Feriar
lançou-lhe um olhar perplexo.
— Não
pretendo caminhar horas a fio por uma área contaminada — disse
Perry. — Se passarmos pela galeria recém-aberta, a caminhada será
mais fácil.
Feriar
obedeceu. Comprimiu o botão de baixo.
Quando
haviam descido quatro pavimentos, um sinal vermelho acendeu-se na
parede dos fundos do elevador, junto ao teto. Ao mesmo tempo,
ouviu-se um zumbido e, lá fora, o uivo estridente das inúmeras
sereias.
Feriar
estremeceu.
— É
o alarma! — fungou.
Perry
fez um gesto de indiferença.
— O
que esperava? Que Belal nos deixasse escapar sem mais aquela?
Logo
depois, uma voz metálica soou no alto-falante instalado no elevador:
— Atenção!
Alarma em todos os pavimentos! Dois prisioneiros muito importantes
acabam de fugir: uma mulher vinda do abrigo de Fenomat e um
desconhecido que surgiu não se sabe de onde. Ambos foram condenados
à morte por sentença regular do tribunal de guerra e por isso terão
de ser recapturados, vivos ou mortos.
Seguiu-se
uma descrição dos dois prisioneiros. Cabia ressaltar que, em
relação a Perry, Belal, que por certo fora o autor da descrição,
se enganara um pouco. Ao menos, Ivsera não acreditava que alguém o
pudesse reconhecer com base apenas nos dados vagos fornecidos por
Belal.
Feriar
começou a inquietar-se.
— Sabe
quantas pessoas temos em armas em Sallon?
Perry
sorriu.
— Espere...
cinco mil e quinhentos, não é? Isso corresponde a quase oitenta por
cento da população masculina entre quinze e cinqüenta anos.
Feriar
ficou perplexo.
— Sabe
onde essa gente nos procurará? — prosseguiu Perry. — Lá em
cima, na comporta de superfície.
*
* *
Perry
teve razão. O elevador chegou ao pavimento inferior, sem que ninguém
os molestasse. O corredor que se estendia diante deles estava vazio.
Sem
a menor hesitação, Perry seguiu o caminho que dava para a direita.
— Guarde
a arma — recomendou a Feriar. — Poderei cuidar de nós três. Na
medida do possível, quero evitar o derramamento de sangue.
Feriar
obedeceu sem dizer uma palavra. Desde o momento em que vira Perry
pela primeira vez, Ivsera começou a acreditar que esse homem possuía
um estranho poder. Será que ele sabia controlar os pensamentos e
desejos de seus semelhantes?
Procurou
examinar sua própria mente, mas não percebeu qualquer alteração.
Subitamente
o corredor terminou numa parede cinzenta e nua. Mas isso não causou
o menor embaraço a Perry. Abriu-a do lado direito e, para surpresa
de Ivsera, atrás estendia-se um recinto que tinha o mesmo aspecto do
compartimento de Fenomat, que Killarog lhe havia mostrado e, tal qual
este, possuía duas portas.
A
capacidade de orientação de Perry era espantosa. Dirigiu-se sem a
menor hesitação aos dois homens que montavam guarda junto à
segunda porta e disse:
— Deixem-nos
passar. Temos de ir a Fenomat para executar uma tarefa muito
importante.
Ao
que tudo indicava, um dos guardas não teve a menor dúvida. Mas o
outro baixou o fuzil, fechando o acesso à porta, e disse em tom
desconfiado:
— O
comandante Belal está procurando uma mulher e um homem que foram
condenados à morte. Conheço o capitão Feriar. Mas será que vocês
não são os fugitivos?
Perry
pôs a mão no bolso. Ele o fez numa atitude indiferente, como quem
já está cansado de exibir seus documentos. E, ao que parecia, os
dois guardas pensavam que se tratasse da identidade de Perry.
Acontece
que Perry acabou por tirar um objeto que tinha certa semelhança com
uma pequena pistola. Ivsera não chegou a ver o que Perry fez com o
objeto, mas no instante em que sentiu uma dor cruciante na cabeça,
os dois soldados caíram imóveis. Nem tiveram tempo para soltar um
grito.
Ivsera
teve um calafrio.
— Vamos!
— disse Perry em tom tranqüilo. — É uma pena que foram tão
desconfiados. Levarão duas horas para recuperar a consciência. Mas
antes disso alguém os encontrará... e então já saberão onde
procurar-nos.
— Não
estão... mortos? — gaguejou Ivsera, enquanto Perry abria a porta.
Perry
riu.
— Não.
Como já disse, não derramo sangue enquanto tenho um meio de
evitá-lo.
O
corredor pelo qual seguiram era mais largo e alto que aquele que
Killarog mandou abrir em prosseguimento ao abrigo de Fenomat. Ivsera
começou a compreender que a “guerra
dos túneis”,
nome que costumava dar ao conflito, fora preparada há muito tempo
por parte de Sallon. Deviam ter levado pelo menos um ano para abrir
uma galeria desse tipo numa extensão de alguns quilômetros.
O
corredor estava profusamente iluminado. Percebia-se que, além dos
dois guardas inconscientes, não havia ninguém por perto. Ivsera
achou que isso era um mau sinal para Fenomat. Se ainda estivesse
havendo luta, a galeria se encontraria repleta de gente armada.
Perry
caminhava vigorosamente. Ivsera percebeu que Feriar examinava
repetidas vezes o homem desconhecido, como se procurasse compreender
com quem lidava. Porém, nada estava conseguindo pois, de vez em
quando, sacudia a cabeça, bastante contrariado, e murmurava palavras
incompreensíveis. Ivsera o entendia, porque com ela estava
acontecendo a mesma coisa. O desconhecido livrara-a de uma situação
muito perigosa e, ao que tudo indicava, estava prestes a impor
respeito ao regime despótico de Sallon. Portanto, deviam sentir-se
gratos. De outro lado, porém, começava a apavorá-la por causa dos
seus conhecimentos e capacidades.
Assim,
por exemplo, a arma com que acabara de reduzir os dois guardas à
inação. O que seria aquilo? Não os matara; apenas lhes roubara a
consciência. Ivsera tinha certeza absoluta de que em Isan jamais
existira um aparelho daquele tipo.
A
conclusão que se poderia extrair dali era um pouco arriscada: o
desconhecido não era de Isan. Vinha de outro mundo.
Antes
que tivesse início a guerra em Isan, os dois Estados rivais, Othahey
e Heyatha, realizavam esforços para conquistar o espaço. Em virtude
da inimizade que reinava entre os dois Estados, esses esforços
assumiram a feição de uma corrida obstinada. Depois que vários
satélites gravitavam em torno do planeta, o lançamento do primeiro
foguete espacial estava iminente de ambos os lados. E, em ambos os
casos, o destino do foguete seria Vilan II,
o
planeta que tinha uma órbita entre dois outros que giravam em torno
de Vilan.
Mas
sobreveio a guerra e destruiu tudo que havia sido criado. Havia uma
única coisa que não conseguira destruir: o saber dos homens, que
lhes dizia ser a navegação espacial não só possível, como
necessária, pois em outros mundos poderia haver outros seres, talvez
inteligentes, e que se deveria tentar entrar em contato com eles.
Será
que Perry era um desses seres?
*
* *
Depois
de uma marcha de três horas, durante a qual se haviam encontrado com
alguns soldados que não criaram o menor problema, Perry deu outra
prova de seus conhecimentos sobrenaturais. Parou e perguntou:
— A
senhora não disse que em Fenomat abriram outra galeria em direção
a Sallon?
A
pergunta foi dirigida a Ivsera. A jovem assustou-se. Tinha certeza
absoluta de que nunca havia falado sobre essa galeria. A não ser com
Killarog, que estava morto.
