segunda-feira, 11 de março de 2013

P-052 - O Pseudo - Clark Darlton [parte 1]

Autor
CLARK DARLTON



Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN
Quem se mete com
Gucky perde a barba
ou as calças...


Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento cósmico da Humanidade, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que o homem podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou. Formava agora o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestavam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma, os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Este reino planetário, que alcançou elevado grau de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, capaz de enfrentar qualquer atacante.
Mas Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes cósmicos — todos eles membros do célebre exército de mutantes continuam a ser instruídos para, em quaisquer circunstâncias, manter em segredo sua origem terrana. Em Tolimon, um dos mundos dos aras, alguma coisa parece não ter dado certo durante o desempenho de uma missão muito importante. Acompanhado de Gucky, Perry Rhodan aparece em cena para tirar seus agentes dos apuros. Perry Rhodan é O Pseudo.


= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry RhodanQue em Tolimon assume o papel do inspetor Tristol.

GuckyQue não gosta nem um pouco do papel de criado pessoal.

John MarshallComandante do exército dos mutantes de Rhodan.

Laury MartenUma moça de 23 anos, filha dos mutantes Ralf Marten e Anne Sloane.

Conde Rodrigo de BerceoUm homem apaixonado por Laury e, também, pela espada.

GlogolUm inspetor que, por melhor que seja, não pode incutir respeito quando aparece de cueca.
1



Ainda havia gente que não conhecia Gucky, o rato-castor. Para muitos deles, isso não representava nenhuma tragédia; apenas ficavam privados do prazer de apreciar um pequeno milagre. Mas outros, que nunca haviam ouvido falar a seu respeito e, de repente, se encontravam com ele, poderiam experimentar uma surpresa nada agradável.
Foi o que aconteceu, por exemplo, com os colonos revoltados do planalto ao sul de Vênus City. Sabiam por experiência própria que o governo mundial de seu planeta de origem não costumava enviar expedições punitivas para sufocar rebeliões no nascedouro. Por isso, resolveram romper os laços que os ligavam à Terra, dos quais resultavam tributos insignificantes, para adquirir a independência.
Como Perry Rhodan se encontrasse em algum lugar nas profundezas do Universo, e não houvesse meio de entrar em contato com ele, o governo mundial terrano agiu por conta própria e incumbiu Gucky de verificar o que estava acontecendo em Vênus.
Com o maior prazer, Gucky passou a desincumbir-se da missão.
Os colonos revoltados riram gostosamente quando um belo dia surgiu diante deles aquela criatura que se parecia com o ratinho Jerry. Riram ainda mais quando a figura engraçada afirmou que vinha por ordem do Império Solar, para restabelecer a ordem.
Só pararam de rir quando aquele animal esquisito, que falava um inglês impecável, lançou mão de suas forças ocultas. Nenhum pensamento dos cabeças lhe ficou oculto, pois Gucky era telepata. Encontrava-se nos mais variados lugares ao mesmo tempo, pois também possuía o dom da teleportação. E, para coroar a obra, todo o arsenal de armas dos colonos foi erguido, ficou reunido bem acima do planalto e caiu num lago profundo. É que Gucky também era telecineta.
Depois disso, os colonos voltaram a agir razoavelmente. Desculparam-se com muitas palavras bonitas e juraram obediência para o futuro, prometendo pagar pontualmente os tributos a que se haviam obrigado.
Na noite daquele dia agitado, Gucky foi homenageado por sua generosidade. O chefe da revolta sufocada convidara-o e lhe oferecera verduras frescas e vinhos da estação. A festa foi muito alegre e o rato-castor, muito animado, começou a esquecer as boas maneiras. Com sua voz aguda, cantou algumas canções grosseiras que ouvira de Bell. Os homens acompanharam-no com as vozes roucas.
Os animais que residiam nas matas vizinhas à colônia espantaram-se com o barulho descomunal e ficaram em silêncio. Nunca tinham ouvido um rato-castor cantar. Um porco-espinho assustou-se e enfiou-se mais profundamente em sua caverna, resolvendo que ao raiar do dia procuraria um novo lar. Até mesmo um verme-parafuso quase surdo enfiou-se apressadamente no chão, para livrar-se da orgia de ruídos pouco agradáveis.
Em poucas palavras, Gucky sentia-se feliz como um porco em meio às abóboras.
É bem verdade que vez por outra teve a impressão de que seu subconsciente estava sendo atingido por débeis impulsos mentais que não provinham dos colonos, cujos cérebros estavam envoltos nas névoas alcoólicas. Mas não deu atenção ao fenômeno. Afinal, fizera um trabalho bem feito e merecia uma noite alegre. O que tinha ele a ver com a guarnição terrana de Port Vênus, a capital do planeta? Aquela gente poderia perfeitamente esperar até o dia seguinte.
Gucky continuou a cantar e a receber as homenagens.
Bem mais tarde, quando estava descansando em uma macia cama na casa do prefeito, procurando espantar os anéis coloridos e as paredes que balançavam, os impulsos voltaram.
Gucky! Aqui é o comando do exército de mutantes. Responda! O que aconteceu?
A mensagem era tão clara que não poderia passar despercebida. Pelo tipo das vibrações só poderia ser Betty Toufry, cuja capacidade telepática muitas vezes provocara a admiração de Gucky. Era Betty quem dirigia o comando do exército de mutantes destacado para Vênus. A ela fora confiada a incumbência de sufocar a revolta dos colonos.
Gucky suspirou e fez um esforço para vencer a embriaguez.
Minha doçura! — pensou, despertando aos poucos. — Meu estado é excelente. Apenas estou um tanto carregado.
Carregado?
O rato-castor sorriu. Como é que aquela criatura ingênua poderia saber o que carregara? Não conhecia o vocabulário de Bell tão bem quanto ele.
Estou carregado de vinho — explicou laconicamente. — Um vinho delicioso. A revolução acabou-se. Amanhã estarei aí e lhe darei um beijo.
Betty não parecia sentir-se muito feliz com a promessa.
Você vai voltar, mas é já! Tenho outra tarefa para você.
O rato-castor continuou deitado, sacudindo o sono que ameaçava envolvê-lo. Quem sabe se realmente não havia bebido demais?
O que é? — perguntou.
Começou a sentir-se mal.
Trata-se de uma missão especial, meu chapa! — foi a resposta telepática que veio imediatamente. — Você terá que partir amanhã de manhã.
Gucky soltou um gemido e ergueu-se na cama. Encostou-se à parede. A luz vinda da rua provocou um reflexo branco na pele da barriga.
Partir amanhã? Será que esta vida de cigano nunca terá fim?
Betty começou a impacientar-se.
Ou você vem imediatamente, Gucky, ou eu aviso Rhodan que você recusou obediência a uma ordem. Ele exigiu expressamente a sua presença e...
Gucky despertou imediatamente. O cansaço e o mal-estar desapareceram como que por encanto. Com um salto, pôs-se de pé ao lado da cama.
Então foi Rhodan? Ele quer minha presença? Que chefe adorável! Não se esqueceu de mim — a emoção quase chegou a dominá-lo, mas acabou por controlar-se. — Dentro de cinco minutos estarei aí. É no espaçoporto?
Está certo. Ande depressa!
Já estou a caminho — respondeu Gucky e começou a vestir-se. Numa letra delicada escreveu um bilhete de agradecimentos aos colonos e recomendou-lhes que nunca mais pensassem em revoltas.
Depois, concentrou-se em seu destino e saltou.
De início, o ar começou a tremeluzir em torno dele. Subitamente desapareceu. No mesmo instante, voltou a materializar-se no lugar combinado, em Port Vênus.
Betty Toufry nem chegou a assustar-se.
Estava sentada na cama. Trazia um robe sobre a roupa de dormir, que devia ser muito fina. Em Vênus o dia e a noite eram medidos pelos padrões terranos, pois face à rotação do segundo planeta, só a verdadeira noite durava cento e vinte horas.
A parede do quarto era formada de telas e controles. Era aqui que se reuniam todos os fios das teias urdidas em Vênus. E a partir dali, era controlada a ação dos mutantes. Enquanto John Marshall, chefe do exército de mutantes, estava ausente, as funções eram exercidas por Betty.
Será que isso não poderia esperar até amanhã? — perguntou Gucky, mas logo se lembrou de quem o tinha chamado. — Foi Rhodan em pessoa que exigiu minha presença? Por que não me chamou logo?
A moça, que continuava jovem graças à ducha celular do planeta Peregrino, aplicada aos membros mais importantes do exército de mutantes, sacudiu a cabeça diante de tamanha falta de lógica.
Faz poucas horas que recebi a mensagem de Rhodan pelo hipercomunicador. Confiou-nos uma tarefa muito estranha, que tinha de ser cumprida antes de qualquer outra coisa. Só depois disso, tive tempo para pensar em você, que é parte do equipamento solicitado.
Você acha que eu sou uma peça de equipamento? — disse Gucky em tom indignado, acomodando-se na poltrona. — Foi o chefe que disse isso?
É claro que não usou essa expressão. Mas fez questão de que mandássemos você.
É porque sabe apreciar minhas qualidades — disse o rato-castor em tom de regozijo.
Talvez — disse a moça, que pelo aspecto podia ter tanto dezoito como trinta anos. Na verdade Betty Toufry tinha mais de sessenta anos. — De qualquer maneira, você voará para Hellgate amanhã, logo depois do período de sono.
Gucky empertigou-se e levantou as grandes orelhas. Por entre os lábios, surgiu o dente roedor, que podia ser considerado o barômetro de seu humor. Quando aparecia, podia-se falar tranqüilamente com Gucky.
Hellgate! — sacudiu a cabeça de espanto. — Logo esse planeta do calor. Será que o chefe não poderia ter inventado nada melhor?
Hellgate é uma base muito importante que dispõe de uma estação de rádio. É o único planeta de um sol pequeno e insignificante, que consta dos catálogos dos arcônidas sob a designação ZW-2536-K-957. Hellgate dista exatamente 12.348 anos-luz da Terra. O planeta pertence ao Império de Árcon. Ninguém se interessa por ele, especialmente os arcônidas.
Obrigado pela explicação — chiou Gucky em tom de desprezo. — Eu poderia ter encontrado essas informações num livro. O que vou fazer em Hellgate?
Faça essa pergunta a Rhodan; ele deve saber. Não tenho a menor idéia do que aconteceu por lá — Betty ajeitou o robe e cobriu os joelhos, embora não houvesse o menor perigo de que Gucky ligasse o joelho humano feminino a qualquer tipo de erotismo. — Também não faço a menor idéia do que Rhodan pretende fazer com o iate espacial de luxo.
Com o quê? — perguntou Gucky perplexo.
É um veículo feito sob encomenda — disse Betty, participando do espanto de Gucky. — Um iate especial para milionários. Os arcônidas costumavam utilizá-lo. Você vai levar a pequena nave para Hellgate, onde está Rhodan.
E depois disso vou voltar a pé? — perguntou Gucky.
Dificilmente. Se fosse assim, não teria dito expressamente que quer você como piloto. Tomara que você saiba dirigir aquilo.
O rato-castor empertigou-se, o que quase chegou a provocar o riso de Betty.
Isso não é nada. Afinal, fui treinado com todos os tipos de nave, inclusive com esse ridículo iate de luxo. Quando devo partir?
O equipamento ainda está sendo colocado a bordo. Infelizmente a longa noite de Vênus começou há pouco, mas você não se importa de decolar no escuro. Será dentro de dez horas. Se quiser, pode dormir mais um pouco. O pessoal de Port Vênus está a par de tudo e fará o possível para apressar os preparativos. Rhodan o aguarda para daqui a vinte horas.
Gucky exibiu o dente roedor e lançou os olhos em torno.
Será que posso dormir aqui? — perguntou com a cara mais inocente do Universo e lançou um olhar ansioso para a cama de Betty.
Mas esta não tinha a menor vontade de acariciar o rato-castor para pô-lo a dormir. Tirou o robe, enfiou-se sob a coberta de penas e sacudiu a cabeça.
Na sala ao lado há um sofá. Boa noite.
Desapontado, Gucky ficou mais alguns minutos na poltrona. Depois teleportou-se para a peça contígua.
Ainda se encontrava sob os efeitos do vinho. Por isso, logo esqueceu seus problemas e adormeceu.

