha. Nenhuma espaçonave poderia decolar de Saós, e a tentativa de pousar no planeta seria um verdadeiro suicídio. Dispostas em concha, as fileiras das naves terranas haviam bloqueado completamente o segundo planeta do sol 41-B-1847-ArqH. A pequena estrela amarela não possuía nome próprio; era conhecida apenas pela designação sob a qual constava do catálogo estelar. Dois planetas gravitavam em torno dela, e Saós era o planeta exterior. Estava submetido ao Grande Império governado por Atlan, pois ficava nas proximidades do grupo estelar M-13, a 33.218 anos-luz da Terra.
Sob o ponto de vista humano, Saós era um mundo inóspito. A atmosfera consistia principalmente de nitrogênio e gás carbônico. Só continha quantidades reduzidas do elemento vital, o oxigênio. Mas o problema principal era a rotação lenta do planeta. Levava 214 horas terranas para girar uma única vez em torno de seu eixo. Dali resultavam certos efeitos colaterais bastante desagradáveis, que geralmente só são encontrados nos mundos que não possuem nenhum movimento de rotação, A zona intermediária entre a face diurna e a noturna era fustigada por furacões violentíssimos. Essa área era ameaçada constantemente pela fúria dos elementos. Nestas condições não houve possibilidade de que em Saós surgisse faixas de vegetação mais extensas. A superfície do planeta era formada por desertos.
Não era só graças aos relatos dos tenentes Alkher e Nolinow que o Major Claudrin tinha conhecimento das condições que encontraria no planeta se realmente houvesse a invasão. Tal qual todas as pessoas que se encontravam a bordo, fazia votos de que conseguissem arrancar dos antis o segredo das alterações sofridas por Rhodan.
Aquele homem nascido em Epsal não podia saber que dedicava suas esperanças a um lobo em pele de cordeiro. Nem uma única pessoa da Frota conhecia a verdadeira identidade do administrador. Por enquanto todos estavam dispostos a cumprir as ordens do falso Rhodan.
As modificações físicas visíveis sofridas pelo administrador teriam sido aceitas tranqüilamente pelos amigos, se juntamente com estas não se tivessem revelado traços de caráter até então desconhecidos.
Claudrin sabia raciocinar. Por isso foi o primeiro a corrigir sua afirmativa.
Naturalmente quero dizer que devemos avançar em frente ampla contra os adeptos de Baalol — disse. — Em Saós as coisas serão bastante confusas enquanto não conhecermos os planos dos antis.
Eles não estarão dispostos a revelá-los espontaneamente — disse o Dr. Riebsam em tom sarcástico.
Ninguém o contradisse. Quem quisesse obter informações dos antis teria de buscá-las em Saós. Acontece que, segundo parecia, os sacerdotes só esperavam que isso acontecesse.
Bell, que na ausência de Cardif se esforçava para minimizar os erros do homem que acreditava ser seu amigo, viu-se numa situação difícil. Teria de provar a Rhodan que um ataque a esse planeta dos antis seria um absurdo. E, para apresentar essa prova, teria de pousar em Saós. O gorducho começou a desconfiar de que os sacerdotes haviam colocado uma armadilha na qual a Frota Solar acabaria caindo de qualquer maneira. Rhodan — aquele Rhodan — era a melhor garantia de que isso aconteceria.

* * *

A estratégia de Kutlós era simples e eficiente. Consistia simplesmente em cumprir as instruções do Grande Baalol, houvesse o que houvesse. Foi assim que esse anti foi subindo até transformar-se no sacerdote em exercício no mundo de Saós. Quando Kutlós chegava a contradizer alguém, isso só acontecia com um subordinado. Adotara o princípio de que só alcança o poder aquele que permanece entre os poderosos e sabe lidar com eles, e esse princípio o ajudara durante toda a vida. Para os outros sumos sacerdotes era um homem quieto, que não chamava a atenção. Um belo dia chegara a Saós numa nave cilíndrica e assumira o cargo de sumo sacerdote. Saíra da eclusa, magro e ereto, e lançara um olhar atento para a área industrial.
As instalações que os antis haviam montado em Saós ficavam numa depressão bastante profunda, cercada de montanhas altas e desertas. A depressão media cerca de oito quilômetros. Os acidentes do terreno protegiam-na contra as tempestades de areia, e por isso constituía o lugar ideal para servir de base à seita de Baalol.
O porto espacial ficava na parte norte da depressão. O centro industrial propriamente dito estendia-se por uma área de dois quilômetros. Havia instalações no subsolo, que chegavam a penetrar até cinqüenta metros abaixo da superfície. Era em Saós que os antis fabricavam os projetores energéticos destinados a criar seus campos defensivos individuais.
No centro das instalações dispostas em círculo erguia-se uma pirâmide de 150 m de altura. Oficialmente era o templo dos antis. Em torno dessa construção agrupavam-se edifícios baixos e compridos. Nos quatro cantos destes havia elevadas cúpulas, cobertas por telhados metálicos semi-esféricos. Era nessas cúpulas que ficavam as quatro usinas de energia.
Desde o dia de sua chegada, Kutlós não mandara realizar nenhuma modificação no programa de fabricação que não tivesse sido ordenada pelo Grande Baalol. Apresentava seus relatórios com a maior regularidade e sempre evitava mostrar-se insistente ou formular perguntas incômodas. Por absurdo que pudesse parecer, isso fez com que o Grande Baalol se convencesse de que Kutlós era um dos sumos sacerdotes mais competentes no seio dos antis.
Kutlós encontrava-se na sala de televisão de Saós, que ficava a meia altura da pirâmide e estava recheada de instalações técnicas destinadas à observação espacial.
Olhava para uma tela ligeiramente abaulada. Vez por outra viam-se na mesma pontos luminosos do tamanho de uma cabeça de alfinete. Vistos assim pareciam inofensivos.
Mas podiam ser tudo, menos isso.
Cada um destes minúsculos pontos brilhantes representava uma nave terrana. Formavam um círculo em torno de Saós, impedindo que qualquer nave dos antis decolasse ou pousasse. Kutlós fora prevenido de que parte da Frota Solar apareceria nas proximidades do planeta, mas não esperava que isso acontecesse tão depressa.
As naves cargueiras dos antis, carregadas com as preciosas máquinas destinadas à fabricação de geradores de campos defensivos individuais, ainda continuavam pousadas no porto espacial. Só as naves cilíndricas dos saltadores já tinham desaparecido. Depois do ataque simulado contra a base, sua missão estava cumprida.
Kutlós endireitou o corpo. O zumbido do equipamento de ar-condicionado chamou-o de volta à realidade.
Quer que desligue, Kutlós? — perguntou o jovem sacerdote.
O sumo sacerdote limitou-se a acenar com a cabeça. Os inúmeros instrumentos de localização que havia nessa sala ficavam “de olho” em cada um dos couraçados terranos. Qualquer mudança de posição era prontamente registrada. O dispêndio de energia de cada espaçonave era cuidadosamente controlado, para que se pudesse constatar prontamente o início da invasão.
Na opinião de Kutlós, os terranos já estavam demorando demais. Pelos padrões terranos, a Frota já se mantinha no espaço há três dias. O sumo sacerdote esperara que todos os antis conseguissem escapar nas naves cargueiras antes da chegada dos terranos. A rapidez com que as espaçonaves esféricas haviam saído do hiperespaço frustrara essa parte do plano. Os sacerdotes de Saós viam-se obrigados a permanecer na base contra a vontade.
Era a primeira vez que Kutlós via sua estratégia condenada ao fracasso. Qualquer defesa contra a invasão, por mais vigorosa que fosse, entraria em colapso depois de algum tempo. O sumo sacerdote não estava disposto a deixar que os terranos se apoderassem de Saós sem luta, mas estava preparado para uma derrota fulminante.
