quinta-feira, 21 de março de 2013

P-060 - Fortaleza Atlântida - K. H. Scheer [parte 2]

Apesar do volume de informações de que já dispúnhamos, realizamos mais um levantamento cartográfico de Larsa III antes de pousarmos. Tratava-se de um belo planeta, semelhante a Árcon, com grandes mares, um céu azul, continentes extensos e matas verdejantes.
A zona equatorial foi a que mais nos agradou. A temperatura ali reinante correspondia às nossas necessidades, ainda mais que nas zonas montanhosas mais elevadas o ar era seco e puro. E o calor existente era agradável.
As extensas matas dos dois continentes cortados pelo equador não nos agradavam tanto. E o terço do norte de um continente apresentava um deserto coberto de areia e pedras que não era bem visto por nós.
Mais ao norte o frio era demais. Por ali também havia matas que pareciam infindáveis, mas que evidentemente não apresentavam características tropicais.
Mesmo do espaço observamos uma vida animal bastante intensa. Dentro de vinte mil anos este mundo seria capaz de produzir verdadeiras inteligências. Portanto, ainda tínhamos tempo de sobra para procurar um lugar apropriado.
Uma vez analisadas as amostras de ar, para constatar a presença de eventuais germes nocivos, dei ordem para descer mais. Antes de usar os poderes de que dispunha e realizar um empreendimento colonizador, a lei me obrigava a verificar pessoalmente o grau de desenvolvimento físico e mental dos habitantes do planeta.
A Tosoma, um couraçado da nova classe Império, penetrou em alta velocidade nas camadas mais densas da atmosfera. Diante de nossos campos defensivos surgiu uma esfera incandescente formada pelas massas de ar altamente comprimidas que, por certo, faria com que os nativos saíssem em fuga desabalada.
Sobrevoamos os continentes a pequena altitude, atravessamos rapidamente os grandes oceanos e procuramos localizar a área situada entre as duas zonas equatoriais.
A extensão dessa área a tornava suficiente para os fins que tínhamos em vista. Além disso, era montanhosa e arborizada. Se desembarcasse os cinqüenta mil zakrebenses por ali, encontrariam condições climáticas bastante favoráveis.
Não demoramos em encontrar a área. Era tão extensa que poderia ser considerada um continente. As estreitas faixas de terra que ligavam-na às regiões situadas ao leste e ao oeste, proporcionariam boas oportunidades para um eventual intercâmbio comercial com os nativos, depois que estes tivessem sido instruídos por nós.
A experiência já nos ensinara que um grupo de seres bem dotados aprende rapidamente a cultivar os campos, construir pequenas embarcações e erguer casas.
Paramos a Tosoma numa altitude de oitenta quilômetros. Dali víamos perfeitamente boa parte da ilha de formato oval, de cerca de dois mil quilômetros de comprimento.
Em certo ponto uma cadeia de montanhas estreita, muitas vezes interrompida por largas faixas de água, estendia-se em direção ao deserto. Naquele lugar encontramos um planalto grande, situado bem acima do nível do mar, coberto por uma estepe, que parecia constituir uma boa área de pouso.
O imediato do couraçado apresentou-me os mapas, que a impressora automática preparara nesse meio tempo. Examinamos vários detalhes, até que acabei por me decidir pelo planalto. O Capitão Tarts aproximou-se.
Poderemos criar um ótimo acesso ao mar — disse Tarts. — Se necessário, usaremos um pequeno canhão de impulsos para fundir uma larga estrada que serpeie pela encosta das montanhas abaixo. Estou vendo uma grande baía, protegida dos ventos. Nela poderá ser construído um porto.
A maior parte deste mundo é formada de água. Nossos colonos, e ainda mais os nativos, não poderão deixar de familiarizar-se com a navegação. O respectivo equipamento pode ser encontrado em Larsa II. Até sugeriria que o planeta fosse escolhido para servir de base à nossa frota. Fica situado nos limites extremos do Império. Quem sabe se um belo dia não precisaremos de arsenais de reparos nessa espiral insignificante da Galáxia? Você terá que decidir, Atlan.”
Marquei em vermelho a área prevista. Senti um calafrio ao pensar nas gigantescas camadas de gelo dos dois pólos. As paisagens vistas ao norte e ao sul pareciam cobertas por gigantescas geleiras que se derretiam.
Ficaremos aqui — decidi. — Quero conhecer o desenvolvimento da cultura dos nativos. Chame os rapazes.
Tarts transmitiu as instruções necessárias. Por baixo da protuberância que abrigava os propulsores da Tosoma, o cano reluzente de um pesado projetor mental saiu do corpo da nave.
O que se seguiu não passava de rotina. Se lá embaixo existissem seres vivos dotados de alguma inteligência, os mesmos não poderiam deixar de reagir aos nossos comandos sugestivos.
O oficial da equipe psicológica da nave repetia as mesmas palavras para dentro do microfone. Essas palavras foram convertidas em pára-radiações e transmitidas em feixe aberto pelo projetor.
Aguardamos mais duas horas; depois disso ordenei o pouso. A nave foi descendo lentamente, até que a arrebentação branca da costa se tornasse visível sob o tremeluzir do campo gravitacional perfeitamente ajustado.
A gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro pousou junto à cordilheira litorânea. O solo macio da estepe cedeu sob a pressão das placas de apoio das colunas telescópicas, até que estas atingissem a rocha sob a superfície. Era a primeira vez que pousava no terceiro planeta do sistema de Larsaf.
As análises das amostras das águas e dos solos foram totalmente satisfatórias. Não havia germes nocivos.
No momento em que abrimos as comportas e deixamos penetrar o ar puro e aromático, os primeiros seres vivos aproximaram-se.
O berreiro de comando de Tarts deixou-me nervoso. Nunca podia abster-se de desembarcar unidades pesadamente armadas depois de cada pouso. Apesar de toda tolerância que costumava demonstrar, pertencia à classe dos comandantes para os quais a segurança de sua nave valia mais que qualquer outra coisa.
