quinta-feira, 28 de março de 2013

P-063 - Os Microtécnicos - Clark Darlton[parte 1]


Autor 
CLARK DARLTON



Tradução 
RICHARD PAUL NETO



Digitalização e Revisão 
ARLINDO_SAN

Os pepinos eram microtécnicos —  
e Gucky ficou encantado...


Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu.
E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante...
A luta contra o invisível está por momentos suspensa...
Rhodan descobriu que o robô regente havia traído o acordo... Drog, o saltador, está em Swoofon — planeta dos microtécnicos — a fim de que Markas construa um goniômetro de compensação, que capte as freqüências do compensador estrutural...





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.

Reginald Bell — Amigo inseparável de Perry.

Jost Kulman — Mutante; micrótico.

Gucky — Rato-castor; mutante de três poderes.

Waff — Engenheiro swoon.

Markas — Cientista; também swoon.

Drog — Saltador que trabalha para Árcon.
1



Gucky estava furioso.
O fato de ter sido enganado por Muzel, um pseudo cão bassê, que na verdade era um espião robotizado do regente de Árcon, revoltava-o até os últimos recônditos de sua alma de rato-castor.
O culpado foi você — repetiu Bell pela décima vez, reprimindo a custo o riso zombeteiro, o que não lhe adiantava muito, já que Gucky, telepata, sabia ler seus pensamentos mais recônditos. — Eu o preveni muitas vezes. Ninguém pode confiar num bassê.
Será que um bassê não é um cachorro? — perguntou Gucky em tom zangado, já que tinha uma afeição toda especial por esses quadrúpedes do planeta Terra. — São as criaturas mais fiéis, adoráveis e encantadoras que...
Com exceção de Muzel! — interveio Bell.
Nunca deveria ter dito isso, pois além do mais o rato-castor era um telecineta, sem falar no dom da teleportação que a natureza lhe conferira.
Antes que percebesse qualquer coisa, Bell perdeu o apoio dos pés e levantou-se do soalho metálico da Drusus. Aparentemente subtraído aos efeitos da gravidade, planou em direção à porta fechada do camarote. Uma mão invisível abriu-a, e Bell viu-se no corredor. Agitou desesperada-mente os braços e as pernas, mas uma triste experiência já lhe ensinara que isso não adiantava nada. As energias telecinéticas de Gucky prendiam-no inexoravelmente.
Eu lhe mostro uma coisa! — gritou o rato-castor em tom furioso. — Seu hipócrita! Fica fingindo que está com pena de mim, enquanto por dentro quase estoura de alegria pelo que me aconteceu. Sua bolota de gordura de cabelos ruivos!
Para dizer a verdade, esta última observação era um tanto exagerada. Era bem verdade que Bell, amigo e representante de Rhodan, era baixo e robusto, mas dificilmente poderia ser chamado de gordo ou disforme. Era bem verdade que sua cabeça estava coberta de cabelos ruivos cortados à escovinha.
Eu conto a Rhodan! — berrou Bell, mas Gucky limitou-se a rir.
Conte se puder, seu gorducho!
Uma pessoa que não conhecesse as duas criaturas provavelmente sofreria um colapso caso se encontrasse com a estranha dupla. Bell voava, leve que nem uma pena, e deslocava-se, desviando-se habilmente de todos os obstáculos que surgiam à sua frente. Embaixo dele o rato-castor, que não media mais de um metro, caminhava a passos bamboleantes, com as orelhas de pé. Os lábios se retraíram um pouco, deixando à mostra o dente roedor, que refletia as luzes embutidas nas paredes. A larga cauda de castor ajudava Gucky a manter o equilíbrio e ajudar as pernas curtas, não muito seguras.
Felizmente não se encontraram com ninguém.
O rato-castor assustou-se quando, no corredor, viu alguém que parou ao ver o homem voador. Colocou-o no chão de modo pouco suave. Por pouco Bell não cai, mas o homem aproximou-se e segurou-o pelo braço.
Por quê? — limitou-se a perguntar.
Bell teve oportunidade de desabafar.
Lançou um olhar zombeteiro para Gucky, que já não sorria, mas parecia um tanto embaraçado, e principiou:
Este bichinho nojento achou que estava na hora de dar uma demonstração de força. Entrei em seu camarote sem pensar em nada e, quando dei conta de mim, estava no teto e...
É verdade? — perguntou o homem, fitando o rato-castor com seus olhos frios e cinzentos. — Ou será que está mentindo?
Gucky acenou vigorosamente com a cabeça.
É claro que está mentindo, chefe. Você, que é telepata, deveria saber. Ele me ofendeu e não me deixava em paz.
Perry Rhodan passou os olhos de um para outro.
Então, Bell? Tem mais alguma coisa a dizer?
A gente nem pode brincar com este sujeito — disse Bell em tom zangado, ajeitando o uniforme. — Este perna mole nunca admitiu a menor brincadeira.
Seu monte de gordura! — retrucou Gucky em tom agudo.
Rhodan levantou a mão.
Se vocês não pararem de brigar, eu os deixarei em casa — disse. — Não preciso de colaboradores que vivem brigando.
Uma expressão que parecia um misto de tensão e curiosidade surgiu no rosto de Bell e nos olhos de Gucky.
Algo está para acontecer? — perguntou Bell. Fez um esforço e colocou a mão no ombro do rato-castor. — Nós não brigamos, não é verdade, Gucky?
É claro que não — chilreou Gucky com um olhar de inocência, cruzando as patas dianteiras sobre o peito; parecia a inocência personificada. — Só brincamos um pouco...
Está bem — disse Rhodan. — Então vocês estavam brincando; excelente. Quer dizer que as divergências chegaram ao fim?
Sem dúvida — afirmou Bell. — Você não disse que tinha uma coisa importante para comunicar?
Disse mesmo? — perguntou Rhodan em tom de espanto. — O que será?
Bell soltou um suspiro.
Está bem; desisto. Vamos embora, Gucky. Ainda não precisa de nós.
Um momento! — disse Rhodan. — Antes que resolvam continuar com a brincadeira, gostaria de comunicar-lhes que, dentro de meia hora, Jost Kulman prosseguirá em sua exposição. Ainda não teve tempo de oferecer um relato completo do que aconteceu em Swoofon.
Daqui a meia hora? — perguntou Bell em tom animado. — Não deixarei de comparecer. Onde será?
No meu camarote. Resolvi ser mais cauteloso. Quem sabe se o regente não introduziu mais alguns espiões a bordo?
Rhodan afastou-se com um ligeiro cumprimento. Bell e Gucky seguiram-no com os olhos, até que desaparecesse atrás da primeira curva do corredor.
Hum — fez o rato-castor e lançou um olhar pensativo para o teto.
Bell levou um susto.
Vamos fazer as pazes — disse, acariciando a nuca de Gucky. — Não tive a intenção de magoá-lo.
O dente roedor de Gucky voltou a aparecer, o que numa situação como esta era um bom sinal.
Está bem, gorducho. Vamos fazer as pazes. É bem verdade que você me priva do prazer de levá-lo a um dos hangares e mostrar-lhe como se voa. Paciência; fica para outra oportunidade.
Vamos depressa! — disse Bell e enlaçou o corpo do rato-castor. — Já imaginou a cara de Rhodan, quando descobrir que chegamos antes dele?
Gucky sorriu. Concentrou-se sobre o pequeno salto e desmaterializou-se juntamente com Bell.
Houve um tremeluzir no ar, e os dois desapareceram, para reaparecerem no mesmo instante em outro lugar da gigantesca nave esférica.
Quando Rhodan entrou, já estavam sentados em seu sofá e o fitavam com os olhos mais inocentes deste mundo.

