Autor
KURT
MAHR
Tradução
RICHARD
PAUL NETO
Digitalização
VITÓRIO
Revisão
ARLINDO_SAN
Tentaram assassinar o Administrador do Império
Solar!
A primeira aventura de colonização...
Apesar
das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho
pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo,
realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto,
pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram
insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta
e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que
teria ocorrido no ano de 1984.
Uma
nova geração de homens surgiu.
E, da
mesma forma que em outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até
transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou,
formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e
Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se
prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou
jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No
sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa
forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino
planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse
reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução
tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa
frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer
atacante.
Mas,
desta vez, o ataque partiu
de dentro... Dois
grupos revolucionários acusam Rhodan de ditador e tentam
assassiná-lo!
= = = =
= = = Personagens Principais: = = = = = = =
Horace
O.
Mullon
— Homem
de trinta anos, chefe de um grupo revolucionário.
Walter
S.
Hollander
— Chefe
de outro grupo revolucionário.
Fraudy
Nicholson
— Bela
estudante.
Flagellan
— Comandante
da nave Adventurous.
O’Bannon
— Lutador
robusto.
Milligan
— Técnico
da nave.
1
O homem
abriu uma fresta da porta e lançou um olhar desconfiado para o lado
de fora.
— O que
deseja? — perguntou.
— Morte
aos tiranos — respondeu Mullon.
A senha
lhe parecia ridícula, mas ele a proferiu valentemente.
A porta
abriu-se mais um pouco, apenas o suficiente para que uma pessoa
adulta pudesse esgueirar-se pela mesma.
Mullon
penetrou na semi-escuridão da residência. O homem, que acabara de
abrir, trancou cuidadosamente a porta e, calcando um botão, acendeu
a luz do hall.
— É Mr.
Mullon? — perguntou. Mullon fez um gesto afirmativo.
— Pensávamos
que só viesse amanhã — disse o homem.
Mullon
voltou a fazer um gesto afirmativo e, enquanto isso, tirou a capa e a
pendurou num velho cabide.
— Viajei
num cargueiro que levava apenas alguns passageiros. O aparelho
realizou um vôo fora do horário. Por isso cheguei hoje.
O homem,
que recebera Mullon, abriu outra porta e levou-o a um recinto ainda
mais escuro que o hall.
No verão
faz muito calor em Tientsim. Ninguém suporta a temperatura entre
meio-dia e três horas, se não fechar cuidadosamente todas as
frestas pelas quais o ar quente possa penetrar.
Mullon
sentou. O outro — um chinês do sul, franzino e delicado — mexeu
num armariozinho e trouxe uísque, soda e gelo. O rosto de Mullon
iluminou-se.
— Excelente,
Huang! Estou morrendo de sede.
Huang
sorriu enquanto colocava os dois copos sobre a mesinha.
— Nós
também — respondeu. — Sinto sede de informações. Estamos
vivendo na sombra da metrópole, isolados do resto do mundo. Ao que
parece, os cinco democratas autênticos que existem em Tientsim não
são muito importantes, pois ninguém se dá ao trabalho de mantê-los
informados sobre os acontecimentos.
Mullon
sentiu a recriminação.
— A
coisa não deve demorar mais que seis ou oito semanas — respondeu.
— Passamos por uma confusão tremenda. É que o grande dia está
iminente.
Huang
levantou-se e arregalou os olhos.
— Será
possível? O senhor pretende...?
Mullon
ficou com o rosto muito sério.
— Exatamente.
Pretendo. Já chegou a hora de dar um jeito nesse homem arrogante que
acha que é o dono do mundo.
Huang
bateu palmas de tão satisfeito que ficou.
— Será
um dia de festa para todos os homens decentes do Império Solar! —
exclamou em tom entusiástico.
— Espero
que sim. Mas antes disso ainda teremos muito trabalho para fazer.
Aliás, eu mesmo apenas sou a vanguarda. Atrás de mim vêm uns vinte
homens, que o senhor terá de esconder em Tientsim e nos arredores.
Amanhã seguirei viagem para Terrânia. Avisá-lo-ei quando os vinte
homens estiverem para chegar. Acho que levaremos umas quatro a seis
semanas para preparar o grande golpe.
Huang
entusiasmou-se cada vez mais.
— Ainda
bem que temos um homem arrojado como o senhor na direção dos
democratas autênticos! — exclamou. — O que seria de nós...
Estava
sendo sincero, mas Mullon repeliu-o com um gesto.
— Qualquer
um teria feito a mesma coisa, Huang — interrompeu. — Apenas teria
de compreender que a democracia é a única forma de governo que
resguarda a dignidade do homem, e que esse homem que está em
Terrânia se tem revelado um ditador da pior espécie. É
exclusivamente ele que manipula todos os fios. Não admite que
ninguém se intrometa nos seus negócios; acredita que tem poderes
para resolver qualquer coisa em nome de cinco bilhões de seres
humanos.
— Depois
de termos compreendido isso, o caminho para a revolução já não é
muito longo.
— Na
costa ocidental dos Estados Unidos existem dezenas de milhares de
democratas autênticos. Em comparação com a grande massa dos
acomodados, não são muitos. Mas estão dispostos a arriscar tudo
para atingir o grande objetivo.
— Perry
Rhodan tem que morrer.
* * *
Na manhã
do dia seguinte, Horace O. Mullon seguiu viagem para Terrânia.
No lugar
em que ficava essa cidade, há setenta anos se estendia a imensidão
desolada do deserto de Gobi, junto a um lago salgado e quase
totalmente seco.
Não havia
mais o menor vestígio do deserto. A irrigação artificial havia
transformado o grande areal numa área de jardins viçosos.
Terrânia
era a sede da autoridade suprema do Império Solar, da administração
do planeta Terra. Era ali que residia o homem que Horace O. Mullon
pretendia matar: Perry Rhodan.
As telas
do foguete ofereciam, no momento do pouso, uma visão ampla da
gigantesca cidade. Mullon não se cansava de admirar sua beleza
moderna e seu traçado impecável.
Tinha
certeza de que haveria algum tipo de controle na chegada. Por isso
ficou espantado ao ver que todo mundo logo se dirigia aos
giroplanadores e entrou num desses. Seguiu o exemplo dos outros
passageiros e foi até o edifício da recepção. A bagagem de Mullon
já havia chegado por caminhos ignorados. Mullon não sabia o que
fazer com as malas enquanto não encontrasse hotel. Então seguiu uma
seta luminosa na qual se lia “guarda-volumes”.
Um tanto perplexo, olhou a fileira de guichês. De repente, uma voz
amável pediu:
— Aproxime-se,
Mr. Mullon, caso queira guardar sua bagagem.
Mullon
girou repentinamente sobre os calcanhares. Um homem, que pretendia
matar a autoridade de categoria mais elevada da Terra, só poderia
sentir-se chocado ao perceber que, pouco antes de atingir o objetivo,
uma pessoa totalmente estranha o chamava pelo nome verdadeiro.
Um homem
levantou-se atrás de um dos guichês. Em seu rosto havia um sorriso
amável.
— Ainda
não sei em que hotel encontrarei um aposento — disse. — Por isso
gostaria de deixar a bagagem aqui.
O homem
fez um gesto bonachão, comprimiu um botão de um aparelho parecido
com uma máquina de escrever e segurou a fita de plástico que saltou
da fenda.
— Seu
recibo, Mr. Mullon — disse, entregando a fita de plástico. — O
resto será providenciado automaticamente. Não se preocupe com nada.
Assim que tiver encontrado um hotel, coloque esta fita de plástico
em qualquer terminal do correio pneumático. Depois sua bagagem lhe
será entregue o mais depressa possível.
Mullon
segurou a fita de plástico e ficou com o queixo caído.
— Está
bem — murmurou. — Mas de onde o senhor me conhece?
O homem
mostrou um sorriso condescendente.
— O
equipamento eletrônico do aeroporto e os foguetes estacionados no
mesmo formam uma grande unidade cibernética — explicou. —
Qualquer coisa que a lista eletrônica de passageiros de seu foguete
sabe, ou já soube, eu também sei.
— Como?
Quer dizer que sabe o nome de todas as pessoas que chegam e partem?
— Naturalmente.
Minha memória é formada por cerca de um bilhão de células de
armazenamento, e cada célula é formada por quatro mil e noventa e
seis unidades, Mr. Mullon. Não sou nenhuma exceção. Todos os robôs
da classe C-4 são como eu.
