sábado, 2 de março de 2013

P-051- O Soro da Vida - Kurt Brand [parte 1]



autor
KURT BRAND



Tradução
RICHARD PAUL NETO



Digitalização
VITÓRIO



Revisão
ARLINDO_SAN
Tumulto no zôo galáctico:
um homem fugiu...


A pesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos — todos eles mutantes do célebre exército — continuam a ser instruídos no sentido de, em quaisquer circunstâncias, manter em sigilo sua origem terrana.
Será que os dois agentes enviados a Tolimon obedecem a estas instruções, no momento em que dão início à busca d’o Soro da Vida...?


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

John MarshallQue se instalou em Tolimon sob o disfarce de um mercador de animais.

Laury MartenA linda filha dos mutantes Anne Sloane e Ralf Marten.

RohunUm mercador galáctico.

HuxulFuncionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros.

OtznamQue usa o mesmo disfarce de um mascarado.

Man ReggUm genial médico ara.

FutgrisQue se sente muito feliz por ter o privilégio de trabalhar para Ixt.

Conde Rodrigo de BerceoUm jovem do ano de 1.652.
1



Enquanto o cruzador leve deixava o planeta Hellgate, levando a bordo, como prisioneiro, o solitário do tempo, Atlan, dirigindo-se ao planeta Terra, situado a 12.348 anos-luz, Perry Rhodan tomou lugar diante da memória do hipercomunicador. Só agora teve tempo para deixar desfilar diante de si as mensagens dos últimos meses, expedidas pelos agentes que se encontravam no planeta Tolimon.
Por enquanto, notícias de terceira categoria lhe feriam o ouvido. Rhodan mal prestava atenção. Lançou os olhos para fora da abóbada de aço, que era o único lugar daquele planeta supersaturado de calor em que a vida humana podia manter-se, e contemplou o deserto que tremeluzia sob os raios amarelo-pálido do sol ZW-2536-K-957.
Rhodan escolhera Hellgate, o único astro que gravitava em torno desse sol, e que constituía um mundo inútil e sem vida, para servir de base secreta situada nos limites extremos do Império de Árcon, a fim de ficar o mais próximo possível do planeta Tolimon. A oitenta e um anos-luz de Hellgate esse planeta gravitava, como segundo de um grupo de seis mundos, em torno da estrela Revnur, um sol do tipo G.
Há um ano — mais precisamente, em maio de 2.039 — Perry Rhodan tivera pela primeira vez sua atenção despertada para Tolimon. Estava interessado mais do que nunca em saber o que estariam fazendo os aras, os mais geniais dentre os médicos galácticos. E Tolimon era um mundo dos aras. Talvez ocupasse uma posição sem par no seio da imensa Galáxia: era formado por um único zoológico.
Rhodan chegou a uma conclusão lógica: médicos galácticos mais zoológico, igual a pesquisa. A conclusão levou-o a empregar seus agentes em Tolimon. E a essa hora o telepata John Marshall e a mutante Laury Marten encontravam-se há oito meses nesse mundo dos aras, empenhados na solução de um problema específico. E Rhodan deixava desfilar diante de si justamente os comunicados que os agentes haviam enviado a intervalos irregulares para Hellgate por meio do hipercomunicador.
O dispositivo de memória estava reproduzindo uma mensagem transmitida três semanas atrás. A voz de John Marshall era inconfundível. Apenas disse três frases. E cada uma dessas frases continha uma informação negativa. John Marshall e Laury Marten não estavam conseguindo nada em Tolimon.
Depois disso, a memória do aparelho emudeceu.
Perry Rhodan desligou. Para ele, o longo tempo de espera começaria. Acontece que não dispunha de tempo para esperar muito.
O que estava em jogo era a vida de Thora, sua esposa, e de Crest. Os dois estavam envelhecendo de repente. A arte médica, que até então conseguira deter o processo, começava a revelar-se ineficaz. Um novo soro, produzido na Terra, também não conseguiu retardar a decadência biológica. E no planeta Peregrino, o mundo da vida eterna, aquilo recusava a ducha celular aos dois arcônidas.
O fim natural parecia aproximar-se inexoravelmente, quando seus agentes chegaram à Terra com boatos que falavam num certo planeta Tolimon, um mundo pertencente aos médicos galácticos. Segundo esses boatos, há séculos alguns seres humanos estariam sendo conservados num zoológico dos aras existente em Tolimon, sem apresentar qualquer sinal de envelhecimento.
Será que a notícia não passava de boato? Ou seria algo mais que isso?
O amor que sentia pela esposa e por seu amigo Crest fez com que recorresse aos mutantes John Marshall e Laury Marten para encontrar a resposta a essa pergunta, enviando-os a Tolimon.
Será que os médicos galácticos, os aras, haviam descoberto um soro prolongador da vida, cuja eficácia era muitíssimo superior ao dos arcônidas?
Se é que esse soro existia, Perry Rhodan tinha que apoderar-se dele; era o mínimo que poderia fazer por Thora e Crest. Por isso, encontrava-se em Hellgate, sob a proteção da abóbada de aço, aguardando que, depois de tanto tempo, John Marshall e Laury Marten finalmente conseguissem aproximar-se do objetivo.
2



O saltador Ixt saiu de seu luxuoso escritório, situado na Rua do Grande Mo, no centro recém-construído da cidade de Trulan, e entrou discretamente no salão amplo e moderno destinado às vendas.
Um ara de ombros largos regateava em voz alta com dois vendedores.
Isso não é nenhum preço; é uma extorsão. Em qualquer lugar consigo os gegerutavis pela metade. Amigos, estou disposto a pagar cento e oitenta. De acordo?
Cento e oitenta por peça! — disse Futgris, o melhor vendedor de Ixt, com um sorriso amável para o ara enfurecido.
Cento e oitenta o casal — fungou este. — Em Aralon estes bichos são vendidos a quarenta o casal.
Futgris sorriu.
É verdade. Compramos os gegerutavis em Aralon. Acontece que de Aralon para Tolimon temos as despesas de transporte: são cerca de dez mil anos-luz.
É o cúmulo da sem-vergonhice — disse o ara enfurecido, batendo com o punho numa gaiola. Um dos hiobargulus, que dormiam nesta, assustou-se e fez um barulho tremendo.
No mesmo instante, o ara deu um enorme salto, fitou a pequena gaiola da qual vinha o barulho infernal e, depois que o hiobargulu se tinha acalmado, gaguejou:
Isso é um truque para levar seus fregueses a pagar os preços extorsivos pedidos pelo senhor?
Futgris respondeu com o maior sangue-frio:
Vendemos os hiobargulus muito barato: apenas vinte por peça. Para o casal, fazemos o preço de trinta e cinco. Dão cria oito vezes por ano; são seis filhotes de cada vez.
O ara não deixava de ter seu senso de humor. Subitamente um largo sorriso cobriu seu rosto.
Pode embrulhar um casal, desde que garanta que estes bichos fazem este barulho infernal toda vez que são assustados.
Ora — apressou-se Futgris em asseverar. — Não há problema. Não sabe que uma das características destas criaturas é a de que só não fazem barulho enquanto estão dormindo? No momento, colocamos estes bichos num estado de profunda sonolência; por isso estão quietos. Permite que pergunte qual é a experiência que pretende realizar com os hiobargulus?
O ara sorriu e esfregou as mãos.
Que experiência, que nada! — exclamou. — Trata-se de presente. Minha sogra faz anos amanhã. Em vez de um casal de gegerutavis cantores eu lhe dou estas crias do inferno. Será que o senhor poderia pôr os animais para dormir, de tal forma que só comecem a fazer barulho amanhã ao meio-dia? Será muito divertido!
Futgris teve o atrevimento de perguntar:
Será que o senhor não está exagerando com a senhora sua sogra?
O ara logo desanimou. Acenou gravemente com a cabeça e disse em tom deprimido:
Talvez o senhor tenha razão. Embrulhe também um casal de gegerutavis, para qualquer emergência.
Mas resolveu experimentar de novo. Bateu com o punho sobre a gaiola e, mais uma vez, ouviu-se o barulho infernal.
Afetado visivelmente pela nova orgia de sons, o homem atreveu-se a olhar para dentro da gaiola. Um animalzinho azul e peludo, de cerca de dez centímetros de comprimento, com os olhos azuis superdimensionados e uma pelanca bamboleante no pescoço, estava agachado num canto, apoiado sobre três barbatanas, e fitava-o com os olhos sonolentos. Outro animalzinho dormia sob o efeito dos narcóticos, com a cabeça enfiada na pelanca.
O que é isso? — gritou a voz potente do ara, que lançou um olhar desconfiado para Futgris e voltou a bater na gaiola. — Não venha me dizer que um bichinho como este faz um ruído tão infernal...
O barulho recomeçou.
O homem ainda estava meio surdo quando saiu da grande casa de animais de Ixt, carregando seu mini-zôo.
Todos os vendedores seguiram-no com os olhos, inclusive Ixt, que se mantivera discretamente nos fundos. Não havia nada em seu rosto que revelasse a enorme preocupação que o afligia. Não havia nenhum sinal que traísse o fato de que não era um saltador, que desse a perceber que seu aspecto exterior era apenas um excelente disfarce. Quando atravessou a grande sala de exposições e vendas para voltar ao seu luxuoso escritório, cumprimentou os empregados que se encontravam à direita e à esquerda, conforme costumava fazer todas as manhãs.
Os pensamentos de Ixt estavam longe dali. Pensava no ara que acabara de comprar um casal de hiobargulus e um casal dos caríssimos gegerutavis com o dinheiro do governo.
Ixt lia todos os pensamentos do ara, que vivia maldizendo a tarefa absurda de vigiar esse saltador, só porque os dados sobre o lugar do nascimento e o clã por ele fornecidos apresentavam alguns pontos obscuros, que, apesar de todas as indagações, não puderam ser esclarecidos.
Depois de ter fechado a porta atrás de si, Ixt resmungou:
Parece que na Terra alguém cometeu um erro.
Teria que tomar suas providências até a manhã do dia seguinte. Achou que seria muito arriscado usar o sistema de comunicações da cidade de Trulan para entrar em contato com Rohun, um comandante dos saltadores.
Dali a dez minutos, ao retirar-se da casa, disse de passagem a Futgris:
Só voltarei à tarde. Represente-me condignamente.
Sim senhor — asseverou o vendedor com os olhos radiantes de alegria. Nunca tivera um chefe como Ixt. Sentia verdadeiro prazer em trabalhar na firma.
Depois de ter dado dez passos na rua, John Marshall já se esquecera de que era dono de uma grande casa de animais, que se encontrava entre as mais sofisticadas de Trulan.
Naquele momento, só tinha um problema: chegar ao esconderijo, no bairro dos cortiços, sem ser percebido.

