segunda-feira, 18 de março de 2013

P-057 - O Atentado - Kurt Mahr [parte 1]

Autor
KURT MAHR



Tradução
RICHARD PAUL NETO


Digitalização
VITÓRIO


Revisão
ARLINDO_SAN
Tentaram assassinar o Administrador do Império Solar!
A primeira aventura de colonização...

Apesar das hábeis manobras realizadas no espaço galáctico, o trabalho pelo poder e pelo reconhecimento da Humanidade no seio do Universo, realizado por Perry Rhodan, forçosamente teria de ficar incompleto, pois os recursos de que a Humanidade podia dispor na época eram insuficientes face aos padrões cósmicos.
Cinqüenta e seis anos passaram-se desde a pretensa destruição da Terra, que teria ocorrido no ano de 1984.
Uma nova geração de homens surgiu.
E, da mesma forma que em outros tempos, a Terceira Potência evoluiu até transformar-se no governo terrano, esse governo já se ampliou, formando o Império Solar. Marte, Vênus e as luas de Júpiter e Saturno foram colonizados. Os mundos do sistema solar que não se prestam à colonização são utilizados como bases terranas ou jazidas inesgotáveis de substâncias minerais.
No sistema solar, não foram descobertas outras inteligências. Dessa forma os terranos são os soberanos incontestes de um pequeno reino planetário, cujo centro é formado pelo planeta Terra.
Esse reino planetário, que alcançou grau elevado de evolução tecnológica e civilizatória, evidentemente possui uma poderosa frota espacial, que devia estar em condições de enfrentar qualquer atacante.
Mas, desta vez, o ataque partiu de dentro... Dois grupos revolucionários acusam Rhodan de ditador e tentam assassiná-lo!





= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Horace O. MullonHomem de trinta anos, chefe de um grupo revolucionário.

Walter S. HollanderChefe de outro grupo revolucionário.

Fraudy NicholsonBela estudante.

FlagellanComandante da nave Adventurous.

O’BannonLutador robusto.

MilliganTécnico da nave.
1



O homem abriu uma fresta da porta e lançou um olhar desconfiado para o lado de fora.
O que deseja? — perguntou.
Morte aos tiranos — respondeu Mullon.
A senha lhe parecia ridícula, mas ele a proferiu valentemente.
A porta abriu-se mais um pouco, apenas o suficiente para que uma pessoa adulta pudesse esgueirar-se pela mesma.
Mullon penetrou na semi-escuridão da residência. O homem, que acabara de abrir, trancou cuidadosamente a porta e, calcando um botão, acendeu a luz do hall.
É Mr. Mullon? — perguntou. Mullon fez um gesto afirmativo.
Pensávamos que só viesse amanhã — disse o homem.
Mullon voltou a fazer um gesto afirmativo e, enquanto isso, tirou a capa e a pendurou num velho cabide.
Viajei num cargueiro que levava apenas alguns passageiros. O aparelho realizou um vôo fora do horário. Por isso cheguei hoje.
O homem, que recebera Mullon, abriu outra porta e levou-o a um recinto ainda mais escuro que o hall.
No verão faz muito calor em Tientsim. Ninguém suporta a temperatura entre meio-dia e três horas, se não fechar cuidadosamente todas as frestas pelas quais o ar quente possa penetrar.
Mullon sentou. O outro — um chinês do sul, franzino e delicado — mexeu num armariozinho e trouxe uísque, soda e gelo. O rosto de Mullon iluminou-se.
Excelente, Huang! Estou morrendo de sede.
Huang sorriu enquanto colocava os dois copos sobre a mesinha.
Nós também — respondeu. — Sinto sede de informações. Estamos vivendo na sombra da metrópole, isolados do resto do mundo. Ao que parece, os cinco democratas autênticos que existem em Tientsim não são muito importantes, pois ninguém se dá ao trabalho de mantê-los informados sobre os acontecimentos.
Mullon sentiu a recriminação.
A coisa não deve demorar mais que seis ou oito semanas — respondeu. — Passamos por uma confusão tremenda. É que o grande dia está iminente.
Huang levantou-se e arregalou os olhos.
Será possível? O senhor pretende...?
Mullon ficou com o rosto muito sério.
Exatamente. Pretendo. Já chegou a hora de dar um jeito nesse homem arrogante que acha que é o dono do mundo.
Huang bateu palmas de tão satisfeito que ficou.
Será um dia de festa para todos os homens decentes do Império Solar! — exclamou em tom entusiástico.
Espero que sim. Mas antes disso ainda teremos muito trabalho para fazer. Aliás, eu mesmo apenas sou a vanguarda. Atrás de mim vêm uns vinte homens, que o senhor terá de esconder em Tientsim e nos arredores. Amanhã seguirei viagem para Terrânia. Avisá-lo-ei quando os vinte homens estiverem para chegar. Acho que levaremos umas quatro a seis semanas para preparar o grande golpe.
Huang entusiasmou-se cada vez mais.
Ainda bem que temos um homem arrojado como o senhor na direção dos democratas autênticos! — exclamou. — O que seria de nós...
Estava sendo sincero, mas Mullon repeliu-o com um gesto.
Qualquer um teria feito a mesma coisa, Huang — interrompeu. — Apenas teria de compreender que a democracia é a única forma de governo que resguarda a dignidade do homem, e que esse homem que está em Terrânia se tem revelado um ditador da pior espécie. É exclusivamente ele que manipula todos os fios. Não admite que ninguém se intrometa nos seus negócios; acredita que tem poderes para resolver qualquer coisa em nome de cinco bilhões de seres humanos.
Depois de termos compreendido isso, o caminho para a revolução já não é muito longo.
Na costa ocidental dos Estados Unidos existem dezenas de milhares de democratas autênticos. Em comparação com a grande massa dos acomodados, não são muitos. Mas estão dispostos a arriscar tudo para atingir o grande objetivo.
Perry Rhodan tem que morrer.