“Será
que
Perry sabia ler pensamentos?”,
pensou.
— Não...
— respondeu em tom hesitante — não disse nada disso. Mas de
qualquer maneira essa galeria existe.
Perry
sorriu.
— Onde?
Ivsera
descreveu a situação da galeria com a maior exatidão possível.
Por algum tempo, Perry parecia bastante pensativo. Finalmente apontou
para a parede da esquerda do corredor e disse:
— Se
neste ponto abrirmos uma galeria que desça dez graus em relação à
horizontal, devemos encontrar a galeria de Fenomat numa distância de
cem metros, não é?
Ivsera
não sabia. Além disso, a observação lhe parecia ser puramente
teórica.
“Quem
poderia abrir uma galeria numa hora dessas, e para que poderia servir
a mesma?”,
refletiu.
— Será
preferível que desapareçamos por algum tempo — apressou-se Perry
em explicar. — Uma porção de gente está atrás de nós.
Ivsera
e Feriar olharam para trás. Mas a galeria que se estendia às costas
deles continuava vazia como estivera até então.
Perry
pôs a mão no bolso e tirou a pequena arma com que fizera desmaiar
os dois guardas; entregou-a a Feriar. Depois fez um gesto em direção
à galeria.
— Se
aparecer alguma coisa por aí — explicou — aponte o cano da arma
nessa direção e aperte o botão vermelho. Isso nos livrará dessa
gente. Convém olhar de vez em quando para o outro lado.
Provavelmente Belal procurará agarrar-nos num movimento insinuante.
Não
houve a menor objeção. Feriar pegou cautelosamente a estranha arma
e examinou-a. Ivsera colocou-se a seu lado e, de tão curiosa que
estava, nem percebeu de onde Perry tirou o instrumento comprido que
dirigiu contra a parede esquerda do corredor.
Mas
viu que do cano do aparelho saiu um raio luminoso esverdeado que se
alargou em forma de funil e atingiu a parede. Dentro de poucos
segundos surgiu um buraco profundo. A rocha abriu-se para ambos os
lados, como se tivesse sido transformada em nuvens de gás.
Perry
concentrou-se exclusivamente no seu trabalho. Apesar disso parecia
notar os olhares espantados de Ivsera e Feriar.
— Tome
cuidado, Feriar! — recomendou. — Senão de repente estarão aqui
sem que percebamos qualquer coisa.
O
misterioso raio verde trabalhava silenciosamente e com uma rapidez
inacreditável. Ivsera assistia com o maior espanto, mas de repente
sua atenção foi desviada.
Uma
gritaria e o ruído de passos invadiram o abrigo de Sallon. À luz
das lâmpadas, viam-se soldados que corriam apressadamente pelo
corredor. Ao que parecia Perry os percebera, embora já tivesse
penetrado bem longe para dentro da parede. Gritou para Feriar:
— Detenha-os
apenas por um instante; daqui a pouco tudo estará resolvido.
Tremendo
de medo, não dos soldados, mas da arma desconhecida, Feriar dirigiu
o cano curto sobre os soldados de Sallon, que já o haviam
reconhecido juntamente com Ivsera e se aproximavam em meio a uma
gritaria furiosa.
— Atire!
— exclamou Ivsera assustada.
Feriar
apertou o botão. Os efeitos do tiro foram muito maiores do que
imaginaria. Até parecia que os homens haviam batido numa parede:
tombaram, ficando imóveis.
Os
homens que vinham na retaguarda não sabiam o que tinha acontecido
aos outros, mas compreenderam o perigo. Abrigaram-se atrás dos
corpos dos homens inconscientes e apontaram os fuzis. Feriar hesitou.
— Cuidado!
— gritou Ivsera. — Deite!
No
mesmo instante em que os fuzis começaram a espocar, deixou-se cair
para a frente. Feriar continuou de pé e voltou a levantar a arma.
Comprimiu o botão e silenciou outro grupo dos soldados de Sallon. Só
vez por outra, um ruído soava pelo corredor.
Ivsera
ouviu os projéteis baterem contra as paredes e cantarem
ricocheteando.
Algumas
peças de metal reluzente caíram bem à sua frente, continuaram a
rolar e imobilizaram-se. Incrédula, Ivsera pegou uma delas. Era um
projétil de fuzil; alguma força misteriosa fizera com que
interrompesse sua trajetória e caísse ao chão.
Ouviu
a voz de Perry, que parecia vir através de uma parede muito espessa:
— Venham!
Já consegui.
Feriar
continuava de pé, com os olhos fitos nos homens inconscientes que
estavam jogados no corredor. Ivsera teve de empurrá-lo suavemente
para dentro da galeria lateral que acabara de ser aberta por Perry.
Com
um espanto enorme, ela percebeu que neste meio tempo a galeria já
havia avançado cinqüenta metros. De pé no fim do túnel, Perry
lhes fez um sinal com a mão.
— Vamos
fechar-lhes o caminho — disse. — Andem depressa!
Feriar
despertou do torpor em que se encontrava e começou a caminhar
vigorosamente.
— Cheguem
bem perto! — pediu Perry. Dirigiu o cano comprido de sua arma
contra o teto da galeria que acabara de perfurar. Concentrando os
raios num feixe finíssimo, cortou fendas estreitas na rocha. Dentro
de alguns segundos, fez com que sua entrada desmoronasse. Prosseguiu
na operação, até que a galeria secundária ficasse obstruída numa
extensão de cerca de trinta metros.
— Isso!
— disse Perry com uma risada. — Acho que levarão pelo menos três
dias para remover o entulho.
Prosseguiu
no seu trabalho e, logo depois, abriu-se o último pedaço de rocha
que dava acesso à galeria do abrigo de Fenomat.
A
fuga fora bem sucedida. O corredor estava vazio. Talvez os ocupantes
do subsolo de Sallon ainda não o haviam descoberto; ou então, o que
era mais provável, não se interessaram por ele, porque de nada lhes
poderia servir.
*
* *
Para
sua surpresa, no pavimento inferior do abrigo de Fenomat só
encontraram dois guardas, postados na saída do corredor de Sallon,
que dava diretamente para o antigo gabinete de Havan. Ivsera pensou
na cara que este deveria ter feito quando de repente a parede
desmoronou atrás dele e os soldados de Sallon se precipitaram pela
abertura.
Perry
liquidou os dois guardas com um único tiro e, ajudado por Feriar,
levou-os a uma sala vizinha. Disse que a energia do disparo era
suficiente para deixá-los inconscientes por dois dias, e que seria
preferível não serem descobertos antes disso.
Depois
dessas palavras, Feriar olhou Perry com uma expressão séria.
Hesitou por um instante e disse:
— Nós
lhe devemos muitos agradecimentos, e sabemos perfeitamente que em
Isan deve ser considerado como um tipo de ser superior. Mas
ficaríamos muito mais à vontade se quisesse dizer-nos o que
pretende fazer e, principalmente, por que pretende fazê-lo.
Perry
fez um gesto afirmativo.
— Muito
bem. A resposta à primeira pergunta é fácil. Pretendo reconquistar
o abrigo de Fenomat. Para dar uma resposta parcial à segunda
pergunta, direi o seguinte: se Belal conservar em seu poder no abrigo
de Fenomat, isso representará o primeiro passo da escalada que fará
dele a potência número um de Isan. Pelo que sei, aqui não existe
nenhum lugar em que haja dois abrigos que fiquem tão próximos um do
outro. Portanto, não haverá ninguém com maior domínio que Belal.
Depois desse passo, o gorducho fará o possível para dominar todo o
planeta; e, uma vez que será o maior poder, deverá conseguir.
