terça-feira, 12 de março de 2013

P-054 - O Duelo - K. H. Scheer [parte 3]


Deu-me o endereço de Marlis. A moça esperava por mim em casa de uma velha tia, cujo finado marido fora dono de uma casa de armas. Atualmente o negócio era dirigido pela idosa dama que, segundo diziam, era muito enérgica. Marlis fora criada pelo tio. Seus pais haviam morrido na selva muitos anos atrás.
Paguei a conta. Uma vez fora do museu, olhei cautelosamente em torno. Os dois policiais continuavam no mesmo lugar, mas não receberam reforços. Mas isso não significava nada nessa época de comunicações pelo rádio.
Despedi-me de meu velho amigo em voz alta, mas sem chamar a atenção. Disse que voltaria aos alojamentos dos imigrantes.
Formulou várias objeções, até que o táxi por mim chamado parou à nossa frente. Os dois policiais pareciam não nos dar maior atenção.
Entrei no carro, que era de construção moderna. Antes de fechar a porta, disse em voz alta ao motorista para onde deveria levar-me.
Alguém devia ter ouvido. O carro deu partida. Gunter Viesspahn dirigiu-se ao heliporto do museu.
Uma vez dobrada a primeira esquina, que me colocou fora das vistas dos guardas, comecei a agir. Seria absurdo continuar a depender da sorte.
Apertei o botão do defletor de ondas luminosas e tornei-me invisível. Antes que o motorista percebesse qualquer coisa, foi atingido pelo feixe de raios do projetor mental. Sua postura tornou-se mais rígida.
Dobre a primeira esquina, pare e laça de conta que está aborrecido porque seu passageiro desapareceu de repente. Abra todas as portas e pergunte às pessoas que estiverem por lá se viram alguém saltar pela porta traseira.
Sim senhor — respondeu o motorista em tom indiferente.
Abri a porta e deixei-a balançar. O motorista parou antes do primeiro cruzamento e começou o jogo que poderia custar-me o pescoço.
Correu em torno de seu carro, olhou para o interior vazio do mesmo e perguntou às pessoas que riam a bandeiras despregadas se haviam visto o patife que saíra sem pagar a corrida.
Enquanto isso saí do veículo e, sem provocar o menor ruído, subi sobre a carroçaria do mesmo, onde fiquei deitado.
Poucos segundos depois, aconteceu aquilo que eu esperara. Um veículo preto e muito moderno, usando campos deslizantes antigravitacionais no lugar das rodas antiquadas, parou ao lado do táxi. Dois homens saltaram do mesmo e exibiram distintivos reluzentes ao motorista.
Quer dizer que fora perseguido! O joguinho de Marlis, tão bem intencionado mas tão mal executado, já fora desmascarado. A defesa solar voltara a agir.
O interrogatório do motorista foi muito rápido. Os dois homens apalparam todos os ângulos dos bancos. Fiquei sabendo que esperavam ter de lidar com uma pessoa invisível.
Quando se despediram, deixando o exaltado dono de táxi a sós na rua, voltei a entrar no veículo.
Sentindo-me livre do pesadelo, ordenei ao motorista que se dirigisse à rua Tóquio, que ficava na parte antiga da cidade. Assim que chegamos perto do destino, saí do táxi, depois de ter ordenado ao motorista que se dirigisse ao ponto de estacionamento mais próximo e esquecesse tudo.
Comecei a caminhar sob a proteção do campo defletor. A pequena casa de armas da velha senhora Gentner não podia ficar longe.
Seu idiota!”, disse meu sexto sentido, conforme costumava fazer sempre que estava prestes a cometer uma asneira.
Era claro que Marlis já havia sido descoberta. Provavelmente fora interrogada na Terra por um dos telepatas do Exército de Mutantes de Rhodan. Talvez já tivessem até descoberto que a moça me entregara meu equipamento especial que mantive por tanto tempo escondido.
Rhodan, que já devia encontrar-se na Terra, não interviera. Eu conhecia o curso do raciocínio desse homem extraordinariamente inteligente.
Marlis não sabia como e quando pretendia chegar a Vênus. Sentia-me feliz porque no momento em que encetara a fuga eu mesmo ainda não sabia.
Por isso, Rhodan só tinha uma. coisa a fazer: esperar. Naquele momento, já poderia ter sido informado pelo rádio de que o suspeito desaparecera de repente de um táxi.
Parei num portão e pus-me a refletir. Não; não fora totalmente inútil chegar a Vênus em condições tão difíceis. Aqui seria mais fácil desaparecer que na Terra densamente povoada com sua estonteante rede de transportes e comunicações. A selva de Vênus era grande e misteriosa. Além disso, conhecia os perigos que me aguardavam lá fora.
A informação do setor lógico de minha mente, segundo a qual Rhodan só não me prendera porque esperava que eu o levasse aos meus elementos de ligação também fora errônea.
Era exatamente o contrário. Dispunha de provas suficientes contra Marlis Gentner, talvez mesmo contra seu irmão. Talvez, o barbudo já estivesse sendo interrogado por um mutante.
Rhodan apenas aguardara até que Marlis recebesse uma carta pela posta-restante. Com isso, as pedras começaram a encaixar-se.
Uma vez que usei o pseudônimo, o serviço de defesa não conseguiu apurar desde logo quem fora o remetente. Mesmo a correspondência que me fora dirigida por Gunter Viesspahn ainda poderia ser considerada inofensiva, pois muitos dos colonos recém-chegados costumavam receber cartas.
De qualquer maneira, se eu fosse Rhodan, teria agido imediatamente. Fiquei refletindo a este respeito, até que a idéia certa me ocorreu. Se o oficial de Nevada Fields ainda não tivesse avisado nada, eu mesmo entrara na armadilha. Ninguém sabia quem chegara a Vênus sob o disfarce de Hinrich Volkmar. Só o encontro com o irmão de Marlis havia colocado o serviço de defesa na minha pista.
Se o barbudo já estivesse sob observação, as coisas teriam sido bem mais fáceis para os homens de Rhodan. E muito me admiraria se já não me tivessem prendido.
Provavelmente sentiam-se muito seguros de que o jogo tão bem urdido não seria desvendado tão depressa.
Meu nervosismo foi diminuindo. Uma “risadinha” me fez estremecer, mas logo percebi que o ruído provinha de mim mesmo.
A esta hora não gostaria de pertencer ao serviço de defesa local. Se minha idéia sobre Rhodan fosse correta, já estaria pessoalmente a caminho de Vênus.
Prossegui devagar e com a maior cautela, tendo sempre o máximo cuidado para fechar perfeitamente o monobloco destinado à defesa contra pesquisas telepáticas. Bastaria que minha mente irradiasse um único impulso para que um mutante pudesse localizar-me.
Senti que desta vez atirariam para matar. Rhodan não poderia assumir o risco de deixar que eu desaparecesse na selva de Vênus. Um belo dia, a vigilância no espaçoporto diminuiria, e então minha chance teria chegado.
E Rhodan sabia disso; não havia a menor dúvida. Esse bárbaro de olhos cinzentos sabia raciocinar.
Evidentemente seria uma loucura procurar entrar em contato com Marlis. Estava sob observação, ou então não queria chamar-me Atlan.
Tranqüilizei meu instinto de autoconservação que ameaçava entrar em revolta, dizendo a mim mesmo que, sem uma arma energética mortal, não poderia penetrar na selva. Os sáurios venusianos dificilmente se deixariam afetar por um pequeno radiador de choques. E qual seria o melhor lugar para encontrar a tal arma senão em uma casa especializada?
Prossegui, até que vi o letreiro numa rua lateral.
Não notei ninguém, e nem esperava outra coisa. Ansiava por Marlis, por um único olhar e um sorriso de seus lábios cercados de amargura. A moça arriscara muito. E não poderia culpá-la por ter cometido erros graves. Afinal, não era uma agente treinada, mas apenas uma criatura impulsiva, capaz de ainda entusiasmar-se pela voz do coração.
Se não tivesse percebido nada do interrogatório realizado pelos mutantes, que sem dúvida fora extremamente suave, não se poderia imputar-lhe qualquer culpa, por mais leve que fosse. Só poderia pensar que me encontrasse em segurança absoluta. Se sua opinião fosse outra, teria deixado de procurar a posta-restante.
Além do mais, perdera minha gigantesca pérola. Evidentemente Gunter Viesspahn já não me poderia ser útil. Encontrava-me numa situação bastante desfavorável.
7



Calculei e planejei, martirizando o cérebro dolorido em busca de uma solução satisfatória; mas sua aparição repentina abalou-me profundamente.
Parecia que uma força desconhecida paralisava meus nervos. Uma pessoa do meu tipo sabe odiar ou amar além de qualquer medida; sentir a alegria ou o desencanto, desde que não seja privada do equilíbrio psíquico.
O vulto esbelto de Perry Rhodan produziu em minha alma o efeito de uma ducha de ácido. Era bastante difícil para a mente absorver sua presença. Um estranho formigamento espalhou-se na zona da nuca. Demorei algum tempo para superar o revés moral.
Encontrava-me atrás de um arbusto, e não podia ser visto. Porém tive a impressão de que seus olhos me fitavam com uma expressão perscrutadora. Tinha total certeza de que não me poderia ter visto, pois meu defletor de ondas luminosas funcionava impecavelmente.
E a localização energética também não era possível, uma vez que as potentes armas energéticas de seus acompanhantes e os motores atômicos das naves estacionadas geravam campos muito mais potentes que o emitido pelo meu aparelho.
Fazia apenas dez minutos que eu chegara, depois de ter visto Marlis Gentner. Arrisquei-me a entrar na casa de armas e encontrei-a numa sala dos fundos.
Tal qual os policiais do serviço de segurança venusiano que se encontravam à espreita, escondidos do lado de fora, não notara minha presença.
Não sabia que havia sido interrogada na Terra. Envergonhei-me por não me ter informado a este respeito. Mas não comentei o fato por uma questão de segurança pessoal.
Quando me dei a conhecer, parou em atitude rígida diante da pequena janela.
É você? — perguntou com os lábios trêmulos. Manteve um perfeito autocontrole, mas já estava perdida. Minha única esperança era aplacar o ânimo de Perry Rhodan. Marlis não devia ser castigada.
Cochichei ao seu ouvido, informando-a de que tinha de fugir imediatamente para a selva, uma vez que surgiram dificuldades. Em hipótese alguma poderia entrar em contato com seu irmão, pois desconfiava de que o mesmo estivesse sendo observado.
Ainda disse à moça que me comunicaria com um amigo que conhecera na nave Glória. Não citei qualquer nome. Os agentes do serviço de defesa poderiam quebrar a cabeça se quisessem.
O fato de não informá-la foi um truque da minha parte. Só poderia contar-lhe aquilo que o serviço de defesa poderia saber. Não tinha a menor dúvida de que eslava sendo vigiada pelos telepatas. Por isso não poderia saber que eu descobrira tudo.
