Apesar do
volume de informações de que já dispúnhamos, realizamos mais um
levantamento cartográfico de Larsa III antes de pousarmos.
Tratava-se de um belo planeta, semelhante a Árcon, com grandes
mares, um céu azul, continentes extensos e matas verdejantes.
A zona
equatorial foi a que mais nos agradou. A temperatura ali reinante
correspondia às nossas necessidades, ainda mais que nas zonas
montanhosas mais elevadas o ar era seco e puro. E o calor existente
era agradável.
As
extensas matas dos dois continentes cortados pelo equador não nos
agradavam tanto. E o terço do norte de um continente apresentava um
deserto coberto de areia e pedras que não era bem visto por nós.
Mais ao
norte o frio era demais. Por ali também havia matas que pareciam
infindáveis, mas que evidentemente não apresentavam características
tropicais.
Mesmo do
espaço observamos uma vida animal bastante intensa. Dentro de vinte
mil anos este mundo seria capaz de produzir verdadeiras
inteligências. Portanto, ainda tínhamos tempo de sobra para
procurar um lugar apropriado.
Uma vez
analisadas as amostras de ar, para constatar a presença de eventuais
germes nocivos, dei ordem para descer mais. Antes de usar os poderes
de que dispunha e realizar um empreendimento colonizador, a lei me
obrigava a verificar pessoalmente o grau de desenvolvimento físico e
mental dos habitantes do planeta.
A Tosoma,
um couraçado da nova classe Império, penetrou em alta velocidade
nas camadas mais densas da atmosfera. Diante de nossos campos
defensivos surgiu uma esfera incandescente formada pelas massas de ar
altamente comprimidas que, por certo, faria com que os nativos
saíssem em fuga desabalada.
Sobrevoamos
os continentes a pequena altitude, atravessamos rapidamente os
grandes oceanos e procuramos localizar a área situada entre as duas
zonas equatoriais.
A extensão
dessa área a tornava suficiente para os fins que tínhamos em vista.
Além disso, era montanhosa e arborizada. Se desembarcasse os
cinqüenta mil zakrebenses por ali, encontrariam condições
climáticas bastante favoráveis.
Não
demoramos em encontrar a área. Era tão extensa que poderia ser
considerada um continente. As estreitas faixas de terra que
ligavam-na às regiões situadas ao leste e ao oeste, proporcionariam
boas oportunidades para um eventual intercâmbio comercial com os
nativos, depois que estes tivessem sido instruídos por nós.
A
experiência já nos ensinara que um grupo de seres bem dotados
aprende rapidamente a cultivar os campos, construir pequenas
embarcações e erguer casas.
Paramos a
Tosoma numa altitude de oitenta quilômetros. Dali víamos
perfeitamente boa parte da ilha de formato oval, de cerca de dois mil
quilômetros de comprimento.
Em certo
ponto uma cadeia de montanhas estreita, muitas vezes interrompida por
largas faixas de água, estendia-se em direção ao deserto. Naquele
lugar encontramos um planalto grande, situado bem acima do nível do
mar, coberto por uma estepe, que parecia constituir uma boa área de
pouso.
O imediato
do couraçado apresentou-me os mapas, que a impressora automática
preparara nesse meio tempo. Examinamos vários detalhes, até que
acabei por me decidir pelo planalto. O Capitão Tarts aproximou-se.
— Poderemos
criar um ótimo acesso ao mar — disse Tarts. — Se necessário,
usaremos um pequeno canhão de impulsos para fundir uma larga estrada
que serpeie pela encosta das montanhas abaixo. Estou vendo uma grande
baía, protegida dos ventos. Nela poderá ser construído um porto.
“A maior
parte deste mundo é formada de água. Nossos colonos, e ainda mais
os nativos, não poderão deixar de familiarizar-se com a navegação.
O respectivo equipamento pode ser encontrado em Larsa II. Até
sugeriria que o planeta fosse escolhido para servir de base à nossa
frota. Fica situado nos limites extremos do Império. Quem sabe se um
belo dia não precisaremos de arsenais de reparos nessa espiral
insignificante da Galáxia? Você terá que decidir, Atlan.”
Marquei em
vermelho a área prevista. Senti um calafrio ao pensar nas
gigantescas camadas de gelo dos dois pólos. As paisagens vistas ao
norte e ao sul pareciam cobertas por gigantescas geleiras que se
derretiam.
Ficaremos
aqui — decidi. — Quero conhecer o desenvolvimento da cultura dos
nativos. Chame os rapazes.
Tarts
transmitiu as instruções necessárias. Por baixo da protuberância
que abrigava os propulsores da Tosoma, o cano reluzente de um pesado
projetor mental saiu do corpo da nave.
O que se
seguiu não passava de rotina. Se lá embaixo existissem seres vivos
dotados de alguma inteligência, os mesmos não poderiam deixar de
reagir aos nossos comandos sugestivos.
O oficial
da equipe psicológica da nave repetia as mesmas palavras para dentro
do microfone. Essas palavras foram convertidas em pára-radiações e
transmitidas em feixe aberto pelo projetor.
Aguardamos
mais duas horas; depois disso ordenei o pouso. A nave foi descendo
lentamente, até que a arrebentação branca da costa se tornasse
visível sob o tremeluzir do campo gravitacional perfeitamente
ajustado.
A
gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro pousou junto à
cordilheira litorânea. O solo macio da estepe cedeu sob a pressão
das placas de apoio das colunas telescópicas, até que estas
atingissem a rocha sob a superfície. Era a primeira vez que pousava
no terceiro planeta do sistema de Larsaf.
As
análises das amostras das águas e dos solos foram totalmente
satisfatórias. Não havia germes nocivos.
No momento
em que abrimos as comportas e deixamos penetrar o ar puro e
aromático, os primeiros seres vivos aproximaram-se.
O berreiro
de comando de Tarts deixou-me nervoso. Nunca podia abster-se de
desembarcar unidades pesadamente armadas depois de cada pouso. Apesar
de toda tolerância que costumava demonstrar, pertencia à classe dos
comandantes para os quais a segurança de sua nave valia mais que
qualquer outra coisa.
