— Já
conheço a história; um não confia no outro — ficou refletindo
por algum tempo. — O senhor acredita que poderia ceder-me os planos
por algum tempo?
O swoon
hesitou. Não sabia exatamente qual era o papel que estava sendo
desempenhado por Rhodan e seus amigos. Estariam realmente agindo por
conta do Império? Se fosse assim, por que não se apresentavam
abertamente?
Gucky, que
continuava no sofá, disse:
— Conte
tudo, Rhodan. Markas só poderá ser nosso amigo se confiarmos nele.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Está
bem, Markas. Eu lhe contarei a verdade. O goniômetro de compensação
terá por fim descobrir a posição de meu mundo. Árcon quer
localizar meu planeta e destruí-lo. Quem está mais interessado
nisso são os saltadores. Celebrei um acordo com Árcon, mas o
regente não fez muita questão de cumpri-lo, embora um terrível
perigo ameace toda a vida da Via Láctea. Estou interessado em ver os
planos de fabricação do goniômetro para informar-me sobre algumas
das suas características. Mais que isso: tentarei construir um
aparelho capaz de neutralizar o novo goniômetro. Quero que as raças
inteligentes do Universo conservem ao menos um restinho de vida
privada. Tudo depende do senhor, Markas. O senhor é o único que
poderá ajudar-nos. Não podemos obrigá-lo a isso.
— Estou
disposto a ajudar, pois os senhores são muito diferentes dos
saltadores que, embora precisem de nossos serviços, não sentem
outra coisa senão desprezo por nós. Se Árcon estiver interessado
no goniômetro para travar uma guerra, prefiro destruir os planos.
— Isso
seria um erro — disse Rhodan. — Não há nenhum inconveniente em
que o novo goniômetro seja fabricado, desde que tenhamos alguma
certeza de que conseguiremos criar um meio de defesa. Para isso
precisamos dos planos, que logo depois serão recolocados no mesmo
lugar.
— Como
farei para trazê-los? — perguntou Markas, que a essa hora já
estava totalmente convencido.
Rhodan
sorriu.
— Meu
amigo Gucky irá com o senhor. Como já deve ter percebido, as
distâncias não representam nada para ele, já que é um
teleportador.
— E
Drog? O que posso fazer para que me dê sua chave?
— Nosso
mutante André Noir irá com os senhores. Drog fará qualquer coisa
que o senhor deseje. Acredita em mim?
O swoon
fez um gesto afirmativo. Estava com o rosto muito sério.
— O
senhor tem amigos poderosos. Pode fazer muitas coisas de que os
outros humanóides não são capazes. Seu mundo deve ser um lugar
fantástico e certamente dispõe de um poder extraordinário.
Rhodan
inclinou-se para a frente.
— Quer
vê-lo?
Markas
adiantou-se um pouco e fitou o terrano.
— Sim,
estou interessado em conhecer seu mundo. É muito extenso? Será que
poderíamos viver lá? Será que se formos nunca mais poderemos
voltar para Swoofon?
— É um
risco que o senhor terá de assumir, Markas. Mas garanto-lhe que no
planeta Terra o senhor terá uma vida boa e segura. Cuidarei disso.
Quem sabe se o quarto planeta do sistema solar não poderá vir a ser
seu mundo? As condições reinantes ali são semelhantes às de
Swoofon. Ainda falaremos a este respeito. Por enquanto devemos cuidar
dos planos do goniômetro. Quando deseja ir buscá-los juntamente com
Gucky e Noir?
— Agora
— disse o swoon em tom decidido.
— Pois
partam imediatamente — decidiu Rhodan.
*
* *
Drog
voltou a desligar o rádio.
Ainda
levou alguns minutos fitando a tela apagada, na qual há pouco vira o
rosto enérgico de um poderoso saltador. As instruções eram
inequívocas. Devia apressar-se. Não poderia perder um segundo que
fosse. Ao que parecia, Perry Rhodan, o terra-no, estava desconfiando
de alguma coisa. Provavelmente a história do criminoso foragido era
apenas um pretexto para revistar Swoofon em busca dos planos do novo
goniômetro.
Todavia,
isso não passava de suposição.
No
entanto, o surgimento da frota de guerra de Árcon parecia ser uma
prova de que o regente concordava com os atos de Rhodan. De outro
lado, Talamon já se retirara com seu couraçado espacial. Só Rhodan
ficara para trás, com as três naves gigantescas e a frota de
pequenas naves auxiliares.
Drog
sacudiu os ombros.
Pouco
importava o que o tal do Rhodan estivesse tramando; se quisesse obter
os planos do novo goniômetro, sofreria uma amarga decepção. E
quanto a Markas, que desaparecera de repente...
Drog não
gostava dos swoons, mas não podia deixar reconhecer que eram os
melhores técnicos da Via Láctea. Ninguém seria capaz de fabricar
as peças minúsculas do aparelho com tamanha rapidez e precisão.
Precisavam dos swoons, quer gostassem deles, quer não.
Claro que
Drog conhecia a futura fábrica e sabia qual era sua posição.
Utilizaria a única linha férrea para chegar lá e levaria os
preciosos planos. Markas ficaria com cara de bobo se voltasse e não
o encontrasse mais. De qualquer maneira, não poderia abrir o cofre.
Mas ele,
Drog, podia. Possuía uma duplicata da chave de Markas.
Satisfeito
por ter encontrado uma solução que seria do agrado de seus chefes,
Drog realizou uma ligeira ronda de inspeção e entrou no escritório
de Markas, onde passou a lidar com o cofre, que não era muito maior
que uma caixa postal, mas fora feito de aço arcônida indestrutível.
A porta
abriu-se, deixando à mostra o interior do cofre. Os planos estavam
guardados numa pasta marrom.
Drog pegou
a pasta, voltou a fechar o cofre e foi à estação, onde pediu ao
coordenador do tráfego que preparasse o quanto antes um transporte
para a nova fábrica de goniômetros.
Dali a uma
hora, estava confortavelmente deitado em dois vagões acoplados. A
pasta marrom serviu-lhe de travesseiro. Sorriu satisfeito ao
contemplar o teto de rocha do túnel, que parecia deslizar para trás
a uma velocidade cada vez maior.
Se
necessário, cumpriria a tarefa sem o auxílio de Markas. Tomaria
todas as providências para que o primeiro goniômetro pudesse ser
testado ainda naquela semana.
5
Os
elevadores de carga já estavam funcionando, motivo por que Gucky,
Noir e Markas puderam voltar à cidade subterrânea pela via usual.
Os três
indivíduos ofereceriam uma visão estranha e assustadora para os
habitantes daquele mundo. Noir, o terrano, era o maior do grupo;
usava o uniforme do Império Solar e estava armado com um radiador
portátil. A ele seguiu-se Gucky, o rato-castor, que não usava
qualquer roupa e tinha um metro de altura. E ainda havia Markas, uma
pequena criatura com o aspecto de pepino. Embora o aspecto exterior
dos três indivíduos fosse muito diferente, eles se igualavam em
inteligência e senso de responsabilidade. Eram seres de origem
totalmente diversa, não tinham nenhum parentesco, mas pareciam
pertencer ao mesmo grupo. Não estavam ligados por um planeta, nem
por um sistema solar, mas eram todos habitantes da Via Láctea, que
achava-se ameaçada por um perigo terrível.
O elevador
foi descendo. Oferecia lugar para os três, motivo por que chegaram
juntos aos arrabaldes de Gorla. Prosseguiram imediatamente e, dentro
de poucos minutos, encontravam-se na estação ferroviária com a
qual Gucky já estava familiarizado.
Alguns
swoons lançaram-lhes olhares curiosos, mas Markas mandou que
prosseguissem com seu trabalho, dizendo-lhes algumas palavras
tranqüilizadoras. Mesmo aqui embaixo os saltadores não eram nenhuma
novidade. Apenas Gucky provocou alguma sensação, que em outra
oportunidade certamente teria alegrado bastante o rato-castor.
Mas, a
essa hora, as atenções dos curiosos swoons começaram a
incomodá-lo. Dirigindo-se a Markas, disse:
— Precisamos
descobrir o quanto antes o tal do Drog. Noir lhe aplicará seu
tratamento. É um hipno, e saberá impor sua vontade ao saltador.
Markas
saltitou pela estrada que dava para a fábrica, esforçando-se para
acompanhar Noir e Gucky que, por sua vez, “arrastavam-se”,
a fim de deixá-lo satisfeito.
