autor
KURT
BRAND
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Tumulto
no zôo galáctico:
um
homem fugiu...
A
pesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o
trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do
Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar
incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na
época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros
tempos, a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo
terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar.
Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os
mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de
substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante.
Mas
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está
disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam
a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter
em sigilo sua origem terrana.
Será
que os dois agentes enviados a Tolimon obedecem a estas instruções,
no momento em que dão início à busca d’o Soro da Vida...?
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
John
Marshall
— Que
se instalou em Tolimon sob o disfarce de um mercador de animais.
Laury
Marten
— A
linda filha dos mutantes Anne Sloane e Ralf Marten.
Rohun
— Um
mercador galáctico.
Huxul
— Funcionário
do Serviço de Vigilância de Estrangeiros.
Otznam
— Que
usa o mesmo disfarce de um mascarado.
Man
Regg
— Um
genial médico ara.
Futgris
— Que
se sente muito feliz por ter o privilégio de trabalhar para Ixt.
Conde
Rodrigo
de
Berceo
— Um
jovem do ano de 1.652.
1
Enquanto
o cruzador leve deixava o planeta Hellgate,
levando a bordo, como prisioneiro, o solitário do tempo, Atlan,
dirigindo-se ao planeta Terra, situado a 12.348 anos-luz, Perry
Rhodan tomou lugar diante da memória do hipercomunicador. Só agora
teve tempo para deixar desfilar diante de si as mensagens dos últimos
meses, expedidas pelos agentes que se encontravam no planeta Tolimon.
Por
enquanto, notícias de terceira categoria lhe feriam o ouvido. Rhodan
mal prestava atenção. Lançou os olhos para fora da abóbada de
aço, que era o único lugar daquele planeta supersaturado de calor
em que a vida humana podia manter-se, e contemplou o deserto que
tremeluzia sob os raios amarelo-pálido do sol ZW-2536-K-957.
Rhodan
escolhera Hellgate, o único astro que gravitava em torno desse sol,
e que constituía um mundo inútil e sem vida, para servir de base
secreta situada nos limites extremos do Império de Árcon, a fim de
ficar o mais próximo possível do planeta Tolimon. A oitenta e um
anos-luz de Hellgate esse planeta gravitava, como segundo de um grupo
de seis mundos, em torno da estrela Revnur, um sol do tipo G.
Há
um ano — mais precisamente, em maio de 2.039 — Perry Rhodan
tivera pela primeira vez sua atenção despertada para Tolimon.
Estava interessado mais do que nunca em saber o que estariam fazendo
os aras, os mais geniais dentre os médicos galácticos. E Tolimon
era um mundo dos aras. Talvez ocupasse uma posição sem par no seio
da imensa Galáxia: era formado por um único zoológico.
Rhodan
chegou a uma conclusão lógica: médicos galácticos mais zoológico,
igual a pesquisa. A conclusão levou-o a empregar seus agentes em
Tolimon. E a essa hora o telepata John Marshall e a mutante Laury
Marten encontravam-se há oito meses nesse mundo dos aras, empenhados
na solução de um problema específico. E Rhodan deixava desfilar
diante de si justamente os comunicados que os agentes haviam enviado
a intervalos irregulares para Hellgate por meio do hipercomunicador.
O
dispositivo de memória estava reproduzindo uma mensagem transmitida
três semanas atrás. A voz de John Marshall era inconfundível.
Apenas disse três frases. E cada uma dessas frases continha uma
informação negativa. John Marshall e Laury Marten não estavam
conseguindo nada em Tolimon.
Depois
disso, a memória do aparelho emudeceu.
Perry
Rhodan desligou. Para ele, o longo tempo de espera começaria.
Acontece que não dispunha de tempo para esperar muito.
O
que estava em jogo era a vida de Thora, sua esposa, e de Crest. Os
dois estavam envelhecendo de repente. A arte médica, que até então
conseguira deter o processo, começava a revelar-se ineficaz. Um novo
soro, produzido na Terra, também não conseguiu retardar a
decadência biológica. E no planeta Peregrino, o mundo da vida
eterna, aquilo recusava a ducha celular aos dois arcônidas.
O
fim natural parecia aproximar-se inexoravelmente, quando seus agentes
chegaram à Terra com boatos que falavam num certo planeta Tolimon,
um mundo pertencente aos médicos galácticos. Segundo esses boatos,
há séculos alguns seres humanos estariam sendo conservados num
zoológico dos aras existente em Tolimon, sem apresentar qualquer
sinal de envelhecimento.
Será
que a notícia não passava de boato? Ou seria algo mais que isso?
O
amor que sentia pela esposa e por seu amigo Crest fez com que
recorresse aos mutantes John Marshall e Laury Marten para encontrar a
resposta a essa pergunta, enviando-os a Tolimon.
Será
que os médicos galácticos, os aras, haviam descoberto um soro
prolongador da vida, cuja eficácia era muitíssimo superior ao dos
arcônidas?
Se
é que esse soro existia, Perry Rhodan tinha que apoderar-se dele;
era o mínimo que poderia fazer por Thora e Crest. Por isso,
encontrava-se em Hellgate, sob a proteção da abóbada de aço,
aguardando que, depois de tanto tempo, John Marshall e Laury Marten
finalmente conseguissem aproximar-se do objetivo.
2
O
saltador Ixt saiu de seu luxuoso escritório, situado na Rua do
Grande Mo, no centro recém-construído da cidade de Trulan, e entrou
discretamente no salão amplo e moderno destinado às vendas.
Um
ara de ombros largos regateava em voz alta com dois vendedores.
— Isso
não é nenhum preço; é uma extorsão. Em qualquer lugar consigo os
gegerutavis pela metade. Amigos, estou disposto a pagar cento e
oitenta. De acordo?
— Cento
e oitenta por peça! — disse Futgris, o melhor vendedor de Ixt, com
um sorriso amável para o ara enfurecido.
— Cento
e oitenta o casal — fungou este. — Em Aralon estes bichos são
vendidos a quarenta o casal.
Futgris
sorriu.
— É
verdade. Compramos os gegerutavis em Aralon. Acontece que de Aralon
para Tolimon temos as despesas de transporte: são cerca de dez mil
anos-luz.
— É
o cúmulo da sem-vergonhice — disse o ara enfurecido, batendo com o
punho numa gaiola. Um dos hiobargulus, que dormiam nesta, assustou-se
e fez um barulho tremendo.
No
mesmo instante, o ara deu um enorme salto, fitou a pequena gaiola da
qual vinha o barulho infernal e, depois que o hiobargulu se tinha
acalmado, gaguejou:
— Isso
é um truque para levar seus fregueses a pagar os preços extorsivos
pedidos pelo senhor?
Futgris
respondeu com o maior sangue-frio:
— Vendemos
os hiobargulus muito barato: apenas vinte por peça. Para o casal,
fazemos o preço de trinta e cinco. Dão cria oito vezes por ano; são
seis filhotes de cada vez.
O
ara não deixava de ter seu senso de humor. Subitamente um largo
sorriso cobriu seu rosto.
— Pode
embrulhar um casal, desde que garanta que estes bichos fazem este
barulho infernal toda vez que são assustados.
— Ora
— apressou-se Futgris em asseverar. — Não há problema. Não
sabe que uma das características destas criaturas é a de que só
não fazem barulho enquanto estão dormindo? No momento, colocamos
estes bichos num estado de profunda sonolência; por isso estão
quietos. Permite que pergunte qual é a experiência que pretende
realizar com os hiobargulus?
O
ara sorriu e esfregou as mãos.
— Que
experiência, que nada! — exclamou. — Trata-se de presente. Minha
sogra faz anos amanhã. Em vez de um casal de gegerutavis cantores eu
lhe dou estas crias do inferno. Será que o senhor poderia pôr os
animais para dormir, de tal forma que só comecem a fazer barulho
amanhã ao meio-dia? Será muito divertido!
Futgris
teve o atrevimento de perguntar:
— Será
que o senhor não está exagerando com a senhora sua sogra?
O
ara logo desanimou. Acenou gravemente com a cabeça e disse em tom
deprimido:
— Talvez
o senhor tenha razão. Embrulhe também um casal de gegerutavis, para
qualquer emergência.
Mas
resolveu experimentar de novo. Bateu com o punho sobre a gaiola e,
mais uma vez, ouviu-se o barulho infernal.
Afetado
visivelmente pela nova orgia de sons, o homem atreveu-se a olhar para
dentro da gaiola. Um animalzinho azul e peludo, de cerca de dez
centímetros de comprimento, com os olhos azuis superdimensionados e
uma pelanca bamboleante no pescoço, estava agachado num canto,
apoiado sobre três barbatanas, e fitava-o com os olhos sonolentos.
Outro animalzinho dormia sob o efeito dos narcóticos, com a cabeça
enfiada na pelanca.
— O
que é isso? — gritou a voz potente do ara, que lançou um olhar
desconfiado para Futgris e voltou a bater na gaiola. — Não venha
me dizer que um bichinho como este faz um ruído tão infernal...