* * *

O veículo espacial de luxo pertencia a uma classe toda especial.
Envolvido pela luz ofuscante dos holofotes, estava pousado no pavimento de concreto, junto ao cruzador leve que o trouxera da Terra.
Sobre o corpo prateado da nave lia-se em caracteres negros a designação arcônida Koos-Nor.
Assemelhava-se a um gigantesco ovo, com trinta e cinco metros de comprimento e quase vinte de diâmetro na parte central.
Uma escotilha oval conduzia para a comporta de ar e dali para o interior do iate. Seu raio de ação era praticamente ilimitado, desde que não se desse importância às revisões regulamentares.
Gucky e Betty Toufry encontravam-se diante da maravilha reluzente.
Isso deve custar um bom dinheiro — constatou Gucky. — Nunca imaginei que um dia viria a comandar uma maravilha dessas.
A moça olhou para o relógio.
Você conhece as coordenadas, Gucky. O engenheiro-chefe voltou a explicar todos os detalhes. O que está esperando?
É verdade, Betty. Vou zarpar.
Betty riu.
Você está exagerando para menos, coisa que não costuma fazer. Dê lembranças minhas a Rhodan e aos outros. E boa sorte.
Você acha que precisaremos?
Sem dúvida. Rhodan falou numa missão muito arriscada.
Gucky sorriu. Parecia satisfeito.
Ainda bem que esta espera enjoada chegou ao fim. Todos os mutantes estão participando de comandos especiais. Eu sou o único que se encontra aqui em Vênus para acalmar colonos inofensivos cujo único defeito consiste em não querer pagar impostos.
Bem, ainda não existe nenhum imposto para os ratos-castores — disse Betty com um sorriso e recuou um passo. — Faça um trabalho bem feito, Gucky.
Gucky sorriu e, com um ligeiro salto, subiu os poucos metros que o separavam da escotilha de entrada. A escada que se revelara desnecessária encolheu-se automaticamente. Gucky acenou e desapareceu no interior da comporta. A pesada escotilha, iluminada pelas lâmpadas, fechou-se.
Poucos minutos depois, um tremor sacudiu o vulto em forma de ovo. Levantou-se e subiu lentamente ao céu escuro, seguido pela luz dos holofotes.
Betty caminhou até a beira do campo de pouso. Quando parou e lançou mais um olhar para o céu enegrecido, não viu mais nada da nave. Parecia que a mesma se desmaterializara.