* * *

Arga — disse Gege Moge em tom contrariado, apontando nervosamente para o ser estendido sobre a mesa estofada. — Ainda não percebeu que mais uma vez nos encontramos diante de um choque anafilático? Quantas vezes ainda terei de lhe dizer que, no estágio das experiências preliminares, estas reações violentas não devem surgir em nenhuma hipótese? Agora corremos o risco de perder todo o trabalho das experiências preliminares. Mande levar o binn imediatamente ao setor de dissecação. A pesquisa terá de revelar por que esse ser é supersensível ao próprio soro. Por que o soro U-1f54, extraído do binn, não pode ser empregado nas categorias de inteligência situadas abaixo do grupo C, enquanto pode ser usado sem receio e com os melhores resultados nos grupos B e F? Avise o setor de dissecação de que preciso do resultado amanhã de manhã. Vamos, providencie logo!
O médico ara seguiu a estudante arcônida Arga Slim com um olhar contrariado. Depois disso, fitou o binn. Tratava-se de um ser que nenhum homem seria capaz de classificar. Tratava-se de um ser situado entre os reinos animal e vegetal; absorvia o ar à maneira das plantas, mas no que dizia respeito à comida e à bebida apresentava traços animais inconfundíveis. Apesar disso, o binn não era nem planta nem animal, mas um ser dotado de inteligência, muito embora esta fosse bastante limitada, situando-o na categoria do quociente C.
Gege Moge contemplou com olhos de cientista o cadáver chato como uma folha, dotado de cinco membros, que serviam tanto à locomoção quanto à apreensão de objetos e ao trabalho. O binn tinha menos de um metro de altura e pesava cerca de quarenta quilos. A cabeça em forma de caule de flor fechara as dobras que escondiam os órgãos dos sentidos. Não se via absolutamente nada da boca, da abertura destinada ao sentido de orientação ou dos olhos. A criatura de sangue quente estava estendida sobre o leito duro, fria e enrijecida; morrera do soro produzido por seu próprio corpo.
Coitado! — disse o cientista ara com certa emoção. — Já o conheço há mais de trezentos anos, e de repente sua vida termina de uma hora para outra. É uma pena, binn. Sempre gostei de trabalhar com você.
Saiu da sala e, no corredor, voltou a encontrar-se com a estudante arcônida Arga Slim. Dirigiu-se a ela.
Vá ao zoológico ainda hoje e escolha dois dos novos binns. Preciso deles para amanhã de manhã.
Não tenho permissão para entrar na parte reservada do zoológico, Moge — ponderou a estudante.
Seus lindos olhos brilhantes fitaram-no com uma expressão de expectativa.
Enquanto se afastava, o médico ara respondeu:
Providenciarei para que a administração lhe conceda uma permissão perpétua. De qualquer maneira, dirija-se à administração antes de ir ao zoológico, para verificar se está tudo em ordem.
O homem não está mentindo”, pensou a estudante de Árcon. “Realmente diz apenas o que pensa. Finalmente estou em condições de comunicar um pequeno êxito a John Marshall.”
Laury Marten, disfarçada numa estudante arcônida, sabia ler os pensamentos dos outros, tal qual John Marshall. Pensativa, caminhou em direção ao elevador antigravitacional, que a levou ao pavimento em que residia há vários meses.
Seus pensamentos já estavam formulando o texto do comunicado que pretendia transmitir a John Marshall.

