Era o
quarto amanhecer na selva. Fellmer Lloyd mastigou mais três tabletes
de alimento concentrado. E outra vez abriu caminho pela vegetação
da mata tropical. Já fizera observações sobre a flora.
A pequena
clareira que acabava de atravessar era um jardim do inferno. Nele
encontrou samambaias. Pareciam inofensivas, e não desconfiara de
nada. Para ele, as folhas de um metro quadrado não passavam de
folhas. Mas, no momento em que se dispôs a passar furtivo ao lado
das plantas, as folhas inflaram-se, formando bolhas, giraram
instantaneamente a face oposta à luz para seu lado e bombardearam-no
com gás. As outras samambaias que o rodeavam dobraram os caules da
grossura de uma coxa humana, formando uma muralha de folhas, e
voltaram-lhe a face exposta à luz. Sem se transformarem em bolhas,
começaram a expelir uma massa pegajosa.
Foi só
graças à sua reação instantânea, que Fellmer pôde continuar
vivo. Logo ao primeiro jato de gás prendeu a respiração; e,
imediatamente, levantou o radiador de impulsos térmicos e varreu a
clareira.
Quando
olhou-a pela última vez, compreendeu que, durante um ano, nenhuma
samambaia cresceria na torrente vitrificada que ia endurecendo aos
poucos.
Depois de
caminhar mais três passos, estacou.
Estava
cercado de volatenses. Onde quer que houvesse um espaço livre em
meio à confusão de troncos e à vegetação rasteira, eles o
fitavam com uma expressão hostil nos olhos salientes. As antenas que
encimavam os olhos, e que serviam simultaneamente como órgãos de
fala, tato e audição, mantinham-se numa agitação ininterrupta.
As cabeças
de inseto dos volatenses mantinham-se imóveis, tal qual os “braços”,
que eram tão firmes que a menor carga fatalmente os quebraria. As
pernas também não eram muito mais desenvolvidas. O que mais lhe
assustava eram os corpos superfinos e alongados, coloridos de marrom
e verde.
Lloyd
absorveu uma torrente de vibrações cerebrais, acompanhadas da
informação de que os volatenses não poderiam ser localizados se
não o quisessem. Mas os impulsos mentais desses seres o atingiam com
a força de um potente emissor de interferência, que paralisava as
comunicações mentais; e todos os impulsos eram hostis.
Queriam
impedir que continuasse a avançar pela selva.
— Volte!
— foi a mensagem que recebeu.
E essa
mensagem que vinha de todos os lados era repetida ininterruptamente.
Levantou
as mãos e espalmou os dedos, procurando mostrar que suas intenções
eram pacatas.
— Volte!
Fellmer
Lloyd sacudiu a cabeça.
— Não;
vou continuar
— emitiu o pensamento concentrando-se ao máximo. — Quero
que vocês me levem à mãe onisciente.
— Volte!
Como se
obedecessem a um comando, os volatenses se aproximaram. Cercaram-no.
O círculo fechou-se cada vez mais. Os olhos salientes tornaram-se
ainda mais hostis. Todos os volatenses levantaram a mão direita na
qual seguravam uma zarabatana. Era com ela que disparavam as setas
envenenadas.
Então era
esta a arma dos volatenses!
— Que
diabo!
— pensou Lloyd, bastante contrariado com o fracasso de sua
tentativa de entrar em contato com os volatenses. — Por
que será que Ralph Sikeron conseguiu estabelecer contato?
— Ralph
Sikeron?
— a pergunta, vinda de todos os lados, atingiu-o por via
telepática.
— Getlox
Asargud
— pensou Lloyd, acrescentando: — Ralph
Sikeron é Getlox Asargud.
O brilho
hostil desapareceu dos olhos salientes, como se fosse a luz de
holofotes apagando-se. No mesmo instante, cessou a recepção
deprimente dos impulsos vindos de numerosos cérebros volatenses.
Lloyd
esforçou-se com mais intensidade para explicar a esses seres que
pertencia à mesma espécie de Sikeron, que era confidente do mesmo,
e que estava à procura da mãe onisciente.
Agora já
não tinha a menor dúvida. Toda vez que pensava na mãe onisciente,
a atitude dos volatenses mudava por completo. Moviam a cabeça num
gesto humilde, bastante humano, e inclinavam os corpos de inseto.
— Tenho
de perguntar a minha mulher se podemos mostrar o caminho que leva à
mãe onisciente.
Fellmer
Lloyd não riu quando captou este pensamento. Os volatenses
encontravam-se sob o regime do matriarcado. A rainha hereditária que
regia os destinos desse povo inofensivo e simpático era a mãe
onisciente. Vivia na mata, num lugar retirado; nunca teve a ambição
de desenvolver uma tecnologia, mas em compensação dedicava-se ao
cultivo das ciências do espírito.
Fellmer
Lloyd esperou dois dias até que os homens de Volat voltassem. Teve
tempo para avaliar o resultado de sua atuação. Não ficou muito
satisfeito. Nem sequer estava em condições para enviar uma mensagem
de rádio à Lotus, que se mantinha em posição de espera, pois ele
ainda não sabia explicar o que Ralph Sikeron quis dizer quando
registrou a palavra Supercrânio em sua agenda.
Quem
poderia ser o arcônida ou o mercador galáctico que possuía
faculdades supersensoriais, e por isso se transformara no inimigo
mais perigoso de qualquer agente cósmico?
Será que
a mãe onisciente dos volatenses poderia desvendar o mistério?
6
O
gigantesco platô de pedra, que se erguia para o céu em meio à
planície coberta de matas, tinha o formato de uma pirâmide achatada
e estava rodeado de gigantescas árvores.
Os
volatenses do sexo masculino mostraram a Lloyd o caminho que levava à
mãe onisciente. A capital residencial desse povo ficava no centro do
platô. Ali viviam sem que ninguém os perturbasse, e não estavam
sujeitos às influências da tecnologia que predominava na parte do
planeta colonizado pelos arcônidas.
Lloyd viu
casinhas do tipo convencional. Viu construções em forma de casa de
marimbondo com abrigos difíceis de serem encontrados.
Os
volatenses haviam perdido com a evolução aquilo que já fora uma de
suas características, isto é, a capacidade de deslocar-se pelo ar
que nem insetos comuns. As demais características foram conservadas.
A mulher
reinava em tudo. O volatense do sexo masculino era apenas tolerado e
não exercia a menor influência na vida pública ou privada. Mas, de
três em três anos, a inquietação se apossava de todos os
volatenses adultos, e então todas as diferenças se apagavam. Todos
eram iguais. Pela meia-noite a mata virgem transformava-se num templo
e, por um breve espaço de tempo, os ritos misteriosos modificavam
toda a vida daquela raça inteligente.
Fellmer
Lloyd caminhava devagar em companhia dos volatenses.