Durante o tempo em que permaneci na velha casa, corri certo perigo. Se naquele momento tivesse sido realizada uma vigilância telepática na moça, minha presença teria sido revelada.
Tive sorte. No interior da casa de armas, achei o que queria: o cofre de armas. Nele se encontravam os pesados radiadores energéticos, que costumavam ser usados em Vênus para abater os gigantescos sáurios. Tratava-se de artefatos maciços, com fortes campos direcionais alimentados por processos de fusão nuclear de elevada potência. A incandescência dessa arma derrubaria sem a menor dificuldade os gigantescos animais do mundo primitivo.
Escapei sem ninguém o perceber, e Marlis foi de opinião que ninguém ficaria sabendo de minha ligeira visita.
Após isso, fiz exatamente o contrário do que lhe dissera. Dirigi-me ao restaurante situado fora da zona urbana, onde Gunter Viesspahn me esperaria.
Depois, voltei a modificar meus planos. Minha ação devia ser cheia de variáveis, para impossibilitar o cálculo logístico-esquemático de meus passos. Além disso, a idéia de voltar à cova do leão não deixava de ter seus encantos.
Assim que cheguei, descobri Viesspahn. Encontrava-se no interior da velha taberna, conversando com alguns colonos de aspecto embrutecido que haviam feito compras na loja ao lado.
Viesspahn ainda não fora preso! Nem desconfiava do que havia acontecido.
Quanto a mim, calculava com a inteligência do inimigo. Depois que me despedi tão apressadamente de Viesspahn, à saída do museu, os homens do serviço de defesa deveriam ter seguido o curso de raciocínio por mim desejado. Um homem do meu tipo nunca volta para junto do conhecido que sabe estar em perigo.
Até parecia que minhas previsões haviam sido corretas. O serviço de segurança estava deixando o barbudo em paz. Quando me deleitava nas mais belas esperanças, subitamente um grande helicóptero da defesa solar pousou nas proximidades. O susto que senti ao ver Perry Rhodan descer foi infinito.
Uma vez que ele mesmo se encarregara da operação de busca, teria que triplicar meus cuidados. Apareceu com poucos acompanhantes. E fez de conta que nem se interessava por Viesspahn.
Cumprimentou ligeiramente os colonos e disse em tom bem-humorado que apenas viera para rever o lugar onde quase encontrara a morte quando pela primeira vez pousou em Vênus.
Contou uma história inventada sobre uma furiosa cobra dos pântanos, conquistando os aplausos dos pioneiros endurecidos. Dessa forma, meu grande inimigo deu uma explicação plausível de seu súbito aparecimento.
A seguir, Rhodan colocou-se atrás do edifício. Um homem do serviço de defesa saiu com o helicóptero. Tudo parecia muito pacato. Os colonos que se encontravam no interior da loja mantinham-se em atitude discreta. Quase chegaram a curvar-se, mostrando grande veneração.
Angustiado, fiquei atrás do arbusto de folhas largas que escolhera como refúgio ainda antes da chegada de Rhodan. Não me atrevia a fazer o menor movimento. O botequim com sua barulheira ficava a mais de cinqüenta metros. Os risos e a cantoria dos alegres pioneiros da selva formavam uma cortina sonora muito tênue, que não era sufocada pelo farfalhar das folhas.
Era uma situação martirizante, pois os inúmeros insetos não se incomodavam com o defletor de ondas luminosas. Penetravam nele às cegas, e eu tornava-me vítima de suas picadas violentas. Além disso, as pontas metálicas do anel de escapamento de gases da câmara de fusão da minha arma incomodavam-me constantemente. Estava comprimida contra a omoplata direita.
Aguardei impaciente e fiz votos de não ser surpreendido por uma das terríveis trovoadas de Vênus.
Vi-me libertado mais depressa do que esperava. É bem verdade que por pouco não me traí, pois não contava com a aparição.
A menos de cinco metros do lugar em que me encontrava, o ar superúmido começou a tremeluzir. Do nada surgiu uma coisa que contemplei com um espanto infinito e com uma inquietação cada vez maior.
O ser tinha o aspecto de um rato gigante com a cauda grossa, muito parecida com a de um castor terrano.
A estranha criatura parou sobre as curtas patas traseiras que lhe permitiam um andar ereto à maneira dos humanos. Os braços finos com as delicadas garras estavam cruzados sobre o peito de sua vestimenta semelhante a um uniforme. Seria um animal?
Examinei mais detidamente a aparição, e tive que retificar minha opinião. Um animal não carrega radiadores energéticos. O rosto pontudo de camundongo com as lindas orelhas normalmente me teria obrigado a sorrir. Mas na situação em que me encontrava, aquele ser coberto de pêlo delicado me causou um tremendo susto.
De onde teria vindo? Levei alguns segundos até que minha memória fotográfica se lembrasse de um ser inteligente que, segundo diziam, ocupava lugar de destaque no Exército de Mutantes de Rhodan. Ouvira falar dele em Terrânia.
Gucky; era este o nome que Rhodan costumava dar ao ser peludo. Evidentemente tratava-se de uma inteligência vinda de algum planeta desconhecido. Ao que parecia, o pequenino era um teleportador. Só assim se explicaria sua súbita materialização.
Apertei fortemente a coronha de minha arma energética. A rigidez provocada pelo pavor começava a abandonar meu corpo.
Saiam daí — chilreou o rato gigante.
Por aqui poderão esperar o resto da vida. Esteve com a moça e disse-lhe que iria à selva, onde ficaria na fazenda de um amigo. O serviço de segurança daqui deveria ser atirado no pântano mais próximo. Não entende nada do negócio.
Perry Rhodan saiu de trás do depósito. Seu rosto dava a impressão de indiferença. Apenas as pequenas rugas em torno dos olhos pareciam mais profundas. Passou tão perto de mim que acreditei ter sido descoberto.
A pequena inteligência peluda pôs à mostra um enorme dente roedor. Um coronel do serviço de segurança de Vênus, que eu não conhecia, abriu a boca, perplexo.
Um jovem tenente, que provavelmente ainda não tivera oportunidade de conhecer Gucky, tossiu de forma bastante estranha. O dente roedor do pequenino ser desapareceu atrás do “nariz” franzido.
Suas toupeiras! — piou com a maior falta de respeito. — Por que não me chamaram logo? De qualquer maneira, tinha o que fazer em Vênus. Por que não o prenderam assim que recebeu a carta do tal do Viesspahn?
A testa de Rhodan franziu-se; mostrava preocupação.
Sim, por quê? — disse o chefe do Império Solar, repetindo a pergunta de seu estranho amigo.
O coronel empertigou-se.
Sir, peço licença para ponderar que havíamos recebido dados insuspeitos sobre todos os passageiros da Glória. O indivíduo, que se identificou pelo nome de Hinrich Volkmar, submeteu-se a dois exames de raios X na Terra.
Mas o senhor devia saber que o irmão da estudante foi escolhido para receber o arcônida. Os interrogatórios telepáticos à distância informaram-nos a este respeito. Deviam ter posto as mãos no homem assim que a carta de Viesspahn chegasse ao alojamento.
Não tivemos muita certeza, Sir — respondeu o coronel, que transpirava abundantemente. — O elemento que procuramos mostrou a carta a um sargento do serviço de segurança, e o conteúdo era totalmente “Inofensivo”. Além disso, conforme já ressaltei, o homem foi...
...submetido a dois exames de raios X — interrompeu Rhodan em tom irônico. Meus parabéns; os senhores fizeram um trabalho bem feito.
Tinha a intenção de prendê-lo depois que se encontrasse com Viesspahn no museu.
O ridículo ser soltou uma risada aguda e estridente. Subitamente pôs-se nas patas traseiras, girou em torno de seu eixo e gritou:
Quem andou pensando que sou um sujeito ridículo? Quem foi?
Assustado, acionei o bloqueio mental que, ao alegrar-me com o incidente, abrira por uma fração de segundo. Então esse projeto de rato ainda era um telepata! Provavelmente absorvera o conteúdo da mente de Marlis logo depois que me despedi dela.
De repente, o jovem tenente começou a girar no ar. O pequeno ser peludo ria a bandeiras despregadas, parado nas patas traseiras, olhando para o oficial que soltava gritos de pavor.
Se você não pedir desculpas imediatamente, farei com que caia de cabeça naquele pântano — gritou Gucky.
Pare imediatamente! — ordenou Rhodan em tom áspero.
O rato gigante baixou a cabeça sob o olhar gelado do chefe. O tenente pousou de forma suave sobre o rotor de um helicóptero estacionado.
Rhodan não perdeu mais tempo. No íntimo, não pude deixar de admirá-lo. Seria um inimigo muito difícil.
Coronel, averigúe imediatamente com quem o elemento que procuramos fez amizade. Todos os colonos recém-chegados que ainda não partiram para seu destino deverão permanecer no acampamento. Aqueles que já receberam suas fazendas deverão ser imediatamente visitados por um comando especial. Obrigado; por enquanto é só. Faça o favor de chamar meu helicóptero.
Rhodan encostou o dedo no boné, ajeitou o cinto com o pesado radiador energético e caminhou a passos duros em direção no pequeno campo de pouso.
O que vamos fazer com o tal do Viesspahn?
Rhodan respondeu sem virar o rosto. Em sua voz, vibrava uma raiva contida.
O senhor já deveria ter adivinhado, coronel. É claro que não vamos prendê-lo. Faça de conta que nunca ouviu falar nele. Se acreditar que o fugitivo ainda entrará em contato com ele, o senhor estará me ofendendo. Pode imaginar por quê?
Rhodan girou no calcanhar.
Lutei contra este homem, e tive que fazer o máximo para vencer na última hora. Por isso peço-lhe o favor de não pensar que é um idiota.
Naquele momento, não sabia o que pensar. Por pouco, não desliguei o defletor num súbito gesto de resignação e caminhei para a frente.
Controlei-me no último instante. Meus olhos ardentes seguiram o mais encarniçado dos meus inimigos. Por que não atirava nele? Sem dúvida poderia mergulhar na mata próxima.
Vi o tenente do serviço de segurança apontar para o helicóptero pintado de vermelho. Era o aparelho de Viesspahn. Ao que parece, Rhodan pedira informações a este respeito.
A seguir, entrou no grande veículo oficial. Era uma versão moderna com propulsor de impulsos e canhão energético de montagem rígida. Verifiquei que, de repente, Rhodan tomava lugar no assento do piloto.
Depois que decolou e desapareceu no horizonte brumoso, arrisquei-me a sair detrás do arbusto e caminhar em direção ao helicóptero vermelho. Acontecera aquilo que eu pretendia conseguir com minha ação arriscada: Rhodan não acreditava que ainda fosse encontrar-me com o irmão de Marlis.
Parei alguns minutos junto à escotilha do compartimento de carga e olhei para a loja. Não vi o barbudo. Em compensação, escutei suas gargalhadas.
