Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Os pepinos
eram microtécnicos
—
e
Gucky ficou encantado...
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo
poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E, da
mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante...
A luta
contra o invisível está por momentos suspensa...
Rhodan
descobriu que o robô regente havia traído o acordo... Drog, o
saltador, está em Swoofon — planeta dos microtécnicos — a fim
de que Markas construa um goniômetro de compensação, que capte as
freqüências do compensador estrutural...
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
Reginald
Bell
— Amigo inseparável de Perry.
Jost
Kulman
— Mutante; micrótico.
Gucky
— Rato-castor; mutante de três poderes.
Waff
— Engenheiro swoon.
Markas
— Cientista; também swoon.
Drog
— Saltador que trabalha para Árcon.
1
Gucky
estava furioso.
O fato de
ter sido enganado por Muzel, um pseudo cão bassê, que na verdade
era um espião robotizado do regente de Árcon, revoltava-o até os
últimos recônditos de sua alma de rato-castor.
— O
culpado foi você — repetiu Bell pela décima vez, reprimindo a
custo o riso zombeteiro, o que não lhe adiantava muito, já que
Gucky, telepata, sabia ler seus pensamentos mais recônditos. — Eu
o preveni muitas vezes. Ninguém pode confiar num bassê.
— Será
que um bassê não é um cachorro? — perguntou Gucky em tom
zangado, já que tinha uma afeição toda especial por esses
quadrúpedes do planeta Terra. — São as criaturas mais fiéis,
adoráveis e encantadoras que...
— Com
exceção de Muzel! — interveio Bell.
Nunca
deveria ter dito isso, pois além do mais o rato-castor era um
telecineta, sem falar no dom da teleportação que a natureza lhe
conferira.
Antes que
percebesse qualquer coisa, Bell perdeu o apoio dos pés e levantou-se
do soalho metálico da Drusus. Aparentemente subtraído aos efeitos
da gravidade, planou em direção à porta fechada do camarote. Uma
mão invisível abriu-a, e Bell viu-se no corredor. Agitou
desesperada-mente os braços e as pernas, mas uma triste experiência
já lhe ensinara que isso não adiantava nada. As energias
telecinéticas de Gucky prendiam-no inexoravelmente.
— Eu lhe
mostro uma coisa! — gritou o rato-castor em tom furioso. — Seu
hipócrita! Fica fingindo que está com pena de mim, enquanto por
dentro quase estoura de alegria pelo que me aconteceu. Sua bolota de
gordura de cabelos ruivos!
Para dizer
a verdade, esta última observação era um tanto exagerada. Era bem
verdade que Bell, amigo e representante de Rhodan, era baixo e
robusto, mas dificilmente poderia ser chamado de gordo ou disforme.
Era bem verdade que sua cabeça estava coberta de cabelos ruivos
cortados à escovinha.
— Eu
conto a Rhodan! — berrou Bell, mas Gucky limitou-se a rir.
— Conte
se puder, seu gorducho!
Uma pessoa
que não conhecesse as duas criaturas provavelmente sofreria um
colapso caso se encontrasse com a estranha dupla. Bell voava, leve
que nem uma pena, e deslocava-se, desviando-se habilmente de todos os
obstáculos que surgiam à sua frente. Embaixo dele o rato-castor,
que não media mais de um metro, caminhava a passos bamboleantes, com
as orelhas de pé. Os lábios se retraíram um pouco, deixando à
mostra o dente roedor, que refletia as luzes embutidas nas paredes. A
larga cauda de castor ajudava Gucky a manter o equilíbrio e ajudar
as pernas curtas, não muito seguras.
Felizmente
não se encontraram com ninguém.
O
rato-castor assustou-se quando, no corredor, viu alguém que parou ao
ver o homem voador. Colocou-o no chão de modo pouco suave. Por pouco
Bell não cai, mas o homem aproximou-se e segurou-o pelo braço.
— Por
quê? — limitou-se a perguntar.
Bell teve
oportunidade de desabafar.
Lançou um
olhar zombeteiro para Gucky, que já não sorria, mas parecia um
tanto embaraçado, e principiou:
— Este
bichinho nojento achou que estava na hora de dar uma demonstração
de força. Entrei em seu camarote sem pensar em nada e, quando dei
conta de mim, estava no teto e...
— É
verdade? — perguntou o homem, fitando o rato-castor com seus olhos
frios e cinzentos. — Ou será que está mentindo?
Gucky
acenou vigorosamente com a cabeça.
— É
claro que está mentindo, chefe. Você, que é telepata, deveria
saber. Ele me ofendeu e não me deixava em paz.
Perry
Rhodan passou os olhos de um para outro.
— Então,
Bell? Tem mais alguma coisa a dizer?
— A
gente nem pode brincar com este sujeito — disse Bell em tom
zangado, ajeitando o uniforme. — Este perna mole nunca admitiu a
menor brincadeira.
— Seu
monte de gordura! — retrucou Gucky em tom agudo.
Rhodan
levantou a mão.
— Se
vocês não pararem de brigar, eu os deixarei em casa — disse. —
Não preciso de colaboradores que vivem brigando.
Uma
expressão que parecia um misto de tensão e curiosidade surgiu no
rosto de Bell e nos olhos de Gucky.
— Algo
está para acontecer? — perguntou Bell. Fez um esforço e colocou a
mão no ombro do rato-castor. — Nós não brigamos, não é
verdade, Gucky?
— É
claro que não — chilreou Gucky com um olhar de inocência,
cruzando as patas dianteiras sobre o peito; parecia a inocência
personificada. — Só brincamos um pouco...
— Está
bem — disse Rhodan. — Então vocês estavam brincando; excelente.
Quer dizer que as divergências chegaram ao fim?
— Sem
dúvida — afirmou Bell. — Você não disse que tinha uma coisa
importante para comunicar?
— Disse
mesmo? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — O que será?
Bell
soltou um suspiro.
— Está
bem; desisto. Vamos embora, Gucky. Ainda não precisa de nós.
— Um
momento! — disse Rhodan. — Antes que resolvam continuar com a
brincadeira, gostaria de comunicar-lhes que, dentro de meia hora,
Jost Kulman prosseguirá em sua exposição. Ainda não teve tempo de
oferecer um relato completo do que aconteceu em Swoofon.
— Daqui
a meia hora? — perguntou Bell em tom animado. — Não deixarei de
comparecer. Onde será?
— No meu
camarote. Resolvi ser mais cauteloso. Quem sabe se o regente não
introduziu mais alguns espiões a bordo?
Rhodan
afastou-se com um ligeiro cumprimento. Bell e Gucky seguiram-no com
os olhos, até que desaparecesse atrás da primeira curva do
corredor.
— Hum —
fez o rato-castor e lançou um olhar pensativo para o teto.
Bell levou
um susto.
— Vamos
fazer as pazes — disse, acariciando a nuca de Gucky. — Não tive
a intenção de magoá-lo.
O dente
roedor de Gucky voltou a aparecer, o que numa situação como esta
era um bom sinal.
— Está
bem, gorducho. Vamos fazer as pazes. É bem verdade que você me
priva do prazer de levá-lo a um dos hangares e mostrar-lhe como se
voa. Paciência; fica para outra oportunidade.
— Vamos
depressa! — disse Bell e enlaçou o corpo do rato-castor. — Já
imaginou a cara de Rhodan, quando descobrir que chegamos antes dele?
Gucky
sorriu. Concentrou-se sobre o pequeno salto e desmaterializou-se
juntamente com Bell.
Houve um
tremeluzir no ar, e os dois desapareceram, para reaparecerem no mesmo
instante em outro lugar da gigantesca nave esférica.
Quando
Rhodan entrou, já estavam sentados em seu sofá e o fitavam com os
olhos mais inocentes deste mundo.
*
* *
Jost
Kulman pertencia ao destacamento especial de Rhodan, cujos membros
eram conhecidos pela designação de agentes cósmicos. Esses
agentes, que na maioria eram mutantes dotados de faculdades
especiais, viviam nos mundos mais importantes do Império Arcônida e
mantinham contato permanente pelo hiper-rádio com a central situada
na Terra. Dessa forma, Rhodan era informado sobre qualquer
acontecimento importante que se verificasse na Galáxia.
Kulman era
micrótico. Sabia modificar conscientemente a focalização dos
globos oculares, o que lhe permitia enxergar objetos que para outras
pessoas só se tornariam perceptíveis por meio do microscópio.
