Autor
CLARK
DARLTON
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Quem se
mete com
Gucky perde
a barba
— ou as
calças...
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho
pelo poder e pelo reconhecimento cósmico da Humanidade, realizado
por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os
recursos de que o homem podia dispor na época eram insuficientes
face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1.984.
Uma
nova geração de homens surgiu. E, da mesma forma que em outros
tempos a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo
terrano, esse governo já se ampliou. Formava agora o Império Solar.
Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os
mundos do sistema solar que não se prestavam à colonização são
utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de
substâncias minerais.
No
sistema solar não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma, os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Este
reino planetário, que alcançou elevado grau de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, capaz de enfrentar qualquer atacante.
Mas
Perry Rhodan, administrador do Império Solar, ainda não está
disposto a dispensar o manto protetor do anonimato. Seus agentes
cósmicos — todos eles membros do célebre exército de mutantes —
continuam
a ser instruídos para, em quaisquer circunstâncias, manter em
segredo sua origem terrana. Em Tolimon, um dos mundos dos aras,
alguma coisa parece não ter dado certo durante o desempenho de uma
missão muito importante. Acompanhado de Gucky, Perry Rhodan aparece
em cena para tirar seus agentes dos apuros. Perry Rhodan é O Pseudo.
=
= = = = = = Personagens
Principais:
= = = = = = =
Perry
Rhodan
— Que
em Tolimon assume o papel do inspetor Tristol.
Gucky
— Que
não gosta nem um pouco do papel de criado pessoal.
John
Marshall
— Comandante
do exército dos mutantes de Rhodan.
Laury
Marten
— Uma
moça de 23 anos, filha dos mutantes Ralf Marten e Anne Sloane.
Conde
Rodrigo
de
Berceo
— Um
homem apaixonado por Laury —
e,
também, pela espada.
Glogol
— Um
inspetor que, por melhor que seja, não pode incutir respeito quando
aparece de cueca.
1
Ainda
havia gente que não conhecia Gucky, o rato-castor. Para muitos
deles, isso não representava nenhuma tragédia; apenas ficavam
privados do prazer de apreciar um pequeno milagre. Mas outros, que
nunca haviam ouvido falar a seu respeito e, de repente, se
encontravam com ele, poderiam experimentar uma surpresa nada
agradável.
Foi
o que aconteceu, por exemplo, com os colonos revoltados do planalto
ao sul de Vênus City. Sabiam por experiência própria que o governo
mundial de seu planeta de origem não costumava enviar expedições
punitivas para sufocar rebeliões no nascedouro. Por isso, resolveram
romper os laços que os ligavam à Terra, dos quais resultavam
tributos insignificantes, para adquirir a independência.
Como
Perry Rhodan se encontrasse em algum lugar nas profundezas do
Universo, e não houvesse meio de entrar em contato com ele, o
governo mundial terrano agiu por conta própria e incumbiu Gucky de
verificar o que estava acontecendo em Vênus.
Com
o maior prazer, Gucky passou a desincumbir-se da missão.
Os
colonos revoltados riram gostosamente quando um belo dia surgiu
diante deles aquela criatura que se parecia com o ratinho Jerry.
Riram ainda mais quando a figura engraçada afirmou que vinha por
ordem do Império Solar, para restabelecer a ordem.
Só
pararam de rir quando aquele animal esquisito, que falava um inglês
impecável, lançou mão de suas forças ocultas. Nenhum pensamento
dos cabeças lhe ficou oculto, pois Gucky era telepata. Encontrava-se
nos mais variados lugares ao mesmo tempo, pois também possuía o dom
da teleportação. E, para coroar a obra, todo o arsenal de armas dos
colonos foi erguido, ficou reunido bem acima do planalto e caiu num
lago profundo. É que Gucky também era telecineta.
Depois
disso, os colonos voltaram a agir razoavelmente. Desculparam-se com
muitas palavras bonitas e juraram obediência para o futuro,
prometendo pagar pontualmente os tributos a que se haviam obrigado.
Na
noite daquele dia agitado, Gucky foi homenageado por sua
generosidade. O chefe da revolta sufocada convidara-o e lhe oferecera
verduras frescas e vinhos da estação. A festa foi muito alegre e o
rato-castor, muito animado, começou a esquecer as boas maneiras. Com
sua voz aguda, cantou algumas canções grosseiras que ouvira de
Bell. Os homens acompanharam-no com as vozes roucas.
Os
animais que residiam nas matas vizinhas à colônia espantaram-se com
o barulho descomunal e ficaram em silêncio. Nunca tinham ouvido um
rato-castor cantar. Um porco-espinho assustou-se e enfiou-se mais
profundamente em sua caverna, resolvendo que ao raiar do dia
procuraria um novo lar. Até mesmo um verme-parafuso quase surdo
enfiou-se apressadamente no chão, para livrar-se da orgia de ruídos
pouco agradáveis.
Em
poucas palavras, Gucky sentia-se feliz como um porco em meio às
abóboras.
É
bem verdade que vez por outra teve a impressão de que seu
subconsciente estava sendo atingido por débeis impulsos mentais que
não provinham dos colonos, cujos cérebros estavam envoltos nas
névoas alcoólicas. Mas não deu atenção ao fenômeno. Afinal,
fizera um trabalho bem feito e merecia uma noite alegre. O que tinha
ele a ver com a guarnição terrana de Port Vênus, a capital do
planeta? Aquela gente poderia perfeitamente esperar até o dia
seguinte.
Gucky
continuou a cantar e a receber as homenagens.
Bem
mais tarde, quando estava descansando em uma macia cama na casa do
prefeito, procurando espantar os anéis coloridos e as paredes que
balançavam, os impulsos voltaram.
— Gucky!
Aqui é o comando do exército de mutantes. Responda! O que
aconteceu?
A
mensagem era tão clara que não poderia passar despercebida. Pelo
tipo das vibrações só poderia ser Betty Toufry, cuja capacidade
telepática muitas vezes provocara a admiração de Gucky. Era Betty
quem dirigia o comando do exército de mutantes destacado para Vênus.
A ela fora confiada a incumbência de sufocar a revolta dos colonos.
Gucky
suspirou e fez um esforço para vencer a embriaguez.
— Minha
doçura! —
pensou, despertando aos poucos. — Meu
estado é excelente. Apenas estou um tanto carregado.
— Carregado?
O
rato-castor sorriu. Como é que aquela criatura ingênua poderia
saber o que carregara? Não conhecia o vocabulário de Bell tão bem
quanto ele.
— Estou
carregado de vinho — explicou
laconicamente. — Um
vinho delicioso. A revolução acabou-se. Amanhã estarei aí e lhe
darei um beijo.
Betty
não parecia sentir-se muito feliz com a promessa.
— Você
vai voltar, mas é já! Tenho outra tarefa para você.
O
rato-castor continuou deitado, sacudindo o sono que ameaçava
envolvê-lo. Quem sabe se realmente não havia bebido demais?
— O
que é? —
perguntou.
Começou
a sentir-se mal.
— Trata-se
de uma missão especial, meu chapa! — foi
a resposta telepática que veio imediatamente. — Você
terá que partir amanhã de manhã.
Gucky
soltou um gemido e ergueu-se na cama. Encostou-se à parede. A luz
vinda da rua provocou um reflexo branco na pele da barriga.
— Partir
amanhã? Será que esta vida de cigano nunca terá fim?
Betty
começou a impacientar-se.