* * *

Na manhã do dia seguinte, Horace O. Mullon seguiu viagem para Terrânia.
No lugar em que ficava essa cidade, há setenta anos se estendia a imensidão desolada do deserto de Gobi, junto a um lago salgado e quase totalmente seco.
Não havia mais o menor vestígio do deserto. A irrigação artificial havia transformado o grande areal numa área de jardins viçosos.
Terrânia era a sede da autoridade suprema do Império Solar, da administração do planeta Terra. Era ali que residia o homem que Horace O. Mullon pretendia matar: Perry Rhodan.
As telas do foguete ofereciam, no momento do pouso, uma visão ampla da gigantesca cidade. Mullon não se cansava de admirar sua beleza moderna e seu traçado impecável.
Tinha certeza de que haveria algum tipo de controle na chegada. Por isso ficou espantado ao ver que todo mundo logo se dirigia aos giroplanadores e entrou num desses. Seguiu o exemplo dos outros passageiros e foi até o edifício da recepção. A bagagem de Mullon já havia chegado por caminhos ignorados. Mullon não sabia o que fazer com as malas enquanto não encontrasse hotel. Então seguiu uma seta luminosa na qual se lia “guarda-volumes”. Um tanto perplexo, olhou a fileira de guichês. De repente, uma voz amável pediu:
Aproxime-se, Mr. Mullon, caso queira guardar sua bagagem.
Mullon girou repentinamente sobre os calcanhares. Um homem, que pretendia matar a autoridade de categoria mais elevada da Terra, só poderia sentir-se chocado ao perceber que, pouco antes de atingir o objetivo, uma pessoa totalmente estranha o chamava pelo nome verdadeiro.
Um homem levantou-se atrás de um dos guichês. Em seu rosto havia um sorriso amável.
Ainda não sei em que hotel encontrarei um aposento — disse. — Por isso gostaria de deixar a bagagem aqui.
O homem fez um gesto bonachão, comprimiu um botão de um aparelho parecido com uma máquina de escrever e segurou a fita de plástico que saltou da fenda.
Seu recibo, Mr. Mullon — disse, entregando a fita de plástico. — O resto será providenciado automaticamente. Não se preocupe com nada. Assim que tiver encontrado um hotel, coloque esta fita de plástico em qualquer terminal do correio pneumático. Depois sua bagagem lhe será entregue o mais depressa possível.
Mullon segurou a fita de plástico e ficou com o queixo caído.
Está bem — murmurou. — Mas de onde o senhor me conhece?
O homem mostrou um sorriso condescendente.
O equipamento eletrônico do aeroporto e os foguetes estacionados no mesmo formam uma grande unidade cibernética — explicou. — Qualquer coisa que a lista eletrônica de passageiros de seu foguete sabe, ou já soube, eu também sei.
Como? Quer dizer que sabe o nome de todas as pessoas que chegam e partem?
Naturalmente. Minha memória é formada por cerca de um bilhão de células de armazenamento, e cada célula é formada por quatro mil e noventa e seis unidades, Mr. Mullon. Não sou nenhuma exceção. Todos os robôs da classe C-4 são como eu.
Todos os robôs...! — fungou Mullon. Atrás dele, alguém soltou urna risadinha. Mullon mal ouviu. Sentia-se ainda muito assustado pelo fato de ter descoberto que o “ser” era apenas um robô. E isto teria de causar espanto a um revolucionário apaixonado, vindo de uma cidadezinha antiquada como Seattle. Nesta só havia dois robôs fixos, cuidadosamente identificados como caixotes automáticos incumbidos da emissão de passagens no aeroporto.
O robô da classe C-4 não se sentiu ofendido.
Ele não leva a mal — disse uma voz clara e amável, entremeada de um ligeiro sorriso. — Já está acostumado.
Mullon virou-se. Viu uma moça.
Meu Deus — suspirou. — Será que a senhora também é um robô?
Não — disse a moça com uma risada. — Mas eu me dou muito bem com eles. Afinal, já moro alguns anos em Terrânia.
Ao contemplar a moça, Mullon esqueceu-se do susto que o robô lhe pregara. Recuperou a capacidade de raciocinar.
Se é assim, talvez a senhora possa me ajudar — disse, dando uma expressão preocupada ao rosto. — Estou fazendo turismo por conta própria. Não conto com o auxílio de qualquer agência de viagens. Onde poderei hospedar-me nesta cidade?
A moça deu de ombros.
No lugar que escolher. Depende do que o senhor queira gastar.
Mullon sorriu.
Será que pareço muito rico? A moça avaliou-o com um olhar.
Seria difícil dizer. Acredito que o Flattner serviria para o senhor.
É um hotel?
Perfeitamente.
Mullon fez um rosto tímido.
A moça lançou-lhe um olhar indagador.
Bem — principiou Mullon — não quero ser inoportuno. Caso não tenha nada a fazer, será que poderia mostrar-me o caminho? Poderia pagar um drinque para retribuir a amabilidade.
A moça fez um gesto afirmativo.
Pois não — disse.
Aliás, meu nome é Mullon.
Já sei. O C-4 disse em voz alta. Meu nome é Nicholson. Fraudy Nicholson.

* * *
Durante o primeiro dia passado em Terrânia, Mullon não pensou muito na tarefa que o fizera ir a essa cidade. Dedicou seu tempo a Fraudy Nicholson, que amava de todo coração a cidade em que vivia e por isso era uma ótima cicerone.
Só se separaram pouco antes da meia-noite.
Combinaram novo encontro para o dia seguinte. A bela moça já ocupava um lugar no coração dele. A idéia de revê-la deixou Mullon feliz.
Sua bagagem havia sido entregue de tarde. Para celebrar, pediu uma garrafa de champanha. Só depois de esvaziá-la teve vontade de ir para a cama.

* * *

Quando despertou em meio à escuridão, ainda estava sob os efeitos do álcool. Levou algum tempo para remexer a memória e descobrir em que lugar se encontrava.
Sentiu-se surpreso por ter acordado no meio da noite. Um pouco atrás do lugar em que se encontrava viu os contornos fracamente iluminados da janela que dava para o parque do hotel.
Ouviu um ruído e ergueu-se abruptamente. Pôs a mão trêmula na gaveta da mesinha-de-cabeceira, onde guardara a pistola.
Tateou para encontrar a arma.
Ai!
Não adiantou mais. Sentiu uma picada dolorosa e, no mesmo instante, um torpor indefinido espalhou-se por todo o corpo.
Com um leve gemido, Mullon caiu para cima do travesseiro e perdeu a consciência.

* * *

Quando acordou de novo, já era dia.
A memória foi voltando pouco a pouco. Só quando olhou para a mesinha-de-cabeceira com o botão azul que abria a gaveta, conseguiu reconstituir os acontecimentos.
Alguém esteve aqui. Isso mesmo. Tentei abrir a gaveta e tirar a pistola. Mas antes que eu conseguisse fazê-lo, alguém me paralisou, provavelmente com alguma toxina que ataca os nervos. Por quê?”, pensou, reconstituindo a cena.
Saltou da cama, cambaleou e bateu no armário. Teve de segurar-se para não dobrar os joelhos. Os efeitos da toxina ainda não haviam cessado.
A gaveta da mesinha-de-cabeceira estava fechada. Mullon lembrou-se de que durante a noite não houve tempo para ter feito isso. O desconhecido é quem cuidou de fechá-la.
O que teria ele procurado por ali?”, indagou-se mentalmente.
Mullon foi ao banheiro e deixou que o jato forte do chuveiro caísse sobre sua cabeça. Depois conseguiu raciocinar melhor.
O que teria o desconhecido procurado em meu quarto?”, voltou a indagar-se.
Era uma pergunta ridícula. Alguém em Terrânia sabia quais eram as intenções dele, Mullon. Por isso procuraram encontrar alguma prova que pudesse justificar uma ordem de prisão. Penetraram no quarto e revistaram a bagagem...
Mullon abriu as malas, que não desfizera no dia seguinte. O conteúdo das mesmas estava revolvido.
As malas haviam sido revistadas!
Por um instante, Mullon sentiu-se dominado pelo medo. Sabiam por que tinha vindo a Terrânia. O Serviço Secreto estava informado sobre tudo.
Agora só lhe restava fugir o quanto antes. A qualquer momento poderiam voltar e prendê-lo.
Nem quis perder tempo para lavar-se melhor. Vestiu-se apressadamente, e no momento em que estava colocando a gravata, teve uma idéia. Por que fugir? Tivera o cuidado de não deixar em sua bagagem qualquer prova de suas intenções subversivas. O simples fato de terem revistado sua mala provava que, por enquanto, não sabiam nada; apenas suspeitavam dele.
Não poderiam prendê-lo só porque suspeitavam dele. Se pudessem, não adiantaria fugir. Em qualquer lugar do Império Solar onde se encontrasse, poderia ser preso tão facilmente como ali. Afinal, os domínios de Perry Rhodan não se limitavam a Terrânia.
O que deveria fazer?
Ficar onde estava.
Mullon voltou a tirar a roupa e tomou um banho demorado. O resultado foi surpreendente. Ao que parecia, a toxina tinha “medo” dos vapores quentes. Quando Mullon saiu da banheira, os efeitos da paralisia, que sofrerá durante a noite haviam desaparecido.
Enquanto colocava a roupa pela segunda vez, lançou um olhar para o relógio. Assustou-se ao perceber que faltava pouco para a uma hora. E combinara almoçar com Fraudy à uma hora.
Acontece que, sem saber o porquê, já não conseguia sentir o mesmo entusiasmo do dia anterior. Durante a noite alguém lhe lembrara, de forma um tanto desagradável, que não viera a Terrânia para apaixonar-se por uma desconhecida.
2