O centro
da cidade era formado por uma gigantesca praça na qual se via uma
construção em forma de favos, que sobressaía em meio às outras
como se fosse um monumento. A construção era esguia e tinha pouco
menos de cinqüenta metros de altura; mas, ao contrário das outras
construções em forma de favo, apresentava uma ornamentação
maravilhosa, que despertou a admiração, de Lloyd.
Subitamente
encontrou-se com as primeiras “mulheres”
de Volat. Eram do mesmo tamanho dos homens, mas apresentavam um
aspecto mais delicado e gracioso; tinham algo do charme feminino.
Além disso, a cor da pele puxava mais para o marrom. O preto só
surgia nas saliências finas em forma de córnea. Suas antenas tinham
quase o dobro do comprimento das dos homens, e eram muito mais
robustas; e seus impulsos mentais chegavam a Lloyd com o dobro da
intensidade.
Os
cumprimentos foram ligeiros. Os homens volatenses, que tinham levado
Lloyd até ali, retiraram-se.
Caminhando
no meio das mulheres, foi levado ao palácio da mãe onisciente.
A abertura
inferior tinha uma altura que lhe permitia entrar pela mesma sem
abaixar-se. O interior era iluminado por velas de sebo. A primeira
sala tinha o formato de favo. E tudo que se encontrava no seu
interior possuía o mesmo formato. Fellmer Lloyd tinha a impressão
de encontrar-se num enxame de abelhas operosas. A experiência tinha
algo de irreal. O corredor, que subia em forma de serpentina, provava
praticamente que os volatenses já não dominavam a arte do vôo.
Viu a mãe
onisciente diante de si; e, antes que pudesse captar qualquer impulso
mental emitido pela mesma, percebeu que se encontrava diante de uma
rainha.
Lloyd
recuou instintivamente, e assustou-se com os pensamentos da rainha:
— Aproxime-se,
forasteiro. Tal qual Sikeron, você traz na testa o sinal de quem já
viveu muito. Você é muito mais velho do que aparenta; é amigo de
Sikeron.
Fellmer
Lloyd sentiu-se estupefato.
Nunca
ouvira isso de um estranho. E que sinal na testa era este a que
aludira a mãe onisciente? Como poderia ver que recebera no planeta
Peregrino, juntamente com Ralph Sikeron e outros mutantes, a ducha
celular que evitava o envelhecimento por um prazo de sessenta anos?
Pediu uma
explicação, mas a mãe onisciente dos volatenses, de modo sábio e
humano, recusou-se a explicar.
Seu
caráter majestático tornou-se mais intenso. Irradiava a
inteligência, a calma e a sabedoria proporcionadas pela idade. Aos
olhos de Fellmer Lloyd, ia perdendo progressivamente o aspecto de
inseto. Os contatos mentais tornavam-se cada vez mais intensos.
Estava
sentada que nem ele.
Um
trançado de fibras vegetais lhe servia de apoio. O enfeite da sala
do trono consistia de folhagens que nunca secavam. O favo em que
ficava essa sala era muito maior que qualquer outro.
Ninguém
os perturbou, e a mãe onisciente não tinha pressa.
Não era
uma soberana que comandava; era o pólo de estabilidade dos
volatenses, o ídolo sobrecarregado de trabalho e responsabilidades.
Lloyd não
a apressou para que falasse em Ralph Sikeron. Ela mesma passou a este
tema.
— Esteve
duas vezes nesta sala, Fellmer Lloyd. Da mesma forma que você, não
quis revelar o lugar de onde vinha. Não era nenhum prebonense, da
mesma forma que você não é. Ambos vêm das profundezas dos mundos
estelares; pretendia voltar para lá. Morreu aqui, embora também
trouxesse na testa o signo da vida eterna. Vocês se parecem
bastante; no entanto, ele era diferente de você. Você nos entende
de outra maneira, mas nem por isso com menos perfeição. Acredito
que um mundo que sirva de mãe a Ralph Sikeron e a você só pode ser
um mundo belo, da mesma forma que o mundo dos meus volatenses é
belo.
Fellmer
sentiu-se emocionado ao captar os pensamentos da rainha. Deu-se conta
de que o fato de ter encontrado a rainha representava uma dádiva
inesperada. A veneração que sentia pelas raças estranhas tornou-se
mais intensa. Depois de algum tempo, passou a aludir à descoberta de
Ralph Sikeron.
— Em
Volat existem duas forças, formadas por mercadores galácticos ou
arcônidas, que vivem na escuridão e a partir da escuridão irradiam
seu poder. Sikeron experimentou essas forças e da primeira vez fugiu
para cá. Pediu que eu lhe desse um conselho, mas não lhe pude dar
nenhum.
“Voltou
pela segunda vez; fugira de novo. Ainda dessa vez arcônidas ou
mercadores galácticos o haviam localizado com suas forças
supersensoriais. Ao voltar pela segunda vez pediu permissão para
deixar comigo uma notícia que indicaria o caminho ao seu sucessor.”
— O que
aconteceu, quando Ralph Sikeron voltou para Kuklon, mãe onisciente?
— perguntou Fellmer mentalmente.
— Sabia
que estava caminhando para a morte. Devia saber em que consistia a
força supersensorial cuja presença nunca notamos no povo de Volat.
Sabia que alguém o esperava em Kuklon. Ao despedir-se, disse
textualmente: “Desejo
todas as felicidades possíveis ao povo de Volat, e as mesmas
felicidades desejo ao meu mundo!”
Será que alguém não estará à sua espera quando você voltar a
Kuklon, Fellmer Lloyd?
Quando os
homens de Volat o receberam na periferia da grande praça em cujo
centro ficava o favo governamental, Fellmer sentiu-se cheio de
pressentimentos sombrios.
Não levou
mais de três dias para chegar à Gazela, que não fora localizada
durante a operação de busca desencadeada pelos arcônidas.
7
Kuri Oneré
não se surpreendeu nem um pouco ao cumprimentar o prebonense em sua
residência. A bela moça pertencente à raça dos mercadores
galácticos tinha novidades interessantes para Lloyd.
De início,
surpreendeu-o com a notícia de que o assassino prebonense, com o
qual Fellmer apresentava certa semelhança, fora preso há dois dias
nas favelas de Kuklon e transportado para Prebon. Depois ofereceu
notícias menos agradáveis. No dia seguinte ao do desaparecimento de
Fellmer Lloyd, ela recebera a visita de Jidif.
Estacou em
meio à conversa. Estupefata, fitou o prebonense, que parecia
totalmente alheio a tudo. Preferiu não perturbá-lo.
Oneré
teve a impressão de que o prebonense olhava para dentro de si mesmo.
Lloyd pôs
a mão no bolso. Novamente estava de vestes trocadas. Desta vez
trajava segundo a moda mais recente dos arcônidas. Os bolsos
constituíam um espaçoso “reservatório”
para os dois radiadores um tanto maciços.
A
Administração de Árcon no planeta de Volat não gostava que os
habitantes do planeta andassem pela cidade com radiadores térmicos.