Graças a essa faculdade havia sido destacado para trabalhar em
Swoofon.
É que em
Swoofon viviam os swoons, que eram os melhores microtécnicos do
Universo.
Sentado
numa poltrona, Kulman enfrentou o olhar de Rhodan com um embaraço
indisfarçável.
— Sei
que tem toda razão de acusar-me — disse em tom constrito. —
Afinal, fui eu quem trouxe Muzel para bordo da Drusus. Por pouco esse
cachorro robotizado não revela ao regente a posição da Terra.
— O fato
é que não revelou — disse Rhodan, dando a entender que para ele o
caso Muzel estava liquidado. — Você não teve culpa. Isso poderia
ter acontecido a qualquer pessoa. Até mesmo o Exército de Mutantes
se deixou enganar pela imitação de um bassê. Até Gucky!
O
rato-castor estremeceu. Lançou um ligeiro olhar para Bell, que
estava sentado a seu lado, esboçou um sorriso embaraçado e ficou
quieto.
Ao que
parecia, Jost Kulman não havia percebido o interlúdio.
— Expedi
a mensagem pois a situação o exigia — disse, dando início à
exposição que era aguardada com grande ansiedade.
— Vieram
buscar-me, conforme o combinado. Infelizmente esta exposição
detalhada sofreu certo atraso porque Muzel...
Depois de
um silêncio de embaraço prosseguiu:
— Os
swoons receberam ordem de construir um goniômetro de compensação
para naves espaciais, cujas características fundamentais já são
conhecidas.
Rhodan
inclinou-se para a frente e fitou o agente. O sorriso desapareceu de
seu rosto, como se alguém o tivesse apagado.
— O que
vem a ser isso?
Kulman
respondeu em tom embaraçado.
— Fui eu
que batizei o aparelho, e o nome que lhe dei dá uma idéia de sua
finalidade. Os mercadores expediram a ordem de construção e
forneceram os respectivos planos. O goniômetro de compensação
tornará impossível a realização de qualquer hipersalto secreto.
Como vê, os fatos por mim observados são muito importantes...
— Se
são! — confirmou Rhodan, que não parecia muito satisfeito. —
Descobriu outros detalhes?
Kulman
resolveu apresentar um relato minucioso.
— Conforme
já é do seu conhecimento, o compensador foi criado pelos
saltadores. Com o aparelho evita-se a localização de uma nave que
entre em transição e volte a materializar-se. Assim os rastreadores
estruturais praticamente se tornaram inúteis. Mas, quando o
goniômetro de compensação for produzido em série, não haverá
mais segredos. Qualquer nave poderá ser localizada por meio da
goniometria, quer utilize um compensador, quer deixe de utilizá-lo.
Com isso, dentro em breve, a posição da Terra deixaria de ser um
segredo.
— Isto é
mau! — disse Bell, olhando para Crest, cuja figura magra se
mantinha imóvel na poltrona. — Ainda chegará o dia em que olharão
para dentro das nossas panelas.
— Prossiga,
Kulman — disse Rhodan. — Até que ponto chegaram os preparativos
para a construção do aparelho?
— Felizmente
ainda não foi iniciado. Os planos chegaram há pouco tempo. Ainda
estão sendo examinados, mas a construção das respectivas fábricas
já foi iniciada. Ao que parece, o goniômetro será desde logo
fabricado em série.
— Temos
de evitar isso, custe o que custar — disse Rhodan em tom enérgico.
— Tem alguma idéia sobre o funcionamento desse goniômetro?
— Sim
senhor, tenho uma ligeira idéia. O goniômetro de compensação
capta as freqüências do compensador estrutural, mesmo que o abalo
da estrutura espaço-temporal não possa ser detectado. Quer dizer
que esse goniômetro localiza o compensador, assim que seja ligado.
Transmite ondas específicas, que podem ser captadas no espaço de
cinco dimensões. Foi só o que consegui descobrir.
— Acho
que basta — respondeu Rhodan. — Conhece a posição aproximada da
futura fábrica?
— Conheço.
Não fizeram muito mistério em torno disso, embora o
computador-regente me tivesse reconhecido como agente, conforme prova
a história de Muzel. Do contrário não teria colocado um espião no
meu encalço.
— É
verdade — admitiu Rhodan. — Muzel provou outra coisa. Não acha,
Crest?
O
arcônida, ao qual Rhodan devia muita coisa, confirmou com um gesto.
— É
verdade, Perry. Refere-se à sinceridade do regente. O incidente com
Muzel provou que o computador de Árcon nem pensa em agir
honestamente conosco. Foi programado de maneira a sempre fazer o
possível para alcançar a primazia sobre qualquer ser orgânico, até
que os arcônidas recuperem um grau de agilidade mental que lhes
permita assumir o controle do Império. A aliança com o homem só
pode visar a esta finalidade específica, e nunca terá em vista uma
verdadeira sociedade.
“Ao que
parece, os invisíveis que lançam seus ataques do nada e despovoam
planetas inteiros são inimigos que o regente não pode enfrentar
exclusivamente com as próprias forças. Por isso, fez uma aliança
conosco, a fim de vencer o misterioso inimigo. Entretanto não
conseguimos; os seres invisíveis podem espreitar-nos em qualquer
lugar e a qualquer momento. Apesar disso, porém, o regente já nos
traiu, procurando descobrir a posição da Terra. Assim provou que
tem a intenção de, uma vez destruído o inimigo invisível, romper
a aliança com a Terra e subjugar nosso planeta.”
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— O
senhor está exprimindo exatamente o que eu penso, Crest. Acontece
que o regente está enganado. Em Swoofon teremos oportunidade de
matar dois coelhos de uma cajadada. Destruiremos os planos de
construção do goniômetro de compensação e mostraremos ao regente
que desmascaramos suas tramas. Se não modificar seu procedimento,
cancelaremos o acordo. Nesse caso, terá de descobrir um meio de
livrar-se dos invisíveis que ameaçam despovoar seu Império.
Crest
sacudiu ligeiramente a cabeça.
— Na
minha opinião não devemos destruir os planos, Perry. Não poderemos
evitar a construção do aparelho; se não for produzido hoje, em
Swoofon, poderá sê-lo amanhã, em outro lugar. Ninguém consegue
evitar o desenvolvimento da tecnologia. O senhor conhece a velha lei:
Primeiro surge a arma de ataque, depois a de defesa. Após isso surge
outra invenção que torna inútil esta última. O goniômetro deve
ser construído! Apenas, devemos criar alguma coisa que o torne
inútil assim que entre em uso. Para isso precisamos apenas dos
planos de construção do aparelho. Se Kulman pudesse dizer-nos onde
encontrá-los...
Rhodan
voltou a sorrir. Parecia muito confiante.
— Obrigado,
Crest. O senhor acaba de traçar as linhas gerais do plano que
teremos de executar. Kulman, prossiga na exposição. Conte como são
as coisas em Swoofon, o que se anda fazendo por lá, como vivem seus
habitantes e qual é sua atitude face ao Império. Qualquer detalhe
pode ser importante, por mais insignificante que pareça.
“O
compensador estrutural”,
pensou Rhodan enquanto Kulman principiava a falar, “é
a arma de defesa mais importante que possuímos. Se for posto fora de
ação, nossa situação se tornará crítica. Nosso ponto forte
consiste justamente no fato de ninguém saber onde fica a Terra. Na
imensidão do Universo, nosso planeta não passa de uma partícula de
pó. E essa partícula de pó não será encontrada.”
Depois
voltou a dedicar sua atenção à exposição de Kulman.
— ...os
habitantes são conhecidos como os swoons. Vivem exclusivamente no
segundo planeta do sol Swaft, a novecentos e noventa e dois anos-luz
da Terra. O sistema tem três planetas, mas só o segundo deles é
habitado. É um mundo de oxigênio, a superfície é desértica, não
existe qualquer vegetação digna de nota, a gravitação corresponde
a um quarto da terrana. A percentagem de oxigênio da atmosfera de
Swoofon é bastante reduzida; mal e mal é suficiente para que um ser
humano possa viver nesse planeta sem usar uma máscara de respiração.
— Por
que os swoons são considerados os técnicos mais competentes do
Universo? — perguntou Bell.
