terça-feira, 12 de março de 2013

P-055 - A Sombra do Supercrânio - Kurt Brand [parte 2]


Era o quarto amanhecer na selva. Fellmer Lloyd mastigou mais três tabletes de alimento concentrado. E outra vez abriu caminho pela vegetação da mata tropical. Já fizera observações sobre a flora.
A pequena clareira que acabava de atravessar era um jardim do inferno. Nele encontrou samambaias. Pareciam inofensivas, e não desconfiara de nada. Para ele, as folhas de um metro quadrado não passavam de folhas. Mas, no momento em que se dispôs a passar furtivo ao lado das plantas, as folhas inflaram-se, formando bolhas, giraram instantaneamente a face oposta à luz para seu lado e bombardearam-no com gás. As outras samambaias que o rodeavam dobraram os caules da grossura de uma coxa humana, formando uma muralha de folhas, e voltaram-lhe a face exposta à luz. Sem se transformarem em bolhas, começaram a expelir uma massa pegajosa.
Foi só graças à sua reação instantânea, que Fellmer pôde continuar vivo. Logo ao primeiro jato de gás prendeu a respiração; e, imediatamente, levantou o radiador de impulsos térmicos e varreu a clareira.
Quando olhou-a pela última vez, compreendeu que, durante um ano, nenhuma samambaia cresceria na torrente vitrificada que ia endurecendo aos poucos.
Depois de caminhar mais três passos, estacou.
Estava cercado de volatenses. Onde quer que houvesse um espaço livre em meio à confusão de troncos e à vegetação rasteira, eles o fitavam com uma expressão hostil nos olhos salientes. As antenas que encimavam os olhos, e que serviam simultaneamente como órgãos de fala, tato e audição, mantinham-se numa agitação ininterrupta.
As cabeças de inseto dos volatenses mantinham-se imóveis, tal qual os “braços”, que eram tão firmes que a menor carga fatalmente os quebraria. As pernas também não eram muito mais desenvolvidas. O que mais lhe assustava eram os corpos superfinos e alongados, coloridos de marrom e verde.
Lloyd absorveu uma torrente de vibrações cerebrais, acompanhadas da informação de que os volatenses não poderiam ser localizados se não o quisessem. Mas os impulsos mentais desses seres o atingiam com a força de um potente emissor de interferência, que paralisava as comunicações mentais; e todos os impulsos eram hostis.
Queriam impedir que continuasse a avançar pela selva.
Volte! — foi a mensagem que recebeu.
E essa mensagem que vinha de todos os lados era repetida ininterruptamente.
Levantou as mãos e espalmou os dedos, procurando mostrar que suas intenções eram pacatas.
Volte!
Fellmer Lloyd sacudiu a cabeça.
Não; vou continuar — emitiu o pensamento concentrando-se ao máximo. — Quero que vocês me levem à mãe onisciente.
Volte!
Como se obedecessem a um comando, os volatenses se aproximaram. Cercaram-no. O círculo fechou-se cada vez mais. Os olhos salientes tornaram-se ainda mais hostis. Todos os volatenses levantaram a mão direita na qual seguravam uma zarabatana. Era com ela que disparavam as setas envenenadas.
Então era esta a arma dos volatenses!
Que diabo! — pensou Lloyd, bastante contrariado com o fracasso de sua tentativa de entrar em contato com os volatenses. — Por que será que Ralph Sikeron conseguiu estabelecer contato?
Ralph Sikeron? — a pergunta, vinda de todos os lados, atingiu-o por via telepática.
Getlox Asargud — pensou Lloyd, acrescentando: — Ralph Sikeron é Getlox Asargud.
O brilho hostil desapareceu dos olhos salientes, como se fosse a luz de holofotes apagando-se. No mesmo instante, cessou a recepção deprimente dos impulsos vindos de numerosos cérebros volatenses.
Lloyd esforçou-se com mais intensidade para explicar a esses seres que pertencia à mesma espécie de Sikeron, que era confidente do mesmo, e que estava à procura da mãe onisciente.
Agora já não tinha a menor dúvida. Toda vez que pensava na mãe onisciente, a atitude dos volatenses mudava por completo. Moviam a cabeça num gesto humilde, bastante humano, e inclinavam os corpos de inseto.
Tenho de perguntar a minha mulher se podemos mostrar o caminho que leva à mãe onisciente.
Fellmer Lloyd não riu quando captou este pensamento. Os volatenses encontravam-se sob o regime do matriarcado. A rainha hereditária que regia os destinos desse povo inofensivo e simpático era a mãe onisciente. Vivia na mata, num lugar retirado; nunca teve a ambição de desenvolver uma tecnologia, mas em compensação dedicava-se ao cultivo das ciências do espírito.
Fellmer Lloyd esperou dois dias até que os homens de Volat voltassem. Teve tempo para avaliar o resultado de sua atuação. Não ficou muito satisfeito. Nem sequer estava em condições para enviar uma mensagem de rádio à Lotus, que se mantinha em posição de espera, pois ele ainda não sabia explicar o que Ralph Sikeron quis dizer quando registrou a palavra Supercrânio em sua agenda.
Quem poderia ser o arcônida ou o mercador galáctico que possuía faculdades supersensoriais, e por isso se transformara no inimigo mais perigoso de qualquer agente cósmico?
Será que a mãe onisciente dos volatenses poderia desvendar o mistério?
6



O gigantesco platô de pedra, que se erguia para o céu em meio à planície coberta de matas, tinha o formato de uma pirâmide achatada e estava rodeado de gigantescas árvores.
Os volatenses do sexo masculino mostraram a Lloyd o caminho que levava à mãe onisciente. A capital residencial desse povo ficava no centro do platô. Ali viviam sem que ninguém os perturbasse, e não estavam sujeitos às influências da tecnologia que predominava na parte do planeta colonizado pelos arcônidas.
Lloyd viu casinhas do tipo convencional. Viu construções em forma de casa de marimbondo com abrigos difíceis de serem encontrados.
Os volatenses haviam perdido com a evolução aquilo que já fora uma de suas características, isto é, a capacidade de deslocar-se pelo ar que nem insetos comuns. As demais características foram conservadas.
A mulher reinava em tudo. O volatense do sexo masculino era apenas tolerado e não exercia a menor influência na vida pública ou privada. Mas, de três em três anos, a inquietação se apossava de todos os volatenses adultos, e então todas as diferenças se apagavam. Todos eram iguais. Pela meia-noite a mata virgem transformava-se num templo e, por um breve espaço de tempo, os ritos misteriosos modificavam toda a vida daquela raça inteligente.
Fellmer Lloyd caminhava devagar em companhia dos volatenses.