O
barulho recomeçou.
O
homem ainda estava meio surdo quando saiu da grande casa de animais
de Ixt, carregando seu mini-zôo.
Todos
os vendedores seguiram-no com os olhos, inclusive Ixt, que se
mantivera discretamente nos fundos. Não havia nada em seu rosto que
revelasse a enorme preocupação que o afligia. Não havia nenhum
sinal que traísse o fato de que não era um saltador, que desse a
perceber que seu aspecto exterior era apenas um excelente disfarce.
Quando atravessou a grande sala de exposições e vendas para voltar
ao seu luxuoso escritório, cumprimentou os empregados que se
encontravam à direita e à esquerda, conforme costumava fazer todas
as manhãs.
Os
pensamentos de Ixt estavam longe dali. Pensava no ara que acabara de
comprar um casal de hiobargulus e um casal dos caríssimos
gegerutavis com o dinheiro do governo.
Ixt
lia todos os pensamentos do ara, que vivia maldizendo a tarefa
absurda de vigiar esse saltador, só porque os dados sobre o lugar do
nascimento e o clã por ele fornecidos apresentavam alguns pontos
obscuros, que, apesar de todas as indagações, não puderam ser
esclarecidos.
Depois
de ter fechado a porta atrás de si, Ixt resmungou:
— Parece
que na Terra alguém cometeu um erro.
Teria
que tomar suas providências até a manhã do dia seguinte. Achou que
seria muito arriscado usar o sistema de comunicações da cidade de
Trulan para entrar em contato com Rohun, um comandante dos
saltadores.
Dali
a dez minutos, ao retirar-se da casa, disse de passagem a Futgris:
— Só
voltarei à tarde. Represente-me condignamente.
— Sim
senhor — asseverou o vendedor com os olhos radiantes de alegria.
Nunca tivera um chefe como Ixt. Sentia verdadeiro prazer em trabalhar
na firma.
Depois
de ter dado dez passos na rua, John Marshall já se esquecera de que
era dono de uma grande casa de animais, que se encontrava entre as
mais sofisticadas de Trulan.
Naquele
momento, só tinha um problema: chegar ao esconderijo, no bairro dos
cortiços, sem ser percebido.
*
* *
— Arga
— disse Gege Moge em tom contrariado, apontando nervosamente para o
ser estendido sobre a mesa estofada. — Ainda não percebeu que mais
uma vez nos encontramos diante de um choque anafilático? Quantas
vezes ainda terei de lhe dizer que, no estágio das experiências
preliminares, estas reações violentas não devem surgir em nenhuma
hipótese? Agora corremos o risco de perder todo o trabalho das
experiências preliminares. Mande levar o binn imediatamente ao setor
de dissecação. A pesquisa terá de revelar por que esse ser é
supersensível ao próprio soro. Por que o soro U-1f54, extraído do
binn, não pode ser empregado nas categorias de inteligência
situadas abaixo do grupo C, enquanto pode ser usado sem receio e com
os melhores resultados nos grupos B e F? Avise o setor de dissecação
de que preciso do resultado amanhã de manhã. Vamos, providencie
logo!
O
médico ara seguiu a estudante arcônida Arga Slim com um olhar
contrariado. Depois disso, fitou o binn. Tratava-se de um ser que
nenhum homem seria capaz de classificar. Tratava-se de um ser situado
entre os reinos animal e vegetal; absorvia o ar à maneira das
plantas, mas no que dizia respeito à comida e à bebida apresentava
traços animais inconfundíveis. Apesar disso, o binn não era nem
planta nem animal, mas um ser dotado de inteligência, muito embora
esta fosse bastante limitada, situando-o na categoria do quociente C.
Gege
Moge contemplou com olhos de cientista o cadáver chato como uma
folha, dotado de cinco membros, que serviam tanto à locomoção
quanto à apreensão de objetos e ao trabalho. O binn tinha menos de
um metro de altura e pesava cerca de quarenta quilos. A cabeça em
forma de caule de flor fechara as dobras que escondiam os órgãos
dos sentidos. Não se via absolutamente nada da boca, da abertura
destinada ao sentido de orientação ou dos olhos. A criatura de
sangue quente estava estendida sobre o leito duro, fria e enrijecida;
morrera do soro produzido por seu próprio corpo.
— Coitado!
— disse o cientista ara com certa emoção. — Já o conheço há
mais de trezentos anos, e de repente sua vida termina de uma hora
para outra. É uma pena, binn. Sempre gostei de trabalhar com você.
Saiu
da sala e, no corredor, voltou a encontrar-se com a estudante
arcônida Arga Slim. Dirigiu-se a ela.
— Vá
ao zoológico ainda hoje e escolha dois dos novos binns. Preciso
deles para amanhã de manhã.
— Não
tenho permissão para entrar na parte reservada do zoológico, Moge —
ponderou a estudante.
Seus
lindos olhos brilhantes fitaram-no com uma expressão de expectativa.
Enquanto
se afastava, o médico ara respondeu:
— Providenciarei
para que a administração lhe conceda uma permissão perpétua. De
qualquer maneira, dirija-se à administração antes de ir ao
zoológico, para verificar se está tudo em ordem.
“O
homem não está mentindo”,
pensou a estudante de Árcon. “Realmente
diz apenas o que pensa. Finalmente estou em condições de comunicar
um pequeno êxito a John Marshall.”
Laury
Marten, disfarçada numa estudante arcônida, sabia ler os
pensamentos dos outros, tal qual John Marshall. Pensativa, caminhou
em direção ao elevador antigravitacional, que a levou ao pavimento
em que residia há vários meses.
Seus
pensamentos já estavam formulando o texto do comunicado que
pretendia transmitir
a
John Marshall.
*
* *
O
comandante dos saltadores, Rohun, nunca poderia trair John Marshall e
Laury Marten. Tinha-se relacionado muito profundamente com os agentes
de Perry Rhodan para que lhe fosse possível recuar. E, no fundo, não
era o tipo do traidor; Marshall controlara muitas vezes seus
pensamentos e nunca encontrara motivo para desconfianças.
Agora
estava sentado diante dele. Quando o saltador estava insistindo para
que Marshall abandonasse seu negócio de animais — em vez de
procurar ocultar-se nos gigantescos cortiços de Trulan — o rosto
do chefe dos mutantes, subitamente assumiu uma expressão rígida,
que o mercador galáctico já observara mais de uma vez.
John
Marshall acabara de transformar-se num receptor telepático.
Laury
Marten, filha de Ralf Marten e Anne Sloane, estava transmitindo seu
primeiro êxito de maior importância.
— Ixt
— disse Rohun, inclinando-se para a frente — o senhor ainda me
ouve?
Marshall
fez um ligeiro gesto de impaciência. Rohun compreendeu que deveria
ter calma e voltou a reclinar-se.
Concentrado
ao extremo, com os olhos semicerrados e sem fazer o menor movimento,
Marshall mantinha-se em atitude rígida. A seguir transmitiu a Laury
Marten, por via telepática, a ordem de, durante sua visita ao
zoológico, não deixar de certificar-se se ali realmente eram
mantidos homens terranos atrás de grades de radiações.
— Procure
descobrir a nacionalidade, o
ano
do nascimento e o sexo, Laury Marten. Recorra à desintegração
sempre que isso se torne necessário. Em hipótese alguma, deixe de
estabelecer contato com eles. Existem vários relatórios de nossos
agentes, segundo os quais no zoológico são mantidos homens. Laury,
a senhora tem de descobri-los. Entendido?
— Entendido
— foi
o impulso mental de. Laury Marten que ele captou. Após isso, o
contato entre os dois humanos foi interrompido.
John
Marshall parecia um homem despertando de um leve cochilo. Atirou a
cabeça para trás, abriu os olhos e descontraiu-se.
Retomou
o fio da palestra no mesmo ponto em que interrompera o mercador
galáctico.
— Não
pretendo desistir do comércio de animais, Rohun. Enquanto o serviço
secreto dos aras realiza investigações, ainda não existe um perigo
concreto. Apenas preciso saber se numa emergência poderei contar com
seu auxílio. Foi por isso que resolvi procurá-lo. O que me diz?
Marshall
controlou automaticamente os pensamentos do comandante dos
saltadores. Rohun aborrecera-se com a pergunta de seu interlocutor.
— Não
tenho nada a dizer — resmungou. — Não arrisquei o pescoço
juntamente com meu clã? Assim que der o alarma, meus agentes mais
capazes serão colocados em campo para tirá-lo do aperto. Se for
necessário, arriscarei até minha nave.
Mais
uma vez Marshall fez um movimento brusco com a cabeça. Por um
instante seus olhos refletiram a preocupação, mas logo a máscara
apática dos saltadores voltou a surgir.
— Rohun
— disse — os serviços de defesa dos aras não dormem. Daqui a
pouco o senhor deverá receber uma visita. O mesmo ara que apareceu
na minha firma hoje de manhã já se encontra na nave e está a
caminho de seu camarote. Existe algum lugar em que possa esconder-me?