— Ou
você vem imediatamente, Gucky, ou eu aviso Rhodan que você recusou
obediência a uma ordem. Ele exigiu expressamente a sua presença
e...
Gucky
despertou imediatamente. O cansaço e o mal-estar desapareceram como
que por encanto. Com um salto, pôs-se de pé ao lado da cama.
— Então
foi Rhodan? Ele quer minha presença? Que chefe adorável! Não se
esqueceu de mim — a
emoção quase chegou a dominá-lo, mas acabou por controlar-se. —
Dentro
de cinco minutos estarei aí. É no espaçoporto?
— Está
certo. Ande depressa!
— Já
estou a caminho — respondeu
Gucky e começou a vestir-se. Numa letra delicada escreveu um bilhete
de agradecimentos aos colonos e recomendou-lhes que nunca mais
pensassem em revoltas.
Depois,
concentrou-se em seu destino e saltou.
De
início, o ar começou a tremeluzir em torno dele. Subitamente
desapareceu. No mesmo instante, voltou a materializar-se no lugar
combinado, em Port Vênus.
Betty
Toufry nem chegou a assustar-se.
Estava
sentada na cama. Trazia um robe sobre a roupa de dormir, que devia
ser muito fina. Em Vênus o dia e a noite eram medidos pelos padrões
terranos, pois face à rotação do segundo planeta, só a verdadeira
noite durava cento e vinte horas.
A
parede do quarto era formada de telas e controles. Era aqui que se
reuniam todos os fios das teias urdidas em Vênus. E a partir dali,
era controlada a ação dos mutantes. Enquanto John Marshall, chefe
do exército de mutantes, estava ausente, as funções eram exercidas
por Betty.
— Será
que isso não poderia esperar até amanhã? — perguntou Gucky, mas
logo se lembrou de quem o tinha chamado. — Foi Rhodan em pessoa que
exigiu minha presença? Por que não me chamou logo?
A
moça, que continuava jovem graças à ducha celular do planeta
Peregrino, aplicada aos membros mais importantes do exército de
mutantes, sacudiu a cabeça diante de tamanha falta de lógica.
— Faz
poucas horas que recebi a mensagem de Rhodan pelo hipercomunicador.
Confiou-nos uma tarefa muito estranha, que tinha de ser cumprida
antes de qualquer outra coisa. Só depois disso, tive tempo para
pensar em você, que é parte do equipamento solicitado.
— Você
acha que eu sou uma peça de equipamento? — disse Gucky em tom
indignado, acomodando-se na poltrona. — Foi o chefe que disse isso?
— É
claro que não usou essa expressão. Mas fez questão de que
mandássemos você.
— É
porque sabe apreciar minhas qualidades — disse o rato-castor em tom
de regozijo.
— Talvez
— disse a moça, que pelo aspecto podia ter tanto dezoito como
trinta anos. Na verdade Betty Toufry tinha mais de sessenta anos. —
De qualquer maneira, você voará para Hellgate amanhã, logo depois
do período de sono.
Gucky
empertigou-se e levantou as grandes orelhas. Por entre os lábios,
surgiu o dente roedor, que podia ser considerado o barômetro de seu
humor. Quando aparecia, podia-se falar tranqüilamente com Gucky.
— Hellgate!
— sacudiu a cabeça de espanto. — Logo esse planeta do calor.
Será que o chefe não poderia ter inventado nada melhor?
— Hellgate
é uma base muito importante que dispõe de uma estação de rádio.
É o único planeta de um sol pequeno e insignificante, que consta
dos catálogos dos arcônidas sob a designação ZW-2536-K-957.
Hellgate dista exatamente 12.348 anos-luz da Terra. O planeta
pertence ao Império de Árcon. Ninguém se interessa por ele,
especialmente os arcônidas.
— Obrigado
pela explicação — chiou Gucky em tom de desprezo. — Eu poderia
ter encontrado essas informações num livro. O que vou fazer em
Hellgate?
— Faça
essa pergunta a Rhodan; ele deve saber. Não tenho a menor idéia do
que aconteceu por lá — Betty ajeitou o robe e cobriu os joelhos,
embora não houvesse o menor perigo de que Gucky ligasse o joelho
humano feminino a qualquer tipo de erotismo. — Também não faço a
menor idéia do que Rhodan pretende fazer com o iate espacial de
luxo.
— Com
o quê? — perguntou Gucky perplexo.
— É
um veículo feito sob encomenda — disse Betty, participando do
espanto de Gucky. — Um iate especial para milionários. Os
arcônidas costumavam utilizá-lo. Você vai levar a pequena nave
para Hellgate, onde está Rhodan.
— E
depois disso vou voltar a pé? — perguntou Gucky.
— Dificilmente.
Se fosse assim, não teria dito expressamente que quer você como
piloto. Tomara que você saiba dirigir aquilo.
O
rato-castor empertigou-se, o que quase chegou a provocar o riso de
Betty.
— Isso
não é nada. Afinal, fui treinado com todos os tipos de nave,
inclusive com esse ridículo iate de luxo. Quando devo partir?
— O
equipamento ainda está sendo colocado a bordo. Infelizmente a longa
noite de Vênus começou há pouco, mas você não se importa de
decolar no escuro. Será dentro de dez horas. Se quiser, pode dormir
mais um pouco. O pessoal de Port Vênus está a par de tudo e fará o
possível para apressar os preparativos. Rhodan o aguarda para daqui
a vinte horas.
Gucky
exibiu o dente roedor e lançou os olhos em torno.
— Será
que posso dormir aqui? — perguntou com a cara mais inocente do
Universo e lançou um olhar ansioso para a cama de Betty.
Mas
esta não tinha a menor vontade de acariciar o rato-castor para pô-lo
a dormir. Tirou o robe, enfiou-se sob a coberta de penas e sacudiu a
cabeça.
— Na
sala ao lado há um sofá. Boa noite.
Desapontado,
Gucky ficou mais alguns minutos na poltrona. Depois teleportou-se
para a peça contígua.
Ainda
se encontrava sob os efeitos do vinho. Por isso, logo esqueceu seus
problemas e adormeceu.
*
* *
O
veículo espacial de luxo pertencia a uma classe toda especial.
Envolvido
pela luz ofuscante dos holofotes, estava pousado no pavimento de
concreto, junto ao cruzador leve que o trouxera da Terra.
Sobre
o corpo prateado da nave lia-se em caracteres negros a designação
arcônida Koos-Nor.
Assemelhava-se
a um gigantesco ovo, com trinta e cinco metros de comprimento e quase
vinte de diâmetro na parte central.
Uma
escotilha oval conduzia para a comporta de ar e dali para o interior
do iate. Seu raio de ação era praticamente ilimitado, desde que não
se desse importância às revisões regulamentares.
Gucky
e Betty Toufry encontravam-se diante da maravilha reluzente.
— Isso
deve custar um bom dinheiro — constatou Gucky. — Nunca imaginei
que um dia viria a comandar uma maravilha dessas.
A
moça olhou para o relógio.
— Você
conhece as coordenadas, Gucky. O engenheiro-chefe voltou a explicar
todos os detalhes. O que está esperando?
— É
verdade, Betty. Vou zarpar.
Betty
riu.
— Você
está exagerando para menos, coisa que não costuma fazer. Dê
lembranças minhas a Rhodan e aos outros. E boa sorte.
— Você
acha que precisaremos?
— Sem
dúvida. Rhodan falou numa missão muito arriscada.
Gucky
sorriu. Parecia satisfeito.