* * *

O comandante dos saltadores, Rohun, nunca poderia trair John Marshall e Laury Marten. Tinha-se relacionado muito profundamente com os agentes de Perry Rhodan para que lhe fosse possível recuar. E, no fundo, não era o tipo do traidor; Marshall controlara muitas vezes seus pensamentos e nunca encontrara motivo para desconfianças.
Agora estava sentado diante dele. Quando o saltador estava insistindo para que Marshall abandonasse seu negócio de animais — em vez de procurar ocultar-se nos gigantescos cortiços de Trulan — o rosto do chefe dos mutantes, subitamente assumiu uma expressão rígida, que o mercador galáctico já observara mais de uma vez.
John Marshall acabara de transformar-se num receptor telepático.
Laury Marten, filha de Ralf Marten e Anne Sloane, estava transmitindo seu primeiro êxito de maior importância.
Ixt — disse Rohun, inclinando-se para a frente — o senhor ainda me ouve?
Marshall fez um ligeiro gesto de impaciência. Rohun compreendeu que deveria ter calma e voltou a reclinar-se.
Concentrado ao extremo, com os olhos semicerrados e sem fazer o menor movimento, Marshall mantinha-se em atitude rígida. A seguir transmitiu a Laury Marten, por via telepática, a ordem de, durante sua visita ao zoológico, não deixar de certificar-se se ali realmente eram mantidos homens terranos atrás de grades de radiações.
Procure descobrir a nacionalidade, o ano do nascimento e o sexo, Laury Marten. Recorra à desintegração sempre que isso se torne necessário. Em hipótese alguma, deixe de estabelecer contato com eles. Existem vários relatórios de nossos agentes, segundo os quais no zoológico são mantidos homens. Laury, a senhora tem de descobri-los. Entendido?
Entendido — foi o impulso mental de. Laury Marten que ele captou. Após isso, o contato entre os dois humanos foi interrompido.
John Marshall parecia um homem despertando de um leve cochilo. Atirou a cabeça para trás, abriu os olhos e descontraiu-se.
Retomou o fio da palestra no mesmo ponto em que interrompera o mercador galáctico.
Não pretendo desistir do comércio de animais, Rohun. Enquanto o serviço secreto dos aras realiza investigações, ainda não existe um perigo concreto. Apenas preciso saber se numa emergência poderei contar com seu auxílio. Foi por isso que resolvi procurá-lo. O que me diz?
Marshall controlou automaticamente os pensamentos do comandante dos saltadores. Rohun aborrecera-se com a pergunta de seu interlocutor.
Não tenho nada a dizer — resmungou. — Não arrisquei o pescoço juntamente com meu clã? Assim que der o alarma, meus agentes mais capazes serão colocados em campo para tirá-lo do aperto. Se for necessário, arriscarei até minha nave.
Mais uma vez Marshall fez um movimento brusco com a cabeça. Por um instante seus olhos refletiram a preocupação, mas logo a máscara apática dos saltadores voltou a surgir.
Rohun — disse — os serviços de defesa dos aras não dormem. Daqui a pouco o senhor deverá receber uma visita. O mesmo ara que apareceu na minha firma hoje de manhã já se encontra na nave e está a caminho de seu camarote. Existe algum lugar em que possa esconder-me?
O mercador, homem impetuoso e calculista, soltou alguns sons desconexos. Já tivera várias oportunidades de constatar que Marshall possuía um tipo de sexto sentido para o perigo. Mas o fato de que esse sentido lhe dava a capacidade de perceber nitidamente acontecimentos futuros, constituía novidade para ele.
Saia por aqui! — exclamou Rohun em tom exaltado, colocando-se junto a uma porta estreita.
Não. Prefiro ficar no seu camarote. O ara não sabe que me encontro a bordo. Veja logo onde posso esconder-me. Rápido!
Rohun estava bastante desconfiado. Tal qual todos os mercadores galácticos, não dava muito valor às percepções extra-sensoriais, e aquilo que Marshall lhe estava oferecendo era exatamente uma percepção desse tipo. Mas acabou cedendo diante do olhar hipnotizante do outro, não voluntariamente, mas com certa relutância.
Não torne o homem desconfiado — preveniu Marshall. — Ele não fará muitas perguntas.
Com estas palavras, Marshall estirou-se de frente e enfiou-se embaixo do leito de Rohun, que o encobria completamente.
Pouco depois um membro do clã entrou no camarote do mercador galáctico e perguntou-lhe se concordava em receber Huxul, funcionário do Serviço de Vigilância de Estrangeiros.
Não tenho outra alternativa — respondeu Rohun.
Huxul, o ara que comprara um casal de gegerutavis e um de hiobargulus na firma de Ixt, entrou no camarote.
O senhor é o comandante dos saltadores, Rohun? Se for, eu lhe digo que não acredito nessa mentira do defeito do transmissor audiovisual. Digo-lhe mais...
Embora o mercador não se sentisse satisfeito com a visita do funcionário do serviço secreto dos aras, não conhecia o medo e nunca toleraria um atrevimento desse tipo.
Interrompeu o visitante em tom áspero:
Acredite no que quiser! Se não estiver disposto a falar em tom civilizado, eu o expulso da nave. Faça o favor de sentar ali.
Ofereceu a Huxul a poltrona em que John Marshall estivera sentado há pouco.
Mal Huxul acomodou-se, perguntou com um sorriso matreiro:
Onde está a pessoa que esteve sentada nesta poltrona há poucos instantes?
Rohun não pestanejou.
Huxul, não sou um ara. Sou um mercador galáctico. Minha nave é um mundo, por si. O comandante é a única pessoa que faz perguntas aqui. O comandante sou eu, mas nunca me daria na cabeça formular uma pergunta idiota e estúpida como a sua.
O senhor interpretou mal as minhas palavras — respondeu Huxul apressadamente e com uma amabilidade desconcertante.
Transformara-se de uma hora para outra: de repente, apresentava-se como um homem cortês, amável e pouco interessado no seu trabalho. Rohun ficou surpreso.
Nem desconfiava da existência do projetor mental de John Marshall, que irradiava toda sua potência sobre o agente dos aras, sugestionando-o para que considerasse sua missão como cumprida e transformasse o tempo restante de sua permanência na nave numa palestra amável.
A modificação começou a assustar Rohun. De repente, John Marshall ouviu que o comandante dos saltadores se tornava enérgico.
Huxul, diga logo por que veio até aqui! Qual é a suspeita que pesa sobre mim?
No mesmo instante, Marshall aliviou a pressão sugestiva que irradiava sobre o ara. O homem do serviço secreto não desconfiou de nada quando disse toda a verdade. Muito interessado e com a mente tensa, Rohun prestava atenção às suas palavras. Finalmente reclinou-se confortavelmente na poltrona, riu gostosamente e respondeu:
Vejo que sua visita não é nada amigável, Huxul. Sim, estou lembrado do tal do Ixt. É um homem inteligente, um perito na área da zoologia. Aliás, a zoologia também é um hobby meu. É por isso que consigo lembrar-me de Ixt. Se não me engano, tomou a nave no terceiro planeta do sol J5457-K1, e veio a Tolimon em vôo direto. Meu caro Huxul, nós, os mercadores galácticos, aproveitamos qualquer negócio que aparece e muitas vezes transformamos nossas naves em veículos turísticos, para levar os passageiros de um mundo para outro, mediante uma paga adequada, evidentemente. Mas essa história já é bastante antiga. O que é que eu tenho a ver com Ixt?
John Marshall, no seu esconderijo, obrigou o agente dos aras a mais uma vez dizer a verdade. Huxul nem se deu conta de que com isso estava adotando um comportamento inadmissível para um agente secreto. Aludiu ao controle rotineiro exercido pelo cérebro positrônico instalado em Tolimon, e disse que esse aparelho infalível, ao examinar os dados relativos a Ixt, descobrira alguns erros.
E desde ontem, isto é, a partir de ontem, tenho de ocupar-me com essas ninharias — disse Huxul, concluindo suas explicações. — Estou muito mais interessado em descobrir quem, apesar do controle dos robôs, conseguiu roubar na fábrica de soro G-F 45 o processo mais recente de conservação do soro imunizador X-1076. Nunca houve um roubo como este, Rohun. E tive que desistir de uma tarefa dessas, para andar espionando o negociante de animais Ixt. É claro que o senhor não me pode dar qualquer informação sobre ele, não é?
Com o rosto mais sincero deste mundo, Rohun respondeu:
Como poderia ter informações sobre ele?
Com o maior prazer deu a mão a Huxul, que se despediu, e sentiu um prazer ainda maior quando viu o homem do serviço secreto dos aras retirar-se.
Marshall e Rohun voltaram a ficar sentados frente a frente.
Gostaria de comprar os dados sobre o processo de conservação — disse Marshall.
Rohun sacudiu a cabeça.
Por estranho que possa parecer, desta vez nem eu nem meus agentes temos qualquer coisa a ver com isso. Mas acho que sei quem arranjou isso. Quer que entre em contato com o outro clã, por ordem e conta do senhor? Quanto está disposto a pagar pelo processo?
Não dou mais de quinze mil — respondeu Marshall. — Quando poderei saber se o outro grupo está disposto a fazer o negócio?
Amanhã — disse Rohun.
Está bem — disse Marshall. — Amanha de manhã precisarei de um sósia de primeira linha. Para isso arranjarei uma máscara. O senhor dispõe de três fabricantes de máscaras. Avise seus homens para que reproduzam meu aspecto exterior no objeto que lhes será apresentado, de tal forma que eu mesmo fique sem saber quem é o verdadeiro Ixt.
Trata-se de alguma missão perigosa? — perguntou Rohun com um triste pressentimento. Aos poucos a iniciativa de Ixt começava a amedrontá-lo.
Amanhã de manhã Huxul voltará a aparecer na minha casa de animais para restituir o casal de hiobargulus e, ao mesmo tempo, tentar gravar com sua gaiola meu modelo de vibrações cerebrais.
Rohun levantou-se de um salto. De repente aquele homem encanecido, de quase dois metros de altura, sentiu medo. Sacudiu a cabeça, num gesto de recusa.
Por que pronunciou a palavra gaiola com tamanha ênfase, Ixt?
Porque Huxul aparecerá com uma gaiola especial, que não permitirá que o berreiro infernal dos hiobargulus chegue ao exterior. Mas na realidade, a mesma conterá um aparelho destinado ao registro de vibrações cerebrais.
Os olhos de Rohun iluminaram-se.
O que acontecerá depois, Ixt?
John Marshall sorriu.
Quando estiver sentado diante de sua mesa de trabalho, Huxul ficará dando tratos à bola para descobrir o motivo por que não captou meu modelo de vibrações cerebrais. E, para escapar a outra repreensão de seu chefe, inventará um relatório que não passará de uma grande fraude.
O senhor consegue enxergar o futuro? — perguntou Rohun em tom desconfiado. — Ixt, à medida que o tempo passa o senhor me assusta cada vez mais. Se me lembro de como Huxul se tornou amável de repente... O que andou fazendo com o homem enquanto estava deitado embaixo de minha cama?
O que poderia ter feito? — disse Marshall, esquivando-se à pergunta. — Quem será a pessoa que o senhor me mandará amanhã com a minha máscara, Rohun?
Otznam. Tem a estatura do senhor. Ixt, o senhor está fazendo um jogo muito arriscado. Está na hora de dizer o que pretende descobrir em Tolimon. Será que pretende libertar alguém que se encontra no zôo galáctico? Se sua intenção for essa, eu o previno para que tenha cuidado. Os aras equiparam o zoológico com todos os dispositivos de segurança. Por que não me coloca a par dos planos? Será que não confia em mim e nos meus agentes?
Não quero expô-los a um risco desnecessário. A situação ainda se tornará muito perigosa, e quando isso acontecer, quanto menos saibam, melhor será para todos.
Dali a meia hora, John Marshall saiu da nave cilíndrica do comandante dos saltadores Rohun. Estava satisfeito com os resultados da visita que acabara de fazer ao mercador galáctico. Tomando todas as precauções, levou duas horas para chegar ao seu esconderijo, situado nos gigantescos cortiços de Trulan.
3



