quinta-feira, 28 de março de 2013

P-063 - Os Microtécnicos - Clark Darlton [parte 3]


Já conheço a história; um não confia no outro — ficou refletindo por algum tempo. — O senhor acredita que poderia ceder-me os planos por algum tempo?
O swoon hesitou. Não sabia exatamente qual era o papel que estava sendo desempenhado por Rhodan e seus amigos. Estariam realmente agindo por conta do Império? Se fosse assim, por que não se apresentavam abertamente?
Gucky, que continuava no sofá, disse:
Conte tudo, Rhodan. Markas só poderá ser nosso amigo se confiarmos nele.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Está bem, Markas. Eu lhe contarei a verdade. O goniômetro de compensação terá por fim descobrir a posição de meu mundo. Árcon quer localizar meu planeta e destruí-lo. Quem está mais interessado nisso são os saltadores. Celebrei um acordo com Árcon, mas o regente não fez muita questão de cumpri-lo, embora um terrível perigo ameace toda a vida da Via Láctea. Estou interessado em ver os planos de fabricação do goniômetro para informar-me sobre algumas das suas características. Mais que isso: tentarei construir um aparelho capaz de neutralizar o novo goniômetro. Quero que as raças inteligentes do Universo conservem ao menos um restinho de vida privada. Tudo depende do senhor, Markas. O senhor é o único que poderá ajudar-nos. Não podemos obrigá-lo a isso.
Estou disposto a ajudar, pois os senhores são muito diferentes dos saltadores que, embora precisem de nossos serviços, não sentem outra coisa senão desprezo por nós. Se Árcon estiver interessado no goniômetro para travar uma guerra, prefiro destruir os planos.
Isso seria um erro — disse Rhodan. — Não há nenhum inconveniente em que o novo goniômetro seja fabricado, desde que tenhamos alguma certeza de que conseguiremos criar um meio de defesa. Para isso precisamos dos planos, que logo depois serão recolocados no mesmo lugar.
Como farei para trazê-los? — perguntou Markas, que a essa hora já estava totalmente convencido.
Rhodan sorriu.
Meu amigo Gucky irá com o senhor. Como já deve ter percebido, as distâncias não representam nada para ele, já que é um teleportador.
E Drog? O que posso fazer para que me dê sua chave?
Nosso mutante André Noir irá com os senhores. Drog fará qualquer coisa que o senhor deseje. Acredita em mim?
O swoon fez um gesto afirmativo. Estava com o rosto muito sério.
O senhor tem amigos poderosos. Pode fazer muitas coisas de que os outros humanóides não são capazes. Seu mundo deve ser um lugar fantástico e certamente dispõe de um poder extraordinário.
Rhodan inclinou-se para a frente.
Quer vê-lo?
Markas adiantou-se um pouco e fitou o terrano.
Sim, estou interessado em conhecer seu mundo. É muito extenso? Será que poderíamos viver lá? Será que se formos nunca mais poderemos voltar para Swoofon?
É um risco que o senhor terá de assumir, Markas. Mas garanto-lhe que no planeta Terra o senhor terá uma vida boa e segura. Cuidarei disso. Quem sabe se o quarto planeta do sistema solar não poderá vir a ser seu mundo? As condições reinantes ali são semelhantes às de Swoofon. Ainda falaremos a este respeito. Por enquanto devemos cuidar dos planos do goniômetro. Quando deseja ir buscá-los juntamente com Gucky e Noir?
Agora — disse o swoon em tom decidido.
Pois partam imediatamente — decidiu Rhodan.

* * *

Drog voltou a desligar o rádio.
Ainda levou alguns minutos fitando a tela apagada, na qual há pouco vira o rosto enérgico de um poderoso saltador. As instruções eram inequívocas. Devia apressar-se. Não poderia perder um segundo que fosse. Ao que parecia, Perry Rhodan, o terra-no, estava desconfiando de alguma coisa. Provavelmente a história do criminoso foragido era apenas um pretexto para revistar Swoofon em busca dos planos do novo goniômetro.
Todavia, isso não passava de suposição.
No entanto, o surgimento da frota de guerra de Árcon parecia ser uma prova de que o regente concordava com os atos de Rhodan. De outro lado, Talamon já se retirara com seu couraçado espacial. Só Rhodan ficara para trás, com as três naves gigantescas e a frota de pequenas naves auxiliares.
Drog sacudiu os ombros.
Pouco importava o que o tal do Rhodan estivesse tramando; se quisesse obter os planos do novo goniômetro, sofreria uma amarga decepção. E quanto a Markas, que desaparecera de repente...
Drog não gostava dos swoons, mas não podia deixar reconhecer que eram os melhores técnicos da Via Láctea. Ninguém seria capaz de fabricar as peças minúsculas do aparelho com tamanha rapidez e precisão. Precisavam dos swoons, quer gostassem deles, quer não.
Claro que Drog conhecia a futura fábrica e sabia qual era sua posição. Utilizaria a única linha férrea para chegar lá e levaria os preciosos planos. Markas ficaria com cara de bobo se voltasse e não o encontrasse mais. De qualquer maneira, não poderia abrir o cofre.
Mas ele, Drog, podia. Possuía uma duplicata da chave de Markas.
Satisfeito por ter encontrado uma solução que seria do agrado de seus chefes, Drog realizou uma ligeira ronda de inspeção e entrou no escritório de Markas, onde passou a lidar com o cofre, que não era muito maior que uma caixa postal, mas fora feito de aço arcônida indestrutível.
A porta abriu-se, deixando à mostra o interior do cofre. Os planos estavam guardados numa pasta marrom.
Drog pegou a pasta, voltou a fechar o cofre e foi à estação, onde pediu ao coordenador do tráfego que preparasse o quanto antes um transporte para a nova fábrica de goniômetros.
Dali a uma hora, estava confortavelmente deitado em dois vagões acoplados. A pasta marrom serviu-lhe de travesseiro. Sorriu satisfeito ao contemplar o teto de rocha do túnel, que parecia deslizar para trás a uma velocidade cada vez maior.
Se necessário, cumpriria a tarefa sem o auxílio de Markas. Tomaria todas as providências para que o primeiro goniômetro pudesse ser testado ainda naquela semana.
5



