terça-feira, 12 de março de 2013

P-056 - Os Mortos Vivem - Clark Darlton [parte 2]


Rhodan, Noir e os três volatenses aproximaram-se. Estes últimos mantinham suas zarabatanas em posição, mas Rhodan tranqüilizou-os. Explicou que a essa altura a fera era totalmente inofensiva, incapaz de fazer qualquer coisa a quem quer que fosse. Após isso, o rato-castor foi alvo de uma respeitosa admiração, e isto evidentemente lhe fazia muito bem.
Noir — disse Rhodan — procure tirar alguma coisa desse purrense. Pergunte quem lhe dá ordens, de onde veio e tudo que possa ser de interesse para nós. Provavelmente terá de remover o bloqueio hipnótico colocado em torno do cérebro do animal.
Foi mais fácil do que pensavam.
Uma vez libertado do comando hipnótico, o purrense transformou-se na criatura mais pacata que se poderia imaginar. Não soube informar muita coisa, mas o grupo de amigos ficou sabendo que em Kuklon havia um bando de saltadores e arcônidas dirigidos por dois personagens misteriosos, que dispunham de poderes mágicos. Um deles lia pensamentos, enquanto o outro sabia impor sua vontade a qualquer ser vivo.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Essas informações correspondiam ao relatório do comandante Markus. Yatuhin e Tropnow, os dois traidores, eram antigos membros do Exército de Mutantes.
Pergunte ao purrense se sabe alguma coisa a respeito de Thora.
O hipno não teve a menor dificuldade em projetar as indagações mentais para dentro do cérebro do gato. A comunicação era extremamente simples.
Noir sacudiu a cabeça.
Não tem a menor idéia da existência de uma prisioneira, mas supõe que a mesma se encontre no quartel-general do bando, se é que está no planeta.
Onde fica isso?
Mais uma vez houve o jogo mental silencioso.
Fica num grande edifício, perto do espaçoporto. Está disposto a mostrar o lugar, desde que não o matemos.
Rhodan parecia espantado.
Não temos a menor intenção de matar uma criatura que sabe cooperar conosco. Transmita-lhe isto.
O que se seguiu após isso realmente foi espantoso.
Libertado do campo telecinético gerado por Gucky, o gigantesco gato rastejou em direção a Rhodan e lambeu-lhe os pés. Depois ronronou fortemente e espreguiçou o corpo.
Gucky contemplou o quadro com um espanto enorme e recuou instintivamente quando o inimigo hereditário se aproximou dele para lamber seu corpo. A língua áspera provocou tamanha cócega no rato-castor que o fez rir baixinho e exibir o dente roedor. Finalmente deitou de costas, numa atitude convidativa. O purrense fez-lhe o favor de lamber também a barriga.
Rhodan acompanhou o espetáculo por algum tempo e disse:
Que gracinha!
Gucky levantou-se de um salto e fez com que o purrense recuasse apavorado.
É isso mesmo. Seu nome será Gracinha. Vamos ficar com ele, não é, Rhodan?
Ficar com ele?
Sim. Vamos ficar com ele para sempre. É meu amigo e...
Que coisa estranha — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Às vezes não consigo compreender como é que se pode mudar de opinião tão depressa — olhou o gigantesco gato com uma expressão pensativa. O animal parecia inofensivo e encostava-se carinhosamente a Gucky, como se quisesse agradecer pela confiança que este lhe concedera. — De outro lado, porém, é compreensível para quem vê o que está havendo. Pois bem; por enquanto Gracinha poderá ficar conosco. Se as coisas continuarem assim, ainda acabarei sendo dono de um zoológico.
Gucky inclinou-se sobre o purrense, que estava deitado. Subitamente o processo de comunicação entre as duas criaturas funcionava tão bem como se nunca tivesse havido o menor problema entre as mesmas.
Será que o rato-castor também era um hipno?
Você ficará conosco e seu nome é Gracinha — telepatou Gucky, e Gracinha compreendeu.
Os três volatenses haviam acompanhado os acontecimentos sem compreender nada, mas a essa hora já pareciam estar convencidos de que o gato não representava qualquer perigo para eles. Afinal, os homens eram criaturas estranhas, conforme tantas vezes já tiveram oportunidade de constatar. Por que quebrar a cabeça?
E agora — pediu Noir de repente — levem-nos ao seu esconderijo. Precisamos falar com nosso amigo Fellmer Lloyd.
Sem dizer uma palavra, os volatenses se puseram em marcha, seguidos por Rhodan e Noir.
Gracinha ia na retaguarda. O rato-castor estava sentado nas suas costas, deixando que seu novo amigo o carregasse.
Atrás deles, jaziam na mata quatro purrenses mortos. Ao morrerem, ainda eram feras sedentas de sangue; não tiveram tempo para voltarem a ser as criaturas inofensivas de sempre.
3



