— Está
pronto,
Mullon?
Nos poucos
dias de prisão, Mullon já se acostumara ao fato de que os guardas
julgavam
o
Mister
um acréscimo supérfluo a seu nome.
Comprimiu
pela última vez a fechadura da malinha que lhe haviam entregue para
guardar seus reduzidos haveres. Fez um gesto afirmativo.
— Venha
comigo.
O caminho
levou-os por corredores profusamente iluminados, mas sem janelas, por
uma grade eletrônica e por um elevador antigravitacional que
conduzia à rua.
Dos outros
corredores vinham guardas com levas de prisioneiros. Mullon conhecia
aqueles que pertenciam à Associação dos Democratas Autênticos.
Não se cumprimentaram.
Na rua, os
veículos-planadores se enfileiravam. Em cada um deles cabiam
cinqüenta prisioneiros e um guarda. A deportação estava em pleno
andamento.
A viagem
ao espaçoporto durou apenas alguns minutos. Os prisioneiros
demonstraram certo interesse diante da esfera de mil metros de
altura, que os levaria ao destino longínquo.
O nome da
nave era Adventurous.
Uma larga
fita rolante levava do chão até uma enorme escotilha que se abria
na parte inferior da nave. Os prisioneiros desapareciam aos grupos no
interior dela.
Alguém se
dirigiu a Mullon:
— Este
grupo seguirá para a direita. Subam pelo elevador antigravitacional
até o convés E. Quando chegarem lá, alguém lhes indicará o
caminho.
Mullon
obedeceu. Sentia-se apático.
Por que se
lembrava de Fraudy justamente neste momento? Por que martirizar-se
justamente quando a porta da Terra se fechava definitivamente para
ele?
Nos cinco
dias em que se encontrara na cela, depois da prolação da sentença,
Fraudy tentara visitá-lo cinco vezes. Sempre se recusara a sair da
cela. Não queria trocar uma única palavra com Fraudy.
“Teria
agido corretamente?”,
pensou indagando-se.
— Preste
atenção, homem! — gritou alguém para ele. — Nessa direção.
Mullon
voltou-se na direção que lhe fora indicada. Caminhando no fim do
grupo, caminhava por um corredor largo, comprido e bem iluminado.
O grupo
dividiu-se várias vezes. Por fim havia apenas cinco pessoas além de
Mullon. Todos eram democratas autênticos.
Um homem
uniformizado lia os nomes e, assim que a pessoa respondesse, indicava
um número.
— Mullon.
— Pronto!
— Dois
mil, cento e trinta e sete. É ali. O camarote 2.137 era o último,
antes do cruzamento de dois corredores. A porta estava trancada, mas
Mullon fora informado sobre a maneira de abri-la. Colocou-se bem em
frente desta e aguardou até que o dispositivo automático refletisse
sua imagem e a fizesse deslizar.
Atrás da
porta havia um pequeno recinto guarnecido apenas com os móveis
essenciais. Uma cama de dobrar, uma pia, uma mesa, duas cadeiras, um
pequeno armário.
Tudo isso
estava sendo iluminado por um tubo de luz fluorescente que corria na
junção formada pelo teto e pela parede. Alguém havia ligado a luz
antes que Mullon entrasse.
Este
alguém estava sentado numa cadeira e fitava Mullon com uma expressão
insegura e assustada. Havia um sorriso débil em seus lábios.
Fraudy!
Mullon
ficou rígido de surpresa.
Fraudy
levantou-se.
— A
coisa é muito simples — disse com um desembaraço do qual logo se
notava que era forçado. — Fui eu que o meti nisso, e por isso
quero passar pela mesma coisa que você. Em poucas palavras, ficarei
a bordo e irei com vocês para Rigel III.
Já
não posso voltar. Ninguém mais pode sair da nave. Só resta saber
se você quer ficar comigo. Se não, terei que alojar-me em outro
lugar.
Demorou
algum tempo até que Mullon conseguisse controlar-se o suficiente
para poder dizer qualquer coisa. E as palavras que proferiu não
pareciam muito lógicas nem refletidas.
— Sua
teimosa encantadora!
Por
estranho que possa parecer, a permanência de Fraudy a bordo da
Adventurous não exigiu outras formalidades. Até parecia que ela
conseguira junto a uma autoridade muito importante a licença para
acompanhar os condenados. Este fato provava que suas intenções eram
sérias.
A
Adventurous decolou assim que foi concluído o embarque dos
condenados, que demorou um dia e meio.
Depois que
Fraudy aparecera diante dele, Mullon parecia transformado.
Subitamente compreendeu que as responsabilidades que lhe cabiam como
chefe dos democratas autênticos não haviam terminado com a
condenação.
Era bem verdade que os democratas autênticos não existiam mais; mas
havia quatro mil seres humanos que viam em Mullon a autoridade
suprema.
Mullon
conhecia Hollander e a ambição de que o mesmo era possuído. Sabia
que o filósofo da natureza tentaria assumir o comando dos oito mil
homens. E os democratas autênticos logo se deixariam dominar, se
Mullon não se interessasse por eles.