Os elevadores de carga já estavam funcionando, motivo por que Gucky, Noir e Markas puderam voltar à cidade subterrânea pela via usual.
Os três indivíduos ofereceriam uma visão estranha e assustadora para os habitantes daquele mundo. Noir, o terrano, era o maior do grupo; usava o uniforme do Império Solar e estava armado com um radiador portátil. A ele seguiu-se Gucky, o rato-castor, que não usava qualquer roupa e tinha um metro de altura. E ainda havia Markas, uma pequena criatura com o aspecto de pepino. Embora o aspecto exterior dos três indivíduos fosse muito diferente, eles se igualavam em inteligência e senso de responsabilidade. Eram seres de origem totalmente diversa, não tinham nenhum parentesco, mas pareciam pertencer ao mesmo grupo. Não estavam ligados por um planeta, nem por um sistema solar, mas eram todos habitantes da Via Láctea, que achava-se ameaçada por um perigo terrível.
O elevador foi descendo. Oferecia lugar para os três, motivo por que chegaram juntos aos arrabaldes de Gorla. Prosseguiram imediatamente e, dentro de poucos minutos, encontravam-se na estação ferroviária com a qual Gucky já estava familiarizado.
Alguns swoons lançaram-lhes olhares curiosos, mas Markas mandou que prosseguissem com seu trabalho, dizendo-lhes algumas palavras tranqüilizadoras. Mesmo aqui embaixo os saltadores não eram nenhuma novidade. Apenas Gucky provocou alguma sensação, que em outra oportunidade certamente teria alegrado bastante o rato-castor.
Mas, a essa hora, as atenções dos curiosos swoons começaram a incomodá-lo. Dirigindo-se a Markas, disse:
Precisamos descobrir o quanto antes o tal do Drog. Noir lhe aplicará seu tratamento. É um hipno, e saberá impor sua vontade ao saltador.
Markas saltitou pela estrada que dava para a fábrica, esforçando-se para acompanhar Noir e Gucky que, por sua vez, “arrastavam-se”, a fim de deixá-lo satisfeito.
Daqui a pouco estaremos lá. E no meu escritório descobriremos onde está Drog.
Noir não teve qualquer dificuldade em entrar no edifício de escritórios especialmente adaptado. Sentou na mesma banqueta que Drog costumava usar. Gucky olhou em torno. Seus olhos caíram no cofre embutido.
É lá que estão os planos? — perguntou.
Markas disse que sim.
Só precisamos de Drog. Pensei que estivesse aqui. Um momento.
Dirigiu-se à parede e manipulou os controles da instalação de rádio, que o ligavam a todos os pontos da fábrica e ao mundo exterior. Depois de poucos segundos, conseguiu estabelecer contato com a central.
Queira informar onde se encontra o saltador Drog.
Há duas horas o saltador saiu do setor NH/K/075, depois de ter ordenado a formação de um comboio destinado a NH/K/078. Viajou nesse comboio. Quer que procuremos entrar em contato com ele?
Markas parecia indeciso; viu o olhar de Gucky.
Obrigado; não é necessário.
Interrompeu a ligação e olhou para trás.
E agora? — perguntou em tom de perplexidade. — O que poderia ter levado Drog a antecipar para hoje sua viagem à fábrica de goniômetros? O que pretende fazer lá?
Estou mais interessado em saber como poderemos pôr as mãos nos planos — disse Noir. — Para abrir o cofre, precisamos da chave dele.
Nesse caso teremos de procurar Drog — murmurou Markas em tom de desânimo.
Por quê? — perguntou Gucky. — Preste atenção, Markas. Como é o fecho do cofre: eletrônico ou mecânico?
O cofre tem uma fechadura eletrônica e uma fechadura mecânica — disse o swoon. — Será impossível abri-lo sem a chave, se é a isso que está aludindo. Aqui se faz muita questão de que ninguém possa roubar os planos.
Isso é perfeitamente compreensível — disse Gucky enquanto contemplava o cofre com os olhos reluzentes. — Acho que poderia ser um excelente abridor de cofres. Quer dizer que existe uma fechadura eletrônica? Acho que conseguirei, desde que consiga descobrir os contatos do relê. Assim que a corrente passar pelo mecanismo, o cofre se abrirá. O trinco mecânico será mais fácil de remover.
Como? — perguntou Markas em tom de espanto.
Noir explicou:
Já ouviu falar em telecinese, Markas? — disse. — Trata-se de fluxos de energias transmitidos pelo cérebro de um mutante e que são capazes de mover porções de matéria situadas em outro lugar. Gucky é um telecineta.
O swoon fitou o rato-castor com uma veneração cada vez mais intensa.
É telepata, teleportador e, além de tudo, ainda telecineta? Gucky é mesmo uma criatura muito poderosa!
O rato-castor sentiu-se satisfeito com a admiração que lhe foi tributada, mas logo voltou a dedicar-se àquilo que importava.
Posso pedir silêncio absoluto? Tentarei abri-lo. Não deverá demorar mais que alguns minutos...
Noir e Markas recuaram alguns passos, deixando Gucky só à frente do cofre. O rato-castor concentrou-se e suas ondas cerebrais foram penetrando cautelosamente na confusão de comandos eletrônicos que vedavam o acesso aos obstáculos mecânicos, e que teriam de ser removidos.
Assim que escutou o primeiro estalido, o corpo de Gucky descontraiu-se, mas não fez nenhuma pausa. O único ruído que se ouvia era a respiração de Noir. Markas mantinha-se rígido e imóvel, como se realmente fosse um pepino incapaz de sair do lugar.
Ouviu-se outro estalido. Gucky disse:
Agora...
A porta abriu-se.
Markas soltou um pio de alegria e admiração. Saltitou através da sala superdimensionada e colocou-se ao lado de Gucky. Ambos olharam para dentro do cofre.
Então? — perguntou Noir, que também se aproximara. — Onde estão os planos? São de formato reduzido?
Markas adiantou-se mais um passo. Quase chegou a entrar no cofre. Ao virar-se, disse:
Estavam aqui, mas desapareceram. Drog e eu somos as únicas pessoas que possuem a chave, e o cofre só pode ser aberto com ambas as chaves. Não compreendo.
Pois eu compreendo — disse Gucky com a voz zangada. — Drog possuía uma duplicata de sua chave, Markas. Ele o enganou. Ou melhor, enganou a todos nós. E agora?
O swoon controlou-se com uma rapidez extraordinária. Lançou mais um olhar para o cofre vazio e sugeriu:
Se Drog furtou os planos, teremos de procurá-lo. Sabemos onde está. O que estamos esperando?
Gucky olhou para Noir.
Até parece que Markas pode ensinar-nos alguma coisa! — exclamou. — Tem toda a razão. O que estamos esperando?
Preferiram não utilizar um dos trens que trafegavam constantemente de um lugar para outro. Um salto de teleportação levou-os de volta à superfície, onde voltaram a orientar-se. Noir havia trazido o mapa, no qual Markas registrou cuidadosamente o ponto em que ficavam as instalações subterrâneas da fábrica de goniômetros. Depois Gucky não teve a menor dificuldade em atingir o local por meio de dois saltos de teleportação, um deles horizontal, pela superfície, e outro vertical, que os levou às profundezas.
Materializaram-se num pavilhão quase vazio, cujo teto e soalho consistiam em rocha nua. Parecia muito alto para as condições reinantes em Swoofon, mas logo se lembraram que ali seriam construídos os aparelhos que um dia deveriam ser instalados nas imensas naves dos saltadores Além disso, era de esperar que, assim que fosse iniciada a produção, os saltadores mantivessem constantemente observadores no local.