Penas rigorosas haviam sido estabelecidas para o porte desse tipo de
arma sem a necessária licença. Depois que o gigantesco centro de
computação positrônico com sua frieza assumira o governo, as
conseqüências do novo estado de coisas propagavam-se até a
periferia do Grande Império.
Subitamente
Lloyd, apesar do seu aspecto indolente, saltou para trás da porta.
No mesmo instante, a mesma foi aberta violentamente. Antes que Kuri
Oneré compreendesse o que os três homens poderiam desejar em seu
quarto, o prebonense acionou o gatilho da arma de choques. Kuri viu
que dois dos visitantes que não se haviam anunciado caíram para
dentro do quarto e tombaram. Ficaram totalmente imobilizados. O outro
cambaleou em direção oposta, vindo cair no pequeno hall.
O olhar de
advertência de Lloyd obrigou a moça a não fazer o menor movimento.
“Perigo!”,
berrou o sentido de localização de Lloyd.
A
imobilização dos três saltadores ainda não representava o fim da
operação.
Um quarto
homem esperava do lado de fora, junto ao elevador antigravitacional.
Aguardava ansiosamente o sinal convencionado com seus comparsas.
Acontece que Lloyd não havia captado esse sinal. E não poderia
extraí-lo dos cérebros dos saltadores atingidos pelo choque, pois
todos eles estavam com as funções cerebrais adormecidas.
— Por
que não posso socorrê-lo?
Lloyd
captou este pensamento na mente da moça.
Fellmer
Lloyd acabara de descobrir que, além de ser corajosa, Kuri Oneré
não perdera a calma.
— Corra
para fora e, nem que seja por um segundo, procure distrair o sujeito
que está esperando junto ao elevador. Saia gritando, mas não grite
muito alto para não alarmar todo o prédio.
Um sorriso
fugaz passou pelo rosto de Lloyd ao ver que, enquanto se levantava de
um salto, Kuri Oneré passou a mão pela cabeleira para deixá-la
desgrenhada. A seguir, saiu do quarto, soltou o primeiro grito no
hall — nem muito alto, nem muito baixo — e já se encontrava no
pequeno corredor que dava para o elevador antigravitacional.
— Quem
pôs as mãos na moça?
— foi este o pensamento mesclado de pavor e raiva que passou pela
mente do quarto homem. O indivíduo esperava junto ao elevador e
saltou em direção a Kuri Oneré, para tapar-lhe a boca. — Ela
vai alertar todo o prédio.
Neste
instante, Fellmer Lloyd saltou de trás da porta, saiu para o hall,
passou por cima do saltador estendido no chão e, mais uma vez,
acionou o radiador de choques.
O troncudo
mercador caiu aos pés de Kuri Oneré.
— Arraste-o
para o elevador! — disse Lloyd à moça.
Abaixou-se
e pegou o indivíduo, que estava no hall, e colocou-o sobre o ombro
como se fosse um saco vazio. Depois correu para o elevador
antigravitacional e atirou-o no poço.
A
regulagem de gravidade, que imediatamente fluiu para cima, atingiu o
corpo do mercador galáctico, que desceu suavemente atrás daquele
que a moça colocara no elevador. O terceiro não demorou em
acompanhá-los; quando Fellmer Lloyd pretendia pegar o quarto,
viu-lhe o rosto e soltou um assobio.
— Kuri!
— disse, chamando a moça. — Tranque a porta!
Sentou o
homem numa poltrona e teve o prazer de ver o rosto de Jidif.
— Logo
este? — exclamou a moça em tom zangado, assim que reconheceu o
saltador. — Prebonense, o senhor já sabe que Jidif é o melhor
amigo de Tirr, o filho mais jovem do clã dos Uxlad?
— O.K. —
a expressão escapou a Fellmer Lloyd.
Fez votos
de que Kuri Oneré não tivesse dado maior atenção a essa palavra
que devia soar estranha aos seus ouvidos.
No
entanto, apavorou-se ao ouvi-la exclamar:
— O.K.!
Já ouvi esta palavra várias vezes da boca de Asargud. Qual é seu
significado, prebonense? O.K.
não pertence ao vocabulário de Prebon.
— Deixemos
isso para depois — respondeu Lloyd, esperando que Kuri se
esquecesse do fato.
Tirou dos
seus grandes bolsos uma seringa superpressurizada. Tratava-se de
produto da tecnologia ferrônia. Era uma maravilha de precisão e
versatilidade. Qualquer médico galáctico daria um salto de alegria
se ganhasse esse instrumento.
Com uma
pressão de 10 atu, injetou a substância antichoques sob a pele de
Jidif. O efeito foi imediato. Apavorado e enfurecido fitou o
prebonense, que se colocara à sua frente numa postura confortável,
sem dar o menor sinal de que era muito mais do que um homem comum.
Lloyd leu
na mente de Jidif.
Estava
pensando nos chefes!
Pensava
também nos dois arcônidas ou saltadores dotados de forças
supersensoriais e descobertos por Sikeron, que acabou assassinado.
Infelizmente
os pensamentos de Jidif não proporcionaram uma imagem clara dos
chefes.
Procurou
forçar. Mas, em vez de um modelo claro, só captou coisas confusas.
Subitamente a seqüência das idéias de Fellmer Lloyd se rompeu.
Uma
lembrança interpôs-se entre as mesmas.
Lembrou-se
do Supercrânio.
Naquela
época, Perry Rhodan e seus mutantes tiveram de bater-se contra
forças misteriosas, enquanto a Terceira Potência sofria derrotas
bastante desagradáveis. Fora impossível, de início, ver o rosto do
Supercrânio através dos mutantes aprisionados.
Em todos
eles, havia um bloqueio hipnótico, mais forte que a própria vida.
Acontece
que o Supercrânio morrera há mais de meio século, fugindo de Perry
Rhodan em direção ao espaço.
“Devo
libertar-me da idéia do Supercrânio”,
pensou Fellmer Lloyd. “A
intenção de Ralph Sikeron não deve ter sido precisamente esta,
quando registrou o nome. Certamente quis estabelecer uma comparação,
lançar uma ponte, pois ainda desta vez o inimigo trabalha com um
bloqueio hipnótico. Jidif dispõe de um bloqueio sugestivo, que o
impede de trair seus chefes.”
— Dê o
fora, saltador! — disse Lloyd. Esta atitude tomada pelo mutante foi
totalmente incompreensível para Kuri.
O
magricela levantou-se sorrateiro. Seu rosto expressava idéias de
vingança. O agente cósmico não lhe deu maior atenção. Mais uma
vez, segurou a arma de choques. Não lhe restava outra chance senão
utilizá-la imediatamente contra Jidif.
Ele e Kuri
Oneré precisariam de algumas horas de completa liberdade de
movimentos, a fim de mergulhar no oceano de casas de Kuklon.