Ao
que
parecia, a manutenção da ordem existente correspondia aos desejos
dos juizes e dos funcionários incumbidos da execução da sentença.
Tanto era assim que, quando Mullon pediu que lhe cedessem a grande
cantina dos tripulantes, para realizar uma reunião, logo atenderam a
seu pedido.
Convidou
também os filósofos da natureza, nas Hollander mandou dizer que
seus homens ainda não se haviam instalado convenientemente. A
desculpa era tão esfarrapada que qualquer um perceberia
imediatamente que os filósofos da natureza nem pensavam em renunciar
a seu papel de grupo distinto.
Na
reunião, Mullon aludiu a esta circunstância. Sem preocupar-se com
os espiões dos filósofos da natureza que deviam estar infiltrados
em seu grupo, recomendou o máximo de vigilância. Referiu-se a
Hollander, dizendo que o mesmo era um homem que se encontrava sob a
suspeita de não ter reconhecido a lei suprema que devia guiá-los
naquela hora — a da estreita cooperação — por não querer
desistir das pequeninas intrigas.
Mullon
sugeriu que se elegesse uma comissão incumbida de elaborar um
projeto de constituição. A proposta mereceu a aprovação dos
presentes. Ainda propôs a criação de uma força policial, que
durante o vôo cuidaria dos filósofos da natureza e, depois do
pouso, tanto destes como do primeiro acampamento dos banidos. Esta
proposta também foi aceita.
Finalmente
Mullon procurou um sacerdote e um oficial do registro civil que
estivesse entre os condenados. Não escondeu o fato de que agia assim
movido por interesse particular. Antes de encerrar a reunião,
celebrou seu casamento com Fraudy Nicholson.
O mais
estranho era que os democratas autênticos, embora soubessem do papel
desempenhado por Fraudy, desde logo a aceitaram como esposa de
Mullon. Este não teve necessidade de lançar mão da autoridade de
que se achava investido. Os boateiros já haviam espalhado entre os
ocupantes da nave que Fraudy escolhera este destino para redimir-se
da traição cometida contra Mullon.
* * *
Quando
Mullon e Fraudy voltavam ao camarote, depois da reunião, um homem
que ele nunca havia visto os esperava. Parado diante da porta
fechada, segurava um envelope fechado.
— É Mr.
Mullon? — perguntou.
Mullon fez
um gesto afirmativo.
— Sou. E
o senhor?
— Isto
não interessa. Mr. Hollander me mandou para que lhe entregasse esta
carta.
Deu o
envelope a Mullon e retirou-se.
Mergulhado
em pensamentos, Mullon entrou no camarote atrás de Fraudy, enquanto
abria a carta. Tirou a folha de papel dobrada três vezes e começou
a ler. Fraudy viu que a expressão do rosto se alterava. Primeiro
parecia perturbado, depois zangado, e finalmente contorceu-se num
sorriso malévolo. Ao largar a carta, soltou uma gargalhada.
— Hollander
quer sua extradição — exclamou.
— Minha
extradição? — perguntou Fraudy em tom de espanto.
— Aqui.
Leia!
Fraudy
pegou a carta e leu:
O
Conselho dos Colonos Associados Livres (ao que parecia Hollander
gostava tanto deste nome que continuava a usá-lo para designar os
oito mil condenados) decidiu o seguinte: Miss Fraudy Nicholson,
agente secreto do ditador Rhodan, deve comparecer perante um tribunal
para ser julgada por traição à causa dos democratas autênticos e
dos filósofos da natureza.
O
Conselho dos Colonos Associados Livres intima aqueles que adotam o
comportamento estranhável de abrigar essa mulher, a entregá-la
imediatamente.
Ass.
Hollander, Presidente do Conselho dos Colonos Associados Livres.
— O
que pretende fazer? — perguntou Fraudy assustada.
Mullon
riu.
— Vou
dizer a Hollander que vá para o inferno juntamente com seu conselho
associado. Pelo que conheço dos meus homens, todos concordarão
comigo.
Mullon
escreveu às pressas uma carta-resposta. Não usou palavras tão
duras e terminantes como pretendera. Perguntou se Hollander não
achava que para Fraudy seria castigo suficiente deixar-se deportar da
Terra como todos os condenados, e se em sua opinião valia a pena que
a união, tão necessária numa hora como esta, fosse minada por uma
questão dessa natureza.
Meia hora
depois da chegada da mensagem de Hollander, a carta foi enviada por
um mensageiro especial. Este mensageiro recebeu instruções para
aguardar a resposta de Mullon.
A resposta
veio prontamente e foi do seguinte teor:
O
Conselho dos Colonos Associados Livres tomou conhecimento de que
Horace O. Mullon, antigo chefe dos democratas autênticos, desposou a
agente secreto Nicholson, que está sendo acusada pelo Conselho. Face
a isso o Conselho conclui que Horace O. Mullon se distanciou dos
objetivos pelos quais se empenham tanto os filósofos da natureza
como os democratas autênticos. Deve ser considerado inimigo da causa
comum. O Conselho exige que também seja extraditado para ser julgado
por um tribunal dos colonos.
