segunda-feira, 11 de março de 2013

P-053 - Os Condenados de Isan - Kurt Mahr [parte 2]


Feriar lançou-lhe um olhar perplexo.
Não pretendo caminhar horas a fio por uma área contaminada — disse Perry. — Se passarmos pela galeria recém-aberta, a caminhada será mais fácil.
Feriar obedeceu. Comprimiu o botão de baixo.
Quando haviam descido quatro pavimentos, um sinal vermelho acendeu-se na parede dos fundos do elevador, junto ao teto. Ao mesmo tempo, ouviu-se um zumbido e, lá fora, o uivo estridente das inúmeras sereias.
Feriar estremeceu.
É o alarma! — fungou.
Perry fez um gesto de indiferença.
O que esperava? Que Belal nos deixasse escapar sem mais aquela?
Logo depois, uma voz metálica soou no alto-falante instalado no elevador:
Atenção! Alarma em todos os pavimentos! Dois prisioneiros muito importantes acabam de fugir: uma mulher vinda do abrigo de Fenomat e um desconhecido que surgiu não se sabe de onde. Ambos foram condenados à morte por sentença regular do tribunal de guerra e por isso terão de ser recapturados, vivos ou mortos.
Seguiu-se uma descrição dos dois prisioneiros. Cabia ressaltar que, em relação a Perry, Belal, que por certo fora o autor da descrição, se enganara um pouco. Ao menos, Ivsera não acreditava que alguém o pudesse reconhecer com base apenas nos dados vagos fornecidos por Belal.
Feriar começou a inquietar-se.
Sabe quantas pessoas temos em armas em Sallon?
Perry sorriu.
Espere... cinco mil e quinhentos, não é? Isso corresponde a quase oitenta por cento da população masculina entre quinze e cinqüenta anos.
Feriar ficou perplexo.
Sabe onde essa gente nos procurará? — prosseguiu Perry. — Lá em cima, na comporta de superfície.

* * *

Perry teve razão. O elevador chegou ao pavimento inferior, sem que ninguém os molestasse. O corredor que se estendia diante deles estava vazio.
Sem a menor hesitação, Perry seguiu o caminho que dava para a direita.
Guarde a arma — recomendou a Feriar. — Poderei cuidar de nós três. Na medida do possível, quero evitar o derramamento de sangue.
Feriar obedeceu sem dizer uma palavra. Desde o momento em que vira Perry pela primeira vez, Ivsera começou a acreditar que esse homem possuía um estranho poder. Será que ele sabia controlar os pensamentos e desejos de seus semelhantes?
Procurou examinar sua própria mente, mas não percebeu qualquer alteração.
Subitamente o corredor terminou numa parede cinzenta e nua. Mas isso não causou o menor embaraço a Perry. Abriu-a do lado direito e, para surpresa de Ivsera, atrás estendia-se um recinto que tinha o mesmo aspecto do compartimento de Fenomat, que Killarog lhe havia mostrado e, tal qual este, possuía duas portas.
A capacidade de orientação de Perry era espantosa. Dirigiu-se sem a menor hesitação aos dois homens que montavam guarda junto à segunda porta e disse:
Deixem-nos passar. Temos de ir a Fenomat para executar uma tarefa muito importante.
Ao que tudo indicava, um dos guardas não teve a menor dúvida. Mas o outro baixou o fuzil, fechando o acesso à porta, e disse em tom desconfiado:
O comandante Belal está procurando uma mulher e um homem que foram condenados à morte. Conheço o capitão Feriar. Mas será que vocês não são os fugitivos?
Perry pôs a mão no bolso. Ele o fez numa atitude indiferente, como quem já está cansado de exibir seus documentos. E, ao que parecia, os dois guardas pensavam que se tratasse da identidade de Perry.
Acontece que Perry acabou por tirar um objeto que tinha certa semelhança com uma pequena pistola. Ivsera não chegou a ver o que Perry fez com o objeto, mas no instante em que sentiu uma dor cruciante na cabeça, os dois soldados caíram imóveis. Nem tiveram tempo para soltar um grito.
Ivsera teve um calafrio.
Vamos! — disse Perry em tom tranqüilo. — É uma pena que foram tão desconfiados. Levarão duas horas para recuperar a consciência. Mas antes disso alguém os encontrará... e então já saberão onde procurar-nos.
Não estão... mortos? — gaguejou Ivsera, enquanto Perry abria a porta.
Perry riu.
Não. Como já disse, não derramo sangue enquanto tenho um meio de evitá-lo.
O corredor pelo qual seguiram era mais largo e alto que aquele que Killarog mandou abrir em prosseguimento ao abrigo de Fenomat. Ivsera começou a compreender que a “guerra dos túneis”, nome que costumava dar ao conflito, fora preparada há muito tempo por parte de Sallon. Deviam ter levado pelo menos um ano para abrir uma galeria desse tipo numa extensão de alguns quilômetros.
O corredor estava profusamente iluminado. Percebia-se que, além dos dois guardas inconscientes, não havia ninguém por perto. Ivsera achou que isso era um mau sinal para Fenomat. Se ainda estivesse havendo luta, a galeria se encontraria repleta de gente armada.
Perry caminhava vigorosamente. Ivsera percebeu que Feriar examinava repetidas vezes o homem desconhecido, como se procurasse compreender com quem lidava. Porém, nada estava conseguindo pois, de vez em quando, sacudia a cabeça, bastante contrariado, e murmurava palavras incompreensíveis. Ivsera o entendia, porque com ela estava acontecendo a mesma coisa. O desconhecido livrara-a de uma situação muito perigosa e, ao que tudo indicava, estava prestes a impor respeito ao regime despótico de Sallon. Portanto, deviam sentir-se gratos. De outro lado, porém, começava a apavorá-la por causa dos seus conhecimentos e capacidades.
Assim, por exemplo, a arma com que acabara de reduzir os dois guardas à inação. O que seria aquilo? Não os matara; apenas lhes roubara a consciência. Ivsera tinha certeza absoluta de que em Isan jamais existira um aparelho daquele tipo.
A conclusão que se poderia extrair dali era um pouco arriscada: o desconhecido não era de Isan. Vinha de outro mundo.
Antes que tivesse início a guerra em Isan, os dois Estados rivais, Othahey e Heyatha, realizavam esforços para conquistar o espaço. Em virtude da inimizade que reinava entre os dois Estados, esses esforços assumiram a feição de uma corrida obstinada. Depois que vários satélites gravitavam em torno do planeta, o lançamento do primeiro foguete espacial estava iminente de ambos os lados. E, em ambos os casos, o destino do foguete seria Vilan II, o planeta que tinha uma órbita entre dois outros que giravam em torno de Vilan.
Mas sobreveio a guerra e destruiu tudo que havia sido criado. Havia uma única coisa que não conseguira destruir: o saber dos homens, que lhes dizia ser a navegação espacial não só possível, como necessária, pois em outros mundos poderia haver outros seres, talvez inteligentes, e que se deveria tentar entrar em contato com eles.
Será que Perry era um desses seres?