O
mercador, homem impetuoso e calculista, soltou alguns sons
desconexos. Já tivera várias oportunidades de constatar que
Marshall possuía um tipo de sexto sentido para o perigo. Mas o fato
de que esse sentido lhe dava a capacidade de perceber nitidamente
acontecimentos futuros, constituía novidade para ele.
— Saia
por aqui! — exclamou Rohun em tom exaltado, colocando-se junto a
uma porta estreita.
— Não.
Prefiro ficar no seu camarote. O ara não sabe que me encontro a
bordo. Veja logo onde posso esconder-me. Rápido!
Rohun
estava bastante desconfiado. Tal qual todos os mercadores galácticos,
não dava muito valor às percepções extra-sensoriais, e aquilo que
Marshall lhe estava oferecendo era exatamente uma percepção desse
tipo. Mas acabou cedendo diante do olhar hipnotizante do outro, não
voluntariamente, mas com certa relutância.
— Não
torne o homem desconfiado — preveniu Marshall. — Ele não fará
muitas perguntas.
Com
estas palavras, Marshall estirou-se de frente e enfiou-se embaixo do
leito de Rohun, que o encobria completamente.
Pouco
depois um membro do clã entrou no camarote do mercador galáctico e
perguntou-lhe se concordava em receber Huxul, funcionário do Serviço
de Vigilância de Estrangeiros.
— Não
tenho outra alternativa — respondeu Rohun.
Huxul,
o ara que comprara um casal de gegerutavis e um de hiobargulus na
firma de Ixt, entrou no camarote.
— O
senhor é o comandante dos saltadores, Rohun? Se for, eu lhe digo que
não acredito nessa mentira do defeito do transmissor audiovisual.
Digo-lhe mais...
Embora
o mercador não se sentisse satisfeito com a visita do funcionário
do serviço secreto dos aras, não conhecia o medo e nunca toleraria
um atrevimento desse tipo.
Interrompeu
o visitante em tom áspero:
— Acredite
no que quiser! Se não estiver disposto a falar em tom civilizado, eu
o expulso da nave. Faça o favor de sentar ali.
Ofereceu
a Huxul a poltrona em que John Marshall estivera sentado há pouco.
Mal
Huxul acomodou-se, perguntou com um sorriso matreiro:
— Onde
está a pessoa que esteve sentada nesta poltrona há poucos
instantes?
Rohun
não pestanejou.
— Huxul,
não sou um ara. Sou um mercador galáctico. Minha nave é um mundo,
por si. O comandante é a única pessoa que faz perguntas aqui. O
comandante sou eu, mas nunca me daria na cabeça formular uma
pergunta idiota e estúpida como a sua.
— O
senhor interpretou mal as minhas palavras — respondeu Huxul
apressadamente e com uma amabilidade desconcertante.
Transformara-se
de uma hora para outra: de repente, apresentava-se como um homem
cortês, amável e pouco interessado no seu trabalho. Rohun ficou
surpreso.
Nem
desconfiava da existência do projetor mental de John Marshall, que
irradiava toda sua potência sobre o agente dos aras, sugestionando-o
para que considerasse sua missão como cumprida e transformasse o
tempo restante de sua permanência na nave numa palestra amável.
A
modificação começou a assustar Rohun. De repente, John Marshall
ouviu que o comandante dos saltadores se tornava enérgico.
— Huxul,
diga logo por que veio até aqui! Qual é a suspeita que pesa sobre
mim?
No
mesmo instante, Marshall aliviou a pressão sugestiva que irradiava
sobre o ara. O homem do serviço secreto não desconfiou de nada
quando disse toda a verdade. Muito interessado e com a mente tensa,
Rohun prestava atenção às suas palavras. Finalmente reclinou-se
confortavelmente na poltrona, riu gostosamente e respondeu:
— Vejo
que sua visita não é nada amigável, Huxul. Sim, estou lembrado do
tal do Ixt. É um homem inteligente, um perito na área da zoologia.
Aliás, a zoologia também é um hobby meu. É por isso que consigo
lembrar-me de Ixt. Se não me engano, tomou a nave no terceiro
planeta do sol J5457-K1, e veio a Tolimon em vôo direto. Meu caro
Huxul, nós, os mercadores galácticos, aproveitamos qualquer negócio
que aparece e muitas vezes transformamos nossas naves em veículos
turísticos, para levar os passageiros de um mundo para outro,
mediante uma paga adequada, evidentemente. Mas essa história já é
bastante antiga. O que é que eu tenho a ver com Ixt?
John
Marshall, no seu esconderijo, obrigou o agente dos aras a mais uma
vez dizer a verdade. Huxul nem se deu conta de que com isso estava
adotando um comportamento inadmissível para um agente secreto.
Aludiu ao controle rotineiro exercido pelo cérebro positrônico
instalado em Tolimon, e disse que esse aparelho infalível, ao
examinar os dados relativos a Ixt, descobrira alguns erros.
— E
desde ontem, isto é, a partir de ontem, tenho de ocupar-me com essas
ninharias — disse Huxul, concluindo suas explicações. — Estou
muito mais interessado em descobrir quem, apesar do controle dos
robôs, conseguiu roubar na fábrica de soro G-F 45 o processo mais
recente de conservação do soro imunizador X-1076. Nunca houve um
roubo como este, Rohun. E tive que desistir de uma tarefa dessas,
para andar espionando o negociante de animais Ixt. É claro que o
senhor não me pode dar qualquer informação sobre ele, não é?
Com
o rosto mais sincero deste mundo, Rohun respondeu:
— Como
poderia ter informações sobre ele?
Com
o maior prazer deu a mão a Huxul, que se despediu, e sentiu um
prazer ainda maior quando viu o homem do serviço secreto dos aras
retirar-se.
Marshall
e Rohun voltaram a ficar sentados frente a frente.
— Gostaria
de comprar os dados sobre o processo de conservação — disse
Marshall.
Rohun
sacudiu a cabeça.
— Por
estranho que possa parecer, desta vez nem eu nem meus agentes temos
qualquer coisa a ver com isso. Mas acho que sei quem arranjou isso.
Quer que entre em contato com o outro clã, por ordem e conta do
senhor? Quanto está disposto a pagar pelo processo?
— Não
dou mais de quinze mil — respondeu Marshall. — Quando poderei
saber se o outro grupo está disposto a fazer o negócio?
— Amanhã
— disse Rohun.
— Está
bem — disse Marshall. — Amanha de manhã precisarei de um sósia
de primeira linha. Para isso arranjarei uma máscara. O senhor dispõe
de três fabricantes de máscaras. Avise seus homens para que
reproduzam meu aspecto exterior no objeto que lhes será apresentado,
de tal forma que eu mesmo fique sem saber quem é o verdadeiro Ixt.
— Trata-se
de alguma missão perigosa? — perguntou Rohun com um triste
pressentimento. Aos poucos a iniciativa de Ixt começava a
amedrontá-lo.
— Amanhã
de manhã Huxul voltará a aparecer na minha casa de animais para
restituir o casal de hiobargulus e, ao mesmo tempo, tentar gravar com
sua gaiola meu modelo de vibrações cerebrais.
Rohun
levantou-se de um salto. De repente aquele homem encanecido, de quase
dois metros de altura, sentiu medo. Sacudiu a cabeça, num gesto de
recusa.
— Por
que pronunciou a palavra gaiola com tamanha ênfase, Ixt?
— Porque
Huxul aparecerá com uma gaiola especial, que não permitirá que o
berreiro infernal dos hiobargulus chegue ao exterior. Mas na
realidade, a mesma conterá um aparelho destinado ao registro de
vibrações cerebrais.
Os
olhos de Rohun iluminaram-se.
— O
que acontecerá depois, Ixt?
John
Marshall sorriu.
— Quando
estiver sentado diante de sua mesa de trabalho, Huxul ficará dando
tratos à bola para descobrir o motivo por que não captou meu modelo
de vibrações cerebrais. E, para escapar a outra repreensão de seu
chefe, inventará um relatório que não passará de uma grande
fraude.
— O
senhor consegue enxergar o futuro? — perguntou Rohun em tom
desconfiado. — Ixt, à medida que o tempo passa o senhor me assusta
cada vez mais. Se me lembro de como Huxul se tornou amável de
repente... O que andou fazendo com o homem enquanto estava deitado
embaixo de minha cama?
— O
que poderia ter feito? — disse Marshall, esquivando-se à pergunta.
— Quem será a pessoa que o senhor me mandará amanhã com a minha
máscara, Rohun?
— Otznam.
Tem a estatura do senhor. Ixt, o senhor está fazendo um jogo muito
arriscado. Está na hora de dizer o que pretende descobrir em
Tolimon. Será que pretende libertar alguém que se encontra no zôo
galáctico? Se sua intenção for essa, eu o previno para que tenha
cuidado. Os aras equiparam o zoológico com todos os dispositivos de
segurança. Por que não me coloca a par dos planos? Será que não
confia em mim e nos meus agentes?
— Não
quero expô-los a um risco desnecessário. A situação ainda se
tornará muito perigosa, e quando isso acontecer, quanto menos
saibam, melhor será para todos.