Os pesados robôs de combate, comandados pelo Tenente Ketlar, saíram das escotilhas e flutuaram lentamente para baixo, sob a ação de seus campos antigravitacionais. Ketlar lançou um olhar desconfiado para os nativos. Estes se apressavam em cumprir as ordens que lhes haviam sido transmitidas por meio do projetor mental.
Dispensei o cerimonial costumeiro, o que fez com que Tarts se mostrasse contrariado. Nunca deixara de, no primeiro pouso em qualquer planeta, colocar solenemente os símbolos do Império e proferir as palavras consagradas há muito tempo.
Ainda não sei se poderemos ficar aqui — disse em tom um tanto irônico. — Para que tanta pressa, mestre? Pelo que vejo, estes nativos não usam armas de pedra. Trazem machados de bronze muito bem trabalhados, escudos de couro e, ao que parece, arcos bem eficientes com longas flechas. Estes equipamentos correspondem ao menos ao nível de inteligência A-5.
Estas são as criaturas mais evoluídas, Alteza — apressou-se em esclarecer o funcionário do serviço colonial que havíamos colocado a bordo em Larsa II.
Lancei-lhe um olhar de dúvida.
É verdade — murmurou Tarts em tom contrariado. — Conheço os dados. Os seres que habitam as regiões situadas mais ao norte ainda não conhecem os trabalhos de metais nem os tecidos. Ainda se vestem com peles de animais. Neste planeta surgiram tribos muito diferentes umas das outras.
Interrompi-o com um gesto. Era sempre a mesma coisa, toda vez que se pousava num mundo estranho.
Saí da Tosoma pela pequena comporta inferior e entrei no carro-planador baixo que dentro de poucos segundos me levou para junto dos nativos, que se amontoavam num grupo.
Fitaram-me alarmados. Nossos médicos e biólogos separaram alguns indivíduos de um e outro sexo, a fim de submetê-los a um exame a bordo da nave.
Eram figuras muito altas e musculosas de pele marrom-avermelhada. Os rostos eram francos e leais e as testas altas estavam encimadas por cabelos muito negros.
Estes bárbaros ignorantes realmente se assemelhavam muito com os arcônidas.
Mandei levantar cautelosamente a compulsão sugestiva. Assim que se sentiram de posse de suas energias mentais e reconheceram a situação, teve início a esperada fuga em massa.
Aguardei até que nossos psicólogos galácticos fizessem o que se tornava necessário. Precisavam de uma sensibilidade extrema para tranqüilizar aquelas mentes assustadas e convencê-las de que nada lhes aconteceria. Logo conseguiram.
Tarts não deu sossego enquanto não coloquei sobre os ombros a capa majestosa com os símbolos da dinastia reinante e proferi as palavras prescritas para a ocasião.
Os nativos deitaram-se no chão e esconderam o rosto nas mãos.
Inkar, o comandante jovem e arrojado do cruzador Paito, disse em voz baixa:
O símbolo do sol usado por sua família provavelmente se transformará num signo sagrado para essa gente.
Tive uma sensação desagradável, muito embora nossos psicólogos afirmassem que uma certa glorificação não pode fazer mal a ninguém.
Demorou quatro horas até que fossem entregues os primeiros relatórios do setor de pesquisa. Enviara algumas naves auxiliares à região norte. Quando estas voltaram, ficamos sabendo que os habitantes de lá realmente se achavam num nível cultural bem mais abaixo do que aqueles encontrados na ilha.
Além disso, parecia haver diferenças na cor da pele.
Inkar, cuja nave permanecera em Larsa II, esforçou-se para estabelecer comunicação com os nativos. A tradução foi realizada por um robô de comunicações. A língua dessa gente de pele “marrom” era simples e fácil de entender.
Interrompi o cerimonial. Mas Tarts, meu velho amigo e mestre, fez questão de chamar o território recém-incorporado de Império de Atlântida, em homenagem à minha pessoa.
Suspirei e deixei passar ainda esse ato. Finalmente dirigi-me para bordo de minha nave capitania a fim de elaborar as ordens que se tornavam necessárias.
Inkar pegou uma nave auxiliar da Tosoma e retornou ao segundo planeta, a fim de organizar o transporte dos cinqüenta mil zakrebenses.
Transmiti uma mensagem de hipercomunicação dirigida ao Grande Conselho, a fim de informá-lo sobre as medidas que acabara de tomar em benefício dos colonos que corriam perigo em Larsa II.
A confirmação chegou dali a algumas horas. Meu venerável tio ordenou-me pessoalmente que por enquanto levasse os colonos ao terceiro planeta e ali providenciasse abrigos provisórios para eles. Ao mesmo tempo avisou que dentro em breve deveria chegar uma frota de transporte, trazendo tudo que se tornasse necessário à rápida organização de uma colônia.
Inclinei a cabeça diante da tela e coloquei a mão direita sobre o peito. Meu interlocutor distante sorriu. Face à grande distância, a comunicação visual era bastante deficiente.
Você terá de passar mais algum tempo nesse sistema, Atlan. Das declarações do antigo administrador Amonar conclui-se que houve uma conspiração que não ficou restrita ao segundo planeta da estrela Larsaf. O Império precisa criar um forte contingente armado que permaneça no local. Concedo-lhe todos os poderes para isso.
Sua ordem não admitia objeções. Quando a imagem se apagou, ouvi uma risada forte e aborrecida de Tarts. Os homens que trabalhavam na sala de rádio olharam-me como se quisessem, naquele instante, devorar-me.
Aí está! — disse o velho comandante. — Por que foi entrar em contato com o Imperador? Acho que ficaremos presos por alguns anos neste sistema miserável, aguardando um ataque que nunca ocorrerá. Pelo que sei, nem mesmo os mercadores galácticos estão informados sobre a existência destes nove planetas.
Senti raiva de mim mesmo. Se houvesse partido imediatamente, o Grande Conselho teria de enviar outro comandante. Sem dúvida havia mais que fazer nas áreas sempre turbulentas da Galáxia do que neste mundo, cujos habitantes viviam se arrastando no pó a fim de implorar nossa benevolência.