Fraudy assustou-se ao vê-lo.
Meu Deus, o que é isso?
Mullon soltou uma risada forçada.
Não dormi muito bem — disse.
Sentaram e fizeram o pedido. A conversa não se desenvolvia, bem ao contrário do que acontecera na noite anterior. Mullon sentiu-se incomodado ao notar que Fraudy o examinava às escondidas.
Quer saber de uma coisa? — perguntou de repente. — Alguém lhe aplicou uma boa dose de cefeidina.
Mullon estreitou os olhos.
O quê?
Aplicaram-lhe uma dose de cefeidina. É uma toxina para os nervos, extraída de plantas que só crescem nos planetas dos sóis pertencentes ao tipo dos Delta-Cefei-Mutáveis. É uma substância traiçoeira. Um milionésimo de grama da substância concentrada basta para paralisar o sistema nervoso de um homem por alguns dias. Como foi que aplicaram isso no senhor?
Em mim? — objetou Mullon. — Ninguém me aplicou isso. Nem sei no que a senhora está falando.
Fraudy fez um gesto; até parecia que não levava a sério a objeção de Mullon.
Sou aluna de biologia galáctica na Academia de Terrânia, e a primeira coisa que um estudante de biologia galáctica aprende é a identificação das plantas traiçoeiras que existem em nossa Galáxia. Poucas horas depois que a cefeidina é introduzida na circulação, verifica-se uma coloração azulada do globo ocular. Dê uma olhada no meu espelho.
Tirou o espelho da bolsa e segurou-o à frente de Mullon. Este examinou seus olhos, que reluziam num belo azul-celeste.
Mullon percebeu que não adiantaria negar; acabou contando o que lhe acontecera na noite anterior. Naturalmente Fraudy quis saber se desconfiava de alguém, ou se podia imaginar por que alguém o atacara. Mullon respondeu em tom convicto:
Não. Sou um simples turista vindo de uma das áreas mais atrasadas da América. Vim para conhecer a maior cidade do mundo. Não quero fazer mal a ninguém, e não posso imaginar o que alguém queria achar em meu quarto. Quem sabe se me confundiram com outro?
Quem sabe? — respondeu Fraudy em tom pensativo.
Depois não tocaram mais no assunto. Mas Mullon teve a impressão de que Fraudy ainda refletia intensamente.

* * *

O dia não foi tão recheado de entusiasmo como o anterior.
De qualquer maneira, porém, foi um dia alegre. Mullon aproveitou a oportunidade para conhecer tudo que fosse possível da grande cidade e descobrir como poderia ser realizado o maior sonho de qualquer turista: ver Perry Rhodan face a face.
Fraudy disse:
Quando tem tempo, Rhodan sempre comparece aos grandes debates da Academia. Pelo que sei, a entrada é franqueada a qualquer interessado. Tenho certeza de que lá poderá vê-lo.
Quando será realizado o próximo debate? — perguntou Mullon.
Pelo que sei, daqui a uma semana, aproximadamente.
Será que Rhodan vai comparecer?
Sem dúvida, se estiver em Terrânia.
Mullon mostrou-se interessado em saber quais seriam os temas tratados durante os debates. Para seu espanto descobriu que sempre se debatiam problemas de interesse geral.
Via de regra — disse Fraudy — trata-se da posição da Terra na Galáxia e dos diversos sistemas de governo. Para mim, os grandes debates são uma das coisas mais interessantes que Terrânia pode oferecer.
Mullon sentia-se bastante surpreso. O fato de Perry andar em público sem o menor constrangimento não se harmonizava com a imagem que fizera do tirano.
Durante a excursão pela cidade aproximaram-se da abóbada reluzente que abrigava os principais edifícios administrativos e um pequeno espaçoporto.
Fraudy estacionou o carro, alugado por conta de Mullon, numa via circular que corria junto à face externa da abóbada. De dentro do carro, Mullon contemplou demoradamente a gigantesca figura que subia para o azul ofuscante do céu, descrevendo uma curvatura que, naquela altura, era quase imperceptível.
Para quem olhasse diretamente a abóbada, a mesma era transparente. Não havia nada que desse a impressão de que existia algum obstáculo entre o lado da rua onde se encontrava e os edifícios que ficavam do outro lado. Mas os raios de luz, que incidissem inclinadamente sobre a abóbada, sofriam uma refração. Havia um ângulo-limite, acima do qual se verificava a reflexão total. Dali em diante, a abóbada tinha o aspecto de uma semi-esfera prateada.
Mullon sabia que aquela figura singular consistia em energia. Era uma barreira que negava acesso à parte mais importante da cidade, e de todo Império Solar, a qualquer um que não dispusesse de alguma espécie de salvo-conduto. Isto se aplicava tanto aos seres humanos, como às bombas ou engenhos destrutivos.
Depois de algum tempo Mullon e Fraudy desceram do carro. Havia muita gente parada diante da parede reluzente. Algumas pessoas divertiam-se colocando o dedo o mais próximo possível da barreira energética.
Fraudy e Mullon juntaram-se ao grupo. Fraudy riu quando o dedo de Mullon recuou assustado diante de um obstáculo invisível, que parecia ser de borracha. Mullon fez mais algumas tentativas. Fraudy explicou que o contato com a abóbada energética propriamente dita é mortal, e que, face ao perigo, a mesma é protegida junto à rua por um campo defensivo. Este campo defensivo era a coisa parecida com borracha que Mullon acabara de tocar com o dedo.
Pela primeira vez Mullon revelou parte de suas opiniões reais. Disse que não era digno de um chefe de Estado democrático esconder-se atrás de uma barreira mortal feita de energia.
Fraudy assumiu uma atitude defensiva. Provou que Rhodan não tinha necessidade de esconder-se de quem quer que fosse. A barreira energética só servia para proteger os aparelhos preciosos e em parte insubstituíveis que estavam instalados no bairro administrativo.
Ao que parecia, Fraudy entristeceu-se com as idéias de Mullon, e este fato, por sua vez, entristeceu Mullon. Como é que ele, que era um democrata autêntico, poderia realizar os sonhos arrojados que vinha entretendo desde o dia anterior, passando o resto da vida ao lado de uma mulher cujo coração estava dominado pelo entusiasmo que lhe inspirava a forma de governo do Império Solar?
O ligeiro desentendimento foi esquecido quando Fraudy e Mullon foram até o espaçoporto, situado num local bastante afastado da cidade. Chegaram bem na hora de assistir à decolagem de um dos gigantescos transportadores PE.
PE significava planetas exteriores.
Tratava-se das colônias terranas das luas de Júpiter e Saturno e das estações de pesquisa montadas nesses planetas. Até então Mullon só havia visto decolagens desse tipo na tela. O gigante espacial era esférico e atingia uma altura de trezentos metros. Os raios de corpúsculos fortemente acelerados, que lhe conferiam o impulso para a decolagem, desciam da zona equatorial da nave como se formassem uma cortina ofuscante. Não se ouvia quase nada além do som cantante dos propulsores e do farfalhar do ar deslocado.
Ninguém imaginaria que esta caixa pesada pousará em Júpiter dentro de apenas trinta horas — murmurou Fraudy. — E olhe que não possui sequer a versão mais simples da propulsão ultra luminosa.
De noite Mullon manifestou o desejo de conhecer o lago de Goshun. Fraudy levou-o até lá e deixou-se convencer a dar um passeio de barco. Alugaram uma lancha por três horas e abasteceram-se para a ventura com um jantar conservado em embalagem térmica.
Mullon saiu lago afora até que a margem sul, da qual haviam partido, mergulhasse embaixo da linha do horizonte, sob os raios do sol no ocaso. Depois parou o motor e pegou os remos.
Assim é mais romântico — disse com um sorriso.
Fraudy reclinou-se para trás e contemplou o céu escuro.
À sua frente surgiu um grupo de ilhas iluminadas pela luz débil da noite. Mullon dirigiu o barco para as mesmas. Escolheu a ilha que lhe parecia mais bela e tomou a direção da mesma, para ali pôr os pés na terra. Como estivesse avançando muito devagar, voltou a ligar o motor. Naquele instante, surgiu uma lancha vinda do nordeste, que parecia dirigir-se ao mesmo grupo de ilhas.
Fraudy endireitou o corpo e olhou para a lancha.
É estranho — disse. — Quem será que resolveu passear tão longe?
Mullon não viu nisso nada de extraordinário, mas Fraudy asseverou que ninguém costuma afastar-se tanto da margem. Os barcos de aluguel geralmente não se afastavam mais de dez quilômetros de sua base.
Afinal, nós estamos aqui — objetou Mullon. — É bem possível que outra pessoa tivesse a mesma idéia.
Fraudy sacudiu a cabeça. O argumento de Mullon não lhe parecia muito convincente.
Antes tivesse trazido um binóculo — disse.
Mullon chegou antes dos desconhecidos à ilha. Numa manobra elegante fez a lancha entrar profundamente na vegetação que cobria a margem, ajudou Fraudy a descer, tirou o saco de mantimentos de baixo do banco e abriu-o. A comida era excelente, e Mullon devorou sua porção com um ótimo apetite. Teve de levantar-se para acender as luzes da lancha, pois já escurecera por completo.
Fraudy não conseguia livrar-se da desconfiança. Comeu pouco e olhava constantemente para os lados. O outro barco continuava desaparecido.
Mullon voltou a colocar seu barco na água e virou a popa de tal maneira que poderia passar entre duas ilhas para alcançar as água mais profundas do lago. Fraudy sugeriu que apagasse as luzes e remasse. Mas Mullon limitou-se a rir, pôs a funcionar o motor a gasolina, um tanto antiquado, e dirigiu o barco ruidoso para as duas ilhas pequenas.
Sentada a seu lado, Fraudy mantinha os olhos semicerrados. Estava à espreita, como quem quer saltar para a água assim que surja qualquer sinal de perigo. Mullon achou seu comportamento cada vez mais estranho.
Por que ela ficou com tanto medo pelo simples fato de ter visto um barco desconhecido?”, pensou.
Chegaram às duas ilhas. Mullon teve de prestar atenção para fazer passar o barco.
Inclinou-se por cima da borda para sondar a profundidade da água.
No mesmo instante, ouviu um zumbido. Mullon ergueu-se abruptamente e viu Fraudy, que estava com os olhos arregalados, cair para o lado. Em sua blusa de imitação de couro havia uma pequena seta com um penacho.
Cuidado! — balbuciou, reunindo as forças que lhe restavam. — Def...
No mesmo instante, o barco bateu num obstáculo. Mullon, que se erguera ligeiramente para procurar o inimigo invisível, foi atirado para cima do assento. Sentiu que a embarcação girava em torno de seu próprio eixo, e que, a cada volta completa, a hélice batia no obstáculo.
Procurou erguer-se para segurar o leme. Mas mal conseguiu levantar-se; apoiando a mão no encosto do assento, sentiu na nuca a mesma picada suave da noite anterior. A dor espalhou-se a partir do ponto de impacto e mergulhou o corpo num torpor indefinido. Mullon ainda ouviu que subitamente o motor aumentava a rotação. Depois o silêncio e a escuridão espalharam-se em torno dele.