* * *

Drog nem desconfiou do desastre que se aproximava, embora sentisse que alguma coisa não estava em ordem. Era bem verdade que seu nervosismo se tornara bem menor depois que conseguira apoderar-se dos preciosos planos. Sabia que eram os únicos exemplares, com exceção dos originais. E estes estavam muito bem guardados num pequeno planeta dos mercadores galácticos.
Já se convencera de que esse bloqueio ordenado por Rhodan, por conta de Árcon, constituía um fato muito mais importante do que parecera de início. Ninguém isolaria todo um sistema para procurar um único homem. Além disso, o desaparecimento de Markas começava a preocupá-lo.
Saiu do vagão, deu um berro para espantar alguns swoons e seguiu pela estrada ainda em construção que levava aos pavilhões da fábrica. Um dia seu escritório ficaria ali. Poderia perfeitamente instalar-se desde já, da melhor forma possível.
Os swoons, que vinham ao seu encontro, desviavam-se apressadamente assim que o viam. Não parecia que o saltador, que para eles era um verdadeiro gigante, tivesse a intenção de dispensar-lhes qualquer consideração. Já haviam sofrido experiências dolorosas com aquela raça.
Drog não deu a menor atenção aos swoons. Ainda teria tempo de exprimir-lhes seu respeito, quando precisasse deles, e desde que fizessem questão disso. De qualquer maneira seria uma mentira.
À sua esquerda havia uma parede metálica, atrás da qual ficava um pavilhão da fábrica.
Deixando-se guiar por um impulso repentino, Drog saiu do caminho que vinha seguindo e, passando por um portão muito baixo, penetrou no pavilhão. Teve de abaixar-se para não bater com a cabeça.
Oportunamente mandarei modificar isso — disse em tom furioso e estacou de repente. Por pouco não deixa cair a pasta que trazia embaixo do braço.
À sua frente — ou melhor, embaixo dele — estava Markas!
Drog reconheceu-o imediatamente, embora não fosse fácil distinguir os swoons. Infelizmente não havia a menor possibilidade de comunicação, pois não dispunha de um tradutor.
Saia do meu caminho, verme nojento! — berrou Drog.
Apavorado, Markas tapou as orelhinhas. Confiava no rato-castor, que se mantinha escondido nos fundos do pavilhão, juntamente com Noir. Embora não entendesse uma palavra daquilo que o gigante acabara de gritar, imaginava o significado. Mas parou obstinadamente. Numa das mãos — a rigor a extremidade dos braços com os dedos finíssimos não poderia merecer este nome — exibiu a chave do cofre ao saltador.
Drog compreendeu imediatamente.
Ah, é por causa dos planos? O azar é seu, meu caro; estão comigo. Aliás, o que é que você tem com os mesmos? Onde andou por tanto tempo?
Lembrou-se de que o swoon não poderia compreendê-lo e aborreceu-se por estar perdendo tanto tempo.
Por que o anão não cuidou logo da construção do primeiro modelo do goniômetro, conforme haviam combinado?”, pensou e apontou para a saída.
Venha comigo. Preciso falar com você.
O swoon não poderia deixar de entender o gesto, mas não saiu do lugar. Drog estendeu a mão para pegar Markas, mas estacou em meio ao movimento.
Alguma coisa invisível exercia uma pressão súbita sobre seu cérebro, comprimia sua consciência e começou a eliminar sua vontade. Sentiu uma dor suave. O pavilhão começou a girar diante de seus olhos, mas não perdeu os sentidos. Percebeu perfeitamente o que lhe aconteceu nos minutos seguintes, mas não teve condições de resistir.
Dos fundos do pavilhão vieram duas criaturas; uma delas tinha o tamanho dele, enquanto a outra tinha apenas a metade desse tamanho. Já conhecia esse bicho esquisito.
Gucky manifestou seu desagrado.
Acha que sou um bicho — disse, dirigindo-se a André Noir e sacudindo a cabeça. — Pensei que este mercador fosse mais inteligente. Ainda não conhece Gucky!
Noir não se deixou distrair. Suas vibrações cerebrais estenderam-se a plena potência em direção à consciência do saltador e eclipsaram-na. Sem que o outro soubesse, assumiu seu espírito e seu sistema nervoso, e com isso também seu corpo. Tratava-se de um tipo de hipnose, muito mais eficiente e duradoura que os outros procedimentos desse tipo. Os comandos eram transmitidos por via telepática e o destinatário os executava sem a menor vacilação.
Dê-me a pasta com os planos — ordenou Noir.
Gucky já lhe havia dito o que continha a pasta.
Drog obedeceu.
Venha conosco!
Nos minutos seguintes, encontraram-se com vários swoons, principalmente na rua, mas nenhum deles estranhou a presença do saltador que caminhava ao lado de Markas, chefe da equipe científica, além de um estranho ser peludo e de outro sujeito. Todos conheciam Drog, que agia de forma completamente diversa das outras vezes em que era dono de sua vontade.
Markas parou à frente de uma porta.
Aqui ficam os escritórios da administração. Um deles foi instalado especialmente para Drog. Acho que é o lugar mais adequado. Quanto tempo teremos de esperar?
Acho que não demorará muito — respondeu Gucky. — Saberei encontrar sozinho e depressa o caminho para a nave. Rhodan poderá examinar os planos e copiá-los. Dentro de meia hora, estarei de volta. Até lá terão de cuidar de Drog; ainda é cedo para soltá-lo.
Não há nenhum problema — disse Noir, que não desgrudava do saltador.
Quando puderam fechar a porta e se viram sós, suspiraram aliviados. Os olhares indagadores e curiosos dos inofensivos e bondosos swoons que andavam pela rua tinham se tornado quase insuportáveis. Embora não vissem nada de estranho no comportamento de Drog, a presença do grupo dava o que pensar. E Noir não poderia erradicar a memória de todos, como fizera com Drog.
Pode começar, Noir — disse Gucky e fez um sinal para que Markas se aproximasse. — Veja só, baixinho, como este saltador vai contar tudo que desejamos saber.
Noir conduziu Drog a um canto, depois de ter entregue a pasta a Gucky. O rato-castor examinou-a, a fim de verificar se os planos realmente estavam na mesma. Markas confirmou a autenticidade dos projetos.
Assim que Noir iniciou seu “tratamento”, os olhos de Drog adquiriram uma estranha rigidez e pareciam dirigir-se para longe. Manteve-se imóvel, como se estivesse paralisado.
Quem mandou construir o goniômetro de compensação? — perguntou Noir.
A resposta foi imediata:
O regente de Árcon.
Quem o inventou?
Um dos nossos cientistas; não conheço o nome.
Não havia a menor dúvida de que estava dizendo a verdade.
Qual será o montante da produção?
O goniômetro de compensação deverá ser montado em todas as naves do Império, a fim de que nenhum salto possa ser efetuado sem a devida localização. O objetivo principal consiste em encontrar a Terra, planeta natal de Rhodan.
É por isso que a fabricação será secreta?
É principalmente por isso. Ainda acontece que o aparelho terá peças muito pequenas e extremamente sensíveis, que só poderiam ser construídas pelos swoons. Mais tarde, a fábrica será transferida para um dos planetas pertencentes aos saltadores.
Noir lançou um ligeiro olhar para Markas e perguntou:
Com a concordância dos swoons?
Levaremos um grupo dos mesmos.
Tudo isso será feito por ordem do regente?
Drog respondeu sem a menor hesitação:
Não; esta idéia é minha. O clã ao qual pertenço adquirirá o monopólio de fabricação. Oportunamente os planos serão destruídos.
E o inventor? Os planos originais?
Drog sorriu como quem se deleita num belo sonho.
Tomamos nossas providências para que a vida do inventor não seja muito longa. Assim que o novo goniômetro tenha sido testado, o inventor, cujo nome não conheço, morrerá. Os planos também serão colocados em nossas mãos e destruídos. Ninguém poderá agir contra nós, pois nesse caso não haverá nenhum goniômetro de compensação.
Noir lançou um olhar para Gucky. O rato-castor soltou um suspiro.
É um verdadeiro complô — constatou. — E um complô que atingiria até o Império de Árcon. Estragaremos a festa deles, conforme costuma dizer Bell. Bem, o que sei já basta. Esperem aqui até que eu volte. Não demorarei.
Noir e Markas confirmaram com um gesto. O swoon já se acostumara com o gesto afirmativo dos humanos. Aprendia com uma rapidez extraordinária.
O rato-castor desmaterializou-se e saltou para a superfície. Depois concentrou-se na sala de comando da Drusus e para sua surpresa foi parar justamente no colo de Bell, que estava sentado no sofá, ao lado de Sikermann.
Pare de gritar! — pediu Gucky ao amigo, que estava muito assustado, e escorregou para o chão, segurando firmemente a pasta. — Onde posso encontrar o chefe?
Rhodan já ouvira Gucky. O rato-castor foi atingido por um impulso mental, antes que Bell tivesse tempo para responder.
Não se preocupe, gorducho — disse Gucky em tom tranqüilizador e caminhou em direção à porta. — Rhodan já me espera.
Logo desapareceu.
Bell fitou a porta fechada e enxugou o suor que lhe corria pela testa.
Ainda terei um ataque — disse em tom sombrio.