* * *

Depois de uma marcha de três horas, durante a qual se haviam encontrado com alguns soldados que não criaram o menor problema, Perry deu outra prova de seus conhecimentos sobrenaturais. Parou e perguntou:
A senhora não disse que em Fenomat abriram outra galeria em direção a Sallon?
A pergunta foi dirigida a Ivsera. A jovem assustou-se. Tinha certeza absoluta de que nunca havia falado sobre essa galeria. A não ser com Killarog, que estava morto.
Será que Perry sabia ler pensamentos?”, pensou.
Não... — respondeu em tom hesitante — não disse nada disso. Mas de qualquer maneira essa galeria existe.
Perry sorriu.
Onde?
Ivsera descreveu a situação da galeria com a maior exatidão possível. Por algum tempo, Perry parecia bastante pensativo. Finalmente apontou para a parede da esquerda do corredor e disse:
Se neste ponto abrirmos uma galeria que desça dez graus em relação à horizontal, devemos encontrar a galeria de Fenomat numa distância de cem metros, não é?
Ivsera não sabia. Além disso, a observação lhe parecia ser puramente teórica.
Quem poderia abrir uma galeria numa hora dessas, e para que poderia servir a mesma?”, refletiu.
Será preferível que desapareçamos por algum tempo — apressou-se Perry em explicar. — Uma porção de gente está atrás de nós.
Ivsera e Feriar olharam para trás. Mas a galeria que se estendia às costas deles continuava vazia como estivera até então.
Perry pôs a mão no bolso e tirou a pequena arma com que fizera desmaiar os dois guardas; entregou-a a Feriar. Depois fez um gesto em direção à galeria.
Se aparecer alguma coisa por aí — explicou — aponte o cano da arma nessa direção e aperte o botão vermelho. Isso nos livrará dessa gente. Convém olhar de vez em quando para o outro lado. Provavelmente Belal procurará agarrar-nos num movimento insinuante.
Não houve a menor objeção. Feriar pegou cautelosamente a estranha arma e examinou-a. Ivsera colocou-se a seu lado e, de tão curiosa que estava, nem percebeu de onde Perry tirou o instrumento comprido que dirigiu contra a parede esquerda do corredor.
Mas viu que do cano do aparelho saiu um raio luminoso esverdeado que se alargou em forma de funil e atingiu a parede. Dentro de poucos segundos surgiu um buraco profundo. A rocha abriu-se para ambos os lados, como se tivesse sido transformada em nuvens de gás.
Perry concentrou-se exclusivamente no seu trabalho. Apesar disso parecia notar os olhares espantados de Ivsera e Feriar.
Tome cuidado, Feriar! — recomendou. — Senão de repente estarão aqui sem que percebamos qualquer coisa.
O misterioso raio verde trabalhava silenciosamente e com uma rapidez inacreditável. Ivsera assistia com o maior espanto, mas de repente sua atenção foi desviada.
Uma gritaria e o ruído de passos invadiram o abrigo de Sallon. À luz das lâmpadas, viam-se soldados que corriam apressadamente pelo corredor. Ao que parecia Perry os percebera, embora já tivesse penetrado bem longe para dentro da parede. Gritou para Feriar:
Detenha-os apenas por um instante; daqui a pouco tudo estará resolvido.
Tremendo de medo, não dos soldados, mas da arma desconhecida, Feriar dirigiu o cano curto sobre os soldados de Sallon, que já o haviam reconhecido juntamente com Ivsera e se aproximavam em meio a uma gritaria furiosa.
Atire! — exclamou Ivsera assustada.
Feriar apertou o botão. Os efeitos do tiro foram muito maiores do que imaginaria. Até parecia que os homens haviam batido numa parede: tombaram, ficando imóveis.
Os homens que vinham na retaguarda não sabiam o que tinha acontecido aos outros, mas compreenderam o perigo. Abrigaram-se atrás dos corpos dos homens inconscientes e apontaram os fuzis. Feriar hesitou.
Cuidado! — gritou Ivsera. — Deite!
No mesmo instante em que os fuzis começaram a espocar, deixou-se cair para a frente. Feriar continuou de pé e voltou a levantar a arma. Comprimiu o botão e silenciou outro grupo dos soldados de Sallon. Só vez por outra, um ruído soava pelo corredor.
Ivsera ouviu os projéteis baterem contra as paredes e cantarem ricocheteando.
Algumas peças de metal reluzente caíram bem à sua frente, continuaram a rolar e imobilizaram-se. Incrédula, Ivsera pegou uma delas. Era um projétil de fuzil; alguma força misteriosa fizera com que interrompesse sua trajetória e caísse ao chão.
Ouviu a voz de Perry, que parecia vir através de uma parede muito espessa:
Venham! Já consegui.
Feriar continuava de pé, com os olhos fitos nos homens inconscientes que estavam jogados no corredor. Ivsera teve de empurrá-lo suavemente para dentro da galeria lateral que acabara de ser aberta por Perry.
Com um espanto enorme, ela percebeu que neste meio tempo a galeria já havia avançado cinqüenta metros. De pé no fim do túnel, Perry lhes fez um sinal com a mão.
Vamos fechar-lhes o caminho — disse. — Andem depressa!
Feriar despertou do torpor em que se encontrava e começou a caminhar vigorosamente.
Cheguem bem perto! — pediu Perry. Dirigiu o cano comprido de sua arma contra o teto da galeria que acabara de perfurar. Concentrando os raios num feixe finíssimo, cortou fendas estreitas na rocha. Dentro de alguns segundos, fez com que sua entrada desmoronasse. Prosseguiu na operação, até que a galeria secundária ficasse obstruída numa extensão de cerca de trinta metros.
Isso! — disse Perry com uma risada. — Acho que levarão pelo menos três dias para remover o entulho.
Prosseguiu no seu trabalho e, logo depois, abriu-se o último pedaço de rocha que dava acesso à galeria do abrigo de Fenomat.
A fuga fora bem sucedida. O corredor estava vazio. Talvez os ocupantes do subsolo de Sallon ainda não o haviam descoberto; ou então, o que era mais provável, não se interessaram por ele, porque de nada lhes poderia servir.