— Todos
os robôs...! — fungou Mullon. Atrás dele, alguém soltou urna
risadinha. Mullon mal ouviu. Sentia-se ainda muito assustado pelo
fato de ter descoberto que o “ser”
era apenas um robô. E isto teria de causar espanto a um
revolucionário apaixonado, vindo de uma cidadezinha antiquada como
Seattle. Nesta só havia dois robôs fixos, cuidadosamente
identificados como caixotes automáticos incumbidos da emissão de
passagens no aeroporto.
O robô da
classe C-4 não se sentiu ofendido.
— Ele
não leva a mal — disse uma voz clara e amável, entremeada de um
ligeiro sorriso. — Já está acostumado.
Mullon
virou-se. Viu uma moça.
— Meu
Deus — suspirou. — Será que a senhora também é um robô?
— Não —
disse a moça com uma risada. — Mas eu me dou muito bem com eles.
Afinal, já moro alguns anos em Terrânia.
Ao
contemplar a moça, Mullon esqueceu-se do susto que o robô lhe
pregara. Recuperou a capacidade de raciocinar.
— Se é
assim, talvez a senhora possa me ajudar — disse, dando uma
expressão preocupada ao rosto. — Estou fazendo turismo por conta
própria. Não conto com o auxílio de qualquer agência de viagens.
Onde poderei hospedar-me nesta cidade?
A moça
deu de ombros.
— No
lugar que escolher. Depende do que o senhor queira gastar.
Mullon
sorriu.
— Será
que pareço muito rico? A moça avaliou-o com um olhar.
— Seria
difícil dizer. Acredito que o Flattner serviria para o senhor.
— É um
hotel?
— Perfeitamente.
Mullon fez
um rosto tímido.
A moça
lançou-lhe um olhar indagador.
— Bem —
principiou Mullon — não quero ser inoportuno. Caso não tenha nada
a fazer, será que poderia mostrar-me o caminho? Poderia pagar um
drinque para retribuir a amabilidade.
A moça
fez um gesto afirmativo.
— Pois
não — disse.
— Aliás,
meu nome é Mullon.
— Já
sei. O C-4 disse em voz alta. Meu nome é Nicholson. Fraudy
Nicholson.
* * *
Durante o
primeiro dia passado em Terrânia, Mullon não pensou muito na tarefa
que o fizera ir a essa cidade. Dedicou seu tempo a Fraudy Nicholson,
que amava de todo coração a cidade em que vivia e por isso era uma
ótima cicerone.
Só se
separaram pouco antes da meia-noite.
Combinaram
novo encontro para o dia seguinte. A bela moça já ocupava um lugar
no coração dele. A idéia de revê-la deixou Mullon feliz.
Sua
bagagem havia sido entregue de tarde. Para celebrar, pediu uma
garrafa de champanha. Só depois de esvaziá-la teve vontade de ir
para a cama.
* * *
Quando
despertou em meio à escuridão, ainda estava sob os efeitos do
álcool. Levou algum tempo para remexer a memória e descobrir em que
lugar se encontrava.
Sentiu-se
surpreso por ter acordado no meio da noite. Um pouco atrás do lugar
em que se encontrava viu os contornos fracamente iluminados da janela
que dava para o parque do hotel.
Ouviu um
ruído e ergueu-se abruptamente. Pôs a mão trêmula na gaveta da
mesinha-de-cabeceira, onde guardara a pistola.
Tateou
para encontrar a arma.
— Ai!
Não
adiantou mais. Sentiu uma picada dolorosa e, no mesmo instante, um
torpor indefinido espalhou-se por todo o corpo.
Com um
leve gemido, Mullon caiu para cima do travesseiro e perdeu a
consciência.
* * *
Quando
acordou de novo, já era dia.
A memória
foi voltando pouco a pouco. Só quando olhou para a
mesinha-de-cabeceira com o botão azul que abria a gaveta, conseguiu
reconstituir os acontecimentos.
“Alguém
esteve aqui. Isso mesmo. Tentei abrir a gaveta e tirar a pistola. Mas
antes que eu conseguisse fazê-lo, alguém me paralisou,
provavelmente com alguma toxina que ataca os nervos. Por quê?”,
pensou, reconstituindo a cena.
Saltou da
cama, cambaleou e bateu no armário. Teve de segurar-se para não
dobrar os joelhos. Os efeitos da toxina ainda não haviam cessado.
A gaveta
da mesinha-de-cabeceira estava fechada. Mullon lembrou-se de que
durante a noite não houve tempo para ter feito isso. O desconhecido
é quem cuidou de fechá-la.
“O
que teria ele procurado por ali?”,
indagou-se mentalmente.
Mullon foi
ao banheiro e deixou que o jato forte do chuveiro caísse sobre sua
cabeça. Depois conseguiu raciocinar melhor.
“O
que teria o desconhecido procurado em meu quarto?”,
voltou a indagar-se.
Era uma
pergunta ridícula. Alguém em Terrânia sabia quais eram as
intenções dele, Mullon. Por isso procuraram encontrar alguma prova
que pudesse justificar uma ordem de prisão. Penetraram no quarto e
revistaram a bagagem...
Mullon
abriu as malas, que não desfizera no dia seguinte. O conteúdo das
mesmas estava revolvido.
As malas
haviam sido revistadas!
Por um
instante, Mullon sentiu-se dominado pelo medo. Sabiam por que tinha
vindo a Terrânia. O Serviço Secreto estava informado sobre tudo.
Agora só
lhe restava fugir o quanto antes. A qualquer momento poderiam voltar
e prendê-lo.
Nem quis
perder tempo para lavar-se melhor. Vestiu-se apressadamente, e no
momento em que estava colocando a gravata, teve uma idéia. Por que
fugir? Tivera o cuidado de não deixar em sua bagagem qualquer prova
de suas intenções subversivas. O simples fato de terem revistado
sua mala provava que, por enquanto, não sabiam nada; apenas
suspeitavam dele.
Não
poderiam prendê-lo só porque suspeitavam dele. Se pudessem, não
adiantaria fugir. Em qualquer lugar do Império Solar onde se
encontrasse, poderia ser preso tão facilmente como ali. Afinal, os
domínios de Perry Rhodan não se limitavam a Terrânia.
O que
deveria fazer?
Ficar onde
estava.
Mullon
voltou a tirar a roupa e tomou um banho demorado. O resultado foi
surpreendente. Ao que parecia, a toxina tinha “medo”
dos vapores quentes. Quando Mullon saiu da banheira, os efeitos da
paralisia, que sofrerá durante a noite haviam desaparecido.
Enquanto
colocava a roupa pela segunda vez, lançou um olhar para o relógio.
Assustou-se ao perceber que faltava pouco para a uma hora. E
combinara almoçar com Fraudy à uma hora.
Acontece
que, sem saber o porquê, já não conseguia sentir o mesmo
entusiasmo do dia anterior. Durante a noite alguém lhe lembrara, de
forma um tanto desagradável, que não viera a Terrânia para
apaixonar-se por uma desconhecida.
2
Fraudy
assustou-se ao vê-lo.
— Meu
Deus, o que é isso?
Mullon
soltou uma risada forçada.
— Não
dormi muito bem — disse.
Sentaram e
fizeram o pedido. A conversa não se desenvolvia, bem ao contrário
do que acontecera na noite anterior. Mullon sentiu-se incomodado ao
notar que Fraudy o examinava às escondidas.
— Quer
saber de uma coisa? — perguntou de repente. — Alguém lhe aplicou
uma boa dose de cefeidina.
Mullon
estreitou os olhos.
— O quê?
— Aplicaram-lhe
uma dose de cefeidina. É uma toxina para os nervos, extraída de
plantas que só crescem nos planetas dos sóis pertencentes ao tipo
dos Delta-Cefei-Mutáveis. É uma substância traiçoeira. Um
milionésimo de grama da substância concentrada basta para paralisar
o sistema nervoso de um homem por alguns dias. Como foi que aplicaram
isso no senhor?
— Em
mim? — objetou Mullon. — Ninguém me aplicou isso. Nem sei no que
a senhora está falando.
Fraudy fez
um gesto; até parecia que não levava a sério a objeção de
Mullon.
— Sou
aluna de biologia galáctica na Academia de Terrânia, e a primeira
coisa que um estudante de biologia galáctica aprende é a
identificação das plantas traiçoeiras que existem em nossa
Galáxia. Poucas horas depois que a cefeidina é introduzida na
circulação, verifica-se uma coloração azulada do globo ocular. Dê
uma olhada no meu espelho.
Tirou o
espelho da bolsa e segurou-o à frente de Mullon. Este examinou seus
olhos, que reluziam num belo azul-celeste.