— Ainda
bem que esta espera enjoada chegou ao fim. Todos os mutantes estão
participando de comandos especiais. Eu sou o único que se encontra
aqui em Vênus para acalmar colonos inofensivos cujo único defeito
consiste em não querer pagar impostos.
— Bem,
ainda não existe nenhum imposto para os ratos-castores — disse
Betty com um sorriso e recuou um passo. — Faça um trabalho bem
feito, Gucky.
Gucky
sorriu e, com um ligeiro salto, subiu os poucos metros que o
separavam da escotilha de entrada. A escada que se revelara
desnecessária encolheu-se automaticamente. Gucky acenou e
desapareceu no interior da comporta. A pesada escotilha, iluminada
pelas lâmpadas, fechou-se.
Poucos
minutos depois, um tremor sacudiu o vulto em forma de ovo.
Levantou-se e subiu lentamente ao céu escuro, seguido pela luz dos
holofotes.
Betty
caminhou até a beira do campo de pouso. Quando parou e lançou mais
um olhar para o céu enegrecido, não viu mais nada da nave. Parecia
que a mesma se desmaterializara.
*
* *
E
foi isso mesmo. Gucky estava decidido a aproveitar todas as
possibilidades da nave de luxo arcônida.
Os
veículos espaciais do tipo da Koos-Nor eram dotados de um campo
amortizador especial, que reduzia a um mínimo os efeitos das
hiperentradas e saídas sobre a estrutura espacial contígua. Por
isso, essas naves tinham o direito de ingressar no hiperespaço
dentro do setor espacial ocupado por um sistema solar, ou reingressar
no espaço normal nesse mesmo setor. O custo de um equipamento desse
tipo era o único fator que impedia sua instalação em todas as
naves. O gerador de campo amortizador não era rentável — a não
ser para iates de luxo, com os quais os inspetores irradiavam o poder
e esplendor de Árcon...
O
rato-castor ligou o gerador de campo de amortização assim que a
Koos-Nor rompeu a camada de nuvens branca-amarelenta de Vênus.
Naquele
instante, o Universo deixou de existir para Gucky. Ou melhor, o
rato-castor e todo o iate de luxo deixaram de existir para o Universo
normal. Transformaram-se e passaram a existir sob a forma de um
impulso energético de categoria superior.
Essa
situação perdurou até o momento da rematerialização.
Quando
a dor tão conhecida, provocada por esse processo, se desvaneceu,
Gucky contemplou os quadros estelares, subitamente modificados.
Escorregou
para fora do assento do piloto e resolveu dar uma olhada mais detida
pela nave. Sentia-se martirizado pelo desejo de saber o que Rhodan
pretendia fazer com esse veículo de luxo. Por que não solicitara um
cruzador, em vez desse lindo brinquedinho? Com este iate, poderia não
se sair bem numa aventura perigosa.
No
porão de carga, viam-se as caixas fechadas vindas da Terra. Acontece
que uma fechadura não representava nenhum problema para Gucky, o
telecineta, e assim não era de admirar que o rato-castor
inspecionasse o equipamento especial de Rhodan sem que isso lhe
doesse na consciência.
Dez
minutos depois, voltou à sala de comando da Koos-Nor e deixou-se
cair no assento.
Os
olhos arregalados fitaram a profusão de estrelas desconhecidas.
— Gostaria
de saber o que Rhodan vai fazer num baile de máscaras — sussurrou.
*
* *
Hellgate
realmente parecia ser o portão do inferno, conforme dizia o nome.
Ninguém seria capaz de imaginar um planeta mais solitário e
desolado que aquele. Ali, Rhodan travara a primeira luta terrível
contra Atlan, o solitário do tempo.
Hellgate...
Era
um deserto de areia e rocha, inundado pelo sol e privado de qualquer
vida ou esperança. Nenhuma criatura sensata conceberia a idéia de
fixar-se ali, pois não havia nada com que pudesse alimentar-se. O
sol solitário ficava longe de todas as rotas espaciais e tinha menos
importância que uma partícula de pó suspensa na atmosfera de
qualquer planeta habitado da Via Láctea.
Hellgate...
Justamente
esse mundo infernal fora escolhido por Rhodan para servir de base e
posição avançada contra o Império dos Arcônidas. Ninguém
suspeitaria de que estivesse ali, se é que alguém soubesse da sua
existência. E isso era pouco provável. Há quase seis décadas
considerava-se a Terra como um planeta destruído, e todo mundo
acreditava que Rhodan e sua gigantesca nave, a Titan, tivessem
desaparecido.
Em
Hellgate, Rhodan construiu a cúpula de aço, em cujo interior
existiam condições de vida terranas. A partir dali poderia, a
qualquer momento, estabelecer contato pelo hipercomunicador com os
postos espalhados pelos quatro cantos do Universo. No hangar
subterrâneo havia uma nave rápida, preparada para tirá-lo dali
caso houvesse necessidade.
Já
fazia muito tempo que se encontrava em Hellgate, mas ainda não havia
atingido seu objetivo.
Exatamente
a oitenta e um anos-luz ficava um sol de luminosidade débil do tipo
G, que estava registrado nos catálogos dos arcônidas com o nome de
estrela de Revnur. Lembrava o sol terrano e facilmente poderia ser
confundido com o mesmo. Seis planetas gravitavam em torno da estrela
de Revnur, mas só o segundo deles era habitado. Os aras,
descendentes dos saltadores e dos arcônidas, o descobriram e
colonizaram em tempos idos. Os saltadores viviam principalmente do
comércio, motivo por que também eram conhecidos como os mercadores
galácticos. Já os aras exerciam outras especialidades: eram os
médicos galácticos, e seu meio de vida consistia na venda de soros
por eles produzidos e na vigilância médica de outras raças e dos
mundos por elas habitados.
Para
esse fim mantinham no segundo planeta de Revnur o único zôo
galáctico. Haviam descoberto um elixir da vida, e era mais que
compreensível que o mesmo despertasse o interesse de Rhodan. Havia
dois mutantes, John Marshall e Laury Marten, que trabalhavam como
agentes em Tolimon, nome pelo qual era conhecido o planeta do
zoológico. Há menos de uma semana Marshall avisara pelo rádio a
existência de uma situação de grave emergência e solicitara
auxílio. A partir dali tudo indicava que estava desaparecido.
Todavia, Rhodan sabia que Laury conseguira retirar uma ampola do
elixir da vida de um dos laboratórios dos aras.
Teria
que dirigir-se pessoalmente a Tolimon, para livrar seus agentes de um
perigo grave. Foi
este o motivo da partida inesperada de Gucky.
A
cúpula de aço estava sendo castigada pelo calor tremeluzente de
Hellgate. Mas em seu interior havia um clima igual ao das zonas
temperadas da Terra.
Rhodan
estava no banho.
Nos
dias anteriores, voltara a ouvir todas as mensagens de
hipercomunicação armazenadas automaticamente por sua estação
receptora. Com isso adquiriu uma visão de conjunto dos
acontecimentos que se desenrolaram no interior e no exterior do
Império Arcônida. O cérebro robotizado, que governava o Império,
conseguira restabelecer a paz e a ordem. E a paz reinante no Império
era respeitada tanto pelos aras quanto pelos saltadores. Ninguém
mais falava da Terra destruída. E também um certo Perry Rhodan, que
em certa época representara um perigo imenso para o Império, estava
totalmente esquecido.