Abri calmamente a escotilha e pus o pé na escada embutida. Quando pretendia enfiar o corpo no compartimento apertado, ouvi o ruído de um helicóptero em mergulho.
O zumbido suave cresceu num uivo estridente. O aparelho que descia devia encontrar-se próximo à barreira do som.
Olhei para cima. Reconheci um objeto reluzente. Saía em vôo arriscado de trás da muralha formada pela mata, apontou o “focinho” para baixo e dirigiu-se em vôo vertiginoso ao lugar em que me encontrava naquele instante.
Foi meu sexto sentido que mandou minhas pernas correrem. Corri como nunca. Com um salto desesperado rolei para dentro de uma poça de água malcheirosa.
Ouvi o rugido terrificante do canhão energético. No mesmo instante, cessou o uivo da máquina que acabara de ultrapassar a barreira do som. Em compensação, ouviu-se o ribombar das massas de ar comprimidas, que fulguraram sob a ação do raio energético.
Menos de cinqüenta metros atrás de mim, as energias atômicas liberadas atingiram o solo venusiano, que imediatamente entrou em ebulição. O aparelho de Gunter Viesspahn, pintado de forma tão espalhafatosa, foi transformado numa bola de fogo, que explodiu. De uma hora para outra, o dia sombrio parecia iluminado por um pequeno sol. O canhão energético lançava uma luz fulgurante, que prenunciava desastre.
A sucção produzida pelo aparelho que passou rente à poça em que me encontrava por pouco não me arranca da mesma. A menos de dez metros do lugar em que me encontrava o solo fervia.
Rhodan traçara um canal retilíneo de lava no solo.
As ondas sonoras chegaram dali a poucos segundos. Mais uma vez parecia o fim do planeta. Comprimi as mãos contra os ouvidos martirizados e, ofuscado pela luz, cambaleei em direção ao grande depósito. Uma vez lá, deixei-me cair ao chão, completamente exausto.
Um soluço seco me apertava a garganta. Uma raiva desarrazoada começava a dominar minha mente. Tive vontade de gritar face às declarações de meu supercérebro. Senti-me humilhado e rebaixado.
Rhodan partira, mas voltara. Numa reflexão fria abrira fogo contra o aparelho de Viesspahn.
Esse maldito bárbaro de olhos cinzentos, apesar de tudo o que se passara, contara com a possibilidade de que eu pudesse entrar em contato com o barbudo. As instruções e advertências que gritara para o coronel destinavam-se a um “invisível” que se encontrasse nas proximidades.
Se tivesse esperado mais trinta segundos antes de voltar, me encontraria no interior do compartimento de carga. Nesse caso, a reação instantânea da fuga teria sido inútil.
Tive de esforçar-me ao máximo para conservar o autocontrole quando vi o veículo policial pousar pela segunda vez. Rhodan saiu da cabina e aproximou-se o mais que pôde do metal ardente.
Levantei-me instintivamente. Queria ouvir o que tinha a dizer. Aproximei-me tanto dos colonos que acorreram às pressas que quase cheguei a tocar num homem.
Pálido como cera, Gunter Viesspahn encontrava-se ao lado do ser mais poderoso do Império Solar. O coronel plantara-se nas proximidades de Rhodan.
Esse helicóptero foi seu, senhor Viesspahn? — perguntou o coronel.
Meu amigo confirmou com um gesto perturbado. Lançou um olhar assustado para os homens do serviço de defesa.
Sinto muito — disse Rhodan em tom Irônico. — Foi um pequeno engano. Peço sua compreensão. Infelizmente não posso dar maiores explicações. Naturalmente o governo lhe pagará outro helicóptero. Faça o favor de informar ao oficial sobre a natureza de sua carga. A indenização será paga dentro de uma hora. Providencie imediatamente, coronel Fasting.
Viesspahn soltou uma risada embaraçada na qual, segundo parecia, também havia certo alívio.
Rhodan despediu-o com um gesto e voltou a contemplar a aeronave que ainda estava ardendo.
Coronel!
O coronel, que afastava-se, parou e ficou em posição de sentido. A voz de Rhodan tinha um tom impessoal.
Assim que os destroços tiverem esfriado, providencie um exame científico dos mesmos. É possível que os restos mortais de um ser humano sejam descobertos nos mesmos. Quero ser informado imediatamente sobre os resultados da análise. Obrigado; é só.
Afastou-se, depois de confirmar novamente ao nervoso Viesspahn que ele, Rhodan, lhe mandaria entregar dentro de uma hora um helicóptero novinho em folha.
Quanto a mim, encontrava-me em campo aberto, tremendo por todo corpo. As costas de Rhodan surgiram na mira luminosa de minha arma. Bastaria apertar o botão para realizar nele aquilo que pretendera fazer comigo.
Baixei a pesada arma de radiações. Não; nunca seria capaz de alvejá-lo pelas costas.
Em saltos largos, voltei para junto do depósito. Os colonos conversavam animadamente. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Apenas Gunter Viesspahn parecia ter uma idéia, mas preferiu ficar calado.
Vi Rhodan entrar no helicóptero da polícia. Desta vez, não ocupou o lugar do piloto.
Esse bárbaro se atrevera a destruir um helicóptero em perfeito estado, com base; num raciocínio elementar. Não sabia se realmente me encontrava no interior do mesmo. Por isso, ele preferia aguardar, para que eu tivesse tempo de entrar.
Contara com todas as eventualidades e guiara-se pelo método de que sempre é preferível andar seguro.
Tive vontade de arrancar pedaços de meu corpo face à minha imprudência fenomenal. O fato de que Rhodan deixara um homem do serviço de segurança na loja deveria ter chamado minha atenção.
Evidentemente o soldado recebera ordens de impedir que qualquer pessoa fosse ao campo de pouso. Rhodan queria ter o campo livre para atirar. Seu alvo era eu, apenas eu.
Mal e mal consegui controlar minha perturbação.
Esse bárbaro magro só poderia encontrar-se em Vênus há poucas horas, mas já me causara mais problemas que aqueles que tivera de enfrentar com todo o serviço de defesa durante seis dias no planeta Terra. Agora as coisas começavam a ficar sérias. Tinha certeza absoluta de que esse homem não cometeria qualquer erro de lógica

* * *

Dali a exatamente uma hora e treze minutos, o novo helicóptero de Viesspahn desceu no campo de pouso que se encontrava próximo ao restaurante na selva. Rhodan cumprira sua palavra. Era medonho de ver como sabia agir depressa.
O piloto não era outro senão o maldito rato gigante de uniforme. Haviam feito um buraco no uniforme do ser extraterrano, para que o mesmo pudesse tocar o chão com a cauda de castor. E agora, aquela criatura ainda usava na cabeça uma coisa parecida com um capacete-rádio, sob o qual sobressaía o focinho pontudo com o dente roedor.
O “sujeitinho” de menos de um metro de altura plantou-se solenemente à frente do estúpido Viesspahn e informou ao barbudo em voz alta sobre os direitos e os deveres dos colonos.
No íntimo, sabia que minha raiva por aquele rato uniformizado era injusta. Estava sendo dominado pelos sentimentos exaltados, que me diziam que esse “sujeitinho” ridículo era mais estranho no sistema solar que eu mesmo. Por que falava de modo tão altivo?
Dominado por uma raiva incontrolável e absurda, abaixei-me, peguei um pedaço de madeira podre e atirei-o com toda força contra o focinho da criatura arrogante.
Pelos deuses da antigüidade terrana, nunca deveria ter feito uma coisa dessas.
Meu ódio desvaneceu-se imediatamente.
Poucos segundos depois, fugi a toda. Ainda bem que o rato gigante, imediatamente possuído pela raiva, não me via nem podia localizar-me por via telepática.
Era horrível de ver-se o que o ser peludo fez com os colonos totalmente inocentes. O ser extraterrano devia ser um grande telecineta; caso contrário, não teria conseguido atirar os colonos, que soltavam gritos horríveis, para dentro da poça, e depois deixar as criaturas banhadas de lama nas copas das árvores altíssimas.
A seguir, o animal sentou-se no concreto do campo de pouso e riu como nunca ouvira rir uma inteligência galáctica.
Gunter Viesspahn foi o único homem poupado pela fúria do ser peludo, que provavelmente vira que o pedaço de madeira não fora arremessado por suas mãos. Ao menos fiquei sabendo o que poderia esperar do amigo de Rhodan.
Viesspahn inclinou o corpo num gesto humilde quando o “sujeitinho” desapareceu como se nunca tivesse aparecido por ali.
Vou mostrar uma coisa a vocês! — gritou antes de desaparecer.
Caminhei tranqüilamente em direção ao novo helicóptero. Quando o colono decolou, encontrava-me no banco traseiro. Meu sexto sentido me dizia que Rhodan não voltaria a atacar.
Provavelmente a esta hora estaria mobilizando mais alguns membros do seu Exército de Mutantes. Qual deles poderia representar um perigo para mim? Os telepatas não, conforme já ficara provado. A qual deles Rhodan teria de recorrer para localizar-me apesar do bloqueio mental e do defletor de ondas luminosas?
Não encontrei a solução, pois não sabia qual o trunfo mantido de reserva pelo bárbaro.
Nesse momento já me arrependia por não ter atirado nele. Como poderia chegar ao sistema de Árcon, se poupasse Rhodan toda vez que surgisse uma oportunidade de matá-lo? Era uma atitude absurda. Afinal, era o grande inimigo de meu venerável povo, ou não?
8



O furacão parecia enlouquecer as feras. Fazia cerca de cinco minutos que as duas torres feitas de carne e ossos haviam saído da mata próxima para executar uma dança estranha nos campos bem cuidados de Viesspahn.
Eram dois lagartos-corredores, nome que se costumava dar a esses animais em Vênus. Possuíam aproximadamente a forma de canguru terrano, apenas os crânios alongados que terminavam num focinho chato erguiam-se uns trinta metros acima do solo.
Os lagartos-corredores pertenciam à espécime dos animais mais perigosos desse mundo primitivo. Em certos lugares, sua blindagem córnea atingia uma grossura de quarenta e cinco centímetros. Desenvolviam uma velocidade tremenda. Antes da chegada do homem, pertenciam ao grupo dos monarcas não coroados do planeta.
Ambos perseguiam um pisoteador gigante que saíra da mata em fuga desabalada. O quadrúpede vegetariano devastou os campos, de Viesspahn numa questão de segundos. Nos lugares em que havia colocado as enormes patas, surgiram profundas crateras lamacentas.
No momento em que atingiram a clareira junto às barrancas do rio Hondo, os dois lagartos-corredores resolveram desistir da perseguição do pisoteador.
Por alguns minutos, permaneceram eretos no terreno, antes de iniciarem a “dança”.
Viesspahn estava sentado na cabine de comando de sua fazenda ultramoderna. Esforçava-se para trazer de volta os tratores robotizados teleguiados, antes que os mesmos fossem descobertos e atacados pelos lagartos.