Os pesados
robôs de combate, comandados pelo Tenente Ketlar, saíram das
escotilhas e flutuaram lentamente para baixo, sob a ação de seus
campos antigravitacionais. Ketlar lançou um olhar desconfiado para
os nativos. Estes se apressavam em cumprir as ordens que lhes haviam
sido transmitidas por meio do projetor mental.
Dispensei
o cerimonial costumeiro, o que fez com que Tarts se mostrasse
contrariado. Nunca deixara de, no primeiro pouso em qualquer planeta,
colocar solenemente os símbolos do Império e proferir as palavras
consagradas há muito tempo.
— Ainda
não sei se poderemos ficar aqui — disse em tom um tanto irônico.
— Para que tanta pressa, mestre? Pelo que vejo, estes nativos não
usam armas de pedra. Trazem machados de bronze muito bem trabalhados,
escudos de couro e, ao que parece, arcos bem eficientes com longas
flechas. Estes equipamentos correspondem ao menos ao nível de
inteligência A-5.
— Estas
são as criaturas mais evoluídas, Alteza — apressou-se em
esclarecer o funcionário do serviço colonial que havíamos colocado
a bordo em Larsa II.
Lancei-lhe
um olhar de dúvida.
— É
verdade — murmurou Tarts em tom contrariado. — Conheço os dados.
Os seres que habitam as regiões situadas mais ao norte ainda não
conhecem os trabalhos de metais nem os tecidos. Ainda se vestem com
peles de animais. Neste planeta surgiram tribos muito diferentes umas
das outras.
Interrompi-o
com um gesto. Era sempre a mesma coisa, toda vez que se pousava num
mundo estranho.
Saí da
Tosoma pela pequena comporta inferior e entrei no carro-planador
baixo que dentro de poucos segundos me levou para junto dos nativos,
que se amontoavam num grupo.
Fitaram-me
alarmados. Nossos médicos e biólogos separaram alguns indivíduos
de um e outro sexo, a fim de submetê-los a um exame a bordo da nave.
Eram
figuras muito altas e musculosas de pele marrom-avermelhada. Os
rostos eram francos e leais e as testas altas estavam encimadas por
cabelos muito negros.
Estes
bárbaros ignorantes realmente se assemelhavam muito com os
arcônidas.
Mandei
levantar cautelosamente a compulsão sugestiva. Assim que se sentiram
de posse de suas energias mentais e reconheceram a situação, teve
início a esperada fuga em massa.
Aguardei
até que nossos psicólogos galácticos fizessem o que se tornava
necessário. Precisavam de uma sensibilidade extrema para
tranqüilizar aquelas mentes assustadas e convencê-las de que nada
lhes aconteceria. Logo conseguiram.
Tarts não
deu sossego enquanto não coloquei sobre os ombros a capa majestosa
com os símbolos da dinastia reinante e proferi as palavras
prescritas para a ocasião.
Os nativos
deitaram-se no chão e esconderam o rosto nas mãos.
Inkar, o
comandante jovem e arrojado do cruzador Paito, disse em voz baixa:
— O
símbolo do sol usado por sua família provavelmente se transformará
num signo sagrado para essa gente.
Tive uma
sensação desagradável, muito embora nossos psicólogos afirmassem
que uma certa glorificação não pode fazer mal a ninguém.
Demorou
quatro horas até que fossem entregues os primeiros relatórios do
setor de pesquisa. Enviara algumas naves auxiliares à região norte.
Quando estas voltaram, ficamos sabendo que os habitantes de lá
realmente se achavam num nível cultural bem mais abaixo do que
aqueles encontrados na ilha.
Além
disso, parecia haver diferenças na cor da pele.
Inkar,
cuja nave permanecera em Larsa II, esforçou-se para estabelecer
comunicação com os nativos. A tradução foi realizada por um robô
de comunicações. A língua dessa gente de pele “marrom”
era simples e fácil de entender.
Interrompi
o cerimonial. Mas Tarts, meu velho amigo e mestre, fez questão de
chamar o território recém-incorporado de Império de Atlântida, em
homenagem à minha pessoa.
Suspirei e
deixei passar ainda esse ato. Finalmente dirigi-me para bordo de
minha nave capitania a fim de elaborar as ordens que se tornavam
necessárias.
Inkar
pegou uma nave auxiliar da Tosoma e retornou ao segundo planeta, a
fim de organizar o transporte dos cinqüenta mil zakrebenses.
Transmiti
uma mensagem de hipercomunicação dirigida ao Grande Conselho, a fim
de informá-lo sobre as medidas que acabara de tomar em benefício
dos colonos que corriam perigo em Larsa II.
A
confirmação chegou dali a algumas horas. Meu venerável tio
ordenou-me pessoalmente que por enquanto levasse os colonos ao
terceiro planeta e ali providenciasse abrigos provisórios para eles.
Ao mesmo tempo avisou que dentro em breve deveria chegar uma frota de
transporte, trazendo tudo que se tornasse necessário à rápida
organização de uma colônia.
Inclinei a
cabeça diante da tela e coloquei a mão direita sobre o peito. Meu
interlocutor distante sorriu. Face à grande distância, a
comunicação visual era bastante deficiente.
— Você
terá de passar mais algum tempo nesse sistema, Atlan. Das
declarações do antigo administrador Amonar conclui-se que houve uma
conspiração que não ficou restrita ao segundo planeta da estrela
Larsaf. O Império precisa criar um forte contingente armado que
permaneça no local. Concedo-lhe todos os poderes para isso.
Sua ordem
não admitia objeções. Quando a imagem se apagou, ouvi uma risada
forte e aborrecida de Tarts. Os homens que trabalhavam na sala de
rádio olharam-me como se quisessem, naquele instante, devorar-me.
— Aí
está! — disse o velho comandante. — Por que foi entrar em
contato com o Imperador? Acho que ficaremos presos por alguns anos
neste sistema miserável, aguardando um ataque que nunca ocorrerá.
Pelo que sei, nem mesmo os mercadores galácticos estão informados
sobre a existência destes nove planetas.
Senti
raiva de mim mesmo. Se houvesse partido imediatamente, o Grande
Conselho teria de enviar outro comandante. Sem dúvida havia mais que
fazer nas áreas sempre turbulentas da Galáxia do que neste mundo,
cujos habitantes viviam se arrastando no pó a fim de implorar nossa
benevolência.