— Você
ainda pagará por isso — disse Jidif em voz alta, enquanto dava o
último passo em direção ao elevador antigravitacional e Fellmer
Lloyd apontava o radiador de choques em sua direção. Mas em
pensamento o saltador acrescentou mais algumas palavras à ameaça
que acabara de proferir: — ...seu maldito terrano!
“Terrano”,
pensou Lloyd, “o
mercador sabia que eu era terrano!”
No mesmo
instante, Fellmer Lloyd apertou o gatilho.
Agora,
sabia por que Ralph Sikeron transmitira a mensagem dos três toques
de sino.
Dois
mutantes arcônidas ou saltadores haviam descoberto, através de
Ralph Sikeron, a posição cósmica da Terra, e o identificaram como
agente de Perry Rhodan.
Agora era
sua vez de transmitir a mensagem de três toques de sino para a
Terra.
O alarma
geral seria desencadeado no planeta!
Kuklon
resultara da fusão de três cidades, que na época da fundação
distavam trinta quilômetros uma da outra.
*
* *
Kuklon
possuía três centros repletos de curvas. Eram três labirintos sob
a forma de um sistema confuso de ruas.
Na
periferia de Kuklon Psor, a antiga Psor City, Kuri Oneré e Fellmer
Lloyd abandonaram os meios de transporte, depois de terem trocado
oito vezes de táxi aéreo, e passaram a caminhar entre a confusão
de raças estranhas.
As lojas
enfileiravam-se uma ao lado da outra. Aqui podiam-se comprar todos os
tesouros da Galáxia. Tudo fora ajustado para o viajante que
estivesse de passagem.
Subitamente,
Fellmer Lloyd puxou a moça para o lado. Kuri Oneré não compreendeu
nada, mas não ofereceu resistência. Fugiram para o interior de uma
loja especializada, que trabalhava exclusivamente com frubikar, uma
substância indestrutível que durante a noite emite uma luz forte.
O
proprietário da loja, um mercador galáctico, e as duas
funcionárias, que viram os dois entrarem precipitadamente na loja,
pensaram tratar-se de assaltantes que pretendessem roubar o dinheiro
da caixa. Numa seqüência lógica, o saltador pensou no sistema de
alarma.
Através
da mente do proprietário, Fellmer Lloyd descobriu o lugar onde
ficava a chave que ativava o campo protetor de radiações.
Foi mais
rápido que o proprietário e acionou o contato.
Imediatamente
um potente campo energético foi colocado diante da vitrine e da
porta. O pequeno conversor preso ao teto emitiu um zumbido suave.
Um disparo
de arma de radiações contra o campo energético fez com que o
proprietário indignado se calasse.
A muralha
energética era transparente. Via-se perfeitamente as pessoas fugirem
em desespero, enquanto três tiros disparados do lado oposto da rua
atingiam o campo de radiações atrás do qual Kuri Oneré e Fellmer
Lloyd se encontravam.
— Por
onde devo passar para chegar à entrada dos fundos? — gritou Lloyd
ao saltador que se dedicava à venda de frubikar.
O projetor
hipnótico que trazia na mão reforçava a pergunta.
— Tenho
que avisar a Administração...
— Deixe
isso para depois! — disse Lloyd em tom ameaçador. — Vai
responder logo, ou será que terei de usar outros métodos?
Um
chuvisco de fogo ofuscante, produzido pelo impacto de cinco
radiadores térmicos sobre o mesmo ponto, abalou o campo protetor e
por pouco não o rompeu. O pequeno conversor preso ao teto emitiu um
uivo desagradável, porque não conseguia absorver o impacto súbito
de tamanha carga energética.
Os
disparos foram dirigidos contra Fellmer.
A mais
jovem das vendedoras saiu em carreira desabalada e soltou um grito
histérico:
— Sigam-me!
Lloyd e
Kuri acompanharam-na de perto.
Os
elevadores antigravitacionais ainda não haviam chegado aos prédios
da velha Kuklon Psor. Desceram por escadas gastas, atravessaram
recintos habitados nos quais os arcônidas e saltadores os fitavam
com uma expressão de pavor, passaram por outra escada e subitamente
viram-se num beco pouco movimentado.
Kuri Oneré
e o agente de Perry Rhodan correram até a esquina. Uma vez lá,
Lloyd pegou a mão de sua acompanhante e os dois passaram a caminhar
entre a multidão que nem dois turistas cósmicos que quisessem matar
o tempo em Kuklon.
— No
momento, não temos nada a recear — disse Fellmer, acreditando que
com estas palavras deixaria a moça mais tranqüila.
— Como
sabe disso, prebonense? Como soube do ataque à minha residência e
diante da loja de frubikar? — perguntou a moça em tom exaltado e
cheia de razão.
O
prebonense começava a assustá-la. Será que sabia ler o futuro?
— Senti,
Kuri — respondeu Fellmer. Não estava mentindo, mas para qualquer
arcônida ou mercador galáctico a resposta seria inacreditável.
— Como é
possível que... — Kuri calou-se, assustada.
Mais uma
vez, seu acompanhante assumiu um aspecto muito estranho e assustador!
Apenas, desta vez era diferente daquilo que vira em seu quarto.
Começava
a transpirar! Estava ficando pálido. Seu rosto contorceu-se, e não
deu mais um único passo.
O que
teria acontecido com ele?
Olhou em
torno e estava prestes a pedir socorro, quando Fellmer Lloyd soltou
um gemido e recuperou seu aspecto normal.
Kuri Oneré
era uma colaboradora sem par.
Sabia
dominar a curiosidade e reprimir as perguntas que lhe ardiam na
língua. Não o incomodava com indagações. Esperava que o
prebonense falasse espontaneamente.
Chegaram a
uma pracinha. À esquerda deles, um táxi aéreo estava descarregando
os passageiros. Fellmer puxou Kuri e correram.
— Depressa!
Arrastou-a
com tamanha violência que Kuri quase caiu. Saltaram para dentro do
táxi. A alavanca de aceleração passou da marca máxima. A
antigravitação indômita fez o táxi aéreo saltar; o ar aspirado
produziu um uivo. E, quando Fellmer Lloyd moveu a chave do propulsor
com a mesma violência, atingiram a altura dos telhados.
Pouco
abaixo deles, a cumeeira de uma casa fundiu-se sob a ação de um
radiador térmico.
Havia
rechaçado o terceiro ataque desde que chegara à residência de
Kuri. Enquanto o táxi aéreo corria vertiginosamente acima das casas
de Kuklon, Fellmer Lloyd aguardava o quarto ataque.
Não
poderia deixar de vir.
O inimigo
tirou a máscara. Saíra do esconderijo e passara ao ataque direto.
Depois do
golpe traiçoeiro na loja de frubikar, onde pretendiam dar cabo deles
sob o fogo de cinco radiadores térmicos, uma imensa energia
hipnótica esforçou-se para submeter sua mente a uma vontade
estranha. Foi só graças ao processo de aprendizado arcônida a que
se submetera que não foi dominado.