Tolimon, o segundo planeta da estrela de Revnur, recebia tamanha profusão de luz de seu astro rei, que a temperatura média ao meio-dia chegava a 45 graus na sombra. Isso acontecia em Trulan, capital de Tolimon, não na área em que os aras haviam instalado um zoológico de dimensões fantásticas.
Em meio a um gigantesco deserto de pedra e areia, cortado por uma cadeia de montanhas nuas e poeirentas, os aras haviam realizado algo que não tinha igual em toda a Galáxia.
Um areal do tamanho da França, da Bélgica e dos Países Baixos, fora transformado num jardim zoológico em que cada ser dispunha de boa área para mover-se livremente. As condições reinantes no ambiente nativo haviam sido reproduzidas artificialmente, e tudo fora feito para reduzir ao mínimo a pressão psicológica resultante do aprisionamento.
Laury Marten, uma moça de vinte e três anos, de cabelo escuro e corpo fascinante, filha de Ralf Marten e Anne Sloane, penetrou pela primeira vez nesse zoológico, usando um caminho que não era acessível ao público.
A administração já anunciara sua chegada. Depois de um ligeiro controle, no qual foi confirmada sua identidade como a da arcônida Arga Slim, pôde atravessar a barreira de radiações. Um ara muito gentil colocou um carro à sua disposição, explicando-lhe o funcionamento do indicador automático de rota.
O ara nunca vira uma arcônida que irradiasse tamanho charme. Não se cansava de admirar os olhos, que tendiam para o formato oblíquo, e o rosto oval. Laury percebeu tudo. Um dos pontos fundamentais do treinamento dos agentes do Exército de Mutantes de Perry Rhodan consistia na aquisição da capacidade de perceber imediatamente qual era a impressão que causava nos outros.
Laury ficou satisfeita com o resultado de suas observações. Como telepata que era, lia os pensamentos do ara como se fossem palavras escritas num livro aberto. O jovem ara apresentou-se com o nome de Lo Pirr.
Laury Marten desenvolveu todos os seus encantos, sem ultrapassar os limites da conveniência, a fim de transformar-se numa criatura inesquecível para Lo Pirr. Era bem possível que ainda tivesse muitos contatos com o mesmo.
Quando seu carro disparou pela faixa de rolamento, sentiu que o olhar dele a seguia.

* * *

Trulan, a capital planetária de Tolimon e o maior porto espacial desse mundo, constituía, pela forma desordenada de sua construção, a expressão patente de evolução precipitada.
Já fazia oito meses que John Marshall se mantinha oculto nessa cidade sob o disfarce de mercador galáctico. Porém a metrópole sempre o impressionava.
Além de servir de ponto de encontro das raças galácticas, Trulan era o trampolim para o espaço desconhecido. O poderio do Império Arcônida não chegava além do sistema de Revnur. Naquele setor, Tolimon era o último dos mundos governados pelo cérebro positrônico de Árcon.
John Marshall compreendia perfeitamente que os aras precisavam de um organismo mastodôntico para exercerem controle, mesmo superficial, sobre todos os estrangeiros que permaneciam no planeta por alguns dias ou semanas. Estes últimos faziam negócios normais ou escusos, estabeleciam contatos decentes ou clandestinos, para depois de tudo isso desaparecerem nas profundezas da Via Láctea.
Uma coincidência traiçoeira arrastara-o para dentro das engrenagens do cérebro positrônico infalível. Ao que tudo indicava, ainda havia um erro nos documentos galácticos falsificados que lhe haviam sido entregues. Certamente esse erro fora cometido por alguma pessoa negligente que se encontrava na Terra. Por enquanto acreditava que o perigo não era muito grave.
Mesmo sob o disfarce de mercador galáctico John Marshall tinha o aspecto de um homem de trinta e cinco anos. E não se sentia mais velho que isso, embora já tivesse noventa e quatro anos de vida.
Fora a ducha celular do planeta Peregrino, o mundo do imortal, que realizara esse milagre biológico. Após isso, a decadência celular fora detida por mais de seis decênios por uma forma incompreensível. A idade de noventa e quatro anos era apenas uma indicação numérica ligada à pessoa de Marshall, que não resistiria a qualquer exame médico de sua constituição orgânica.
Será que neste mundo de Tolimon não existiam milagres parecidos?
O milagre da vida eterna.
Era nisso que estava pensando quando o elevador radial o deixou nos confins da cidade, e ele atravessou a pé o limite para a zona dos cortiços.
O calor da tarde sufocava os desfiladeiros formados pelas ruas e vielas. O fedor saturava o ar. À medida que John Marshall penetrava na área dos cortiços, a miséria e a sujeira iam aumentando.
Agora pegou uma entrada. Atravessou um restaurante e desapareceu num toalete que possuía três saídas. Marshall não era o único que o usava para enganar eventuais perseguidores. Diante dele, um arcônida maltrapilho olhou ligeiramente para trás, passou pela segunda porta e desapareceu por uma área nos fundos.
Marshall usou a terceira saída.
Entrou num corredor escuro que cheirava a mofo, atirou-se no elevador antigravitacional e subiu oito andares.
Uma vez lá em cima executou um giro rápido, viu-se diante de outro poço e deixou-se cair três andares.
O corredor em forma de hall estava deserto. O terceiro quarto da esquerda acolheu-o. Um sujeito velho e esfarrapado, deitado num leito, virou-se à sua entrada e exibiu um sorriso familiar. Marshall colocou uma cédula sobre a mesa e desapareceu na pequena peça contígua sem dizer uma palavra. Uma vez lá, trocou de roupa com alguns movimentos rápidos. Seu traje distinto foi colocado num esconderijo muito bem instalado. Estava usando alguns trapos. Um espelho de radiações mostrou-lhe que se parecia com um saltador em ruína.
Colocou as mãos contra uma parede estreita que ligava a porta ao armário. A mesma recuou silenciosamente, deixando livre um corredor no qual Marshall entrou.
Um elevador antigravitacional muito estreito, que mal dava para um saltador corpulento, levou-o ao porão. Passando por entre o lixo e os objetos abandonados à luz mortiça das luminárias, seguiu seu caminho com segurança absoluta, até atingir uma escada.
Trinta e seis degraus da escada em caracol levaram-no para cima. Ao pisar no último degrau, parou e aguçou o ouvido. Depois afastou com os braços uma pilha de roupas usadas, esgueirou-se e viu-se entre as fileiras de cabides de uma loja de confecções.
Fazendo o papel de um homem que não consegue decidir-se a respeito de uma compra, Marshall saiu da loja aberta com uma hesitação fingida. Sudf, o dono barbudo da loja, piscou às escondidas quando cruzou por ele.
Encontrava-se num beco que ficava três andares abaixo da entrada do estranho restaurante. Quatro quadras adiante, ficou diante da fachada arruinada do prédio, sob cujo telhado se encontrava seu esconderijo. Ao virar-se, viu surgir no fim do beco, por cima dos telhados e junto à coluna esguia do Grande Mo, uma peça de aço de trezentos metros de altura, que na base só tinha um metro de diâmetro. A construção não possuía juntas nem soldas, e nela, a palavra Mo estava escrita em caracteres luminosos arcônidas.
Mo era um gênio médico, que há mais de três mil anos morrera numa experiência que fizera no próprio corpo. Em Tolimon, tal qual nas outras bases dos aras, era venerado como uma divindade.
O alojamento de Marshall, situado no 15o andar, logo abaixo do telhado, parecia tão sujo como todas as peças situadas naquele corredor escuro. Mas a porta, feita de chapa fina de aço arcônida, era mais que a entrada imunda de um quarto abafado que possuía apenas uma pequena clarabóia.
Dispositivos de segurança dos mais sofisticados impediam que qualquer pessoa forçasse a entrada.
Quando John se aproximou da porta, sentiu um impulso quase imperceptível, que provocou um formigamento de sua pele. Era o sinal de que ninguém tentara penetrar por ali na sua ausência. Abriu o fecho e esperou que a porta recuasse. Depois entrou e fechou-a atrás de si.
Descerrou a pequena clarabóia, abriu a torneira de água quente e deixou que o líquido jorrasse. Atirou-se à cama, cruzou as mãos sob a nuca e assobiou a melodia de uma canção da moda dos saltadores.
Naquele instante, o hipercomunicador instalado embaixo do telhado, fora do quarto, começou a esquentar. Ao mesmo tempo, o dispositivo de memória ligou-se automaticamente.
A água continuava a jorrar. A clarabóia não devia ser fechada. O sinal acústico era necessário para ligar o hipercomunicador, e o minúsculo alto-falante do hipercomunicador estava embutido no relógio que Marshall trazia no pulso esquerdo.
Tanto ele como Laury Marten haviam sido equipados para esta missão com os instrumentos mais sofisticados que, em muitos pontos, constituíam novidade até mesmo para os aras e os arcônidas.
John Marshall ouviu um sinal breve saído do hipercomunicador. Sentiu a necessidade de respirar profundamente.
O chefe encontrava-se no planeta quente de Hellgate, aguardando notícias sobre os resultados de seu trabalho.
Marshall refletiu ligeiramente.
Se há pouco parte de seu relógio se transformara no alto-falante do hipercomunicador, agora, a outra parte, tão minúscula quanto a anterior, passou a servir de microfone, depois que Marshall comprimiu um botão quase invisível, embutido na caixa do relógio.
O deformador e o condensador estavam funcionando.
John Marshall resumiu em oito frases o primeiro êxito alcançado por Laury Marten. Omitiu o fato de que o serviço secreto dos aras andava no seu encalço.
Fechou a torneira de água quente e a clarabóia, fez saltar o botão embutido na caixa do relógio e, com isso, apagou todas as pistas que poderiam conduzir ao seu hipercomunicador.
Ficou sentado na cama em atitude pensativa. Refletiu detidamente sobre todos os problemas. Em hipótese alguma deveria permitir que seu esconderijo fosse descoberto. O pequeno quarto representava o último elo que o ligava a Perry Rhodan.
Marshall estava prestes a sair de seu alojamento quando foi atingido pelo impulso emitido por Laury Marten. Parou com a mão estendida em direção à porta. Seu rosto iluminou-se e de seus lábios saiu uma exclamação:
Até que enfim!

