Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
e Revisão
ARLINDO_SAN
Dois
terranos penetram no Universo Invisível
—
e conseguem regressar...
Apesar das
hábeis manobras realizadas no espaço galático, o trabalho pelo
poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova
geração de homens surgiu.
E, da
mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema
solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os
terra-nos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino
planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e
civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que
devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante...
Terra e
Árcon voltam a aliar-se...
Surgiram
acontecimentos estranhos que se tornam uma ameaça sem precedentes
para todas as formas de vida da Via Láctea.
Em O
Regresso do Nada se fazem presentes lances de pura magia...
tecnológica!
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Marcel
Rous
— Tenente. De gesto vivo, audaz.
Rosita
Peres
— Psicóloga cósmica. Cabelos longos.
Fellmer
Lloyd
— Mutante que também se revelou bom técnico.
Flaring
— Comissário de Mirsal.
Perry
Rhodan
— Administrador do Império Solar.
1
— Estou
com medo!
Rosita
encolheu-se no pequeno sofá; parecia estar com frio.
Rous olhou
em sua direção e brindou-a com um sorriso encorajador.
Não disse
nada. Para a sensibilidade de Rosita isso bastava para mostrar que,
também ele, achava a situação um tanto perigosa.
Lloyd
portava-se de outro modo. Todo o mundo estava acostumado a ver Lloyd
assim: com os cotovelos apoiados sobre a mesa e a cabeça nas mãos.
Estava com os olhos semicerrados, fitando um ponto imaginário.
Mantinha-se
em silêncio.
— Não
poderíamos acender mais luzes? — perguntou Rosita.
Rous fez
que sim e levantou-se. A sala tinha duas portas, e perto de cada uma
delas havia um fio que saía da parede, junto ao batente, e enlaçava
um botão de madeira que ficava a meio metro de altura. Rous pegou o
botão e puxou-o. Uma fileira de tubos de luz fluorescente acendeu-se
no teto baixo.
Rosita
piscou os olhos.
Rous
dirigiu-se a uma das janelas e olhou para fora.
— O
quê...? — perguntou Rosita, erguendo-se apressadamente.
Rous fez
um gesto negativo.
— Não é
nada. No período noturno, o tempo será bastante agitado.
— Por
que temos de passar a noite justamente nesta cabana? — perguntou
Rosita.
Rous
bocejou. Fazia questão de que Rosita soubesse que já havia
respondido a mesma pergunta mais de vinte vezes nesse dia.
— Podemos
mudar para qualquer outra cabana — disse em tom de tédio. — Se é
isso que deseja.
Rosita não
respondeu. Rous olhou para a rua que passava junto à casa. Havia
outras casas, espalhadas ao acaso pelos jardins. Nenhuma delas era
maior ou menor que aquela em que se haviam abrigado. Ao que parecia,
sua construção obedecera a um modelo único. Um pouco sujas, mas
tinham aparência de novas. Todas elas eram hexagonais. Em cada
recinto havia duas paredes com janelas, que faziam um ângulo de
cento e vinte graus e lhes davam um aspecto estranho.
“Um
aspecto estranho para terranos”,
pensou Rous.
Nos
momentos em que as nuvens de poeira, tangidas pelo vento, não eram
muito densas, via-se do lado oposto da rua, na parte dianteira de um
pequeno jardim, outra casa de cujas janelas saía uma luz abundante.
A luz
irritava Rous, mesmo agora que já estivera lá e se convencera de
que a casa estava vazia, tal qual as outras.
Quando o
sol mergulhou atrás de uma parede de nuvens escuras, aquela luz
estranha tornou-se mais nítida. Depois de algum tempo foi a única
coisa que se enxergava para além das janelas.
Rous
afastou-se da janela e saiu da sala. Entrou em outra, que tinha o
mesmo formato da primeira. Mas suas instalações eram diferentes.
Além disso, possuía três portas em vez de duas. Rous abriu a da
estreita parede dos fundos e tentou pegar o fio. Segurou-o na mão,
encontrou o botão de madeira e puxou-o firmemente. A luz acendeu-se.
O tenente
perguntou a si mesmo por que voltara para cá. Já vira ao menos dez
vezes naquele mesmo dia aquela mesa redonda com as seis bacias quase
cheias e os bastões de madeira rachados, que deviam servir de
talheres.
Sentou
numa das cadeiras, apoiou a cabeça na mão esquerda e levantou um
dos bastões. Estivera jogado junto à bacia como se alguém o
tivesse largado ao acaso.
Uma porta
bateu atrás dele. Rous não teve necessidade de virar a cabeça para
ver quem estava entrando. Conhecia o passo.
— Está
com fome? — perguntou Rosita.
Parecia
uma piada, mas Rous percebeu que aquela pergunta era apenas a
manifestação de um humor negro.
— Procuro
imaginar de que maneira essa gente esteve sentada aqui hoje de manhã,
e o que aconteceu — respondeu.
Rosita
procurou uma cadeira.
— Quer
solucionar o problema por via intuitiva? — perguntou em tom de
escárnio. — Acredita...
— É
claro que acredito — interrompeu Rous. — Procure refletir. Pelas
seis horas, tempo local, pousamos numa Gazela a aproximadamente sete
quilômetros da localidade de Keyloghal, num terreno ondulado e de
pouca visibilidade. Nossa missão consistia em descobrir que tipo de
estrago o inimigo invisível está fazendo neste planeta. Recebemos
ordens para agir discretamente. Teríamos de pegar um desses
homenzinhos que habitam o planeta, e fazer-lhe uma análise
estrutural para extrair todo o saber encerrado em seu cérebro.
Depois submetê-lo a um condicionamento que o impedisse de lembrar-se
do incidente, e soltá-lo.
“Assim,
levamos uma hora para assimilar os conhecimentos adquiridos.
Instalamos nosso equipamento de forma a não despertar muita atenção
aos olhos das pessoas com que teríamos de lidar.
“Seguindo
as instruções, deixamos a Gazela para trás e pusemo-nos a caminho
para Keyloghal. Encontramos uma aldeia parecida com uma aldeia
camponesa do planeta Terra, com exceção das casas hexagonais. Vimos
uma porção de gente que lidava com veículos puxados a trator,
dirigindo-se ao campo ou voltando de lá.
“Também
nos viram e ficaram espantados com nossa presença, porque medimos
uns quarenta centímetros mais que eles. Mesmo a cem metros
perceberam isso; e não conseguimos aproximar-nos mais do que essa
distância.
“De
repente desapareceram. Dissolveram-se no ar. Os tratores e as
carroças pararam nos lugares em que se encontravam, ou prosseguiam
no seu movimento até baterem num obstáculo. Mas as pessoas que se
encontravam por ali haviam desaparecido.”
Rous
levantou-se e respirou profundamente.
— Quer
saber por que repito tudo isto?
Rosita
sacudiu a cabeça.
— Para
que a senhora compreenda que não é nenhuma fábula — disse Rous
em tom enfático. — E nem estávamos bêbedos ou hipnotizados.