Rhodan
sorriu e esticou o corpo. Os campos gravitacionais embutidos na
banheira faziam com que levitasse sobre a superfície da água
verde-azulada. O líquido brincava em torno do corpo, deixando livre
apenas a cabeça. Rhodan boiava sem executar o menor movimento,
gozando em cheio as delícias do banho gravitacional.
A
perspectiva do vôo para Tolimon não o deixava nada satisfeito.
Já
não tinha motivo para temer sua redescoberta pelo Império Arcônida,
mas estava interessado em adiá-la até o momento em que conhecesse o
segredo do prolongamento da vida. Por isso teria de usar um disfarce
durante a visita a Tolimon.
Na
sala de controle soou uma campainha e logo se ouviu um zumbido
penetrante.
Rhodan
fez alguns movimentos de natação e saiu da banheira. O jato de ar
quente enxugou seu corpo dentro de poucos segundos. Vestiu um robe e
desceu até a sala de controle. Pelos instrumentos constatou que uma
pequena nave circulava em torno de Hellgate e procurava entrar em
contato com sua estação.
Seria
Gucky?
Dali
a um minuto, a tela iluminou-se, mostrando o rosto sorridente de
Gucky em tamanho natural, a começar pelas orelhas
superdimensionadas, a testa enrugada, os olhos fiéis e o dente
roedor reluzente. Enfim, a gola verde do uniforme espacial.
— Olá,
chefe! Posso pousar?
Rhodan
sacudiu a cabeça, num gesto de recriminação.
— Você
está com sorte, pois por uma questão de precaução desliguei o
dispositivo de defesa automático. Se não fosse assim, não
encontraríamos mais nada de você.
— Você
não me esperava?
Rhodan
suspirou.
— Sua
leviandade chega a ser lendária, Gucky. Pois bem, pode pousar. A
barreira visual foi desativada; você não terá a menor dificuldade
em encontrar a cúpula. Ligue os campos gravitacionais, para que a
nave possa ser introduzida. Vou abrir a comporta.
Voltou
a cumprimentar o rato-castor e desligou a instalação. Vestiu-se
rapidamente, colocou o traje pressurizado e foi até a comporta do
hangar, onde estava guardada sua nave. Dali a dois minutos pisava a
areia escaldante do planeta infernal. O aparelho de refrigeração de
seu traje espacial reduziu a temperatura a um nível suportável.
Gucky
estava pousando.
— Fique
na sala de comando! —
pensou Rhodan com a maior intensidade. Sabia que o rato-castor, que
era telepata, não teria a menor dificuldade em captar e decifrar
seus impulsos mentais. — Ligue
os campos. Levarei a nave para dentro da comporta.
Gucky
compreendeu imediatamente. A Koos-Nor perdeu seu peso, tornando-se
mais leve que uma folha de papel. O raio de tração de matéria
permitiu a Rhodan que levasse a nave de trinta e cinco metros de
comprimento para o interior da comporta, fechasse a escotilha,
fizesse entrar o ar e a colocasse no hangar. Enquanto saía do
levíssimo traje espacial, a pequena escotilha oval da nave abriu-se
e Gucky, com um único salto, colocou-se nos braços de Perry.
— Estou
tão feliz em revê-lo, chefe — chilreou num tom que quase chegava
a ser carinhoso e enlaçou o pescoço de Rhodan com os braços
fininhos. — Trago lembranças de todos, especialmente de Betty.
— Está
bem, pequeno — disse Rhodan comovido e acariciou o amigo. Havia uma
estranha amizade entre o homem mais poderoso do sistema solar e o
“animal” peludo, que, além de possuir a inteligência de um
homem superdotado, era o mais versátil dos mutantes. — Também
estou feliz por tê-lo comigo.
— Você
bem que poderia ter-me chamado mais cedo.
— Acontece
que só agora surgiu a necessidade, e nem sempre podemos dar atenção
aos nossos sentimentos. Trouxe tudo que eu pedi?
— Não
faço a menor idéia. Quem cuidou disso foi Betty.
— Nesse
caso deve estar tudo certo. Mais tarde daremos uma olhada. Vamos até
a sala de comando. Ali, lhe explicarei os meus planos. Mas desde logo
posso adiantar uma coisa: será um trabalho muito perigoso.
— Que
bom! — disse Gucky com um sorriso e saltou para o chão. — Já me
chateei bastante na Terra e em Vênus.
— Você
ficará admirado — disse Rhodan com um sorriso e envolveu seus
pensamentos com uma barreira, para que Gucky não pudesse ler os
mesmos. Embora ele mesmo possuísse uma capacidade telepática muito
reduzida, já percebera a curiosidade do amigo. Chegaram à sala de
controle semicircular da cúpula e sentaram.
— Preste
atenção, meu caro — principiou Rhodan. — Você já sabe que
John e Laury foram enviados para Tolimon a fim de tirar dos aras o
segredo do elixir da vida. Conseguiram uma garrafa do líquido, mas
estão em dificuldades. Não sei o que aconteceu, mas sei que
precisam do meu auxílio. Aliás, você levou muito tempo para chegar
aqui.
O
rato-castor fez a cara mais inocente do mundo.
— Betty
disse que você só precisava de mim após decorridas dez horas. Por
isso voei mais devagar que a luz e realizei apenas três transições.
Não quis chegar antes da hora.
— Quer
dizer que Betty levou muito ao pé da letra a minha indicação de
que não precisava de mais de seis dias. Não disse que preferiria
que fossem quatro ou cinco. Bem, o que passou, passou. De qualquer
maneira, você está aqui. Podemos começar.
— Começar
com quê?
— Com
os nossos preparativos. Vamos mascarar-nos. Você não. É claro,
pois isso não adiantaria nada. Por aqui ninguém o conhece.
Dificilmente alguém o ligará à minha pessoa. Quanto a mim, farei o
papel de arcônida, mais precisamente, o de inspetor.
— Inspetor?
— perguntou Gucky, arregalando os olhos de espanto.
— Isso
mesmo: de inspetor. Pelas mensagens do cérebro robotizado de Árcon
captadas por nossa estação soube que o mesmo envia a espaços
regulares inspetores aos diversos mundos do Império, para verificar
se está tudo em ordem. Todo o poderio de Árcon está atrás desses
funcionários. Quer dizer que, se eu aparecer em Tolimon na qualidade
de inspetor, todas as portas se abrirão diante de mim, e as pessoas
me tributarão o devido respeito. Nos últimos seis decênios, o
prestígio dos arcônidas voltou a crescer. Ao que parece, a raça
degenerada voltou a recuperar-se. Seja como for: você trouxe o
equipamento de que preciso para mascarar-me.
— E
eu?
Rhodan
exibiu um sorriso matreiro.
— Tolimon
é um mundo todo especial, meu caro. Costuma ser designado como o zôo
da Galáxia. Ali colecionam-se principalmente seres
semi-inteligentes, que já ultrapassaram a fase animalesca, mas não
podem ser considerados como inteligências plenamente desenvolvidas.
Donde se conclui que em Tolimon você despertará mais interesse que
eu.
— Eles
se interessarão por mim? — chiou Gucky, que teve um terrível
pressentimento. — Quer dizer que... Essa não! Você não poderá
exigir que eu me preste a um papel destes.
— Por
que não? Para todos os efeitos, eu serei o poderoso inspetor de
Árcon, enquanto você será um ser peludo inofensivo e de pouca
inteligência, que me serve de criado. Verá como os aras se
interessarão por sua pessoa. Você representa a peça que falta em
seu zoológico. Por isso mesmo darão menos atenção à minha
pessoa.