Ouvi as terríveis pragas que soltava, pois voltara à central energética. Há três dias encontrava-me na fazenda, mas Viesspahn nem desconfiava disso. Não tinha o menor interesse em informar este homem que não merecia maior confiança sobre minha presença naquele lugar. Era bem verdade que, com o tempo, se espantaria com o desaparecimento de seus mantimentos. Até lá teria que encontrar uma solução.
Atrás de mim, uma chave de segurança automática de quinhentos ampères desligou-se: Pertencia ao circuito de força da grade de alta-tensão do setor sul, e não representara nenhum obstáculo sério para o pisoteador que acabara de invadir a fazenda.
As luzes vermelhas piscaram cada vez mais depressa, até que permaneceram acesas de vez. Por três vezes, a chave automática de quinhentos ampères foi girada para a posição de contato pelo campo energético eletrônico. Por três vezes, desligaram-se com um forte estalo. O circuito fora inutilizado; ao que parecia, a grade de alta-tensão entrara em curto-circuito.
Viesspahn começou a praguejar cada vez mais alto. Retirei-me para a sala dos isoladores. Atrás da pesada porta de aço, zumbia o transformador do reator de alta potência.
Viesspahn possuía um modelo de fusão moderno, cujo desempenho máximo era de mil quilowatts-hora. Tal potência era suficiente para abastecer a fazenda. Os tratores de múltiplas finalidades possuíam suprimento de energia próprio.
Olhei pelas lâminas de plástico blindado que fechavam a estação de controle.
Dentro de poucos segundos, o furacão chegou ao auge. Sabia que a longa noite de Vênus estava para chegar. A escuridão reinaria durante cerca de doze dias terranos. A translação do planeta aproximava-nos da temível zona de penumbra, na qual não fazia sol nem era completamente escuro. Essa zona também resultava da rotação lenta de Vênus.
As tormentas começaram com o início do prolongado crepúsculo. Chovia demais, dando a impressão de que a água estava sendo despejada por um balde gigantesco. Mas o súbito resfriamento do ar não refrescava o ambiente.
As pragas de Viesspahn perderam-se nos uivos do furacão. Porém conseguiu levar as máquinas para as garagens subterrâneas.
Já não me sentia bem na apertada sala dos isoladores, situada no pedestal de uma robusta torre de concreto. Todas as fazendas de Vênus possuíam uma torre de energia desse tipo, cuja parte superior estava coberta por uma cúpula de chapas blindadas transparentes.
Dali se via a área da fazenda e as residências adjacentes. No segundo planeta solar, essas construções pertenciam à classe do absolutamente indispensável. Quando os gigantescos animais da selva se aproximassem, não havia outra possibilidade senão rechaçá-los em tempo.
E neste ponto, a zona da penumbra era mais temida. Parecia que a súbita modificação climática produzia uma espécie de embriaguez nos lagartos. Tornavam-se descontrolados e agressivos.
O fazendeiro barbudo passou ligeiro e aos tropeços junto ao meu esconderijo provisório. Abriguei-me instintivamente quando sua mão fechada bateu contra a chave do pequeno canhão energético giratório, montado no alto da cúpula transparente. Para usar uma arma dessa potência, tornava-se necessária uma licença especial do governo. Só eram fornecidas em sua feição estacionaria e os funcionários de Port Vênus controlavam-nas a intervalos regulares.
Enquanto Viesspahn subia pela íngreme escada em caracol, saí cautelosamente da desconfortável sala dos isoladores. Acima de minha cabeça, ouvi as pisadas de seus sapatos pesados. Chegou à pequena plataforma na qual era manipulado o canhão.
Vi que utilizava ambos dispositivos de mira. Tratava-se de um aparelho de ondas infravermelhas acoplado com um equipamento goniométrico. Por mais escura que fosse a noite, Viesspahn identificaria perfeitamente o alvo. Perplexo, indaguei a mim mesmo se seria recomendável confiar um instrumento de destruição desse tipo aos colonos eternamente rebelados. Seria fácil modificar um canhão de pequeno porte como este, retirá-lo de seu embasamento e dar-lhe outro emprego.
Sentei na poltrona giratória que ficava à frente das chaves de telecomando dos tratores e aguardei as coisas que viriam. Lá fora, já estava quase totalmente escuro. O vento uivante tangia verdadeiras cascatas contra as janelas de plástico blindado. Parecia que este mundo tão jovem seria tragado pelas águas.
O anemômetro mostrava que a velocidade do vento era de cento e oitenta quilômetros por hora. Nessas condições, era altamente recomendável não sair do seguro abrigo.
Gunter Viesspahn mantinha-se à espreita no assento giratório de sua arma energética. Os dois lagartos encontravam-se a cerca de duzentos metros. Apesar da distância pareciam torres de igreja. Suas terríveis caudas levantavam muitos metros cúbicos do precioso solo arável, arrancando-o do chão subitamente encharcado.
Ao que parecia, o furacão não afetava os gigantes de mais de trinta metros de altura. Saltavam pelo terreno, atiravam-se contra o vento e soltavam um berreiro que me fazia cingir fortemente a arma.
Não me separei por um minuto sequer do único seguro de vida existente neste inferno selvático. Era bem verdade que retirara dos estoques de Viesspahn um potente radiador de choques, mas portátil. Sendo assim, num caso verdadeiramente grave de nada adiantaria. Contra um lagarto-corredor, só mesmo uma arma superpotente poderia revelar-se eficaz.
Quando as feras aproximaram-se ainda mais, Gunter Viesspahn começou a disparar. Tive o cuidado de virar o rosto para o outro lado, mas assim mesmo a incandescência fulgurante doeu nos meus olhos.
Um trovejar irreal superou o ruído da tormenta. Um raio energético da grossura de um braço humano precipitou-se para o ambiente infernal. Ao longo do fluxo incandescente surgiu um fenômeno fascinante. Parecia que alguém escavara um túnel nas massas de água que se precipitavam do céu. Densas nuvens de vapor espalharam-se, quando o furacão as atingiu.
Viesspahn fez boa pontaria. Entre as curtas pernas dianteiras do lagarto surgiu uma mancha incandescente, que se dissolveu numa série de relâmpagos. A parte da energia, que não foi absorvida pelo corpo do animal, escapou pelas costas sob a forma de descargas luminosas.
Vi o corpo gigantesco tombar. O animal fora atingido mortalmente, mas seus reflexos prosseguiram por mais algum tempo. E era terrível de ver com que força revolvia o solo enlameado.
O outro sáurio saiu aos berros e desapareceu atrás da muralha de água caída do céu.
Um tanto perplexo, olhei para Viesspahn. Ao que tudo indicava, voltara a dedicar-se ao praguejar. Era uma das características daquele homem que eu não apreciava nem um pouco.
Estive a ponto de retirar-me para o depósito contíguo, quando a trovoada irrompeu lá fora. O ribombar dos trovões me fez comprimir as mãos contra os ouvidos. Este mundo nunca poderia ser conquistado por criaturas pacatas. Sem dúvida, precisava-se de homens como Gunter Viesspahn para domar este planeta no correr do tempo.
Perto da cúpula, algumas árvores estavam em chamas. Ardiam apesar da chuva e do ambiente superúmido. Na Terra, nunca havia visto um temporal como este.
Viesspahn continuava sentado atrás do canhão energético. Tive a sensação de que se embriagava com o poder que tinha nas mãos.
Quando pretendia retirar-me, vi o brilho reluzente. Bem atrás do colono, que começara a ficar nervoso, um corpo surgiu do nada. Quando os contornos assumiram formas estáveis, percebi que eram dois os seres que haviam aparecido de repente.
Desta vez, não me senti dominado pelo pavor. Já conhecia esse maldito rato gigante com a cauda de castor. Mantive-me imóvel, embora com aquele furacão ninguém pudesse ouvir qualquer ruído.
Num movimento quase inconsciente, pus a mão no radiador de choques que trazia no cinto. Tive a impressão de que meu sexto sentido manifestava uma revolta sarcástica. Por que não me dispunha a atacar os amigos de Rhodan com uma arma mortal, já que me via obrigado a lutar contra eles? Era um paradoxo, e o setor lógico de minha mente me informou sobre isso através de uma série de impulsos dolorosos.
O outro ser sem dúvida era um terrano. Soltou-se das costas da criatura extraterrana que, por certo, havia transportado o homem robusto. Perplexo, constatei que subestimara as faculdades do ser inumano. Se conseguia levar mais um corpo dentro de seu campo de desmaterialização, as energias que podia concentrar deviam ser imensas.
Ligeiramente encurvado, mantive-me atrás do quadro de telecomando das máquinas agrícolas. Era uma caixa imensa de quase dois metros de altura, que me tiraria da visão dos mutantes mesmo que não fosse invisível.
Viesspahn não notou a presença dos intrusos. Continuava sentado em atitude de espreita, praguejando em altas vozes para dar vazão ao seu descontentamento.
O ridículo ser estranho, que Rhodan costumava chamar pelo nome de Gucky, parecia examinar a mente do fazendeiro. De repente, compreendi que Rhodan iniciara a operação de controle. A esta hora, felicitava-me por não ter informado Viesspahn. Uma vez que não sabia da minha presença, não poderia trair-me, nem consciente, nem inconscientemente.
Um sorriso sarcástico brincava em torno dos meus lábios. Olhei tranqüilamente para a pequena plataforma do canhão e tive vontade de rir quando Gucky fez um gesto aborrecido. O rato gigante acabara de constatar que o colono não conhecia meu paradeiro.
Resignado, o terrano que viera em companhia de Gucky deu de ombros. Segundo acreditei, significava que pretendia retirar-se dali.
Foi nesse instante que aconteceu uma coisa inacreditável.
De repente, o terrano levantou a mão e apontou exatamente para o lugar em que me encontrava. Ao mesmo tempo, sua boca abriu-se. Ao que parecia, gritava. Mas não pude ouvir por causa do furacão. Apenas sabia que o desconhecido me descobrira, apesar do campo de deflexão e do excelente abrigo atrás do qual me ocultara.
Acontecera! Era inacreditável. Haveria alguém que fosse capaz de enxergar através de paredes compactas e de um campo de deflexão de raios luminosos?
Meu sangue parecia ter uma tendência irresistível de contrariar todas as leis naturais e concentrar-se exclusivamente no cérebro. A surpresa produziu um choque que poderia causar um esgotamento psíquico total em pessoas de meu tipo, reduzindo-as à inatividade. Apenas percebi o impulso de meu segundo cérebro, que imediatamente entrou em funcionamento.
O pequeno!
Fiz pontaria com o radiador de choques. Naquele momento o rato gigante girava o corpo com uma agilidade extraordinária, virando o rosto para meu lado. Uma vez que eu fora descoberto, o ser extraterreno representava o perigo mais grave. Vira sua maneira de lidar com os colonos.
O terrano voltou a gritar alguma coisa e pôs a mão na arma energética manual. Foi quando puxei o gatilho.