Partimos no dia seguinte. Deixei no planeta um grupo sob o comando do Capitão Feltif, bem como alguns canhões energéticos transportáveis e várias máquinas de terraplenagem.
Na semana seguinte, quando os cruzadores de minha esquadrilha penetraram nas camadas atmosféricas do terceiro planeta e desembarcaram os primeiros colonos zakrebenses, já existia um espaçoporto provisório com um piso de um metro de grossura.
O Capitão Feltif, que era nosso planejador-chefe, mandara derreter parte do planalto com os canhões energéticos e deixara que as massas de pedra escorressem transformando-se numa superfície lisa que se solidificou.
Dali a uns quinze dias, chegou a frota de transportes anunciada pelo Imperador. O terceiro mundo da estrela Larsaf recebeu uma administração própria.
Os robôs especializados desembarcados das naves puseram-se imediatamente a trabalhar. Seguindo planos pré-esquematizados, começaram a construir pequenas aldeias com um centro principal. Durante este período de edificações, recebi instruções para partir, deixando no planeta um comando de exploração armado. O Almirante Sakal estava empenhado numa batalha encarniçada contra certos seres respiradores de metano revoltados, que ameaçavam as fronteiras de nosso Império com uma grande frota dotada de armamentos modernos.
Com isso tive a oportunidade pela qual tanto ansiava: sair de Atlântida.
Deixei para trás o contingente de defesa comandado pelo Capitão Feltif, voltei a examinar cada planeta daquele pequeno sistema para verificar a eventual presença de vida inteligente.
Só o terceiro mundo do sistema havia desenvolvido formas próprias de vida. Poderia partir tranqüilo e comunicar ao Conselho que por enquanto minha missão estava cumprida.
Decolei com o couraçado Tosoma e os cruzadores Paito e Assor. Assim que cheguei à órbita do quarto planeta, aguardei a chegada dos cruzadores leves e pesados de minha esquadrilha, que vinham atrás de mim, prontos também para realizar a primeira transição.
A guerra contra os respiradores de metano teve início no dia em que os colonos desembarcados em Atlântida começavam a construir seu mundo.
Sentia-me feliz por poder avançar novamente em direção ao centro da Via Láctea, que enxameava de estrelas. Sabíamos perfeitamente que teríamos uma luta difícil.
Dirigi-me à base de Alslafton VI e carreguei provisões, água fresca e combustível de reatores para minha frota. Notícias inquietantes vinham do setor das nebulosas. Até parecia que todas as inteligências não-arcônidas se haviam reunido para conspirar contra nós.
Quando finalmente cheguei à base planetária avançada de Jangtu e me apresentei ao Almirante Sakal, já me esquecera de que há mais de trinta mil anos-luz de distância existia um pequeno sol amarelo, que havíamos batizado com o nome de estrela Larsaf, em homenagem ao seu descobridor.
Não pensei por um instante sequer no pequeno continente ao qual o comandante de minha nave capitania dera o nome de Atlântida. O Grande Império que vivia sob a hegemonia de Árcon lutava pela existência.
A chamada guerra do metano exigiu o empenho de todas as nossas forças. Naquele tempo ainda não sabíamos que nosso povo degeneraria e levaria o Império à beira do abismo.
Se não fosse assim, certamente dali a dois anos teria encontrado um meio de evitar ao menos em parte um acontecimento terrível que então se verificou...
6



O ponto central da trigésima quinta batalha de contenção ficava a apenas cerca de três anos-luz. Desta vez se lutava pelo sistema de Koal, cujos habitantes haviam sido evacuados às pressas.
Trinta dias antes do início do novo ataque em grande escala cheguei à base de Alaget III, a fim de revisar as máquinas desgastadas de minhas naves e mandar renovar o armamento estragado pelo uso excessivo.
Em todos os pontos viam-se unidades bastante danificadas da frota do Império; e os comandantes e chefes de esquadrilha faziam esforços para conseguir substitutos para os tripulantes e os membros da tropa mortos ou terrivelmente mutilados.
Minha situação era relativamente vantajosa, uma vez que ninguém poderia ignorar o fato de ser eu, Atlan, membro da dinastia reinante.
Agi sem maiores considerações, pois disse comigo mesmo que minha unidade especializada era mais importante que os nomes ou as graduações. Arranjei coisas que outros comandantes não conseguiram.
O comandante Inkar recebeu um cruzador novo em folha da classe Fusuf, para substituir a nave por ele comandada, que se havia tornado imprestável para enfrentar o espaço. Deu à nova unidade o mesmo nome da antiga: Paito. Além disso, consegui dez cruzadores ligeiros.
Dessa forma estava praticamente pronto para entrar em combate e considerava minha frota bem equipada, quando o Capitão Tarts bateu à porta de meu camarote. Fiquei admirado por não ter ele utilizado a comunicação audiovisual.
Assim que entrou, colocou a fita de plástico do decifrador automático sobre a mesa, sem dizer uma palavra.
Seu rosto enrugado exprimia uma grande preocupação. Há algumas semanas eu lhe concedera um rejuvenescimento bioquímico, mas até então ainda não havia sido possível chegar a um dos laboratórios governamentais. Essas instituições não existiam nos limites do Império.
Mais um revés, meu velho? — perguntei apavorado e peguei a fita.
Tarts soltou uma risada áspera. Seus olhos vermelhos estavam ligeiramente inflamados. Tarts realizara missões extremamente arriscadas.
É de seu eminentíssimo tio em pessoa — disse com a voz cansada. — Atlan, eu, que sempre dei duro em você durante a época do treinamento, posso garantir-lhe uma coisa: não estou gostando disto! Recebemos ordens para afastar-nos imediatamente do campo de batalha e transferir-nos a outro lugar. Pode imaginar para onde é?
Li a mensagem, que trazia o sinal-código pessoal do Imperador.
Para a estrela Larsaf? — perguntei, pensando em voz alta. — Já ouvi este nome. A estrela Larsaf...