Vimos com os olhos bem abertos toda a população de uma aldeia, de
tamanho regular, desaparecer repentinamente. Não nos adiantará nada
relegar o fenômeno ao terreno da metafísica. Isso deve ter
acontecido de maneira natural. E se é assim deve haver um meio de
encontrar a solução do mistério.
Rosita
lançou-lhe um olhar pensativo.
— Que
tal lhe parece a hipótese do transmissor fictício?
Rous
ergueu a cabeça.
— O que
quer dizer com isso? Acha que é uma explicação para o que
aconteceu aqui?
Fez um
gesto de mão em direção à mesa posta.
— Exatamente.
— Já
andei pensando nisso. Vamos partir do que já sabemos. Possuímos
transmissores fictícios que, instalados em determinada parte,
removem o objeto visado de outro lugar, atiram-no pelo hiperespaço e
o fazem surgir num outro lugar. É nisso que consiste a ação de um
transmissor fictício. Quer dizer que nós mesmos poderíamos fazer
desaparecer todos os habitantes de Keyloghal, mas um por um, não
todos de uma só vez. E há outro detalhe: se a pessoa contra a qual
dirigirmos o transmissor fictício estiver segurando uma colher ou um
garfo, estes objetos desaparecerão juntamente com a pessoa.
“Mas
veja o que aconteceu aqui: esta gente estava almoçando quando o fato
aconteceu. Foram arrancados de junto da mesa. Desapareceram. Seus
talheres ficaram para trás, da mesma forma que os tratores e as
carroças lá fora. Não; não acredito na possibilidade de um
transmissor fictício.”
— Mas o
que poderia ser, se não for isto?
Rous deu
de ombros. Esteve a ponto de dizer alguma coisa. Mas, naquele
instante, escutou uma porta bater. Da sala contígua ouviram-se
passos surdos e vigorosos.
Fellmer
Lloyd enfiou a cabeça pela porta.
— Alguém
está chegando! — limitou-se a dizer.
Rous
levantou-se de um salto.
— Apaguem
a luz; rápido! — ordenou. — É uma única pessoa, Lloyd?
— Não,
é uma porção. Calculo que sejam umas vinte. E vêm vindo bem
depressa.
— De
onde?
— Ao que
parece vêm pela estrada que dá para Ferraneigh.
Era a
mesma estrada pela qual os três haviam vindo na manhã daquele dia.
Rous voltou à sala de cujas janelas podia ver a rua.
Uma
estreita faixa de luz penetrava no recinto, vinda do outro lado da
rua, onde alguns tubos luminosos estavam acesos atrás de duas
janelas de uma casa.
Rous puxou
a arma. Lloyd voltou para junto da mesa e segurou a cabeça com ambas
as mãos. Rosita manteve-se junto à porta, com o botão de madeira
da chave de luz na mão.
— Está
ouvindo? — perguntou Lloyd de repente.
Rous
aguçou o ouvido. Sentiu um ligeiro tremor no chão e ouviu um
zumbido monótono vindo de longe. O ruído lhe parecia familiar. Não
se tinha necessidade de ir ao centro da Via Láctea para ouvi-lo,
pois esse tipo de ruído enchia todas as estradas da Terra.
— Acenda
a luz — ordenou Rous. — Lloyd, fique aqui e cuide de Miss Peres.
Irei lá fora.
— Pelo
amor de Deus, Rous! — exclamou Rosita. — Não vá. Sabe o que é?
Rous já
se encontrava junto à porta.
— Sei —
respondeu em tom seco. — É um ônibus.
E era
mesmo um ônibus.
Vinha com
os faróis bem altos e deslocava-se pela estrada de Ferraneigh,
desenvolvendo uma velocidade surpreendente. Rous viu as nuvens de
poeira na frente dos faróis.
O pesado
veículo entrou ruidosamente na aldeia, sem reduzir a velocidade. Ao
que tudo indicava, o motorista não pretendia parar em Keyloghal.
Rous
colocou-se no meio da rua e esperou até que fosse atingido pela luz
dos faróis. Depois disso começou a agitar os braços.
Por alguns
segundos não teve certeza sobre se não seria preferível saltar
para o lado. Mas logo os freios começaram a ranger, o zumbido do
motor assumiu um tom mais grave, o ônibus dobrou para a direita e
parou a alguns metros de Rous.
A poeira
levantada pelo veículo refletia bastante luz para que o tenente
pudesse reconhecer o letreiro Resaz—Fillinan.
Uma porta
foi aberta apressadamente. Um homenzinho saltou do veículo e
caminhou em direção a Rous. Não tinha mais de metro e meio e teve
de erguer a cabeça a fim de fitar o rosto de Rous. Mas ao que tudo
indicava isso não o incomodava.
— O que
houve? — perguntou em tom exaltado. — Por que não há mais
ninguém em parte alguma? Para onde será que desapareceram?
Rous
levantou a mão direita e curvou o dedo indicador, gesto que
significava que não sabia.
— Não
faço a menor idéia — disse na língua que aprendera naquela manhã
durante a análise estrutural. — Não somos daqui. Chegamos hoje de
manhã. Quando estávamos a uns duzentos metros da aldeia, todos os
habitantes desapareceram. De onde vem o senhor?
— De
Resaz — fungou o motorista. — Saímos hoje, às cinco da manhã.
Entre as cinco e as oito paramos em Resaz-Gollan, Gortrup, Vineigh e
Bostall. Até lá tudo estava em ordem. Às oito e meia chegamos a
Millander, e não se via mais ninguém. E as coisas continuaram assim
até agora.
Rous
refletiu um pouco. Haviam chegado a Keyloghal entre as oito e as oito
e meia. Ao que parecia, os homens haviam desaparecido ao mesmo tempo
em todos os lugares.
— Não
observou nada de extraordinário durante a viagem? — perguntou
Rous.
— Não;
nada. Quando estivemos em Millander, não tive tempo de olhar para
nada. Os passageiros do ônibus tornaram-se histéricos. Uns queriam
voltar, outros queriam que fôssemos logo para a frente, enquanto um
terceiro grupo desejava levar-me a entrar em estradas secundárias,
porque a estrada principal lhes parecia muito perigosa. Tive muito
trabalho em acalmá-los e poder prosseguir viagem.
Rous tomou
uma decisão rápida.
— Somos
três — disse. — Quer levar-nos para Fillinan?
— Naturalmente;
por que não? A passagem custa três unidades por pessoa.
Rous
concordou. Achou que não era necessário avisar o motorista de que
nem ele, nem Rosita e nem Lloyd possuíam dinheiro local. Em Fillinan
encontrariam alguma coisa que poderia ser dada ao motorista em vez
das nove unidades.
Foi buscar
Lloyd e Rosita. Esta perguntou quais eram suas intenções.
— Pretendo
ir a Fillinan — disse em tom lacônico. — Nunca mais teremos uma
oportunidade como esta. O pessoal está tão nervoso que nem
perceberá nosso tamanho.
Lloyd
enfiou a bolsa com os microinstrumentos embaixo do braço. Rosita
correu na frente.
Ao vê-la,
o motorista arregalou os olhos, mas não disse nada.