Mullon
sentiu-se perplexo.
— Hollander
quer briga — disse em tom pensativo. — Bem que gostaria de saber
quais são suas intenções.
* * *
Mullon
convocou cerca de cem dos democratas autênticos para deliberar face
às duas cartas recebidas de Hollander. Conforme esperava, os homens
ficaram de seu lado. Mas também não conseguiram adivinhar o que
Hollander pretendia fazer.
* * *
O
comandante Flagellan resolveu efetuar duas transições para vencer a
distância enorme que separava a Terra de Rigel. Na altura da órbita
de Urano, a Adventurous penetrou no hiperespaço, para emergir a meio
caminho entre a Terra e Rigel.
Flagellan
deixou passar vinte horas entre uma transição e outra. Queria ter
certeza de que os geradores da nave tivessem restaurado o suprimento
de energia antes de executar o segundo salto pelo hiperespaço.
Flagellan era um comandante cuidadoso e responsável. Não poderia
imaginar que justamente esse cuidado seria a causa do desastre.
* * *
A primeira
redação do projeto de constituição, elaborado pela comissão
especial, foi apresentada à assembléia. Mullon ficou satisfeito ao
notar que mais de três mil e quinhentos, dos quatro mil democratas
autênticos, haviam comparecido para assistir à leitura do projeto,
participar dos debates e exercer o direito de voto. O interesse
político estava bem vivo, o que para Mullon era um bom sinal.
Depois de
uma hora de debates aprovou-se uma constituição provisória.
Sabia-se perfeitamente que não valeria a pena fazer um trabalho
definitivo, já que os filósofos da natureza insistiam em trilhar
seu próprio caminho. Teriam de aguardar se, uma vez chegado a Rigel
III,
Hollander
fundaria um Estado próprio ou não.
Segundo a
constituição provisória, os destinos dos democratas autênticos
seriam decididos por uma assembléia, composta de cem representantes
eleitos por voto livre, universal e secreto. O presidente da
assembléia, eleito por esta, exerceria as funções de chefe de
Estado. Conforme ressaltou Mullon numa breve alocução final, esta
decisão ainda apresentava certa conotação ridícula, mas depois de
chegarem à nova pátria isso mudaria.
Fraudy não
participou da reunião. Mullon recomendou-lhe que ficasse no camarote
e não deixasse entrar ninguém.
Alguns
homens, cujos camarotes ficavam na mesma área que o de Mullon,
acompanharam-no. Conversavam sobre os resultados da votação. Todos
— com exceção de Mullon — tiveram certeza de que este seria o
primeiro presidente da assembléia.
Mullon
repeliu a idéia com uma risada e esteve a ponto de enumerar os
motivos pelos quais, na sua opinião, estava automaticamente
excluído, quando viu a sombra de um homem que desaparecia na curva
do corredor que ficava junto ao seu camarote.
“É
gente de Hollander!”,
foi este o primeiro pensamento que lhe acudiu.
Sem dar a
menor atenção aos companheiros espantados, correu em direção a
seu camarote e aguardou impaciente até que a porta se abrisse. A
visão que se lhe ofereceu foi terrível.
Fraudy
havia desaparecido. Ao que parecia, defendera-se com todas as forças
antes de ser seqüestrada.
— Os
homens de Hollander estiveram aqui! — gritou Mullon para seus
acompanhantes. — Ainda cheguei a ver o último deles; foi para este
lado. Levaram Fraudy!
O’Bannon,
um dos colaboradores mais chegados de Mullon, foi quem compreendeu
primeiro.
— Vamos
trazê-la de volta, Horace! — gritou. — Venham. O alojamento de
Hollander fica no setor cinco. Cortaremos caminho. Este corredor leva
diretamente para lá, enquanto os filósofos terão de descrever um
círculo.
Ninguém
hesitou. Correram pela galeria principal, até chegar à bifurcação
à qual O’Bannon acabara de aludir.
O’Bannon
não a atravessou. Parou num cruzamento, depois de ter percorrido
cerca de três quartas partes do caminho.
— Sua
mulher deverá causar-lhes certas dificuldades — gritou com a voz
ofegante. — Por isso não conseguirão avançar tão depressa como
nós. Seria uma tolice se fôssemos parar diante da porta de
Hollander. Dobraremos à direita aqui mesmo e com alguns passos
estaremos no corredor principal, onde esperaremos por eles.
A sugestão
foi aceita. Dali a dois minutos, chegaram ao lugar em que os dois
corredores se encontravam num cruzamento profusamente iluminado. Os
dois corredores estavam vazios. Por enquanto não se via o menor
vestígio dos homens de Hollander.
Mullon
contou suas forças. Eram apenas sete homens.
— Estão
chegando! — cochichou O’Bannon e retirou-se para o corredor
lateral.
Deitado no
chão, esticou a cabeça e observou. Depois espalmou por três vezes
a mão direita para os que estavam atrás dele e mostrou mais dois
dedos.
Mullon
compreendeu. Eram dezessete pessoas. Seria uma luta difícil.