É aquele sistema muito pequeno em que estivemos há dois anos. Os colonos estabelecidos ali transmitiram mais um pedido de socorro ao Grande Império. Mas parece que desta vez não se trata apenas dos excessos cometidos por algum funcionário megalomaníaco. O caso é mais sério. Recebemos ordens para equipar completamente nossas unidades e dirigir-nos sem demora a esse setor espacial.
Olhei para as telas ligadas do grande camarote do almirante. Lá fora, nas áreas amplas do estaleiro, os arcônidas exaltados vindos de todos os setores do Império se comprimiam. Entre eles havia homens cujos antepassados emigraram há milhares de anos.
Todas as pequeninas questões de soberania e rivalidades comerciais haviam sido esquecidas. A única coisa de interesse era a defesa contra as inteligências não-humanas, que respiravam metano.
Logo agora temos de ir a essa estrelinha ridícula! — disse em tom zangado. — Até parece que meu venerável tio se esquece de que nos encontramos a aproximadamente trinta e dois mil anos-luz desse sistema.
O chefe do arsenal local recebeu ordens específicas — disse Tarts, admirador da minha família, em tom contemporizador. — Recebemos mais alguns cruzadores novos.
Levantei-me repentinamente, peguei o grosso capacete de comunicação audiovisual e caminhei em direção à porta. O que teria acontecido na área de Larsaf? Dali a doze horas meu grupo decolou. Agora era formado pelo couraçado Tosoma, pelos cruzadores pesados Paito e Assor e por mais 42 cruzadores leves e pesados.
Realizei uma conferência pelo sistema de comunicação audiovisual. Os comandantes de minha esquadrilha sabiam do que se tratava.
Pouco antes de atingirmos a velocidade da luz tivemos de dar combate a algumas unidades leves do inimigo, que haviam rompido nossas defesas. Destruímos os cinco cruzadores num terrível furacão atômico despejado pelos canhões de impulsos e prosseguimos viagem. Não nos preocupamos com os destroços fumegantes. Limitei-me a informar o almirante que comandava a operação sobre o acontecido.
Segundo a mensagem por mim recebida, deveria aguardar novas informações junto ao sistema de Estaf. Quando chegamos lá, uma nave-correio nos aguardava. As notícias foram entregues por um representante do Conselho.
Mandei que a flotilha seguisse o rumo indicado, deixei que Tarts realizasse os cálculos de transição e aprofundei-me no estudo das instruções recebidas.
Conforme estas, o segundo planeta da estrela Larsaf se tornara o objeto de ataques vindos das profundezas do espaço. Pelo que li, mais de cem mil colonos já haviam tombado, ou melhor, consoante se dizia no relatório, haviam desaparecido misteriosamente.
Convoquei Tarts à minha presença e liguei o equipamento de telecomunicação, a fim de que os comandantes das diversas naves participassem da conversa.
Comandante da esquadrilha dirigindo-se a todos. Palestra secreta. Liguem para o código 2020-34-176, preparem distorsor, impulsos condensados segundo o código 25 34-B. Avisem assim que estiverem prontos para a recepção.
Durante a guerra de dois anos, meus homens se haviam transformado em especialistas de primeira classe. Depois de alguns minutos, começaram a chegar as confirmações dos comandantes das diversas unidades. A ligação conjunta de minha nave capitania forneceu os dados a serem utilizados pelos conversores de distorção.
Os rostos dos oficiais foram surgindo na tela quadriculada central. Tarts e eu sentamo-nos diante da objetiva.
Pronto, Alteza! — disse a sala de rádio da Tosoma.
Principiei com uma informação ligeira:
Avançaremos até a estrela Larsaf; para isso realizaremos quatro transições. Os comandantes mais antigos já conhecem as condições ali reinantes. Trata-se de um sistema de nove planetas Os de números dois e três são habitados por indivíduos de nossa raça. Não sei exatamente o que aconteceu. As instruções do Grande Conselho não são muito esclarecedoras. Ao que tudo indica, o G.C. está tateando no escuro.
Com o quarto salto colocar-nos-emos dentro do sistema e procuraremos localizar qualquer corpo estranho. Caso o encontremos, abriremos fogo sem aviso prévio. Tomem cuidado. Entre o quarto e o quinto planeta existe um anel de asteróides bastante extenso. Pelo que consta, trata-se dos fragmentos de um planeta que explodiu. Não confundam os blocos de pedras cósmicas com as naves inimigas. Liguem o equipamento para a localização de objetos metálicos.”
Examinei os dados que tinha diante de mim. Tarts, o mais antigo dos comandantes, transmitiu mais algumas instruções especiais relativas às manobras e aos preparativos de batalha a serem realizados logo após o salto.
Provavelmente trata-se de respiradores de metano — prossegui. — Ao que tudo indica, as raças-monstro da Galáxia estão passando em escala cada vez maior a uma guerra de várias frentes. Devem possuir reservas enormes de seres pensantes e de material. Não podemos arriscar a perda de uma única nave. As perdas sofridas no setor de defesa provam que os tempos das mensagens de advertência já se foram.
Conforme acabei de dizer, abriremos fogo assim que localizemos qualquer coisa que se pareça com uma nave espacial não identificada. Nossas naves transmitirão o código de identificação em conformidade com o manual da esquadrilha, num ritmo de cinco horas. Segundo as experiências que realizamos, o inimigo não terá possibilidade de decifrar o código num tempo inferior a este. Por enquanto é só. Precisamos aguardar para ver o que aconteceu no sistema de Larsaf. Muito obrigado.”
Dali a dez minutos realizamos a primeira transição. Depois de efetuado o quarto salto, atingimos o pequeno sistema planetário do sol amarelo.
Assim que o choque provocado pela rematerialização havia passado, as sereias de alarma começaram a uivar em todas as unidades da esquadrilha. Os excelentes instrumentos de localização deram busca no espaço, mas não descobriram qualquer corpo estranho feito de metal. E os rastreadores energéticos apenas mostravam as ondas de impulsos provocadas pelos propulsores de nossas naves.