— Está
bem. Mas será que eu terei que assumir o papel de idiota? Para falar
com franqueza, não estou gostando da idéia.
— Pouco
importa que você goste ou não, Gucky. A coisa é muito séria, pois
não sabemos o que aconteceu com Marshall e Laury. Talvez se
encontrem em grande perigo. Se aparecermos por lá, a atenção dos
aras será desviada deles. E você desviará sua atenção da minha
pessoa. Se tem qualquer dúvida em fazer o papel de idiota, é bom
que se lembre de uma coisa: só a criatura verdadeiramente
inteligente não se importa de parecer mais tola do que realmente é.
Já o tolo sempre quer aparentar uma inteligência maior que a real.
Isso decorre da própria natureza das coisas.
Gucky
inclinou a cabeça.
— Isso
é um trecho de filosofia terrana que já conheço. Mesmo assim, a
perspectiva de fazer o papel de animal doméstico não é nada
agradável.
— Meu
animal doméstico e meu criado pessoal — completou Rhodan. —
Afinal, sou um arcônida extravagante, riquíssimo. Não seja um
desmancha-prazeres, Gucky. Se você não quiser entrar no jogo, terei
de arrepender-me de querer justamente você.
— Por
que não leva Bell? Este não precisa fingir para fazer o papel do
idiota — Gucky sorriu com a lembrança, mas seu rosto logo voltou a
ficar sério. — Está bem, vamos ao trabalho. Quando decolaremos
com destino a esse estranho planeta zoológico?
— Exatamente
dentro de dez horas. É o tempo necessário aos nossos preparativos.
Ainda lhe fornecerei instruções mais detalhadas.
— O
que aconteceu com Marshall e Laury?
— Pelas
últimas notícias que recebemos deles, conseguiram uma amostra do
soro e se encontram numa situação extremamente perigosa. É só o
que sabemos. É possível que a falha seja do emissor, mas o súbito
silêncio pode ter outros motivos. Não demoraremos a saber.
Gucky
endireitou o corpo. Em seus olhos castanhos ainda havia um restinho
de recriminação, porém já revelavam certa alegria pelo que estava
por vir.
Quem
sabe se a aventura afinal não seria muito divertida...
*
* *
O
sinal de despertar ressoou pela cúpula de aço.
As
dez horas haviam se esgotado. Rhodan e Gucky tiveram um sono breve,
mas reparador. Estava tudo preparado. A missão “mascarada”
poderia ter início.
— Os
inspetores de Árcon sempre costumam voar em iates de luxo? —
indagou Gucky, alisando o pêlo castanho. — Aliás, sem o uniforme
e o radiador de impulsos tenho a sensação de estar nu.
— Um
animal estúpido tem que andar nu — ponderou Rhodan e deu uma
piscadela. — E você é muito estúpido. Nunca se esqueça disso!
— Isso
é uma injustiça que clama aos céus, chefe. Você tem de prometer
que ninguém saberá das circunstâncias em que estamos executando
esta missão; especialmente Bell. Sabe lá o que eu terei de ouvir se
ele souber?
— Isso
fica entre nós — tranqüilizou-o Rhodan. — Até mesmo Marshall
dificilmente perceberá qualquer coisa, pois assim que o tivermos
encontrado, nosso papel praticamente terá chegado ao fim. Tudo
pronto para a decolagem?
Gucky
confirmou com um gesto distraído. Não se fartava de contemplar
Rhodan, que envergava um uniforme dourado cheio de insígnias. A
estatura esbelta de Rhodan fazia com que o mesmo se assemelhasse com
os arcônidas das velhas famílias dominantes. O branco dos seus
olhos brilhava num tom avermelhado, graças a uma tintura de ótima
qualidade, e o cabelo branco não permitia a menor dúvida de que se
tratava de um arcônida de boa cepa.
— Tudo
pronto! — chiou o rato-castor, acomodando-se no assento do
co-piloto, ao lado de seu amigo e senhor. — Por mim, podemos
começar.
— É
o que vamos fazer — disse Rhodan e pôs as mãos nos controles.
A
Koos-Nor, que já se encontrava fora da cúpula, ergueu-se levemente
e subiu devagar. Rhodan estudara detidamente a planta de construção
do iate, o que lhe permitia conhecer os menores detalhes da pequena
nave. A direção da mesma era relativamente simples.
Preferiu
não realizar um vôo prolongado com velocidade inferior à da luz.
Ligou o compensador estrutural e com um salto colocou a nave bem no
meio da Via Láctea. Um segundo impulso colocou-a perto de Árcon.
Uma vez chegado lá, girou-a, desligou o compensador que o protegia
da localização e saltou de volta em direção a Tolimon.
Qualquer
pessoa que acompanhasse o vôo pelos rastreadores estruturais teria a
impressão de que a nau se aproximava da estrela de Revnur, vinda de
Árcon. Era exatamente o que Rhodan pretendia. Queria que os aras
estabelecidos em Tolimon soubessem que alguém pretendia visitá-los,
mas não teriam tempo de realizar qualquer investigação. A estrela
de Revnur ficava a boa distância de Árcon, podendo ser comparada a
uma posição avançada do Império. Era mesmo de supor que os
habitantes de Tolimon não fizessem muita questão de manter contato
com os arcônidas, especialmente com um dos temidos e pouco
apreciados inspetores do Império.
A
última transição levou a Koos-Nor diretamente para o centro do
sistema dos seis planetas da estrela de Revnur. O abalo da estrutura
espaço-temporal, provocado pela rematerialização, não poderia
deixar de ser percebido. Por isso não era de admirar que, dentro de
poucos minutos, se fizessem ouvir os primeiros chamados nos
receptores de bordo.
Rhodan
fez com que a nave deslizasse em direção a Tolimon com velocidade
ligeiramente inferior à da luz. Dedicou sua atenção aos aparelhos
de comunicação, enquanto Gucky, encolhido na poltrona, fervilhava
por dentro, porque tinha de treinar o papel do animal estúpido que,
de forma alguma, correspondia à sua natureza.
— Forneça
sua identificação! — soou a voz potente que sobrepujou todas as
outras. — Qual é o prefixo da nave?
— As
coisas estão começando a ficar sérias — resmungou Rhodan e ligou
o transmissor.
— Aqui
fala Tristol, inspetor de Árcon — anunciou Rhodan, esforçando-se
para dar à voz um tom nasal e arrogante. — Venho por ordem do
regente de Árcon, a fim de realizar a inspeção de rotina. Forneça
as coordenadas do pouso!
De
uma hora para outra, todas as mensagens cessaram. A identificação
de Rhodan devia ter sido captada e entendida por todas as naves. Até
parecia que a surpresa estava deixando os tolimonenses sem fala.
Provavelmente o tele-retrato da nave a essa hora já estava sendo
enviado para todas as estações, e a central de identificações
estaria empenhada em localizá-la e identificá-la em seus catálogos.
Talvez o nome do inspetor, Tristol, também estivesse sendo
procurado. Se fosse assim, o azar seria deles, pois o nome fora
escolhido ao acaso. Mas devia haver muitos inspetores.
— Aqui
fala a central espacial de Tolimon. Licença de pouso concedida.
Pouse no campo de Trulan. Enviaremos um raio direcional sem
tele-controle. Já tomamos todos os preparativos para recebê-lo. Fim
da mensagem.
— Vou
pousar — respondeu Rhodan e desligou o transmissor. Olhou Gucky de
lado, com um ligeiro sorriso nos lábios. — Então, o que me diz?