— Daqui
a pouco estaremos lá. E no meu escritório descobriremos onde está
Drog.
Noir não
teve qualquer dificuldade em entrar no edifício de escritórios
especialmente adaptado. Sentou na mesma banqueta que Drog costumava
usar. Gucky olhou em torno. Seus olhos caíram no cofre embutido.
— É lá
que estão os planos? — perguntou.
Markas
disse que sim.
— Só
precisamos de Drog. Pensei que estivesse aqui. Um momento.
Dirigiu-se
à parede e manipulou os controles da instalação de rádio, que o
ligavam a todos os pontos da fábrica e ao mundo exterior. Depois de
poucos segundos, conseguiu estabelecer contato com a central.
— Queira
informar onde se encontra o saltador Drog.
— Há
duas horas o saltador saiu do setor NH/K/075, depois de ter ordenado
a formação de um comboio destinado a NH/K/078. Viajou nesse
comboio. Quer que procuremos entrar em contato com ele?
Markas
parecia indeciso; viu o olhar de Gucky.
— Obrigado;
não é necessário.
Interrompeu
a ligação e olhou para trás.
— E
agora? — perguntou em tom de perplexidade. — O que poderia ter
levado Drog a antecipar para hoje sua viagem à fábrica de
goniômetros? O que pretende fazer lá?
— Estou
mais interessado em saber como poderemos pôr as mãos nos planos —
disse Noir. — Para abrir o cofre, precisamos da chave dele.
— Nesse
caso teremos de procurar Drog — murmurou Markas em tom de desânimo.
— Por
quê? — perguntou Gucky. — Preste atenção, Markas. Como é o
fecho do cofre: eletrônico ou mecânico?
— O
cofre tem uma fechadura eletrônica e uma fechadura mecânica —
disse o swoon. — Será impossível abri-lo sem a chave, se é a
isso que está aludindo. Aqui se faz muita questão de que ninguém
possa roubar os planos.
— Isso é
perfeitamente compreensível — disse Gucky enquanto contemplava o
cofre com os olhos reluzentes. — Acho que poderia ser um excelente
abridor de cofres. Quer dizer que existe uma fechadura eletrônica?
Acho que conseguirei, desde que consiga descobrir os contatos do
relê. Assim que a corrente passar pelo mecanismo, o cofre se abrirá.
O trinco mecânico será mais fácil de remover.
— Como?
— perguntou Markas em tom de espanto.
Noir
explicou:
— Já
ouviu falar em telecinese, Markas? — disse. — Trata-se de fluxos
de energias transmitidos pelo cérebro de um mutante e que são
capazes de mover porções de matéria situadas em outro lugar. Gucky
é um telecineta.
O swoon
fitou o rato-castor com uma veneração cada vez mais intensa.
— É
telepata, teleportador e, além de tudo, ainda telecineta? Gucky é
mesmo uma criatura muito poderosa!
O
rato-castor sentiu-se satisfeito com a admiração que lhe foi
tributada, mas logo voltou a dedicar-se àquilo que importava.
— Posso
pedir silêncio absoluto? Tentarei abri-lo. Não deverá demorar mais
que alguns minutos...
Noir e
Markas recuaram alguns passos, deixando Gucky só à frente do cofre.
O rato-castor concentrou-se e suas ondas cerebrais foram penetrando
cautelosamente na confusão de comandos eletrônicos que vedavam o
acesso aos obstáculos mecânicos, e que teriam de ser removidos.
Assim que
escutou o primeiro estalido, o corpo de Gucky descontraiu-se, mas não
fez nenhuma pausa. O único ruído que se ouvia era a respiração de
Noir. Markas mantinha-se rígido e imóvel, como se realmente fosse
um pepino incapaz de sair do lugar.
Ouviu-se
outro estalido. Gucky disse:
— Agora...
A porta
abriu-se.
Markas
soltou um pio de alegria e admiração. Saltitou através da sala
superdimensionada e colocou-se ao lado de Gucky. Ambos olharam para
dentro do cofre.
— Então?
— perguntou Noir, que também se aproximara. — Onde estão os
planos? São de formato reduzido?
Markas
adiantou-se mais um passo. Quase chegou a entrar no cofre. Ao
virar-se, disse:
— Estavam
aqui, mas desapareceram. Drog e eu somos as únicas pessoas que
possuem a chave, e o cofre só pode ser aberto com ambas as chaves.
Não compreendo.
— Pois
eu compreendo — disse Gucky com a voz zangada. — Drog possuía
uma duplicata de sua chave, Markas. Ele o enganou. Ou melhor, enganou
a todos nós. E agora?
O swoon
controlou-se com uma rapidez extraordinária. Lançou mais um olhar
para o cofre vazio e sugeriu:
— Se
Drog furtou os planos, teremos de procurá-lo. Sabemos onde está. O
que estamos esperando?
Gucky
olhou para Noir.
— Até
parece que Markas pode ensinar-nos alguma coisa! — exclamou. —
Tem toda a razão. O que estamos esperando?
Preferiram
não utilizar um dos trens que trafegavam constantemente de um lugar
para outro. Um salto de teleportação levou-os de volta à
superfície, onde voltaram a orientar-se. Noir havia trazido o mapa,
no qual Markas registrou cuidadosamente o ponto em que ficavam as
instalações subterrâneas da fábrica de goniômetros. Depois Gucky
não teve a menor dificuldade em atingir o local por meio de dois
saltos de teleportação, um deles horizontal, pela superfície, e
outro vertical, que os levou às profundezas.
Materializaram-se
num pavilhão quase vazio, cujo teto e soalho consistiam em rocha
nua. Parecia muito alto para as condições reinantes em Swoofon, mas
logo se lembraram que ali seriam construídos os aparelhos que um dia
deveriam ser instalados nas imensas naves dos saltadores Além disso,
era de esperar que, assim que fosse iniciada a produção, os
saltadores mantivessem constantemente observadores no local.
*
* *
Drog nem
desconfiou do desastre que se aproximava, embora sentisse que alguma
coisa não estava em ordem. Era bem verdade que seu nervosismo se
tornara bem menor depois que conseguira apoderar-se dos preciosos
planos. Sabia que eram os únicos exemplares, com exceção dos
originais. E estes estavam muito bem guardados num pequeno planeta
dos mercadores galácticos.
Já se
convencera de que esse bloqueio ordenado por Rhodan, por conta de
Árcon, constituía um fato muito mais importante do que parecera de
início. Ninguém isolaria todo um sistema para procurar um único
homem. Além disso, o desaparecimento de Markas começava a
preocupá-lo.
Saiu do
vagão, deu um berro para espantar alguns swoons e seguiu pela
estrada ainda em construção que levava aos pavilhões da fábrica.
Um dia seu escritório ficaria ali. Poderia perfeitamente instalar-se
desde já, da melhor forma possível.
Os swoons,
que vinham ao seu encontro, desviavam-se apressadamente assim que o
viam. Não parecia que o saltador, que para eles era um verdadeiro
gigante, tivesse a intenção de dispensar-lhes qualquer
consideração. Já haviam sofrido experiências dolorosas com aquela
raça.
Drog não
deu a menor atenção aos swoons. Ainda teria tempo de exprimir-lhes
seu respeito, quando precisasse deles, e desde que fizessem questão
disso. De qualquer maneira seria uma mentira.
À sua
esquerda havia uma parede metálica, atrás da qual ficava um
pavilhão da fábrica.
Deixando-se
guiar por um impulso repentino, Drog saiu do caminho que vinha
seguindo e, passando por um portão muito baixo, penetrou no
pavilhão. Teve de abaixar-se para não bater com a cabeça.
— Oportunamente
mandarei modificar isso — disse em tom furioso e estacou de
repente. Por pouco não deixa cair a pasta que trazia embaixo do
braço.
À sua
frente — ou melhor, embaixo dele — estava Markas!
Drog
reconheceu-o imediatamente, embora não fosse fácil distinguir os
swoons. Infelizmente não havia a menor possibilidade de comunicação,
pois não dispunha de um tradutor.
— Saia
do meu caminho, verme nojento! — berrou Drog.
Apavorado,
Markas tapou as orelhinhas. Confiava no rato-castor, que se mantinha
escondido nos fundos do pavilhão, juntamente com Noir. Embora não
entendesse uma palavra daquilo que o gigante acabara de gritar,
imaginava o significado. Mas parou obstinadamente. Numa das mãos —
a rigor a extremidade dos braços com os dedos finíssimos não
poderia merecer este nome — exibiu a chave do cofre ao saltador.