Mas as
coisas nem ficaram tão ruins, graças à fúria de O’Bannon. Este
ia levantando-se à medida que os homens de Hollander se aproximavam.
Encolheu lentamente os joelhos e ficou de pé.
Levantou o
braço e saiu em disparada para o corredor, gritando:
— Vamos,
rapazes!
Com a
violência de um foguete, abriu um caminho de cinco metros nas
fileiras dos inimigos totalmente perplexos.
Mullon e
os outros logo o seguiram. Ouviam-se gritos estridentes sempre que os
punhos terríveis de O’Bannon atingiam o alvo.
Antes que
Mullon e os outros homens conseguissem entrar em ação, O’Bannon
derrubou seis dos inimigos.
Os onze
restantes, ainda dominados pelo susto, foram facilmente vencidos
pelos homens de Mullon.
Libertada
da brutalidade dos seqüestradores, Fraudy estava encostada à
parede, chorando. Mullon abraçou-a e procurou consolá-la.
— Sabia
que vocês viriam — disse Fraudy. — Vocês são formidáveis.
Obrigado, O’Bannon.
Um sorriso
cobria o rosto largo de O’Bannon.
Dos homens
de Hollander, que estavam mais ou menos conscientes, três, que ainda
se conseguiam manter sobre as pernas, foram levados por Mullon.
Mullon
achou que os três homens lhe poderiam servir de reféns. Além
disso, queria apresentá-los a Flagellan, para provar que era
Hollander quem vinha perturbando a ordem.
Mandou que
um dos seus homens, chamado Wolley, fosse ao convés C para avisar
Flagellan. O’Bannon disse:
— Provavelmente
o distinto cavalheiro nem se interessará por isto.
* * *
Os três
prisioneiros foram trancados numa das salas destinadas às atividades
comuns e mantidos sob estrita vigilância.
Wolley
demorou a voltar. Quando finalmente apareceu, veio em companhia de
dois homens pesadamente armados. Parecia abatido.
— O
senhor é Mullon? — perguntou um dos soldados em tom sombrio.
— Sim. O
que houve?
— O
senhor logo vai descobrir. O comandante Flagellan quer que o senhor
compareça à sala de comando.
Mullon
sentiu-se um tanto intrigado; olhou para Wolley.
— O que
houve, Wolley?
Wolley fez
um gesto de recusa.
— Hollander
inventou um truque miserável, chefe. Acompanhe os homens. Flagellan
explicará.
Mullon
olhou em torno. Fitou O’Bannon, que se encontrava próximo a ele e
acompanhara a conversa. Parecia que adivinhava as preocupações de
Mullon.
— Não
se preocupe, Horace — disse. — Ficarei de guarda à frente da
porta de Fraudy e cuidarei para que ninguém a leve.
* * *
Mullon
nunca havia visto a sala de comando de uma nave espacial, mas
imaginava que normalmente não estaria tão repleta de gente armada
como desta vez.
Flagellan
aproximou-se em atitude ameaçadora e disse em tom furioso:
— Então
é o senhor que pretende apoderar-se da nave à força para escapar à
execução da pena! Fez um plano para dominar a tripulação e
assumir o comando da Adventurous!
Por mais
que a acusação o surpreendesse, Mullon manteve-se tranqüilo.
Sacudiu a cabeça e, quando Flagellan fez uma pausa, disse:
— Não
sei quem lhe contou isso; apenas sei que é mentira. Ninguém de nós
jamais concebeu uma idéia destas.
Sem tirar
os olhos de Mullon, Flagellan fez um gesto e disse:
— Tragam
os prisioneiros!
Mullon viu
uma porta abrir-se. Quatro homens algemados foram empurrados pela
mesma.
— Conhece
estes homens? — perguntou Flagellan.
Mullon
nunca os havia visto.
— Não —
respondeu.
— Ah, é?
— disse Flagellan, respirando com dificuldade. — Como é que
estes homens o conhecem tão bem?
— Isto
não quer dizer nada — respondeu Mullon em tom seco. — Qualquer
tripulante desta nave conhece o senhor, mas nem por isso o senhor
conhece todos os tripulantes.
Por um
instante Flagellan ficou sem fala.
Voltou-se
para os homens algemados.
— A que
grupo pertencem vocês? — perguntou. — São democratas autênticos
ou filósofos da natureza?
— Somos
democratas autênticos — responderam os quatro a uma voz.
— E por
que andaram espionando perto da sala de comando?
Um dos
homens respondeu:
— Queríamos
descobrir quantos homens costumam permanecer na sala de comando,
quando é feito o revezamento e de que lado é mais fácil penetrar
na sala.
— Por
que estavam interessados em descobrir isso?
— Porque
Mullon elaborou um plano para apoderar-se da nave.
Flagellan
voltou a dirigir-se a Mullon. Falou em tom exultante:
— Então,
o que me diz?
— Que
isto não passa de uma palhaçada — respondeu Mullon
tranqüilamente. — Mande interrogar meus homens. Eles lhe dirão
que estes prisioneiros não são democratas autênticos.
— É
claro! — disse Flagellan em tom de escárnio. — Seus homens foram
preparados.
Mullon
reprimiu a cólera.