* * *

Já conhecia a sensação que experimentou ao recuperar os sentidos.
Tinha a impressão de que os olhos estavam inchados; esforçou-se para abri-los. A luz que os atingiu era forte demais.
Mullon forçou-se a manter as pálpebras abertas e olhou em volta. A primeira coisa que viu, sem sentir, foi que estava sentado numa cadeira, com as pernas e os braços amarrados à mesma.
A poucos metros dele se achava Fraudy, também amarrada a uma cadeira. Ao que parecia, ainda não recuperara os sentidos. Estava com a cabeça caída sobre o ombro. Mullon sentiu-se aliviado ao ver que ela respirava.
Virou a cabeça o mais que a dor surda permitia: à sua esquerda viu, a uma boa distância, uma gigantesca cortina escura que cobria uma parede. Era ali que devia ficar a janela. Perto da cortina havia uma mesinha rodeada por várias poltronas confortáveis. Numa das poltronas estava sentado um homem com as pernas cruzadas; segurava um cigarro e um radiador térmico.
O homem fitou Mullon com um ar arrogante e levantou-se com um bocejo.
Finalmente! — murmurou. — É muito cansativo esperar por alguém que não consegue abrir os olhos de fraqueza.
O homem saiu rapidamente por uma porta que Mullon ainda não havia visto.
Mullon esperou pacientemente, esforçando-se para dominar a dor que sentia no crânio e nas juntas.
Não teve de esperar muito. O guarda com a arma de radiações voltou em companhia de outro homem. Este devia ter seus trinta anos — aproximadamente a mesma idade de Mullon — e não havia a menor dúvida de que era um branco.
O guarda voltou à sua poltrona, enquanto o homenzinho se plantou à frente de Mullon. Fitou o prisioneiro por algum tempo. Depois começou a falar apressadamente e sem o menor intróito:
O senhor é Horace O. Mullon e vem de Seattle, distrito administrativo da América do Norte. Chegou a Terrânia ontem de manhã. Em Seattle, o senhor dirige a Associação dos Democratas Autênticos. Os democratas autênticos pretendem derrubar o governo atual e instituir um regime democrático. O senhor veio a Terrânia para assassinar Rhodan. Confessa tudo isto, ou será que precisa de uma lavagem cerebral?
Apesar das dores o cérebro de Mullon trabalhava febril e impecavelmente.
Quem será este homem? Um agente do serviço de segurança? Dificilmente, pois nesse caso seus asseclas não precisariam ter adotado um procedimento tão traiçoeiro para prender-me; bastaria dar a ordem. Mas quem será?”, pensou.
Mullon não chegou a qualquer conclusão. Mas ficou satisfeito em saber que não havia caído nas mãos do serviço de segurança. Dessa forma, a ameaça da lavagem cerebral não passaria de blefe. Só o serviço de segurança dispunha dos instrumentos necessários à realização de uma operação desse tipo.
O senhor está louco — respondeu Mullon em tom decidido. — Não sei com quem está me confundindo. Exijo minha libertação imediata; assim que conseguir sair daqui, tomarei providências para que o senhor e seu bando não possam mais fazer mal a quem quer que seja.
Um sorriso zombeteiro surgiu no rosto do homenzinho.
Acha mesmo que essa tática vai adiantar alguma coisa? Teríamos de ser muito idiotas se fôssemos soltá-lo para que nos denunciasse.
Estou ganhando de um a zero”, meditou Mullon. “Se este homem está com medo de ser denunciado, não pode ser nenhum agente da polícia secreta.”
Seu nome não é Mullon? — perguntou o homenzinho. — E não vem de Seattle?
É claro que meu nome é Mullon e que venho de Seattle! — esbravejou o prisioneiro. — Mas nem mesmo num pesadelo me surgiu a idéia de assassinar Rhodan.
O homenzinho fez um gesto com a cabeça.
Que pena! — disse em voz baixa.
Mullon arregalou os olhos de espanto. O movimento foi doloroso.
É uma pena? — repetiu.
O homenzinho prosseguia no seu gesto.
Sim, é uma pena. Meu nome é Hollander. Já ouviu falar de mim?
Mullon sacudiu a cabeça.
Nunca.
Um sorriso condescendente surgiu no rosto de Hollander.
Como é que alguém pode corrigir o mundo sem conhecer as outras pessoas que lutam pelo mesmo objetivo? Já ouviu falar nos filósofos da natureza?
Já; trata-se de uma seita que prega o retorno à natureza — disse Mullon, dando mostras dos seus conhecimentos.
Hollander sacudiu a cabeça.
Vejo que seus conhecimentos são um tanto deficientes. Os filósofos da natureza somos nós. E não pregamos o retorno à natureza à maneira do velho Rousseau. Acontece que aqui em Terrânia nosso objetivo é idêntico ao seu. Será que já está disposto a abrir a boca?
Mullon respondeu em tom de escárnio:
Quer saber de uma coisa, Mr. Hollander? Para enganar um homem como eu, o senhor terá de inventar um truque melhor.
Ao que parecia, Hollander não esperara outra coisa. Lançou um olhar sério para Mullon e disse:
Não tenha receio! Podemos dar uma prova das nossas intenções. Espero que, em compensação, o senhor compreenda que será um homem morto se não quiser colaborar conosco depois de ter visto essa prova.
Mullon confirmou com um gesto automático:
Está bem; pode começar.