* * *

Na sala de combate da Drusus, Hubert Gorlat, um homem ruivo que ocupava o posto de capitão do serviço de segurança, pôs-se a trabalhar. Rhodan e Gucky mantiveram-se afastados e viram os planos serem abertos e copiados cuidadosamente. A fim de não perturbar o trabalho de Gorlat, Gucky relatou a seu chefe por via telepática aquilo que soubera de Drog.
Dali a uns cinco minutos, Rhodan perguntou em voz alta:
Se eu o entendi corretamente, o tal do Drog pretende seqüestrar um grupo de swoons altamente especializados a fim de fixá-los num mundo desconhecido, onde passariam a fabricar o goniômetro de compensação exclusivamente para ele.
Sim; foi isso que Drog declarou depois de ter recebido o “tratamento” de Noir.
Nesse caso, apenas disse a verdade — Rhodan fez uma pausa e acrescentou: — Quando você for levar os planos e trouxer Noir, traga também o pequeno swoon. Se não me engano seu nome é Markas.
Pois não, chefe. Você prometeu que o levaria à Terra juntamente com Waff.
De repente Rhodan sorriu e lançou um olhar quase afetuoso para Gucky.
Você gosta dos swoons, não gosta?
Gucky ficou radiante.
Gosto muito deles, Rhodan. Além de pequenos e alegres, são muito inteligentes e graciosos. Ficaria muito feliz se não me separasse de Waff e Markas. Acho que terão muito prazer em ir conosco.
Vou submeter-lhes uma proposta muito interessante, Gucky. Não se esforce em vão; por enquanto não descobrirá nada. Traga Noir e Markas. Depois sua curiosidade será satisfeita.
Olhou para Gorlat, que desligou a copiadora e dobrava os planos.
Pronto, capitão? Quero examinar esses projetos juntamente com Crest e Atlan. Tive uma boa idéia.
Pegou os planos das mãos de Gorlat e dobrou-os cuidadosamente para que pudessem ser guardados. Entregou a pasta marrom a Gucky. Deu uma palmadinha no ombro do rato-castor.
Ande depressa, Gucky. Espero-o no camarote de Crest. Não se esqueça de trazer Markas.
Um sorriso matreiro surgiu no rosto de Gucky, que exibiu o solitário dente roedor.
Seria mais fácil eu esquecer minha cauda — asseverou. Depois concentrou-se e saltou.
A última coisa que Rhodan viu de Gucky foi o rabo coberto de pêlos marrons. Sabia que não o deixaria para trás, da mesma forma que não deixaria um pequeno swoon que atendia pelo nome de Markas.

* * *

Dali a pouco, Drog dirigia-se ao edifício da administração, segurando a preciosa pasta. Refletia sobre o que andara fazendo nas últimas duas horas.
Enquanto isso uma conferência decisiva realizava-se no interior da Drusus. Crest desempenhava o papel de anfitrião.
Estava sentado na cabeceira da mesa semicircular e, imóvel, ouvia as palavras de Atlan, o imortal, cujas mãos seguravam as cópias dos planos. Além de Rhodan, Bell e Gucky, ainda participavam da reunião Gunter Forster, engenheiro-chefe, e o Dr. Ali el Jagat, chefe da equipe matemática.
O princípio do goniômetro é fácil de compreender, desde que se conheçam os princípios gerais que regem o funcionamento do compensador estrutural, pois o aparelho foi criado com base no mesmo. E também será fácil criar o aparelho seguinte: o equipamento de absorção. Este engolirá os impulsos do compensador, para que o goniômetro não possa localizar nada. Com isso perderá todo valor.
Rhodan lançou um olhar sério para Atlan. Sabia que poderia confiar integralmente em seu novo aliado, mas era perfeitamente possível que o imortal superestimasse sua capacidade...
Atlan, você tem certeza absoluta de que será possível construir o equipamento de absorção?
Atlan acenou com a cabeça e apontou para Jagat e Forster.
Pergunte aos especialistas, Rhodan. Eles confirmarão o que acabo de dizer. É bem verdade que não devemos esquecer que o goniômetro será construído em Swoofon, motivo por que terá peças microscópicas. E o aparelho de absorção deverá também ter peças do mesmo tamanho. Esta é a única lacuna vaga de minha linha de raciocínio.
Rhodan sorriu.
Obrigado, Atlan. Ainda falaremos sobre isto. Pelo que entendi, o fato de que dentro de três ou quatro meses as naves de reconhecimento dos saltadores estarão equipadas com o novo goniômetro não representará qualquer risco para nós, pois até lá conseguiremos, com o auxílio dos swoons, construir o aparelho de absorção. Não é isso?
Teoricamente sim...
Está bem — Rhodan lançou um olhar para Gucky, que segurava os dois swoons no colo e parecia ter esquecido o resto do mundo. — Quero pedir a Markas que responda a algumas perguntas. Sente-o na mesa, Gucky.
Markas andou de um lado para outro, um tanto inseguro, antes de encontrar a posição correta face ao tradutor eletrônico. Waff observava-o atentamente. Continuava sentado no colo de Gucky.
Faça o favor de perguntar — pediu o swoon. — Farei o possível para deixá-lo satisfeito.
Rhodan inclinou-se para a frente e fitou os olhos claros do swoon. Leu nos mesmos uma simpatia sincera e sentiu uma onda de ternura pelos pequenos seres. Estas criaturas pequenas e esquisitas, um tanto ridículas por possuírem o formato de um pepino, possuíam um caráter tão bondoso e decente que raramente seria encontrado entre os humanos. Provavelmente a amizade desses seres seria perdida para sempre, se não tivessem tido o cuidado de reconhecer neles grandes inteligências e dar-lhes o tratamento merecido. Rhodan começou a compreender a atitude de Gucky.
Markas, o senhor manifestou o desejo de conhecer meu mundo. Poderei cumprir esse desejo, mas antes disso quero fazer-lhe uma proposta, e peço-lhe que reflita sobre a mesma. Se recusar, ninguém ficará zangado com o senhor; apenas lhe peço que não tome uma decisão apressada.
Qual é a proposta?
Gostaria que o senhor e Waff, juntamente com uns dez ou vinte mil swoons, abandonassem o planeta e viessem comigo à Terra. Temos necessidade urgente de microtécnicos competentes como os senhores. Ofereço-lhes uma área e instalações que reúnam as condições desejadas pelos senhores. Ganharão o mesmo salário dos nossos especialistas mais competentes, além de certos prêmios. Serão obrigados a trabalhar por cinco anos. Quem quiser voltar a Swoofon depois desse prazo, será levado a seu planeta sem qualquer despesa. Apenas faço uma condição: para os swoons a viagem ao planeta Terra será um vôo “cego”. Isto é: não ficarão sabendo a posição galáctica de meu mundo.
Todos ouviram ansiosos as palavras de Rhodan. Crest acenou lentamente com a cabeça, como se esperasse algo semelhante. Atlan pôs-se a sorrir, e em seus olhos lia-se um elogio pela sabedoria de Rhodan. Gucky acariciava o pequeno Waff, que trazia no colo, e exibiu um sorriso que quase chegava a ser provocador. Bell notou o sorriso, mas não esboçou qualquer reação.
Markas respondeu:
No que me diz respeito, posso aceitar sua proposta. Tenho certeza de que Waff também estará disposto a ir conosco. Deseja especialistas de alguma área especial radicados em nosso planeta?
Sim, se for possível. Gostaria de ter alguns representantes de cada área de conhecimento, a fim de que a colônia de swoons da Terra possa produzir tudo que se fabrica em seu planeta natal. Compreende o que quero dizer?
Perfeitamente — respondeu Markas. — De quanto tempo poderei dispor para escolher as pessoas que irão conosco?
Rhodan ergueu as sobrancelhas.
Terá pouco tempo, pois pretendo decolar quanto antes. Não quero que o regente; pense que intenciono instalar-me aqui. Além disso, a construção do aparelho de absorção terá de ser iniciada com urgência. Traga alguns cientistas que sejam capazes disso.
Markas lançou um olhar para Waff.
Permita que Waff vá comigo; assim não demoraremos muito.
Leve Waff — disse Rhodan. — Mas existe mais um detalhe a ser observado. Ninguém deverá saber que um swoon que seja saiu do planeta. Quando perguntar a um dos seus amigos se quer acompanhar-nos à Terra, deverá ter cem por cento de certeza de que a resposta será afirmativa. Compreende o que quero dizer?
Naturalmente. Mas tudo isso não é tão difícil como o senhor poderia acreditar. Ao leste de Gorla existe um centro experimental de tecnologia aplicada. Trata-se de uma espécie de universidade prática, na qual são treinados os futuros especialistas. O corpo docente é formado por cientistas de primeira linha. Nas fábricas-escola estão todas as ferramentas especiais que existem e já existiram em Swoofon. Se conseguirmos transferir para a Terra tudo que se encontra nessa universidade, juntamente com os professores e alunos, não haverá nada que não possamos construir, desde os mini-transmissores de televisão até os hiperpropulsores em formato reduzido.
Rhodan confirmou com um gesto. Seus olhos se iluminaram.
Obrigado, Markas. Acho que isso seria uma solução. Será que conseguirá convencer todos os habitantes do centro experimental a aceitar nossa proposta? O que acontecerá se não estiverem de acordo?
Markas sorriu.
Ninguém recusará. Deixe tudo por minha conta. Quando deverei partir?
Rhodan lançou um olhar para Gucky.
Você acompanhará Markas e Waff, baixote. Quem você quer que o ajude quando chegar a hora? Anne Sloane?
Anne Sloane era telecineta. Gucky, que já compreendera o que Rhodan pretendia fazer, sacudiu a cabeça.
Não quero ninguém, Rhodan. Nem a telecinese, nem a teleportação poderão, por si só, resolver o problema. Sou o único mutante que reúne ambas as faculdades. Sabe do que quero dizer?
Rhodan acenou lentamente com a cabeça. O rato-castor prosseguiu:
Quando chegar a hora, farei a coisa sozinho — levantou-se, com Waff no braço. Com a mão livre segurou cautelosamente Markas. — Avisarei quando estiver na hora. Passem bem.
Dali a um instante, o ar tremeluzente era o único vestígio que restava dos swoons que se encontravam naquele lugar.
Bell fitou o espaço vazio.
Não compreendi nada — confessou a contragosto. — O que está havendo? Que negócio é este de combinar a teleportação e a telecinese?
Rhodan deu um sorriso para Crest e Atlan e respondeu:
Pois bem, meu caro Bell, se você soubesse ler pensamentos, sua vida seria muito mais fácil, não é? Mas não quero torturá-lo. Preste atenção; vou explicar...
Bell prestou atenção.
6