Perry
fez uma ligeira pausa e prosseguiu em tom ligeiramente irônico.
— Uma
vez que Belal pretende instalar o sistema ditatorial em Isan,
deveremos estragar seus planos.
Feriar
fez um gesto afirmativo; parecia muito sério.
— E
a outra parte da resposta? — perguntou Ivsera.
— Deveremos
estar juntos por mais algum tempo antes que eu possa dar a resposta
integral. Por enquanto, nada posso adiantar.
Feriar
interveio:
— O
senhor dispõe de uma série de armas que lhe garante uma
superioridade absoluta sobre qualquer inimigo. Mas será que
conseguirá dominar a guarnição do abrigo, que deve ser superior a
mil homens? Convém não esquecer que estas instalações são muito
complicadas. Para uma pessoa isolada é praticamente impossível
orientar-se por aqui.
Perry
exibiu um sorriso condescendente.
— Para
mim não haverá o menor problema; pode acreditar — respondeu.
Perry
pôs a mão num dos bolsos de seu traje esquisito. Tirou um objeto
quadrado, achatado e que, de tão pequeno, facilmente poderia ser
escondido na palma da mão de qualquer pessoa.
Ivsera
ouviu-o dizer algumas palavras, enquanto encostava o pequeno aparelho
à boca. Não compreendeu essas palavras.
Mas,
em Isan havia uma única língua, motivo por que o conceito de idioma
estrangeiro era totalmente desconhecido dos habitantes do planeta.
Por isso Ivsera viu no fato de não ter entendido a fala de Perry
mais uma prova de que o mesmo provinha de um mundo desconhecido.
Ao
que parecia, Feriar ainda estava longe de chegar a uma conclusão
desse tipo. Fitou-o com uma expressão incrédula enquanto Perry
falava para dentro do minúsculo aparelho. Mas, quando de repente,
ouviu uma voz saindo desse aparelho, e que tal qual Perry emitia sons
de uma língua estranha, ficou apavorado.
*
* *
John
Marshall ocupou o lugar de Perry Rhodan, enquanto este foi verificar
o resultado do empreendimento do qual tivera conhecimento por meio da
escuta das palestras de Killarog.
E
a transmissão que tanto espanto causou em Ivsera e Feriar foi
dirigida a Marshall. E este captou um ligeiro relato da situação e
obteve estas instruções:
— Arme-se
com um desintegrador e um radiador de impulsos térmicos e venha até
aqui. Vamos atacar o abrigo simultaneamente de dois lados. Laury
ficará com Rodrigo. Entendido?
— Perfeitamente.
Permanecerei em contato com o senhor.
— Está
bem — concluiu Rhodan. — Faça o possível para não matar
ninguém.
*
* *
A
reconquista do abrigo de Fenomat não passou de uma farsa. Perry
atravessou os corredores e deixou todo mundo inconsciente com a arma
misteriosa. Caberia a Feriar e Ivsera separar os homens de Fenomat
dos de Sallon. Os primeiros ficariam estendidos no chão até que
recuperassem os sentidos; os outros seriam amarrados.
Antes
do início da operação, Perry fechara as extremidades de ambas as
galerias, a fim de impossibilitar a remessa de reforços de homens e
materiais para Fenomat, ao menos por via subterrânea.
O
abrigo de Fenomat era formado de um total de cem pavimentos. Face à
arma de grande alcance de que dispunha, Perry não demorou mais de
uma hora na operação de limpeza de cada um. Vez por outra, recorria
ao aparelho quadrado para conversar com alguém numa língua
estranha. Quanto ao conteúdo das palestras, apenas disse a Ivsera e
Feriar que um amigo seu havia iniciado a limpeza do abrigo, começando
da parte de cima e que, dentro em breve, se encontrariam com ele na
altura do qüinquagésimo pavimento.
Uma
coisa que quase chegava a ser mais espantosa que a série de
acontecimentos foi a persistência com a qual Rhodan se dedicou à
tarefa. Depois de concluída a limpeza de dez pavimentos, Feriar teve
de ser substituído por um elemento de Fenomat, já que não
conseguia manter-se de pé de tão cansado que estava. Ivsera
desistiu depois de mais dois pavimentos, após ter providenciado um
substituto saído das fileiras dos homens que já haviam despertado.
Quanto
a Perry, este não demonstrou o menor sinal de cansaço. Tinha o
aspecto de quem acabava de acordar de um sono reparador. Ivsera
sentiu vergonha, mas enquanto ainda estava com vergonha adormeceu.
Quando
abriu os olhos, um silêncio total reinava em torno dela. A maioria
das pessoas inconscientes havia recuperado os sentidos. Como estas
não tivessem a menor idéia do que acontecera, mantinham-se em
silêncio. Os prisioneiros vez por outra faziam um esforço de
livrar-se das amarras ou sair dos calabouços fechados com portas de
aço, mas não conseguiram nem uma coisa nem outra. Assim, acabaram
por conformar-se com o destino.
Alguns
lembraram-se de terem visto Ivsera em companhia do homem que com sua
arma havia criado toda a confusão. Por isso, a mesma foi assediada
com perguntas logo que se levantou. Mas em vez de responder correu em
direção ao elevador e subiu a fim de procurar Perry.
Encontrou-o
no quadragésimo oitavo pavimento. Ao seu lado estava Feriar e mais
um homem que tinha olhos brancos que nem Perry e trazia na mão uma
arma igual à que este usara.
Perry
sorriu para a jovem.
— Tudo
liquidado — disse. — O abrigo está em nosso poder. Ivsera, este
é meu amigo Marshall. Se não fosse ele, teríamos mais algumas
horas de trabalho.
Ivsera
inclinou a cabeça para Marshall. Este cumprimentou-a com um sorriso
alegre.
— Imagine!
— prosseguiu Perry. — Ainda havia um foco de resistência em
Fenomat. Um punhado de jovens defendia-se com as poucas armas de que
dispunha contra as investidas dos homens de Sallon. Estavam
entrincheirados nos laboratórios químico-biológicos.
Ivsera
aguçou o ouvido.
— Sabe
os nomes deles? — indagou.
— Sei
os nomes de dois. Um se chama Thér e o outro Irvin.
Ivsera
soltou um grito de alegria.
— Thér
e Irvin. Coitados!
— Sim,
quase não conseguiam manter-se de pé de tão famintos que estavam.
Logo lhes dei alguma coisa para comer. Aliás, ao que parece a
questão dos abastecimentos está se transformando no problema mais
grave deste abrigo. Todos os ocupantes estão subnutridos. Não têm
mantimentos?
Ivsera
fez um gesto de desânimo.
— Não,
mais nada.
Perry
não se impressionou.
— Bem,
nesse caso teremos de arranjar alguma coisa.
A
tarefa de conseguir mantimentos para mais de dez mil famintos não
causava a menor dor de cabeça a Rhodan.
Feriar
tomou a palavra.
— Perry
pretende apoderar-se também de Sallon. O que acha disso?
Ivsera
abriu os dedos.
— Se
quisesse poderia conquistar todos os abrigos de Isan.
— Não
estou interessado nos abrigos; apenas em Belal — disse Perry,
sacudindo a cabeça.
Ivsera
sentiu que naquela altura as questões políticas já não exigiam
sua presença. Um ser mais poderoso assumira a regência, e qualquer
tentativa de ajudar ou oferecer resistência só poderia conduzir ao
ridículo.
Depois
de obter a concordância de Perry, ela instruiu alguns homens de
Fenomat a tirarem as roupas dos prisioneiros, com exceção do
estritamente necessário, e as levarem ao laboratório. Pelos seus
cálculos, isso lhe permitiria fabricar uma ração completa de um
dia para cada cidadão de Fenomat. Dessa forma, poderiam resistir até
que Perry lhes trouxesse um auxílio que resolvesse a situação em
definitivo.