* * *

Jost Kulman pertencia ao destacamento especial de Rhodan, cujos membros eram conhecidos pela designação de agentes cósmicos. Esses agentes, que na maioria eram mutantes dotados de faculdades especiais, viviam nos mundos mais importantes do Império Arcônida e mantinham contato permanente pelo hiper-rádio com a central situada na Terra. Dessa forma, Rhodan era informado sobre qualquer acontecimento importante que se verificasse na Galáxia.
Kulman era micrótico. Sabia modificar conscientemente a focalização dos globos oculares, o que lhe permitia enxergar objetos que para outras pessoas só se tornariam perceptíveis por meio do microscópio. Graças a essa faculdade havia sido destacado para trabalhar em Swoofon.
É que em Swoofon viviam os swoons, que eram os melhores microtécnicos do Universo.
Sentado numa poltrona, Kulman enfrentou o olhar de Rhodan com um embaraço indisfarçável.
Sei que tem toda razão de acusar-me — disse em tom constrito. — Afinal, fui eu quem trouxe Muzel para bordo da Drusus. Por pouco esse cachorro robotizado não revela ao regente a posição da Terra.
O fato é que não revelou — disse Rhodan, dando a entender que para ele o caso Muzel estava liquidado. — Você não teve culpa. Isso poderia ter acontecido a qualquer pessoa. Até mesmo o Exército de Mutantes se deixou enganar pela imitação de um bassê. Até Gucky!
O rato-castor estremeceu. Lançou um ligeiro olhar para Bell, que estava sentado a seu lado, esboçou um sorriso embaraçado e ficou quieto.
Ao que parecia, Jost Kulman não havia percebido o interlúdio.
Expedi a mensagem pois a situação o exigia — disse, dando início à exposição que era aguardada com grande ansiedade.
Vieram buscar-me, conforme o combinado. Infelizmente esta exposição detalhada sofreu certo atraso porque Muzel...
Depois de um silêncio de embaraço prosseguiu:
Os swoons receberam ordem de construir um goniômetro de compensação para naves espaciais, cujas características fundamentais já são conhecidas.
Rhodan inclinou-se para a frente e fitou o agente. O sorriso desapareceu de seu rosto, como se alguém o tivesse apagado.
O que vem a ser isso?
Kulman respondeu em tom embaraçado.
Fui eu que batizei o aparelho, e o nome que lhe dei dá uma idéia de sua finalidade. Os mercadores expediram a ordem de construção e forneceram os respectivos planos. O goniômetro de compensação tornará impossível a realização de qualquer hipersalto secreto. Como vê, os fatos por mim observados são muito importantes...
Se são! — confirmou Rhodan, que não parecia muito satisfeito. — Descobriu outros detalhes?
Kulman resolveu apresentar um relato minucioso.
Conforme já é do seu conhecimento, o compensador foi criado pelos saltadores. Com o aparelho evita-se a localização de uma nave que entre em transição e volte a materializar-se. Assim os rastreadores estruturais praticamente se tornaram inúteis. Mas, quando o goniômetro de compensação for produzido em série, não haverá mais segredos. Qualquer nave poderá ser localizada por meio da goniometria, quer utilize um compensador, quer deixe de utilizá-lo. Com isso, dentro em breve, a posição da Terra deixaria de ser um segredo.
Isto é mau! — disse Bell, olhando para Crest, cuja figura magra se mantinha imóvel na poltrona. — Ainda chegará o dia em que olharão para dentro das nossas panelas.
Prossiga, Kulman — disse Rhodan. — Até que ponto chegaram os preparativos para a construção do aparelho?
Felizmente ainda não foi iniciado. Os planos chegaram há pouco tempo. Ainda estão sendo examinados, mas a construção das respectivas fábricas já foi iniciada. Ao que parece, o goniômetro será desde logo fabricado em série.
Temos de evitar isso, custe o que custar — disse Rhodan em tom enérgico. — Tem alguma idéia sobre o funcionamento desse goniômetro?
Sim senhor, tenho uma ligeira idéia. O goniômetro de compensação capta as freqüências do compensador estrutural, mesmo que o abalo da estrutura espaço-temporal não possa ser detectado. Quer dizer que esse goniômetro localiza o compensador, assim que seja ligado. Transmite ondas específicas, que podem ser captadas no espaço de cinco dimensões. Foi só o que consegui descobrir.
Acho que basta — respondeu Rhodan. — Conhece a posição aproximada da futura fábrica?
Conheço. Não fizeram muito mistério em torno disso, embora o computador-regente me tivesse reconhecido como agente, conforme prova a história de Muzel. Do contrário não teria colocado um espião no meu encalço.
É verdade — admitiu Rhodan. — Muzel provou outra coisa. Não acha, Crest?
O arcônida, ao qual Rhodan devia muita coisa, confirmou com um gesto.
É verdade, Perry. Refere-se à sinceridade do regente. O incidente com Muzel provou que o computador de Árcon nem pensa em agir honestamente conosco. Foi programado de maneira a sempre fazer o possível para alcançar a primazia sobre qualquer ser orgânico, até que os arcônidas recuperem um grau de agilidade mental que lhes permita assumir o controle do Império. A aliança com o homem só pode visar a esta finalidade específica, e nunca terá em vista uma verdadeira sociedade.
Ao que parece, os invisíveis que lançam seus ataques do nada e despovoam planetas inteiros são inimigos que o regente não pode enfrentar exclusivamente com as próprias forças. Por isso, fez uma aliança conosco, a fim de vencer o misterioso inimigo. Entretanto não conseguimos; os seres invisíveis podem espreitar-nos em qualquer lugar e a qualquer momento. Apesar disso, porém, o regente já nos traiu, procurando descobrir a posição da Terra. Assim provou que tem a intenção de, uma vez destruído o inimigo invisível, romper a aliança com a Terra e subjugar nosso planeta.”
Rhodan fez um gesto afirmativo.
O senhor está exprimindo exatamente o que eu penso, Crest. Acontece que o regente está enganado. Em Swoofon teremos oportunidade de matar dois coelhos de uma cajadada. Destruiremos os planos de construção do goniômetro de compensação e mostraremos ao regente que desmascaramos suas tramas. Se não modificar seu procedimento, cancelaremos o acordo. Nesse caso, terá de descobrir um meio de livrar-se dos invisíveis que ameaçam despovoar seu Império.
Crest sacudiu ligeiramente a cabeça.
Na minha opinião não devemos destruir os planos, Perry. Não poderemos evitar a construção do aparelho; se não for produzido hoje, em Swoofon, poderá sê-lo amanhã, em outro lugar. Ninguém consegue evitar o desenvolvimento da tecnologia. O senhor conhece a velha lei: Primeiro surge a arma de ataque, depois a de defesa. Após isso surge outra invenção que torna inútil esta última. O goniômetro deve ser construído! Apenas, devemos criar alguma coisa que o torne inútil assim que entre em uso. Para isso precisamos apenas dos planos de construção do aparelho. Se Kulman pudesse dizer-nos onde encontrá-los...
Rhodan voltou a sorrir. Parecia muito confiante.
Obrigado, Crest. O senhor acaba de traçar as linhas gerais do plano que teremos de executar. Kulman, prossiga na exposição. Conte como são as coisas em Swoofon, o que se anda fazendo por lá, como vivem seus habitantes e qual é sua atitude face ao Império. Qualquer detalhe pode ser importante, por mais insignificante que pareça.
O compensador estrutural”, pensou Rhodan enquanto Kulman principiava a falar, “é a arma de defesa mais importante que possuímos. Se for posto fora de ação, nossa situação se tornará crítica. Nosso ponto forte consiste justamente no fato de ninguém saber onde fica a Terra. Na imensidão do Universo, nosso planeta não passa de uma partícula de pó. E essa partícula de pó não será encontrada.
Depois voltou a dedicar sua atenção à exposição de Kulman.
...os habitantes são conhecidos como os swoons. Vivem exclusivamente no segundo planeta do sol Swaft, a novecentos e noventa e dois anos-luz da Terra. O sistema tem três planetas, mas só o segundo deles é habitado. É um mundo de oxigênio, a superfície é desértica, não existe qualquer vegetação digna de nota, a gravitação corresponde a um quarto da terrana. A percentagem de oxigênio da atmosfera de Swoofon é bastante reduzida; mal e mal é suficiente para que um ser humano possa viver nesse planeta sem usar uma máscara de respiração.