* * *

E foi isso mesmo. Gucky estava decidido a aproveitar todas as possibilidades da nave de luxo arcônida.
Os veículos espaciais do tipo da Koos-Nor eram dotados de um campo amortizador especial, que reduzia a um mínimo os efeitos das hiperentradas e saídas sobre a estrutura espacial contígua. Por isso, essas naves tinham o direito de ingressar no hiperespaço dentro do setor espacial ocupado por um sistema solar, ou reingressar no espaço normal nesse mesmo setor. O custo de um equipamento desse tipo era o único fator que impedia sua instalação em todas as naves. O gerador de campo amortizador não era rentável — a não ser para iates de luxo, com os quais os inspetores irradiavam o poder e esplendor de Árcon...
O rato-castor ligou o gerador de campo de amortização assim que a Koos-Nor rompeu a camada de nuvens branca-amarelenta de Vênus.
Naquele instante, o Universo deixou de existir para Gucky. Ou melhor, o rato-castor e todo o iate de luxo deixaram de existir para o Universo normal. Transformaram-se e passaram a existir sob a forma de um impulso energético de categoria superior.
Essa situação perdurou até o momento da rematerialização.
Quando a dor tão conhecida, provocada por esse processo, se desvaneceu, Gucky contemplou os quadros estelares, subitamente modificados.
Escorregou para fora do assento do piloto e resolveu dar uma olhada mais detida pela nave. Sentia-se martirizado pelo desejo de saber o que Rhodan pretendia fazer com esse veículo de luxo. Por que não solicitara um cruzador, em vez desse lindo brinquedinho? Com este iate, poderia não se sair bem numa aventura perigosa.
No porão de carga, viam-se as caixas fechadas vindas da Terra. Acontece que uma fechadura não representava nenhum problema para Gucky, o telecineta, e assim não era de admirar que o rato-castor inspecionasse o equipamento especial de Rhodan sem que isso lhe doesse na consciência.
Dez minutos depois, voltou à sala de comando da Koos-Nor e deixou-se cair no assento.
Os olhos arregalados fitaram a profusão de estrelas desconhecidas.
Gostaria de saber o que Rhodan vai fazer num baile de máscaras — sussurrou.