O centro da cidade era formado por uma gigantesca praça na qual se via uma construção em forma de favos, que sobressaía em meio às outras como se fosse um monumento. A construção era esguia e tinha pouco menos de cinqüenta metros de altura; mas, ao contrário das outras construções em forma de favo, apresentava uma ornamentação maravilhosa, que despertou a admiração, de Lloyd.
Subitamente encontrou-se com as primeiras “mulheres” de Volat. Eram do mesmo tamanho dos homens, mas apresentavam um aspecto mais delicado e gracioso; tinham algo do charme feminino. Além disso, a cor da pele puxava mais para o marrom. O preto só surgia nas saliências finas em forma de córnea. Suas antenas tinham quase o dobro do comprimento das dos homens, e eram muito mais robustas; e seus impulsos mentais chegavam a Lloyd com o dobro da intensidade.
Os cumprimentos foram ligeiros. Os homens volatenses, que tinham levado Lloyd até ali, retiraram-se.
Caminhando no meio das mulheres, foi levado ao palácio da mãe onisciente.
A abertura inferior tinha uma altura que lhe permitia entrar pela mesma sem abaixar-se. O interior era iluminado por velas de sebo. A primeira sala tinha o formato de favo. E tudo que se encontrava no seu interior possuía o mesmo formato. Fellmer Lloyd tinha a impressão de encontrar-se num enxame de abelhas operosas. A experiência tinha algo de irreal. O corredor, que subia em forma de serpentina, provava praticamente que os volatenses já não dominavam a arte do vôo.
Viu a mãe onisciente diante de si; e, antes que pudesse captar qualquer impulso mental emitido pela mesma, percebeu que se encontrava diante de uma rainha.
Lloyd recuou instintivamente, e assustou-se com os pensamentos da rainha:
Aproxime-se, forasteiro. Tal qual Sikeron, você traz na testa o sinal de quem já viveu muito. Você é muito mais velho do que aparenta; é amigo de Sikeron.
Fellmer Lloyd sentiu-se estupefato.
Nunca ouvira isso de um estranho. E que sinal na testa era este a que aludira a mãe onisciente? Como poderia ver que recebera no planeta Peregrino, juntamente com Ralph Sikeron e outros mutantes, a ducha celular que evitava o envelhecimento por um prazo de sessenta anos?
Pediu uma explicação, mas a mãe onisciente dos volatenses, de modo sábio e humano, recusou-se a explicar.
Seu caráter majestático tornou-se mais intenso. Irradiava a inteligência, a calma e a sabedoria proporcionadas pela idade. Aos olhos de Fellmer Lloyd, ia perdendo progressivamente o aspecto de inseto. Os contatos mentais tornavam-se cada vez mais intensos.
Estava sentada que nem ele.
Um trançado de fibras vegetais lhe servia de apoio. O enfeite da sala do trono consistia de folhagens que nunca secavam. O favo em que ficava essa sala era muito maior que qualquer outro.
Ninguém os perturbou, e a mãe onisciente não tinha pressa.
Não era uma soberana que comandava; era o pólo de estabilidade dos volatenses, o ídolo sobrecarregado de trabalho e responsabilidades.
Lloyd não a apressou para que falasse em Ralph Sikeron. Ela mesma passou a este tema.
Esteve duas vezes nesta sala, Fellmer Lloyd. Da mesma forma que você, não quis revelar o lugar de onde vinha. Não era nenhum prebonense, da mesma forma que você não é. Ambos vêm das profundezas dos mundos estelares; pretendia voltar para lá. Morreu aqui, embora também trouxesse na testa o signo da vida eterna. Vocês se parecem bastante; no entanto, ele era diferente de você. Você nos entende de outra maneira, mas nem por isso com menos perfeição. Acredito que um mundo que sirva de mãe a Ralph Sikeron e a você só pode ser um mundo belo, da mesma forma que o mundo dos meus volatenses é belo.
Fellmer sentiu-se emocionado ao captar os pensamentos da rainha. Deu-se conta de que o fato de ter encontrado a rainha representava uma dádiva inesperada. A veneração que sentia pelas raças estranhas tornou-se mais intensa. Depois de algum tempo, passou a aludir à descoberta de Ralph Sikeron.
Em Volat existem duas forças, formadas por mercadores galácticos ou arcônidas, que vivem na escuridão e a partir da escuridão irradiam seu poder. Sikeron experimentou essas forças e da primeira vez fugiu para cá. Pediu que eu lhe desse um conselho, mas não lhe pude dar nenhum.
Voltou pela segunda vez; fugira de novo. Ainda dessa vez arcônidas ou mercadores galácticos o haviam localizado com suas forças supersensoriais. Ao voltar pela segunda vez pediu permissão para deixar comigo uma notícia que indicaria o caminho ao seu sucessor.”
O que aconteceu, quando Ralph Sikeron voltou para Kuklon, mãe onisciente? — perguntou Fellmer mentalmente.
Sabia que estava caminhando para a morte. Devia saber em que consistia a força supersensorial cuja presença nunca notamos no povo de Volat. Sabia que alguém o esperava em Kuklon. Ao despedir-se, disse textualmente: “Desejo todas as felicidades possíveis ao povo de Volat, e as mesmas felicidades desejo ao meu mundo!” Será que alguém não estará à sua espera quando você voltar a Kuklon, Fellmer Lloyd?
Quando os homens de Volat o receberam na periferia da grande praça em cujo centro ficava o favo governamental, Fellmer sentiu-se cheio de pressentimentos sombrios.
Não levou mais de três dias para chegar à Gazela, que não fora localizada durante a operação de busca desencadeada pelos arcônidas.
7



Kuri Oneré não se surpreendeu nem um pouco ao cumprimentar o prebonense em sua residência. A bela moça pertencente à raça dos mercadores galácticos tinha novidades interessantes para Lloyd.
De início, surpreendeu-o com a notícia de que o assassino prebonense, com o qual Fellmer apresentava certa semelhança, fora preso há dois dias nas favelas de Kuklon e transportado para Prebon. Depois ofereceu notícias menos agradáveis. No dia seguinte ao do desaparecimento de Fellmer Lloyd, ela recebera a visita de Jidif.
Estacou em meio à conversa. Estupefata, fitou o prebonense, que parecia totalmente alheio a tudo. Preferiu não perturbá-lo.
Oneré teve a impressão de que o prebonense olhava para dentro de si mesmo.
Lloyd pôs a mão no bolso. Novamente estava de vestes trocadas. Desta vez trajava segundo a moda mais recente dos arcônidas. Os bolsos constituíam um espaçoso “reservatório” para os dois radiadores um tanto maciços.