Kutlós passou discretamente a mão pelo cabelo. As naves que se enfileiravam em torno do planeta não o deixavam nervoso. Sentia certa melancolia diante da idéia de que sua caminhada em direção ao poder teria de esbarrar com a força e a velocidade de quatro mil espaçonaves. Continuava a julgar correta a maneira pela qual organizara sua vida.
Quando atacarão? — disse uma voz que penetrou em sua consciência.
Virou-se e fitou os olhos inteligentes de Tasnor, que era seu representante. Desde o primeiro dia Kutlós tivera uma opinião bem definida a respeito de Tasnor. Era inteligente, muito mais inteligente que ele mesmo. Mas nunca chegaria a ser um dos altos dignitários do Baalol. Tasnor cometia dois erros fatais. Falava demais, e falava com qualquer pessoa. Além disso, acreditava que devia impor, de qualquer maneira, algumas de suas idéias. E esse procedimento estragaria sua carreira.
Kutlós fitou seu interlocutor sem dizer uma palavra, e a atividade de Tasnor morreu em meio a esse silêncio, congelou-se sob o brilho frio dos olhos de Kutlós. Para o sumo sacerdote pouco importava o que Tasnor sentisse em relação a ele. Provavelmente aquele jovem o odiava. Mas isso não afetava o respeito que lhe tributava. Durante seus contatos com os poderosos, Kutlós aprendera como conquistar e conservar o respeito dos outros.
Esta espera desgasta os nervos da gente — disse Kutlós, como que se desculpando.
Um sorriso surgiu no rosto de Kutlós, um sorriso que desagradou Tasnor, transformando-o num jovem inexperiente e de nervos débeis, com o qual o sumo sacerdote tinha de ocupar-se, como se não bastassem as tarefas importantes que precisava cumprir. O representante enrubesceu. Baixou os olhos, e as mãos desceram pela manta larga.
Compreendo — respondeu Kutlós, em tom amável. — Deveríamos agradecer os terranos por nos concederem um prazo que nos permite executar a segunda parte de nosso plano.
Hepna-Kaloot, que era bastante baixo e gordo para um anti, virou-se sem sair do lugar.
Até parece que ainda temos uma saída — disse. — Nunca desejei uma morte heróica. Kutlós, que idéia é essa que ainda lhe infunde alguma esperança?
O único sacerdote de Saós pelo qual Kutlós sentia alguma simpatia era Hepna-Kaloot. Não podia aplicar suas atitudes costumeiras a esse homem baixo. Hepna-Kaloot sempre transmitia ao ambiente em que se encontrava a indiferença que sentia diante de todas as coisas. Mesmo quando formulasse perguntas, como acabara de fazer, percebia-se perfeitamente que não havia nada que pudesse abalá-lo no seu íntimo. Só havia uma coisa capaz de entusiasmar aquele sacerdote: o jogo de Paloot.
Era um jogo proibido. Acontece que Hepna-Kaloot conhecia tão bem as regras desse jogo que era de supor que por mais de uma vez desobedecera à proibição. Nas noites tranqüilas, muitas vezes se deixara levar a contar alguma coisa a respeito do jogo de Paloot. Nas suas histórias sempre figurava como espectador, mas qualquer pessoa que o ouvisse compreenderia perfeitamente que seu papel real era o de um participante.
Para julgar o caráter de Hepna-Kaloot, devia-se partir do princípio de que este era um jogador nato. E agora, pela primeira vez, tomava conhecimento do que estava em jogo.
Estava em jogo a mesma coisa que os outros sacerdotes arriscavam: a vida.
Era claro que Hepna-Kaloot também gostaria de sair do jogo, se tivesse oportunidade para tanto. Por isso era possível que as palavras que acabara de proferir fossem menos indiferentes do que costumavam ser suas falas.
Não vejo nenhum motivo para deixarmos de executar nosso plano original — disse Kutlós. — Seguiremos as instruções do Grande Baalol.
Antes que concluísse sua fala viu a expressão de oposição nos olhos de Tasnor.
Quando recebemos as ordens da sede ainda não sabíamos que não haveria possibilidade de abandonarmos Saós — ponderou o jovem sacerdote. — O plano elaborado pelo Grande Baalol partiu de pressupostos totalmente diversos dos atuais.
Kutlós não teve necessidade de examinar os rostos dos outros antis para certificar-se de que a maioria deles compartilhava a opinião de Tasnor. Seu representante parecia sentir a mesma coisa. Isso não deixou Kutlós nem um pouco nervoso. Esse tagarela não o impediria de saborear seu último triunfo.
A única coisa que mudou é o fato de ainda nos encontrarmos aqui — disse o sumo sacerdote, em voz baixa.
Tasnor cometeu o erro de ver nessas palavras uma manifestação de fraqueza de Kutlós. Levantou os braços num gesto de súplica e dirigiu-se aos antis reunidos.
Kutlós tem razão — gritou para eles. — Ainda estamos aqui, e nossa vida corre perigo. Quatro mil naves atacarão Saós e não nos darão a menor chance. Se quiséssemos arriscar a luta, estaríamos fazendo um sacrifício insensato. Sugiro que revelemos aos terranos quem é a pessoa que se apresenta como Rhodan. Eles o prenderão e voltarão à Terra.
A sugestão não presta — disse Kutlós, em tom de desprezo. — Se os astronautas terranos descobrirem que estão obedecendo às ordens de Cardif, farão tudo para descobrir onde se encontra o verdadeiro Rhodan. E haveria um lugar melhor para eles obterem informações sobre isso do que o planeta Saós?
Kutlós fez uma pausa, para que os sacerdotes tivessem tempo para refletir sobre a pergunta que acabara de formular. Depois, prosseguiu:
Quer dizer que pousarão no planeta, mesmo que saibam que o filho se fez passar pelo pai. Provavelmente o fato de nós os termos enganado os deixaria muito mais zangados — o sumo sacerdote fez um gesto violento. — Não vamos iludir-nos. Sabemos perfeitamente que os terranos são inimigos muito perigosos. Será que devemos irritá-los ainda mais? Por enquanto temos Cardif nas mãos. Não devemos abandonar este trunfo. Enquanto Thomas Cardif, disfarçado em Rhodan, exerce as funções de administrador, as naves da Terra não nos são muito perigosas. O Grande Baalol nos informou que, no momento, outro homem poderoso da Galáxia o deixa muito mais preocupado.
O Imperador Gonozal VIII — interrompeu Hepna-Kaloot. — O almirante do Grande Império de Árcon.
Kutlós percebeu que o pequeno sacerdote não estava disposto a acompanhar os arroubos de Tasnor. Hepna-Kaloot costumava refletir antes de tomar suas decisões. E os antis sabiam disso. A expressão de lealdade de Hepna-Kaloot favorecia bastante o prestígio do sumo sacerdote.
Isso mesmo — disse Kutlós. — Sabemos que muita coisa aconteceu desde que Atlan, um arcônida que manteve o espírito ativo, assumiu o controle do computador-regente. A mão forte de Gonozal VIII sacudiu o império, procurando deter o processo de decadência. Perry Rhodan foi um aliado leal. Reunidos, o Império de Árcon e o Império Solar pesavam bastante no jogo de forças da Galáxia. Os dirigentes supremos dos dois impérios estelares transformaram-se em bons amigos — um sorriso irônico surgiu no rosto de Kutlós. — Neste meio tempo nosso amigo Thomas Cardif conseguiu introduzir profundas modificações nessa situação. Há divergências políticas entre a Terra e Árcon. Quase se poderia falar numa guerra fria. Nossos agentes descobriram que Cardif mandou retirar todos os colaboradores terranos que trabalhavam nos planetas arcônidas. O filho de Rhodan deve ter proferido graves ofensas contra o imperador. As coisas chegaram a tal ponto que as unidades da Frota Solar voam pelas áreas de influência do Grande Império.