Partimos
no dia seguinte. Deixei no planeta um grupo sob o comando do Capitão
Feltif, bem como alguns canhões energéticos transportáveis e
várias máquinas de terraplenagem.
Na semana
seguinte, quando os cruzadores de minha esquadrilha penetraram nas
camadas atmosféricas do terceiro planeta e desembarcaram os
primeiros colonos zakrebenses, já existia um espaçoporto provisório
com um piso de um metro de grossura.
O Capitão
Feltif, que era nosso planejador-chefe, mandara derreter parte do
planalto com os canhões energéticos e deixara que as massas de
pedra escorressem transformando-se numa superfície lisa que se
solidificou.
Dali a uns
quinze dias, chegou a frota de transportes anunciada pelo Imperador.
O terceiro mundo da estrela Larsaf recebeu uma administração
própria.
Os robôs
especializados desembarcados das naves puseram-se imediatamente a
trabalhar. Seguindo planos pré-esquematizados, começaram a
construir pequenas aldeias com um centro principal. Durante este
período de edificações, recebi instruções para partir, deixando
no planeta um comando de exploração armado. O Almirante Sakal
estava empenhado numa batalha encarniçada contra certos seres
respiradores de metano revoltados, que ameaçavam as fronteiras de
nosso Império com uma grande frota dotada de armamentos modernos.
Com isso
tive a oportunidade pela qual tanto ansiava: sair de Atlântida.
Deixei
para trás o contingente de defesa comandado pelo Capitão Feltif,
voltei a examinar cada planeta daquele pequeno sistema para verificar
a eventual presença de vida inteligente.
Só o
terceiro mundo do sistema havia desenvolvido formas próprias de
vida. Poderia partir tranqüilo e comunicar ao Conselho que por
enquanto minha missão estava cumprida.
Decolei
com o couraçado Tosoma e os cruzadores Paito e Assor. Assim que
cheguei à órbita do quarto planeta, aguardei a chegada dos
cruzadores leves e pesados de minha esquadrilha, que vinham atrás de
mim, prontos também para realizar a primeira transição.
A guerra
contra os respiradores de metano teve início no dia em que os
colonos desembarcados em Atlântida começavam a construir seu mundo.
Sentia-me
feliz por poder avançar novamente em direção ao centro da Via
Láctea, que enxameava de estrelas. Sabíamos perfeitamente que
teríamos uma luta difícil.
Dirigi-me
à base de Alslafton VI e carreguei provisões, água fresca e
combustível de reatores para minha frota. Notícias inquietantes
vinham do setor das nebulosas. Até parecia que todas as
inteligências não-arcônidas se haviam reunido para conspirar
contra nós.
Quando
finalmente cheguei à base planetária avançada de Jangtu e me
apresentei ao Almirante Sakal, já me esquecera de que há mais de
trinta mil anos-luz de distância existia um pequeno sol amarelo, que
havíamos batizado com o nome de estrela Larsaf, em homenagem ao seu
descobridor.
Não
pensei por um instante sequer no pequeno continente ao qual o
comandante de minha nave capitania dera o nome de Atlântida. O
Grande Império que vivia sob a hegemonia de Árcon lutava pela
existência.
A chamada
guerra do metano exigiu o empenho de todas as nossas forças. Naquele
tempo ainda não sabíamos que nosso povo degeneraria e levaria o
Império à beira do abismo.
Se não
fosse assim, certamente dali a dois anos teria encontrado um meio de
evitar ao menos em parte um acontecimento terrível que então se
verificou...
6
O ponto
central da trigésima quinta batalha de contenção ficava a apenas
cerca de três anos-luz. Desta vez se lutava pelo sistema de Koal,
cujos habitantes haviam sido evacuados às pressas.
Trinta
dias antes do início do novo ataque em grande escala cheguei à base
de Alaget III, a fim de revisar as máquinas desgastadas de minhas
naves e mandar renovar o armamento estragado pelo uso excessivo.
Em todos
os pontos viam-se unidades bastante danificadas da frota do Império;
e os comandantes e chefes de esquadrilha faziam esforços para
conseguir substitutos para os tripulantes e os membros da tropa
mortos ou terrivelmente mutilados.
Minha
situação era relativamente vantajosa, uma vez que ninguém poderia
ignorar o fato de ser eu, Atlan, membro da dinastia reinante.
Agi sem
maiores considerações, pois disse comigo mesmo que minha unidade
especializada era mais importante que os nomes ou as graduações.
Arranjei coisas que outros comandantes não conseguiram.
O
comandante Inkar recebeu um cruzador novo em folha da classe Fusuf,
para substituir a nave por ele comandada, que se havia tornado
imprestável para enfrentar o espaço. Deu à nova unidade o mesmo
nome da antiga: Paito. Além disso, consegui dez cruzadores ligeiros.
Dessa
forma estava praticamente pronto para entrar em combate e considerava
minha frota bem equipada, quando o Capitão Tarts bateu à porta de
meu camarote. Fiquei admirado por não ter ele utilizado a
comunicação audiovisual.
Assim que
entrou, colocou a fita de plástico do decifrador automático sobre a
mesa, sem dizer uma palavra.
Seu rosto
enrugado exprimia uma grande preocupação. Há algumas semanas eu
lhe concedera um rejuvenescimento bioquímico, mas até então ainda
não havia sido possível chegar a um dos laboratórios
governamentais. Essas instituições não existiam nos limites do
Império.
— Mais
um revés, meu velho? — perguntei apavorado e peguei a fita.
Tarts
soltou uma risada áspera. Seus olhos vermelhos estavam ligeiramente
inflamados. Tarts realizara missões extremamente arriscadas.
— É de
seu eminentíssimo tio em pessoa — disse com a voz cansada. —
Atlan, eu, que sempre dei duro em você durante a época do
treinamento, posso garantir-lhe uma coisa: não estou gostando disto!
Recebemos ordens para afastar-nos imediatamente do campo de batalha e
transferir-nos a outro lugar. Pode imaginar para onde é?
Li a
mensagem, que trazia o sinal-código pessoal do Imperador.
— Para a
estrela Larsaf? — perguntei, pensando em voz alta. — Já ouvi
este nome. A estrela Larsaf...