A Administração de Árcon no planeta de Volat não gostava que os habitantes do planeta andassem pela cidade com radiadores térmicos. Penas rigorosas haviam sido estabelecidas para o porte desse tipo de arma sem a necessária licença. Depois que o gigantesco centro de computação positrônico com sua frieza assumira o governo, as conseqüências do novo estado de coisas propagavam-se até a periferia do Grande Império.
Subitamente Lloyd, apesar do seu aspecto indolente, saltou para trás da porta. No mesmo instante, a mesma foi aberta violentamente. Antes que Kuri Oneré compreendesse o que os três homens poderiam desejar em seu quarto, o prebonense acionou o gatilho da arma de choques. Kuri viu que dois dos visitantes que não se haviam anunciado caíram para dentro do quarto e tombaram. Ficaram totalmente imobilizados. O outro cambaleou em direção oposta, vindo cair no pequeno hall.
O olhar de advertência de Lloyd obrigou a moça a não fazer o menor movimento.
Perigo!”, berrou o sentido de localização de Lloyd.
A imobilização dos três saltadores ainda não representava o fim da operação.
Um quarto homem esperava do lado de fora, junto ao elevador antigravitacional. Aguardava ansiosamente o sinal convencionado com seus comparsas. Acontece que Lloyd não havia captado esse sinal. E não poderia extraí-lo dos cérebros dos saltadores atingidos pelo choque, pois todos eles estavam com as funções cerebrais adormecidas.
Por que não posso socorrê-lo?
Lloyd captou este pensamento na mente da moça.
Fellmer Lloyd acabara de descobrir que, além de ser corajosa, Kuri Oneré não perdera a calma.
Corra para fora e, nem que seja por um segundo, procure distrair o sujeito que está esperando junto ao elevador. Saia gritando, mas não grite muito alto para não alarmar todo o prédio.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Lloyd ao ver que, enquanto se levantava de um salto, Kuri Oneré passou a mão pela cabeleira para deixá-la desgrenhada. A seguir, saiu do quarto, soltou o primeiro grito no hall — nem muito alto, nem muito baixo — e já se encontrava no pequeno corredor que dava para o elevador antigravitacional.
Quem pôs as mãos na moça? — foi este o pensamento mesclado de pavor e raiva que passou pela mente do quarto homem. O indivíduo esperava junto ao elevador e saltou em direção a Kuri Oneré, para tapar-lhe a boca. — Ela vai alertar todo o prédio.
Neste instante, Fellmer Lloyd saltou de trás da porta, saiu para o hall, passou por cima do saltador estendido no chão e, mais uma vez, acionou o radiador de choques.
O troncudo mercador caiu aos pés de Kuri Oneré.
Arraste-o para o elevador! — disse Lloyd à moça.
Abaixou-se e pegou o indivíduo, que estava no hall, e colocou-o sobre o ombro como se fosse um saco vazio. Depois correu para o elevador antigravitacional e atirou-o no poço.
A regulagem de gravidade, que imediatamente fluiu para cima, atingiu o corpo do mercador galáctico, que desceu suavemente atrás daquele que a moça colocara no elevador. O terceiro não demorou em acompanhá-los; quando Fellmer Lloyd pretendia pegar o quarto, viu-lhe o rosto e soltou um assobio.
Kuri! — disse, chamando a moça. — Tranque a porta!
Sentou o homem numa poltrona e teve o prazer de ver o rosto de Jidif.
Logo este? — exclamou a moça em tom zangado, assim que reconheceu o saltador. — Prebonense, o senhor já sabe que Jidif é o melhor amigo de Tirr, o filho mais jovem do clã dos Uxlad?
O.K. — a expressão escapou a Fellmer Lloyd.
Fez votos de que Kuri Oneré não tivesse dado maior atenção a essa palavra que devia soar estranha aos seus ouvidos.
No entanto, apavorou-se ao ouvi-la exclamar:
O.K.! Já ouvi esta palavra várias vezes da boca de Asargud. Qual é seu significado, prebonense? O.K. não pertence ao vocabulário de Prebon.
Deixemos isso para depois — respondeu Lloyd, esperando que Kuri se esquecesse do fato.
Tirou dos seus grandes bolsos uma seringa superpressurizada. Tratava-se de produto da tecnologia ferrônia. Era uma maravilha de precisão e versatilidade. Qualquer médico galáctico daria um salto de alegria se ganhasse esse instrumento.
Com uma pressão de 10 atu, injetou a substância antichoques sob a pele de Jidif. O efeito foi imediato. Apavorado e enfurecido fitou o prebonense, que se colocara à sua frente numa postura confortável, sem dar o menor sinal de que era muito mais do que um homem comum.
Lloyd leu na mente de Jidif.
Estava pensando nos chefes!
Pensava também nos dois arcônidas ou saltadores dotados de forças supersensoriais e descobertos por Sikeron, que acabou assassinado.
Infelizmente os pensamentos de Jidif não proporcionaram uma imagem clara dos chefes.
Procurou forçar. Mas, em vez de um modelo claro, só captou coisas confusas. Subitamente a seqüência das idéias de Fellmer Lloyd se rompeu.
Uma lembrança interpôs-se entre as mesmas.
Lembrou-se do Supercrânio.
Naquela época, Perry Rhodan e seus mutantes tiveram de bater-se contra forças misteriosas, enquanto a Terceira Potência sofria derrotas bastante desagradáveis. Fora impossível, de início, ver o rosto do Supercrânio através dos mutantes aprisionados.
Em todos eles, havia um bloqueio hipnótico, mais forte que a própria vida.
Acontece que o Supercrânio morrera há mais de meio século, fugindo de Perry Rhodan em direção ao espaço.
Devo libertar-me da idéia do Supercrânio”, pensou Fellmer Lloyd. “A intenção de Ralph Sikeron não deve ter sido precisamente esta, quando registrou o nome. Certamente quis estabelecer uma comparação, lançar uma ponte, pois ainda desta vez o inimigo trabalha com um bloqueio hipnótico. Jidif dispõe de um bloqueio sugestivo, que o impede de trair seus chefes.
Dê o fora, saltador! — disse Lloyd. Esta atitude tomada pelo mutante foi totalmente incompreensível para Kuri.
O magricela levantou-se sorrateiro. Seu rosto expressava idéias de vingança. O agente cósmico não lhe deu maior atenção. Mais uma vez, segurou a arma de choques. Não lhe restava outra chance senão utilizá-la imediatamente contra Jidif.
Ele e Kuri Oneré precisariam de algumas horas de completa liberdade de movimentos, a fim de mergulhar no oceano de casas de Kuklon.
