Deu-me o
endereço de Marlis. A moça esperava por mim em casa de uma velha
tia, cujo finado marido fora dono de uma casa de armas. Atualmente o
negócio era dirigido pela idosa dama que, segundo diziam, era muito
enérgica. Marlis fora criada pelo tio. Seus pais haviam morrido na
selva muitos anos atrás.
Paguei a
conta. Uma vez fora do museu, olhei cautelosamente em torno. Os dois
policiais continuavam no mesmo lugar, mas não receberam reforços.
Mas isso não significava nada nessa época de comunicações pelo
rádio.
Despedi-me
de meu velho amigo em voz alta, mas sem chamar a atenção. Disse que
voltaria aos alojamentos dos imigrantes.
Formulou
várias objeções, até que o táxi por mim chamado parou à nossa
frente. Os dois policiais pareciam não nos dar maior atenção.
Entrei no
carro, que era de construção moderna. Antes de fechar a porta,
disse em voz alta ao motorista para onde deveria levar-me.
Alguém
devia ter ouvido. O carro deu partida. Gunter Viesspahn dirigiu-se ao
heliporto do museu.
Uma vez
dobrada a primeira esquina, que me colocou fora das vistas dos
guardas, comecei a agir. Seria absurdo continuar a depender da sorte.
Apertei o
botão do defletor de ondas luminosas e tornei-me invisível. Antes
que o motorista percebesse qualquer coisa, foi atingido pelo feixe de
raios do projetor mental. Sua postura tornou-se mais rígida.
— Dobre
a primeira esquina, pare e laça de conta que está aborrecido porque
seu passageiro desapareceu de repente. Abra todas as portas e
pergunte às pessoas que estiverem por lá se viram alguém saltar
pela porta traseira.
— Sim
senhor — respondeu o motorista em tom indiferente.
Abri a
porta e deixei-a balançar. O motorista parou antes do primeiro
cruzamento e começou o jogo que poderia custar-me o pescoço.
Correu em
torno de seu carro, olhou para o interior vazio do mesmo e perguntou
às pessoas que riam a bandeiras despregadas se haviam visto o patife
que saíra sem pagar a corrida.
Enquanto
isso saí do veículo e, sem provocar o menor ruído, subi sobre a
carroçaria do mesmo, onde fiquei deitado.
Poucos
segundos depois, aconteceu aquilo que eu esperara. Um veículo preto
e muito moderno, usando campos deslizantes antigravitacionais no
lugar das rodas antiquadas, parou ao lado do táxi. Dois homens
saltaram do mesmo e exibiram distintivos reluzentes ao motorista.
Quer dizer
que fora perseguido! O joguinho de Marlis, tão bem intencionado mas
tão mal executado, já fora desmascarado. A defesa solar voltara a
agir.
O
interrogatório do motorista foi muito rápido. Os dois homens
apalparam todos os ângulos dos bancos. Fiquei sabendo que esperavam
ter de lidar com uma pessoa invisível.
Quando se
despediram, deixando o exaltado dono de táxi a sós na rua, voltei a
entrar no veículo.
Sentindo-me
livre do pesadelo, ordenei ao motorista que se dirigisse à rua
Tóquio, que ficava na parte antiga da cidade. Assim que chegamos
perto do destino, saí do táxi, depois de ter ordenado ao motorista
que se dirigisse ao ponto de estacionamento mais próximo e
esquecesse tudo.
Comecei a
caminhar sob a proteção do campo defletor. A pequena casa de armas
da velha senhora Gentner não podia ficar longe.
“Seu
idiota!”,
disse meu sexto sentido, conforme costumava fazer sempre que estava
prestes a cometer uma asneira.
Era claro
que Marlis já havia sido descoberta. Provavelmente fora interrogada
na Terra por um dos telepatas do Exército de Mutantes de Rhodan.
Talvez já tivessem até descoberto que a moça me entregara meu
equipamento especial que mantive por tanto tempo escondido.
Rhodan,
que já devia encontrar-se na Terra, não interviera. Eu conhecia o
curso do raciocínio desse homem extraordinariamente inteligente.
Marlis não
sabia como e quando pretendia chegar a Vênus. Sentia-me feliz porque
no momento em que encetara a fuga eu mesmo ainda não sabia.
Por isso,
Rhodan só tinha uma. coisa a fazer: esperar. Naquele momento, já
poderia ter sido informado pelo rádio de que o suspeito desaparecera
de repente de um táxi.
Parei num
portão e pus-me a refletir. Não; não fora totalmente inútil
chegar a Vênus em condições tão difíceis. Aqui seria mais fácil
desaparecer que na Terra densamente povoada com sua estonteante rede
de transportes e comunicações. A selva de Vênus era grande e
misteriosa. Além disso, conhecia os perigos que me aguardavam lá
fora.
A
informação do setor lógico de minha mente, segundo a qual Rhodan
só não me prendera porque esperava que eu o levasse aos meus
elementos de ligação também fora errônea.
Era
exatamente o contrário. Dispunha de provas suficientes contra Marlis
Gentner, talvez mesmo contra seu irmão. Talvez, o barbudo já
estivesse sendo interrogado por um mutante.
Rhodan
apenas aguardara até que Marlis recebesse uma carta pela
posta-restante. Com isso, as pedras começaram a encaixar-se.
Uma vez
que usei o pseudônimo, o serviço de defesa não conseguiu apurar
desde logo quem fora o remetente. Mesmo a correspondência que me
fora dirigida por Gunter Viesspahn ainda poderia ser considerada
inofensiva, pois muitos dos colonos recém-chegados costumavam
receber cartas.
De
qualquer maneira, se eu fosse Rhodan, teria agido imediatamente.
Fiquei refletindo a este respeito, até que a idéia certa me
ocorreu. Se o oficial de Nevada Fields ainda não tivesse avisado
nada, eu mesmo entrara na armadilha. Ninguém sabia quem chegara a
Vênus sob o disfarce de Hinrich Volkmar. Só o encontro com o irmão
de Marlis havia colocado o serviço de defesa na minha pista.
Se o
barbudo já estivesse sob observação, as coisas teriam sido bem
mais fáceis para os homens de Rhodan. E muito me admiraria se já
não me tivessem prendido.
Provavelmente
sentiam-se muito seguros de que o jogo tão bem urdido não seria
desvendado tão depressa.
Meu
nervosismo foi diminuindo. Uma “risadinha” me fez estremecer, mas
logo percebi que o ruído provinha de mim mesmo.
A esta
hora não gostaria de pertencer ao serviço de defesa local. Se minha
idéia sobre Rhodan fosse correta, já estaria pessoalmente a caminho
de Vênus.
Prossegui
devagar e com a maior cautela, tendo sempre o máximo cuidado para
fechar perfeitamente o monobloco destinado à defesa contra pesquisas
telepáticas. Bastaria que minha mente irradiasse um único impulso
para que um mutante pudesse localizar-me.
Senti que
desta vez atirariam para matar. Rhodan não poderia assumir o risco
de deixar que eu desaparecesse na selva de Vênus. Um belo dia, a
vigilância no espaçoporto diminuiria, e então minha chance teria
chegado.
E Rhodan
sabia disso; não havia a menor dúvida. Esse bárbaro de olhos
cinzentos sabia raciocinar.
Evidentemente
seria uma loucura procurar entrar em contato com Marlis. Estava sob
observação, ou então não queria chamar-me Atlan.
Tranqüilizei
meu instinto de autoconservação que ameaçava entrar em revolta,
dizendo a mim mesmo que, sem uma arma energética mortal, não
poderia penetrar na selva. Os sáurios venusianos dificilmente se
deixariam afetar por um pequeno radiador de choques. E qual seria o
melhor lugar para encontrar a tal arma senão em uma casa
especializada?
Prossegui,
até que vi o letreiro numa rua lateral.
Não notei
ninguém, e nem esperava outra coisa. Ansiava por Marlis, por um
único olhar e um sorriso de seus lábios cercados de amargura. A
moça arriscara muito. E não poderia culpá-la por ter cometido
erros graves. Afinal, não era uma agente treinada, mas apenas uma
criatura impulsiva, capaz de ainda entusiasmar-se pela voz do
coração.
Se não
tivesse percebido nada do interrogatório realizado pelos mutantes,
que sem dúvida fora extremamente suave, não se poderia imputar-lhe
qualquer culpa, por mais leve que fosse. Só poderia pensar que me
encontrasse em segurança absoluta. Se sua opinião fosse outra,
teria deixado de procurar a posta-restante.
Além do
mais, perdera minha gigantesca pérola. Evidentemente Gunter
Viesspahn já não me poderia ser útil. Encontrava-me numa situação
bastante desfavorável.
7
Calculei e
planejei, martirizando o cérebro dolorido em busca de uma solução
satisfatória; mas sua aparição repentina abalou-me profundamente.
Parecia
que uma força desconhecida paralisava meus nervos. Uma pessoa do meu
tipo sabe odiar ou amar além de qualquer medida; sentir a alegria ou
o desencanto, desde que não seja privada do equilíbrio psíquico.
O vulto
esbelto de Perry Rhodan produziu em minha alma o efeito de uma ducha
de ácido. Era bastante difícil para a mente absorver sua presença.
Um estranho formigamento espalhou-se na zona da nuca. Demorei algum
tempo para superar o revés moral.
Encontrava-me
atrás de um arbusto, e não podia ser visto. Porém tive a impressão
de que seus olhos me fitavam com uma expressão perscrutadora. Tinha
total certeza de que não me poderia ter visto, pois meu defletor de
ondas luminosas funcionava impecavelmente.
E a
localização energética também não era possível, uma vez que as
potentes armas energéticas de seus acompanhantes e os motores
atômicos das naves estacionadas geravam campos muito mais potentes
que o emitido pelo meu aparelho.
Fazia
apenas dez minutos que eu chegara, depois de ter visto Marlis
Gentner. Arrisquei-me a entrar na casa de armas e encontrei-a numa
sala dos fundos.
Tal qual
os policiais do serviço de segurança venusiano que se encontravam à
espreita, escondidos do lado de fora, não notara minha presença.
Não sabia
que havia sido interrogada na Terra. Envergonhei-me por não me ter
informado a este respeito. Mas não comentei o fato por uma questão
de segurança pessoal.
Quando me
dei a conhecer, parou em atitude rígida diante da pequena janela.
— É
você? — perguntou com os lábios trêmulos. Manteve um perfeito
autocontrole, mas já estava perdida. Minha única esperança era
aplacar o ânimo de Perry Rhodan. Marlis não devia ser castigada.
Cochichei
ao seu ouvido, informando-a de que tinha de fugir imediatamente para
a selva, uma vez que surgiram dificuldades. Em hipótese alguma
poderia entrar em contato com seu irmão, pois desconfiava de que o
mesmo estivesse sendo observado.
Ainda
disse à moça que me comunicaria com um amigo que conhecera na nave
Glória. Não citei qualquer nome. Os agentes do serviço de defesa
poderiam quebrar a cabeça se quisessem.
O fato de
não informá-la foi um truque da minha parte. Só poderia contar-lhe
aquilo que o serviço de defesa poderia saber. Não tinha a menor
dúvida de que eslava sendo vigiada pelos telepatas. Por isso não
poderia saber que eu descobrira tudo.
Durante o
tempo em que permaneci na velha casa, corri certo perigo. Se naquele
momento tivesse sido realizada uma vigilância telepática na moça,
minha presença teria sido revelada.