Por que os swoons são considerados os técnicos mais competentes do Universo? — perguntou Bell.
São mecânicos de precisão! — disse Kulman em tom enfático. — Seus olhos são semelhantes aos meus: enxergam coisas que qualquer outro ser só conseguiria ver através de um microscópio. Além disso, suas mãos são extremamente hábeis. Sabem moldar um objeto do tamanho de um grão de areia sem necessitarem de qualquer instrumento ótico. Aliás, não são grandes; medem no máximo trinta centímetros.
O que tem trinta centímetros? — perguntou Bell. — As mãos deles?
Os próprios swoons — explicou Kulman em tom condescendente. Lembrou-se de que até então mal tivera tempo para falar a este respeito. — Os habitantes do planeta Swoofon são muito pequenos. Têm trinta centímetros de altura, são muito “finos” e podem ser tudo, menos humanóides. Até parecem pepinos com dois pequenos pés. Na parte superior do corpo têm quatro braços, nos quais se encontram as mãos extremamente hábeis.
Bell sacudiu a cabeça.
Não é possível! Não venha me dizer que existem pepinos que fabricam relógios!
Eles fabricam muito mais que isso! — disse Kulman num tom que revelava certa reverência. — Quando conhecer os swoons, o senhor saberá admirá-los.
Nunca gostei muito de pepino — disse Bell.
Lançou um olhar para Gucky. Ao que parecia, esperava receber o apoio do rato-castor, mas teve uma amarga decepção.
Acredito que os swoons poderão ser meus amigos — disse Gucky com a maior tranqüilidade. — Os preconceitos que Bell costuma manter não são meu fraco.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Você tem razão, mas não acredito que Bell estivesse falando sério. Do contrário não poderia levá-lo para Swoofon.
Quer dizer que vamos...?
Rhodan fitou Bell.
Vamos, sim; e hoje mesmo.
Viva! — gritou Gucky e levantou-se para caminhar em direção à porta. — Vou cuidar da minha aparência. Vamos pousar no planeta em caráter oficial?
Acredito que sim, Gucky. Por que está tão interessado em cuidar da aparência?
Afinal, teremos férias na terra dos pepinos; é uma oportunidade toda especial, e não quero fazer feio.
Desapareceu sem abrir a porta. Bell fitou o lugar em que Gucky se encontrara há poucos segundos.
São seus instintos que estão levando a melhor — disse em tom de oráculo. — Tomara que não confunda esses técnicos pepinos com cenouras. As conseqüências seriam desastrosas.
Kulman olhou-o como quem não entende nada, mas Bell achou que não seria necessário explicar ao agente que Gucky tinha uma predileção toda especial pelas cenouras frescas.
Rhodan continuou sentado.
Kulman, acho que seria conveniente que você nos fornecesse mais alguns detalhes. Estou interessado em saber, por exemplo, onde fica a Embaixada de Árcon, quais são os contingentes de tropas de que pode dispor o administrador, qual é o sistema administrativo, etc.
Kulman prosseguiu na exposição.
Dali a dez minutos, Bell levantou-se cautelosamente e saiu do camarote.
Não estava interessado naquilo. Havia outras coisas que lhe despertavam um interesse muito maior. Por exemplo, o Primeiro-Tenente Sikermann, que se encontrava na sala de comando. O imediato do couraçado espacial Drusus tornara-se seu amigo, fato que talvez tivesse sua origem numa certa afinidade de gênios.
Baldur Sikermann, um homem baixo, robusto e de cabelos escuros, estava sentado na poltrona do piloto, tendo à sua frente os controles da Drusus, uma nave esférica de mil e quinhentos metros de diâmetro. Como imediato, na ausência de Bell e Rhodan, cabia-lhe comandar a tripulação de dois mil homens, sem a qual a nave não poderia desenvolver integralmente o seu potencial.
Olá, Sikermann — disse Bell ao entrar na sala de comando e perceber que tudo estava em perfeita ordem. — Está aborrecido?
Nas telas via-se uma profusão de estrelas desconhecidas. Encontravam-se num setor inexplorado de sua galáxia, a Via Láctea.
Sikermann virou-se lentamente e fitou Bell como se nunca o tivesse visto.
Até agora não tive tempo de aborrecer-me — disse com a voz tranqüila.
Bell lançou um ligeiro olhar para o Capitão Rodes Aurin, um homem grisalho que desempenhava as funções de oficial de armamentos da Drusus, mas este parecia estar tão ocupado com seus catálogos que nem ouvira a observação que acabara de ser feita.
Seu tédio logo será espantado, Sikermann — profetizou. — Dentro de poucas horas, acontecerá alguma coisa. Já engraxou o motor estelar?
Sikermann encolheu-se.
O senhor usa cada expressão! — constatou, e voltou a dedicar sua atenção aos controles, para ligar as telas de localização.
Estou falando sério: acho que a coisa vai começar — disse Bell.
O que vai começar?
O espetáculo com os swoons, os homens-pepino; não sei se o senhor compreende. Os mecânicos de precisão.
Não compreendo uma palavra do que está dizendo.
Ora, não seja tão obtuso. Neste momento, Kulman está apresentando sua exposição. Dirigir-nos-emos a Swoofon para fazer uma visita aos habitantes do planeta. Estão construindo um goniômetro de compensação capaz de localizar qualquer hiper-salto, mesmo que o compensador estrutural esteja ligado.
Caramba! — disse Sikermann.
Bell sorriu.
Não se preocupe; saberemos estragar a festa deles. É bem verdade que os homens-pepino são gente muito distinta; não lhes devemos fazer nada.
O que vêm a ser os tais homens-pepino?
Bell explicou e acrescentou:
Realmente estou curioso para vê-los. Pelo que diz Kulman, são realmente encantadores, à sua maneira. Dizem que seus olhos lhes permitem remover uma verruga numa pulga.
As verrugas? — perguntou Sikermann em tom de espanto. — Será que todo mundo ficou louco?
Quem? As verrugas? — perguntou Bell.
Sikermann não respondeu. Parecia desejar esquecer a presença de Bell. Passou a fitar as telas, nas quais não se via nada.
Verrugas! Pepinos! — disse para si mesmo, sacudindo a cabeça. — Rosita Peres poderá cuidar deles.
Rosita Peres era a cosmopsicóloga da Drusus.
Bell riu e foi caminhando em direção à porta que dava para a sala de rádio. Comprimiu um botão e abriu-a. David Stern, que estava de plantão, virou-se quando ouviu Bell entrar.
Tudo em ordem — anunciou. — Não há localizações nem mensagens.
Bell agradeceu em tom indiferente e encostou-se ao armário de instrumentos.
Procure descansar um pouco. Dentro em breve terá muito que fazer.
David Stern era tenente e um dos oficiais de rádio mais competentes da Drusus. Vinha de Israel, era de estatura mediana, tinha cabelos escuros e demonstrava a agilidade de um gato-selvagem.
Alguma missão? — perguntou em tom discreto.
E que missão! Será a guerra dos pepinos.
Hem! — admirou-se David Stern, respirando com dificuldade. — O que foi que o senhor disse?
Disse que será a guerra dos pepinos. É bom que saiba que os habitantes de Swoofon são pepinos. Vamos tirar-lhes alguma coisa.
Ah, sim — disse Stern, sem entender uma única palavra do que o outro dizia. — Vamos tirar-lhes alguma coisa... Onde e quando?
Não acredita nos pepinos? — perguntou Bell com um leve tom de ameaça na voz. — O agente Kulman nunca mentiu. Não se atreveria a tanto.
Acontece que foi ele quem trouxe Muzel para bordo — ponderou Stern.
Bell pôs-se a rir.
Ah, sim; Muzel! Isso me dá uma idéia. Até logo mais, Stern; tenho que liquidar um assunto. A bordo desta nave existe uma criatura que brincava durante horas a fio com esse cão robotizado, enquanto eu fiquei em disponibilidade.
Será Gucky? — perguntou Stern quando Bell já se afastava apressadamente. — O pequeno rato-castor...
Sim, é este mesmo. Quero fazer um pouco de gozação com ele.
E foi assim que Bell ainda teve de tomar, a contragosto, uma aula de vôo. Os oficiais e tripulantes que se encontravam presentes divertiram-se a valer quando o viram planar no grande hangar, junto ao teto alto. Deu alguns saltos, fez vários loopings, xingava a valer e pedia socorro. Por vezes ria ou se lamentava. Os espectadores ficaram tremendamente admirados.
Desta vez Gucky, que conduzia Bell por meio de suas energias telecinéticas, mostrou-se implacável.
Não fez por menos: Bell teve que voar durante uma hora.