Você ainda pagará por isso — disse Jidif em voz alta, enquanto dava o último passo em direção ao elevador antigravitacional e Fellmer Lloyd apontava o radiador de choques em sua direção. Mas em pensamento o saltador acrescentou mais algumas palavras à ameaça que acabara de proferir: — ...seu maldito terrano!
Terrano”, pensou Lloyd, “o mercador sabia que eu era terrano!”
No mesmo instante, Fellmer Lloyd apertou o gatilho.
Agora, sabia por que Ralph Sikeron transmitira a mensagem dos três toques de sino.
Dois mutantes arcônidas ou saltadores haviam descoberto, através de Ralph Sikeron, a posição cósmica da Terra, e o identificaram como agente de Perry Rhodan.
Agora era sua vez de transmitir a mensagem de três toques de sino para a Terra.
O alarma geral seria desencadeado no planeta!
Kuklon resultara da fusão de três cidades, que na época da fundação distavam trinta quilômetros uma da outra.

* * *

Kuklon possuía três centros repletos de curvas. Eram três labirintos sob a forma de um sistema confuso de ruas.
Na periferia de Kuklon Psor, a antiga Psor City, Kuri Oneré e Fellmer Lloyd abandonaram os meios de transporte, depois de terem trocado oito vezes de táxi aéreo, e passaram a caminhar entre a confusão de raças estranhas.
As lojas enfileiravam-se uma ao lado da outra. Aqui podiam-se comprar todos os tesouros da Galáxia. Tudo fora ajustado para o viajante que estivesse de passagem.
Subitamente, Fellmer Lloyd puxou a moça para o lado. Kuri Oneré não compreendeu nada, mas não ofereceu resistência. Fugiram para o interior de uma loja especializada, que trabalhava exclusivamente com frubikar, uma substância indestrutível que durante a noite emite uma luz forte.
O proprietário da loja, um mercador galáctico, e as duas funcionárias, que viram os dois entrarem precipitadamente na loja, pensaram tratar-se de assaltantes que pretendessem roubar o dinheiro da caixa. Numa seqüência lógica, o saltador pensou no sistema de alarma.
Através da mente do proprietário, Fellmer Lloyd descobriu o lugar onde ficava a chave que ativava o campo protetor de radiações.
Foi mais rápido que o proprietário e acionou o contato.
Imediatamente um potente campo energético foi colocado diante da vitrine e da porta. O pequeno conversor preso ao teto emitiu um zumbido suave.
Um disparo de arma de radiações contra o campo energético fez com que o proprietário indignado se calasse.
A muralha energética era transparente. Via-se perfeitamente as pessoas fugirem em desespero, enquanto três tiros disparados do lado oposto da rua atingiam o campo de radiações atrás do qual Kuri Oneré e Fellmer Lloyd se encontravam.
Por onde devo passar para chegar à entrada dos fundos? — gritou Lloyd ao saltador que se dedicava à venda de frubikar.
O projetor hipnótico que trazia na mão reforçava a pergunta.
Tenho que avisar a Administração...
Deixe isso para depois! — disse Lloyd em tom ameaçador. — Vai responder logo, ou será que terei de usar outros métodos?
Um chuvisco de fogo ofuscante, produzido pelo impacto de cinco radiadores térmicos sobre o mesmo ponto, abalou o campo protetor e por pouco não o rompeu. O pequeno conversor preso ao teto emitiu um uivo desagradável, porque não conseguia absorver o impacto súbito de tamanha carga energética.
Os disparos foram dirigidos contra Fellmer.
A mais jovem das vendedoras saiu em carreira desabalada e soltou um grito histérico:
Sigam-me!
Lloyd e Kuri acompanharam-na de perto.
Os elevadores antigravitacionais ainda não haviam chegado aos prédios da velha Kuklon Psor. Desceram por escadas gastas, atravessaram recintos habitados nos quais os arcônidas e saltadores os fitavam com uma expressão de pavor, passaram por outra escada e subitamente viram-se num beco pouco movimentado.
Kuri Oneré e o agente de Perry Rhodan correram até a esquina. Uma vez lá, Lloyd pegou a mão de sua acompanhante e os dois passaram a caminhar entre a multidão que nem dois turistas cósmicos que quisessem matar o tempo em Kuklon.
No momento, não temos nada a recear — disse Fellmer, acreditando que com estas palavras deixaria a moça mais tranqüila.
Como sabe disso, prebonense? Como soube do ataque à minha residência e diante da loja de frubikar? — perguntou a moça em tom exaltado e cheia de razão.
O prebonense começava a assustá-la. Será que sabia ler o futuro?
Senti, Kuri — respondeu Fellmer. Não estava mentindo, mas para qualquer arcônida ou mercador galáctico a resposta seria inacreditável.
Como é possível que... — Kuri calou-se, assustada.
Mais uma vez, seu acompanhante assumiu um aspecto muito estranho e assustador! Apenas, desta vez era diferente daquilo que vira em seu quarto.
Começava a transpirar! Estava ficando pálido. Seu rosto contorceu-se, e não deu mais um único passo.
O que teria acontecido com ele?
Olhou em torno e estava prestes a pedir socorro, quando Fellmer Lloyd soltou um gemido e recuperou seu aspecto normal.
Kuri Oneré era uma colaboradora sem par.
Sabia dominar a curiosidade e reprimir as perguntas que lhe ardiam na língua. Não o incomodava com indagações. Esperava que o prebonense falasse espontaneamente.
Chegaram a uma pracinha. À esquerda deles, um táxi aéreo estava descarregando os passageiros. Fellmer puxou Kuri e correram.
Depressa!
Arrastou-a com tamanha violência que Kuri quase caiu. Saltaram para dentro do táxi. A alavanca de aceleração passou da marca máxima. A antigravitação indômita fez o táxi aéreo saltar; o ar aspirado produziu um uivo. E, quando Fellmer Lloyd moveu a chave do propulsor com a mesma violência, atingiram a altura dos telhados.
Pouco abaixo deles, a cumeeira de uma casa fundiu-se sob a ação de um radiador térmico.
Havia rechaçado o terceiro ataque desde que chegara à residência de Kuri. Enquanto o táxi aéreo corria vertiginosamente acima das casas de Kuklon, Fellmer Lloyd aguardava o quarto ataque.
Não poderia deixar de vir.
O inimigo tirou a máscara. Saíra do esconderijo e passara ao ataque direto.
Depois do golpe traiçoeiro na loja de frubikar, onde pretendiam dar cabo deles sob o fogo de cinco radiadores térmicos, uma imensa energia hipnótica esforçou-se para submeter sua mente a uma vontade estranha. Foi só graças ao processo de aprendizado arcônida a que se submetera que não foi dominado.