Tive
sorte. No interior da casa de armas, achei o que queria: o cofre de
armas. Nele se encontravam os pesados radiadores energéticos, que
costumavam ser usados em Vênus para abater os gigantescos sáurios.
Tratava-se de artefatos maciços, com fortes campos direcionais
alimentados por processos de fusão nuclear de elevada potência. A
incandescência dessa arma derrubaria sem a menor dificuldade os
gigantescos animais do mundo primitivo.
Escapei
sem ninguém o perceber, e Marlis foi de opinião que ninguém
ficaria sabendo de minha ligeira visita.
Após
isso, fiz exatamente o contrário do que lhe dissera. Dirigi-me ao
restaurante situado fora da zona urbana, onde Gunter Viesspahn me
esperaria.
Depois,
voltei a modificar meus planos. Minha ação devia ser cheia de
variáveis, para impossibilitar o cálculo logístico-esquemático de
meus passos. Além disso, a idéia de voltar à cova do leão não
deixava de ter seus encantos.
Assim que
cheguei, descobri Viesspahn. Encontrava-se no interior da velha
taberna, conversando com alguns colonos de aspecto embrutecido que
haviam feito compras na loja ao lado.
Viesspahn
ainda não fora preso! Nem desconfiava do que havia acontecido.
Quanto a
mim, calculava com a inteligência do inimigo. Depois que me despedi
tão apressadamente de Viesspahn, à saída do museu, os homens do
serviço de defesa deveriam ter seguido o curso de raciocínio por
mim desejado. Um homem do meu tipo nunca volta para junto do
conhecido que sabe estar em perigo.
Até
parecia que minhas previsões haviam sido corretas. O serviço de
segurança estava deixando o barbudo em paz. Quando me deleitava nas
mais belas esperanças, subitamente um grande helicóptero da defesa
solar pousou nas proximidades. O susto que senti ao ver Perry Rhodan
descer foi infinito.
Uma vez
que ele mesmo se encarregara da operação de busca, teria que
triplicar meus cuidados. Apareceu com poucos acompanhantes. E fez de
conta que nem se interessava por Viesspahn.
Cumprimentou
ligeiramente os colonos e disse em tom bem-humorado que apenas viera
para rever o lugar onde quase encontrara a morte quando pela primeira
vez pousou em Vênus.
Contou uma
história inventada sobre uma furiosa cobra dos pântanos,
conquistando os aplausos dos pioneiros endurecidos. Dessa forma, meu
grande inimigo deu uma explicação plausível de seu súbito
aparecimento.
A seguir,
Rhodan colocou-se atrás do edifício. Um homem do serviço de defesa
saiu com o helicóptero. Tudo parecia muito pacato. Os colonos que se
encontravam no interior da loja mantinham-se em atitude discreta.
Quase chegaram a curvar-se, mostrando grande veneração.
Angustiado,
fiquei atrás do arbusto de folhas largas que escolhera como refúgio
ainda antes da chegada de Rhodan. Não me atrevia a fazer o menor
movimento. O botequim com sua barulheira ficava a mais de cinqüenta
metros. Os risos e a cantoria dos alegres pioneiros da selva formavam
uma cortina sonora muito tênue, que não era sufocada pelo farfalhar
das folhas.
Era uma
situação martirizante, pois os inúmeros insetos não se
incomodavam com o defletor de ondas luminosas. Penetravam nele às
cegas, e eu tornava-me vítima de suas picadas violentas. Além
disso, as pontas metálicas do anel de escapamento de gases da câmara
de fusão da minha arma incomodavam-me constantemente. Estava
comprimida contra a omoplata direita.
Aguardei
impaciente e fiz votos de não ser surpreendido por uma das terríveis
trovoadas de Vênus.
Vi-me
libertado mais depressa do que esperava. É bem verdade que por pouco
não me traí, pois não contava com a aparição.
A menos de
cinco metros do lugar em que me encontrava, o ar superúmido começou
a tremeluzir. Do nada surgiu uma coisa que contemplei com um espanto
infinito e com uma inquietação cada vez maior.
O ser
tinha o aspecto de um rato gigante com a cauda grossa, muito parecida
com a de um castor terrano.
A estranha
criatura parou sobre as curtas patas traseiras que lhe permitiam um
andar ereto à maneira dos humanos. Os braços finos com as delicadas
garras estavam cruzados sobre o peito de sua vestimenta semelhante a
um uniforme. Seria um animal?
Examinei
mais detidamente a aparição, e tive que retificar minha opinião.
Um animal não carrega radiadores energéticos. O rosto pontudo de
camundongo com as lindas orelhas normalmente me teria obrigado a
sorrir. Mas na situação em que me encontrava, aquele ser coberto de
pêlo delicado me causou um tremendo susto.
De onde
teria vindo? Levei alguns segundos até que minha memória
fotográfica se lembrasse de um ser inteligente que, segundo diziam,
ocupava lugar de destaque no Exército de Mutantes de Rhodan. Ouvira
falar dele em Terrânia.
Gucky; era
este o nome que Rhodan costumava dar ao ser peludo. Evidentemente
tratava-se de uma inteligência vinda de algum planeta desconhecido.
Ao que parecia, o pequenino era um teleportador. Só assim se
explicaria sua súbita materialização.
Apertei
fortemente a coronha de minha arma energética. A rigidez provocada
pelo pavor começava a abandonar meu corpo.
— Saiam
daí — chilreou o rato gigante.
— Por
aqui poderão esperar o resto da vida. Esteve com a moça e disse-lhe
que iria à selva, onde ficaria na fazenda de um amigo. O serviço de
segurança daqui deveria ser atirado no pântano mais próximo. Não
entende nada do negócio.
Perry
Rhodan saiu de trás do depósito. Seu rosto dava a impressão de
indiferença. Apenas as pequenas rugas em torno dos olhos pareciam
mais profundas. Passou tão perto de mim que acreditei ter sido
descoberto.
A pequena
inteligência peluda pôs à mostra um enorme dente roedor. Um
coronel do serviço de segurança de Vênus, que eu não conhecia,
abriu a boca, perplexo.
Um jovem
tenente, que provavelmente ainda não tivera oportunidade de conhecer
Gucky, tossiu de forma bastante estranha. O dente roedor do pequenino
ser desapareceu atrás do “nariz” franzido.
— Suas
toupeiras! — piou com a maior falta de respeito. — Por que não
me chamaram logo? De qualquer maneira, tinha o que fazer em Vênus.
Por que não o prenderam assim que recebeu a carta do tal do
Viesspahn?
A testa de
Rhodan franziu-se; mostrava preocupação.
— Sim,
por quê? — disse o chefe do Império Solar, repetindo a pergunta
de seu estranho amigo.
O coronel
empertigou-se.
— Sir,
peço licença para ponderar que havíamos recebido dados insuspeitos
sobre todos os passageiros da Glória. O indivíduo, que se
identificou pelo nome de Hinrich Volkmar, submeteu-se a dois exames
de raios X na Terra.
— Mas o
senhor devia saber que o irmão da estudante foi escolhido para
receber o arcônida. Os interrogatórios telepáticos à distância
informaram-nos a este respeito. Deviam ter posto as mãos no homem
assim que a carta de Viesspahn chegasse ao alojamento.
— Não
tivemos muita certeza, Sir — respondeu o coronel, que transpirava
abundantemente. — O elemento que procuramos mostrou a carta a um
sargento do serviço de segurança, e o conteúdo era totalmente
“Inofensivo”. Além disso, conforme já ressaltei, o homem foi...
— ...submetido
a dois exames de raios X — interrompeu Rhodan em tom irônico. Meus
parabéns; os senhores fizeram um trabalho bem feito.
— Tinha
a intenção de prendê-lo depois que se encontrasse com Viesspahn no
museu.
O ridículo
ser soltou uma risada aguda e estridente. Subitamente pôs-se nas
patas traseiras, girou em torno de seu eixo e gritou:
— Quem
andou pensando que sou um sujeito ridículo? Quem foi?
Assustado,
acionei o bloqueio mental que, ao alegrar-me com o incidente, abrira
por uma fração de segundo. Então esse projeto de rato ainda era um
telepata! Provavelmente absorvera o conteúdo da mente de Marlis logo
depois que me despedi dela.
De
repente, o jovem tenente começou a girar no ar. O pequeno ser peludo
ria a bandeiras despregadas, parado nas patas traseiras, olhando para
o oficial que soltava gritos de pavor.
— Se
você não pedir desculpas imediatamente, farei com que caia de
cabeça naquele pântano — gritou Gucky.
— Pare
imediatamente! — ordenou Rhodan em tom áspero.
O rato
gigante baixou a cabeça sob o olhar gelado do chefe. O tenente
pousou de forma suave sobre o rotor de um helicóptero estacionado.
Rhodan não
perdeu mais tempo. No íntimo, não pude deixar de admirá-lo. Seria
um inimigo muito difícil.
— Coronel,
averigúe imediatamente com quem o elemento que procuramos fez
amizade. Todos os colonos recém-chegados que ainda não partiram
para seu destino deverão permanecer no acampamento. Aqueles que já
receberam suas fazendas deverão ser imediatamente visitados por um
comando especial. Obrigado; por enquanto é só. Faça o favor de
chamar meu helicóptero.
Rhodan
encostou o dedo no boné, ajeitou o cinto com o pesado radiador
energético e caminhou a passos duros em direção no pequeno campo
de pouso.
— O que
vamos fazer com o tal do Viesspahn?
Rhodan
respondeu sem virar o rosto. Em sua voz, vibrava uma raiva contida.
— O
senhor já deveria ter adivinhado, coronel. É claro que não vamos
prendê-lo. Faça de conta que nunca ouviu falar nele. Se acreditar
que o fugitivo ainda entrará em contato com ele, o senhor estará me
ofendendo. Pode imaginar por quê?
Rhodan
girou no calcanhar.
— Lutei
contra este homem, e tive que fazer o máximo para vencer na última
hora. Por isso peço-lhe o favor de não pensar que é um idiota.
Naquele
momento, não sabia o que pensar. Por pouco, não desliguei o
defletor num súbito gesto de resignação e caminhei para a frente.
Controlei-me
no último instante. Meus olhos ardentes seguiram o mais encarniçado
dos meus inimigos. Por que não atirava nele? Sem dúvida poderia
mergulhar na mata próxima.
Vi o
tenente do serviço de segurança apontar para o helicóptero pintado
de vermelho. Era o aparelho de Viesspahn. Ao que parece, Rhodan
pedira informações a este respeito.
A seguir,
entrou no grande veículo oficial. Era uma versão moderna com
propulsor de impulsos e canhão energético de montagem rígida.
Verifiquei que, de repente, Rhodan tomava lugar no assento do piloto.
Depois que
decolou e desapareceu no horizonte brumoso, arrisquei-me a sair
detrás do arbusto e caminhar em direção ao helicóptero vermelho.
Acontecera aquilo que eu pretendia conseguir com minha ação
arriscada: Rhodan não acreditava que ainda fosse encontrar-me com o
irmão de Marlis.
Parei
alguns minutos junto à escotilha do compartimento de carga e olhei
para a loja. Não vi o barbudo. Em compensação, escutei suas
gargalhadas.
Abri
calmamente a escotilha e pus o pé na escada embutida. Quando
pretendia enfiar o corpo no compartimento apertado, ouvi o ruído de
um helicóptero em mergulho.
