Rhodan,
Noir e os três volatenses aproximaram-se. Estes últimos mantinham
suas zarabatanas em posição, mas Rhodan tranqüilizou-os. Explicou
que a essa altura a fera era totalmente inofensiva, incapaz de fazer
qualquer coisa a quem quer que fosse. Após isso, o rato-castor foi
alvo de uma respeitosa admiração, e isto evidentemente lhe fazia
muito bem.
— Noir —
disse Rhodan — procure tirar alguma coisa desse purrense. Pergunte
quem lhe dá ordens, de onde veio e tudo que possa ser de interesse
para nós. Provavelmente terá de remover o bloqueio hipnótico
colocado em torno do cérebro do animal.
Foi mais
fácil do que pensavam.
Uma vez
libertado do comando hipnótico, o purrense transformou-se na
criatura mais pacata que se poderia imaginar. Não soube informar
muita coisa, mas o grupo de amigos ficou sabendo que em Kuklon havia
um bando de saltadores e arcônidas dirigidos por dois personagens
misteriosos, que dispunham de poderes mágicos. Um deles lia
pensamentos, enquanto o outro sabia impor sua vontade a qualquer ser
vivo.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
Essas
informações correspondiam ao relatório do comandante Markus.
Yatuhin e Tropnow, os dois traidores, eram antigos membros do
Exército de Mutantes.
— Pergunte
ao purrense se sabe alguma coisa a respeito de Thora.
O hipno
não teve a menor dificuldade em projetar as indagações mentais
para dentro do cérebro do gato. A comunicação era extremamente
simples.
Noir
sacudiu a cabeça.
— Não
tem a menor idéia da existência de uma prisioneira, mas supõe que
a mesma se encontre no quartel-general do bando, se é que está no
planeta.
— Onde
fica isso?
Mais uma
vez houve o jogo mental silencioso.
— Fica
num grande edifício, perto do espaçoporto. Está disposto a mostrar
o lugar, desde que não o matemos.
Rhodan
parecia espantado.
— Não
temos a menor intenção de matar uma criatura que sabe cooperar
conosco. Transmita-lhe isto.
O que se
seguiu após isso realmente foi espantoso.
Libertado
do campo telecinético gerado por Gucky, o gigantesco gato rastejou
em direção a Rhodan e lambeu-lhe os pés. Depois ronronou
fortemente e espreguiçou o corpo.
Gucky
contemplou o quadro com um espanto enorme e recuou instintivamente
quando o inimigo hereditário se aproximou dele para lamber seu
corpo. A língua áspera provocou tamanha cócega no rato-castor que
o fez rir baixinho e exibir o dente roedor. Finalmente deitou de
costas, numa atitude convidativa. O purrense fez-lhe o favor de
lamber também a barriga.
Rhodan
acompanhou o espetáculo por algum tempo e disse:
— Que
gracinha!
Gucky
levantou-se de um salto e fez com que o purrense recuasse apavorado.
— É
isso mesmo. Seu nome será Gracinha. Vamos ficar com ele, não é,
Rhodan?
— Ficar
com ele?
— Sim.
Vamos ficar com ele para sempre. É meu amigo e...
— Que
coisa estranha — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Às vezes
não consigo compreender como é que se pode mudar de opinião tão
depressa — olhou o gigantesco gato com uma expressão pensativa. O
animal parecia inofensivo e encostava-se carinhosamente a Gucky, como
se quisesse agradecer pela confiança que este lhe concedera. — De
outro lado, porém, é compreensível para quem vê o que está
havendo. Pois bem; por enquanto Gracinha poderá ficar conosco. Se as
coisas continuarem assim, ainda acabarei sendo dono de um zoológico.
Gucky
inclinou-se sobre o purrense, que estava deitado. Subitamente o
processo de comunicação entre as duas criaturas funcionava tão bem
como se nunca tivesse havido o menor problema entre as mesmas.
Será que
o rato-castor também era um hipno?
— Você
ficará conosco e seu nome é Gracinha —
telepatou Gucky, e Gracinha compreendeu.
Os três
volatenses haviam acompanhado os acontecimentos sem compreender nada,
mas a essa hora já pareciam estar convencidos de que o gato não
representava qualquer perigo para eles. Afinal, os homens eram
criaturas estranhas, conforme tantas vezes já tiveram oportunidade
de constatar. Por que quebrar a cabeça?
— E
agora — pediu
Noir de repente — levem-nos
ao seu esconderijo. Precisamos falar com nosso amigo Fellmer Lloyd.
Sem dizer
uma palavra, os volatenses se puseram em marcha, seguidos por Rhodan
e Noir.
Gracinha
ia na retaguarda. O rato-castor estava sentado nas suas costas,
deixando que seu novo amigo o carregasse.
Atrás
deles, jaziam na mata quatro purrenses mortos. Ao morrerem, ainda
eram feras sedentas de sangue; não tiveram tempo para voltarem a ser
as criaturas inofensivas de sempre.
3
Rhodan
ajeitou Fellmer Lloyd no travesseiro.
— Por
enquanto o senhor ficará deitado, meu caro, para recuperar-se dos
efeitos do choque. Se houver alguma coisa a fazer por aqui, eu
cuidarei disso. Mas conte logo o que aconteceu. Não sei de nada além
daquilo que Markus me contou, e isso não é muito, uma vez que ele
mesmo não estava muito bem informado.
O agente
cósmico acalmou-se e lançou um olhar ligeiro para Kuri. Os olhos de
amêndoa da filha dos mercadores estavam dirigidos sobre Rhodan e
havia neles uma expressão de admiração; ao que parecia, o rosto
franco daquele homem a cativava. Não é que Fellmer sentisse
qualquer coisa que pudesse parecer-se com ciúmes, mas subitamente
deu-se conta de quanto gostava de Kuri, e de como sentiria sua falta
se a perdesse.
— Escondi
minha Gazela perto de Kuklon, no meio da mata, e fui à cidade, onde
logo fiquei sabendo que Sikeron foi assassinado porque havia dado com
a pista de Yatuhin e Tropnow. Kuri ajudou-me a montar uma organização
por meio da qual esperava derrotar os amotinados. Porém subestimei o
inimigo e fui derrotado. Bem, praticamente é só isso.
— Não é
muita coisa — disse Rhodan, disfarçando o sentimento de decepção
para não deixar o doente ainda mais abatido. — Sabe algo a
respeito do inimigo?
Fellmer
Lloyd lançou um olhar para Rhodan.
— Tem
sua sede num edifício alto nas proximidades do espaçoporto. Esse
edifício foi cognominado como edifício-sede de empresas comerciais
ou coisa que o valha. Um clã dos saltadores aliou-se aos dois
traidores mas, ao que parece, não sabe muito bem do que realmente se
trata. Apenas lhes prometeram a vida eterna. Yatuhin e Tropnow
preferem não falar em Rhodan ou no planeta Terra. Não tomaram essa
atitude por qualquer espécie de consideração, mas por motivos
puramente egoísticos. Quando dispuserem dos necessários recursos e
de aliados em número suficiente, pretendem apoderar-se do legado
conferido ao senhor.
— Meu
legado? — disse Rhodan com uma risada; ao que parecia, a conversa o
divertia. — Se esses indivíduos soubessem como um legado desses é
pesado de carregar, desistiriam do intento.
— De
qualquer maneira a vontade de possuir esse legado causou a traição
— disse Lloyd olhando para Kuri Onere. — O que me preocupa é que
um dia podem informar os saltadores de que Perry Rhodan e o planeta
Terra ainda existem.
— De
qualquer maneira há de chegar o dia em que isso não será nenhum
segredo — disse Rhodan. — E o computador regente de Árcon ficará
sabendo que alguém o enganou. O que mais me alarma é o fato de que
em nossas próprias fileiras pôde ocorrer algo parecido com uma
rebelião.