— É
aquele sistema muito pequeno em que estivemos há dois anos. Os
colonos estabelecidos ali transmitiram mais um pedido de socorro ao
Grande Império. Mas parece que desta vez não se trata apenas dos
excessos cometidos por algum funcionário megalomaníaco. O caso é
mais sério. Recebemos ordens para equipar completamente nossas
unidades e dirigir-nos sem demora a esse setor espacial.
Olhei para
as telas ligadas do grande camarote do almirante. Lá fora, nas áreas
amplas do estaleiro, os arcônidas exaltados vindos de todos os
setores do Império se comprimiam. Entre eles havia homens cujos
antepassados emigraram há milhares de anos.
Todas as
pequeninas questões de soberania e rivalidades comerciais haviam
sido esquecidas. A única coisa de interesse era a defesa contra as
inteligências não-humanas, que respiravam metano.
— Logo
agora temos de ir a essa estrelinha ridícula! — disse em tom
zangado. — Até parece que meu venerável tio se esquece de que nos
encontramos a aproximadamente trinta e dois mil anos-luz desse
sistema.
— O
chefe do arsenal local recebeu ordens específicas — disse Tarts,
admirador da minha família, em tom contemporizador. — Recebemos
mais alguns cruzadores novos.
Levantei-me
repentinamente, peguei o grosso capacete de comunicação audiovisual
e caminhei em direção à porta. O que teria acontecido na área de
Larsaf? Dali a doze horas meu grupo decolou. Agora era formado pelo
couraçado Tosoma, pelos cruzadores pesados Paito e Assor e por mais
42 cruzadores leves e pesados.
Realizei
uma conferência pelo sistema de comunicação audiovisual. Os
comandantes de minha esquadrilha sabiam do que se tratava.
Pouco
antes de atingirmos a velocidade da luz tivemos de dar combate a
algumas unidades leves do inimigo, que haviam rompido nossas defesas.
Destruímos os cinco cruzadores num terrível furacão atômico
despejado pelos canhões de impulsos e prosseguimos viagem. Não nos
preocupamos com os destroços fumegantes. Limitei-me a informar o
almirante que comandava a operação sobre o acontecido.
Segundo a
mensagem por mim recebida, deveria aguardar novas informações junto
ao sistema de Estaf. Quando chegamos lá, uma nave-correio nos
aguardava. As notícias foram entregues por um representante do
Conselho.
Mandei que
a flotilha seguisse o rumo indicado, deixei que Tarts realizasse os
cálculos de transição e aprofundei-me no estudo das instruções
recebidas.
Conforme
estas, o segundo planeta da estrela Larsaf se tornara o objeto de
ataques vindos das profundezas do espaço. Pelo que li, mais de cem
mil colonos já haviam tombado, ou melhor, consoante se dizia no
relatório, haviam desaparecido misteriosamente.
Convoquei
Tarts à minha presença e liguei o equipamento de telecomunicação,
a fim de que os comandantes das diversas naves participassem da
conversa.
— Comandante
da esquadrilha dirigindo-se a todos. Palestra secreta. Liguem para o
código 2020-34-176, preparem distorsor, impulsos condensados segundo
o código 25 34-B. Avisem assim que estiverem prontos para a
recepção.
Durante a
guerra de dois anos, meus homens se haviam transformado em
especialistas de primeira classe. Depois de alguns minutos, começaram
a chegar as confirmações dos comandantes das diversas unidades. A
ligação conjunta de minha nave capitania forneceu os dados a serem
utilizados pelos conversores de distorção.
Os rostos
dos oficiais foram surgindo na tela quadriculada central. Tarts e eu
sentamo-nos diante da objetiva.
— Pronto,
Alteza! — disse a sala de rádio da Tosoma.
Principiei
com uma informação ligeira:
— Avançaremos
até a estrela Larsaf; para isso realizaremos quatro transições. Os
comandantes mais antigos já conhecem as condições ali reinantes.
Trata-se de um sistema de nove planetas Os de números dois e três
são habitados por indivíduos de nossa raça. Não sei exatamente o
que aconteceu. As instruções do Grande Conselho não são muito
esclarecedoras. Ao que tudo indica, o G.C. está tateando no escuro.
“Com o
quarto salto colocar-nos-emos dentro do sistema e procuraremos
localizar qualquer corpo estranho. Caso o encontremos, abriremos fogo
sem aviso prévio. Tomem cuidado. Entre o quarto e o quinto planeta
existe um anel de asteróides bastante extenso. Pelo que consta,
trata-se dos fragmentos de um planeta que explodiu. Não confundam os
blocos de pedras cósmicas com as naves inimigas. Liguem o
equipamento para a localização de objetos metálicos.”
Examinei
os dados que tinha diante de mim. Tarts, o mais antigo dos
comandantes, transmitiu mais algumas instruções especiais relativas
às manobras e aos preparativos de batalha a serem realizados logo
após o salto.
— Provavelmente
trata-se de respiradores de metano — prossegui. — Ao que tudo
indica, as raças-monstro da Galáxia estão passando em escala cada
vez maior a uma guerra de várias frentes. Devem possuir reservas
enormes de seres pensantes e de material. Não podemos arriscar a
perda de uma única nave. As perdas sofridas no setor de defesa
provam que os tempos das mensagens de advertência já se foram.
“Conforme
acabei de dizer, abriremos fogo assim que localizemos qualquer coisa
que se pareça com uma nave espacial não identificada. Nossas naves
transmitirão o código de identificação em conformidade com o
manual da esquadrilha, num ritmo de cinco horas. Segundo as
experiências que realizamos, o inimigo não terá possibilidade de
decifrar o código num tempo inferior a este. Por enquanto é só.
Precisamos aguardar para ver o que aconteceu no sistema de Larsaf.
Muito obrigado.”
Dali a dez
minutos realizamos a primeira transição. Depois de efetuado o
quarto salto, atingimos o pequeno sistema planetário do sol amarelo.
Assim que
o choque provocado pela rematerialização havia passado, as sereias
de alarma começaram a uivar em todas as unidades da esquadrilha. Os
excelentes instrumentos de localização deram busca no espaço, mas
não descobriram qualquer corpo estranho feito de metal. E os
rastreadores energéticos apenas mostravam as ondas de impulsos
provocadas pelos propulsores de nossas naves.