Mullon
percebeu que não adiantaria negar; acabou contando o que lhe
acontecera na noite anterior. Naturalmente Fraudy quis saber se
desconfiava de alguém, ou se podia imaginar por que alguém o
atacara. Mullon respondeu em tom convicto:
— Não.
Sou um simples turista vindo de uma das áreas mais atrasadas da
América. Vim para conhecer a maior cidade do mundo. Não quero fazer
mal a ninguém, e não posso imaginar o que alguém queria achar em
meu quarto. Quem sabe se me confundiram com outro?
— Quem
sabe? — respondeu Fraudy em tom pensativo.
Depois não
tocaram mais no assunto. Mas Mullon teve a impressão de que Fraudy
ainda refletia intensamente.
* * *
O dia não
foi tão recheado de entusiasmo como o anterior.
De
qualquer maneira, porém, foi um dia alegre. Mullon aproveitou a
oportunidade para conhecer tudo que fosse possível da grande cidade
e descobrir como poderia ser realizado o maior sonho de qualquer
turista: ver Perry Rhodan face a face.
Fraudy
disse:
— Quando
tem tempo, Rhodan sempre comparece aos grandes debates da Academia.
Pelo que sei, a entrada é franqueada a qualquer interessado. Tenho
certeza de que lá poderá vê-lo.
— Quando
será realizado o próximo debate? — perguntou Mullon.
— Pelo
que sei, daqui a uma semana, aproximadamente.
— Será
que Rhodan vai comparecer?
— Sem
dúvida, se estiver em Terrânia.
Mullon
mostrou-se interessado em saber quais seriam os temas tratados
durante os debates. Para seu espanto descobriu que sempre se debatiam
problemas de interesse geral.
— Via de
regra — disse Fraudy — trata-se da posição
da
Terra na Galáxia e dos diversos sistemas de governo. Para mim, os
grandes debates são uma das coisas mais interessantes que Terrânia
pode oferecer.
Mullon
sentia-se bastante surpreso. O fato de Perry andar em público sem o
menor constrangimento não se harmonizava com a imagem que fizera do
tirano.
Durante a
excursão pela cidade aproximaram-se da abóbada reluzente que
abrigava os principais edifícios administrativos e um pequeno
espaçoporto.
Fraudy
estacionou o carro, alugado por conta de Mullon, numa via circular
que corria junto à face externa da abóbada. De dentro do carro,
Mullon contemplou demoradamente a gigantesca figura que subia para o
azul ofuscante do céu, descrevendo uma curvatura que, naquela
altura, era quase imperceptível.
Para quem
olhasse diretamente a abóbada, a mesma era transparente. Não havia
nada que desse a impressão de que existia algum obstáculo entre o
lado da rua onde se encontrava e os edifícios que ficavam do outro
lado. Mas os raios de luz, que incidissem inclinadamente sobre a
abóbada, sofriam uma refração. Havia um ângulo-limite, acima do
qual se verificava a reflexão total. Dali em diante, a abóbada
tinha o aspecto de uma semi-esfera prateada.
Mullon
sabia que aquela figura singular consistia em energia. Era uma
barreira que negava acesso à parte mais importante da cidade, e de
todo Império Solar, a qualquer um que não dispusesse de alguma
espécie de salvo-conduto. Isto se aplicava tanto aos seres humanos,
como às bombas ou engenhos destrutivos.
Depois de
algum tempo Mullon e Fraudy desceram do carro. Havia muita gente
parada diante da parede reluzente. Algumas pessoas divertiam-se
colocando o dedo o mais próximo possível da barreira energética.
Fraudy e
Mullon juntaram-se ao grupo. Fraudy riu quando o dedo de Mullon
recuou assustado diante de um obstáculo invisível, que parecia ser
de borracha. Mullon fez mais algumas tentativas. Fraudy explicou que
o contato com a abóbada energética propriamente dita é mortal, e
que, face ao perigo, a mesma é protegida junto à rua por um campo
defensivo. Este campo defensivo era a coisa parecida com borracha que
Mullon acabara de tocar com o dedo.
Pela
primeira vez Mullon revelou parte de suas opiniões reais. Disse que
não era digno de um chefe de Estado democrático esconder-se atrás
de uma barreira mortal feita de energia.
Fraudy
assumiu uma atitude defensiva. Provou que Rhodan não tinha
necessidade de esconder-se de quem quer que fosse. A barreira
energética só servia para proteger os aparelhos preciosos e em
parte insubstituíveis que estavam instalados no bairro
administrativo.
Ao que
parecia, Fraudy entristeceu-se com as idéias de Mullon, e este fato,
por sua vez, entristeceu Mullon. Como é que ele, que era um
democrata autêntico, poderia realizar os sonhos arrojados que vinha
entretendo desde o dia anterior, passando o resto da vida ao lado de
uma mulher cujo coração estava dominado pelo entusiasmo que lhe
inspirava a forma de governo do Império Solar?
O ligeiro
desentendimento foi esquecido quando Fraudy e Mullon foram até o
espaçoporto, situado num local bastante afastado da cidade. Chegaram
bem na hora de assistir à decolagem de um dos gigantescos
transportadores PE.
PE
significava planetas exteriores.
Tratava-se
das colônias terranas das luas de Júpiter e Saturno e das estações
de pesquisa montadas nesses planetas. Até então Mullon só havia
visto decolagens desse tipo na tela. O gigante espacial era esférico
e atingia uma altura de trezentos metros. Os raios de corpúsculos
fortemente acelerados, que lhe conferiam o impulso para a decolagem,
desciam da zona equatorial da nave como se formassem uma cortina
ofuscante. Não se ouvia quase nada além do som cantante dos
propulsores e do farfalhar do ar deslocado.
— Ninguém
imaginaria que esta caixa pesada pousará em Júpiter dentro de
apenas trinta horas — murmurou Fraudy. — E olhe que não possui
sequer a versão mais simples da propulsão ultra luminosa.
De noite
Mullon manifestou o desejo de conhecer o lago de Goshun. Fraudy
levou-o até lá e deixou-se convencer a dar um passeio de barco.
Alugaram uma lancha por três horas e abasteceram-se para a ventura
com um jantar conservado em embalagem térmica.
Mullon
saiu lago afora até que a margem sul, da qual haviam partido,
mergulhasse embaixo da linha do horizonte, sob os raios do sol no
ocaso. Depois parou o motor e pegou os remos.
— Assim
é mais romântico — disse com um sorriso.
Fraudy
reclinou-se para trás e contemplou o céu escuro.
À sua
frente surgiu um grupo de ilhas iluminadas pela luz débil da noite.
Mullon dirigiu o barco para as mesmas. Escolheu a ilha que lhe
parecia mais bela e tomou a direção da mesma, para ali pôr os pés
na terra. Como estivesse avançando muito devagar, voltou a ligar o
motor. Naquele instante, surgiu uma lancha vinda do nordeste, que
parecia dirigir-se ao mesmo grupo de ilhas.
Fraudy
endireitou o corpo e olhou para a lancha.
— É
estranho — disse. — Quem será que resolveu passear tão longe?
Mullon não
viu nisso nada de extraordinário, mas Fraudy asseverou que ninguém
costuma afastar-se tanto da margem. Os barcos de aluguel geralmente
não se afastavam mais de dez quilômetros de sua base.
Afinal,
nós estamos aqui — objetou Mullon. — É bem possível que outra
pessoa tivesse a mesma idéia.
Fraudy
sacudiu a cabeça. O argumento de Mullon não lhe parecia muito
convincente.
— Antes
tivesse trazido um binóculo — disse.
Mullon
chegou antes dos desconhecidos à ilha. Numa manobra elegante fez a
lancha entrar profundamente na vegetação que cobria a margem,
ajudou Fraudy a descer, tirou o saco de mantimentos de baixo do banco
e abriu-o. A comida era excelente, e Mullon devorou sua porção com
um ótimo apetite. Teve de levantar-se para acender as luzes da
lancha, pois já escurecera por completo.
Fraudy não
conseguia livrar-se da desconfiança. Comeu pouco e olhava
constantemente para os lados. O outro barco continuava desaparecido.
Mullon
voltou a colocar seu barco na água e virou a popa de tal maneira que
poderia passar entre duas ilhas para alcançar as água mais
profundas do lago. Fraudy sugeriu que apagasse as luzes e remasse.
Mas Mullon limitou-se a rir, pôs a funcionar o motor a gasolina, um
tanto antiquado, e dirigiu o barco ruidoso para as duas ilhas
pequenas.