Logo atrás
do motorista havia um banco livre. Rosita sentou no mesmo, juntamente
com Fellmer Lloyd e Rous. Este ocupou uma posição que lhe permitia
examinar a estrada pelo pára-brisa.
As pessoas
que se encontravam no ônibus conversavam exaltadamente. Mal notaram
a presença dos novos passageiros. Apenas alguns lhes lançaram
olhares esquivos e curiosos.
Era claro
que todas as conversas giravam em torno dos acontecimentos estranhos
daquele dia: o desaparecimento de todos os habitantes de certas
aldeias. A única coisa que Rous conseguiu ouvir em meio à confusão
de vozes foi aquilo que já sabia: que se tratava de um fenômeno
inteiramente novo para aquela gente. Nunca haviam visto nada
parecido.
Depois de
poucos instantes, o ônibus saiu de Keyloghal. O motorista parecia
querer vencer o medo e a insegurança, empurrando o acelerador até a
tábua.
Realmente
era um acelerador. Rous teve tempo de examinar o mecanismo de direção
e de câmbio e compará-lo com aqueles que se usavam na Terra.
Não havia
nenhuma diferença essencial. Rous achava que seria capaz de dirigir
este ônibus sem receber um treinamento especial.
E o
planeta Mirsal II ficava a quase quatorze mil e quinhentos anos-luz
da Terra!
Dali a uma
hora, o pesado veículo passou ruidosamente por outra localidade. Era
Wimmanat. Não foi necessário parar para verificar que estava
deserta, tal qual as outras que o veículo havia cruzado a partir das
oito e meia da manhã.
Depois de
Wimmanat a estrada tornou-se mais larga. Notavam-se sinais da
proximidade da capital, Fillinan. Rous olhou para frente, para ver se
conseguia enxergar o reflexo das luzes da cidade no céu; mas a
distância devia ser muito grande, ou então a tempestade havia
levantado muita poeira, pois o céu estava totalmente negro.
“Se
os habitantes de Fillinan ainda não desapareceram”,
pensou Lloyd, “com
o tempo deverão surgir alguns veículos. Ou então as saídas da
cidade em direção a Resaz haviam sido bloqueadas, e a respectiva
área interditada.”
Olhou para
Rosita. Esta estava com as pernas bem esticadas e a cabeça inclinada
para trás, apoiando-a no encosto muito baixo. Estava com os olhos
bem abertos e fitava o teto.
Rous
esteve a ponto de dizer alguma coisa, mas antes disso Lloyd
subitamente se levantou de um salto.
— Cuidado!
— gritou.
Rous
encolheu-se. Lloyd olhou para além do motorista, mas não viu nada
do lado de fora do veículo.
O
motorista e os passageiros assustaram-se com o grito de Lloyd. O
primeiro diminuiu um pouco a velocidade do ônibus e olhou para trás.
Foi então
que Rous viu o feixe de luz... Atirou-se para a frente, a fim de
segurar o homem que estava desaparecendo. Mas antes que completasse o
movimento o motorista havia desaparecido. As mãos de Rous apenas
atingiram o vazio.
— Olhe a
direção! — gritou Rosita apavorada.
Rous
inclinou-se por cima do assento vazio e esforçou-se para segurar o
volante. Felizmente a estrada era reta e, uma vez que ninguém mais
calcava o acelerador, o veículo não demorou a parar. Conseguiu
mantê-lo no meio da estrada.
Assim que
o perigo havia passado, ajeitou-se no assento estreito do motorista e
puxou o freio de mão.
Depois
levantou-se e olhou para trás. Os vinte passageiros que haviam feito
a viagem de Resaz, Resaz-Gollan ou Gortrup até ali, haviam
desaparecido juntamente com o motorista.
Só
restavam Fellmer Lloyd e Rosita Peres.
Era um
mutante, uma psicóloga e um tenente que se apresentara
voluntariamente.
Lloyd
voltou a sentar. Fazia como quem não tinha nada com aquilo.
— O que
houve? — perguntou Rous. — O que foi que o senhor viu?
Lloyd
sacudiu a cabeça, numa expressão contrariada.
— Não
vi nada. Apenas senti. Senti uma porção de modelos cerebrais
estranhos. Eram confusos e incompreensíveis. E, principalmente,
duraram um ou dois segundos.
Lloyd já
constatara a mesma coisa em outras oportunidades. Por exemplo, quando
o foguete de Mirsal II desapareceu no espaço.
Rous
soltou um gemido e deixou-se cair no assento. Tocou em Rosita e
sentiu que a mesma estava tremendo.
— Não
tenha medo, minha filha — disse em tom tranqüilizador. — A nós
não fizeram nada. Desta vez só estão devorando os mirsalenses. Ao
que parece, nós somos muito amargos para eles.
— Gostaria
de saber por quê? — indagou assustada.
2
A cerca de
trinta milhões de quilômetros do local em que se desenrolavam essas
aventuras, os receptores da Drusus, a mais gigantesca das naves da
frota espacial terrana, registraram um ligeiro fading
dos sinais transmitidos pelos emissores existentes nos corpos dos
três agentes que haviam sido colocados em Mirsal II.
O
comandante da nave, Perry Rhodan, recebeu um relato lacônico:
Às
dezenove horas e trinta e quatro, tempo de bordo, houve uma redução
temporária na potência da transmissão dos emissores corporais de
Rous, Peres e Lloyd. A redução foi temporária e teve a mesma
duração de 2,8 segundos. Correspondeu no mínimo a um centésimo da
intensidade usual. A seguir, a recepção voltou a ser perfeita.
Rhodan
repetiu várias vezes a leitura da mensagem.
Depois dos
acontecimentos estranhos — para não dizer apavorantes — que se
desenrolaram em Mirsal III, e que pareciam indicar que um inimigo
desconhecido e perigoso estava disposto a entrar em luta contra o
Império Solar e o Império Galáctico dos Arcônidas ao mesmo tempo,
Rhodan chegou à conclusão de que por enquanto a tarefa mais urgente
seria a coleta de informações sobre o inimigo.
O
desaparecimento da nave antiquada, de propulsão química que,
segundo se apurou, provinha de Mirsal II, constituía uma indicação
do caminho a ser seguido. Até então, ninguém sabia qual era o
papel de Mirsal II nesse drama e como os habitantes desse mundo
conseguiram ocultar sua existência por tanto tempo, muito embora sua
tecnologia estivesse alguns séculos à frente da de Mirsal III,
cujos habitantes os arcônidas já conheciam.
Rhodan
julgara conveniente realizar as investigações com a maior
discrição. Depois dos acontecimentos desenrolados em Mirsal III, e
do desaparecimento da nave espacial de Mirsal II, convencera-se de
que nem mesmo as armas potentes da Drusus e da Arc-Koor, cujo
comandante, em conformidade com as instruções do computador-regente
de Árcon, devia obedecer a Rhodan, não estavam em condições de
enfrentar o inimigo desconhecido. Portanto, não havia como obter as
informações necessárias pela força. Não havia ninguém contra
quem se pudesse empregar a força. O inimigo dispunha de recursos que
lhe permitiam escapar aos efeitos de qualquer tipo de interferência
energética.