— São
mecânicos de precisão! — disse Kulman em tom enfático. — Seus
olhos são semelhantes aos meus: enxergam coisas que qualquer outro
ser só conseguiria ver através de um microscópio. Além disso,
suas mãos são extremamente hábeis. Sabem moldar um objeto do
tamanho de um grão de areia sem necessitarem de qualquer instrumento
ótico. Aliás, não são grandes; medem no máximo trinta
centímetros.
— O que
tem trinta centímetros? — perguntou Bell. — As mãos deles?
— Os
próprios swoons — explicou Kulman em tom condescendente.
Lembrou-se de que até então mal tivera tempo para falar a este
respeito. — Os habitantes do planeta Swoofon são muito pequenos.
Têm trinta centímetros de altura, são muito “finos”
e podem ser tudo, menos humanóides. Até parecem pepinos com dois
pequenos pés. Na parte superior do corpo têm quatro braços, nos
quais se encontram as mãos extremamente hábeis.
Bell
sacudiu a cabeça.
— Não é
possível! Não venha me dizer que existem pepinos que fabricam
relógios!
— Eles
fabricam muito mais que isso! — disse Kulman num tom que revelava
certa reverência. — Quando conhecer os swoons, o senhor saberá
admirá-los.
— Nunca
gostei muito de pepino — disse Bell.
Lançou um
olhar para Gucky. Ao que parecia, esperava receber o apoio do
rato-castor, mas teve uma amarga decepção.
— Acredito
que os swoons poderão ser meus amigos — disse Gucky com a maior
tranqüilidade. — Os preconceitos que Bell costuma manter não são
meu fraco.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Você
tem razão, mas não acredito que Bell estivesse falando sério. Do
contrário não poderia levá-lo para Swoofon.
— Quer
dizer que vamos...?
Rhodan
fitou Bell.
— Vamos,
sim; e hoje mesmo.
— Viva!
— gritou Gucky e levantou-se para caminhar em direção à porta. —
Vou cuidar da minha aparência. Vamos pousar no planeta em caráter
oficial?
— Acredito
que sim, Gucky. Por que está tão interessado em cuidar da
aparência?
— Afinal,
teremos férias na terra dos pepinos; é uma oportunidade toda
especial, e não quero fazer feio.
Desapareceu
sem abrir a porta. Bell fitou o lugar em que Gucky se encontrara há
poucos segundos.
— São
seus instintos que estão levando a melhor — disse em tom de
oráculo. — Tomara que não confunda esses técnicos pepinos com
cenouras. As conseqüências seriam desastrosas.
Kulman
olhou-o como quem não entende nada, mas Bell achou que não seria
necessário explicar ao agente que Gucky tinha uma predileção toda
especial pelas cenouras frescas.
Rhodan
continuou sentado.
— Kulman,
acho que seria conveniente que você nos fornecesse mais alguns
detalhes. Estou interessado em saber, por exemplo, onde fica a
Embaixada de Árcon, quais são os contingentes de tropas de que pode
dispor o administrador, qual é o sistema administrativo, etc.
Kulman
prosseguiu na exposição.
Dali a dez
minutos, Bell levantou-se cautelosamente e saiu do camarote.
Não
estava interessado naquilo. Havia outras coisas que lhe despertavam
um interesse muito maior. Por exemplo, o Primeiro-Tenente Sikermann,
que se encontrava na sala de comando. O imediato do couraçado
espacial Drusus tornara-se seu amigo, fato que talvez tivesse sua
origem numa certa afinidade de gênios.
Baldur
Sikermann, um homem baixo, robusto e de cabelos escuros, estava
sentado na poltrona do piloto, tendo à sua frente os controles da
Drusus, uma nave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro.
Como imediato, na ausência de Bell e Rhodan, cabia-lhe comandar a
tripulação de dois mil homens, sem a qual a nave não poderia
desenvolver integralmente o seu potencial.
— Olá,
Sikermann — disse Bell ao entrar na sala de comando e perceber que
tudo estava em perfeita ordem. — Está aborrecido?
Nas telas
via-se uma profusão de estrelas desconhecidas. Encontravam-se num
setor inexplorado de sua galáxia, a Via Láctea.
Sikermann
virou-se lentamente e fitou Bell como se nunca o tivesse visto.
— Até
agora não tive tempo de aborrecer-me — disse com a voz tranqüila.
Bell
lançou um ligeiro olhar para o Capitão Rodes Aurin, um homem
grisalho que desempenhava as funções de oficial de armamentos da
Drusus, mas este parecia estar tão ocupado com seus catálogos que
nem ouvira a observação que acabara de ser feita.
— Seu
tédio logo será espantado, Sikermann — profetizou. — Dentro de
poucas horas, acontecerá alguma coisa. Já engraxou o motor estelar?
Sikermann
encolheu-se.
— O
senhor usa cada expressão! — constatou, e voltou a dedicar sua
atenção aos controles, para ligar as telas de localização.
— Estou
falando sério: acho que a coisa vai começar — disse Bell.
— O que
vai começar?
— O
espetáculo com os swoons, os homens-pepino; não sei se o senhor
compreende. Os mecânicos de precisão.
— Não
compreendo uma palavra do que está dizendo.
— Ora,
não seja tão obtuso. Neste momento, Kulman está apresentando sua
exposição. Dirigir-nos-emos a Swoofon para fazer uma visita aos
habitantes do planeta. Estão construindo um goniômetro de
compensação capaz de localizar qualquer hiper-salto, mesmo que o
compensador estrutural esteja ligado.
— Caramba!
— disse Sikermann.
Bell
sorriu.
— Não
se preocupe; saberemos estragar a festa deles. É bem verdade que os
homens-pepino são gente muito distinta; não lhes devemos fazer
nada.
— O que
vêm a ser os tais homens-pepino?
Bell
explicou e acrescentou:
— Realmente
estou curioso para vê-los. Pelo que diz Kulman, são realmente
encantadores, à sua maneira. Dizem que seus olhos lhes permitem
remover uma verruga numa pulga.
— As
verrugas? — perguntou Sikermann em tom de espanto. — Será que
todo mundo ficou louco?
— Quem?
As verrugas? — perguntou Bell.
Sikermann
não respondeu. Parecia desejar esquecer a presença de Bell. Passou
a fitar as telas, nas quais não se via nada.
— Verrugas!
Pepinos! — disse para si mesmo, sacudindo a cabeça. — Rosita
Peres poderá cuidar deles.
Rosita
Peres era a cosmopsicóloga da Drusus.
Bell riu e
foi caminhando em direção à porta que dava para a sala de rádio.
Comprimiu um botão e abriu-a. David Stern, que estava de plantão,
virou-se quando ouviu Bell entrar.
— Tudo
em ordem — anunciou. — Não há localizações nem mensagens.
Bell
agradeceu em tom indiferente e encostou-se ao armário de
instrumentos.
— Procure
descansar um pouco. Dentro em breve terá muito que fazer.
David
Stern era tenente e um dos oficiais de rádio mais competentes da
Drusus. Vinha de Israel, era de estatura mediana, tinha cabelos
escuros e demonstrava a agilidade de um gato-selvagem.
— Alguma
missão? — perguntou em tom discreto.
— E que
missão! Será a guerra dos pepinos.
— Hem! —
admirou-se David Stern, respirando com dificuldade. — O que foi que
o senhor disse?
— Disse
que será a guerra dos pepinos. É bom que saiba que os habitantes de
Swoofon são pepinos. Vamos tirar-lhes alguma coisa.
— Ah,
sim — disse Stern, sem entender uma única palavra do que o outro
dizia. — Vamos tirar-lhes alguma coisa... Onde e quando?
— Não
acredita nos pepinos? — perguntou Bell com um leve tom de ameaça
na voz. — O agente Kulman nunca mentiu. Não se atreveria a tanto.
— Acontece
que foi ele quem trouxe Muzel para bordo — ponderou Stern.
Bell
pôs-se a rir.
— Ah,
sim; Muzel! Isso me dá uma idéia. Até logo mais, Stern; tenho que
liquidar um assunto. A bordo desta nave existe uma criatura que
brincava durante horas a fio com esse cão robotizado, enquanto eu
fiquei em disponibilidade.
— Será
Gucky? — perguntou Stern quando Bell já se afastava
apressadamente. — O pequeno rato-castor...
— Sim, é
este mesmo. Quero fazer um pouco de gozação com ele.
E foi
assim que Bell ainda teve de tomar, a contragosto, uma aula de vôo.
Os oficiais e tripulantes que se encontravam presentes divertiram-se
a valer quando o viram planar no grande hangar, junto ao teto alto.