Sentada a
seu lado, Fraudy mantinha os olhos semicerrados. Estava à espreita,
como quem quer saltar para a água assim que surja qualquer sinal de
perigo. Mullon achou seu comportamento cada vez mais estranho.
“Por
que ela ficou com tanto medo pelo simples fato de ter visto um barco
desconhecido?”,
pensou.
Chegaram
às duas ilhas. Mullon teve de prestar atenção para fazer passar o
barco.
Inclinou-se
por cima da borda para sondar a profundidade da água.
No mesmo
instante, ouviu um zumbido. Mullon ergueu-se abruptamente e viu
Fraudy, que estava com os olhos arregalados, cair para o lado. Em sua
blusa de imitação de couro havia uma pequena seta com um penacho.
— Cuidado!
— balbuciou, reunindo as forças que lhe restavam. — Def...
No mesmo
instante, o barco bateu num obstáculo. Mullon, que se erguera
ligeiramente para procurar o inimigo invisível, foi atirado para
cima do assento. Sentiu que a embarcação girava em torno de seu
próprio eixo, e que, a cada volta completa, a hélice batia no
obstáculo.
Procurou
erguer-se para segurar o leme. Mas mal conseguiu levantar-se;
apoiando a mão no encosto do assento, sentiu na nuca a mesma picada
suave da noite anterior. A dor espalhou-se a partir do ponto de
impacto e mergulhou o corpo num torpor indefinido. Mullon ainda ouviu
que subitamente o motor aumentava a rotação. Depois o silêncio e a
escuridão espalharam-se em torno dele.
* * *
Já
conhecia a sensação que experimentou ao recuperar os sentidos.
Tinha a
impressão de que os olhos estavam inchados; esforçou-se para
abri-los. A luz que os atingiu era forte demais.
Mullon
forçou-se a manter as pálpebras abertas e olhou em volta. A
primeira coisa que viu, sem sentir, foi que estava sentado numa
cadeira, com as pernas e os braços amarrados à mesma.
A poucos
metros dele se achava Fraudy, também amarrada a uma cadeira. Ao que
parecia, ainda não recuperara os sentidos. Estava com a cabeça
caída sobre o ombro. Mullon sentiu-se aliviado ao ver que ela
respirava.
Virou a
cabeça o mais que a dor surda permitia: à sua esquerda viu, a uma
boa distância, uma gigantesca cortina escura que cobria uma parede.
Era ali que devia ficar a janela. Perto da cortina havia uma mesinha
rodeada por várias poltronas confortáveis. Numa das poltronas
estava sentado um homem com as pernas cruzadas; segurava um cigarro e
um radiador térmico.
O homem
fitou Mullon com um ar arrogante e levantou-se com um bocejo.
— Finalmente!
— murmurou. — É muito cansativo esperar por alguém que não
consegue abrir os olhos de fraqueza.
O homem
saiu rapidamente por uma porta que Mullon ainda não havia visto.
Mullon
esperou pacientemente, esforçando-se para dominar a dor que sentia
no crânio e nas juntas.
Não teve
de esperar muito. O guarda com a arma de radiações voltou em
companhia de outro homem. Este devia ter seus trinta anos —
aproximadamente a mesma idade de Mullon — e não havia a menor
dúvida de que era um branco.
O guarda
voltou à sua poltrona, enquanto o homenzinho se plantou à frente de
Mullon. Fitou o prisioneiro por algum tempo. Depois começou a falar
apressadamente e sem o menor intróito:
— O
senhor é Horace O. Mullon e vem de Seattle, distrito administrativo
da América do Norte. Chegou a Terrânia ontem de manhã. Em Seattle,
o senhor dirige a Associação dos Democratas Autênticos. Os
democratas autênticos pretendem derrubar o governo atual e instituir
um regime democrático. O senhor veio a Terrânia para assassinar
Rhodan. Confessa tudo isto, ou será que precisa de uma lavagem
cerebral?
Apesar das
dores o cérebro de Mullon trabalhava febril e impecavelmente.
“Quem
será este homem? Um agente do serviço de segurança? Dificilmente,
pois nesse caso seus asseclas não precisariam ter adotado um
procedimento tão traiçoeiro para prender-me; bastaria dar a ordem.
Mas quem será?”,
pensou.
Mullon não
chegou a qualquer conclusão. Mas ficou satisfeito em saber que não
havia caído nas mãos do serviço de segurança. Dessa forma, a
ameaça da lavagem cerebral não passaria de blefe. Só o serviço de
segurança dispunha dos instrumentos necessários à realização de
uma operação desse tipo.
— O
senhor está louco — respondeu Mullon em tom decidido. — Não sei
com quem está me confundindo. Exijo minha libertação imediata;
assim que conseguir sair daqui, tomarei providências para que o
senhor e seu bando não possam mais fazer mal a quem quer que seja.
Um sorriso
zombeteiro surgiu no rosto do homenzinho.
— Acha
mesmo que essa tática vai adiantar alguma coisa? Teríamos de ser
muito idiotas se fôssemos soltá-lo para que nos denunciasse.
“Estou
ganhando de um a zero”,
meditou Mullon. “Se
este homem está com medo de ser denunciado, não pode ser nenhum
agente da polícia secreta.”
— Seu
nome não é Mullon? — perguntou o homenzinho. — E não vem de
Seattle?
— É
claro
que meu nome é Mullon e que venho de Seattle! — esbravejou o
prisioneiro. — Mas nem mesmo num pesadelo me surgiu a idéia de
assassinar Rhodan.
O
homenzinho fez um gesto com a cabeça.
— Que
pena! — disse em voz baixa.
Mullon
arregalou os olhos de espanto. O movimento foi doloroso.
— É uma
pena? — repetiu.
O
homenzinho prosseguia no seu gesto.
— Sim, é
uma pena. Meu nome é Hollander. Já ouviu falar de mim?
Mullon
sacudiu a cabeça.
— Nunca.
Um sorriso
condescendente surgiu no rosto de Hollander.
— Como é
que alguém pode corrigir o mundo sem conhecer as outras pessoas que
lutam pelo mesmo objetivo? Já ouviu falar nos filósofos da
natureza?
— Já;
trata-se de uma seita que prega o retorno à natureza — disse
Mullon, dando mostras dos seus conhecimentos.
Hollander
sacudiu a cabeça.
— Vejo
que seus conhecimentos são um tanto deficientes. Os filósofos da
natureza somos nós. E não pregamos o retorno à natureza à maneira
do velho Rousseau. Acontece que aqui em Terrânia nosso objetivo é
idêntico ao seu. Será que já está disposto a abrir a boca?
Mullon
respondeu em tom de escárnio:
— Quer
saber de uma coisa, Mr. Hollander? Para enganar um homem como eu, o
senhor terá de inventar um truque melhor.
Ao que
parecia, Hollander não esperara outra coisa. Lançou um olhar sério
para Mullon e disse:
— Não
tenha receio! Podemos dar uma prova das nossas intenções. Espero
que, em compensação, o senhor compreenda que será um homem morto
se não quiser colaborar conosco depois de ter visto essa prova.
Mullon
confirmou com um gesto automático:
— Está
bem; pode começar.
* * *
Mais ou
menos ao mesmo tempo, no interior da gigantesca abóbada energética,
o grande conjunto positrônico, que constituía o centro de
computação da capital, expeliu em vermelho uma fita de informações.
A cor vermelha significava que o conteúdo da fita era extremamente
importante. Os resultados de computação emitidos nessa cor teriam
de ser apresentados imediatamente a Rhodan ou a seu representante.
Isso foi
feito automaticamente. Um seletor cromático registrou a cor da fita
e encaminhou a mesma ao canal competente. Dali a alguns segundos o
relatório se encontrava em mãos de Rhodan. Este atirou o mesmo no
decifrador e fez com que o escrito fosse projetado sobre a parede
oposta à sua escrivaninha.
O texto da
informação era o seguinte:
Atualmente
dois grupos rivais de pessoas insatisfeitas estão agindo em
Terrânia. Trata-se dos filósofos da natureza, que alugaram um
recinto num edifício comercial do centro da cidade, onde se encontra
um total de quinze pessoas, e da Associação dos Democratas
Autênticos, cuja sede principal fica na costa ocidental do
continente norte-americano. Seu chefe, Horace O. Mullon, veio a
Terrânia com a intenção de preparar o assassínio do
Administrador. Outros vinte homens dessa associação se encontram em
Tientsim, onde aguardam o momento de serem convocados para Terrânia.
Não
existe a menor dúvida de que os dois grupos têm um único objetivo:
a destruição da ordem vigente. Ainda não chegaram a um acordo
sobre os objetivos subseqüentes. Os motivos determinantes dos atos
dos filósofos da natureza e dos democratas autênticos são
conhecidos.