Avançamos
vertiginosamente numa formação de vinte milhões de quilômetros
pelo espaço interplanetário. Cruzamos as órbitas dos mundos cinco
e quatro, e finalmente vimos o terceiro planeta, em posição
favorável, reproduzido nas telas.
Tinha
certeza de que nos últimos dois anos nossos colonos deveriam ter
construído algumas instalações de defesa cósmica. Por isso chamei
Atlântida pelo hiper-rádio. Não estava disposto a perder algumas
naves em virtude do fogo disparado pelos seres de minha raça.
A resposta
chegou dentro de cinco minutos, quando já nos encontrávamos próximo
à órbita do planeta número três.
No momento
em que me viu em sua tela, o rosto do Capitão Feltif descontraiu-se
numa risada de alegria.
— Atlan!
— disse quase gritando. — Eu sabia. Por aqui está tudo em ordem.
Estou mandando os nativos para a floresta e evacuando a cidade de
Altópolis. A construção de nossas fortalezas provinciais está em
pleno andamento. Mandei levantar toscas construções de pedra nos
dois continentes do sul, para levar o inimigo a acreditar que se
trata de trabalhos realizados por povos primitivos.
“Existe
um plano de evacuação, que permitirá que, em caso de necessidade,
os colonos se retirem para estas áreas. Mandei armazenar alimentos
e,. também, guarnecer nossas naves com uma tripulação de
emergência e as fiz mergulharem no oceano. Encontram-se no fundo,
aguardando o desenvolvimento da situação. Conforme as
circunstâncias, também nos retiraremos para debaixo da superfície.”
Feltif
continuou em suas explicações, dadas em palavras apressadas. Vi que
os oficiais de meu estado-maior me fitavam com uma expressão de
pasmo. O que teria acontecido por aqui? Desde quando se costumava
procurar refúgio em primitivos castelos de pedra e nas matas para
escapar aos ataques dos respiradores de metano? Se os seres
não-arcônidas chegassem até ali, a superfície dos planetas
envoltos numa atmosfera de oxigênio, que para eles era venenosa, se
transformaria num mar de incandescência.
Meu
engenheiro de planejamento prosseguiu no relato desta e daquela
medida tomada por ele. Devia ter realizado coisas inacreditáveis.
Acontece que nós outros não entendíamos do que se tratava. Depois
de mais algum tempo interrompi-o, levantando ambas as mãos.
Bem à
nossa frente o pequeno sol transformou-se numa esfera incandescente
que nos ofuscava. Teríamos de passar bem perto dele, para atingir o
segundo planeta, que naquele instante se encontrava do lado oposto do
sol.
O
equipamento positrônico, inteiramente automatizado, realizava a
interpretação dos dados. Por meio de um suprimento uniforme de
energia, nossa velocidade foi mantida cinco por cento inferior à da
luz.
As
máquinas dos cruzadores leves, cujo empuxo era bastante fraco,
recorriam a injeções intermitentes de energia de apoio, motivo por
que dentro em breve se tornaria necessário o reabastecimento de seus
tanques. Nossos conversores de impulsos eram capazes de digerir
praticamente todos os tipos de matéria que se pudesse imaginar,
desde que seu ponto de fusão não fosse superior a 1.650 graus.
O Capitão
Feltif interrompeu-se em meio à frase. Seu rosto moreno mostrava uma
expressão de surpresa. Ao que parecia, não compreendia nosso
comportamento, da mesma forma que nós não compreendíamos o seu.
— Tenho
a impressão de que estamos falando linguagens diferentes — disse
pelo hiper-rádio. — Vim para cá informado de que os metanianos
atacaram o sistema. O que aconteceu realmente? Não acredito que você
se tenha transformado num idiota. Qual é a finalidade das medidas de
evacuação ordenadas por você? Será que ainda não estão cientes
do que aconteceu nestes últimos tempos? Vocês não têm recebido
suprimentos de Árcon?
— Naturalmente
temos recebido, Alteza — gaguejou o capitão muito competente em
tom de perplexidade. — É claro que estamos perfeitamente
informados. Há um ano recebemos peças completas de artilharia,
enviadas diretamente de Árcon, além de especialistas em equipamento
de defesa antiespacial localizado no solo. Mas não é disso que se
trata, Alteza.
Tarts, meu
velho instrutor, designado pelo Imperador, praguejou em voz alta.
Fitava a tela, como se quisesse devorar o jovem.
— Pelos
espíritos de Árcon, diga logo o que aconteceu — gritei em tom
furioso. — Será que ninguém nos pode dar uma informação
precisa? Por que fui chamado para cá?
Feltif
compreendeu que não sabíamos de nada. Uma expressão de pavor
surgiu em seu rosto.
— Tenha
cuidado, Alteza — exclamou apressadamente. — Nossos matemáticos
estão realizando os cálculos do fenômeno. Os ataques são
realizados com certos intervalos, mas diferem totalmente uns dos
outros, e só vez por outra conseguimos localizá-los através dos
nossos instrumentos de medida.
“Tudo se
passa como se não houvesse um planejamento prévio, mas uma série
de golpes instantâneos, desfechados sempre que surja uma
oportunidade apropriada. Não é fácil explicar o fenômeno. Os
rastreadores de quinta dimensão acusam ecos energéticos
inconfundíveis, mas os medidores de vibrações individuais falham
por completo. Acreditamos tratar-se de um inimigo superdimensional.”
Reprimi um
acesso de ira e procurei ignorar os impulsos emitidos por meu segundo
cérebro, que perguntava obstinadamente por que motivo eu fora
removido do teatro de guerra por causa de histórias desse tipo.
— Continue!
— disse, furioso no meu íntimo. — Prossiga com suas molecagens.
Estou disposto a ouvi-lo, a fim de me acalmar um pouco. Silêncio aí
atrás!
Alguns
oficiais que riam a bandeiras despregadas ficaram imóveis. Na frota
do Império a disciplina era mais que rigorosa. Os regulamentos me
davam competência para impor as penas mais duras.
— Peço
perdão, Alteza — respondeu Feltif num evidente desespero. — Não
tenho outra alternativa senão contar o que realmente aconteceu.
Enviamos relatórios minuciosos ao Grande Conselho. Este não o
informou?
— Temos
outras preocupações, capitão disse em tom de recriminação. —
Travamos a luta mais encarniçada de toda a história do Império.