— Sinto
muito que o senhor não tenha acompanhado atentamente o processo que
resultou em nossa condenação — disse. — Do contrário saberia
qual das duas entidades é a mais perigosa. Desde o início, os
filósofos da natureza procuraram enganar os democratas e, ao que
parece, encontraram um homem que os ajudará a fazê-lo: o senhor.
— Vejo-me
obrigado a detê-lo, Mr. Mullon — disse Flagellan em tom rígido. —
Garanto-lhe que farei tudo para que haja justiça. O caso será
examinado e, se apurarmos que o senhor sofreu uma injustiça, pedirei
desculpas. O senhor há de compreender que, como responsável pela
segurança da nave, tenho que certificar-me de que o senhor não nos
causará problemas.
Mullon fez
um gesto afirmativo.
— Se
acha que deve fazer isso, fique à vontade — murmurou.
Mullon foi
levado ao camarote que se parecia muito com aquele que ocupava
juntamente com Fraudy.
Milligan
trancou Mullon e postou-se diante da porta.
— Se
precisar de alguma coisa, bata — disse. — Se puder, arranjarei.
Mullon
agradeceu. A porta fechou-se e o prisioneiro viu-se a sós. Resolveu
refletir sobre os estranhos truques de Hollander e sobre a finalidade
dos mesmos.
6
Mullon
passou algumas horas monótonas, preenchidas apenas com reflexões
estéreis.
Começou a
interessar-se em saber quando Flagellan iniciaria a investigação
contra ele. Estava prestes a bater à porta para chamar Milligan
quando ouviu um estranho ruído, vindo do lado de fora.
Mullon,
que nunca havia visto uma nave espacial do lado de dentro, não sabia
que as paredes e as portas dos camarotes absorviam perfeitamente o
som, e que aquilo que estava ouvindo era o uivo estonteante das
sereias de alarma.
Só o
percebeu quando a porta se abriu.
— Venha
comigo! — gritou Milligan, superando o ruído das sereias. —
Alguma coisa está sendo tramada na sala de comando. Tenho de ir até
lá.
Mullon
obedeceu; correu atrás de seu guarda.
O corredor
percorrido terminava numa pequena alameda. Havia ali uma série de
portas que davam para a sala de comando. Essas portas estavam
escancaradas, e via-se ao primeiro relance o que estava acontecendo
lá dentro.
O corredor
e a sala de comando achavam-se repletos. Segundo as normas
prevalentes na nave, aquelas pessoas nada tinham que fazer por ali.
Na parte dos fundos da sala de comando estava sendo travada uma luta.
Mullon percebeu os raios ofuscantes saídos das armas térmicas e os
gritos dos feridos.
Ao que
parecia, Milligan não pretendia outra coisa senão entrar na
confusão. No momento em que saiu de trás da parede, de onde ele e o
prisioneiro haviam observado o interior da sala de comando, Mullon
segurou-o pelo braço.
— Fique
aqui, seu idiota! — chiou. — Não vê que está chegando tarde?
Milligan
mexeu furiosamente na arma de radiações.
— Esta
gente é de seu grupo? — perguntou com a voz zangada.
Mullon
sacudiu a cabeça.
— Não;
são os filósofos da natureza. E, pelo que vejo, praticamente já
conquistaram a sala de comando.
Milligan
praguejou e voltou a abrigar-se atrás da parede.
Mullon
procurou calcular o número dos filósofos da natureza que
participavam do ataque. Deviam ser cerca de quinhentos.
A
tripulação da nave era composta de cento e cinqüenta homens, três
quartos dos quais ocupavam algum posto fora da sala de comando.
Hollander devia ter conseguido chegar com toda sua tropa à sala de
comando sem que ninguém o percebesse. Depois não houve mais nenhuma
dificuldade.
Mullon viu
um grupo de cerca de cem filósofos da natureza sair da sala de
comando com as armas de que se haviam apoderado e penetrar num dos
corredores principais, que saíam pelo lado esquerdo da alameda.
Os outros
iniciaram a limpeza da sala de comando. Mais precisamente, arrastaram
os feridos para fora e colocaram-nos na alameda. Mullon notou que
para cada homem uniformizado havia cerca de quatro filósofos da
natureza feridos. Ao que tudo indicava, os homens de Flagellan se
haviam defendido valentemente.
Por
estranho que parecesse, não havia mortos. Talvez o ataque não
tivesse acarretado perda de vidas — o que Mullon não acreditava —
ou então, os filósofos da natureza estavam retirando os mortos por
outra porte, para não mostrar tão abertamente a infâmia que haviam
cometido.
De
qualquer maneira, haviam conseguido o que queriam: a sala de comando
encontrava-se nas mãos deles.
Mullon
achou que estava na hora de retirar-se. Bateu levemente no ombro de
Milligan e cochichou:
— Vamos
dar o fora! Aqui não podemos fazer mais nada.
Milligan,
que até então se mantivera agachado, levantou-se e saiu andando na
frente de Mullon. Os dois homens atingiram o corredor mais próximo
sem que ninguém os perturbasse e, ao chegarem junto ao elevador
gravitacional, confabularam sobre o destino que deveriam tomar.