* * *

Hellgate realmente parecia ser o portão do inferno, conforme dizia o nome. Ninguém seria capaz de imaginar um planeta mais solitário e desolado que aquele. Ali, Rhodan travara a primeira luta terrível contra Atlan, o solitário do tempo.
Hellgate...
Era um deserto de areia e rocha, inundado pelo sol e privado de qualquer vida ou esperança. Nenhuma criatura sensata conceberia a idéia de fixar-se ali, pois não havia nada com que pudesse alimentar-se. O sol solitário ficava longe de todas as rotas espaciais e tinha menos importância que uma partícula de pó suspensa na atmosfera de qualquer planeta habitado da Via Láctea.
Hellgate...
Justamente esse mundo infernal fora escolhido por Rhodan para servir de base e posição avançada contra o Império dos Arcônidas. Ninguém suspeitaria de que estivesse ali, se é que alguém soubesse da sua existência. E isso era pouco provável. Há quase seis décadas considerava-se a Terra como um planeta destruído, e todo mundo acreditava que Rhodan e sua gigantesca nave, a Titan, tivessem desaparecido.
Em Hellgate, Rhodan construiu a cúpula de aço, em cujo interior existiam condições de vida terranas. A partir dali poderia, a qualquer momento, estabelecer contato pelo hipercomunicador com os postos espalhados pelos quatro cantos do Universo. No hangar subterrâneo havia uma nave rápida, preparada para tirá-lo dali caso houvesse necessidade.
Já fazia muito tempo que se encontrava em Hellgate, mas ainda não havia atingido seu objetivo.
Exatamente a oitenta e um anos-luz ficava um sol de luminosidade débil do tipo G, que estava registrado nos catálogos dos arcônidas com o nome de estrela de Revnur. Lembrava o sol terrano e facilmente poderia ser confundido com o mesmo. Seis planetas gravitavam em torno da estrela de Revnur, mas só o segundo deles era habitado. Os aras, descendentes dos saltadores e dos arcônidas, o descobriram e colonizaram em tempos idos. Os saltadores viviam principalmente do comércio, motivo por que também eram conhecidos como os mercadores galácticos. Já os aras exerciam outras especialidades: eram os médicos galácticos, e seu meio de vida consistia na venda de soros por eles produzidos e na vigilância médica de outras raças e dos mundos por elas habitados.
Para esse fim mantinham no segundo planeta de Revnur o único zôo galáctico. Haviam descoberto um elixir da vida, e era mais que compreensível que o mesmo despertasse o interesse de Rhodan. Havia dois mutantes, John Marshall e Laury Marten, que trabalhavam como agentes em Tolimon, nome pelo qual era conhecido o planeta do zoológico. Há menos de uma semana Marshall avisara pelo rádio a existência de uma situação de grave emergência e solicitara auxílio. A partir dali tudo indicava que estava desaparecido. Todavia, Rhodan sabia que Laury conseguira retirar uma ampola do elixir da vida de um dos laboratórios dos aras.
Teria que dirigir-se pessoalmente a Tolimon, para livrar seus agentes de um perigo grave. Foi este o motivo da partida inesperada de Gucky.
A cúpula de aço estava sendo castigada pelo calor tremeluzente de Hellgate. Mas em seu interior havia um clima igual ao das zonas temperadas da Terra.
Rhodan estava no banho.
Nos dias anteriores, voltara a ouvir todas as mensagens de hipercomunicação armazenadas automaticamente por sua estação receptora. Com isso adquiriu uma visão de conjunto dos acontecimentos que se desenrolaram no interior e no exterior do Império Arcônida. O cérebro robotizado, que governava o Império, conseguira restabelecer a paz e a ordem. E a paz reinante no Império era respeitada tanto pelos aras quanto pelos saltadores. Ninguém mais falava da Terra destruída. E também um certo Perry Rhodan, que em certa época representara um perigo imenso para o Império, estava totalmente esquecido.
Rhodan sorriu e esticou o corpo. Os campos gravitacionais embutidos na banheira faziam com que levitasse sobre a superfície da água verde-azulada. O líquido brincava em torno do corpo, deixando livre apenas a cabeça. Rhodan boiava sem executar o menor movimento, gozando em cheio as delícias do banho gravitacional.
A perspectiva do vôo para Tolimon não o deixava nada satisfeito.
Já não tinha motivo para temer sua redescoberta pelo Império Arcônida, mas estava interessado em adiá-la até o momento em que conhecesse o segredo do prolongamento da vida. Por isso teria de usar um disfarce durante a visita a Tolimon.
Na sala de controle soou uma campainha e logo se ouviu um zumbido penetrante.
Rhodan fez alguns movimentos de natação e saiu da banheira. O jato de ar quente enxugou seu corpo dentro de poucos segundos. Vestiu um robe e desceu até a sala de controle. Pelos instrumentos constatou que uma pequena nave circulava em torno de Hellgate e procurava entrar em contato com sua estação.
Seria Gucky?
Dali a um minuto, a tela iluminou-se, mostrando o rosto sorridente de Gucky em tamanho natural, a começar pelas orelhas superdimensionadas, a testa enrugada, os olhos fiéis e o dente roedor reluzente. Enfim, a gola verde do uniforme espacial.
Olá, chefe! Posso pousar?
Rhodan sacudiu a cabeça, num gesto de recriminação.
Você está com sorte, pois por uma questão de precaução desliguei o dispositivo de defesa automático. Se não fosse assim, não encontraríamos mais nada de você.
Você não me esperava?
Rhodan suspirou.
Sua leviandade chega a ser lendária, Gucky. Pois bem, pode pousar. A barreira visual foi desativada; você não terá a menor dificuldade em encontrar a cúpula. Ligue os campos gravitacionais, para que a nave possa ser introduzida. Vou abrir a comporta.
Voltou a cumprimentar o rato-castor e desligou a instalação. Vestiu-se rapidamente, colocou o traje pressurizado e foi até a comporta do hangar, onde estava guardada sua nave. Dali a dois minutos pisava a areia escaldante do planeta infernal. O aparelho de refrigeração de seu traje espacial reduziu a temperatura a um nível suportável.
Gucky estava pousando.
Fique na sala de comando! — pensou Rhodan com a maior intensidade. Sabia que o rato-castor, que era telepata, não teria a menor dificuldade em captar e decifrar seus impulsos mentais. — Ligue os campos. Levarei a nave para dentro da comporta.
Gucky compreendeu imediatamente. A Koos-Nor perdeu seu peso, tornando-se mais leve que uma folha de papel. O raio de tração de matéria permitiu a Rhodan que levasse a nave de trinta e cinco metros de comprimento para o interior da comporta, fechasse a escotilha, fizesse entrar o ar e a colocasse no hangar. Enquanto saía do levíssimo traje espacial, a pequena escotilha oval da nave abriu-se e Gucky, com um único salto, colocou-se nos braços de Perry.
Estou tão feliz em revê-lo, chefe — chilreou num tom que quase chegava a ser carinhoso e enlaçou o pescoço de Rhodan com os braços fininhos. — Trago lembranças de todos, especialmente de Betty.
Está bem, pequeno — disse Rhodan comovido e acariciou o amigo. Havia uma estranha amizade entre o homem mais poderoso do sistema solar e o “animal” peludo, que, além de possuir a inteligência de um homem superdotado, era o mais versátil dos mutantes. — Também estou feliz por tê-lo comigo.
Você bem que poderia ter-me chamado mais cedo.
Acontece que só agora surgiu a necessidade, e nem sempre podemos dar atenção aos nossos sentimentos. Trouxe tudo que eu pedi?
Não faço a menor idéia. Quem cuidou disso foi Betty.
Nesse caso deve estar tudo certo. Mais tarde daremos uma olhada. Vamos até a sala de comando. Ali, lhe explicarei os meus planos. Mas desde logo posso adiantar uma coisa: será um trabalho muito perigoso.
Que bom! — disse Gucky com um sorriso e saltou para o chão. — Já me chateei bastante na Terra e em Vênus.
Você ficará admirado — disse Rhodan com um sorriso e envolveu seus pensamentos com uma barreira, para que Gucky não pudesse ler os mesmos. Embora ele mesmo possuísse uma capacidade telepática muito reduzida, já percebera a curiosidade do amigo. Chegaram à sala de controle semicircular da cúpula e sentaram.
Preste atenção, meu caro — principiou Rhodan. — Você já sabe que John e Laury foram enviados para Tolimon a fim de tirar dos aras o segredo do elixir da vida. Conseguiram uma garrafa do líquido, mas estão em dificuldades. Não sei o que aconteceu, mas sei que precisam do meu auxílio. Aliás, você levou muito tempo para chegar aqui.
O rato-castor fez a cara mais inocente do mundo.
Betty disse que você só precisava de mim após decorridas dez horas. Por isso voei mais devagar que a luz e realizei apenas três transições. Não quis chegar antes da hora.
Quer dizer que Betty levou muito ao pé da letra a minha indicação de que não precisava de mais de seis dias. Não disse que preferiria que fossem quatro ou cinco. Bem, o que passou, passou. De qualquer maneira, você está aqui. Podemos começar.
Começar com quê?
Com os nossos preparativos. Vamos mascarar-nos. Você não. É claro, pois isso não adiantaria nada. Por aqui ninguém o conhece. Dificilmente alguém o ligará à minha pessoa. Quanto a mim, farei o papel de arcônida, mais precisamente, o de inspetor.
Inspetor? — perguntou Gucky, arregalando os olhos de espanto.
Isso mesmo: de inspetor. Pelas mensagens do cérebro robotizado de Árcon captadas por nossa estação soube que o mesmo envia a espaços regulares inspetores aos diversos mundos do Império, para verificar se está tudo em ordem. Todo o poderio de Árcon está atrás desses funcionários. Quer dizer que, se eu aparecer em Tolimon na qualidade de inspetor, todas as portas se abrirão diante de mim, e as pessoas me tributarão o devido respeito. Nos últimos seis decênios, o prestígio dos arcônidas voltou a crescer. Ao que parece, a raça degenerada voltou a recuperar-se. Seja como for: você trouxe o equipamento de que preciso para mascarar-me.
E eu?
Rhodan exibiu um sorriso matreiro.
Tolimon é um mundo todo especial, meu caro. Costuma ser designado como o zôo da Galáxia. Ali colecionam-se principalmente seres semi-inteligentes, que já ultrapassaram a fase animalesca, mas não podem ser considerados como inteligências plenamente desenvolvidas. Donde se conclui que em Tolimon você despertará mais interesse que eu.
Eles se interessarão por mim? — chiou Gucky, que teve um terrível pressentimento. — Quer dizer que... Essa não! Você não poderá exigir que eu me preste a um papel destes.
Por que não? Para todos os efeitos, eu serei o poderoso inspetor de Árcon, enquanto você será um ser peludo inofensivo e de pouca inteligência, que me serve de criado. Verá como os aras se interessarão por sua pessoa. Você representa a peça que falta em seu zoológico. Por isso mesmo darão menos atenção à minha pessoa.
Está bem. Mas será que eu terei que assumir o papel de idiota? Para falar com franqueza, não estou gostando da idéia.
Pouco importa que você goste ou não, Gucky. A coisa é muito séria, pois não sabemos o que aconteceu com Marshall e Laury. Talvez se encontrem em grande perigo. Se aparecermos por lá, a atenção dos aras será desviada deles. E você desviará sua atenção da minha pessoa. Se tem qualquer dúvida em fazer o papel de idiota, é bom que se lembre de uma coisa: só a criatura verdadeiramente inteligente não se importa de parecer mais tola do que realmente é. Já o tolo sempre quer aparentar uma inteligência maior que a real. Isso decorre da própria natureza das coisas.
Gucky inclinou a cabeça.
Isso é um trecho de filosofia terrana que já conheço. Mesmo assim, a perspectiva de fazer o papel de animal doméstico não é nada agradável.
Meu animal doméstico e meu criado pessoal — completou Rhodan. — Afinal, sou um arcônida extravagante, riquíssimo. Não seja um desmancha-prazeres, Gucky. Se você não quiser entrar no jogo, terei de arrepender-me de querer justamente você.
Por que não leva Bell? Este não precisa fingir para fazer o papel do idiota — Gucky sorriu com a lembrança, mas seu rosto logo voltou a ficar sério. — Está bem, vamos ao trabalho. Quando decolaremos com destino a esse estranho planeta zoológico?
Exatamente dentro de dez horas. É o tempo necessário aos nossos preparativos. Ainda lhe fornecerei instruções mais detalhadas.
O que aconteceu com Marshall e Laury?
Pelas últimas notícias que recebemos deles, conseguiram uma amostra do soro e se encontram numa situação extremamente perigosa. É só o que sabemos. É possível que a falha seja do emissor, mas o súbito silêncio pode ter outros motivos. Não demoraremos a saber.
Gucky endireitou o corpo. Em seus olhos castanhos ainda havia um restinho de recriminação, porém já revelavam certa alegria pelo que estava por vir.
Quem sabe se a aventura afinal não seria muito divertida...