Dali
a meia hora, John Marshall saiu da nave cilíndrica do comandante dos
saltadores Rohun. Estava satisfeito com os resultados da visita que
acabara de fazer ao mercador galáctico. Tomando todas as precauções,
levou duas horas para chegar ao seu esconderijo, situado nos
gigantescos cortiços de Trulan.
3
Tolimon,
o segundo planeta da estrela de Revnur, recebia tamanha profusão de
luz de seu astro rei, que a temperatura média ao meio-dia chegava a
45 graus na sombra. Isso acontecia em Trulan, capital de Tolimon, não
na área em que os aras haviam instalado um zoológico de dimensões
fantásticas.
Em
meio a um gigantesco deserto de pedra e areia, cortado por uma cadeia
de montanhas nuas e poeirentas, os aras haviam realizado algo que não
tinha igual em toda a Galáxia.
Um
areal do tamanho da França, da Bélgica e dos Países Baixos, fora
transformado num jardim zoológico em que cada ser dispunha de boa
área para mover-se livremente. As condições reinantes no ambiente
nativo haviam sido reproduzidas artificialmente, e tudo fora feito
para reduzir ao mínimo a pressão psicológica resultante do
aprisionamento.
Laury
Marten, uma moça de vinte e três anos, de cabelo escuro e corpo
fascinante, filha de Ralf Marten e Anne Sloane, penetrou pela
primeira vez nesse zoológico, usando um caminho que não era
acessível ao público.
A
administração já anunciara sua chegada. Depois de um ligeiro
controle, no qual foi confirmada sua identidade como a da arcônida
Arga Slim, pôde atravessar a barreira de radiações. Um ara muito
gentil colocou um carro à sua disposição, explicando-lhe o
funcionamento do indicador automático de rota.
O
ara nunca vira uma arcônida que irradiasse tamanho charme. Não se
cansava de admirar os olhos, que tendiam para o formato oblíquo, e o
rosto oval. Laury percebeu tudo. Um dos pontos fundamentais do
treinamento dos agentes do Exército de Mutantes de Perry Rhodan
consistia na aquisição da capacidade de perceber imediatamente qual
era a impressão que causava nos outros.
Laury
ficou satisfeita com o resultado de suas observações. Como telepata
que era, lia os pensamentos do ara como se fossem palavras escritas
num livro aberto. O jovem ara apresentou-se com o nome de Lo Pirr.
Laury
Marten desenvolveu todos os seus encantos, sem ultrapassar os limites
da conveniência, a fim de transformar-se numa criatura inesquecível
para Lo Pirr. Era bem possível que ainda tivesse muitos contatos com
o mesmo.
Quando
seu carro disparou pela faixa de rolamento, sentiu que o olhar dele a
seguia.
*
* *
Trulan,
a capital planetária de Tolimon e o maior porto espacial desse
mundo, constituía, pela forma desordenada de sua construção, a
expressão patente de evolução precipitada.
Já
fazia oito meses que John Marshall se mantinha oculto nessa cidade
sob o disfarce de mercador galáctico. Porém a metrópole sempre o
impressionava.
Além
de servir de ponto de encontro das raças galácticas, Trulan era o
trampolim para o espaço desconhecido. O poderio do Império Arcônida
não chegava além do sistema de Revnur. Naquele setor, Tolimon era o
último dos mundos governados pelo cérebro positrônico de Árcon.
John
Marshall compreendia perfeitamente que os aras precisavam de um
organismo mastodôntico para exercerem controle, mesmo superficial,
sobre todos os estrangeiros que permaneciam no planeta por alguns
dias ou semanas. Estes últimos faziam negócios normais ou escusos,
estabeleciam contatos decentes ou clandestinos, para depois de tudo
isso desaparecerem nas profundezas da Via Láctea.
Uma
coincidência traiçoeira arrastara-o para dentro das engrenagens do
cérebro positrônico infalível. Ao que tudo indicava, ainda havia
um erro nos documentos galácticos falsificados que lhe haviam sido
entregues. Certamente esse erro fora cometido por alguma pessoa
negligente que se encontrava na Terra. Por enquanto acreditava que o
perigo não era muito grave.
Mesmo
sob o disfarce de mercador galáctico John Marshall tinha o aspecto
de um homem de trinta e cinco anos. E não se sentia mais velho que
isso, embora já tivesse noventa e quatro anos de vida.
Fora
a ducha celular do planeta Peregrino, o mundo do imortal, que
realizara esse milagre biológico. Após isso, a decadência celular
fora detida por mais de seis decênios por uma forma incompreensível.
A idade de noventa e quatro anos era apenas uma indicação numérica
ligada à pessoa de Marshall, que não resistiria a qualquer exame
médico de sua constituição orgânica.
Será
que neste mundo de Tolimon não existiam milagres parecidos?
O
milagre da vida eterna.
Era
nisso que estava pensando quando o elevador radial o deixou nos
confins da cidade, e ele atravessou a pé o limite para a zona dos
cortiços.
O
calor da tarde sufocava os desfiladeiros formados pelas ruas e
vielas. O fedor saturava o ar. À medida que John Marshall penetrava
na área dos cortiços, a miséria e a sujeira iam aumentando.
Agora
pegou uma entrada. Atravessou um restaurante e desapareceu num
toalete que possuía três saídas. Marshall não era o único que o
usava para enganar eventuais perseguidores. Diante dele, um arcônida
maltrapilho olhou ligeiramente para trás, passou pela segunda porta
e desapareceu por uma área nos fundos.
Marshall
usou a terceira saída.
Entrou
num corredor escuro que cheirava a mofo, atirou-se no elevador
antigravitacional e subiu oito andares.
Uma
vez lá em cima executou um giro rápido, viu-se diante de outro poço
e deixou-se cair três andares.
O
corredor em forma de hall estava deserto. O terceiro quarto da
esquerda acolheu-o. Um sujeito velho e esfarrapado, deitado num
leito, virou-se à sua entrada e exibiu um sorriso familiar. Marshall
colocou uma cédula sobre a mesa e desapareceu na pequena peça
contígua sem dizer uma palavra. Uma vez lá, trocou de roupa com
alguns movimentos rápidos. Seu traje distinto foi colocado num
esconderijo muito bem instalado. Estava usando alguns trapos. Um
espelho de radiações mostrou-lhe que se parecia com um saltador em
ruína.
Colocou
as mãos contra uma parede estreita que ligava a porta ao armário. A
mesma recuou silenciosamente, deixando livre um corredor no qual
Marshall entrou.
Um
elevador antigravitacional muito estreito, que mal dava para um
saltador corpulento, levou-o ao porão. Passando por entre o lixo e
os objetos abandonados à luz mortiça das luminárias, seguiu seu
caminho com segurança absoluta, até atingir uma escada.
Trinta
e seis degraus da escada em caracol levaram-no para cima. Ao pisar no
último degrau, parou e aguçou o ouvido. Depois afastou com os
braços uma pilha de roupas usadas, esgueirou-se e viu-se entre as
fileiras de cabides de uma loja de confecções.
Fazendo
o papel de um homem que não consegue decidir-se a respeito de uma
compra, Marshall saiu da loja aberta com uma hesitação fingida.
Sudf, o dono barbudo da loja, piscou às escondidas quando cruzou por
ele.
Encontrava-se
num beco que ficava três andares abaixo da entrada do estranho
restaurante. Quatro quadras adiante, ficou diante da fachada
arruinada do prédio, sob cujo telhado se encontrava seu esconderijo.
Ao virar-se, viu surgir no fim do beco, por cima dos telhados e junto
à coluna esguia do Grande Mo, uma peça de aço de trezentos metros
de altura, que na base só tinha um metro de diâmetro. A construção
não possuía juntas nem soldas, e nela, a palavra Mo estava escrita
em caracteres luminosos arcônidas.
Mo
era um gênio médico, que há mais de três mil anos morrera numa
experiência que fizera no próprio corpo. Em Tolimon, tal qual nas
outras bases dos aras, era venerado como uma divindade.
O
alojamento de Marshall, situado no 15o
andar, logo abaixo do telhado, parecia tão sujo como todas as peças
situadas naquele corredor escuro. Mas a porta, feita de chapa fina de
aço arcônida, era mais que a entrada imunda de um quarto abafado
que possuía apenas uma pequena clarabóia.
Dispositivos
de segurança dos mais sofisticados impediam que qualquer pessoa
forçasse a entrada.
Quando
John se aproximou da porta, sentiu um impulso quase imperceptível,
que provocou um formigamento de sua pele. Era o sinal de que ninguém
tentara penetrar por ali na sua ausência. Abriu o fecho e esperou
que a porta recuasse. Depois entrou e fechou-a atrás de si.
Descerrou
a pequena clarabóia, abriu a torneira de água quente e deixou que o
líquido jorrasse. Atirou-se à cama, cruzou as mãos sob a nuca e
assobiou a melodia de uma canção da moda dos saltadores.
Naquele
instante, o hipercomunicador instalado embaixo do telhado, fora do
quarto, começou a esquentar. Ao mesmo tempo, o dispositivo de
memória ligou-se automaticamente.