* * *

Mais ou menos ao mesmo tempo, no interior da gigantesca abóbada energética, o grande conjunto positrônico, que constituía o centro de computação da capital, expeliu em vermelho uma fita de informações. A cor vermelha significava que o conteúdo da fita era extremamente importante. Os resultados de computação emitidos nessa cor teriam de ser apresentados imediatamente a Rhodan ou a seu representante.
Isso foi feito automaticamente. Um seletor cromático registrou a cor da fita e encaminhou a mesma ao canal competente. Dali a alguns segundos o relatório se encontrava em mãos de Rhodan. Este atirou o mesmo no decifrador e fez com que o escrito fosse projetado sobre a parede oposta à sua escrivaninha.
O texto da informação era o seguinte:
Atualmente dois grupos rivais de pessoas insatisfeitas estão agindo em Terrânia. Trata-se dos filósofos da natureza, que alugaram um recinto num edifício comercial do centro da cidade, onde se encontra um total de quinze pessoas, e da Associação dos Democratas Autênticos, cuja sede principal fica na costa ocidental do continente norte-americano. Seu chefe, Horace O. Mullon, veio a Terrânia com a intenção de preparar o assassínio do Administrador. Outros vinte homens dessa associação se encontram em Tientsim, onde aguardam o momento de serem convocados para Terrânia.
Não existe a menor dúvida de que os dois grupos têm um único objetivo: a destruição da ordem vigente. Ainda não chegaram a um acordo sobre os objetivos subseqüentes. Os motivos determinantes dos atos dos filósofos da natureza e dos democratas autênticos são conhecidos.
Já foram tomadas precauções para proteger o Administrador e as instituições do Império Solar. As informações serão fornecidas a intervalos regulares através do mesmo canal. Fim.
Perry Rhodan desligou o projetor e recostou-se confortavelmente na poltrona articulada. Não dava mostras de ter-se impressionado com aquilo que acabara de ouvir.
Depois de algum tempo inclinou-se para a frente e comprimiu um dos botões do painel comprido embutido em sua escrivaninha. O pequeno aparelho de televisão, que se encontrava no centro da mesma, iluminou-se e mostrou o rosto redondo de um homem, encimado por cabelos curtos cor de ferrugem. O homem parecia ter um gênio bonachão, muito embora naquele instante houvesse uma expressão sombria em seu rosto.
Bom dia, ministro — disse Rhodan. — Venha até aqui; tenho uma novidade para você.
O homem confirmou com um gesto. A tela apagou-se. Em compensação, dali a dois minutos o original da imagem surgiu na porta do enorme gabinete de Rhodan.
Você está correspondendo cada vez mais à imagem do seu cargo — escarneceu Rhodan. — Todos acham que um ministro da segurança tem de andar de cara fechada.
Bell, ou melhor, Reginald Bell, velho companheiro de lutas de Rhodan, fez um gesto de contrariedade.
Acontece que as notícias recebidas não são muito agradáveis — respondeu.
Sente e explique seus planos — disse Rhodan.
Bell sentou e fez um gesto grandioso:
Vamos esperar, pegá-los no momento oportuno, submetê-los a uma lavagem cerebral para descobrir os nomes de todos os adeptos, levá-los a juízo, obter sua condenação, e só.
Ao que parecia, Rhodan concordou com a sugestão.
Qual deverá ser a sentença da Justiça?
Bell fez um gesto de dúvida.
Prisão, trabalhos forçados...
Nada disso.
Bell fez um gesto de surpresa.
Então você quer ditar aos juizes a sentença que devem proferir?
Rhodan sacudiu a cabeça.
O Governo apresentará um projeto de lei ao Conselho Solar. Este aprovará o projeto sem a menor demora, já que o mesmo realmente preenche uma lacuna do direito penal. E quando isso acontecer, haverá mais uma pena no Império Solar, pena esta que será aplicável principalmente aos membros das sociedades secretas, revolucionários e outros tipos semelhantes.
Que pena será esta?
Um sorriso condescendente surgiu no rosto de Rhodan.
Já se esqueceu, Bell? Faz pouco tempo que conversamos sobre isto.
3



Mullon obteve a prova.
Conhecia de nome certas pessoas das quais se dizia que eram filósofos da natureza. Nunca se interessara por eles porque, desde que soubera do surgimento da seita dos filósofos da natureza, achara que se tratava de um estranho ajuntamento de idiotas. Mas agora estes nomes se revelaram muito úteis.
Um dos homens que Mullon conhecia morava em Portland, Oregon. Hollander estabeleceu uma ligação videofônica. Ao que parecia o homem de Oregon, chamado Pattem, logo reconheceu o chefe. Na oportunidade, falou sobre os objetivos dos filósofos da natureza. Disse tudo que poderia revelar através do videofone.
Mullon, que já estava quase convencido, lembrou-se de outro nome. Pediu ligação com este nome e fez a mesma experiência. Uma vez que achava impossível que esses homens tivessem sido informados antecipadamente por Hollander, acabou confessando:
Está bem. Parece que nossos objetivos são os mesmos. E agora?
Hollander sorriu. Em seu rosto havia uma expressão misteriosa. Apontou para o lugar em que se encontrava Fraudy. A moça já recuperara a consciência. Fora desamarrada, mas um guarda mantinha a arma de radiações apontada para ela. Sentada na cadeira, acompanhava parte da conversa, especialmente as duas palestras mantidas pelo videofone.
E a moça? — perguntou Hollander. — Não seria preferível levá-la a outro lugar?
Mullon respondeu:
Por que não deixa Fraudy fora disso e a manda embora? Tenho certeza absoluta de que não nos prejudicará.
Hollander não concordou. Ao responder, sua voz revelou o cinismo que parecia ser parte de seu caráter.
Um bom revolucionário não enfia a cabeça no laço. Leve-a pra fora, Loy.
O guarda saiu em companhia de Fraudy. Mullon procurou animá-la com um gesto de cabeça, mas a moça nem olhou para ele.
Vamos ao que importa — disse Hollander. — Para as coisas que hão de vir depois da revolução importa muito quem tenha dado o primeiro golpe. Aquele que matar Rhodan dará as cartas no jogo que se seguirá depois. Os filósofos da natureza não querem deixar passar esta oportunidade. O senhor há de convir que aqui em Terrânia ocupamos uma posição mais favorável que seu grupo. Quer dizer que o senhor se comportará muito bem e ficará assistindo de longe quando liquidarmos Rhodan, não é?”
Um sorriso débil surgiu no rosto de Mullon, que não disfarçou a repugnância que as palavras de Hollander lhe causavam.
Quer dizer que o primeiro grupo que o assassinar vale mais, não é? — perguntou.
Não me consta que a Associação dos Democratas Autênticos faça questão de eliminar sozinha o regime vigente. De qualquer maneira, não temos o menor interesse em carregar toda a responsabilidade pelo assassínio. Estamos dispostos a aceitar qualquer tipo de colaboração.
Acontece que, pelo que acaba de insinuar, até parece que os senhores estão interessados em enfeixar a maior soma possível de poderes depois da consumação do golpe. E os democratas autênticos de forma alguma podem concordar com essa pretensão. Sua idéia é inexeqüível; continuaremos no jogo.
Hollander sorriu.
Será mesmo? — respondeu tranqüilamente. — Estou em condições de obrigá-lo a fazer o que eu quiser. O senhor...
Mullon interrompeu-o com um gesto violento.
Deixe de falar bobagem, Hollander. Mantenho contato ininterrupto com os homens de meu grupo que estão em Tientsim, e estes por sua vez permanecem em contato com a associação na América. Não há dúvida de que poderá matar-me se quiser. Mas justamente por sermos democratas autênticos meu lugar seria ocupado imediatamente por outra pessoa. Assim que meus contatos com Tientsim forem interrompidos, a pessoa que for culpada disso provavelmente só terá poucas horas de vida.
Mullon, que já recuperara seu ar de superioridade, riu no rosto perturbado de Hollander e prosseguiu:
Se não gostasse de viver, não lhe teria contado isto, Hollander. Neste caso, o senhor me teria matado, e dentro de pouco tempo teria chegado a última hora do senhor e de seus filósofos da natureza. Bonito, não acha? Mas é como acabo de dizer: gosto de viver. Pense em algo mais inteligente, homem. E não se esqueça: um democrata autêntico não se deixa intimidar com ameaças tolas.