* * *

Para sua surpresa, no pavimento inferior do abrigo de Fenomat só encontraram dois guardas, postados na saída do corredor de Sallon, que dava diretamente para o antigo gabinete de Havan. Ivsera pensou na cara que este deveria ter feito quando de repente a parede desmoronou atrás dele e os soldados de Sallon se precipitaram pela abertura.
Perry liquidou os dois guardas com um único tiro e, ajudado por Feriar, levou-os a uma sala vizinha. Disse que a energia do disparo era suficiente para deixá-los inconscientes por dois dias, e que seria preferível não serem descobertos antes disso.
Depois dessas palavras, Feriar olhou Perry com uma expressão séria. Hesitou por um instante e disse:
Nós lhe devemos muitos agradecimentos, e sabemos perfeitamente que em Isan deve ser considerado como um tipo de ser superior. Mas ficaríamos muito mais à vontade se quisesse dizer-nos o que pretende fazer e, principalmente, por que pretende fazê-lo.
Perry fez um gesto afirmativo.
Muito bem. A resposta à primeira pergunta é fácil. Pretendo reconquistar o abrigo de Fenomat. Para dar uma resposta parcial à segunda pergunta, direi o seguinte: se Belal conservar em seu poder no abrigo de Fenomat, isso representará o primeiro passo da escalada que fará dele a potência número um de Isan. Pelo que sei, aqui não existe nenhum lugar em que haja dois abrigos que fiquem tão próximos um do outro. Portanto, não haverá ninguém com maior domínio que Belal. Depois desse passo, o gorducho fará o possível para dominar todo o planeta; e, uma vez que será o maior poder, deverá conseguir.
Perry fez uma ligeira pausa e prosseguiu em tom ligeiramente irônico.
Uma vez que Belal pretende instalar o sistema ditatorial em Isan, deveremos estragar seus planos.
Feriar fez um gesto afirmativo; parecia muito sério.
E a outra parte da resposta? — perguntou Ivsera.
Deveremos estar juntos por mais algum tempo antes que eu possa dar a resposta integral. Por enquanto, nada posso adiantar.
Feriar interveio:
O senhor dispõe de uma série de armas que lhe garante uma superioridade absoluta sobre qualquer inimigo. Mas será que conseguirá dominar a guarnição do abrigo, que deve ser superior a mil homens? Convém não esquecer que estas instalações são muito complicadas. Para uma pessoa isolada é praticamente impossível orientar-se por aqui.
Perry exibiu um sorriso condescendente.
Para mim não haverá o menor problema; pode acreditar — respondeu.
Perry pôs a mão num dos bolsos de seu traje esquisito. Tirou um objeto quadrado, achatado e que, de tão pequeno, facilmente poderia ser escondido na palma da mão de qualquer pessoa.
Ivsera ouviu-o dizer algumas palavras, enquanto encostava o pequeno aparelho à boca. Não compreendeu essas palavras.
Mas, em Isan havia uma única língua, motivo por que o conceito de idioma estrangeiro era totalmente desconhecido dos habitantes do planeta. Por isso Ivsera viu no fato de não ter entendido a fala de Perry mais uma prova de que o mesmo provinha de um mundo desconhecido.
Ao que parecia, Feriar ainda estava longe de chegar a uma conclusão desse tipo. Fitou-o com uma expressão incrédula enquanto Perry falava para dentro do minúsculo aparelho. Mas, quando de repente, ouviu uma voz saindo desse aparelho, e que tal qual Perry emitia sons de uma língua estranha, ficou apavorado.

* * *

John Marshall ocupou o lugar de Perry Rhodan, enquanto este foi verificar o resultado do empreendimento do qual tivera conhecimento por meio da escuta das palestras de Killarog.
E a transmissão que tanto espanto causou em Ivsera e Feriar foi dirigida a Marshall. E este captou um ligeiro relato da situação e obteve estas instruções:
Arme-se com um desintegrador e um radiador de impulsos térmicos e venha até aqui. Vamos atacar o abrigo simultaneamente de dois lados. Laury ficará com Rodrigo. Entendido?
Perfeitamente. Permanecerei em contato com o senhor.
Está bem — concluiu Rhodan. — Faça o possível para não matar ninguém.

* * *

A reconquista do abrigo de Fenomat não passou de uma farsa. Perry atravessou os corredores e deixou todo mundo inconsciente com a arma misteriosa. Caberia a Feriar e Ivsera separar os homens de Fenomat dos de Sallon. Os primeiros ficariam estendidos no chão até que recuperassem os sentidos; os outros seriam amarrados.
Antes do início da operação, Perry fechara as extremidades de ambas as galerias, a fim de impossibilitar a remessa de reforços de homens e materiais para Fenomat, ao menos por via subterrânea.
O abrigo de Fenomat era formado de um total de cem pavimentos. Face à arma de grande alcance de que dispunha, Perry não demorou mais de uma hora na operação de limpeza de cada um. Vez por outra, recorria ao aparelho quadrado para conversar com alguém numa língua estranha. Quanto ao conteúdo das palestras, apenas disse a Ivsera e Feriar que um amigo seu havia iniciado a limpeza do abrigo, começando da parte de cima e que, dentro em breve, se encontrariam com ele na altura do qüinquagésimo pavimento.
Uma coisa que quase chegava a ser mais espantosa que a série de acontecimentos foi a persistência com a qual Rhodan se dedicou à tarefa. Depois de concluída a limpeza de dez pavimentos, Feriar teve de ser substituído por um elemento de Fenomat, já que não conseguia manter-se de pé de tão cansado que estava. Ivsera desistiu depois de mais dois pavimentos, após ter providenciado um substituto saído das fileiras dos homens que já haviam despertado.
Quanto a Perry, este não demonstrou o menor sinal de cansaço. Tinha o aspecto de quem acabava de acordar de um sono reparador. Ivsera sentiu vergonha, mas enquanto ainda estava com vergonha adormeceu.
Quando abriu os olhos, um silêncio total reinava em torno dela. A maioria das pessoas inconscientes havia recuperado os sentidos. Como estas não tivessem a menor idéia do que acontecera, mantinham-se em silêncio. Os prisioneiros vez por outra faziam um esforço de livrar-se das amarras ou sair dos calabouços fechados com portas de aço, mas não conseguiram nem uma coisa nem outra. Assim, acabaram por conformar-se com o destino.
Alguns lembraram-se de terem visto Ivsera em companhia do homem que com sua arma havia criado toda a confusão. Por isso, a mesma foi assediada com perguntas logo que se levantou. Mas em vez de responder correu em direção ao elevador e subiu a fim de procurar Perry.
Encontrou-o no quadragésimo oitavo pavimento. Ao seu lado estava Feriar e mais um homem que tinha olhos brancos que nem Perry e trazia na mão uma arma igual à que este usara.
Perry sorriu para a jovem.
Tudo liquidado — disse. — O abrigo está em nosso poder. Ivsera, este é meu amigo Marshall. Se não fosse ele, teríamos mais algumas horas de trabalho.
Ivsera inclinou a cabeça para Marshall. Este cumprimentou-a com um sorriso alegre.
Imagine! — prosseguiu Perry. — Ainda havia um foco de resistência em Fenomat. Um punhado de jovens defendia-se com as poucas armas de que dispunha contra as investidas dos homens de Sallon. Estavam entrincheirados nos laboratórios químico-biológicos.
Ivsera aguçou o ouvido.
Sabe os nomes deles? — indagou.
Sei os nomes de dois. Um se chama Thér e o outro Irvin.
Ivsera soltou um grito de alegria.
Thér e Irvin. Coitados!
Sim, quase não conseguiam manter-se de pé de tão famintos que estavam. Logo lhes dei alguma coisa para comer. Aliás, ao que parece a questão dos abastecimentos está se transformando no problema mais grave deste abrigo. Todos os ocupantes estão subnutridos. Não têm mantimentos?
Ivsera fez um gesto de desânimo.
Não, mais nada.
Perry não se impressionou.
Bem, nesse caso teremos de arranjar alguma coisa.
A tarefa de conseguir mantimentos para mais de dez mil famintos não causava a menor dor de cabeça a Rhodan.
Feriar tomou a palavra.
Perry pretende apoderar-se também de Sallon. O que acha disso?
Ivsera abriu os dedos.
Se quisesse poderia conquistar todos os abrigos de Isan.
Não estou interessado nos abrigos; apenas em Belal — disse Perry, sacudindo a cabeça.
Ivsera sentiu que naquela altura as questões políticas já não exigiam sua presença. Um ser mais poderoso assumira a regência, e qualquer tentativa de ajudar ou oferecer resistência só poderia conduzir ao ridículo.
Depois de obter a concordância de Perry, ela instruiu alguns homens de Fenomat a tirarem as roupas dos prisioneiros, com exceção do estritamente necessário, e as levarem ao laboratório. Pelos seus cálculos, isso lhe permitiria fabricar uma ração completa de um dia para cada cidadão de Fenomat. Dessa forma, poderiam resistir até que Perry lhes trouxesse um auxílio que resolvesse a situação em definitivo.
No laboratório encontrou-se com Irvin e Thér. Irvin abraçou-a de tão eufórico que se sentiu. Antes, nunca se teria permitido esse tipo de liberdade.
Moça, como estou satisfeito em revê-la! — exclamou.
Ivsera desprendeu-se dos braços de Irvin e fitou-o. Achava-se bastante mudado depois que o vira pela última vez. Ao que parecia, só faltara a luta para transformar o rapaz num homem de verdade.
Pelo que ouvi dizer, você se transformou num herói — disse Ivsera.
Irvin riu.
Não foi por minha vontade — respondeu. — Este feitor de escravos — prosseguiu, apontando para Thér — apareceu de repente com três homens, colocou um fuzil na minha mão e gritou: “O pessoal de Sallon está chegando! Atire neles, senão atirarão em você!” Atiramos em quatro. Não tive outra alternativa. Com os produtos químicos que temos aqui, fizemos granadas de mão e limpamos a área. Poderíamos resistir indefinidamente, se não fosse a fome. Mas aquele milagreiro desconhecido chegou bem na hora. Aliás, quem é?
Ivsera explicou que sabia tanto quanto ele mesmo.
A esta hora está fazendo uma limpeza em Sallon, não é? — resmungou Thér de repente. — Tomara que encontre Havan, o traidor.
Ivsera virou-se abruptamente.
O quê? Havan é um traidor?
Então você ainda não sabia? — perguntou Irvin. — Há vários anos está compactuando com os homens de Sallon. Pelo que dizem, Belal lhe prometeu que depois da conquista de Fenomat, Havan seria uma espécie de governador. Não foi por acaso que a galeria escavada pelos ocupantes de Sallon saiu justamente no gabinete dele.
Ivsera soltou um gemido. Havan, um traidor! Há muito tempo ela o tinha na conta de um homem egoísta, arrogante, intrigante e mais uma porção de coisas. Mas nunca imaginaria que poderia transformar-se num traidor.
Subitamente lembrou-se de algumas palavras ditas por ele:
“— Por enquanto ainda temos um Conselho...”
Então foi isso que ele quis dizer.
Ivsera estremeceu ao pensar no destino que aguardaria Havan se conseguissem prendê-lo. Segundo as leis de guerra que prevaleciam em todos os abrigos, a pena pela traição era uma só: a morte.
Sacudiu esses pensamentos e passou os olhos pelas fileiras de instrumentos reluzentes. Seu olhar recaiu sobre o monte de roupas tomadas dos prisioneiros, que os coletores estavam empilhando num canto.
Vamos ao trabalho! — disse, dirigindo-se a Irvin. — Precisamos comer alguma coisa.
4