Rhodan ajeitou Fellmer Lloyd no travesseiro.
Por enquanto o senhor ficará deitado, meu caro, para recuperar-se dos efeitos do choque. Se houver alguma coisa a fazer por aqui, eu cuidarei disso. Mas conte logo o que aconteceu. Não sei de nada além daquilo que Markus me contou, e isso não é muito, uma vez que ele mesmo não estava muito bem informado.
O agente cósmico acalmou-se e lançou um olhar ligeiro para Kuri. Os olhos de amêndoa da filha dos mercadores estavam dirigidos sobre Rhodan e havia neles uma expressão de admiração; ao que parecia, o rosto franco daquele homem a cativava. Não é que Fellmer sentisse qualquer coisa que pudesse parecer-se com ciúmes, mas subitamente deu-se conta de quanto gostava de Kuri, e de como sentiria sua falta se a perdesse.
Escondi minha Gazela perto de Kuklon, no meio da mata, e fui à cidade, onde logo fiquei sabendo que Sikeron foi assassinado porque havia dado com a pista de Yatuhin e Tropnow. Kuri ajudou-me a montar uma organização por meio da qual esperava derrotar os amotinados. Porém subestimei o inimigo e fui derrotado. Bem, praticamente é só isso.
Não é muita coisa — disse Rhodan, disfarçando o sentimento de decepção para não deixar o doente ainda mais abatido. — Sabe algo a respeito do inimigo?
Fellmer Lloyd lançou um olhar para Rhodan.
Tem sua sede num edifício alto nas proximidades do espaçoporto. Esse edifício foi cognominado como edifício-sede de empresas comerciais ou coisa que o valha. Um clã dos saltadores aliou-se aos dois traidores mas, ao que parece, não sabe muito bem do que realmente se trata. Apenas lhes prometeram a vida eterna. Yatuhin e Tropnow preferem não falar em Rhodan ou no planeta Terra. Não tomaram essa atitude por qualquer espécie de consideração, mas por motivos puramente egoísticos. Quando dispuserem dos necessários recursos e de aliados em número suficiente, pretendem apoderar-se do legado conferido ao senhor.
Meu legado? — disse Rhodan com uma risada; ao que parecia, a conversa o divertia. — Se esses indivíduos soubessem como um legado desses é pesado de carregar, desistiriam do intento.
De qualquer maneira a vontade de possuir esse legado causou a traição — disse Lloyd olhando para Kuri Onere. — O que me preocupa é que um dia podem informar os saltadores de que Perry Rhodan e o planeta Terra ainda existem.
De qualquer maneira há de chegar o dia em que isso não será nenhum segredo — disse Rhodan. — E o computador regente de Árcon ficará sabendo que alguém o enganou. O que mais me alarma é o fato de que em nossas próprias fileiras pôde ocorrer algo parecido com uma rebelião.
Um mutante também é apenas uma criatura humana — disse Lloyd, defendendo seus inimigos. — Os dois se sentem prejudicados por lhes ter sido negada a ducha celular. Quem sabe se isso não foi um erro?
Ninguém é infalível — disse Rhodan, esquivando-se de uma resposta objetiva. Ficou calado por um instante e perguntou:
Quem é o representante de Árcon neste mundo?
O nome do administrador é Mansrin. Não o conheço pessoalmente, mas pelo que dizem é um sujeito muito competente, muito embora a conhecidíssima arrogância arcônida leve a melhor. Por que fez essa pergunta?
Por nada — disse Rhodan, que ainda não havia elaborado um plano definido. — É importante que a gente saiba com quem está lidando.
Alguns dos meus aliados ainda devem estar neste planeta, se é que sobreviveram ao ataque. Não tive tempo para cuidar disso.
É o que Noir está fazendo neste instante — disse Rhodan. — Pelo que estou informado, houve sobreviventes que neste instante estão tentando acostumar-se a Gucky e Gracinha.
Gracinha? — perguntou Lloyd, esticando as sílabas. — Nunca ouvi falar nessa criatura. Trata-se de um novo membro de nosso Exército de Mutantes?
Rhodan riu.
Infelizmente Gracinha não chega a ser um mutante; é apenas um purrense. Desde ontem...
O que vem a ser um purrense?
Trata-se de uma raça de felinos gigantes que vive em algum lugar no setor central da Via Láctea. Esses animais, originariamente inofensivos, são fáceis de serem hipnotizados e, quando isso acontece, podem transformar-se em feras. Os saltadores e outras inteligências souberam tirar proveito dessa circunstância. Conseguimos “desarmar” Gracinha e o acolhemos. Mantém excelente amizade com Gucky.
O gato e o rato? — disse Lloyd, sacudindo a cabeça. — E olhe que Gucky sempre teve um respeito tremendo pelos gatos, especialmente os grandes. Lembro-me da visita ao zoológico de Terrânia. O rato-castor tremia de medo quando passamos pelo alojamento dos tigres. “É puro instinto”, disse para desculpar-se. E, de repente, acontece isso? Qual é o tamanho de Gracinha?
Pode competir perfeitamente com um tigre real adulto.
Lloyd não podia compreender.
E Gucky consegue dar-se com uma criatura dessas? É inconcebível.
Rhodan sorriu e mudou de assunto.
Preciso de mais algumas informações, a fim de fazer meus preparativos. Quem sabe se poderia ajudar...
Pergunte à vontade. Afinal, não estava dormindo no momento em que fui atingido pelo raio de choque.
Rhodan submeteu Lloyd a um interrogatório minucioso.

* * *

Você devia usar algum disfarce! — recomendou Noir, contemplando Gucky da cabeça aos pés. — Desse jeito qualquer um logo o reconhecerá.
O rato-castor endireitou o corpo e alisou o pêlo marrom, desgrenhado pelas carícias de Gracinha.
Usar um disfarce? — perguntou em tom de perplexidade. — Vou disfarçar-me de quê? De homem? Isso daria na vista de qualquer pessoa, por mais idiota que essa seja.
Devia usar ao menos uma capa, para esconder um pouco o pêlo. Talvez achem que você é um anão.
Gucky suspirou.
A vida das personalidades importantes não é nada fácil — constatou e, ao que parecia, o fato lhe servia de consolo. — Se eu fosse como um homem qualquer, tudo seria muito mais simples para mim. Mas assim...
Rhodan concluiu o desenho que elaborara num pedaço de papel.
Infelizmente Lloyd não está muito familiarizado com os detalhes, mas ao menos descobriu onde fica o quartel-general dos traidores. Gucky, você vai saltar para o edifício e fará uma planta da parte interna. Vamos precisar dela mais tarde, quando começar a confusão.
Que confusão?
Você saberá em tempo. Não se deixe agarrar em hipótese alguma e dê o fora assim que apareça alguém. Volte quanto antes. Entendido?
Voarei como o raio — prometeu o rato-castor e lançou um olhar desconfiado para Noir, que retornava com um pano colorido. — Para que serve esse pedaço de cortina de circo? Você não vai me dizer que devo usar esse pedaço de pano.
Por que não? — perguntou Rhodan, que já compreendera os planos de Noir. — Se alguém o descobrir nesse disfarce, não saberá de onde você vem. Vamos logo, Gucky! Vista isso. Não seja tão melindroso.
Mas... — piou Gucky em tom lamentoso. Parecia que teria de pagar por todos os pecados do Universo.
Não há nenhum mas! — disse Rhodan em tom implacável. — Acha que vai participar de um concurso de beleza?
Gucky conformou-se com o destino cruel.
Parecia um macaco vestido à maneira dos animais que antigamente o pessoal de circo costumava levar para despertar a atenção das crianças. Os olhos recriminadores exprimiam todo o sofrimento do mundo. Num ponto mais afastado, Gracinha choramingava tristemente; até parecia que Gucky estava sendo conduzido ao cadafalso.
Só os tolos são vaidosos — disse Rhodan, reprimindo o riso. — Salte logo, meu velho!
Seus provérbios são sábios — murmurou Gucky, enfatizando as palavras — mas não representam nenhum conforto para o meu coração amargurado. Até logo.
Desapareceu antes que os circunstantes tivessem tempo de respirar.
O purrense continuava a choramingar.
Ou será que era uma purrense?
Por enquanto ninguém se dera ao trabalho de verificar este ponto.