Já foram
tomadas precauções para proteger o Administrador e as instituições
do Império Solar. As informações serão fornecidas a intervalos
regulares através do mesmo canal. Fim.
Perry
Rhodan desligou o projetor e recostou-se confortavelmente na poltrona
articulada. Não dava mostras de ter-se impressionado com aquilo que
acabara de ouvir.
Depois de
algum tempo inclinou-se para a frente e comprimiu um dos botões do
painel comprido embutido em sua escrivaninha. O pequeno aparelho de
televisão, que se encontrava no centro da mesma, iluminou-se e
mostrou o rosto redondo de um homem, encimado por cabelos curtos cor
de ferrugem. O homem parecia ter um gênio bonachão, muito embora
naquele instante houvesse uma expressão sombria em seu rosto.
— Bom
dia, ministro — disse Rhodan. — Venha até aqui; tenho uma
novidade para você.
O homem
confirmou com um gesto. A tela apagou-se. Em compensação, dali a
dois minutos o original da imagem surgiu na porta do enorme gabinete
de Rhodan.
— Você
está correspondendo cada vez mais à imagem do seu cargo —
escarneceu Rhodan. — Todos acham que um ministro da segurança tem
de andar de cara fechada.
Bell, ou
melhor, Reginald Bell, velho companheiro de lutas de Rhodan, fez um
gesto de contrariedade.
— Acontece
que as notícias recebidas não são
muito
agradáveis — respondeu.
— Sente
e explique seus planos — disse Rhodan.
Bell
sentou e fez um gesto grandioso:
— Vamos
esperar, pegá-los no momento oportuno, submetê-los a uma lavagem
cerebral para descobrir os nomes de todos os adeptos, levá-los a
juízo, obter sua condenação, e só.
Ao que
parecia, Rhodan concordou com a sugestão.
— Qual
deverá ser a sentença da Justiça?
Bell fez
um gesto de dúvida.
— Prisão,
trabalhos forçados...
— Nada
disso.
Bell fez
um gesto de surpresa.
— Então
você quer ditar aos juizes a sentença que devem proferir?
Rhodan
sacudiu a cabeça.
— O
Governo apresentará um projeto de lei ao Conselho Solar. Este
aprovará o projeto sem a menor demora, já que o mesmo realmente
preenche uma lacuna do direito penal. E quando isso acontecer, haverá
mais uma pena no Império Solar, pena esta que será aplicável
principalmente aos membros das sociedades secretas, revolucionários
e outros tipos semelhantes.
— Que
pena será esta?
Um sorriso
condescendente surgiu no rosto de Rhodan.
— Já se
esqueceu, Bell? Faz pouco tempo que conversamos sobre isto.
3
Mullon
obteve a prova.
Conhecia
de nome certas pessoas das quais se dizia que eram filósofos da
natureza. Nunca se interessara por eles porque, desde que soubera do
surgimento da seita dos filósofos da natureza, achara que se tratava
de um estranho ajuntamento de idiotas. Mas agora estes nomes se
revelaram muito úteis.
Um dos
homens que Mullon conhecia morava em Portland, Oregon. Hollander
estabeleceu uma ligação videofônica. Ao que parecia o homem de
Oregon, chamado Pattem, logo reconheceu o chefe. Na oportunidade,
falou sobre os objetivos dos filósofos da natureza. Disse tudo que
poderia revelar através do videofone.
Mullon,
que já estava quase convencido, lembrou-se de outro nome. Pediu
ligação com este nome e fez a mesma experiência. Uma vez que
achava impossível que esses homens tivessem sido informados
antecipadamente por Hollander, acabou confessando:
— Está
bem. Parece que nossos objetivos são os mesmos. E agora?
Hollander
sorriu. Em seu rosto havia uma expressão misteriosa. Apontou para o
lugar em que se encontrava Fraudy. A moça já recuperara a
consciência. Fora desamarrada, mas um guarda mantinha a arma de
radiações apontada para ela. Sentada na cadeira, acompanhava parte
da conversa, especialmente as duas palestras mantidas pelo videofone.
— E a
moça? — perguntou Hollander. — Não seria preferível levá-la a
outro lugar?
Mullon
respondeu:
— Por
que não deixa Fraudy fora disso e a manda embora? Tenho certeza
absoluta de que não nos prejudicará.
Hollander
não concordou. Ao responder, sua voz revelou o cinismo que parecia
ser parte de seu caráter.
— Um bom
revolucionário não enfia a cabeça no laço. Leve-a pra fora, Loy.
O guarda
saiu em companhia de Fraudy. Mullon procurou animá-la com um gesto
de cabeça, mas a moça nem olhou para ele.
— Vamos
ao que importa — disse Hollander. — Para as coisas que hão de
vir depois da revolução importa muito quem tenha dado o primeiro
golpe. Aquele que matar Rhodan dará as cartas no jogo que se seguirá
depois. Os filósofos da natureza não querem deixar passar esta
oportunidade. O senhor há de convir que aqui em Terrânia ocupamos
uma posição mais favorável que seu grupo. Quer dizer que o senhor
se comportará muito bem e ficará assistindo de longe quando
liquidarmos Rhodan, não é?”
Um sorriso
débil surgiu no rosto de Mullon, que não disfarçou a repugnância
que as palavras de Hollander lhe causavam.
— Quer
dizer que o primeiro grupo que o assassinar vale mais, não é? —
perguntou.
— Não
me consta que a Associação dos Democratas Autênticos faça questão
de eliminar sozinha o regime vigente. De qualquer maneira, não temos
o menor interesse em carregar toda a responsabilidade pelo
assassínio. Estamos dispostos a aceitar qualquer tipo de
colaboração.
— Acontece
que, pelo que acaba de insinuar, até parece que os senhores estão
interessados em enfeixar a maior soma possível de poderes depois da
consumação do golpe. E os democratas autênticos de forma alguma
podem concordar com essa pretensão. Sua idéia é inexeqüível;
continuaremos no jogo.
Hollander
sorriu.
— Será
mesmo? — respondeu tranqüilamente. — Estou em condições de
obrigá-lo a fazer o que eu quiser. O senhor...
Mullon
interrompeu-o com um gesto violento.
— Deixe
de falar bobagem, Hollander. Mantenho contato ininterrupto com os
homens de meu grupo que estão em Tientsim, e estes por sua vez
permanecem em contato com a associação na América. Não há dúvida
de que poderá matar-me se quiser. Mas justamente por sermos
democratas autênticos meu lugar seria ocupado imediatamente por
outra pessoa. Assim que meus contatos com Tientsim forem
interrompidos, a pessoa que for culpada disso provavelmente só terá
poucas horas de vida.
Mullon,
que já recuperara seu ar de superioridade, riu no rosto perturbado
de Hollander e prosseguiu:
— Se não
gostasse de viver, não lhe teria contado isto, Hollander. Neste
caso, o senhor me teria matado, e dentro de pouco tempo teria chegado
a última hora do senhor e de seus filósofos da natureza. Bonito,
não acha? Mas é como acabo de dizer: gosto de viver. Pense em algo
mais inteligente, homem. E não se esqueça: um democrata autêntico
não se deixa intimidar com ameaças tolas.
* * *
A maneira
pela qual Hollander acabou cedendo recomendava o máximo de
prudência. Mullon resolveu ficar com os olhos bem abertos.
Entre os
dez homens que Mullon conhecera durante os contatos que haviam durado
várias horas, o único elemento perigoso, na opinião de Mullon, era
justamente Hollander, por causa de sua inteligência. Os outros davam
a impressão de serem indivíduos medíocres. Hollander exercia um
controle perfeito sobre eles.
Uma coisa
que surpreendeu Mullon foi o fato de Hollander ser um oficial da
polícia de Terrânia. O posto não era muito importante, mas
permitia que Hollander e, com ele, a seita dos filósofos da
natureza, tivessem acesso a muitos lugares que qualquer outra pessoa
dificilmente conseguiria atingir.
Uma vez
terminadas as discussões. Mullon viu-se diante de um problema que
acabou sendo o mais difícil de todos, especialmente porque o próprio
Mullon tinha muito medo de sua solução.
O problema
se chamava Fraudy Nicholson.
Como
explicar-lhe quais eram os objetivos dos democratas autênticos? Será
que ela iria dizer que não queria saber mais de Mullon antes que ele
tivesse tempo de proferir uma única palavra?
Num súbito
acesso de valentia, Mullon resolveu procurar a resposta a estas e
outras perguntas num contato pessoal com Fraudy.