Este está sendo esfacelado e os povos se exaurem. Não podemos
dispensar uma única nave, um único homem. Como é que os homens do
Conselho de Árcon se deixaram levar por uma história fantasiosa?
Até minha flotilha de elite foi retirada do campo de operações!
— Fico à
disposição de um tribunal militar, Alteza — respondeu Feltif em
tom Indiferente. — Quero que meus netos sejam amaldiçoados, se
aquilo que estou contando não corresponde aos fatos. Cento e
cinqüenta mil colonos já desapareceram de Larsa II, o segundo
planeta da estrela Larsaf, sem deixar o menor vestígio. De resto
tudo continua como antes. Nenhum estranho disparou um único tiro,
nenhuma bomba explodiu, nenhuma nave tentou pousar aqui. Fizemos tudo
para defender-nos, mas nossos tiros passaram por alguma coisa
invisível.
“Vi
pessoalmente que alguns homens do comando de defesa se transformaram
em sombras diante dos meus olhos, antes que desaparecessem por
completo, como se estivessem passando por um processo de
desmaterialização. Descobrimos naves estranhas, mas não
conseguimos atingi-las. Além disso, por aqui já não existe nenhuma
unidade armada, Alteza. Já faz um ano que todos os cruzadores
disponíveis da frota colonial foram retirados daqui. Ainda possuímos
algumas naves cargueiras imprestáveis e praticamente desarmadas, com
as quais não queremos arriscar-nos pelo espaço afora.”
Minha
raiva se desvaneceu. Conhecia Feltif e sabia que não estava
desfiando tolices. Tarts também parecia estar pensativo. Deu ordem
para que a sala de rádio da Tosoma ligasse o transmissor de alcance
global. Os comandantes e oficiais das outras unidades passaram a
acompanhar a palestra.
— Atlântida
também foi atacada? — perguntei um tanto preocupado.
— Não,
Alteza, apenas os colonos do segundo planeta. Provavelmente ainda não
somos tão importantes. E, como já disse, tomei todas as
providências destinadas à nossa proteção. A colônia de Larsa III
já se tornou muito grande e não dispõe da necessária mobilidade.
Há um ano promulguei urna lei relativa aos nascimentos. Quero evitar
que crianças recém-nascidas sejam atingidas pelo caos. Solicito a
confirmação deste procedimento.
Fiz um
gesto de desprezo. O procedimento de Feltif fora lógico e, portanto,
correto. De qualquer maneira, os colonos dificilmente poderiam ser
utilizados como soldados da frota, ainda mais que minha esquadrilha
não dispunha de qualquer nave de treinamento com o necessário
equipamento hipnótico.
Nesse meio
tempo passamos pelo sol Larsaf. Senti a ignição dos projetores do
campo defensivo, que há muito estavam prontos para entrar em
funcionamento. Os potentes campos energéticos refletiam ou absorviam
os raios carregados de energia expelidos pela estrela. O flamejar e a
luminosidade da periferia de nossa abóbada defensiva, que agora se
tornara visível, iam diminuindo de intensidade à medida que nos
afastávamos da fornalha solar.
Dali a
alguns minutos foi realizada a manobra de correção de rota e de
desaceleração, numa base de 500 km/seg2.
Aproximamo-nos do ponto em que deveria estar o segundo planeta quando
ali chegássemos.
O contato
com o Capitão Feltif continuava perfeito quando foi captada a
mensagem de Henos, comandante de um cruzador.
Sem a
menor consideração, nossa sala de rádio eliminou a palestra
anterior, que já vinha assumindo um aspecto de retórica.
A voz
forte e profunda de Henos parecia encher todos os cantos da sala de
comando.
— Cruzador
Tantor. Comandante Henos chamando o Príncipe de Cristal. Estou
localizando um corpo estranho. Hipereco pouco nítido, os
rastreadores normais não mostram a menor reação. Interpretação
pontual não ultrapassa dez na terceira potência por setor de
medição. Não houve determinação da imagem. O corpo se parece com
uma nebulosa. A realização dos cálculos energéticos é
impossível. Impulsos de ordem superior. Parece que a nave se
encontra simultaneamente no hiperespaço e no universo normal. Peço
instruções.
— Cuidado!
— gritou alguém a plenos pulmões.
Era
Feltif, que também ouvira a mensagem.
— Cuidado!
— repetiu. — Os ataques sempre começaram assim. O último foi
realizado há três meses e dois dias. Estão voltando completamente
fora de tempo segundo nossos cálculos de probabilidade. Desfecharão
um ataque, Alteza!
O oficial
de serviço na sala de rádio da Tosoma interrompeu o contato; e agiu
corretamente. Dali em diante teria de cuidar exclusivamente da
segurança da nave capitania.
Bem longe,
à nossa frente, a foice bem iluminada que representava o segundo
planeta pendia no espaço. A imensa camada de nuvens desse mundo
refletia a luz do sol com tamanha intensidade que seria capaz de
localizá-lo entre centenas de outros astros, independentemente de
qualquer indicação.
Virei a
cabeça para o Capitão Tarts. Assim que vi seu corpo, agora
totalmente ereto, que parecia irradiar força, comprimi o botão de
alarma. Sinais codificados foram expedidos pelas antenas da nave e
percorreram o espaço a velocidade superior à da luz.
Os
cruzadores de minha esquadrilha de elite espalharam-se
apressadamente, como se tivessem de desviar-se de uma tormenta que
surgisse repentinamente.
Ouvi os
propulsores situados na protuberância equatorial da gigantesca
Tosoma uivarem. Dali a alguns segundos também captamos um eco. Os
dados transmitidos por Henos eram exatos. Podíamos confiar nesses
homens arrojados e competentes, todos eles vindos diretamente de
Árcon. Não havia um único colono entre eles.
Por aqui
pulsava o sangue arcônida do melhor quilate. A bordo de minhas naves
não havia ninguém que não estivesse disposto a enfrentar
conscientemente a morte. — Vamos ver o que é isso! — disse
alguém atrás de mim, com a voz trêmula de raiva.
Olhei em
torno, e percebi que estas palavras haviam sido proferidas por Tarts.
Um sorriso mordaz surgiu-lhe no rosto, que lembrava o mármore
atlântico, tão elogiado pelos colonos zakrebenses logo após sua
chegada.