* * *

A cidade de Kuklon, capital do planeta de Volat, era o único lugar desse mundo que apresentava características interestelares. Ali se concentrava a vida civilizatória. E era a partir dessa cidade que se administrava o mundo colonial. Os nativos, os volatenses, pouco se interessavam por essa administração e viviam sua própria vida. Porém sabiam que, naquele amontoado de lindas construções, moravam os seres que se arrogavam à qualidade de senhores do planeta.
Volat era antes uma base, e não um mundo colonial propriamente dito. Em algumas cadeias montanhosas, minérios valiosos eram extraídos. Mas a função principal de Volat era a de entreposto para os bens vindos de outros sistemas. No centro da cidade, ficava o edifício da administração de Árcon com sua gigantesca antena de hiper-rádio. A qualquer momento, o administrador podia entrar em contato com o gigantesco computador positrônico que governava o império estelar dos arcônidas.
Bem próximo ao amplo espaçoporto ficava outro edifício. Erguia-se bem alto e todo mundo acreditava que servia de sede a empresas comerciais dos saltadores. Boa parte das salas dos pavimentes superiores eram alugadas para servirem de escritórios. Centenas de firmas tinham sede ali.
Nos primeiros minutos Gucky quase não despertou a atenção de ninguém, pois a Galáxia estava cheia de seres estranhos.
O rato-castor materializou-se numa grande sala do vigésimo pavimento. Felizmente não havia ninguém por ali, motivo por que sua aparição do nada não foi percebida. Com um movimento contrariado, arrumou a capa colorida, soltou um profundo suspiro e saiu caminhando em direção à porta mais próxima.
Essa porta dava para um corredor largo. Havia janelas que permitiam a visão para o espaçoporto. As naves enfileiravam-se uma ao lado da outra e, entre elas, trafegavam veículos de passageiros e de carga. Transportadores rápidos deslizavam rapidamente sobre trilhos reluzentes e, a cada dois ou três minutos, decolava ou pousava uma nave.
Que movimento! — disse Gucky em tom de admiração, esforçando-se para não pisar em sua vestimenta.
Caminhava com dificuldade; acontece que não conseguia ver os pés embaixo da capa, e isso se transformou numa circunstância bastante desagradável. Se alguém o visse cambaleando, ficaria admirado com o estranho anão que, segundo tudo indicava, bebera demais.
À sua direita, ficavam as portas com inscrições de nomes de empresas.
No edifício devia haver duas mil salas, talvez mais. Como poderia fazer para encontrar a sala procurada? Teria de confiar no acaso. Gracinha lhe havia contado que os estranhos feiticeiros só seriam achados nos pavimentes inferiores.
A porta de um elevador abriu-se bem à frente de Gucky. Alguns saltadores desceram e apressaram-se em seguir seus caminhos. Apenas um deles lançou um olhar de espanto para o anão colorido, mas nem se preocupou. Os negócios eram mais importantes.
Gucky suspirou aliviado e entrou no elevador. Dali a vinte segundos, viu-se no corredor que atravessava o terceiro pavimento. Pelo aspecto exterior o mesmo não se distinguia da galeria do vigésimo pavimento; apenas, não se viam as inscrições das empresas. Em compensação, havia sobre as portas algarismos arcônidas, que Gucky conhecia muito bem.
O rato-castor passou lentamente pelas portas e procurou captar os impulsos mentais vindos do outro lado das mesmas. Constatou que muitas delas estavam vazias. Em algumas delas, havia indivíduos inofensivos que não pensavam em nada que pudesse ser considerado suspeito. Apenas cumpriam as tarefas de cada dia. Não sabiam de nada que ultrapassasse suas áreas de competência. Só cuidavam de seus pequeninos trabalhos e nem desconfiavam dos grandes acontecimentos.
Talvez tivesse mais sorte no segundo pavimento, ou no primeiro.
Antes que pudesse voltar, uma porta abriu-se bem à sua frente e um homem saiu para o corredor. Estacou ao ver Gucky, e este logo reconheceu o perigo. Sabia que não se tratava de um funcionário como qualquer outro.
O que está procurando por aqui? Quem é o senhor? — gritou o outro.
O fato aborreceu Gucky, que estava acostumado a ser tratado de maneira diferente. Porém não se deixou arrastar a qualquer ato irrefletido. Fez uma mesura formal e declinou seu nome, sacudindo a capa colorida de tal maneira que quase se chegava a ter a impressão de que se tratava de uma saudação da corte.
Sou Brabul, rei de Voodoo, nobre saltador. Estou à procura de Mansrin, o administrador.
O saltador parecia bastante contrariado.
O administrador mora no palácio. Quem foi que o mandou para cá?
No espaçoporto alguém me disse que...
Onde fica Voodoo? Quais são as coordenadas?
Gucky perdeu a paciência.
Quero falar com o administrador, mas não tenho o menor interesse em contar-lhe quais são as coordenadas de Voodoo. Isso não lhe interessa.
O saltador também não parecia estar acostumado a que falassem com ele nesse tom. Levantou o braço e segurou a capa de Gucky.
Escute seu anãozinho de jardim — disse em arcônida.
Evidentemente a expressão “anãozinho de jardim” tinha uma conotação diferente, mas Gucky compreendeu. — Você é um sujeitinho bem atrevido. Terei de vigiá-lo. Vamos, vá andando. E faça o favor de não pensar em bobagens. Vamos ver o que o chefe acha de você.
Gucky reprimiu a vontade totalmente compreensível de fazer seu interlocutor voar para o teto ou para fora da janela. Abaixou-se e não esboçou qualquer reação. Saiu cambaleando com uma expressão de espanto no rosto; fazia uma figura bastante triste.
Mais tarde farei o saltador pagar por isso”, pensou e conseguiu conservar o necessário autocontrole.
O saltador parou diante de uma porta do primeiro andar. Uma das mãos segurava a capa de Gucky, enquanto a outra era encostada ao controle térmico da fechadura. A porta marcada com o número 18 abriu-se sem o menor ruído.
Gucky foi empurrado violentamente para dentro da sala. Por pouco não tropeça sobre o pano que o envolvia, e que se enlaçou em suas pernas. Conseguiu manter-se de pé graças às forças telecinéticas que emitia; felizmente ninguém notou.
Por alguns segundos esqueceu-se do saltador, pois atrás da enorme escrivaninha estava sentado um homem que conhecia.
Era Gregor Tropnow, o traidor.
Esse homem, que já tinha 88 anos, parecia muito mais jovem graças ao processo biológico de conservação celular. Quando levantou a cabeça e contemplou a criatura que acabara de entrar, seu rosto dava mostra de extrema concentração. Não reconheceu Gucky. O rato-castor não se admirou, pois nunca tivera um contato mais estreito com Tropnow.
O que houve?
O saltador perdeu o ar de superioridade. Num tom que quase chegava a ser humilde informou:
Este sujeito andou espiando no setor administrativo. Achei que talvez fosse conveniente o senhor ocupar-se com ele. Alega que quer falar com Mansrin.
Tropnow fez um gesto afirmativo.
Muito bem. Aguarde lá fora até que eu o chame — não se moveu até que o saltador acabasse de sair da sala. Depois inclinou-se para a frente e fitou Gucky. — Quem é o senhor?
Sou Brabul de Voodoo — disse Gucky com uma mesura solene. — Quero entregar ao administrador alguns presentes de meu povo. Infelizmente pareço ter errado de casa.
É verdade — disse Tropnow, esticando as sílabas, e passou a utilizar sua capacidade hipnótica.
A ordem silenciosa dirigida a Gucky mandava-o dizer a verdade. É claro que essa ordem não conseguiu atravessar o campo defensivo do rato-castor, motivo por que não produziu o menor efeito. Mesmo assim, Gucky teve o cuidado de não deixar que seu interlocutor percebesse qualquer coisa.
Trata-se de babuínos adestrados — disse em tom compenetrado.
Tropnow estremeceu.
O quê? — gemeu fora de si. — Babuínos?
Isso mesmo — respondeu Gucky com um gesto sério. — Conseguimos adestrar esses animais raros. Queremos presenteá-los a Árcon. Uma vez que Árcon é o ponto do Império que fica mais próximo ao nosso mundo, julguei conveniente...
Gucky registrou o alívio no cérebro de Tropnow. O resquício de suspeita desapareceu da mente do hipno. Certamente estava convencido de que o anão de vestes coloridas estava dizendo a verdade. Não havia resistência contra a força sugestiva de um cérebro hipnótico. Por um segundo uma idéia atravessou o cérebro do traidor, e essa idéia literalmente eletrizou Gucky: Não é nenhum truque de Rhodan para descobrir o paradeiro de Thora. Ela está em lugar seguro.
Não temos nada a ver com a administração — disse Tropnow com um sorriso condescendente. — Lá fora o senhor encontrará táxis que poderão levá-lo ao lugar em que está Mansrin. Tenha uma longa vida... hum, como é mesmo o nome?
Brabul, senhor — informou Gucky prontamente e procurou descobrir mais alguma coisa sobre o paradeiro de Thora.
Mas Tropnow não fez mais nenhuma referência mental concernente a Thora. — Brabul de Voodoo.
O mutante comprimiu um botão. O saltador entrou.
Mostre a saída a Brabul, que tem permissão para retirar-se.