A
água continuava a jorrar. A clarabóia não devia ser fechada. O
sinal acústico era necessário para ligar o hipercomunicador, e o
minúsculo alto-falante do hipercomunicador estava embutido no
relógio que Marshall trazia no pulso esquerdo.
Tanto
ele como Laury Marten haviam sido equipados para esta missão com os
instrumentos mais sofisticados que, em muitos pontos, constituíam
novidade até mesmo para os aras e os arcônidas.
John
Marshall ouviu um sinal breve saído do hipercomunicador. Sentiu a
necessidade de respirar profundamente.
O
chefe encontrava-se no planeta quente de Hellgate, aguardando
notícias sobre os resultados de seu trabalho.
Marshall
refletiu ligeiramente.
Se
há pouco parte de seu relógio se transformara no alto-falante do
hipercomunicador, agora, a outra parte, tão minúscula quanto a
anterior, passou a servir de microfone, depois que Marshall comprimiu
um botão quase invisível, embutido na caixa do relógio.
O
deformador e o condensador estavam funcionando.
John
Marshall resumiu em oito frases o primeiro êxito alcançado por
Laury Marten. Omitiu o fato de que o serviço secreto dos aras andava
no seu encalço.
Fechou
a torneira de água quente e a clarabóia, fez saltar o botão
embutido na caixa do relógio e, com isso, apagou todas as pistas que
poderiam conduzir ao seu hipercomunicador.
Ficou
sentado na cama em atitude pensativa. Refletiu detidamente sobre
todos os problemas. Em hipótese alguma deveria permitir que seu
esconderijo fosse descoberto. O pequeno quarto representava o último
elo que o ligava a Perry Rhodan.
Marshall
estava prestes a sair de seu alojamento quando foi atingido pelo
impulso emitido por Laury Marten. Parou com a mão estendida em
direção à porta. Seu rosto iluminou-se e de seus lábios saiu uma
exclamação:
— Até
que enfim!
*
* *
O
indicador de rota instalado no carro fizera com que, apesar da grande
distância, Laury Marten logo encontrasse o areal dos binns. Porém
viu-se diante da barreira de radiações, que formava um obstáculo
invencível.
Lançou
os olhos em torno, à procura de um frogh, e estremeceu ao lembrar-se
do momento em que, pela primeira vez, se vira diante de um desses
seres em forma de cobra, com seis metros de comprimento.
Também
desta vez teve de esforçar-se para ver nos froghs seres
inteligentes, e não animais repugnantes. Muitos froghs dominavam,
além do intercosmo, vários dialetos arcônidas. Para comunicar-se
entre si recorriam ao vocabulário riquíssimo de sua língua
materna. Eram os amigos mais fiéis dos aras e os guardas mais
temidos pelos habitantes do zoológico. Até então nenhuma das
inteligências trancadas ali conseguira escapar. Os froghs sempre
alcançavam os fugitivos nos confins do deserto, cujas dimensões
eram planetárias.
Laury
Marten caminhou lentamente junto à barreira de radiações. Não
sabia explicar por que o frogh não aparecia para perguntar o que
desejava. Subiu uma pequena elevação, lançou os olhos em torno e
viu o ser em forma de cobra envolvido numa palestra com um jovem ara.
Este
sentiu o olhar de Laury Marten, virou a cabeça e fitou-a com uma
expressão de espanto.
No
mesmo instante, o frogh virou-se abruptamente. Com uma voz que tinha
um tom surpreendentemente humano perguntou o que Laury desejava. Esta
lhe pediu que abrisse a barreira de radiações por um instante, para
que pudesse escolher dois binns no interior do areal.
Enquanto
ainda conversava com o frogh, que erguera o terço anterior de seu
musculoso corpo de cobra e a fitava com os olhos rígidos, o ara
aproximou-se.
O
homem esbelto, de rosto intelectualizado, avaro nos menores
movimentos e reticente nas palavras, era o primeiro ara que falava um
arcônida refinado, dentre todos aqueles com que Laury já havia se
defrontado. Esta logo se interessou por ele e fez com que se
estabelecesse uma palestra animada.
Dedicou
palavras corteses à informação de que Laury estudava zoologia. O
fato de encontrar-se em Tolimon para preparar-se para os exames
finais obrigou-o a desejar-lhe muitas felicidades nas provas. No
entanto, quando Laury Marten passou, com uma indiferença fingida, do
fenômeno do artus ao tema da necrose e exprimiu sua dúvida de que
uma parte morta do organismo, restrita a uma área limitada, pudesse
ser restituída à vida por meio de ativadores, o ara subitamente
demonstrou o maior interesse.
O
médico galáctico não poderia mesmo desconfiar de que essa jovem,
treinada por meio dos métodos hipnóticos mais eficientes dos
arcônidas, além de ser entendida em zoologia, também possuía um
saber médico muito extenso.
O
ara apresentou-se como Man Regg.
Laury
Marten prosseguiu no seu jogo. Lia os pensamentos de seu interlocutor
e não tinha a menor intenção de tomar a iniciativa. Qualquer idéia
importante teria que vir de Man Regg.
Man
Regg, o ara, não era apenas um dos cem mil médicos que atuavam
nesse mundo. Man Regg era o ara que, na qualidade de chefe,
controlava a produção do soro prolongador da vida.
E
Laury Marten lançou sua isca. Um segundo depois, dizia aquilo que
seu interlocutor acabava de pensar, mas sob seus próprios pontos de
vista. Nos casos em que Man Regg demonstrava dúvida, exprimia uma
dúvida ainda maior, e quando acreditava poder formular um juízo
seguro, mostrava-se reticente em suas idéias.
Um
dos crânios mais inteligentes de Tolimon estava sendo manipulado
pelas artes telepáticas de uma jovem do planeta Terra.
E
Man Regg caiu no blefe.
Quando
perguntou onde e com quem trabalhava, Laury Marten leu em seus
pensamentos a intenção de ordenar que essa mulher de inteligência
extraordinária fosse incluída em sua equipe de pesquisas.
Subitamente
Laury Marten virou-se para o frogh. O olhar rígido daquele ser em
forma de cobra incomodou-a.
Pensou
aflita:
“Será
que os froghs também são telepatas?”
Com
um grande susto, teve de constatar que não estava informada sobre
este ponto.
Mas
logo surgiu a indagação de Man Regg sobre se estaria interessada em
concluir os preparativos para o exame sob orientação dele.
Laury
Marten já se imaginava de posse do processo de fabricação do soro
prolongador da vida. Teve de esforçar-se para não exprimir seu
júbilo por meio da luminosidade dos olhos.
— Muito
bem, Arga Slim — disse Man Regg. — Tomarei todas as providências
e tenho certeza de poder cumprimentá-la amanhã na divisão X-p.
Com
dois binns dóceis, seu carro disparou em direção ao limite do
zoológico.
Quando
voou em direção a Trulan, com os dois binns a bordo, irradiou para
John Marshall a notícia do êxito que acabara de alcançar.
Sentiu-se orgulhosa ao perceber o alívio que havia no “até
que enfim!”
de Marshall.
4
John
Marshall ficou grudado nos calcanhares de Otznam, agente dos
saltadores, em meio ao burburinho das ruas de Trulan. No seu íntimo
admirava o comandante Rohun e seu clã, pois o que os fabricantes de
máscaras haviam feito de Otznam era uma coisa inacreditável. John
Marshall teve de reprimir constantemente o desejo de fitar seu
próprio rosto a fim de verificar que impressão causaria nos outros
sob o disfarce de um saltador.
O
mercador galáctico Ixt não era ele, mas Otznam, que sob seu
disfarce caminhava pela Rua do Grande Mo, sem desconfiar de que o
verdadeiro Ixt lhe seguia todos os passos, transformado num
astronauta robusto e barbudo.
John
Marshall leu os pensamentos do outro. O homem praguejava contra sua
missão com a mesma violência com que Huxul o fizera no momento em
que saía da casa de animais com um casal de hiobargulus e
gegerutavis, para voltar à sua repartição.
Otznam
estava preocupado por ainda não ter recebido instruções precisas
sobre a maneira de conduzir-se na firma de Ixt. Quando Marshall
iniciou o tratamento com o projetor mental, não percebeu nada.
Depois
de poucos segundos, o agente dos saltadores familiarizou-se com os
rostos de todos os funcionários de Ixt. Conhecia seus nomes e sabia
quais as funções que cada um devia desempenhar. Otznam não se
surpreendeu com o fato de conhecer, em linhas gerais, o escritório
do chefe. Entrou na loja pela entrada principal, tal qual Ixt
costumava fazer todas as manhãs.
Acenou
para a direita e a esquerda, recebeu os cumprimentos de Futgris e fez
esta observação:
— Tudo
bem, Futgris?
Marshall
também entrou em sua loja e, com uma observação áspera, afastou o
vendedor que se aproximou solicitamente.
— Vou
dar uma olhada no que existe por aqui. Se resolver comprar alguma
coisa, avisarei.