Por isso a
única salda constituía-se num comando suicida, recurso de que
Rhodan já se valera em diversas oportunidades, com resultados
excelentes.
Como
membros do comando foram designadas as três pessoas que, no instante
em que Rhodan recebeu a estranha mensagem, se encontravam a alguns
milhões de quilômetros de distância, num ônibus da linha
Resaz—Fillinan, e procuravam, espantados, os demais passageiros do
veículo.
Fellmer
Lloyd fora escolhido por ser um dos poucos mutantes cujos dons
parapsicológicos lhe permitiam localizar o inimigo, desde que o
mesmo se encontrasse nas proximidades; Rosita Peres, porque a missão
teria de ser cumprida num mundo totalmente desconhecido; assim se
fazia necessário um estudo cuidadoso da mentalidade de seus
habitantes; por fim, o Tenente Marcel Rous que, durante sua atuação
em Mirsal III, já tivera suas experiências com o inimigo
desconhecido e ainda tinha algumas contas a ajustar com este.
Rhodan
concluiu que os três haviam entrado em contato com o inimigo. A
conclusão era bem plausível, porque durante o desaparecimento da
nave de Mirsal II fora observado por várias vezes um fading
idêntico. Havia uma diferença: os sinais emitidos pela nave
acabaram desaparecendo por completo, enquanto os micro emissores
implantados sob a pele de Lloyd, Rosita Peres e Rous voltaram a
recuperar a potência primitiva, depois da redução temporária.
Por isso
era de se supor que os três agentes haviam escapado ao perigo. Além
dos microemissores, que emitiam sinais diferentes para cada um dos
três, ainda traziam um microcomunicador, que era um instrumento que,
tal qual o telecomunicador, podia transmitir hipermensagens a
distâncias consideráveis. Rous entraria em contato com ele, assim
que isso se tornasse possível.
A Gazela
com que os três agentes haviam pousado em Mirsal II possuía também
um transmissor individual. Se o inimigo desconhecido não dispusesse
de uma superioridade infinita, que lhe permitisse não se interessar
pelos recursos técnicos do inimigo, veria naquele veículo espacial,
que por ordem de Rhodan ficara no local de pouso, um ótimo objeto de
estudo. Levá-la-iam, e o transmissor individual da Gazela revelaria
o lugar para onde fora carregada.
Isso
representaria muito. Por enquanto, os ocupantes da Drusus e da
Arc-Koor não sabiam sequer em que área desse setor galáctico
poderiam encontrar os desconhecidos.
*
* *
O choque
passou.
— O que
há por perto? — perguntou Rous.
Lloyd
sacudiu a cabeça.
— Nada —
respondeu lacônico. — Absolutamente nada.
Rous
levantou-se e espremeu-se no assento do motorista.
— Neste
caso tentaremos ir adiante com esta geringonça.
Experimentou
cautelosamente alguns botões, pedais e alavancas que havia no
painel, no chão e na chapa que separava o capuz do motor da cabine
dos passageiros.
O motor
começou a trabalhar ruidosamente. Sentiu-se um cheiro de gasolina...
de verdadeira gasolina!
Rous
soltou o freio e acelerou. O ônibus deu um tremendo salto para a
frente e o motor morreu. Rous experimentou outra marcha e desta vez
teve mais sorte. Com um zumbido alto o veículo saiu lentamente pela
estrada. Não conseguindo encontrar as outras marchas na primeira
tentativa, Rous teve muitas vezes que parar.
Finalmente
conseguiu. O ônibus aproximou-se da cidade a uma velocidade de cerca
de cinqüenta quilômetros por hora.
Marcel
Rous teve tempo para pensar num plano. A estrada estava completamente
deserta; não havia necessidade de prestar atenção ao tráfego.
Fellmer Lloyd voltara à letargia habitual; procurava “ouvir”
eventuais modelos de vibrações cerebrais.
“O
que vamos fazer em Fillinan?”,
indagou-se mentalmente Rous. “Queremos
descobrir a pista do inimigo desconhecido. Temos motivo para
acreditar que em Fillinan isso será mais fácil que em qualquer das
aldeias que já atravessamos? Não temos. Até agora só conseguimos
um ligeiro indício. Os desconhecidos que operam aqui evidentemente
não são nossos inimigos, pois por enquanto não nos fizeram nada;
talvez estivessem combatendo apenas os habitantes de Mirsal III e de
Mirsal II, que pareciam ameaçados do mesmo destino. Os invisíveis
devem ter seus agentes neste mundo. E quem quer encontrar um agente
deve dirigir-se à capital.”
Lloyd deu
sinal de vida.
— Estou
captando uma porção de modelos de vibrações cerebrais —
resmungou. — Até parece um formigueiro humano.
— De
onde vêm?
— Da
frente.
Rous
acenou com a cabeça.
— É lá
que fica a cidade — disse. — Quer dizer que seus habitantes ainda
não desapareceram.
Lloyd
parecia não se interessar pelas palavras de Rous. Continuava a
concentrar-se.
— Não
existe nenhum modelo realmente desconhecido — disse depois de algum
tempo.
— Qual é
a porcentagem que o senhor consegue identificar? — perguntou Rous.
— Mais
ou menos um entre mil — respondeu Lloyd. — Numa quantidade
dessas, isto se torna difícil, especialmente quando a distância é
grande.
Rous fez
um gesto.
— Pelo
que sabemos, Fillinan tem mais de três milhões de habitantes. Quer
dizer que, se houvesse três mil desconhecidos, o senhor ainda os
reconheceria. Não acredito que sejam tantos.
Lloyd
resmungou:
— Neste
caso teremos de esperar até chegarmos mais perto.
Voltou a
inclinar-se para a frente e apoiar a cabeça nas mãos.
Dali a
alguns minutos, Rous freou. Encostou o ônibus do lado direito da
estrada.
— Vamos
descer aqui — disse.
— Por
quê? — perguntou Rosita.
— A
cidade fica a cinco quilômetros no máximo. Daqui já se vêem as
luzes. Não gostaria que alguém me perguntasse como me apoderei do
ônibus e o que foi feito dos passageiros.
Desceram.
Lloyd trazia uma pasta embaixo do braço.
A
caminhada para Fillinan não foi nada agradável. Uma tempestade
uivava em torno dos três andarilhos solitários, trazendo um frio
cortante. A poeira cinzenta ardia na pele. Mantinham a cabeça
abaixada, para melhor se protegerem.
Felizmente
não se encontraram com ninguém. A estrada larga que, num ambiente
terrano, estaria repleta de veículos de toda espécie, mostrava-se
completamente deserta.
Quando as
primeiras casas da cidade surgiram à sua frente, o dia estava
amanhecendo. A tempestade amainara, mas o céu continuava encoberto.
Mirsal, a estrela-mãe do sistema, não estava aparecendo.
As casas
pareciam mortas. Eram hexagonais, como as que já haviam visto. Nas
janelas não observaram nenhuma luminosidade.
Subitamente
Lloyd estacou.
— Há
três ou quatro homens à nossa frente — disse. — Estão perto, a
aproximadamente duzentos metros de distância.
— Só
quatro? — perguntou Rous em tom de espanto. — E nas casas?