Enquanto Fellmer Lloyd olhava atentamente em torno, supondo em cada táxi aéreo a presença do inimigo, compreendeu por que Ralph Sikeron pôde ser assassinado.
Também preciso transmitir a mensagem — disse o agente a meia voz, sem incomodar-se com a presença de Kuri.
De qualquer maneira, a moça não demoraria em descobrir a verdadeira identidade de Asargud. Apenas, não deveria saber que a base da qual haviam partido ficava na Terra.
A certa distância, surgiu o maior edifício da cidade, que abrigava a Administração arcônida. O prédio servia de residência ao Administrador, o elemento mais poderoso dos negócios de Volat.
Kuri Oneré fitou Lloyd com seus lindos olhos escuros. Não disse uma palavra. Recuperou-se com uma rapidez espantosa do susto provocado pelos ataques sucessivos.
Kuri, não seria preferível que se
afastasse de mim? Onde eu estou, está o perigo e... — Lloyd manteve-se em silêncio.
Perigo!”, gritou seu sentido de localização. “Perigo vindo da esquerda. Perigo vindo de outro táxi.
Kuri, Jidif está atrás de nós de novo... — com isso, revelou espontaneamente o segredo de sua faculdade. Olhando de soslaio, percebeu que a moça recebeu suas palavras com certo alívio.
Depois da fuga precipitada, Fellmer Lloyd subira bastante com o táxi. Encontrava-se numa altitude proibida para esse tipo de veículo, mas essa situação se revelaria vantajosa.
Desceu em pique, tomando a direção do campo de pouso da cobertura da Administração de Árcon. Aproximava-se rapidamente do maior edifício de Kuklon. O propulsor muito fraco gemia ao dar o máximo de sua potência. O ar represado fustigava o táxi. O vácuo produzido atrás do veículo o fazia balançar. Fellmer Lloyd ficou com o rosto impassível. Kuri mantinha-se muito séria, olhando vez por outra para os perseguidores.
O veículo destes era mais veloz, embora não pudesse perder altitude. Kuri ia informar Fellmer Lloyd a este respeito, quando o rosto do mutante se contorceu numa horrível careta.
Mais uma vez, as forças hipnóticas tentavam subjugá-lo mentalmente.
Um arcônida ou saltador galáctico procurava detectá-lo, levantar um bloqueio em seu cérebro e privá-lo de qualquer vontade própria.
O alvo avistado, o edifício da Administração de Árcon, desmanchou-se diante dos olhos de Fellmer Lloyd. Este nem chegou a perceber que Kuri Oneré o empurrara para o lado e assumira o comando do táxi. O motor havia sido muito forçado.
Sons inarticulados saíam da boca retorcida de Lloyd. Sua vontade reunia as últimas reservas de energia para resistir às tremendas forças hipnóticas.
Outro impulso hipnótico chegou ao seu cérebro:
Desista, Fellmer Lloyd!
Num gesto inconsciente, os pensamentos do agente cósmico gritaram por socorro. O grito foi dirigido a Perry Rhodan.
Teria traído a existência de Rhodan, se a mesma já não tivesse sido revelada por Ralph Sikeron.
Desista, Lloyd! Rhodan nunca mais poderá ajudá-lo. Desista! — a torrente hipnótica que se despejou em sua mente foi seguida por uma orgia de ódio.
Kuri Oneré percebeu que subitamente todas as resistências do prebonense pareciam cessar. Não compreendia contra o que estava lutando, mas sentiu que um perigo mortal ameaçava seu companheiro.
Agiu como mulher: impulsivamente.
O táxi que os perseguia já se aproximara a duzentos metros. Faltavam cerca de três quilômetros para chegar ao edifício da Administração de Árcon.
Freou!
Foi atirada contra o painel pouco resistente do táxi aéreo assim que foram liberadas as fortes energias da frenagem. Depois, ligou o propulsor para o vôo à ré. E imprimiu a aceleração máxima à máquina. Uma luz vermelha acendeu-se no painel.
Tratava-se de uma tentativa de abalroamento realizada dois mil metros acima de Kuklon.
O táxi, que vinha atrás, percebeu tarde que o veículo perseguido acabara de frear. Executou um movimento cambaleante para escapar à colisão.
Alguma coisa estalou às costas de Kuri. Um tremendo abalo sacudiu seu táxi, que desceu vertiginosamente em espiral. Neste momento, o outro táxi caía, fazendo com que os propulsores uivassem.
A jovem executou alguns giros, parecendo que não conseguiria controlar o veículo.
De repente, um homem saltou para seu lado. Duas mãos seguraram-lhe os pulsos. Sentiu-se empurrada. Fellmer Lloyd voltara a ser um prebonense. Com um rapidíssimo movimento em sentido contrário, controlou
o movimento em espiral do táxi, conseguiu acertar o leme e retomou o curso anterior.
Obrigado, Kuri — disse, e logo acrescentou: — Não se entregue a quaisquer esperanças. Essa gente não está caindo. Logo terão o táxi sob controle.
Prebonense...
Lloyd interrompeu-a com um gesto.
Depois explico. Jidif morreu! Foi neste instante. Não sinto mais nada dele — os olhos escuros da moça fitaram-no com uma expressão de pavor.
Naquele instante, Kuri Oneré compreendeu que nem o homem a seu lado e nem Asargud eram prebonenses.
Enquanto o suor continuava a correr sobre o rosto cansado de Fellmer Lloyd, o agente dirigiu-se à moça e disse:
Não sou prebonense, Kuri, e Asargud também não foi. Já compreende por que sei ler pensamentos?
O serviço de vigilância aérea dos arcônidas, muito bem organizado, não deixou de notar as manobras loucas dos táxis aéreos, realizadas nos céus de Kuklon. Três naves policiais, inconfundíveis pelo formato, cercaram os fugitivos e obrigaram-nos a tomar a direção do edifício da Administração de Árcon.
Fellmer Lloyd não fez nenhuma tentativa de fuga, embora não soubesse como seriam as coisas depois do pouso no grande edifício.
O radiador térmico! — lembrou Kuri Oneré.
Fellmer riu de suas preocupações. Pôs a mão num dos bolsos laterais e mostrou-lhe o porte de arma. Tratava-se de um produto de primeira ordem, nascido nos laboratórios da defesa solar.
Depois do pouso, também mostrou a licença ao orgulhoso arcônida, que pegou o radiador térmico de Fellmer com os dedos compridos e o colocou junto com as outras armas. Pegou a licença com um gesto de pouco caso. O arcônida arrogante nunca teria esperado que Fellmer possuísse essa licença.