* * *

O indicador de rota instalado no carro fizera com que, apesar da grande distância, Laury Marten logo encontrasse o areal dos binns. Porém viu-se diante da barreira de radiações, que formava um obstáculo invencível.
Lançou os olhos em torno, à procura de um frogh, e estremeceu ao lembrar-se do momento em que, pela primeira vez, se vira diante de um desses seres em forma de cobra, com seis metros de comprimento.
Também desta vez teve de esforçar-se para ver nos froghs seres inteligentes, e não animais repugnantes. Muitos froghs dominavam, além do intercosmo, vários dialetos arcônidas. Para comunicar-se entre si recorriam ao vocabulário riquíssimo de sua língua materna. Eram os amigos mais fiéis dos aras e os guardas mais temidos pelos habitantes do zoológico. Até então nenhuma das inteligências trancadas ali conseguira escapar. Os froghs sempre alcançavam os fugitivos nos confins do deserto, cujas dimensões eram planetárias.
Laury Marten caminhou lentamente junto à barreira de radiações. Não sabia explicar por que o frogh não aparecia para perguntar o que desejava. Subiu uma pequena elevação, lançou os olhos em torno e viu o ser em forma de cobra envolvido numa palestra com um jovem ara.
Este sentiu o olhar de Laury Marten, virou a cabeça e fitou-a com uma expressão de espanto.
No mesmo instante, o frogh virou-se abruptamente. Com uma voz que tinha um tom surpreendentemente humano perguntou o que Laury desejava. Esta lhe pediu que abrisse a barreira de radiações por um instante, para que pudesse escolher dois binns no interior do areal.
Enquanto ainda conversava com o frogh, que erguera o terço anterior de seu musculoso corpo de cobra e a fitava com os olhos rígidos, o ara aproximou-se.
O homem esbelto, de rosto intelectualizado, avaro nos menores movimentos e reticente nas palavras, era o primeiro ara que falava um arcônida refinado, dentre todos aqueles com que Laury já havia se defrontado. Esta logo se interessou por ele e fez com que se estabelecesse uma palestra animada.
Dedicou palavras corteses à informação de que Laury estudava zoologia. O fato de encontrar-se em Tolimon para preparar-se para os exames finais obrigou-o a desejar-lhe muitas felicidades nas provas. No entanto, quando Laury Marten passou, com uma indiferença fingida, do fenômeno do artus ao tema da necrose e exprimiu sua dúvida de que uma parte morta do organismo, restrita a uma área limitada, pudesse ser restituída à vida por meio de ativadores, o ara subitamente demonstrou o maior interesse.
O médico galáctico não poderia mesmo desconfiar de que essa jovem, treinada por meio dos métodos hipnóticos mais eficientes dos arcônidas, além de ser entendida em zoologia, também possuía um saber médico muito extenso.
O ara apresentou-se como Man Regg.
Laury Marten prosseguiu no seu jogo. Lia os pensamentos de seu interlocutor e não tinha a menor intenção de tomar a iniciativa. Qualquer idéia importante teria que vir de Man Regg.
Man Regg, o ara, não era apenas um dos cem mil médicos que atuavam nesse mundo. Man Regg era o ara que, na qualidade de chefe, controlava a produção do soro prolongador da vida.
E Laury Marten lançou sua isca. Um segundo depois, dizia aquilo que seu interlocutor acabava de pensar, mas sob seus próprios pontos de vista. Nos casos em que Man Regg demonstrava dúvida, exprimia uma dúvida ainda maior, e quando acreditava poder formular um juízo seguro, mostrava-se reticente em suas idéias.
Um dos crânios mais inteligentes de Tolimon estava sendo manipulado pelas artes telepáticas de uma jovem do planeta Terra.
E Man Regg caiu no blefe.
Quando perguntou onde e com quem trabalhava, Laury Marten leu em seus pensamentos a intenção de ordenar que essa mulher de inteligência extraordinária fosse incluída em sua equipe de pesquisas.
Subitamente Laury Marten virou-se para o frogh. O olhar rígido daquele ser em forma de cobra incomodou-a.
Pensou aflita:
Será que os froghs também são telepatas?
Com um grande susto, teve de constatar que não estava informada sobre este ponto.
Mas logo surgiu a indagação de Man Regg sobre se estaria interessada em concluir os preparativos para o exame sob orientação dele.
Laury Marten já se imaginava de posse do processo de fabricação do soro prolongador da vida. Teve de esforçar-se para não exprimir seu júbilo por meio da luminosidade dos olhos.
Muito bem, Arga Slim — disse Man Regg. — Tomarei todas as providências e tenho certeza de poder cumprimentá-la amanhã na divisão X-p.
Com dois binns dóceis, seu carro disparou em direção ao limite do zoológico.
Quando voou em direção a Trulan, com os dois binns a bordo, irradiou para John Marshall a notícia do êxito que acabara de alcançar. Sentiu-se orgulhosa ao perceber o alívio que havia no “até que enfim!” de Marshall.
4