O zumbido
suave cresceu num uivo estridente. O aparelho que descia devia
encontrar-se próximo à barreira do som.
Olhei para
cima. Reconheci um objeto reluzente. Saía em vôo arriscado de trás
da muralha formada pela mata, apontou o “focinho” para baixo e
dirigiu-se em vôo vertiginoso ao lugar em que me encontrava naquele
instante.
Foi meu
sexto sentido que mandou minhas pernas correrem. Corri como nunca.
Com um salto desesperado rolei para dentro de uma poça de água
malcheirosa.
Ouvi o
rugido terrificante do canhão energético. No mesmo instante, cessou
o uivo da máquina que acabara de ultrapassar a barreira do som. Em
compensação, ouviu-se o ribombar das massas de ar comprimidas, que
fulguraram sob a ação do raio energético.
Menos de
cinqüenta metros atrás de mim, as energias atômicas liberadas
atingiram o solo venusiano, que imediatamente entrou em ebulição. O
aparelho de Gunter Viesspahn, pintado de forma tão espalhafatosa,
foi transformado numa bola de fogo, que explodiu. De uma hora para
outra, o dia sombrio parecia iluminado por um pequeno sol. O canhão
energético lançava uma luz fulgurante, que prenunciava desastre.
A sucção
produzida pelo aparelho que passou rente à poça em que me
encontrava por pouco não me arranca da mesma. A menos de dez metros
do lugar em que me encontrava o solo fervia.
Rhodan
traçara um canal retilíneo de lava no solo.
As ondas
sonoras chegaram dali a poucos segundos. Mais uma vez parecia o fim
do planeta. Comprimi as mãos contra os ouvidos martirizados e,
ofuscado pela luz, cambaleei em direção ao grande depósito. Uma
vez lá, deixei-me cair ao chão, completamente exausto.
Um soluço
seco me apertava a garganta. Uma raiva desarrazoada começava a
dominar minha mente. Tive vontade de gritar face às declarações de
meu supercérebro. Senti-me humilhado e rebaixado.
Rhodan
partira, mas voltara. Numa reflexão fria abrira fogo contra o
aparelho de Viesspahn.
Esse
maldito bárbaro de olhos cinzentos, apesar de tudo o que se passara,
contara com a possibilidade de que eu pudesse entrar em contato com o
barbudo. As instruções e advertências que gritara para o coronel
destinavam-se a um “invisível” que se encontrasse nas
proximidades.
Se tivesse
esperado mais trinta segundos antes de voltar, me encontraria no
interior do compartimento de carga. Nesse caso, a reação
instantânea da fuga teria sido inútil.
Tive de
esforçar-me ao máximo para conservar o autocontrole quando vi o
veículo policial pousar pela segunda vez. Rhodan saiu da cabina e
aproximou-se o mais que pôde do metal ardente.
Levantei-me
instintivamente. Queria ouvir o que tinha a dizer. Aproximei-me tanto
dos colonos que acorreram às pressas que quase cheguei a tocar num
homem.
Pálido
como cera, Gunter Viesspahn encontrava-se ao lado do ser mais
poderoso do Império Solar. O coronel plantara-se nas proximidades de
Rhodan.
— Esse
helicóptero foi seu, senhor Viesspahn? — perguntou o coronel.
Meu amigo
confirmou com um gesto perturbado. Lançou um olhar assustado para os
homens do serviço de defesa.
— Sinto
muito — disse Rhodan em tom Irônico. — Foi um pequeno engano.
Peço sua compreensão. Infelizmente não posso dar maiores
explicações. Naturalmente o governo lhe pagará outro helicóptero.
Faça o favor de informar ao oficial sobre a natureza de sua carga. A
indenização será paga dentro de uma hora. Providencie
imediatamente, coronel Fasting.
Viesspahn
soltou uma risada embaraçada na qual, segundo parecia, também havia
certo alívio.
Rhodan
despediu-o com um gesto e voltou a contemplar a aeronave que ainda
estava ardendo.
— Coronel!
O coronel,
que afastava-se, parou e ficou em posição de sentido. A voz de
Rhodan tinha um tom impessoal.
— Assim
que os destroços tiverem esfriado, providencie um exame científico
dos mesmos. É possível que os restos mortais de um ser humano sejam
descobertos nos mesmos. Quero ser informado imediatamente sobre os
resultados da análise. Obrigado; é só.
Afastou-se,
depois de confirmar novamente ao nervoso Viesspahn que ele, Rhodan,
lhe mandaria entregar dentro de uma hora um helicóptero novinho em
folha.
Quanto a
mim, encontrava-me em campo aberto, tremendo por todo corpo. As
costas de Rhodan surgiram na mira luminosa de minha arma. Bastaria
apertar o botão para realizar nele aquilo que pretendera fazer
comigo.
Baixei a
pesada arma de radiações. Não; nunca seria capaz de alvejá-lo
pelas costas.
Em saltos
largos, voltei para junto do depósito. Os colonos conversavam
animadamente. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Apenas Gunter
Viesspahn parecia ter uma idéia, mas preferiu ficar calado.
Vi Rhodan
entrar no helicóptero da polícia. Desta vez, não ocupou o lugar do
piloto.
Esse
bárbaro se atrevera a destruir um helicóptero em perfeito estado,
com base; num raciocínio elementar. Não sabia se realmente me
encontrava no interior do mesmo. Por isso, ele preferia aguardar,
para que eu tivesse tempo de entrar.
Contara
com todas as eventualidades e guiara-se pelo método de que sempre é
preferível andar seguro.
Tive
vontade de arrancar pedaços de meu corpo face à minha imprudência
fenomenal. O fato de que Rhodan deixara um homem do serviço de
segurança na loja deveria ter chamado minha atenção.
Evidentemente
o soldado recebera ordens de impedir que qualquer pessoa fosse ao
campo de pouso. Rhodan queria ter o campo livre para atirar. Seu alvo
era eu, apenas eu.
Mal e mal
consegui controlar minha perturbação.
Esse
bárbaro magro só poderia encontrar-se em Vênus há poucas horas,
mas já me causara mais problemas que aqueles que tivera de enfrentar
com todo o serviço de defesa durante seis dias no planeta Terra.
Agora as coisas começavam a ficar sérias. Tinha certeza absoluta de
que esse homem não cometeria qualquer erro de lógica
*
* *
Dali a
exatamente uma hora e treze minutos, o novo helicóptero de Viesspahn
desceu no campo de pouso que se encontrava próximo ao restaurante na
selva. Rhodan cumprira sua palavra. Era medonho de ver como sabia
agir depressa.
O piloto
não era outro senão o maldito rato gigante de uniforme. Haviam
feito um buraco no uniforme do ser extraterrano, para que o mesmo
pudesse tocar o chão com a cauda de castor. E agora, aquela criatura
ainda usava na cabeça uma coisa parecida com um capacete-rádio, sob
o qual sobressaía o focinho pontudo com o dente roedor.
O
“sujeitinho” de menos de um metro de altura plantou-se
solenemente à frente do estúpido Viesspahn e informou ao barbudo em
voz alta sobre os direitos e os deveres dos colonos.
No íntimo,
sabia que minha raiva por aquele rato uniformizado era injusta.
Estava sendo dominado pelos sentimentos exaltados, que me diziam que
esse “sujeitinho” ridículo era mais estranho no sistema solar
que eu mesmo. Por que falava de modo tão altivo?
Dominado
por uma raiva incontrolável e absurda, abaixei-me, peguei um pedaço
de madeira podre e atirei-o com toda força contra o focinho da
criatura arrogante.
Pelos
deuses da antigüidade terrana, nunca deveria ter feito uma coisa
dessas.
Meu ódio
desvaneceu-se imediatamente.
Poucos
segundos depois, fugi a toda. Ainda bem que o rato gigante,
imediatamente possuído pela raiva, não me via nem podia
localizar-me por via telepática.
Era
horrível de ver-se o que o ser peludo fez com os colonos totalmente
inocentes. O ser extraterrano devia ser um grande telecineta; caso
contrário, não teria conseguido atirar os colonos, que soltavam
gritos horríveis, para dentro da poça, e depois deixar as criaturas
banhadas de lama nas copas das árvores altíssimas.
A seguir,
o animal sentou-se no concreto do campo de pouso e riu como nunca
ouvira rir uma inteligência galáctica.
Gunter
Viesspahn foi o único homem poupado pela fúria do ser peludo, que
provavelmente vira que o pedaço de madeira não fora arremessado por
suas mãos. Ao menos fiquei sabendo o que poderia esperar do amigo de
Rhodan.
Viesspahn
inclinou o corpo num gesto humilde quando o “sujeitinho”
desapareceu como se nunca tivesse aparecido por ali.
— Vou
mostrar uma coisa a vocês! — gritou antes de desaparecer.
Caminhei
tranqüilamente em direção ao novo helicóptero. Quando o colono
decolou, encontrava-me no banco traseiro. Meu sexto sentido me dizia
que Rhodan não voltaria a atacar.
Provavelmente
a esta hora estaria mobilizando mais alguns membros do seu Exército
de Mutantes. Qual deles poderia representar um perigo para mim? Os
telepatas não, conforme já ficara provado. A qual deles Rhodan
teria de recorrer para localizar-me apesar do bloqueio mental e do
defletor de ondas luminosas?
Não
encontrei a solução, pois não sabia qual o trunfo mantido de
reserva pelo bárbaro.
Nesse
momento já me arrependia por não ter atirado nele. Como poderia
chegar ao sistema de Árcon, se poupasse Rhodan toda vez que surgisse
uma oportunidade de matá-lo? Era uma atitude absurda. Afinal, era o
grande inimigo de meu venerável povo, ou não?
8
O furacão
parecia enlouquecer as feras. Fazia cerca de cinco minutos que as
duas torres feitas de carne e ossos haviam saído da mata próxima
para executar uma dança estranha nos campos bem cuidados de
Viesspahn.
Eram dois
lagartos-corredores, nome que se costumava dar a esses animais em
Vênus. Possuíam aproximadamente a forma de canguru terrano, apenas
os crânios alongados que terminavam num focinho chato erguiam-se uns
trinta metros acima do solo.
Os
lagartos-corredores pertenciam à espécime dos animais mais
perigosos desse mundo primitivo. Em certos lugares, sua blindagem
córnea atingia uma grossura de quarenta e cinco centímetros.
Desenvolviam uma velocidade tremenda. Antes da chegada do homem,
pertenciam ao grupo dos monarcas não coroados do planeta.
Ambos
perseguiam um pisoteador
gigante
que saíra da mata em fuga desabalada. O quadrúpede vegetariano
devastou os campos, de Viesspahn numa questão de segundos. Nos
lugares em que havia colocado as enormes patas, surgiram profundas
crateras lamacentas.
No momento
em que atingiram a clareira junto às barrancas do rio Hondo, os dois
lagartos-corredores resolveram desistir da perseguição do
pisoteador.
Por alguns
minutos, permaneceram eretos no terreno, antes de iniciarem a
“dança”.
Viesspahn
estava sentado na cabine de comando de sua fazenda ultramoderna.
Esforçava-se para trazer de volta os tratores robotizados
teleguiados, antes que os mesmos fossem descobertos e atacados pelos
lagartos.
Ouvi as
terríveis pragas que soltava, pois voltara à central energética.