Que tal me acha no papel de arcônida?
O
rato-castor fez uma cara como se alguém lhe tivesse roubado a última
cenoura.
— Você
está se saindo muito bem como arcônida. De qualquer maneira, está
muito melhor que eu no meu papel de estúpido. Não viverei para ver
chegar o fim...
— Quanto
mais estúpido você for, maior será sua expectativa de sobreviver —
explicou Rhodan, deixando que a Koos-Nor descesse em direção ao
segundo planeta. Dali a poucos minutos teriam a decisão.
Alguns
dos cientistas e líderes políticos eminentes fizeram questão de
receber o inspetor no porto espacial. Haviam descido de seus veículos
e, ao se aproximarem do iate, formavam uma procissão colorida. Como
aras e descendentes dos saltadores, eram absolutamente humanóides;
tinham o aspecto de homens assustadoramente magros. Seus trajes
diferiam bastante. Os cientistas usavam capas longas e brancas, do
mesmo tipo das que eram usadas pelos médicos nos planetas-hospitais.
Já os políticos preferiam os uniformes e os trajes à paisana
bastante coloridos. Ao que parecia, não havia ninguém que estivesse
armado.
Uma
vez diante da Koos-Nor, ficaram parados numa atitude de expectativa.
Rhodan
observara a chegada da delegação e aproveitara a oportunidade de
pedir a Gucky que observasse os pensamentos dos tolimonenses. Não
percebeu nada além de expectativa curiosa misturada com um pouquinho
de medo, que não tinha sua origem na consciência menos tranqüila,
mas na reação perfeitamente normal de um ser inteligente que se vê
diante de uma pessoa de categoria bastante superior.
— Não
faça tolices — voltou a prevenir Rhodan e deu uma palmadinha no
traseiro muito largo do rato-castor. — Você me seguirá assim que
receber meu comando mental. Não se esqueça de que pertence à
classe das chamadas semi-inteligências.
— Você
quer que eu faça o papel do tolo, mas não quer que faça tolices —
resmungou Gucky e escorregou do sofá para baixo. — Nem mesmo uma
inteligência total conseguiria compreender o seu raciocínio. Até
logo mais!
Rhodan
levantou o dedo num gesto de advertência. De uma hora para outra o
sorriso alegre desapareceu de seu rosto. Enquanto fez a escotilha
externa abrir-se, transformou-se numa máscara de arrogância.
Treinara muito bem o seu papel.
A
escada foi escamoteada automaticamente e obrigou os tolimonenses, que
se haviam aproximado demais, a dar alguns saltos para trás. Rhodan
fez um gesto quase imperceptível em direção aos rostos voltados
para cima. Desceu os poucos degraus e viu-se no solo do planeta
Tolimon, que também costumava ser designado como o zôo galático.
Sem
dizer uma palavra, esperava que alguém dissesse alguma coisa.
Um
oficial com o peito cheio de condecorações adiantou-se, fez menção
de executar uma mesura e disse num arcônida impecável.
— Bem-vindo
em Tolimon, inspetor Tristol. Faremos tudo para que sua permanência
em nosso mundo seja muito agradável, para que seu dever grave e
pesado não se transforme num fardo excessivo. Permite que pergunte
quanto tempo pretende ficar?
Rhodan
lançou-lhe um olhar de desprezo.
— Isso
depende das circunstâncias. Segundo consta, surgiram algumas falhas
na administração do zoológico. Como inspetor tenho a obrigação
de verificar o que aconteceu e relatar tudo ao regente.
— Deve
ter havido um engano — disse o oficial em tom assustado e
empalideceu. — Nos últimos dois decênios não recebemos qualquer
queixa. Não compreendo...
Realmente
não estava compreendendo, segundo constatou Rhodan por via
telepática. Admirou-se de estar captando os pensamentos de seu
interlocutor com tamanha nitidez. Será que Gucky estava ajudando?
— Farei
uma verificação — disse, interrompendo o oficial. Com um olhar de
esguelha para as outras pessoas que se encontravam por ali, disse: —
Quem é essa gente? Por favor, não quero muita sensação.
— Para
nós, qualquer desejo do senhor é uma ordem — apressou-se em
asseverar um ara muito alto e magro. — Acreditávamos que
estaríamos correspondendo aos seus desejos ao enviar uma delegação
do governo para recebê-lo. Assim estaríamos em condições de saber
quais são os seus desejos, e logo poderíamos satisfazê-los.
Rhodan
estreitou os olhos e respondeu em tom frio:
— Quando
chegar a hora, os senhores conhecerão os meus desejos. Há outra
coisa que quero deixar bem clara: a alguns anos-luz daqui um
couraçado do regente aguarda minhas instruções.
— O
senhor não terá necessidade do mesmo — disse um dos oficiais para
agradá-lo. — Somos amigos fiéis do Império e nada temos a
recear. Permite que o levemos à sua residência?
— Onde
fica essa residência? — perguntou Rhodan em tom arrogante.
— Na
periferia da cidade de Trulan. É um palácio, senhor...
— Não
desejo nenhum palácio — disse Rhodan para espanto da delegação.
— Coloque um carro à minha disposição, para que eu mesmo possa
procurar um alojamento. Não preciso de criado, pois trouxe o meu.
Virou-se
para a escotilha e gritou:
— Gucky,
venha cá!
Todos
os olhares dirigiram-se para a escotilha, como se esperassem que o
regente em pessoa surgisse por lá. Mas quem apareceu foi apenas o
rato-castor, que disse com a voz aguda:
— Quer
que leve a mala, senhor?
— Naturalmente,
seu animal estúpido! — respondeu Rhodan com uma ironia insolente.
— Ande depressa, para que possa ligar a barreira automática.
Gucky
desapareceu; compreendera a senha. Com alguns movimentos da mão
ativou a barreira que impediria qualquer criatura de penetrar na
nave. Além disso, o aparelho de tele direção permaneceu em
recepção. A qualquer hora Rhodan poderia trazer a Koos-Nor para
junto de si, fosse qual fosse o lugar em que se encontrasse.
Finalmente
Gucky pegou a mala pesada, aliviou a carga por meio de sua capacidade
telecinética, saiu para a escada-passadiço e deixou-se escorregar
para baixo. Atrás dele, a escotilha fechou-se automaticamente.
— Inspetor
Tristol, o senhor tem um criado bastante estranho — atreveu-se a
observar um dos cientistas. — Nunca vimos um animal desse tipo.
Ainda não o temos em nossa coleção.
Gucky
inclinou a cabeça e fez uma cara inocente e estúpida. Era de
espantar que isso lhe ficasse tão fácil. Rhodan resolveu no seu
íntimo que oportunamente o avisaria sobre isso. Mas no momento não
havia tempo para isso.
— Vem
de um planeta muito distante e completamente isolado, que descobri
por acaso em uma das minhas viagens. Peguei um exemplar e descobri
que é muito dócil. Acredito que meu criado Gucky merece mais
confiança que qualquer outro criado, ou mesmo um robô.
— Tem
alguma faculdade especial? — perguntou um dos aras em tom curioso.
— Não,
mas é muito discreto e fiel — disse Rhodan. — Agora gostaria de
receber meu carro. Amanhã poderemos conversar.
Olhou
em torno e a algumas centenas de metros de distância descobriu um
veículo. Tinha um formato estranho. Mantinha-se equilibrado segundo
o velho princípio do giroscópio e corria sobre uma única roda
situada no centro.