— Um
mutante também é apenas uma criatura humana — disse Lloyd,
defendendo seus inimigos. — Os dois se sentem prejudicados por lhes
ter sido negada a ducha celular. Quem sabe se isso não foi um erro?
— Ninguém
é infalível — disse Rhodan, esquivando-se de uma resposta
objetiva. Ficou calado por um instante e perguntou:
— Quem é
o representante de Árcon neste mundo?
— O nome
do administrador é Mansrin. Não o conheço pessoalmente, mas pelo
que dizem é um sujeito muito competente, muito embora a
conhecidíssima arrogância arcônida leve a melhor. Por que fez essa
pergunta?
— Por
nada — disse Rhodan, que ainda não havia elaborado um plano
definido. — É importante que a gente saiba com quem está lidando.
— Alguns
dos meus aliados ainda devem estar neste planeta, se é que
sobreviveram ao ataque. Não tive tempo para cuidar disso.
— É o
que Noir está fazendo neste instante — disse Rhodan. — Pelo que
estou informado, houve sobreviventes que neste instante estão
tentando acostumar-se a Gucky e Gracinha.
— Gracinha?
— perguntou Lloyd, esticando as sílabas. — Nunca ouvi falar
nessa criatura. Trata-se de um novo membro de nosso Exército de
Mutantes?
Rhodan
riu.
— Infelizmente
Gracinha não chega a ser um mutante; é apenas um purrense. Desde
ontem...
— O que
vem a ser um purrense?
— Trata-se
de uma raça de felinos gigantes que vive em algum lugar no
setor
central da Via Láctea. Esses animais, originariamente inofensivos,
são fáceis de serem hipnotizados e, quando isso acontece, podem
transformar-se em feras. Os saltadores e outras inteligências
souberam tirar proveito dessa circunstância. Conseguimos “desarmar”
Gracinha e o acolhemos. Mantém excelente amizade com Gucky.
— O gato
e o rato? — disse Lloyd, sacudindo a cabeça. — E olhe que Gucky
sempre teve um respeito tremendo pelos gatos, especialmente os
grandes. Lembro-me da visita ao zoológico de Terrânia. O
rato-castor tremia de medo quando passamos pelo alojamento dos
tigres. “É
puro instinto”,
disse para desculpar-se. E, de repente, acontece isso? Qual é o
tamanho de Gracinha?
— Pode
competir perfeitamente com um tigre real adulto.
Lloyd não
podia compreender.
— E
Gucky consegue dar-se com uma criatura dessas? É inconcebível.
Rhodan
sorriu e mudou de assunto.
— Preciso
de mais algumas informações, a fim de fazer meus preparativos. Quem
sabe se poderia ajudar...
— Pergunte
à vontade. Afinal, não estava dormindo no momento em que fui
atingido pelo raio de choque.
Rhodan
submeteu Lloyd a um interrogatório minucioso.
* * *
— Você
devia usar algum disfarce! — recomendou Noir, contemplando Gucky da
cabeça aos pés. — Desse jeito qualquer um logo o reconhecerá.
O
rato-castor endireitou o corpo e alisou o pêlo marrom, desgrenhado
pelas carícias de Gracinha.
— Usar
um disfarce? — perguntou em tom de perplexidade. — Vou
disfarçar-me de quê? De homem? Isso daria na vista de qualquer
pessoa, por mais idiota que essa seja.
— Devia
usar ao menos uma capa, para esconder um pouco o pêlo. Talvez achem
que você é um anão.
Gucky
suspirou.
— A vida
das personalidades importantes não é nada fácil — constatou e,
ao que parecia, o fato lhe servia de consolo. — Se eu fosse como um
homem qualquer, tudo seria muito mais simples para mim. Mas assim...
Rhodan
concluiu o desenho que elaborara num pedaço de papel.
— Infelizmente
Lloyd não está muito familiarizado com os detalhes, mas ao menos
descobriu onde fica o quartel-general dos traidores. Gucky, você vai
saltar para o edifício e fará uma planta da parte interna. Vamos
precisar dela mais tarde, quando começar a confusão.
— Que
confusão?
— Você
saberá em tempo. Não se deixe agarrar em hipótese alguma e dê o
fora assim que apareça alguém. Volte quanto antes. Entendido?
— Voarei
como o raio — prometeu o rato-castor e lançou um olhar desconfiado
para Noir, que retornava com um pano colorido. — Para que serve
esse pedaço de cortina de circo? Você não vai me dizer que devo
usar esse pedaço de pano.
— Por
que não? — perguntou Rhodan, que já compreendera os planos de
Noir. — Se alguém o descobrir nesse disfarce, não saberá de onde
você vem. Vamos logo, Gucky! Vista isso. Não seja tão melindroso.
— Mas...
— piou Gucky em tom lamentoso. Parecia que teria de pagar por todos
os pecados do Universo.
— Não
há nenhum mas! — disse Rhodan em tom implacável. — Acha que vai
participar de um concurso de beleza?
Gucky
conformou-se com o destino cruel.
Parecia um
macaco vestido à maneira dos animais que antigamente o pessoal de
circo costumava levar para despertar a atenção das crianças. Os
olhos recriminadores exprimiam todo o sofrimento do mundo. Num ponto
mais afastado, Gracinha choramingava tristemente; até parecia que
Gucky estava sendo conduzido ao cadafalso.
— Só os
tolos são vaidosos — disse Rhodan, reprimindo o riso. — Salte
logo, meu velho!
— Seus
provérbios são sábios — murmurou Gucky, enfatizando as palavras
— mas não representam nenhum conforto para o meu coração
amargurado. Até logo.
Desapareceu
antes que os circunstantes tivessem tempo de respirar.
O purrense
continuava a choramingar.
Ou será
que era uma purrense?
Por
enquanto ninguém se dera ao trabalho de verificar este ponto.
* * *
A cidade
de Kuklon, capital do planeta de Volat, era o único lugar desse
mundo que apresentava características interestelares. Ali se
concentrava a vida civilizatória. E era a partir dessa cidade que se
administrava o mundo colonial. Os nativos, os volatenses, pouco se
interessavam por essa administração e viviam sua própria vida.
Porém sabiam que, naquele amontoado de lindas construções, moravam
os seres que se arrogavam à qualidade de senhores do planeta.
Volat era
antes uma base, e não um mundo colonial propriamente dito. Em
algumas cadeias montanhosas, minérios valiosos eram extraídos. Mas
a função principal de Volat era a de entreposto para os bens vindos
de outros sistemas. No centro da cidade, ficava o edifício da
administração de Árcon com sua gigantesca antena de hiper-rádio.
A qualquer momento, o administrador podia entrar em contato com o
gigantesco computador positrônico que governava o império estelar
dos arcônidas.
Bem
próximo ao amplo espaçoporto ficava outro edifício. Erguia-se bem
alto e todo mundo acreditava que servia de sede a empresas comerciais
dos saltadores. Boa parte das salas dos pavimentes superiores eram
alugadas para servirem de escritórios. Centenas de firmas tinham
sede ali.
Nos
primeiros minutos Gucky quase não despertou a atenção de ninguém,
pois a Galáxia estava cheia de seres estranhos.
O
rato-castor materializou-se numa grande sala do vigésimo pavimento.
Felizmente não havia ninguém por ali, motivo por que sua aparição
do nada não foi percebida. Com um movimento contrariado, arrumou a
capa colorida, soltou um profundo suspiro e saiu caminhando em
direção à porta mais próxima.
Essa porta
dava para um corredor largo. Havia janelas que permitiam a visão
para o espaçoporto. As naves enfileiravam-se uma ao lado da outra e,
entre elas, trafegavam veículos de passageiros e de carga.