Tasnor começou a compreender que as explicações prolongadas de Kutlós tinham a finalidade de influenciar o estado de ânimo dos sacerdotes.
Já sabemos — disse com a voz zangada. — Nem por isso nossa situação se torna menos grave.
O sumo sacerdote não deixou que estas palavras o perturbassem. Sua voz mal superou os ruídos dos aparelhos eletrônicos. Mas suas palavras foram compreendidas por todos. Como era seu hábito, Kutlós teve o cuidado de evitar que suas próprias idéias interferissem nas explicações. Vivia dizendo aos seus companheiros de raça que suas palavras representavam a opinião do Grande Baalol.
Gonozal VIII decretou a mobilização geral — disse. — Isso significa que em sua opinião é perfeitamente possível que venha haver um conflito de grandes proporções.
Kutlós bateu as palmas das mãos uma na outra, como se quisesse esmagar um inseto que o incomodava. Estava de pé no centro da sala, alto e magro, tal qual saíra da espaçonave quando pela primeira vez pisou o solo de Saós. Representava o Grande Baalol, que era a autoridade suprema. Até parecia que um fio invisível unia o grande chefe dos antis a Kutlós — um fio que conduzia um fluxo autoritário, reforçando o sumo sacerdote. Kutlós parecia o prolongamento do braço do Grande Baalol.
O Grande Baalol é de opinião que podemos fazer alguma coisa para desencadear o conflito. Árcon e a Terra têm uma visão negativa para com nossa seita. Por isso deveremos sentir-nos felizes se eles se enfraquecerem mutuamente. Bem que vale a pena sacrificar esta base para conseguir isso.
Dessa forma também sacrificaremos a vida! — exclamou Tasnor.
Já utilizara muitas vezes o único argumento de peso de que dispunha. Por isso tal exclamação deixou de produzir o efeito desejado. Kutlós, que nunca duvidara da vitória, fez um gesto ligeiro para Hepna-Kaloot, em cujo rosto se desenhava um sorriso indecifrável.
Naquele momento Kutlós compreendeu que Hepna-Kaloot era a única pessoa a qual não conseguira convencer. Mas o anti era muito experimentado para confessar isso.
Ele adota a mesma tática que eu”, pensou o sumo sacerdote, perplexo.
Se Atlan e Cardif se pegarem, assistiremos de camarote — disse Kutlós. — O sistema em que nos encontramos fica na área de influência do Grande Império. Se a Frota Solar nos atacar, estará interferindo nos assuntos internos de Árcon.
Kutlós aproximou-se da tela do aparelho de localização ótica e ligou-o. Os pontos reluzentes voltaram a aparecer.
O plano é bom — disse. — E vai funcionar.
Com estas palavras singelas, Kutlós manifestou sua decisão de destruir quatro mil naves terranas — ou melhor, de fazer com que as mesmas fossem destruídas. E os antis não se importariam nem um pouco se isso causasse a destruição de milhares de unidades robotizadas de Árcon...

* * *

Um dos objetos que só aparecia na tela dos antis sob a forma de um lampejo era a nave linear Ironduke, que se mantinha numa órbita constante em torno de Saós.
O Tenente Brazo Alkher foi andando pelo longo corredor que levava da sala de comando aos camarotes dos oficiais. Pouco atrás dele caminhava o Tenente Stana Nolinow. Era baixo e usava cabelos cortados à escovinha. Formava um contraste marcante com Alkher, que era um homem alto e ossudo.
Os dois oficiais já se conheciam desde a primeira tarefa desempenhada na Fantasy. Sobreviveram ao naufrágio espacial juntamente com Perry Rhodan e foram salvos pelo Capitão Samuel Graybound. Os dois homens estavam ligados por uma amizade sincera, que ultrapassava em muito os limites do simples companheirismo. No que diz respeito à combatividade formavam uma equipe muito bem ajustada. Um homem como Brazo Alkher na central de tiro de uma espaçonave representava um perigo maior que dez cruzadores pesados.
Sempre que alguém lhe perguntava sobre suas extraordinárias capacidades, costumava dizer:
Lido com os canhões; apenas isto. Mas restava saber como lidava com eles.
A prisão comum em Saós unira ainda mais os dois tenentes. Sabiam que sua permanência involuntária nesse planeta fora causada exclusivamente pelo homem que, segundo todos acreditavam, era Perry Rhodan. Cardif não tivera a menor consideração com eles. Deixara-os na nave dos antis e, além disso, dera ordem para abrir fogo contra o veículo espacial dos sacerdotes.
O que deseja de nós? — perguntou Nolinow e parou.
Em sua voz havia um tom inconfundível que era um misto de desconfiança e de desprezo. Alkher sacudiu a cabeça como quem se lamenta.
Você está falando no chefe? — indagou o amigo.
É verdade — respondeu Nolinow, em tom amargurado.
Alkher parou à porta de um camarote e bateu.
Faça o favor de entrar.
Alkher abriu a porta e entrou no pequeno recinto. O chão estava coberto por cacos de espelho. Perplexo, Alkher olhou para a cama sobre a qual estava deitado Perry Rhodan.
O administrador tirara o casaco do uniforme, trocando-o por um pulôver confortável. Seus olhos estavam protegidos por óculos escuros do tipo usado pelos técnicos nas salas dos conversores. Alkher ouviu que Nolinow entrava atrás dele.
O senhor mandou chamar-nos, sir — disse Brazo.
Os óculos não lhes permitiam ver os olhos de Rhodan. Quando o administrador se levantou, Brazo Alkher não saberia dizer se estava olhando para ele ou para Nolinow. Surpreendentemente, Rhodan usou um tom amável.
Os senhores sabem que pertencem ao grupo de pessoas em quem mais confio — principiou, dirigindo-se aos dois tenentes.
Sim, senhor — responderam Alkher e Nolinow a uma voz.
Alkher sentiu que Nolinow o olhava como quem não entende nada. Não compreendia muito bem por que lhes fora conferida essa posição privilegiada.
Escolhi os senhores para me levarem a Peregrino — lembrou Rhodan. — Sei dar o devido valor às suas qualidades.
Brazo Alkher sentia-se cada vez mais inseguro. Essa fala levaria a alguma coisa que de forma alguma contribuiria para restaurar a confiança que depositavam em Rhodan, pois esta se deteriorava progressivamente.
Sem dúvida, sir — disse Alkher em tom cauteloso.
Em sua opinião seria preferível que não o deixasse concluir porque Nolinow, com seu gênio impulsivo, só causaria problemas.
Rhodan levantou-se e pisou em alguns cacos. O ruído fez com que Alkher estremecesse. Viu o quadro do espelho pendurado na parede. Ao que parecia, o administrador o quebrara num acesso de raiva.
Os senhores presenciaram o ato de indisciplina do Major Krefenbac? — indagou Rhodan. — Se presenciaram, viram a que ponto pode chegar a arrogância psicopática de um oficial.
Nolinow aspirou ruidosamente o ar. Alkher cutucou-o com o cotovelo, fazendo votos de que Rhodan não o notasse.
Vimos tudo — confirmou Alkher em tom tranqüilo.
O Major Krefenbac é o imediato da Ironduke — prosseguiu Rhodan. — Ou melhor, ele já foi.
Sir! — exclamou Alkher, em tom apavorado.