Enquanto
Fellmer Lloyd olhava atentamente em torno, supondo em cada táxi
aéreo a presença do inimigo, compreendeu por que Ralph Sikeron pôde
ser assassinado.
— Também
preciso transmitir a mensagem — disse o agente a meia voz, sem
incomodar-se com a presença de Kuri.
De
qualquer maneira, a moça não demoraria em descobrir a verdadeira
identidade de Asargud. Apenas, não deveria saber que a base da qual
haviam partido ficava na Terra.
A certa
distância, surgiu o maior edifício da cidade, que abrigava a
Administração arcônida. O prédio servia de residência ao
Administrador, o elemento mais poderoso dos negócios de Volat.
Kuri Oneré
fitou Lloyd com seus lindos olhos escuros. Não disse uma palavra.
Recuperou-se com uma rapidez espantosa do susto provocado pelos
ataques sucessivos.
— Kuri,
não seria preferível que se
afastasse
de mim? Onde eu estou, está o perigo e... — Lloyd manteve-se em
silêncio.
“Perigo!”,
gritou seu sentido de localização. “Perigo
vindo da esquerda. Perigo vindo de outro táxi.”
— Kuri,
Jidif está atrás de nós de novo... — com isso, revelou
espontaneamente o segredo de sua faculdade. Olhando de soslaio,
percebeu que a moça recebeu suas palavras com certo alívio.
Depois da
fuga precipitada, Fellmer Lloyd subira bastante com o táxi.
Encontrava-se numa altitude proibida para esse tipo de veículo, mas
essa situação se revelaria vantajosa.
Desceu em
pique, tomando a direção do campo de pouso da cobertura da
Administração de Árcon. Aproximava-se rapidamente do maior
edifício de Kuklon. O propulsor muito fraco gemia ao dar o máximo
de sua potência. O ar represado fustigava o táxi. O vácuo
produzido atrás do veículo o fazia balançar. Fellmer Lloyd ficou
com o rosto impassível. Kuri mantinha-se muito séria, olhando vez
por outra para os perseguidores.
O veículo
destes era mais veloz, embora não pudesse perder altitude. Kuri ia
informar Fellmer Lloyd a este respeito, quando o rosto do mutante se
contorceu numa horrível careta.
Mais uma
vez, as forças hipnóticas tentavam subjugá-lo mentalmente.
Um
arcônida ou saltador galáctico procurava detectá-lo, levantar um
bloqueio em seu cérebro e privá-lo de qualquer vontade própria.
O alvo
avistado, o edifício da Administração de Árcon, desmanchou-se
diante dos olhos de Fellmer Lloyd. Este nem chegou a perceber que
Kuri Oneré o empurrara para o lado e assumira o comando do táxi. O
motor havia sido muito forçado.
Sons
inarticulados saíam da boca retorcida de Lloyd. Sua vontade reunia
as últimas reservas de energia para resistir às tremendas forças
hipnóticas.
Outro
impulso hipnótico chegou ao seu cérebro:
— Desista,
Fellmer Lloyd!
Num gesto
inconsciente, os pensamentos do agente cósmico gritaram por socorro.
O grito foi dirigido a Perry Rhodan.
Teria
traído a existência de Rhodan, se a mesma já não tivesse sido
revelada por Ralph Sikeron.
— Desista,
Lloyd! Rhodan nunca mais poderá ajudá-lo. Desista!
— a torrente hipnótica que se despejou em sua mente foi seguida
por uma orgia de ódio.
Kuri Oneré
percebeu que subitamente todas as resistências do prebonense
pareciam cessar. Não compreendia contra o que estava lutando, mas
sentiu que um perigo mortal ameaçava seu companheiro.
Agiu como
mulher: impulsivamente.
O táxi
que os perseguia já se aproximara a duzentos metros. Faltavam cerca
de três quilômetros para chegar ao edifício da Administração de
Árcon.
Freou!
Foi
atirada contra o painel pouco resistente do táxi aéreo assim que
foram liberadas as fortes energias da frenagem. Depois, ligou o
propulsor para o vôo à ré. E imprimiu a aceleração máxima à
máquina. Uma luz vermelha acendeu-se no painel.
Tratava-se
de uma tentativa de abalroamento realizada dois mil metros acima de
Kuklon.
O táxi,
que vinha atrás, percebeu tarde que o veículo perseguido acabara de
frear. Executou um movimento cambaleante para escapar à colisão.
Alguma
coisa estalou às costas de Kuri. Um tremendo abalo sacudiu seu táxi,
que desceu vertiginosamente em espiral. Neste momento, o outro táxi
caía, fazendo com que os propulsores uivassem.
A jovem
executou alguns giros, parecendo que não conseguiria controlar o
veículo.
De
repente, um homem saltou para seu lado. Duas mãos seguraram-lhe os
pulsos. Sentiu-se empurrada. Fellmer Lloyd voltara a ser um
prebonense. Com um rapidíssimo movimento em sentido contrário,
controlou
o
movimento em espiral do táxi, conseguiu acertar o leme e retomou o
curso anterior.
— Obrigado,
Kuri — disse, e logo acrescentou: — Não se entregue a quaisquer
esperanças. Essa gente não está caindo. Logo terão o táxi sob
controle.
— Prebonense...
Lloyd
interrompeu-a com um gesto.
— Depois
explico. Jidif morreu! Foi neste instante. Não sinto mais nada dele
— os olhos escuros da moça fitaram-no com uma expressão de pavor.
Naquele
instante, Kuri Oneré compreendeu que nem o homem a seu lado e nem
Asargud eram prebonenses.
Enquanto o
suor continuava a correr sobre o rosto cansado de Fellmer Lloyd, o
agente dirigiu-se à moça e disse:
— Não
sou prebonense, Kuri, e Asargud também não foi. Já compreende por
que sei ler pensamentos?
O serviço
de vigilância aérea dos arcônidas, muito bem organizado, não
deixou de notar as manobras loucas dos táxis aéreos, realizadas nos
céus de Kuklon. Três naves policiais, inconfundíveis pelo formato,
cercaram os fugitivos e obrigaram-nos a tomar a direção do edifício
da Administração de Árcon.
Fellmer
Lloyd não fez nenhuma tentativa de fuga, embora não soubesse como
seriam as coisas depois do pouso no grande edifício.
— O
radiador térmico! — lembrou Kuri Oneré.
Fellmer
riu de suas preocupações. Pôs a mão num dos bolsos laterais e
mostrou-lhe o porte de arma. Tratava-se de um produto de primeira
ordem, nascido nos laboratórios da defesa solar.
Depois do
pouso, também mostrou a licença ao orgulhoso arcônida, que pegou o
radiador térmico de Fellmer com os dedos compridos e o colocou junto
com as outras armas. Pegou a licença com um gesto de pouco caso. O
arcônida arrogante nunca teria esperado que Fellmer possuísse essa
licença.