Confira! — disse para o saltador que cochilava perto dele.
O arcônida e o saltador estavam pensando numa mensagem pelo hiper-rádio a ser expedida para o planeta de Prebon, situado a 794 anos-luz de Árcon. Fellmer Lloyd, que controlava os pensamentos dos dois homens, sabia que dali só sairia como prisioneiro se qualquer erro, por mínimo que fosse, tivesse sido cometido pela defesa solar na confecção da licença.
Kuri Oneré manteve-se de pé atrás do mutante. Não fora incluída na averiguação pois, sendo uma moça, parecia insuspeita.
De repente, chegou uma mensagem vinda da cidade. Só o arcônida pôde ouvi-la. Mas Fellmer Lloyd conseguiu inteirar-se da notícia através de seu dom telepático.
A polícia arcônida acabara de achar o outro táxi aéreo que participara da fuga. Descobrira que embaixo da carroceria existia um mecanismo propulsor de potência extraordinária e um conversor que fornecia energia para várias armas de radiações. Dos ocupantes não foi encontrado o menor vestígio.
O arcônida lançou um olhar pensativo para o prebonense. A notícia que acabara de ser recebida confirmava em muitos pontos as declarações do homem que fora detido em caráter provisório.
Com um ligeiro nervosismo, Fellmer aguardava o resultado da mensagem de hiper-rádio expedida com destino a Prebon. Teve que ter dez minutos de paciência. Quando o saltador voltou ao gabinete com a licença na mão, já conhecia o resultado.
A defesa solar havia realizado um trabalho de precisão.
A licença é legítima, venerando senhor — disse o mercador galáctico com um olhar servil dirigido ao arcônida. Mas a desconfiança deste ainda continuava viva.
Como foi que as autoridades de Prebon emitiram uma licença com validade para Volat e...
O saltador interveio apressadamente:
A licença traz o selo da Administração de Árcon em Prebon e foi registrada sob o número 666.748/54 KR pelo computador regente de Árcon.
O arcônida submeteu-se a este argumento do saltador. Com um gesto de contrariedade, empurrou as armas e a licença para Lloyd e resmungou:
O senhor não escapará da multa legal pela violação das leis do espaço aéreo.
Dali a meia hora, Fellmer Lloyd foi condenado ao pagamento de elevada pena pecuniária. O dinheiro que trazia quase não dera para o pagamento imediato da multa. A quantia miserável que lhe restava não bastava sequer para alimentar o autômato do táxi aéreo, mesmo para uma viagem brevíssima.
E Kuri Oneré esquecera de levar dinheiro por ocasião da fuga precipitada de sua residência.
Lloyd lembrou-se da arcônida que encontrara no edifício do espaçoporto.
Onde posso encontrar uma cabine de comunicação audiovisual? — perguntou, dirigindo-se a Kuri.
Quando a jovem ia falar, o sentido de localização de Fellmer Lloyd voltou a dar o alarma.
O inimigo tornava a atacar na área do supersensorial.
Alguém procurava apoderar-se dos pensamentos do agente cósmico. De um momento para outro, Lloyd voltou a sentir o vazio alarmante no cérebro.
De qualquer maneira, suas energias mentais lhe possibilitavam a resistência até certo ponto contra qualquer tipo de interferência telepática. Seu sentido de localização indicou a direção do ataque. Captou o modelo de vibrações cerebrais, que estava recheado de ódio.
Lloyd reuniu todas as energias e passou ao ataque. Enquanto isso, Kuri Oneré examinava os arredores com os olhos chamejantes. Em cada ser vivo que aparecia, acreditava ver um inimigo de seu acompanhante.
Fellmer Lloyd estava vencendo as resistências do inimigo com um choque telepático concentrado. Porém um forte bloqueio hipnótico protegeu o cérebro do mesmo, fazendo com que a energia expedida por Lloyd fosse dar no vazio.
Seus inimigos eram um hipno e um telepata. Seriam os chefes?
Naquele instante, a mente de Fellmer só conseguiu conceber uma única idéia: a fuga. Sabia que não teria condições de resistir a outra investida hipnótica. Ainda sentia por todo o corpo o ataque hipnótico desfechado contra sua vontade quando, juntamente com Kuri Oneré, se dirigia no táxi aéreo ao edifício da Administração. Parte do cérebro parecia ter sido destruída pelo fogo.
O amplo elevador antigravitacional levou-os ao campo de pouso da cobertura.
A ação seria inútil. Para um hipno, alguns quilômetros a mais ou a menos não tinham a menor importância. E o inimigo encontrava-se no edifício da Administração, apenas alguns andares abaixo do lugar em que estava Fellmer.
Por enquanto, não está chegando nada — foi o cochicho que Kuri ouviu da boca de seu companheiro que, apesar do perigo, irradiava uma calma enorme.
Só uma única vez Fellmer Lloyd agira de forma irresponsável no Exército de Mutantes de Perry Rhodan. Depois disso nunca mais cometera um erro de proporções mais graves. Naquela época, há mais de seis decênios, a leviandade com que agiu no planeta Peregrino pôs em perigo a vida de Rhodan e de muitos dos seus companheiros. Agora a vida de bilhões de seres humanos do planeta Terra dependia dele.
Chegaram à cobertura.
Fellmer Lloyd viu a nave policial de dois tripulantes à sua frente. O propulsor estava na posição zero. A vinte metros dali, o piloto, um saltador, estava encostado em atitude relaxada à coluna de apoio telescópica de uma nave ligeira e conversava com uma moça.
Depressa! — disse Fellmer Lloyd, empurrando Kuri para dentro da nave policial.
Estava repetindo o procedimento que adotara ao entrar no táxi aéreo estacionado na praça de Kuklon. Kuri sentou-se numa poltrona. Lloyd ocupou outra. A escotilha foi fechada ruidosamente. As barreiras automáticas foram ativadas.
O piloto, encostado ao suporte da outra nave, ouviu o ruído, olhou para trás sem desconfiar de nada e viu sua nave subir rapidamente ao céu.
Fellmer Lloyd não chegou a ouvir seu grito de alarma.
Colocou o projetor hipnótico na mão de Kuri Oneré.
Se meu rosto voltar a desfigurar-se, aponte para mim e aperte o gatilho. Não faça perguntas e não perca um segundo. É melhor apertar o gatilho o mais rápido possível. Uma fração de segundo de atraso significa um erro fatal. Você sabe pilotar esta nave?
Kuri lançou um olhar apavorado para a arma hipnótica que segurava na mão.