Pelo que
diziam, essa pedra era branca como neve e entremeada de filigranas
vermelhas. Naquele momento a face de Tarts reluzia nas mesmas
tonalidades.
As
potentes armas da Tosoma rugiram. Dali a alguns segundos, o recuo
violento de uma salva de impulsos me fez perder o equilíbrio.
Um
tripulante segurou-me: — Acho que desta vez esses atacantes
misteriosos pegaram o bonde errado, não é? — disse um tenente
muito jovem.
Pisquei os
olhos para Tarts, que já assumira sua posição de combate. O mestre
limitou-se a acenar ligeiramente com a cabeça. Voltou a prestar
atenção às mensagens vindas dos diversos postos. Tudo funcionava
às mil maravilhas. Uma máquina de guerra infalível e bem ajustada
entrou em funcionamento.
Era claro
que na minha opinião também terminaríamos logo com o fantasma.
— Formação
de cruzadores, entrar em rota elíptica a gravo menos dez graus —
ordenei. — Assor e Paito realizarão um ataque em cunha. Tosoma
atacará frontalmente com ajuste de pontaria para dois e meio por
cento abaixo da luz. Fogo manual. Tudo preparado? Vamos começar!
Não
enxerguei a fornalha atômica que surgiu diante dos nossos canhões
de impulsos. Os disparos prosseguiam e alcançavam a velocidade da
luz.
Mas ouvi o
terrível rugido no interior do corpo esférico de oitocentos metros
de diâmetro. O dispositivo automático do assento de segurança
colocou o capacete de combate acolchoado sobre minha cabeça.
Passamos a manter contato radiofônico sem Imagem.
Doravante
minhas instruções seriam ouvidas em todos os cantos da nave. A
central de retransmissão funcionava em hiperondas e código de
condensação. Qualquer Instrução era codificada, transformada e
irradiada numa questão de segundos. Os comandantes ouviam à medida
que eu falava. O único retardamento era aquele determinado pelo
trabalho do autômato de decifração. Esse retardamento equivalia
aproximadamente a um décimo de segundo.
Esperava
receber a qualquer momento o aviso de que o inimigo tinha sido
derrubado. Afinal, um de nós teria de atingi-lo.
7
O berreiro
infernal ressoou nos alto-falantes. Até parecia que fora reforçado
mais uma vez.
Saltei do
meu assento de combate. Na sala de comando da Tosoma, os oficiais
experimentados nas batalhas travadas no setor da nebulosa haviam
voltado a cabeça para trás, para fitar numa atitude incrédula a
galeria de telas instaladas em círculo.
Não se
via nada!
O inimigo
estava muito longe e o sol Larsaf era tão fraco que não poderia
produzir qualquer reflexo luminoso na blindagem da nave desconhecida.
Continuávamos
a disparar, mas não houve qualquer notícia de que a operação
tivesse sido coroada de êxito. Apenas o cruzador pesado Igita,
comandado pelo experimentado Cerbus, avisou que o objeto localizado
descrevera uma curva fechada a fim de escapar às salvas energéticas.
Naquele
instante ouviu-se a gritaria. Não sabíamos qual era seu motivo, até
que a interpretação robotizada da sala de rádio anunciasse com uma
objetividade mecânica:
— A
tripulação do cruzador ligeiro Matato desapareceu. Não há nenhum
sinal de rádio. A nave não foi danificada. Prossegue na rota em
direção ao alvo. Deixou de reagir a todas as comunicações. Fim.
No curso
dos últimos dois anos ouvira várias vezes notícias semelhantes a
essa. Desta vez foi o teor especial da mensagem que despertou minha
atenção.
Como é
que o cruzador poderia estar intacto, se a tripulação havia sido
eliminada? Além disso, a nave prosseguia na rota que a levaria ao
alvo.
Enquanto
refletia intensamente, o cruzador pesado Paito, comandado pelo
Capitão Inkar, anunciou que o objeto desconhecido desapareceu de
repente. Deveria ter entrado em transição. Mas havia uma
circunstância que desmentia esta versão: os poderosos rastreadores
estruturais de minha nave capitania não haviam registrado o ruído
que seria provocado pelo salto. Há três milhões de quilômetros
seria praticamente impossível deixar de ouvir uma transição, por
mais fraca que fosse. Era impossível ocultar o abalo provocado pelo
impacto sobre a curvatura do espaço.
Como não
encontrássemos mais nenhum alvo, mandei suspender a batalha
unilateral e determinei que o cruzador Matato, que prosseguia na sua
carreira desabalada, fosse detido por um raio de salvamento.
Toda a
formação realizou uma complicada manobra de adaptação, que
consumiu quase duas horas. Conseguimos atingir a nave de cerca de cem
metros de diâmetro com os implacáveis raios de tração. A Matato
foi se aproximando da nave capitania.
Durante a
singular batalha havíamos abandonado nossa rota primitiva. O segundo
planeta estava reduzido a uma lâmina pálida em meio às estrelas
escassas desse setor da Via Láctea.
Assim que
o cruzador ficou retido junto ao costado de nossa nave, o oficial do
comando de salvamento apresentou-se a mim.
O Tenente
Cunor lançou um olhar de espanto para meu traje espacial leve.
Naquele momento estava colocando o capacete e regulando o suprimento
de oxigênio.
— Vossa
Alteza irá conosco? — perguntou em tom de perplexidade.
— Irei —
respondi laconicamente. — Está pronto?
Dali a
quinze minutos, abrimos a comporta inferior do cruzador ligeiro,
cujos tripulantes não respondiam a qualquer mensagem de rádio.
Entramos
num grupo de cinqüenta homens. Segurava minha arma em posição de
disparo. Contrariando minhas determinações, o Capitão Tarts também
viera conosco. Ouvi sua respiração pesada no alto-falante do
capacete. Preferi não repreendê-lo, mas ele entendeu meu olhar.
Franziu as sobrancelhas, num gesto de contrariedade.
Até
parecia que a Matato nunca chegara a ter tripulantes. Atravessamos
praticamente todos os compartimentos, mas não encontramos um único
homem.
Os grupos
de busca encontraram-se na sala de comando da nave intacta. Um mundo
de concepções acabara de desmoronar em minha mente.