— Não
há ninguém; estão vazias.
Rous
refletiu um pouco.
“Não
há dúvida de que a cidade está habitada. Apenas as primeiras casas
estão vazias. Por quê? Porque evacuaram esta área a fim de vigiar
melhor a saída, seu idiota. Os quatro homens cuja presença foi
constatada por Lloyd pertencem a um destacamento militar!”
— Pegue
a arma psíquica! — ordenou, dirigindo-se a Lloyd. — Não temos
outra alternativa senão ir em frente.
Lloyd
confirmou com um gesto, retirou a arma do bolso.
Prosseguiram
na sua caminhada. Rosita ia na retaguarda.
A primeira
coisa vista por Rous em meio ao crepúsculo foi o cano de dez
centímetros de diâmetro de uma arma, montada num jardim, à
esquerda da rua.
Rous sabia
se tratar de um tipo de lança-chamas. Em Mirsal II, a técnica das
armas de fogo estava menos desenvolvida do que estivera na Terra, num
estágio equivalente da evolução. Um fuzil de Mirsal não merecia
mais confiança do que uma arma de carregar pela boca do tipo usado
na mais remota antigüidade terrena, e era tão difícil de manejar
quanto esta. Em compensação, os lança-chamas mirsalenses eram
verdadeiras maravilhas da técnica. Os modelos maiores tinham um
alcance de até dez quilômetros, com uma abertura mínima do feixe
de chamas e uma geração de calor que chegava a atingir mais de mil
watts por centímetro quadrado.
Rous fez
como se não tivesse visto o lança-chamas. Não se sentia muito à
vontade, pois conhecia muito pouco a respeito da mentalidade dos
mirsalenses. Não sabia se não achariam preferível atirar em vez de
fazer perguntas, especialmente agora que deviam estar espantados com
o desaparecimento dos habitantes.
Mas suas
preocupações revelaram-se infundadas. Das moitas que havia no
jardim, logo atrás do lança-chamas, saiu um homenzinho moreno que
agitou os braços.
— Pare!
— gritou o outro.
Rous
parou.
— Cuidado!
— disse em voz baixa, dirigindo-se a Lloyd.
Lloyd
confirmou com um gesto.
O
homenzinho atravessou a rua. Rous viu que trazia na mão uma versão
reduzida do lança-chamas. Esforçou-se para dar uma expressão de
espanto ao rosto.
— O que
houve? — perguntou. — Por que mandam a gente parar?
O
homenzinho não disse nada até aproximar-se a cinco metros de Rous e
de seus companheiros.
— De
onde vêm? — perguntou em tom desconfiado.
Rous
apontou com o polegar por cima do ombro.
— De lá.
— Não
quero subterfúgios! Quero saber de onde vêm.
— De
Wollaston — respondeu Rous.
Wollaston
era uma ilha de tamanho regular, que ficava no oceano central. Seus
habitantes, que formavam uma raça diferente e semicivilizada, tinham
em média meio palmo mais que os outros mirsalenses.
— De
Wollaston? — disse o guarda em tom de espanto. — Vieram a pé?
— Não.
Viemos de avião até Resaz, e de lá viajamos de ônibus até
Keyloghal. Depois disso viemos a pé.
— Os
documentos!
Rous fez
como se nem soubesse o que vem a ser um documento. O guarda virou a
cabeça e gritou em direção às moitas do jardim:
— Ei!
Venham cá. Peguei três pássaros muito interessantes.
Rous olhou
para Lloyd, mas este sacudiu a cabeça. Ainda não havia acionado o
projetor mental. O guarda agira por iniciativa própria ao chamar
seus companheiros. Pequenos como ele e vestidos com roupas
verde-escuras, que lhes serviam de uniforme, três homens saíram das
moitas.
— Dizem
que são de Wollaston — disse o primeiro dos guardas em tom de
escárnio. — E não têm documentos.
— Eram
estes que nós esperávamos! — exclamou um dos outros. — Se os
revistarmos, deveremos encontrar uma porção de coisas
interessantes.
Rous
percebeu um movimento suave atrás de si. Era Lloyd que estava
entrando em posição. A situação era favorável. Durante a ligeira
palestra, as atenções do guarda mais próximo estavam desviadas de
sua pessoa.
Rous ouviu
o zumbido fino da arma psíquica. Viu o guarda virar-se
apressadamente e fitar Lloyd com uma expressão de perplexidade.
Lloyd saiu de trás de Rous. Segurava o projetor mental na direita.
— Larguem
as armas! — ordenou com a voz tranqüila.
Os outros
três guardas, que já se encontravam bem próximos, pararam e
obedeceram. Tiraram os pequenos lança-chamas dos cintos e os
deixaram cair. O guarda, que surgira primeiro, também não ofereceu
a menor resistência.
— Coloquem-se
em fila! — prosseguiu Lloyd.
Esta ordem
também foi cumprida sem a menor resistência. Os quatro homens
fitavam Lloyd como se este acabasse de descer dos céus num carro de
fogo.
— Por
que estão aqui? — perguntou Lloyd. — Vamos logo! Você aí:
responda.
Apontou
para um dos guardas.
— Coisas
estranhas estão acontecendo — respondeu com a voz indiferente. —
Os homens estão desaparecendo, regiões inteiras vêm sendo
despovoadas. Um inimigo poderoso e invisível lançou um ataque
contra nós. Precisamos encontrar-lhe a pista. Precisamos revistar
todas as pessoas vindas das áreas despovoadas. Só assim poderemos
descobrir o inimigo.
“A
conclusão é bem plausível”,
pensou Rous. “Quem
viesse das áreas despovoadas só poderia ser um inimigo, a não ser
que a situação se complicasse pela presença de três agentes de
uma potência neutra.”
— Acreditam
que somos inimigos?
— Acreditamos.
— Acontece
que não somos. Entendeu?
— Compreendemos:
vocês não são inimigos.
— Muito
bem — disse Lloyd. — Quanto em dinheiro você tem?
O soldado
começou a revistar os bolsos.
— Dezesseis
unidades e alguns trocados.
— Passe
para cá.
O soldado
aproximou-se e colocou o dinheiro na mão de Lloyd. Os outros
receberam a mesma ordem e, uma vez cumprida esta, constatou-se que
Lloyd havia recolhido perto de cem unidades.
— Vocês
se esquecerão do que acaba de acontecer — concluiu. — Dez
minutos depois que eu tiver saído daqui não se lembrarão de mais
nada. Hoje de manhã não aconteceu coisa alguma. Entendido? Ninguém
veio pela estrada que vai de Resaz para Fillinan.
Os quatro
repetiram estas ordens.
— Voltem
aos seus postos.
Também
esta ordem foi cumprida. Lloyd desligou a arma psíquica e voltou a
enfiá-la no bolso. Os efeitos pós-hipnóticos durariam o tempo
indicado: dez minutos.
— Vamos
embora! — cochichou Rous. — Dentro de dez minutos, deveremos
estar fora do alcance de suas vistas.
Correram
um pedaço. A estrada descrevia uma curva, que os escondia dos
olhares dos guardas hipnotizados.