* * *

Recorrendo aos compensadores estruturais, ainda eficazes, a Drusus deu dois saltos em direção ao sistema de Swaft. Depois os compensadores foram desligados. As duas transições que se seguiram foram realizadas sem o menor disfarce. Qualquer rastreador estrutural dos arcônidas seria rapaz de localizar os dois saltos, mas não proporcionaria qualquer esclarecimento sobre o ponto de partida da nave.
O sol Swaft era aproximadamente do mesmo tamanho e irradiava calor idêntico ao do sol terrano. No entanto, ninguém sabia explicar por que no planeta Swoofon não se havia desenvolvido praticamente nenhuma vegetação. Havia água, rochas e terra em boa quantidade. Além disso, existia areia de sobra. Mas quase não se via nenhuma planta.
Aproximadamente metade dos swoons vivia nas cidadezinhas existentes na superfície de Swoofon, enquanto a outra metade preferira abrigar-se sob a superfície. Kulman conseguira descobrir que existiam swoons que se haviam aliado aos saltadores, e estavam dispostos a construir o goniômetro de compensação para os mesmos. Eram principalmente os swoons que viviam no subsolo.
O pouso de uma nave não constituía nenhuma sensação nova para os swoons, embora para eles estas deveriam ser enormes e possantes. Geralmente eram os saltadores ou mercadores galácticos que visitavam Swoofon, trocavam suas mercadorias e traziam artigos de uso muito apreciados. Não chegavam a ser considerados amigos, mas eram negociantes bem-vindos.
Dessa forma, Swoofon pertencia ao Império Arcônida, e era nesse fato que se baseava o plano de Rhodan.
No momento em que Swoofon surgiu nas telas da Drusus, e esta penetrava no sistema, desenvolvendo a velocidade da luz, Rhodan distribuiu os papéis.
Tenente Rous, pegue a K-13 e voe à Terra com o compensador ligado. Vá buscar a Titan e a General Pounder com a tripulação completa. Seria arriscado demais expedir uma mensagem de rádio. Assim que as duas naves chegarem, faremos uma visita empolgante a Swoofon, isso por ordem do regente de Árcon.
Hum — fez Crest em tom cético. — Será que isso não é muito arriscado?
De forma alguma. Estou agindo oficialmente nos termos do acordo que fiz com Árcon. Não haverá motivo para suspeitas. Comunicarei ao regente, se este o desejar, que Swoofon está prestes a ser invadido pelos invisíveis. Não temos necessidade de dizer-lhe como descobrimos isso. Sabemos, e basta! Estamos tomando as providências que estão ao nosso alcance. Quem poderá impedir-nos de agir assim?
Ninguém respondeu. Mas Atlan, que se mantinha num ponto mais afastado, falou:
Acho que não seria recomendável causarmos qualquer prejuízo aos swoons — disse em tom objetivo. — Como antigo psicólogo de colonização do Império afirmo que não devemos usar violência e...
Não tenho a intenção de prejudicar os swoons — interrompeu-o Rhodan em tom amável. — Apenas faremos um blefe com eles. A verdadeira finalidade da ação consistirá em encobrir a atuação dos agentes. O que pretendemos fazer é o seguinte: Kulman irá, juntamente com os mutantes apropriados, para junto dos swoons que deverão construir o goniômetro. Esse fato passará despercebido em meio à confusão geral causada por nossa aparição no planeta.
Talvez seja o procedimento mais recomendável — disse Atlan, o imortal.
O Tenente Marcel Rous adiantou-se.
Quando devo decolar?
Rhodan lançou um olhar sobre o calendário de bordo.
Dez de novembro de 2.040, treze horas, tempo terrano. Se tudo correr normalmente, poderá estar de volta dentro de duas horas, em companhia dos dois couraçados espaciais. Decole imediatamente e leve apenas metade da tripulação. Entendido?
Entendido — disse Rous e saiu da sala de comando.
Rhodan lançou-lhe um olhar pensativo e fez um sinal para John Marshall, chefe do Exército de Mutantes.
Compareça daqui a dez minutos ao meu camarote, para podermos discutir os detalhes de sua tarefa. Obrigado.
Dirigindo-se a Bell, disse:
Dê uma olhada na rouparia. O uniforme que usei para desempenhar o papel de inspetor arcônida ainda deve estar por lá. Talvez possa ser-nos útil.
Logo saberemos — disse Bell e retirou-se.
Baldur Sikermann, que estava sentado na poltrona do piloto, sem tirar os olhos dos controles, disse:
Não me diga que pretende pousar no planeta com a Drusus.
Pretendo pousar com as três naves — disse Rhodan em tom resoluto. — Os pequeninos swoons ficarão impressionados ao verem simultaneamente três esferas espaciais de um quilômetro e meio de diâmetro. Quanto maior a excitação, melhor para nós. Mais alguma pergunta?

* * *

Exatamente às quinze horas, tempo terrano, as naves Titan e General Pounder materializaram-se a pequena distância da Drusus. Rhodan sabia perfeitamente que iria praticar um ato absurdo e até ridículo. Só poderiam achar que era louco ou covarde, se utilizasse as três naves desse tipo para ocupar um planeta como Swoofon.
Acontece que Rhodan não se importava com o que os saltadores ou os arcônidas pensassem dele. Sabia perfeitamente o que estava fazendo.
Prosseguiu em direção a Swoofon à velocidade da luz e transmitiu ininterruptamente a seguinte mensagem:

Atenção! Dirijo-me à população do planeta Swoofon. O sistema de Swaft será bloqueado por ordem do Império. Nenhuma nave poderá sair de Swoofon sem licença especial. A partir deste momento, vigora uma proibição terminante de pousar ou decolar para todas as naves que se encontrem no sistema. A população deverá manter a calma.