Há três dias encontrava-me na fazenda, mas Viesspahn nem
desconfiava disso. Não tinha o menor interesse em informar este
homem que não merecia maior confiança sobre minha presença naquele
lugar. Era bem verdade que, com o tempo, se espantaria com o
desaparecimento de seus mantimentos. Até lá teria que encontrar uma
solução.
Atrás de
mim, uma chave de segurança automática de quinhentos ampères
desligou-se: Pertencia ao circuito de força da grade de alta-tensão
do setor sul, e não representara nenhum obstáculo sério para o
pisoteador que acabara de invadir a fazenda.
As luzes
vermelhas piscaram cada vez mais depressa, até que permaneceram
acesas de vez. Por três vezes, a chave automática de quinhentos
ampères foi girada para a posição de contato pelo campo energético
eletrônico. Por três vezes, desligaram-se com um forte estalo. O
circuito fora inutilizado; ao que parecia, a grade de alta-tensão
entrara em curto-circuito.
Viesspahn
começou a praguejar cada vez mais alto. Retirei-me para a sala dos
isoladores. Atrás da pesada porta de aço, zumbia o transformador do
reator de alta potência.
Viesspahn
possuía um modelo de fusão moderno, cujo desempenho máximo era de
mil quilowatts-hora. Tal potência era suficiente para abastecer a
fazenda. Os tratores de múltiplas finalidades possuíam suprimento
de energia próprio.
Olhei
pelas lâminas de plástico blindado que fechavam a estação de
controle.
Dentro de
poucos segundos, o furacão chegou ao auge. Sabia que a longa noite
de Vênus estava para chegar. A escuridão reinaria durante cerca de
doze dias terranos. A translação do planeta aproximava-nos da
temível zona de penumbra, na qual não fazia sol nem era
completamente escuro. Essa zona também resultava da rotação lenta
de Vênus.
As
tormentas começaram com o início do prolongado crepúsculo. Chovia
demais, dando a impressão de que a água estava sendo despejada por
um balde gigantesco. Mas o súbito resfriamento do ar não refrescava
o ambiente.
As pragas
de Viesspahn perderam-se nos uivos do furacão. Porém conseguiu
levar as máquinas para as garagens subterrâneas.
Já não
me sentia bem na apertada sala dos isoladores, situada no pedestal de
uma robusta torre de concreto. Todas as fazendas de Vênus possuíam
uma torre de energia desse tipo, cuja parte superior estava coberta
por uma cúpula de chapas blindadas transparentes.
Dali se
via a área da fazenda e as residências adjacentes. No segundo
planeta solar, essas construções pertenciam à classe do
absolutamente indispensável. Quando os gigantescos animais da selva
se aproximassem, não havia outra possibilidade senão rechaçá-los
em tempo.
E neste
ponto, a zona da penumbra era mais temida. Parecia que a súbita
modificação climática produzia uma espécie de embriaguez nos
lagartos. Tornavam-se descontrolados e agressivos.
O
fazendeiro barbudo passou ligeiro e aos tropeços junto ao meu
esconderijo provisório. Abriguei-me instintivamente quando sua mão
fechada bateu contra a chave do pequeno canhão energético
giratório, montado no alto da cúpula transparente. Para usar uma
arma dessa potência, tornava-se necessária uma licença especial do
governo. Só eram fornecidas em sua feição estacionaria e os
funcionários de Port Vênus controlavam-nas a intervalos regulares.
Enquanto
Viesspahn subia pela íngreme escada em caracol, saí cautelosamente
da desconfortável sala dos isoladores. Acima de minha cabeça, ouvi
as pisadas de seus sapatos pesados. Chegou à pequena plataforma na
qual era manipulado o canhão.
Vi que
utilizava ambos dispositivos de mira. Tratava-se de um aparelho de
ondas infravermelhas acoplado com um equipamento goniométrico. Por
mais escura que fosse a noite, Viesspahn identificaria perfeitamente
o alvo. Perplexo, indaguei a mim mesmo se seria recomendável confiar
um instrumento de destruição desse tipo aos colonos eternamente
rebelados. Seria fácil modificar um canhão de pequeno porte como
este, retirá-lo de seu embasamento e dar-lhe outro emprego.
Sentei na
poltrona giratória que ficava à frente das chaves de telecomando
dos tratores e aguardei as coisas que viriam. Lá fora, já estava
quase totalmente escuro. O vento uivante tangia verdadeiras cascatas
contra as janelas de plástico blindado. Parecia que este mundo tão
jovem seria tragado pelas águas.
O
anemômetro mostrava que a velocidade do vento era de cento e oitenta
quilômetros por hora. Nessas condições, era altamente recomendável
não sair do seguro abrigo.
Gunter
Viesspahn mantinha-se à espreita no assento giratório de sua arma
energética. Os dois lagartos encontravam-se a cerca de duzentos
metros. Apesar da distância pareciam torres de igreja. Suas
terríveis caudas levantavam muitos metros cúbicos do precioso solo
arável, arrancando-o do chão subitamente encharcado.
Ao que
parecia, o furacão não afetava os gigantes de mais de trinta metros
de altura. Saltavam pelo terreno, atiravam-se contra o vento e
soltavam um berreiro que me fazia cingir fortemente a arma.
Não me
separei por um minuto sequer do único seguro de vida existente neste
inferno selvático. Era bem verdade que retirara dos estoques de
Viesspahn um potente radiador de choques, mas portátil. Sendo assim,
num caso verdadeiramente grave de nada adiantaria. Contra um
lagarto-corredor, só mesmo uma arma superpotente poderia revelar-se
eficaz.
Quando as
feras aproximaram-se ainda mais, Gunter Viesspahn começou a
disparar. Tive o cuidado de virar o rosto para o outro lado, mas
assim mesmo a incandescência fulgurante doeu nos meus olhos.
Um
trovejar irreal superou o ruído da tormenta. Um raio energético da
grossura de um braço humano precipitou-se para o ambiente infernal.
Ao longo do fluxo incandescente surgiu um fenômeno fascinante.
Parecia que alguém escavara um túnel nas massas de água que se
precipitavam do céu. Densas nuvens de vapor espalharam-se, quando o
furacão as atingiu.
Viesspahn
fez boa pontaria. Entre as curtas pernas dianteiras do lagarto surgiu
uma mancha incandescente, que se dissolveu numa série de relâmpagos.
A parte da energia, que não foi absorvida pelo corpo do animal,
escapou pelas costas sob a forma de descargas luminosas.
Vi o corpo
gigantesco tombar. O animal fora atingido mortalmente, mas seus
reflexos prosseguiram por mais algum tempo. E era terrível de ver
com que força revolvia o solo enlameado.
O outro
sáurio saiu aos berros e desapareceu atrás da muralha de água
caída do céu.
Um tanto
perplexo, olhei para Viesspahn. Ao que tudo indicava, voltara a
dedicar-se ao praguejar. Era uma das características daquele homem
que eu não apreciava nem um pouco.
Estive a
ponto de retirar-me para o depósito contíguo, quando a trovoada
irrompeu lá fora. O ribombar dos trovões me fez comprimir as mãos
contra os ouvidos. Este mundo nunca poderia ser conquistado por
criaturas pacatas. Sem dúvida, precisava-se de homens como Gunter
Viesspahn para domar este planeta no correr do tempo.
Perto da
cúpula, algumas árvores estavam em chamas. Ardiam apesar da chuva e
do ambiente superúmido. Na Terra, nunca havia visto um temporal como
este.
Viesspahn
continuava sentado atrás do canhão energético. Tive a sensação
de que se embriagava com o poder que tinha nas mãos.
Quando
pretendia retirar-me, vi o brilho reluzente. Bem atrás do colono,
que começara a ficar nervoso, um corpo surgiu do nada. Quando os
contornos assumiram formas estáveis, percebi que eram dois os seres
que haviam aparecido de repente.
Desta vez,
não me senti dominado pelo pavor. Já conhecia esse maldito rato
gigante com a cauda de castor. Mantive-me imóvel, embora com aquele
furacão ninguém pudesse ouvir qualquer ruído.
Num
movimento quase inconsciente, pus a mão no radiador de choques que
trazia no cinto. Tive a impressão de que meu sexto sentido
manifestava uma revolta sarcástica. Por que não me dispunha a
atacar os amigos de Rhodan com uma arma mortal, já que me via
obrigado a lutar contra eles? Era um paradoxo, e o setor lógico de
minha mente me informou sobre isso através de uma série de impulsos
dolorosos.
O outro
ser sem dúvida era um terrano. Soltou-se das costas da criatura
extraterrana que, por certo, havia transportado o homem robusto.
Perplexo, constatei que subestimara as faculdades do ser inumano. Se
conseguia levar mais um corpo dentro de seu campo de
desmaterialização, as energias que podia concentrar deviam ser
imensas.
Ligeiramente
encurvado, mantive-me atrás do quadro de telecomando das máquinas
agrícolas. Era uma caixa imensa de quase dois metros de altura, que
me tiraria da visão dos mutantes mesmo que não fosse invisível.
Viesspahn
não notou a presença dos intrusos. Continuava sentado em atitude de
espreita, praguejando em altas vozes para dar vazão ao seu
descontentamento.
O ridículo
ser estranho, que Rhodan costumava chamar pelo nome de Gucky, parecia
examinar a mente do fazendeiro. De repente, compreendi que Rhodan
iniciara a operação de controle. A esta hora, felicitava-me por não
ter informado Viesspahn. Uma vez que não sabia da minha presença,
não poderia trair-me, nem consciente, nem inconscientemente.
Um sorriso
sarcástico brincava em torno dos meus lábios. Olhei tranqüilamente
para a pequena plataforma do canhão e tive vontade de rir quando
Gucky fez um gesto aborrecido. O rato gigante acabara de constatar
que o colono não conhecia meu paradeiro.
Resignado,
o terrano que viera em companhia de Gucky deu de ombros. Segundo
acreditei, significava que pretendia retirar-se dali.
Foi nesse
instante que aconteceu uma coisa inacreditável.
De
repente, o terrano levantou a mão e apontou exatamente para o lugar
em que me encontrava. Ao mesmo tempo, sua boca abriu-se. Ao que
parecia, gritava. Mas não pude ouvir por causa do furacão. Apenas
sabia que o desconhecido me descobrira, apesar do campo de deflexão
e do excelente abrigo atrás do qual me ocultara.
Acontecera!
Era inacreditável. Haveria alguém que fosse capaz de enxergar
através de paredes compactas e de um campo de deflexão de raios
luminosos?
Meu sangue
parecia ter uma tendência irresistível de contrariar todas as leis
naturais e concentrar-se exclusivamente no cérebro. A surpresa
produziu um choque que poderia causar um esgotamento psíquico total
em pessoas de meu tipo, reduzindo-as à inatividade. Apenas percebi o
impulso de meu segundo cérebro, que imediatamente entrou em
funcionamento.
“O
pequeno!”
Fiz
pontaria com o radiador de choques. Naquele momento o rato gigante
girava o corpo com uma agilidade extraordinária, virando o rosto
para meu lado. Uma vez que eu fora descoberto, o ser extraterreno
representava o perigo mais grave. Vira sua maneira de lidar com os
colonos.
O terrano
voltou a gritar alguma coisa e pôs a mão na arma energética
manual. Foi quando puxei o gatilho.
Ouvi o
estrondo do raio paralisante. Vi confusamente a luminosidade intensa,
uma vez que o acúmulo de sangue no cérebro prejudicava-me a visão.