Enquanto
dizia estas palavras, John Marshall observou discretamente seu
vendedor tão ativo e controlou os seus pensamentos. Verificou que
não estava identificando a voz disfarçada de seu chefe, nem seus
movimentos.
Tranqüilizado,
Marshall voltou a dedicar sua atenção a Otznam, agente dos
saltadores, fazendo-o dizer a Futgris:
— Se
houver algo de importante, estou no escritório.
— Perfeitamente
— confirmou Futgris e dirigiu-se ao grande depósito, onde estava
sendo descarregada uma remessa de animais vinda do planeta Oka.
Nem
desconfiou de que o chefe, disfarçado num astronauta barbudo,
exercia uma influência hipnótica sobre ele, enviando-o ao depósito
e ordenando-lhe que, em hipótese alguma, procurasse o chefe
em
seu escritório.
Dali
a dez minutos, John Marshall saiu de sua loja e ficou perambulando
nas proximidades. Aguardava a chegada de Huxul.
Sua
paciência foi submetida a uma prova muito dura. Por mais que
tateasse em busca dos impulsos mentais de Huxul, nada percebeu. Só
pelo meio-dia captou-os repentinamente.
Fervendo
de raiva, Huxul caminhou em direção à casa de animais.
Marshall
entrou antes dele na ampla sala de exposição com a profusão
desconcertante de animais. Escondeu-se atrás de uma grande jaula,
junto aos encantadores kikkis, animais em forma de macaco. Acabara de
afastar um vendedor insistente quando o agente dos aras entrou no
recinto, com uma gaiola especial na mão.
Futgris
era o homem competente para resolver sobre a troca de animais. Teve
de ser chamado no depósito.
Futgris
riu ao reconhecer o homem que, com os hiobargulus, queria pregar uma
peça à sogra. Subitamente seu rosto assumiu uma feição séria.
Marshall acabara de transmitir-lhe a ordem, reforçada por meios
hipnomecânicos, de determinar que o chefe decidisse sobre a troca.
Huxul
exibiu um largo sorriso enquanto resmungava seu “de
acordo”.
Segurou a gaiola especial com ambas as mãos, encostou-a ao peito e
colocou-a numa posição em que uma das faces apontava ligeiramente
para cima.
Marshall
perscrutou os pensamentos de Huxul. O agente dos aras ainda fervia de
raiva. Lembrava-se da bronca que tivera de agüentar no dia anterior,
ao regressar da nave cilíndrica de Rohun. Acusaram-no de negligência
no desempenho de suas funções e de uma conduta injustificável,
arrasando com ele em questão de capacidade. Também foi recriminado
por ter adquirido os animais tão caros, muito embora a idéia não
tivesse partido dele, mas do chefe.
Naquele
instante, estava Futgris saindo do escritório, juntamente com o
falso Ixt.
John
Marshall ativou o contato do projetor mental escondido em seu bolso.
Tratava-se de versão miniaturizada do conhecido aparelho dos
arcônidas, que funcionava somente porque John Marshall reforçava
sua ação por meio do dom telepático de que era dotado. Por isso
mesmo não havia o menor perigo de que o mini-projetor mental fosse
descoberto.
Huxul
descansou a gaiola entre as paredes acústicas onde estavam guardados
os hiobargulus com sua voz potente. Ixt recusou-se a aceitar os
animais de volta. Mostrou-se interessado na gaiola acústica. O
agente dos aras foi a amabilidade em pessoa e concordou plenamente
quando Otznam, sob o disfarce de Ixt, pegou a gaiola para examiná-la
mais detidamente. Ao fazê-lo, executou um giro de cento e oitenta
graus.
Através
de Huxul, John Marshall ficara sabendo em que ponto se localizava o
contato destinado à captação do modelo de vibrações cerebrais. O
agente dos aras implorou para que Ixt aceitasse os animais de volta e
devolvesse o dinheiro. Disse que desde a manhã daquele dia a sogra
não o deixava em paz. Estava arrependido da brincadeira de mau gosto
e não sabia como acalmar a velha.
Otznam,
disfarçado como Ixt, teve tempo para registrar o modelo de vibrações
cerebrais de Huxul. No momento em que colocou a gaiola no chão por
ordem de Marshall, este lhe deu ordem de aceitar os bichinhos de
volta. Futgris saiu apressadamente com a gaiola, desapareceu no
depósito e, logo a seguir, a trouxe vazia.
Huxul
recebeu de volta o preço da compra, agradeceu com a maior
amabilidade, pegou a gaiola vazia e saiu da loja com uma pressa
surpreendente.
O
falso Ixt voltou ao escritório, e Futgris ao depósito.
Assim,
John Marshall considerou concluída sua intervenção, mas Huxul
ainda precisaria de tratamento intensivo.
Seguiu-o
lentamente, esgueirando-se por entre o tráfego da trepidante Rua do
Grande Mo. Aos poucos, foi alcançando o agente dos aras.
Seguiu-o
com um olhar pensativo quando este entrou no gigantesco edifício do
serviço secreto dos aras, segurando a gaiola como se fosse um objeto
extremamente frágil.
*
* *
Huxul
esperou que o laboratório lhe fornecesse o modelo de vibrações
cerebrais com uma interpretação completa. Enquanto isso pretendia
redigir o relatório, mas havia alguma coisa em sua cabeça que o
impedia de conceber qualquer idéia clara. Tornou-se cada vez mais
difícil lembrar o que havia acontecido há uma hora na casa de
animais de Ixt.
Finalmente
a fita rolante trouxe o modelo de vibrações cerebrais acompanhado
da respectiva interpretação.
O
círculo estrelado que se via no canto inferior esquerdo representava
o sinal de que o modelo passara pelo cérebro positrônico.
Entusiasmado,
acenou com a cabeça, quando descobriu o número de código.
— O
que é isso? Ixt já está registrado aqui e tem um número de
identificação dos aras — disse Huxul em tom de espanto e passou a
mão pela testa.
Subitamente
passou a desenvolver uma atividade intensa. Entrou em contato com a
divisão positrônica H. Era ali que estavam armazenados todos os
algarismos de identificação dos aras. Transmitiu o número de
código. Quase no mesmo instante, a tela que se encontrava sobre sua
escrivaninha iluminou-se.
Levou
alguns segundos para compreender que aquilo que estava lendo eram
seus próprios dados pessoais. E levou mais cinco segundos para
compreender que já não compreendia mais nada.
Logo
lembrou-se das ameaças que os dois chefes a que estava subordinado
haviam formulado no dia anterior.
Isso
bastou para uma ação precipitada.
Huxul
redigiu um relatório que, em nenhum dos seus detalhes, correspondia
à verdade dos fatos. Porém, por enquanto, isto o livraria de uma
repreensão ainda mais intensa dos chefes. Evidentemente esse
relatório era extremamente favorável ao mercador galáctico Ixt,
que explorava o comércio de animais numa loja da Rua do Grande Mo.
As divergências insignificantes em seus dados pessoais foram
atribuídas a um lapso.
Apenas,
Huxul se esquecia, ao redigir seu relatório fictício, que
inevitavelmente haveria de chegar o momento em que o grande cérebro
positrônico examinaria o relatório sob o aspecto da coerência
lógica. Aí então, a mentira fatalmente seria descoberta.
John
Marshall, que continuava parado diante do edifício, controlando os
pensamentos de Huxul, lembrou-se desse fato. Mas nem por isso ficou
preocupado. Não estava em condições de impedir a investigação,
que se encontrava em curso, sobre sua pessoa. Porém cada dia que
conseguisse
ganhar dava a ele e a Laury Marten novas chances de atingir o
objetivo a que se tinham proposto.
Em
Hellgate, a cerca de oitenta e um anos-luz de Tolimon, Perry Rhodan,
protegido pela abóbada de aço, aguardava o resultado de seus
esforços.
*
* *
Aquilo
que Man Regg, o médico dos aras, designara diante da barreira
energética como X-p, surgiu diante dos olhos de Laury Marten como
uma construção gigantesca. E, pelo que sabia da arquitetura dos
médicos galácticos, supôs que o complexo penetraria na terra numa
profundidade equivalente a três vezes sua altura.
Por
cima da entrada principal, via-se esta inscrição singela: X-p.
X-p
ficava praticamente no centro do zoológico continental, bem longe
das áreas acessíveis aos curiosos, em meio a um desolado deserto de
pedras, aquecido dia após dia pelos raios causticantes do sol.
O
edifício de oito pavimentos, que parecia fundido numa única peça,
estendia-se a uma distância de vários quilômetros.
Laury
teve dificuldade em determinar o formato da construção. À primeira
vista, pensou num cano superdimensionado de extremidades
arredondadas, mas agora, que se encontrava bem diante do mesmo,
contemplando a fachada tingida num azul-pálido, não teve tanta
certeza.
Sentiu
o coração palpitar ligeiramente quando penetrou no setor de
controle. Tratava-se de ampla sala decorada com um luxo discreto, de
cores sóbrias e com uma atmosfera agradavelmente refrigerada. Os
tapetes abafavam os sons.