* * *

A maneira pela qual Hollander acabou cedendo recomendava o máximo de prudência. Mullon resolveu ficar com os olhos bem abertos.
Entre os dez homens que Mullon conhecera durante os contatos que haviam durado várias horas, o único elemento perigoso, na opinião de Mullon, era justamente Hollander, por causa de sua inteligência. Os outros davam a impressão de serem indivíduos medíocres. Hollander exercia um controle perfeito sobre eles.
Uma coisa que surpreendeu Mullon foi o fato de Hollander ser um oficial da polícia de Terrânia. O posto não era muito importante, mas permitia que Hollander e, com ele, a seita dos filósofos da natureza, tivessem acesso a muitos lugares que qualquer outra pessoa dificilmente conseguiria atingir.
Uma vez terminadas as discussões. Mullon viu-se diante de um problema que acabou sendo o mais difícil de todos, especialmente porque o próprio Mullon tinha muito medo de sua solução.
O problema se chamava Fraudy Nicholson.
Como explicar-lhe quais eram os objetivos dos democratas autênticos? Será que ela iria dizer que não queria saber mais de Mullon antes que ele tivesse tempo de proferir uma única palavra?
Num súbito acesso de valentia, Mullon resolveu procurar a resposta a estas e outras perguntas num contato pessoal com Fraudy.
Hollander não teve nenhuma objeção.
Mullon visitou Fraudy na sala de uma única janela, muito pequena, em que fora abrigada. Mandou que o guarda se afastasse da porta. E começou a falar e a explicar. Por estranho que parecesse, Fraudy não o interrompeu, mas ouviu-o com a maior atenção. De início parecia desconfiada; depois assumiu atitudes cada vez mais objetivas e por fim disse, deixando-o surpreso:
Seus motivos são válidos, Mr. Mullon. Quase chegaria a dizer que são nobres. Apenas, os pressupostos em que se fundam são falsos.
Mullon sentiu-se perplexo. Mas logo passou a desenvolver a loquacidade de que dera tantas provas durante os debates prolongados em que se envolvera. Explicou a Fraudy os motivos dos democratas autênticos. Depois de algum tempo, a moça sacudiu a cabeça e disse:
Estou com a cuca fundida, Mr. Mullon. Acho que preciso digerir tudo isso. Parece que o senhor está com a razão, mas acho que não vai exigir que eu concorde imediatamente.
Mullon não fez questão. De qualquer maneira, conseguira muito mais do que ousara esperar.
Hollander permitiu que a prisioneira almoçasse em companhia de Mullon. Fraudy demonstrou um ótimo apetite. Antes disso, havia tomado um banho quente numa das salas que externamente mantinha o disfarce de escritório, mas por dentro era uma verdadeira residência, com exceção de uma sala de apresentação. Assim, os efeitos da cefeidina desapareceram, ficando apenas a cor azul dos globos oculares.
Por falar em cefeidina — disse durante o almoço. — Foram os filósofos da natureza que visitaram o senhor no hotel?
Mullon fez um gesto afirmativo.
Como ficaram sabendo que o senhor estava aqui para... bem, para matar Rhodan?
Mullon deu de ombros.
Não tenho a menor idéia. Devem ter um ótimo corpo de agentes.
Onde foi que Hollander arranjou a cefeidina? — perguntou Fraudy. — Pelo que sei, essa substância não está à venda.
Mullon não sabia. Respondeu:
Hollander é oficial da polícia de Terrânia. Por isso tem...
O garfo de Fraudy caiu ruidosamente sobre o prato. Mullon fitou-a surpreso.
Oficial da polícia? — disse, falando com dificuldade.
Mullon fez um gesto afirmativo.
Isso mesmo. Por que está tão surpresa?
Fraudy voltou a segurar o garfo.
Bem — disse em tom indiferente — não é muito comum um oficial da polícia juntar-se aos revolucionários.
Mullon confirmou a assertiva de Fraudy. No entanto, a reação um tanto violenta da mesma deixou-o desconfiado.
Neste caso já posso imaginar onde arranjou a cefeidina — prosseguiu a moça depois de algum tempo em tom indiferente. — É claro que um oficial da polícia tem livre acesso à academia e a outros edifícios situados no interior da abóbada protetora. E na academia existem verdadeiras culturas de cefeidina.
Com isso, o assunto parecia encerrado para a moça. Mas dali a alguns minutos perguntou subitamente:
Como consegue aplicar o veneno? Aproxima-se sorrateiramente e enfia a agulha na carne da vítima?
Mullon riu.
Não. Seus homens utilizam verdadeiras zarabatanas com pequenas setas providas de penacho. Que nem os indígenas da América do Sul.
Ah! — fez Fraudy.
Esvaziou o prato sem dizer mais uma palavra. Subitamente voltou a falar:
Resolvi ficar com o senhor e juntar-me aos revolucionários, se não tiver nenhuma objeção.
Mullon ergueu-se de um salto.
Realmente... quer?
Fraudy fez que sim.
Só quero ressalvar uma coisa, para que o senhor não se entregue a esperanças vãs. Seus argumentos não me convenceram por completo. Portanto, não sou nenhuma democrática autêntica ou filósofa da natureza. Acredito nas raízes mais profundas das coisas.
Mullon sentiu-se perplexo.
Está certo; mas por quê? — gaguejou.
Fraudy inclinou-se para a frente e disse:
Porque gosto do senhor, seu bobinho!

* * *

Os acontecimentos passaram a evoluir muito depressa.
Hollander aprovou o plano de Mullon, que pretendia matar Perry Rhodan a tiros, durante uma discussão na Academia. Era muito simples: Mullon e um dos filósofos da natureza seriam os atiradores. Os outros elementos dos grupos de Mullon e Hollander lhes dariam cobertura, para protegê-los contra a fúria do público que estaria assistindo aos debates.
Mullon transmitiu a notícia para Tientsim e pediu que seus homens viessem para Terrânia.
No mesmo dia um filósofo da natureza teve conhecimento de que o próximo debate, que versaria sobre o tema “As Possibilidades da Cooperação da Terra com os Grandes Impérios da Galáxia”, seria realizado já na próxima sexta-feira, e que Rhodan concordara em participar do mesmo.
Assim que chegaram a Terrânia, os homens de Mullon foram informados às pressas sobre suas tarefas. Mullon percebeu que sentiam a mesma aversão pelos filósofos da natureza que ele.
Mas não era este o momento de perturbarem-se com isso.

* * *

Uma fita vermelha informou Rhodan prontamente sobre a chegada dos vinte democratas autênticos. Ainda foi inteirado sobre todos os detalhes dos planos elaborados sobre Hollander e Mullon e tomou suas precauções.
O projeto de reforma da legislação penal foi aprovado pelo Conselho Solar e transmitido ao Supremo Tribunal do Império.
O serviço secreto de Reginald Bell foi avisado de que deveria manter-se de prontidão. E isso se aplicava não só aos agentes de Terrânia, mas aos de todo planeta.