O corpo do
extraterrano foi envolvido pelo raio de choque. Vi a boca de Gucky
abrir-se num grito antes que caísse ao chão com os músculos
enrijecidos e os reflexos amortecidos. Ficaria fora de ação pelo
menos por uma hora.
O segundo
disparo de minha arma de choque coincidiu com o ataque do terrano,
cujas intenções eram muito mais sérias que as minhas.
Senti o
hálito escaldante do fino raio térmico, que a menos de dois metros
do lugar onde me encontrava atingia o encosto da poltrona giratória,
reduzindo-o a uma massa de fogo.
O
desconhecido atirara apressadamente, enquanto eu acertara mais uma
vez. Seu corpo contorceu-se e caiu.
Reuniu as
últimas forças e voltou a puxar o gatilho de sua arma. O raio
energético atravessou o piso de metal leve da plataforma e com um
chuvisco de fogo atingiu a caixa de fusíveis da grade eletrificada.
Já me
recuperara do perigoso momento de susto. No instante em que as chapas
de revestimento expeliam os raios, já me encontrava na entrada da
sala dos isoladores.
Com a boca
escancarada, Gunter Viesspahn fitava os vultos imóveis. Levou algum
tempo para descer da plataforma, pegar um extintor e apagar o
princípio de incêndio. Logo debelou as chamas. Retirei-me
satisfeito.
Viesspahn
estava fora de si. Seus olhos assustados rolavam nas órbitas.
Parecia perguntar constantemente a si mesmo de onde haviam vindo os
dois disparos de arma paralisante.
Saí da
sala enfumaçada, produzindo o menor ruído possível. O braço
esquerdo do terrano paralisado pendia da plataforma do canhão. Vi
perfeitamente que a pequena luz de chamada do microrrádio preso ao
seu pulso começou a piscar.
Concluí
que os dois agentes não estavam sós. Se não me enganara, Perry
Rhodan devia estar próximo. Provavelmente viera com um destacamento
do serviço de defesa. Um homem do seu feitio só realizava um golpe
de surpresa em boa forma.
Sabia que
não tinha um segundo a perder.
Com a
maior rapidez, mas tranqüilo e perfeitamente equilibrado, retirei-me
para o pequeno depósito onde dormira nos últimos dias. Peguei a
mochila na qual colocara boa quantidade de alimentos concentrados,
pendurei-a nos ombros e prestei atenção para que fosse atingida
pelo campo de deflexão.
Realizei
as últimas regulagens de precisão, examinei a pesada arma de
impulsos e abri o alçapão da galeria de emergência que Viesspahn
construíra há um ano.
A galeria
descia íngreme. Terminava num degrau, e de lá seguia diretamente
para o rio Hondo.
Havia
outra galeria subterrânea que ia até a sala dos reatores, ligando a
torre energética com a residência.
Se Rhodan
avançasse para esse lado, não me encontraria mais. O caminho até o
conjunto de edifícios residenciais certamente já fora bloqueado.
Foi em
virtude de uma seqüência de conclusões lógicas que escolhi o
túnel pouco confortável.
Prestei
atenção aos ruídos vindos de baixo antes de bater a pesada
tampa-alçapão. Fechei a tramela interna, embora soubesse que um
ligeiro disparo energético bastaria para destruí-la juntamente com
o alçapão. No entanto, de acordo com um calculo rápido, seria
necessário um esfriamento de pelo menos quinze minutos antes que
alguém pudesse seguir-me pelo tampão fundido.
A galeria
era circular e não tinha mais de um metro de altura. Tive que
abaixar-me bastante e segurar a pesada arma energética em posição
inclinada. Minha lâmpada recarregável emitia uma luz forte, que
iluminava profusamente as paredes vitrificadas pela fusão.
Já andara
várias vezes por esse caminho. Sabia que tinha pouco menos de
seiscentos metros. Desta vez, não fiz nenhuma pausa para deitar e
descontrair as costas doloridas. Rhodan não pertencia à classe de
pessoas que, numa situação crítica, costumam presentear alguém
com segundos preciosos.
Gucky era
um ótimo telepata. Rhodan também possuía esse dom, mas em grau bem
menor. Por isso, já devia saber que seu pequeno amigo havia sido
colocado fora de ação.
Enquanto
prosseguia apressadamente, fiquei refletindo com a necessária frieza
sobre como o terrano me poderia ter visto. Ao que tudo indicava,
tratava-se de um homem pertencente ao Exército de Mutantes de
Rhodan. Se é que o desconhecido conseguira romper o campo de
deflexão com a vista, também seria capaz de superar camadas de
matéria compacta.
Mas,
segundo parecia, não possuía qualquer outro dom. Agira
acertadamente ao colocar fora de ação em primeiro lugar o rato
gigante.
O rosto
largo do mutante desconhecido surgiu na minha imaginação. Depois
que os telepatas de Rhodan falharam por completo em virtude de meu
bloqueio mental, transformara-se no mais perigoso dos meus inimigos.
Provavelmente
Rhodan mandaria seu espia aos lugares mais críticos. Assim que me
localizasse, as pessoas que estivessem em sua companhia poderiam
abrir fogo, ou atacar-me com recursos extra-sensoriais.
“Você
deveria tê-lo matado, seu idiota!”,
disse meu supercérebro.
Cerrei os
lábios, respirei profundamente e prossegui mais depressa. Sem
qualquer pausa a longa caminhada transformou-se num martírio. Mas
não poderia perder tempo.
Quando
finalmente cheguei ao alargamento da galeria, ouvi as águas do Hondo
rugirem atrás de uma porta de aço. O furacão continuava a uivar.
Na zona da penumbra, as tormentas são muito prolongadas.
Abri a
porta de pouco menos de dois metros de altura e olhei cautelosamente
para o setor da galeria, cujo solo já estava coberto pela água.
Mais adiante, o barco de plástico blindado pertencente a Viesspahn
balançava nas ondas.
Era uma
embarcação inteiramente estável e coberta. O maquinismo trabalhava
segundo o princípio da retropropulsão: a água aspirada por uma
potente turbo-bomba era expelida sob alta pressão através de um
bocal móvel, que tornava dispensável o leme convencional. Tivera a
cautela de familiarizar-me com o manejo de barco, fato que agora me
seria muito útil.
Subi pela
estreita escada de alumínio, que levava a um pedestal de rocha.
Quando abri a escotilha do barco, à prova de água, a pequena luz
sobre a roda do leme acendeu-se.
Estava
tudo em ordem. Abri a tampa da máquina e certifiquei-me de que o
dispositivo de vôo unipessoal, que escondera há dois dias, ainda se
encontrava no mesmo lugar. Durante esse tempo, Viesspahn não se
interessara pelo barco.
Coloquei
minha arma sobre o banco dianteiro, ativei o minirreator, do tamanho
de uma garrafa, e empurrei a chave do potente motor da bomba para a
direita.
O barco
arrancou com um solavanco, reagindo imediatamente à pressão do
leme. Sabia que, naquele lugar, o rio Hondo com seus cinco
quilômetros de largura devia parecer-se com um oceano fustigado pela
tempestade. Mas não tive outra alternativa senão utilizar este
caminho para afastar-me da área de perigo.
Comprimi
os pés contra a parede dianteira e regulei a máquina para a
velocidade máxima. O barco deu um salto para a frente, rompeu a
vegetação aquática que margeava o barranco e disparou para a
grande baía.
O furor
primitivo da tormenta envolveu-me. Acima das margens íngremes e
elevadas, um grupo de demônios parecia lutar pelo domínio do
ambiente.
Enquanto
me encontrava sob a proteção da baía, não tive maiores
dificuldades. Estas começaram quando atingi as águas abertas.
De
repente, o pequeno e largo turbo-barco foi atingido pelas ondas. Até
parecia que avançara para o mar aberto. Antes de dar-me conta do que
estava acontecendo, a cobertura de plástico blindado estava sendo
lavada pelas ondas espumejantes.
Quase não
dei a menor atenção à fúria dos elementos. Uma vez que o vento
soprava da esquerda, tive de usar toda a força do motor para evitar
que o barco fosse tangido para a margem. Pretendia afastar-me o mais
possível do barranco, a fim de que o barco fosse envolvido pelo
negrume que cobria o centro da corrente. Seria de admirar se lá
ainda conseguissem localizar-me pelo radar.
Dentro de
poucos segundos, o veículo aquático, balançando e jogando em todas
as direções, saiu do abrigo que os barrancos ofereciam contra o
vento. Não via mais nada. Em torno, as águas geralmente tão
tranqüilas borbulhavam como se um grupo de monstros invisíveis
estivesse empenhado em rasgar o leito do rio.
A seguir,
comecei a acreditar que escapara às forças que, sem dúvida, haviam
pousado nas proximidades. Mal a idéia aflorou em minha mente, um
inferno foi desencadeado atrás de mim.
O barulho
do furacão não me permitiu ouvir o ribombar dos disparos. Em
compensação, vi a luz branquicenta dos fluxos energéticos, que
atingiam a água de um e outro lado do barco saltitante, produzindo
torvelinhos fumegantes.
Mantive-me
absolutamente tranqüilo e inabalável. Um arcônida da minha época
não entra em pânico quando surge um fenômeno já esperado. Apenas
me esforcei para fazer o barco indomável dançar ainda mais
furiosamente.
Dali a
alguns segundos, os disparos atingiam a água a distâncias cada vez
maiores. Ao que tudo indicava, as miras automáticas passaram a
localizar troncos flutuantes.
Depois do
último lampejo, percebi que me encontrava aproximadamente no meio do
rio. Deixei o barco entregue à corrente impetuosa que, juntamente
com a tormenta vinda de trás, me afastava da zona de perigo. Seria
difícil avaliar a velocidade, mesmo aproximadamente. Vez por outra,
a quilha arranhava em obstáculos. No Hondo, havia numerosos baixios,
e apenas poderia fazer votos de escapar aos mesmos.
Lancei o
aparelho de imagem infravermelha, que me proporcionaria ao menos uma
ligeira visão dos arredores. O rio parecia uma gigantesca panela em
ebulição. Minha segurança era apenas relativa, pois Rhodan sabia
perfeitamente que durante a tormenta suas aeronaves seriam inúteis.
Por isso, esperava que o furacão ainda durasse bastante, muito
embora o vento que vinha em rajadas indicasse que as fúrias da
natureza estavam próximas do fim.
Pelo que
sabia, as célebres cataratas de Marshall ficavam cerca de treze
quilômetros abaixo do lugar do qual partira. Ali, as águas do Hondo
se precipitavam de uma altura de quase cinco quilômetros.
Evidentemente não poderia arriscar um salto desses.
Vi que
havia subestimado a velocidade do barco. Antes que pudesse elaborar
meu plano, ouvi um rugido que superava o da tormenta que já
diminuía.
Bem à
minha frente, observei algumas rochas cheias de arestas que se
erguiam em meio às águas. Pouco abaixo delas, as águas começavam
a cair. Como a força da correnteza fosse terrível, tomei
imediatamente o rumo da margem ainda distante.
No último
instante, consegui escapar à sucção das águas. A quilha tocou em
algo. Houve um estalo que parecia indicar desastre. O barco encalhara
justamente num trecho rochoso da margem do rio.