Drog
compreendeu imediatamente.
— Ah, é
por causa dos planos? O azar é seu, meu caro; estão comigo. Aliás,
o que é que você tem com os mesmos? Onde andou por tanto tempo?
Lembrou-se
de que o swoon não poderia compreendê-lo e aborreceu-se por estar
perdendo tanto tempo.
“Por
que o anão não cuidou logo da construção do primeiro modelo do
goniômetro, conforme haviam combinado?”,
pensou e apontou para a saída.
— Venha
comigo. Preciso falar com você.
O swoon
não poderia deixar de entender o gesto, mas não saiu do lugar. Drog
estendeu a mão para pegar Markas, mas estacou em meio ao movimento.
Alguma
coisa invisível exercia uma pressão súbita sobre seu cérebro,
comprimia sua consciência e começou a eliminar sua vontade. Sentiu
uma dor suave. O pavilhão começou a girar diante de seus olhos, mas
não perdeu os sentidos. Percebeu perfeitamente o que lhe aconteceu
nos minutos seguintes, mas não teve condições de resistir.
Dos fundos
do pavilhão vieram duas criaturas; uma delas tinha o tamanho dele,
enquanto a outra tinha apenas a metade desse tamanho. Já conhecia
esse bicho esquisito.
Gucky
manifestou seu desagrado.
— Acha
que sou um bicho — disse, dirigindo-se a André Noir e sacudindo a
cabeça. — Pensei que este mercador fosse mais inteligente. Ainda
não conhece Gucky!
Noir não
se deixou distrair. Suas vibrações cerebrais estenderam-se a plena
potência em direção à consciência do saltador e eclipsaram-na.
Sem que o outro soubesse, assumiu seu espírito e seu sistema
nervoso, e com isso também seu corpo. Tratava-se de um tipo de
hipnose, muito mais eficiente e duradoura que os outros procedimentos
desse tipo. Os comandos eram transmitidos por via telepática e o
destinatário os executava sem a menor vacilação.
— Dê-me
a pasta com os planos — ordenou Noir.
Gucky já
lhe havia dito o que continha a pasta.
Drog
obedeceu.
— Venha
conosco!
Nos
minutos seguintes, encontraram-se com vários swoons, principalmente
na rua, mas nenhum deles estranhou a presença do saltador que
caminhava ao lado de Markas, chefe da equipe científica, além de um
estranho ser peludo e de outro sujeito. Todos conheciam Drog, que
agia de forma completamente diversa das outras vezes em que era dono
de sua vontade.
Markas
parou à frente de uma porta.
— Aqui
ficam os escritórios da administração. Um deles foi instalado
especialmente para Drog. Acho que é o lugar mais adequado. Quanto
tempo teremos de esperar?
— Acho
que não demorará muito — respondeu Gucky. — Saberei encontrar
sozinho e depressa o caminho para a nave. Rhodan poderá examinar os
planos e copiá-los. Dentro de meia hora, estarei de volta. Até lá
terão de cuidar de Drog; ainda é cedo para soltá-lo.
— Não
há nenhum problema — disse Noir, que não desgrudava do saltador.
Quando
puderam fechar a porta e se viram sós, suspiraram aliviados. Os
olhares indagadores e curiosos dos inofensivos e bondosos swoons que
andavam pela rua tinham se tornado quase insuportáveis. Embora não
vissem nada de estranho no comportamento de Drog, a presença do
grupo dava o que pensar. E Noir não poderia erradicar a memória de
todos, como fizera com Drog.
— Pode
começar, Noir — disse Gucky e fez um sinal para que Markas se
aproximasse. — Veja só, baixinho, como este saltador vai contar
tudo que desejamos saber.
Noir
conduziu Drog a um canto, depois de ter entregue a pasta a Gucky. O
rato-castor examinou-a, a fim de verificar se os planos realmente
estavam na mesma. Markas confirmou a autenticidade dos projetos.
Assim que
Noir iniciou seu “tratamento”,
os olhos de Drog adquiriram uma estranha rigidez e pareciam
dirigir-se para longe. Manteve-se imóvel, como se estivesse
paralisado.
— Quem
mandou construir o goniômetro de compensação? — perguntou Noir.
A resposta
foi imediata:
— O
regente de Árcon.
— Quem o
inventou?
— Um dos
nossos cientistas; não conheço o nome.
Não havia
a menor dúvida de que estava dizendo a verdade.
— Qual
será o montante da produção?
— O
goniômetro de compensação deverá ser montado em todas as naves do
Império, a fim de que nenhum salto possa ser efetuado sem a devida
localização. O objetivo principal consiste em encontrar a Terra,
planeta natal de Rhodan.
— É por
isso que a fabricação será secreta?
— É
principalmente por isso. Ainda acontece que o aparelho terá peças
muito pequenas e extremamente sensíveis, que só poderiam ser
construídas pelos swoons. Mais tarde, a fábrica será transferida
para um dos planetas pertencentes aos saltadores.
Noir
lançou um ligeiro olhar para Markas e perguntou:
— Com a
concordância dos swoons?
— Levaremos
um grupo dos mesmos.
— Tudo
isso será feito por ordem do regente?
Drog
respondeu sem a menor hesitação:
— Não;
esta idéia é minha. O clã ao qual pertenço adquirirá o monopólio
de fabricação. Oportunamente os planos serão destruídos.
— E o
inventor? Os planos originais?
Drog
sorriu como quem se deleita num belo sonho.
— Tomamos
nossas providências para que a vida do inventor não seja muito
longa. Assim que o novo goniômetro tenha sido testado, o inventor,
cujo nome não conheço, morrerá. Os planos também serão colocados
em nossas mãos e destruídos. Ninguém poderá agir contra nós,
pois nesse caso não haverá nenhum goniômetro de compensação.
Noir
lançou um olhar para Gucky. O rato-castor soltou um suspiro.
— É um
verdadeiro complô — constatou. — E um complô que atingiria até
o Império de Árcon. Estragaremos a festa deles, conforme costuma
dizer Bell. Bem, o que sei já basta. Esperem aqui até que eu volte.
Não demorarei.
Noir e
Markas confirmaram com um gesto. O swoon já se acostumara com o
gesto afirmativo dos humanos. Aprendia com uma rapidez
extraordinária.
O
rato-castor desmaterializou-se e saltou para a superfície. Depois
concentrou-se na sala de comando da Drusus e para sua surpresa foi
parar justamente no colo de Bell, que estava sentado no sofá, ao
lado de Sikermann.
— Pare
de gritar! — pediu Gucky ao amigo, que estava muito assustado, e
escorregou para o chão, segurando firmemente a pasta. — Onde posso
encontrar o chefe?
Rhodan já
ouvira Gucky. O rato-castor foi atingido por um impulso mental, antes
que Bell tivesse tempo para responder.
— Não
se preocupe, gorducho — disse Gucky em tom tranqüilizador e
caminhou em direção à porta. — Rhodan já me espera.
Logo
desapareceu.
Bell fitou
a porta fechada e enxugou o suor que lhe corria pela testa.
— Ainda
terei um ataque — disse em tom sombrio.
*
* *
Na sala de
combate da Drusus, Hubert Gorlat, um homem ruivo que ocupava o posto
de capitão do serviço de segurança, pôs-se a trabalhar. Rhodan e
Gucky mantiveram-se afastados e viram os planos serem abertos e
copiados cuidadosamente. A fim de não perturbar o trabalho de
Gorlat, Gucky relatou a seu chefe por via telepática aquilo que
soubera de Drog.
Dali a uns
cinco minutos, Rhodan perguntou em voz alta:
— Se eu
o entendi corretamente, o tal do Drog pretende seqüestrar um grupo
de swoons altamente especializados a fim de fixá-los num mundo
desconhecido, onde passariam a fabricar o goniômetro de compensação
exclusivamente para ele.
— Sim;
foi isso que Drog declarou depois de ter recebido o “tratamento”
de Noir.
— Nesse
caso, apenas disse a verdade — Rhodan fez uma pausa e acrescentou:
— Quando você for levar os planos e trouxer Noir, traga também o
pequeno swoon. Se não me engano seu nome é Markas.
— Pois
não, chefe. Você prometeu que o levaria à Terra juntamente com
Waff.
De repente
Rhodan sorriu e lançou um olhar quase afetuoso para Gucky.