Os comandantes dos quarenta girinos ficaram bastante espantados quando receberam, dali a duas horas a seguinte mensagem da Drusus:

Chamando os comandantes de todas as naves K. Todas as unidades, com exceção da K-33, voltarão à Terra por suas próprias forças. Realizem vários saltos, sob a proteção dos compensadores. Tomem o máximo de cuidado. A unidade K-33 deverá apresentar-se imediatamente a mim. Fim. Rhodan.

Houve algumas consultas, mas Stern, que neste meio tempo voltara a assumir o serviço de rádio, removeu todas as dúvidas.
Era isso mesmo. O bloqueio de Swoofon havia sido suspenso, e os girinos não deveriam voltar para bordo da Drusus. Os que pertenciam à Titan e à General Pounder receberam ordem para voltar às suas unidades, a fim de abandonarem imediatamente o sistema.
Parecia uma retirada bem organizada. E realmente era uma retirada, se bem que um estrategista talvez dissesse que se tratava de um lance do jogo. Mas ninguém deveria saber disso.
O comandante da nave girino K-33 era Mikel Tompetch, um americano corpulento, de cabelos louros. Dez minutos depois de ter recebido a mensagem, entrou cuidadosamente com sua nave na escotilha aberta da Drusus e pousou no hangar. Os recintos em que estavam estacionadas as naves auxiliares estendiam-se que nem um anel em torno da gigantesca esfera que era a Drusus. Podia abrigar um total de quarenta girinos, cada um dos quais tinha sessenta metros de diâmetro.
O Tenente Tompetch desceu a rampa e não demonstrou maior interesse pela tripulação, que também saiu da K-33. Ao que parecia, não havia outra missão à vista. Os homens retornariam aos lugares que ocupavam na Drusus, onde havia uma necessidade premente deles, face à ausência das tripulações das outras naves K.
Enquanto se dirigia ao elevador antigravitacional, encontrou-se com Reginald Bell.
Dirigiu-se a ele e perguntou em tom exaltado:
Será que o senhor poderia informar o que significa tudo isso? Será que alguém pensa que eu não seria capaz de voar sozinho à Terra, já que os outros girinos podem realizar este vôo, enquanto nós...
Calma! — disse Bell, e um sorriso largo cobria seu rosto. Apontava para a K-33. — Isto é um calhambeque que já está precisando de uma revisão geral, certo?
O espanto de Tompetch não durou mais que um segundo.
Calhambeque? O que quer dizer com isso? Não é mais velha que as outras. É bem verdade que aquela colisão com o asteróide não fez bem à K-33, mas as peças danificadas foram todas substituídas. De qualquer maneira, não teríamos o menor problema em voar à Terra.
Não é disso que se trata, tenente — disse Bell em tom enérgico. — Devo comunicar-lhe que o senhor nunca mais pilotará a K-33. Se ainda houver algum pertence pessoal a bordo da unidade, vá tirá-lo imediatamente. A mesma ordem aplica-se aos tripulantes.
A cara de Tompetch exprimia espanto e perplexidade.
Nunca mais pilotarei a K-33? Por quê?
O chefe explicará, tenente. Providencie para que tudo seja retirado da K-33. Oportunamente avise ao chefe que a ordem foi cumprida. Aliás, destaquei alguns técnicos que o ajudarão a retirar alguns instrumentos de maior valor. Até logo mais, tenente.
Tompetch seguiu-o com os olhos com uma expressão de perplexidade, cocou a cabeça loura e soltou um suspiro. Dirigiu-se ao hangar e ligou o intercomunicador, para chamar de volta os tripulantes de sua unidade.
Depois pôs-se a trabalhar, a fim de cumprir as ordens de Bell, embora não compreendesse a finalidade das mesmas.
Dali a duas horas, encontrava-se à frente de Rhodan para comunicar que as ordens foram cumpridas, e que a K-33 praticamente estava reduzida a um envoltório vazio com um hiperpropulsor. Esperava receber uma explicação, mas teve uma decepção cruel. Rhodan limitou-se a acenar com a cabeça e disse:
Ótimo, Tenente Tompetch. Apresente-se a Sikermann, que o destacará para outro serviço. Afinal a K-33 está boa para sei jogada fora, não acha? E é o que pretendemos fazer.
Tompetch retirou-se. Ao chegar à porta que dava para o corredor, olhou para trás, mas apenas viu o rosto sorridente de Reginald Bell.
No momento isso não lhe esclarecia nada!
Assim que a porta se fechou, Bell disse:
O sujeito está se desmanchando de curiosidade, Perry. Para dizer a verdade, tenho pena dele.
Você deveria ter pena de si mesmo — disse Rhodan com um ligeiro sorriso. — Você tem muito trabalho pela frente. Leve os homens de que precisa e comece a esvaziar e preparar todos os hangares. Quero decolar dentro de cinco horas.
Bell dirigiu-se lentamente à porta.
Se é que até lá Gucky conseguirá terminar seu trabalho!? — ponderou.
Gucky estará pronto! — disse Rhodan em tom enfático, colocando o dedo no pequeno rádio de pulso.
Bell teve de reconhecer que sua situação não era muito diferente da de Tompetch. Resignou-se e deixou Rhodan a sós.