Avançamos vertiginosamente numa formação de vinte milhões de quilômetros pelo espaço interplanetário. Cruzamos as órbitas dos mundos cinco e quatro, e finalmente vimos o terceiro planeta, em posição favorável, reproduzido nas telas.
Tinha certeza de que nos últimos dois anos nossos colonos deveriam ter construído algumas instalações de defesa cósmica. Por isso chamei Atlântida pelo hiper-rádio. Não estava disposto a perder algumas naves em virtude do fogo disparado pelos seres de minha raça.
A resposta chegou dentro de cinco minutos, quando já nos encontrávamos próximo à órbita do planeta número três.
No momento em que me viu em sua tela, o rosto do Capitão Feltif descontraiu-se numa risada de alegria.
Atlan! — disse quase gritando. — Eu sabia. Por aqui está tudo em ordem. Estou mandando os nativos para a floresta e evacuando a cidade de Altópolis. A construção de nossas fortalezas provinciais está em pleno andamento. Mandei levantar toscas construções de pedra nos dois continentes do sul, para levar o inimigo a acreditar que se trata de trabalhos realizados por povos primitivos.
Existe um plano de evacuação, que permitirá que, em caso de necessidade, os colonos se retirem para estas áreas. Mandei armazenar alimentos e,. também, guarnecer nossas naves com uma tripulação de emergência e as fiz mergulharem no oceano. Encontram-se no fundo, aguardando o desenvolvimento da situação. Conforme as circunstâncias, também nos retiraremos para debaixo da superfície.”
Feltif continuou em suas explicações, dadas em palavras apressadas. Vi que os oficiais de meu estado-maior me fitavam com uma expressão de pasmo. O que teria acontecido por aqui? Desde quando se costumava procurar refúgio em primitivos castelos de pedra e nas matas para escapar aos ataques dos respiradores de metano? Se os seres não-arcônidas chegassem até ali, a superfície dos planetas envoltos numa atmosfera de oxigênio, que para eles era venenosa, se transformaria num mar de incandescência.
Meu engenheiro de planejamento prosseguiu no relato desta e daquela medida tomada por ele. Devia ter realizado coisas inacreditáveis. Acontece que nós outros não entendíamos do que se tratava. Depois de mais algum tempo interrompi-o, levantando ambas as mãos.
Bem à nossa frente o pequeno sol transformou-se numa esfera incandescente que nos ofuscava. Teríamos de passar bem perto dele, para atingir o segundo planeta, que naquele instante se encontrava do lado oposto do sol.
O equipamento positrônico, inteiramente automatizado, realizava a interpretação dos dados. Por meio de um suprimento uniforme de energia, nossa velocidade foi mantida cinco por cento inferior à da luz.
As máquinas dos cruzadores leves, cujo empuxo era bastante fraco, recorriam a injeções intermitentes de energia de apoio, motivo por que dentro em breve se tornaria necessário o reabastecimento de seus tanques. Nossos conversores de impulsos eram capazes de digerir praticamente todos os tipos de matéria que se pudesse imaginar, desde que seu ponto de fusão não fosse superior a 1.650 graus.
O Capitão Feltif interrompeu-se em meio à frase. Seu rosto moreno mostrava uma expressão de surpresa. Ao que parecia, não compreendia nosso comportamento, da mesma forma que nós não compreendíamos o seu.
Tenho a impressão de que estamos falando linguagens diferentes — disse pelo hiper-rádio. — Vim para cá informado de que os metanianos atacaram o sistema. O que aconteceu realmente? Não acredito que você se tenha transformado num idiota. Qual é a finalidade das medidas de evacuação ordenadas por você? Será que ainda não estão cientes do que aconteceu nestes últimos tempos? Vocês não têm recebido suprimentos de Árcon?
Naturalmente temos recebido, Alteza — gaguejou o capitão muito competente em tom de perplexidade. — É claro que estamos perfeitamente informados. Há um ano recebemos peças completas de artilharia, enviadas diretamente de Árcon, além de especialistas em equipamento de defesa antiespacial localizado no solo. Mas não é disso que se trata, Alteza.
Tarts, meu velho instrutor, designado pelo Imperador, praguejou em voz alta. Fitava a tela, como se quisesse devorar o jovem.
Pelos espíritos de Árcon, diga logo o que aconteceu — gritei em tom furioso. — Será que ninguém nos pode dar uma informação precisa? Por que fui chamado para cá?
Feltif compreendeu que não sabíamos de nada. Uma expressão de pavor surgiu em seu rosto.
Tenha cuidado, Alteza — exclamou apressadamente. — Nossos matemáticos estão realizando os cálculos do fenômeno. Os ataques são realizados com certos intervalos, mas diferem totalmente uns dos outros, e só vez por outra conseguimos localizá-los através dos nossos instrumentos de medida.
Tudo se passa como se não houvesse um planejamento prévio, mas uma série de golpes instantâneos, desfechados sempre que surja uma oportunidade apropriada. Não é fácil explicar o fenômeno. Os rastreadores de quinta dimensão acusam ecos energéticos inconfundíveis, mas os medidores de vibrações individuais falham por completo. Acreditamos tratar-se de um inimigo superdimensional.”
Reprimi um acesso de ira e procurei ignorar os impulsos emitidos por meu segundo cérebro, que perguntava obstinadamente por que motivo eu fora removido do teatro de guerra por causa de histórias desse tipo.
Continue! — disse, furioso no meu íntimo. — Prossiga com suas molecagens. Estou disposto a ouvi-lo, a fim de me acalmar um pouco. Silêncio aí atrás!
Alguns oficiais que riam a bandeiras despregadas ficaram imóveis. Na frota do Império a disciplina era mais que rigorosa. Os regulamentos me davam competência para impor as penas mais duras.
Peço perdão, Alteza — respondeu Feltif num evidente desespero. — Não tenho outra alternativa senão contar o que realmente aconteceu. Enviamos relatórios minuciosos ao Grande Conselho. Este não o informou?