À medida
que os homens iam entrando, faziam gestos de desespero. Nunca vira
meus homens tão espantados. Lembrava-me constantemente das
advertências do oficial de planejamento Feltif. Este falara no
desaparecimento súbito de seres vivos.
Enquanto
ainda refletia, ouvi o grito insistente. Alguém chamava o Tenente
Cunor.
Corremos
ao compartimento do qual vinham os gritos. Quando abriram caminho à
minha frente, tive a impressão de que meu coração iria parar de
bater.
Um dos
tripulantes da Matato estava estendido no chão. Até a altura das
coxas seu corpo era duro e firme como pedra, mas suas pernas se
debatiam desesperadamente, como se aquele homem se encontrasse em
pânico, fugindo de uma aparição medonha.
Era um
quadro que faria empalidecer o mais destemido dos homens. Reprimi um
gemido, empurrei o Tenente Cunor para o lado e ajoelhei junto ao
infeliz.
Tentei
levantar seu corpo, mas não consegui. Não tinha apenas a
consistência da rocha, mas também o peso. A densidade do organismo
devia ter sofrido um aumento enorme. Apenas as pernas trêmulas, que
se debatiam no assoalho, davam a impressão de serem normais.
Dei lugar
a um médico. Este tentou aplicar uma injeção naquele homem que
fora ferido de forma tão estranha. Foi impossível.
— O que
é isso? Vamos, fale logo! O que é isso? — gritei para o médico.
Este me
olhou com uma expressão insegura. Estava muito pálido. Não sabia.
Mandei que
o soldado fosse levado para bordo da Tosoma, onde seria tentado seu
restabelecimento. Mas já imaginava que seria inútil.
Assim que
voltei à nave capitania, enviei uma tripulação de emergência ao
cruzador. Nunca vira aqueles homens tão inseguros ao entrarem numa
nave espacial de nossa frota. Acontecera uma coisa terrível e
incompreensível.
Logo
depois, retomamos nossa rota. Quando estávamos prestes a pousar,
Grun, chefe de minha equipe matemática, solicitou uma audiência.
Compareceu com seus subordinados.
Grun era
relativamente baixo e muito velho. Mas a lisura de sua pele
demonstrava que obtivera um rejuvenescimento biomédico. Com uma
freqüência cada vez maior, o Grande Conselho concordava em conceder
mais alguns anos de vida a homens realmente capazes e que fossem
considerados insubstituíveis. Há tempos teria sido impossível
obter a licença para a ativação celular com base num simples
requerimento. Mas hoje precisavam de pessoas que soubessem alguma
coisa. E Grun era uma dessas.
Ao lado o
Capitão Tarts mantinha uma palestra audiovisual com os comandantes.
Passei a dedicar minha atenção ao cientista.
— Aquilo
é antes um mistério de natureza física que de natureza médica,
Alteza — principiou. — O ferido está vivo. Os nervos das pernas
não foram paralisados. No entanto, constatamos que a mão, que
parecia totalmente rígida, moveu-se cerca de três milímetros para
a esquerda durante a última hora. Emiti instruções adequadas.
Suponho que a condensação extrema dos tecidos orgânicos seja
devida a um efeito temporal relativista. O curso de movimentos
considerado normal para nós já não se aplica ao ferido. É bem
verdade que não podemos afirmar a mesma coisa em relação às
pernas.
— Isso
não passa de uma loucura! — exclamei perplexo. — Qual é a
explicação do fenômeno?
— Os
cálculos ainda estão em curso, Alteza. Pensamos na possibilidade de
uma nova arma, cujos efeitos se restrinjam à vida orgânica. Talvez
seja um canhão de conversão, em cujo raio de ação se realiza uma
alteração estrutural da matéria. A matéria orgânica é
desmaterializada e trasladada para outro plano.
“No caso
que temos diante de nós, certamente a vítima foi pega de raspão. O
tronco e a cabeça foram atingidos por emanações fracas do campo de
tiro, enquanto as pernas não foram alcançadas. Não chegou a haver
uma desmaterialização, mas apenas uma condensação da matéria. Ao
mesmo tempo ocorreu um deslocamento do substrato temporal. Talvez a
vítima esteja sentindo esta experiência, mas num ritmo muito mais
lento. Seja como for, acaba de mover a mão. As pernas não estão
sujeitas ao controle consciente de seu espírito.”
Senti que
meus olhos se umedeciam, o que era sinal de nervosismo extremo. Grun
falara com a objetividade de um cientista que estivesse ministrando
uma aula.
— O que
devemos concluir? — perguntei em tom exaltado.
— Podemos
concluir qualquer coisa, ou podemos não concluir nada, Alteza. O
certo é que uma arma deste tipo poderia constituir um fator decisivo
na guerra contra os metanianos. Devíamos procurar capturar uma nave
dos desconhecidos?
— Como?
Grun não
tardou em responder.
— Devíamos
aguardar o próximo ataque e dispensar o uso dos recursos normais.
Recomendo que os propulsores de impulsos de alguns dos cruzadores
mais antigos sejam utilizados como canhões de radiação. Os mesmos
trabalham em base superdimensional. Deve-se montar um dispositivo de
tele controle, a fim de evitar qualquer risco para a tripulação.
Talvez tenhamos de nos conformar com a perda do cruzador.
Grun sabia
raciocinar logicamente. A sugestão não deixava de ser tentadora.
Mas não me agradou.
— As
questões ligadas à tecnologia de armamentos têm uma importância
secundária para mim, que sou comandante de uma flotilha do Império
— respondi. — Quero saber antes de mais nada com quem estamos
lidando. Acho improvável que nos tenhamos defrontado com uma nave
dos metanianos. Se dispusessem de outras deste tipo, já as teríamos
percebido no setor das nebulosas. Será possível que nos encontramos
com inteligências totalmente diversas de nós? De inteligências que
não têm o menor conhecimento de nossa luta desesperada contra os
monstros?
— Existe
uma probabilidade de noventa e sete por cento de que seja assim —
confirmou o matemático. — Já efetuei os cálculos. Com isso nossa
situação se modifica por completo.
Senti-me
grato porque o cientista preferiu não chamar minha atenção para a
necessidade premente de enviar um relatório ao Grande Conselho de
Árcon. Não saberia o que comunicar ao G.C. A situação tornara-se
tão confusa que teríamos de aguardar a evolução ulterior dos
fatos.

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