Transportadores rápidos deslizavam rapidamente sobre trilhos
reluzentes e, a cada dois ou três minutos, decolava ou pousava uma
nave.
— Que
movimento! — disse Gucky em tom de admiração, esforçando-se para
não pisar em sua vestimenta.
Caminhava
com dificuldade; acontece que não conseguia ver os pés embaixo da
capa, e isso se transformou numa circunstância bastante
desagradável. Se alguém o visse cambaleando, ficaria admirado com o
estranho anão que, segundo tudo indicava, bebera demais.
À sua
direita, ficavam as portas com inscrições de nomes de empresas.
No
edifício devia haver duas mil salas, talvez mais. Como poderia fazer
para encontrar a sala procurada? Teria de confiar no acaso. Gracinha
lhe havia contado que os estranhos feiticeiros só seriam achados nos
pavimentes inferiores.
A porta de
um elevador abriu-se bem à frente de Gucky. Alguns saltadores
desceram e apressaram-se em seguir seus caminhos. Apenas um deles
lançou um olhar de espanto para o anão colorido, mas nem se
preocupou. Os negócios eram mais importantes.
Gucky
suspirou aliviado e entrou no elevador. Dali a vinte segundos, viu-se
no corredor que atravessava o terceiro pavimento. Pelo aspecto
exterior o mesmo não se distinguia da galeria do vigésimo
pavimento; apenas, não se viam as inscrições das empresas. Em
compensação, havia sobre as portas algarismos arcônidas, que Gucky
conhecia muito bem.
O
rato-castor passou lentamente pelas portas e procurou captar os
impulsos mentais vindos do outro lado das mesmas. Constatou que
muitas delas estavam vazias. Em algumas delas, havia indivíduos
inofensivos que não pensavam em nada que pudesse ser considerado
suspeito. Apenas cumpriam as tarefas de cada dia. Não sabiam de nada
que ultrapassasse suas áreas de competência. Só cuidavam de seus
pequeninos trabalhos e nem desconfiavam dos grandes acontecimentos.
Talvez
tivesse mais sorte no segundo pavimento, ou no primeiro.
Antes que
pudesse voltar, uma porta abriu-se bem à sua frente e um homem saiu
para o corredor. Estacou ao ver Gucky, e este logo reconheceu o
perigo. Sabia que não se tratava de um funcionário como qualquer
outro.
— O que
está procurando por aqui? Quem é o senhor? — gritou o outro.
O fato
aborreceu Gucky, que estava acostumado a ser tratado de maneira
diferente. Porém não se deixou arrastar a qualquer ato irrefletido.
Fez uma mesura formal e declinou seu nome, sacudindo a capa colorida
de tal maneira que quase se chegava a ter a impressão de que se
tratava de uma saudação da corte.
— Sou
Brabul, rei de Voodoo, nobre saltador. Estou à procura de Mansrin, o
administrador.
O saltador
parecia bastante contrariado.
— O
administrador mora no palácio. Quem foi que o mandou para cá?
— No
espaçoporto alguém me disse que...
— Onde
fica Voodoo? Quais são as coordenadas?
Gucky
perdeu a paciência.
— Quero
falar com o administrador, mas não tenho o menor interesse em
contar-lhe quais são as coordenadas de Voodoo. Isso não lhe
interessa.
O saltador
também não parecia estar acostumado a que falassem com ele nesse
tom. Levantou o braço e segurou a capa de Gucky.
— Escute
seu anãozinho de jardim — disse em arcônida.
Evidentemente
a expressão “anãozinho
de jardim”
tinha uma conotação diferente, mas Gucky compreendeu. — Você é
um sujeitinho bem atrevido. Terei de vigiá-lo. Vamos, vá andando. E
faça o favor de não pensar em bobagens. Vamos ver o que o chefe
acha de você.
Gucky
reprimiu a vontade totalmente compreensível de fazer seu
interlocutor voar para o teto ou para fora da janela. Abaixou-se e
não esboçou qualquer reação. Saiu cambaleando com uma expressão
de espanto no rosto; fazia uma figura bastante triste.
“Mais
tarde farei o saltador pagar por isso”,
pensou e conseguiu conservar o necessário autocontrole.
O saltador
parou diante de uma porta do primeiro andar. Uma das mãos segurava a
capa de Gucky, enquanto a outra era encostada ao controle térmico da
fechadura. A porta marcada com o número 18 abriu-se sem o menor
ruído.
Gucky foi
empurrado violentamente para dentro da sala. Por pouco não tropeça
sobre o pano que o envolvia, e que se enlaçou em suas pernas.
Conseguiu manter-se de pé graças às forças telecinéticas que
emitia; felizmente ninguém notou.
Por alguns
segundos esqueceu-se do saltador, pois atrás da enorme escrivaninha
estava sentado um homem que conhecia.
Era Gregor
Tropnow, o traidor.
Esse
homem, que já tinha 88 anos, parecia muito mais jovem graças ao
processo biológico de conservação celular. Quando levantou a
cabeça e contemplou a criatura que acabara de entrar, seu rosto dava
mostra de extrema concentração. Não reconheceu Gucky. O
rato-castor não se admirou, pois nunca tivera um contato mais
estreito com Tropnow.
— O que
houve?
O saltador
perdeu o ar de superioridade. Num tom que quase chegava a ser humilde
informou:
— Este
sujeito andou espiando no setor administrativo. Achei que talvez
fosse conveniente o senhor ocupar-se com ele. Alega que quer falar
com Mansrin.
Tropnow
fez um gesto afirmativo.
— Muito
bem. Aguarde lá fora até que eu o chame — não se moveu até que
o saltador acabasse de sair da sala. Depois inclinou-se para a frente
e fitou Gucky. — Quem é o senhor?
— Sou
Brabul de Voodoo — disse Gucky com uma mesura solene. — Quero
entregar ao administrador alguns presentes de meu povo. Infelizmente
pareço ter errado de casa.
— É
verdade — disse Tropnow, esticando as sílabas, e passou a utilizar
sua capacidade hipnótica.
A ordem
silenciosa dirigida a Gucky mandava-o dizer a verdade. É claro que
essa ordem não conseguiu atravessar o campo defensivo do
rato-castor, motivo por que não produziu o menor efeito. Mesmo
assim, Gucky teve o cuidado de não deixar que seu interlocutor
percebesse qualquer coisa.
— Trata-se
de babuínos adestrados — disse em tom compenetrado.
Tropnow
estremeceu.
— O quê?
— gemeu fora de si. — Babuínos?
— Isso
mesmo — respondeu Gucky com um gesto sério. — Conseguimos
adestrar esses animais raros. Queremos presenteá-los a Árcon. Uma
vez que Árcon é o ponto do Império que fica mais próximo ao nosso
mundo, julguei conveniente...
Gucky
registrou o alívio no cérebro de Tropnow. O resquício de suspeita
desapareceu da mente do hipno. Certamente estava convencido de que o
anão de vestes coloridas estava dizendo a verdade. Não havia
resistência contra a força sugestiva de um cérebro hipnótico. Por
um segundo uma idéia atravessou o cérebro do traidor, e essa idéia
literalmente eletrizou Gucky: Não
é nenhum truque de Rhodan para descobrir o paradeiro de Thora. Ela
está em lugar seguro.
— Não
temos nada a ver com a administração — disse Tropnow com um
sorriso condescendente. — Lá fora o senhor encontrará táxis que
poderão levá-lo ao lugar em que está Mansrin. Tenha uma longa
vida... hum, como é mesmo o nome?
— Brabul,
senhor — informou Gucky prontamente e procurou descobrir mais
alguma coisa sobre o paradeiro de Thora.