Qualquer
controle envolvia o perigo de que, graças à sua constituição
orgânica, Laury fosse desmascarada como não-arcônida. Muito embora
na Terra houvessem sido tomadas todas as providências possíveis
para que o fato não pudesse ser revelado por meio de simples
radioscopia, não se deveria esquecer que havia uma diferença enorme
entre a tecnologia de Árcon e a dos aras.
A
evolução milenar dos médicos galácticos, tal qual a dos
mercadores galácticos, ambos descendentes da raça dos arcônidas,
processara-se por trilhas próprias. O simples fato de que o
abastecimento de medicamentos aos mundos dominados por Árcon fosse
feito pelos aras, se transformara numa idéia consagrada e bastava
para deixar claro o caminho extraordinário tomado pela evolução
autônoma dos médicos galácticos. Formavam uma população de
bilhões de habitantes que corporificava um saber ao qual os
arcônidas nada poderiam contrapor na área da medicina. Foi só
graças ao cérebro gigante positronizado instalado em Árcon, que
numa função autárquica decidia sobre a existência de todos e em
todos os sentidos, que a tentativa de apoderar-se do Império de
Árcon, realizada há muito tempo pelos aras, terminara num fracasso.
Foram
essas as idéias que passaram pela cabeça de Laury Marten enquanto a
mesma se encontrava no setor de controle, onde foi testada pelas
lentes de cristal.
O
sinal azul-claro de liberação, que surgiu repentinamente diante
dela, aliviou-a da tensão. No mesmo instante, pôs-se em movimento e
não se espantou quando a grande porta transparente P II
recuou
silenciosamente diante dela, deixando livre o interior de X-p.
Uma
abóbada radiante estendia-se acima de sua cabeça. Uma abóbada no
interior da construção em forma de tubo? Avançou a passos
hesitantes. A luz fosforescente que saía das aberturas do teto e se
refletia palidamente em torno do centro do soalho compacto deixou-a
confusa. O saber hipnótico que lhe fora ministrado não conseguia
explicar esses reflexos luminosos.
Uma
voz sonora mandou que se aproximasse do círculo luminoso desenhado
no centro do soalho e caminhasse uma vez por sua periferia. Só mais
tarde ficou sabendo que dessa forma a parte exterior de seu corpo
seria libertada de germes.
Surpresa,
Laury obedeceu. Não sentiu nada enquanto caminhava de um feixe
luminoso a outro. Mas mal havia concluído o giro, a mesma voz
indagou sobre seus desejos.
Em
voz baixa, Laury declarou ter sido transferida para X-p por ordem de
Man Regg. A seguir, pronunciou seu nome arcônida, Arga Slim, e
aguardou novas ordens.
Já
fazia cinco minutos que se encontrava no interior do edifício, e até
então não havia visto um único ara ou robô.
À
sua direita, a parede da abóbada abriu-se em forma de diafragma.
Surgiu uma abertura circular e, pela última vez, ouviu a voz sonora,
que lhe ordenou que atravessasse a abertura e deixasse o resto por
conta da fita transportadora.
Mais
uma vez, Laury Marten sentiu a tensão formiguenta que já se
apossara dela quando atravessou a entrada do edifício.
Espantou-se
ao perceber que entrara numa sala fechada. Não viu nenhuma fita.
Apenas, o chão começou a trepidar ligeiramente assim que, atrás
dela, o diafragma se fechou silenciosamente.
Pensou
na possibilidade de outro controle. Afinal, X-p era o lugar em que
era produzido o maior segredo dos médicos galácticos: o soro
prolongador da vida.
Laury
Marten espantou-se com o próprio nervosismo quando a parede que se
encontrava diante dela subitamente se abriu para os lados e ela se
viu diante de Man Regg, o homem que conhecera no dia anterior.
Seus
olhos exprimiram certo orgulho quando notou a perturbação da moça.
Depois de cumprimentá-la, disse:
— Nós,
os aras, não progredimos apenas no terreno da medicina. A
tecnologia, que tem sido negligenciada por muito tempo, experimentou
novo impulso entre nós, Arga.
Sentaram-se
frente a frente.
Mais
uma vez, Laury Marten fez o jogo do gato e do rato com Man Regg. Lia
seus pensamentos e formulava as respostas de acordo com os mesmos.
Recorria
ao genial saber do cientista para fazer seus blefes contra o mesmo.
Isso só lhe foi possível porque, antes de lhe ser confiada a
missão, boa parte do saber médico dos arcônidas lhe fora
transmitido por meio de um processo de aprendizagem hipnótica.
Especializara-se principalmente nas áreas da zoologia galáctica e
da soroterapia.
De
repente, uma expressão de desconfiança surgiu nos olhos de Man
Regg.
Laury
Marten se descuidara. Exprimira seus pensamentos de forma quase
inalterada. Mas
o pior
não
era isso. O fato era que nenhum
arcônida poderia dispor desse conhecimento, por se tratar de um dos
numerosos
segredos cuidadosamente guardados de X-p.
Apesar
da falha a mutante teve sorte. A lição que Perry Rhodan vivia
inoculando nos seus homens transformou-se em sua salvação.
O
erro que acabara de cometer não a deixou perturbada. De repente,
Laury Marten se tornou fria, isenta de qualquer influência
emocional; transformou-se no protótipo do homem lógico.
Tomado
por um princípio de desconfiança, Man Regg formulou em pensamento
as linhas gerais do processo que, para seu espanto, a arcônida
mencionara como que por acaso.
Sua
pergunta terminante e inequívoca ainda pendia no ar, mas Laury
Marten já preparara a resposta.
Sorriu.
Inclinou-se para a frente. Jogou com todo charme que possuía, e
brilhou com seu saber.
— O
problema resume-se numa seqüência de conclusões lógicas, Man... —
principiou, e passou a expor sua opinião.
Com
um sorriso nos lábios, observou o efeito que suas palavras produziam
no rosto de Regg. Ao lado da desconfiança, viu o espanto e a
admiração, que acabaram por prevalecer. O cientista, geralmente tão
prosaico, acabou por entusiasmar-se com a lógica tão bem elaborada
de Laury Marten, a ponto de exclamar impulsivamente:
— Estou
pensando em outra coisa, Arga. A senhora gostaria de trabalhar na
minha equipe pessoal?
Ao
concordar, Laury Marten acreditava encontrar-se próxima ao objetivo.
*
* *
John
Marshall captou a mensagem telepática de Laury Marten quando se
encontrava a caminho da nave de Rohun, o comandante dos saltadores.
Sua exposição otimista forneceu-lhe certo estímulo moral. A
disposição eufórica perdurou até que atingisse o gigantesco
espaçoporto de Trulan e procurasse em vão localizar a nave
cilíndrica de Rohun.
Rohun
decolara sem avisá-lo!
No
mesmo instante, John Marshall — ainda sob a máscara de um barbudo
— colocou seu espírito num estado de alarma rigorosíssimo.
Naquele
instante, recebeu o impulso de Laury Marten.
O
movimento intenso do espaçoporto desapareceu diante dos olhos de
Marshall. Não via decolar e pousar as naves e não deu a menor
atenção ao que se passava em torno dele. Apenas perscrutou-se, a
fim de ouvir o relato da mutante.
John
Marshall enfureceu-se! Acabara de conhecer os menores detalhes do que
se passara entre Laury Marten e Man Regg. Soube inclusive de sua
resposta leviana e sua tentativa de livrar-se da situação
embaraçosa em que se encontrava através de novas peripécias com o
saber de Man Regg.
Ainda
pertencia ao círculo de colaboradores pessoais do cientista, mas no
espírito de Man Regg haviam surgido dúvidas sobre a pessoa de Laury
Marten.
Em
X-p, Man Regg entrara em contato não só com a Divisão de
Segurança, mas também com o serviço secreto sediado em Trulan,
pedindo-lhe que realizasse um exame acurado da estudante de zoologia
Arga Slim. O argumento de maior peso, que Man Regg formulou em apoio
a suas suspeitas, culminou nestas palavras:
— Como
estudante de zoologia, a arcônida Arga Slim dispõe de um saber que
infelizmente tenho procurado em vão entre os meus médicos.
O
rosto de John Marshall assumiu uma expressão rígida.
Lembrou-se
de suas preocupações, que desde o início giravam em torno de Laury
Marten. Ainda lhe faltava a prática, o último retoque da
personalidade, que faria com que não superestimasse suas próprias
habilidades
e, principalmente, a
necessária visão
global das
coisas. Ainda era capaz de embriagar-se
com
um êxito momentâneo, e essa
embriaguez a levava a cometer
erros.
“Se
nos dados de Laury também houver alguma divergência, todo o mundo
de Tolimon se colocará em nosso encalço”,
pensou e teve uma sensação de desconforto.
Arrancou-se
violentamente em meio às suas preocupações. Antes de mais nada,
precisava descobrir por que Rohun decolara com a nave.