* * *

Enquanto existir vida haverá acidentes e catástrofes. Esta é uma lei implacável da natureza. Em Swoofon, também havia catástrofes, mas as mesmas eram relativamente raras e geralmente não assumiam maiores proporções.
De qualquer maneira, Gucky deveria agir com muita cautela. Estudou o mapa e comentou:
Existe apenas uma única linha férrea que liga a Universidade Técnica com a superfície e com as outras cidades. Isto é uma circunstância bastante favorável!
Waff, que estava sentado sobre a mesa, olhando por cima de seu braço, fez um gesto afirmativo.
Gucky continuou:
Por ela trafega só um comboio por dia, não é? Excelente. Este comboio partiu há uma hora. Logo, não é de esperar que saia outro antes de amanhã. Onde está Markas?
Está fazendo uma conferência para os micróticos — disse Waff. — Nenhum deles quer ficar.
Já há muitos que não querem ir conosco?
São apenas uns mil. O que faremos com eles?
Gucky deu de ombros.
O que poderíamos fazer? Eles se esquecerão da alocução de Markas. Noir cuidará disso. Depois eu os levarei a Gorla, onde poderão quebrar a cabeça para descobrir como foram parar lá. É bem verdade que não poderei fazer o trabalho sozinho.
Preciso chamar alguém que me ajude. Espere aqui mesmo. Não demorarei em voltar.
Waff caminhou para o lado e saltou para o chão. Depois viu Gucky concentrar-se e desaparecer. Já se acostumara a ver o estranho fenômeno, motivo por que não se assustou.
Dirigiu-se à janela. Dali se tinha uma boa visão sobre o conjunto de edifícios situado apenas vinte metros abaixo da superfície. O céu era substituído pela rocha lisa, interrompida a espaços regulares por lâmpadas embutidas. Aquele mundo subterrâneo era luminoso, quase tão luminoso como aquele mundo que ficava sob o verdadeiro céu. Além disso, era um pouco mais quente.
Waff assustou-se quando Gucky reapareceu. Trouxe consigo André Noir e Ras Tschubai, um terrano negro e robusto, que possuía o dom da teleportação.
Naquele instante, chegou Markas. Caminhou muito empertigado pela porta, que não tinha mais de cinqüenta centímetros de altura, e penetrou no recinto, que para Noir e Tschubai era uma sala de tamanho médio. De qualquer maneira, podiam mover-se ali sem baterem com a cabeça no teto.
Todos os micróticos concordaram em sair de Swoofon a fim de servirem a Perry Rhodan — anunciou em tom de triunfo e fitou os dois terranos.
Gucky apresentou Ras Tschubai, com quem Markas ainda não havia travado conhecimento.
Está na hora de interrompermos as comunicações com o mundo exterior — disse. — Antes de tudo devemos cuidar da estrada de ferro. Mas as estações de rádio também deverão entrar em pane. Quantas estações existem aqui, Markas?
Apenas uma. Waff sabe onde fica — Markas nem procurou disfarçar a impaciência. — Preciso cuidar dos estudantes e professores. Aqueles que resolveram ficar se reunirão com suas bagagens na estação ferroviária.
Excelente! — exclamou Gucky em tom alegre. — Noir e Ras cuidarão deles.
Foi o que aconteceu.
Noir erradicou dos swoons toda lembrança do que tinham visto e ouvido, enquanto Ras, depois de realizar um ligeiro salto para orientar-se, levou-os para Gorla, carregando-os aos grupos. Para facilitar as coisas largou-os na superfície, perto dos elevadores. Nem um único dos swoons saberia explicar como viera parar em Gorla. Além disso, o detalhe não despertava maior interesse, pois havia outros problemas.
Enquanto isso, Gucky caminhou a passos decididos para dentro do túnel da estrada de ferro e teleportou-se para um lugar que ficava a menos de cinco quilômetros da universidade. Com sua capacidade telecinética, não teve a menor dificuldade em deslocar algumas das rochas de apoio, fazendo-as cair com um terrível estrondo e soterrando os trilhos. Por enquanto nenhum trem passaria por aqui.
Saltou de volta e juntamente com Waff tomou as necessárias providências para que a estação de rádio não pudesse ser utilizada. Isso foi bastante fácil: bastava desligar o reator que fornecia a energia, enfiando uma placa isolante entre os elementos de carga. Para recuperar o reator a ponto de que este pudesse voltar a fornecer energia, seria necessário desmontá-lo. Isso demoraria pelo menos dez horas. E até lá...
As raras baterias atômicas existentes na área foram levadas à superfície por Gucky, que as depositou numa depressão entre as rochas. Seguiram-se algumas peças vitais do transmissor. Satisfeito com seu trabalho, regressou à sala, onde Tschubai e Noir, juntamente com Waff e Markas, já o esperavam.
Tudo liquidado — disse Markas. — Os swoons que ainda estão aqui querem ir à Terra. Como será feito o transporte? Os elevadores só podem transportar dez swoons de cada vez, pois foram construídos apenas para atender a casos de emergência...
Não se preocupe, Markas. Ras Tschubai e eu... bem, como direi?... sim, criaremos um canal de teleportação que ligue este lugar à Drusus, que pousará diretamente em cima do local em que nos encontramos. Graças ao dom que possuímos, não haverá a menor dificuldade em teleportarmos os swoons. Utilizarei esse canal para levar também as instalações da universidade à nave. Como vê, Markas, o problema está praticamente resolvido. Assim que estiver pronto, poderei avisar Rhodan.
Markas confirmou com um gesto.
Vamos esperar, Gucky.
O rato-castor preferiu não saltar para a superfície. Manipulou o pequeno rádio que trazia pendurado ao braço esquerdo e esperou que Rhodan respondesse. Fez um ligeiro relato da situação e pediu instruções.
A voz de Rhodan soou muito fraca no pequeno alto falante.
Daqui a cinco minutos, a Drusus pousará bem em cima da universidade. Tome todas as providências para que até então tudo esteja preparado. Voltarei a chamar.
Gucky fitou o aparelho de rádio quando o desligou.
Markas, diga a todos os swoons para comparecerem dentro de vinte e cinco minutos com seus pertences na grande praça que fica em frente do auditório. Ras Tschubai e eu começaremos a esvaziar os laboratórios e levaremos os instrumentos e aparelhos à superfície. Não podemos esquecer nada. Vamos ao trabalho. Noir, fique com Markas e Waff, para ajudá-los. Daqui a meia hora, encontrar-nos-emos no auditório. Afinal de contas, uma das finalidades do mesmo consiste justamente em fazer as despedidas dos estudantes que deixam a universidade. É o que acontecerá desta vez. Naquele instante, desapareceu juntamente com Ras Tschubai.