Mas
Tropnow não fez mais nenhuma referência mental concernente a Thora.
— Brabul de Voodoo.
O mutante
comprimiu um botão. O saltador entrou.
— Mostre
a saída a Brabul, que tem permissão para retirar-se.
Gucky
cambaleou para fora da sala e saiu caminhando pelo corredor, em
direção ao elevador. Ficou contrariado ao notar que o saltador o
acompanhava. Isso não era nada agradável, pois não tinha a menor
intenção de abandonar tão depressa a toca do leão. Parou
subitamente, mediu o saltador perplexo com um olhar de desprezo e
chiou em tom amargurado:
— Dê o
fora, filho de um verme! Não ouviu o homem dizer que estou livre e
posso ir para onde quiser? Dispenso sua companhia.
O saltador
era musculoso e tinha quase dois metros de altura. Uma barba ruiva
emoldurava o queixo, e em seus olhos a audácia emparelhava-se com o
espírito empreendedor. Só se sentiu dominado pelo espanto por uma
fração de segundo, mas seu verdadeiro caráter logo levou a melhor.
“Esse
anão ridículo. Que atrevimento! Teve a audácia de insultar-me”,
pensou. “Não
posso suportar uma coisa dessas.”
Adiantou-se
de chofre e segurou Gucky com ambas as mãos.
— Eu o
mato, seu monstrinho — disse em tom furioso e puxou-o para junto de
si. O rato-castor ficou satisfeito. Concentrou-se e realizou a
teleportação.
No mesmo
instante, voltou a materializar-se no platô em meio à mata virgem.
O saltador continuava a segurá-lo. O contato físico fizera com que
o rato-castor também o teleportasse. Evidentemente não teve
consciência do fato. Ficou ainda mais espantado ao notar que, de um
instante para outro, encontrava-se num ambiente bastante diverso.
— O que
é que eu sou? — chiou Gucky em tom furioso e empurrou o saltador
perplexo para longe. — Um monstrinho? E logo você é quem vem me
dizer uma coisa dessas, seu colosso de carne com cérebro de pulga?
Você ainda terá oportunidade de me conhecer melhor.
— Onde
estou? — gaguejou o saltador, que já não compreendia mais nada.
Gucky
soltou um assobio estridente. Rhodan saiu de uma das colméias. Noir
seguiu-o de perto. Uma sombra cinzenta atravessou a praça e foi
assumindo contornos: era Gracinha. Cumprimentou Gucky com um choro
alegre e rosnou bastante zangado para o saltador.
— Vamos,
seu monte de estupidez — disse Gucky, empurrando o prisioneiro à
sua frente. — Meu chefe quer falar com o senhor, e quero dar-lhe um
bom conselho: diga a verdade.
O saltador
lançou um olhar apavorado para o purrense, que continuava furioso, e
pôs-se a andar. Gucky ficou para trás e acariciou Gracinha.
Rhodan
lançou um olhar curioso para o visitante forçado, que se aproximou
aos tropeções e parou à sua frente. Não conseguiu ler nada em sua
mente além da confusão. O saltador ainda não compreendia como fora
parar ali. Havia algo de errado em tudo isso.
Antes que
pudesse abrir a boca para formular uma indagação a esse respeito, o
homem alto de rosto tão franco e severo adiantou-se. A pergunta
dirigida a ele foi tão surpreendente e clara que teve de responder
antes que pudesse pensar numa mentira:
— Onde
está Thora, a mulher que foi seqüestrada por Tropnow?
— No
subsolo...
Rhodan
segurou a mão de Noir. Entre eles estava Gucky, que enlaçou os dois
com os bracinhos. O contato seria suficiente para possibilitar a
desmaterialização.
— É
agora! — disse Rhodan.
Gucky
concentrou-se sobre o palácio do administrador e saltou.
Tiveram
sorte. Viram-se na cobertura do gigantesco edifício, bem acima da
cidade e junto à antena do hiper-emissor. O local estava ermo. Havia
uma escada que levava para baixo.
Separaram-se.
— Cuidem
para que ninguém me perturbe — disse Rhodan. — Fiquem nas
imediações das salas de rádio e intervenham sempre que seja
necessário. Manteremos contato telepático.
O saltador
preso lhes havia fornecido todas as informações desejadas. Estavam
perfeitamente cientificados sobre a divisão das peças do palácio
de Mansrin.
Ao chegar
à porta da sala de rádio, Rhodan hesitou um pouco. Não estava
armado. O que faria se houvesse resistência? A idéia de usar
violência causava-lhe repugnância. Dessa forma, teria de
influenciar os outros com o olhar sugestivo e com palavras enérgicas.
Com um
gesto de cabeça, cumprimentou Noir e Gucky. Depois abriu
abruptamente a porta.
Graças ao
seu aprendizado hipnótico conhecia as instalações, de um
hipertransmissor. Quase todos os controles eram automáticos. A
dificuldade consistia apenas em regular o aparelho para as
coordenadas corretas de transmissão e em conhecer o sinal de chamada
do destinatário da mensagem.
Havia só
um homem na sala. Estava sentado numa poltrona e lia. Quando Rhodan
entrou, levantou a cabeça e cerrou os olhos. Por fora, Rhodan pouco
se diferençava de um arcônida ou de um saltador, com exceção de
alguns detalhes insignificantes.
— O que
deseja? — perguntou o homem em tom indeciso e levantou-se. Não
sabia o que fazer com o desconhecido. — Quem foi que o mandou para
cá?
Rhodan
olhou para o operador de rádio.
— Trago
ordens do administrador. Faça uma ligação urgente para o regente
robotizado de Árcon.
Talvez o
homem aceitasse a ordem e executasse o trabalho. Porém o operador de
rádio estava desconfiado...
— Trouxe
uma ordem escrita?
Rhodan
sacudiu a cabeça e reforçou a potência sugestiva de seu olhar.
A ação
produziu o efeito desejado. O operador de rádio foi ao quadro de
controle e dirigiu a energia para as instalações. Com alguns
movimentos, ligou o transmissor e o receptor. Telas acenderam-se.
Rhodan foi para o lado, a fim de não ser captado por uma câmara
oculta. Não convinha que o robô o reconhecesse. Sua intenção era
fazer com que o computador quebrasse “a
cabeça”
para descobrir por que seu interlocutor não aparecia.
— Aqui
fala a estação Volat, sistema Heperés. Administração Mansrin.
Responda, regente.
Rhodan
chamou Gucky por via telepática. O rato-castor entrou. Perry acenou
com a cabeça, o rato-castor compreendera. Por trás, aproximou-se do
operador de rádio, que não desconfiava de nada, colocou o braço em
torno de seu corpo e desapareceu com o homem. Dali a dez segundos,
voltou a materializar-se, sem o operador de rádio.
— Eu o
tranquei no porão — chiou muito alegre. — Levarão ao menos duas
horas para encontrá-lo. E quando isso acontecer não poderá
fornecer qualquer explicação sensata sobre a maneira pela qual
chegou lá. Ninguém acreditará que algum espírito o retirou do seu
posto.
Rhodan
interrompeu-o com um gesto.
— Vá
para fora. Cuide juntamente com Noir para que no próximo minuto
ninguém entre nesta sala. O computador regente não deve desconfiar
de nada.
Gucky
retirou-se.
A resposta
da primeira mensagem chegou.
A tela
iluminou-se e Rhodan voltou a ver o “rosto”
conhecido do regente. Era uma gigantesca semi-esfera de aço puro que
descansava sobre a seção do corte. Tratava-se do maior computador
positrônico do Universo. Ficava a quase 30 mil anos-luz de distância
e estava abrigado num enorme pavilhão, de onde governava o império
estelar. As ondas de rádio percorreram o hiperespaço e transmitiram
sua imagem em menos de um milésimo de segundo.