— Fique
conosco — sugeriu Mullon. — Será o mais seguro.
Milligan
concordou. Subiram pelo poço lado a lado.
Mullon
procurou reconstituir mentalmente a idéia que servira de ponto de
partida aos filósofos da natureza:
“Hollander
talvez tivesse mandado que quatro dos seus homens fossem até a sala
de comando, instruindo-os a fazerem tudo para despertar a atenção.
Os quatro logo foram presos. Ao serem interrogados, provavelmente
depois de muita ‘relutância’,
confessaram que eram democratas autênticos e pretendiam descobrir a
maneira mais fácil de entrar na sala de comando. Flagellan não
encontrou nenhum motivo para desconfiar das declarações deles.
Mandou chamar-me e prendeu-me.”
Era nisso
que consistia o estratagema psicológico de Hollander. A partir do
momento em que Mullon estava preso, Flagellan pensou que o complô
fora desmantelado e que nenhum perigo ameaçava a sala de comando.
A
vigilância foi reduzida e Hollander atacou. Empregou quinhentos
homens na operação. Só mais tarde saberia como Hollander
conseguira levar quinhentos homens à sala de comando sem que ninguém
o percebesse. Não havia a menor dúvida de que havia conseguido; e
ainda não havia dúvida de que, a essa hora, os filósofos da
natureza comandavam todos os mecanismos que serviam para controlar a
nave.
Mullon
lamentou-se porque a idéia não lhe havia ocorrido antes.
Convocou
uma assembléia geral. Receava que os homens demorassem demais em
comparecer, por isso chamou desde logo os elementos mais importantes,
em número de quinze, e conferenciou sobre a situação.
— Na
minha opinião — disse, resumindo suas impressões — no momento
não podemos fazer muita coisa. Por enquanto o mais importante é
avaliarmos a situação. Conheço “nosso
amigo”
Hollander e sei que dentro em breve teremos notícias dele. Não é
um homem que gosta de esconder seus trunfos.
— Talvez
você tenha razão — admitiu O’Bannon. — Mas o que será feito
da nave? Acho que Milligan nos poderá esclarecer: uma pessoa que
controla a sala de comando controla automaticamente toda a nave?
Milligan
sacudiu a cabeça.
— Não.
O caso é o seguinte: todas as operações da nave são reguladas a
partir da sala de comando. Se o comandante aperta um botão, uma
máquina começa a funcionar na sala de máquinas. A sala de máquinas
e a sala de comando dependem uma da outra. Uma não pode fazer nada
sem a outra. Acontece...
O’Bannon
interrompeu-o com um gesto.
— Acontece
— completou — que em sua opinião Hollander também sabe disso e
neste meio tempo já fez das suas na sala de máquinas. Não é isso?
— Exatamente
— confirmou Milligan.
Mullon
soltou um gemido.
— Meu
Deus, Milligan! Está lembrado do grupo de cerca de cem homens
armados que saiu da sala de comando?
Milligan
lembrava-se.
— Aposto
qualquer coisa que Hollander os mandou à sala de máquinas. Quantos
homens costumam ficar por lá?
— Cerca
de cinqüenta.
— Então
o trabalho desses cem homens foi fácil.
Milligan
confirmou com um gesto triste. Mas, ao que parecia, Mullon acabara de
recuperar a coragem.
— Neste
caso, sabemos perfeitamente o que devemos fazer. Temos de
conformar-nos com o fato de que Hollander conseguiu dominar a nave.
Por enquanto não sabemos se entre seus homens existe algum piloto,
ou se capturou prisioneiros que possam ser obrigados a conduzir a
nave ao lugar desejado por ele. Não demoraremos em descobrir. Mas há
uma coisa que já sabemos: Hollander tem armas. E é um sujeito sem
escrúpulos. Tentará subjugar-nos. Portanto, também devemos
arranjar armas.
Olhou em
torno. A lógica do argumento convencera todo mundo; mas pelos rostos
dos circunstantes percebeu que ninguém achava que apenas a lógica
seria uma receita para a situação.
— E onde
vamos arranjá-las? — perguntou O’Bannon.
— Não
acredito que Hollander tenha conseguido dominar todos os tripulantes.
Precisamos descobrir os homens que ainda estão livres e traze-los
para cá, juntamente com suas armas.
Subitamente
Milligan teve uma idéia.
— No
convés K existe um observatório astronômico. É guarnecido por
quatro pessoas. Via de regra os leigos não sabem de sua existência.
É bem possível que tenha passado despercebido a Hollander.
— Será
que o senhor poderia ir até lá com alguns homens? — perguntou
Mullon.
Milligan
confirmou com um gesto entusiástico.
— É
claro que sim. Se formos pelo elevador central, não demoraremos em
chegar lá.
Vários
homens estavam dispostos a acompanhar Milligan. Escolheu O’Bannon e
Wolley.
Mullon
ficou para trás e tomou suas providências. Seus primeiros cuidados
foram dedicados às mulheres. Deviam ser transferidas para setores
que ficavam fora das prováveis linhas de ataque de Hollander e o
mais longe possível dos alojamentos dos filósofos da natureza.