Ouvi o estrondo do raio paralisante. Vi confusamente a luminosidade intensa, uma vez que o acúmulo de sangue no cérebro prejudicava-me a visão.
O corpo do extraterrano foi envolvido pelo raio de choque. Vi a boca de Gucky abrir-se num grito antes que caísse ao chão com os músculos enrijecidos e os reflexos amortecidos. Ficaria fora de ação pelo menos por uma hora.
O segundo disparo de minha arma de choque coincidiu com o ataque do terrano, cujas intenções eram muito mais sérias que as minhas.
Senti o hálito escaldante do fino raio térmico, que a menos de dois metros do lugar onde me encontrava atingia o encosto da poltrona giratória, reduzindo-o a uma massa de fogo.
O desconhecido atirara apressadamente, enquanto eu acertara mais uma vez. Seu corpo contorceu-se e caiu.
Reuniu as últimas forças e voltou a puxar o gatilho de sua arma. O raio energético atravessou o piso de metal leve da plataforma e com um chuvisco de fogo atingiu a caixa de fusíveis da grade eletrificada.
Já me recuperara do perigoso momento de susto. No instante em que as chapas de revestimento expeliam os raios, já me encontrava na entrada da sala dos isoladores.
Com a boca escancarada, Gunter Viesspahn fitava os vultos imóveis. Levou algum tempo para descer da plataforma, pegar um extintor e apagar o princípio de incêndio. Logo debelou as chamas. Retirei-me satisfeito.
Viesspahn estava fora de si. Seus olhos assustados rolavam nas órbitas. Parecia perguntar constantemente a si mesmo de onde haviam vindo os dois disparos de arma paralisante.
Saí da sala enfumaçada, produzindo o menor ruído possível. O braço esquerdo do terrano paralisado pendia da plataforma do canhão. Vi perfeitamente que a pequena luz de chamada do microrrádio preso ao seu pulso começou a piscar.
Concluí que os dois agentes não estavam sós. Se não me enganara, Perry Rhodan devia estar próximo. Provavelmente viera com um destacamento do serviço de defesa. Um homem do seu feitio só realizava um golpe de surpresa em boa forma.
Sabia que não tinha um segundo a perder.
Com a maior rapidez, mas tranqüilo e perfeitamente equilibrado, retirei-me para o pequeno depósito onde dormira nos últimos dias. Peguei a mochila na qual colocara boa quantidade de alimentos concentrados, pendurei-a nos ombros e prestei atenção para que fosse atingida pelo campo de deflexão.
Realizei as últimas regulagens de precisão, examinei a pesada arma de impulsos e abri o alçapão da galeria de emergência que Viesspahn construíra há um ano.
A galeria descia íngreme. Terminava num degrau, e de lá seguia diretamente para o rio Hondo.
Havia outra galeria subterrânea que ia até a sala dos reatores, ligando a torre energética com a residência.
Se Rhodan avançasse para esse lado, não me encontraria mais. O caminho até o conjunto de edifícios residenciais certamente já fora bloqueado.
Foi em virtude de uma seqüência de conclusões lógicas que escolhi o túnel pouco confortável.
Prestei atenção aos ruídos vindos de baixo antes de bater a pesada tampa-alçapão. Fechei a tramela interna, embora soubesse que um ligeiro disparo energético bastaria para destruí-la juntamente com o alçapão. No entanto, de acordo com um calculo rápido, seria necessário um esfriamento de pelo menos quinze minutos antes que alguém pudesse seguir-me pelo tampão fundido.
A galeria era circular e não tinha mais de um metro de altura. Tive que abaixar-me bastante e segurar a pesada arma energética em posição inclinada. Minha lâmpada recarregável emitia uma luz forte, que iluminava profusamente as paredes vitrificadas pela fusão.
Já andara várias vezes por esse caminho. Sabia que tinha pouco menos de seiscentos metros. Desta vez, não fiz nenhuma pausa para deitar e descontrair as costas doloridas. Rhodan não pertencia à classe de pessoas que, numa situação crítica, costumam presentear alguém com segundos preciosos.
Gucky era um ótimo telepata. Rhodan também possuía esse dom, mas em grau bem menor. Por isso, já devia saber que seu pequeno amigo havia sido colocado fora de ação.
Enquanto prosseguia apressadamente, fiquei refletindo com a necessária frieza sobre como o terrano me poderia ter visto. Ao que tudo indicava, tratava-se de um homem pertencente ao Exército de Mutantes de Rhodan. Se é que o desconhecido conseguira romper o campo de deflexão com a vista, também seria capaz de superar camadas de matéria compacta.
Mas, segundo parecia, não possuía qualquer outro dom. Agira acertadamente ao colocar fora de ação em primeiro lugar o rato gigante.
O rosto largo do mutante desconhecido surgiu na minha imaginação. Depois que os telepatas de Rhodan falharam por completo em virtude de meu bloqueio mental, transformara-se no mais perigoso dos meus inimigos.
Provavelmente Rhodan mandaria seu espia aos lugares mais críticos. Assim que me localizasse, as pessoas que estivessem em sua companhia poderiam abrir fogo, ou atacar-me com recursos extra-sensoriais.
Você deveria tê-lo matado, seu idiota!”, disse meu supercérebro.
Cerrei os lábios, respirei profundamente e prossegui mais depressa. Sem qualquer pausa a longa caminhada transformou-se num martírio. Mas não poderia perder tempo.
Quando finalmente cheguei ao alargamento da galeria, ouvi as águas do Hondo rugirem atrás de uma porta de aço. O furacão continuava a uivar. Na zona da penumbra, as tormentas são muito prolongadas.
Abri a porta de pouco menos de dois metros de altura e olhei cautelosamente para o setor da galeria, cujo solo já estava coberto pela água. Mais adiante, o barco de plástico blindado pertencente a Viesspahn balançava nas ondas.
Era uma embarcação inteiramente estável e coberta. O maquinismo trabalhava segundo o princípio da retropropulsão: a água aspirada por uma potente turbo-bomba era expelida sob alta pressão através de um bocal móvel, que tornava dispensável o leme convencional. Tivera a cautela de familiarizar-me com o manejo de barco, fato que agora me seria muito útil.
Subi pela estreita escada de alumínio, que levava a um pedestal de rocha. Quando abri a escotilha do barco, à prova de água, a pequena luz sobre a roda do leme acendeu-se.
Estava tudo em ordem. Abri a tampa da máquina e certifiquei-me de que o dispositivo de vôo unipessoal, que escondera há dois dias, ainda se encontrava no mesmo lugar. Durante esse tempo, Viesspahn não se interessara pelo barco.
Coloquei minha arma sobre o banco dianteiro, ativei o minirreator, do tamanho de uma garrafa, e empurrei a chave do potente motor da bomba para a direita.
O barco arrancou com um solavanco, reagindo imediatamente à pressão do leme. Sabia que, naquele lugar, o rio Hondo com seus cinco quilômetros de largura devia parecer-se com um oceano fustigado pela tempestade. Mas não tive outra alternativa senão utilizar este caminho para afastar-me da área de perigo.
Comprimi os pés contra a parede dianteira e regulei a máquina para a velocidade máxima. O barco deu um salto para a frente, rompeu a vegetação aquática que margeava o barranco e disparou para a grande baía.
O furor primitivo da tormenta envolveu-me. Acima das margens íngremes e elevadas, um grupo de demônios parecia lutar pelo domínio do ambiente.
Enquanto me encontrava sob a proteção da baía, não tive maiores dificuldades. Estas começaram quando atingi as águas abertas.
De repente, o pequeno e largo turbo-barco foi atingido pelas ondas. Até parecia que avançara para o mar aberto. Antes de dar-me conta do que estava acontecendo, a cobertura de plástico blindado estava sendo lavada pelas ondas espumejantes.
Quase não dei a menor atenção à fúria dos elementos. Uma vez que o vento soprava da esquerda, tive de usar toda a força do motor para evitar que o barco fosse tangido para a margem. Pretendia afastar-me o mais possível do barranco, a fim de que o barco fosse envolvido pelo negrume que cobria o centro da corrente. Seria de admirar se lá ainda conseguissem localizar-me pelo radar.
Dentro de poucos segundos, o veículo aquático, balançando e jogando em todas as direções, saiu do abrigo que os barrancos ofereciam contra o vento. Não via mais nada. Em torno, as águas geralmente tão tranqüilas borbulhavam como se um grupo de monstros invisíveis estivesse empenhado em rasgar o leito do rio.
A seguir, comecei a acreditar que escapara às forças que, sem dúvida, haviam pousado nas proximidades. Mal a idéia aflorou em minha mente, um inferno foi desencadeado atrás de mim.
O barulho do furacão não me permitiu ouvir o ribombar dos disparos. Em compensação, vi a luz branquicenta dos fluxos energéticos, que atingiam a água de um e outro lado do barco saltitante, produzindo torvelinhos fumegantes.
Mantive-me absolutamente tranqüilo e inabalável. Um arcônida da minha época não entra em pânico quando surge um fenômeno já esperado. Apenas me esforcei para fazer o barco indomável dançar ainda mais furiosamente.
Dali a alguns segundos, os disparos atingiam a água a distâncias cada vez maiores. Ao que tudo indicava, as miras automáticas passaram a localizar troncos flutuantes.
Depois do último lampejo, percebi que me encontrava aproximadamente no meio do rio. Deixei o barco entregue à corrente impetuosa que, juntamente com a tormenta vinda de trás, me afastava da zona de perigo. Seria difícil avaliar a velocidade, mesmo aproximadamente. Vez por outra, a quilha arranhava em obstáculos. No Hondo, havia numerosos baixios, e apenas poderia fazer votos de escapar aos mesmos.
Lancei o aparelho de imagem infravermelha, que me proporcionaria ao menos uma ligeira visão dos arredores. O rio parecia uma gigantesca panela em ebulição. Minha segurança era apenas relativa, pois Rhodan sabia perfeitamente que durante a tormenta suas aeronaves seriam inúteis. Por isso, esperava que o furacão ainda durasse bastante, muito embora o vento que vinha em rajadas indicasse que as fúrias da natureza estavam próximas do fim.
Pelo que sabia, as célebres cataratas de Marshall ficavam cerca de treze quilômetros abaixo do lugar do qual partira. Ali, as águas do Hondo se precipitavam de uma altura de quase cinco quilômetros. Evidentemente não poderia arriscar um salto desses.
Vi que havia subestimado a velocidade do barco. Antes que pudesse elaborar meu plano, ouvi um rugido que superava o da tormenta que já diminuía.
Bem à minha frente, observei algumas rochas cheias de arestas que se erguiam em meio às águas. Pouco abaixo delas, as águas começavam a cair. Como a força da correnteza fosse terrível, tomei imediatamente o rumo da margem ainda distante.
No último instante, consegui escapar à sucção das águas. A quilha tocou em algo. Houve um estalo que parecia indicar desastre. O barco encalhara justamente num trecho rochoso da margem do rio.