Deu alguns saltos, fez vários loopings,
xingava a valer e pedia socorro. Por vezes ria ou se lamentava. Os
espectadores ficaram tremendamente admirados.
Desta vez
Gucky, que conduzia Bell por meio de suas energias telecinéticas,
mostrou-se implacável.
Não fez
por menos: Bell teve que voar durante uma hora.
*
* *
Recorrendo
aos compensadores estruturais, ainda eficazes, a Drusus deu dois
saltos em direção ao sistema de Swaft. Depois os compensadores
foram desligados. As duas transições que se seguiram foram
realizadas sem o menor disfarce. Qualquer rastreador estrutural dos
arcônidas seria rapaz de localizar os dois saltos, mas não
proporcionaria qualquer esclarecimento sobre o ponto de partida da
nave.
O sol
Swaft era aproximadamente do mesmo tamanho e irradiava calor idêntico
ao do sol terrano. No entanto, ninguém sabia explicar por que no
planeta Swoofon não se havia desenvolvido praticamente nenhuma
vegetação. Havia água, rochas e terra em boa quantidade. Além
disso, existia areia de sobra. Mas quase não se via nenhuma planta.
Aproximadamente
metade dos swoons vivia nas cidadezinhas existentes na superfície de
Swoofon, enquanto a outra metade preferira abrigar-se sob a
superfície. Kulman conseguira descobrir que existiam swoons que se
haviam aliado aos saltadores, e estavam dispostos a construir o
goniômetro de compensação para os mesmos. Eram principalmente os
swoons que viviam no subsolo.
O pouso de
uma nave não constituía nenhuma sensação nova para os swoons,
embora para eles estas deveriam ser enormes e possantes. Geralmente
eram os saltadores ou mercadores galácticos que visitavam Swoofon,
trocavam suas mercadorias e traziam artigos de uso muito apreciados.
Não chegavam a ser considerados amigos, mas eram negociantes
bem-vindos.
Dessa
forma, Swoofon pertencia ao Império Arcônida, e era nesse fato que
se baseava o plano de Rhodan.
No momento
em que Swoofon surgiu nas telas da Drusus, e esta penetrava no
sistema, desenvolvendo a velocidade da luz, Rhodan distribuiu os
papéis.
— Tenente
Rous, pegue a K-13 e voe à Terra com o compensador ligado. Vá
buscar a Titan e a General Pounder com a tripulação completa. Seria
arriscado demais expedir uma mensagem de rádio. Assim que as duas
naves chegarem, faremos uma visita empolgante a Swoofon, isso por
ordem do regente de Árcon.
— Hum —
fez Crest em tom cético. — Será que isso não é muito arriscado?
— De
forma alguma. Estou agindo oficialmente nos termos do acordo que fiz
com Árcon. Não haverá motivo para suspeitas. Comunicarei ao
regente, se este o desejar, que Swoofon está prestes a ser invadido
pelos invisíveis. Não temos necessidade de dizer-lhe como
descobrimos isso. Sabemos, e basta! Estamos tomando as providências
que estão ao nosso alcance. Quem poderá impedir-nos de agir assim?
Ninguém
respondeu. Mas Atlan, que se mantinha num ponto mais afastado, falou:
— Acho
que não seria recomendável causarmos qualquer prejuízo aos swoons
— disse em tom objetivo. — Como antigo psicólogo de colonização
do Império afirmo que não devemos usar violência e...
— Não
tenho a intenção de prejudicar os swoons — interrompeu-o Rhodan
em tom amável. — Apenas faremos um blefe com eles. A verdadeira
finalidade da ação consistirá em encobrir a atuação dos agentes.
O que pretendemos fazer é o seguinte: Kulman irá, juntamente com os
mutantes apropriados, para junto dos swoons que deverão construir o
goniômetro. Esse fato passará despercebido em meio à confusão
geral causada por nossa aparição no planeta.
— Talvez
seja o procedimento mais recomendável — disse Atlan, o imortal.
O Tenente
Marcel Rous adiantou-se.
— Quando
devo decolar?
Rhodan
lançou um olhar sobre o calendário de bordo.
— Dez de
novembro de 2.040, treze horas, tempo terrano. Se tudo correr
normalmente, poderá estar de volta dentro de duas horas, em
companhia dos dois couraçados espaciais. Decole imediatamente e leve
apenas metade da tripulação. Entendido?
— Entendido
— disse Rous e saiu da sala de comando.
Rhodan
lançou-lhe um olhar pensativo e fez um sinal para John Marshall,
chefe do Exército de Mutantes.
— Compareça
daqui a dez minutos ao meu camarote, para podermos discutir os
detalhes de sua tarefa. Obrigado.
Dirigindo-se
a Bell, disse:
— Dê
uma olhada na rouparia. O uniforme que usei para desempenhar o papel
de inspetor arcônida ainda deve estar por lá. Talvez possa ser-nos
útil.
— Logo
saberemos — disse Bell e retirou-se.
Baldur
Sikermann, que estava sentado na poltrona do piloto, sem tirar os
olhos dos controles, disse:
— Não
me diga que pretende pousar no planeta com a Drusus.
— Pretendo
pousar com as três naves — disse Rhodan em tom resoluto. — Os
pequeninos swoons ficarão impressionados ao verem simultaneamente
três esferas espaciais de um quilômetro e meio de diâmetro. Quanto
maior a excitação, melhor para nós. Mais alguma pergunta?
*
* *
Exatamente
às quinze horas, tempo terrano, as naves Titan e General Pounder
materializaram-se a pequena distância da Drusus. Rhodan sabia
perfeitamente que iria praticar um ato absurdo e até ridículo. Só
poderiam achar que era louco ou covarde, se utilizasse as três naves
desse tipo para ocupar um planeta como Swoofon.
Acontece
que Rhodan não se importava com o que os saltadores ou os arcônidas
pensassem dele. Sabia perfeitamente o que estava fazendo.
Prosseguiu
em direção a Swoofon à velocidade da luz e transmitiu
ininterruptamente a seguinte mensagem:
Atenção!
Dirijo-me à população do planeta Swoofon. O sistema de Swaft será
bloqueado por ordem do Império. Nenhuma nave poderá sair de Swoofon
sem licença especial. A partir deste momento, vigora uma proibição
terminante de pousar ou decolar para todas as naves que se encontrem
no sistema. A população deverá manter a calma.
Rhodan
preferiu não citar seu nome. O regente de Árcon logo seria
comunicado, e ficaria sem saber quais seriam as verdadeiras intenções
de seu sócio do planeta Terra.
E era bom
que fosse assim.
Um sorriso
contrariado surgiu no rosto de Rhodan, quando Sikermann começou a
desacelerar a Drusus, para que a mesma não penetrasse em velocidade
muito elevada na atmosfera do planeta. A Titan e a General Pounder
seguiram o exemplo.
De pé, ao
lado de Rhodan, Kulman observava a manobra. Conhecia os swoons e
sabia como orientar-se no planeta.
— A
capital é Swatran — disse, fitando a tela que refletia todos os
detalhes da superfície do planeta. — A maior parte da cidade fica
na superfície, especialmente o espaçoporto. Já os centros de
produção ficam muito abaixo do nível do solo. O acesso aos mesmos
só é possível através de minúsculos portões. Receio que nenhum
de nós consiga entrar lá.
— Aguardemos
— disse Rhodan com a voz fria. — O senhor verá.
Kulman
apontou para o ponto pouco nítido, situado uns duzentos quilômetros
a leste da capital.
— Foi
aqui que eu fiquei. Em Swatran ninguém me conhece.
— Devem
ter ouvido falar de sua atuação — comentou Rhodan. — Acho que
não precisará de uma apresentação formal. Naturalmente ficarão
curiosos para saber como é que o senhor veio parar em minha nave, e
por que volta em nossa companhia. Mas acredito que dificilmente
encontraremos inimigos entre os swoons, pois eles não têm muita
simpatia pelos saltadores.
— Aguardemos
— respondeu Kulman em tom seco.
Rhodan
calou-se.
O
espaçoporto havia sido construído pelos saltadores, que mantinham
um intercâmbio comercial bastante intenso com os mecânicos de
precisão da Galáxia. Os edifícios destinados a abrigar a colônia
de saltadores radicada no planeta e o administrador de Árcon eram
relativamente baixos, mas para os swoons deviam ser verdadeiros
arranha-céus. Durante sua permanência no planeta, Kulman ocupara um
grande armazém dos swoons. Na verdade, não passava de um simples
barraco. Sentira-se que nem Gulliver entre os anões.