— Você
gosta dos swoons, não gosta?
Gucky
ficou radiante.
— Gosto
muito deles, Rhodan. Além de pequenos e alegres, são muito
inteligentes e graciosos. Ficaria muito feliz se não me separasse de
Waff e Markas. Acho que terão muito prazer em ir conosco.
— Vou
submeter-lhes uma proposta muito interessante, Gucky. Não se esforce
em vão; por enquanto não descobrirá nada. Traga Noir e Markas.
Depois sua curiosidade será satisfeita.
Olhou para
Gorlat, que desligou a copiadora e dobrava os planos.
— Pronto,
capitão? Quero examinar esses projetos juntamente com Crest e Atlan.
Tive uma boa idéia.
Pegou os
planos das mãos de Gorlat e dobrou-os cuidadosamente para que
pudessem ser guardados. Entregou a pasta marrom a Gucky. Deu uma
palmadinha no ombro do rato-castor.
— Ande
depressa, Gucky. Espero-o no camarote de Crest. Não se esqueça de
trazer Markas.
Um sorriso
matreiro surgiu no rosto de Gucky, que exibiu o solitário dente
roedor.
— Seria
mais fácil eu esquecer minha cauda — asseverou. Depois
concentrou-se e saltou.
A última
coisa que Rhodan viu de Gucky foi o rabo coberto de pêlos marrons.
Sabia que não o deixaria para trás, da mesma forma que não
deixaria um pequeno swoon que atendia pelo nome de Markas.
*
* *
Dali a
pouco, Drog dirigia-se ao edifício da administração, segurando a
preciosa pasta. Refletia sobre o que andara fazendo nas últimas duas
horas.
Enquanto
isso uma conferência decisiva realizava-se no interior da Drusus.
Crest desempenhava o papel de anfitrião.
Estava
sentado na cabeceira da mesa semicircular e, imóvel, ouvia as
palavras de Atlan, o imortal, cujas mãos seguravam as cópias dos
planos. Além de Rhodan, Bell e Gucky, ainda participavam da reunião
Gunter Forster, engenheiro-chefe, e o Dr. Ali el Jagat, chefe da
equipe matemática.
— O
princípio do goniômetro é fácil de compreender, desde que se
conheçam os princípios gerais que regem o funcionamento do
compensador estrutural, pois o aparelho foi criado com base no mesmo.
E também será fácil criar o aparelho seguinte: o equipamento de
absorção. Este engolirá os impulsos do compensador, para que o
goniômetro não possa localizar nada. Com isso perderá todo valor.
Rhodan
lançou um olhar sério para Atlan. Sabia que poderia confiar
integralmente em seu novo aliado, mas era perfeitamente possível que
o imortal superestimasse sua capacidade...
— Atlan,
você tem certeza absoluta de que será possível construir o
equipamento de absorção?
Atlan
acenou com a cabeça e apontou para Jagat e Forster.
— Pergunte
aos especialistas, Rhodan. Eles confirmarão o que acabo de dizer. É
bem verdade que não devemos esquecer que o goniômetro será
construído em Swoofon, motivo por que terá peças microscópicas. E
o aparelho de absorção deverá também ter peças do mesmo tamanho.
Esta é a única lacuna vaga de minha linha de raciocínio.
Rhodan
sorriu.
— Obrigado,
Atlan. Ainda falaremos sobre isto. Pelo que entendi, o fato de que
dentro de três ou quatro meses as naves de reconhecimento dos
saltadores estarão equipadas com o novo goniômetro não
representará qualquer risco para nós, pois até lá conseguiremos,
com o auxílio dos swoons, construir o aparelho de absorção. Não é
isso?
— Teoricamente
sim...
— Está
bem — Rhodan lançou um olhar para Gucky, que segurava os dois
swoons no colo e parecia ter esquecido o resto do mundo. — Quero
pedir a Markas que responda a algumas perguntas. Sente-o na mesa,
Gucky.
Markas
andou de um lado para outro, um tanto inseguro, antes de encontrar a
posição correta face ao tradutor eletrônico. Waff observava-o
atentamente. Continuava sentado no colo de Gucky.
— Faça
o favor de perguntar — pediu o swoon. — Farei o possível para
deixá-lo satisfeito.
Rhodan
inclinou-se para a frente e fitou os olhos claros do swoon. Leu nos
mesmos uma simpatia sincera e sentiu uma onda de ternura pelos
pequenos seres. Estas criaturas pequenas e esquisitas, um tanto
ridículas por possuírem o formato de um pepino, possuíam um
caráter tão bondoso e decente que raramente seria encontrado entre
os humanos. Provavelmente a amizade desses seres seria perdida para
sempre, se não tivessem tido o cuidado de reconhecer neles grandes
inteligências e dar-lhes o tratamento merecido. Rhodan começou a
compreender a atitude de Gucky.
— Markas,
o senhor manifestou o desejo de conhecer meu mundo. Poderei cumprir
esse desejo, mas antes disso quero fazer-lhe uma proposta, e peço-lhe
que reflita sobre a mesma. Se recusar, ninguém ficará zangado com o
senhor; apenas lhe peço que não tome uma decisão apressada.
— Qual é
a proposta?
— Gostaria
que o senhor e Waff, juntamente com uns dez ou vinte mil swoons,
abandonassem o planeta e viessem comigo à Terra. Temos necessidade
urgente de microtécnicos competentes como os senhores. Ofereço-lhes
uma área e instalações que reúnam as condições desejadas pelos
senhores. Ganharão o mesmo salário dos nossos especialistas mais
competentes, além de certos prêmios. Serão obrigados a trabalhar
por cinco anos. Quem quiser voltar a Swoofon depois desse prazo, será
levado a seu planeta sem qualquer despesa. Apenas faço uma condição:
para os swoons a viagem ao planeta Terra será um vôo “cego”.
Isto é: não ficarão sabendo a posição galáctica de meu mundo.
Todos
ouviram ansiosos as palavras de Rhodan. Crest acenou lentamente com a
cabeça, como se esperasse algo semelhante. Atlan pôs-se a sorrir, e
em seus olhos lia-se um elogio pela sabedoria de Rhodan. Gucky
acariciava o pequeno Waff, que trazia no colo, e exibiu um sorriso
que quase chegava a ser provocador. Bell notou o sorriso, mas não
esboçou qualquer reação.
Markas
respondeu:
— No que
me diz respeito, posso aceitar sua proposta. Tenho certeza de que
Waff também estará disposto a ir conosco. Deseja especialistas de
alguma área especial radicados em nosso planeta?
— Sim,
se for possível. Gostaria de ter alguns representantes de cada área
de conhecimento, a fim de que a colônia de swoons da Terra possa
produzir tudo que se fabrica em seu planeta natal. Compreende o que
quero dizer?
— Perfeitamente
— respondeu Markas. — De quanto tempo poderei dispor para
escolher as pessoas que irão conosco?
Rhodan
ergueu as sobrancelhas.
— Terá
pouco tempo, pois pretendo decolar quanto antes. Não quero que o
regente; pense que intenciono instalar-me aqui. Além disso, a
construção do aparelho de absorção terá de ser iniciada com
urgência. Traga alguns cientistas que sejam capazes disso.
Markas
lançou um olhar para Waff.
— Permita
que Waff vá comigo; assim não demoraremos muito.
— Leve
Waff — disse Rhodan. — Mas existe mais um detalhe a ser
observado. Ninguém deverá saber que um swoon que seja saiu do
planeta. Quando perguntar a um dos seus amigos se quer acompanhar-nos
à Terra, deverá ter cem por cento de certeza de que a resposta será
afirmativa. Compreende o que quero dizer?
— Naturalmente.
Mas tudo isso não é tão difícil como o senhor poderia acreditar.
Ao leste de Gorla existe um centro experimental de tecnologia
aplicada. Trata-se de uma espécie de universidade prática, na qual
são treinados os futuros especialistas. O corpo docente é formado
por cientistas de primeira linha. Nas fábricas-escola estão todas
as ferramentas especiais que existem e já existiram em Swoofon. Se
conseguirmos transferir para a Terra tudo que se encontra nessa
universidade, juntamente com os professores e alunos, não haverá
nada que não possamos construir, desde os mini-transmissores de
televisão até os hiperpropulsores em formato reduzido.
Rhodan
confirmou com um gesto. Seus olhos se iluminaram.