Dois
quilômetros depois, surgiram outros guardas. Mas Rous e seus
companheiros passaram, e nem sequer as sentinelas os mandaram parar.
Logo
depois começou o torvelinho da metrópole.
— Vamos
alojar-nos num hotel — decidiu Rous. — O dinheiro que temos dá
para um dia. Depois teremos de arranjar mais.
— O que
vamos fazer no hotel? — perguntou Rosita.
— Antes
de mais nada, vamos dormir. Estou muito cansado.
— Hum —
fez Rosita. — Já tem algum plano para depois de acordarmos?
Rous fez
uma careta.
— Que
menina curiosa! Para dizer a verdade, não tenho nenhum plano. Não
tenho a menor idéia de como poderemos agir. Receio que tenhamos de
aguardar os acontecimentos.
Perguntaram
a um transeunte se havia um hotel nas proximidades. O homem deu a
informação solicitada, mas não ocultou seu espanto. Rous ficou
sabendo que há três dias fora promulgada uma proibição absoluta
de viajar, válida para todo o continente. Só quem dispusesse de
licença especial poderia viajar. O informante contentou-se com a
explicação de que os três homens vinham da ilha de Wollaston.
O hotel
que o mirsalense lhes havia indicado ficava bem perto. Foram a pé.
Os transeuntes paravam e fitavam-nos. Rous não se sentia nem um
pouco à vontade. Rosita mantinha os olhos abaixados; nem uma única
vez levantou a cabeça.
Já Lloyd
parecia não se impressionar nem um pouco com o que estava
acontecendo. Murmurava constantemente, fazia gestos afirmativos ou
negativos e, ao que tudo indicava, estava tão ocupado com a palestra
que mantinha consigo mesmo que nem se deu conta da curiosidade dos
mirsalenses.
Subitamente
parou.
— Caramba!
— disse.
— O que
houve? — perguntou Rous.
— Qualquer
pessoa precisa de licença especial para viajar — disse Lloyd em
tom pensativo. — Quer dizer que os passageiros de nosso ônibus
devem ter sido pessoas muito importantes, não é mesmo?
Rous
acenou com a cabeça.
— E daí?
— Veja
onde estão estacionados os automóveis.
Rous olhou
em torno. Já constatara que em Mirsal II costumavam trafegar pelo
lado esquerdo, motivo por que se estacionava do mesmo lado. Mas não
deu maior importância ao fato.
— Estacionaram
do lado esquerdo — respondeu. — E daí?
— Acontece
que o senhor estacionou o ônibus do lado direito. Está lembrado?
— Sim;
será que há algum inconveniente nisso?
— Não
se esqueça de que venho de Nova Iorque, tenente; diretamente de Nova
Iorque. Se lá um ônibus com gente importante se perde, e
posteriormente a polícia encontra estacionado na contramão, tirarão
disso algumas conclusões. É possível que a polícia daqui seja tão
inteligente quanto a de Nova Iorque. Ainda acontece que há três
dias se acha em estado de alarma. E, finalmente: mesmo que os
policiais do primeiro posto pelo qual passamos não se lembrem de
mais nada, os do segundo saberão dizer de que direção viemos.
Rous
tornou-se pensativo.
— Talvez
tenha razão, Lloyd — admitiu. — De qualquer maneira, a esta hora
só nos resta esperar para vermos se a polícia de Fillinan realmente
é inteligente.
Prosseguiram
na sua caminhada.
O grande
hall do hotel estava vazio. Não havia ninguém na recepção. Mas
havia uma campainha. Depois que Rous comprimira o botão várias
vezes, um velhinho surgiu e ficou bastante espantado quando Rous lhe
disse que queria três quartos. O homenzinho pediu documentos e a
licença especial, mas o projetor mental de Lloyd logo fez com que
mudasse de idéia. Não houve maiores problemas; os três foram
alojados no segundo pavimento do edifício em que funcionava o hotel.
Já que
Lloyd teve de fazer uso do projetor mental, os aposentos foram
escolhidos por Rous segundo um critério utilitário. Havia portas
que os ligavam, de maneira que ninguém teria necessidade de sair
para o corredor se quisesse falar com o vizinho.
Rous
instalou-se no chão, depois de estender o colchão e os cobertores
existentes na cama, que era muito pequena para ele.
Dali a
alguns minutos adormeceu.
3
Quando
acordou já passava do meio-dia.
Alguém
batia à porta.
— Entre!
— gritou, usando por precaução a língua mirsalense.
Rosita
entrou.
— Espero
que tenha dormido bem — disse com uma leve ironia. — O senhor
dorme enquanto acontecem as coisas mais Importantes.
— Ah, é?
O que houve?
— O
comando pós-hipnótico de Lloyd produziu os efeitos desejados. O
homenzinho da recepção está convencido de ter recebido nossos
passaportes e os ter perdido. A polícia veio aqui para
interrogar-nos e nos fornecer novos documentos.
Rous
levantou-se de um salto.
— Está
bem; já vou.
Eram
quatro policiais ao todo. Estavam esperando no hall. Quando Rous
chegou, Lloyd e Rosita Peres já se encontravam presentes.
As
declarações do velhinho que, segundo tudo indicava, era o gerente
do hotel, foram registradas. Depois Rous e seus companheiros foram
interrogados sobre suas procedências e a finalidade da viagem.
Consideraram suas declarações satisfatórias, pois nesse meio tempo
haviam colhido informações sobre sua pretensa cidade de origem,
Wollaston. Rous disse que não sabia da necessidade de licença
especial para viajar. Teria partido de Resaz há cinco dias,
juntamente com seus amigos. Depois de várias paradas chegara a
Keyloghal, onde constatou que a aldeia estava deserta. Dali em diante
teria vindo a pé.
Um dos
policiais era um velhinho grisalho que, a julgar pelo uniforme, devia
ser de graduação superior aos demais. Apresentara-se como o
comissário Flaring.
Ao
concluir, indagou:
— Não
estranhou o desaparecimento dos habitantes da aldeia?
Rous fez
que sim.
— Naturalmente.
Ficamos muito curiosos para saber aonde poderiam ter ido. Pensamos
que se tratasse de uma evacuação realizada por um motivo de peso e
apressamo-nos em prosseguir viagem para Fillinan.
— Por
quê?
Rous
balançou as mãos.
— Bem...
poderia ser que naquela área tivesse sido descoberto um vulcão
subterrâneo cuja irrupção fosse iminente, e que por isso a
população tivesse sido evacuada.
Ao que
parecia, Flaring ficou satisfeito com a explicação.
— Encontrou
um ônibus pelo caminho, mais precisamente no trecho de Keyloghal
para Fillinan?
Rous fez
de conta que estava refletindo.
— Sim —
disse depois de algum tempo. — Agora me lembro. A pouco menos de
vinte quilômetros da cidade, vimos um ônibus vazio.
— Vazio?
— perguntou Flaring em tom de espanto.
— Isso
mesmo: vazio.
Flaring
olhou para os companheiros e levantou-se.
— Está
bem. Providenciaremos para que os novos passaportes lhes sejam
enviados.
Saiu do
hotel juntamente com os companheiros, sem despedir-se.