Rhodan preferiu não citar seu nome. O regente de Árcon logo seria comunicado, e ficaria sem saber quais seriam as verdadeiras intenções de seu sócio do planeta Terra.
E era bom que fosse assim.
Um sorriso contrariado surgiu no rosto de Rhodan, quando Sikermann começou a desacelerar a Drusus, para que a mesma não penetrasse em velocidade muito elevada na atmosfera do planeta. A Titan e a General Pounder seguiram o exemplo.
De pé, ao lado de Rhodan, Kulman observava a manobra. Conhecia os swoons e sabia como orientar-se no planeta.
A capital é Swatran — disse, fitando a tela que refletia todos os detalhes da superfície do planeta. — A maior parte da cidade fica na superfície, especialmente o espaçoporto. Já os centros de produção ficam muito abaixo do nível do solo. O acesso aos mesmos só é possível através de minúsculos portões. Receio que nenhum de nós consiga entrar lá.
Aguardemos — disse Rhodan com a voz fria. — O senhor verá.
Kulman apontou para o ponto pouco nítido, situado uns duzentos quilômetros a leste da capital.
Foi aqui que eu fiquei. Em Swatran ninguém me conhece.
Devem ter ouvido falar de sua atuação — comentou Rhodan. — Acho que não precisará de uma apresentação formal. Naturalmente ficarão curiosos para saber como é que o senhor veio parar em minha nave, e por que volta em nossa companhia. Mas acredito que dificilmente encontraremos inimigos entre os swoons, pois eles não têm muita simpatia pelos saltadores.
Aguardemos — respondeu Kulman em tom seco.
Rhodan calou-se.
O espaçoporto havia sido construído pelos saltadores, que mantinham um intercâmbio comercial bastante intenso com os mecânicos de precisão da Galáxia. Os edifícios destinados a abrigar a colônia de saltadores radicada no planeta e o administrador de Árcon eram relativamente baixos, mas para os swoons deviam ser verdadeiros arranha-céus. Durante sua permanência no planeta, Kulman ocupara um grande armazém dos swoons. Na verdade, não passava de um simples barraco. Sentira-se que nem Gulliver entre os anões.
O tamanho minúsculo das casas causava uma impressão errônea quanto à distância.
Examinando a superfície a olho nu, Rhodan calculou que a nave se encontrava a uns cem quilômetros de Swatran, mas o altímetro revelou que a distância não era superior a dez quilômetros.
As gigantescas naves pousaram. Quase no mesmo instante, uns cem girinos, que eram naves esféricas de sessenta metros de diâmetro, saíram das escotilhas de carga da Drusus, da Titan e da General Pounder. Estes veículos espaciais cuidariam do bloqueio do planeta. Feito isso, Rhodan suspirou aliviado e dirigiu-se à sala de rádio.
Alguma notícia? — perguntou, dirigindo-se a David Stern.
Apenas algumas indagações confusas que ninguém entende. Os saltadores protestaram; afirmam que não existe nada contra eles.
É o que sempre dizem — afirmou Rhodan. — Acontece que nunca estão com a consciência tranqüila. Aposto que a esta hora já estão quebrando a cabeça para saber quais dos seus crimes conseguimos descobrir. Se foram os próprios saltadores que tramaram essa história do goniômetro de compensação, a esta hora já estarão suando de medo.
Bell seguira Rhodan sem que este o percebesse.
Acontece que não estão inteirados que nós sabemos — disse.
A incerteza não é um estado muito agradável — ponderou Rhodan e voltou a dirigir-se a Stern: — Quero entrar em contato com o administrador de Swoofon. É possível?
Tentarei — prometeu Stern e pôs-se a trabalhar. — Não sei qual será a demora.
Chame-me assim que tiver estabelecido a comunicação — disse Rhodan e dirigiu-se à porta. — Enquanto isso conversarei com o enviado oficial do Império.
Bell seguiu-o com os olhos e voltou à sala de comando.
Parou na porta. O tremendo silêncio deixou-o fascinado.
Os que se encontravam na sala de comando fitavam as enormes telas de visão global, nas quais se viam as áreas adjacentes à nave pousada, como se esta não tivesse paredes.
Bell também observava.
O campo de pouso não estava vazio. Entre as grandes naves dos saltadores enxameavam pequenos seres, que caminhavam a passos graves. Na verdade, pareciam pepinos maduros. Sua altura não ultrapassava trinta centímetros. Tinham pernas curtas, quatro braços, um rosto que quase chegava a ser ridículo, nariz achatado e uma boca pequeníssima. Não tinham pescoço. E os olhos salientes não contribuíam para tornar os swoons mais bonitos.
Kulman havia contado a Bell que essas estranhas criaturas faziam questão de serem tratadas com o maior respeito e cortesia. Quem não lhes desse esse tratamento teria problemas. E Rhodan não estava interessado em criar problemas.
Por todos os planetas! — exclamou Bell e acompanhou a marcha dos homens-pepino, cuja cor amarela o deixou estupefato.
Usavam um tipo de roupa, mas esta não encobria os contornos do corpo, que permaneciam nítidos.
Realmente parecem pepinos. Sabem falar?
Kulman, que se encontrava a seu lado, fez um gesto afirmativo.
Falam em voz aguda e estridente. Seu ouvido é extremamente sensível. Se alguém grita perto deles, contorcem-se de dor. O tradutor eletrônico permite uma comunicação perfeita com eles. Ainda bem que temos uma quantidade suficiente desses aparelhos.
Estou captando seus pensamentos — disse Gucky, em cujos olhos se exprimia o espanto. — São pacatos e muito curiosos, mas não querem confessar essas qualidades. Resolveram mostrar-se enérgicos e protestar contra a ocupação de Swoofon. Se não me engano, aquilo ali é uma espécie de delegação do Governo.
Excelente! — disse uma voz vinda da porta.
Todos viraram-se abruptamente e assustaram-se ao reconhecerem o uniforme colorido de inspetor arcônida. Mas logo viram que era Rhodan que o envergara e estava pronto para desempenhar seu papel.
Você parece um papagaio — disse Bell em tom de inveja. — Tenho a impressão de que sou um simples pardal.
Você não passa disso — exclamou Gucky com um sorriso de deboche.
Bell não lhe deu atenção.
Pretende sair da nave para conferenciar com os swoons? Quem irá com você?
Rhodan olhou em torno.
É preferível que por enquanto Kulman não saia da nave. Não é necessário que saibam que veio conosco, ao menos agora. Você irá comigo, Bell. Gucky também irá, para que possamos conhecer os pensamentos dos swoons. Sikermann e Crest cuidarão da sala de rádio e farão cumprir nossas ordens. Os girinos deterão qualquer nave que tente sair de Swoofon. Outros girinos pousarão nos demais espaçoportos existentes no planeta e confiscarão todas as naves dos saltadores. O intercâmbio comercial será suspenso imediatamente. São ordens de Árcon!
Ao proferir a última frase, exibiu um sorriso frio. Bell riu. Crest e Atlan pareciam preocupados. Sikermann dava a impressão de estar zangado e resoluto. Por estranho que pudesse parecer, Gucky não fez e não disse nada.
Naquele momento as três naves, que haviam pousado longe uma da outra, estavam totalmente cercadas pelos swoons. O quadro, que se oferecia aos terranos, quase chegava a ser medonho. A superfície plana do espaçoporto enxameava de minúsculas criaturas, movendo-se com tamanha dignidade e compenetração que até parecia que eram os verdadeiros donos do Universo. Podia ser que não possuíssem nada, mas ao menos tinham a consciência tranqüila. E uma calma inabalável.
Vamos andando — disse Rhodan.
Bell e Gucky seguiram-no.
Não levaram armas. Em compensação muniram-se de um tradutor eletrônico, sem o qual toda e qualquer comunicação se tornaria impossível. Bell carregou-o, com a compenetração de um camareiro do rei, enquanto Gucky fitava com a necessária veneração a calça colorida de seu chefe Perry Rhodan, que caminhava à sua frente. Ninguém saberia dizer que recordações lhe passavam pela mente naquele instante.