Ouviu-se a
voz mecânica do computador...
— Aqui
fala o regente de Árcon. O que houve, Volat?
Rhodan
mantinha-se longe da instalação. Disse:
— Alarma,
regente! Um grupo de rebeldes revoltou-se contra o Império. O
administrador Mansrin pede o envio de uma pequena frota de apoio.
Houve uma
ligeira pausa. Depois ouviu-se a pergunta:
— Não
estou recebendo a imagem. Quem está falando?
— O
radioperador de plantão, regente. As instalações estão com
defeito. O transmissor de imagens está com defeito. O auxílio é
urgente.
Seguiu-se
mais uma ligeira pausa. Depois veio a resposta:
— Frota
será enviada. Chegará a Volat dentro de vinte e quatro horas
planetárias. Aliás, a imagem da sala de rádio está sendo captada
com toda nitidez. Não constatei qualquer defeito.
Rhodan
assustou-se. Não se lembrara da lógica inflexível do computador.
Sua desculpa não fora bem pensada. Decidiu jogar todas as chances
numa única carta. Com uma das mãos, pegou a chave principal que
desligava a energia e disse:
— Estou
falando por uma linha auxiliar. Os rebeldes... Socorro...
De repente
moveu a chave. A instalação foi desligada.
O
alto-falante emudeceu.
O
computador teria tempo de sobra para refletir.
Um sorriso
frio surgiu no rosto de Rhodan enquanto caminhava até a porta.
Abriu-a e saiu para o corredor. Noir e Gucky estavam parados, sem
fazer nada. Não aparecera ninguém que pudesse perturbar Rhodan.
— Pronto!
— disse este e continuava a sorrir. — Dispomos de exatamente
vinte e quatro horas para dar uma batida no quartel-general. O
regente de Árcon não tolera qualquer revolta contra o Império.
Quando tudo tiver passado, todo mundo acreditará que Árcon impôs a
ordem. Ninguém desconfiará que nós estivemos atrás disso —
segurou a mão de Gucky e de Noir a fim de estabelecer o contato que
permitiria o salto de teleportação. — Deixaremos que Árcon
trabalhe por nós. Afinal, já fizemos muita coisa em favor do
regente.
Gucky
assobiou para manifestar sua concordância e exibiu o dente roedor.
Foi a
última coisa que Rhodan viu antes que se encontrasse novamente no
platô da rocha situado em plena mata virgem. Quando
rematerializaram-se, Perry quase pisou o rabo de Gracinha.
4
OS últimos
detalhes do plano de ação foram acertados naquela mesma noite.
— Seria
muito mais simples se eu saltasse sozinho para dentro desse ninho de
víboras e tirasse Thora de lá — disse Gucky pela décima vez.
Sentado no
chão, estava recostado contra a barriga macia de Gracinha, que se
esticava gostosamente e ronronava baixinho.
— Não é
possível — repetiu Rhodan, também pela décima vez. — Estou
interessado principalmente em pôr os dois traidores fora da ação e
colocar a culpa nas costas do computador regente.
— Será
que o computador positrônico tem costas? — disse Gucky em tom de
espanto, sacudindo a cabeça.
A
expressão de seu rosto era muito séria.
Rhodan já
parecia estar cansado de ocupar-se com as sutilezas do rato-castor.
Prosseguiu:
— Quando
a frota de guerra de Árcon chegar ao planeta para agir contra os
rebeldes, deve haver prova evidente de que em Volat realmente existem
rebeldes. Acontece que por enquanto ninguém sabe disso. Se houver
uma pequena guerra no edifício que abriga as empresas dos
saltadores, os oficiais de Árcon reagirão imediatamente. Tomara que
Mansrin acompanhe a ação. Deve-se ter a impressão de que Tropnow e
Yatuhin se rebelaram contra o Império.
— E as
tropas de Árcon avançarão contra os mesmos — disse Noir com um
gesto de concordância. Estava sentado ao lado de Lloyd, que já se
recuperara perfeitamente e ansiava para vingar-se da derrota. —
Mataremos dois coelhos com uma só cajadada. Vamos nos livrar dos
inimigos, sem que ninguém saiba de quem eles eram inimigos.
— Desde
que fiquem com a boca fechada... — resmungou Gucky.
Rhodan
respondeu em tom bastante sério:
— Os
traidores não devem ter a menor oportunidade de revelar o segredo.
Gucky cuidará disso.
O
rato-castor fez um rosto muito triste.
— Sempre
eu! E olhe que sou pacifista. Não consigo matar ninguém...
— Quem
está falando em matar? Quero que você se “apodere”
dos dois mutantes. Depois Noir lhes aplicará um bloqueio hipnótico
que fará com que se esqueçam de tudo. O resto será providenciado
na Terra.
Gucky
sentiu-se tranqüilizado. Fez um gesto de concordância. Rhodan
prosseguiu:
— Amanhã
pelo meio-dia penetraremos no edifício dos amotinados, com a ajuda
da tropa auxiliar de Lloyd. Mais ou menos naquela hora, deverá
pousar a frota de Árcon. Ainda ao mesmo tempo, alarmarei Mansrin.
Este reagirá imediatamente e enviará os soldados do Império ao
lugar em que estivermos. Em meio à confusão generalizada,
seqüestramos os dois mutantes e libertamos Thora. Meu plano é mais
ou menos este. Alguma sugestão?
Lloyd fez
um gesto.
— Tenho
uma pergunta. Vamos voltar ao platô?
— Naturalmente.
Depois providenciaremos o resto.
— Minha
Gazela está escondida nas proximidades da cidade. Suponhamos que
neste meio tempo tenha sido encontrada. O que faremos se isso
acontecer?
— Não
se preocupe. Combinei um sinal de emergência com o comandante
Markus. Além disso, não existe o menor indício de que a nave tenha
sido descoberta.
Lloyd
hesitou um pouco, mas logo se deu conta de que certamente já haviam
lido seus pensamentos. Lançou um olhar ligeiro para Kuri Onere, que
se mantinha um pouco afastada, acompanhando a palestra.
— O que
será feito de Kuri? Se não fosse ela...
Rhodan
mostrou um sorriso cheio de compreensão e acenou com a cabeça.
— Kuri
irá à Terra conosco. Thora ficará satisfeita em ter mais uma amiga
na qual possa confiar. Mais alguma pergunta?
Fellmer
Lloyd suspirou aliviado. Não tinha outras perguntas.
* * *
Mais um
dia raiou sobre a cidade de Kuklon. Como de costume, era um dia
ensolarado e quente. Neste ponto esse dia não se distinguia dos
outros de verão. Mas hoje aconteceria uma coisa que faria dele um
dia todo especial.
Ao menos
para aqueles que conseguissem sobreviver ao mesmo.
O
administrador Mansrin ainda não tinha a menor idéia dos próximos
acontecimentos. Tal qual fazia todos os dias, levantara não muito
cedo, tomara um banho morno e saboreou o lanche.
Ouviu os
pedintes costumeiros pertencentes à raça dos nativos e, ainda tal
qual fazia todos os dias, recusara seus pedidos. O que tinha que ver
com essas semi-inteligências primitivas? Poderiam ficar contentes
porque pouco se interessava por elas, preferindo deixá-las em paz.
Depois leu
as notícias que acabaram de chegar do setor de rádio. Era bem mais
interessante. Havia cada coisa...
No sistema
de Berila, acabara de ser sufocada uma revolta engendrada por uma
raça de seres semelhantes a cobras. Uns vinte mil anos-luz mais
adiante, próximo ao centro da Via Láctea, houve uma tempestade
cósmica elétrica, que vitimara uma frota robotizada. Uma única
nave conseguiu escapar à catástrofe e ofereceu um relato vivo.