Não permitirei que continue num cargo de tamanha responsabilidade — anunciou Rhodan. — Não é possível que uma posição vital para a nave seja ocupada por um homem desse tipo. O Major Krefenbac não é capaz de cumprir a ordem mais simples. O que se dirá quando tivermos que tomar decisões importantes? Imagino que, em meio a uma batalha espacial, o major perderá os nervos e recusará o cumprimento das ordens que receber.
Alkher esforçou-se para conservar a calma. Os pensamentos atropelavam-se em seu cérebro. Lamentava que Bell não estivesse presente. O amigo pessoal de Rhodan parecia ser a única pessoa que continuava a exercer certa influência sobre aquele homem doente.
Para mim, o Major Krefenbac é um bom oficial e um superior muito competente — disse Stana.
Rhodan fez que sim. Voltara a sentar-se. A intervalos regulares cravava os dedos nas cobertas. O gesto desenhava-se com toda nitidez.
Suas palavras constituem a melhor prova de que o senhor não sabe avaliar esse tipo de gente, tenente — disse. — Sempre é importante estudar as pessoas que nos cercam. O senhor deve fazer uma verdadeira autópsia de seu caráter, Nolinow. Use armadilhas psicológicas, e o senhor perceberá que, muitas vezes, a fachada brilhante esconde um gênio de canalha.
Sim, senhor — respondeu Nolinow em tom frio e indiferente.
De repente Brazo Alkher sentiu que Rhodan o fitava por trás das escuras lentes dos óculos. Esforçou-se para enfrentar esse olhar.
Tenente Alkher, tenho a impressão de que o senhor é um oficial muito aproveitável — principiou Rhodan.
Faço o que posso, sir — respondeu Alkher, esforçando-se para dar à voz um tom amável.
Rhodan acenou com a cabeça; parecia satisfeito.
O senhor será o imediato da Ironduke, tenente.
Por um instante Alkher sentiu-se tão perplexo que não conseguiu formular qualquer resposta. Os problemas, que se amontoavam diante dele em virtude desse convite fatal, lhe pareciam insuperáveis. Muito perturbado, piscou os olhos.
Rhodan soltou uma risada rouca.
Isso o surpreende, não é mesmo, Alkher?
Sem dúvida — conseguiu dizer o tenente.
Rhodan levantou-se e, arrastando os pés entre os cacos que tiniam, aproximou-se de Alkher. Num movimento instintivo, este deu um passo para trás. Rhodan bateu em seu ombro.
O senhor saberá dar conta do recado — disse numa cordialidade forçada.
Alkher estremeceu. Nolinow parecia enrijecido como uma coluna de pedra. Desorientado, Brazo olhava para ele.
Fico-lhe muito grato pela confiança, sir — gaguejou.
A mão de Rhodan pesava em seu ombro, mas Alkher não se atreveu a fazer qualquer movimento. De repente lembrou-se de seu primeiro encontro com Rhodan. Naquela oportunidade pensara que o administrador fosse um mecânico e lhe dispensara o tratamento que correspondia a essa posição. O Rhodan de quem se lembrava era um homem completamente diferente daquele que se encontrava à sua frente.
Nolinow e o senhor são as pessoas que melhor conhecem a base de Saós — disse Rhodan. — Estão em condições de comandar o ataque contra os antis. Krefenbac ficará de lado, e tudo dará certo. Os senhores serão meus elementos de ligação com a frota invasora. Transmitirão minhas ordens às unidades que estiverem empenhadas no combate.
Sir, eu... — principiou Alkher.
A voz de Rhodan assumiu um tom áspero.
Alguma objeção, tenente?
Alkher engoliu em seco. Seus olhos refletiram um brilho... de temor. O que o perturbava não era o homem em si, mas sim as lendas, a história dos atos do mesmo.
Alkher falou com a coragem do desespero:
Vejo-me forçado a recusar sua proposta, sir. Sinto muito.
O quê? — gritou Rhodan. — Será que o senhor enlouqueceu, tenente? Ofereço-lhe a maior chance de sua vida, e o senhor se atreve a recusar minha oferta?
Brazo Alkher arregalou os olhos e fitou o homem enfurecido. Uma palidez tremenda cobria seu rosto. Suas mãos tremiam levemente e as palmas estavam úmidas de nervosismo. Nolinow mantinha-se de pé atrás dele, com os dentes cerrados. Ficou em silêncio.
Será que o senhor tramou algum golpe juntamente com esse palerma do Krefenbac? — berrou Rhodan fora de si. — Saberei fazer cumprir minhas ordens.
Qualquer ordem que o senhor me der será cumprida, sir — disse Alkher, em voz baixa. — No entanto, os regulamentos me permitem refletir sobre uma promoção que me seja oferecida e mesmo recusá-la, desde que não me sinta em condições de cumprir as novas tarefas.
Fora! — gritou Rhodan.
Brazo Alkher e Stana Nolinow fizeram continência e retiraram-se.
Cheguei a pensar que você aceitaria a promoção — disse Nolinow em tom tranqüilo assim que se encontravam a uma distância tal que Rhodan não podia ouvi-los.
Alkher respirava fortemente. Seu rosto, até então muito pálido, enrubesceu.
Quase que ele me pega de surpresa — confessou. — Não perdoou essa história dos botões ao major.
Você está falando no chefe — disse Nolinow num misto de repreensão e ironia.
Gostaria de poder dar-lhe alguma forma de apoio — disse Alkher. — Ao que tudo indica, sua conduta incompreensível tem algo a ver com sua estranha doença. Notou que estava usando um pulôver muito largo?
A jaqueta do uniforme ficou muito apertada, Brazo. Gostaria de saber por que estava com aqueles óculos. Decerto os pediu emprestados a um técnico.
Brazo Alkher sentiu-se dominado por um temor inexplicável.
De qualquer maneira está escondendo alguma coisa — disse, dirigindo-se a Nolinow.
É possível que a parte superior do rosto já se tenha alterado a tal ponto que produz um efeito repugnante.
Você acha que ele vai morrer? — perguntou Alkher em tom deprimido.
Na opinião dos médicos, a proliferação celular não é maligna. Tudo depende de como os órgãos e o cérebro reagirão a esse crescimento desmesurado — concluiu Nolinow com um gesto. — Se os médicos não conseguirem deter o processo, haverá no mínimo uma grave crise. Mas quando acontecerá isso?
Naquele momento estavam chegando à sala de comando. Enquanto entravam, Nolinow perguntou-se em voz baixa:
E o que acontecerá?

* * *

A bordo da Ironduke os ânimos estavam muito deprimidos. Não se ouvia uma única palavra alegre. Os oficiais fitaram os dois tenentes sem dizer uma palavra.
Como vai ele, tenente? — perguntou Bell, dirigindo-se a Alkher.
Sente-se muito amargurado, sir — informou Brazo. — Pretende substituir o Major Krefenbac do posto de imediato. Ofereceu-me esse posto.
Está ouvindo, major? — perguntou Bell, falando por cima do ombro.
Estou, sir — respondeu Hunt Krefenbac, com a voz apagada.
Com o rosto pálido, mas controlado, o major levantou-se e aproximou-se de Bell. Estava abatido, mas parecia mais orgulhoso que nunca.
Eu lhe entregarei meus galões, tenente — disse, dirigindo-se a Brazo.
Não, sir — objetou o jovem. — Recusei a proposta de Rhodan. Quando invoquei os regulamentos ele nos pôs para fora.
O senhor continua a ser o imediato, Hunt — disse a voz retumbante do Major Claudrin. — Rhodan teria que demiti-lo pessoalmente ou dar-me uma ordem nesse sentido.
Será que devo esperar até que isso aconteça? — perguntou Krefenbac, com a voz amargurada.
Falarei com ele — anunciou Reginald Bell.