Temos outras preocupações, capitão disse em tom de recriminação. — Travamos a luta mais encarniçada de toda a história do Império. Este está sendo esfacelado e os povos se exaurem. Não podemos dispensar uma única nave, um único homem. Como é que os homens do Conselho de Árcon se deixaram levar por uma história fantasiosa? Até minha flotilha de elite foi retirada do campo de operações!
Fico à disposição de um tribunal militar, Alteza — respondeu Feltif em tom Indiferente. — Quero que meus netos sejam amaldiçoados, se aquilo que estou contando não corresponde aos fatos. Cento e cinqüenta mil colonos já desapareceram de Larsa II, o segundo planeta da estrela Larsaf, sem deixar o menor vestígio. De resto tudo continua como antes. Nenhum estranho disparou um único tiro, nenhuma bomba explodiu, nenhuma nave tentou pousar aqui. Fizemos tudo para defender-nos, mas nossos tiros passaram por alguma coisa invisível.
Vi pessoalmente que alguns homens do comando de defesa se transformaram em sombras diante dos meus olhos, antes que desaparecessem por completo, como se estivessem passando por um processo de desmaterialização. Descobrimos naves estranhas, mas não conseguimos atingi-las. Além disso, por aqui já não existe nenhuma unidade armada, Alteza. Já faz um ano que todos os cruzadores disponíveis da frota colonial foram retirados daqui. Ainda possuímos algumas naves cargueiras imprestáveis e praticamente desarmadas, com as quais não queremos arriscar-nos pelo espaço afora.”
Minha raiva se desvaneceu. Conhecia Feltif e sabia que não estava desfiando tolices. Tarts também parecia estar pensativo. Deu ordem para que a sala de rádio da Tosoma ligasse o transmissor de alcance global. Os comandantes e oficiais das outras unidades passaram a acompanhar a palestra.
Atlântida também foi atacada? — perguntei um tanto preocupado.
Não, Alteza, apenas os colonos do segundo planeta. Provavelmente ainda não somos tão importantes. E, como já disse, tomei todas as providências destinadas à nossa proteção. A colônia de Larsa III já se tornou muito grande e não dispõe da necessária mobilidade. Há um ano promulguei urna lei relativa aos nascimentos. Quero evitar que crianças recém-nascidas sejam atingidas pelo caos. Solicito a confirmação deste procedimento.
Fiz um gesto de desprezo. O procedimento de Feltif fora lógico e, portanto, correto. De qualquer maneira, os colonos dificilmente poderiam ser utilizados como soldados da frota, ainda mais que minha esquadrilha não dispunha de qualquer nave de treinamento com o necessário equipamento hipnótico.
Nesse meio tempo passamos pelo sol Larsaf. Senti a ignição dos projetores do campo defensivo, que há muito estavam prontos para entrar em funcionamento. Os potentes campos energéticos refletiam ou absorviam os raios carregados de energia expelidos pela estrela. O flamejar e a luminosidade da periferia de nossa abóbada defensiva, que agora se tornara visível, iam diminuindo de intensidade à medida que nos afastávamos da fornalha solar.
Dali a alguns minutos foi realizada a manobra de correção de rota e de desaceleração, numa base de 500 km/seg2. Aproximamo-nos do ponto em que deveria estar o segundo planeta quando ali chegássemos.
O contato com o Capitão Feltif continuava perfeito quando foi captada a mensagem de Henos, comandante de um cruzador.
Sem a menor consideração, nossa sala de rádio eliminou a palestra anterior, que já vinha assumindo um aspecto de retórica.
A voz forte e profunda de Henos parecia encher todos os cantos da sala de comando.
Cruzador Tantor. Comandante Henos chamando o Príncipe de Cristal. Estou localizando um corpo estranho. Hipereco pouco nítido, os rastreadores normais não mostram a menor reação. Interpretação pontual não ultrapassa dez na terceira potência por setor de medição. Não houve determinação da imagem. O corpo se parece com uma nebulosa. A realização dos cálculos energéticos é impossível. Impulsos de ordem superior. Parece que a nave se encontra simultaneamente no hiperespaço e no universo normal. Peço instruções.
Cuidado! — gritou alguém a plenos pulmões.
Era Feltif, que também ouvira a mensagem.
Cuidado! — repetiu. — Os ataques sempre começaram assim. O último foi realizado há três meses e dois dias. Estão voltando completamente fora de tempo segundo nossos cálculos de probabilidade. Desfecharão um ataque, Alteza!
O oficial de serviço na sala de rádio da Tosoma interrompeu o contato; e agiu corretamente. Dali em diante teria de cuidar exclusivamente da segurança da nave capitania.
Bem longe, à nossa frente, a foice bem iluminada que representava o segundo planeta pendia no espaço. A imensa camada de nuvens desse mundo refletia a luz do sol com tamanha intensidade que seria capaz de localizá-lo entre centenas de outros astros, independentemente de qualquer indicação.
Virei a cabeça para o Capitão Tarts. Assim que vi seu corpo, agora totalmente ereto, que parecia irradiar força, comprimi o botão de alarma. Sinais codificados foram expedidos pelas antenas da nave e percorreram o espaço a velocidade superior à da luz.
Os cruzadores de minha esquadrilha de elite espalharam-se apressadamente, como se tivessem de desviar-se de uma tormenta que surgisse repentinamente.
Ouvi os propulsores situados na protuberância equatorial da gigantesca Tosoma uivarem. Dali a alguns segundos também captamos um eco. Os dados transmitidos por Henos eram exatos. Podíamos confiar nesses homens arrojados e competentes, todos eles vindos diretamente de Árcon. Não havia um único colono entre eles.
Por aqui pulsava o sangue arcônida do melhor quilate. A bordo de minhas naves não havia ninguém que não estivesse disposto a enfrentar conscientemente a morte. — Vamos ver o que é isso! — disse alguém atrás de mim, com a voz trêmula de raiva.
Olhei em torno, e percebi que estas palavras haviam sido proferidas por Tarts. Um sorriso mordaz surgiu-lhe no rosto, que lembrava o mármore atlântico, tão elogiado pelos colonos zakrebenses logo após sua chegada.