A nave policial de dois ocupantes — um artefato de primeira ordem da tecnologia arcônida — disparava com a aceleração de 3G em vôo horizontal acima dos telhados de Volat, em direção à faixa de mata virgem.
Fellmer Lloyd examinou atentamente o espaço aéreo. Suas energias telepáticas atingiram o primeiro telegrafista do edifício da Administração. O arcônida ainda não fora informado do roubo da pequena nave policial.
O mutante fez três coisas ao mesmo tempo. Transmitiu ligeiras instruções a Kuri, indicando-lhe o lugar para o qual deveria voar, caso um tiro da arma hipnótica o colocasse fora de ação, e informando-a sobre a maneira de pilotar a nave; seus olhos percorreram o céu, em busca de eventuais perseguidores; e sua capacidade telepática controlava os conhecimentos da central de rádio da Administração de Árcon.
A nave policial já havia alcançado a velocidade máxima e se encontrava a cem quilômetros de Kuklon, quando um tiro de radiações foi disparado de uma posição oculta, a título de advertência e intimação para pousar.
Numa terrível curva vertical, Fellmer Lloyd fez com que a nave se aproximasse do solo. Tentaria escapar quase ao nível do solo, pois sabia que um canhão arcônida de radiações só pode disparar num ângulo mínimo de quinze graus.
Estava colocando a nave na horizontal, quando tremendas forças hipnóticas procuraram apoderar-se de sua vontade. Retesou-se e soltou um gemido.
Sem pestanejar Kuri disparou contra ele. A arma hipnótica estava regulada na potência máxima. O raio transformou-o temporariamente num boneco humano, que possuía um corpo, mas não tinha espírito.
Com a arma no colo, Kuri assumiu o controle da nave. Era facílima de ser manobrada, mas sua pilotagem exigia certa experiência. Acontece que, no caso de Kuri Oneré, a vontade de lutar juntamente com seu companheiro contra o perigo invisível compensou em parte a falta de experiência.
Numa manobra perigosa, fez a nave correr rente ao solo. O raio energético ofuscante expelido pela posição de artilharia situada atrás deles não os atingiu. Formando um ângulo de quinze graus, subiu ao céu e perdeu-se na luz do sol Heperés.
A faixa escura da mata surgiu a distância, mas ao mesmo tempo um ponto reluzente anunciava a aproximação de uma nave vinda da direita.
Com o maior sangue-frio, Kuri Oneré deixou que o propulsor trabalhasse em regime de superaquecimento. Bastaria que continuasse a funcionar por alguns segundos para que atingissem o destino.
O campo de neutralização não conseguiu absorver todas as energias produzidas pela manobra de frenagem. Kuri foi atirada contra o painel de instrumentos com uma força de 5 ou 6G, enquanto a nave passava por cima da mata. Naquele instante, o propulsor foi atingido de raspão por um tiro disparado pela nave que os perseguia.
Antes que Kuri pudesse fazer qualquer coisa, a pequena nave bateu fortemente contra a copa de uma enorme árvore. O molejo dos galhos e as energias do campo de neutralização diminuíram a força do impacto. A nave girou em torno de seu eixo e desprendeu-se dos galhos. Caiu e desapareceu sob as folhagens da mata de Volat.
Os geradores da nave continuavam em perfeitas condições, e o conversor ainda funcionava. A jovem mulher da raça dos mercadores galácticos não deu a menor atenção a estes pontos. Fez aquilo que Lloyd lhe mostrara e explicara.
Pouco antes de atingir o solo — depois da queda da árvore de setenta metros de altura — ela havia comprimido a tecla do dispositivo antigravitacional, e a nave pousara suavemente.
Fellmer Lloyd estava meio preso sob o painel de instrumentos. Kuri desvencilhou-o. Não se esquecera da nave que os perseguia. Com uma das mãos, acionou o dispositivo automático da escotilha, enquanto com a outra arrastava Lloyd para fora da nave. Finalmente a cabeça do mutante de Perry Rhodan descansou nos ombros da jovem mercadora galáctica. Depois escondeu o homem inconsciente no interior da mata.
Acima de suas cabeças, uma nave policial dos arcônidas descrevia círculos.
8



Um sorriso largo cobria o rosto de Fellmer Lloyd, que tinha todo motivo para estar alegre. A Administração de Árcon estava furiosa. Ainda não tinha a menor idéia de quem poderia ter usado a nave de dois lugares da força policial numa fuga para a selva. Até mesmo o grande computador positrônico concluiu, com uma margem de erro de apenas 5,32 por cento, que o prebonense que pouco antes fora condenado a pagar uma elevada pena pecuniária, logicamente não seria culpado de outra infração.
Kuri Oneré acreditava em tudo que ele dizia, embora da mesma forma que ela seu acompanhante não tivesse estado em Kuklon.
Tenho que “folhear” os pensamentos de um arcônida — disse ele.
A seguir, se colocou no estado que, segundo Kuri, era o de olhar para dentro.
Sorriu para ela sem dizer uma palavra. O sorriso transformou-se em admiração pela moça.
Depois de algum tempo, perguntou:
Por que os mercadores galácticos não são todos gente formidável como você? A vida na Galáxia poderia ser tão bela e pacífica.
A moça sentiu-se embaraçada; procurou mudar de assunto.
Será que os dois seres que atacam do invisível são mercadores galácticos?
Lloyd já não se encontrava sob os efeitos do tiro disparado pela arma hipnótica. Fazia uma hora que os últimos efeitos colaterais haviam desaparecido. Hesitou antes de responder, porque não sabia muito bem o que devia dizer.
Provavelmente são, Kuri, mas também é possível que sejam arcônidas. Um deles sabe fazer aquilo que você fez há pouco com a arma hipnótica. Sabe colocar qualquer pessoa sob sua “mira” e privá-lo de vontade própria, impondo-lhe outra vontade. Os efeitos da força hipnótica natural são mais intensos, menos nocivos à saúde e mais prolongados que qualquer tiro da arma hipnótica, por mais potente que seja esta.
O outro saltador ou arcônida procura ler meus pensamentos. Acontece que não é muito competente na sua área de ação. Apesar disso, representa, juntamente com o hipno, um perigo grave. Como devemos fazer para colocá-los fora de ação? Já lhe disse ser altamente provável que foram eles os assassinos de Getlox Asargud?”

* * *

Quando na Terra faltavam poucos dias para que terminasse o mês de julho, o exército particular de Fellmer Lloyd, a 4.342 anos-luz, no planeta Volat, estava pronto para entrar em ação. Sem o auxílio do simpático povo de insetos, nem mesmo com os imensos recursos monetários de que podia lançar mão, teria conseguido reunir um grupo de mercenários que inspirasse a necessária confiança.