Ninguém formulou qualquer objeção. Se havia um homem que ainda podia dizer algumas palavras sensatas a Perry Rhodan, esse homem era Bell.
Está usando pulôver, sir — disse Stana Nolinow. — Além disso, traz no rosto um par de óculos protetores do tipo usado pelos soldadores.
Bell cumprimentou os homens com um gesto e retirou-se da sala de comando. Duvidava de que sua importante missão fosse coroada de êxito. Ao que parecia, o fio invisível da sua amizade de muitos anos se rompera.
Bell confessou a si mesmo que a vontade de resistir às ordens absurdas de Rhodan crescia cada vez mais. Os efeitos secundários do tratamento de choque a que Perry fora submetido em Okul não diminuíam.
Quando chegou à frente do camarote de Rhodan, Bell achou preferível bater fortemente à porta. Antigamente não conhecia esse tipo de cerimônia.
Já mandei que desse o fora, Alkher — gritou uma voz furiosa, vinda do outro lado da porta.
Bell abriu e entrou. Rhodan, que estava estendido sobre a cama, mostrava exatamente o aspecto descrito pelos dois tenentes. Ergueu-se abruptamente e seu rosto desfigurou-se.
Sou eu — disse Bell, em tom indiferente.
Rhodan voltou a cair sobre a cama e cruzou os braços embaixo da cabeça. Era só uma questão de tempo... e a cama ficaria pequena para ele.
O que deseja? — perguntou asperamente.
Pensei que você talvez desejasse companhia — respondeu Bell sem abalar-se. — Na sala de comando não precisam de mim.
Procurou um canto vazio na cama de Rhodan e sentou-se. Rhodan fitou-o com uma contrariedade evidente. Bell esforçou-se para não notar essa antipatia. Era preferível fazer como se não percebesse o gênio desagradável do amigo.
Vejo que está usando óculos, Perry — disse com a voz amável. — Aconteceu alguma coisa com seus olhos?
Malditos tagarelas! — exclamou Rhodan.
O insulto fora dirigido contra Alkher e Nolinow.
Bell contemplou-o com a maior tranqüilidade. O que restava do famoso autodomínio de Perry? O que era feito da tão falada objetividade fria que distinguira o administrador?
Quer que eu peça ao doutor Gorsizia que venha até aqui? — perguntou Bell.
Rhodan soltou uma risada amarga. Baixou os cantos da boca numa expressão de desprezo.
De que me servirá Gorsizia se nem mesmo os especialistas terranos podem fazer qualquer coisa por mim? — perguntou, repuxando o pulôver desajeitado. — Até mesmo minha jaqueta ficou apertada.
Levantou-se e segurou a gola do uniforme de Bell com ambas as mãos. Aproximou seu rosto dos olhos daquele homem baixo. Bell teve a impressão de que via sob as lentes escuras dos óculos os contornos apagados de um par de olhos. O hálito quente de Rhodan roçou seu rosto.
Olhe para mim! — fungou Rhodan. — Vamos, olhe para mim! Aos poucos vou me transformando num monstro; num monstro inchado.
Perry! — disse Bell, com a voz suplicante. — Procure acalmar-se.
Acalmar-me? — repetiu o homem que já não era capaz de desempenhar o papel de administrador. — Será que você compreende a minha desgraça? Quer que eu lhe mostre?
Num movimento repentino tirou os óculos e atirou-os para longe.
Incapaz de proferir uma única palavra, Bell fitou os olhos do amigo. O medo e o desespero, a raiva e o ódio brilhavam nos mesmos como se fossem chamas amarelas.
De repente Bell lembrou-se de que já vira um par de olhos desse tipo. Quando ainda era muito jovem visitara um zoológico e um animal feroz o fitara por entre as grades.
A cor mudou — gritou Rhodan.
Bell, que tinha nervos de aço, baixou os olhos.
São os antis — gritou Rhodan. — São culpados de tudo. Pagarão por isso. Saós cairá.
Naquele momento, Thomas Cardif só tinha uma coisa em comum com o pai: o nome que usava indevidamente e o título que usurpara. Seus traços de caráter sobrepunham-se cada vez mais às características positivas herdadas. Cardif transformara-se num fanático odiento, que só vivia em função do desejo de vingança.
Reginald Bell levantou-se. Estava muito abalado. Olhando para o chão, caminhou em direção à porta.
Bell! — gritou uma voz atrás dele.
Bell não se virou, porque aquele olhar de lobo ainda ardia em seus pensamentos como se fosse uma chama inextinguível. Parou, mas não disse uma palavra.
Você tem de apoiar-me, Bell — pediu Rhodan com a voz rouca.
A única coisa feita por Bell foi confirmar com um aceno de cabeça. E isso lhe custou um autocontrole maior do que qualquer outra coisa que já acontecera em sua vida. O homem que se encontrava sobre a cama era um estranho. Não havia mais qualquer relacionamento entre eles. Bell retirou-se com os sentimentos em irrupção.
Esquecera-se completamente do motivo que o levara para lá. Quando voltou à sala de comando, só o Major Claudrin formulou uma pergunta.
O que foi que o chefe disse?
Bell fitou o homem nascido em Epsal. O interesse de Claudrin apagou-se.
Tirou os óculos — disse Bell em voz baixa.
Eram exatamente 18:45 h, tempo padrão. Depois disso ninguém mostrou qualquer interesse por Rhodan. Na sala de comando o silêncio era ainda maior. Todos esperavam que Rhodan aparecesse. À entrada do administrador seguir-se-ia, inevitavelmente, a ordem de iniciar a invasão de Saós.
Indiferente a esses acontecimentos, a Ironduke prosseguiu em sua órbita em torno do planeta dos antis. E em seu interior encontrava-se um homem cuja inteligência estava sendo turbada progressivamente pela terrível proliferação celular.
Esse homem estava investido no comando de toda a Frota Solar. Nas mãos de um homem sensato, as milhares de naves que a compunham representavam um importante instrumento político.
Thomas Cardif já não era um homem sensato.
Sob seu comando, a Frota se tornaria mais perigosa que um incontrolável incêndio atômico!
2



No âmbito da Galáxia a lei da causalidade também é confirmada sob milhares de formas. Suas variantes são infinitas. Muitas vezes um efeito é produzido por duas causas que parecem ser independentes.
O Major Kullmann nem desconfiou de que suas ordens foram uma das duas causas que fizeram com que dez mil naves robotizadas arcônidas se colocassem em movimento. Kullmann comandava um dos cruzadores de patrulhamento que haviam penetrado no Grande Império por ordem de Cardif. Era claro que, para Kullmann, essa ordem vinha de Rhodan, pois tal qual os outros oficiais nem desconfiava do jogo de Cardif. Talvez o caráter de Kullmann desempenhasse um papel secundário naquilo. Em condições normais e num setor da Galáxia pertencente ao Império Solar, sua concepção sobre os regulamentos do serviço seria defensável. Mas num setor que para o imperador de Árcon pertencia de direito ao seu império, um oficial do feitio de Kullmann era uma mecha acesa sob um barril de dinamite.
Em outras palavras: talvez os problemas não surgissem logo, mas a longo prazo estes seriam inevitáveis.
Há dois dias, tempo padrão, o cruzador ligeiro Zumbasi controlava o setor que lhe fora destinado. Os tripulantes cumpriam a tarefa com um desagrado variável. Só Kullmann dedicou-se de corpo e alma à sua missão. Fazia discursos na sala de comando e ressaltava a importância histórica da missão que lhes fora confiada. Quem ouvisse o major poderia ter a impressão de que era apenas uma questão de tempo, para que os terranos se apoderassem do Grande Império. O grande momento de Kullmann chegou quando os aparelhos de localização da Zumbasi registraram a presença de uma nave que há poucos segundos saíra do hiperespaço. Para sua felicidade — ao menos o major acreditava que fosse uma felicidade — o cruzador não teve o menor problema em colocar-se em poucos minutos nas proximidades da nave que acabara de surgir.