No
laboratório encontrou-se com Irvin e Thér. Irvin abraçou-a de tão
eufórico que se sentiu. Antes, nunca se teria permitido esse tipo de
liberdade.
— Moça,
como estou satisfeito em revê-la! — exclamou.
Ivsera
desprendeu-se dos braços de Irvin e fitou-o. Achava-se bastante
mudado depois que o vira pela última vez. Ao que parecia, só
faltara a luta para transformar o rapaz num homem de verdade.
— Pelo
que ouvi dizer, você se transformou num herói — disse Ivsera.
Irvin
riu.
— Não
foi por minha vontade — respondeu. — Este feitor de escravos —
prosseguiu, apontando para Thér — apareceu de repente com três
homens, colocou um fuzil na minha mão e gritou: “O
pessoal de Sallon está chegando! Atire neles, senão atirarão em
você!”
Atiramos em quatro. Não tive outra alternativa. Com os produtos
químicos que temos aqui, fizemos granadas de mão e limpamos a área.
Poderíamos resistir indefinidamente, se não fosse a fome. Mas
aquele milagreiro desconhecido chegou bem na hora. Aliás, quem é?
Ivsera
explicou que sabia tanto quanto ele mesmo.
— A
esta hora está fazendo uma limpeza em Sallon, não é? — resmungou
Thér de repente. — Tomara que encontre Havan, o traidor.
Ivsera
virou-se abruptamente.
— O
quê? Havan é um traidor?
— Então
você ainda não sabia? — perguntou Irvin. — Há vários anos
está compactuando com os homens de Sallon. Pelo que dizem, Belal lhe
prometeu que depois da conquista de Fenomat, Havan seria uma espécie
de governador. Não foi por acaso que a galeria escavada pelos
ocupantes de Sallon saiu justamente no gabinete dele.
Ivsera
soltou um gemido. Havan, um traidor! Há muito tempo ela o tinha na
conta de um homem egoísta, arrogante, intrigante e mais uma porção
de coisas. Mas nunca imaginaria que poderia transformar-se num
traidor.
Subitamente
lembrou-se de algumas palavras ditas por ele:
“— Por
enquanto ainda temos um Conselho...”
Então
foi isso que ele quis dizer.
Ivsera
estremeceu ao pensar no destino que aguardaria Havan se conseguissem
prendê-lo. Segundo as leis de guerra que prevaleciam em todos os
abrigos, a pena pela traição era uma só: a morte.
Sacudiu
esses pensamentos e passou os olhos pelas fileiras de instrumentos
reluzentes. Seu olhar recaiu sobre o monte de roupas tomadas dos
prisioneiros, que os coletores estavam empilhando num canto.
— Vamos
ao trabalho! — disse, dirigindo-se a Irvin. — Precisamos comer
alguma coisa.
4
Perry
Rhodan não tivera a intenção de interferir nos acontecimentos que
se desenrolavam em Isan.
Acompanhado
de Gucky, o rato-castor, dos mutantes Laury Marten e John Marshall, e
finalmente do conde Rodrigo de Berceo, libertado do zôo galático,
Rhodan teve muito trabalho em escapar no seu jato espacial de
Tolimon, o mundo dos aras. Marshall e Laury haviam recebido a
incumbência de procurar descobrir em Tolimon o segredo do
medicamento que retardava a decadência das células, exercendo as
funções de um verdadeiro elixir da vida.
Laury
conseguira obter permissão para penetrar no zôo galático, no qual
os aras haviam internado seres de todos os setores conhecidos da
Galáxia. Um dos ocupantes do zoológico, que segundo a classificação
arcônida pertencia ao grau de inteligência C, era o conde Rodrigo
de Berceo, um terreno do século XVII.
Laury
cometeu o erro de apaixonar-se por esse homem. No fogo da paixão,
fez certas coisas que provocaram a desconfiança dos aras. Rhodan
teve de intervir. Não conseguiu encontrar a fórmula estrutural do
elixir da vida. Mas fugiu de Tolimon em companhia dos dois mutantes e
do infeliz Rodrigo. Além disso, Laury conseguiu subtrair uma garrafa
do precioso elixir.
Uma
série de saltos de transição levou o jato espacial para além do
alcance das naves que o perseguiam e para o interior do coração da
Galáxia. O veículo espacial encontrava-se fora das rotas da
navegação cósmica. Rhodan pretendia passar uns trinta dias no
acompanhante do sol azul do astro geminado, esperando que nesse tempo
a caçada fosse suspensa.
Sabia
perfeitamente que os acontecimentos de Tolimon poderiam provocar o
interesse da central positrônica do Império Arcônida. Se as
informações sobre o incidente de Tolimon que chegassem ao seu
conhecimento fossem suficientes, havia o risco de concluir que só
Rhodan poderia ser responsável pelos mesmos. E Perry era considerado
como morto pelo cérebro positrônico. E a crença de que há mais de
cinqüenta anos a Terra fora destruída e a Humanidade eliminada por
um ataque dos saltadores teria que ser mantida viva.
Só
essa manobra desviacionista permitira à Terra chegar ao fim do
século XX
sem
ser atingida pelas perseguições dos saltadores e pelos ciúmes do
cérebro positrônico. E agora, cinqüenta e seis anos depois da
manobra, o êxito desta poderia ser frustrado.
Será
que cinqüenta e seis anos foram suficientes para transformar a Terra
num mundo que pudesse afirmar-se no confronto das potências
galácticas? Já teria chegado a hora de suspender o jogo de
esconder?
Rhodan
acreditava que sim, mas não tinha tanta certeza. Por isso achou
preferível que os perseguidores perdessem sua pista.
Durante
o pouso em Isan os instrumentos constataram uma radiatividade
extraordinária na atmosfera do planeta. As ruínas existentes nos
dois continentes faziam concluir pela ocorrência de uma guerra
nuclear que deveria ter sido travada há alguns anos.
Depois
do pouso do jato espacial, Rhodan acompanhou a troca de mensagens
entre Killarog e seus companheiros. Mandou que Gucky, o rato-castor,
procurasse localizar outros sobreviventes na superfície do planeta.
Para executar a tarefa, Gucky recorreu aos seus dons parapsicológicos
e paramecânicos: a teleportação e a telepatia.
Rhodan
pôs-se a caminho para examinar os dois abrigos mais próximos. Nessa
oportunidade, viu-se numa situação que o obrigou a intervir nos
acontecimentos.
E
agora, dois dias de Isan depois de sua primeira aparição, mantinha
os dois abrigos firmemente em suas mãos e recebera de Gucky a
notícia de que em Isan havia um total de onze abrigos intactos.
Outros cinco, que ficavam exatamente no centro das explosões
nucleares, não haviam resistido ao impacto.
A
conquista do abrigo de Sallon correu sem incidentes, mas o resultado
da operação não foi satisfatório para Rhodan e Marshall, pois não
encontraram Belal nem Havan, o traidor.
Estavam
desaparecidos e, conforme Rhodan soube de várias pessoas, com eles
desapareceram cerca de cem homens fortemente armados.
De
início, Rhodan acreditou que não teria a menor dificuldade em
localizar Belal e Havan e obrigá-los a capitularem. Mas constatou-se
que não estavam escondidos em nenhum dos dois abrigos, nem em
qualquer lugar na superfície.
Rhodan
convencera-se de que o abrigo de Sallon disporia de uma galeria
secundária ou de um corredor situado bem embaixo da superfície e
que levava a esta. Sobre a existência deste refúgio, apenas algumas
poucas pessoas estavam informadas. E nenhuma dessas ficou para trás,
conforme se apurou num rigoroso interrogatório dos prisioneiros.