Hollander
não teve nenhuma objeção.
Mullon
visitou Fraudy na sala de uma única janela, muito pequena, em que
fora abrigada. Mandou que o guarda se afastasse da porta. E começou
a falar e a explicar. Por estranho que parecesse, Fraudy não o
interrompeu, mas ouviu-o com a maior atenção. De início parecia
desconfiada; depois assumiu atitudes cada vez mais objetivas e por
fim disse, deixando-o surpreso:
— Seus
motivos são válidos, Mr. Mullon. Quase chegaria a dizer que são
nobres. Apenas, os pressupostos em que se fundam são falsos.
Mullon
sentiu-se perplexo. Mas logo passou a desenvolver a loquacidade de
que dera tantas provas durante os debates prolongados em que se
envolvera. Explicou a Fraudy os motivos dos democratas autênticos.
Depois de algum tempo, a moça sacudiu a cabeça e disse:
— Estou
com a cuca fundida, Mr. Mullon. Acho que preciso digerir tudo isso.
Parece que o senhor está com a razão, mas acho que não vai exigir
que eu concorde imediatamente.
Mullon não
fez questão. De qualquer maneira, conseguira muito mais do que
ousara esperar.
Hollander
permitiu que a prisioneira almoçasse em companhia de Mullon. Fraudy
demonstrou um ótimo apetite. Antes disso, havia tomado um banho
quente numa das salas que externamente mantinha o disfarce de
escritório, mas por dentro era uma verdadeira residência, com
exceção de uma sala de apresentação. Assim, os efeitos da
cefeidina desapareceram, ficando apenas a cor azul dos globos
oculares.
— Por
falar em cefeidina — disse durante o almoço. — Foram os
filósofos da natureza que visitaram o senhor no hotel?
Mullon fez
um gesto afirmativo.
— Como
ficaram sabendo que o senhor estava aqui para... bem, para matar
Rhodan?
Mullon deu
de ombros.
— Não
tenho a menor idéia. Devem ter um ótimo corpo de agentes.
— Onde
foi que Hollander arranjou a cefeidina? — perguntou Fraudy. —
Pelo que sei, essa substância não está à venda.
Mullon não
sabia. Respondeu:
— Hollander
é oficial da polícia de Terrânia. Por isso tem...
O garfo de
Fraudy caiu ruidosamente sobre o prato. Mullon fitou-a surpreso.
— Oficial
da polícia? — disse, falando com dificuldade.
Mullon fez
um gesto afirmativo.
— Isso
mesmo. Por que está tão surpresa?
Fraudy
voltou a segurar o garfo.
— Bem —
disse em tom indiferente — não é muito comum um oficial da
polícia juntar-se aos revolucionários.
Mullon
confirmou a assertiva de Fraudy. No entanto, a reação um tanto
violenta da mesma deixou-o desconfiado.
— Neste
caso já posso imaginar onde arranjou a cefeidina — prosseguiu a
moça depois de algum tempo em tom indiferente. — É claro que um
oficial da polícia tem livre acesso à academia e a outros edifícios
situados no interior da abóbada protetora. E na academia existem
verdadeiras culturas de cefeidina.
Com isso,
o assunto parecia encerrado para a moça. Mas dali a alguns minutos
perguntou subitamente:
— Como
consegue aplicar o veneno? Aproxima-se sorrateiramente e enfia a
agulha na carne da vítima?
Mullon
riu.
— Não.
Seus homens utilizam verdadeiras zarabatanas com pequenas setas
providas de penacho. Que nem os indígenas da América do Sul.
— Ah! —
fez Fraudy.
Esvaziou o
prato sem dizer mais uma palavra. Subitamente voltou a falar:
— Resolvi
ficar com o senhor e juntar-me aos revolucionários, se não tiver
nenhuma objeção.
Mullon
ergueu-se de um salto.
— Realmente...
quer?
Fraudy fez
que sim.
— Só
quero ressalvar uma coisa, para que o senhor não se entregue a
esperanças vãs. Seus argumentos não me convenceram por completo.
Portanto, não sou nenhuma democrática autêntica ou filósofa da
natureza. Acredito nas raízes mais profundas das coisas.
Mullon
sentiu-se perplexo.
— Está
certo; mas por quê? — gaguejou.
Fraudy
inclinou-se para a frente e disse:
— Porque
gosto do senhor, seu bobinho!
* * *
Os
acontecimentos passaram a evoluir muito depressa.
Hollander
aprovou o plano de Mullon, que pretendia matar Perry Rhodan a tiros,
durante uma discussão na Academia. Era muito simples: Mullon e um
dos filósofos da natureza seriam os atiradores. Os outros elementos
dos grupos de Mullon e Hollander lhes dariam cobertura, para
protegê-los contra a fúria do público que estaria assistindo aos
debates.
Mullon
transmitiu a notícia para Tientsim e pediu que seus homens viessem
para Terrânia.
No mesmo
dia um filósofo da natureza teve conhecimento de que o próximo
debate, que versaria sobre o tema “As
Possibilidades da Cooperação da Terra com os Grandes Impérios da
Galáxia”,
seria realizado já na próxima sexta-feira, e que Rhodan concordara
em participar do mesmo.
Assim que
chegaram a Terrânia, os homens de Mullon foram informados às
pressas sobre suas tarefas. Mullon percebeu que sentiam a mesma
aversão pelos filósofos da natureza que ele.
Mas não
era este o momento de perturbarem-se com isso.
* * *
Uma fita
vermelha informou Rhodan prontamente sobre a chegada dos vinte
democratas autênticos. Ainda foi inteirado sobre todos os detalhes
dos planos elaborados sobre Hollander e Mullon e tomou suas
precauções.
O projeto
de reforma da legislação penal foi aprovado pelo Conselho Solar e
transmitido ao Supremo Tribunal do Império.
O serviço
secreto de Reginald Bell foi avisado de que deveria manter-se de
prontidão. E isso se aplicava não só aos agentes de Terrânia, mas
aos de todo planeta.
* * *
Mullon
procurou analisar a sensação que se apossou dele quando atravessou
a abóbada energética e dirigia-se ao setor central da cidade. Aí
foi atingido por um verdadeiro torvelinho de gente, que o arrastou
para os edifícios brancos da Academia, que ficavam a poucas centenas
de metros da periferia da abóbada energética.
Fraudy
caminhava valentemente a seu lado, com uma expressão de obstinação
no rosto. À esquerda de Fraudy ia Feable, um filósofo da natureza
que assumira o “cargo”
de segundo-assassino.
Carregavam
as armas em coldres presos ao ombro. Eram pistolas térmicas
arranjadas por Hollander.
Os outros
trinta e quatro homens — quatorze filósofos da natureza e vinte
democratas autênticos — haviam-se misturado à multidão.
A grande
sala de debates da Academia, que tinha lugar para cerca de oitocentas
pessoas, estava ocupada até as últimas fileiras.
Mullon e
Feable acomodaram-se na quarta fileira. Fraudy estava sentada na
quinta fileira, bem atrás de Mullon. Este escolhera o lugar para
ela, pois não queria que, em caso de fracasso, alguém ligasse
Fraudy aos autores do atentado.
A sessão
teve início às quinze horas, com uma exposição de um alto oficial
da Frota, que serviria de base aos debates.
Rhodan
ainda não havia chegado.
Mullon
olhou uma única vez para seu comparsa Feable. Este parecia ter
aguardado o olhar. Retribuiu-o com um sorriso.
A
exposição terminou às quinze horas e quarenta minutos. O orador
colheu os aplausos, fez uma mesura e sentou na primeira fila.
A tensão
de Mullon cresceu ao infinito. Rhodan deveria aparecer a qualquer
momento.
Às quinze
horas e quarenta e cinco minutos a grande entrada principal abriu-se
e vários homens entraram. Rhodan não era o mais alto deles, mas era
o que causava uma impressão mais forte. Os vivas soaram em torno de
Mullon. Muitas pessoas ficaram tão impressionadas que se levantaram
e esperaram de pé até que Rhodan, que cumprimentava amavelmente,
embora com gestos ligeiros, tivesse ocupado seu lugar na primeira
fila.
Viu Rhodan
apertar a mão do primeiro-tenente que fizera a exposição.
Por um
instante, ficou perplexo com a despreocupação com que Rhodan se
movia em meio a tanta gente. Seria este o tirano de que falavam os
democratas autênticos e os filósofos da natureza?
No momento
em que Rhodan se levantou e foi à tribuna, Mullon varreu de sua
mente esses pensamentos vãos. Novos aplausos soaram, mas Rhodan os
fez cessar com um gesto amável.