Perry Rhodan não tivera a intenção de interferir nos acontecimentos que se desenrolavam em Isan.
Acompanhado de Gucky, o rato-castor, dos mutantes Laury Marten e John Marshall, e finalmente do conde Rodrigo de Berceo, libertado do zôo galático, Rhodan teve muito trabalho em escapar no seu jato espacial de Tolimon, o mundo dos aras. Marshall e Laury haviam recebido a incumbência de procurar descobrir em Tolimon o segredo do medicamento que retardava a decadência das células, exercendo as funções de um verdadeiro elixir da vida.
Laury conseguira obter permissão para penetrar no zôo galático, no qual os aras haviam internado seres de todos os setores conhecidos da Galáxia. Um dos ocupantes do zoológico, que segundo a classificação arcônida pertencia ao grau de inteligência C, era o conde Rodrigo de Berceo, um terreno do século XVII. Laury cometeu o erro de apaixonar-se por esse homem. No fogo da paixão, fez certas coisas que provocaram a desconfiança dos aras. Rhodan teve de intervir. Não conseguiu encontrar a fórmula estrutural do elixir da vida. Mas fugiu de Tolimon em companhia dos dois mutantes e do infeliz Rodrigo. Além disso, Laury conseguiu subtrair uma garrafa do precioso elixir.
Uma série de saltos de transição levou o jato espacial para além do alcance das naves que o perseguiam e para o interior do coração da Galáxia. O veículo espacial encontrava-se fora das rotas da navegação cósmica. Rhodan pretendia passar uns trinta dias no acompanhante do sol azul do astro geminado, esperando que nesse tempo a caçada fosse suspensa.
Sabia perfeitamente que os acontecimentos de Tolimon poderiam provocar o interesse da central positrônica do Império Arcônida. Se as informações sobre o incidente de Tolimon que chegassem ao seu conhecimento fossem suficientes, havia o risco de concluir que só Rhodan poderia ser responsável pelos mesmos. E Perry era considerado como morto pelo cérebro positrônico. E a crença de que há mais de cinqüenta anos a Terra fora destruída e a Humanidade eliminada por um ataque dos saltadores teria que ser mantida viva.
Só essa manobra desviacionista permitira à Terra chegar ao fim do século XX sem ser atingida pelas perseguições dos saltadores e pelos ciúmes do cérebro positrônico. E agora, cinqüenta e seis anos depois da manobra, o êxito desta poderia ser frustrado.
Será que cinqüenta e seis anos foram suficientes para transformar a Terra num mundo que pudesse afirmar-se no confronto das potências galácticas? Já teria chegado a hora de suspender o jogo de esconder?
Rhodan acreditava que sim, mas não tinha tanta certeza. Por isso achou preferível que os perseguidores perdessem sua pista.
Durante o pouso em Isan os instrumentos constataram uma radiatividade extraordinária na atmosfera do planeta. As ruínas existentes nos dois continentes faziam concluir pela ocorrência de uma guerra nuclear que deveria ter sido travada há alguns anos.
Depois do pouso do jato espacial, Rhodan acompanhou a troca de mensagens entre Killarog e seus companheiros. Mandou que Gucky, o rato-castor, procurasse localizar outros sobreviventes na superfície do planeta. Para executar a tarefa, Gucky recorreu aos seus dons parapsicológicos e paramecânicos: a teleportação e a telepatia.
Rhodan pôs-se a caminho para examinar os dois abrigos mais próximos. Nessa oportunidade, viu-se numa situação que o obrigou a intervir nos acontecimentos.
E agora, dois dias de Isan depois de sua primeira aparição, mantinha os dois abrigos firmemente em suas mãos e recebera de Gucky a notícia de que em Isan havia um total de onze abrigos intactos. Outros cinco, que ficavam exatamente no centro das explosões nucleares, não haviam resistido ao impacto.
A conquista do abrigo de Sallon correu sem incidentes, mas o resultado da operação não foi satisfatório para Rhodan e Marshall, pois não encontraram Belal nem Havan, o traidor.
Estavam desaparecidos e, conforme Rhodan soube de várias pessoas, com eles desapareceram cerca de cem homens fortemente armados.
De início, Rhodan acreditou que não teria a menor dificuldade em localizar Belal e Havan e obrigá-los a capitularem. Mas constatou-se que não estavam escondidos em nenhum dos dois abrigos, nem em qualquer lugar na superfície.
Rhodan convencera-se de que o abrigo de Sallon disporia de uma galeria secundária ou de um corredor situado bem embaixo da superfície e que levava a esta. Sobre a existência deste refúgio, apenas algumas poucas pessoas estavam informadas. E nenhuma dessas ficou para trás, conforme se apurou num rigoroso interrogatório dos prisioneiros.
Por isso, Rhodan teria de contar com os próprios recursos a fim de descobrir o caminho pelo qual Belal e Havan haviam fugido.
Por enquanto não pensava nem de longe que a fuga de Belal poderia representar um perigo para ele. Acontecia, porém, que sua permanência em Isan seria limitada, e assim queria providenciar para que mesmo depois de sua partida, Havan e Belal não pudessem colocar em perigo a democracia dos dois abrigos.