Rous,
Lloyd e Rosita voltaram aos seus aposentos.
— Não
gostei de Flaring — disse Rosita de repente.
— Por
quê?
— Tive
oportunidade de estudar a vítima que se encontrava na Gazela e
fiquei conhecendo a mentalidade dos mirsalenses. Se por aqui alguém
sai sem se despedir, isso tem uma importância muito maior que na
Terra. Flaring tem alguma coisa contra nós, e quer que percebamos.
— Tomara
que guarde suas suspeitas para si — respondeu Rous. — Enquanto
for só ele, poderemos influenciá-lo com o projetor mental; mas se
tornar públicas suas suspeitas, nossa situação ficará mais
perigosa. De qualquer maneira, devemos evitar que sejamos
identificados como estranhos, pois se isso acontecer, logicamente
terão de acreditar que somos o inimigo que vai eliminando os
mirsalenses de forma tão misteriosa.
Rosita fez
que sim.
Lloyd
interveio na conversa.
— Não
adianta ficarmos escondidos nos quartos — disse. — Acho que
devíamos dar um passeio.
— É
verdade — disse Rous. — Mesmo que todo mundo nos olhe como se
fôssemos bichos.
*
* *
Era
estranho que, de tarde, os mirsalenses pareciam estar menos curiosos
que de manhã. Pouca gente virou a cabeça para olhá-los.
Provavelmente a notícia da chegada de três pessoas vindas de
Wollaston já correra pela cidade.
Rous e
seus companheiros pegaram o metrô e foram ao centro da cidade.
A rua mais
luxuosa de Fillinan era a Alameda dos Reis. Tinha cem metros de
largura e cortava a cidade de norte a sul. Naquelas semanas, a título
experimental e em certos trechos, geralmente de um quilômetro de
extensão, haviam sido instalados os guias de microondas. Estes
dispensavam o trabalho dos motoristas. Não era de admirar que, nos
trechos experimentais, o público se comprimisse junto ao meio-fio, a
fim de contemplar os veículos-teste da polícia, cujos motoristas
mantinham as mãos ostensivamente entrelaçadas atrás da cabeça,
provando que realmente não estavam interferindo na direção do
veículo. Face ao interesse que os mirsalenses estavam dedicando ao
espetáculo, quase ninguém deu atenção a Rous e seus companheiros.
As casas
dessa rua eram grandes; ao que parecia, não se economizara em sua
construção. Eram hexagonais como as outras casas de Mirsal II, e
estavam rodeadas de jardins.
Havia
edifícios tão altos como os velhos arranha-céus nova-iorquinos.
Geralmente os pavimentos térreos estavam ocupados com lojas, e os
andares de cima com escritórios e residências. Se não fossem as
placas com letras estranhas, poder-se-ia pensar que se tratava de uma
cidade do planeta Terra, construída por algum arquiteto dotado de
maior criatividade.
Rous,
Rosita e Lloyd passeavam tranqüilamente por essa rua. O mutante
mantinha a pasta sob o braço, que nem um estudante que se esforça
para não perder seu material de escola.
Falavam
muito pouco. O perigo de que alguém os escutasse não poderia ser
desprezado.
Depois de
terem caminhado cerca de um quilômetro do lugar em que haviam saído,
Lloyd estacou subitamente e olhou para trás.
— Um
momento! — disse em voz baixa. — Alguma coisa está acontecendo.
Rous e
Rosita também pararam. Lloyd olhou rua abaixo; não viu nada além
do torvelinho normal do tráfego.
— O que
houve? — perguntou Rous.
Lloyd fez
um gesto impaciente.
— São
os desconhecidos! — disse apressadamente. — Estão bem perto. Eu
os sinto.
Rous
sentiu um calafrio. Os mirsalenses continuavam amontoados junto ao
meio-fio, contemplando o espetáculo dos carros-teste da polícia.
— É
agora! — gritou Lloyd baixinho. — Estão chegando.
Contorceu
o rosto, como se estivesse sentindo dores. Com um movimento
automático, abriu a pasta e retirou um dos pequenos geradores de
campo defensivo que costumavam ser instalados nos trajes especiais de
procedência arcônida e, em versão bastante aumentada, nas naves
espaciais.
Rous não
sabia o que pretendia fazer com o aparelho. Rosita soltou um grito
estridente e apontou para a frente.
— Olhe...!
Na direção
em que Rosita estava apontando, Rous viu que mais adiante o ar
parecia tremeluzir em toda a largura da rua. Notou que, atrás da
cortina de ar tremeluzente, não havia mais gente nas calçadas. E os
carros, que pouco antes ainda se deslocavam em boa ordem, passaram a
correr em todas as direções, subiam nas calçadas, batiam nos
edifícios e colidiam uns com os outros...
A cortina
parecia aproximar-se cada vez mais. O panorama era enlouquecedor: os
homens desapareciam das calçadas, e os veículos desgovernados
pareciam empenhados num jogo maluco.
Amontoados
junto à rua, os mirsalenses tiveram sua atenção despertada para o
fenômeno. A ampla rua subia suavemente para o norte, oferecendo
ampla visibilidade. Todos viram com os próprios olhos que uma
cortina, que tornava invisíveis os homens e fazia os veículos
comportarem-se loucamente, descia progressivamente pela avenida.
Dali a
alguns segundos, começou o pânico. A multidão uivava, gritava,
empurrava, enquanto se punha em movimento, procurando afastar-se do
terrificante e do incompreensível que se aproximava deles.
Rous,
Lloyd e Rosita afastaram-se. De um jardim, contemplaram a corrida dos
fugitivos e fitaram a “parede”
tremeluzente que descia pela rua.
Parecia
deslocar-se cada vez mais depressa.
Subitamente
Lloyd despertou de seu torpor.
— Segure
um deles! — gritou para Rous.
Rous não
sabia o que queria dizer. Lloyd apontou para os mirsalenses que
fugiam.
— Segure
um deles! — gritou. — Rápido; não temos tempo a perder!
Rous pegou
ao acaso um dos fugitivos. O homem resistiu desesperadamente, mas o
tenente era muito mais forte que ele.
A “parede”
estava se aproximando.
O
mirsalense pendia frouxamente na mão firme de Rous. Fitou os três
terranos com os olhos arregalados, gemeu e não disse uma única
palavra.
— Vamos
colocá-lo no meio! — disse Lloyd.
Rous
compreendeu o que o companheiro pretendia fazer. Havia ativado o
gerador do campo defensivo.
E a
“parede”
chegou...
Rous
sentiu um ligeiro formigamento e teve a impressão de que uma brisa
passava por ele. Posteriormente, quando rememorasse o fenômeno, não
saberia dizer se a sensação fora provocada pela parede ou por sua
fantasia.
Por uma
fração de segundo o barulho que enchia a rua cessou.
Rous,
Lloyd e Rosita estavam de mãos dadas, formando um círculo em cujo
centro fora colocado o mirsalense.
O barulho
voltou. Rous olhou rua abaixo e viu que os fugitivos eram atingidos
pelo fenômeno invisível, e desapareciam. Agora a velocidade da
“parede”
parecia ser dez vezes maior. Precipitava-se rua abaixo e a varria.