* * *

O sinal de despertar ressoou pela cúpula de aço.
As dez horas haviam se esgotado. Rhodan e Gucky tiveram um sono breve, mas reparador. Estava tudo preparado. A missão “mascarada” poderia ter início.
Os inspetores de Árcon sempre costumam voar em iates de luxo? — indagou Gucky, alisando o pêlo castanho. — Aliás, sem o uniforme e o radiador de impulsos tenho a sensação de estar nu.
Um animal estúpido tem que andar nu — ponderou Rhodan e deu uma piscadela. — E você é muito estúpido. Nunca se esqueça disso!
Isso é uma injustiça que clama aos céus, chefe. Você tem de prometer que ninguém saberá das circunstâncias em que estamos executando esta missão; especialmente Bell. Sabe lá o que eu terei de ouvir se ele souber?
Isso fica entre nós — tranqüilizou-o Rhodan. — Até mesmo Marshall dificilmente perceberá qualquer coisa, pois assim que o tivermos encontrado, nosso papel praticamente terá chegado ao fim. Tudo pronto para a decolagem?
Gucky confirmou com um gesto distraído. Não se fartava de contemplar Rhodan, que envergava um uniforme dourado cheio de insígnias. A estatura esbelta de Rhodan fazia com que o mesmo se assemelhasse com os arcônidas das velhas famílias dominantes. O branco dos seus olhos brilhava num tom avermelhado, graças a uma tintura de ótima qualidade, e o cabelo branco não permitia a menor dúvida de que se tratava de um arcônida de boa cepa.
Tudo pronto! — chiou o rato-castor, acomodando-se no assento do co-piloto, ao lado de seu amigo e senhor. — Por mim, podemos começar.
É o que vamos fazer — disse Rhodan e pôs as mãos nos controles.
A Koos-Nor, que já se encontrava fora da cúpula, ergueu-se levemente e subiu devagar. Rhodan estudara detidamente a planta de construção do iate, o que lhe permitia conhecer os menores detalhes da pequena nave. A direção da mesma era relativamente simples.
Preferiu não realizar um vôo prolongado com velocidade inferior à da luz. Ligou o compensador estrutural e com um salto colocou a nave bem no meio da Via Láctea. Um segundo impulso colocou-a perto de Árcon. Uma vez chegado lá, girou-a, desligou o compensador que o protegia da localização e saltou de volta em direção a Tolimon.
Qualquer pessoa que acompanhasse o vôo pelos rastreadores estruturais teria a impressão de que a nau se aproximava da estrela de Revnur, vinda de Árcon. Era exatamente o que Rhodan pretendia. Queria que os aras estabelecidos em Tolimon soubessem que alguém pretendia visitá-los, mas não teriam tempo de realizar qualquer investigação. A estrela de Revnur ficava a boa distância de Árcon, podendo ser comparada a uma posição avançada do Império. Era mesmo de supor que os habitantes de Tolimon não fizessem muita questão de manter contato com os arcônidas, especialmente com um dos temidos e pouco apreciados inspetores do Império.
A última transição levou a Koos-Nor diretamente para o centro do sistema dos seis planetas da estrela de Revnur. O abalo da estrutura espaço-temporal, provocado pela rematerialização, não poderia deixar de ser percebido. Por isso não era de admirar que, dentro de poucos minutos, se fizessem ouvir os primeiros chamados nos receptores de bordo.
Rhodan fez com que a nave deslizasse em direção a Tolimon com velocidade ligeiramente inferior à da luz. Dedicou sua atenção aos aparelhos de comunicação, enquanto Gucky, encolhido na poltrona, fervilhava por dentro, porque tinha de treinar o papel do animal estúpido que, de forma alguma, correspondia à sua natureza.
Forneça sua identificação! — soou a voz potente que sobrepujou todas as outras. — Qual é o prefixo da nave?
As coisas estão começando a ficar sérias — resmungou Rhodan e ligou o transmissor.
Aqui fala Tristol, inspetor de Árcon — anunciou Rhodan, esforçando-se para dar à voz um tom nasal e arrogante. — Venho por ordem do regente de Árcon, a fim de realizar a inspeção de rotina. Forneça as coordenadas do pouso!
De uma hora para outra, todas as mensagens cessaram. A identificação de Rhodan devia ter sido captada e entendida por todas as naves. Até parecia que a surpresa estava deixando os tolimonenses sem fala. Provavelmente o tele-retrato da nave a essa hora já estava sendo enviado para todas as estações, e a central de identificações estaria empenhada em localizá-la e identificá-la em seus catálogos. Talvez o nome do inspetor, Tristol, também estivesse sendo procurado. Se fosse assim, o azar seria deles, pois o nome fora escolhido ao acaso. Mas devia haver muitos inspetores.
Aqui fala a central espacial de Tolimon. Licença de pouso concedida. Pouse no campo de Trulan. Enviaremos um raio direcional sem tele-controle. Já tomamos todos os preparativos para recebê-lo. Fim da mensagem.
Vou pousar — respondeu Rhodan e desligou o transmissor. Olhou Gucky de lado, com um ligeiro sorriso nos lábios. — Então, o que me diz? Que tal me acha no papel de arcônida?
O rato-castor fez uma cara como se alguém lhe tivesse roubado a última cenoura.
Você está se saindo muito bem como arcônida. De qualquer maneira, está muito melhor que eu no meu papel de estúpido. Não viverei para ver chegar o fim...
Quanto mais estúpido você for, maior será sua expectativa de sobreviver — explicou Rhodan, deixando que a Koos-Nor descesse em direção ao segundo planeta. Dali a poucos minutos teriam a decisão.
Alguns dos cientistas e líderes políticos eminentes fizeram questão de receber o inspetor no porto espacial. Haviam descido de seus veículos e, ao se aproximarem do iate, formavam uma procissão colorida. Como aras e descendentes dos saltadores, eram absolutamente humanóides; tinham o aspecto de homens assustadoramente magros. Seus trajes diferiam bastante. Os cientistas usavam capas longas e brancas, do mesmo tipo das que eram usadas pelos médicos nos planetas-hospitais. Já os políticos preferiam os uniformes e os trajes à paisana bastante coloridos. Ao que parecia, não havia ninguém que estivesse armado.
Uma vez diante da Koos-Nor, ficaram parados numa atitude de expectativa.
Rhodan observara a chegada da delegação e aproveitara a oportunidade de pedir a Gucky que observasse os pensamentos dos tolimonenses. Não percebeu nada além de expectativa curiosa misturada com um pouquinho de medo, que não tinha sua origem na consciência menos tranqüila, mas na reação perfeitamente normal de um ser inteligente que se vê diante de uma pessoa de categoria bastante superior.
Não faça tolices — voltou a prevenir Rhodan e deu uma palmadinha no traseiro muito largo do rato-castor. — Você me seguirá assim que receber meu comando mental. Não se esqueça de que pertence à classe das chamadas semi-inteligências.
Você quer que eu faça o papel do tolo, mas não quer que faça tolices — resmungou Gucky e escorregou do sofá para baixo. — Nem mesmo uma inteligência total conseguiria compreender o seu raciocínio. Até logo mais!
Rhodan levantou o dedo num gesto de advertência. De uma hora para outra o sorriso alegre desapareceu de seu rosto. Enquanto fez a escotilha externa abrir-se, transformou-se numa máscara de arrogância. Treinara muito bem o seu papel.