Mansrin ouviu-o com um ligeiro calafrio. Gostava mais desse tipo de
entretenimento que dos modelos coloridos abstratos que eram
projetados nas telas de recreação. Além disso, escutou que houve
uma guerra entre os planetas de um sistema gigante. Nessa guerra
estiveram envolvidos mais de cinqüenta mundos, mas o regente
interviera de pronto.
Subitamente
Mansrin descobriu o que havia de errado nesse noticiário.
Refletira
sobre isso todo o tempo, mas não se deu conta do que lhe chamara a
atenção. Agora sabia. No cronograma das confirmações de recepção,
havia uma lacuna.
Uma lacuna
considerável!
Durante
três horas a estação de rádio esteve desguarnecida, ou então o
operador de plantão dormira.
Procurou o
nome e encontrou-o. Também descobriu quem era o operador substituto.
Mansrin,
um arcônida não pertencente à classe das criaturas degeneradas e
indolentes, não confiava integral e exclusivamente na tecnologia por
eles criada. Ainda sabia pensar e agir.
E foi o
que fez.
— Diga
ao operador de rádio Bredag que deve comparecer aqui — ordenou
assim que a ligação com o chefe do pessoal foi estabelecida. —
Quero que venha imediatamente e que traga o cartão de controle
eletrônico.
O
administrador recostou-se na poltrona e ficou esperando. Não
tolerava o desleixo, ainda mais entre seus colaboradores mais
chegados. Se o operador de rádio não pudesse provar que naquelas
três horas do dia anterior não havia chegado nenhuma mensagem, era
porque havia dormido. Ou então porque não se encontrava na sala de
rádio.
A porta
abriu-se. Mas quem entrou por ela não foi Bredag, mas um jovem
arcônida. Em seu rosto havia uma expressão de perplexidade,
misturada com a consciência da culpa.
— Perdão,
administrador. Entrei em serviço na sala de rádio depois do turno
de Bredag. Não estava presente quando entrei na sala. Supus que
tivesse saído mais cedo. Porém, quando o oficial de serviço
perguntou por ele, vi que o cartão de controle se encontrava no
quadro. Dessa forma, Bredag ainda não podia ter saído da sala de
rádio!
Mansrin
estreitou os olhos.
— Não
estou com vontade de resolver charadas logo de manhã. Explique
melhor o fenômeno.
— Não
existe explicação para o fenômeno, senhor. O cartão de controle
foi inserido no espia eletrônico que controla a única porta de
acesso à sala de rádio. Esse cartão registrou a entrada de Bredag,
mas não contém qualquer indicação de que tenha saído. Logo,
Bredag ainda deve encontrar-se no interior da sala de rádio.
Acontece que não está lá!
— Isso é
impossível! — exclamou Mansrin e ergueu-se. — Não me venha com
contos de fadas. O que houve com Bredag? Preciso saber.
— Revistamos
a sala de rádio, mas não encontramos o menor vestígio de Bredag.
Não
queríamos preocupá-lo e por isso preferimos informá-lo só depois
que o incidente fosse esclarecido. Infelizmente isso ainda não
aconteceu.
— Ninguém
pode enganar o controle eletrônico. Bredag tem de estar na central.
— Acontece
que não está — insistiu o operador de rádio. — Só existe uma
explicação lógica: Bredag dissolveu-se no ar e desapareceu.
— O
senhor acha que essa explicação é lógica? — esbravejou Mansrin.
— Nunca ouvi uma tolice igual. Hum, talvez haja algum defeito no
equipamento de controle. Mas mesmo se isto tivesse acontecido,
tornava-se possível encontrar Bredag.
— Pois é
justamente isso, senhor. Não conseguimos encontrá-lo. Nem mesmo nos
seus aposentos.
Mansrin
refletiu.
— As
três horas que faltam no cronograma deixam-me bastante preocupado.
No momento em que foi ocupar seu posto e não encontrou Bredag, o
senhor deveria ter avisado imediatamente.
— Vez
por outra acontece que alguém sai da sala de rádio alguns minutos
antes do revezamento. Qualquer mensagem que chegue é recebida e
registrada automaticamente. Mas no caso isso não aconteceu. A
aparelhagem estava desligada.
— Desligada?
— Sim
senhor. Ficou desligada durante três horas.
O
administrador voltou a recostar-se na poltrona. Lançou um olhar
pensativo sobre o jovem arcônida. Seu instinto lhe dizia que o mesmo
estava falando a verdade. Mas nem por isso o mistério estava
resolvido. Pelo contrário...
Uma
inquietação começou a espalhar-se pela mente de Mansrin. Em seu
pensamento lógico, orientado segundo os ditames da técnica, não
havia lugar para fenômenos inexplicáveis. Tudo tinha uma
explicação, até mesmo um milagre!
— Continue
a procurar Bredag. Assim que for encontrado, quero falar com ele.
Mantenha-me informado. Pode retirar-se.
Quando se
viu só de novo, fechou os olhos e meditou.
Teve a
impressão segura de que esse incidente não seria a única surpresa
desagradável do dia.
E esta
impressão seria confirmada.
* * *
Dali a
duas horas, várias pessoas entraram discretamente no gigantesco
edifício situado nas proximidades do espaçoporto. Vinham das
direções mais variadas e pareciam não ter nada uma com a outra.
Evidentemente essa conclusão era falha.
Fellmer
Lloyd atravessou o corredor do primeiro andar e entrou no bem montado
pavilhão de leitura, junto à sala de recepção. Cumprimentou
alguns volatenses que estavam sentados nas poltronas confortáveis e
mergulhados na leitura dos jornais espalhados por toda parte. Também
sentou-se e pegou um livro sobre a construção da frota espacial
arcônida.
A menos de
cinqüenta metros dali Rhodan e Noir pararam diante de uma porta.
Havia uma placa que indicava tratar-se da sala no
18.
— Gucky,
onde está? —
telepatou Rhodan e perscrutou intensamente seu interior.
A resposta
veio com uma rapidez espantosa:
— No
porão. A primeira sala, instalada como prisão, está vazia. Chefe,
dê-me uma dica sobre o lugar em que devo procurar.
— Assim
que tiver, darei —
transmitiu Rhodan. — Enquanto
isso continue a procurar.
Depois fez
um sinal para Noir e bateu fortemente à porta.
Demorou
bastante até que se ouvisse um leve zumbido. A porta poderia ser
aberta. Rhodan ficou admirado por ter sido tão fácil. Esperara
enfrentar dificuldades bem maiores, mas provavelmente Tropnow se
sentia muito seguro.
Entrou
acompanhado de Noir e fechou a porta.
O traidor
estava sentado atrás de sua escrivaninha e fitava os dois homens que
acabavam de entrar. Ao que parecia, seu cérebro recusava-se a
compreender o fato de que o homem que supunha estar a 4.300 anos-luz
de distância subitamente se encontrava diante dele. Demorou quase
dez segundos até que a cor de sua pele se modificasse. Tornou-se
branca como a neve; não havia uma gota de sangue nas bochechas.
Tropnow ergueu-se ligeiramente na poltrona, mas logo voltou a afundar
na mesma. Sua boca abriu-se e gaguejou alguma coisa, mas não
conseguiu articular nenhum som inteligível.
— Bom
dia — disse Rhodan em tom amável, mas sua voz continha um sinal de
advertência para o traidor. — Estimo vê-lo bem disposto. Espero
que minha esposa esteja tão bem disposta como o senhor.
— Rho-Rhodan
— balbuciou Tropnow. — O senhor?
— No
segundo subsolo há um arsenal. O que devo fazer? —
transmitiu Gucky.
— Pegue
um radiador de impulsos e solde a porta do lado de dentro —
ordenou Rhodan com o rosto impassível.