O tamanho
minúsculo das casas causava uma impressão errônea quanto à
distância.
Examinando
a superfície a olho nu, Rhodan calculou que a nave se encontrava a
uns cem quilômetros de Swatran, mas o altímetro revelou que a
distância não era superior a dez quilômetros.
As
gigantescas naves pousaram. Quase no mesmo instante, uns cem girinos,
que eram naves esféricas de sessenta metros de diâmetro, saíram
das escotilhas de carga da Drusus, da Titan e da General Pounder.
Estes veículos espaciais cuidariam do bloqueio do planeta. Feito
isso, Rhodan suspirou aliviado e dirigiu-se à sala de rádio.
— Alguma
notícia? — perguntou, dirigindo-se a David Stern.
— Apenas
algumas indagações confusas que ninguém entende. Os saltadores
protestaram; afirmam que não existe nada contra eles.
— É o
que sempre dizem — afirmou Rhodan. — Acontece que nunca estão
com a consciência tranqüila. Aposto que a esta hora já estão
quebrando a cabeça para saber quais dos seus crimes conseguimos
descobrir. Se foram os próprios saltadores que tramaram essa
história do goniômetro de compensação, a esta hora já estarão
suando de medo.
Bell
seguira Rhodan sem que este o percebesse.
— Acontece
que não estão inteirados que nós sabemos — disse.
— A
incerteza não é um estado muito agradável — ponderou Rhodan e
voltou a dirigir-se a Stern: — Quero entrar em contato com o
administrador de Swoofon. É possível?
— Tentarei
— prometeu Stern e pôs-se a trabalhar. — Não sei qual será a
demora.
— Chame-me
assim que tiver estabelecido a comunicação — disse Rhodan e
dirigiu-se à porta. — Enquanto isso conversarei com o enviado
oficial do Império.
Bell
seguiu-o com os olhos e voltou à sala de comando.
Parou na
porta. O tremendo silêncio deixou-o fascinado.
Os que se
encontravam na sala de comando fitavam as enormes telas de visão
global, nas quais se viam as áreas adjacentes à nave pousada, como
se esta não tivesse paredes.
Bell
também observava.
O campo de
pouso não estava vazio. Entre as grandes naves dos saltadores
enxameavam pequenos seres, que caminhavam a passos graves. Na
verdade, pareciam pepinos maduros. Sua altura não ultrapassava
trinta centímetros. Tinham pernas curtas, quatro braços, um rosto
que quase chegava a ser ridículo, nariz achatado e uma boca
pequeníssima. Não tinham pescoço. E os olhos salientes não
contribuíam para tornar os swoons mais bonitos.
Kulman
havia contado a Bell que essas estranhas criaturas faziam questão de
serem tratadas com o maior respeito e cortesia. Quem não lhes desse
esse tratamento teria problemas. E Rhodan não estava interessado em
criar problemas.
— Por
todos os planetas! — exclamou Bell e acompanhou a marcha dos
homens-pepino, cuja cor amarela o deixou estupefato.
Usavam um
tipo de roupa, mas esta não encobria os contornos do corpo, que
permaneciam nítidos.
— Realmente
parecem pepinos. Sabem falar?
Kulman,
que se encontrava a seu lado, fez um gesto afirmativo.
— Falam
em voz aguda e estridente. Seu ouvido é extremamente sensível. Se
alguém grita perto deles, contorcem-se de dor. O tradutor eletrônico
permite uma comunicação perfeita com eles. Ainda bem que temos uma
quantidade suficiente desses aparelhos.
— Estou
captando seus pensamentos — disse Gucky, em cujos olhos se exprimia
o espanto. — São pacatos e muito curiosos, mas não querem
confessar essas qualidades. Resolveram mostrar-se enérgicos e
protestar contra a ocupação de Swoofon. Se não me engano, aquilo
ali é uma espécie de delegação do Governo.
— Excelente!
— disse uma voz vinda da porta.
Todos
viraram-se abruptamente e assustaram-se ao reconhecerem o uniforme
colorido de inspetor arcônida. Mas logo viram que era Rhodan que o
envergara e estava pronto para desempenhar seu papel.
— Você
parece um papagaio — disse Bell em tom de inveja. — Tenho a
impressão de que sou um simples pardal.
— Você
não passa disso — exclamou Gucky com um sorriso de deboche.
Bell não
lhe deu atenção.
— Pretende
sair da nave para conferenciar com os swoons? Quem irá com você?
Rhodan
olhou em torno.
— É
preferível que por enquanto Kulman não saia da nave. Não é
necessário que saibam que veio conosco, ao menos agora. Você irá
comigo, Bell. Gucky também irá, para que possamos conhecer os
pensamentos dos swoons. Sikermann e Crest cuidarão da sala de rádio
e farão cumprir nossas ordens. Os girinos deterão qualquer nave que
tente sair de Swoofon. Outros girinos pousarão nos demais
espaçoportos existentes no planeta e confiscarão todas as naves dos
saltadores. O intercâmbio comercial será suspenso imediatamente.
São ordens de Árcon!
Ao
proferir a última frase, exibiu um sorriso frio. Bell riu. Crest e
Atlan pareciam preocupados. Sikermann dava a impressão de estar
zangado e resoluto. Por estranho que pudesse parecer, Gucky não fez
e não disse nada.
Naquele
momento as três naves, que haviam pousado longe uma da outra,
estavam totalmente cercadas pelos swoons. O quadro, que se oferecia
aos terranos, quase chegava a ser medonho. A superfície plana do
espaçoporto enxameava de minúsculas criaturas, movendo-se com
tamanha dignidade e compenetração que até parecia que eram os
verdadeiros donos do Universo. Podia ser que não possuíssem nada,
mas ao menos tinham a consciência tranqüila. E uma calma
inabalável.
— Vamos
andando — disse Rhodan.
Bell e
Gucky seguiram-no.
Não
levaram armas. Em compensação muniram-se de um tradutor eletrônico,
sem o qual toda e qualquer comunicação se tornaria impossível.
Bell carregou-o, com a compenetração de um camareiro do rei,
enquanto Gucky fitava com a necessária veneração a calça colorida
de seu chefe Perry Rhodan, que caminhava à sua frente. Ninguém
saberia dizer que recordações lhe passavam pela mente naquele
instante.
Não era a
primeira vez que Rhodan usava uma calça desse tipo...
A
escotilha abriu-se. A rampa inclinada saiu automaticamente, e Rhodan
e seus companheiros desceram-na calmamente, em direção aos swoons
que os esperavam.
— Não
estão com medo de nós — cochichou Gucky. — Apenas estão
curiosos.
— A
curiosidade é a força motriz do Universo — retrucou Rhodan em voz
baixa.
Dezenas de
milhares de swoons se haviam reunido a fim de cumprimentar os seres
que acreditavam serem arcônidas. Mesmo Rhodan, cuja capacidade
telepática era menos potente que a de Gucky, conseguiu ler os
pensamentos dos que se encontravam mais próximos, embora não fosse
fácil distinguir os impulsos confusos. Na verdade, só percebeu
curiosidade, misturada com certa dose de alegria e satisfação.
Era
surpreendente, talvez mesmo estranho.
Rhodan
resolveu solucionar o enigma.
Prosseguiu,
até encontrar-se no meio dos swoons. Abaixou-se, ficando de cócoras.
Bell seguiu seu exemplo, o que não foi tão fácil assim, pois
pesava alguns quilos a mais que Rhodan. Gucky não teve a menor
dificuldade, já que sua altura não era superior a um metro.
Um dos
swoons começou a falar aos pios. Tratava-se de um indivíduo que era
tratado com uma veneração toda especial pelos demais. Abriram alas
quando se adiantou, e formaram um semicírculo à sua volta, a fim de
protegê-lo.
— Bem-vindos
em Swoofon — disse o swoon em tom agudo, fazendo um princípio de
mesura. — Sentimo-nos felizes em hospedá-los. Vêm por ordem do
regente?
Era a
primeira pergunta.
Rhodan fez
um gesto afirmativo e, falando para dentro do tradutor eletrônico,
que reproduzira perfeitamente as palavras dos swoons, disse:
— O
regente envia seus respeitosos cumprimentos aos digníssimos swoons.
O Império sente-se feliz em saber que os habitantes deste planeta se
contam entre seus melhores amigos.