— Confira!
— disse para o saltador que cochilava perto dele.
O arcônida
e o saltador estavam pensando numa mensagem pelo hiper-rádio a ser
expedida para o planeta de Prebon, situado a 794 anos-luz de Árcon.
Fellmer Lloyd, que controlava os pensamentos dos dois homens, sabia
que dali só sairia como prisioneiro se qualquer erro, por mínimo
que fosse, tivesse sido cometido pela defesa solar na confecção da
licença.
Kuri Oneré
manteve-se de pé atrás do mutante. Não fora incluída na
averiguação pois, sendo uma moça, parecia insuspeita.
De
repente, chegou uma mensagem vinda da cidade. Só o arcônida pôde
ouvi-la. Mas Fellmer Lloyd conseguiu inteirar-se da notícia através
de seu dom telepático.
A polícia
arcônida acabara de achar o outro táxi aéreo que participara da
fuga. Descobrira que embaixo da carroceria existia um mecanismo
propulsor de potência extraordinária e um conversor que fornecia
energia para várias armas de radiações. Dos ocupantes não foi
encontrado o menor vestígio.
O arcônida
lançou um olhar pensativo para o prebonense. A notícia que acabara
de ser recebida confirmava em muitos pontos as declarações do homem
que fora detido em caráter provisório.
Com um
ligeiro nervosismo, Fellmer aguardava o resultado da mensagem de
hiper-rádio expedida com destino a Prebon. Teve que ter dez minutos
de paciência. Quando o saltador voltou ao gabinete com a licença na
mão, já conhecia o resultado.
A defesa
solar havia realizado um trabalho de precisão.
— A
licença é legítima, venerando senhor — disse o mercador
galáctico com um olhar servil dirigido ao arcônida. Mas a
desconfiança deste ainda continuava viva.
— Como
foi que as autoridades de Prebon emitiram uma licença com validade
para Volat e...
O saltador
interveio apressadamente:
— A
licença traz o selo da Administração de Árcon em Prebon e foi
registrada sob o número 666.748/54 KR pelo computador regente de
Árcon.
O arcônida
submeteu-se a este argumento do saltador. Com um gesto de
contrariedade, empurrou as armas e a licença para Lloyd e resmungou:
— O
senhor não escapará da multa legal pela violação das leis do
espaço aéreo.
Dali a
meia hora, Fellmer Lloyd foi condenado ao pagamento de elevada pena
pecuniária. O dinheiro que trazia quase não dera para o pagamento
imediato da multa. A quantia miserável que lhe restava não bastava
sequer para alimentar o autômato do táxi aéreo, mesmo para uma
viagem brevíssima.
E Kuri
Oneré esquecera de levar dinheiro por ocasião da fuga precipitada
de sua residência.
Lloyd
lembrou-se da arcônida que encontrara no edifício do espaçoporto.
— Onde
posso encontrar uma cabine de comunicação audiovisual? —
perguntou, dirigindo-se a Kuri.
Quando a
jovem ia falar, o sentido de localização de Fellmer Lloyd voltou a
dar o alarma.
O inimigo
tornava a atacar na área do supersensorial.
Alguém
procurava apoderar-se dos pensamentos do agente cósmico. De um
momento para outro, Lloyd voltou a sentir o vazio alarmante no
cérebro.
De
qualquer maneira, suas energias mentais lhe possibilitavam a
resistência até certo ponto contra qualquer tipo de interferência
telepática. Seu sentido de localização indicou a direção do
ataque. Captou o modelo de vibrações cerebrais, que estava recheado
de ódio.
Lloyd
reuniu todas as energias e passou ao ataque. Enquanto isso, Kuri
Oneré examinava os arredores com os olhos chamejantes. Em cada ser
vivo que aparecia, acreditava ver um inimigo de seu acompanhante.
Fellmer
Lloyd estava vencendo as resistências do inimigo com um choque
telepático concentrado. Porém um forte bloqueio hipnótico protegeu
o cérebro do mesmo, fazendo com que a energia expedida por Lloyd
fosse dar no vazio.
Seus
inimigos eram um hipno e um telepata. Seriam os chefes?
Naquele
instante, a mente de Fellmer só conseguiu conceber uma única idéia:
a fuga. Sabia que não teria condições de resistir a outra
investida hipnótica. Ainda sentia por todo o corpo o ataque
hipnótico desfechado contra sua vontade quando, juntamente com Kuri
Oneré, se dirigia no táxi aéreo ao edifício da Administração.
Parte do cérebro parecia ter sido destruída pelo fogo.
O amplo
elevador antigravitacional levou-os ao campo de pouso da cobertura.
A ação
seria inútil. Para um hipno, alguns quilômetros a mais ou a menos
não tinham a menor importância. E o inimigo encontrava-se no
edifício da Administração, apenas alguns andares abaixo do lugar
em que estava Fellmer.
— Por
enquanto, não está chegando nada — foi o cochicho que Kuri ouviu
da boca de seu companheiro que, apesar do perigo, irradiava uma calma
enorme.
Só uma
única vez Fellmer Lloyd agira de forma irresponsável no Exército
de Mutantes de Perry Rhodan. Depois disso nunca mais cometera um erro
de proporções mais graves. Naquela época, há mais de seis
decênios, a leviandade com que agiu no planeta Peregrino pôs em
perigo a vida de Rhodan e de muitos dos seus companheiros. Agora a
vida de bilhões de seres humanos do planeta Terra dependia dele.
Chegaram à
cobertura.
Fellmer
Lloyd viu a nave policial de dois tripulantes à sua frente. O
propulsor estava na posição zero. A vinte metros dali, o piloto, um
saltador, estava encostado em atitude relaxada à coluna de apoio
telescópica de uma nave ligeira e conversava com uma moça.
— Depressa!
— disse Fellmer Lloyd, empurrando Kuri para dentro da nave
policial.
Estava
repetindo o procedimento que adotara ao entrar no táxi aéreo
estacionado na praça de Kuklon. Kuri sentou-se numa poltrona. Lloyd
ocupou outra. A escotilha foi fechada ruidosamente. As barreiras
automáticas foram ativadas.
O piloto,
encostado ao suporte da outra nave, ouviu o ruído, olhou para trás
sem desconfiar de nada e viu sua nave subir rapidamente ao céu.
Fellmer
Lloyd não chegou a ouvir seu grito de alarma.
Colocou o
projetor hipnótico na mão de Kuri Oneré.
— Se meu
rosto voltar a desfigurar-se, aponte para mim e aperte o gatilho. Não
faça perguntas e não perca um segundo. É melhor apertar o gatilho
o mais rápido possível. Uma fração de segundo de atraso significa
um erro fatal. Você sabe pilotar esta nave?
Kuri
lançou um olhar apavorado para a arma hipnótica que segurava na
mão.