Marshall
encontrava-se sobre a fita-guia, que levava ao setor G-8 do
espaçoporto. Era o lugar em que ainda ontem estivera estacionada a
nave de Rohun. Mais uma vez passou os olhos pelo enorme campo de
pouso. Viu que uma nave arcônida com sua típica forma esférica
rompeu silenciosamente a delgada camada de nuvens e pousou suave.
Virou-se em direção ao distribuidor, um sistema de elevadores
antigravitacionais, a fim de que este o conduzisse à via elevada,
onde tomaria uma condução que o levasse de volta ao centro da
cidade.
Finalmente
descobriu, em meio à confusão, Egmon, um dos agentes de Rohun
estacionados em Tolimon.
Aquele
saltador mais se parecia com um arcônida. Seus cabelos louro-claros
chamavam a atenção de qualquer um. Mas havia em Egmon outro detalhe
ainda mais estranho, que sempre voltava a fascinar Marshall: o
aspecto dos olhos do agente mudava constantemente, da mesma forma que
um camaleão muda a cor da pele.
— Egmon
— disse Marshall, ao passar por ele.
O
agente dos saltadores ouvira seu nome, mas não conhecia o barbudo
que lhe dirigira a palavra.
John
dirigiu-se a um dos numerosos robôs de informações. Indicou o
número da nave de Rohun e procurou saber para onde se dirigira o
mercador galáctico.
— Não
posso dar nenhuma informação — rangeu, um tanto mecanizada, a voz
do robô.
Marshall
não esperara outra coisa. Sentiu que alguém se encontrava bem atrás
dele. No mesmo instante, usou seu dom telepático para alcançar os
pensamentos desse alguém.
Os
pensamentos de Egmon podiam ser tudo, menos pacíficos. O agente de
Rohun via naquele sujeito um espião dos aras e, para estar preparado
para qualquer iniciativa, mantinha engatilhado o radiador de impulsos
que trazia no bolso.
Ao
virar-se, Marshall cochichou:
— Se
eu fosse você, não apertaria o gatilho, Egmon.
O
saltador ainda estava desconfiado, porém havia na voz de Marshall
alguma coisa que lhe parecia conhecida. Mas Egmon só se tranqüilizou
quando o mutante citou seu nome.
— O
que o torna irreconhecível não é a barba, mas os ombros largos —
disse Egmon em tom perplexo. — Por todas as estrelas, Ixt, estou
esperando pelo senhor há várias horas. Nosso chefe recebeu más
notícias. Por isso decolou e encontra-se a meio caminho entre
Tolimon e Hellgate, onde aguarda o desenrolar dos acontecimentos.
— Que
acontecimentos?
— Um
homem do clã de Estgal foi apanhado e submetido à lavagem cerebral.
Marshall
não sabia quem era Estgal, patriarca dos saltadores.
— O
clã de Estgal vive contrabandeando medicamentos dos aras. Os aras
sabem disso, mas nunca conseguiram pegar Estgal em flagrante ou
desmontar sua organização que age na superfície. Caso Estgal se
tivesse mantido no mesmo ramo, poderia ter ficado muito velho.
— Estgal
está morto?! — indagou admirado, Marshall. De repente, passou a
interessar-se por esse desconhecido patriarca.
— Há
três ou quatro horas foi destruído em pleno espaço com dezoito
naves, por uma formação bélica dos aras. É por isso que este
lugar está cheio de espiões dos aras.
Egmon,
que Marshall tinha na lembrança como um agente de Rohun, fechado e
de poucas palavras, estava desenvolvendo uma verbosidade irritante
enquanto apresentava seu relatório. Foi só graças ao treinamento a
que eram submetidos os colaboradores de Rhodan que Marshall conseguiu
dominar-se:
— Faça
o favor de limitar-se ao essencial, Egmon. O que foi que Estgal quis
arranjar?
— Já
havia arranjado — cochichou o agente louro-claro. — Por meio de
um ara subornado, conseguiu arranjar na fábrica de soro G-F 45 o
processo de conservação do soro imunizador X-1076...
Estas
palavras pareciam familiares a Marshall. Lembrou-se de ter lido os
pensamentos de Kuxul, que também se haviam ocupado com esse processo
e seu desaparecimento.
— E
depois?
— Na
última noite Hduzz, membro do clã de Estgal, foi preso e submetido
à lavagem cerebral. Depois disso, também o ara corrupto foi preso e
submetido ao mesmo tratamento. Quando tudo isso terminou, o dia já
estava amanhecendo. Estgal recebeu um aviso e fugiu para o espaço
com suas naves. Mas as naves de guerra dos aras já o esperavam e
destruíram seus veículos cilíndricos. Já compreende por que meu
chefe resolveu deslocar-se para um ponto situado a quarenta anos-luz
deste planeta?
Marshall
deixou a pergunta sem resposta.
— Vocês
mantiveram contatos muito estreitos com os agentes de Estgal?
— Essa
informação só pode ser dada por Tulin ou Otznam — respondeu o
saltador, enquanto a cor de seus olhos mudou de novo.
Marshall
realizou um exame rápido para verificar se Egmon estava dizendo a
verdade. Não descobriu nenhuma mentira em seus pensamentos.
Limitou-se a pedir:
— Amanhã
a esta hora quero encontrar-me com Tulin neste lugar. Será que você
poderia avisá-lo?
— Ele
poderá estar aqui dentro de uma hora — disse Egmon, enquanto seus
olhos emitiram um brilho esverdeado.
— Será
amanhã! — disse Marshall em tom decidido. Fez um gesto quase
imperceptível para Egmon e desapareceu em meio à confusão dos
transeuntes.
Entrou
no distribuidor, ou seja, o lugar através do qual se atingiam as
diversas ruas por meio dos elevadores antigravitacionais. Subiu e,
uma vez na via elevada número quatro, tomou o expresso radial que
corria velozmente em direção ao centro da cidade.
Seus
pensamentos estavam absortos na missão que Perry Rhodan havia
confiado a ele e a Laury Marten.
Respirava
pesadamente. A missão parecia-lhe quase insolúvel.
*
* *
Man
Regg sacudiu a cabeça pela terceira vez, mas não interrompeu o
relatório do ara de sua Divisão de Segurança. Com a paciência de
um homem bem equilibrado, ouvia-o atentamente.
Man
Regg, o médico genial dos aras, não era o único ouvinte. Três
colegas encontravam-se em sua companhia, e estes também não
interrompiam o relatório.
— Pode
retirar-se! — com estas palavras, Man Regg dispensou o chefe da
Divisão de Segurança de X-p.
Quando
se viu sozinho com os colegas, perguntou:
— Então?
Três
vezes ouviu esta opinião:
— Tudo
perfeito, mas...
O
mas, três vezes repetido, dizia respeito a Laury Marten.
O
serviço secreto dos aras penetrara até o centro do império estelar
dos arcônidas, por meio do hipercomunicador, em busca do passado de
Laury Marten. A central de Trulan seguira outros caminhos que os da
Divisão de Segurança do conjunto X-p, mas ambas chegaram ao mesmo
resultado.
Arga
Slim era uma arcônida de vinte e três anos, vinda do planeta Dewen.
Era estudante de zoologia e, dentro em breve, teria de prestar os
exames finais. Segundo a opinião dos professores, era dotada de um
talento médico extraordinário.
Não
havia o que objetar nos dados. O retrato recebido de Dewen pelo
hipercomunicador correspondia aproximadamente ao aspecto de Laury
Marten. A diferença devia provir da falta de nitidez da transmissão.
Apesar
disso, Man Regg não estava satisfeito com o resultado obtido por
dois caminhos diferentes. Estava formulando uma sugestão. Era claro
que, sendo o chefe, só ouviria aplausos à mesma.
Gelte,
um zoólogo ara, examinaria Arga Slim em presença dos seus colegas
Kelisse e Assa. Man Regg permaneceria na sala contígua, onde
acompanharia tudo pelo sistema de comunicação audiovisual.
Man
Regg dirigiu-se à sala contígua. Arga Slim — ou melhor, Laury
Marten — recebeu ordem para apresentar-se ao chefe. Os três
cientistas aras acreditaram que tivessem diante de si uma arcônida
desprevenida. Laury deixou que permanecessem nessa convicção. Sabia
do que se tratava.
Entrou
com um sorriso amável nos lábios e fingiu-se espantada quando em
vez de Man Regg notou três aras desconhecidos à sua frente. Sentou
e logo se viu envolvida num exame bastante duro.
Precisou
lançar mão de toda energia e concentração de que era capaz para
não cair do extremo da estudante superdotada para o extremo oposto,
pois isto seria uma tolice fora do comum.
O
saber médico arcônida que lhe fora transmitido durante o processo
de aprendizagem hipnótica não lhe teria adiantado muito. Mas, da
mesma forma que aproveitara o saber de Man Regg para brilhar,
valeu-se dos conhecimentos dos três examinadores para escapar sã e
salva de todos os obstáculos e armadilhas do caminho. Embora fosse
telepata e pudesse ler pensamentos, via-se obrigada a realizar um
trabalho de mestre para controlar três cérebros, concentrar-se nas
respostas e continuar a oferecer a imagem de uma arcônida segura e
confiante.

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