A escada foi escamoteada automaticamente e obrigou os tolimonenses, que se haviam aproximado demais, a dar alguns saltos para trás. Rhodan fez um gesto quase imperceptível em direção aos rostos voltados para cima. Desceu os poucos degraus e viu-se no solo do planeta Tolimon, que também costumava ser designado como o zôo galático.
Sem dizer uma palavra, esperava que alguém dissesse alguma coisa.
Um oficial com o peito cheio de condecorações adiantou-se, fez menção de executar uma mesura e disse num arcônida impecável.
Bem-vindo em Tolimon, inspetor Tristol. Faremos tudo para que sua permanência em nosso mundo seja muito agradável, para que seu dever grave e pesado não se transforme num fardo excessivo. Permite que pergunte quanto tempo pretende ficar?
Rhodan lançou-lhe um olhar de desprezo.
Isso depende das circunstâncias. Segundo consta, surgiram algumas falhas na administração do zoológico. Como inspetor tenho a obrigação de verificar o que aconteceu e relatar tudo ao regente.
Deve ter havido um engano — disse o oficial em tom assustado e empalideceu. — Nos últimos dois decênios não recebemos qualquer queixa. Não compreendo...
Realmente não estava compreendendo, segundo constatou Rhodan por via telepática. Admirou-se de estar captando os pensamentos de seu interlocutor com tamanha nitidez. Será que Gucky estava ajudando?
Farei uma verificação — disse, interrompendo o oficial. Com um olhar de esguelha para as outras pessoas que se encontravam por ali, disse: — Quem é essa gente? Por favor, não quero muita sensação.
Para nós, qualquer desejo do senhor é uma ordem — apressou-se em asseverar um ara muito alto e magro. — Acreditávamos que estaríamos correspondendo aos seus desejos ao enviar uma delegação do governo para recebê-lo. Assim estaríamos em condições de saber quais são os seus desejos, e logo poderíamos satisfazê-los.
Rhodan estreitou os olhos e respondeu em tom frio:
Quando chegar a hora, os senhores conhecerão os meus desejos. Há outra coisa que quero deixar bem clara: a alguns anos-luz daqui um couraçado do regente aguarda minhas instruções.
O senhor não terá necessidade do mesmo — disse um dos oficiais para agradá-lo. — Somos amigos fiéis do Império e nada temos a recear. Permite que o levemos à sua residência?
Onde fica essa residência? — perguntou Rhodan em tom arrogante.
Na periferia da cidade de Trulan. É um palácio, senhor...
Não desejo nenhum palácio — disse Rhodan para espanto da delegação. — Coloque um carro à minha disposição, para que eu mesmo possa procurar um alojamento. Não preciso de criado, pois trouxe o meu.
Virou-se para a escotilha e gritou:
Gucky, venha cá!
Todos os olhares dirigiram-se para a escotilha, como se esperassem que o regente em pessoa surgisse por lá. Mas quem apareceu foi apenas o rato-castor, que disse com a voz aguda:
Quer que leve a mala, senhor?
Naturalmente, seu animal estúpido! — respondeu Rhodan com uma ironia insolente. — Ande depressa, para que possa ligar a barreira automática.
Gucky desapareceu; compreendera a senha. Com alguns movimentos da mão ativou a barreira que impediria qualquer criatura de penetrar na nave. Além disso, o aparelho de tele direção permaneceu em recepção. A qualquer hora Rhodan poderia trazer a Koos-Nor para junto de si, fosse qual fosse o lugar em que se encontrasse.
Finalmente Gucky pegou a mala pesada, aliviou a carga por meio de sua capacidade telecinética, saiu para a escada-passadiço e deixou-se escorregar para baixo. Atrás dele, a escotilha fechou-se automaticamente.
Inspetor Tristol, o senhor tem um criado bastante estranho — atreveu-se a observar um dos cientistas. — Nunca vimos um animal desse tipo. Ainda não o temos em nossa coleção.
Gucky inclinou a cabeça e fez uma cara inocente e estúpida. Era de espantar que isso lhe ficasse tão fácil. Rhodan resolveu no seu íntimo que oportunamente o avisaria sobre isso. Mas no momento não havia tempo para isso.
Vem de um planeta muito distante e completamente isolado, que descobri por acaso em uma das minhas viagens. Peguei um exemplar e descobri que é muito dócil. Acredito que meu criado Gucky merece mais confiança que qualquer outro criado, ou mesmo um robô.
Tem alguma faculdade especial? — perguntou um dos aras em tom curioso.
Não, mas é muito discreto e fiel — disse Rhodan. — Agora gostaria de receber meu carro. Amanhã poderemos conversar.
Olhou em torno e a algumas centenas de metros de distância descobriu um veículo. Tinha um formato estranho. Mantinha-se equilibrado segundo o velho princípio do giroscópio e corria sobre uma única roda situada no centro.
Que tal aquele carro ali? — perguntou.
Um dos oficiais acenou fortemente com a cabeça e correu em direção ao veículo estacionado. Daí a poucos segundos, o giro parou diante de Rhodan. O oficial desceu.
O veículo está à sua disposição, inspetor Tristol. Mas não acha que seria preferível que um funcionário o acompanhasse para providenciar um hotel condigno? Nesta cidade existem muitos estabelecimentos deste tipo e sentir-nos-emos felizes...
Obrigado! — interrompeu Rhodan com a voz fria e passou a mão pelos cabelos brancos, num gesto de arrogância. — Prefiro permanecer incógnito e alojar-me no lugar que melhor me aprouver. Amanhã entrarei em contato com os senhores.
Cumprimentou o grupo com um ligeiro aceno de cabeça e dirigiu-se a Gucky:
Coloque a mala no carro. Ande logo!
Gucky ficou furioso.
Se as coisas continuarem assim, eu quero que você vá para o inferno”, pensou. Mas obedeceu.
Pegou a mala e colocou-a na cabine situada atrás do assento do motorista. Depois segurou a porta do veículo, para que Rhodan pudesse entrar. Quando viu Rhodan sentado junto aos controles bastante simples, entrou desajeitadamente.
Enquanto se afastavam, Rhodan procurou examinar os pensamentos dos membros da delegação. Desta vez Gucky funcionava oficialmente como estação retransmissora, que reforçava os impulsos mentais. Teve uma alegre surpresa que apenas um dos oficiais se interessava por ele.
Os demais espantavam-se sobre o animal tão dócil, que o pretenso inspetor transformara em criado.
Gucky — disse com um sorriso de mofa para o rato-castor, que se acomodara, muito contrariado, junto à mala, na parte traseira do veículo. — Você tem uma carreira bastante promissora. A esta hora sua fama já é maior que a minha. Se não estou enganado, os tolimonenses estarão dispostos a pagar um ótimo preço por você. É bem possível que consiga fazer um bom negócio.
Gucky não respondeu.
Olhou tranqüilamente pela janela e, num processo heróico de auto-sugestão, pensou com toda força:
Você tem que permanecer calmo, muito calmo, meu Gucky. Não se exalte. Rhodan não sabe o que está dizendo. Perdoe-lhe. Fique calmo, muito calmo.”
Depois de ligeira pausa mental, tornou a pensar:
Se eu estourar, deuses do Universo, perdoem se eu sujar este carro...”
Chega! — disse Rhodan, que evidentemente não poderia ter deixado de perceber os pensamentos de Gucky. — Até agora tudo deu certo. O resto será simples, se conseguirmos encontrar Marshall.
Isso mesmo — dignou-se Gucky a dizer. — Se encontrarmos...
2