A nave
policial de dois ocupantes — um artefato de primeira ordem da
tecnologia arcônida — disparava com a aceleração de 3G em vôo
horizontal acima dos telhados de Volat, em direção à faixa de mata
virgem.
Fellmer
Lloyd examinou atentamente o espaço aéreo. Suas energias
telepáticas atingiram o primeiro telegrafista do edifício da
Administração. O arcônida ainda não fora informado do roubo da
pequena nave policial.
O mutante
fez três coisas ao mesmo tempo. Transmitiu ligeiras instruções a
Kuri, indicando-lhe o lugar para o qual deveria voar, caso um tiro da
arma hipnótica o colocasse fora de ação, e informando-a sobre a
maneira de pilotar a nave; seus olhos percorreram o céu, em busca de
eventuais perseguidores; e sua capacidade telepática controlava os
conhecimentos da central de rádio da Administração de Árcon.
A nave
policial já havia alcançado a velocidade máxima e se encontrava a
cem quilômetros de Kuklon, quando um tiro de radiações foi
disparado de uma posição oculta, a título de advertência e
intimação para pousar.
Numa
terrível curva vertical, Fellmer Lloyd fez com que a nave se
aproximasse do solo. Tentaria escapar quase ao nível do solo, pois
sabia que um canhão arcônida de radiações só pode disparar num
ângulo mínimo de quinze graus.
Estava
colocando a nave na horizontal, quando tremendas forças hipnóticas
procuraram apoderar-se de sua vontade. Retesou-se e soltou um gemido.
Sem
pestanejar Kuri disparou contra ele. A arma hipnótica estava
regulada na potência máxima. O raio transformou-o temporariamente
num boneco humano, que possuía um corpo, mas não tinha espírito.
Com a arma
no colo, Kuri assumiu o controle da nave. Era facílima de ser
manobrada, mas sua pilotagem exigia certa experiência. Acontece que,
no caso de Kuri Oneré, a vontade de lutar juntamente com seu
companheiro contra o perigo invisível compensou em parte a falta de
experiência.
Numa
manobra perigosa, fez a nave correr rente ao solo. O raio energético
ofuscante expelido pela posição de artilharia situada atrás deles
não os atingiu. Formando um ângulo de quinze graus, subiu ao céu e
perdeu-se na luz do sol Heperés.
A faixa
escura da mata surgiu a distância, mas ao mesmo tempo um ponto
reluzente anunciava a aproximação de uma nave vinda da direita.
Com o
maior sangue-frio, Kuri Oneré deixou que o propulsor trabalhasse em
regime de superaquecimento. Bastaria que continuasse a funcionar por
alguns segundos para que atingissem o destino.
O campo de
neutralização não conseguiu absorver todas as energias produzidas
pela manobra de frenagem. Kuri foi atirada contra o painel de
instrumentos com uma força de 5 ou 6G, enquanto a nave passava por
cima da mata. Naquele instante, o propulsor foi atingido de raspão
por um tiro disparado pela nave que os perseguia.
Antes que
Kuri pudesse fazer qualquer coisa, a pequena nave bateu fortemente
contra a copa de uma enorme árvore. O molejo dos galhos e as
energias do campo de neutralização diminuíram a força do impacto.
A nave girou em torno de seu eixo e desprendeu-se dos galhos. Caiu e
desapareceu sob as folhagens da mata de Volat.
Os
geradores da nave continuavam em perfeitas condições, e o conversor
ainda funcionava. A jovem mulher da raça dos mercadores galácticos
não deu a menor atenção a estes pontos. Fez aquilo que Lloyd lhe
mostrara e explicara.
Pouco
antes de atingir o solo — depois da queda da árvore de setenta
metros de altura — ela havia comprimido a tecla do dispositivo
antigravitacional, e a nave pousara suavemente.
Fellmer
Lloyd estava meio preso sob o painel de instrumentos. Kuri
desvencilhou-o. Não se esquecera da nave que os perseguia.
Com uma das mãos, acionou o dispositivo automático da escotilha,
enquanto com a outra arrastava Lloyd para fora da nave. Finalmente a
cabeça do mutante de Perry Rhodan descansou nos ombros da jovem
mercadora galáctica. Depois escondeu o homem inconsciente no
interior da mata.
Acima de
suas cabeças, uma nave policial dos arcônidas descrevia círculos.
8
Um sorriso
largo cobria o rosto de Fellmer Lloyd, que tinha todo motivo para
estar alegre. A Administração de Árcon estava furiosa. Ainda não
tinha a menor idéia de quem poderia ter usado a nave de dois lugares
da força policial numa fuga para a selva. Até mesmo o grande
computador positrônico concluiu, com uma margem de erro de apenas
5,32 por cento, que o prebonense que pouco antes fora condenado a
pagar uma elevada pena pecuniária, logicamente não seria culpado de
outra infração.
Kuri Oneré
acreditava em tudo que ele dizia, embora da mesma forma que ela seu
acompanhante não tivesse estado em Kuklon.
— Tenho
que “folhear”
os pensamentos de um arcônida — disse ele.
A seguir,
se colocou no estado que, segundo Kuri, era o de olhar para dentro.
Sorriu
para ela sem dizer uma palavra. O sorriso transformou-se em admiração
pela moça.
Depois de
algum tempo, perguntou:
— Por
que os mercadores galácticos não são todos gente formidável como
você? A vida na Galáxia poderia ser tão bela e pacífica.
A moça
sentiu-se embaraçada; procurou mudar de assunto.
— Será
que os dois seres que atacam do invisível são mercadores
galácticos?
Lloyd já
não se encontrava sob os efeitos do tiro disparado pela arma
hipnótica. Fazia uma hora que os últimos efeitos colaterais haviam
desaparecido. Hesitou antes de responder, porque não sabia muito bem
o que devia dizer.
— Provavelmente
são, Kuri, mas também é possível que sejam arcônidas. Um deles
sabe fazer aquilo que você fez há pouco com a arma hipnótica. Sabe
colocar qualquer pessoa sob sua “mira”
e privá-lo de vontade própria, impondo-lhe outra vontade. Os
efeitos da força hipnótica natural são mais intensos, menos
nocivos à saúde e mais prolongados que qualquer tiro da arma
hipnótica, por mais potente que seja esta.
“O outro
saltador ou arcônida procura ler meus pensamentos. Acontece que não
é muito competente na sua área de ação. Apesar disso, representa,
juntamente com o hipno, um perigo grave. Como devemos fazer para
colocá-los fora de ação? Já lhe disse ser altamente provável que
foram eles os assassinos de Getlox Asargud?”
*
* *
Quando na
Terra faltavam poucos dias para que terminasse o mês de julho, o
exército particular de Fellmer Lloyd, a 4.342 anos-luz, no planeta
Volat, estava pronto para entrar em ação. Sem o auxílio do
simpático povo de insetos, nem mesmo com os imensos recursos
monetários de que podia lançar mão, teria conseguido reunir um
grupo de mercenários que inspirasse a necessária confiança.