— Obrigado,
Markas. Acho que isso seria uma solução. Será que conseguirá
convencer todos os habitantes do centro experimental a aceitar nossa
proposta? O que acontecerá se não estiverem de acordo?
Markas
sorriu.
— Ninguém
recusará. Deixe tudo por minha conta. Quando deverei partir?
Rhodan
lançou um olhar para Gucky.
— Você
acompanhará Markas e Waff, baixote. Quem você quer que o ajude
quando chegar a hora? Anne Sloane?
Anne
Sloane era telecineta. Gucky, que já compreendera o que Rhodan
pretendia fazer, sacudiu a cabeça.
— Não
quero ninguém, Rhodan. Nem a telecinese, nem a teleportação
poderão, por si só, resolver o problema. Sou o único mutante que
reúne ambas as faculdades. Sabe do que quero dizer?
Rhodan
acenou lentamente com a cabeça. O rato-castor prosseguiu:
— Quando
chegar a hora, farei a coisa sozinho — levantou-se, com Waff no
braço. Com a mão livre segurou cautelosamente Markas. — Avisarei
quando estiver na hora. Passem bem.
Dali a um
instante, o ar tremeluzente era o único vestígio que restava dos
swoons que se encontravam naquele lugar.
Bell fitou
o espaço vazio.
— Não
compreendi nada — confessou a contragosto. — O que está havendo?
Que negócio é este de combinar a teleportação e a telecinese?
Rhodan deu
um sorriso para Crest e Atlan e respondeu:
— Pois
bem, meu caro Bell, se você soubesse ler pensamentos, sua vida seria
muito mais fácil, não é? Mas não quero torturá-lo. Preste
atenção; vou explicar...
Bell
prestou atenção.
6
Os
comandantes dos quarenta girinos ficaram bastante espantados quando
receberam, dali a duas horas a seguinte mensagem da Drusus:
Chamando
os comandantes de todas as naves K. Todas as unidades, com exceção
da K-33, voltarão à Terra por suas próprias forças. Realizem
vários saltos, sob a proteção dos compensadores. Tomem o máximo
de cuidado. A unidade K-33 deverá apresentar-se imediatamente a mim.
Fim. Rhodan.
Houve
algumas consultas, mas Stern, que neste meio tempo voltara a assumir
o serviço de rádio, removeu todas as dúvidas.
Era isso
mesmo. O bloqueio de Swoofon havia sido suspenso, e os girinos não
deveriam voltar para bordo da Drusus. Os que pertenciam à Titan e à
General Pounder receberam ordem para voltar às suas unidades, a fim
de abandonarem imediatamente o sistema.
Parecia
uma retirada bem organizada. E realmente era uma retirada, se bem que
um estrategista talvez dissesse que se tratava de um lance do jogo.
Mas ninguém deveria saber disso.
O
comandante da nave girino K-33 era Mikel Tompetch, um americano
corpulento, de cabelos louros. Dez minutos depois de ter recebido a
mensagem, entrou cuidadosamente com sua nave na escotilha aberta da
Drusus e pousou no hangar. Os recintos em que estavam estacionadas as
naves auxiliares estendiam-se que nem um anel em torno da gigantesca
esfera que era a Drusus. Podia abrigar um total de quarenta girinos,
cada um dos quais tinha sessenta metros de diâmetro.
O Tenente
Tompetch desceu a rampa e não demonstrou maior interesse pela
tripulação, que também saiu da K-33. Ao que parecia, não havia
outra missão à vista. Os homens retornariam aos lugares que
ocupavam na Drusus, onde havia uma necessidade premente deles, face à
ausência das tripulações das outras naves K.
Enquanto
se dirigia ao elevador antigravitacional, encontrou-se com Reginald
Bell.
Dirigiu-se
a ele e perguntou em tom exaltado:
— Será
que o senhor poderia informar o que significa tudo isso? Será que
alguém pensa que eu não seria capaz de voar sozinho à Terra, já
que os outros girinos podem realizar este vôo, enquanto nós...
— Calma!
— disse Bell, e um sorriso largo cobria seu rosto. Apontava para a
K-33. — Isto é um calhambeque que já está precisando de uma
revisão geral, certo?
O espanto
de Tompetch não durou mais que um segundo.
— Calhambeque?
O que quer dizer com isso? Não é mais velha que as outras. É bem
verdade que aquela colisão com o asteróide não fez bem à K-33,
mas as peças danificadas foram todas substituídas. De qualquer
maneira, não teríamos o menor problema em voar à Terra.
— Não é
disso que se trata, tenente — disse Bell em tom enérgico. — Devo
comunicar-lhe que o senhor nunca mais pilotará a K-33. Se ainda
houver algum pertence pessoal a bordo da unidade, vá tirá-lo
imediatamente. A mesma ordem aplica-se aos tripulantes.
A cara de
Tompetch exprimia espanto e perplexidade.
— Nunca
mais pilotarei a K-33? Por quê?
— O
chefe explicará, tenente. Providencie para que tudo seja retirado da
K-33. Oportunamente avise ao chefe que a ordem foi cumprida. Aliás,
destaquei alguns técnicos que o ajudarão a retirar alguns
instrumentos de maior valor. Até logo mais, tenente.
Tompetch
seguiu-o com os olhos com uma expressão de perplexidade, cocou a
cabeça loura e soltou um suspiro. Dirigiu-se ao hangar e ligou o
intercomunicador, para chamar de volta os tripulantes de sua unidade.
Depois
pôs-se a trabalhar, a fim de cumprir as ordens de Bell, embora não
compreendesse a finalidade das mesmas.
Dali a
duas horas, encontrava-se à frente de Rhodan para comunicar que as
ordens foram cumpridas, e que a K-33 praticamente estava reduzida a
um envoltório vazio com um hiperpropulsor. Esperava receber uma
explicação, mas teve uma decepção cruel. Rhodan limitou-se a
acenar com a cabeça e disse:
— Ótimo,
Tenente Tompetch. Apresente-se a Sikermann, que o destacará para
outro serviço. Afinal a K-33 está boa para sei jogada fora, não
acha? E é o que pretendemos fazer.
Tompetch
retirou-se. Ao chegar à porta que dava para o corredor, olhou para
trás, mas apenas viu o rosto sorridente de Reginald Bell.
No momento
isso não lhe esclarecia nada!
Assim que
a porta se fechou, Bell disse:
— O
sujeito está se desmanchando de curiosidade, Perry. Para dizer a
verdade, tenho pena dele.
— Você
deveria ter pena de si mesmo — disse Rhodan com um ligeiro sorriso.
— Você tem muito trabalho pela frente. Leve os homens de que
precisa e comece a esvaziar e preparar todos os hangares. Quero
decolar dentro de cinco horas.
Bell
dirigiu-se lentamente à porta.
— Se é
que até lá Gucky conseguirá terminar seu trabalho!? — ponderou.
— Gucky
estará pronto! — disse Rhodan em tom enfático, colocando o dedo
no pequeno rádio de pulso.
Bell teve
de reconhecer que sua situação não era muito diferente da de
Tompetch. Resignou-se e deixou Rhodan a sós.
*
* *
Enquanto
existir vida haverá acidentes e catástrofes. Esta é uma lei
implacável da natureza. Em Swoofon, também havia catástrofes, mas
as mesmas eram relativamente raras e geralmente não assumiam maiores
proporções.
De
qualquer maneira, Gucky deveria agir com muita cautela. Estudou o
mapa e comentou:
— Existe
apenas uma única linha férrea que liga a Universidade Técnica com
a superfície e com as outras cidades. Isto é uma circunstância
bastante favorável!
Waff, que
estava sentado sobre a mesa, olhando por cima de seu braço, fez um
gesto afirmativo.
Gucky
continuou:
— Por
ela trafega só um comboio por dia, não é? Excelente. Este comboio
partiu há uma hora. Logo, não é de esperar que saia outro antes de
amanhã. Onde está Markas?
— Está
fazendo uma conferência para os micróticos — disse Waff. —
Nenhum deles quer ficar.
— Já há
muitos que não querem ir conosco?
— São
apenas uns mil. O que faremos com eles?
Gucky deu
de ombros.
— O que
poderíamos fazer? Eles se esquecerão da alocução de Markas. Noir
cuidará disso. Depois eu os levarei a Gorla, onde poderão quebrar a
cabeça para descobrir como foram parar lá. É bem verdade que não
poderei fazer o trabalho sozinho.
Preciso
chamar alguém que me ajude. Espere aqui mesmo. Não demorarei em
voltar.