* * *

Belal não dava a perceber que se encontrava em situação difícil. Para ele, uma situação só se torna desesperadora quando está com a faca sobre o peito e as mãos amarradas. E essa atitude face ao destino era um dos motivos por que Belal era um inimigo muito perigoso.
Então, o que me diz? — perguntou em tom áspero ao homem de meia-idade que se encontrava à sua frente.
O homem era Malanal, um cientista e um gênio em sua especialidade, as ciências naturais. Desde o início, Belal acreditara que um dia poderia precisar dele. Por isso interessou-se por sua pessoa e, valendo-se dos recursos existentes no abrigo, mandara construir um amplo laboratório equipado com instrumentos preciosíssimos. As salas em que foi instalado o laboratório haviam sido escavadas na rocha cerca de um ano depois da guerra e obtiveram dois acessos secretos. Alguns dos homens que trabalharam na obra pertenciam à guarda pessoal de Belal, na qual o mesmo confiava irrestritamente, e outros desapareceram em algum campo de trabalho, de onde nunca retornaram.
Quando surgiu a intervenção do desconhecido chamado Perry, Belal percebeu que sua precaução não fora supérflua. Retirou-se para o laboratório juntamente com sua guarda pessoal e alguns elementos de confiança, e teve certeza de que por enquanto não seria descoberto.
Esse “por enquanto” lhe bastava. Belal não pretendia reconhecer Perry por muito tempo como o dono da situação. Malanal desempenhava um papel importantíssimo em seus planos.
O cientista abriu os dedos, para dar a entender que não estava em condições de fornecer informações minuciosas e fidedignas.
Mandei que dois dos seus homens subissem, Belal...
Tomara que não tenham andado por aí de maneira a serem vistos do veículo — interrompeu Belal em tom zangado.
Não. Agiram com todo o cuidado. Lá em cima não saíram ao ar livre. Do buraco atiraram algumas pedras contra o veículo.
Belal franziu a testa.
Que bobagem é essa?
A alguns metros do casco do veículo as pedras ricochetearam, como se tivessem batido numa parede invisível, e caíram ao chão. Vemo-nos diante do mesmo fenômeno relatado pelas pessoas que perseguiram a prisioneira Ivsera e o capitão Feriar. Os desconhecidos sabem envolver-se por um campo protetor no qual nenhum tipo de matéria consegue penetrar.
Belal olhou fixamente para a frente.
Quer dizer que seria totalmente inútil tentar atacar o veículo? — perguntou depois de algum tempo.
Malanal sacudiu a cabeça. Belal impacientou-se.
Fale logo!
Malanal inclinou ligeiramente o corpo.
Num certo momento, esse desconhecido que atende ao nome de Perry desejará voltar ao veículo — explicou. — Uma vez que também é feito de matéria, não poderá entrar se os campos defensivos não forem desativados por um instante. Se no mesmo instante submetermos a nave a um bombardeiro cerrado, provavelmente conseguiremos destruí-la.
Belal contorceu o rosto.
Não quero destruir a nave — exclamou. — Apenas quero danificá-la, pois pretendo retirar-lhe alguns instrumentos.
Malanal fez um gesto de concordância.
Perfeitamente, Belal. Isso depende da intensidade do bombardeio. Este ponto não é da minha competência.
Belal levantou-se.
Muito bem. Tomarei todas as providências. Acredito que dois lança-foguetes de três polegadas serão suficientes para danificar a nave e matar os desconhecidos ou colocá-los fora de combate. Mandarei que os homens assumam imediatamente seus postos na entrada da superfície. Foi uma sorte o desconhecido ter pousado justamente nesse lugar.
Saiu da sala sem dignar-se de dirigir outra palavra a Malanal.
O setor secreto em que ficava o laboratório do abrigo de Sallon consistia num único corredor com vinte salas. Cinco delas serviam de residência aos cientistas, enquanto as demais eram ocupadas pelo laboratório.
Nos sete anos decorridos desde a instalação do laboratório, os cientistas haviam adiantado as pesquisas e alcançaram resultados que, segundo acreditava Belal, não foram atingidos em qualquer outro abrigo.
Assim, Belal garantiu uma superioridade absoluta para o dia em que os habitantes de Isan pudessem voltar à superfície de seu mundo e começassem vida nova.
Numa das vinte salas do abrigo de Sallon, Havan instalara-se juntamente com três guarda-costas que Belal colocara à sua disposição. Não o fez porque receasse pela vida de Havan, mas por acreditar que o caráter deste se assemelhava tanto ao seu e, assim, não deveria confiar nele.
Nos dias que se passaram depois da queda do abrigo de Sallon, Havan parecia muito mais abatido que Belal. Este começou a acreditar que no entender do traidor a situação realmente era desesperadora.
Essa situação lhe convinha, e por isso só transmitiu pequena parte da conversa que manteve com Malanal e das esperanças que este lhe infundira.
Havan fez um gesto melancólico. Belal retirou-se para fazer uma ligeira sesta em seu quarto.
O traidor deu-se ao trabalho de ficar com a porta aberta e certificar-se de que Belal não voltaria. Depois dirigiu-se aos guarda-costas.
Ele não me contou tudo. Vocês não perceberam? Malanal disse mais que isso. Provavelmente existe uma possibilidade de enfrentar os desconhecidos. — Preciso saber disso. Procurem descobrir! Já sabem qual é a recompensa que receberão.
Os guarda-costas confirmaram com um aceno de cabeça. Por certo, Belal não teria dormido tão tranqüilamente se soubesse que Havan sabia conquistar a dedicação de seus próprios subordinados por meio de um jogo de promessas e ameaças. Naquela hora já não se sentiam empolgados pelas funções que Belal lhes havia atribuído, pois Havan prometeu que lhes colocaria à disposição um abrigo com os ocupantes. Isto aconteceria quando o desconhecido e Belal tivessem sido subjugados e quando todos os abrigos de Heyatha e talvez também os de Othahey tivessem caído nas mãos de Havan através das artes técnicas de Malanal.
Por enquanto havia um ponto fraco no plano tático de Havan: o cientista Malanal. O traidor constatara que a equipe científica estava inteiramente dedicada ao velho. Não havia como obter acesso aos segredos do laboratório sem a cooperação de Malanal.
Acontece que Malanal era um homem que sabia guardar distância. Havan tinha a impressão de que Malanal não concordava com Belal em todos os pontos. Mas, quando o traidor pensou que poderia aproveitar esse fato como ponto de partida para minar as boas relações existentes entre o ditador e o cientista e conquistar o apoio do segundo, defrontou-se com a resistência deste. Na oportunidade, Malanal explicou-lhe que jamais trabalharia para Belal ou para Havan, mas apenas para a ciência.
Todavia, declarou-se disposto a não revelar a Belal o conteúdo da palestra que mantivera com Havan.