Embora os
volatenses aparecessem raramente na cidade de Kuklon, dispunham de
excelentes relações. Fellmer Lloyd nunca descobriu como haviam
conseguido; sempre que perguntava, pediam-lhe que se dirigisse à mãe
onisciente e deixavam entrever que a rainha lhe dedicava toda a
simpatia.
Por duas
vezes Lloyd assumiu o risco de penetrar às escondidas na cidade de
Kuklon. Depois da primeira visita, que durara uma hora, Kuri Oneré
voltara a fixar-se lá. Conseguiu angariar os saltadores Ghal, Zintx,
Oslag e Ulmin. Por dinheiro esses rapazes arrancariam da cama
Mans-rin, o administrador de Árcon, e o levariam à Praça Thator.
Três
volatenses, que circulavam constantemente entre a capital de Volat e
Kuklon, conseguiram conquistar um ser do mundo de Haspro e três
gigantes narigudos do sistema de Gfirto para a causa de Fellmer
Lloyd. Os gigantes narigudos provocavam risadinhas até mesmo nos
funcionários coloniais arcônidas, que estavam acostumados a ver as
coisas mais bizarras. Com os corpos cobertos de pêlos e os três
braços e as três pernas, aqueles seres transmitiam à primeira
vista a impressão de serem idiotas e engraçados. Acontece que eram
negociantes espertos, que na capacidade de farejar os grandes
negócios não ficavam atrás dos saltadores. E ainda dispunham de
imensa energia física e de audácia proverbial.
Os seres
do mundo de Haspro com sua cabeleira em forma de juba lembravam os
faunos da mitologia grega. Na verdade, eram calculistas geniais e
costumavam ser encontrados nos lugares onde um cérebro positrônico
para ser instalado daria muita despesa. Fellmer Lloyd descobriria por
acaso que, além dessa qualidade, possuíam memória fotográfica e
nunca se esqueciam de algo que houvessem visto, mesmo de relance.
Nem pensou
em utilizar a residência de Kuri Oneré como “caixa
de correio”.
As notícias relativas ao seu exército convergiam para a casa de
O-Oftftu-O, o único volatense que possuía uma casa situada entre a
cidade de Kuklon e o espaçoporto. Fellmer Lloyd preferiu não
formular perguntas sobre a grafia correta do nome.
Abrira seu
quartel na selva, oitenta quilômetros ao oeste do lugar em que
pousara com a Gazela. Até agora, o pequeno transmissor se mantiver a
em silêncio. A outra estação ficava na residência de O-Oftftu-O.
Fazia uma hora que um volatense saíra de junto do mutante,
dirigindo-se à capital. O agente cósmico ainda estava interpretando
as notícias que acabara de receber, quando seu receptor emitiu um
ligeiro sinal.
Fellmer
lançou um olhar pensativo para o rádio, suspirou pesadamente e, nos
próximos quinze minutos, tomou todas as providências necessárias
para remover todos os vestígios de seu quartel na selva. O ligeiro
sinal que acabara de receber significava que sua presença em Kuklon
era indispensável.
Assim que
o sol Heperés desceu abaixo da linha do horizonte, pegou um modelo
Xun, um tanto antiquado, que fora arranjado pelo saltador Ulmin, e
voou para Kuklon.
A ação
decisiva contra os dois arcônidas ou saltadores — dos quais um era
hipno e outro, telepata — logo seria iniciada.
*
* *
Em casa de
O-Oftftu-O, encontrou os saltadores Ghal e Oslag, o ser do mundo de
Haspro e um dos gigantes narigudos. Examinou-os discretamente. Sabia
que estavam muito mais interessados em descobrir quem era ele do que
em ficar grudados nos calcanhares de Tirr, um rebento degenerado do
clã dos Uxlad, a fim de descobrir onde ficava a base dos dois
chefes.
Nem mesmo
Kuri Oneré sabia que o mundo de Fellmer Lloyd era a Terra, um
planeta que, segundo se dizia, fora transformado num sol há cerca de
seis decênios, por meio de uma operação combinada dos mercadores
galácticos e dos superpesados. Na verdade, esse destino ficou
reservado a um planeta sem vida do sistema Beta.
Oslag
tinha uma novidade importante.
— Vi os
dois chefes — informou.
Seguiu-se
uma descrição muito detalhada. Lloyd efetuou um controle rigoroso
do jovem, para verificar se o mesmo dizia a verdade. O saltador não
estava mentindo. Apesar disso, o mutante sacudiu a cabeça, num gesto
de incredulidade. Pela descrição, nenhum dos chefes poderia ser um
saltador ou um arcônida. Oslag manteve-se irredutível nas suas
afirmativas.
O ser do
mundo de Haspro interveio na palestra, dando provas de sua memória
fotográfica. Também havia visto os dois chefes.
Fellmer
Lloyd não demonstrou a excitação que sentia no seu íntimo. Seus
inimigos não eram arcônidas nem mercadores galácticos, e isso
fazia desmoronar a teoria que elaborara.
De onde
teriam vindo os dois chefes?
Os
presentes aguardavam sua decisão; fitavam-no atentamente. Fellmer
Lloyd não seria um agente de Rhodan se não visse no ataque a melhor
defesa. Mas queria que Kuri Oneré estivesse perto dele quando fosse
iniciada a operação dirigida contra o edifício comercial dos
saltadores, situado nas proximidades do espaçoporto. Não havia a
menor dúvida de que os chefes haviam escolhido esse edifício para
montar sua base de operações.
Já era
quase meia-noite, Kuri Oneré chegou à residência de O-Oftftu-O. Os
dois saltadores, o gigante narigudo e o ser do mundo de Haspro
ocupavam suas posições.
O tráfego
metropolitano rugia pela via expressa que ligava o espaçoporto à
cidade de Kuklon, sem preocupar-se com o avançado da hora.
No
gigantesco espaçoporto, o trampolim da Galáxia, que ficava além
das muralhas do Grande Império, assistia-se às idas e vindas
incessantes de milhares de passageiros. As gigantescas naves pousavam
e decolavam sem cessar.
De ambos
os lados da via expressa, erguiam-se os arranha-céus. Os edifícios
não eram tão altos e pomposos como os edifícios de escritórios
que rodeavam a Praça Thator. Mas também davam testemunho evidente
da riqueza dos vários clãs dos saltadores cujos serviços
administrativos se desenvolviam no seu interior.
Os
mercadores galácticos eram, por natureza, ciganos interestelares. Os
membros dos diversos clãs, cujo número por vezes chegava a mais de
dez mil, habitavam, com algumas poucas exceções, as naves
cilíndricas, onde viviam e morriam.
Uma
pequena minoria fixara-se em determinados lugares, mas nem por isso
se distanciava do clã. Os laços invisíveis, que ligavam os
mercadores galácticos ciganos e os sedentários, pareciam ter sido
tecidos para toda a eternidade.

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