Não era a primeira vez que Rhodan usava uma calça desse tipo...
A escotilha abriu-se. A rampa inclinada saiu automaticamente, e Rhodan e seus companheiros desceram-na calmamente, em direção aos swoons que os esperavam.
Não estão com medo de nós — cochichou Gucky. — Apenas estão curiosos.
A curiosidade é a força motriz do Universo — retrucou Rhodan em voz baixa.
Dezenas de milhares de swoons se haviam reunido a fim de cumprimentar os seres que acreditavam serem arcônidas. Mesmo Rhodan, cuja capacidade telepática era menos potente que a de Gucky, conseguiu ler os pensamentos dos que se encontravam mais próximos, embora não fosse fácil distinguir os impulsos confusos. Na verdade, só percebeu curiosidade, misturada com certa dose de alegria e satisfação.
Era surpreendente, talvez mesmo estranho.
Rhodan resolveu solucionar o enigma.
Prosseguiu, até encontrar-se no meio dos swoons. Abaixou-se, ficando de cócoras. Bell seguiu seu exemplo, o que não foi tão fácil assim, pois pesava alguns quilos a mais que Rhodan. Gucky não teve a menor dificuldade, já que sua altura não era superior a um metro.
Um dos swoons começou a falar aos pios. Tratava-se de um indivíduo que era tratado com uma veneração toda especial pelos demais. Abriram alas quando se adiantou, e formaram um semicírculo à sua volta, a fim de protegê-lo.
Bem-vindos em Swoofon — disse o swoon em tom agudo, fazendo um princípio de mesura. — Sentimo-nos felizes em hospedá-los. Vêm por ordem do regente?
Era a primeira pergunta.
Rhodan fez um gesto afirmativo e, falando para dentro do tradutor eletrônico, que reproduzira perfeitamente as palavras dos swoons, disse:
O regente envia seus respeitosos cumprimentos aos digníssimos swoons. O Império sente-se feliz em saber que os habitantes deste planeta se contam entre seus melhores amigos.
Os swoons engoliram a bajulação com a naturalidade que lhes era peculiar em ocasiões como esta. O rosto de Rhodan irradiava satisfação.
Se colocamos nossos valiosos serviços ao dispor da comunidade, apenas estamos cumprindo nosso dever — respondeu a pequena criatura num tom de orgulhosa autoconfiança. — Talvez se o Império quiser confiar-nos alguma tarefa, esta será cumprida com a dedicação de sempre.
A missão que nos trouxe para cá não é nada agradável — disse Rhodan. — Estamos à procura de um inimigo do Império. Pelo que estamos informados, ele fugiu para Swoofon. Além disso, este mundo encontra-se na iminência de uma invasão contra a qual não existe qualquer defesa, a não ser que consigamos criar uma nova arma. Desejo falar com o chefe de governo de Swoofon.
Aqui existem muitos chefes de governo — foi a resposta surpreendente dada pela pequena criatura. — Infelizmente nossas tribos e nações ainda não conseguiram chegar a um acordo e escolher a pessoa que tenha suficiente dignidade para falar em nome de todas. As tentativas de unificação...
Era a velha história. Os swoons ainda não conheciam a navegação espacial vista como um instrumento de expansão galáctica. Viviam para o trabalho, faziam seus negócios com os saltadores e outras raças do Império, ganhavam muito dinheiro e não demonstravam o menor interesse pela política espacial.
Por isso temos que pedir-lhe que se contente em conferenciar com os representantes de Swatran. Falamos em nome de dez milhões de swoons.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Pois bem; ouça minhas instruções. Todas as naves estacionadas no planeta estão confiscadas. Não deverão decolar sem permissão dada por nós. Além disso, quero falar com o administrador de Árcon. Parece que ele reside em Swatran, não?
Até hoje residia — disse o pequeno swoon. — Infelizmente desapareceu no momento em que o senhor surgiu inesperadamente. Pretendíamos perguntar-lhe o que devíamos fazer, pois não sabíamos como explicar o aparecimento de uma frota dos arcônidas. Mas não o encontramos na sede da administração. Desapareceu.
A novidade era muito interessante! O que estaria temendo o administrador de Árcon para fugir daquela maneira? Teria feito negócios escusos com os saltadores a fim de aumentar sua fortuna pessoal? Estaria receoso de ser descoberto por Rhodan?
Bell sentara de vez. Alguns swoons caminhavam entre suas pernas, fitando-o com uma expressão curiosa, mas sem demonstrar qualquer medo. Se quisesse podia varrê-los com um simples movimento da mão. Mas quando via seus rostinhos graciosos chegava a sentir uma espécie de ternura. Fitava com certa admiração os dedos finos, presos diretamente aos quatro braços. Aqueles seres realmente pareciam pepinos maduros aos quais tivesse sido insuflada vida. Bell teve a sensação de viver uma lenda, na qual desempenhava o papel do gigante bondoso.
Com Gucky as coisas não foram diferentes. Também estava sentado no chão e “apalpava” o conteúdo da mente dos swoons. Despertava uma atenção toda especial, e uma elevada dose de simpatia dos swoons. Pelo que Gucky pôde constatar, acreditavam que fosse uma espécie de animal doméstico dos pretensos arcônidas. Não se zangou com isso, pois para Gucky os animais não eram menos respeitáveis e simpáticos que as criaturas humanas.
Se é assim, falarei com os saltadores — disse Rhodan. — Mandarei alguns soldados procurá-los e prendê-los.
Rhodan teve a impressão de descobrir certa alegria no rosto do swoon que se encontrava à sua frente. E os pensamentos do pequeno ser confirmaram a suposição. Não gostava dos saltadores. E havia outras criaturas de que também não gostava...
...Eram os outros swoons. Os swoons que colaboravam com os saltadores.
Providencie para que todos os swoons sejam retirados do campo de pouso, a fim de que nossa operação militar não seja perturbada — disse Rhodan. — Dou-lhes meia hora.
Estamos prontos para servi-lo com o máximo prazer — asseverou o swoon. — Sem dúvida terá a bondade de avisar-nos o quanto antes sobre os resultados da operação. Se pudermos ajudar...
Oportunamente avisaremos — prometeu Rhodan e levantou-se. Bell e Gucky seguiram seu exemplo, embora se percebesse que preferiam continuar sentados por mais algum tempo. Talvez ainda teriam uma oportunidade de conversar com os homens-pepino.
Rhodan desligou o tradutor eletrônico.
Espere aqui juntamente com Gucky — disse, dirigindo-se a Bell. — Vou à Drusus para trazer Marshall com quatro dos seus mutantes. Não deixem que ninguém os distraia. Voltarei logo.
Afastou-se sem esperar resposta. Antes de chegar à rampa, comprimiu um botão do rádio de pulso.
David Stern respondeu.
Sim.
Estabeleça contato com Árcon pelo hipercomunicador. Você conhece o código do robô regente. Peça-lhe que envie a frota de Talamon a título de reforço. Entendido?
Devo pedir a Árcon que envie Talamon?
Rhodan fez que sim.
Se alguém se mostrar surpreso, diga que são ordens minhas. Sei o que estou fazendo. Entendido?
Sim senhor. Entendido.
Rhodan não estava muito convencido de que Stern realmente tivesse entendido, mas sabia que podia confiar nele.
Gucky e Bell voltaram a sentar e iniciaram conversa com os poucos swoons que permaneciam no campo de pouso.
Os outros caminharam tranquilamente de volta à cidade. Até parecia que estavam num piquenique.
Gucky fitou-os cheio de espanto e com certa dose de ceticismo.
Embora tivesse alguma simpatia pelos “pepinos pensantes”, estes também o amedrontavam um pouco.