Desliguei o motor e esforcei-me para ouvir os ruídos vindos de fora. Bem ao leste, o céu já começava a clarear na medida em que isso era possível na zona de penumbra. Se quisesse aproveitar a semi-escuridão e as últimas rajadas de vento, teria que agir com a maior rapidez.
Antes de sair da escotilha da cabine, coloquei o aparelho de vôo, formado por dois minúsculos rotores de três paletas que giravam em sentido oposto, e que se abriam com a força centrífuga.
No momento, as paletas elásticas estavam reduzidas a um pacotezinho, que mal aparecia em cima da mochila, juntamente com o minúsculo reator.
Depois que desci, fui recebido pelo vento. A tormenta era muito mais forte do que supusera no interior da cabine. Girei a popa do barco para o lado do rio, inclinei-me bem para a frente, empurrei a chave do motor para a velocidade máxima e deixei que a embarcação se precipitasse água adentro.
Com os olhos pensativos, contemplei o barco que se afastava em alta velocidade. Logo foi levado pela correnteza. Dentro de poucos instantes, desapareceu em meio às vagas.
Restava saber se Rhodan acreditaria no acidente que acabara de encenar.
Tanto faz; procure ganhar tempo!”, disse o setor lógico de minha mente.
Confirmei com um gesto. Não havia a menor dúvida de que um pequeno ganho de tempo assumia a maior importância. Rhodan teria o cuidado de examinar os destroços do barco e procurar meu cadáver. Não tive a menor dúvida de que se lembraria da perigosa catarata. Seria perfeitamente lógico contemplar a possibilidade de uma queda.
Era um estranho na região, estava fugindo e, além disso, a tormenta rugia em torno de mim. Não haveria nada mais natural do que a suposição de que poderia ter ocorrido um acidente.
Esperei sob a proteção do barranco até que a tormenta amainasse. Quando tive a impressão de que o tempo já era suportável, abri a alavanca telescópica que servia para controlar a direção e a velocidade do vôo. A pequena mochila que carregava nas costas transformou-se num aparelho de vôo.
O zumbido do motor energético embutido na cabeça dos rotores foi superado pelo matraquear agudo destes que se abriam. Subia suavemente ao ar brumoso e úmido, mas preferi manter-me abaixo das copas das árvores que, se necessário, me ofereceriam um abrigo facilmente alcançável.
Dali a poucos segundos, a maior queda d’água até então descoberta em Vênus espumejava embaixo de mim. Senti um calafrio ao lembrar-me de que nessa altura poderia estar lá embaixo, com o corpo esmigalhado.
Regulei a alavanca para a progressão do vôo. Desenvolvendo cerca de cento e cinqüenta quilômetros por hora, deslizei tão perto da água que, vez por outra, levantava, os pés para evitar os blocos de pedra que surgiam de repente.
Meu destino era Port Vênus. Num gesto de resignação, desisti de bancar o “desaparecido”. Um homem como Perry Rhodan não se deixaria enganar tão facilmente.
Há poucas horas namorara a idéia de assumir o controle do grande centro de computação de Vênus. Conhecia perfeitamente as instalações, e sabia como fazer para atingir as cavernas através das galerias de emergência.
Mas agora, que Rhodan procedera com tamanha coerência para descobrir meu paradeiro, todos os planos se haviam frustrado. Esse bárbaro de olhos cinzentos pensaria antes de mais nada no cérebro positrônico que poderia estar exposto a um perigo. Por isso, não tinha a menor dúvida de que o precioso centro de computação estava sendo submetido a uma vigilância extremamente rigorosa.
Minha grande chance só poderia ficar no centro dos acontecimentos, ou seja, em Port Vênus. Já percebera que o melhor esconderijo para um homem na minha situação era uma grande cidade com sua turbulência. Em algum momento, surgiria a oportunidade de apoderar-me de uma nave capaz de desenvolver velocidade superior à da luz, estacionada no espaçoporto, ou de penetrar num veículo espacial de grandes dimensões sem ser percebido.
Nos últimos dias, poupara meu defletor de ondas luminosas. Voltei a ligá-lo, porque agora havia o risco de ser descoberto.
Não ouvi as aeronaves de Rhodan. Provavelmente, o soberano do sistema solar ainda estaria ocupado no interrogatório, embora Viesspahn nada pudesse esclarecer.
Voltei a ter ânimo. De repente, a situação já não parecia tão desesperadora: chegaria a Port Vênus.
Aonde irá?”, indagou o setor lógico de minha mente. “Pretende procurar Marlis?
Não; para mim a moça passara a ser tabu. Quando muito poderia contemplá-la de longe.
Enquanto prosseguia pelo leito do rio, aproveitando tudo que pudesse representar um abrigo, resolvi escrever a Perry Rhodan a fim de pedir clemência para Marlis. Sem dúvida, esse bárbaro inteligente já percebera que a mesma só havia desempenhado um papel secundário.
Aonde irá em Port Vênus?”, voltou a perguntar meu segundo cérebro.
Procurei lembrar-me das várias possibilidades, até que o grande museu terrano me veio à mente. Era isso mesmo! Por que não me esconderia ali? As salas eram amplas e difíceis de serem abrangidas com a vista. Se realmente aparecesse aquele estranho mutante com sua capacidade visual, ainda poderia escapar. De qualquer maneira, seria uma posição favorável para agir prontamente assim que chegasse o momento. Provavelmente teria que matá-lo. Bastaria que demorasse alguns segundos a fim de concentrar sua mente para que eu tivesse uma boa possibilidade de atacá-lo. Um homem do meu tipo não se impressiona com coisas aparentemente sobrenaturais. Mesmos os mutantes de Rhodan eram apenas seres humanos com seus defeitos e fraquezas.
O plano que previa minha permanência no museu terrano deixava-me cada vez mais feliz. Talvez a idéia fundava-se menos na lógica que no sentimento.
Ninguém conhecia o passado da Terra tão bem quanto eu. Já vivia quando os primeiros mercadores romanos se dirigiram à Germânia para trocar as armas de ferro por ouro e âmbar. Levei Leif Erikson a prosseguir na sua viagem para o Ocidente, até que atingisse a costa americana.
Os numerosos objetos que deviam estar guardados nesse museu atraíam-me e fascinavam minha mente. Além disso, no subsolo do edifício existia um restaurante, que garantiria a alimentação.
A idéia tranqüilizava minha consciência. Meu segundo cérebro permaneceu quieto. Ao que tudo indicava percebera que havia atingido certo estágio de esgotamento.
Provavelmente, em algum canto recôndito de minha mente, já havia fluxos emocionais que me faziam perceber a inutilidade de prosseguir na fuga.
Era jovem de corpo e de alma, mas os séculos passados não poderiam ser deixados de lado. Trouxeram-me um cabedal enorme de experiências e decepções. Meu saber, os sofrimentos pelos quais havia passado e as alegrias de que desistira a contragosto atavam-me à Humanidade com uma força muito maior do que eu mesmo estava disposto a reconhecer.
Por que procurava escapar desses bárbaros adoráveis? Seria a teimosia, o orgulho ou o sentimento do tradicional que me fazia agir assim? Talvez fosse certa presunção gerada pela minha elevada ascendência. Por dez milênios, fora um mestre para a Humanidade. Dirigira as grandes cabeças e promovera a ocorrência de fatos que a historiografia considerava estranhos e quase inacreditáveis. Até hoje os historiadores costumam indagar como os elefantes de Aníbal conseguiram atravessar os Alpes. Na época pretendia destruir o poderio romano, pois não estava interessado na existência de um império parado no tempo.
Quando quase esbarrei num galho que boiava, chamei-me à ordem. Essas reflexões eram absurdas. Por enquanto, pretendia ir para casa, onde seria meu lugar. Provavelmente meu venerável povo também precisaria de auxílio.
9



Logo após o anoitecer, camadas de nuvens grossas e pretas como veludo estenderam-se sobre Port Vênus. O movimento nos salões do museu terrano foi diminuindo, até cessar por completo.
Durante a longa noite de Vênus, os colonos costumavam permanecer em suas fazendas, a fim de espantar os monstros que agiam na escuridão.
Quando os últimos visitantes desapareceram e as luzes acenderam-se em Port Vênus, voltei a ativar meu defletor de ondas luminosas. Estava na hora de tomar precauções contra os seres que ali poderiam penetrar de surpresa, e que só seriam vistos depois de se terem materializado.
Voltei a transformar-me num ser invisível, o que entre outras coisas me levou a vagar calmamente pelos enormes salões. Muitos dos objetos aqui expostos, e que simbolizavam o grande passado da Terra, não eram genuínos. Todos os esforços foram feitos para que as imitações fossem as mais fiéis possíveis, mas nem sempre esses esforços foram bem-sucedidos.
O salão em que estavam expostas as armas da Germânia antiga e dos países nórdicos deixou-me bastante chocado. Em parte, as espadas afiadas de ambos os lados eram muito grandes e pesadas. Até parecia que naquela época só existiam gigantes e atletas. Na verdade, os homens da Antigüidade geralmente eram menores e mais fracos que os de hoje.
Em toda parte, encontrava falsificações históricas, mas ainda assim encontrei muita coisa boa e bela. Não me cansava de contemplar as testemunhas mudas do passado turbulento.
Fazia cerca de vinte horas que ninguém aparecia no museu. Os portões ficaram fechados e os grandes tubos luminosos foram desligados. Apesar disso, a luz era suficiente para que se pudesse examinar e tocar cautelosamente os objetos expostos.
Port Vênus estava dormindo. Os homens haviam trazido da Terra os seus hábitos de vida. Uma vez que o sono era biologicamente condicionado, não havia como adaptar-se aos longos períodos diurnos e noturnos daquele mundo estranho. Dormia-se e trabalhava-se a intervalos prefixados, quer fizesse sol ou não.
A angústia me martirizava. Há várias horas chegara ao museu, são e salvo, e desde então não enfrentara a menor dificuldade.
No subsolo, retirei minha ração de alimentos do autômato. Não peguei nada de ninguém, com exceção de uma pesada arma portátil que tirei do cinto de um colono embriagado. Só posteriormente notei que se tratava de uma arma fornecida gratuitamente pelo governo.
O fato representava um risco, pois o homem certamente notificaria a autoridade em relação ao objeto de que se vira privado. Acontece que seria desagradável continuar carregando constantemente o desajeitado fuzil energético. Por outro lado, não desejava ficar sem uma arma e, naquela altura, não considerava o radiador de choques uma arma na verdadeira acepção do termo.
Quando os grandes portões se fecharam lá embaixo, o sentimento da solidão começou a dominar-me. Levantei-me nervosamente do leito, que consistia na réplica da cama de luxo de Luís XIV.
Há uma hora vagava pelos diversos setores. Parava num e noutro lugar, mergulhado em recordações, até que voltei ao salão com os objetos da Germânia.