Gucky cambaleou para fora da sala e saiu caminhando pelo corredor, em direção ao elevador. Ficou contrariado ao notar que o saltador o acompanhava. Isso não era nada agradável, pois não tinha a menor intenção de abandonar tão depressa a toca do leão. Parou subitamente, mediu o saltador perplexo com um olhar de desprezo e chiou em tom amargurado:
Dê o fora, filho de um verme! Não ouviu o homem dizer que estou livre e posso ir para onde quiser? Dispenso sua companhia.
O saltador era musculoso e tinha quase dois metros de altura. Uma barba ruiva emoldurava o queixo, e em seus olhos a audácia emparelhava-se com o espírito empreendedor. Só se sentiu dominado pelo espanto por uma fração de segundo, mas seu verdadeiro caráter logo levou a melhor.
Esse anão ridículo. Que atrevimento! Teve a audácia de insultar-me”, pensou. “Não posso suportar uma coisa dessas.”
Adiantou-se de chofre e segurou Gucky com ambas as mãos.
Eu o mato, seu monstrinho — disse em tom furioso e puxou-o para junto de si. O rato-castor ficou satisfeito. Concentrou-se e realizou a teleportação.
No mesmo instante, voltou a materializar-se no platô em meio à mata virgem. O saltador continuava a segurá-lo. O contato físico fizera com que o rato-castor também o teleportasse. Evidentemente não teve consciência do fato. Ficou ainda mais espantado ao notar que, de um instante para outro, encontrava-se num ambiente bastante diverso.
O que é que eu sou? — chiou Gucky em tom furioso e empurrou o saltador perplexo para longe. — Um monstrinho? E logo você é quem vem me dizer uma coisa dessas, seu colosso de carne com cérebro de pulga? Você ainda terá oportunidade de me conhecer melhor.
Onde estou? — gaguejou o saltador, que já não compreendia mais nada.
Gucky soltou um assobio estridente. Rhodan saiu de uma das colméias. Noir seguiu-o de perto. Uma sombra cinzenta atravessou a praça e foi assumindo contornos: era Gracinha. Cumprimentou Gucky com um choro alegre e rosnou bastante zangado para o saltador.
Vamos, seu monte de estupidez — disse Gucky, empurrando o prisioneiro à sua frente. — Meu chefe quer falar com o senhor, e quero dar-lhe um bom conselho: diga a verdade.
O saltador lançou um olhar apavorado para o purrense, que continuava furioso, e pôs-se a andar. Gucky ficou para trás e acariciou Gracinha.
Rhodan lançou um olhar curioso para o visitante forçado, que se aproximou aos tropeções e parou à sua frente. Não conseguiu ler nada em sua mente além da confusão. O saltador ainda não compreendia como fora parar ali. Havia algo de errado em tudo isso.
Antes que pudesse abrir a boca para formular uma indagação a esse respeito, o homem alto de rosto tão franco e severo adiantou-se. A pergunta dirigida a ele foi tão surpreendente e clara que teve de responder antes que pudesse pensar numa mentira:
Onde está Thora, a mulher que foi seqüestrada por Tropnow?
No subsolo...
Rhodan segurou a mão de Noir. Entre eles estava Gucky, que enlaçou os dois com os bracinhos. O contato seria suficiente para possibilitar a desmaterialização.
É agora! — disse Rhodan.
Gucky concentrou-se sobre o palácio do administrador e saltou.
Tiveram sorte. Viram-se na cobertura do gigantesco edifício, bem acima da cidade e junto à antena do hiper-emissor. O local estava ermo. Havia uma escada que levava para baixo.
Separaram-se.
Cuidem para que ninguém me perturbe — disse Rhodan. — Fiquem nas imediações das salas de rádio e intervenham sempre que seja necessário. Manteremos contato telepático.
O saltador preso lhes havia fornecido todas as informações desejadas. Estavam perfeitamente cientificados sobre a divisão das peças do palácio de Mansrin.
Ao chegar à porta da sala de rádio, Rhodan hesitou um pouco. Não estava armado. O que faria se houvesse resistência? A idéia de usar violência causava-lhe repugnância. Dessa forma, teria de influenciar os outros com o olhar sugestivo e com palavras enérgicas.
Com um gesto de cabeça, cumprimentou Noir e Gucky. Depois abriu abruptamente a porta.
Graças ao seu aprendizado hipnótico conhecia as instalações, de um hipertransmissor. Quase todos os controles eram automáticos. A dificuldade consistia apenas em regular o aparelho para as coordenadas corretas de transmissão e em conhecer o sinal de chamada do destinatário da mensagem.
Havia só um homem na sala. Estava sentado numa poltrona e lia. Quando Rhodan entrou, levantou a cabeça e cerrou os olhos. Por fora, Rhodan pouco se diferençava de um arcônida ou de um saltador, com exceção de alguns detalhes insignificantes.
O que deseja? — perguntou o homem em tom indeciso e levantou-se. Não sabia o que fazer com o desconhecido. — Quem foi que o mandou para cá?
Rhodan olhou para o operador de rádio.
Trago ordens do administrador. Faça uma ligação urgente para o regente robotizado de Árcon.
Talvez o homem aceitasse a ordem e executasse o trabalho. Porém o operador de rádio estava desconfiado...
Trouxe uma ordem escrita?
Rhodan sacudiu a cabeça e reforçou a potência sugestiva de seu olhar.
A ação produziu o efeito desejado. O operador de rádio foi ao quadro de controle e dirigiu a energia para as instalações. Com alguns movimentos, ligou o transmissor e o receptor. Telas acenderam-se. Rhodan foi para o lado, a fim de não ser captado por uma câmara oculta. Não convinha que o robô o reconhecesse. Sua intenção era fazer com que o computador quebrasse “a cabeça” para descobrir por que seu interlocutor não aparecia.
Aqui fala a estação Volat, sistema Heperés. Administração Mansrin. Responda, regente.
Rhodan chamou Gucky por via telepática. O rato-castor entrou. Perry acenou com a cabeça, o rato-castor compreendera. Por trás, aproximou-se do operador de rádio, que não desconfiava de nada, colocou o braço em torno de seu corpo e desapareceu com o homem. Dali a dez segundos, voltou a materializar-se, sem o operador de rádio.
Eu o tranquei no porão — chiou muito alegre. — Levarão ao menos duas horas para encontrá-lo. E quando isso acontecer não poderá fornecer qualquer explicação sensata sobre a maneira pela qual chegou lá. Ninguém acreditará que algum espírito o retirou do seu posto.
Rhodan interrompeu-o com um gesto.
Vá para fora. Cuide juntamente com Noir para que no próximo minuto ninguém entre nesta sala. O computador regente não deve desconfiar de nada.
Gucky retirou-se.
A resposta da primeira mensagem chegou.
A tela iluminou-se e Rhodan voltou a ver o “rosto” conhecido do regente. Era uma gigantesca semi-esfera de aço puro que descansava sobre a seção do corte. Tratava-se do maior computador positrônico do Universo. Ficava a quase 30 mil anos-luz de distância e estava abrigado num enorme pavilhão, de onde governava o império estelar. As ondas de rádio percorreram o hiperespaço e transmitiram sua imagem em menos de um milésimo de segundo.
Ouviu-se a voz mecânica do computador...
Aqui fala o regente de Árcon. O que houve, Volat?
Rhodan mantinha-se longe da instalação. Disse:
Alarma, regente! Um grupo de rebeldes revoltou-se contra o Império. O administrador Mansrin pede o envio de uma pequena frota de apoio.
Houve uma ligeira pausa. Depois ouviu-se a pergunta:
Não estou recebendo a imagem. Quem está falando?
O radioperador de plantão, regente. As instalações estão com defeito. O transmissor de imagens está com defeito. O auxílio é urgente.
Seguiu-se mais uma ligeira pausa. Depois veio a resposta:
Frota será enviada. Chegará a Volat dentro de vinte e quatro horas planetárias. Aliás, a imagem da sala de rádio está sendo captada com toda nitidez. Não constatei qualquer defeito.
Rhodan assustou-se. Não se lembrara da lógica inflexível do computador. Sua desculpa não fora bem pensada. Decidiu jogar todas as chances numa única carta. Com uma das mãos, pegou a chave principal que desligava a energia e disse:
Estou falando por uma linha auxiliar. Os rebeldes... Socorro...
De repente moveu a chave. A instalação foi desligada.
O alto-falante emudeceu.
O computador teria tempo de sobra para refletir.
Um sorriso frio surgiu no rosto de Rhodan enquanto caminhava até a porta. Abriu-a e saiu para o corredor. Noir e Gucky estavam parados, sem fazer nada. Não aparecera ninguém que pudesse perturbar Rhodan.
Pronto! — disse este e continuava a sorrir. — Dispomos de exatamente vinte e quatro horas para dar uma batida no quartel-general. O regente de Árcon não tolera qualquer revolta contra o Império. Quando tudo tiver passado, todo mundo acreditará que Árcon impôs a ordem. Ninguém desconfiará que nós estivemos atrás disso — segurou a mão de Gucky e de Noir a fim de estabelecer o contato que permitiria o salto de teleportação. — Deixaremos que Árcon trabalhe por nós. Afinal, já fizemos muita coisa em favor do regente.
Gucky assobiou para manifestar sua concordância e exibiu o dente roedor.
Foi a última coisa que Rhodan viu antes que se encontrasse novamente no platô da rocha situado em plena mata virgem. Quando rematerializaram-se, Perry quase pisou o rabo de Gracinha.
4