Por
isso, Rhodan teria de contar com os próprios recursos a fim de
descobrir o caminho pelo qual Belal e Havan haviam fugido.
Por
enquanto não pensava nem de longe que a fuga de Belal poderia
representar um perigo para ele. Acontecia, porém, que sua
permanência em Isan seria limitada, e assim queria providenciar para
que mesmo depois de sua partida, Havan e Belal não pudessem colocar
em perigo a democracia dos dois abrigos.
*
* *
Belal
não dava a perceber que se encontrava em situação difícil. Para
ele, uma situação só se torna desesperadora quando está com a
faca sobre o peito e as mãos amarradas. E essa atitude face ao
destino era um dos motivos por que Belal era um inimigo muito
perigoso.
— Então,
o que me diz? — perguntou em tom áspero ao homem de meia-idade que
se encontrava à sua frente.
O
homem era Malanal, um cientista e um gênio em sua especialidade, as
ciências naturais. Desde o início, Belal acreditara que um dia
poderia precisar dele. Por isso interessou-se por sua pessoa e,
valendo-se dos recursos existentes no abrigo, mandara construir um
amplo laboratório equipado com instrumentos preciosíssimos. As
salas em que foi instalado o laboratório haviam sido escavadas na
rocha cerca de um ano depois da guerra e obtiveram dois acessos
secretos. Alguns dos homens que trabalharam na obra pertenciam à
guarda pessoal de Belal, na qual o mesmo confiava irrestritamente, e
outros desapareceram em algum campo de trabalho, de onde nunca
retornaram.
Quando
surgiu a intervenção do desconhecido chamado Perry, Belal percebeu
que sua precaução não fora supérflua. Retirou-se para o
laboratório juntamente com sua guarda pessoal e alguns elementos de
confiança, e teve certeza de que por enquanto não seria descoberto.
Esse
“por
enquanto”
lhe bastava. Belal não pretendia reconhecer Perry por muito tempo
como o dono da situação. Malanal desempenhava um papel
importantíssimo em seus planos.
O
cientista abriu os dedos, para dar a entender que não estava em
condições de fornecer informações minuciosas e fidedignas.
— Mandei
que dois dos seus homens subissem, Belal...
— Tomara
que não tenham andado por aí de maneira a serem vistos do veículo
— interrompeu Belal em tom zangado.
— Não.
Agiram com todo o cuidado. Lá em cima não saíram ao ar livre. Do
buraco atiraram algumas pedras contra o veículo.
Belal
franziu a testa.
— Que
bobagem é essa?
— A
alguns metros do casco do veículo as pedras ricochetearam, como se
tivessem batido numa parede invisível, e caíram ao chão. Vemo-nos
diante do mesmo fenômeno relatado pelas pessoas que perseguiram a
prisioneira Ivsera e o capitão Feriar. Os desconhecidos sabem
envolver-se por um campo protetor no qual nenhum tipo de matéria
consegue penetrar.
Belal
olhou fixamente para a frente.
— Quer
dizer que seria totalmente inútil tentar atacar o veículo? —
perguntou depois de algum tempo.
Malanal
sacudiu a cabeça. Belal impacientou-se.
— Fale
logo!
Malanal
inclinou ligeiramente o corpo.
— Num
certo momento, esse desconhecido que atende ao nome de Perry desejará
voltar ao veículo — explicou. — Uma vez que também é feito de
matéria, não poderá entrar se os campos defensivos não forem
desativados por um instante. Se no mesmo instante submetermos a nave
a um bombardeiro cerrado, provavelmente conseguiremos destruí-la.
Belal
contorceu o rosto.
— Não
quero destruir a nave — exclamou. — Apenas quero danificá-la,
pois pretendo retirar-lhe alguns instrumentos.
Malanal
fez um gesto de concordância.
— Perfeitamente,
Belal. Isso depende da intensidade do bombardeio. Este ponto não é
da minha competência.
Belal
levantou-se.
— Muito
bem. Tomarei todas as providências. Acredito que dois lança-foguetes
de três polegadas serão suficientes para danificar a nave e matar
os desconhecidos ou colocá-los fora de combate. Mandarei que os
homens assumam imediatamente seus postos na entrada da superfície.
Foi uma sorte o desconhecido ter pousado justamente nesse lugar.
Saiu
da sala sem dignar-se de dirigir outra palavra a Malanal.
O
setor secreto em que ficava o laboratório do abrigo de Sallon
consistia num único corredor com vinte salas. Cinco delas serviam de
residência aos cientistas, enquanto as demais eram ocupadas pelo
laboratório.
Nos
sete anos decorridos desde a instalação do laboratório, os
cientistas haviam adiantado as pesquisas e alcançaram resultados
que, segundo acreditava Belal, não foram atingidos em qualquer outro
abrigo.
Assim,
Belal garantiu uma superioridade absoluta para o dia em que os
habitantes de Isan pudessem voltar à superfície de seu mundo e
começassem vida nova.
Numa
das vinte salas do abrigo de Sallon, Havan instalara-se juntamente
com três guarda-costas que Belal colocara à sua disposição. Não
o fez porque receasse pela vida de Havan, mas por acreditar que o
caráter deste se assemelhava tanto ao seu e, assim, não deveria
confiar nele.
Nos
dias que se passaram depois da queda do abrigo de Sallon, Havan
parecia muito mais abatido que Belal. Este começou a acreditar que
no entender do traidor a situação realmente era desesperadora.
Essa
situação lhe convinha, e por isso só transmitiu pequena parte da
conversa que manteve com Malanal e das esperanças que este lhe
infundira.
Havan
fez um gesto melancólico. Belal retirou-se para fazer uma ligeira
sesta em seu quarto.
O
traidor deu-se ao trabalho de ficar com a porta aberta e
certificar-se de que Belal não voltaria. Depois dirigiu-se aos
guarda-costas.
— Ele
não me contou tudo. Vocês não perceberam? Malanal disse mais que
isso. Provavelmente existe uma possibilidade de enfrentar os
desconhecidos. — Preciso saber disso. Procurem descobrir! Já sabem
qual é a recompensa que receberão.
Os
guarda-costas confirmaram com um aceno de cabeça. Por certo, Belal
não teria dormido tão tranqüilamente se soubesse que Havan sabia
conquistar a dedicação de seus próprios subordinados por meio de
um jogo de promessas e ameaças. Naquela hora já não se sentiam
empolgados pelas funções que Belal lhes havia atribuído, pois
Havan prometeu que lhes colocaria à disposição um abrigo com os
ocupantes. Isto aconteceria quando o desconhecido e Belal tivessem
sido subjugados e quando todos os abrigos de Heyatha e talvez também
os de Othahey tivessem caído nas mãos de Havan através das artes
técnicas de Malanal.
Por
enquanto havia um ponto fraco no plano tático de Havan: o cientista
Malanal. O traidor constatara que a equipe científica estava
inteiramente dedicada ao velho. Não havia como obter acesso aos
segredos do laboratório sem a cooperação de Malanal.
Acontece
que Malanal era um homem que sabia guardar distância. Havan tinha a
impressão de que Malanal não concordava com Belal em todos os
pontos. Mas, quando o traidor pensou que poderia aproveitar esse fato
como ponto de partida para minar as boas relações existentes entre
o ditador e o cientista e conquistar o apoio do segundo, defrontou-se
com a resistência deste. Na oportunidade, Malanal explicou-lhe que
jamais trabalharia para Belal ou para Havan, mas apenas para a
ciência.
Todavia,
declarou-se disposto a não revelar a Belal o conteúdo da palestra
que mantivera com Havan.