— Fico
satisfeito em notar que tanta gente compareceu para participar dos
debates — disse numa voz agradável e profunda, que o sistema de
alto-falantes invisíveis transmitiu para todos os recantos da sala.
“Todos
já conhecem a situação da Terra e do Império Solar. Os detalhes
que por ventura estavam lhes faltando, já foram fornecidos na
exposição que acabaram de ouvir.”
Mullon
lançou mais um olhar para Feable. Este escondera a mão direita sob
a jaqueta. Não dava a menor atenção a Mullon. Este passou a mão
pelo cabelo e, como se depois disso não soubesse o que fazer,
enfiou-a embaixo da blusa.
Ali estava
a coronha da arma. Dava uma sensação fria, apesar do suor que
escorria pelos braços de Mullon.
Nesse
instante, Rhodan disse:
— Nossa
situação não é difícil, já que todas as raças com as quais
poderemos ter de entrar em contato são humanóides. As raças
não-humanóides, embora mais numerosas, seriam inofensivas como
inimigos e inúteis como aliados. Isto aplica-se aos setores da
Galáxia que já conhecemos. É claro que nada podemos dizer sobre
aquilo que fica além desses setores.
Mullon viu
Feable adiantar lentamente o corpo, como se quisesse cochichar alguma
coisa ao ouvido do homem que estava sentado à sua frente. Mullon fez
a mesma coisa. No mesmo instante em que Feable se ergueu, também ele
levantou-se.
Ao que
parecia, Rhodan não estava percebendo nada.
Com uma
agilidade inacreditável, Feable tirou o radiador térmico. Mullon,
que não estava tão bem treinado, levou mais uma fração de
segundo. Só conseguiu levantar a arma quando a primeira salva
energética saiu chiando em direção ao homem que se encontrava na
tribuna.
Mas o
disparo de Mullon veio logo atrás, e a pontaria foi tão boa quanto
a da salva disparada por Feable.
Os
impactos sucessivos silenciaram Rhodan.
Mullon viu
que em cima da tribuna alguma coisa se desmanchou numa explosão
ofuscante. Peças incandescentes voavam para todos os lados, caíam
entre a multidão e puseram em movimento as massas até então
paralisadas de susto. Ouviram-se gritos estridentes, as pisadas
ressoaram através da sala e a ordem transformou-se num caos.
Ninguém
se lembrou de molestar os autores do atentado.
Ninguém,
a não ser Mullon, viu o que estava acontecendo na tribuna.
De Rhodan
sobrava apenas uma massa
fumegante. Uma
das peças incandescentes que a explosão arremessara para longe
caíra a menos de dois metros de Mullon, atingindo um homem que
gritava e se contorcia no chão.
Mullon deu
um salto por cima das mesas, afastou as pessoas que corriam em pânico
e avançou para junto do homem que se contorcia.
Não se
interessava pelo homem. Queria saber de que era feita a peça
incandescente. A mesma fizera um buraco no chão coberto de ladrilhos
de plástico. Mullon viu o que era: uma peça feita de chapa
metálica.
Ergueu-se
e olhou para a frente. Atrás da tribuna, o quadro permanecia: furos
queimados no chão e peças metálicas fumegantes.
“Onde
estaria Rhodan?”,
pensou agitado.
Não fora
Rhodan. Fora apenas um robô.
Por um
instante Mullon perdeu a capacidade de raciocinar. Continuava de pé,
com o radiador na mão, e estava sendo empurrado pelas pessoas que
queriam passar.
Alguém
parecia cair em cima dele.
— Vamos
embora! — chiou uma voz conhecida. — A polícia!
Mullon
olhou para cima. Fraudy passara por cima das fileiras de mesas. Uma
vez que o chão apresentava um forte declive em direção da tribuna,
estava quase pendurada em seus ombros.
Mullon
olhou em torno. Um grupo de pessoas uniformizadas penetrava pela
entrada principal. O primeiro-tenente que fizera a exposição
preliminar foi ao encontro dos policiais e apontou para a multidão
que, fugindo, entupia as saídas.
Mullon
olhou para o lado. Feable havia desaparecido; também não descobriu
o menor vestígio dos outros vinte e três membros do grupo.
Fraudy
puxou-o pelo braço. Mullon não resistiu. Suas pernas moviam-se
automaticamente. A jovem sempre parecia encontrar uma passagem em
meio à multidão que se comprimia.
Mullon viu
que os policiais surgiam também nas entradas superiores. Apontou
para lá sem dizer uma palavra, mas ela limitou-se a sacudir a
cabeça.
Sem dar a
menor atenção às pessoas que se interpunham em seu caminho,
arrastou Mullon para um corredor do lado direito. No lugar exato em
que o corredor dobrava para a esquerda, em direção à saída, havia
uma porta.
Fraudy
abriu a porta, empurrou Mullon pela mesma e voltou a fechá-la.
— Vamos
adiante! — fungou.
O corredor
que terminava naquela porta estava profusamente iluminado. Mullon
correu, e Fraudy seguiu-o com passos ruidosos.
— Onde
sairemos? — perguntou Mullon.
— Num
depósito que dá para a galeria principal — gritou Fraudy.
Mullon
continuou a correr. Trinta metros depois, o corredor chegou ao fim. A
porta existente ali estava trancada.
Mas Fraudy
possuía a chave. Abriu-a e deixou que Mullon entrasse antes dela.
Mullon viu-se num recinto amplo, cheio de aparelhos.
Mullon não
se interessava pelos aparelhos. Interessava-se pelos seis homens que
se haviam postado em semicírculo junto à porta.
Mantinham
as armas na mão; tudo indicava que estavam esperando por Mullon.
Este já voltara a guardar o radiador térmico no coldre.
Fraudy
manteve a cabeça abaixada.
Mullon
ouviu uma voz que parecia vir de longe.
— Infelizmente
temos de importuná-lo, Mr. Mullon. Acontece que, se não o
fizéssemos, o senhor nos causaria problemas. E não queremos que
isso aconteça, não é mesmo?
Mullon
fitou o homem que acabara de falar. Viu-o erguer a estranha arma,
cujo cano parecia um funil. Não fez o menor gesto de defesa quando o
dedo junto ao gatilho se curvou.
Sentiu-se
atingido por um golpe, e perdeu a consciência.
4
A primeira
coisa que Mullon sentiu foi a decepção mais profunda já
experimentada em toda a vida.
Ainda não
sabia por que se achava tão decepcionado; sentia-se inutilizado,
arrasado e abandonado.
Abriu os
olhos e viu-se num leito bastante confortável, no interior de uma
espécie de cela. As paredes eram nuas. Embaixo do teto corria um
único tubo de luz fluorescente, não embutido. Havia uma única
porta, e até parecia que a mesma só poderia ser aberta a tiro de
canhão.
“O
que acontecera? Aqueles homens!”,
pensou subitamente Mullon nos seis homens uniformizados que o
aguardavam atrás da porta. Um deles o havia atingido com uma arma em
forma de funil.
Todos
usavam uniformes de policiais. Estavam subordinados a Rhodan.
Rhodan —
o atentado — o robô que explodiu. De repente Mullon lembrou-se de
tudo.
E Fraudy!
Fraudy o
traíra. Fraudy o atraíra para o corredor, no fim do qual os seis
policiais o aguardavam.
Foi mesmo
assim?
Mullon
recordou-se que Fraudy não se atrevera mais a encará-lo, quando
olhou para trás.
Isso não
provava tudo?
Fraudy era
uma agente de Rhodan!
Algum
tempo se passou. Mullon não sabia se foram minutos ou horas.
Finalmente a porta metálica abriu-se, um policial entrou, fez um
sinal para Mullon e disse:
— Estão
esperando o senhor. Venha comigo.
Mullon
obedeceu.
Caminhou
cabisbaixo por um corredor.
Subitamente
sentiu-se levantado, ao ser atingido pelo campo antigravitacional do
elevador.
O policial
vinha atrás dele. Mullon viu as manchas brancas das desembocaduras
dos corredores passarem por ele. Finalmente o campo antigravitacional
o lançou para fora do poço e o deixou em chão firme. O policial
disse:
— Para a
direita, Mr. Mullon.
Mullon
caminhou para a direita. Parou quando uma porta se abriu à sua
frente.
— Entre!
Entrou e
sentiu um choque. A sala, que surgiu à sua frente, era de tamanho
médio e possuía poucos móveis.
A maior
peça era uma escrivaninha com um grande painel.
Atrás da
escrivaninha, estava sentado o homem contra o qual Mullon apontara o
radiador térmico poucas horas antes.