Graças à sua situação periférica, o planeta Tolimon era o ponto de partida de numerosas expedições intergalácticas, e por isso constituía um lugar de transbordo de primeira ordem. As fabulosas instalações do gigantesco zoológico atraíam visitantes de outros sistemas solares, e membros de todas as raças se haviam fixado definitivamente em Trulan, para passar o resto da vida num dolce far niente.
Por isso mesmo a capital Trulan transformara-se num verdadeiro cadinho, inclusive em matéria de arquitetura das construções.
Rhodan teve dificuldade em orientar-se nessa confusão de surpresas arquitetônicas. Orientava-se principalmente pelos pensamentos dos transeuntes, que praticamente não davam a menor atenção ao seu veículo. Provavelmente os aras, que o haviam cumprimentado no porto espacial, ainda não haviam anunciado oficialmente a sua chegada.
Rhodan bem que gostava que fosse assim.
Chegaram mesmo a pará-lo e pedir seus documentos. Quando o policial lançou um olhar para as credenciais muito bem imitadas e só então viu o uniforme espalhafatoso do inspetor arcônida, por pouco não abre um buraco no chão e some. Desculpou-se com um palavreado profuso e ofereceu sua assistência. Rhodan afastou-o com um gesto e voltou a colocar seu veículo em movimento. Pouco lhe importava que naquele momento quase atropela o oficial.
Num lugar afastado da rua principal, encontraram um hotel tranqüilo, meio escondido e próximo a um parque. Rhodan alugou dois quartos. Fez um depósito vultoso e deu ordem para que sua permanência no hotel ficasse em segredo. Supunha que no mesmo instante o governo descobrisse seu paradeiro, mas isso pouco lhe importava. Importava-se apenas que os aras supusessem que não fazia questão de recepções oficiais, preferindo realizar suas investigações com a maior discrição.
Uma vez no quarto, Gucky deixou cair a mala.
Quer que lhe diga uma coisa, chefe? Para mim esse negócio já está fedendo!
Suspirando de satisfação, Rhodan deixou-se cair numa poltrona macia que ficava junto à janela, permitindo uma boa visão sobre a cidade.
Fedendo por quê? Acho que o papel lhe fica muito bem. E eu como inspetor não me estou saindo nada mal...
Acho que temos uma missão séria a cumprir. Onde está Marshall? O que aconteceu com ele e Laury?
Rhodan acenou calmamente com a cabeça.
Então? Você acredita que já teríamos chegado mais longe se tivéssemos pousado aqui sem máscara e sem que estivéssemos devidamente preparados? Ninguém deve saber antes da hora que a Terra, há tanto tempo esquecida, ainda existe. Se usássemos a força para salvar nossa gente, toda a Galáxia ficaria sabendo. Por isso só podemos recorrer à astúcia.
Astúcia para cá, astúcia para lá — queixou-se Gucky e sentou sobre a mala, pois tinha preguiça de subir na outra poltrona. — Já estou enjoado de bancar o idiota. Afinal, sou muito mais inteligente do que qualquer desses talismãs poderia supor...
Eles se chamam de tolimonenses — retificou Rhodan.
Está bem, está bem! — disse Gucky. — De qualquer maneira, já constatei num desses capas-brancas do espaçoporto a intenção de raptar-me e enfiar-me no zoológico. Quer que me conforme com uma coisa dessas?
Excelente! — disse Rhodan. Parecia muito satisfeito. — Era exatamente o que eu queria. Estão começando a interessar-se por você e a esquecer minha pessoa. Alguém poderia ter a idéia de entrar em contato com Árcon para colher informações sobre o inspetor Tristol. Mas isso dificilmente acontecerá se julgarem que você é mais importante que eu.
Eu vou para o zoológico? — perguntou Gucky em tom indignado, mas finalmente soltou um suspiro. — Está bem; concordo. Mas quando vamos iniciar a busca?
Seria preferível perguntar por onde vamos começar. Não disponho de qualquer ponto de referência. Estavam nas montanhas, mas é perfeitamente possível que a esta hora já se encontrem na cidade de novo. Se o transmissor de Marshall estiver quebrado, teremos de tentar a via telepática. Emitiremos chamados a intervalos regulares e concentraremos a mente para captar uma eventual resposta. Dessa forma não poderemos deixar de localizar Marshall e Laury.
Alguém bateu na porta. Rhodan lançou um olhar rápido para Gucky. O rato-castor sacudiu os ombros num gesto de resignação, saltou de cima da mala e correu em direção à porta. Ao abri-la, fez uma mesura.
Do lado de fora, estavam dois aras.
Um deles usava os trajes nobres das classes abastadas, enquanto outro envergava um uniforme. Assustaram-se quando viram o rato-castor, mas quando viram a atitude submissa de Gucky logo se controlaram.
O que houve? — disse Rhodan com uma forte dose de desprezo, — Quem se atreve a perturbar meu descanso tão merecido?
Já sabia, mas evidentemente os aras nunca deveriam saber que ele lia seus pensamentos.
Soubemos que um inspetor de Árcon está em nosso planeta para verificar se está tudo em ordem — principiou o ara uniformizado e adiantou-se um passo. — Pensamos que fosse uma boa oportunidade de denunciar algumas das injustiças que costumam ser praticadas em Tolimon. Meu superior, o cabo Koplad, trabalha para seu próprio bolso, negligenciando seus deveres para com Árcon. Minha promoção, que já está muito atrasada, vem sendo adiada constantemente, porque todos sabem que sou amigo de Árcon. Além disso...
Não fiz todo o caminho de Árcon para cá para resolver ninharias desse tipo — interrompeu-o Rhodan, que olhava pela janela com uma expressão de tédio no rosto. — E o senhor?
O oficial recuou perplexo e deu lugar ao outro. O paisano bem vestido perdera parte de sua autoconfiança. Já não parecia tão convencido da justiça de sua causa. Muito embaraçado, ora se apoiava num pé, ora noutro.
Senhor — principiou em tom pouco seguro.
Então? — perguntou Rhodan com a voz impaciente. — O assunto é importante? Seus problemas pessoais não me interessam, e não estou disposto a imiscuir-me nos assuntos internos de Tolimon. Fale somente se quiser denunciar falhas políticas de muita gravidade.
O paisano sacudiu a cabeça; parecia assustado.
Desculpe se o incomodamos, senhor. O assunto não é tão importante assim. Desejamos-lhe uma longa vida, senhor.
Quando a porta voltou a fechar-se, Gucky sacudiu a cabeça.
Veja só! Tenho de fazer mesuras diante de idiotas desse tipo, apenas porque sou seu criado. Não sobreviverei a isso. Quem dera que já estivesse morto!
Rhodan demorou em responder. Inclinou ligeiramente a cabeça e concentrou-se com os olhos fechados. Voltou a abri-los e fitou o rato-castor com uma expressão séria.
É possível que seu desejo se cumpra — disse com a voz baixa. — Num lugar não muito distante, provavelmente no hall do hotel, há algumas pessoas que pretendem capturá-lo. Querem narcotizá-lo e levá-lo ao zoológico. Estão cumprindo ordens de uma autoridade bastante elevada. Se você oferecer resistência, ou se chegarem à conclusão de que é uma criatura perigosa, esses homens têm plena liberdade para matá-lo. Conforme vê, seu desejo de uma morte rápida está a caminho da realização.
Nos minutos anteriores, Gucky concentrara-se exclusivamente no seu papel de retransmissor, motivo por que não percebera o atentado que se planejara contra sua vida e liberdade.
Recuperou o tempo perdido e pôs-se a esbravejar:
Pretendem capturar-me como se fosse um animal selvagem! E querem fazer uma coisa dessas logo comigo, o criado pessoal do venerando inspetor de Árcon! Não é uma atitude incompreensível. Será que posso... será que posso dar uma lição nesses caras, chefe? Eles merecem, não acha?
Não há dúvida de que merecem. Mas como é que você poderia conhecer seus planos se não fosse um telepata? Receio que terá de esperar até que eles traiam suas intenções. Vamos ver se conseguimos localizar Marshall. Os domadores de animais terão que ficar para depois.
Domadores de animais? — resmungou Gucky em tom zangado, saltou para a cama de lençóis brancos, deitou e cruzou os braços embaixo da nuca. — Se Bell souber disso, nunca mais terei um minuto de descanso. Este é o planeta da vergonha.
Não se preocupe com os bobalhões que caíram na nossa conversa. É preferível que me ajude a procurar Marshall, Laury e Berceo. E, se estiverem pensando, devemos ser capazes de captar os impulsos de seus cérebros.
Será que esse esquisitão chamado conde Rodrigo de Berceo também pensa?
Por um instante, uma sombra tomou o lugar do sorriso de Rhodan, mas finalmente este acenou lentamente com a cabeça.
Acredito que sim, embora receie que não pensa em outra coisa senão em nossa boa Laury. Foi justamente isso que nos meteu na situação que estamos enfrentando.
Está certo, está certo — filosofou Gucky. Tinha um aspecto temível. — O amor é culpado de tudo. Nunca me apaixonarei.
Não sei em quem você poderia apaixonar-se — observou Rhodan.
O rato-castor não fez mais nenhum comentário. Passou a concentrar-se na tarefa de localizar as vibrações mentais de Marshall.