John Marshall ficou grudado nos calcanhares de Otznam, agente dos saltadores, em meio ao burburinho das ruas de Trulan. No seu íntimo admirava o comandante Rohun e seu clã, pois o que os fabricantes de máscaras haviam feito de Otznam era uma coisa inacreditável. John Marshall teve de reprimir constantemente o desejo de fitar seu próprio rosto a fim de verificar que impressão causaria nos outros sob o disfarce de um saltador.
O mercador galáctico Ixt não era ele, mas Otznam, que sob seu disfarce caminhava pela Rua do Grande Mo, sem desconfiar de que o verdadeiro Ixt lhe seguia todos os passos, transformado num astronauta robusto e barbudo.
John Marshall leu os pensamentos do outro. O homem praguejava contra sua missão com a mesma violência com que Huxul o fizera no momento em que saía da casa de animais com um casal de hiobargulus e gegerutavis, para voltar à sua repartição.
Otznam estava preocupado por ainda não ter recebido instruções precisas sobre a maneira de conduzir-se na firma de Ixt. Quando Marshall iniciou o tratamento com o projetor mental, não percebeu nada.
Depois de poucos segundos, o agente dos saltadores familiarizou-se com os rostos de todos os funcionários de Ixt. Conhecia seus nomes e sabia quais as funções que cada um devia desempenhar. Otznam não se surpreendeu com o fato de conhecer, em linhas gerais, o escritório do chefe. Entrou na loja pela entrada principal, tal qual Ixt costumava fazer todas as manhãs.
Acenou para a direita e a esquerda, recebeu os cumprimentos de Futgris e fez esta observação:
Tudo bem, Futgris?
Marshall também entrou em sua loja e, com uma observação áspera, afastou o vendedor que se aproximou solicitamente.
Vou dar uma olhada no que existe por aqui. Se resolver comprar alguma coisa, avisarei.
Enquanto dizia estas palavras, John Marshall observou discretamente seu vendedor tão ativo e controlou os seus pensamentos. Verificou que não estava identificando a voz disfarçada de seu chefe, nem seus movimentos.
Tranqüilizado, Marshall voltou a dedicar sua atenção a Otznam, agente dos saltadores, fazendo-o dizer a Futgris:
Se houver algo de importante, estou no escritório.
Perfeitamente — confirmou Futgris e dirigiu-se ao grande depósito, onde estava sendo descarregada uma remessa de animais vinda do planeta Oka.
Nem desconfiou de que o chefe, disfarçado num astronauta barbudo, exercia uma influência hipnótica sobre ele, enviando-o ao depósito e ordenando-lhe que, em hipótese alguma, procurasse o chefe em seu escritório.
Dali a dez minutos, John Marshall saiu de sua loja e ficou perambulando nas proximidades. Aguardava a chegada de Huxul.
Sua paciência foi submetida a uma prova muito dura. Por mais que tateasse em busca dos impulsos mentais de Huxul, nada percebeu. Só pelo meio-dia captou-os repentinamente.
Fervendo de raiva, Huxul caminhou em direção à casa de animais.
Marshall entrou antes dele na ampla sala de exposição com a profusão desconcertante de animais. Escondeu-se atrás de uma grande jaula, junto aos encantadores kikkis, animais em forma de macaco. Acabara de afastar um vendedor insistente quando o agente dos aras entrou no recinto, com uma gaiola especial na mão.
Futgris era o homem competente para resolver sobre a troca de animais. Teve de ser chamado no depósito.
Futgris riu ao reconhecer o homem que, com os hiobargulus, queria pregar uma peça à sogra. Subitamente seu rosto assumiu uma feição séria. Marshall acabara de transmitir-lhe a ordem, reforçada por meios hipnomecânicos, de determinar que o chefe decidisse sobre a troca.
Huxul exibiu um largo sorriso enquanto resmungava seu “de acordo”. Segurou a gaiola especial com ambas as mãos, encostou-a ao peito e colocou-a numa posição em que uma das faces apontava ligeiramente para cima.
Marshall perscrutou os pensamentos de Huxul. O agente dos aras ainda fervia de raiva. Lembrava-se da bronca que tivera de agüentar no dia anterior, ao regressar da nave cilíndrica de Rohun. Acusaram-no de negligência no desempenho de suas funções e de uma conduta injustificável, arrasando com ele em questão de capacidade. Também foi recriminado por ter adquirido os animais tão caros, muito embora a idéia não tivesse partido dele, mas do chefe.
Naquele instante, estava Futgris saindo do escritório, juntamente com o falso Ixt.
John Marshall ativou o contato do projetor mental escondido em seu bolso. Tratava-se de versão miniaturizada do conhecido aparelho dos arcônidas, que funcionava somente porque John Marshall reforçava sua ação por meio do dom telepático de que era dotado. Por isso mesmo não havia o menor perigo de que o mini-projetor mental fosse descoberto.
Huxul descansou a gaiola entre as paredes acústicas onde estavam guardados os hiobargulus com sua voz potente. Ixt recusou-se a aceitar os animais de volta. Mostrou-se interessado na gaiola acústica. O agente dos aras foi a amabilidade em pessoa e concordou plenamente quando Otznam, sob o disfarce de Ixt, pegou a gaiola para examiná-la mais detidamente. Ao fazê-lo, executou um giro de cento e oitenta graus.
Através de Huxul, John Marshall ficara sabendo em que ponto se localizava o contato destinado à captação do modelo de vibrações cerebrais. O agente dos aras implorou para que Ixt aceitasse os animais de volta e devolvesse o dinheiro. Disse que desde a manhã daquele dia a sogra não o deixava em paz. Estava arrependido da brincadeira de mau gosto e não sabia como acalmar a velha.
Otznam, disfarçado como Ixt, teve tempo para registrar o modelo de vibrações cerebrais de Huxul. No momento em que colocou a gaiola no chão por ordem de Marshall, este lhe deu ordem de aceitar os bichinhos de volta. Futgris saiu apressadamente com a gaiola, desapareceu no depósito e, logo a seguir, a trouxe vazia.
Huxul recebeu de volta o preço da compra, agradeceu com a maior amabilidade, pegou a gaiola vazia e saiu da loja com uma pressa surpreendente.
O falso Ixt voltou ao escritório, e Futgris ao depósito.
Assim, John Marshall considerou concluída sua intervenção, mas Huxul ainda precisaria de tratamento intensivo.
Seguiu-o lentamente, esgueirando-se por entre o tráfego da trepidante Rua do Grande Mo. Aos poucos, foi alcançando o agente dos aras.
Seguiu-o com um olhar pensativo quando este entrou no gigantesco edifício do serviço secreto dos aras, segurando a gaiola como se fosse um objeto extremamente frágil.
* * *

Huxul esperou que o laboratório lhe fornecesse o modelo de vibrações cerebrais com uma interpretação completa. Enquanto isso pretendia redigir o relatório, mas havia alguma coisa em sua cabeça que o impedia de conceber qualquer idéia clara. Tornou-se cada vez mais difícil lembrar o que havia acontecido há uma hora na casa de animais de Ixt.
Finalmente a fita rolante trouxe o modelo de vibrações cerebrais acompanhado da respectiva interpretação.
O círculo estrelado que se via no canto inferior esquerdo representava o sinal de que o modelo passara pelo cérebro positrônico.
Entusiasmado, acenou com a cabeça, quando descobriu o número de código.
O que é isso? Ixt já está registrado aqui e tem um número de identificação dos aras — disse Huxul em tom de espanto e passou a mão pela testa.
Subitamente passou a desenvolver uma atividade intensa. Entrou em contato com a divisão positrônica H. Era ali que estavam armazenados todos os algarismos de identificação dos aras. Transmitiu o número de código. Quase no mesmo instante, a tela que se encontrava sobre sua escrivaninha iluminou-se.
Levou alguns segundos para compreender que aquilo que estava lendo eram seus próprios dados pessoais. E levou mais cinco segundos para compreender que já não compreendia mais nada.
Logo lembrou-se das ameaças que os dois chefes a que estava subordinado haviam formulado no dia anterior.
Isso bastou para uma ação precipitada.
Huxul redigiu um relatório que, em nenhum dos seus detalhes, correspondia à verdade dos fatos. Porém, por enquanto, isto o livraria de uma repreensão ainda mais intensa dos chefes. Evidentemente esse relatório era extremamente favorável ao mercador galáctico Ixt, que explorava o comércio de animais numa loja da Rua do Grande Mo. As divergências insignificantes em seus dados pessoais foram atribuídas a um lapso.
Apenas, Huxul se esquecia, ao redigir seu relatório fictício, que inevitavelmente haveria de chegar o momento em que o grande cérebro positrônico examinaria o relatório sob o aspecto da coerência lógica. Aí então, a mentira fatalmente seria descoberta.
John Marshall, que continuava parado diante do edifício, controlando os pensamentos de Huxul, lembrou-se desse fato. Mas nem por isso ficou preocupado. Não estava em condições de impedir a investigação, que se encontrava em curso, sobre sua pessoa. Porém cada dia que conseguisse ganhar dava a ele e a Laury Marten novas chances de atingir o objetivo a que se tinham proposto.
Em Hellgate, a cerca de oitenta e um anos-luz de Tolimon, Perry Rhodan, protegido pela abóbada de aço, aguardava o resultado de seus esforços.