* * *

Mullon procurou analisar a sensação que se apossou dele quando atravessou a abóbada energética e dirigia-se ao setor central da cidade. Aí foi atingido por um verdadeiro torvelinho de gente, que o arrastou para os edifícios brancos da Academia, que ficavam a poucas centenas de metros da periferia da abóbada energética.
Fraudy caminhava valentemente a seu lado, com uma expressão de obstinação no rosto. À esquerda de Fraudy ia Feable, um filósofo da natureza que assumira o “cargo” de segundo-assassino.
Carregavam as armas em coldres presos ao ombro. Eram pistolas térmicas arranjadas por Hollander.
Os outros trinta e quatro homens — quatorze filósofos da natureza e vinte democratas autênticos — haviam-se misturado à multidão.
A grande sala de debates da Academia, que tinha lugar para cerca de oitocentas pessoas, estava ocupada até as últimas fileiras.
Mullon e Feable acomodaram-se na quarta fileira. Fraudy estava sentada na quinta fileira, bem atrás de Mullon. Este escolhera o lugar para ela, pois não queria que, em caso de fracasso, alguém ligasse Fraudy aos autores do atentado.
A sessão teve início às quinze horas, com uma exposição de um alto oficial da Frota, que serviria de base aos debates.
Rhodan ainda não havia chegado.
Mullon olhou uma única vez para seu comparsa Feable. Este parecia ter aguardado o olhar. Retribuiu-o com um sorriso.
A exposição terminou às quinze horas e quarenta minutos. O orador colheu os aplausos, fez uma mesura e sentou na primeira fila.
A tensão de Mullon cresceu ao infinito. Rhodan deveria aparecer a qualquer momento.
Às quinze horas e quarenta e cinco minutos a grande entrada principal abriu-se e vários homens entraram. Rhodan não era o mais alto deles, mas era o que causava uma impressão mais forte. Os vivas soaram em torno de Mullon. Muitas pessoas ficaram tão impressionadas que se levantaram e esperaram de pé até que Rhodan, que cumprimentava amavelmente, embora com gestos ligeiros, tivesse ocupado seu lugar na primeira fila.
Viu Rhodan apertar a mão do primeiro-tenente que fizera a exposição.
Por um instante, ficou perplexo com a despreocupação com que Rhodan se movia em meio a tanta gente. Seria este o tirano de que falavam os democratas autênticos e os filósofos da natureza?
No momento em que Rhodan se levantou e foi à tribuna, Mullon varreu de sua mente esses pensamentos vãos. Novos aplausos soaram, mas Rhodan os fez cessar com um gesto amável.
Fico satisfeito em notar que tanta gente compareceu para participar dos debates — disse numa voz agradável e profunda, que o sistema de alto-falantes invisíveis transmitiu para todos os recantos da sala.
Todos já conhecem a situação da Terra e do Império Solar. Os detalhes que por ventura estavam lhes faltando, já foram fornecidos na exposição que acabaram de ouvir.”
Mullon lançou mais um olhar para Feable. Este escondera a mão direita sob a jaqueta. Não dava a menor atenção a Mullon. Este passou a mão pelo cabelo e, como se depois disso não soubesse o que fazer, enfiou-a embaixo da blusa.
Ali estava a coronha da arma. Dava uma sensação fria, apesar do suor que escorria pelos braços de Mullon.
Nesse instante, Rhodan disse:
Nossa situação não é difícil, já que todas as raças com as quais poderemos ter de entrar em contato são humanóides. As raças não-humanóides, embora mais numerosas, seriam inofensivas como inimigos e inúteis como aliados. Isto aplica-se aos setores da Galáxia que já conhecemos. É claro que nada podemos dizer sobre aquilo que fica além desses setores.
Mullon viu Feable adiantar lentamente o corpo, como se quisesse cochichar alguma coisa ao ouvido do homem que estava sentado à sua frente. Mullon fez a mesma coisa. No mesmo instante em que Feable se ergueu, também ele levantou-se.
Ao que parecia, Rhodan não estava percebendo nada.
Com uma agilidade inacreditável, Feable tirou o radiador térmico. Mullon, que não estava tão bem treinado, levou mais uma fração de segundo. Só conseguiu levantar a arma quando a primeira salva energética saiu chiando em direção ao homem que se encontrava na tribuna.
Mas o disparo de Mullon veio logo atrás, e a pontaria foi tão boa quanto a da salva disparada por Feable.
Os impactos sucessivos silenciaram Rhodan.
Mullon viu que em cima da tribuna alguma coisa se desmanchou numa explosão ofuscante. Peças incandescentes voavam para todos os lados, caíam entre a multidão e puseram em movimento as massas até então paralisadas de susto. Ouviram-se gritos estridentes, as pisadas ressoaram através da sala e a ordem transformou-se num caos.
Ninguém se lembrou de molestar os autores do atentado.
Ninguém, a não ser Mullon, viu o que estava acontecendo na tribuna.
De Rhodan sobrava apenas uma massa fumegante. Uma das peças incandescentes que a explosão arremessara para longe caíra a menos de dois metros de Mullon, atingindo um homem que gritava e se contorcia no chão.
Mullon deu um salto por cima das mesas, afastou as pessoas que corriam em pânico e avançou para junto do homem que se contorcia.
Não se interessava pelo homem. Queria saber de que era feita a peça incandescente. A mesma fizera um buraco no chão coberto de ladrilhos de plástico. Mullon viu o que era: uma peça feita de chapa metálica.
Ergueu-se e olhou para a frente. Atrás da tribuna, o quadro permanecia: furos queimados no chão e peças metálicas fumegantes.
Onde estaria Rhodan?”, pensou agitado.
Não fora Rhodan. Fora apenas um robô.
Por um instante Mullon perdeu a capacidade de raciocinar. Continuava de pé, com o radiador na mão, e estava sendo empurrado pelas pessoas que queriam passar.
Alguém parecia cair em cima dele.
Vamos embora! — chiou uma voz conhecida. — A polícia!
Mullon olhou para cima. Fraudy passara por cima das fileiras de mesas. Uma vez que o chão apresentava um forte declive em direção da tribuna, estava quase pendurada em seus ombros.
Mullon olhou em torno. Um grupo de pessoas uniformizadas penetrava pela entrada principal. O primeiro-tenente que fizera a exposição preliminar foi ao encontro dos policiais e apontou para a multidão que, fugindo, entupia as saídas.
Mullon olhou para o lado. Feable havia desaparecido; também não descobriu o menor vestígio dos outros vinte e três membros do grupo.
Fraudy puxou-o pelo braço. Mullon não resistiu. Suas pernas moviam-se automaticamente. A jovem sempre parecia encontrar uma passagem em meio à multidão que se comprimia.
Mullon viu que os policiais surgiam também nas entradas superiores. Apontou para lá sem dizer uma palavra, mas ela limitou-se a sacudir a cabeça.
Sem dar a menor atenção às pessoas que se interpunham em seu caminho, arrastou Mullon para um corredor do lado direito. No lugar exato em que o corredor dobrava para a esquerda, em direção à saída, havia uma porta.
Fraudy abriu a porta, empurrou Mullon pela mesma e voltou a fechá-la.
Vamos adiante! — fungou.
O corredor que terminava naquela porta estava profusamente iluminado. Mullon correu, e Fraudy seguiu-o com passos ruidosos.
Onde sairemos? — perguntou Mullon.
Num depósito que dá para a galeria principal — gritou Fraudy.
Mullon continuou a correr. Trinta metros depois, o corredor chegou ao fim. A porta existente ali estava trancada.
Mas Fraudy possuía a chave. Abriu-a e deixou que Mullon entrasse antes dela. Mullon viu-se num recinto amplo, cheio de aparelhos.
Mullon não se interessava pelos aparelhos. Interessava-se pelos seis homens que se haviam postado em semicírculo junto à porta.
Mantinham as armas na mão; tudo indicava que estavam esperando por Mullon. Este já voltara a guardar o radiador térmico no coldre.
Fraudy manteve a cabeça abaixada.
Mullon ouviu uma voz que parecia vir de longe.
Infelizmente temos de importuná-lo, Mr. Mullon. Acontece que, se não o fizéssemos, o senhor nos causaria problemas. E não queremos que isso aconteça, não é mesmo?
Mullon fitou o homem que acabara de falar. Viu-o erguer a estranha arma, cujo cano parecia um funil. Não fez o menor gesto de defesa quando o dedo junto ao gatilho se curvou.
Sentiu-se atingido por um golpe, e perdeu a consciência.
4