— Que
tal aquele carro ali? — perguntou.
Um
dos oficiais acenou fortemente com a cabeça e correu em direção ao
veículo estacionado. Daí a poucos segundos, o giro parou diante de
Rhodan. O oficial desceu.
— O
veículo está à sua disposição, inspetor Tristol. Mas não acha
que seria preferível que um funcionário o acompanhasse para
providenciar um hotel condigno? Nesta cidade existem muitos
estabelecimentos deste tipo e sentir-nos-emos felizes...
— Obrigado!
— interrompeu Rhodan com a voz fria e passou a mão pelos cabelos
brancos, num gesto de arrogância. — Prefiro permanecer incógnito
e alojar-me no lugar que melhor me aprouver. Amanhã entrarei em
contato com os senhores.
Cumprimentou
o grupo com um ligeiro aceno de cabeça e dirigiu-se a Gucky:
— Coloque
a mala no carro. Ande logo!
Gucky
ficou furioso.
“Se
as coisas continuarem assim, eu quero que você vá para o inferno”,
pensou. Mas obedeceu.
Pegou
a mala e colocou-a na cabine situada atrás do assento do motorista.
Depois segurou a porta do veículo, para que Rhodan pudesse entrar.
Quando viu Rhodan sentado junto aos controles bastante simples,
entrou desajeitadamente.
Enquanto
se afastavam, Rhodan procurou examinar os pensamentos dos membros da
delegação. Desta vez Gucky funcionava oficialmente como estação
retransmissora, que reforçava os impulsos mentais. Teve uma alegre
surpresa que apenas um dos oficiais se interessava por ele.
Os
demais espantavam-se sobre o animal tão dócil, que o pretenso
inspetor transformara em criado.
— Gucky
— disse com um sorriso de mofa para o rato-castor, que se
acomodara, muito contrariado, junto à mala, na parte traseira do
veículo. — Você tem uma carreira bastante promissora. A esta hora
sua fama já é maior que a minha. Se não estou enganado, os
tolimonenses estarão dispostos a pagar um ótimo preço por você. É
bem possível que consiga fazer um bom negócio.
Gucky
não respondeu.
Olhou
tranqüilamente pela janela e, num processo heróico de
auto-sugestão, pensou com toda força:
“Você
tem que permanecer calmo, muito calmo, meu Gucky. Não se exalte.
Rhodan não sabe o que está dizendo. Perdoe-lhe. Fique calmo, muito
calmo.”
Depois
de ligeira pausa mental, tornou a pensar:
“Se
eu estourar, deuses do Universo, perdoem se eu sujar este carro...”
— Chega!
— disse Rhodan, que evidentemente não poderia ter deixado de
perceber os pensamentos de Gucky. — Até agora tudo deu certo. O
resto será simples, se conseguirmos encontrar Marshall.
— Isso
mesmo — dignou-se Gucky a dizer. — Se encontrarmos...
2
Graças
à sua situação periférica, o planeta Tolimon era o ponto de
partida de numerosas expedições intergalácticas, e por isso
constituía um lugar de transbordo de primeira ordem. As fabulosas
instalações do gigantesco zoológico atraíam visitantes de outros
sistemas solares, e membros de todas as raças se haviam fixado
definitivamente em Trulan, para passar o resto da vida num dolce
far niente.
Por
isso mesmo a capital Trulan transformara-se num verdadeiro cadinho,
inclusive em matéria de arquitetura das construções.
Rhodan
teve dificuldade em orientar-se nessa confusão de surpresas
arquitetônicas. Orientava-se principalmente pelos pensamentos dos
transeuntes, que praticamente não davam a menor atenção ao seu
veículo. Provavelmente os aras, que o haviam cumprimentado no porto
espacial, ainda não haviam anunciado oficialmente a sua chegada.
Rhodan
bem que gostava que fosse assim.
Chegaram
mesmo a pará-lo e pedir seus documentos. Quando o policial lançou
um olhar para as credenciais muito bem imitadas e só então viu o
uniforme espalhafatoso do inspetor arcônida, por pouco não abre um
buraco no chão e some. Desculpou-se com um palavreado profuso e
ofereceu sua assistência. Rhodan afastou-o com um gesto e voltou a
colocar seu veículo em movimento. Pouco lhe importava que naquele
momento quase atropela o oficial.
Num
lugar afastado da rua principal, encontraram um hotel tranqüilo,
meio escondido e próximo a um parque. Rhodan alugou dois quartos.
Fez um depósito vultoso e deu ordem para que sua permanência no
hotel ficasse em segredo. Supunha que no mesmo instante o governo
descobrisse seu paradeiro, mas isso pouco lhe importava. Importava-se
apenas que os aras supusessem que não fazia questão de recepções
oficiais, preferindo realizar suas investigações com a maior
discrição.
Uma
vez no quarto, Gucky deixou cair a mala.
— Quer
que lhe diga uma coisa, chefe? Para mim esse negócio já está
fedendo!
Suspirando
de satisfação, Rhodan deixou-se cair numa poltrona macia que ficava
junto à janela, permitindo uma boa visão sobre a cidade.
— Fedendo
por quê? Acho que o papel lhe fica muito bem. E eu como inspetor não
me estou saindo nada mal...
— Acho
que temos uma missão séria a cumprir. Onde está Marshall? O que
aconteceu com ele e Laury?
Rhodan
acenou calmamente com a cabeça.
— Então?
Você acredita que já teríamos chegado mais longe se tivéssemos
pousado aqui sem máscara e sem que estivéssemos devidamente
preparados? Ninguém deve saber antes da hora que a Terra, há tanto
tempo esquecida, ainda existe. Se usássemos a força para salvar
nossa gente, toda a Galáxia ficaria sabendo. Por isso só podemos
recorrer à astúcia.
— Astúcia
para cá, astúcia para lá — queixou-se Gucky e sentou sobre a
mala, pois tinha preguiça de subir na outra poltrona. — Já estou
enjoado de bancar o idiota. Afinal, sou muito mais inteligente do que
qualquer desses talismãs
poderia supor...
— Eles
se chamam de tolimonenses — retificou Rhodan.
— Está
bem, está bem! — disse Gucky. — De qualquer maneira, já
constatei num desses capas-brancas do espaçoporto a intenção de
raptar-me e enfiar-me no zoológico. Quer que me conforme com uma
coisa dessas?
— Excelente!
— disse Rhodan. Parecia muito satisfeito. — Era exatamente o que
eu queria. Estão começando a interessar-se por você e a esquecer
minha pessoa. Alguém poderia ter a idéia de entrar em contato com
Árcon para colher informações sobre o inspetor Tristol. Mas isso
dificilmente acontecerá se julgarem que você é mais importante que
eu.
— Eu
vou para o zoológico? — perguntou Gucky em tom indignado, mas
finalmente soltou um suspiro. — Está bem; concordo. Mas quando
vamos iniciar a busca?
— Seria
preferível perguntar por onde vamos começar. Não disponho de
qualquer ponto de referência. Estavam nas montanhas, mas é
perfeitamente possível que a esta hora já se encontrem na cidade de
novo. Se o transmissor de Marshall estiver quebrado, teremos de
tentar a via telepática. Emitiremos chamados a intervalos regulares
e concentraremos a mente para captar uma eventual resposta. Dessa
forma não poderemos deixar de localizar Marshall e Laury.
Alguém
bateu na porta. Rhodan lançou um olhar rápido para Gucky. O
rato-castor sacudiu os ombros num gesto de resignação, saltou de
cima da mala e correu em direção à porta. Ao abri-la, fez uma
mesura.