Depois
voltou a dirigir-se a Tropnow, que continuava trêmulo, e disse:
— Onde
está Thora? Fale logo, senão Noir esvaziará seu cérebro. O senhor
sabe perfeitamente como uma pessoa costuma ficar depois disso.
O traidor,
também um hipno, sabia perfeitamente que uma intervenção violenta
na consciência pode causar perda parcial da capacidade de
raciocínio. Estendeu a mão num gesto de defesa.
— Direi
tudo, Sir.
Pode
perguntar.
— Já
formulei uma pergunta.
Na testa
de Tropnow surgiram as primeiras gotas de suor. Brilhavam que nem
pérolas.
— Thora
está... está num lugar seguro. O senhor me concede a liberdade se
eu revelar o lugar em que se encontra?
Como hipno
que era, Tropnow conseguia ocultar seus pensamentos. Rhodan não
conseguiu descobrir onde estava Thora. Fez um esforço para
controlar-se e não demonstrou a raiva de que estava possuído. Mas
sua voz soava fria e perigosa quando disse:
— Tropnow,
eu o previno. O senhor não pode estabelecer condições. O fato de
eu o ter encontrado a uma distância de milhares de anos-luz não lhe
diz bastante? Neste instante, uma frota de guerra arcônida está
pousando em Volat, a fim de restabelecer a ordem. O senhor não tem a
menor possibilidade de exercer qualquer vingança contra mim. Desista
Tropnow.
— Será
que Thora significa tão pouco para o senhor?
Noir
cerrou os punhos, mas Rhodan advertiu-o com um olhar.
— Tropnow!
— disse Perry em tom enfático. — Nunca estrangulei um homem, mas
hoje o farei. Neste instante e nesta sala. Eu o previno. O senhor
dispõe de dez segundos.
Talvez
Tropnow se desse conta de que Rhodan falava terrivelmente sério.
Calculou suas chances, enquanto a mão procurava alcançar o botão
de alarma. Faltavam dez centímetros.
— ...três...
quatro... cinco...
Tropnow
olhou de esguelha para os dois homens, enquanto sua mão atingia o
botão e comprimia-o. Suspirou aliviado. Naquele mesmo instante, o
alarma soaria em todas as salas em que as forças estivessem de
prontidão e chamaria os homens às armas. Acontecesse o que
acontecesse, daquele momento em diante não estaria só. Esse fato
restituiu-lhe a autoconfiança.
— ...dez!
— disse Rhodan. Continuava com o rosto impassível, sem demonstrar
que vira o movimento do traidor. Ao desencadear o alarma, Tropnow
colaborou com os planos de Rhodan. Era pouco antes de meio-dia. A
frota dos arcônidas devia pousar naquele instante. — Então, onde
está Thora?
Tropnow
soltou uma risada sarcástica.
— O
senhor disse que me mataria, Rhodan. Pois mate-me, e nunca descobrirá
onde está Thora.
Outra
mensagem silenciosa de Gucky foi captada:
— Acabo
de descobrir Thora. Ela está passando bem. E agora?
— Espere
aí mesmo, Gucky! —
respondeu Rhodan e olhou para Tropnow. Depois disse em voz alta.
— Na
verdade, devia aceitar seu convite. Quanto a Thora, não se preocupe.
Já sabemos onde se encontra. Será que não acredita?
Tropnow
soltou uma risada monstruosa.
— É
verdade; não acredito — precisava ganhar tempo. A qualquer momento
os homens por ele chamados poderiam entrar na sala.
— Pois o
azar é seu, Tropnow. Thora está no subsolo. E Gucky está com ela.
— Gucky?
Esse rato-castor?
— Então
já o conhece?
Ouviu-se o
ruído de passos vindo do corredor. Alguém bateu à porta. Tropnow
dispôs-se a fazer um movimento, mas Rhodan advertiu-o com um olhar.
— Espere
aí! Até parece que o senhor não preza a vida.
— O
senhor não está armado.
Rhodan
acenou lentamente com a cabeça.
— Isso
não deixa de ser verdade. Mas o senhor não perde por esperar...
Passou a
pensar intensamente:
— Ei,
Gucky. Deixe Thora por mais algum tempo no lugar em que se encontra.
Traga-nos alguns radiadores portáteis do arsenal. Venha à sala
dezoito. Rápido!
Logo
reiniciou:
— Mesmo
sem podermos contar com sua colaboração no Exército de Mutantes,
este ainda dispõe de muita gente capaz. Aguarde e verá.
O rosto de
Tropnow, que já começara a recuperar as cores, tornou a
empalidecer.
Voltaram a
bater à porta. Desta vez as batidas foram mais fortes e insistentes.
Depois de
uma ligeira pausa, um aparelho que se encontrava sobre a escrivaninha
de Tropnow deu um estalo. Uma voz perguntou:
— O que
houve com você, Gregor? Aqui fala Nomo. Por que não responde? Qual
foi o motivo do alarma?
Antes que
Tropnow pudesse completar o contato, Noir colocou-se a seu lado.
Rhodan pôs o dedo sobre os lábios, ligou o transmissor e disse para
dentro do microfone:
— Nomo,
venha imediatamente à sala dezoito. Depressa!
Rhodan
desligou sem dar outras explicações.
Na porta
ouviu-se um chiado suspeito. Uma faixa de solda branca e fulgurante
foi aparecendo. Tentavam penetrar no recinto à força. A situação
começava a tornar-se crítica.
Subitamente,
o ar começou a tremeluzir no centro da sala e Gucky surgiu do nada.
Cinco radiadores portáteis caíram ruidosamente ao solo. Eram do
tipo que, regulado à intensidade mínima, paralisava um homem por
várias horas. Gucky ia desaparecer novamente, mas lembrou-se da
raiva reprimida desde o dia anterior. Deu um passo rápido,
colocou-se à frente de Tropnow, retesou o corpo e aplicou uma enorme
bofetada no traidor.
— Isto
não é nenhum babuíno, mas uma suculenta bofetada — chilreou em
tom alegre. — E vem de mim.
A seguir,
repetiu a cerimônia e explicou:
— E esta
é pelo rapto de Thora.
No mesmo
instante, desapareceu sem deixar o menor vestígio. As bochechas
vermelhas de Tropnow e os cinco radiadores eram o único sinal da
presença de Gucky.
Rhodan
abaixou-se, colocou dois radiadores no cinto, pegou outro e passou os
dois restantes a Noir.
— Bem,
Tropnow, não vamos fazer essa gente esperar mais. Abra a porta antes
que ponham fogo na casa. Ande logo!
Subitamente
a porta incandescente abriu-se como que por mãos de um fantasma.
Rhodan dedicou sua atenção ao que se passava no corredor. Sabia que
a qualquer momento Fellmer Lloyd devia aparecer com sua tropa a fim
de atacar o inimigo pela retaguarda.
Três
homens passaram pela porta incandescente e precipitaram-se sala
adentro. Estacaram quando viram três armas apontadas em sua direção.
Mantinham as mãos quietas, pois os rostos dos homens que seguravam
as armas pareciam muito resolutos.
Tropnow,
que continuava atrás da escrivaninha, fez um movimento rápido. No
corredor ouviram-se gritos, e logo alguns disparos de radiações
começaram a chiar. Houve um tumulto. A esperança voltou a brilhar
nos olhos dos três homens que acabavam de penetrar na sala.
Antes que
Rhodan tivesse tempo de virar-se, viu pelo canto do olho que Gregor
tirara uma arma da gaveta.
E a arma
estava apontada para suas costas.
* * *
Há horas
Bredag, o operador de rádio, martelava em vão as grossas paredes de
sua prisão.