Desliguei
o motor e esforcei-me para ouvir os ruídos vindos de fora. Bem ao
leste, o céu já começava a clarear na medida em que isso era
possível na zona de penumbra. Se quisesse aproveitar a
semi-escuridão e as últimas rajadas de vento, teria que agir com a
maior rapidez.
Antes de
sair da escotilha da cabine, coloquei o aparelho de vôo, formado por
dois minúsculos rotores de três paletas que giravam em sentido
oposto, e que se abriam com a força centrífuga.
No
momento, as paletas elásticas estavam reduzidas a um pacotezinho,
que mal aparecia em cima da mochila, juntamente com o minúsculo
reator.
Depois que
desci, fui recebido pelo vento. A tormenta era muito mais forte do
que supusera no interior da cabine. Girei a popa do barco para o lado
do rio, inclinei-me bem para a frente, empurrei a chave do motor para
a velocidade máxima e deixei que a embarcação se precipitasse água
adentro.
Com os
olhos pensativos, contemplei o barco que se afastava em alta
velocidade. Logo foi levado pela correnteza. Dentro de poucos
instantes, desapareceu em meio às vagas.
Restava
saber se Rhodan acreditaria no acidente que acabara de encenar.
“Tanto
faz; procure ganhar tempo!”,
disse o setor lógico de minha mente.
Confirmei
com um gesto. Não havia a menor dúvida de que um pequeno ganho de
tempo assumia a maior importância. Rhodan teria o cuidado de
examinar os destroços do barco e procurar meu cadáver. Não tive a
menor dúvida de que se lembraria da perigosa catarata. Seria
perfeitamente lógico contemplar a possibilidade de uma queda.
Era um
estranho na região, estava fugindo e, além disso, a tormenta rugia
em torno de mim. Não haveria nada mais natural do que a suposição
de que poderia ter ocorrido um acidente.
Esperei
sob a proteção do barranco até que a tormenta amainasse. Quando
tive a impressão de que o tempo já era suportável, abri a alavanca
telescópica que servia para controlar a direção e a velocidade do
vôo. A pequena mochila que carregava nas costas transformou-se num
aparelho de vôo.
O zumbido
do motor energético embutido na cabeça dos rotores foi superado
pelo matraquear agudo destes que se abriam. Subia suavemente ao ar
brumoso e úmido, mas preferi manter-me abaixo das copas das árvores
que, se necessário, me ofereceriam um abrigo facilmente alcançável.
Dali a
poucos segundos, a maior queda d’água até então descoberta em
Vênus espumejava embaixo de mim. Senti um calafrio ao lembrar-me de
que nessa altura poderia estar lá embaixo, com o corpo esmigalhado.
Regulei a
alavanca para a progressão do vôo. Desenvolvendo cerca de cento e
cinqüenta quilômetros por hora, deslizei tão perto da água que,
vez por outra, levantava, os pés para evitar os blocos de pedra que
surgiam de repente.
Meu
destino era Port Vênus. Num gesto de resignação, desisti de bancar
o “desaparecido”.
Um homem como Perry Rhodan não se deixaria enganar tão facilmente.
Há poucas
horas namorara a idéia de assumir o controle do grande centro de
computação de Vênus. Conhecia perfeitamente as instalações, e
sabia como fazer para atingir as cavernas através das galerias de
emergência.
Mas agora,
que Rhodan procedera com tamanha coerência para descobrir meu
paradeiro, todos os planos se haviam frustrado. Esse bárbaro de
olhos cinzentos pensaria antes de mais nada no cérebro positrônico
que poderia estar exposto a um perigo. Por isso, não tinha a menor
dúvida de que o precioso centro de computação estava sendo
submetido a uma vigilância extremamente rigorosa.
Minha
grande chance só poderia ficar no centro dos acontecimentos, ou
seja, em Port Vênus. Já percebera que o melhor esconderijo para um
homem na minha situação era uma grande cidade com sua turbulência.
Em algum momento, surgiria a oportunidade de apoderar-me de uma nave
capaz de desenvolver velocidade superior à da luz, estacionada no
espaçoporto, ou de penetrar num veículo espacial de grandes
dimensões sem ser percebido.
Nos
últimos dias, poupara meu defletor de ondas luminosas. Voltei a
ligá-lo, porque agora havia o risco de ser descoberto.
Não ouvi
as aeronaves de Rhodan. Provavelmente, o soberano do sistema solar
ainda estaria ocupado no interrogatório, embora Viesspahn nada
pudesse esclarecer.
Voltei a
ter ânimo. De repente, a situação já não parecia tão
desesperadora: chegaria a Port Vênus.
“Aonde
irá?”,
indagou o setor lógico de minha mente. “Pretende
procurar Marlis?”
Não; para
mim a moça passara a ser tabu. Quando muito poderia contemplá-la de
longe.
Enquanto
prosseguia pelo leito do rio, aproveitando tudo que pudesse
representar um abrigo, resolvi escrever a Perry Rhodan a fim de pedir
clemência para Marlis. Sem dúvida, esse bárbaro inteligente já
percebera que a mesma só havia desempenhado um papel secundário.
“Aonde
irá em Port Vênus?”,
voltou a perguntar meu segundo cérebro.
Procurei
lembrar-me das várias possibilidades, até que o grande museu
terrano me veio à mente. Era isso mesmo! Por que não me esconderia
ali? As salas eram amplas e difíceis de serem abrangidas com a
vista. Se realmente aparecesse aquele estranho mutante com sua
capacidade visual, ainda poderia escapar. De qualquer maneira, seria
uma posição favorável para agir prontamente assim que chegasse o
momento. Provavelmente teria que matá-lo. Bastaria que demorasse
alguns segundos a fim de concentrar sua mente para que eu tivesse uma
boa possibilidade de atacá-lo. Um homem do meu tipo não se
impressiona com coisas aparentemente sobrenaturais. Mesmos os
mutantes de Rhodan eram apenas seres humanos com seus defeitos e
fraquezas.
O plano
que previa minha permanência no museu terrano deixava-me cada vez
mais feliz. Talvez a idéia fundava-se menos na lógica que no
sentimento.
Ninguém
conhecia o passado da Terra tão bem quanto eu. Já vivia quando os
primeiros mercadores romanos se dirigiram à Germânia para trocar as
armas de ferro por ouro e âmbar. Levei Leif Erikson a prosseguir na
sua viagem para o Ocidente, até que atingisse a costa americana.
Os
numerosos objetos que deviam estar guardados nesse museu atraíam-me
e fascinavam minha mente. Além disso, no subsolo do edifício
existia um restaurante, que garantiria a alimentação.
A idéia
tranqüilizava minha consciência. Meu segundo cérebro permaneceu
quieto. Ao que tudo indicava percebera que havia atingido certo
estágio de esgotamento.
Provavelmente,
em algum canto recôndito de minha mente, já havia fluxos emocionais
que me faziam perceber a inutilidade de prosseguir na fuga.
Era jovem
de corpo e de alma, mas os séculos passados não poderiam ser
deixados de lado. Trouxeram-me um cabedal enorme de experiências e
decepções. Meu saber, os sofrimentos pelos quais havia passado e as
alegrias de que desistira a contragosto atavam-me à Humanidade com
uma força muito maior do que eu mesmo estava disposto a reconhecer.
Por que
procurava escapar desses bárbaros adoráveis? Seria a teimosia, o
orgulho ou o sentimento do tradicional que me fazia agir assim?
Talvez fosse certa presunção gerada pela minha elevada ascendência.
Por dez milênios, fora um mestre para a Humanidade. Dirigira as
grandes cabeças e promovera a ocorrência de fatos que a
historiografia considerava estranhos e quase inacreditáveis. Até
hoje os historiadores costumam indagar como os elefantes de Aníbal
conseguiram atravessar os Alpes. Na época pretendia destruir o
poderio romano, pois não estava interessado na existência de um
império parado no tempo.
Quando
quase esbarrei num galho que boiava, chamei-me à ordem. Essas
reflexões eram absurdas. Por enquanto, pretendia ir para casa, onde
seria meu lugar. Provavelmente meu venerável povo também precisaria
de auxílio.
9
Logo após
o anoitecer, camadas de nuvens grossas e pretas como veludo
estenderam-se sobre Port Vênus. O movimento nos salões do museu
terrano foi diminuindo, até cessar por completo.
Durante a
longa noite de Vênus, os colonos costumavam permanecer em suas
fazendas, a fim de espantar os monstros que agiam na escuridão.
Quando os
últimos visitantes desapareceram e as luzes acenderam-se em Port
Vênus, voltei a ativar meu defletor de ondas luminosas. Estava na
hora de tomar precauções contra os seres que ali poderiam penetrar
de surpresa, e que só seriam vistos depois de se terem
materializado.
Voltei a
transformar-me num ser invisível, o que entre outras coisas me levou
a vagar calmamente pelos enormes salões. Muitos dos objetos aqui
expostos, e que simbolizavam o grande passado da Terra, não eram
genuínos. Todos os esforços foram feitos para que as imitações
fossem as mais fiéis possíveis, mas nem sempre esses esforços
foram bem-sucedidos.
O salão
em que estavam expostas as armas da Germânia antiga e dos países
nórdicos deixou-me bastante chocado. Em parte, as espadas afiadas de
ambos os lados eram muito grandes e pesadas. Até parecia que naquela
época só existiam gigantes e atletas. Na verdade, os homens da
Antigüidade geralmente eram menores e mais fracos que os de hoje.
Em toda
parte, encontrava falsificações históricas, mas ainda assim
encontrei muita coisa boa e bela. Não me cansava de contemplar as
testemunhas mudas do passado turbulento.
Fazia
cerca de vinte horas que ninguém aparecia no museu. Os portões
ficaram fechados e os grandes tubos luminosos foram desligados.
Apesar disso, a luz era suficiente para que se pudesse examinar e
tocar cautelosamente os objetos expostos.
Port Vênus
estava dormindo. Os homens haviam trazido da Terra os seus hábitos
de vida. Uma vez que o sono era biologicamente condicionado, não
havia como adaptar-se aos longos períodos diurnos e noturnos daquele
mundo estranho. Dormia-se e trabalhava-se a intervalos prefixados,
quer fizesse sol ou não.
A angústia
me martirizava. Há várias horas chegara ao museu, são e salvo, e
desde então não enfrentara a menor dificuldade.
No
subsolo, retirei minha ração de alimentos do autômato. Não peguei
nada de ninguém, com exceção de uma pesada arma portátil que
tirei do cinto de um colono embriagado. Só posteriormente notei que
se tratava de uma arma fornecida gratuitamente pelo governo.
O fato
representava um risco, pois o homem certamente notificaria a
autoridade em relação ao objeto de que se vira privado. Acontece
que seria desagradável continuar carregando constantemente o
desajeitado fuzil energético. Por outro lado, não desejava ficar
sem uma arma e, naquela altura, não considerava o radiador de
choques uma arma na verdadeira acepção do termo.
Quando os
grandes portões se fecharam lá embaixo, o sentimento da solidão
começou a dominar-me. Levantei-me nervosamente do leito, que
consistia na réplica da cama de luxo de Luís XIV.
Há uma
hora vagava pelos diversos setores. Parava num e noutro lugar,
mergulhado em recordações, até que voltei ao salão com os objetos
da Germânia.
Bem atrás,
havia um barco dos vikings. Não media mais de quinze metros, o que
não condizia com os objetos colocados no mesmo. Os barcos do século
IX eram maiores.