Bem atrás, havia um barco dos vikings. Não media mais de quinze metros, o que não condizia com os objetos colocados no mesmo. Os barcos do século IX eram maiores.
Os bonecos de plástico deveriam representar vikings noruegueses. As vestimentas e as armas eram aproximadamente corretas. Apenas, os capacetes pontudos enfeitados com chifres haviam sido providos de protetores de nariz e orelhas feitos de ferro. Isso não correspondia à verdade. Já havia visto um capacete desse tipo, mas o mesmo provinha de uma oficina pertencente a Carlos Magno.
Parei diante do boneco que representava um enorme viking. Sua mão direita segurava uma espada afiada de ambos os lados e a esquerda, um escudo redondo.
Sim, era mais ou menos assim que foram aqueles homens rudes e destemidos do Norte. Recuei para examinar melhor o boneco.
Porém, ouvi o ruído produzido pela ponta de lança que penetrava no boneco. A haste do artefato, arremessado com uma força terrível, balançava...
O ferro cravara-se bem no peito do boneco. O objeto de plástico começou a cambalear e finalmente tombou lentamente, como que a contragosto. A lança caiu ruidosamente ao solo.
Parei estupefato. Ouvi o rufo de tambores. Levei algum tempo para compreender que eram as batidas de meu coração.
Virei lentamente a cabeça, tendo o cuidado de não tirar os pés do chão. Não vi ninguém. O salão, perfeitamente visível em todos os cantos, estava vazio como nas horas precedentes.
Havia alguém, mas não vi nenhuma criatura humana. Quem me teria golpeado com minhas próprias armas?
Continuei a confiar no campo de deflexão, motivo por que não saí do lugar. Se algum mutante tivesse penetrado ali, não seria o espia, pois o mesmo não possuía o dom da teleportação. Quem teria penetrado ali, e de que forma teria arremessado a lança?
Se eu fosse você, já teria mudado de lugar, arcônida — disse um homem em tom irônico.
Comprimi as mãos contra a boca, para reprimir um gemido. Por um instante, meus pés pareciam paralisados. Quando procurei movê-los, recusaram-se a obedecer.
A voz era inconfundível.
Estou adivinhando seus pensamentos, arcônida — soou a voz de Rhodan, que ressoava pelo amplo salão.
O tom irônico em que foram proferidas estas palavras fizeram meu sangue ferver. A estupefação diminuiu rapidamente. Logo recuperei o autocontrole. Porém achei preferível não mudar de posição, a fim de não produzir qualquer ruído que pudesse trair-me. Talvez fosse por simples coincidência que a lança atingira o boneco tão perto do lugar onde me encontrava.
Não respondi. Por um instante, o silêncio foi total. Subitamente ouvi a risadinha de Rhodan. A cólera apoderou-se de minha mente. Quem dera que esse homem não demonstrasse uma arrogância tão repugnante!
Poderia tê-lo matado, oh, imortal — disse meu inimigo invisível. — É estranho, não é? Como é que um imortal pode ser tão vulnerável? Já sei o que vem a ser o aparelho que você costuma carregar no peito. Examinei certos relatórios do século dezessete. Um médico de Gustavo Adolfo, rei dos suecos, deixou um manuscrito no qual relata uma operação bastante estranha. Um homem alto e louro vindo do norte deu-lhe instruções exatas sobre a maneira de realizar a intervenção. O médico falou num “recipiente brilhante” com uma agulha na ponta. O oficial louro espetou-se com a mesma e depois disso perdeu a sensação da dor. O médico teve que retirar de seu estômago um objeto vermelho e brilhante em formato de ovo. Foi você, arcônida. Será que pretende negar?
Não respondi. Pois bem; haviam descoberto meu segredo. Meu raciocínio embrutecera tanto que o fato não provocou a menor sensação em minha mente.
Pode contar. — voltou a falar a voz. — Tenho sua imagem na tela do localizador individual. Como sabe, possuímos todos os dados relativos à freqüência de suas vibrações orgânicas. Não haveria nada mais natural que construir um aparelho especialmente adaptado às mesmas, não é? Em parte, as vibrações de suas células desenvolvem-se na quinta dimensão. Por isso não são absorvidas pelo campo de deflexão. Não acha que somos inteligentes?
Inteligentes demais”, avisou meu segundo cérebro.
Isso mesmo! Rhodan acabara de cometer um erro. Conhecia as irradiações de meu organismo. Eram mínimas e só poderiam ser captadas se o receptor estivesse perfeitamente ajustado. Bastaria dar alguns passos para colocar-me fora do alcance do localizador. Depois que me procurasse, esse bárbaro de olhos frios.
Saí correndo. Foram os saltos do desespero que me fizeram passar por cima do barco e abrigar-me atrás do mesmo. Deitei no chão e procurei um alvo para minha arma.
Esforcei-me para ouvir a respiração de Rhodan. Teria de encontrá-lo, mesmo que estivesse usando um defletor de ondas luminosas igual ao meu. Provavelmente mandara retirar o aparelho de um traje arcônida. Por que não me lembrara dessa possibilidade?
Não adianta — gritou.
Os sons pareciam vir do lado da porta, mas era possível que estivesse enganado. Neste recinto as ondas sonoras sofriam numerosas interferências.
Não adianta mesmo — enfatizou Rhodan. — Este salão possui uma única porta, e meus homens estão de guarda. Vim sozinho para provar que o poder que você quer encarnar já não é o mesmo de mil anos atrás. Entregue-se, arcônida!
Quase cheguei a trair-me. Rhodan principiara com uma campanha psicológica. Provavelmente procurava colocar-me outra vez na tela de seu localizador. Viera só porque não havia outra possibilidade. Talvez um teleportador o tivesse colocado diretamente diante da porta. Duvidava de que seus homens se encontrassem do lado de fora. Rhodan costumava lidar em pessoa com os assuntos difíceis. Quanto mais esperava, maiores seriam suas chances de bloquear o museu.
De repente, o achei odioso. Sempre fora a barreira que se opunha ao curso das minhas ações.
O silêncio começava a tornar-se penoso. Meu instinto dizia-me que o jogo devia irritá-lo. Conhecia as pessoas do tipo de Rhodan. Deixam passar uma boa chance, apenas para satisfazer a vaidade pessoal. Deveria ao menos ter-me ferido com a lança quando ainda não tinha a menor idéia da sua presença.
Estava procurando outro abrigo quando outro objeto atravessou o ar com um chiado. Antes que esfacelasse as tábuas do barco, reconheci a direção do vôo. Devia encontrar-se ao lado direito da porta.
Levantei o radiador de impulsos; mas preferi não atirar. No último instante, lembrei-me dos efeitos devastadores que um incêndio de grandes proporções causaria naquele local. Talvez nem conseguisse sair do salão.
Hesitei. Rangi os dentes de raiva, baixei a arma e procurei pegar a arma de choque, relativamente inofensiva. Ao que parecia, Rhodan também sabia por que atirava lanças.
Ouvi sua risadinha. Descobrira-me.
Você está preso ao passado, não é? Seria uma pena queimar todas estas coisas bonitas. Você está novamente na minha tela, arcônida. Vejo-o atrás do barco dos vikings. Já percebeu que poderia matá-lo com um tiro energético?
Perdi o autocontrole. A calma de Rhodan e o tom de superioridade ao pronunciar aquelas palavras despertaram em minha mente o orgulho desarrazoado e teimoso, que sem o menor fundamento lógico exige uma auto-afirmação.
Esse traço emocional, bastante pronunciado nos arcônidas da minha linhagem, já me colocara várias vezes em perigo de vida.
Saí de trás do meu abrigo, apenas para provar que dispensava conscientemente a compaixão oferecida.
Que gesto heróico! — disse a voz de meu inimigo invisível. — Não faça tolices. Meus homens realmente estão lá fora, e Wuriu Sengu o verá imediatamente, mesmo que consiga chegar à porta.
Sabia que estava blefando. Não havia ninguém lá fora.
O orgulho vão e a vaidade ferida fizeram-me dar um passo que, naquele momento, poderia parecer absurdo. Acontece que vi nele minha última chance.
Nunca poderia acertá-lo, porque depois de cada arremesso de lança mudava de posição. Devia fazê-lo abandonar sua posição favorável antes da chegada dos homens que poderiam ajudá-lo. Se resolvesse atirar, estaria perdido. Confiei nos traços de seu caráter, que provavelmente não lhe permitiriam atirar contra um homem indefeso. No meu íntimo, declarei-lhe a guerra psicológica.
Com um baque surdo, minhas armas caíram ao chão. Rhodan riu.
Depois disse-lhe com uma ironia igual à que vinha usando comigo:
Pode atirar, seu bárbaro de uma figa. Devo estar bem visível. É uma pena que poucos dias atrás não puxei o gatilho. Você estava na minha mira, depois que teve a idéia idiota de destruir o helicóptero vermelho de Viesspahn. Será que você realmente acreditava que não percebi suas intenções? Encontrava-me a seu lado quando deu ordem para revistar os destroços.
Desta vez fui eu quem riu. Ao que parecia, minhas palavras roubaram-lhe a fala. De repente, o jogo me estimulava. Avancei mais um passo, desligando meu campo de deflexão. Tornei-me visível.
Quando me abaixei para tirar a espada da mão de plástico do boneco viking derrubado, só poderia fazer votos de que Rhodan não tivesse um radiador de choques. Dificilmente atiraria com o mortífero radiador energético.
Coloquei-o diante de um difícil problema de consciência, calculando tranqüila e minuciosamente os diversos fatores e considerando suas fraquezas. Se tivesse a imprudência de aceitar meu desafio...
Pesei a espada na mão direita, levantei-a e dirigi-me lentamente à porta que ficava a menos de quarenta metros.
Rhodan continuava calado. Todos os sentimentos pareciam ter morrido em minha mente. Meu sexto sentido envolveu-me numa letargia dolorosa. Nem um único impulso conseguiu romper o bloqueio.
Caminhei lentamente sobre o forro brilhante de plástico que revestia o soalho. Meus sapatos rangiam. Afastava-me cada vez mais das armas realmente eficientes que deixara no chão.
Num escudo polido, percebi que meus lábios se haviam contorcido num sorriso sarcástico. Transformara-me no desafio em pessoa. Só mesmo um patife sem o menor sentimento de decência atiraria contra mim de uma posição absolutamente segura.
Quando alcancei o centro do salão, já sabia que ele não tinha nenhuma arma de choque. Sem dúvida, refletia febrilmente sobre o meio de colocar-me fora de ação.
Se seus homens se encontrassem do outro lado da porta, não deixaria de chamá-los numa situação como essa. Afinal, eu não estava mais invisível. Afinal, seu orgulho e espírito humanitário não iriam ao ponto de dar uma boa chance a um elemento perigoso como eu.
Pare! — disse. — Se der mais um passo, serei obrigado a matá-lo. Não pense que escapará depois de tanto trabalho para descobri-lo. Arcônida, cometeu um erro ao vir a este museu. Meus psicólogos calcularam que este edifício seria um local de permanência muito atraente para você. Além disso, roubou a arma de um colono. Encontramos suas impressões digitais no coldre, que evidentemente foi examinado assim que o homem denunciou a perda.