Não tinha
a menor idéia do lugar em que se encontrava, e muito menos sabia
explicar como fora parar ali. Estava sentado diante de seu
equipamento de rádio, e de repente se vira nesse recinto escuro. O
ar era viciado, como se o condicionador tivesse ficado sem funcionar
há vários meses.
Já dera
alguns passos tateantes para descobrir as dimensões do recinto.
Media cerca de cinco metros por quatro. Não havia móveis, e uma
porta de ferro o isolava do mundo exterior.
Certa vez
ouvira passos do lado de fora e batera desesperadamente na porta, mas
ninguém o escutara. O ruído dos passos foi tornando-se mais fraco
para logo desaparecer ao longe. Logo depois, o silêncio apavorante
voltou a reinar.
Bredag não
sabia quanto tempo passara ali. Talvez fossem algumas horas. Ou seria
um dia? Era possível que lá fora já fosse noite.
Agachado
num canto, ficou matutando. Se ao menos soubesse como viera parar
ali. Não acreditava em fantasmas. Lembrava-se daquele desconhecido
que penetrara na sala de rádio e pedira uma ligação com Árcon.
Será que o mesmo tinha algo a ver com o acontecimento inexplicável?
— Uma
ligação com Árcon? Sim, foi isso mesmo! — exclamou em voz baixa.
Alguém se
aproximara dele por trás e o enlaçara com os braços. Antes que
tivesse tempo de descobrir o que significava isso, tudo ficou às
escuras e logo ele se viu nesse cubículo escuro.
Sacudiu a
cabeça e balbuciou:
— Será
que eu podia encontrar alguém que estivesse disposto a acreditar
nessa história?
Subitamente
estremeceu. Teve a impressão de que voltara a ouvir passos diante da
porta metálica. Levantou-se e encostou o ouvido ao metal frio. Só
agora se deu conta de que estava sentindo muito frio.
Havia
gente andando lá fora. Ouviu perfeitamente que os passos se
aproximavam. Começou a bater na porta com toda a força. Talvez não
bastasse. Abaixou-se ligeiro, tirou os sapatos e voltou a batê-los
de encontro à porta.
Os passos
silenciaram; depois aproximaram-se rapidamente.
Bredag
ouviu que batiam de volta. Respondeu.
Logo ouviu
o zumbido da fechadura eletrônica. A porta abriu-se. A luz inundou a
prisão, e alguém gritou seu nome em tom de surpresa. Cambaleando, o
infeliz operador de rádio saiu para o corredor e caiu diretamente
nos braços de seus libertadores, que ficaram surpresos demais.
Levaram-no
ao administrador Mansrin, que ouviu a história fantástica. Estava
incrédulo, mas não ordenou qualquer medida de punição.
Dali a
alguns minutos fitando a porta fechada, pensou:
“Quem
será o desconhecido que pediu uma ligação com Árcon? Eu, Mansrin,
não havia expedido nenhuma ordem nesse sentido. E quem carregou
Bredag para fora da sala de rádio sem que o cartão de controle
eletrônico registrasse seu modelo de vibrações cerebrais?”
Havia
perguntas e mais perguntas, mas nenhuma resposta.
O aparelho
de comunicação que se encontrava sobre a escrivaninha emitiu um
zumbido. Ligou com um gesto distraído. Mas sua atitude sonolenta
desapareceu quando ouviu a voz fria:
— No
edifício comercial dos mercadores galácticos estão acontecendo
coisas estranhas, administrador. Está havendo um combate com armas
de fogo. Ao que parece, dois grupos inimigos travam uma luta. Um dos
nossos homens entrou lá por acaso e a muito custo conseguiu escapar.
— Uma
luta com armas de fogo?
— Sim
senhor. Nos pavimentes inferiores do edifício está ocorrendo uma
verdadeira guerra.
Mansrin
sacudiu a cabeça.
— Como
pode ser possível uma coisa dessas? Já notificaram a polícia?
— Não
senhor. O que devemos fazer?
— Chame
as tropas de segurança. Estas devem ocupar o edifício e prender os
culpados. Nada de negociações. Em Volat não toleramos tumultos.
Vamos agir de imediato. Irei pessoalmente ao local dos
acontecimentos.
Porém,
Mansrin não teve tempo para isso.
Mal
desligou o aparelho, uma enorme tela presa à parede iluminou-se.
Essa tela estabelecia ligação direta com a sala de rádio do
hipertransmissor.
O que
seria desta vez?
O vulto de
um homem surgiu na tela.
— Administrador,
o comandante de frota Arona quer falar com o senhor.
— Arona?
Não sei quem é.
Antes que
o operador de rádio pudesse responder, sua imagem foi substituída
por outra. Um leve tremor indicava que vinha de grande distância e
estava sendo conduzida pelo hiperespaço. Mas o tom da voz era claro
e nítido; não havia a menor distorção.
— O
senhor é Mansrin, administrador de Volat?
Mansrin
acenou instintivamente com a cabeça. Sabia que seu interlocutor o
via.
— Sim.
Quem é o senhor e o que deseja?
— Sou
Arona, comandante da sétima frota de guerra de Árcon. Fomos
informados de que nesse planeta irrompeu uma revolta. Forneça os
dados, para que eu possa organizar a ação de combate.
Encontramo-nos a cinco horas-luz de seu sistema. Realizaremos uma
transição ligeira e pousaremos dentro de meia hora. Ordene a
suspensão imediata de todas as decolagens.
— Por
aqui não houve nenhuma revolta! — exclamou Mansrin em tom de
perplexidade. — Não transmiti o alarma para Árcon.
— Recebi
ordens do computador regente — disse Arona, recusando outras
explicações. — Tenho que guiar-me pelas mesmas.
“Foi...
o desconhecido”,
pensou Mansrin. “Quem
será o estranho que penetrou em meu palácio e utilizou a estação
de rádio para alarmar Árcon?”
— Volat
é um mundo pacífico e...
— Vou
desligar — disse Arona em meio à frase. — Pousaremos exatamente
dentro de vinte e oito minutos. Tome todas as providências para que
não haja nenhum incidente. Assim que pousar desembarcarei um
exército de robôs e darei ordens para atacar. Desligo.
A tela
apagou-se. Subitamente Mansrin viu-se só. Nunca estivera tão só em
toda sua vida.
* * *
Noir agiu
instantaneamente.
Não
tivera tempo para regular seu radiador. Por isso, o traidor Tropnow
foi atingido por toda a carga energética da arma, antes que pudesse
disparar contra Rhodan. Teve morte instantânea.
Rhodan
disse em tom frio:
— Larguem
as armas, cavalheiros. Tenham cuidado, pois sei atirar tão depressa
como meu amigo. Isso mesmo; estão sendo bonzinhos. E agora caminhem
em direção à parede, fiquem de costas para nós, e não façam o
menor movimento.
Empurrou
os três radiadores com o pé para o lado oposto da sala. Para chegar
até eles, os três homens apanhados de surpresa teriam que passar
por Rhodan, e por enquanto isso não era possível.
Fellmer
Lloyd surgiu na porta por um instante.
— Estão
fugindo para baixo — disse. — Vamos persegui-los e, se possível,
prendê-los em algum lugar.
— É
preferível que não façam isso — respondeu Rhodan. — A frota de
Árcon deve chegar a qualquer momento. E é bom que ela encontre ao
menos alguns rebeldes ainda em luta, para que meu alarma pareça
verdadeiro. Por isso o inimigo deve ser mantido apenas à distância
e, quando nos retirarmos, deverá ter possibilidade de recuperar suas
armas. Levem estes três.
— Entendido
— disse Lloyd e saiu levando os três prisioneiros.
Rhodan
suspirou aliviado.
— Gucky!
—
telepatou. — Traga
Thora para cá.

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