* * *

Aquilo que Man Regg, o médico dos aras, designara diante da barreira energética como X-p, surgiu diante dos olhos de Laury Marten como uma construção gigantesca. E, pelo que sabia da arquitetura dos médicos galácticos, supôs que o complexo penetraria na terra numa profundidade equivalente a três vezes sua altura.
Por cima da entrada principal, via-se esta inscrição singela: X-p.
X-p ficava praticamente no centro do zoológico continental, bem longe das áreas acessíveis aos curiosos, em meio a um desolado deserto de pedras, aquecido dia após dia pelos raios causticantes do sol.
O edifício de oito pavimentos, que parecia fundido numa única peça, estendia-se a uma distância de vários quilômetros.
Laury teve dificuldade em determinar o formato da construção. À primeira vista, pensou num cano superdimensionado de extremidades arredondadas, mas agora, que se encontrava bem diante do mesmo, contemplando a fachada tingida num azul-pálido, não teve tanta certeza.
Sentiu o coração palpitar ligeiramente quando penetrou no setor de controle. Tratava-se de ampla sala decorada com um luxo discreto, de cores sóbrias e com uma atmosfera agradavelmente refrigerada. Os tapetes abafavam os sons.
Qualquer controle envolvia o perigo de que, graças à sua constituição orgânica, Laury fosse desmascarada como não-arcônida. Muito embora na Terra houvessem sido tomadas todas as providências possíveis para que o fato não pudesse ser revelado por meio de simples radioscopia, não se deveria esquecer que havia uma diferença enorme entre a tecnologia de Árcon e a dos aras.
A evolução milenar dos médicos galácticos, tal qual a dos mercadores galácticos, ambos descendentes da raça dos arcônidas, processara-se por trilhas próprias. O simples fato de que o abastecimento de medicamentos aos mundos dominados por Árcon fosse feito pelos aras, se transformara numa idéia consagrada e bastava para deixar claro o caminho extraordinário tomado pela evolução autônoma dos médicos galácticos. Formavam uma população de bilhões de habitantes que corporificava um saber ao qual os arcônidas nada poderiam contrapor na área da medicina. Foi só graças ao cérebro gigante positronizado instalado em Árcon, que numa função autárquica decidia sobre a existência de todos e em todos os sentidos, que a tentativa de apoderar-se do Império de Árcon, realizada há muito tempo pelos aras, terminara num fracasso.
Foram essas as idéias que passaram pela cabeça de Laury Marten enquanto a mesma se encontrava no setor de controle, onde foi testada pelas lentes de cristal.
O sinal azul-claro de liberação, que surgiu repentinamente diante dela, aliviou-a da tensão. No mesmo instante, pôs-se em movimento e não se espantou quando a grande porta transparente P II recuou silenciosamente diante dela, deixando livre o interior de X-p.
Uma abóbada radiante estendia-se acima de sua cabeça. Uma abóbada no interior da construção em forma de tubo? Avançou a passos hesitantes. A luz fosforescente que saía das aberturas do teto e se refletia palidamente em torno do centro do soalho compacto deixou-a confusa. O saber hipnótico que lhe fora ministrado não conseguia explicar esses reflexos luminosos.
Uma voz sonora mandou que se aproximasse do círculo luminoso desenhado no centro do soalho e caminhasse uma vez por sua periferia. Só mais tarde ficou sabendo que dessa forma a parte exterior de seu corpo seria libertada de germes.
Surpresa, Laury obedeceu. Não sentiu nada enquanto caminhava de um feixe luminoso a outro. Mas mal havia concluído o giro, a mesma voz indagou sobre seus desejos.
Em voz baixa, Laury declarou ter sido transferida para X-p por ordem de Man Regg. A seguir, pronunciou seu nome arcônida, Arga Slim, e aguardou novas ordens.
Já fazia cinco minutos que se encontrava no interior do edifício, e até então não havia visto um único ara ou robô.
À sua direita, a parede da abóbada abriu-se em forma de diafragma. Surgiu uma abertura circular e, pela última vez, ouviu a voz sonora, que lhe ordenou que atravessasse a abertura e deixasse o resto por conta da fita transportadora.
Mais uma vez, Laury Marten sentiu a tensão formiguenta que já se apossara dela quando atravessou a entrada do edifício.
Espantou-se ao perceber que entrara numa sala fechada. Não viu nenhuma fita. Apenas, o chão começou a trepidar ligeiramente assim que, atrás dela, o diafragma se fechou silenciosamente.
Pensou na possibilidade de outro controle. Afinal, X-p era o lugar em que era produzido o maior segredo dos médicos galácticos: o soro prolongador da vida.
Laury Marten espantou-se com o próprio nervosismo quando a parede que se encontrava diante dela subitamente se abriu para os lados e ela se viu diante de Man Regg, o homem que conhecera no dia anterior.
Seus olhos exprimiram certo orgulho quando notou a perturbação da moça. Depois de cumprimentá-la, disse:
Nós, os aras, não progredimos apenas no terreno da medicina. A tecnologia, que tem sido negligenciada por muito tempo, experimentou novo impulso entre nós, Arga.
Sentaram-se frente a frente.
Mais uma vez, Laury Marten fez o jogo do gato e do rato com Man Regg. Lia seus pensamentos e formulava as respostas de acordo com os mesmos.
Recorria ao genial saber do cientista para fazer seus blefes contra o mesmo. Isso só lhe foi possível porque, antes de lhe ser confiada a missão, boa parte do saber médico dos arcônidas lhe fora transmitido por meio de um processo de aprendizagem hipnótica. Especializara-se principalmente nas áreas da zoologia galáctica e da soroterapia.
De repente, uma expressão de desconfiança surgiu nos olhos de Man Regg.
Laury Marten se descuidara. Exprimira seus pensamentos de forma quase inalterada. Mas o pior não era isso. O fato era que nenhum arcônida poderia dispor desse conhecimento, por se tratar de um dos numerosos segredos cuidadosamente guardados de X-p.
Apesar da falha a mutante teve sorte. A lição que Perry Rhodan vivia inoculando nos seus homens transformou-se em sua salvação.
O erro que acabara de cometer não a deixou perturbada. De repente, Laury Marten se tornou fria, isenta de qualquer influência emocional; transformou-se no protótipo do homem lógico.
Tomado por um princípio de desconfiança, Man Regg formulou em pensamento as linhas gerais do processo que, para seu espanto, a arcônida mencionara como que por acaso.
Sua pergunta terminante e inequívoca ainda pendia no ar, mas Laury Marten já preparara a resposta.
Sorriu. Inclinou-se para a frente. Jogou com todo charme que possuía, e brilhou com seu saber.
O problema resume-se numa seqüência de conclusões lógicas, Man... — principiou, e passou a expor sua opinião.
Com um sorriso nos lábios, observou o efeito que suas palavras produziam no rosto de Regg. Ao lado da desconfiança, viu o espanto e a admiração, que acabaram por prevalecer. O cientista, geralmente tão prosaico, acabou por entusiasmar-se com a lógica tão bem elaborada de Laury Marten, a ponto de exclamar impulsivamente:
Estou pensando em outra coisa, Arga. A senhora gostaria de trabalhar na minha equipe pessoal?
Ao concordar, Laury Marten acreditava encontrar-se próxima ao objetivo.