Os swoons
engoliram a bajulação com a naturalidade que lhes era peculiar em
ocasiões como esta. O rosto de Rhodan irradiava satisfação.
— Se
colocamos nossos valiosos serviços ao dispor da comunidade, apenas
estamos cumprindo nosso dever — respondeu a pequena criatura num
tom de orgulhosa autoconfiança. — Talvez se o Império quiser
confiar-nos alguma tarefa, esta será cumprida com a dedicação de
sempre.
— A
missão que nos trouxe para cá não é nada agradável — disse
Rhodan. — Estamos à procura de um inimigo do Império. Pelo que
estamos informados, ele fugiu para Swoofon. Além disso, este mundo
encontra-se na iminência de uma invasão contra a qual não existe
qualquer defesa, a não ser que consigamos criar uma nova arma.
Desejo falar com o chefe de governo de Swoofon.
— Aqui
existem muitos chefes de governo — foi a resposta surpreendente
dada pela pequena criatura. — Infelizmente nossas tribos e nações
ainda não conseguiram chegar a um acordo e escolher a pessoa que
tenha suficiente dignidade para falar em nome de todas. As tentativas
de unificação...
Era a
velha história. Os swoons ainda não conheciam a navegação
espacial vista como um instrumento de expansão galáctica. Viviam
para o trabalho, faziam seus negócios com os saltadores e outras
raças do Império, ganhavam muito dinheiro e não demonstravam o
menor interesse pela política espacial.
— Por
isso temos que pedir-lhe que se contente em conferenciar com os
representantes de Swatran. Falamos em nome de dez milhões de swoons.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Pois
bem; ouça minhas instruções. Todas as naves estacionadas no
planeta estão confiscadas. Não deverão decolar sem permissão dada
por nós. Além disso, quero falar com o administrador de Árcon.
Parece que ele reside em Swatran, não?
— Até
hoje residia — disse o pequeno swoon. — Infelizmente desapareceu
no momento em que o senhor surgiu inesperadamente. Pretendíamos
perguntar-lhe o que devíamos fazer, pois não sabíamos como
explicar o aparecimento de uma frota dos arcônidas. Mas não o
encontramos na sede da administração. Desapareceu.
A novidade
era muito interessante! O que estaria temendo o administrador de
Árcon para fugir daquela maneira? Teria feito negócios escusos com
os saltadores a fim de aumentar sua fortuna pessoal? Estaria receoso
de ser descoberto por Rhodan?
Bell
sentara de vez. Alguns swoons caminhavam entre suas pernas, fitando-o
com uma expressão curiosa, mas sem demonstrar qualquer medo. Se
quisesse podia varrê-los com um simples movimento da mão. Mas
quando via seus rostinhos graciosos chegava a sentir uma espécie de
ternura. Fitava com certa admiração os dedos finos, presos
diretamente aos quatro braços. Aqueles seres realmente pareciam
pepinos maduros aos quais tivesse sido insuflada vida. Bell teve a
sensação de viver uma lenda, na qual desempenhava o papel do
gigante bondoso.
Com Gucky
as coisas não foram diferentes. Também estava sentado no chão e
“apalpava”
o conteúdo da mente dos swoons. Despertava uma atenção toda
especial, e uma elevada dose de simpatia dos swoons. Pelo que Gucky
pôde constatar, acreditavam que fosse uma espécie de animal
doméstico dos pretensos arcônidas. Não se zangou com isso, pois
para Gucky os animais não eram menos respeitáveis e simpáticos que
as criaturas humanas.
— Se é
assim, falarei com os saltadores — disse Rhodan. — Mandarei
alguns soldados procurá-los e prendê-los.
Rhodan
teve a impressão de descobrir certa alegria no rosto do swoon que se
encontrava à sua frente. E os pensamentos do pequeno ser confirmaram
a suposição. Não gostava dos saltadores. E havia outras criaturas
de que também não gostava...
...Eram os
outros swoons. Os swoons que colaboravam com os saltadores.
— Providencie
para que todos os swoons sejam retirados do campo de pouso, a fim de
que nossa operação militar não seja perturbada — disse Rhodan. —
Dou-lhes meia hora.
— Estamos
prontos para servi-lo com o máximo prazer — asseverou o swoon. —
Sem dúvida terá a bondade de avisar-nos o quanto antes sobre os
resultados da operação. Se pudermos ajudar...
— Oportunamente
avisaremos — prometeu Rhodan e levantou-se. Bell e Gucky seguiram
seu exemplo, embora se percebesse que preferiam continuar sentados
por mais algum tempo. Talvez ainda teriam uma oportunidade de
conversar com os homens-pepino.
Rhodan
desligou o tradutor eletrônico.
— Espere
aqui juntamente com Gucky — disse, dirigindo-se a Bell. — Vou à
Drusus para trazer Marshall com quatro dos seus mutantes. Não deixem
que ninguém os distraia. Voltarei logo.
Afastou-se
sem esperar resposta. Antes de chegar à rampa, comprimiu um botão
do rádio de pulso.
David
Stern respondeu.
— Sim.
— Estabeleça
contato com Árcon pelo hipercomunicador. Você conhece o código do
robô regente. Peça-lhe que envie a frota de Talamon a título de
reforço. Entendido?
— Devo
pedir a Árcon que envie Talamon?
Rhodan fez
que sim.
— Se
alguém se mostrar surpreso, diga que são ordens minhas. Sei o que
estou fazendo. Entendido?
— Sim
senhor. Entendido.
Rhodan não
estava muito convencido de que Stern realmente tivesse entendido, mas
sabia que podia confiar nele.
Gucky e
Bell voltaram a sentar e iniciaram conversa com os poucos swoons que
permaneciam no campo de pouso.
Os outros
caminharam tranquilamente de volta à cidade. Até parecia que
estavam num piquenique.
Gucky
fitou-os cheio de espanto e com certa dose de ceticismo.
Embora
tivesse alguma simpatia pelos “pepinos
pensantes”,
estes também o amedrontavam um pouco.
*
* *
Na sala de
comando Crest, Atlan e Sikermann esperavam por Rhodan.
Pareciam
bastante contrariados, especialmente Crest.
— Acho
que forçou as coisas demais, Perry — disse a título de
cumprimento. — A esta hora o regente já sabe o que está
acontecendo aqui.
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— Nada
disso, Crest. Sua atenção foi desviada daquilo que realmente
importa. O robô regente nunca saberá quais foram realmente nossas
intenções ao virmos para cá. Enquanto procura encontrá-las,
descobriremos os planos do goniômetro de compensação, e ainda
saberemos se o regente fala sério quando alude à sua amizade
conosco.
— Tomara
que tenha razão — disse Crest em tom de dúvida.
Atlan
manteve-se em silêncio. Embora fosse um arcônida, tal qual Crest,
parecia mais robusto. Nos olhos do imortal notava-se o conhecido
brilho avermelhado da raça albina.
Não hoje,
mas um belo dia...
— Conseguiremos
— disse Rhodan em tom confiante e transmitiu algumas instruções
lacônicas pelo intercomunicador.
Dali a
alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes apareceu com quatro
de seus homens. Dirigindo-se a Marshall, Perry disse:
— Venham
comigo. Prenderemos os saltadores. Não acredito que haja
resistência.
— Se
houver, o azar é deles — observou Sikermann, lançando um olhar
furioso para os controles de armamentos. — Ainda temos alguns
girinos a bordo.
— Se
necessário, solicitarei sua presença — prometeu Rhodan e saiu da
sala de comando juntamente com os mutantes. — Manteremos contato
pelo rádio.
O campo de
pouso estava vazio. Só vez por outra, via-se um ou outro swoon que
tropeçava em tom majestático, sem demonstrar a menor pressa de
chegar ao destino. Ainda estavam curiosos para saber o motivo de
tamanho espalhafato.
Bell e
Gucky levantaram-se assim que Rhodan chegou com o grupo de cinco
homens. Dois ou três swoons afastaram-se em gestos compenetrados.
Pelos seus movimentos tinha-se a impressão de que mal conseguiam
carregar seus pequenos corpos.
— Não
precisamos de qualquer veículo nem de trajes especiais — disse
Rhodan ao notar o olhar pensativo de Bell. — Basta darmos um salto
para percorrermos dez metros e pousarmos suavemente. Pelo que diz
Kulman, é muito divertido passear em Swoofon.