Albert Kullmann estava de pé atrás de Pedro Villaseluces, que desempenhava as funções de piloto. Segurava um microfone. A nave desconhecida aparecia nitidamente nas telas.
É uma nave dos mercadores galácticos, sir — observou Villaseluces com a voz azeda. — Queira observar o formato cilíndrico, que constitui uma das características preferidas pelos saltadores.
Os olhos de Kullmann iluminaram-se.
Sala de tiro! Atenção! — gritou com a voz forte para dentro do microfone.
Pois não, sir — disse a voz saída do alto-falante.
Faça um disparo de advertência para a nave dos saltadores — ordenou Kullmann. — A mesma já se encontra na sua mira?
Por um instante reinou o silêncio. Finalmente a voz perplexa de Mark Dickson, que desempenhava as funções de oficial do controle de tiro, disse:
Quer dizer que, antes de pedir aos mercadores que parem, vamos fazer o disparo de advertência?
Quer discutir comigo? — perguntou Kullmann, em tom indignado.
Não, senhor. Mas peço licença para observar que nos encontramos num setor onde os saltadores têm o direito de fazer ou deixar de fazer o que desejarem.
Kullmann empertigou-se.
Estes tempos já se foram, Dickson. Não se esqueça das novas ordens que recebemos do administrador.
Às ordens, sir — respondeu Dickson. Notava-se perfeitamente que estava com vontade de dizer uma coisa bem diferente.
Kullmann fitou a tela do dispositivo de localização. Ao que parecia, os saltadores ainda não sabiam como deviam agir diante da nave esférica. Esta deslocava-se em queda livre, como quem se mantém em expectativa.
Naquele momento, um lampejo saiu dos pesados canhões de popa da Zumbasi. Um raio de vinte centímetros de espessura atravessou o espaço e passou junto à nave cilíndrica.
Muito bem, Dickson — gritou Kullmann. — Por enquanto basta.
A nave dos saltadores procura estabelecer contato, sir — anunciou Fleming, que se encontrava na sala de rádio. — Quer que transmita a ligação para o senhor pelo videofone?
Ande logo — pediu o major.
A tela de radiocomunicação espacial comum iluminou-se. Um rosto barbudo surgiu na mesma. Se Albert Kullmann já vira um homem irritado, era esse saltador. Com uma visível alegria, o major fitou o comandante da nave cilíndrica.
O senhor tem alguma explicação plausível para esse comportamento, terrano? — perguntou o saltador com uma calma que não parecia muito convincente.
Prepare-se para receber um comando de busca — anunciou Kullmann, em tom seco.
O barbudo fitou-o com uma expressão de incredulidade.
Será que o senhor conhece a posição de sua nave? — perguntou. — Será que seus conhecimentos de Cosmonavegação bastam para que o senhor perceba que se encontra no território do Grande Império?
A dúvida quanto à competência astronáutica de Kullmann estimulou-o à ação e atiçou sua vaidade.
Estamos controlando esta área — disse em tom arrogante.
O saltador fervia de raiva. Pôs à mostra seus dentes e, depois de praguejar numa língua desconhecida, disse:
Esta é uma nave mercante inofensiva. Se nos importunar, as conseqüências de sua atuação pesarão sobre o senhor. Faço um apelo ao seu bom senso.
Talvez Kullmann fosse bom psicólogo, mas não soube interpretar a conduta do mercador. Estava convencido de que o saltador temia o exame de sua nave. E esse temor devia ter algum motivo. Talvez houvesse carga proibida a bordo da nave cilíndrica. Kullmann não notou os rostos preocupados dos tripulantes de sua nave. Não viu Villaseluces balançar a cabeça, apavorado. O major só via aquilo que julgava ser seu dever.
Dickson, coloque mais um tiro diante de sua proa, para que esse sujeito compreenda que estamos falando sério — gritou Kullmann.
O mercador já percebera que o terrano estava falando muito sério. Seu rosto exprimia uma resignação misturada com revolta.
Está bem, terrano — disse em tom de cólera. — Vamos mudar de rumo.
Kullmann parecia satisfeito. Ordenou a Dickson que por enquanto não disparasse nenhum tiro contra a nave cilíndrica. Poucos minutos depois formou o comando de abordagem. Tal comando usou um barco auxiliar para transportar-se à nave dos saltadores. Os mercadores cerraram os dentes e submeteram-se à inspeção. Sabiam que o armamento de que dispunham não lhes permitia enfrentar um cruzador terrano.
Kullmann e seus homens revistaram cuidadosamente a nave. Não encontrou nada que parecesse suspeito. Aos poucos foi compreendendo que realmente detivera uma nave mercante inofensiva.
De qualquer maneira, um major terrano”, pensava Kullmann, “não tem necessidade de pedir desculpas a um comandante saltador.
Com a voz fria Kullmann mandou que o comando se retirasse.
Pode prosseguir viagem — disse em tom condescendente, dirigindo-se ao saltador.
Nos planetas do Sistema Azul o ensinamento hipnótico estava sendo aplicado em grande escala. Acônidas inteligentes e de raciocínio ágil estavam deitados sob as máquinas de aprendizagem hipnótica. Num futuro previsível Atlan estaria em condições de formar uma frota gigantesca com excelentes tripulações.
Os aliados se haviam transformado em inimigos. A evidente pressão que estava sendo exercida contra Árcon teria levado Atlan a agir, se a raça que o ameaçava fosse outra. Acontece que Rhodan era seu amigo pessoal — ou melhor, ele o fora, até o momento em que começara a agir como inimigo. O imperador tinha muita simpatia pela raça humana, embora a chamasse de bárbara.
Por várias vezes os controles do centro de computação se haviam pronunciado pela ação contra as atrevidas naves terranas. Mas Atlan sempre passara por cima das conclusões lógicas do gigantesco centro de computação, guiando seus atos por considerações sentimentais. Esperava que Perry Rhodan acabasse por recuperar o bom senso, reparando os erros graves que estava cometendo.
As unidades da frota robotizada de Árcon foram colocadas em regime de prontidão. Atlan fizera várias conferências com os altos dignitários, mas em geral a “atividade” dos mesmos apenas o perturbava. Durante as reuniões falavam sem parar, mas nunca chegavam a um resultado aproveitável.

* * *

Parecia uma parede azulejada. Acontece que cada azulejo era uma tela de imagem. Todos os canais levavam ao centro de computação, que por intermédio deles irradiava as notícias para Atlan.
Um robô-criado entrou e trouxe uma xícara com uma bebida fumegante, colocando-a à frente de Atlan. A máquina praticamente não fazia nenhum ruído ao movimentar-se sobre o pavimento liso. Atlan pegou a xícara sem levantar os olhos. Via de regra, enquanto prestavam seus serviços, os robôs-criados diziam frases amáveis. Atlan mandara apagar essa característica na programação dos robôs que lhe prestavam serviços pessoais, pois achava que não adiantava nada uma máquina lhe dirigir frases corteses.
Sem dizer uma palavra, o robô retirou-se.
A pessoa que se encontrava sentada do outro lado da mesa esboçou um sorriso quase imperceptível. O General Alter Toseff esperou até que Atlan terminasse de beber o conteúdo da xícara.
Esta bebida foi feita segundo uma receita terrana, general — disse Gonozal VIII. — O senhor deveria experimentar.
Toseff sorriu.
Agradeço a Vossa Eminência — disse a título de recusa. — Receio que meu paladar se tenha acostumado às delícias de Saratan.