* * *

John Marshall captou a mensagem telepática de Laury Marten quando se encontrava a caminho da nave de Rohun, o comandante dos saltadores. Sua exposição otimista forneceu-lhe certo estímulo moral. A disposição eufórica perdurou até que atingisse o gigantesco espaçoporto de Trulan e procurasse em vão localizar a nave cilíndrica de Rohun.
Rohun decolara sem avisá-lo!
No mesmo instante, John Marshall — ainda sob a máscara de um barbudo — colocou seu espírito num estado de alarma rigorosíssimo.
Naquele instante, recebeu o impulso de Laury Marten.
O movimento intenso do espaçoporto desapareceu diante dos olhos de Marshall. Não via decolar e pousar as naves e não deu a menor atenção ao que se passava em torno dele. Apenas perscrutou-se, a fim de ouvir o relato da mutante.
John Marshall enfureceu-se! Acabara de conhecer os menores detalhes do que se passara entre Laury Marten e Man Regg. Soube inclusive de sua resposta leviana e sua tentativa de livrar-se da situação embaraçosa em que se encontrava através de novas peripécias com o saber de Man Regg.
Ainda pertencia ao círculo de colaboradores pessoais do cientista, mas no espírito de Man Regg haviam surgido dúvidas sobre a pessoa de Laury Marten.
Em X-p, Man Regg entrara em contato não só com a Divisão de Segurança, mas também com o serviço secreto sediado em Trulan, pedindo-lhe que realizasse um exame acurado da estudante de zoologia Arga Slim. O argumento de maior peso, que Man Regg formulou em apoio a suas suspeitas, culminou nestas palavras:
Como estudante de zoologia, a arcônida Arga Slim dispõe de um saber que infelizmente tenho procurado em vão entre os meus médicos.
O rosto de John Marshall assumiu uma expressão rígida.
Lembrou-se de suas preocupações, que desde o início giravam em torno de Laury Marten. Ainda lhe faltava a prática, o último retoque da personalidade, que faria com que não superestimasse suas próprias habilidades e, principalmente, a necessária visão global das coisas. Ainda era capaz de embriagar-se com um êxito momentâneo, e essa embriaguez a levava a cometer erros.
Se nos dados de Laury também houver alguma divergência, todo o mundo de Tolimon se colocará em nosso encalço”, pensou e teve uma sensação de desconforto.
Arrancou-se violentamente em meio às suas preocupações. Antes de mais nada, precisava descobrir por que Rohun decolara com a nave.
Marshall encontrava-se sobre a fita-guia, que levava ao setor G-8 do espaçoporto. Era o lugar em que ainda ontem estivera estacionada a nave de Rohun. Mais uma vez passou os olhos pelo enorme campo de pouso. Viu que uma nave arcônida com sua típica forma esférica rompeu silenciosamente a delgada camada de nuvens e pousou suave. Virou-se em direção ao distribuidor, um sistema de elevadores antigravitacionais, a fim de que este o conduzisse à via elevada, onde tomaria uma condução que o levasse de volta ao centro da cidade.
Finalmente descobriu, em meio à confusão, Egmon, um dos agentes de Rohun estacionados em Tolimon.
Aquele saltador mais se parecia com um arcônida. Seus cabelos louro-claros chamavam a atenção de qualquer um. Mas havia em Egmon outro detalhe ainda mais estranho, que sempre voltava a fascinar Marshall: o aspecto dos olhos do agente mudava constantemente, da mesma forma que um camaleão muda a cor da pele.
Egmon — disse Marshall, ao passar por ele.
O agente dos saltadores ouvira seu nome, mas não conhecia o barbudo que lhe dirigira a palavra.
John dirigiu-se a um dos numerosos robôs de informações. Indicou o número da nave de Rohun e procurou saber para onde se dirigira o mercador galáctico.
Não posso dar nenhuma informação — rangeu, um tanto mecanizada, a voz do robô.
Marshall não esperara outra coisa. Sentiu que alguém se encontrava bem atrás dele. No mesmo instante, usou seu dom telepático para alcançar os pensamentos desse alguém.
Os pensamentos de Egmon podiam ser tudo, menos pacíficos. O agente de Rohun via naquele sujeito um espião dos aras e, para estar preparado para qualquer iniciativa, mantinha engatilhado o radiador de impulsos que trazia no bolso.
Ao virar-se, Marshall cochichou:
Se eu fosse você, não apertaria o gatilho, Egmon.
O saltador ainda estava desconfiado, porém havia na voz de Marshall alguma coisa que lhe parecia conhecida. Mas Egmon só se tranqüilizou quando o mutante citou seu nome.
O que o torna irreconhecível não é a barba, mas os ombros largos — disse Egmon em tom perplexo. — Por todas as estrelas, Ixt, estou esperando pelo senhor há várias horas. Nosso chefe recebeu más notícias. Por isso decolou e encontra-se a meio caminho entre Tolimon e Hellgate, onde aguarda o desenrolar dos acontecimentos.
Que acontecimentos?
Um homem do clã de Estgal foi apanhado e submetido à lavagem cerebral.
Marshall não sabia quem era Estgal, patriarca dos saltadores.
O clã de Estgal vive contrabandeando medicamentos dos aras. Os aras sabem disso, mas nunca conseguiram pegar Estgal em flagrante ou desmontar sua organização que age na superfície. Caso Estgal se tivesse mantido no mesmo ramo, poderia ter ficado muito velho.
Estgal está morto?! — indagou admirado, Marshall. De repente, passou a interessar-se por esse desconhecido patriarca.
Há três ou quatro horas foi destruído em pleno espaço com dezoito naves, por uma formação bélica dos aras. É por isso que este lugar está cheio de espiões dos aras.
Egmon, que Marshall tinha na lembrança como um agente de Rohun, fechado e de poucas palavras, estava desenvolvendo uma verbosidade irritante enquanto apresentava seu relatório. Foi só graças ao treinamento a que eram submetidos os colaboradores de Rhodan que Marshall conseguiu dominar-se:
Faça o favor de limitar-se ao essencial, Egmon. O que foi que Estgal quis arranjar?
Já havia arranjado — cochichou o agente louro-claro. — Por meio de um ara subornado, conseguiu arranjar na fábrica de soro G-F 45 o processo de conservação do soro imunizador X-1076...
Estas palavras pareciam familiares a Marshall. Lembrou-se de ter lido os pensamentos de Kuxul, que também se haviam ocupado com esse processo e seu desaparecimento.
E depois?
Na última noite Hduzz, membro do clã de Estgal, foi preso e submetido à lavagem cerebral. Depois disso, também o ara corrupto foi preso e submetido ao mesmo tratamento. Quando tudo isso terminou, o dia já estava amanhecendo. Estgal recebeu um aviso e fugiu para o espaço com suas naves. Mas as naves de guerra dos aras já o esperavam e destruíram seus veículos cilíndricos. Já compreende por que meu chefe resolveu deslocar-se para um ponto situado a quarenta anos-luz deste planeta?
Marshall deixou a pergunta sem resposta.
Vocês mantiveram contatos muito estreitos com os agentes de Estgal?
Essa informação só pode ser dada por Tulin ou Otznam — respondeu o saltador, enquanto a cor de seus olhos mudou de novo.
Marshall realizou um exame rápido para verificar se Egmon estava dizendo a verdade. Não descobriu nenhuma mentira em seus pensamentos. Limitou-se a pedir:
Amanhã a esta hora quero encontrar-me com Tulin neste lugar. Será que você poderia avisá-lo?
Ele poderá estar aqui dentro de uma hora — disse Egmon, enquanto seus olhos emitiram um brilho esverdeado.
Será amanhã! — disse Marshall em tom decidido. Fez um gesto quase imperceptível para Egmon e desapareceu em meio à confusão dos transeuntes.
Entrou no distribuidor, ou seja, o lugar através do qual se atingiam as diversas ruas por meio dos elevadores antigravitacionais. Subiu e, uma vez na via elevada número quatro, tomou o expresso radial que corria velozmente em direção ao centro da cidade.
Seus pensamentos estavam absortos na missão que Perry Rhodan havia confiado a ele e a Laury Marten.
Respirava pesadamente. A missão parecia-lhe quase insolúvel.

* * *

Man Regg sacudiu a cabeça pela terceira vez, mas não interrompeu o relatório do ara de sua Divisão de Segurança. Com a paciência de um homem bem equilibrado, ouvia-o atentamente.
Man Regg, o médico genial dos aras, não era o único ouvinte. Três colegas encontravam-se em sua companhia, e estes também não interrompiam o relatório.
Pode retirar-se! — com estas palavras, Man Regg dispensou o chefe da Divisão de Segurança de X-p.
Quando se viu sozinho com os colegas, perguntou:
Então?
Três vezes ouviu esta opinião:
Tudo perfeito, mas...
O mas, três vezes repetido, dizia respeito a Laury Marten.
O serviço secreto dos aras penetrara até o centro do império estelar dos arcônidas, por meio do hipercomunicador, em busca do passado de Laury Marten. A central de Trulan seguira outros caminhos que os da Divisão de Segurança do conjunto X-p, mas ambas chegaram ao mesmo resultado.
Arga Slim era uma arcônida de vinte e três anos, vinda do planeta Dewen. Era estudante de zoologia e, dentro em breve, teria de prestar os exames finais. Segundo a opinião dos professores, era dotada de um talento médico extraordinário.
Não havia o que objetar nos dados. O retrato recebido de Dewen pelo hipercomunicador correspondia aproximadamente ao aspecto de Laury Marten. A diferença devia provir da falta de nitidez da transmissão.
Apesar disso, Man Regg não estava satisfeito com o resultado obtido por dois caminhos diferentes. Estava formulando uma sugestão. Era claro que, sendo o chefe, só ouviria aplausos à mesma.
Gelte, um zoólogo ara, examinaria Arga Slim em presença dos seus colegas Kelisse e Assa. Man Regg permaneceria na sala contígua, onde acompanharia tudo pelo sistema de comunicação audiovisual.
Man Regg dirigiu-se à sala contígua. Arga Slim — ou melhor, Laury Marten — recebeu ordem para apresentar-se ao chefe. Os três cientistas aras acreditaram que tivessem diante de si uma arcônida desprevenida. Laury deixou que permanecessem nessa convicção. Sabia do que se tratava.
Entrou com um sorriso amável nos lábios e fingiu-se espantada quando em vez de Man Regg notou três aras desconhecidos à sua frente. Sentou e logo se viu envolvida num exame bastante duro.
Precisou lançar mão de toda energia e concentração de que era capaz para não cair do extremo da estudante superdotada para o extremo oposto, pois isto seria uma tolice fora do comum.
O saber médico arcônida que lhe fora transmitido durante o processo de aprendizagem hipnótica não lhe teria adiantado muito. Mas, da mesma forma que aproveitara o saber de Man Regg para brilhar, valeu-se dos conhecimentos dos três examinadores para escapar sã e salva de todos os obstáculos e armadilhas do caminho. Embora fosse telepata e pudesse ler pensamentos, via-se obrigada a realizar um trabalho de mestre para controlar três cérebros, concentrar-se nas respostas e continuar a oferecer a imagem de uma arcônida segura e confiante.

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