Waff
caminhou para o lado e saltou para o chão. Depois viu Gucky
concentrar-se e desaparecer. Já se acostumara a ver o estranho
fenômeno, motivo por que não se assustou.
Dirigiu-se
à janela. Dali se tinha uma boa visão sobre o conjunto de edifícios
situado apenas vinte metros abaixo da superfície. O céu era
substituído pela rocha lisa, interrompida a espaços regulares por
lâmpadas embutidas. Aquele mundo subterrâneo era luminoso, quase
tão luminoso como aquele mundo que ficava sob o verdadeiro céu.
Além disso, era um pouco mais quente.
Waff
assustou-se quando Gucky reapareceu. Trouxe consigo André Noir e Ras
Tschubai, um terrano negro e robusto, que possuía o dom da
teleportação.
Naquele
instante, chegou Markas. Caminhou muito empertigado pela porta, que
não tinha mais de cinqüenta centímetros de altura, e penetrou no
recinto, que para Noir e Tschubai era uma sala de tamanho médio. De
qualquer maneira, podiam mover-se ali sem baterem com a cabeça no
teto.
— Todos
os micróticos concordaram em sair de Swoofon a fim de servirem a
Perry Rhodan — anunciou em tom de triunfo e fitou os dois terranos.
Gucky
apresentou Ras Tschubai, com quem Markas ainda não havia travado
conhecimento.
— Está
na hora de interrompermos as comunicações com o mundo exterior —
disse. — Antes de tudo devemos cuidar da estrada de ferro. Mas as
estações de rádio também deverão entrar em pane. Quantas
estações existem aqui, Markas?
— Apenas
uma. Waff sabe onde fica — Markas nem procurou disfarçar a
impaciência. — Preciso cuidar dos estudantes e professores.
Aqueles que resolveram ficar se reunirão com suas bagagens na
estação ferroviária.
— Excelente!
— exclamou Gucky em tom alegre. — Noir e Ras cuidarão deles.
Foi o que
aconteceu.
Noir
erradicou dos swoons toda lembrança do que tinham visto e ouvido,
enquanto Ras, depois de realizar um ligeiro salto para orientar-se,
levou-os para Gorla, carregando-os aos grupos. Para facilitar as
coisas largou-os na superfície, perto dos elevadores. Nem um único
dos swoons saberia explicar como viera parar em Gorla. Além disso, o
detalhe não despertava maior interesse, pois havia outros problemas.
Enquanto
isso, Gucky caminhou a passos decididos para dentro do túnel da
estrada de ferro e teleportou-se para um lugar que ficava a menos de
cinco quilômetros da universidade. Com sua capacidade telecinética,
não teve a menor dificuldade em deslocar algumas das rochas de
apoio, fazendo-as cair com um terrível estrondo e soterrando os
trilhos. Por enquanto nenhum trem passaria por aqui.
Saltou de
volta e juntamente com Waff tomou as necessárias providências para
que a estação de rádio não pudesse ser utilizada. Isso foi
bastante fácil: bastava desligar o reator que fornecia a energia,
enfiando uma placa isolante entre os elementos de carga. Para
recuperar o reator a ponto de que este pudesse voltar a fornecer
energia, seria necessário desmontá-lo. Isso demoraria pelo menos
dez horas. E até lá...
As raras
baterias atômicas existentes na área foram levadas à superfície
por Gucky, que as depositou numa depressão entre as rochas.
Seguiram-se algumas peças vitais do transmissor. Satisfeito com seu
trabalho, regressou à sala, onde Tschubai e Noir, juntamente com
Waff e Markas, já o esperavam.
— Tudo
liquidado — disse Markas. — Os swoons que ainda estão aqui
querem ir à Terra. Como será feito o transporte? Os elevadores só
podem transportar dez swoons de cada vez, pois foram construídos
apenas para atender a casos de emergência...
— Não
se preocupe, Markas. Ras Tschubai e eu... bem, como direi?... sim,
criaremos um canal de teleportação que ligue este lugar à Drusus,
que pousará diretamente em cima do local em que nos encontramos.
Graças ao dom que possuímos, não haverá a menor dificuldade em
teleportarmos os swoons. Utilizarei esse canal para levar também as
instalações da universidade à nave. Como vê, Markas, o problema
está praticamente resolvido. Assim que estiver pronto, poderei
avisar Rhodan.
Markas
confirmou com um gesto.
— Vamos
esperar, Gucky.
O
rato-castor preferiu não saltar para a superfície. Manipulou o
pequeno rádio que trazia pendurado ao braço esquerdo e esperou que
Rhodan respondesse. Fez um ligeiro relato da situação e pediu
instruções.
A voz de
Rhodan soou muito fraca no pequeno alto falante.
— Daqui
a cinco minutos, a Drusus pousará bem em cima da universidade. Tome
todas as providências para que até então tudo esteja preparado.
Voltarei a chamar.
Gucky
fitou o aparelho de rádio quando o desligou.
— Markas,
diga a todos os swoons para comparecerem dentro de vinte e cinco
minutos com seus pertences na grande praça que fica em frente do
auditório. Ras Tschubai e eu começaremos a esvaziar os laboratórios
e levaremos os instrumentos e aparelhos à superfície. Não podemos
esquecer nada. Vamos ao trabalho. Noir, fique com Markas e Waff, para
ajudá-los. Daqui a meia hora, encontrar-nos-emos no auditório.
Afinal de contas, uma das finalidades do mesmo consiste justamente em
fazer as despedidas dos estudantes que deixam a universidade. É o
que acontecerá desta vez. Naquele instante, desapareceu juntamente
com Ras Tschubai.
*
* *
Cinco
minutos depois do momento em que Gucky proferiu aquelas palavras,
certo número de oficiais e tripulantes da Drusus tiveram
oportunidade de presenciar um misterioso espetáculo.
A
gigantesca espaçonave decolou em silêncio do campo de pouso de
Swatran, isso após Rhodan ter suspenso oficialmente o bloqueio, para
o que emitiu uma mensagem de rádio. Os saltadores que haviam sido
“internados”
foram libertados, retornando aos locais de trabalho ou às naves a
que pertenciam. A vida voltou ao normal em Swoofon...
Com
exceção de alguns detalhes.
As
comunicações radiofônicas com a universidade, por exemplo, foram
interrompidas. Era a única instituição daquele planeta dividido em
várias nações que não conhecia diferenças de raça ou
nacionalidade. Era lá que vivia a elite dos swoons. Ou melhor,
vivera lá até trinta minutos atrás, já que tudo correra conforme
os planos.
É que
nesse meio tempo teve início o magnífico espetáculo.
Na
verdade, para os tripulantes da Drusus o espetáculo não tinha nada
de misterioso; quando muito seria espantoso. Gucky e Ras teleportaram
com banquetas de trabalho, aparelhos e máquinas complicadas,
geradores de todos os tamanhos, armários com ferramentas especiais e
fardos de mercadorias. Tudo isso foi empilhado junto às paredes do
hangar, de onde seria retirado oportunamente.
Mikel
Tompetch, que estava de pé junto à K-33, já totalmente vazia,
achava-se boquiaberto. Subitamente Gucky surgiu com um baú metálico
de três metros de comprimento e um metro de largura, transportando-o
para junto dos demais objetos que já estavam empilhados por ali. Ras
Tschubai veio depois com um grande gerador, que continuava preso ao
suporte. Gucky voltou a surgir, desta vez com um grande bloco
residencial, que tinha uma parede transparente. No interior do bloco
Tompetch viu uma completa instalação de cozinha.
O mundo
dos swoons começou a reunir-se nos hangares da Drusus. Tompetch, que
não havia sido esclarecido sobre isso, compreendeu tais fatos, mas
no que dizia respeito à K-33 ainda se encontrava no escuro. De forma
alguma compreendeu o que deveria fazer com a K-33, quase totalmente
vazia.
Subitamente
sentiu que a gravidade usual de 1 G diminuía. Via de regra os campos
antigravitacionais da Drusus eram regulados de maneira tal que
proporcionavam a gravidade terrana. Fosse qual fosse o lugar em que
se encontrava a nave — no espaço livre ou em mundos estranhos —
no interior dela não se sentia qualquer modificação da força
gravitacional.
E agora a
gravidade se alterava sem prévio aviso.
Alguns
cadetes, que se encontravam na área fronteiriça do hangar vizinho,
quiseram fazer seus gracejos por causa da gravitação de 0,25 G.