* * *

Rhodan fechou os olhos, descontraiu-se e reclinou-se na poltrona. Concentrou-se sobre os impulsos que estava captando, mas logo se deu conta de que só mesmo uma coincidência pouco provável poderia levá-los ao objetivo. Sentiu-se como um radioamador que procura localizar o transmissor de seu parceiro entre milhares de outros, e isso sem qualquer código.
Era impossível calcular o número de impulsos mentais que se contavam pelos milhares ou dezenas de milhares e, muito mais, identificá-los.
Em compensação Gucky conseguiu descobrir outras coisas, não menos interessantes. Os impulsos eram muito intensos e ocupavam-se principalmente com sua pessoa. Pela força, concluía-se que o autor dos respectivos pensamentos já devia encontrar-se no hotel.
Estão chegando — disse Gucky. Rhodan arregalou os olhos de espanto, mas limitou-se a fitar o amigo de lado.
Seus pensamentos tateavam muito ao longe, sem que tivessem encontrado o menor vestígio de Marshall ou Laury.
Quem está chegando?
Ora, esses sujeitos que querem enfiar um inocente rato-castor em seu zoológico. Farei com que voem pela janela, mesmo que se disfarcem em funcionários do governo.
Rhodan já estava captando os mesmos impulsos.
Você não vai fazer nada disso, meu caro. Será que você assume algum risco se deixar que o surpreendam? Não! Pelo contrário; acho que isso nos poderá ser muito útil. Talvez dessa forma você descubra alguma coisa a respeito de Marshall. Afinal, sempre podemos permanecer em contacto, e se surgir qualquer perigo você poderá recorrer à teleportação. Como vê, nada lhe pode acontecer.
Nada, absolutamente nada — confessou Gucky em tom contrariado. — Mas não é disso que se trata.
Então, qual é o problema?
É a vergonha que vou passar. Eu, que sou o mais inteligente dos ratos-castores, tenho que ser mais tolo do que a polícia permite. Ao menos, a polícia terrana. É possível que por aqui as condições sejam diferentes, mas um tolo sempre é um tolo.
Quem consegue alguma coisa fingindo-se de tolo é mais inteligente que as pessoas enganadas.
O rato-castor engoliu um bolo imaginário.

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