OS últimos detalhes do plano de ação foram acertados naquela mesma noite.
Seria muito mais simples se eu saltasse sozinho para dentro desse ninho de víboras e tirasse Thora de lá — disse Gucky pela décima vez.
Sentado no chão, estava recostado contra a barriga macia de Gracinha, que se esticava gostosamente e ronronava baixinho.
Não é possível — repetiu Rhodan, também pela décima vez. — Estou interessado principalmente em pôr os dois traidores fora da ação e colocar a culpa nas costas do computador regente.
Será que o computador positrônico tem costas? — disse Gucky em tom de espanto, sacudindo a cabeça.
A expressão de seu rosto era muito séria.
Rhodan já parecia estar cansado de ocupar-se com as sutilezas do rato-castor. Prosseguiu:
Quando a frota de guerra de Árcon chegar ao planeta para agir contra os rebeldes, deve haver prova evidente de que em Volat realmente existem rebeldes. Acontece que por enquanto ninguém sabe disso. Se houver uma pequena guerra no edifício que abriga as empresas dos saltadores, os oficiais de Árcon reagirão imediatamente. Tomara que Mansrin acompanhe a ação. Deve-se ter a impressão de que Tropnow e Yatuhin se rebelaram contra o Império.
E as tropas de Árcon avançarão contra os mesmos — disse Noir com um gesto de concordância. Estava sentado ao lado de Lloyd, que já se recuperara perfeitamente e ansiava para vingar-se da derrota. — Mataremos dois coelhos com uma só cajadada. Vamos nos livrar dos inimigos, sem que ninguém saiba de quem eles eram inimigos.
Desde que fiquem com a boca fechada... — resmungou Gucky.
Rhodan respondeu em tom bastante sério:
Os traidores não devem ter a menor oportunidade de revelar o segredo. Gucky cuidará disso.
O rato-castor fez um rosto muito triste.
Sempre eu! E olhe que sou pacifista. Não consigo matar ninguém...
Quem está falando em matar? Quero que você se “apodere” dos dois mutantes. Depois Noir lhes aplicará um bloqueio hipnótico que fará com que se esqueçam de tudo. O resto será providenciado na Terra.
Gucky sentiu-se tranqüilizado. Fez um gesto de concordância. Rhodan prosseguiu:
Amanhã pelo meio-dia penetraremos no edifício dos amotinados, com a ajuda da tropa auxiliar de Lloyd. Mais ou menos naquela hora, deverá pousar a frota de Árcon. Ainda ao mesmo tempo, alarmarei Mansrin. Este reagirá imediatamente e enviará os soldados do Império ao lugar em que estivermos. Em meio à confusão generalizada, seqüestramos os dois mutantes e libertamos Thora. Meu plano é mais ou menos este. Alguma sugestão?
Lloyd fez um gesto.
Tenho uma pergunta. Vamos voltar ao platô?
Naturalmente. Depois providenciaremos o resto.
Minha Gazela está escondida nas proximidades da cidade. Suponhamos que neste meio tempo tenha sido encontrada. O que faremos se isso acontecer?
Não se preocupe. Combinei um sinal de emergência com o comandante Markus. Além disso, não existe o menor indício de que a nave tenha sido descoberta.
Lloyd hesitou um pouco, mas logo se deu conta de que certamente já haviam lido seus pensamentos. Lançou um olhar ligeiro para Kuri Onere, que se mantinha um pouco afastada, acompanhando a palestra.
O que será feito de Kuri? Se não fosse ela...
Rhodan mostrou um sorriso cheio de compreensão e acenou com a cabeça.
Kuri irá à Terra conosco. Thora ficará satisfeita em ter mais uma amiga na qual possa confiar. Mais alguma pergunta?
Fellmer Lloyd suspirou aliviado. Não tinha outras perguntas.