As palavras foram sendo pronunciadas cada vez mais apressadamente. Rhodan encontrava-se num beco sem saída. Desconfiei de que a denúncia do furto da arma fora dada com alguma demora. Talvez, antes disso, o colono procurou descobrir pessoalmente a preciosa arma. Ninguém saberia dizer quais foram as pessoas de quem chegou a suspeitar.
Foi uma ótima idéia, homem das cavernas. Depois você veio imediatamente, não é?
Escutei minhas próprias palavras. Enquanto isso, caminhava tranqüilamente em direção à porta. Estaria percebendo minha tensão interna?
Será que sabia, ou ao menos imaginava, que como gladiador enfrentei na arena romana os homens mais hábeis no manejo da espada?
Em caso afirmativo, nunca se deixaria levar a enfrentar-me com esse tipo de arma. Até onde conseguira investigar meu passado? Apenas até o tempo de Gustavo Adolfo? Naquele tempo, já se lutava com outro tipo de espada. Será que seu orgulho e autoconfiança seriam suficientemente fortes para incutir-lhe a idéia de que estaria em condições de bater-se comigo? Se já tivesse recebibo lições de esgrima, dificilmente deixaria de ter essa idéia, ainda mais que eu tanto o provocava.
Qual teria sido o currículo de Rhodan? Será que naquele tempo a esgrima constava do programa da academia espacial? Não sabia, mas a conduta, que ele adotasse dali em diante, me esclareceria a este respeito.
Quando me encontrava a vinte passos da porta, uma lança germânica saiu do suporte. Mais adiante estavam expostas armas alemãs.
Metade da lança desapareceu no campo de deflexão de Rhodan. Apenas a ponta larga continuava visível. Foi levantada. Estava assumindo a posição de arremesso.
Pare! — advertiu em tom apressado. Sua voz vibrava. Rhodan encontrava-se sob os efeitos do flagelo psicológico. Esse homem não atiraria contra mim com uma arma atômica, Meus cálculos foram corretos.
Você sabe atirar, bárbaro — disse com um sorriso.
Depois arremessou para valer. Vi a ponta reluzente da lança deslocar-se rapidamente para trás. Estava tomando impulso. Quando o projétil cortou o ar, desviei- me com um salto rápido. Minha gargalhada sarcástica acompanhou a lança que acabara de errar o alvo.
Continuei a caminhar em direção à porta. Conforme esperava, Rhodan tornou-se visível de um instante para outro. Usava um uniforme simples. Com o corpo encurvado e a pistola apontada para mim, mantinha-se junto à coleção de armas germânicas. Seus olhos chamejavam. O problema de consciência martirizava-o.
Se fosse você já teria atirado, bárbaro — disse em tom tranqüilo.
Um suspiro profundo e raivoso saiu de seu peito. A arma de impulsos desapareceu no coldre. Com um movimento rápido, pegou uma espada.
Seu rebento arrogante do Império! — exclamou. — Se você pensa que eu...
Apenas penso que já teria atirado. Lamento não ter usado suas costas como alvo — interrompi-o com nova menção do fato de ter poupado sua vida. Essa observação arrasava-o moralmente, mas no estado de exaltação em que se encontrava não descobriu a finalidade de minhas palavras.
Dali a alguns segundos, vimo-nos frente a frente. Estendeu a espada pesada para a frente, à maneira do esgrimador. Não se lembrou do fato de que, com um instrumento pesado como este, não se devem fazer brincadeiras dessa espécie.
Golpeava como se segurasse uma lâmina leve. Não agüentaria mais que dois minutos: seu braço perderia a força.
Defendi-me sem maiores dificuldades, saltitando para o lado. Depois de meu primeiro golpe, que lhe arranhou o braço, percebeu que cometera um engano fatal.
Notei a rigidez de seu rosto. Investia contra mim sem dizer uma palavra. A cena era igual à que se costuma ver em filmes de terceira categoria. Defendia-me dos seus golpes furiosos, até que consegui acertar um golpe contra seu tornozelo direito.
No último instante, girei a espada. Assim, sua perna só foi atingida pela parte larga da lâmina. Apesar disso, soltou um grito e tombou ao chão. Antes que Rhodan conseguisse reprimir os gemidos, a ponta de minha lâmina exercia uma pressão sensível contra sua garganta. Com o pé, retirei o radiador energético do coldre aberto.
Subitamente Rhodan calou-se. Seu rosto tornou-se abatido; os cabelos desgrenhados cobriam sua testa.
Nossos olhos encontraram-se. Apertei mais um pouco.
Então, seu barbarozinho — disse baixinho e sem qualquer entonação. — Acho que você só sabe lidar com canhões de radiação.
Eu o odeio, arcônida! — disse.
Não se atrevia a mover um dedo.
Foi o que o gladiador romano Marco Vinício me disse quando sentiu a ponta de minha espada em sua garganta. Vinício caíra no desagrado de Nero, por ter feito algumas observações infelizes sobre o imperador divino. Nero baixou o polegar. Quem será que deve dar o sinal no presente caso? Como é que a gente pode cair numa destas? É claro que seus comandos não estão por aqui.
Rhodan fechou os olhos e conteve a respiração. Aumentei a pressão. Quando as primeiras gotas de sangue afloraram-lhe no pescoço e suas mãos começaram a tremer na angústia inconsciente da morte, retirei a arma.
Dei vazão ao meu nervosismo através de uma risada estridente e histérica. Ainda estava rindo quando Rhodan já se sentara e esfregava o tornozelo.
Não; eu não queria mais fugir. Não tinha forças! E minha vitória sobre Rhodan confirmara tudo aquilo que já sentira. Sabia que estava desperdiçando um tempo precioso. De um instante para outro, poderia receber auxílio. Tivera a intenção de levá-lo a envolver-se na luta para tornar-me invisível e desaparecer.
Preferi não agir assim. Tudo se tornara muito absurdo. Mesmo que conseguisse escapar, dali a poucos dias os agentes do serviço de defesa de Vênus usariam centenas de localizadores individuais. Nunca conseguiria entrar numa nave espacial sem que ninguém o percebesse. Decerto, já notara que minha fuga chegara a um beco sem saída. Tanta coisa estava mudada.
Atirei a espada para o lado, abaixei-me e apalpei sua perna. Rhodan ficou calado. Apenas seus lábios tremiam.
Você deveria tirar uma radiografia, meu caro — disse em tom tranqüilo. — Tive que golpear para fazê-lo cair. É possível que o osso esteja fraturado.
Depois disso ficamos sentados lado a lado, olhando-nos.
Passado algum tempo respondeu em voz baixa:
Não gostaria de defrontar-me com você na época áurea do Império, Atlan. Qual é a sua idade?
Pouco mais de dez mil anos terranos — respondi, também em voz baixa. — O centro de computação de Vênus foi construído sob minha direção.
Em seus olhos, surgiu um brilho no qual reconheci, num acesso de alegria, uma expressão de respeito. Por que tivemos a intenção de matar-nos?
Ainda quer ir para casa? — perguntou.
Sacudi lentamente a cabeça. Não, já não queria ir para casa. O que iria fazer no planeta Árcon?
Não menti. O Grande Império se encontra numa situação extremamente difícil. Ajude-me a substituir o regente. Nós, os humanos, precisamos de gente como você.
Sorri sem dizer uma palavra. Esses bárbaros pequeninos e tão ambiciosos sempre necessitaram do meu auxílio.
Senti a mão de Rhodan pousada no meu ombro. Ainda se encontrava lá quando o rato gigante subitamente materializou-se em meio à sala de armas antigas. Vi que o “sujeitinho” segurava uma arma energética. Ao ver-nos reunidos em atitude tão pacífica, sua boca abriu-se numa careta de espanto. O cano da arma apontou para o chão.
Olá — disse o rato gigante em voz estridente. — Isso deve ser um espetáculo especial, não é?
Fora! — ordenou Rhodan em tom tranqüilo. — Saia logo, senão ele voltará a atingi-lo com os raios paralisantes. Chame alguns robôs enfermeiros. Acho que meu tornozelo está fraturado. Não, nada disso. Quero que você dê o fora; não quero que faça perguntas.
Fechei os olhos, apavorado, quando o ser extraterrano se pôs a esbravejar. Rhodan escancarou a boca de tão espantado que ficou com o vocabulário de seu “estranho” amigo.
Ainda ajustaremos contas! — esbravejou o ser peludo antes de desaparecer num salto de teleportação.
Apesar da dor, Rhodan soltou uma risada. Arrependi-me de ter golpeado. Muito abatido, pedi desculpas.
OK; esqueça-se disso — disse com um gesto de desprezo. — Lá no espaço o inferno está às soltas. Receio que não demorarão em desmascarar a história de minha pretensa morte. Teria algumas tarefas para você, almirante.
Um sentimento estranho apossou-se de mim. Voltei devagar a cabeça em sua direção.
Você estaria disposto a confiar-me uma nave espacial?
Confirmou com um gesto.
Se necessário confio-lhe uma frota. Se você ama seu povo, terá que fazer causa comum com os humanos. Que diabo! Onde estarão os robôs enfermeiros?
Chegaram dali a poucos minutos e colocaram Rhodan numa maca. Um oficial do serviço de defesa fez continência. Já era meu conhecido. Tratava-se do general Kosnow em pessoa.
Caminhei ereto entre os homens do comando terrano que chegou momentos depois. O tenente Gmuna era um deles. Ria com os olhos alegres.
Dali em diante eles seriam dos meus, ou eu seria um deles, conforme se quisesse.
Depois que Rhodan foi colocado no aparelho, também entrei no grande helicóptero.
Uma certa Marlis Gentner o espera na chefatura — cochichou Gmuna. — Chegou ontem e implorou para que tivéssemos compaixão pelo senhor. Será que isso não poderia ser evitado?
Poderia, meu filho — respondi em tom tranqüilo. — Acontece que, segundo me parece, uma pessoa de meu tipo precisa de um certo tipo de auto-afirmação. Eu mesmo não sei dizer exatamente do que se trata.
A máquina decolou. A meu lado estava deitado um homem cujos lábios vez por outra se contorciam de dor. Mas, quando ria, sua risada era franca e alegre. Afinal, Perry Rhodan era mesmo uma criatura digna de minha estima.
Você deve ter muita coisa para contar — disse.
Respondi com um gesto pensativo. Poderia contar histórias por anos a fio. Os milênios haviam proporcionado o assunto.




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Atlan já não representa perigo para a existência do Império Solar, pois o arcônida percebeu que qualquer oposição aos planos de Rhodan seria insensata... Torna-se aliado de Perry.
No próximo livro da série, A Sombra do Supercrânio, surge um acontecimento com o qual ninguém contava: os mutantes se revoltam.

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