Do
lado de fora, estavam dois aras.
Um
deles usava os trajes nobres das classes abastadas, enquanto outro
envergava um uniforme. Assustaram-se quando viram o rato-castor, mas
quando viram a atitude submissa de Gucky logo se controlaram.
— O
que houve? — disse Rhodan com uma forte dose de desprezo, — Quem
se atreve a perturbar meu descanso tão merecido?
Já
sabia, mas evidentemente os aras nunca deveriam saber que ele lia
seus pensamentos.
— Soubemos
que um inspetor de Árcon está em nosso planeta para verificar se
está tudo em ordem — principiou o ara uniformizado e adiantou-se
um passo. — Pensamos que fosse uma boa oportunidade de denunciar
algumas das injustiças que costumam ser praticadas em Tolimon. Meu
superior, o cabo Koplad, trabalha para seu próprio bolso,
negligenciando seus deveres para com Árcon. Minha promoção, que já
está muito atrasada, vem sendo adiada constantemente, porque todos
sabem que sou amigo de Árcon. Além disso...
— Não
fiz todo o caminho de Árcon para cá para resolver ninharias desse
tipo — interrompeu-o Rhodan, que olhava pela janela com uma
expressão de tédio no rosto. — E o senhor?
O
oficial recuou perplexo e deu lugar ao outro. O paisano bem vestido
perdera parte de sua autoconfiança. Já não parecia tão convencido
da justiça de sua causa. Muito embaraçado, ora se apoiava num pé,
ora noutro.
— Senhor
— principiou em tom pouco seguro.
— Então?
— perguntou Rhodan com a voz impaciente. — O assunto é
importante? Seus problemas pessoais não me interessam, e não estou
disposto a imiscuir-me nos assuntos internos de Tolimon. Fale somente
se quiser denunciar falhas políticas de muita gravidade.
O
paisano sacudiu a cabeça; parecia assustado.
— Desculpe
se o incomodamos, senhor. O assunto não é tão importante assim.
Desejamos-lhe uma longa vida, senhor.
Quando
a porta voltou a fechar-se, Gucky sacudiu a cabeça.
— Veja
só! Tenho de fazer mesuras diante de idiotas desse tipo, apenas
porque sou seu criado. Não sobreviverei a isso. Quem dera que já
estivesse morto!
Rhodan
demorou em responder. Inclinou ligeiramente a cabeça e concentrou-se
com os olhos fechados. Voltou a abri-los e fitou o rato-castor com
uma expressão séria.
— É
possível que seu desejo se cumpra — disse com a voz baixa. — Num
lugar não muito distante, provavelmente no hall do hotel, há
algumas pessoas que pretendem capturá-lo. Querem narcotizá-lo e
levá-lo ao zoológico. Estão cumprindo ordens de uma autoridade
bastante elevada. Se você oferecer resistência, ou se chegarem à
conclusão de que é uma criatura perigosa, esses homens têm plena
liberdade para matá-lo. Conforme vê, seu desejo de uma morte rápida
está a caminho da realização.
Nos
minutos anteriores, Gucky concentrara-se exclusivamente no seu papel
de retransmissor, motivo por que não percebera o atentado que se
planejara contra sua vida e liberdade.
Recuperou
o tempo perdido e pôs-se a esbravejar:
— Pretendem
capturar-me como se fosse um animal selvagem! E querem fazer uma
coisa dessas logo comigo, o criado pessoal do venerando inspetor de
Árcon! Não é uma atitude incompreensível. Será que posso... será
que posso dar uma lição nesses caras, chefe? Eles merecem, não
acha?
— Não
há dúvida de que merecem. Mas como é que você poderia conhecer
seus planos se não fosse um telepata? Receio que terá de esperar
até que eles traiam suas intenções. Vamos ver se conseguimos
localizar Marshall. Os domadores de animais terão que ficar para
depois.
— Domadores
de animais? — resmungou Gucky em tom zangado, saltou para a cama de
lençóis brancos, deitou e cruzou os braços embaixo da nuca. — Se
Bell souber disso, nunca mais terei um minuto de descanso. Este é o
planeta da vergonha.
— Não
se preocupe com os bobalhões que caíram na nossa conversa. É
preferível que me ajude a procurar Marshall, Laury e Berceo. E, se
estiverem pensando, devemos ser capazes de captar os impulsos de seus
cérebros.
— Será
que esse esquisitão chamado conde Rodrigo de Berceo também pensa?
Por
um instante, uma sombra tomou o lugar do sorriso de Rhodan, mas
finalmente este acenou lentamente com a cabeça.
— Acredito
que sim, embora receie que não pensa em outra coisa senão em nossa
boa Laury. Foi justamente isso que nos meteu na situação que
estamos enfrentando.
— Está
certo, está certo — filosofou Gucky. Tinha um aspecto temível. —
O amor é culpado de tudo. Nunca me apaixonarei.
— Não
sei em quem você poderia apaixonar-se — observou Rhodan.
O
rato-castor não fez mais nenhum comentário. Passou a concentrar-se
na tarefa de localizar as vibrações mentais de Marshall.
*
* *
Rhodan
fechou os olhos, descontraiu-se e reclinou-se na poltrona.
Concentrou-se sobre os impulsos que estava captando, mas logo se deu
conta de que só mesmo uma coincidência pouco provável poderia
levá-los ao objetivo. Sentiu-se como um radioamador que procura
localizar o transmissor de seu parceiro entre milhares de outros, e
isso sem qualquer código.
Era
impossível calcular o número de impulsos mentais que se contavam
pelos milhares ou dezenas de milhares e, muito mais, identificá-los.
Em
compensação Gucky conseguiu descobrir outras coisas, não menos
interessantes. Os impulsos eram muito intensos e ocupavam-se
principalmente com sua pessoa. Pela força, concluía-se que o autor
dos respectivos pensamentos já devia encontrar-se no hotel.
— Estão
chegando — disse Gucky. Rhodan arregalou os olhos de espanto, mas
limitou-se a fitar o amigo de lado.
Seus
pensamentos tateavam muito ao longe, sem que tivessem encontrado o
menor vestígio de Marshall ou Laury.
— Quem
está chegando?
— Ora,
esses sujeitos que querem enfiar um inocente rato-castor em seu
zoológico. Farei com que voem pela janela, mesmo que se disfarcem em
funcionários do governo.
Rhodan
já estava captando os mesmos impulsos.
— Você
não vai fazer nada disso, meu caro. Será que você assume algum
risco se deixar que o surpreendam? Não! Pelo contrário; acho que
isso nos poderá ser muito útil. Talvez dessa forma você descubra
alguma coisa a respeito de Marshall. Afinal, sempre podemos
permanecer em contacto, e se surgir qualquer perigo você poderá
recorrer à teleportação. Como vê, nada lhe pode acontecer.
— Nada,
absolutamente nada — confessou Gucky em tom contrariado. — Mas
não é disso que se trata.
— Então,
qual é o problema?
— É
a vergonha que vou passar. Eu, que sou o mais inteligente dos
ratos-castores, tenho que ser mais tolo do que a polícia permite. Ao
menos, a polícia terrana. É possível que por aqui as condições
sejam diferentes, mas um tolo sempre é um tolo.
— Quem
consegue alguma coisa fingindo-se de tolo é mais inteligente que as
pessoas enganadas.
O
rato-castor engoliu um bolo imaginário.

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