* * *

Perry Rhodan pretendia utilizar Gucky na operação de busca que visava à descoberta de Belal e Havan, assim que o rato-castor regressasse da viagem de inspeção.
Gucky era teleportador. Era capaz de saltar ao acaso pelos arredores do abrigo, o que lhe permitiria encontrar o esconderijo.
No entanto, dois dias depois da conquista de Sallon, Laury informou numa mensagem transmitida em tom exaltado que Gucky voltara para o jato espacial, inconsciente e gravemente ferido. O salto que o trouxera de volta à pequena nave espacial consumira suas últimas energias. Sangrava de várias feridas que, segundo as informações de Laury, haviam sido produzidas por simples tiros de fuzil. A mutante era bem versada em enfermagem, motivo por que Rhodan podia deixar Gucky entregue aos seus cuidados. Laury garantiu que dentro de alguns dias o rato-castor estaria em perfeita forma.
Por enquanto ninguém sabia o que lhe havia acontecido. Como também possuísse o dom da telepatia, dificilmente poderia ter sido atingido por qualquer atirador. Teria adivinhado os pensamentos do atacante. Talvez tivesse caído numa armadilha mecânica. Face à desconfiança que os sobreviventes da grande guerra de Isan nutriam uns para com os outros era perfeitamente possível que nos abrigos houvesse dispositivos automáticos de tiro ou outros mecanismos semelhantes. E Gucky estaria indefeso diante dos mesmos, caso se arriscasse demais.
Para Rhodan os ferimentos sofridos por Gucky representavam um inconveniente muito sério. Havia necessidade absoluta de encontrar Belal e Havan, pois do contrário todos os esforços em prol do estabelecimento de uma nova ordem nos dois abrigos provavelmente teriam sido realizados em vão.
Os ocupantes dos abrigos de Fenomat e Sallon consumiram metade dos alimentos concentrados que o jato espacial trazia a bordo. Face à natureza destes a sensação de saciedade duraria cerca de trinta dias. Rhodan esperava que nesse tempo conseguiria obter alimentos naturais não concentrados. Do contrário teria de chamar uma nave terrana com mantimentos.

* * *

No dia seguinte, Marshall fez uma descoberta importante. Depois de concluída a operação a dois na conquista nos abrigos, permaneceu em Sallon, onde procurava descobrir a pista de Belal e Havan.
Revistou cuidadosamente o abrigo e acabou parando na usina que gerava a energia necessária à iluminação, à renovação do ar e a várias outras finalidades.
Foi por simples acaso que nessa oportunidade Marshall fez a descoberta. O acaso consistia no fato de que ao mesmo tempo em que o chefe dos mutantes se encontrava na usina energética, Malanal realizava no laboratório secreto uma experiência que consumia uma quantidade considerável de energia elétrica.
Marshall realizara um cálculo aproximado e chegara à conclusão de que o abrigo consumia, em média, um total de duzentos mil quilowats. Estava tão convencido de seu conhecimento que não admitia uma variação acima de cinqüenta por cento.
Ao ler o quadro do cabo principal da usina, constatou que a energia fornecida naquele momento atingia mais de um milhão de quilowatts. Pelos seus cálculos, isso era impossível.
Chamou Rhodan, pois tinha certeza de ter descoberto uma pista. Rhodan veio imediatamente. Mandou que por alguns minutos todos os pontos de consumo de energia do abrigo propriamente dito fossem desligados. Com isso o desempenho da usina teria de baixar para zero. No entanto, ainda subsistiu um fornecimento de pouco menos de oitocentos mil quilowatts, ou seja, o quádruplo do que, segundo os cálculos de Marshall, representava o gasto total do abrigo. E essa força fluía para algum canal secreto.
Rhodan levou quinze minutos para localizar a série de cabos pelos quais corria a energia. Dali a pouco o consumo extraordinário diminuiu de repente para cem quilowatts.
Rhodan estava satisfeito.
Está bem — disse, dirigindo-se a Marshall. — Espere aqui. Irei à nave e trarei um desintegrador de tamanho grande. Se seguirmos os cabos, encontraremos o esconderijo de Belal.
Sorriu ligeiramente e acrescentou:
Belal não foi muito hábil, pois do contrário teria instalado uma usina energética autônoma no abrigo. Gostaria de saber o que faz com os oitocentos mil quilowatts.
Rhodan voltou à superfície pelo caminho mais rápido. O traje que usava, e que tanto chamara a atenção de Ivsera, representava um aperfeiçoamento do traje transportador arcônida. Não chamava tanto a atenção, mas em compensação a potência de seu gerador antigravitacional era dez vezes maior. O campo de deflexão e o campo defensivo trabalhavam com circuitos independentes; cada um dispunha de suprimento de energia em quantidade suficiente. No caso de numerosos impactos de projéteis, já não seria necessário renunciar à invisibilidade para evitar a penetração dos mesmos.
Assim que saiu da comporta de superfície, Perry subiu ao ar e, deslocando-se em alta velocidade pouco acima do capim, tomou a direção do jato espacial.
Já era noite.
Uma noite muito estranha”, pensou Rhodan.
A bola vermelho-escura do sol Vilan brilhava no horizonte, e inúmeras estrelas salpicavam o céu tingido de vermelho.
Rhodan levou apenas alguns minutos para chegar à nave espacial. Usou o pequeno transmissor que sempre trazia para enviar o sinal codificado automático que desativava os campos defensivos por um instante, permitindo seu ingresso na nave.

* * *

De início Belal pretendera executar o golpe sozinho. Mas Havan insistiu tanto que acabou concordando com a sua companhia. O que o levou a tomar esta decisão foi principalmente a informação dos três guarda-costas de Havan, segundo a qual acabaria caindo na melancolia se não houvesse logo uma variação em sua rotina de vida. Belal estava firmemente decidido a eliminar Havan o quanto antes, para que este não pudesse interferir em seus planos. No entanto, por ora convinha que o traidor acreditasse que era um elemento útil, tratado de igual para igual. Havia vários motivos para isso. Um deles consistia no fato de que Havan dispunha de vários adeptos em Fenomat, que no caso de um confronto se guiariam exclusivamente por sua palavra.
Belal considerou tão importante a neutralização do veículo inimigo, do qual a essa altura também Malanal acreditava tratar-se de um tipo de nave espacial, que resolveu postar-se pessoalmente na saída do setor secreto do laboratório, em companhia de Havan e dois elementos de toda confiança. Os dois soldados colocaram os lança-foguetes em posição de tiro. No momento decisivo, bastaria abrir a portinhola e fazer fogo.
Um tipo de telescópio, cuja objetiva saía apenas alguns centímetros acima do nível do solo, garantia a visão perfeita do estranho veículo. A objetiva era de formato irregular e possuía o aspecto de uma pedra que se encontrasse ali por acaso. Belal tinha quase certeza de que os ocupantes do veículo — se é que no momento havia alguém a bordo — não perceberiam nada.