A primeira coisa que Mullon sentiu foi a decepção mais profunda já experimentada em toda a vida.
Ainda não sabia por que se achava tão decepcionado; sentia-se inutilizado, arrasado e abandonado.
Abriu os olhos e viu-se num leito bastante confortável, no interior de uma espécie de cela. As paredes eram nuas. Embaixo do teto corria um único tubo de luz fluorescente, não embutido. Havia uma única porta, e até parecia que a mesma só poderia ser aberta a tiro de canhão.
O que acontecera? Aqueles homens!”, pensou subitamente Mullon nos seis homens uniformizados que o aguardavam atrás da porta. Um deles o havia atingido com uma arma em forma de funil.
Todos usavam uniformes de policiais. Estavam subordinados a Rhodan.
Rhodan — o atentado — o robô que explodiu. De repente Mullon lembrou-se de tudo.
E Fraudy!
Fraudy o traíra. Fraudy o atraíra para o corredor, no fim do qual os seis policiais o aguardavam.
Foi mesmo assim?
Mullon recordou-se que Fraudy não se atrevera mais a encará-lo, quando olhou para trás.
Isso não provava tudo?
Fraudy era uma agente de Rhodan!
Algum tempo se passou. Mullon não sabia se foram minutos ou horas. Finalmente a porta metálica abriu-se, um policial entrou, fez um sinal para Mullon e disse:
Estão esperando o senhor. Venha comigo.
Mullon obedeceu.
Caminhou cabisbaixo por um corredor.
Subitamente sentiu-se levantado, ao ser atingido pelo campo antigravitacional do elevador.
O policial vinha atrás dele. Mullon viu as manchas brancas das desembocaduras dos corredores passarem por ele. Finalmente o campo antigravitacional o lançou para fora do poço e o deixou em chão firme. O policial disse:
Para a direita, Mr. Mullon.
Mullon caminhou para a direita. Parou quando uma porta se abriu à sua frente.
Entre!
Entrou e sentiu um choque. A sala, que surgiu à sua frente, era de tamanho médio e possuía poucos móveis.
A maior peça era uma escrivaninha com um grande painel.
Atrás da escrivaninha, estava sentado o homem contra o qual Mullon apontara o radiador térmico poucas horas antes.
Perry Rhodan!
Rhodan fitou-o tranqüilamente.
Faça o favor de sentar, Mr. Mullon — disse. — Muito obrigado, sargento.
Mullon ouviu a batida dos calcanhares do sargento e o ruído de uma impecável meia-volta. A porta fechou-se com um zumbido.
Seu golpe fracassou, Mr. Mullon — disse Rhodan. — A audiência do processo instaurado contra o senhor e seus cúmplices perante o Supremo Tribunal do Império Solar será realizada amanhã de tarde. Vai ser muito rápida, pois os fatos são perfeitamente claros, inclusive a história dos dois movimentos revolucionários que participaram do atentado. Sabe qual é o castigo que o espera?
Mullon resolvera manter-se em silêncio. Não tinha nada a dizer a esse homem.
Porém alguma coisa obrigou-o a responder.
Trabalhos forçados — disse em tom contrariado, sem olhar para Rhodan.
Não — respondeu Rhodan. — Não acredito que chegue a este ponto.
Mullon fitou-o surpreso; mas, ao que parecia, Rhodan não estava interessado em prosseguir no assunto.
Tivemos conhecimento do atentado desde o estágio dos planos preliminares — disse. — Um agente especial cuidou para que, em Terrânia, o senhor não desse um passo sem ser vigiado.
Mullon acenou com a cabeça.
Sei; foi Fraudy — disse com a voz abatida.
Isso mesmo; foi Miss Nicholson — confirmou Rhodan. — Pessoalmente lamento que tenham surgido certos sentimentos íntimos que, segundo estou informado, não deixaram de afetar Miss Nicholson. O trabalho por ela realizado é merecedor de elogios.
Mullon perdeu o autodomínio. Levantou-se de um salto, deu um ou dois passos em direção à escrivaninha e exclamou em tom furioso:
Merecedor de elogios. Que trabalho?! O trabalho de enganar um grupo de homens preocupados com a Terra e a Humanidade, entregando-o ao tirano? O senhor acha mesmo que isso é um trabalho que merece elogios?
Rhodan ouviu-o tranqüilamente. Esperou até que Mullon fizesse uma pausa e disse:
O que menos consigo compreender, de todas as coisas que os democratas autênticos e os filósofos da natureza proclamam, é isto: por que acham que sou um tirano? — lançou um olhar prolongado para Mullon e prosseguiu: — O povo não elege seus representantes? E as leis não são feitas por um corpo regularmente eleito?
São! — disse Mullon em tom exaltado. — Por um corpo que pode ser dissolvido desde que o senhor determine.
Rhodan sorriu e sacudiu a cabeça.
Não acredite numa coisa dessas, Mr. Mullon — disse. — Tenho a impressão de que os membros de seu grupo e os filósofos da natureza se interessaram muito pouco pela realidade. Construíram uma imagem distorcida das coisas.
Rhodan, que também se havia levantado, saiu de trás da mesa.
Sob o ponto de vista objetivo suas idéias e as dos filósofos da natureza não passam de fantasias, Mr. Mullon. Na situação atual, a Terra não se pode dar ao luxo de entreter fantasias. Por isso devemos remover de vez o perigo representado pelas duas organizações revolucionárias.
Acho que isso não será muito fácil — disse Mullon em tom irônico.
Não será mesmo? Não se esqueça de que há alguns decênios a lei permite que a polícia utilize o interrogatório psicológico. Neste instante, cerca de vinte mil democratas autênticos e cinco mil filósofos da natureza aguardam a decisão da Justiça. Aquilo que não conseguimos saber do senhor, os outros nos revelaram, e o que estes não sabiam, foi revelado pelas pessoas que prendemos posteriormente, com base nas informações iniciais. Não acredito que neste momento exista um democrata autêntico ou filósofo da natureza ainda em liberdade.
Mullon arregalou os olhos.
Quer dizer que fui submetido a uma lavagem cerebral? — fungou.
Rhodan fez um gesto afirmativo.
Isso mesmo. Submetemos o senhor a uma lavagem cerebral. Posso garantir-lhe que o tratamento não produz o menor dano físico ou psíquico. Apenas menciono o fato para deixar claro que as utopias dos democratas autênticos e dos filósofos da natureza chegaram ao fim. Pode retirar-se, Mr. Mullon.
Mullon saiu cambaleante em direção à porta. O policial que o trouxera voltou a encarregar-se dele. Quando já se encontrava no corredor, Mullon voltou a ouvir a voz de Rhodan:
Não se esqueça, Mr. Mullon, de que a Terra é um astro pequeno, situado na periferia da grande Galáxia. Mais da metade da Galáxia é dominada pelo grande Império dos Arcônidas e por seus aliados, os saltadores. Durante mais de cinqüenta anos conseguimos esconder-nos dos arcônidas e dos saltadores, pois não estávamos em condições de defender-nos contra a sede de poder dos mesmos.
Acontece que há poucos dias acharam nossa pista. Não se passará muito tempo até que consigam nos localizar com certeza. Quando isso acontecer, não tirarão mais os olhos de nós. Mullon, o que está em jogo é a Humanidade, sua liberdade ou sua escravização. Acredita realmente que, numa situação como esta, ainda poderíamos dar-nos ao luxo de assistir a espetáculos como o que os democratas autênticos e os filósofos da natureza pretendem encenar?”

* * *

O processo foi rápido.
As infrações de que os réus eram acusados estavam armazenadas no centro positrônico de computação. A sentença resultou do simples confronto entre os fatos não contestados incluídos na acusação e a conceituação legal das infrações. Naquela tarde, foram proferidas vinte e cinco mil sentenças.
As conclusões dessas sentenças eram inatacáveis.
O que mais surpreendeu foi o fato de dezesseis mil, dos vinte mil democratas autênticos, e mil, dos cinco mil filósofos da natureza, ficarem isentos de pena, porque sua participação no crime era de somenos importância. Face aos dados processados pelo centro positrônico, o Tribunal chegou à conclusão de que as pessoas isentas de pena eram simples asseclas, que não representariam mais qualquer perigo, desde que os chefes tivessem sido afastados.
Com isso, o número das condenações baixou para oito mil.
O observador atento não deixaria de notar que, evidentemente, a seita dos filósofos da natureza fora a mais ativa das duas organizações, já que entre eles só vinte por cento foram considerados simples asseclas, enquanto entre os democratas autênticos a proporção chegava a oitenta por cento.
A sentença foi lida pelo Presidente do Tribunal, de forma completamente inusitada. Antes de mais nada, o Presidente ofereceu um resumo das reformas pelas quais o direito penal havia passado desde a união de todas as nações terranas. Reforma esta que se tornara necessária face à ampliação da esfera de influência do homem sobre o espaço. Concluiu da seguinte forma:
A reforma do direito penal tornou-se um processo gradual, que foi adaptando este setor do direito às exigências do ambiente. Este processo ainda não chegou ao fim. Acontece, porém, que por uma resolução do Conselho Solar, adotada há poucos dias, e que aprovou uma lei aplicável aos rebeldes, conspiradores e elementos associais, deu mais um passo para a frente. A sentença que pronuncio em nome da Humanidade é a seguinte:
A deportação da Terra, a perda da cidadania terrana e a proibição vitalícia de voltar à Terra ou a qualquer planeta do Império Solar que mantenha ligações com a Terra.”
Seguiu-se a fundamentação, que não despertou o menor interesse entre a assistência exaltada. Num complemento à sentença, foram revelados os últimos detalhes:
A frota espacial terrana colocará à disposição das autoridades uma nave que executará a deportação. A nave tem um tamanho que permite uma viagem relativamente confortável aos condenados. A tripulação será formada por cento e cinqüenta homens, inclusive os oficiais.
O destino da nave seria a estrela Rigel, na constelação de Orion. Os astronautas terranos sabiam que Rigel III, ou seja, o terceiro planeta desta constelação, possuía condições semelhantes às da Terra, motivo por que se prestava perfeitamente à colonização. A nave levaria recursos técnicos que garantiriam a sobrevivência dos condenados. E, face à composição originária do grupo, a metade do número total de réus eram mulheres.
A sentença fora proferida. Era a primeira da história terrana que ordenava a deportação para outro mundo.

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Carlos Eduardo gosta de tecnologia,estrategia,ficção cientifica e tem como hobby leitura e games. http://deserto-de-gobi.blogspot.com/2012/10/ciclos.html