*
* *
Perry
Rhodan pretendia utilizar Gucky na operação de busca que visava à
descoberta de Belal e Havan, assim que o rato-castor regressasse da
viagem de inspeção.
Gucky
era teleportador. Era capaz de saltar ao acaso pelos arredores do
abrigo, o que lhe permitiria encontrar o esconderijo.
No
entanto, dois dias depois da conquista de Sallon, Laury informou numa
mensagem transmitida em tom exaltado que Gucky voltara para o jato
espacial, inconsciente e gravemente ferido. O salto que o trouxera de
volta à pequena nave espacial consumira suas últimas energias.
Sangrava de várias feridas que, segundo as informações de Laury,
haviam sido produzidas por simples tiros de fuzil. A mutante era bem
versada em enfermagem, motivo por que Rhodan podia deixar Gucky
entregue aos seus cuidados. Laury garantiu que dentro de alguns dias
o rato-castor estaria em perfeita forma.
Por
enquanto ninguém sabia o que lhe havia acontecido. Como também
possuísse o dom da telepatia, dificilmente poderia ter sido atingido
por qualquer atirador. Teria adivinhado os pensamentos do atacante.
Talvez tivesse caído numa armadilha mecânica. Face à desconfiança
que os sobreviventes da grande guerra de Isan nutriam uns para com os
outros era perfeitamente possível que nos abrigos houvesse
dispositivos automáticos de tiro ou outros mecanismos semelhantes. E
Gucky estaria indefeso diante dos mesmos, caso se arriscasse demais.
Para
Rhodan os ferimentos sofridos por Gucky representavam um
inconveniente muito sério. Havia necessidade absoluta de encontrar
Belal e Havan, pois do contrário todos os esforços em prol do
estabelecimento de uma nova ordem nos dois abrigos provavelmente
teriam sido realizados em vão.
Os
ocupantes dos abrigos de Fenomat e Sallon consumiram metade dos
alimentos concentrados que o jato espacial trazia a bordo. Face à
natureza destes a sensação de saciedade duraria cerca de trinta
dias. Rhodan esperava que nesse tempo conseguiria obter alimentos
naturais não concentrados. Do contrário teria de chamar uma nave
terrana com mantimentos.
*
* *
No
dia seguinte, Marshall fez uma descoberta importante. Depois de
concluída a operação a dois na conquista nos abrigos, permaneceu
em Sallon, onde procurava descobrir a pista de Belal e Havan.
Revistou
cuidadosamente o abrigo e acabou parando na usina que gerava a
energia necessária à iluminação, à renovação do ar e a várias
outras finalidades.
Foi
por simples acaso que nessa oportunidade Marshall fez a descoberta. O
acaso consistia no fato de que ao mesmo tempo em que o chefe dos
mutantes se encontrava na usina energética, Malanal realizava no
laboratório secreto uma experiência que consumia uma quantidade
considerável de energia elétrica.
Marshall
realizara um cálculo aproximado e chegara à conclusão de que o
abrigo consumia, em média, um total de duzentos mil quilowats.
Estava tão convencido de seu conhecimento que não admitia uma
variação acima de cinqüenta por cento.
Ao
ler o quadro do cabo principal da usina, constatou que a energia
fornecida naquele momento atingia mais de um milhão de quilowatts.
Pelos seus cálculos, isso era impossível.
Chamou
Rhodan, pois tinha certeza de ter descoberto uma pista. Rhodan veio
imediatamente. Mandou que por alguns minutos todos os pontos de
consumo de energia do abrigo propriamente dito fossem desligados. Com
isso o desempenho da usina teria de baixar para zero. No entanto,
ainda subsistiu um fornecimento de pouco menos de oitocentos mil
quilowatts, ou seja, o quádruplo do que, segundo os cálculos de
Marshall, representava o gasto total do abrigo. E essa força fluía
para algum canal secreto.
Rhodan
levou quinze minutos para localizar a série de cabos pelos quais
corria a energia. Dali a pouco o consumo extraordinário diminuiu de
repente para cem quilowatts.
Rhodan
estava satisfeito.
— Está
bem — disse, dirigindo-se a Marshall. — Espere aqui. Irei à nave
e trarei um desintegrador de tamanho grande. Se seguirmos os cabos,
encontraremos o esconderijo de Belal.
Sorriu
ligeiramente e acrescentou:
— Belal
não foi muito hábil, pois do contrário teria instalado uma usina
energética autônoma no abrigo. Gostaria de saber o que faz com os
oitocentos mil quilowatts.
Rhodan
voltou à superfície pelo caminho mais rápido. O traje que usava, e
que tanto chamara a atenção de Ivsera, representava um
aperfeiçoamento do traje transportador arcônida. Não chamava tanto
a atenção, mas em compensação a potência de seu gerador
antigravitacional era dez vezes maior. O campo de deflexão e o campo
defensivo trabalhavam com circuitos independentes; cada um dispunha
de suprimento de energia em quantidade suficiente. No caso de
numerosos impactos de projéteis, já não seria necessário
renunciar à invisibilidade para evitar a penetração dos mesmos.
Assim
que saiu da comporta de superfície, Perry subiu ao ar e,
deslocando-se em alta velocidade pouco acima do capim, tomou a
direção do jato espacial.
Já
era noite.
“Uma
noite muito estranha”,
pensou Rhodan.
A
bola vermelho-escura do sol Vilan brilhava no horizonte, e inúmeras
estrelas salpicavam o céu tingido de vermelho.
Rhodan
levou apenas alguns minutos para chegar à nave espacial. Usou o
pequeno transmissor que sempre trazia para enviar o sinal codificado
automático que desativava os campos defensivos por um instante,
permitindo seu ingresso na nave.
*
* *
De
início Belal pretendera executar o golpe sozinho. Mas Havan insistiu
tanto que acabou concordando com a sua companhia. O que o levou a
tomar esta decisão foi principalmente a informação dos três
guarda-costas de Havan, segundo a qual acabaria caindo na melancolia
se não houvesse logo uma variação em sua rotina de vida. Belal
estava firmemente decidido a eliminar Havan o quanto antes, para que
este não pudesse interferir em seus planos. No entanto, por ora
convinha que o traidor acreditasse que era um elemento útil, tratado
de igual para igual. Havia vários motivos para isso. Um deles
consistia no fato de que Havan dispunha de vários adeptos em
Fenomat, que no caso de um confronto se guiariam exclusivamente por
sua palavra.
Belal
considerou tão importante a neutralização do veículo inimigo, do
qual a essa altura também Malanal acreditava tratar-se de um tipo de
nave espacial, que resolveu postar-se pessoalmente na saída do setor
secreto do laboratório, em companhia de Havan e dois elementos de
toda confiança. Os dois soldados colocaram os lança-foguetes em
posição de tiro. No momento decisivo, bastaria abrir a portinhola e
fazer fogo.
Um
tipo de telescópio, cuja objetiva saía apenas alguns centímetros
acima do nível do solo, garantia a visão perfeita do estranho
veículo. A objetiva era de formato irregular e possuía o aspecto de
uma pedra que se encontrasse ali por acaso. Belal tinha quase certeza
de que os ocupantes do veículo — se é que no momento havia alguém
a bordo — não perceberiam nada.
*
* *
Laury
não tinha mãos a medir. O rato-castor, gravemente ferido, precisava
de cuidados constantes. Era bem verdade que o uso dos medicamentos
que o jato espacial trazia a bordo eliminara por completo o risco de
infecção. Mas Gucky estava bastante debilitado, e a reconstituição
de suas energias seria levada a efeito progressivamente.