Pelo que diziam, essa pedra era branca como neve e entremeada de filigranas vermelhas. Naquele momento a face de Tarts reluzia nas mesmas tonalidades.
As potentes armas da Tosoma rugiram. Dali a alguns segundos, o recuo violento de uma salva de impulsos me fez perder o equilíbrio.
Um tripulante segurou-me: — Acho que desta vez esses atacantes misteriosos pegaram o bonde errado, não é? — disse um tenente muito jovem.
Pisquei os olhos para Tarts, que já assumira sua posição de combate. O mestre limitou-se a acenar ligeiramente com a cabeça. Voltou a prestar atenção às mensagens vindas dos diversos postos. Tudo funcionava às mil maravilhas. Uma máquina de guerra infalível e bem ajustada entrou em funcionamento.
Era claro que na minha opinião também terminaríamos logo com o fantasma.
Formação de cruzadores, entrar em rota elíptica a gravo menos dez graus — ordenei. — Assor e Paito realizarão um ataque em cunha. Tosoma atacará frontalmente com ajuste de pontaria para dois e meio por cento abaixo da luz. Fogo manual. Tudo preparado? Vamos começar!
Não enxerguei a fornalha atômica que surgiu diante dos nossos canhões de impulsos. Os disparos prosseguiam e alcançavam a velocidade da luz.
Mas ouvi o terrível rugido no interior do corpo esférico de oitocentos metros de diâmetro. O dispositivo automático do assento de segurança colocou o capacete de combate acolchoado sobre minha cabeça. Passamos a manter contato radiofônico sem Imagem.
Doravante minhas instruções seriam ouvidas em todos os cantos da nave. A central de retransmissão funcionava em hiperondas e código de condensação. Qualquer Instrução era codificada, transformada e irradiada numa questão de segundos. Os comandantes ouviam à medida que eu falava. O único retardamento era aquele determinado pelo trabalho do autômato de decifração. Esse retardamento equivalia aproximadamente a um décimo de segundo.
Esperava receber a qualquer momento o aviso de que o inimigo tinha sido derrubado. Afinal, um de nós teria de atingi-lo.
7



O berreiro infernal ressoou nos alto-falantes. Até parecia que fora reforçado mais uma vez.
Saltei do meu assento de combate. Na sala de comando da Tosoma, os oficiais experimentados nas batalhas travadas no setor da nebulosa haviam voltado a cabeça para trás, para fitar numa atitude incrédula a galeria de telas instaladas em círculo.
Não se via nada!
O inimigo estava muito longe e o sol Larsaf era tão fraco que não poderia produzir qualquer reflexo luminoso na blindagem da nave desconhecida.
Continuávamos a disparar, mas não houve qualquer notícia de que a operação tivesse sido coroada de êxito. Apenas o cruzador pesado Igita, comandado pelo experimentado Cerbus, avisou que o objeto localizado descrevera uma curva fechada a fim de escapar às salvas energéticas.
Naquele instante ouviu-se a gritaria. Não sabíamos qual era seu motivo, até que a interpretação robotizada da sala de rádio anunciasse com uma objetividade mecânica:
A tripulação do cruzador ligeiro Matato desapareceu. Não há nenhum sinal de rádio. A nave não foi danificada. Prossegue na rota em direção ao alvo. Deixou de reagir a todas as comunicações. Fim.
No curso dos últimos dois anos ouvira várias vezes notícias semelhantes a essa. Desta vez foi o teor especial da mensagem que despertou minha atenção.
Como é que o cruzador poderia estar intacto, se a tripulação havia sido eliminada? Além disso, a nave prosseguia na rota que a levaria ao alvo.
Enquanto refletia intensamente, o cruzador pesado Paito, comandado pelo Capitão Inkar, anunciou que o objeto desconhecido desapareceu de repente. Deveria ter entrado em transição. Mas havia uma circunstância que desmentia esta versão: os poderosos rastreadores estruturais de minha nave capitania não haviam registrado o ruído que seria provocado pelo salto. Há três milhões de quilômetros seria praticamente impossível deixar de ouvir uma transição, por mais fraca que fosse. Era impossível ocultar o abalo provocado pelo impacto sobre a curvatura do espaço.
Como não encontrássemos mais nenhum alvo, mandei suspender a batalha unilateral e determinei que o cruzador Matato, que prosseguia na sua carreira desabalada, fosse detido por um raio de salvamento.
Toda a formação realizou uma complicada manobra de adaptação, que consumiu quase duas horas. Conseguimos atingir a nave de cerca de cem metros de diâmetro com os implacáveis raios de tração. A Matato foi se aproximando da nave capitania.
Durante a singular batalha havíamos abandonado nossa rota primitiva. O segundo planeta estava reduzido a uma lâmina pálida em meio às estrelas escassas desse setor da Via Láctea.
Assim que o cruzador ficou retido junto ao costado de nossa nave, o oficial do comando de salvamento apresentou-se a mim.
O Tenente Cunor lançou um olhar de espanto para meu traje espacial leve. Naquele momento estava colocando o capacete e regulando o suprimento de oxigênio.
Vossa Alteza irá conosco? — perguntou em tom de perplexidade.
Irei — respondi laconicamente. — Está pronto?
Dali a quinze minutos, abrimos a comporta inferior do cruzador ligeiro, cujos tripulantes não respondiam a qualquer mensagem de rádio.
Entramos num grupo de cinqüenta homens. Segurava minha arma em posição de disparo. Contrariando minhas determinações, o Capitão Tarts também viera conosco. Ouvi sua respiração pesada no alto-falante do capacete. Preferi não repreendê-lo, mas ele entendeu meu olhar. Franziu as sobrancelhas, num gesto de contrariedade.
Até parecia que a Matato nunca chegara a ter tripulantes. Atravessamos praticamente todos os compartimentos, mas não encontramos um único homem.
Os grupos de busca encontraram-se na sala de comando da nave intacta. Um mundo de concepções acabara de desmoronar em minha mente.