Saratan era um planeta colonial de Árcon. O General Alter Toseff representava os interesses do Grande Império naquele mundo. Distinguia-se da maioria dos arcônidas pela energia e vitalidade. Atlan o encontrara porque estivera à procura de homens desse tipo. O setor de processamento do centro de computação convocara para Árcon todos os oficiais que pudessem ser aproveitados naquela emergência. Na seleção foram aplicados critérios rígidos. Apesar disso Atlan sentiu-se decepcionado porque o centro de computação só encontrou quarenta e três homens que correspondiam às exigências. O general à sua frente era a pessoa que reunia o maior número de pontos positivos.
Atlan percebeu que mais uma vez o centro de computação acertara na escolha. Toseff não mostrava qualquer sinal de decadência.
Terá que dispensar essas delícias por algum tempo, general — disse Atlan. — Temos tarefas importantes para o senhor.
Estou disposto a lutar em qualquer lugar pela causa do Grande Império — disse Toseff em tom resoluto. — Tem alguma ordem específica para mim, imperador?
Muito pensativo, Atlan girava a xícara nas mãos. Seu cabelo muito branco formava um contraste marcante com o rosto, que era por demais escuro para um arcônida. Atlan simpatizava muito com esse homem e teve a impressão de que poderia confiar nele. Apesar de todo o empenho, o centro de computação só encontrara quarenta e três homens que reuniam as mesmas qualidades de Toseff.
Quarenta e três homens para todo o império.
Perry Rhodan dispunha de milhões de colaboradores desse tipo.
Era por isso que o imperador precisava do auxílio dos acônidas, que se haviam mantido ativos. Mas pretendia colocar em cada frota tripulada por acônidas um arcônida do tipo do General Toseff.
A missão que lhe será confiada poderá ser de importância vital para nosso império — principiou Atlan. — Por isso deixo-o à vontade para recusá-la. Nesse caso poderá voltar sem problemas para Saratan.
Estou aqui para fazer aquilo que Vossa Majestade desejar, imperador — disse o general. — Há muitas gerações os Toseff se têm mantido leais ao império.
Não seria justo deixar este homem por mais tempo na incerteza. Atlan entregou-lhe uma pasta.
Leia — disse. — Aqui, o senhor...
Foi interrompido por um zumbido. Atrás dele, na parede coberta de telas, uma luz vermelha acendeu-se. Toseff olhou-a. Ao que parecia, esquecera-se dos documentos.
Um momento — disse Atlan. — É uma notícia importante do centro de computação.
Ligou o aparelho de comunicação sonora que se encontrava sobre a mesa. Outra lâmpada acendeu-se. Uma voz indiferente disse:
O sumo sacerdote do Baalol em Saós pede que o imperador lhe conceda uma entrevista.
Atlan respondeu em tom contrariado:
Estou ocupado. O anti pode esperar. A voz mecânica prosseguiu com a mesma indiferença:
Trata-se de mais uma violação cometida pela Frota Solar. O imperador deu ordem para que qualquer notícia desse tipo fosse transmitida imediatamente.
Está bem — disse Atlan, em tom apressado. — Transfira a palestra para cá.
O sacerdote está falando pelo canal 23 — disse a voz.
Toseff fez menção de levantar-se.
Fique aqui, general — disse Atlan. — É bom que o senhor esteja presente durante a palestra, que sem dúvida se relaciona com a missão que terá de cumprir.
Toseff voltou a sentar-se. Uma das telas iluminou-se, e os contornos apagados transformaram-se no rosto magro do sumo sacerdote que se encontrava em exercício em Saós. Atlan apertou um botão, e o anti teve a imagem do rosto do imperador projetada na tela da sala de rádio da pirâmide-templo de Saós.
Atlan não tinha nenhum motivo para simpatizar com os sacerdotes, pois estes também haviam disseminado seus entorpecentes sob a forma de liquitivo nos planetas do sistema de Árcon.
O que deseja? — perguntou o imortal em tom frio.
O rosto magro de Kutlós continuou impassível. Apenas os lábios se moveram quando respondeu com a maior tranqüilidade:
Tenho uma notícia para Vossa Majestade.
Pelo seu tom de voz a notícia não devia ser muito interessante. Atlan lançou um olhar indagador para Toseff.
Fale — disse, dirigindo-se ao anti.
O planeta de Saós está submetido à soberania do Grande Império — disse Kutlós, em tom indiferente.
Atlan começou a perder a paciência.
Será que o senhor chamou para me dar algumas lições de Astropolítica? — perguntou em tom gelado.
Kutlós sorriu. Dificilmente Atlan já vira um sorriso tão despido de senso de humor. Não podia deixar de reconhecer que o anti sabia esconder seus sentimentos. Aquele rosto anguloso não mostrava o menor sinal de emoção.
De forma alguma — respondeu o sacerdote, em tom irônico. — Mas quero dar-lhe uma lição de estratégia cósmica.
O General Al ter Toseff fez um gesto de raiva diante da observação atrevida do sacerdote. Atlan pediu que se conservasse calmo. Por certo o sacerdote queria apresentar-lhe a notícia de forma bastante saborosa.
Saós está na iminência da invasão de uma frota terrana comandada por Perry Rhodan — anunciou Kutlós, mantendo o tom de indiferença na voz.
Ao ouvir o nome de Rhodan, Atlan estremeceu. Não quis acreditar no que acabara de ouvir. Levou alguns segundos para recuperar-se do choque.
Tem certeza de que as naves são terranas? — perguntou.
Se andar depressa, Vossa Majestade poderá convencer-se pessoalmente — disse o anti em tom irônico. — É bom que não demore, pois, do contrário, Saós poderá ser destruído por bombas de fusão antes que o senhor chegue. Afinal, Rhodan reuniu nada menos de quatro mil naves.
Quatro mil — repetiu Atlan, com a voz apagada. — Utiliza uma frota num ataque contra um dos planetas do Grande Império! Trata-se de uma ação bélica indisfarçada.
O senhor vai agir? — perguntou Kutlós, com a voz curiosa.
Atlan fitou-o com uma expressão nada amável. Compreendia os pensamentos do sacerdote. De qualquer maneira, a conduta de Rhodan era inconcebível, pois, na verdade, equivalia a uma declaração de guerra.
Procure adivinhar — disse, dirigindo-se a Kutlós, e desligou.
Toseff abriu a boca; parecia hesitante. A comoção interna do imperador era patente. O general preferiu não soltar a observação que trazia na ponta da língua. Seu instinto lhe dizia que não podia ajudar aquele homem solitário na decisão que este teria que tomar. Naquele momento, a lealdade do general tornou-se ainda mais forte. Naquele instante teve a sensação da ligação que o unia ao imperador e da lealdade eterna que o prendia ao Grande Império.
Como o bárbaro pôde fazer uma coisa dessas? — perguntou Atlan, em tom de desânimo. — Será que quer por viva força desencadear uma guerra galáctica?
Quem sabe se o sacerdote não mentiu? — disse o general, não muito convicto. — Talvez os antis estejam interessados em provocar um conflito entre duas potências, as quais eles mesmos não podem derrotar.
Não tenho a menor dúvida de que estão interessados nisso — disse Gonozal VIII. — Acontece que o anti falou a verdade. Sabe perfeitamente que tenho meios de verificar prontamente a exatidão de suas informações. Se dissesse uma mentira, assumiria o risco de ver bloqueada a base de Saós.
O general sentiu-se apavorado ao notar que Atlan hesitava em dar a resposta adequada à provocação da Frota Solar. A amizade com Perry Rhodan prendia-o como se fosse um fio invisível. Não conseguia compreender por que o administrador da Terra fora capaz de cometer essa violação dos tratados firmados entre os dois impérios.