Os bonecos
de plástico deveriam representar vikings noruegueses. As vestimentas
e as armas eram aproximadamente corretas. Apenas, os capacetes
pontudos enfeitados com chifres haviam sido providos de protetores de
nariz e orelhas feitos de ferro. Isso não correspondia à verdade.
Já havia visto um capacete desse tipo, mas o mesmo provinha de uma
oficina pertencente a Carlos Magno.
Parei
diante do boneco que representava um enorme viking. Sua mão direita
segurava uma espada afiada de ambos os lados e a esquerda, um escudo
redondo.
Sim, era
mais ou menos assim que foram aqueles homens rudes e destemidos do
Norte. Recuei para examinar melhor o boneco.
Porém,
ouvi o ruído produzido pela ponta de lança que penetrava no boneco.
A haste do artefato, arremessado com uma força terrível,
balançava...
O ferro
cravara-se bem no peito do boneco. O objeto de plástico começou a
cambalear e finalmente tombou lentamente, como que a contragosto. A
lança caiu ruidosamente ao solo.
Parei
estupefato. Ouvi o rufo de tambores. Levei algum tempo para
compreender que eram as batidas de meu coração.
Virei
lentamente a cabeça, tendo o cuidado de não tirar os pés do chão.
Não vi ninguém. O salão, perfeitamente visível em todos os
cantos, estava vazio como nas horas precedentes.
Havia
alguém, mas não vi nenhuma criatura humana. Quem me teria golpeado
com minhas próprias armas?
Continuei
a confiar no campo de deflexão, motivo por que não saí do lugar.
Se algum mutante tivesse penetrado ali, não seria o espia, pois o
mesmo não possuía o dom da teleportação. Quem teria penetrado
ali, e de que forma teria arremessado a lança?
— Se eu
fosse você, já teria mudado de lugar, arcônida — disse um homem
em tom irônico.
Comprimi
as mãos contra a boca, para reprimir um gemido. Por um instante,
meus pés pareciam paralisados. Quando procurei movê-los,
recusaram-se a obedecer.
A voz era
inconfundível.
— Estou
adivinhando seus pensamentos, arcônida — soou a voz de Rhodan, que
ressoava pelo amplo salão.
O tom
irônico em que foram proferidas estas palavras fizeram meu sangue
ferver. A estupefação diminuiu rapidamente. Logo recuperei o
autocontrole. Porém achei preferível não mudar de posição, a fim
de não produzir qualquer ruído que pudesse trair-me. Talvez fosse
por simples coincidência que a lança atingira o boneco tão perto
do lugar onde me encontrava.
Não
respondi. Por um instante, o silêncio foi total. Subitamente ouvi a
risadinha de Rhodan. A cólera apoderou-se de minha mente. Quem dera
que esse homem não demonstrasse uma arrogância tão repugnante!
— Poderia
tê-lo matado, oh, imortal — disse meu inimigo invisível. — É
estranho, não é? Como é que um imortal pode ser tão vulnerável?
Já sei o que vem a ser o aparelho que você costuma carregar no
peito. Examinei certos relatórios do século dezessete. Um médico
de Gustavo Adolfo, rei dos suecos, deixou um manuscrito no qual
relata uma operação bastante estranha. Um homem alto e louro vindo
do norte deu-lhe instruções exatas sobre a maneira de realizar a
intervenção. O médico falou num “recipiente
brilhante”
com uma agulha na ponta. O oficial louro espetou-se com a mesma e
depois disso perdeu a sensação da dor. O médico teve que retirar
de seu estômago um objeto vermelho e brilhante em formato de ovo.
Foi você, arcônida. Será que pretende negar?
Não
respondi. Pois bem; haviam descoberto meu segredo. Meu raciocínio
embrutecera tanto que o fato não provocou a menor sensação em
minha mente.
— Pode
contar. — voltou a falar a voz. — Tenho sua imagem na tela do
localizador individual. Como sabe, possuímos todos os dados
relativos à freqüência de suas vibrações orgânicas. Não
haveria nada mais natural que construir um aparelho especialmente
adaptado às mesmas, não é? Em parte, as vibrações de suas
células desenvolvem-se na quinta dimensão. Por isso não são
absorvidas pelo campo de deflexão. Não acha que somos inteligentes?
“Inteligentes
demais”,
avisou meu segundo cérebro.
Isso
mesmo! Rhodan acabara de cometer um erro. Conhecia as irradiações
de meu organismo. Eram mínimas e só poderiam ser captadas se o
receptor estivesse perfeitamente ajustado. Bastaria dar alguns passos
para colocar-me fora do alcance do localizador. Depois que me
procurasse, esse bárbaro de olhos frios.
Saí
correndo. Foram os saltos do desespero que me fizeram passar por cima
do barco e abrigar-me atrás do mesmo. Deitei no chão e procurei um
alvo para minha arma.
Esforcei-me
para ouvir a respiração de Rhodan. Teria de encontrá-lo, mesmo que
estivesse usando um defletor de ondas luminosas igual ao meu.
Provavelmente mandara retirar o aparelho de um traje arcônida. Por
que não me lembrara dessa possibilidade?
— Não
adianta — gritou.
Os sons
pareciam vir do lado da porta, mas era possível que estivesse
enganado. Neste recinto as ondas sonoras sofriam numerosas
interferências.
— Não
adianta mesmo — enfatizou Rhodan. — Este salão possui uma única
porta, e meus homens estão de guarda. Vim sozinho para provar que o
poder que você quer encarnar já não é o mesmo de mil anos atrás.
Entregue-se, arcônida!
Quase
cheguei a trair-me. Rhodan principiara com uma campanha psicológica.
Provavelmente procurava colocar-me outra vez na tela de seu
localizador. Viera só porque não havia outra possibilidade. Talvez
um teleportador o tivesse colocado diretamente diante da porta.
Duvidava de que seus homens se encontrassem do lado de fora. Rhodan
costumava lidar em pessoa com os assuntos difíceis. Quanto mais
esperava, maiores seriam suas chances de bloquear o museu.
De
repente, o achei odioso. Sempre fora a barreira que se opunha ao
curso das minhas ações.
O silêncio
começava a tornar-se penoso. Meu instinto dizia-me que o jogo devia
irritá-lo. Conhecia as pessoas do tipo de Rhodan. Deixam passar uma
boa chance, apenas para satisfazer a vaidade pessoal. Deveria ao
menos ter-me ferido com a lança quando ainda não tinha a menor
idéia da sua presença.
Estava
procurando outro abrigo quando outro objeto atravessou o ar com um
chiado. Antes que esfacelasse as tábuas do barco, reconheci a
direção do vôo. Devia encontrar-se ao lado direito da porta.
Levantei o
radiador de impulsos; mas preferi não atirar. No último instante,
lembrei-me dos efeitos devastadores que um incêndio de grandes
proporções causaria naquele local. Talvez nem conseguisse sair do
salão.
Hesitei.
Rangi os dentes de raiva, baixei a arma e procurei pegar a arma de
choque, relativamente inofensiva. Ao que parecia, Rhodan também
sabia por que atirava lanças.
Ouvi sua
risadinha. Descobrira-me.
— Você
está preso ao passado, não é? Seria uma pena queimar todas estas
coisas bonitas. Você está novamente na minha tela, arcônida.
Vejo-o atrás do barco dos vikings. Já percebeu que poderia matá-lo
com um tiro energético?
Perdi o
autocontrole. A calma de Rhodan e o tom de superioridade ao
pronunciar aquelas palavras despertaram em minha mente o orgulho
desarrazoado e teimoso, que sem o menor fundamento lógico exige uma
auto-afirmação.
Esse traço
emocional, bastante pronunciado nos arcônidas da minha linhagem, já
me colocara várias vezes em perigo de vida.
Saí de
trás do meu abrigo, apenas para provar que dispensava
conscientemente a compaixão oferecida.
— Que
gesto heróico! — disse a voz de meu inimigo invisível. — Não
faça tolices. Meus homens realmente estão lá fora, e Wuriu Sengu o
verá imediatamente, mesmo que consiga chegar à porta.
Sabia que
estava blefando. Não havia ninguém lá fora.
O orgulho
vão e a vaidade ferida fizeram-me dar um passo que, naquele momento,
poderia parecer absurdo. Acontece que vi nele minha última chance.
Nunca
poderia acertá-lo, porque depois de cada arremesso de lança mudava
de posição. Devia fazê-lo abandonar sua posição favorável antes
da chegada dos homens que poderiam ajudá-lo. Se resolvesse atirar,
estaria perdido. Confiei nos traços de seu caráter, que
provavelmente não lhe permitiriam atirar contra um homem indefeso.
No meu íntimo, declarei-lhe a guerra psicológica.
Com um
baque surdo, minhas armas caíram ao chão. Rhodan riu.
Depois
disse-lhe com uma ironia igual à que vinha usando comigo:
— Pode
atirar, seu bárbaro de uma figa. Devo estar bem visível. É uma
pena que poucos dias atrás não puxei o gatilho. Você estava na
minha mira, depois que teve a idéia idiota de destruir o helicóptero
vermelho de Viesspahn. Será que você realmente acreditava que não
percebi suas intenções? Encontrava-me a seu lado quando deu ordem
para revistar os destroços.
Desta vez
fui eu quem riu. Ao que parecia, minhas palavras roubaram-lhe a fala.
De repente, o jogo me estimulava. Avancei mais um passo, desligando
meu campo de deflexão. Tornei-me visível.
Quando me
abaixei para tirar a espada da mão de plástico do boneco viking
derrubado, só poderia fazer votos de que Rhodan não tivesse um
radiador de choques. Dificilmente atiraria com o mortífero radiador
energético.
Coloquei-o
diante de um difícil problema de consciência, calculando tranqüila
e minuciosamente os diversos fatores e considerando suas fraquezas.
Se tivesse a imprudência de aceitar meu desafio...
Pesei a
espada na mão direita, levantei-a e dirigi-me lentamente à porta
que ficava a menos de quarenta metros.
Rhodan
continuava calado. Todos os sentimentos pareciam ter morrido em minha
mente. Meu sexto sentido envolveu-me numa letargia dolorosa. Nem um
único impulso conseguiu romper o bloqueio.
Caminhei
lentamente sobre o forro brilhante de plástico que revestia o
soalho. Meus sapatos rangiam. Afastava-me cada vez mais das armas
realmente eficientes que deixara no chão.
Num escudo
polido, percebi que meus lábios se haviam contorcido num sorriso
sarcástico. Transformara-me no desafio em pessoa. Só mesmo um
patife sem o menor sentimento de decência atiraria contra mim de uma
posição absolutamente segura.
Quando
alcancei o centro do salão, já sabia que ele não tinha nenhuma
arma de choque. Sem dúvida, refletia febrilmente sobre o meio de
colocar-me fora de ação.
Se seus
homens se encontrassem do outro lado da porta, não deixaria de
chamá-los numa situação como essa. Afinal, eu não estava mais
invisível. Afinal, seu orgulho e espírito humanitário não iriam
ao ponto de dar uma boa chance a um elemento perigoso como eu.
— Pare!
— disse. — Se der mais um passo, serei obrigado a matá-lo. Não
pense que escapará depois de tanto trabalho para descobri-lo.
Arcônida, cometeu um erro ao vir a este museu. Meus psicólogos
calcularam que este edifício seria um local de permanência muito
atraente para você. Além disso, roubou a arma de um colono.