— Que
passeio! — disse Bell, olhando para os edifícios baixos, nos
quais, segundo supunha, se encontravam os saltadores. — Tenho uma
sensação esquisita...
— No
estômago? — perguntou Gucky em tom zombeteiro. — Deve ser fome.
— Tolice!
Não estou com fome...
— Ah! —
exclamou Gucky em tom de triunfo, sorrindo para Rhodan. — Quer
dizer que está com medo. Só pode ser fome ou medo. Afirma que não
está com fome. Logo...
— Vamos
embora — disse Rhodan, interrompendo-o. — Não temos tempo para
fazer piadas sem graça. Marshall, mantenha a arma preparada para
disparar. Não acredito que os saltadores esbocem qualquer reação.
Ao menos, não será a reação que Bell receia.
Os três
couraçados espaciais formavam um triângulo eqüilátero. Dentro do
triângulo, e também fora dele, havia algumas naves cilíndricas dos
saltadores. Nem pensavam em desobedecer às ordens que Rhodan mandara
transmitir pelo rádio; mantinham-se calmas, em atitude de
expectativa. Os swoons haviam desaparecido de vez, dando a entender
que não tinham nada a ver com a operação de vasculhamento que se
anunciava.
O
teleportador Ras Tschubai, um gigantesco africano de rosto bonachão,
mantinha-se perto do hipno André Noir. Wuriu Sengu, o espia japonês,
caminhava ao lado do localizador Fellmer Lloyd. John Marshall ia na
retaguarda. Rhodan, Gucky e Bell caminhavam à frente do grupo, em
direção à periferia do campo de pouso, onde se encontravam os
edifícios da administração, que encobriam a cidade propriamente
dita.
Não se
via ninguém. Vez por outra uma sombra se movia atrás das janelas
fechadas, mas nada aconteceu. Fellmer Lloyd, que não lia
propriamente os pensamentos, mas os analisava, disse:
— Entre
os saltadores reina uma atmosfera de incerteza e tensão. Não sabem
o que significa nossa visita. Nem pensam em resistir. Têm um
respeito tremendo pelo regente. Até parece que alguém já lhes deu
uma lição.
— Isso é
muito bom para nós — disse Rhodan em tom de satisfação. —
Assim as coisas serão mais fáceis. A lembrança os tornará
cautelosos e dóceis.
— Terei
muito prazer em ajudá-los a recordarem-se, se necessário — disse
Gucky.
Já se
encontravam próximos ao maior dos edifícios, cuja altura era
espantosamente reduzida. Bastava subir dois ou três degraus para
atingir a entrada principal, que estava bem aberta.
Rhodan
olhou em torno.
— Tschubai,
Noir, Sengu, Lloyd e Gucky, vocês esperarão aqui. Marshall, Bell e
eu iremos sozinhos. Se precisar de auxílio, Marshall enviará uma
mensagem telepática. Quando isso acontecer, vocês virão
imediatamente.
Prosseguiu
sem aguardar resposta. Bell e Marshall, os únicos que traziam uma
arma, seguiram-no.
O corredor
largo e profusamente iluminado estava vazio. De ambos os lados havia
portas. Marshall não teve a menor dificuldade em descobrir a porta
que procuravam.
— Os
saltadores estão atrás desta — cochichou. — Não sabem onde
estamos. Neste momento, estão pensando nas desculpas que podem
apresentar. Andam com a consciência bastante pesada, talvez até por
causa desse assunto do goniômetro.
— Não
demoraremos em saber — respondeu Rhodan em voz baixa. — Vamos
fazer-lhes uma visita informal. Bell, abra-a.
Num gesto
instintivo, Bell pôs a mão no lugar do cinto em que costumava ficar
o radiador. Mas levantou o ombro num gesto de resignação e
adiantou-se. Girou calmamente o botão embutido na porta e
escancarou-a.
Quando
entrou, Rhodan e Marshall seguiram-no de perto.
— Bom
dia, cavalheiros — disse em arcônida. — Permitem que lhes
façamos uma visita?
Seis ou
sete homens fitaram os intrusos com os olhos arregalados. Todos eles
usavam barba mais ou menos aparada, trajavam à paisana e traziam no
cinto os conhecidos radiadores portáteis. Estavam sentados em torno
de uma mesa redonda mas, ao verem-se surpreendidos dessa maneira,
levantaram-se de um salto.
— O que
é isso? — perguntou um deles. — Como conseguiram encontrar-nos
tão depressa? Quanto ao mais, seguimos estritamente as ordens que
recebemos. Nossas naves estão paradas lá fora...
— E daí?
— disse Rhodan, deixando que Marshall lhe desse cobertura. —
Alguém afirmou o contrário? Será que é a voz da consciência
pouco tranqüila que está falando por você?
Um dos
gigantes ruivos levantou-se lentamente e caminhou na direção de
Rhodan. Parou à frente dele e mediu o pretenso inspetor com um olhar
orgulhoso.
— Somos
súditos do Império e não fazemos nada que não seja permitido. Não
o conheço e nunca o vi, mas se não resolver usar outro tom, talvez
venhamos a conhecer-nos muito bem.
— Para
mim seria um prazer — disse Rhodan em tom amável, mas com um
timbre duro na voz. — Permite que pergunte o que estão fazendo em
Swoofon?
O ruivo
emitiu um suspiro de desprezo.
— O que
poderíamos fazer? Estamos negociando. Os swoons fabricam coisas
excelentes, que alcançam bom preço em todos os cantos da Galáxia.
Será que é crime comprar os produtos dos swoons e revendê-los em
outro lugar?
— Alguém
afirmou que é? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
O saltador
parecia confuso.
— É
claro que não, mas... Subitamente estacou, fitou Rhodan e
prosseguiu:
— Vamos
mostrar as cartas. O que deseja de nós? Qual é o motivo de todo o
alarma? Quem está procurando?
— Ah! —
disse Rhodan com um aceno da cabeça. — É assim que se fala. Acho
que deste jeito conseguiremos entender-nos logo. Já ouviu falar num
certo Berenak?
— Nunca!
A resposta
não surpreendeu Rhodan. Também este nunca ouvira o nome. Este lhe
surgira naquele instante.
— Quer
dizer que não conhece Berenak? Este indivíduo vem de um planeta
situado nas proximidades de Árcon. É descendente dos arcônidas e
dos saltadores, mas não se liga a ninguém. É um mestre na arte do
embuste e um criminoso. E é a pessoa que estamos procurando.
— O que
foi que ele fez?
— Seria
muito demorado contarmos todas as patifarias que andou cometendo.
Sabemos que está em Swoofon. O regente pediu-nos que o prendêssemos.
Qualquer dos senhores pode ser Berenak. Não será fácil
identificá-lo. É este o motivo das medidas que estamos tomando.
— Eu não
sou Berenak! — exclamou o ruivo. — Sou o patriarca Gol, um
honesto mercador.
— É
possível — respondeu Rhodan — mas resta provar sua afirmativa.
Por isso não tenho outra alternativa senão pedir-lhe que por
enquanto não saia daqui e siga minhas instruções. O senhor não
poderá deixar de reconhecer que não terá a menor chance contra
três couraçados espaciais do Império. Será que fui bastante
claro?
— É
claro que sim — disse Gol em tom amargurado e voltou a sentar. Ao
que parecia, não estava com vontade de prosseguir naquela discussão
inútil.
Marshall
estava sondando os pensamentos dos presentes. Não encontrou a menor
indicação sobre a construção do goniômetro de compensação.
Transmitiu a senha combinada a Rhodan.
— Não
os trancafiarei — disse Rhodan, enquanto caminhava para a porta. —
Mas peço-lhes que se considerem presos. Ninguém poderá sair deste
edifício. Qualquer pessoa que se opuser às ordens de Árcon, terá
de arcar com as conseqüências. E, conforme as circunstâncias,
essas conseqüências poderão ser bastante desagradáveis, Será que
me fiz entendido, cavalheiros?
Não
esboçaram o menor movimento enquanto Rhodan, Marshall e Bell se
retiravam. Havia uma expressão de cólera em seus olhos, mas por
enquanto não tinham a menor intenção de desobedecer às ordens de
Árcon.
Assim que
saíram ao corredor, Bell suspirou aliviado.
— Não
me senti muito bem enquanto estava lá dentro. Afinal, não sei ler
pensamentos. Não compreendo por que deixam que se faça qualquer
coisa com eles. Antigamente...