* * *

Mais um dia raiou sobre a cidade de Kuklon. Como de costume, era um dia ensolarado e quente. Neste ponto esse dia não se distinguia dos outros de verão. Mas hoje aconteceria uma coisa que faria dele um dia todo especial.
Ao menos para aqueles que conseguissem sobreviver ao mesmo.
O administrador Mansrin ainda não tinha a menor idéia dos próximos acontecimentos. Tal qual fazia todos os dias, levantara não muito cedo, tomara um banho morno e saboreou o lanche.
Ouviu os pedintes costumeiros pertencentes à raça dos nativos e, ainda tal qual fazia todos os dias, recusara seus pedidos. O que tinha que ver com essas semi-inteligências primitivas? Poderiam ficar contentes porque pouco se interessava por elas, preferindo deixá-las em paz.
Depois leu as notícias que acabaram de chegar do setor de rádio. Era bem mais interessante. Havia cada coisa...
No sistema de Berila, acabara de ser sufocada uma revolta engendrada por uma raça de seres semelhantes a cobras. Uns vinte mil anos-luz mais adiante, próximo ao centro da Via Láctea, houve uma tempestade cósmica elétrica, que vitimara uma frota robotizada. Uma única nave conseguiu escapar à catástrofe e ofereceu um relato vivo. Mansrin ouviu-o com um ligeiro calafrio. Gostava mais desse tipo de entretenimento que dos modelos coloridos abstratos que eram projetados nas telas de recreação. Além disso, escutou que houve uma guerra entre os planetas de um sistema gigante. Nessa guerra estiveram envolvidos mais de cinqüenta mundos, mas o regente interviera de pronto.
Subitamente Mansrin descobriu o que havia de errado nesse noticiário.
Refletira sobre isso todo o tempo, mas não se deu conta do que lhe chamara a atenção. Agora sabia. No cronograma das confirmações de recepção, havia uma lacuna.
Uma lacuna considerável!
Durante três horas a estação de rádio esteve desguarnecida, ou então o operador de plantão dormira.
Procurou o nome e encontrou-o. Também descobriu quem era o operador substituto.
Mansrin, um arcônida não pertencente à classe das criaturas degeneradas e indolentes, não confiava integral e exclusivamente na tecnologia por eles criada. Ainda sabia pensar e agir.
E foi o que fez.
Diga ao operador de rádio Bredag que deve comparecer aqui — ordenou assim que a ligação com o chefe do pessoal foi estabelecida. — Quero que venha imediatamente e que traga o cartão de controle eletrônico.
O administrador recostou-se na poltrona e ficou esperando. Não tolerava o desleixo, ainda mais entre seus colaboradores mais chegados. Se o operador de rádio não pudesse provar que naquelas três horas do dia anterior não havia chegado nenhuma mensagem, era porque havia dormido. Ou então porque não se encontrava na sala de rádio.
A porta abriu-se. Mas quem entrou por ela não foi Bredag, mas um jovem arcônida. Em seu rosto havia uma expressão de perplexidade, misturada com a consciência da culpa.
Perdão, administrador. Entrei em serviço na sala de rádio depois do turno de Bredag. Não estava presente quando entrei na sala. Supus que tivesse saído mais cedo. Porém, quando o oficial de serviço perguntou por ele, vi que o cartão de controle se encontrava no quadro. Dessa forma, Bredag ainda não podia ter saído da sala de rádio!
Mansrin estreitou os olhos.
Não estou com vontade de resolver charadas logo de manhã. Explique melhor o fenômeno.
Não existe explicação para o fenômeno, senhor. O cartão de controle foi inserido no espia eletrônico que controla a única porta de acesso à sala de rádio. Esse cartão registrou a entrada de Bredag, mas não contém qualquer indicação de que tenha saído. Logo, Bredag ainda deve encontrar-se no interior da sala de rádio. Acontece que não está lá!
Isso é impossível! — exclamou Mansrin e ergueu-se. — Não me venha com contos de fadas. O que houve com Bredag? Preciso saber.
Revistamos a sala de rádio, mas não encontramos o menor vestígio de Bredag.
Não queríamos preocupá-lo e por isso preferimos informá-lo só depois que o incidente fosse esclarecido. Infelizmente isso ainda não aconteceu.
Ninguém pode enganar o controle eletrônico. Bredag tem de estar na central.
Acontece que não está — insistiu o operador de rádio. — Só existe uma explicação lógica: Bredag dissolveu-se no ar e desapareceu.
O senhor acha que essa explicação é lógica? — esbravejou Mansrin. — Nunca ouvi uma tolice igual. Hum, talvez haja algum defeito no equipamento de controle. Mas mesmo se isto tivesse acontecido, tornava-se possível encontrar Bredag.
Pois é justamente isso, senhor. Não conseguimos encontrá-lo. Nem mesmo nos seus aposentos.
Mansrin refletiu.
As três horas que faltam no cronograma deixam-me bastante preocupado. No momento em que foi ocupar seu posto e não encontrou Bredag, o senhor deveria ter avisado imediatamente.
Vez por outra acontece que alguém sai da sala de rádio alguns minutos antes do revezamento. Qualquer mensagem que chegue é recebida e registrada automaticamente. Mas no caso isso não aconteceu. A aparelhagem estava desligada.
Desligada?
Sim senhor. Ficou desligada durante três horas.
O administrador voltou a recostar-se na poltrona. Lançou um olhar pensativo sobre o jovem arcônida. Seu instinto lhe dizia que o mesmo estava falando a verdade. Mas nem por isso o mistério estava resolvido. Pelo contrário...
Uma inquietação começou a espalhar-se pela mente de Mansrin. Em seu pensamento lógico, orientado segundo os ditames da técnica, não havia lugar para fenômenos inexplicáveis. Tudo tinha uma explicação, até mesmo um milagre!
Continue a procurar Bredag. Assim que for encontrado, quero falar com ele. Mantenha-me informado. Pode retirar-se.
Quando se viu só de novo, fechou os olhos e meditou.
Teve a impressão segura de que esse incidente não seria a única surpresa desagradável do dia.
E esta impressão seria confirmada.