Aproximadamente
a metade dos democratas autênticos era formada de mulheres, a maior
parte na faixa dos vinte aos trinta anos. Mullon pediu a Fraudy que
informasse as mulheres e formasse um comitê que organizasse a
mudança. Os homens não poderiam ser desviados para essa tarefa,
pois o ataque de Hollander poderia ser desfechado a qualquer momento.
A
assembléia geral reuniu-se. Mullon relatou em palavras lacônicas o
que havia acontecido.
Numa
resolução enérgica a assembléia desaprovou os atos de Hollander,
manifestou seu apoio ao comandante, do qual ninguém sabia se ainda
estava vivo, e intimou Hollander a devolver a Flagellan o comando da
nave.
Ninguém
achou que a resolução resolveria muita coisa. Mullon pediu ao
mensageiro que não se dirigisse ao acampamento de Hollander. A
resolução deveria ser entregue ao primeiro filósofo da natureza
com que se encontrasse. Afinal, havia três membros da seita que se
encontravam em poder dos democratas autênticos, e Hollander não
teria escrúpulos em transformar um simples mensageiro num refém.
Mas nem
houve tempo para tomar essas providências. No mesmo instante em que
o mensageiro pretendia pôr-se a caminho, os homens que montavam
guarda do lado de fora introduziram no recinto um filósofo da
natureza, que trazia uma mensagem de Hollander. Conforme correspondia
ao gênio de Hollander, o mensageiro recebera ordens para não
esperar resposta. Mullon limitou-se a entregar-lhe o texto da
resolução.
A carta de
Hollander foi lida perante a assembléia. Seu texto correspondia
exatamente ao que se esperava face ao relato de Mullon:
Um
grupo de combate dos filósofos da natureza conseguiu eliminar a
tripulação da Adventurous. Ocupamos agora a sala de comando e de
máquinas.
O
Conselho dos Colonos Associados Livres nomeou Walter S. Hollander
comandante da nave. O comandante declara que a partir deste momento a
nave se encontra em estado de emergência. As ordens serão dadas
única e exclusivamente pelo comandante, e qualquer desobediência às
mesmas será considerada como motim.
Mullon
colocou a carta sobre a mesa e olhou os presentes.
— Então
já sabemos a quantas andamos — disse em tom tranqüilo. —
Hollander quer submeter-nos ao poder de sua chibata. A próxima
mensagem, que receberemos dele, deverá consistir numa série de
ordens que em hipótese alguma poderemos cumprir. Depois invocará o
estado de emergência e nos prenderá.
— Se até
lá não tivermos arranjado armas, teremos de esconder-nos. Mas
espero que nesse meio tempo os remanescentes da tripulação oficial
se juntem a nós. Depois faremos o possível para perturbar os
desígnios de Hollander.
Ao se
retirarem, os homens pareciam pensativos. Naquele mesmo instante
foram formados vários grupos de combate que, segundo a opinião de
Mullon, deviam operar quase independentemente um do outro.
Milligan
só voltou dali a cinco horas. Em sua companhia vinha O’Bannon, que
trazia um olho roxo, Wolley, com uns fortes arranhões no rosto, e os
quatro homens do observatório astronômico.
O’Bannon
estava num excelente humor.
— Mostramos
uma coisa a eles! — exclamou. — Alguns dos homens de Hollander
procuraram deter-nos no momento em que pretendíamos entrar no
elevador central. Apenas um deles carregava uma arma, e este sentiu a
força de meu punho antes que pudesse puxar o gatilho. Vejam só que
linda arma consegui!
Tirou a
arma do bolso e levantou-a. Era um microrradiador do tipo usado pelos
oficiais.
Milligan
apresentou seu relatório a Mullon.
— Nos
conveses E, F e G, o movimento é grande. Mais em cima reina calma.
Por lá ficam os depósitos, e provavelmente Hollander não está
interessado nos mesmos. Foi como disse: não se lembrou do
observatório. Os homens, que acabo de trazer, ficaram um tanto
confusos quando lhes contei o que aconteceu. Tive muito trabalho em
convencê-los.
— Encontrou
algum homem de Hollander enquanto vinha para cá?
Milligan
sacudiu a cabeça.
— Não.
Por enquanto só avançaram até o setor três. Mas descobri outra
coisa.
— O que
foi?
— Mais
sete tripulantes. Estavam nos depósitos, onde realizavam a inspeção
de rotina. Explicamos-lhes o que aconteceu, e eles logo se mostraram
dispostos a descer conosco. Mas O’Bannon foi de opinião que
devíamos voltar separados, pois um grupo grande sempre chama mais a
atenção do que um grupo pequeno. Devem chegar a qualquer momento.
— São
doze armas ao todo — disse Mullon em tom exultante. — O
suficiente para atrapalhar a vida de Hollander. Descobriu o que
aconteceu com os outros tripulantes?
Milligan
fez um gesto afirmativo. Subitamente uma expressão sombria surgiu em
seu rosto.