Atiravam-se para o alto e executavam saltos malucos; com a gravitação
normal certamente teriam fraturado alguns ossos.
Em outras
condições, Mikel Tompetch se teria divertido com o espetáculo, mas
agora não via motivo para isso. Pelo menos enquanto ele mesmo
tateava na incerteza. Mas este estado não duraria muito.
De repente
Ras e Gucky materializaram-se pouco acima do solo do hangar, com um
verdadeiro “feixe
de swoons”.
Gucky
utilizou a telecinese para fazê-los descer em câmara lenta. Os
pequenos seres espalharam-se com uma rapidez espantosa. Embora fosse
a primeira vez que se encontravam na Drusus, pareciam saber
exatamente o que tinham a fazer e onde ficavam seus alojamentos.
Era claro
que tanto Tompetch como os outros tripulantes haviam sido informados
sobre a vinda dos swoons, motivo por que não se mostraram surpresos.
Os cadetes encerraram o “espetáculo
desportivo”
e foram cuidar dos swoons. Mas subitamente uma verdadeira torrente
dos “pepinos”
amarelos precipitou-se para o interior da Drusus, e os tripulantes
tiveram de correr para conduzi-los aos respectivos lugares, pois do
contrário o hangar “transbordaria”.
— É a
invasão dos pepinos! — disse uma voz junto à porta que dava para
o corredor interno.
Tompetch
levantou os olhos. Constatou que aquelas palavras haviam sido
proferidas por Reginald Bell. O lugar-tenente de Rhodan encontrava-se
em lugar elevado, em atitude firme e orgulhosa. Sacudia-se de tanto
rir. Ninguém lhe levaria a mal, pois quem apenas olhasse
ligeiramente chegaria à conclusão de que a Drusus estava recebendo
uma “carga
de pepinos”.
Subitamente
outra pessoa surgiu ao lado de Bell.
Era Perry
Rhodan.
— Se
fosse você, não ria assim — disse em tom sério. — Acho que
você está se divertindo com o aspecto dos swoons...
— Não é
tanto isso, Perry. Mas quando vêm aos montes e caem ao chão que nem
folhas o espetáculo se torna muito esquisito.
— De
qualquer modo, sua alegria poderá provocar um incidente. É bem
verdade que tenho de confessar que também eu preciso esforçar-me
para continuar sério. Acontece que os swoons são nossos amigos. Sem
eles não poderemos fazer em dez anos um progresso de um século no
terreno da microtecnologia. Não se esqueça disso quando tiver
vontade de zombar deles.
Depois de
ligeira pausa acrescentou:
— Aliás,
os swoons também sentem vontade de rir quando vêem você. Apenas
sua sensibilidade inata impede-os de procederem assim, isto é, de
não darem vazão aos seus sentimentos.
Acenou
ligeiramente com a cabeça e desapareceu.
Bell
seguiu-o com os olhos. Parecia perplexo. Quando viu o olhar curioso
de Tompetch, preferiu retirar-se também.
*
* *
Dali a
quatro horas, a operação chegou ao fim.
Vinte mil
swoons encontravam-se a bordo da Drusus, juntamente com as
ferramentas especiais e as melhores máquinas, a fim de procurarem um
novo lar no sistema solar. A gigantesca caverna que ficava sob a
superfície do planeta Swoofon estava completamente vazia. A
universidade deixara de existir. Rhodan tinha certeza de que dentro
de cinco anos os swoons construiriam outra. Mas também tinha certeza
de que um acontecimento iminente causaria um atraso de algumas
semanas, ou mesmo meses, no início da construção do novo
goniômetro.
Este
acontecimento tinha uma ligação estreita com o estado de incerteza
em que se encontrava Mikel Tompetch.
Neste meio
tempo, essa incerteza já fora removida por Rhodan, que informou o
tenente sobre as linhas gerais da operação projetada.
A Drusus
decolou e, depois de emitir uma mensagem sem sentido, subiu à
estratosfera de Swoofon. Entrou em órbita depois de atingir a
altitude de trezentos quilômetros.
Gucky, que
já se encontrava a bordo da K-33, aguardava o momento de entrar em
ação. Desta vez estava só. Se falhasse, a responsabilidade seria
exclusivamente sua. Mas não adiantava preocupar-se. O plano
combinado com Rhodan havia de dar certo.
Na parte
do hangar em que estava estacionada a K-33, não havia nenhum swoon.
As portas, que ligavam esse setor com aqueles em que estavam
abrigados esses seres, foram fechadas. Não havia necessidade de que
testemunhassem o acontecimento que se aproximava.
Com o
corpo um tanto rígido, Gucky estava sentado junto aos controles do
girino. Os instrumentos haviam sido quase todos retirados, já que os
técnicos tinham desmontado tudo que tivesse alguma importância. Só
o propulsor continuava intacto, e por isso a nave poderia ser
colocada numa rota prefixada, mesmo que os instrumentos de navegação
estivessem ausentes. Só se poderia recorrer à pilotagem visual; em
hipótese alguma seria possível exceder a velocidade da luz.
E nem
Gucky pretendia fazer isso.
Olhando
pelo dispositivo visual telescópico, viu a grande escotilha da
Drusus abrir-se, deixando livre o caminho que levava ao espaço. O
grande momento havia chegado.
Ouviu-se
um ligeiro estalo junto ao seu pulso.
— Então,
baixinho? — disse a voz de Bell, que comandava a ação na sala de
comando da Drusus. — Está pronto?
— Já
estou pronto há muito tempo, gorducho. Por mim podemos começar.
Depois de
uma ligeira pausa a voz voltou a ser ouvida:
— Decolagem
dentro de dez segundos. Siga a rota combinada. Mantenha a aceleração
constante de 1 G. Faltam cinco segundos...
No momento
em que Bell disse “um
segundo... já”,
Gucky empurrou o acelerador para a frente. O girino levantou-se do
solo do hangar, passou entre os campos magnéticos e saiu pela
escotilha, precipitando-se espaço afora.
Gucky
olhou para a tela.
A Drusus
recuava rapidamente, mas depois de algum tempo descreveu uma curva
elegante, como se quisesse alcançar o girino. Ao mesmo tempo, na
sala de rádio, David Stern expediu a seguinte mensagem, que foi
captada por todas as estações dos saltadores existentes em Swoofon:
Atenção!
Criminoso foragido conseguiu fugir numa nave auxiliar de formato
esférico! Advertimos todos para que não lhe prestem qualquer
auxílio! A nave auxiliar está armada! Perry Rhodan.
Esta
mensagem preencheu duas finalidades distintas. Em primeiro lugar, os
habitantes de Swoofon haveriam de supor que a ação de Árcon,
comandada por Rhodan, fora bem sucedida. Este truque servia para
distrair suas atenções. Além disso, encontrariam uma explicação
para a catástrofe que se verificaria dali a pouco, sem refletir
desnecessariamente sobre o motivo dos acontecimentos ou a finalidade
de quem praticava o ato. Evidente que nem poderiam ver qualquer
motivo ou finalidade naquilo. E, por fim, o desaparecimento de vinte
mil swoons seria camuflado.
Gucky
sorriu ao captar a mensagem em seu pequenino rádio. Modificou
ligeiramente a rota da nave que estava dirigindo, fez com que
penetrasse nas camadas mais densas da atmosfera e reduziu a
velocidade. A K-33 foi pouco atingida pela gravitação de Swoofon.
— Atenção!
— disse a voz de Bell, vinda do rádio. — Falta metade do
contorno do planeta para chegarmos ao destino.
A Drusus
mantinha-se menos de cinqüenta quilômetros atrás de Gucky. As
mensagens foram transmitidas com uma potência tão reduzida que só
Gucky poderia captá-las. Não havia o menor perigo de que qualquer
pessoa que não possuísse o tipo especial de receptor pudesse
acompanhar a palestra.
— Descreva
o objetivo; não tenho nenhum mapa.
— Não
se preocupe, baixinho; cuidaremos disso.
Mais
alguns minutos passaram-se.
Gucky
aproximava-se de Swoofon, na nave aparentemente descontrolada. O
veículo espacial ia perdendo altura; parecia incapaz de voltar a
subir. Alguns disparos energéticos da Drusus, que passaram rente ao
girino, deram prova de que não havia a menor intenção de permitir
que o criminoso escapasse.