* * *

Laury não tinha mãos a medir. O rato-castor, gravemente ferido, precisava de cuidados constantes. Era bem verdade que o uso dos medicamentos que o jato espacial trazia a bordo eliminara por completo o risco de infecção. Mas Gucky estava bastante debilitado, e a reconstituição de suas energias seria levada a efeito progressivamente.
O rato-castor já recuperara a consciência. Contou a Laury o que lhe havia acontecido. Conforme supusera Rhodan, caíra numa armadilha mecânica enquanto examinava um abrigo do lado de dentro. Não havia ligado o campo defensivo, pois estava protegido pelo campo de deflexão e acreditava ter todos os motivos para pensar que ninguém atiraria contra uma criatura invisível. Enganara-se e agora, cheio de arrependimento, lembrava-se do conselho de Rhodan, que lhe recomendara que não assumisse o menor risco e, principalmente, que em hipótese alguma penetrasse num abrigo.
Além de Gucky, o conde Rodrigo de Berceo exigia os cuidados de Laury.
Rodrigo dera a entender, de forma pertinaz e inequívoca, que “o arranjo dos assuntos pessoais” de um homem deve ter primazia sobre o amor. Assim a paixão de Laury pelo conde asteca-espanhol diminuíra um pouco. Além disso constatou-se que para um homem raptado na Terra em pleno século XVII e mantido numa espécie de museu zoológico, longe do processo tecnológico, o salto para o mundo do século XXI estava ligado a dificuldades consideráveis que por vezes chegava a abalar os alicerces de suas estruturas mentais. Dali em diante, o resto da paixão desvanecera-se, cedendo lugar a uma afetuosa compaixão.
Laury conseguiu convencer Rodrigo de que seria ridículo andar por aí de botas de cano alto, cachecol, chapéu de penacho e mangas de renda. Rodrigo passou a usar o macacão dos astronautas terranos. É bem verdade que levou mais algum tempo para dispensar a espada. Laury ainda conseguiu fazer com que Rodrigo deixasse de acreditar que o mundo teria que curvar-se ante ele unicamente porque era descendente de nobres. Mostrara-lhe que hoje em dia, especialmente para quem se encontrasse numa situação como aquela com a qual o jato espacial se defrontara durante a fuga de Tolimon, a única coisa que importava era ser mais inteligente e forte que os outros.
Mas Laury esquecera um detalhe. Um conjunto de opiniões firmemente enraizadas não pode ser extirpado de um dia para o outro. Face a isso uma estranha mistura de concepções passou a reinar no cérebro de Rodrigo, e a cada dia que passava maior era a dificuldade de adaptar-se ao novo ambiente.
Assim, por exemplo, fez esforços comovedores para compreender de que tipo era o veículo em que se encontrava. Tomara conhecimento de que se tratava de uma nave espacial com a qual se podia voar em meio às estrelas. Acontece que para ele o mundo da tecnologia terminava na máquina a vapor, cujo princípio de movimento lhe fora explicado por Laury. Depois procurou entender o motor a vapor a partir do momento em que pela primeira vez vira o jato espacial em ação. Mas ninguém conseguiu explicar-lhe que a geração da energia necessária a uma astronave se processava por um princípio inteiramente diferente.
Rodrigo aprendeu a manipular este ou aquele botão. Sabia que devia apertar em tal e tal lugar para ligar as telas ou colocar em funcionamento o sistema de condicionamento de ar. Mas não sabia como funcionavam esses aparelhos, e Laury tinha certeza de que nunca aprenderia.
Por isso tinha algum trabalho em convencer Rodrigo a não revistar o jato espacial ou realizar experiências por conta própria.
Certa noite, depois de ter cuidado de Gucky, Laury encontrou o conde no poço de instrumentos. Com uma chave, havia retirado a tampa do gerador que alimentava o campo defensivo e, à luz de sua potente lanterna de mão, seguia o curso dos controles pressurizados coloridos.
Ao ouvir os passos de Laury, Rodrigo virou-se e sorriu para a moça.
Acho que nunca acharei a máquina a vapor — disse um tanto triste.
A mutante ficou muito zangada.
Você vai é demolir a nave — respondeu. — Vamos embora! Você sabe perfeitamente que não pode vir aqui sozinho.
Rodrigo confirmou com um gesto.
Imediatamente subiu à frente de Laury pela estreita escada de plástico. No momento em que chegou à sala de comando, ouviu-se um zumbido vindo do quadro de controle central.
Ligue a tela — ordenou Laury. — Acho que é o chefe que está chegando.
Rodrigo obedeceu imediatamente. A tela panorâmica, cobrindo uma das paredes, iluminou-se e exibiu o quadro vermelho-escuro da planície de capim iluminada pela luz da noite, que se estendia para todos os lados em torno do jato espacial.
Perry Rhodan encontrava-se a cerca de cinqüenta metros da comporta principal. Rodrigo viu quando retirou um pequeno aparelho do bolso e passou a manipular o mesmo.
A tela tremeluziu ligeiramente. Rhodan começou a caminhar em direção à comporta.

* * *

Belal só viu o desconhecido quando este se encontrava a poucos metros do veículo. Achara preferível não girar a objetiva, para não ser descoberto.
Atenção! — balbuciou. — Está na hora.
Os dois soldados sabiam o que fazer. Um deles abaixou-se sob a portinhola, fazendo com que ela descansasse sobre seus ombros. O outro segurou o lança-foguetes, pronto para empurrá-lo para a borda da saída.
Belal não sabia se os campos defensivos de que Malanal lhe falara já haviam sido desativados. Aguardou até que o desconhecido chamado de Perry chegasse ao veículo. Tremendo de tensão viu uma escotilha abrir-se na parede do veículo. Num lugar em que antes só havia o metal liso e sem emendas, uma porta abriu-se silenciosamente. Desta saiu uma faixa luminosa que tocou o solo junto aos pés de Perry.
Este pisou na faixa e deixou que a mesma o levasse em direção à abertura.
Já! — gritou Belal. — Fogo!
A portinhola rangeu ao abrir-se. Com um gemido, o soldado empurrou o pesado cano para cima e colocou-o na borda da saída.
O outro deixou-se cair e ligou a ignição. Chiando e soltando chispas, o primeiro projétil saiu do cano, soltando uma nuvem de fumaça, e dirigindo-se para o veículo espacial.

* * *

No momento em que ia entrar na comporta, Perry sentiu pensamentos estranhos. Virou-se e imediatamente viu que a uns cem metros de distância alguma coisa comprida e arrendondada saía de um buraco no chão.
Não hesitou. No mesmo instante em que o primeiro disparo de Belal uivava ao sair do cano do lança-foguetes, deixou-se cair para o lado da fita transportadora.

* * *

Rodrigo sentia-se tolhido; não sabia o que fazer. Laury soltou um grito de pavor, mas seu grito morreu em meio ao estrondo que fez balançar a nave, apagando a tela panorâmica.
Laury caminhou em direção ao quadro de comando central.
Ligue os campos defensivos! — gritou para o conde.
Acontece que Rodrigo não sabia o que vinha a ser um campo defensivo, muito menos seria capaz de ligá-lo ou desligá-lo.
Um fogo branco correu sobre a tela apagada. Outra explosão fez tremer a nave. Laury foi sacudida e caiu. Avançou engatinhando.
Antes que Laury pudesse ligar o campo defensivo, o jato espacial recebeu um terceiro impacto.
A tela não voltou a iluminar-se. Mostrava um reflexo débil toda vez que um dos projéteis traiçoeiros vinha em direção à nave e explodia de encontro ao campo defensivo sem produzir qualquer dano. A tela continuava apagada.
A nave havia sido danificada.
De repente, Rodrigo voltou a controlar-se.
Rhodan está em perigo! — gritou. — Preciso sair.
Laury não teve tempo para detê-lo.
Ele saberá cuidar de si — objetou. Com alguns passos apressados, Rodrigo colocou-se junto à comporta, acionou o mecanismo de abertura e passou pela escotilha antes que a mesma se abrisse numa extensão de cinqüenta centímetros.
Na ânsia em que se encontrava não percebeu que estava sem arma; nem sequer trouxera a espada. Apenas pretendia ajudar, conforme era de seu feitio. Mal teve paciência para esperar até que a escotilha interna da comporta voltasse a fechar-se.
A escotilha externa abriu-se automaticamente. Rodrigo precipitou-se, desceu pela fita transportadora e saiu correndo pela planície.
Rhodan! — gritou. — Rhodan, onde está o senhor?
Os campos defensivos não impediam a passagem de uma pessoa que viesse de dentro. Rodrigo os ultrapassou. Abandonou o escudo protetor e aos gritos foi pelo campo afora.