* * *

Cinco minutos depois do momento em que Gucky proferiu aquelas palavras, certo número de oficiais e tripulantes da Drusus tiveram oportunidade de presenciar um misterioso espetáculo.
A gigantesca espaçonave decolou em silêncio do campo de pouso de Swatran, isso após Rhodan ter suspenso oficialmente o bloqueio, para o que emitiu uma mensagem de rádio. Os saltadores que haviam sido “internados” foram libertados, retornando aos locais de trabalho ou às naves a que pertenciam. A vida voltou ao normal em Swoofon...
Com exceção de alguns detalhes.
As comunicações radiofônicas com a universidade, por exemplo, foram interrompidas. Era a única instituição daquele planeta dividido em várias nações que não conhecia diferenças de raça ou nacionalidade. Era lá que vivia a elite dos swoons. Ou melhor, vivera lá até trinta minutos atrás, já que tudo correra conforme os planos.
É que nesse meio tempo teve início o magnífico espetáculo.
Na verdade, para os tripulantes da Drusus o espetáculo não tinha nada de misterioso; quando muito seria espantoso. Gucky e Ras teleportaram com banquetas de trabalho, aparelhos e máquinas complicadas, geradores de todos os tamanhos, armários com ferramentas especiais e fardos de mercadorias. Tudo isso foi empilhado junto às paredes do hangar, de onde seria retirado oportunamente.
Mikel Tompetch, que estava de pé junto à K-33, já totalmente vazia, achava-se boquiaberto. Subitamente Gucky surgiu com um baú metálico de três metros de comprimento e um metro de largura, transportando-o para junto dos demais objetos que já estavam empilhados por ali. Ras Tschubai veio depois com um grande gerador, que continuava preso ao suporte. Gucky voltou a surgir, desta vez com um grande bloco residencial, que tinha uma parede transparente. No interior do bloco Tompetch viu uma completa instalação de cozinha.
O mundo dos swoons começou a reunir-se nos hangares da Drusus. Tompetch, que não havia sido esclarecido sobre isso, compreendeu tais fatos, mas no que dizia respeito à K-33 ainda se encontrava no escuro. De forma alguma compreendeu o que deveria fazer com a K-33, quase totalmente vazia.
Subitamente sentiu que a gravidade usual de 1 G diminuía. Via de regra os campos antigravitacionais da Drusus eram regulados de maneira tal que proporcionavam a gravidade terrana. Fosse qual fosse o lugar em que se encontrava a nave — no espaço livre ou em mundos estranhos — no interior dela não se sentia qualquer modificação da força gravitacional.
E agora a gravidade se alterava sem prévio aviso.
Alguns cadetes, que se encontravam na área fronteiriça do hangar vizinho, quiseram fazer seus gracejos por causa da gravitação de 0,25 G. Atiravam-se para o alto e executavam saltos malucos; com a gravitação normal certamente teriam fraturado alguns ossos.
Em outras condições, Mikel Tompetch se teria divertido com o espetáculo, mas agora não via motivo para isso. Pelo menos enquanto ele mesmo tateava na incerteza. Mas este estado não duraria muito.
De repente Ras e Gucky materializaram-se pouco acima do solo do hangar, com um verdadeiro “feixe de swoons”.
Gucky utilizou a telecinese para fazê-los descer em câmara lenta. Os pequenos seres espalharam-se com uma rapidez espantosa. Embora fosse a primeira vez que se encontravam na Drusus, pareciam saber exatamente o que tinham a fazer e onde ficavam seus alojamentos.
Era claro que tanto Tompetch como os outros tripulantes haviam sido informados sobre a vinda dos swoons, motivo por que não se mostraram surpresos. Os cadetes encerraram o “espetáculo desportivo” e foram cuidar dos swoons. Mas subitamente uma verdadeira torrente dos “pepinos” amarelos precipitou-se para o interior da Drusus, e os tripulantes tiveram de correr para conduzi-los aos respectivos lugares, pois do contrário o hangar “transbordaria”.
É a invasão dos pepinos! — disse uma voz junto à porta que dava para o corredor interno.
Tompetch levantou os olhos. Constatou que aquelas palavras haviam sido proferidas por Reginald Bell. O lugar-tenente de Rhodan encontrava-se em lugar elevado, em atitude firme e orgulhosa. Sacudia-se de tanto rir. Ninguém lhe levaria a mal, pois quem apenas olhasse ligeiramente chegaria à conclusão de que a Drusus estava recebendo uma “carga de pepinos”.
Subitamente outra pessoa surgiu ao lado de Bell.
Era Perry Rhodan.
Se fosse você, não ria assim — disse em tom sério. — Acho que você está se divertindo com o aspecto dos swoons...
Não é tanto isso, Perry. Mas quando vêm aos montes e caem ao chão que nem folhas o espetáculo se torna muito esquisito.
De qualquer modo, sua alegria poderá provocar um incidente. É bem verdade que tenho de confessar que também eu preciso esforçar-me para continuar sério. Acontece que os swoons são nossos amigos. Sem eles não poderemos fazer em dez anos um progresso de um século no terreno da microtecnologia. Não se esqueça disso quando tiver vontade de zombar deles.
Depois de ligeira pausa acrescentou:
Aliás, os swoons também sentem vontade de rir quando vêem você. Apenas sua sensibilidade inata impede-os de procederem assim, isto é, de não darem vazão aos seus sentimentos.
Acenou ligeiramente com a cabeça e desapareceu.
Bell seguiu-o com os olhos. Parecia perplexo. Quando viu o olhar curioso de Tompetch, preferiu retirar-se também.

* * *

Dali a quatro horas, a operação chegou ao fim.
Vinte mil swoons encontravam-se a bordo da Drusus, juntamente com as ferramentas especiais e as melhores máquinas, a fim de procurarem um novo lar no sistema solar. A gigantesca caverna que ficava sob a superfície do planeta Swoofon estava completamente vazia. A universidade deixara de existir. Rhodan tinha certeza de que dentro de cinco anos os swoons construiriam outra. Mas também tinha certeza de que um acontecimento iminente causaria um atraso de algumas semanas, ou mesmo meses, no início da construção do novo goniômetro.
Este acontecimento tinha uma ligação estreita com o estado de incerteza em que se encontrava Mikel Tompetch.
Neste meio tempo, essa incerteza já fora removida por Rhodan, que informou o tenente sobre as linhas gerais da operação projetada.
A Drusus decolou e, depois de emitir uma mensagem sem sentido, subiu à estratosfera de Swoofon. Entrou em órbita depois de atingir a altitude de trezentos quilômetros.
Gucky, que já se encontrava a bordo da K-33, aguardava o momento de entrar em ação. Desta vez estava só. Se falhasse, a responsabilidade seria exclusivamente sua. Mas não adiantava preocupar-se. O plano combinado com Rhodan havia de dar certo.
Na parte do hangar em que estava estacionada a K-33, não havia nenhum swoon. As portas, que ligavam esse setor com aqueles em que estavam abrigados esses seres, foram fechadas. Não havia necessidade de que testemunhassem o acontecimento que se aproximava.
Com o corpo um tanto rígido, Gucky estava sentado junto aos controles do girino. Os instrumentos haviam sido quase todos retirados, já que os técnicos tinham desmontado tudo que tivesse alguma importância. Só o propulsor continuava intacto, e por isso a nave poderia ser colocada numa rota prefixada, mesmo que os instrumentos de navegação estivessem ausentes. Só se poderia recorrer à pilotagem visual; em hipótese alguma seria possível exceder a velocidade da luz.
E nem Gucky pretendia fazer isso.
Olhando pelo dispositivo visual telescópico, viu a grande escotilha da Drusus abrir-se, deixando livre o caminho que levava ao espaço. O grande momento havia chegado.
Ouviu-se um ligeiro estalo junto ao seu pulso.
Então, baixinho? — disse a voz de Bell, que comandava a ação na sala de comando da Drusus. — Está pronto?
Já estou pronto há muito tempo, gorducho. Por mim podemos começar.
Depois de uma ligeira pausa a voz voltou a ser ouvida:
Decolagem dentro de dez segundos. Siga a rota combinada. Mantenha a aceleração constante de 1 G. Faltam cinco segundos...
No momento em que Bell disse “um segundo... já”, Gucky empurrou o acelerador para a frente. O girino levantou-se do solo do hangar, passou entre os campos magnéticos e saiu pela escotilha, precipitando-se espaço afora.
Gucky olhou para a tela.
A Drusus recuava rapidamente, mas depois de algum tempo descreveu uma curva elegante, como se quisesse alcançar o girino. Ao mesmo tempo, na sala de rádio, David Stern expediu a seguinte mensagem, que foi captada por todas as estações dos saltadores existentes em Swoofon:

Atenção! Criminoso foragido conseguiu fugir numa nave auxiliar de formato esférico! Advertimos todos para que não lhe prestem qualquer auxílio! A nave auxiliar está armada! Perry Rhodan.