* * *

Dali a duas horas, várias pessoas entraram discretamente no gigantesco edifício situado nas proximidades do espaçoporto. Vinham das direções mais variadas e pareciam não ter nada uma com a outra. Evidentemente essa conclusão era falha.
Fellmer Lloyd atravessou o corredor do primeiro andar e entrou no bem montado pavilhão de leitura, junto à sala de recepção. Cumprimentou alguns volatenses que estavam sentados nas poltronas confortáveis e mergulhados na leitura dos jornais espalhados por toda parte. Também sentou-se e pegou um livro sobre a construção da frota espacial arcônida.
A menos de cinqüenta metros dali Rhodan e Noir pararam diante de uma porta. Havia uma placa que indicava tratar-se da sala no 18.
Gucky, onde está? — telepatou Rhodan e perscrutou intensamente seu interior.
A resposta veio com uma rapidez espantosa:
No porão. A primeira sala, instalada como prisão, está vazia. Chefe, dê-me uma dica sobre o lugar em que devo procurar.
Assim que tiver, darei — transmitiu Rhodan. — Enquanto isso continue a procurar.
Depois fez um sinal para Noir e bateu fortemente à porta.
Demorou bastante até que se ouvisse um leve zumbido. A porta poderia ser aberta. Rhodan ficou admirado por ter sido tão fácil. Esperara enfrentar dificuldades bem maiores, mas provavelmente Tropnow se sentia muito seguro.
Entrou acompanhado de Noir e fechou a porta.
O traidor estava sentado atrás de sua escrivaninha e fitava os dois homens que acabavam de entrar. Ao que parecia, seu cérebro recusava-se a compreender o fato de que o homem que supunha estar a 4.300 anos-luz de distância subitamente se encontrava diante dele. Demorou quase dez segundos até que a cor de sua pele se modificasse. Tornou-se branca como a neve; não havia uma gota de sangue nas bochechas. Tropnow ergueu-se ligeiramente na poltrona, mas logo voltou a afundar na mesma. Sua boca abriu-se e gaguejou alguma coisa, mas não conseguiu articular nenhum som inteligível.
Bom dia — disse Rhodan em tom amável, mas sua voz continha um sinal de advertência para o traidor. — Estimo vê-lo bem disposto. Espero que minha esposa esteja tão bem disposta como o senhor.
Rho-Rhodan — balbuciou Tropnow. — O senhor?
No segundo subsolo há um arsenal. O que devo fazer? — transmitiu Gucky.
Pegue um radiador de impulsos e solde a porta do lado de dentro — ordenou Rhodan com o rosto impassível.
Depois voltou a dirigir-se a Tropnow, que continuava trêmulo, e disse:
Onde está Thora? Fale logo, senão Noir esvaziará seu cérebro. O senhor sabe perfeitamente como uma pessoa costuma ficar depois disso.
O traidor, também um hipno, sabia perfeitamente que uma intervenção violenta na consciência pode causar perda parcial da capacidade de raciocínio. Estendeu a mão num gesto de defesa.
Direi tudo, Sir. Pode perguntar.
Já formulei uma pergunta.
Na testa de Tropnow surgiram as primeiras gotas de suor. Brilhavam que nem pérolas.
Thora está... está num lugar seguro. O senhor me concede a liberdade se eu revelar o lugar em que se encontra?
Como hipno que era, Tropnow conseguia ocultar seus pensamentos. Rhodan não conseguiu descobrir onde estava Thora. Fez um esforço para controlar-se e não demonstrou a raiva de que estava possuído. Mas sua voz soava fria e perigosa quando disse:
Tropnow, eu o previno. O senhor não pode estabelecer condições. O fato de eu o ter encontrado a uma distância de milhares de anos-luz não lhe diz bastante? Neste instante, uma frota de guerra arcônida está pousando em Volat, a fim de restabelecer a ordem. O senhor não tem a menor possibilidade de exercer qualquer vingança contra mim. Desista Tropnow.
Será que Thora significa tão pouco para o senhor?
Noir cerrou os punhos, mas Rhodan advertiu-o com um olhar.
Tropnow! — disse Perry em tom enfático. — Nunca estrangulei um homem, mas hoje o farei. Neste instante e nesta sala. Eu o previno. O senhor dispõe de dez segundos.
Talvez Tropnow se desse conta de que Rhodan falava terrivelmente sério. Calculou suas chances, enquanto a mão procurava alcançar o botão de alarma. Faltavam dez centímetros.
...três... quatro... cinco...
Tropnow olhou de esguelha para os dois homens, enquanto sua mão atingia o botão e comprimia-o. Suspirou aliviado. Naquele mesmo instante, o alarma soaria em todas as salas em que as forças estivessem de prontidão e chamaria os homens às armas. Acontecesse o que acontecesse, daquele momento em diante não estaria só. Esse fato restituiu-lhe a autoconfiança.
...dez! — disse Rhodan. Continuava com o rosto impassível, sem demonstrar que vira o movimento do traidor. Ao desencadear o alarma, Tropnow colaborou com os planos de Rhodan. Era pouco antes de meio-dia. A frota dos arcônidas devia pousar naquele instante. — Então, onde está Thora?
Tropnow soltou uma risada sarcástica.
O senhor disse que me mataria, Rhodan. Pois mate-me, e nunca descobrirá onde está Thora.
Outra mensagem silenciosa de Gucky foi captada:
Acabo de descobrir Thora. Ela está passando bem. E agora?
Espere aí mesmo, Gucky! — respondeu Rhodan e olhou para Tropnow. Depois disse em voz alta.
Na verdade, devia aceitar seu convite. Quanto a Thora, não se preocupe. Já sabemos onde se encontra. Será que não acredita?
Tropnow soltou uma risada monstruosa.
É verdade; não acredito — precisava ganhar tempo. A qualquer momento os homens por ele chamados poderiam entrar na sala.
Pois o azar é seu, Tropnow. Thora está no subsolo. E Gucky está com ela.
Gucky? Esse rato-castor?
Então já o conhece?
Ouviu-se o ruído de passos vindo do corredor. Alguém bateu à porta. Tropnow dispôs-se a fazer um movimento, mas Rhodan advertiu-o com um olhar.
Espere aí! Até parece que o senhor não preza a vida.
O senhor não está armado.
Rhodan acenou lentamente com a cabeça.
Isso não deixa de ser verdade. Mas o senhor não perde por esperar...
Passou a pensar intensamente:
Ei, Gucky. Deixe Thora por mais algum tempo no lugar em que se encontra. Traga-nos alguns radiadores portáteis do arsenal. Venha à sala dezoito. Rápido!
Logo reiniciou:
Mesmo sem podermos contar com sua colaboração no Exército de Mutantes, este ainda dispõe de muita gente capaz. Aguarde e verá.
O rosto de Tropnow, que já começara a recuperar as cores, tornou a empalidecer.
Voltaram a bater à porta. Desta vez as batidas foram mais fortes e insistentes.
Depois de uma ligeira pausa, um aparelho que se encontrava sobre a escrivaninha de Tropnow deu um estalo. Uma voz perguntou:
O que houve com você, Gregor? Aqui fala Nomo. Por que não responde? Qual foi o motivo do alarma?
Antes que Tropnow pudesse completar o contato, Noir colocou-se a seu lado. Rhodan pôs o dedo sobre os lábios, ligou o transmissor e disse para dentro do microfone:
Nomo, venha imediatamente à sala dezoito. Depressa!
Rhodan desligou sem dar outras explicações.
Na porta ouviu-se um chiado suspeito. Uma faixa de solda branca e fulgurante foi aparecendo. Tentavam penetrar no recinto à força. A situação começava a tornar-se crítica.
Subitamente, o ar começou a tremeluzir no centro da sala e Gucky surgiu do nada. Cinco radiadores portáteis caíram ruidosamente ao solo. Eram do tipo que, regulado à intensidade mínima, paralisava um homem por várias horas. Gucky ia desaparecer novamente, mas lembrou-se da raiva reprimida desde o dia anterior. Deu um passo rápido, colocou-se à frente de Tropnow, retesou o corpo e aplicou uma enorme bofetada no traidor.
Isto não é nenhum babuíno, mas uma suculenta bofetada — chilreou em tom alegre. — E vem de mim.
A seguir, repetiu a cerimônia e explicou:
E esta é pelo rapto de Thora.
No mesmo instante, desapareceu sem deixar o menor vestígio. As bochechas vermelhas de Tropnow e os cinco radiadores eram o único sinal da presença de Gucky.
Rhodan abaixou-se, colocou dois radiadores no cinto, pegou outro e passou os dois restantes a Noir.
Bem, Tropnow, não vamos fazer essa gente esperar mais. Abra a porta antes que ponham fogo na casa. Ande logo!
Subitamente a porta incandescente abriu-se como que por mãos de um fantasma. Rhodan dedicou sua atenção ao que se passava no corredor. Sabia que a qualquer momento Fellmer Lloyd devia aparecer com sua tropa a fim de atacar o inimigo pela retaguarda.
Três homens passaram pela porta incandescente e precipitaram-se sala adentro. Estacaram quando viram três armas apontadas em sua direção. Mantinham as mãos quietas, pois os rostos dos homens que seguravam as armas pareciam muito resolutos.
Tropnow, que continuava atrás da escrivaninha, fez um movimento rápido. No corredor ouviram-se gritos, e logo alguns disparos de radiações começaram a chiar. Houve um tumulto. A esperança voltou a brilhar nos olhos dos três homens que acabavam de penetrar na sala.
Antes que Rhodan tivesse tempo de virar-se, viu pelo canto do olho que Gregor tirara uma arma da gaveta.
E a arma estava apontada para suas costas.