— Pergunte
a O’Bannon. Ele poderá informar.
Mullon
lançou um olhar espantado para O’Bannon.
— Diga
logo!
— Bem,
foi o seguinte — principiou O’Bannon. — Procuraram deter-nos no
momento em que pretendíamos entrar no elevador central. Como já
disse, só um deles carregava uma arma, e este colocou-se ao alcance
dos meus punhos.
“Conversei
um pouco com ele. No princípio não quis falar, mas afinal, temos
nosso sistema... Em resumo: Flagellan e três oficiais da equipe
técnica estão mortos. Aconteceu na sala de comando. Não quiseram
entregar-se enquanto tinham uma arma na mão. E Hollander não perdeu
tempo.
“De
resto, correu muito pouco sangue, por causa de um truque de que
Hollander se valeu. No momento do assalto havia vinte homens na sala
de comando, uns cinqüenta na sala de máquinas e cerca de dez em
outros pontos da nave. Logo, sobravam setenta, que se encontravam nos
alojamentos. No momento em que ouviram o alarma, não obtiveram
outras instruções. Por isso correram para a sala de comando.
“Hollander
sabia qual era o corredor pelo qual procurariam atingir a sala de
comando e ali postou alguns homens que facilmente conseguiram
controlá-los com as armas. O grupo teve de recuar e procurou atingir
a sala de comando por outro lado. Escolheram o caminho mais curto: a
mapoteca. Hollander mandou trancar uma das escotilhas e postou seus
filósofos atrás das armações dos mapas e microfilmes. Assim que
os homens haviam entrado na armadilha, a outra escotilha também foi
fechada. Depois não tiveram outra alternativa senão entregar-se.
“Na sala
de máquinas foi travada uma luta violenta, mas só houve dois
feridos graves. Os outros renderam-se quando viram que não
receberiam auxílio e a situação se tornou desesperadora. É só.”
Naquele
momento houve certo tumulto entre os
homens.
Estes abriram alas e deixaram passar sete homens uniformizados, que
pararam à frente de Mullon e olharam em torno um tanto perplexos. Só
pareciam mais aliviados quando viram Milligan e os quatro homens do
observatório.
— Não
se preocupem — disse Mullon. — Não queremos enganá-los.
Oferecemos-lhes refúgio. Hollander anda atrás de qualquer pessoa
que use uniforme. Querem ficar conosco?
Um dos
homens, um sargento, foi o porta-voz dos demais.
— Conheço
Milligan — disse. — Se ele diz que viu Hollander atacar a sala de
comando, então é verdade. Milligan ainda diz que os democratas são
inimigos dos filósofos da natureza. Por isso teremos o maior prazer
eu ficar aqui e fazer o que pudermos.
Mullon
sentiu-se satisfeito.
— Está
bem. Acho que precisaremos dos senhores. Em primeiro lugar, porque
conhecem a nave, suas instalações e sua carga. Depois, precisamos
de armas. Quero pedir-lhes que respondam a uma pergunta. Querem
colocar suas armas à disposição da comunidade, para dar-nos apoio
contra Hollander, ou preferem ficar com elas?
O sargento
ergueu os ombros.
— Se
acredita que seus homens sabem lidar com as armas, teremos o maior
prazer em entregá-las.
— Obrigado.
Encontraram-se com gente de Hollander enquanto vinham para cá?
— Vimos
alguns de longe. Mas, como Milligan nos preveniu, tivemos cuidado.
Não acredito que nos tenham visto.
— Onde
foi?
— No
convés F, setor um. Mullon soltou um assobio.
— É bem
em cima de nós. Não viu o que estavam fazendo?
— Não
senhor.
— Posso
imaginar — interveio Milligan. — Um deles descobriu que os
condutos de ventilação permitem a passagem de um homem não muito
corpulento. Provavelmente querem descer por lá e atacar-nos pelas
costas.
Mullon
exaltou-se.
— Onde
viu aqueles homens?
O sargento
não se lembrou do lugar exato, mas um dos homens sabia:
— No
setor F-l-XIV, seção g.
Essa
designação correspondia à décima quarta parcela do convés F, que
ficava a cerca de dois terços da distância do centro da nave à
periferia.
— Não
acredito que Hollander nos ataque antes que tenha um motivo para isso
— disse Mullon. — Provavelmente não demorará em obrigar-nos a
dar-lhe esse motivo. Quando isso acontecer, bastará que seus homens
desçam pelos condutos de ventilação para que fiquemos entre dois
fogos.
O’Bannon
sugeriu que subissem ao convés F e caíssem nas costas dos homens de
Hollander. Mas Mullon recusou. Não queria dar início às
hostilidades.
Dali a
pouco chegou outro mensageiro dos filósofos da natureza, que trouxe
um escrito lacônico no qual se exigia a entrega imediata dos três
prisioneiros, de Fraudy e principalmente de Horace O. Mullon, que era
o instigador do tumulto, na expressão de Hollander.
O
mensageiro teve de ouvir uma risada de escárnio e foi mandado de
volta.
Milligan
observou o mensageiro que se afastava rapidamente como se fosse um
animal pré-histórico.

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