Majestade, qualquer hesitação de nossa parte seria interpretada como fraqueza pelos aliados e pelas colônias rebeldes — advertiu Toseff. — Além disso, provocaria outras ações dos terranos. Tudo deve ter seus limites. Queira desculpar minhas ásperas palavras.
Atlan passou a mão pelo rosto. O silêncio do grande salão produzia um efeito deprimente em Toseff. Fazia um frio desagradável, mas talvez isso não passasse de imaginação.
Agradeço-lhe por suas palavras francas, general — respondeu Atlan sério. — Sei apreciar a pessoa que me diz sua opinião sem rebuços. Entre os dignitários do império isso não é muito comum.
O senhor terá muita dificuldade em tomar uma decisão, imperador — conjeturou o lugar-tenente dos arcônidas em Saratan.
Um sorriso triste surgiu no rosto de Atlan.
Um velho provérbio arcônida diz que devemos ter paciência com os amigos, quando a amizade está ameaçada. Até que ponto deve chegar essa paciência, general?
A pergunta de Atlan retratava toda a dificuldade da situação. Atlan estava empenhado em evitar o confronto aberto com Rhodan. Mas por outro lado devia recorrer a todos os meios para proteger o Grande Império de novas investidas militares.
Atlan, talvez, teria considerado, mais uma vez, sua amizade com o terrano, se não fosse a ação do Major Albert Kullmann.
No momento em que Toseff se dispunha a responder, o centro de computação voltou a entrar em contato com Atlan. O general interrompeu-se e esperou que o imperador fizesse a ligação.
Mais uma violação da Frota Solar cometida no setor espacial submetido à soberania do Grande Império — anunciou uma voz fria, que saía dos alto-falantes. — Acabamos de receber uma mensagem de hiper-rádio expedida por uma nave dos saltadores. Uma belonave terrana fez um disparo de advertência contra uma nave mercante e obrigou-a a parar. Um comando terrano revistou a nave dos mercadores. Sonzomon, o comandante da nave dos saltadores, exige reparações imediatas e um pedido de desculpas público da parte do oficial terrano.
Com uma pancada Atlan interrompeu a ligação. Seus lábios estreitaram-se.
Agora basta! — disse em tom frio. — Por maior que seja a paciência, um dia acaba.
O que pretende fazer, majestade? — perguntou Toseff, fitando-o intensamente.
Atlan tirou um mapa estelar de um estojo que se encontrava à sua frente. Abriu-o sobre a mesa. O general inclinou-se sobre ela. Atlan traçou um círculo em torno do grupo estelar M-13. Os planetas coloniais arcônidas estavam assinalados sob a forma de pontos vermelhos. O dedo de Atlan apontou um deles.
Aqui — disse.
O que pretende fazer? — Toseff manteve os olhos presos ao mapa. Sentiu a importância histórica do momento.
Os tempos em que toleramos tudo dos bárbaros terranos chegaram ao fim, general. Árcon revidará o golpe. Não haverá outras violações — Atlan proferiu estas palavras em tom violento. — Os aliados acônidas, que ainda se encontram na fase do treinamento hipnótico, não podem entrar em ação. Isso significa que teremos de recorrer a uma frota robotizada. Esta equivale às frotas terranas quanto ao poder de fogo, mas não quanto à capacidade de reação e aos truques espantosos que os homens de Rhodan costumam usar, durante as batalhas cósmicas.
Ansioso, o arcônida de Saratan perguntou:
Quer usar uma frota para salvar Saós, imperador?
O punho cerrado de Atlan bateu no círculo que acabara de traçar no mapa.
Dez mil unidades bastarão — disse.
Dez mil!? — repetiu Toseff em tom hesitante.
Outros grupos ficarão de prontidão — prosseguiu Atlan. — Se Rhodan quer mesmo uma prova de força, nós lhe faremos a vontade.
Sem dizer uma palavra, o general fitou o mapa. Imaginou o momento em que dez mil naves robotizadas arcônidas sairiam do hiperespaço e se precipitariam, de surpresa, sobre os terranos. A imagem voltou a colocar diante de seu espírito o brilho antigo do Grande Império. Recordou-se dos grandes vultos do passado. Quando se lembrou dos nomes lendários de Ufagar, Salaston e Petech III, seus olhos brilharam.
Sem dúvida o império fora ferido e estava esfacelado e desunido, mas nem por isso passara a ser um nome vazio. Estava sendo comandado por um homem resoluto, disposto a recorrer a todos os meios disponíveis para evitar o colapso.
Nós os derrotaremos, imperador! — exclamou. — Nós os expulsaremos do Grande Império e faremos com que percam a vontade de voltar.
Atlan sacudiu a cabeça.
O senhor fala que nem um terrano, general — disse em tom suave. — Se conseguir agir como um terrano, compreenderá que é muito difícil derrotá-los. Estão impregnados da vontade férrea de não permitir que nada os detenha. E esse ímpeto que os leva para a frente é simbolizado por um único homem.
Perry Rhodan — completou Toseff.
Se conseguirmos derrotar esse homem, desferiremos um golpe mortal na Terra — disse Atlan.
Apertou um botão e o robô-criado entrou silenciosamente. Tão silenciosamente que Toseff estremeceu.
Minha conferência com Lechtos fica adiada por um tempo indeterminado — disse Atlan, dirigindo-se ao robô. — Lamento que tenha que fazer a viagem em vão.
Toseff compreendeu imediatamente o significado da ordem que Atlan acabara de dar ao robô.
Quer dizer que Vossa Majestade acompanhará a frota?
O imperador soltou uma risada.
O senhor e eu seremos os únicos arcônidas ativos numa tripulação de dez mil naves robotizadas. Que tal lhe parece isso, general?
Toseff sorriu. Era um homem experimentado, e sua resposta lacônica provava que conservara um sadio senso de humor.
A situação me parece muito promissora — respondeu.
Dali a três minutos Atlan entrou em contato com o centro de computação. Os bancos de dados positrônicos começaram a trabalhar a plena potência. Precisavam determinar uma posição de ataque favorável para a ação destinada a libertar Saós. Enquanto isso Atlan preparou-se para assumir o comando da nave capitania. A cabeça de Toseff fervilhava de idéias. Levou menos tempo que o gigantesco centro de computação para elaborar um plano de batalha.

* * *

A milhares de anos-luz Albert Kullmann, o major da Frota Solar que comandava o cruzador ligeiro Zumbasi, disse a Villaseluces, piloto da nave:
Acho que fizemos o que estava certo. A esta hora, os saltadores já sabem que não podem atravessar nenhum trecho da Galáxia que esteja sem controle. O fato lhes servirá de advertência.
Recostou-se. Parecia muito satisfeito.
Naquele mesmo instante um relê do centro de computação de Árcon III caiu. Um sinal goniométrico automático foi irradiado. Poucos minutos depois, os jatos-propulsores de dez mil belonaves arcônidas despertaram para a vida.
Um dia negro da História da Galáxia teve início.
Duas frotas gigantescas estavam na iminência de entrar em choque...
3



Os dedos de Cardif crisparam-se em torno do lugar em que o ativador celular pulsava sob o peito. Os antis o haviam induzido a arranjar o aparelho. O espírito martirizado de Cardif nem pensou na possibilidade de que Aquilo, o Ser fictício do planeta Peregrino, pudesse ter algo com as alterações de suas células. Ainda não compreendera suas advertências vagas.
E nunca mais as compreenderia...
O processo de explosão celular prosseguia de forma proporcional em todo o corpo. O cérebro era atingido da mesma forma que as outras partes. O estado de espírito de Cardif já não permitia que compreendesse o perigo: sua verdadeira identidade poderia ser revelada pelos antis!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html