Embora os volatenses aparecessem raramente na cidade de Kuklon, dispunham de excelentes relações. Fellmer Lloyd nunca descobriu como haviam conseguido; sempre que perguntava, pediam-lhe que se dirigisse à mãe onisciente e deixavam entrever que a rainha lhe dedicava toda a simpatia.
Por duas vezes Lloyd assumiu o risco de penetrar às escondidas na cidade de Kuklon. Depois da primeira visita, que durara uma hora, Kuri Oneré voltara a fixar-se lá. Conseguiu angariar os saltadores Ghal, Zintx, Oslag e Ulmin. Por dinheiro esses rapazes arrancariam da cama Mans-rin, o administrador de Árcon, e o levariam à Praça Thator.
Três volatenses, que circulavam constantemente entre a capital de Volat e Kuklon, conseguiram conquistar um ser do mundo de Haspro e três gigantes narigudos do sistema de Gfirto para a causa de Fellmer Lloyd. Os gigantes narigudos provocavam risadinhas até mesmo nos funcionários coloniais arcônidas, que estavam acostumados a ver as coisas mais bizarras. Com os corpos cobertos de pêlos e os três braços e as três pernas, aqueles seres transmitiam à primeira vista a impressão de serem idiotas e engraçados. Acontece que eram negociantes espertos, que na capacidade de farejar os grandes negócios não ficavam atrás dos saltadores. E ainda dispunham de imensa energia física e de audácia proverbial.
Os seres do mundo de Haspro com sua cabeleira em forma de juba lembravam os faunos da mitologia grega. Na verdade, eram calculistas geniais e costumavam ser encontrados nos lugares onde um cérebro positrônico para ser instalado daria muita despesa. Fellmer Lloyd descobriria por acaso que, além dessa qualidade, possuíam memória fotográfica e nunca se esqueciam de algo que houvessem visto, mesmo de relance.
Nem pensou em utilizar a residência de Kuri Oneré como “caixa de correio”. As notícias relativas ao seu exército convergiam para a casa de O-Oftftu-O, o único volatense que possuía uma casa situada entre a cidade de Kuklon e o espaçoporto. Fellmer Lloyd preferiu não formular perguntas sobre a grafia correta do nome.
Abrira seu quartel na selva, oitenta quilômetros ao oeste do lugar em que pousara com a Gazela. Até agora, o pequeno transmissor se mantiver a em silêncio. A outra estação ficava na residência de O-Oftftu-O. Fazia uma hora que um volatense saíra de junto do mutante, dirigindo-se à capital. O agente cósmico ainda estava interpretando as notícias que acabara de receber, quando seu receptor emitiu um ligeiro sinal.
Fellmer lançou um olhar pensativo para o rádio, suspirou pesadamente e, nos próximos quinze minutos, tomou todas as providências necessárias para remover todos os vestígios de seu quartel na selva. O ligeiro sinal que acabara de receber significava que sua presença em Kuklon era indispensável.
Assim que o sol Heperés desceu abaixo da linha do horizonte, pegou um modelo Xun, um tanto antiquado, que fora arranjado pelo saltador Ulmin, e voou para Kuklon.
A ação decisiva contra os dois arcônidas ou saltadores — dos quais um era hipno e outro, telepata — logo seria iniciada.

* * *

Em casa de O-Oftftu-O, encontrou os saltadores Ghal e Oslag, o ser do mundo de Haspro e um dos gigantes narigudos. Examinou-os discretamente. Sabia que estavam muito mais interessados em descobrir quem era ele do que em ficar grudados nos calcanhares de Tirr, um rebento degenerado do clã dos Uxlad, a fim de descobrir onde ficava a base dos dois chefes.
Nem mesmo Kuri Oneré sabia que o mundo de Fellmer Lloyd era a Terra, um planeta que, segundo se dizia, fora transformado num sol há cerca de seis decênios, por meio de uma operação combinada dos mercadores galácticos e dos superpesados. Na verdade, esse destino ficou reservado a um planeta sem vida do sistema Beta.
Oslag tinha uma novidade importante.
Vi os dois chefes — informou.
Seguiu-se uma descrição muito detalhada. Lloyd efetuou um controle rigoroso do jovem, para verificar se o mesmo dizia a verdade. O saltador não estava mentindo. Apesar disso, o mutante sacudiu a cabeça, num gesto de incredulidade. Pela descrição, nenhum dos chefes poderia ser um saltador ou um arcônida. Oslag manteve-se irredutível nas suas afirmativas.
O ser do mundo de Haspro interveio na palestra, dando provas de sua memória fotográfica. Também havia visto os dois chefes.
Fellmer Lloyd não demonstrou a excitação que sentia no seu íntimo. Seus inimigos não eram arcônidas nem mercadores galácticos, e isso fazia desmoronar a teoria que elaborara.
De onde teriam vindo os dois chefes?
Os presentes aguardavam sua decisão; fitavam-no atentamente. Fellmer Lloyd não seria um agente de Rhodan se não visse no ataque a melhor defesa. Mas queria que Kuri Oneré estivesse perto dele quando fosse iniciada a operação dirigida contra o edifício comercial dos saltadores, situado nas proximidades do espaçoporto. Não havia a menor dúvida de que os chefes haviam escolhido esse edifício para montar sua base de operações.
Já era quase meia-noite, Kuri Oneré chegou à residência de O-Oftftu-O. Os dois saltadores, o gigante narigudo e o ser do mundo de Haspro ocupavam suas posições.
O tráfego metropolitano rugia pela via expressa que ligava o espaçoporto à cidade de Kuklon, sem preocupar-se com o avançado da hora.
No gigantesco espaçoporto, o trampolim da Galáxia, que ficava além das muralhas do Grande Império, assistia-se às idas e vindas incessantes de milhares de passageiros. As gigantescas naves pousavam e decolavam sem cessar.
De ambos os lados da via expressa, erguiam-se os arranha-céus. Os edifícios não eram tão altos e pomposos como os edifícios de escritórios que rodeavam a Praça Thator. Mas também davam testemunho evidente da riqueza dos vários clãs dos saltadores cujos serviços administrativos se desenvolviam no seu interior.
Os mercadores galácticos eram, por natureza, ciganos interestelares. Os membros dos diversos clãs, cujo número por vezes chegava a mais de dez mil, habitavam, com algumas poucas exceções, as naves cilíndricas, onde viviam e morriam.
Uma pequena minoria fixara-se em determinados lugares, mas nem por isso se distanciava do clã. Os laços invisíveis, que ligavam os mercadores galácticos ciganos e os sedentários, pareciam ter sido tecidos para toda a eternidade.

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