O
rato-castor já recuperara a consciência. Contou a Laury o que lhe
havia acontecido. Conforme supusera Rhodan, caíra numa armadilha
mecânica enquanto examinava um abrigo do lado de dentro. Não havia
ligado o campo defensivo, pois estava protegido pelo campo de
deflexão e acreditava ter todos os motivos para pensar que ninguém
atiraria contra uma criatura invisível. Enganara-se e agora, cheio
de arrependimento, lembrava-se do conselho de Rhodan, que lhe
recomendara que não assumisse o menor risco e, principalmente, que
em hipótese alguma penetrasse num abrigo.
Além
de Gucky, o conde Rodrigo de Berceo exigia os cuidados de Laury.
Rodrigo
dera a entender, de forma pertinaz e inequívoca, que “o
arranjo dos assuntos pessoais”
de um homem deve ter primazia sobre o amor. Assim a paixão de Laury
pelo conde asteca-espanhol diminuíra um pouco. Além disso
constatou-se que para um homem raptado na Terra em pleno século XVII
e
mantido numa espécie de museu zoológico, longe do processo
tecnológico, o salto para o mundo do século XXI
estava
ligado a dificuldades consideráveis que por vezes chegava a abalar
os alicerces de suas estruturas mentais. Dali em diante, o resto da
paixão desvanecera-se, cedendo lugar a uma afetuosa compaixão.
Laury
conseguiu convencer Rodrigo de que seria ridículo andar por aí de
botas de cano alto, cachecol, chapéu de penacho e mangas de renda.
Rodrigo passou a usar o macacão dos astronautas terranos. É bem
verdade que levou mais algum tempo para dispensar a espada. Laury
ainda conseguiu fazer com que Rodrigo deixasse de acreditar que o
mundo teria que curvar-se ante ele unicamente porque era descendente
de nobres. Mostrara-lhe que hoje em dia, especialmente para quem se
encontrasse numa situação como aquela com a qual o jato espacial se
defrontara durante a fuga de Tolimon, a única coisa que importava
era ser mais inteligente e forte que os outros.
Mas
Laury esquecera um detalhe. Um conjunto de opiniões firmemente
enraizadas não pode ser extirpado de um dia para o outro. Face a
isso uma estranha mistura de concepções passou a reinar no cérebro
de Rodrigo, e a cada dia que passava maior era a dificuldade de
adaptar-se ao novo ambiente.
Assim,
por exemplo, fez esforços comovedores para compreender de que tipo
era o veículo em que se encontrava. Tomara conhecimento de que se
tratava de uma nave espacial com a qual se podia voar em meio às
estrelas. Acontece que para ele o mundo da tecnologia terminava na
máquina a vapor, cujo princípio de movimento lhe fora explicado por
Laury. Depois procurou entender o motor a vapor a partir do momento
em que pela primeira vez vira o jato espacial em ação. Mas ninguém
conseguiu explicar-lhe que a geração da energia necessária a uma
astronave se processava por um princípio inteiramente diferente.
Rodrigo
aprendeu a manipular este ou aquele botão. Sabia que devia apertar
em tal e tal lugar para ligar as telas ou colocar em funcionamento o
sistema de condicionamento de ar. Mas não sabia como funcionavam
esses aparelhos, e Laury tinha certeza de que nunca aprenderia.
Por
isso tinha algum trabalho em convencer Rodrigo a não revistar o jato
espacial ou realizar experiências por conta própria.
Certa
noite, depois de ter cuidado de Gucky, Laury encontrou o conde no
poço de instrumentos. Com uma chave, havia retirado a tampa do
gerador que alimentava o campo defensivo e, à luz de sua potente
lanterna de mão, seguia o curso dos controles pressurizados
coloridos.
Ao
ouvir os passos de Laury, Rodrigo virou-se e sorriu para a moça.
— Acho
que nunca acharei a máquina a vapor — disse um tanto triste.
A
mutante ficou muito zangada.
— Você
vai é demolir a nave — respondeu. — Vamos embora! Você sabe
perfeitamente que não pode vir aqui sozinho.
Rodrigo
confirmou com um gesto.
Imediatamente
subiu à frente de Laury pela estreita escada de plástico. No
momento em que chegou à sala de comando, ouviu-se um zumbido vindo
do quadro de controle central.
— Ligue
a tela — ordenou Laury. — Acho que é o chefe que está chegando.
Rodrigo
obedeceu imediatamente. A tela panorâmica, cobrindo uma das paredes,
iluminou-se e exibiu o quadro vermelho-escuro da planície de capim
iluminada pela luz da noite, que se estendia para todos os lados em
torno do jato espacial.
Perry
Rhodan encontrava-se a cerca de cinqüenta metros da comporta
principal. Rodrigo viu quando retirou um pequeno aparelho do bolso e
passou a manipular o mesmo.
A
tela tremeluziu ligeiramente. Rhodan começou a caminhar em direção
à comporta.
*
* *
Belal
só viu o desconhecido quando este se encontrava a poucos metros do
veículo. Achara preferível não girar a objetiva, para não ser
descoberto.
— Atenção!
— balbuciou. — Está na hora.
Os
dois soldados sabiam o que fazer. Um deles abaixou-se sob a
portinhola, fazendo com que ela descansasse sobre seus ombros. O
outro segurou o lança-foguetes, pronto para empurrá-lo para a borda
da saída.
Belal
não sabia se os campos defensivos de que Malanal lhe falara já
haviam sido desativados. Aguardou até que o desconhecido chamado de
Perry chegasse ao veículo. Tremendo de tensão viu uma escotilha
abrir-se na parede do veículo. Num lugar em que antes só havia o
metal liso e sem emendas, uma porta abriu-se silenciosamente. Desta
saiu uma faixa luminosa que tocou o solo junto aos pés de Perry.
Este
pisou na faixa e deixou que a mesma o levasse em direção à
abertura.
— Já!
— gritou Belal. — Fogo!
A
portinhola rangeu ao abrir-se. Com um gemido, o soldado empurrou o
pesado cano para cima e colocou-o na borda da saída.
O
outro deixou-se cair e ligou a ignição. Chiando e soltando chispas,
o primeiro projétil saiu do cano, soltando uma nuvem de fumaça, e
dirigindo-se para o veículo espacial.
*
* *
No
momento em que ia entrar na comporta, Perry sentiu pensamentos
estranhos. Virou-se e imediatamente viu que a uns cem metros de
distância alguma coisa comprida e arrendondada saía de um buraco no
chão.
Não
hesitou. No mesmo instante em que o primeiro disparo de Belal uivava
ao sair do cano do lança-foguetes, deixou-se cair para o lado da
fita transportadora.
*
* *
Rodrigo
sentia-se tolhido; não sabia o que fazer. Laury soltou um grito de
pavor, mas seu grito morreu em meio ao estrondo que fez balançar a
nave, apagando a tela panorâmica.
Laury
caminhou em direção ao quadro de comando central.
— Ligue
os campos defensivos! — gritou para o conde.
Acontece
que Rodrigo não sabia o que vinha a ser um campo defensivo, muito
menos seria capaz de ligá-lo ou desligá-lo.
Um
fogo branco correu sobre a tela apagada. Outra explosão fez tremer a
nave. Laury foi sacudida e caiu. Avançou engatinhando.
Antes
que Laury pudesse ligar o campo defensivo, o jato espacial recebeu um
terceiro impacto.
A
tela não voltou a iluminar-se. Mostrava um reflexo débil toda vez
que um dos projéteis traiçoeiros vinha em direção à nave e
explodia de encontro ao campo defensivo sem produzir qualquer dano. A
tela continuava apagada.
A
nave havia sido danificada.
De
repente, Rodrigo voltou a controlar-se.
— Rhodan
está em perigo! — gritou. — Preciso sair.