À medida que os homens iam entrando, faziam gestos de desespero. Nunca vira meus homens tão espantados. Lembrava-me constantemente das advertências do oficial de planejamento Feltif. Este falara no desaparecimento súbito de seres vivos.
Enquanto ainda refletia, ouvi o grito insistente. Alguém chamava o Tenente Cunor.
Corremos ao compartimento do qual vinham os gritos. Quando abriram caminho à minha frente, tive a impressão de que meu coração iria parar de bater.
Um dos tripulantes da Matato estava estendido no chão. Até a altura das coxas seu corpo era duro e firme como pedra, mas suas pernas se debatiam desesperadamente, como se aquele homem se encontrasse em pânico, fugindo de uma aparição medonha.
Era um quadro que faria empalidecer o mais destemido dos homens. Reprimi um gemido, empurrei o Tenente Cunor para o lado e ajoelhei junto ao infeliz.
Tentei levantar seu corpo, mas não consegui. Não tinha apenas a consistência da rocha, mas também o peso. A densidade do organismo devia ter sofrido um aumento enorme. Apenas as pernas trêmulas, que se debatiam no assoalho, davam a impressão de serem normais.
Dei lugar a um médico. Este tentou aplicar uma injeção naquele homem que fora ferido de forma tão estranha. Foi impossível.
O que é isso? Vamos, fale logo! O que é isso? — gritei para o médico.
Este me olhou com uma expressão insegura. Estava muito pálido. Não sabia.
Mandei que o soldado fosse levado para bordo da Tosoma, onde seria tentado seu restabelecimento. Mas já imaginava que seria inútil.
Assim que voltei à nave capitania, enviei uma tripulação de emergência ao cruzador. Nunca vira aqueles homens tão inseguros ao entrarem numa nave espacial de nossa frota. Acontecera uma coisa terrível e incompreensível.
Logo depois, retomamos nossa rota. Quando estávamos prestes a pousar, Grun, chefe de minha equipe matemática, solicitou uma audiência. Compareceu com seus subordinados.
Grun era relativamente baixo e muito velho. Mas a lisura de sua pele demonstrava que obtivera um rejuvenescimento biomédico. Com uma freqüência cada vez maior, o Grande Conselho concordava em conceder mais alguns anos de vida a homens realmente capazes e que fossem considerados insubstituíveis. Há tempos teria sido impossível obter a licença para a ativação celular com base num simples requerimento. Mas hoje precisavam de pessoas que soubessem alguma coisa. E Grun era uma dessas.
Ao lado o Capitão Tarts mantinha uma palestra audiovisual com os comandantes. Passei a dedicar minha atenção ao cientista.
Aquilo é antes um mistério de natureza física que de natureza médica, Alteza — principiou. — O ferido está vivo. Os nervos das pernas não foram paralisados. No entanto, constatamos que a mão, que parecia totalmente rígida, moveu-se cerca de três milímetros para a esquerda durante a última hora. Emiti instruções adequadas. Suponho que a condensação extrema dos tecidos orgânicos seja devida a um efeito temporal relativista. O curso de movimentos considerado normal para nós já não se aplica ao ferido. É bem verdade que não podemos afirmar a mesma coisa em relação às pernas.
Isso não passa de uma loucura! — exclamei perplexo. — Qual é a explicação do fenômeno?
Os cálculos ainda estão em curso, Alteza. Pensamos na possibilidade de uma nova arma, cujos efeitos se restrinjam à vida orgânica. Talvez seja um canhão de conversão, em cujo raio de ação se realiza uma alteração estrutural da matéria. A matéria orgânica é desmaterializada e trasladada para outro plano.
No caso que temos diante de nós, certamente a vítima foi pega de raspão. O tronco e a cabeça foram atingidos por emanações fracas do campo de tiro, enquanto as pernas não foram alcançadas. Não chegou a haver uma desmaterialização, mas apenas uma condensação da matéria. Ao mesmo tempo ocorreu um deslocamento do substrato temporal. Talvez a vítima esteja sentindo esta experiência, mas num ritmo muito mais lento. Seja como for, acaba de mover a mão. As pernas não estão sujeitas ao controle consciente de seu espírito.”
Senti que meus olhos se umedeciam, o que era sinal de nervosismo extremo. Grun falara com a objetividade de um cientista que estivesse ministrando uma aula.
O que devemos concluir? — perguntei em tom exaltado.
Podemos concluir qualquer coisa, ou podemos não concluir nada, Alteza. O certo é que uma arma deste tipo poderia constituir um fator decisivo na guerra contra os metanianos. Devíamos procurar capturar uma nave dos desconhecidos?
Como?
Grun não tardou em responder.
Devíamos aguardar o próximo ataque e dispensar o uso dos recursos normais. Recomendo que os propulsores de impulsos de alguns dos cruzadores mais antigos sejam utilizados como canhões de radiação. Os mesmos trabalham em base superdimensional. Deve-se montar um dispositivo de tele controle, a fim de evitar qualquer risco para a tripulação. Talvez tenhamos de nos conformar com a perda do cruzador.
Grun sabia raciocinar logicamente. A sugestão não deixava de ser tentadora. Mas não me agradou.
As questões ligadas à tecnologia de armamentos têm uma importância secundária para mim, que sou comandante de uma flotilha do Império — respondi. — Quero saber antes de mais nada com quem estamos lidando. Acho improvável que nos tenhamos defrontado com uma nave dos metanianos. Se dispusessem de outras deste tipo, já as teríamos percebido no setor das nebulosas. Será possível que nos encontramos com inteligências totalmente diversas de nós? De inteligências que não têm o menor conhecimento de nossa luta desesperada contra os monstros?
Existe uma probabilidade de noventa e sete por cento de que seja assim — confirmou o matemático. — Já efetuei os cálculos. Com isso nossa situação se modifica por completo.
Senti-me grato porque o cientista preferiu não chamar minha atenção para a necessidade premente de enviar um relatório ao Grande Conselho de Árcon. Não saberia o que comunicar ao G.C. A situação tornara-se tão confusa que teríamos de aguardar a evolução ulterior dos fatos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html