* * *

Há horas Bredag, o operador de rádio, martelava em vão as grossas paredes de sua prisão.
Não tinha a menor idéia do lugar em que se encontrava, e muito menos sabia explicar como fora parar ali. Estava sentado diante de seu equipamento de rádio, e de repente se vira nesse recinto escuro. O ar era viciado, como se o condicionador tivesse ficado sem funcionar há vários meses.
Já dera alguns passos tateantes para descobrir as dimensões do recinto. Media cerca de cinco metros por quatro. Não havia móveis, e uma porta de ferro o isolava do mundo exterior.
Certa vez ouvira passos do lado de fora e batera desesperadamente na porta, mas ninguém o escutara. O ruído dos passos foi tornando-se mais fraco para logo desaparecer ao longe. Logo depois, o silêncio apavorante voltou a reinar.
Bredag não sabia quanto tempo passara ali. Talvez fossem algumas horas. Ou seria um dia? Era possível que lá fora já fosse noite.
Agachado num canto, ficou matutando. Se ao menos soubesse como viera parar ali. Não acreditava em fantasmas. Lembrava-se daquele desconhecido que penetrara na sala de rádio e pedira uma ligação com Árcon. Será que o mesmo tinha algo a ver com o acontecimento inexplicável?
Uma ligação com Árcon? Sim, foi isso mesmo! — exclamou em voz baixa.
Alguém se aproximara dele por trás e o enlaçara com os braços. Antes que tivesse tempo de descobrir o que significava isso, tudo ficou às escuras e logo ele se viu nesse cubículo escuro.
Sacudiu a cabeça e balbuciou:
Será que eu podia encontrar alguém que estivesse disposto a acreditar nessa história?
Subitamente estremeceu. Teve a impressão de que voltara a ouvir passos diante da porta metálica. Levantou-se e encostou o ouvido ao metal frio. Só agora se deu conta de que estava sentindo muito frio.
Havia gente andando lá fora. Ouviu perfeitamente que os passos se aproximavam. Começou a bater na porta com toda a força. Talvez não bastasse. Abaixou-se ligeiro, tirou os sapatos e voltou a batê-los de encontro à porta.
Os passos silenciaram; depois aproximaram-se rapidamente.
Bredag ouviu que batiam de volta. Respondeu.
Logo ouviu o zumbido da fechadura eletrônica. A porta abriu-se. A luz inundou a prisão, e alguém gritou seu nome em tom de surpresa. Cambaleando, o infeliz operador de rádio saiu para o corredor e caiu diretamente nos braços de seus libertadores, que ficaram surpresos demais.
Levaram-no ao administrador Mansrin, que ouviu a história fantástica. Estava incrédulo, mas não ordenou qualquer medida de punição.
Dali a alguns minutos fitando a porta fechada, pensou:
Quem será o desconhecido que pediu uma ligação com Árcon? Eu, Mansrin, não havia expedido nenhuma ordem nesse sentido. E quem carregou Bredag para fora da sala de rádio sem que o cartão de controle eletrônico registrasse seu modelo de vibrações cerebrais?
Havia perguntas e mais perguntas, mas nenhuma resposta.
O aparelho de comunicação que se encontrava sobre a escrivaninha emitiu um zumbido. Ligou com um gesto distraído. Mas sua atitude sonolenta desapareceu quando ouviu a voz fria:
No edifício comercial dos mercadores galácticos estão acontecendo coisas estranhas, administrador. Está havendo um combate com armas de fogo. Ao que parece, dois grupos inimigos travam uma luta. Um dos nossos homens entrou lá por acaso e a muito custo conseguiu escapar.
Uma luta com armas de fogo?
Sim senhor. Nos pavimentes inferiores do edifício está ocorrendo uma verdadeira guerra.
Mansrin sacudiu a cabeça.
Como pode ser possível uma coisa dessas? Já notificaram a polícia?
Não senhor. O que devemos fazer?
Chame as tropas de segurança. Estas devem ocupar o edifício e prender os culpados. Nada de negociações. Em Volat não toleramos tumultos. Vamos agir de imediato. Irei pessoalmente ao local dos acontecimentos.
Porém, Mansrin não teve tempo para isso.
Mal desligou o aparelho, uma enorme tela presa à parede iluminou-se. Essa tela estabelecia ligação direta com a sala de rádio do hipertransmissor.
O que seria desta vez?
O vulto de um homem surgiu na tela.
Administrador, o comandante de frota Arona quer falar com o senhor.
Arona? Não sei quem é.
Antes que o operador de rádio pudesse responder, sua imagem foi substituída por outra. Um leve tremor indicava que vinha de grande distância e estava sendo conduzida pelo hiperespaço. Mas o tom da voz era claro e nítido; não havia a menor distorção.
O senhor é Mansrin, administrador de Volat?
Mansrin acenou instintivamente com a cabeça. Sabia que seu interlocutor o via.
Sim. Quem é o senhor e o que deseja?
Sou Arona, comandante da sétima frota de guerra de Árcon. Fomos informados de que nesse planeta irrompeu uma revolta. Forneça os dados, para que eu possa organizar a ação de combate. Encontramo-nos a cinco horas-luz de seu sistema. Realizaremos uma transição ligeira e pousaremos dentro de meia hora. Ordene a suspensão imediata de todas as decolagens.
Por aqui não houve nenhuma revolta! — exclamou Mansrin em tom de perplexidade. — Não transmiti o alarma para Árcon.
Recebi ordens do computador regente — disse Arona, recusando outras explicações. — Tenho que guiar-me pelas mesmas.
Foi... o desconhecido”, pensou Mansrin. “Quem será o estranho que penetrou em meu palácio e utilizou a estação de rádio para alarmar Árcon?
Volat é um mundo pacífico e...
Vou desligar — disse Arona em meio à frase. — Pousaremos exatamente dentro de vinte e oito minutos. Tome todas as providências para que não haja nenhum incidente. Assim que pousar desembarcarei um exército de robôs e darei ordens para atacar. Desligo.
A tela apagou-se. Subitamente Mansrin viu-se só. Nunca estivera tão só em toda sua vida.

* * *

Noir agiu instantaneamente.
Não tivera tempo para regular seu radiador. Por isso, o traidor Tropnow foi atingido por toda a carga energética da arma, antes que pudesse disparar contra Rhodan. Teve morte instantânea.
Rhodan disse em tom frio:
Larguem as armas, cavalheiros. Tenham cuidado, pois sei atirar tão depressa como meu amigo. Isso mesmo; estão sendo bonzinhos. E agora caminhem em direção à parede, fiquem de costas para nós, e não façam o menor movimento.
Empurrou os três radiadores com o pé para o lado oposto da sala. Para chegar até eles, os três homens apanhados de surpresa teriam que passar por Rhodan, e por enquanto isso não era possível.
Fellmer Lloyd surgiu na porta por um instante.
Estão fugindo para baixo — disse. — Vamos persegui-los e, se possível, prendê-los em algum lugar.
É preferível que não façam isso — respondeu Rhodan. — A frota de Árcon deve chegar a qualquer momento. E é bom que ela encontre ao menos alguns rebeldes ainda em luta, para que meu alarma pareça verdadeiro. Por isso o inimigo deve ser mantido apenas à distância e, quando nos retirarmos, deverá ter possibilidade de recuperar suas armas. Levem estes três.
Entendido — disse Lloyd e saiu levando os três prisioneiros.
Rhodan suspirou aliviado.
Gucky! — telepatou. — Traga Thora para cá.

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