Esta mensagem preencheu duas finalidades distintas. Em primeiro lugar, os habitantes de Swoofon haveriam de supor que a ação de Árcon, comandada por Rhodan, fora bem sucedida. Este truque servia para distrair suas atenções. Além disso, encontrariam uma explicação para a catástrofe que se verificaria dali a pouco, sem refletir desnecessariamente sobre o motivo dos acontecimentos ou a finalidade de quem praticava o ato. Evidente que nem poderiam ver qualquer motivo ou finalidade naquilo. E, por fim, o desaparecimento de vinte mil swoons seria camuflado.
Gucky sorriu ao captar a mensagem em seu pequenino rádio. Modificou ligeiramente a rota da nave que estava dirigindo, fez com que penetrasse nas camadas mais densas da atmosfera e reduziu a velocidade. A K-33 foi pouco atingida pela gravitação de Swoofon.
Atenção! — disse a voz de Bell, vinda do rádio. — Falta metade do contorno do planeta para chegarmos ao destino.
A Drusus mantinha-se menos de cinqüenta quilômetros atrás de Gucky. As mensagens foram transmitidas com uma potência tão reduzida que só Gucky poderia captá-las. Não havia o menor perigo de que qualquer pessoa que não possuísse o tipo especial de receptor pudesse acompanhar a palestra.
Descreva o objetivo; não tenho nenhum mapa.
Não se preocupe, baixinho; cuidaremos disso.
Mais alguns minutos passaram-se.
Gucky aproximava-se de Swoofon, na nave aparentemente descontrolada. O veículo espacial ia perdendo altura; parecia incapaz de voltar a subir. Alguns disparos energéticos da Drusus, que passaram rente ao girino, deram prova de que não havia a menor intenção de permitir que o criminoso escapasse.
Bell transmitiu os últimos dados em tom indiferente:
No horizonte estão surgindo algumas montanhas, Gucky. Antes delas existe uma planície com algumas rochas pontudas esparsas. A do meio é a maior; à direita existem duas montanhas alongadas. Já viu?
A rocha central está bem à minha frente — confirmou o rato-castor. — Qual é o lugar? Só disponho de 18 segundos.
Antes da rocha há um vale arredondado. É fácil reconhecê-lo. Parece um lago seco... — Dirija a K-33 para lá. Agora!
Reconheci o lugar.
Gucky fitou a tela. Aproximou-se vertiginosamente do vale redondo. O girino estava seguindo um rumo de colisão. Aumentou a velocidade e desceu quase verticalmente sobre o vale, que nem um meteoro.
Ainda se encontrava a vinte quilômetros de altura.
A Drusus mantinha-se lá em cima, e nem se deu ao trabalho de seguir a nave que caía. Qualquer pessoa que observasse o espetáculo chegaria à conclusão de que os controles da pequena nave haviam sido bloqueados por meio de um dispositivo de teledireção, motivo por que teria de cair irremediavelmente.
Faltavam dez quilômetros!
Gucky começou a “transpirar”, mas prosseguiu obstinadamente. Já tirara as mãos dos controles. A rota era exata e não havia necessidade de corrigi-la. O que estaria esperando? Se continuasse ali, fatalmente cairia ao chão juntamente com o girino e se desmancharia nos seus componentes atômicos.
A ponta da rocha encontrava-se na mesma altura da nave. Lá embaixo o vale se abria, como se quisesse acolher a nave que caía. E era exatamente o que iria acontecer.
Gucky concentrou-se em Bell, que se encontrava na sala de comando da Drusus, fechou os olhos, sentiu um calafrio e saltou.
Não poderia ter esperado nem mais um segundo.
O girino penetrou no solo rochoso como se fosse um meteoro, abriu um buraco de vinte ou trinta metros e detonou. Surgiu um gigantesco buraco na superfície de Swoofon. Com uma lentidão apavorante formou-se uma muralha, empurrada pelo volume da nave; até parecia que a rocha se transformara numa massa viscosa.
Dali a mais alguns segundos, houve a erupção, que atirou as rochas incandescentes e as pedras liquefeitas a vários quilômetros de altura. O cogumelo atômico começou a subir ao céu e espalhou-se ameaçadoramente.
Bell, que não tirara os olhos do espetáculo horrendo, não deu a menor atenção a Gucky, que se materializou em seu colo e também acompanhava os acontecimentos.
Rhodan encontrava-se perto dali; cerrara os lábios. Havia uma indagação que lhe passava pela mente: teria agido corretamente, como uma criatura responsável? Sob o ponto de vista do planeta Terra, a resposta só poderia ser afirmativa. E sob o ponto de vista do Império?
Livrou-se das reflexões. A longo prazo, a ação desenvolvida em Swoofon reverteria em benefício comum da Terra e de Árcon. Sob uma perspectiva mais ampla, a missão representava um passo à frente. Para todos, não só para a Terra.
Crest estava ao lado de Rhodan. Também parecia pensativo, mas o bloqueio de sua mente impedia que qualquer pessoa lesse seus pensamentos. Como já acontecera tantas vezes, estes continuariam a ser um segredo.
Com Atlan, as coisas foram diferentes. O imortal estava sentado numa poltrona e contemplava o cogumelo com um sorriso frio. Ele, que já vivera tanto, sabia perfeitamente que os grandes objetivos não podem ser atingidos exclusivamente por meio de atos que à primeira vista parecem ser elogiáveis. Sabia que muitas vezes o justo deve recorrer ao mal a fim de alcançar a vitória do bem. E a essa hora já estava convencido de que Rhodan pretendia o bem, e não só o bem da Terra!...
Lá embaixo, a lava incandescente borbulhava no interior da cratera. Seu diâmetro quase chegava a um quilômetro, e a profundidade devia ser de cerca de cinqüenta metros. Qualquer swoon ou saltador teria certeza de que a universidade situada naquele lugar, embaixo da superfície, deixara de existir. A reação nuclear do hiper-propulsor destruíra tudo, já que a nave detonara com o acelerador ligado.
Vinte mil swoons, que representavam a elite das várias nações dessa raça, haviam perecido na catástrofe, pela qual era responsável um criminoso desconhecido.
Era só esta a conclusão a que poderiam chegar.
Rhodan parecia despertar de um sonho. Dirigiu-se à sala de rádio. Seus movimentos quase chegavam a ser pesados. As mensagens captadas convenceram-no de que suas suposições foram corretas. Dali a dois minutos, fez um sinal para Stern.
Desligue, Stern. Já podemos partir. Ligue a recepção do hipercomunicador.
Voltou à sala de comando.
Crest aproximou-se e colocou a mão sobre seu ombro.
Isto foi necessário, Perry. Não se esqueça de que ninguém saiu ferido. E nem um único swoon morreu.
Acontece que lá embaixo acreditam que vinte mil pereceram. Qual é a diferença? A população do planeta tem certeza de que sua elite morreu. Para eles os vinte mil indivíduos estão mortos.
A diferença — disse Crest, falando pausadamente e em tom enfático — está nos hangares, onde os swoons já começaram a montar as máquinas, sob a direção de Markas.
Rhodan fitou Crest. De repente, um sorriso se espalhou por seu rosto. As rugas de sua testa se desfizeram.
Enganamos não apenas os saltadores que se encontram em Swoofon. Até conseguimos tapear o robô regente que nos armou uma cilada. Enquanto estiver convencido de que dispõe de um goniômetro que lhe permitirá descobrir a posição da Terra, nos deixará em paz. E precisamos de paz, pois a hora da decisão se aproxima. Acho que sabe o que quero dizer, Crest.
Sei; são os invisíveis vindos de outra dimensão temporal. Saberemos lidar com eles, Perry Rhodan. Mesmo que pareçam ser atemporais e eternos, em suas dimensões são tão mortais como os seres visíveis o são em nossa dimensão. Nunca devemos esquecer este detalhe.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Esta circunstância serve de base aos nossos planos, Crest.
Sikermann transmitiu suas instruções.
O planeta Swoofon foi recuando e diminuiu rapidamente, quando a Drusus acelerou, aproximando-se do ponto de transição. A Terra não estava longe, pois o que contava não era a distância, mas o tempo.
Gucky tirou os olhos da tela e saiu do colo de Bell.
Bell fitou-o com uma expressão de perplexidade.
Como é? — perguntou em tom de espanto. — Você vive me jogando para o alto, mas adora saltar para meu colo.
Porque você é gordo e parece um colchão — disse o rato-castor em tom generoso e dirigiu-se à porta. — Se alguém me procurar, estarei...
Já sei — disse Bell em tom de desprezo. — Você estará com os pepinos. Divirta-se.
Ao que parecia sentiu-se ofendido porque deixara de desempenhar o papel principal na vida de Gucky. Este voltou-se na porta.
Bell, sou seu amigo e por isso quero preveni-lo. Pedi a Markas que construísse um vibrador. O mesmo tem um receptor de impulsos e não é maior que um grão de areia. Um dia você o engolirá com um pedaço de carne. E toda vez que você tiver um pensamento menos agradável em relação aos swoons, apertarei um botãozinho. Nem queira saber como serão “as dores de cabeça” que sentirá.
Bell empalideceu, mas conseguiu controlar-se.
E eu — anunciou em tom tranqüilo — tomarei um purgante, e com isso sua tecnologia sofisticada...
Você está aprendendo belas palavras — disse Gucky, sacudindo a cabeça e fechando a porta do lado de fora.
Ouviram-no murmurar baixinho, enquanto se afastava apressadamente sobre os pés chatos. As palavras que Bell deixara de pronunciar, mas que conseguira captar por via telepática, deviam tê-lo abalado profundamente.




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* *
*







A posição galáctica da Terra continua desconhecida. E, mais uma vez, o computador de Árcon foi ludibriado!
Em A Prisão do Tempo, título do próximo volume, mais uma empresa arriscada será tentada...

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