Encontramos suas impressões digitais no coldre, que evidentemente
foi examinado assim que o homem denunciou a perda.
As
palavras foram sendo pronunciadas cada vez mais apressadamente.
Rhodan encontrava-se num beco sem saída. Desconfiei de que a
denúncia do furto da arma fora dada com alguma demora. Talvez, antes
disso, o colono procurou descobrir pessoalmente a preciosa arma.
Ninguém saberia dizer quais foram as pessoas de quem chegou a
suspeitar.
— Foi
uma ótima idéia, homem das cavernas. Depois você veio
imediatamente, não é?
Escutei
minhas próprias palavras. Enquanto isso, caminhava tranqüilamente
em direção à porta. Estaria percebendo minha tensão interna?
Será que
sabia, ou ao menos imaginava, que como gladiador enfrentei na arena
romana os homens mais hábeis no manejo da espada?
Em caso
afirmativo, nunca se deixaria levar a enfrentar-me com esse tipo de
arma. Até onde conseguira investigar meu passado? Apenas até o
tempo de Gustavo Adolfo? Naquele tempo, já se lutava com outro tipo
de espada. Será que seu orgulho e autoconfiança seriam
suficientemente fortes para incutir-lhe a idéia de que estaria em
condições de bater-se comigo? Se já tivesse recebibo lições de
esgrima, dificilmente deixaria de ter essa idéia, ainda mais que eu
tanto o provocava.
Qual teria
sido o currículo de Rhodan? Será que naquele tempo a esgrima
constava do programa da academia espacial? Não sabia, mas a conduta,
que ele adotasse dali em diante, me esclareceria a este respeito.
Quando me
encontrava a vinte passos da porta, uma lança germânica saiu do
suporte. Mais adiante estavam expostas armas alemãs.
Metade da
lança desapareceu no campo de deflexão de Rhodan. Apenas a ponta
larga continuava visível. Foi levantada. Estava assumindo a posição
de arremesso.
— Pare!
— advertiu em tom apressado. Sua voz vibrava. Rhodan encontrava-se
sob os efeitos do flagelo psicológico. Esse homem não atiraria
contra mim com uma arma atômica, Meus cálculos foram corretos.
— Você
sabe atirar, bárbaro — disse com um sorriso.
Depois
arremessou para valer. Vi a ponta reluzente da lança deslocar-se
rapidamente para trás. Estava tomando impulso. Quando o projétil
cortou o ar, desviei- me com um salto rápido. Minha gargalhada
sarcástica acompanhou a lança que acabara de errar o alvo.
Continuei
a caminhar em direção à porta. Conforme esperava, Rhodan tornou-se
visível de um instante para outro. Usava um uniforme simples. Com o
corpo encurvado e a pistola apontada para mim, mantinha-se junto à
coleção de armas germânicas. Seus olhos chamejavam. O problema de
consciência martirizava-o.
— Se
fosse você já teria atirado, bárbaro — disse em tom tranqüilo.
Um suspiro
profundo e raivoso saiu de seu peito. A arma de impulsos desapareceu
no coldre. Com um movimento rápido, pegou uma espada.
— Seu
rebento arrogante do Império! — exclamou. — Se você pensa que
eu...
— Apenas
penso que já teria atirado. Lamento não ter usado suas costas como
alvo — interrompi-o com nova menção do fato de ter poupado sua
vida. Essa observação arrasava-o moralmente, mas no estado de
exaltação em que se encontrava não descobriu a finalidade de
minhas palavras.
Dali a
alguns segundos, vimo-nos frente a frente. Estendeu a espada pesada
para a frente, à maneira do esgrimador. Não se lembrou do fato de
que, com um instrumento pesado como este, não se devem fazer
brincadeiras dessa espécie.
Golpeava
como se segurasse uma lâmina leve. Não agüentaria mais que dois
minutos: seu braço perderia a força.
Defendi-me
sem maiores dificuldades, saltitando para o lado. Depois de meu
primeiro golpe, que lhe arranhou o braço, percebeu que cometera um
engano fatal.
Notei a
rigidez de seu rosto. Investia contra mim sem dizer uma palavra. A
cena era igual à que se costuma ver em filmes de terceira categoria.
Defendia-me dos seus golpes furiosos, até que consegui acertar um
golpe contra seu tornozelo direito.
No último
instante, girei a espada. Assim, sua perna só foi atingida pela
parte larga da lâmina. Apesar disso, soltou um grito e tombou ao
chão. Antes que Rhodan conseguisse reprimir os gemidos, a ponta de
minha lâmina exercia uma pressão sensível contra sua garganta. Com
o pé, retirei o radiador energético do coldre aberto.
Subitamente
Rhodan calou-se. Seu rosto tornou-se abatido; os cabelos desgrenhados
cobriam sua testa.
Nossos
olhos encontraram-se. Apertei mais um pouco.
— Então,
seu barbarozinho — disse baixinho e sem qualquer entonação. —
Acho que você só sabe lidar com canhões de radiação.
— Eu o
odeio, arcônida! — disse.
Não se
atrevia a mover um dedo.
— Foi o
que o gladiador romano Marco Vinício me disse quando sentiu a ponta
de minha espada em sua garganta. Vinício caíra no desagrado de
Nero, por ter feito algumas observações infelizes sobre o imperador
divino. Nero baixou o polegar. Quem será que deve dar o sinal no
presente caso? Como é que a gente pode cair numa destas? É claro
que seus comandos não estão por aqui.
Rhodan
fechou os olhos e conteve a respiração. Aumentei a pressão. Quando
as primeiras gotas de sangue afloraram-lhe no pescoço e suas mãos
começaram a tremer na angústia inconsciente da morte, retirei a
arma.
Dei vazão
ao meu nervosismo através de uma risada estridente e histérica.
Ainda estava rindo quando Rhodan já se sentara e esfregava o
tornozelo.
Não; eu
não queria mais fugir. Não tinha forças! E minha vitória sobre
Rhodan confirmara tudo aquilo que já sentira. Sabia que estava
desperdiçando um tempo precioso. De um instante para outro, poderia
receber auxílio. Tivera a intenção de levá-lo a envolver-se na
luta para tornar-me invisível e desaparecer.
Preferi
não agir assim. Tudo se tornara muito absurdo. Mesmo que conseguisse
escapar, dali a poucos dias os agentes do serviço de defesa de Vênus
usariam centenas de localizadores individuais. Nunca conseguiria
entrar numa nave espacial sem que ninguém o percebesse. Decerto, já
notara que minha fuga chegara a um beco sem saída. Tanta coisa
estava mudada.
Atirei a
espada para o lado, abaixei-me e apalpei sua perna. Rhodan ficou
calado. Apenas seus lábios tremiam.
— Você
deveria tirar uma radiografia, meu caro — disse em tom tranqüilo.
— Tive que golpear para fazê-lo cair. É possível que o osso
esteja fraturado.
Depois
disso ficamos sentados lado a lado, olhando-nos.
Passado
algum tempo respondeu em voz baixa:
— Não
gostaria de defrontar-me com você na época áurea do Império,
Atlan. Qual é a sua idade?
— Pouco
mais de dez mil anos terranos — respondi, também em voz baixa. —
O centro de computação de Vênus foi construído sob minha direção.
Em seus
olhos, surgiu um brilho no qual reconheci, num acesso de alegria, uma
expressão de respeito. Por que tivemos a intenção de matar-nos?
— Ainda
quer ir para casa? — perguntou.
Sacudi
lentamente a cabeça. Não, já não queria ir para casa. O que iria
fazer no planeta Árcon?
— Não
menti. O Grande Império se encontra numa situação extremamente
difícil. Ajude-me a substituir o regente. Nós, os humanos,
precisamos de gente como você.
Sorri sem
dizer uma palavra. Esses bárbaros pequeninos e tão ambiciosos
sempre necessitaram do meu auxílio.
Senti a
mão de Rhodan pousada no meu ombro. Ainda se encontrava lá quando o
rato gigante subitamente materializou-se em meio à sala de armas
antigas. Vi que o “sujeitinho”
segurava uma arma energética. Ao ver-nos reunidos em atitude tão
pacífica, sua boca abriu-se numa careta de espanto. O cano da arma
apontou para o chão.
— Olá —
disse o rato gigante em voz estridente. — Isso deve ser um
espetáculo especial, não é?
— Fora!
— ordenou Rhodan em tom tranqüilo. — Saia logo, senão ele
voltará a atingi-lo com os raios paralisantes. Chame alguns robôs
enfermeiros. Acho que meu tornozelo está fraturado. Não, nada
disso. Quero que você dê o fora; não quero que faça perguntas.
Fechei os
olhos, apavorado, quando o ser extraterrano se pôs a esbravejar.
Rhodan escancarou a boca de tão espantado que ficou com o
vocabulário de seu “estranho”
amigo.
— Ainda
ajustaremos contas! — esbravejou o ser peludo antes de desaparecer
num salto de teleportação.
Apesar da
dor, Rhodan soltou uma risada. Arrependi-me de ter golpeado. Muito
abatido, pedi desculpas.
— OK;
esqueça-se disso — disse com um gesto de desprezo. — Lá no
espaço o inferno está às soltas. Receio que não demorarão em
desmascarar a história de minha pretensa morte. Teria algumas
tarefas para você, almirante.
Um
sentimento estranho apossou-se de mim. Voltei devagar a cabeça em
sua direção.
— Você
estaria disposto a confiar-me uma nave espacial?
Confirmou
com um gesto.
— Se
necessário confio-lhe uma frota. Se você ama seu povo, terá que
fazer causa comum com os humanos. Que diabo! Onde estarão os robôs
enfermeiros?
Chegaram
dali a poucos minutos e colocaram Rhodan numa maca. Um oficial do
serviço de defesa fez continência. Já era meu conhecido.
Tratava-se do general Kosnow em pessoa.
Caminhei
ereto entre os homens do comando terrano que chegou momentos depois.
O tenente Gmuna era um deles. Ria com os olhos alegres.
Dali em
diante eles seriam dos meus, ou eu seria um deles, conforme se
quisesse.
Depois que
Rhodan foi colocado no aparelho, também entrei no grande
helicóptero.
— Uma
certa Marlis Gentner o espera na chefatura — cochichou Gmuna. —
Chegou ontem e implorou para que tivéssemos compaixão pelo senhor.
Será que isso não poderia ser evitado?
— Poderia,
meu filho — respondi em tom tranqüilo. — Acontece que, segundo
me parece, uma pessoa de meu tipo precisa de um certo tipo de
auto-afirmação. Eu mesmo não sei dizer exatamente do que se trata.
A máquina
decolou. A meu lado estava deitado um homem cujos lábios vez por
outra se contorciam de dor. Mas, quando ria, sua risada era franca e
alegre. Afinal, Perry Rhodan era mesmo uma criatura digna de minha
estima.
— Você
deve ter muita coisa para contar — disse.
Respondi
com um gesto pensativo. Poderia contar histórias por anos a fio. Os
milênios haviam proporcionado o assunto.
*
* *
*
*
*
Atlan
já não representa perigo para a existência do Império Solar, pois
o arcônida percebeu que qualquer oposição aos planos de Rhodan
seria insensata... Torna-se aliado de Perry.
No
próximo livro da série, A Sombra do Supercrânio, surge um
acontecimento com o qual ninguém contava: os mutantes se revoltam.

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