— Os
tempos estão mudados — explicou Rhodan. — Antigamente a ligação
entre os saltadores e Árcon não era tão estreita como hoje. Não
se atreverão a entrar em conflito com o robô regente. Ainda
acontece que realmente não têm a menor idéia do que viemos fazer
aqui. Têm a consciência relativamente tranqüila. Evidente que
andaram tapeando vergonhosamente os swoons, mas com isso nós não
temos nada a ver.
Revistaram
o edifício, encontraram mais uns cinqüenta comandantes saltadores e
comunicaram-lhes que não poderiam sair de Swoofon. Mas não acharam
o menor vestígio dos saltadores que projetavam a construção do
goniômetro.
Parecia
bruxaria.
Quando
Rhodan e seus companheiros saíram do edifício, os quatro mutantes
pareciam aliviados. Gucky estava sentado no chão, deixando que os
raios de sol atingissem sua barriga. Até parecia um turista que
fazia questão de se deixar queimar pelo sol.
Antes que
Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se um silvo agudo, que
logo se transformou num rumorejar surdo. Por alguns segundos uma
sombra passou pelo amplo campo de pouso. Finalmente a gigantesca
esfera espacial pousou bem no centro do triângulo formado pelas
naves de Rhodan.
Talamon
acabara de chegar.
Com os
recursos de que dispunha, Rhodan poderia conquistar metade da Via
Láctea, quanto mais o inofensivo planeta de Swoofon. Era um absurdo
que forçosamente deixaria o regente perplexo.
Da Drusus,
David Stern colocou Perry em comunicação com Talamon.
— Olá,
Talamon! O senhor veio depressa.
— O
regente mandou que me apressasse. Onde é que a coisa está pegando
fogo?
— Desta
vez é em Swoofon, Talamon.
— Será
que por causa disso precisou chamar uma frota inteira? Não dispõe
de três couraçados invencíveis? O que é que está temendo,
Rhodan? Não venha me dizer que são os swoons!
Rhodan
continuava a sorrir, mas Talamon não podia vê-lo.
— Às
vezes uma cautela excessiva não é medo, velho companheiro de lutas.
De qualquer maneira, quero transmitir-lhe as instruções que deverá
seguir. O sistema de Swaft será fechado hermeticamente. Nenhuma nave
poderá entrar ou sair. Isso é muito importante. Swoofon deve ser
isolado, a fim de que disponha do tempo necessário e sossego para
examinar um por um os saltadores que estão aqui. Nem mesmo um rato
deve escapar. Acho que fui suficientemente claro, não fui, Talamon?
— É
claro que foi. Será que poderia saber...?
— Estamos
procurando alguém — disse Rhodan em tom lacônico, dando a
entender que não desejava dizer mais que isso. Talamon conhecia-o
bastante bem para não insistir.
— Está
bem, Rhodan. Você é o chefe. Oportunamente poderemos conversar
sobre a necessidade de certas medidas, desde que não tenha qualquer
objeção. Na minha opinião sua cautela foi exagerada.
Rhodan
esperou mais um pouco, mas o minúsculo alto-falante permaneceu em
silêncio.
— Ninguém
consegue cumprir ordens sem formular perguntas supérfluas —
constatou. — Não fico zangado por Talamon ter agido dessa forma.
Mas, dentro de pouco tempo, o robô regente de Árcon participará do
seminário de perguntas. Quando isso acontecer, as coisas começarão
a ficar críticas.
— Deixe
este montão de lata por minha conta — sugeriu Gucky.
Rhodan
lançou um olhar pensativo para a nave de Talamon; não respondeu à
sugestão que Gucky acabara de formular.
Começava
a admirar-se por ter o regente — o maior computador positrônico da
Galáxia — enviado a frota por ele solicitada. Será que
continuaria a cumprir o que haviam combinado? Estaria sendo sincero?
Rhodan tinha suas dúvidas.
— Vamos
andando — disse depois de algum tempo. — Precisamos iniciar nosso
trabalho. Quanto a você, Gucky, desta vez poderá dar vazão à sua
ânsia de agir. Você, Kulman e Sengu procurarão, e terão de
encontrar as instalações subterrâneas em que deverá ser fabricado
o goniômetro de compensação.
— Com
muito prazer — disse Gucky com a indiferença de quem acaba de
receber ordem para comprar cinco pãezinhos na padaria da esquina.
2
Swatran
ficava quase exatamente no equador. O dia de Swoofon durava cerca de
dezoito horas terranas. Portanto, o sol brilhava durante nove horas,
enquanto durante as nove horas restantes reinava uma escuridão
completa.
Era
meia-noite.
Gucky,
Wuriu Sengu e Jost Kulman estavam de pé na praça principal da
capital e tomaram cuidado para não tropeçarem nos automóveis
estacionados. Não foi muito difícil, pois os homens-pepino
fabricavam veículos que mediam até um metro de comprimento.
Acontece que os haviam estacionado sem luzes, em plena praça, no
lugar exato em que Gucky e os dois homens deveriam iniciar suas
investigações.
— Aqui é
muito quieto — disse o japonês com a voz insegura. — Será que
os swoons não têm vida noturna?
— Não —
disse Kulman. — Os swoons gostam de dormir.
— Os que
vivem no subsolo também? — perguntou Gucky.
— Também
— confirmou Kulman, o agente que passara uma boa temporada em
Swoofon, por ordem do Império Solar. — Apreciam um estilo de vida
simples e tranqüilo.
— Fazem
bem — disse Gucky em tom de admiração. — Estão satisfeitos com
aquilo que conseguiram, sentem-se bem, têm seu orgulho e sua
ambição, mas não exageram. Quase chego a ter inveja deles.
— De
certa forma a gente poderia invejá-los — concordou Kulman, olhando
em torno. Até mesmo seus olhos possantes mal conseguiram romper a
escuridão. — Estão vendo alguma coisa?
Wuriu
Sengu deu de ombros.
— Sou
capaz de penetrar com minha visão em qualquer estrutura molecular e
ver o que está atrás dela, mas no escuro minha vista também falha.
Vejo os swoons deitados em suas camas, mas a visão é pouco nítida.
O que vamos fazer?
Gucky
segurou os dois homens pelos braços.
— Para
que servem os amigos? Vamos começar pela face diurna. Terei muito
prazer em levar duas meias porções como vocês.
Acontece
que as meias porções eram homens adultos, que tinham ao menos o
dobro do peso do rato-castor. Mas este conseguia carregar até dez
vezes seu peso quando se tornasse necessário levar alguém num salto
de teleportação.
Houve um
ligeiro tremeluzir, que não foi visto por ninguém. Logo após isso,
a praça principal estava vazia, com exceção dos automóveis
estacionados.
Materializaram-se
a milhares de quilômetros dali, no mesmo continente, um pouco ao
norte do equador. Kulman já lhes havia contado que a vida se
concentrava principalmente nas zonas contíguas à linha equatorial,
visto que as outras zonas eram muito frias.
Viram-se
no centro de uma grande planície, limitada ao norte pelas montanhas
e ao sul pelo oceano. Ao leste e ao oeste avistava-se um grupo de
colinas onduladas, que parecia não ter fim.
Não se
via o menor sinal de cidade ou povoação.
— É uma
região abandonada — disse Gucky, contemplando o céu azul, cuja
cor quase chegava ao violeta. — O que estamos fazendo aqui?
— O
lugar não é tão solitário — respondeu Kulman, apontando para o
solo pedregoso. — Por aqui os swoons vivem embaixo da terra. Não
sei qual é a profundidade em que ficam suas cidades subterrâneas,
mas acho que não demoraremos em descobrir. Se todas as fábricas são
subterrâneas, aquela que se destina à fabricação do goniômetro
também deve ser.
Wuriu
Sengu concentrou-se e recorreu às suas faculdades. Subitamente seus
olhos adquiriram uma estranha rigidez, enquanto fitavam o solo.
Depois de algum tempo um certo espanto desenhou-se em seu rosto.
Começou a falar. Kulman e Gucky ouviram-no, muito ansiosos.
— Há
uma cidade, sob nossos pés. Fica a uns cinqüenta metros de
profundidade e foi construída num só nível. Mais embaixo da rocha
natural há outra cidade, situada vinte metros abaixo da primeira.
Não; não é uma cidade, mas uma gigantesca fábrica. São
gigantescos pavilhões cheios de máquinas nas quais trabalham
milhares de swoons. Meu Deus, como são pequenos!

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