* * *

Na sala de comando Crest, Atlan e Sikermann esperavam por Rhodan.
Pareciam bastante contrariados, especialmente Crest.
Acho que forçou as coisas demais, Perry — disse a título de cumprimento. — A esta hora o regente já sabe o que está acontecendo aqui.
Rhodan sacudiu a cabeça.
Nada disso, Crest. Sua atenção foi desviada daquilo que realmente importa. O robô regente nunca saberá quais foram realmente nossas intenções ao virmos para cá. Enquanto procura encontrá-las, descobriremos os planos do goniômetro de compensação, e ainda saberemos se o regente fala sério quando alude à sua amizade conosco.
Tomara que tenha razão — disse Crest em tom de dúvida.
Atlan manteve-se em silêncio. Embora fosse um arcônida, tal qual Crest, parecia mais robusto. Nos olhos do imortal notava-se o conhecido brilho avermelhado da raça albina.
Não hoje, mas um belo dia...
Conseguiremos — disse Rhodan em tom confiante e transmitiu algumas instruções lacônicas pelo intercomunicador.
Dali a alguns minutos, o chefe do Exército de Mutantes apareceu com quatro de seus homens. Dirigindo-se a Marshall, Perry disse:
Venham comigo. Prenderemos os saltadores. Não acredito que haja resistência.
Se houver, o azar é deles — observou Sikermann, lançando um olhar furioso para os controles de armamentos. — Ainda temos alguns girinos a bordo.
Se necessário, solicitarei sua presença — prometeu Rhodan e saiu da sala de comando juntamente com os mutantes. — Manteremos contato pelo rádio.
O campo de pouso estava vazio. Só vez por outra, via-se um ou outro swoon que tropeçava em tom majestático, sem demonstrar a menor pressa de chegar ao destino. Ainda estavam curiosos para saber o motivo de tamanho espalhafato.
Bell e Gucky levantaram-se assim que Rhodan chegou com o grupo de cinco homens. Dois ou três swoons afastaram-se em gestos compenetrados. Pelos seus movimentos tinha-se a impressão de que mal conseguiam carregar seus pequenos corpos.
Não precisamos de qualquer veículo nem de trajes especiais — disse Rhodan ao notar o olhar pensativo de Bell. — Basta darmos um salto para percorrermos dez metros e pousarmos suavemente. Pelo que diz Kulman, é muito divertido passear em Swoofon.
Que passeio! — disse Bell, olhando para os edifícios baixos, nos quais, segundo supunha, se encontravam os saltadores. — Tenho uma sensação esquisita...
No estômago? — perguntou Gucky em tom zombeteiro. — Deve ser fome.
Tolice! Não estou com fome...
Ah! — exclamou Gucky em tom de triunfo, sorrindo para Rhodan. — Quer dizer que está com medo. Só pode ser fome ou medo. Afirma que não está com fome. Logo...
Vamos embora — disse Rhodan, interrompendo-o. — Não temos tempo para fazer piadas sem graça. Marshall, mantenha a arma preparada para disparar. Não acredito que os saltadores esbocem qualquer reação. Ao menos, não será a reação que Bell receia.
Os três couraçados espaciais formavam um triângulo eqüilátero. Dentro do triângulo, e também fora dele, havia algumas naves cilíndricas dos saltadores. Nem pensavam em desobedecer às ordens que Rhodan mandara transmitir pelo rádio; mantinham-se calmas, em atitude de expectativa. Os swoons haviam desaparecido de vez, dando a entender que não tinham nada a ver com a operação de vasculhamento que se anunciava.
O teleportador Ras Tschubai, um gigantesco africano de rosto bonachão, mantinha-se perto do hipno André Noir. Wuriu Sengu, o espia japonês, caminhava ao lado do localizador Fellmer Lloyd. John Marshall ia na retaguarda. Rhodan, Gucky e Bell caminhavam à frente do grupo, em direção à periferia do campo de pouso, onde se encontravam os edifícios da administração, que encobriam a cidade propriamente dita.
Não se via ninguém. Vez por outra uma sombra se movia atrás das janelas fechadas, mas nada aconteceu. Fellmer Lloyd, que não lia propriamente os pensamentos, mas os analisava, disse:
Entre os saltadores reina uma atmosfera de incerteza e tensão. Não sabem o que significa nossa visita. Nem pensam em resistir. Têm um respeito tremendo pelo regente. Até parece que alguém já lhes deu uma lição.
Isso é muito bom para nós — disse Rhodan em tom de satisfação. — Assim as coisas serão mais fáceis. A lembrança os tornará cautelosos e dóceis.
Terei muito prazer em ajudá-los a recordarem-se, se necessário — disse Gucky.
Já se encontravam próximos ao maior dos edifícios, cuja altura era espantosamente reduzida. Bastava subir dois ou três degraus para atingir a entrada principal, que estava bem aberta.
Rhodan olhou em torno.
Tschubai, Noir, Sengu, Lloyd e Gucky, vocês esperarão aqui. Marshall, Bell e eu iremos sozinhos. Se precisar de auxílio, Marshall enviará uma mensagem telepática. Quando isso acontecer, vocês virão imediatamente.
Prosseguiu sem aguardar resposta. Bell e Marshall, os únicos que traziam uma arma, seguiram-no.
O corredor largo e profusamente iluminado estava vazio. De ambos os lados havia portas. Marshall não teve a menor dificuldade em descobrir a porta que procuravam.
Os saltadores estão atrás desta — cochichou. — Não sabem onde estamos. Neste momento, estão pensando nas desculpas que podem apresentar. Andam com a consciência bastante pesada, talvez até por causa desse assunto do goniômetro.
Não demoraremos em saber — respondeu Rhodan em voz baixa. — Vamos fazer-lhes uma visita informal. Bell, abra-a.
Num gesto instintivo, Bell pôs a mão no lugar do cinto em que costumava ficar o radiador. Mas levantou o ombro num gesto de resignação e adiantou-se. Girou calmamente o botão embutido na porta e escancarou-a.
Quando entrou, Rhodan e Marshall seguiram-no de perto.
Bom dia, cavalheiros — disse em arcônida. — Permitem que lhes façamos uma visita?
Seis ou sete homens fitaram os intrusos com os olhos arregalados. Todos eles usavam barba mais ou menos aparada, trajavam à paisana e traziam no cinto os conhecidos radiadores portáteis. Estavam sentados em torno de uma mesa redonda mas, ao verem-se surpreendidos dessa maneira, levantaram-se de um salto.
O que é isso? — perguntou um deles. — Como conseguiram encontrar-nos tão depressa? Quanto ao mais, seguimos estritamente as ordens que recebemos. Nossas naves estão paradas lá fora...
E daí? — disse Rhodan, deixando que Marshall lhe desse cobertura. — Alguém afirmou o contrário? Será que é a voz da consciência pouco tranqüila que está falando por você?
Um dos gigantes ruivos levantou-se lentamente e caminhou na direção de Rhodan. Parou à frente dele e mediu o pretenso inspetor com um olhar orgulhoso.
Somos súditos do Império e não fazemos nada que não seja permitido. Não o conheço e nunca o vi, mas se não resolver usar outro tom, talvez venhamos a conhecer-nos muito bem.
Para mim seria um prazer — disse Rhodan em tom amável, mas com um timbre duro na voz. — Permite que pergunte o que estão fazendo em Swoofon?
O ruivo emitiu um suspiro de desprezo.
O que poderíamos fazer? Estamos negociando. Os swoons fabricam coisas excelentes, que alcançam bom preço em todos os cantos da Galáxia. Será que é crime comprar os produtos dos swoons e revendê-los em outro lugar?
Alguém afirmou que é? — perguntou Rhodan em tom de espanto.
O saltador parecia confuso.
É claro que não, mas... Subitamente estacou, fitou Rhodan e prosseguiu:
Vamos mostrar as cartas. O que deseja de nós? Qual é o motivo de todo o alarma? Quem está procurando?
Ah! — disse Rhodan com um aceno da cabeça. — É assim que se fala. Acho que deste jeito conseguiremos entender-nos logo. Já ouviu falar num certo Berenak?
Nunca!
A resposta não surpreendeu Rhodan. Também este nunca ouvira o nome. Este lhe surgira naquele instante.
Quer dizer que não conhece Berenak? Este indivíduo vem de um planeta situado nas proximidades de Árcon. É descendente dos arcônidas e dos saltadores, mas não se liga a ninguém. É um mestre na arte do embuste e um criminoso. E é a pessoa que estamos procurando.
O que foi que ele fez?
Seria muito demorado contarmos todas as patifarias que andou cometendo. Sabemos que está em Swoofon. O regente pediu-nos que o prendêssemos. Qualquer dos senhores pode ser Berenak. Não será fácil identificá-lo. É este o motivo das medidas que estamos tomando.
Eu não sou Berenak! — exclamou o ruivo. — Sou o patriarca Gol, um honesto mercador.
É possível — respondeu Rhodan — mas resta provar sua afirmativa. Por isso não tenho outra alternativa senão pedir-lhe que por enquanto não saia daqui e siga minhas instruções. O senhor não poderá deixar de reconhecer que não terá a menor chance contra três couraçados espaciais do Império. Será que fui bastante claro?
É claro que sim — disse Gol em tom amargurado e voltou a sentar. Ao que parecia, não estava com vontade de prosseguir naquela discussão inútil.
Marshall estava sondando os pensamentos dos presentes. Não encontrou a menor indicação sobre a construção do goniômetro de compensação. Transmitiu a senha combinada a Rhodan.
Não os trancafiarei — disse Rhodan, enquanto caminhava para a porta. — Mas peço-lhes que se considerem presos. Ninguém poderá sair deste edifício. Qualquer pessoa que se opuser às ordens de Árcon, terá de arcar com as conseqüências. E, conforme as circunstâncias, essas conseqüências poderão ser bastante desagradáveis, Será que me fiz entendido, cavalheiros?
Não esboçaram o menor movimento enquanto Rhodan, Marshall e Bell se retiravam. Havia uma expressão de cólera em seus olhos, mas por enquanto não tinham a menor intenção de desobedecer às ordens de Árcon.
Assim que saíram ao corredor, Bell suspirou aliviado.
Não me senti muito bem enquanto estava lá dentro. Afinal, não sei ler pensamentos. Não compreendo por que deixam que se faça qualquer coisa com eles. Antigamente...
Os tempos estão mudados — explicou Rhodan. — Antigamente a ligação entre os saltadores e Árcon não era tão estreita como hoje. Não se atreverão a entrar em conflito com o robô regente. Ainda acontece que realmente não têm a menor idéia do que viemos fazer aqui. Têm a consciência relativamente tranqüila. Evidente que andaram tapeando vergonhosamente os swoons, mas com isso nós não temos nada a ver.
Revistaram o edifício, encontraram mais uns cinqüenta comandantes saltadores e comunicaram-lhes que não poderiam sair de Swoofon. Mas não acharam o menor vestígio dos saltadores que projetavam a construção do goniômetro.
Parecia bruxaria.
Quando Rhodan e seus companheiros saíram do edifício, os quatro mutantes pareciam aliviados. Gucky estava sentado no chão, deixando que os raios de sol atingissem sua barriga. Até parecia um turista que fazia questão de se deixar queimar pelo sol.
Antes que Rhodan pudesse dizer qualquer coisa, ouviu-se um silvo agudo, que logo se transformou num rumorejar surdo. Por alguns segundos uma sombra passou pelo amplo campo de pouso. Finalmente a gigantesca esfera espacial pousou bem no centro do triângulo formado pelas naves de Rhodan.
Talamon acabara de chegar.
Com os recursos de que dispunha, Rhodan poderia conquistar metade da Via Láctea, quanto mais o inofensivo planeta de Swoofon. Era um absurdo que forçosamente deixaria o regente perplexo.
Da Drusus, David Stern colocou Perry em comunicação com Talamon.
Olá, Talamon! O senhor veio depressa.
O regente mandou que me apressasse. Onde é que a coisa está pegando fogo?
Desta vez é em Swoofon, Talamon.
Será que por causa disso precisou chamar uma frota inteira? Não dispõe de três couraçados invencíveis? O que é que está temendo, Rhodan? Não venha me dizer que são os swoons!
Rhodan continuava a sorrir, mas Talamon não podia vê-lo.
Às vezes uma cautela excessiva não é medo, velho companheiro de lutas. De qualquer maneira, quero transmitir-lhe as instruções que deverá seguir. O sistema de Swaft será fechado hermeticamente. Nenhuma nave poderá entrar ou sair. Isso é muito importante. Swoofon deve ser isolado, a fim de que disponha do tempo necessário e sossego para examinar um por um os saltadores que estão aqui. Nem mesmo um rato deve escapar. Acho que fui suficientemente claro, não fui, Talamon?
É claro que foi. Será que poderia saber...?
Estamos procurando alguém — disse Rhodan em tom lacônico, dando a entender que não desejava dizer mais que isso. Talamon conhecia-o bastante bem para não insistir.
Está bem, Rhodan. Você é o chefe. Oportunamente poderemos conversar sobre a necessidade de certas medidas, desde que não tenha qualquer objeção. Na minha opinião sua cautela foi exagerada.
Rhodan esperou mais um pouco, mas o minúsculo alto-falante permaneceu em silêncio.
Ninguém consegue cumprir ordens sem formular perguntas supérfluas — constatou. — Não fico zangado por Talamon ter agido dessa forma. Mas, dentro de pouco tempo, o robô regente de Árcon participará do seminário de perguntas. Quando isso acontecer, as coisas começarão a ficar críticas.
Deixe este montão de lata por minha conta — sugeriu Gucky.
Rhodan lançou um olhar pensativo para a nave de Talamon; não respondeu à sugestão que Gucky acabara de formular.
Começava a admirar-se por ter o regente — o maior computador positrônico da Galáxia — enviado a frota por ele solicitada. Será que continuaria a cumprir o que haviam combinado? Estaria sendo sincero? Rhodan tinha suas dúvidas.
Vamos andando — disse depois de algum tempo. — Precisamos iniciar nosso trabalho. Quanto a você, Gucky, desta vez poderá dar vazão à sua ânsia de agir. Você, Kulman e Sengu procurarão, e terão de encontrar as instalações subterrâneas em que deverá ser fabricado o goniômetro de compensação.
Com muito prazer — disse Gucky com a indiferença de quem acaba de receber ordem para comprar cinco pãezinhos na padaria da esquina.
2