Laury
não teve tempo para detê-lo.
— Ele
saberá cuidar de si — objetou. Com alguns passos apressados,
Rodrigo colocou-se junto à comporta, acionou o mecanismo de abertura
e passou pela escotilha antes que a mesma se abrisse numa extensão
de cinqüenta centímetros.
Na
ânsia em que se encontrava não percebeu que estava sem arma; nem
sequer trouxera a espada. Apenas pretendia ajudar, conforme era de
seu feitio. Mal teve paciência para esperar até que a escotilha
interna da comporta voltasse a fechar-se.
A
escotilha externa abriu-se automaticamente. Rodrigo precipitou-se,
desceu pela fita transportadora e saiu correndo pela planície.
— Rhodan!
— gritou. — Rhodan, onde está o senhor?
Os
campos defensivos não impediam a passagem de uma pessoa que viesse
de dentro. Rodrigo os ultrapassou. Abandonou o escudo protetor e aos
gritos foi pelo campo afora.
*
* *
— Aí
vem alguém! — gritou Belal. Estava deitado na borda da saída. O
lança-foguetes deixara de disparar desde o momento em que os
projéteis explodiam contra uma parede invisível, longe do veículo
inimigo.
Belal
sempre andava com a pistola. Fez pontaria e esperou até que o
desconhecido que saíra do veículo, gritando e olhando em torno,
tivesse chegado mais próximo.
Apertou
o gatilho.
Rodrigo
apenas ouviu o tiro. Alguma coisa bateu em seu peito com uma força
terrível.
Tombou
e morreu antes que seu corpo tocasse o chão.
*
* *
O
primeiro impacto atirou Rhodan para longe. O campo defensivo de seu
traje protegia-o contra os efeitos diretos do disparo, e o gerador
antigravitacional fez com que não caísse ao solo, mas descesse
suavemente.
Porém
a pressão causada pela explosão atirou-o a cerca de duzentos metros
do jato espacial. Levou algum tempo para sacar o pequeno aparelho com
o qual há pouco desligara o campo defensivo da nave espacial. Alguns
segundos preciosos passaram-se. Felizmente Laury conseguiu ativar os
campos.
No
momento em que transmitiu o sinal codificado, Rhodan viu um dos
foguetes explodir bem longe do jato espacial. Com um suspiro de
alívio desceu ao solo e, para não chamar a atenção, retornou a pé
o trecho pelo qual a explosão o arremessara.
Viu
Rodrigo sair da nave e ouviu-o chamar. Respondeu, mas Rodrigo não o
escutou. Viu que um homem saiu do buraco aberto no chão e apontou a
pistola para Rodrigo. Rhodan puxou sua arma e, sem fazer pontaria,
disparou contra o atirador atocaiado.
Mas
o feixe energético superaquecido passou por cima do alvo, enquanto
Rodrigo, atingido pelo tiro de pistola, tombava.
*
* *
— Vamos
embora! — gritou Belal apavorado. — Ali vem aquele desconhecido.
Ouvira
o silvo do tiro que passara poucos metros acima de sua cabeça e
descobrira a figura de Perry. Os dois soldados fizeram menção de
puxar o cano comprido para dentro da galeria e fechar a portinho-la,
mas Belal mandou que debandassem.
— Não
temos tempo a perder — fungou. — Vamos embora!
Correram
apressadamente pela galeria; Havan ia na frente. Muito nervoso, Belal
não percebeu que Havan, que nos últimos dias apresentara tamanha
letargia, subitamente dava mostras de uma agilidade surpreendente.
Depois
de um quilômetro a galeria descreveu uma curva fechada. Belal parou
atrás da curva e mandou que Havan e os dois soldados continuassem a
correr. Após afastarem-se o bastante para não o verem mais, Belal
pegou uma pequena argola que se encontrava meio escondida no teto da
galeria. Puxou-a, e uma fina corrente metálica saiu do teto. Quando
soltou, a corrente e a argola voltaram à posição primitiva.
Belal
aguardou pacientemente. Dali a alguns segundos, ouviu um ribombar que
atravessava o solo. Além da curva, a galeria desmoronou. Nuvens de
pó levantaram-se e envolveram Belal.
Este
voltou-se e correu atrás de Havan e dos dois soldados. Não seria
nada fácil para os desconhecidos removerem o entulho derrubado pela
explosão e encontrar a pista que os levaria ao laboratório secreto.
Apesar
disso, assim que chegou acompanhado por Havan e pelos dois soldados à
entrada propriamente dita do laboratório, Belal postou ali vinte
homens e ordenou-lhes que ficassem com os olhos bem abertos.
Depois
de voltar ao alojamento, Belal recebeu o relato de seu elemento de
ligação, ao qual cabia mantê-lo informado sobre os acontecimentos
que se desenrolavam no abrigo.
A
situação era favorável. O elemento de ligação informou que havia
uma única pessoa estranha no abrigo. Belal não acreditava que essa
pessoa poderia representar um perigo para ele.
Mandou
que seus homens se preparassem para sair.
Havan
ouviu falar nisso e procurou Belal.
— O
que pretende fazer? — indagou.
— Danificamos
o veículo deles — disse Belal. — E agora vamos pôr as mãos nos
tripulantes.
— Pelo
espírito universal — gemeu Havan. — O senhor acha que isso será
tão simples? Esses desconhecidos têm armas que...
Belal
interrompeu-o com um gesto.
— Pare
com esse pessimismo. Não viu o desconhecido que matei diante da
nave? Não parecia completamente louco? Acho que durante todo este
tempo tivemos mais respeito por essa gente do que merecia. Está
certo, eles dispõem de armas superiores às nossas. Mas a tripulação
é reduzida, e se for atingida num lugar decisivo, perde a cabeça.
Não, Havan, nossas chances são muito boas. Daqui a dois dias,
voltaremos a controlar a situação.
Havan
retirou-se sem dizer mais uma única palavra. Ainda fingia acreditar
que os planos não tinham a menor possibilidade de sucesso. Mas, no
seu íntimo, acreditava que Belal estava com a razão.
Porém,
se assim fosse, estava na hora de eliminar Belal. Em hipótese alguma
devia esperar até que o ditador conseguisse subjugar os
desconhecidos. O triunfo que colheria e as armas que cairiam em suas
mãos o colocariam numa posição tal que não mais poderia ser posto
de lado.
Havan
fez seus preparativos.
*
* *
Os
danos que os três foguetes causaram ao jato espacial foram mais
graves do que Rhodan supusera. As explosões avariaram os sistemas de
propulsão a tal ponto que não poderiam ser utilizados sem uma série
de reparos de monta. Parte do suprimento de energia fora eliminado. O
jato espacial não estava em condições de gerar campos
gravitacionais ou de prover seu interior de uma iluminação
suficiente. E os sistemas óticos também haviam sido destruídos.
Mas,
o que pareceu mais grave a Rhodan foi que os geradores do campo
defensivo, que voltaram a funcionar satisfatoriamente logo após os
impactos, com o tempo se tornaram cada vez mais fracos e foram
falhando um após o outro. Um estilhaço de bomba havia perfurado o
revestimento dos geradores e causado avarias consideráveis em seu
interior.
Com
isso a nave espacial estava quase indefesa. Com exceção do grande
radiador térmico, única arma que permanecera intacta, não tinha
nenhum meio de defender-se de um ataque.
Laury
Marten aceitou a morte de Rodrigo com toda resignação. Rhodan
sentia-se satisfeito com a atitude da mutante porque muito antes já
reconhecera que sua súbita paixão pelo conde asteca-espanhol não
passara de uma loucura de menina. Se não fosse assim, não teria
como consolar Laury pela perda na situação em que se encontravam.

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