Perry
Rhodan!
Rhodan
fitou-o tranqüilamente.
— Faça
o favor de sentar, Mr. Mullon — disse. — Muito obrigado,
sargento.
Mullon
ouviu a batida dos calcanhares do sargento e o ruído de uma
impecável meia-volta. A porta fechou-se com um zumbido.
— Seu
golpe fracassou, Mr. Mullon — disse Rhodan. — A audiência do
processo instaurado contra o senhor e seus cúmplices perante o
Supremo Tribunal do Império Solar será realizada amanhã de tarde.
Vai ser muito rápida, pois os fatos são perfeitamente claros,
inclusive a história dos dois movimentos revolucionários que
participaram do atentado. Sabe qual é o castigo que o espera?
Mullon
resolvera manter-se em silêncio. Não tinha nada a dizer a esse
homem.
Porém
alguma coisa obrigou-o a responder.
— Trabalhos
forçados — disse em tom contrariado, sem olhar para Rhodan.
— Não —
respondeu Rhodan. — Não acredito que chegue a este ponto.
Mullon
fitou-o surpreso; mas, ao que parecia, Rhodan não estava interessado
em prosseguir no assunto.
— Tivemos
conhecimento do atentado desde o estágio dos planos preliminares —
disse. — Um agente especial cuidou para que, em Terrânia, o senhor
não desse um passo sem ser vigiado.
Mullon
acenou com a cabeça.
— Sei;
foi Fraudy — disse com a voz abatida.
— Isso
mesmo; foi Miss Nicholson — confirmou Rhodan. — Pessoalmente
lamento que tenham surgido certos sentimentos íntimos que, segundo
estou informado, não deixaram de afetar Miss Nicholson. O trabalho
por ela realizado é merecedor de elogios.
Mullon
perdeu o autodomínio. Levantou-se de um salto, deu um ou dois passos
em direção à escrivaninha e exclamou em tom furioso:
— Merecedor
de elogios. Que trabalho?! O trabalho de enganar um grupo de homens
preocupados com a Terra e a Humanidade, entregando-o ao tirano? O
senhor acha mesmo que isso é um trabalho que merece elogios?
Rhodan
ouviu-o tranqüilamente. Esperou até que Mullon fizesse uma pausa e
disse:
— O que
menos consigo compreender, de todas as coisas que os democratas
autênticos e os filósofos da natureza proclamam, é isto: por que
acham que sou um tirano? — lançou um olhar prolongado para Mullon
e prosseguiu: — O povo não elege seus representantes? E as leis
não são feitas por um corpo regularmente eleito?
— São!
— disse Mullon em tom exaltado. — Por um corpo que pode ser
dissolvido desde que o senhor determine.
Rhodan
sorriu e sacudiu a cabeça.
— Não
acredite numa coisa dessas, Mr. Mullon — disse. — Tenho a
impressão de que os membros de seu grupo e os filósofos da natureza
se interessaram muito pouco pela realidade. Construíram uma imagem
distorcida das coisas.
Rhodan,
que também se havia levantado, saiu de trás da mesa.
— Sob o
ponto de vista objetivo suas idéias e as dos filósofos da natureza
não passam de fantasias, Mr. Mullon. Na situação atual, a Terra
não se pode dar ao luxo de entreter fantasias. Por isso devemos
remover de vez o perigo representado pelas duas organizações
revolucionárias.
— Acho
que isso não será muito fácil — disse Mullon em tom irônico.
— Não
será mesmo? Não se esqueça de que há alguns decênios a lei
permite que a polícia utilize o interrogatório psicológico. Neste
instante, cerca de vinte mil democratas autênticos e cinco mil
filósofos da natureza aguardam a decisão da Justiça. Aquilo que
não conseguimos saber do senhor, os outros nos revelaram, e o que
estes não
sabiam,
foi revelado pelas pessoas que prendemos posteriormente, com base nas
informações iniciais. Não acredito que neste momento exista um
democrata autêntico ou filósofo da natureza ainda em liberdade.
Mullon
arregalou os olhos.
— Quer
dizer que fui submetido a uma lavagem cerebral? — fungou.
Rhodan fez
um gesto afirmativo.
— Isso
mesmo. Submetemos o senhor a uma lavagem cerebral. Posso garantir-lhe
que o tratamento não produz o menor dano físico ou psíquico.
Apenas menciono o fato para deixar claro que as utopias dos
democratas autênticos e dos filósofos da natureza chegaram ao fim.
Pode retirar-se, Mr. Mullon.
Mullon
saiu cambaleante em direção à porta. O policial que o trouxera
voltou a encarregar-se dele. Quando já se encontrava no corredor,
Mullon voltou a ouvir a voz de Rhodan:
— Não
se esqueça, Mr. Mullon, de que a Terra é um astro pequeno, situado
na periferia da grande Galáxia. Mais da metade da Galáxia é
dominada pelo grande Império dos Arcônidas e por seus aliados, os
saltadores. Durante mais de cinqüenta anos conseguimos esconder-nos
dos arcônidas e dos saltadores, pois não estávamos em condições
de defender-nos contra a sede de poder dos mesmos.
“Acontece
que há poucos dias acharam nossa pista. Não se passará muito tempo
até que consigam nos localizar com certeza. Quando isso acontecer,
não tirarão mais os olhos de nós. Mullon, o que está em jogo é a
Humanidade, sua liberdade ou sua escravização. Acredita realmente
que, numa situação como esta, ainda poderíamos dar-nos ao luxo de
assistir a espetáculos como o que os democratas autênticos e os
filósofos da natureza pretendem encenar?”
* * *
O processo
foi rápido.
As
infrações de que os réus eram acusados estavam armazenadas no
centro positrônico de computação. A sentença resultou do simples
confronto entre os fatos não contestados incluídos na acusação e
a conceituação legal das infrações. Naquela tarde, foram
proferidas vinte e cinco mil sentenças.
As
conclusões dessas sentenças eram inatacáveis.
O que mais
surpreendeu foi o fato de dezesseis mil, dos vinte mil democratas
autênticos, e mil, dos cinco mil filósofos da natureza, ficarem
isentos de pena, porque sua participação no crime era de somenos
importância. Face aos dados processados pelo centro positrônico, o
Tribunal chegou à conclusão de que as pessoas isentas de pena eram
simples asseclas, que não representariam mais qualquer perigo, desde
que os chefes tivessem sido afastados.
Com isso,
o número das condenações baixou para oito mil.
O
observador atento não deixaria de notar que, evidentemente, a seita
dos filósofos da natureza fora a mais ativa das duas organizações,
já que entre eles só vinte por cento foram considerados simples
asseclas, enquanto entre os democratas autênticos a proporção
chegava a oitenta por cento.
A sentença
foi lida pelo Presidente do Tribunal, de forma completamente
inusitada. Antes de mais nada, o Presidente ofereceu um resumo das
reformas pelas quais o direito penal havia passado desde a união de
todas as nações terranas. Reforma esta que se tornara necessária
face à ampliação da esfera de influência do homem sobre o espaço.
Concluiu da seguinte forma:
— A
reforma do direito penal tornou-se um processo gradual, que foi
adaptando este setor do direito às exigências do ambiente. Este
processo ainda não chegou ao fim. Acontece, porém, que por uma
resolução do Conselho Solar, adotada há poucos dias, e que aprovou
uma lei aplicável aos rebeldes, conspiradores e elementos associais,
deu mais um passo para a frente. A sentença que pronuncio em nome da
Humanidade é a seguinte:
“A
deportação da Terra, a perda da cidadania terrana e a proibição
vitalícia de voltar à Terra ou a qualquer planeta do Império Solar
que mantenha ligações com a Terra.”
Seguiu-se
a fundamentação, que não despertou o menor interesse entre a
assistência exaltada. Num complemento à sentença, foram revelados
os últimos detalhes:
— A
frota espacial terrana colocará à disposição das autoridades uma
nave que executará a deportação. A nave tem um tamanho que permite
uma viagem relativamente confortável aos condenados. A tripulação
será formada por cento e cinqüenta homens, inclusive os oficiais.
O destino
da nave seria a estrela Rigel, na constelação de Orion. Os
astronautas terranos sabiam que Rigel III,
ou
seja, o terceiro planeta desta constelação, possuía condições
semelhantes às da Terra, motivo por que se prestava perfeitamente à
colonização. A nave levaria recursos técnicos que garantiriam a
sobrevivência dos condenados. E, face à composição originária do
grupo, a metade do número total de réus eram mulheres.
A sentença
fora proferida. Era a primeira da história terrana que ordenava a
deportação para outro mundo.

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