Swatran ficava quase exatamente no equador. O dia de Swoofon durava cerca de dezoito horas terranas. Portanto, o sol brilhava durante nove horas, enquanto durante as nove horas restantes reinava uma escuridão completa.
Era meia-noite.
Gucky, Wuriu Sengu e Jost Kulman estavam de pé na praça principal da capital e tomaram cuidado para não tropeçarem nos automóveis estacionados. Não foi muito difícil, pois os homens-pepino fabricavam veículos que mediam até um metro de comprimento. Acontece que os haviam estacionado sem luzes, em plena praça, no lugar exato em que Gucky e os dois homens deveriam iniciar suas investigações.
Aqui é muito quieto — disse o japonês com a voz insegura. — Será que os swoons não têm vida noturna?
Não — disse Kulman. — Os swoons gostam de dormir.
Os que vivem no subsolo também? — perguntou Gucky.
Também — confirmou Kulman, o agente que passara uma boa temporada em Swoofon, por ordem do Império Solar. — Apreciam um estilo de vida simples e tranqüilo.
Fazem bem — disse Gucky em tom de admiração. — Estão satisfeitos com aquilo que conseguiram, sentem-se bem, têm seu orgulho e sua ambição, mas não exageram. Quase chego a ter inveja deles.
De certa forma a gente poderia invejá-los — concordou Kulman, olhando em torno. Até mesmo seus olhos possantes mal conseguiram romper a escuridão. — Estão vendo alguma coisa?
Wuriu Sengu deu de ombros.
Sou capaz de penetrar com minha visão em qualquer estrutura molecular e ver o que está atrás dela, mas no escuro minha vista também falha. Vejo os swoons deitados em suas camas, mas a visão é pouco nítida. O que vamos fazer?
Gucky segurou os dois homens pelos braços.
Para que servem os amigos? Vamos começar pela face diurna. Terei muito prazer em levar duas meias porções como vocês.
Acontece que as meias porções eram homens adultos, que tinham ao menos o dobro do peso do rato-castor. Mas este conseguia carregar até dez vezes seu peso quando se tornasse necessário levar alguém num salto de teleportação.
Houve um ligeiro tremeluzir, que não foi visto por ninguém. Logo após isso, a praça principal estava vazia, com exceção dos automóveis estacionados.
Materializaram-se a milhares de quilômetros dali, no mesmo continente, um pouco ao norte do equador. Kulman já lhes havia contado que a vida se concentrava principalmente nas zonas contíguas à linha equatorial, visto que as outras zonas eram muito frias.
Viram-se no centro de uma grande planície, limitada ao norte pelas montanhas e ao sul pelo oceano. Ao leste e ao oeste avistava-se um grupo de colinas onduladas, que parecia não ter fim.
Não se via o menor sinal de cidade ou povoação.
É uma região abandonada — disse Gucky, contemplando o céu azul, cuja cor quase chegava ao violeta. — O que estamos fazendo aqui?
O lugar não é tão solitário — respondeu Kulman, apontando para o solo pedregoso. — Por aqui os swoons vivem embaixo da terra. Não sei qual é a profundidade em que ficam suas cidades subterrâneas, mas acho que não demoraremos em descobrir. Se todas as fábricas são subterrâneas, aquela que se destina à fabricação do goniômetro também deve ser.
Wuriu Sengu concentrou-se e recorreu às suas faculdades. Subitamente seus olhos adquiriram uma estranha rigidez, enquanto fitavam o solo. Depois de algum tempo um certo espanto desenhou-se em seu rosto. Começou a falar. Kulman e Gucky ouviram-no, muito ansiosos.
Há uma cidade, sob nossos pés. Fica a uns cinqüenta metros de profundidade e foi construída num só nível. Mais embaixo da rocha natural há outra cidade, situada vinte metros abaixo da primeira. Não; não é uma cidade, mas uma gigantesca fábrica. São gigantescos pavilhões cheios de máquinas nas quais trabalham milhares de swoons. Meu Deus, como são pequenos!

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