Bell
transmitiu os últimos dados em tom indiferente:
— No
horizonte estão surgindo algumas montanhas, Gucky. Antes delas
existe uma planície com algumas rochas pontudas esparsas. A do meio
é a maior; à direita existem duas montanhas alongadas. Já viu?
— A
rocha central está bem à minha frente — confirmou o rato-castor.
— Qual é o lugar? Só disponho de 18 segundos.
— Antes
da rocha há um vale arredondado. É fácil reconhecê-lo. Parece um
lago seco... — Dirija a K-33 para lá. Agora!
— Reconheci
o lugar.
Gucky
fitou a tela. Aproximou-se vertiginosamente do vale redondo. O girino
estava seguindo um rumo de colisão. Aumentou a velocidade e desceu
quase verticalmente sobre o vale, que nem um meteoro.
Ainda se
encontrava a vinte quilômetros de altura.
A Drusus
mantinha-se lá em cima, e nem se deu ao trabalho de seguir a nave
que caía. Qualquer pessoa que observasse o espetáculo chegaria à
conclusão de que os controles da pequena nave haviam sido bloqueados
por meio de um dispositivo de teledireção, motivo por que teria de
cair irremediavelmente.
Faltavam
dez quilômetros!
Gucky
começou a “transpirar”,
mas prosseguiu obstinadamente. Já tirara as mãos dos controles. A
rota era exata e não havia necessidade de corrigi-la. O que estaria
esperando? Se continuasse ali, fatalmente cairia ao chão juntamente
com o girino e se desmancharia nos seus componentes atômicos.
A ponta da
rocha encontrava-se na mesma altura da nave. Lá embaixo o vale se
abria, como se quisesse acolher a nave que caía. E era exatamente o
que iria acontecer.
Gucky
concentrou-se em Bell, que se encontrava na sala de comando da
Drusus, fechou os olhos, sentiu um calafrio e saltou.
Não
poderia ter esperado nem mais um segundo.
O girino
penetrou no solo rochoso como se fosse um meteoro, abriu um buraco de
vinte ou trinta metros e detonou. Surgiu um gigantesco buraco na
superfície de Swoofon. Com uma lentidão apavorante formou-se uma
muralha, empurrada pelo volume da nave; até parecia que a rocha se
transformara numa massa viscosa.
Dali a
mais alguns segundos, houve a erupção, que atirou as rochas
incandescentes e as pedras liquefeitas a vários quilômetros de
altura. O cogumelo atômico começou a subir ao céu e espalhou-se
ameaçadoramente.
Bell, que
não tirara os olhos do espetáculo horrendo, não deu a menor
atenção a Gucky, que se materializou em seu colo e também
acompanhava os acontecimentos.
Rhodan
encontrava-se perto dali; cerrara os lábios. Havia uma indagação
que lhe passava pela mente: teria agido corretamente, como uma
criatura responsável? Sob o ponto de vista do planeta Terra, a
resposta só poderia ser afirmativa. E sob o ponto de vista do
Império?
Livrou-se
das reflexões. A longo prazo, a ação desenvolvida em Swoofon
reverteria em benefício comum da Terra e de Árcon. Sob uma
perspectiva mais ampla, a missão representava um passo à frente.
Para todos, não só para a Terra.
Crest
estava ao lado de Rhodan. Também parecia pensativo, mas o bloqueio
de sua mente impedia que qualquer pessoa lesse seus pensamentos. Como
já acontecera tantas vezes, estes continuariam a ser um segredo.
Com Atlan,
as coisas foram diferentes. O imortal estava sentado numa poltrona e
contemplava o cogumelo com um sorriso frio. Ele, que já vivera
tanto, sabia perfeitamente que os grandes objetivos não podem ser
atingidos exclusivamente por meio de atos que à primeira vista
parecem ser elogiáveis. Sabia que muitas vezes o justo deve recorrer
ao mal a fim de alcançar a vitória do bem. E a essa hora já estava
convencido de que Rhodan pretendia o bem, e não só o bem da
Terra!...
Lá
embaixo, a lava incandescente borbulhava no interior da cratera. Seu
diâmetro quase chegava a um quilômetro, e a profundidade devia ser
de cerca de cinqüenta metros. Qualquer swoon ou saltador teria
certeza de que a universidade situada naquele lugar, embaixo da
superfície, deixara de existir. A reação nuclear do
hiper-propulsor destruíra tudo, já que a nave detonara com o
acelerador ligado.
Vinte mil
swoons, que representavam a elite das várias nações dessa raça,
haviam perecido na catástrofe, pela qual era responsável um
criminoso desconhecido.
Era só
esta a conclusão a que poderiam chegar.
Rhodan
parecia despertar de um sonho. Dirigiu-se à sala de rádio. Seus
movimentos quase chegavam a ser pesados. As mensagens captadas
convenceram-no de que suas suposições foram corretas. Dali a dois
minutos, fez um sinal para Stern.
— Desligue,
Stern. Já podemos partir. Ligue a recepção do hipercomunicador.
Voltou à
sala de comando.
Crest
aproximou-se e colocou a mão sobre seu ombro.
— Isto
foi necessário, Perry. Não se esqueça de que ninguém saiu ferido.
E nem um único swoon morreu.
— Acontece
que lá embaixo acreditam que vinte mil pereceram. Qual é a
diferença? A população do planeta tem certeza de que sua elite
morreu. Para eles os vinte mil indivíduos estão mortos.
— A
diferença — disse Crest, falando pausadamente e em tom enfático —
está nos hangares, onde os swoons já começaram a montar as
máquinas, sob a direção de Markas.
Rhodan
fitou Crest. De repente, um sorriso se espalhou por seu rosto. As
rugas de sua testa se desfizeram.
— Enganamos
não apenas os saltadores que se encontram em Swoofon. Até
conseguimos tapear o robô regente que nos armou uma cilada. Enquanto
estiver convencido de que dispõe de um goniômetro que lhe permitirá
descobrir a posição da Terra, nos deixará em paz. E precisamos de
paz, pois a hora da decisão se aproxima. Acho que sabe o que quero
dizer, Crest.
— Sei;
são os invisíveis vindos de outra dimensão temporal. Saberemos
lidar com eles, Perry Rhodan. Mesmo que pareçam ser atemporais e
eternos, em suas dimensões são tão mortais como os seres visíveis
o são em nossa dimensão. Nunca devemos esquecer este detalhe.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Esta
circunstância serve de base aos nossos planos, Crest.
Sikermann
transmitiu suas instruções.
O planeta
Swoofon foi recuando e diminuiu rapidamente, quando a Drusus
acelerou, aproximando-se do ponto de transição. A Terra não estava
longe, pois o que contava não era a distância, mas o tempo.
Gucky
tirou os olhos da tela e saiu do colo de Bell.
Bell
fitou-o com uma expressão de perplexidade.
— Como
é? — perguntou em tom de espanto. — Você vive me jogando para o
alto, mas adora saltar para meu colo.
— Porque
você é gordo e parece um colchão — disse o rato-castor em tom
generoso e dirigiu-se à porta. — Se alguém me procurar,
estarei...
— Já
sei — disse Bell em tom de desprezo. — Você estará com os
pepinos. Divirta-se.
Ao que
parecia sentiu-se ofendido porque deixara de desempenhar o papel
principal na vida de Gucky. Este voltou-se na porta.
— Bell,
sou seu amigo e por isso quero preveni-lo. Pedi a Markas que
construísse um vibrador. O mesmo tem um receptor de impulsos e não
é maior que um grão de areia. Um dia você o engolirá com um
pedaço de carne. E toda vez que você tiver um pensamento menos
agradável em relação aos swoons, apertarei um botãozinho. Nem
queira saber como serão “as
dores de cabeça”
que sentirá.
Bell
empalideceu, mas conseguiu controlar-se.
— E eu —
anunciou em tom tranqüilo — tomarei um purgante, e com isso sua
tecnologia sofisticada...
— Você
está aprendendo belas palavras — disse Gucky, sacudindo a cabeça
e fechando a porta do lado de fora.
Ouviram-no
murmurar baixinho, enquanto se afastava apressadamente sobre os pés
chatos. As palavras que Bell deixara de pronunciar, mas que
conseguira captar por via telepática, deviam tê-lo abalado
profundamente.
*
* *
*
*
*
A
posição galáctica da Terra continua desconhecida. E, mais uma vez,
o computador de Árcon foi ludibriado!
Em A
Prisão do Tempo, título do próximo volume, mais uma empresa
arriscada será tentada...

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