* * *

Aí vem alguém! — gritou Belal. Estava deitado na borda da saída. O lança-foguetes deixara de disparar desde o momento em que os projéteis explodiam contra uma parede invisível, longe do veículo inimigo.
Belal sempre andava com a pistola. Fez pontaria e esperou até que o desconhecido que saíra do veículo, gritando e olhando em torno, tivesse chegado mais próximo.
Apertou o gatilho.
Rodrigo apenas ouviu o tiro. Alguma coisa bateu em seu peito com uma força terrível.
Tombou e morreu antes que seu corpo tocasse o chão.

* * *

O primeiro impacto atirou Rhodan para longe. O campo defensivo de seu traje protegia-o contra os efeitos diretos do disparo, e o gerador antigravitacional fez com que não caísse ao solo, mas descesse suavemente.
Porém a pressão causada pela explosão atirou-o a cerca de duzentos metros do jato espacial. Levou algum tempo para sacar o pequeno aparelho com o qual há pouco desligara o campo defensivo da nave espacial. Alguns segundos preciosos passaram-se. Felizmente Laury conseguiu ativar os campos.
No momento em que transmitiu o sinal codificado, Rhodan viu um dos foguetes explodir bem longe do jato espacial. Com um suspiro de alívio desceu ao solo e, para não chamar a atenção, retornou a pé o trecho pelo qual a explosão o arremessara.
Viu Rodrigo sair da nave e ouviu-o chamar. Respondeu, mas Rodrigo não o escutou. Viu que um homem saiu do buraco aberto no chão e apontou a pistola para Rodrigo. Rhodan puxou sua arma e, sem fazer pontaria, disparou contra o atirador atocaiado.
Mas o feixe energético superaquecido passou por cima do alvo, enquanto Rodrigo, atingido pelo tiro de pistola, tombava.

* * *

Vamos embora! — gritou Belal apavorado. — Ali vem aquele desconhecido.
Ouvira o silvo do tiro que passara poucos metros acima de sua cabeça e descobrira a figura de Perry. Os dois soldados fizeram menção de puxar o cano comprido para dentro da galeria e fechar a portinho-la, mas Belal mandou que debandassem.
Não temos tempo a perder — fungou. — Vamos embora!
Correram apressadamente pela galeria; Havan ia na frente. Muito nervoso, Belal não percebeu que Havan, que nos últimos dias apresentara tamanha letargia, subitamente dava mostras de uma agilidade surpreendente.
Depois de um quilômetro a galeria descreveu uma curva fechada. Belal parou atrás da curva e mandou que Havan e os dois soldados continuassem a correr. Após afastarem-se o bastante para não o verem mais, Belal pegou uma pequena argola que se encontrava meio escondida no teto da galeria. Puxou-a, e uma fina corrente metálica saiu do teto. Quando soltou, a corrente e a argola voltaram à posição primitiva.
Belal aguardou pacientemente. Dali a alguns segundos, ouviu um ribombar que atravessava o solo. Além da curva, a galeria desmoronou. Nuvens de pó levantaram-se e envolveram Belal.
Este voltou-se e correu atrás de Havan e dos dois soldados. Não seria nada fácil para os desconhecidos removerem o entulho derrubado pela explosão e encontrar a pista que os levaria ao laboratório secreto.
Apesar disso, assim que chegou acompanhado por Havan e pelos dois soldados à entrada propriamente dita do laboratório, Belal postou ali vinte homens e ordenou-lhes que ficassem com os olhos bem abertos.
Depois de voltar ao alojamento, Belal recebeu o relato de seu elemento de ligação, ao qual cabia mantê-lo informado sobre os acontecimentos que se desenrolavam no abrigo.
A situação era favorável. O elemento de ligação informou que havia uma única pessoa estranha no abrigo. Belal não acreditava que essa pessoa poderia representar um perigo para ele.
Mandou que seus homens se preparassem para sair.
Havan ouviu falar nisso e procurou Belal.
O que pretende fazer? — indagou.
Danificamos o veículo deles — disse Belal. — E agora vamos pôr as mãos nos tripulantes.
Pelo espírito universal — gemeu Havan. — O senhor acha que isso será tão simples? Esses desconhecidos têm armas que...
Belal interrompeu-o com um gesto.
Pare com esse pessimismo. Não viu o desconhecido que matei diante da nave? Não parecia completamente louco? Acho que durante todo este tempo tivemos mais respeito por essa gente do que merecia. Está certo, eles dispõem de armas superiores às nossas. Mas a tripulação é reduzida, e se for atingida num lugar decisivo, perde a cabeça. Não, Havan, nossas chances são muito boas. Daqui a dois dias, voltaremos a controlar a situação.
Havan retirou-se sem dizer mais uma única palavra. Ainda fingia acreditar que os planos não tinham a menor possibilidade de sucesso. Mas, no seu íntimo, acreditava que Belal estava com a razão.
Porém, se assim fosse, estava na hora de eliminar Belal. Em hipótese alguma devia esperar até que o ditador conseguisse subjugar os desconhecidos. O triunfo que colheria e as armas que cairiam em suas mãos o colocariam numa posição tal que não mais poderia ser posto de lado.
Havan fez seus preparativos.

* * *

Os danos que os três foguetes causaram ao jato espacial foram mais graves do que Rhodan supusera. As explosões avariaram os sistemas de propulsão a tal ponto que não poderiam ser utilizados sem uma série de reparos de monta. Parte do suprimento de energia fora eliminado. O jato espacial não estava em condições de gerar campos gravitacionais ou de prover seu interior de uma iluminação suficiente. E os sistemas óticos também haviam sido destruídos.
Mas, o que pareceu mais grave a Rhodan foi que os geradores do campo defensivo, que voltaram a funcionar satisfatoriamente logo após os impactos, com o tempo se tornaram cada vez mais fracos e foram falhando um após o outro. Um estilhaço de bomba havia perfurado o revestimento dos geradores e causado avarias consideráveis em seu interior.
Com isso a nave espacial estava quase indefesa. Com exceção do grande radiador térmico, única arma que permanecera intacta, não tinha nenhum meio de defender-se de um ataque.
Laury Marten aceitou a morte de Rodrigo com toda resignação. Rhodan sentia-se satisfeito com a atitude da mutante porque muito antes já reconhecera que sua súbita paixão pelo conde asteca-espanhol não passara de uma loucura de menina. Se não fosse assim, não teria como consolar Laury pela perda na situação em que se encontravam.

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