Dali a alguns segundos, não se via mais nenhum mirsalense.
Nenhum
indivíduo além daquele em torno do qual Rous e seus companheiros
haviam formado um círculo protetor!
O homem
tremia, arregalava os olhos e não foi capaz de dizer uma palavra.
Olhava rua acima e rua abaixo, respirava violentamente e começou a
soluçar quando compreendeu a extensão da catástrofe.
Rous
examinou-o e perguntou-se mentalmente:
“Será
que este indivíduo nos poderia ser útil?”
Fora um
objeto de experiência muito útil. A esta hora já sabia que um
mirsalense cercado por três terranos e protegido por um potente
campo defensivo pode ser salvo do desaparecimento.
Rous
colocou a mão no ombro do homem e lhe disse em tom amável.
— Vá
para casa e dê-se por satisfeito por ainda estar vivo.
O homem
obedeceu sem dizer uma única palavra. Saiu aos tropeções, sem
olhar para trás.
Rous
retomou o ritmo de sua atividade.
— Vamos
embora! Precisamos descobrir se nesta cidade existe alguém que tenha
escapado à desgraça.
Lloyd
colocou o gerador na pasta e dirigiu-se à entrada de metrô mais
próxima.
— Não
se iluda! — gritou Rous atrás dele. — O metrô não está
funcionando mais. Já imaginou o que deve ter acontecido com os trens
quando de repente ficaram sem maquinistas?
Rosita
teve uma idéia melhor. Alguns dos automóveis que se encontravam na
rua no momento da catástrofe continuavam intactos. Escolheu o
veículo mais potente.
— Venham!
— gritou. — Acho que ele nos será bastante útil.
Pouco
antes de chegar ao automóvel, Rous viu alguma coisa no chão. Era
azul, emitia um brilho suave e tinha o formato aproximado de um pente
sem dentes. Rous não sabia para que aquele objeto já poderia ter
servido. Seguindo uma inspiração momentânea, colocou-o no bolso.
Rosita
percebeu.
— O que
quer com isso? — perguntou.
Rous deu
de ombros.
— Analisar.
Ficou bem embaixo da “parede”.
Talvez apresente alguns vestígios...
Sentou-se
à direção do carro. Depois de ter conduzido o ônibus, não tinha
a menor dificuldade de movimentar o automóvel e manobrá-lo
cuidadosamente por entre os numerosos obstáculos que havia na rua.
No
primeiro cruzamento dobrou para a direita. A rua lateral era estreita
em comparação com a Alameda dos Reis, muito embora tivesse seus
quarenta metros de largura. Tal qual a outra, estava vazia.
Rous
procurou lembrar-se do lugar em que ficava o hotel. Uma vez que havia
vindo de metrô, não tivera oportunidade de rememorar o itinerário.
Mas conhecia a direção e tinha certeza de encontrar o caminho pelas
ruas totalmente vazias.
Quando
Lloyd se sobressaltou, deviam ter viajado uns trinta minutos.
— Há
gente pela frente — disse apressadamente. — São muitos. Ao que
parece, o desastre não atingiu toda a cidade.
Rous
estreitou os olhos.
— Nesse
caso devemos ter cuidado. Pensarão que qualquer pessoa vinda da área
central da cidade é um inimigo.
O hotel
ficava na periferia da cidade, distando ao menos quinze quilômetros
da Alameda dos Reis. Rous levou uma hora e meia para percorrer esses
quinze quilômetros, uma vez que não conhecia a cidade.
Finalmente
chegou a uma rua que lhe parecia conhecida. Rosita lembrou-se de uma
espécie de joalheria diante da qual parara de tarde, e Lloyd já
sabia que caminho tomar para chegar ao hotel.
Rous
dobrou a esquina e por pouco não bate no veículo vermelho que
estava atravessado na rua.
Lloyd já
afirmara que os impulsos captados vinham de bem perto. No carro
estavam sentados cerca de vinte policiais com as armas levantadas, e
de cada lado da rua havia dois policiais.
Rous
parou; não teve outra alternativa.
— Cuidado,
Lloyd! — cochichou.
Três
policiais saltaram do carro vermelho e aproximaram-se do automóvel.
Rous baixou o vidro do lado direito.
— De
onde vieram? — perguntou um dos policiais.
— Dos
subúrbios do leste — respondeu Rous.
— Atravessaram
a cidade?
— Atravessamos.
— Como
estão as coisas por lá?
Rous fez
um gesto de pavor; nem precisou esforçar-se muito.
— Tudo
vazio; todo mundo desapareceu!
— Conseguiu
ver para onde desapareceram?
— Não;
não presenciamos o fenômeno. Viemos pela ponte de Finnestal. Do
lado de lá estava tudo em ordem, mas do lado de cá...
— Está
bem — disse o policial. — Pode prosseguir. Passe pela calçada.
Rous
agradeceu, dobrou para a esquerda e contornou o veículo vermelho.
— Acaba
de cometer um erro — disse Rosita em tom tranqüilo.
— Qual
foi?
— Não
se despediu.
— O quê?
— Agradeceu,
mas não se despediu. Não se esqueça de que entre os mirsalenses os
cumprimentos desempenham um papel muito importante.
— Caramba!
— resmungou Rous. — Talvez não tenham notado.
— Ele
notou — respondeu Rosita. — Vi pelo rosto. Acho que a permissão
para prosseguir representa um simples estratagema. Acho que teremos
problemas.
Rous não
disse mais nada.
Dali a
alguns minutos, parou à frente do hotel.
Por ali as
ruas também estavam vazias. Pelo que dizia Lloyd, os impulsos que o
mesmo vinha captando procediam do sudoeste. Provavelmente essa parte
da cidade era a única que escapara à desgraça.
O hotel
estava ainda mais vazio que antes. Até mesmo o velhinho havia
desaparecido. Rous tocou a campainha algumas vezes e, como não
aparecesse ninguém, ele mesmo foi pegar as chaves dos seus quartos.
O elevador
não funcionava. A catástrofe fizera desaparecer também os
operadores das usinas de energia. Não havia eletricidade.
Subiram
pelas escadas. Não diziam; uma única palavra. Tinham muito em que
pensar.
Não se
separaram. Foram todos ao quarto de Rous. Antes que este abrisse ai
porta, Lloyd lhe fez um sinal de advertência e apontou para a porta.
Rous ergueu as sobrancelhas, refletiu por um instante e acenou com a
cabeça. Apontou para a pasta de Lloyd. Este pegou o projetor mental.
Depois
entraram.
Ao
primeiro relance de olhos parecia que nada tinha mudado. Mas assim
que Rosita fechou a porta atrás de si, surgiram rostos atrás das
poltronas, das cadeiras e das mesas.
Eram
rostos de policiais. Ergueram-se de vez e via-se que mantinham
apontados os lança-chamas portáteis.
Rous
reconheceu um dos policiais. Era Flaring.
O
comissário saiu de seu esconderijo. Com uma expressão de escárnio
no rosto, disse:
— Pensamos
que os senhores pudessem contar-nos alguma coisa sobre a última
catástrofe; foi por isso que viemos.

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